e16 TERRAMÉRICA   Impulso à busca por terras raras

Rocha argentina com terras raras, conservada no Museu de Mineralogia da Universidade da República. Foto: Juan Moseinco/IPS

A mineração dos metais raros, em alta devido ao impulso da economia verde, é uma das novas indústrias que devem provar sua verdadeira sustentabilidade.

Buenos Aires, Argentina, 19 de dezembro de 2011 (Terramérica).- A Argentina poderia abastecer parte da demanda mundial por “terras raras”, minerais exigidos em tecnologias verdes, eletrônica e equipamentos de diagnóstico médico. O desafio é explorá-las de modo sustentável. É grande a expectativa criada neste país sobre este grupo de 17 metais destinados a indústrias verdes e produtos eletrônicos de última geração, cuja demanda cresce.

São chamados “raros” por estarem presentes em proporção muito pequena em rochas e sedimentos, e por ser difícil isolá-los para chegar à sua forma elementar. Estes 17 minerais – entre eles o disprósio, o lantânio e o neodímio – são usados para fabricar telefones celulares, computadores portáteis, tablets, reprodutores portáteis de áudio MP3, câmeras digitais, monitores de cristal líquido ou fibra óptica.

O principal produtor mundial é a China, de onde procede 97% do fornecimento desses metais. Contudo, a decisão de Pequim, de controlar por meio de cotas a produção, para priorizar o mercado doméstico, e de reduzir exportações, aumentou os preços e forçou a busca por alternativas. As terras raras são encontradas na proporção de partes por milhão em rochas ou sedimentos.

A concentração pode ser escassa e, portanto, não justificaria uma exploração econômica, disse ao Terramérica a geóloga Diana Mutti, diretora da carreira de especialização em Geologia de Mineração da Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da Universidade de Buenos Aires. “A natureza concentrou as rochas com maior proporção desses metais em regiões da China, Rússia, Estados Unidos e Canadá”, explicou. No entanto, em algumas províncias argentinas também há rochas com esses metais, acrescentou Diana.

“Há potencialidade para terras raras em serras das províncias de Córdoba e San Luis, no centro do país, Salta e Catamarca, no noroeste. Ali há rochas que podem ter maior proporção, mas isso não justifica necessariamente que possa formar-se uma jazida”, alertou. San Luis é, no momento, a província onde estes metais são mais encontrados. Ali, a mineradora canadense Wealth Minerals adquiriu, no começo deste ano, seis mil hectares na região Rodeo de los Molles, baseando-se em dados de bom potencial para a exploração deste recurso.

“Considerando o recente corte de cota de exportação de terras raras anunciado pela China, o segundo em anos consecutivos, estamos contentes de garantirmos uma área grande e ainda não explorada em uma região conhecida por abrigar significativas concentrações de terras raras”, afirmou, ao anunciar a compra, o presidente da Wealth Minerals, Henk Van Alphen.

Segundo Diana, na província de Santiago del Estero, no norte, “há afinidade com rochas das serras de Córdoba, mas não chega a superar um umbral a ponto de concluir que há potencial. Há indícios, mas não uma manifestação”. A geóloga se referia às expectativas pela incursão de filiais da também canadense U308 Corp nas serras de Sumampa, em Santiago del Estero, que foi formada por uma câmara empresarial.

O presidente do Grupo de Empresas de Mineração Exploradoras da Argentina, Julio Ríos Gómez, afirmou que empresas internacionais colocaram o país “entre as zonas mais ricas do mundo quanto à disponibilidade deste recurso”. Segundo o executivo, há pedidos de exploração de terras raras apresentados por firmas da Austrália e do Canadá, levadas pelas reduções nas exportações que a China realiza desde o final de 2010.

Julio afirmou em declarações à imprensa que na região de Sumampa, no sul de Santiago, “há empresas explorando em busca de terras raras, e há um plano para reativar toda a atividade mineradora na província, onde não existem leis que limitem a exploração”. Nem Julio nem a Fundação para o Desenvolvimento da Mineração Argentina – que alegou ter “pouca informação” sobre as terras raras – responderam aos pedidos de entrevista feitos pelo Terramérica.

No entanto, nem todos são a favor da exploração de metais raros. Segundo moradores de Jasimampa, localidade junto às serras de Sumampa, pessoas de uma empresa apresentada como Gaia Energy Argentina S.A. tentou convencê-los dos benefícios da exploração mineira nessa região. A Gaia Energy pertence à empresa canadense U308 Corp, dedicada à exploração de urânio.

“A companhia entrou em terras de uso comunitário pela força, com a polícia, e a comunidade resistiu, havendo inclusive detidos”, contou ao Terramérica o dirigente Adolfo Farías, do Movimento Camponês de Santiago del Estero (Mocase). “ A Gaia foi fazendo um trabalho de confusão, falando sobre o progresso da mineração, que gera emprego, dizem eles, mas houve mobilização e resistência e o projeto foi detido”, assegurou Adolfo.

O camponês disse que as comunidades de povos originários e habitantes rurais da área “continuarão resistindo. Nosso objetivo é a soberania alimentar e a custódia dos bens naturais contra o saque”, ressaltou. “Sabemos que em Sumampa há terras raras e que a empresa tem uma estratégia para explorá-las, mas somos contra por sabermos que isto contamina a água e não cria emprego, como dizem”, afirmou Adolfo.

Outra subsidiária da U308 Corp, a South American Rare Earth Corp, também possui áreas para exploração em Jasimampa. A geóloga Diana disse que o método para extrair os minerais depende da rocha. Se estiver exposta, a exploração é superficial ou a céu aberto. Contudo, como se trata de corpos de rocha com não mais de 50 por dez metros, seriam jazidas de pequena escala. Também pode haver exploração subterrânea, o que aumenta o investimento necessário. Por isso deve ser um projeto muito rentável, reiterou.

Em sua opinião, este tipo de exploração, “em geral, é bem sustentável, mas sabemos que qualquer atividade tem impacto sobre o meio ambiente. Neste caso, não se usa cianureto e não são geradas águas ácidas, mas há certo impacto na paisagem, na flora e na fauna do lugar, e movimentos de solo”. Também pode haver explosões, deslizamentos ou afundamentos, alertou. A geóloga recomenda avaliar como esses impactos seriam mitigados, e se a obtenção do recurso gera, na cadeia produtiva, uma alternativa mais sustentável e com um desenvolvimento mais limpo.

* A autora é correspondente da IPS.

LINKS

Guerra comercial por matérias-primas raras na incubadeira

Agricultura diante da grave escassez de fosfato

China, potência agressiva ou vítima de Ocidente, em espanhol

Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da Universidade de Buenos Aires, em espanhol

Wealth Minerals, em inglês

South American Rare Earth Corp, em inglês

Grupo de Empresas de Mineração Exploradoras da Argentina, em espanhol


Fundação para o Desenvolvimento da Mineração Argentina, em espanhol

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

(Terramérica)

[ ] Voltar
Aproveite e curta nossa página no facebook: