0 I 5a3Vania Vieira CGU Conferência Ethos: sentido da Rio+20 está além de decisões governamentais

Vânia Vieira, diretora de Prevenção da Corrupção da Controladoria-Geral da União (CGU). Foto: Saulo Cruz/Sefot-Secom

Em continuidade à série de entrevistas com representantes das organizações parceiras do Instituto Ethos na preparação da Conferência Ethos Internacional 2012, conversamos esta semana com Aron Belinky, membro da Vitae Civilis, Marcelo Cardoso, vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional e Sustentabilidade da Natura, e Vânia Vieira, diretora de Prevenção à Corrupção da Controladoria-Geral da União (CGU). Confira a seguir a avaliação deles sobre a importância da Conferência Ethos e sobre o alcance do encontro da ONU no Rio de Janeiro.

A Conferência Ethos Internacional 2012 vai realizar-se entre os dias 11 e 13 de junho de 2012, em São Paulo. Para fazer sua inscrição, clique aqui.

“A Rio+20 precisa ser entendida não como um evento oficial. Quem considerar importante apenas as decisões governamentais sofrerá frustração.” Com este alerta, Aron Belinky, membro da Vitae Civilis, destaca o amplo papel que o encontro mundial pode alcançar para o avanço dos processos deflagrados pela Organização das Nações Unidas (ONU) em suas conferências anteriores sobre meio ambiente e desenvolvimento.

“Acredito que a Rio+20, assim como todas as conferências realizadas pela ONU, não deve ser enxergada como um fim em si, mas como uma oportunidade para o nascimento de uma nova ordem”, concorda Marcelo Cardoso, vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional e Sustentabilidade da Natura.

“Vinte anos após a histórica Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro, na qual foram adotados documentos fundamentais para o regime de proteção internacional do meio ambiente, chefes de Estado e de governo, lideranças da sociedade civil e do setor privado e a academia terão a oportunidade de se encontrar novamente para discutir e lançar as bases para o ‘futuro que nós queremos’, que é justamente o tema deste ano”, completa Vânia Vieira, diretora de Prevenção à Corrupção da Controladoria-Geral da União (CGU).

Aron Belinky observa que a Rio+20 deve ser vista sob o ângulo de pelo menos dois outros canais, além do governamental: o autônomo, no qual inúmeras entidades civis e empresariais estão organizando suas demandas e visões de futuro, e o semioficial, que vem promovendo diálogos sobre o desenvolvimento sustentável e abrindo espaços de expressão. Ambos, em sua avaliação, podem gerar produtos interessantes.

“Para a continuidade da nossa existência, precisamos rever nossa forma de viver, produzir e nos relacionarmos, buscando soluções inovadoras para nossos dilemas do presente e do futuro. Nesse sentido, a Rio+20 é uma oportunidade privilegiada para a promoção da transformação social e discussão de medidas e mecanismos de implementação das decisões e acordos já firmados na conferência Eco-92, há 20 anos”, reforça Marcelo Cardoso.

Participação oficial

Essa visão ampliada, contudo, não deve descuidar também das interações formais. “Mesmo com a dificuldade das Nações Unidas em gerar medidas transformadoras, há temas na agenda oficial pelos quais vale a pena brigar”, salienta Belinky. Ele cita a existência de propostas contrárias à emenda sobre direitos humanos: “Não podemos deixar passar coisas assim”.

Belinky destaca duas outras conquistas a serem buscadas com os governantes mundiais: “Precisamos de métricas novas, que levem em conta aspectos sustentáveis e humanos, assim como de uma convenção que garanta o acesso amplo à informação sobre meio ambiente”.

A urgência em avançar, oficialmente, para medidas concretas, por meio de uma melhor gestão é lembrada por Vânia Vieira: “O contexto mundial de 2012, em meio à crise financeira iniciada em 2008, lança luz sobre a importância do debate acerca de modelos de governança, mais transparentes e íntegros, princípios indispensáveis para assegurar o desenvolvimento sustentável, seja em nível local ou global. Assim, diferentemente dos encontros das décadas anteriores, espera-se que a Rio+20 seja uma conferência voltada para a efetivação dos compromissos assumidos no campo do desenvolvimento sustentável, ao mesmo tempo em que princípios anteriormente considerados sejam fortalecidos nas próximas décadas”.

Decifrando a complexidade

Compreender e influir no desenrolar da Rio+20 requer um aprofundado preparo. “Eventos focados com atores interessados em participar, como a Conferência Ethos, com o tema ‘A Empresa e a Nova Economia – O Que Muda com a Rio+20’, são fundamentais”, avalia Belinky. Para ele, a iniciativa do Instituto Ethos vai ajudar na participação e dar visibilidade a dilemas que estão em pauta e ficam, muitas vezes, sem o contexto necessário.

