Perigo no ar

Ambiente

Perigo no ar


por Reinaldo Canto*


[caption id="attachment_87470" align="alignleft" width="300" caption="Emissão de CO2: o importante é não ficar parado. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil"][/caption] O importante é não ficar parado e agir. Enquanto a água não ferver sempre teremos a chance de pular da panela e apagar o fogo. Para a maioria da população deve ter passado despercebida a informação de que a nossa atmosfera atingiu uma concentração recorde e inédita de 400 ppms (400 partes por milhão) nos níveis de CO2,o famoso dióxido de carbono. Muita gente pode ter pensado: “então, tá…”   Por não alterar a nossa realidade cotidiana – afinal, não altera o trânsito da cidade, não provoca aumento imediato no preço dos alimentos ou qualquer mudança nos índices de violência. Isso tudo é verdade, mas o que seria uma não notícia é, na realidade, uma das mais importantes novidades dos últimos tempos. Esse nível de concentração de CO2 significa que, segundo as previsões de mais de 2.500 cientistas de todo o mundo, reunidos pela ONU no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC em inglês), nosso planeta acaba de ultrapassar uma linha imaginária perigosa e está caminhando para um alarmante e desconhecido aquecimento. Se tudo se confirmar, com esse aumento de temperatura, teremos menos terra para plantar alimentos; as águas dos oceanos irão invadir cidades; muitas espécies vão morrer por falta de capacidade para se adaptar a esses novos índices de calor e até mesmo é possível pensar num crescimento da violência, por que não? Os especialistas do IPCC vão mais longe e classificam essa ultrapassagem dos 400 ppms como um patamar que coloca em risco a própria civilização conforme nós a conhecemos. Temos reagido a esses fatos ligados às mudanças do clima, tais como a crescente ocorrência dos fenômenos climáticos extremos, quase que com total descrença. Coisas irrelevantes dignas de ambientalistas radicais e desocupados. O comportamento preponderante assemelha-se ao do sapo na panela. Ao pular numa panela com água fervente, o sapo salta fora dela imediatamente. Ao contrário, quando a água da panela está fria com o sapo dentro e vai aquecendo lentamente, o sapo poderá morrer, pois vai tentando se adaptar até ser consumido pelo calor. Em relação às ações que deveriam ser tomadas pela humanidade em geral, principalmente nos fóruns internacionais sobre mudanças climáticas, realizados anualmente, o que se vê é um interminável “jogo de empurra”, postergando as urgentes medidas capazes de reverter o quadro, indefinidamente. Digno do comportamento de um sapo feliz e saltitante dentro de uma panela com água prestes a atingir o fatal grau de fervura. Nessas horas deveríamos nos perguntar e, claro, principalmente as nossas autoridades, o que deveríamos fazer para tentar de alguma forma mudar essa realidade. O desenvolvimento não sustentável que muitas vezes produz o supérfluo destruindo o essencial é um dos grandes responsáveis por esse estado de coisas. Não será mais possível manter essa lógica de desenvolvimento, uma visão distorcida baseada no acúmulo de bens materiais e na consequente emissão de gases de efeito estufa em proporções inéditas e perigosas. Mas de nada adiantam reações pouco produtivas, negligentes por um lado ou alarmistas de outro. Melhor é começar um processo de mudanças de comportamento e de valores. Consumir de maneira consciente e apenas o necessário, usar menos o carro que queima combustíveis fósseis, alguns dos principais responsáveis pela emissão de gases que contribuem para o aquecimento global e reduzir o uso de energia e água evitando desperdícios, entre outras ações sustentáveis. Claro que mais importante ainda é pressionar nossas autoridades governamentais e empresariais a adotar atitudes sustentáveis e investir decididamente em atividades ligadas a economia de baixo carbono. No caso das empresas, além de buscarem reduzir os impactos causados por suas atividades, elas também podem compensar algumas das emissões dos gases de efeito estufa, por meio do plantio de árvores que absorvem carbono durante o seu crescimento. Uma dica é consultar o trabalho realizado por diversas organizações e empresas que realizam esse trabalho. Uma delas é a ONG Iniciativa Verde que faz restauro florestal com espécimes da Mata Atlântica prioritariamente em áreas de mananciais. (www.iniciativaverde.org.br). O importante é não ficar parado e agir. Enquanto a água não ferver sempre teremos a chance de pular da panela e apagar o fogo. * Reinaldo Canto é jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento. Passou pelas principais emissoras de televisão e rádio do País. Foi diretor de comunicação do Greenpeace Brasil, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e colaborador do Instituto Ethos. Atualmente é colaborador e parceiro da Envolverde, professor em Gestão Ambiental na FAPPES e palestrante e consultor na área ambiental. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.

Maria José Gontijo (Diretora executiva do IEB), Arne Dale (AIN), Cesar Vasconcelos (Hydro), Lindalva Melo (Associação das Mulheres do Campo e da Cidade, AMCC – Barcarena). Acervo IEB 18: Cesar Vasconcelos, representante da Hydro. Ambiente

Diálogo abre caminho para reduzir danos socioambientais em Barcarena

[caption id="attachment_87452" align="aligncenter" width="450" caption="Maria José Gontijo (Diretora executiva do IEB), Arne Dale (AIN), Cesar Vasconcelos (Hydro), Lindalva Melo (Associação das Mulheres do Campo e da Cidade, AMCC – Barcarena). Acervo IEB 18: Foto: Cesar Vasconcelos, representante da Hydro."][/caption]   Projetos de fortalecimento preparam sociedade civil para o Fórum de Diálogo que busca soluções estruturantes dos problemas socioambientais de Barcarena. Barcarena, Pará – Pense na Amazônia: 53% do território brasileiro e a maior floresta tropical contínua do planeta. Agora imagine nesse cenário de rios e biodiversidade o município brasileiro que tem o maior polo industrial de beneficiamento de bauxita do mundo, e que exporta todos os anos cerca de US$ 2,9 bilhões. Imagine grandes navios que carregam minério, grãos e gado – entre outros produtos exportados para 30 países – no Porto de Vila do Conde, o maior do Pará, nessa mesma cidade. Tente calcular o quanto vai aumentar o impacto social e ambiental na região quando esse porto for ampliado para escoar a produção dos Estados (Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Pará) beneficiados pela extensão de 2.255 quilômetros da Ferrovia Norte-Sul, além da prevista melhoria da malha rodoviária na região. Agora examine esses dados: a renda anual per capita, de R$ 36 mil, equivale a quase o dobro da brasileira (R$ 19 mil em 2010), mas sete em cada dez habitantes da cidade não têm saneamento básico nem acesso à água tratada para o consumo humano. Além disso, poluição e acidentes ambientais de origem industrial são frequentes na região. Esta é a realidade do município de Barcarena, terceira maior economia do Estado do Pará. É nesse cenário que se desenvolve uma iniciativa exemplar para toda a Amazônia: o Fortalecimento da Sociedade Civil de Barcarena, que abriga dois projetos implementados pelo IEB – Instituto Internacional de Educação do Brasil. Um marco desse processo foi alcançado dia 18 de abril, na solenidade de assinatura do Termo de Adesão que estabelece o compromisso de construção de um Fórum de Diálogo Intersetorial com o objetivo de encaminhar soluções para os graves problemas socioambientais do município. O documento, que estabelece o início da fase pré-fórum, foi assinado por representantes de 33 organizações da sociedade civil local e das empresas Albras, Alunorte e CAP, todas ligadas à multinacional norueguesa Hydro, que também aderiu formalmente. Uma boa surpresa foi a adesão de vereadores da cidade. Compareceram também representantes de secretarias municipais. [caption id="attachment_87454" align="alignright" width="300" caption="Maura Moraes (Coordenadora de Projetos do IEB)"][/caption] “É a culminância de um processo de trabalho do IEB no município”, comemora Maura Moraes, coordenadora dos projetos desenvolvidos pelo Instituto em Barcarena. Esse trabalho começou em 2008, com a preparação e posterior realização de cursos, estudos e oficinas de capacitação para preparar lideranças das organizações locais para atuar em rede, coletivamente, com o propósito de influenciar a implantação de políticas públicas de desenvolvimento sustentável. “A ideia era ter a capacitação, mas o outro passo era a constituição de um espaço público de diálogo”, explica Maura. “O IEB trabalha construindo espaços públicos de discussão, porque entende que é preciso agrupar os diferentes setores da sociedade para um diálogo”. Dessa forma a iniciativa pretende romper com a lógica em que o Estado faz acordos com as empresas, e as organizações da sociedade civil vão isoladamente negociar para obter ganhos pontuais. Maura acredita que a construção de soluções coletivas e negociadas mediante o diálogo é mais efetiva no longo prazo. Foi esse perfil de atuação, com foco educativo, que levou o Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente, do Ministério Público do Estado do Pará, a convidar o IEB para executar o Projeto de Desenvolvimento da Capacidade Social de Barcarena, previsto no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) celebrado com a empresa Imerys Rio Capim Caulim, protagonista de um acidente ambiental na região. O TAC é uma forma de compensação, com força jurídica, que as empresas devem cumprir quando responsabilizadas por acidentes socioambientais de graves consequências. Responsável pelo processo de estabelecimento do TAC, o promotor Raimundo Moraes disse que não imaginava uma participação “tão diversificada, que fosse ter um amadurecimento tão rápido”. Na opinião dele, o diálogo para instituir o fórum demonstra que “é possível estabelecer a autonomia da sociedade para construir um espaço público, com um pressuposto muito forte da democracia, da liberdade, do foco no interesse público, com a consolidação de uma democracia institucional diferente”. Um acidente muda o percurso Em 2007, transbordou a bacia de rejeitos de caulim da Imerys. O vazamento contaminou os igarapés Curuperê e Dendê, chegando ao Rio Pará. Cerca de 500 famílias foram retiradas das proximidades pela Defesa Civil local. Houve mortandade de peixes e camarão. “Naquele momento, também o impacto visual foi muito forte, porque a água ficou totalmente branca. O impacto químico era o mesmo que já vinha ocorrendo”, lembra o biólogo Marcelo de Oliveira Lima, pesquisador do Laboratório de Análises Toxicológicas do Instituto Evandro Chagas (IEC). Um ano antes, já havia sido detectada a contaminação desses cursos d’água por efluentes da Imerys. O relatório do IEC sobre os efeitos do transbordamento foi tomado como base para o Ministério Público estadual definir as compensações do TAC assinado em 2008. Além das reparações usuais, como a adequação das instalações industriais, prover o Corpo de Bombeiros com equipamentos para enfrentar essas emergências, multas, etc., o TAC determinou que a empresa assumisse duas importantes iniciativas de caráter mais abrangente. Uma delas obrigou a Imerys a custear as ações do Programa de Monitoramento e Controle em Saúde e Meio Ambiente, executado pelo IEC nos arredores das áreas portuárias e industriais dos municípios de Barcarena e Abaetetuba (este último foi incluído porque é vizinho, e alguns dos incidentes registrados desde 2001 ocorreram na fronteira). A outra determinou que a empresa fornecesse os recursos para capacitação de pessoas das organizações da sociedade civil local – centros comunitários, associações de moradores, sindicatos, cooperativas –, a fim de mudar o padrão das relações com o Poder Público e as empresas, que oscilava entre o conflito aberto e o clientelismo. A ideia de incluir essa compensação inusitada partiu do então promotor de Justiça de Barcarena, Raimundo Moraes, que já percebia a fragilidade dos cidadãos nesse tipo de relação. “No início foi feito um esforço muito grande, em função do TAC, para priorizar as organizações que estavam no entorno dessa área afetada pelo acidente”, conta a coordenadora dos projetos do IEB. “Mas rapidamente se evoluiu para outra compreensão: o acidente provocou isso, mas o problema é de todo o município de Barcarena, está além do acidente. Um evento dessa proporção não afeta só quem está ali diretamente.” O foco se voltou para a questão social, a partir do acidente, em decorrência da constatação de que não existe infraestrutura urbana no município. Ronielson Benjamin dos Santos, representante da Associação dos Moradores do Porto da Balsa, relata uma parte dos problemas que a população enfrenta: “A gente não tem transporte coletivo urbano, só o alternativo, que é feito por vans em condições precárias; água encanada só têm as pessoas que fazem ligações clandestinas no entorno da Vila dos Cabanos, construída para os funcionários da Albras/Alunorte; é péssimo o estado das escolas, que precisam de reforma; e na zona rural as construções são de madeira, sobre palafitas, com todas as ameaças que isso representa para a saúde das crianças”. Barcarena sofre os impactos socioambientais negativos acumulados ao longo de 30 anos, desde a drástica intervenção do Estado no território do município, ainda na ditadura militar, para implantar o polo industrial Albras/Alunorte. Foram desapropriados 40 mil hectares de terras, incluindo florestas, o que inviabilizou atividades extrativistas que eram a base de sustento de milhares de famílias. Outra consequência foi o fluxo migratório sem nenhum planejamento para prover infraestrutura básica para uma população que aumentou de 23 mil para cerca de cem mil pessoas desde então. “Hoje temos um crescimento do número de associações nas áreas urbanas, exatamente em razão desse processo de expansão desordenada da periferia, de muitas ocupações no entorno das empresas”, conta Maura, ao explicar por que “uma das lutas mais importantes é essa da regularização fundiária”. [caption id="attachment_87455" align="alignleft" width="300" caption="Grupo da Oficina que discutiu as diretrizes do Espaço do Público em Barcarena. Fevereiro de 2012."][/caption] Clareza para o diálogo A atuação do IEB procurou contribuir para uma mudança da cultura política na relação dessas comunidades com o poder público e as empresas, que tem duas maneiras bem distintas. “Existem aqueles que têm uma visão assistencialista e clientelista. Pensam assim: as empresas estão aqui, têm dinheiro, eu vou lá levar minha conta pessoal, da minha associação, da minha comunidade: a gente precisa de uma escola, a gente precisa que construa uma caixa d’água. Outro segmento faz o enfrentamento no conflito: vai lá, faz ocupação, faz greve, mobiliza os trabalhadores, fecha a rua que dá acesso à empresa”, diz Maura. “No processo, não se nega o conflito, o enfrentamento, porque algumas vezes vai ser necessário. E tem esse passivo, a que as lideranças fazem referência, sobre o que aconteceu, da desapropriação, do desrespeito com as pessoas, com a cultura, com tudo o que tinha lá. Não temos a pretensão de dizer que isso não cabe. É o processo deles, uma luta legítima.” O que o IEB procura apresentar é uma terceira perspectiva, de atribuir responsabilidades a partir de outras referências. “Qual é o papel do Estado numa cidade como Barcarena, que tem uma atividade econômica que pode trazer benefícios para o município mas não traz? Como é que isso pode ser aproveitado pelo poder público em benefício de todos?”, questiona Maura. “Os impostos que as empresas pagam, os recursos que o município já recebe... Como é que a gente pode cobrar isso numa discussão com esses diferentes segmentos? Hoje tem um conjunto de organizações que começa a ver essa possibilidade, de maneira mais clara.” [caption id="attachment_87459" align="alignright" width="300" caption="Lideranças da sociedade civil de Barcarena indicam temas prioritários para serem debatidos no Fórum de diálogo com empresas e estado. A oficina foi realizada no dia 01 de fevereiro de 2013."][/caption] Definir com clareza o papel de cada setor e cada entidade no debate dessas questões é condição para a construção de um Fórum de Diálogo Intersetorial como foi proposto no Termo de Adesão. “É fundamental identificar claramente o papel de cada um. Se houver o cumprimento apropriado das responsabilidades de cada parte, os avanços já vão acontecer nisso”, afirma Cesar Vasconcelos, representante da Hydro, companhia de origem norueguesa que há dois anos controla o complexo Albras/Alunorte. “Em espaços semelhantes, muitas vezes não existe um entendimento claro de qual é o papel da empresa, qual é o papel da sociedade e qual é o papel do poder público.” [caption id="attachment_87453" align="alignleft" width="300" caption="Reunião na sede da empresa Alunorte, em Barcarena, para discutir o documento de adesão ao Pré-Fórum. Durante o encontro participaram quatro diretores do grupo Hydro e sete lideranças de organizações do Comitê de Acompanhamento dos projetos de Fortalecimento Institucional em Barcarena."][/caption] A integração da Hydro ao processo de criação do Fórum ganhou força a partir de setembro, quando a ONG Ajuda da Igreja Norueguesa (AIN) – veja box – apoiou a articulação da visita de uma comitiva de representantes das comunidades, do Ministério Público e do IEB para mostrar a real situação de Barcarena à alta direção da empresa em Oslo. “Geralmente esses diálogos sobre responsabilidade social ficam nos níveis de gerência local, dentro da estrutura corporativa; dificilmente chegam às instâncias de tomada de decisão das empresas”, justifica Fernando Matias, um dos representantes da AIN que acompanharam a comitiva. Estabelecida em 2011 pelo governo da Noruega para estreitar a relação entre os dois países, a Estratégia Brasil exige que as empresas de origem norueguesa sigam aqui os mesmos padrões de responsabilidade socioambiental existentes lá. “Nossa presença aqui é importante para a Hydro”, complementa outro representante da AIN, Arne Dale, ao indicar que a situação de Barcarena extrapolou os limites do município. Resistência A preparação das organizações sociais para participar com eficiência desse novo capítulo ganhou mais recursos a partir de 2010, quando a União Europeia aprovou o Projeto de Fortalecimento Institucional de Barcarena, que complementa o projeto de capacitação previsto no TAC firmado três anos antes entre o Ministério Público e a Imerys. Um exemplo da necessidade de se superar a fragilidade institucional surgiu na própria capacitação, que incluía um estudo detalhado do orçamento municipal. “A Prefeitura não queria dar acesso, então foi preciso que o MP entrasse e exigisse a informação”, lembra Maura. “Só aí o material veio, e a gente trabalhou em cima das peças reais. Para identificar como é, como se definem as prioridades, os consultores mostraram onde existem problemas, o que é destinado para a saúde, educação, etc.” Quebrar esse tipo de resistência é um dos desafios na estruturação do espaço de diálogo. Maria Lindalva dos Santos, representante da Associação das Mulheres do Campo e da Cidade de Barcarena, comemorava a instalação do pré-fórum, com a ressalva de que será necessário “trabalhar muito, constantemente, para que nós possamos chegar a um município que tenha políticas públicas voltadas ao atendimento das necessidades da população”. [caption id="attachment_87460" align="alignright" width="300" caption="Cesar Vasconcelos, representante da Hydro."][/caption] Do ponto de vista da Hydro, maior companhia da cidade, existe a expectativa de uma atuação responsável e bem estruturada do poder público. Um fator que alimenta essa esperança é a recém-eleita administração municipal, que tem a possibilidade de mudar a trajetória do município aderindo ao Fórum nesta fase de articulação. Mencionando uma conclusão de recente pesquisa realizada pela entidade global das indústrias de mineração (ICMM – sigla em inglês do Conselho Internacional de Mineração e Metais), Vasconcelos afirma que “os investimentos sociais das empresas têm maior condição de sustentabilidade, de serem efetivos no que se propõem, quando o poder público corresponde devidamente ao seu papel”. A presença do poder público no diálogo é, de fato, indispensável. Maura explica que a acomodação de interesses divergentes é natural na estruturação do fórum, mas tem limites que são essenciais: “Por exemplo, se não tiver o poder público, não vai acontecer. Não tem sentido discutir o município se o poder público não vem para essa discussão, se não temos clareza sobre o papel fundamental que ele tem. Se não tiver o Estado, não temos o fórum. As empresas também estão cientes disso”. Boa notícia É grande a expectativa quanto à participação institucional do Ministério Público (MP) estadual. “O MP tem papel fundamental nessa concertação”, define Maura. O promotor Raimundo Moraes diz que recentes mudanças na coordenação do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente confirmam “a expectativa de que o Ministério Público vai acompanhar de perto o processo, de forma bem mais próxima do que vinha ocorrendo nos tempos recentes”. [caption id="attachment_87461" align="alignleft" width="300" caption="Arne Dale (Representante da ONG Ajuda da Igreja Norueguêsa - AIN)"][/caption] Essa boa notícia é um indicativo de que produzem resultados consistentes os projetos de fortalecimento da sociedade civil implementados pelo IEB, ao preparar as comunidades locais para protagonizar um novo enredo rumo ao desenvolvimento sustentável de Barcarena. Convidada a compartilhar com a plateia sua experiência na construção do Fórum Amazônia Sustentável, Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental, propôs, na solenidade de assinatura do Termo de Adesão, uma reflexão definitiva sobre o momento de consolidação do Fórum de Diálogo Intersetorial: “É fundamental que o fórum parta não só do respeito mútuo, mas também do reconhecimento de que a solução dos problemas concretos de Barcarena passa pela interação entre todos os grupos sociais da região. Todos têm de fazer parte, todos devem ter voz, todos devem ter direitos iguais”. Assim seja. (Envolverde)


por Savio de Tarso, especial para a Envolverde
No Viveiro Alamar trabalham 46 mulheres em um total de 195 pessoas. Foto: Jorge Luis Baños/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Agricultura próspera é possível

  [caption id="attachment_87371" align="alignleft" width="300" caption="No Viveiro Alamar trabalham 46 mulheres em um total de 195 pessoas. Foto: Jorge Luis Baños/IPS"][/caption] A vocação e a especialização são duas características de uma propriedade cooperativa que pode ser exemplo para melhorar a agricultura de Cuba. Havana, Cuba, 20 de maio de 2103 (Terramérica).- “O ser humano é o único importante”, ressaltou o agrônomo Miguel Ángel Salcines, e em seguida enumerou outros elementos, secundários a seu ver, que converteram o Viveiro Alamar em um agronegócio próspero e singular na deprimida agricultura cubana. “Oferecemos horário flexível, salários bastante altos e superação profissional, entre outras vantagens que tornam a cooperativa atraente. Dessa forma captamos recursos humanos de boa qualidade, imprescindíveis hoje para produzir mais alimentos ecológicos”, afirmou ao Terramérica Salcines, presidente do Viveiro Alamar, cuja produção está livre de substâncias químicas desde 2000. O mix desta empresa agropecuária também inclui transparência contábil, divisão equitativa do lucro, empréstimos sem juros aos trabalhadores, almoço gratuito e apoio às mulheres com filhos ou pessoas sob sua responsabilidade, que podem chegar até uma hora mais tarde depois do início da jornada, às sete da manhã. O capital humano foi decisivo para a decolagem produtiva deste empreendimento, fundado em 1997 em um terreno inicial de 800 metros quadrados, na localidade costeira de Alamar, 15 quilômetros a leste do centro de Havana. Por isso o veterano Salcines afirma que, para conseguir segurança alimentar em Cuba, são necessários trabalhadores agrícolas com mais vocação e estudos. Em 2012 os preços internacionais dos alimentos dispararam devido às más colheitas em vários centros produtores, como os Estados Unidos. Os países caribenhos, que importam quase todo seu alimento, foram os mais afetados da área, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). A desnutrição afeta menos de 5% da população de Cuba, mas este país teve de gastar, no ano passado, pouco mais de US$ 1,633 bilhão em alimentos importados, quantia insustentável para uma economia em crise há mais de 20 anos, segundo especialistas. Reduzir esse gasto milionário com maior produção nacional continua sendo um desafio para o governo de Raúl Castro. Na verdade, no primeiro trimestre deste ano o Escritório Nacional de Estatística e Informação registrou queda de 7,8% na cultura da cana. “Há muita demanda para ser atendida, por isso vendemos tudo o que produzimos”, explicou Salcines, fundador da Unidade Básica de Produção Cooperativa, que hoje se estende a 10,14 hectares e planta mais de 230 variedades (na maioria vegetais e algumas frutas, grãos e tubérculos), em superfícies protegidas, semiprotegidas e a céu aberto. Em meio a uma agricultura pouco eficiente, o Viveiro Alamar cresce há mais de 15 anos, graças à constante atualização de seu manejo ecológico, apreciado inclusive pelo diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Graziano da Silva, que visitou a propriedade no começo deste mês. Em 2012 foram colhidas 400 toneladas de vegetais, outras 5,5 de plantas medicinas e espirituais (usadas em rituais religiosos), 350 de húmus de minhoca, além de 2,6 toneladas de condimentos secos. Também foram produzidas 30 mil mudas de plantas ornamentais e frutíferas e três milhões de mudas destinadas à semeadura própria e venda a outros camponeses, segundo Salcines. As hortaliças, principalmente alface, são os produtos mais procurados pelas famílias de Alamar, que, como as do resto do país, começaram a aprender há alguns anos os benefícios de incluir mais vegetais em uma dieta baseada em arroz, feijões, “viandas” (tubérculos) fritos e carne de porco. “A primeira vez que plantamos couve-flor, em 2000, ficou toda no campo porque ninguém a conhecia”, disse ao Terramérica a engenheira em saúde vegetal, Norma Romero. Para ela, uma das contribuições das mais de 33 mil propriedades urbanas e suburbanas de Cuba é ampliar o acesso e o consumo de vegetais. Receitas para preparar saladas e fungos comestíveis, um projeto do Viveiro Alamar, acompanham as listas de produtos no ponto de venda da cooperativa, como parte de sua estratégia comercial e educativa. As prateleiras também recebem conservas e pasta de alho, resultados de contar com uma pequena indústria própria. Apesar do selo ecológico, estes produtos têm preços menores do que os cultivados com agroquímicos e vendidos nos mercados agropecuários privados, conhecidos como de “livre oferta e demanda”. Os “preços acessíveis são a principal atração. Um pé de alface custa aqui quatro pesos cubanos (US$ 0,05), enquanto em todas as partes vale dez pesos”, disse ao Terramérica uma cliente assídua, Sonia Ricardo. “Os vegetais estão frescos, não têm inseticidas e as vendedoras são bem ágeis”, acrescentou. Estes preços permitem à cooperativa obter bons lucros, garantiu ao Terramérica o chefe de produção, Gonzalo González. São vendidos diretamente à população 85% dos produtos, e o restante vai para empresas turísticas, como a emblemática Bodeguita del Medio de La Habana. Desde seu início, com cinco pessoas, a cooperativa avança passo a passo para uma produção de ciclos fechados, que minimiza a geração de resíduos e danos ambientais. “Tentamos comprar fora a menor quantidade possível de insumos”, detalhou González, explicando que daí surgiu “a ideia de obter nosso esterco e vários biopesticidas e fertilizantes”. O Viveiro cria porcos para obter esterco, tem galpões de húmus de minhoca e reproduz micorrizas (fungos que favorecem o crescimento das plantas), insetos e micro-organismos eficientes para elevar seus rendimentos. Além disso, está vinculada a 17 centros científicos para incorporar novas técnicas e produtos ecológicos. Agora, as 195 pessoas que trabalham no lugar buscam elevar a exploração em 40% para atingir o teto produtivo, e ampliar a criação de coelhos e carneiros para incluir carne em suas vendas e melhorar o consumo de proteínas entre a população próxima, cerca de 30 mil pessoas. O quadro trabalhista é integrado por 175 cooperativados e 20 empregados, e tem um alto grau de formação, pois 92 têm formação universitária e 42 nível técnico. As mulheres são apenas 46. “Uma propriedade agrícola pode ser mais do que geradora de alimentos”, enfatizou Salcines, olhando para um grupo de turistas estrangeiros que faziam uma visita guiada com almoço ecológico ao Viveiro Alamar. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Uma horta saudável A esquiva fonte da abundância, em espanhol Novas reformas chegam ao campo, em espanhol Agricultura sustentável vinda dos subúrbios, em espanhol Diversidade, a melhor opção, em espanhol Viveiro Alamar (site não oficial), em inglês Setor agropecuário. Indicadores selecionados. Janeiro-Março 2013 – Onei, em espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Ivet González*
Dois estudantes indígenas operam equipamentos em uma oficina de comunicação. Foto: Cortesia OCSAN/Daniela Silva Ambiente

