Discussões sobre o aquecimento global geram posições bastante polarizadas. Uma das causas, fora a manipulação da opinião pública por grupos de interesse, é uma certa confusão com relação a fatos básicos sobre a ciência do clima.
Por isso, apresento um breve resumo do que sabemos e do que não sabemos a respeito. Claro, o espaço aqui permite apenas que toque em alguns dos pontos mais importantes. Mas espero que ajude.
1) A Terra é um sistema finito, que recebe a maior parte de sua energia do Sol. Outra fração vem do decaimento de isótopos radioativos e da liberação de calor do núcleo.
2) O Sol emite radiação principalmente no espectro visível, correspondendo à cor amarela. Parte da radiação é refletida ao espaço e parte é absorvida e refletida perto da superfície. Um carro, estacionado sob o Sol com as janelas fechadas, fica bem mais quente.
3) A retenção do calor se dá devido a certos gases, responsáveis pelo efeito estufa: vapor d’água, dióxido de carbono, metano e ozônio. Sem a ação deles, a Terra seria 33 graus Celsius mais fria.
4) Nos últimos cem anos, a temperatura global aumentou em 0,74 grau Celsius. O nível do mar aumentou uns 20 centímetros.
5) Esses dados não estão em disputa. O que é controverso é a causa dos aumentos: natural ou antropogênica, ou seja, causada pela atividade humana.
6) A Terra passou por muitos períodos de aquecimento no passado. Evidências extraídas de amostras de gelo na estação russa Vostok, na Antártica, permitiram que se estabelecesse uma relação direta entre o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera e a temperatura nos últimos 400 mil anos. As temperaturas máximas correspondem a uma concentração do gás de 280 partes por milhão (ppm).
7) Esse número deve ser comparado com a concentração medida nos últimos 50 anos, que mostra um crescimento linear de 310 ppm (1958) a 385 ppm (2008), bem acima do máximo nos períodos de aquecimento no passado. Este aumento está diretamente relacionado com o aumento da população mundial e do consumo de combustíveis fósseis, fontes do gás.
8) A Terra passou por recentes flutuações regionais de temperatura; um ligeiro aquecimento na Idade Média (entre os anos de 905 e 1250) e um ligeiro resfriamento (Pequena Idade do Gelo) que afetaram a região do Atlântico Norte. A variação de temperatura foi de 0,2 grau.
9) O Sol tem um ciclo natural de 11 anos em que sua irradiação oscila periodicamente. Quando o Sol está mais ativo, é de esperar que a Terra aqueça. Contudo, não existe uma correlação direta entre o ciclo solar e o clima terrestre. Os resultados parecem contradizer a expectativa: mesmo que a última década tenha sido a mais quente nos últimos cem anos, o Sol tem ficado bem calmo, estando com seu ciclo atrasado.
Mesmo que a Terra tenha passado por períodos de aquecimento e resfriamento em seu passado, o aquecimento dos últimos cem anos está relacionado com uma maior concentração de gases poluentes na atmosfera e uma maior taxa de desmatamento. Esta é a conclusão da maioria dos cientistas e das academias de ciência em todo o globo.
* Marcelo Gleiser é físico.
** Publicado originalmente pelo jornal Folha de S. Paulo e retirado do site IHU On-Line.
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É evidente que este tipo de manipulação ocorre em todos os níveis, principalmente, quando o que está em jogo é o espaço geográfico, fator de produção principal. Ressalto que o jogo é meramente financeiro, e que o espaço geografico é o “elemento suporte” e palco das disputas de mercado.
Lógicamente, re-levantou-se a bandeira ambiental, só que agora, com muitas cores, símbolos e marcar coorporativas. O movimento ambiental que outrora questionava os meios de produção e a degradação ambiental, agora, também serve para vender produtos com atributos filosóficos. Isso se faz também com outros valores morais, tais como as propagandas de marqueting da Benetton.
A necessidade da proteção dos fatores ambientais, hoje já deveriam ser cientificamente claras para qualquer criança e adolescente, no Brasil e no mundo. Porém, a educação escolar se preocupou em em formar cidadãos trabalhadores e pagadores de impostos, qualificados na parte técnica e não no pensamento ambiental coerentemente embasados em análises.
Essa discussão emblemática para perplexos, seriam também para os ignorantes, aliendos e bitolados, dignos de pena.
Se valer de “Pum” na escala anos-luz da Terra, para explicar que estamos agindo errado quanto ao uso dos fatores ambientais, pode ser até válido, mas só como ponte de partida, pois as maiores catástrofes terrestres socioambientais ocorrem silenciosamente, e fedem muito.
O pior é usarem estes “puns” para fazermos acreditar que a salvação está em um homem engravatado segurando uma muda arbórea ou o globo na mão.
Engenheiro Florestal