“A Conferência Ethos Internacional 2012 pode nos ajudar a refletir sobre os temas que devem ser tratados na Rio+20, relevantes para nossa sociedade, considerando os aprendizados que já tivemos com outros eventos. O encontro do Ethos certamente deve colaborar para que, na Rio+20, sejam apresentadas propostas concretas, a fim de que as decisões políticas e econômicas sejam favoráveis a uma sociedade mais sustentável”, reforça Marcelo Cardoso.

Vânia Vieira é da mesma opinião: “O envolvimento do Instituto Ethos com a Rio+20 é muito bem-vindo e apropriado, até mesmo porque as empresas e as indústrias são reconhecidas como um dos nove grupos principais (major groups) identificados na Agenda 21 como parceiros para o desenvolvimento sustentável. É interessante notar como a atuação do Ethos também está relacionada com outros dois major groups: as organizações não governamentais (capítulo 27 da Agenda 21) e os trabalhadores e sindicatos (capítulo 29 da Agenda 21)”.

Ela segue avaliando que os temas de trabalho do Ethos estão diretamente relacionados aos temas da Rio+20 e acredita que o Instituto terá a oportunidade e o grande desafio não somente de aprofundar a discussão da Rio+20, mas também de fomentar a incorporação dos princípios de sustentabilidade no setor privado.

Esperanças em alta

Aron Belinky crê que o evento do Ethos pode realmente consolidar a pauta e as atividades além das oficiais. Dessa forma, mostrará à sociedade em geral, e principalmente ao setor privado, que a economia verde não é só melhoria em ecoeficiência, mas sim a instituição de um novo modelo, com igual importância para o social, o econômico e o ecológico, capaz de estabelecer uma sociedade justa, com sustentabilidade próspera. A Rio+20, por sua vez, poderá ser um momento de convergência e energização, para trazer mais clareza em relação aos desafios atuais e apontar que caminhos devemos tomar, quais os encaminhamentos mais importantes e como chegar até eles.

Marcelo Cardoso também acredita que tanto a Conferência Ethos quanto a Rio+20 têm grande potencial de estimular a reflexão que entrelaça diversos atores na busca por uma sociedade mais sustentável e justa: um modelo de capitalismo renovado e inclusivo. “Vejo que os dois eventos podem reunir e estruturar muitas das iniciativas dispersas e fragmentadas na sociedade, nos órgãos públicos e no setor empresarial”, diz.

Cardoso destaca sua confiança e entusiasmo para empreender todos os esforços possíveis para que a Plataforma por uma Economia Inclusiva, Verde e Responsável – apresentada pelo Ethos em fevereiro de 2011– alcance seus propósitos nesses dois fóruns. “Trata-se de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável consistente, ambicioso e orientado por uma visão de futuro, que vai reunir e mobilizar as forças transformadoras da sociedade numa direção convergente”, explica.

Da mesma forma, Vânia Vieira espera que ambos os eventos consigam avançar em relação a arranjos para melhorar a governança global, tanto em governos, como em empresas: “É notável como o setor empresarial tem um relevante papel a cumprir, sendo chamado a incorporar os princípios do desenvolvimento sustentável em suas atividades, o que está expresso em diversos pontos do documento de negociação”.

A diretora da CGU tem a expectativa de que, na sensibilização e capacitação a respeito dos temas da Rio+20, a Conferência Ethos reflita, por exemplo, sobre como o acesso à informação, a transparência, a responsabilidade social corporativa e o fortalecimento de um sistema de integridade podem ser instrumentos facilitadores de padrões mais elevados de sustentabilidade, realizados de forma integrada, por meio do crescimento econômico, desenvolvimento social e proteção ambiental. “Talvez a ética seja justamente a perspectiva que deva ser valorizada pelos três pilares do desenvolvimento sustentável”, conclui.

Cardoso acrescenta que deseja, ainda, que todos os cidadãos tenham chance de participar dos debates promovidos pela Rio+20 e que o evento seja marcado pela mobilização por meio do diálogo e da reflexão coletiva acerca do futuro do nosso planeta, nossos hábitos de consumo, nossas relações interpessoais e nossos recursos naturais. “Nosso esforço é para um acordo global com a finalidade de implementar um novo modelo de desenvolvimento capaz de aliar produção, consumo, conservação e uso sustentável da sociobiodiversidade”, encerra o vice-presidente da Natura.

* Publicado originalmente no site Instituto Ethos.

(Instituto Ethos)

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