Terramérica – Na luta pelo direito à alimentação

  [caption id="attachment_87376" align="alignleft" width="300" caption="Dois estudantes indígenas operam equipamentos em uma oficina de comunicação. Foto: Cortesia OCSAN/Daniela Silva"][/caption] Jovens ticunas e kokomas, do extremo noroeste do Brasil, eram prisioneiros da desesperança e do alcoolismo. Porto Alegre, Brasil, 20 de maio de 2013 (Terramérica).- Em pontos remotos do Brasil, a população indígena começa a assumir seu direito de não passar fome e descobre que a segurança alimentar é muito mais do que um prato de comida na mesa. Rosiléia Cruz, de 19 anos, sonha estudar jornalismo. Escolhe as palavras com cuidado para dar esta entrevista ao Terramérica por telefone celular, de Tabatinga, no Estado do Amazonas, onde só é possível chegar de avião ou de barco. Ela é parte do povo indígena ticuna, um dos mais numerosos do Brasil, assentado na região do Alto Solimões, perto do rio de mesmo nome e das fronteiras com Peru e Colômbia. A terra de seus antepassados foi invadida durante décadas por seringueiros, pescadores e madeireiros, que deixaram um rastro de pobreza e destruição. Há cerca de três anos, jovens como Rosiléia careciam de perspectivas e buscavam alívio no álcool e no suicídio. Entretanto, em janeiro de 2010, o Programa Conjunto de Segurança Alimentar e Nutricional para Mulheres e Infância Indígenas abriu uma porta de esperança, com atividades para criar soluções agrícolas e alimentares, mas, sobretudo, formação e conscientização. Rosiléia integra um grupo de 50 jovens dos povos ticuna e kokama que participaram de painéis de comunicação em cada escola. Na comunidade Umariaçu II de Tabatinga aprendeu a entrevistar, fazer fotografias e produzir um diário mural e programas de rádio. Ela ficou maravilhada com a possibilidade de empunhar um microfone ou uma câmera para entrevistar o cacique da aldeia sobre problemas comunitários, explicar às gestantes a importância de amamentar ou informar meninas e meninos sobre hábitos saudáveis, refrigerantes, alimentos processados e frutas da região. “Há muito jovem que podemos resgatar da bebida”, afirmou Rosiléia. “Acabamos de fazer um jornal sobre o Dia do Índio (19 de abril) e vou participar da Semana do Bebê Indígena”, contou. O objetivo dos painéis é motivar a juventude para que promova e defenda seus direitos. Um acordo com uma canal de televisão local permitiu que os jovens treinassem no uso dos equipamentos doados pelo Programa. A emissora de rádio de Tabatinga cedeu um espaço em sua programação dos sábados, para que os jovens apresentassem seu programa. O grupo também usa as “bocas de ferro”, alto-falantes colocados em postes da aldeia para transmitir sua mensagem. Os jornais murais são colocados em paredes de clínicas e escolas, e os painéis sobre internet permitem que alimentem um site próprio, que será lançado no dia 21. Concluídos as oficinas, seus participantes vão transmitir o que aprenderam para outros estudantes. Associações com prefeituras, universidades e organizações indígenas permitirão a continuidade, enquanto a internet servirá para divulgar o fato, ampliar a comunicação e inspirar outros adolescentes. Estas experiências fazem parte de um projeto mais amplo para ajudar ticunas e kokamas a se organizar para cobrar saúde, educação e participação econômica e política. O Programa é uma iniciativa do Fundo para o Êxito dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que conta com doação do governo da Espanha, e sua execução está a cargo de várias agências das Nações Unidas, entre elas a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em associação com o governo brasileiro. O Programa, agora na fase de sistematizar dados e avaliar resultados, pois deve estar concluído em junho, se focou nos municípios de Tabatinga, Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, no Estado do Amazonas, e em Dourados, no Mato Grosso do Sul, onde vive um total de 53 mil indígenas. Estas cidades foram escolhidas por causa de seus problemas de desnutrição, consumo de drogas, violência e por serem locais pouco ou nada acessíveis. A expectativa é que os bons resultados que se antecipam possam ser levados para outras regiões do país, disse ao Terramérica o coordenador nacional do Programa, Fernando Moretti. Nestes três anos e meio, o Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre povos indígenas e tribais foi traduzido para as línguas guarani, terena e ticuna. O Brasil ratificou esta convenção em 2002, mas sua aplicação continua sendo um desafio. Também foi publicado um livro com a visão de 25 meninas, meninos e adolescentes de aldeias do Mato Grosso do Sul e do vizinho Paraguai, sobre segurança alimentar e nutricional. O trabalho, que reproduz fotos, cartas e objetos de arte, será distribuído em edição bilíngue português-guarani em escolas, bibliotecas e centros de cultura. “Quando se fala de segurança alimentar, não se trata apenas de produção de alimentos, mas também de capacitação em saúde e autoestima”, destacou Fernando. As ações buscam incentivar as pessoas a usarem de maneira sustentável a diversidade biológica e agrícola da região. As populações tiveram acesso a assistência técnica rural e orientação para implantação de sistemas agroflorestais – que combinam cultivos com aproveitamento sustentável e recuperação da floresta local –, e hortas escolares. Em Dourados, os indígenas reintroduziram a erva-mate e outras espécies nativas com grande potencial comercial. Na aldeia de Panambizinho foram construídos dois viveiros e os habitantes aprenderam a fabricar fogões ecológicos, que reduzem o consumo de lenha, preservam o ecossistema de selva e diminuem a nociva emanação de fumaça. Também foram discutidos conceitos e práticas de alimentação saudável e prevenção de enfermidades. A conscientização e as oportunidades permitiram que o projeto crescesse naturalmente, segundo Fernando. Algumas famílias iniciaram hortas em suas casas. Foram treinados agentes indígenas para medir e pesar bebês e crianças, de modo a passar informação sobre estas populações ao Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional. Em Alto Solimões, a OIT apoia uma associação de artesãs com o estudo de mercado para que seus produtos possam chegar a feiras e aos compradores. Para Fernando, o mais importante foi fortalecer as instituições e ampliar a interação com a população aborígine. A partir de agora, esta conta com dois representantes no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, órgão diretor da política do programa Fome Zero, iniciado no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011). Os indígenas também estão se organizando para participar dos conselhos municipais. Em Dourados, o não governamental Fundo Nacional do Índio (Funai) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) organizaram um encontro para estender uma rede de proteção à infância e adolescência indígenas, e definir o que fazer diante de casos de maus-tratos, abandono e alcoolismo. A experiência se repetirá entre 17 e 19 de junho com as comunidades de Alto Solimões. Também foi feito um mapeamento étnico que inclui a identificação do que cada região produz. “Estas são ferramentas que poderão ser usadas pelos próprios indígenas”, ressaltou Fernando. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS San Pedro de Atacama quer amarrar seus milagres Uma entidade patronal com selo indígena Um cardápio de microproblemas A desnutrição tem rosto indígena no Peru – 2011, em espanhol Programa Conjunto de Segurança Alimentar e Nutricional para Mulheres e Infância Indígenas Fundo para o Êxito dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em espanhol, inglês e francês   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Clarinha Glock*
etanol Ambiente

Etanol de segunda geração se prepara para entrar no mercado

Investimentos para desenvolver tecnologia ultrapassam R$ 2 bilhões. Etanol pode ser fabricado pela celulose de qualquer parte da planta. Em uma disputada corrida tecnológica, o Brasil aparece no seleto grupo de países com chances de descobrir o jeito certo de fabricar, a um custo competitivo, o etanol de segunda geração, também chamado de etanol celulósico. “O Brasil, em termos de pesquisa, está no mesmo nível que outro país europeu ou americano, ou o Japão. Em muitos casos, a gente, inclusive, está à frente, porque nós temos a melhor planta, que é a cana”, afirma Marcos Buckeridge, pesquisador do Instituto de Biociências da USP. Hoje, as usinas de cana produzem etanol a partir da fermentação da sacarose, presente no caldo da cana. É esse açúcar da cana que vira álcool combustível. A diferença para a segunda geração de etanol é que este pode ser fabricado a partir da celulose presente em qualquer parte da planta, como a folha, a palha ou até mesmo o bagaço, ou na matéria orgânica de qualquer outro vegetal. Os investimentos públicos e privados para o desenvolvimento dessa nova tecnologia ultrapassam os R$ 2 bilhões. O grande desafio hoje é produzir um etanol de segunda geração, que seja viável economicamente. “A gente melhora a nossa indústria, e a gente ganha muito do ponto de vista ambiental, na diminuição da produção de gás carbônico na atmosfera”, afirma Buckeridge. O maior centro de pesquisa de cana de açúcar do mundo também corre contra o tempo para descobrir o etanol de segunda geração. É o CTC, Centro de Tecnologia Canavieira, que fica em Piracicaba, no interior de São Paulo. A expectativa é, já para o ano que vem, aumentar em 30% a produção de etanol sem ampliar a área de plantio. “O etanol de segunda geração que a gente está desenvolvendo deverá ter um custo abaixo do custo atual da primeira geração, e isso vai tornar o álcool mais competitivo ainda em relação à gasolina”, afirma Oswaldo Godoy, gerente de projetos do CTC. Quem também está na corrida para lançar comercialmente o etanol de segunda geração é a Granbio, uma empresa privada de biotecnologia que está investindo R$ 350 milhões em uma unidade industrial em São Miguel dos Campos, a 60 quilômetros de Maceió. O projeto prevê o desenvolvimento de uma “super-cana”, com quatro vezes mais celulose que a convencional, que já estaria no mercado a partir do ano que vem. O setor público também não ficou de fora. O laboratório a céu aberto da Embrapa Agroenergia nos arredores de Brasília, na cidade de Planaltina, fica em uma área equivalente a 20 campos de futebol, reservada para as plantas energéticas, aquelas com maiores chances de virar etanol de segunda geração. A espécie mais pesquisada é a cana de açúcar. A colheita de cana de açúcar gera muitos resíduos. Um dos principais é esse a palha, que não costuma ter utilidade ou serventia nas usinas. Outro resíduo é o bagaço, a cana triturada, que gera etanol ou açúcar. “A biomassa do bagaço e da palha já estão praticamente disponíveis na usina, então fica mais fácil o transporte e utilizar um resíduo ou um subproduto que já está lá”, diz Marcelo Aires, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa. A cana de açúcar é apenas uma das opções energéticas. Uma das linhas de pesquisa mais avançadas da Embrapa no desenvolvimento do etanol de segunda geração é a que transforma capim em energia. Onde parece que há uma pastagem comum, os pesquisadores percebem um combustível de excelente qualidade. Chama-se braquiária. É a espécie de pasto mais comum do Brasil. Outra espécie vegetal que poderá ser usada como combustível é o capim elefante, que costuma ser a principal refeição das vacas leiteiras no país. No laboratório da Embrapa, o desafio dos cientistas é descobrir a forma mais rápida e eficiente e de baixo custo para transformar a celulose da cana e de outros vegetais em etanol de segunda geração. “Falta entender cada uma das etapas do processo melhor. Achar a melhor biomassa, os melhores microorganismos que vão fazer o trabalho, e as melhores enzimas que vão quebrar a biomassa em açúcar, para depois ser produzido o etanol”, diz Cristina Machado, pesquisadora da Embrapa Agro Energia. No passado, houve quem duvidasse da capacidade do Brasil desenvolver o etanol da cana. Hoje, estamos próximos de dar um novo salto. A energia do futuro é cada vez mais verde. * André Trigueiro é jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental pela Coppe-UFRJ onde hoje leciona a disciplina geopolítica ambiental, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-RJ, autor do livro Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em Transformação, coordenador editorial e um dos autores dos livros Meio Ambiente no Século XXI, e Espiritismo e Ecologia, lançado na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, pela Editora FEB, em 2009. É apresentador do Jornal das Dez e editor chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News. É também comentarista da Rádio CBN e colaborador voluntário da Rádio Rio de Janeiro. ** Publicado originalmente no site Mundo Sustentável.


por André Trigueiro
Foto: http://eco4u.wordpress.com/ Ambiente

Limites da economia no centro do palco

[caption id="attachment_87416" align="aligncenter" width="402" caption="Foto: http://eco4u.wordpress.com/"][/caption]   Não há como não prestar atenção: são cada vez mais frequentes na comunicação mais especializada informações sobre teses e análises no âmbito econômico que já não se referem às crises do nosso tempo apenas como ciclos em que se exaurem modelos de relações governamentais, empresariais e sociais - à espera de que novas fórmulas nesses âmbitos sejam capazes de levar a novos ciclos de crescimento econômico e prosperidade. Essas novas teses se centram progressivamente na análise do que está sendo chamado de caminhada rumo à exaustão dos "limites físicos" do planeta - o que implicaria a impossibilidade de continuar tentando trafegar por sendas que exijam maior consumo desses recursos com o objetivo de assegurar o crescimento econômico. Ainda há poucos dias o tema voltou à baila com o lançamento do livro do ex-presidente do BNDES (governo FHC) André Lara Resende sob o título Os Limites do Possível - A economia além da conjuntura, onde o autor enfatiza o esquecimento da estrutura física da Terra, seus limites, nas análises da realidade econômica e social (Valor, 26/4). Para ele, "a economia não é uma ciência exata, é parte das ciências sociais", e "foi levada a um beco sem saída, ficou estéril", exatamente por não considerar devidamente os limites físicos da realidade. Nas condições atuais de recursos, "é impossível manter 7 bilhões de pessoas com padrão semelhante ao dos países desenvolvidos". Outros autores têm até quantificado o impasse: hoje a média de uso/consumo de recursos materiais no mundo é de 7 toneladas anuais por pessoa - ou 50 bilhões de toneladas totais e, nos padrões atuais, evoluindo para 63 bilhões de toneladas anuais, com 9 bilhões de habitantes nas próximas décadas. Insustentável, a ponto de já haver quem planeje viagens espaciais para buscar em outros planetas materiais escassos ou em esgotamento por aqui, principalmente para áreas como informática, comunicações e outras. E com agravantes. Relatórios da ONU-Habitat e do Painel de Recursos do Pnuma, ao destacarem que é preciso investir em infraestruturas sustentáveis para reduzir a degradação ambiental e a pobreza, lembram que 75% dos recursos do mundo são consumidos nas cidades, que têm pouco mais de 50% da população, mas evoluirão para 70% até 2050 e para maior consumo de recursos. Quem tiver memória há de se lembrar do pronunciamento do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na conferência Rio+20, quando causou polêmica ao afirmar que "o modelo econômico e social no mundo está falido", para depois substituir a palavra "falido" por "exaurido". O economista Gian Carlo Delgado Ramos, da Universidade Nacional Autônoma do México, comenta (Nueva Sociedad, março/abril de 2013) alguns números que corroboram o pensamento do secretário-geral da ONU: enquanto no século 20 a população mundial se multiplicou por quatro, o consumo médio de energia multiplicou-se por 12; o de metais, por 19; o de materiais para construção, por 34. Com a agravante de que 10% da população consome 40% da energia e 27% dos materiais. Ao mesmo tempo, 20% da população concentra 83% da riqueza, enquanto os 20% mais pobres ficam com 1,4%. E 5% da população gera 25% do lixo. Não seria, assim, espantoso que uma equipe de matemáticos e filósofos do Instituto do Futuro da Humanidade, da Universidade de Oxford, esteja prevendo que "o fim do Homo sapiens pode chegar ainda no final deste século". Ao lado dos "desastres naturais", a ameaça estaria no uso sem limites da biologia sintética, das nanotecnologias no nível atômico ou molecular, no uso de inteligência artificial (EcoD, 26/4). Não estranha, também, que Mikhail Gorbachev, o criador da perestroika e da glasnost, que acabaram transformando a área socialista, venha dizer agora (Estado, 19/4) que o mundo sofre com um "déficit de líderes e essa situação pode ser catastrófica para o ambiente". Jean Ziegler, ex-relator da ONU para o combate à fome, ao lançar o livro Destruição em Massa - Geopolítica da Fome (5/5), transpõe a questão para o caso do Brasil - que, a seu ver, precisa de uma "virada de 180 graus em sua política de combate à fome", porque o Bolsa-Família chegou ao limite assistencial; e o governo não consegue avançar por causa dos acordos de sustentação política no Congresso, onde a bancada ruralista impede políticas adequadas para a agricultura familiar e de pequenas propriedades (que respondem por 70% do abastecimento interno). O ex-ministro Mangabeira Unger aponta para "o esgotamento do modelo desenvolvimento interno", segundo ele, "montado sobre a expansão do consumo e exploração da natureza". Um novo modelo precisaria de "produtivismo includente, educação capacitadora e democratização aprofundada" (Folha de S.Paulo, 9/5). Chega-se a Herman Daly, da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Maryland, autor de numerosos estudos e relatórios da ONU. Estamos, diz ele, diante do fracasso da economia voltada para o crescimento; "é preciso tentar uma economia do estado estacionário(...) os países ricos devem reduzir o aumento de seu padrão para deixar livres recursos e espaço ecológico, de modo que estes possam ser usados pelos países pobres"; ao mesmo tempo, "concentrar seus esforços no plano interno no desenvolvimento de melhores técnicas que possam ser compartilhadas livremente pelo resto do mundo" (Nueva Sociedad, março/abril de 2013). E mais: "O crescimento econômico já se transformou em antieconômico. A economia voltada para o crescimento está fracassada. A expansão quantitativa do subsistema econômico faz com que os custos ambientais e sociais cresçam mais rapidamente que os ganhos da produção; e assim nós temos mais pobres, e não mais ricos". No momento em que a ONU ressalta que faltam mil dias para a aprovação dos Objetivos do Milênio, essa discussão toda certamente ocupará o centro do palco. * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


por Washington Novaes*
Foto: Divulgação/ Internet Ambiente

Transformar lixo em riqueza depende primeiro do fabricante

[caption id="attachment_87402" align="aligncenter" width="500" caption="Foto: Divulgação/ Internet"][/caption]   O principal instrumento que permitiu aos países desenvolvidos ampliar de maneira significativa a reciclagem de resíduos sólidos, desde o início do milênio, é a responsabilidade ampliada do produtor (Extended Producer Responsibility, na expressão em inglês). Relatório recém-publicado pela agência ambiental europeia mostra que a quantidade de lixo incinerada ou mandada para aterros reduziu e que a reciclagem, no continente, passou de 23% a 35% dos resíduos, entre 2001 e 2010, um aumento muito considerável. Mais que isso: a Alemanha vem conseguindo descasar a produção de riqueza da geração de lixo. Relatório do Bifa Environmental Institute mostra que, entre 2000 e 2008 (portanto, antes da crise), o PIB, em termos reais, cresceu quase dez por cento, e o volume de lixo caiu nada menos que 15%. A intensidade em lixo da vida econômica, medida decisiva para avaliar a qualidade da relação que uma sociedade mantém com seus recursos ecossistêmicos, declina mais de 22%. Maior riqueza e menos lixo: como isso é possível? A responsabilidade ampliada do produtor ajuda a responder essa pergunta. O conceito, que hoje se encontra no âmago das políticas europeias e é adotado também em vários Estados norte-americanos, foi usado pela primeira vez em 1990 pelo pesquisador Thomas Lindhqvist num relatório para o Ministério do Meio Ambiente da Suécia. Vale a pena citar sua própria definição: "A responsabilidade ampliada do produtor é uma estratégia de proteção ambiental para alcançar o objetivo de reduzir o impacto ambiental de um produto tornando seu fabricante responsável pelo conjunto do ciclo de vida do produto e, especialmente, por sua coleta, sua reciclagem e sua disposição final". É claro que, para que isso ocorra, o consumidor tem que fazer uma separação correta, os comerciantes devem possuir dispositivos onde alguns resíduos serão colocados, e o governo precisa organizar a coleta nos domicílios. Mas é ilusão imaginar que o avanço europeu recente na redução do lixo e na elevação da taxa de reciclagem seja apenas devido ao nível educacional da população e à eficiência das prefeituras. O fundamental, e que em última análise responde pelos bons resultados europeus, é a responsabilidade do fabricante pelo conjunto do ciclo de vida do produto. No caso francês, por exemplo, já existem 19 cadeias produtivas em que vigora um ecoimposto que contribui para financiar os sistemas municipais de coleta e reciclagem. Quem produz o detrito paga antecipadamente (e cobra de seu consumidor, é claro) por dar-lhe a destinação correta. Acaba de ser aprovada uma lei segundo a qual quem compra uma cadeira paga 0,20 euros por sua reciclagem futura e 4 euros para que um colchão não acabe na rua ou num rio. É uma prática contrária à que marcou o crescimento econômico do século 20. Na prática corrente até aqui, a vida econômica se organiza de maneira linear, a partir do procedimento "pega-produz-consome-joga". Os produtos vão do berço à sepultura e, para fazer novos produtos, recorre-se novamente a matérias-primas virgens, que alimentam processos produtivos, cujos resultados são consumidos e, em seguida, jogados fora. O problema é que não existe esse "fora". A escassez e o encarecimento das matérias-primas, as possibilidades cada vez mais limitadas de encontrar espaços para aterros e os custos exorbitantes da incineração abrem caminho a que os agentes econômicos passem a tratar como fonte de riqueza os materiais até então destinados ao lixo. Relatório recente da Fundação Macarthur fala em economia circular, em oposição à economia linear do "pega-produz-consome-joga": a economia circular é aquela em que parte crescente dos resíduos é usada como insumo na fabricação de novos produtos. Numa economia circular, a própria concepção do produto, seu design, já incorpora e amplia as possibilidades de recuperação e reutilização dos materiais nele contidos. Isso revoluciona, por exemplo, a maneira como são fabricados bens eletrônicos, cujas ligas devem prever recuperação e manuseio fácil, sem o que o destino de materiais, muitas vezes raros e preciosos, acabará sendo o lixo e, pior, o lixo tóxico, já que a separação dos componentes é muito difícil. Existindo responsabilidade ampliada do produtor, o fabricante exigirá de seus engenheiros um produto que, contrariamente ao que ocorre hoje, facilite o trabalho da reciclagem e, preferencialmente, o reuso da maior parte daquilo que o integra. O trabalho da Fundação Macarthur mostra que, na Grã-Bretanha, a substituição de garrafas descartáveis de cerveja pela velha prática do depósito de vasilhame permitiria, por exemplo, a redução de 20% do custo total do produto. Onze Estados norte-americanos já adotaram leis que obrigam a volta dessa prática. O consumo de cerveja "one-way", por exemplo, pode ser mais confortável, mas, se o seu custo real estiver incorporado ao produto, caberá ao consumidor saber se deseja, de fato, pagar por ele. São exemplos importantes e que oferecem lições valiosas, neste momento em que, no Brasil, se estabelecem os acordos setoriais que vão dar vida para a nossa Política Nacional de Resíduos Sólidos. Acabar com os lixões, melhorar a situação dos catadores e ampliar seu papel no interior da política são objetivos decisivos. Mas a capacidade de a PNRS diminuir a produção de lixo e ampliar a reciclagem depende, antes de tudo, de mecanismos que estimulem os fabricantes a usar menos materiais, menos energia e propiciar à sociedade maiores oportunidades de transformar lixo em riqueza. É fundamental então que fique claramente esclarecida sua responsabilidade pelos resíduos ligados aos produtos que colocam no mercado. * Ricardo Abramovay é professor titular da FEA e do IRI-USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, e autor deMuito Além da Economia Verde, lançado na Rio+20 pela Editora Planeta Sustentável. ** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/ Folha de S. Paulo.


por Ricardo Abramovay*
codigoflorestal Ambiente

Observatório do Código Florestal acompanhará implementação da nova lei

Após uma longa disputa política, o Novo Código Florestal (Lei Federal nº 12.651/2012) entrou em vigor em 25 de maio de 2012 e em seu primeiro ano de vigência muito pouco foi feito: nenhum dos 27 Estados aprovou ainda seu Programa de Regularização Ambiental (PRA), cerca de 4,5 milhões de propriedades rurais precisam entrar no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o artigo 41, que prevê incentivos econômicos para as propriedades rurais que não desmataram ilegalmente, ainda não foi regulamentado. Nesta terça-feira, 21 de maio, às 14h, organizações socioambientais se unem para lançar o Observatório do Código Florestal, com o objetivo de monitorar a regulamentação e a implementação da nova lei florestal e avaliar com transparência, objetividade e consultas locais o desempenho dos Estados em cumprir a lei. O lançamento acontece durante o segundo painel do seminário “Um Ano de Vigência do Novo Código Florestal”, na Câmara dos Deputados, em Brasília (Anexo II – Plenário nº 12). Promovido pela Comissão Mista de Mudanças Climáticas e pela Frente Parlamentar Ambientalista, o seminário tem como objetivo marcar o primeiro aniversário da lei e fazer um balanço de avanços, retrocessos e entraves. A programação acontece das 9h às 18h. Participam da criação do Observatório o Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM), o WWF-Brasil, a Fundação SOS Mata Atlântica, Instituto Centro de Vida (ICV), o Instituto Socioambiental (ISA), juntamente com The Nature Conservancy (TNC) e a Conservação Internacional. Mas ele estará aberto a adesões de outras organizações da sociedade. Cada organização tem liberdade de posicionamento e atuação. O Observatório vai coletar, sistematizar e analisar informações, mas não assumirá posições políticas. Para apresentar seu posicionamento, durante o seminário, às 15h15, representantes de diversas organizações participarão do painel “Diferentes visões sobre a implementação da nova Lei”. Entre os presentes, Suelma Rosa, representante nacional da TNC, falará sobre os desafios para o monitoramento do novo Código Florestal. “Nós desenvolvemos diversas estratégias e incentivos reais para que o Código Florestal seja cumprido de fato. Um exemplo, e que pode colaborar para o acompanhamento da sociedade, é a tecnologia que utilizamos para desenvolver o software utilizado no mecanismo do Cadastro Ambiental Rural (CAR)”, afirma. Além de produzir indicadores sobre a implementação do CAR e dos PRAs, o Observatório vai realizar consultas públicas nos estados para identificar juntamente com produtores rurais e governos locais os gargalos e entraves à regulamentação e cumprimento do novo Código Florestal. “Além de participar do Observatório, estamos lançando diversos grupos de trabalho que acompanharão a implementação e cumprimento do Código Florestal nos estados da Mata Atlântica. Até o fim do ano serão 17. A exemplo do que fizemos com a Lei da Mata Atlântica, queremos levar essas discussões para os Estados, evitando que as decisões e debates aconteçam apenas em Brasília”, afirma Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica, que participará da mesa de abertura do evento, às 9h, e do lançamento do Observatório do Código Florestal, às 14h. SERVIÇO Seminário Um Ano de Vigência do Novo Código Florestal 21 de maio, terça- feira – das 9h às 18h Lançamento do Observatório do Código Florestal Às 14h Local: Câmara dos Deputados – Anexo II – Plenário nº 12, Brasília-DF * Publicado originalmente no site SOS Mata Atlântica.


por Redação do SOS Mata Atlântica
Trecho entre Itaóca e Iporanga onde fica Porto Velho, no Vale do Ribeira Ambiente

Falta de água potável impede certificação de unidades produtivas quilombolas do Vale do Ribeira

[caption id="attachment_87475" align="aligncenter" width="500" caption="Trecho entre Itaóca e Iporanga onde fica Porto Velho, no Vale do Ribeira"][/caption]   Conhecido por sua beleza e biodiversidade de águas e nascentes, o Vale do Ribeira (SP) vêm sofrendo com a falta de água potável em algumas comunidades. Em Iporanga, por exemplo, fica a Casa do Mel do quilombo de Porto Velho que para funcionar de acordo com as normas sanitárias precisa de água de boa qualidade. Há tempos, a comunidade de Porto Velho, em Iporanga, no Vale do Ribeira, reivindica uma solução para o abastecimento de água potável às famílias. Por conta da composição geológica do terreno, a água das nascentes é salobra e essa falta de água de qualidade têm trazido problemas de saúde para os moradores. Além disso, é em Porto Velho que funciona Casa do Mel, inaugurada em outubro de 2011, e a associação do quilombo precisa agora registrar as unidades de beneficiamento de mel e de mandioca. (veja quadro no final do texto) Para conseguir a Certificação Sanitária as unidades produtivas precisam de água de boa qualidade. [caption id="attachment_87476" align="alignright" width="360" caption="Reunião em Iporanga tratou da qualidade da água"][/caption] Por essa razão, a Associação Quilombola de Porto Velho reuniu-se no dia 29 de abril com parceiros - Instituto Socioambiental e Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo - e órgãos governamentais - Sabesp, Prefeitura de Iporanga, Câmara Municipal de Iporanga e Prefeitura de Itaóca, que também sofre com a falta d’água - para buscar uma solução. O representante da Sabesp, Flávio Rocha apresentou as possibilidades de colaboração da empresa com as prefeituras na solução do problema e também as dificuldades, principalmente porque os custos de trazer água tratada e esgoto para a zona rural ainda são muito altos. Ele destacou, porém, que não é impossível pensar em uma estratégia de estender a rede de Itaóca até Porto Velho, que embora fique no município de Iporanga está territorialmente mais próximo de Itaóca. Os prefeitos de Iporanga e Itaóca, Valmir da Silva e Rafael Rodrigues de Camargo respectivamente reconheceram o problema da água e se comprometeram a buscar uma solução. Ao fim da reunião, os presentes elaboraram uma carta destinada aos órgãos públicos do Estado de São Paulo - Casa Civil, secretário de Saneamento e Recursos Hídricos e Conselho Curador da Secretaria de Justiça e da Defesa da Cidadania. Os prefeitos se responsabilizaram por levar a discussão à Casa Civil e Secretaria de Recursos Hídricos e buscar solução conjunta entre os dois municípios para viabilizar o abastecimento de água potável para as unidades de beneficiamento nas comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. A Casa do Mel de Porto Velho é o resultado de um projeto da comunidade em parceria com o Instituto Socioambiental e o Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), com apoio da Fundação Banco do Brasil. Em 2013, o projeto foi ampliado para atender as demandas nas atividades de manejo e comercialização do mel de mais cinco comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. Mas sem água de boa qualidade, o projeto todo estará prejudicado. * Esta notícia está associada ao Programa Vale do Ribeira. ** Publicado originalmente no site Instituto Socioambiental. 


por Renato Nestlhener, do ISA
The_Amazon_meets_Rio_Nanay Ambiente

Ciclo hidrológico da Amazônia pode ser tornar mais extremo, diz estudo

Desde o último mês, alguns estados pertencentes à Amazônia têm enfrentado situações de emergência em função da cheia de alguns afluentes do rio Amazonas, como o Negro e o Solimões. Nesta quinta-feira, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) divulgou que o nível do rio Negro deve chegar a 29,46 metros em 15 de junho, quando deve ocorrer o pico da enchente. As inundações já atingiram quase 80 mil pessoas, sendo que 29 cidades estão em estado de alerta. Por outro lado, tanto em 2005 quanto em 2010 a Amazônia atravessou secas históricas, com impactos que apontam para uma tendência de degradação da floresta. De fato, a alternância de enchentes e secas é um fenômeno cíclico natural que acontece na região, mas, segundo uma nova pesquisa publicada no periódico Geophysical Research Letters, esses ciclos podem se tornar cada vez mais extremos e imprevisíveis. O estudo, desenvolvido por cientistas da Universidade de Leeds, no Reino Unido, analisou mensalmente o deságue do Rio Amazonas em Óbidos, no Pará, que recebe 77% das águas da bacia amazônica, e comparou com os padrões regionais de precipitação e com dados sobre a temperatura superficial das águas do Oceano Atlântico. Os pesquisadores observaram que, nos últimos 20 anos, houve uma grande intensificação do ciclo hidrológico amazônico, com um aumento do deságue durante a estação chuvosa e eventuais secas severas. “A captação do maior rio do mundo se tornou substancialmente mais úmida desde o final do século XX, começando aproximadamente em 1990 com uma tendência simultaneamente forte para um aumento na amplitude anual do deságue do rio e um aumento da severidade dos eventos”, escreveram os estudiosos. Os autores explicam que o aumento nos extremos do ciclo hidrológico amazônico se deve à relação entre as temperaturas superficiais do Atlântico e os padrões de precipitação na Amazônia. Quando as temperaturas do mar aumentam, algo que se está intensificando com as mudanças climáticas, há uma queda na precipitação amazônica por causa de um deslocamento que ocorre na Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que detém umidade. A zona passa a se mover em direção ao Caribe, e fornece menos umidade à região amazônica. Os cientistas admitem que as descobertas não afirmam que a bacia amazônica está secando, mas que as “o início na tendência de aumento [nas secas] coincide com o início de uma tendência de aumento similar nas temperaturas superficiais do mar Atlântico Tropical, o que sugere que os dois fenômenos podem estar relacionados, possivelmente através de um aumento no vapor d’água importado do Oceano Atlântico Tropical”. Os pesquisadores também observaram que as diferenças cada vez maiores entre os picos anuais de cheias e secas “pode ter grandes implicações tanto para o funcionamento dos ecossistemas naturais e a população que vive ao longo das áreas de várzea amazônica e depende delas para seu sustento”. Citação: Intensification of the Amazon hydrological cycle over the last two decades, Geophysical Research Letters. DOI: 10.1002/grl.50377, 2013 * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Jéssica Lipinski, do CarbonoBrasil
Foto: www.pragmatismopolitico.com.br Ambiente

Relatório Figueiredo: “Exame de consciência de como o Brasil tratou e trata os povos indígenas”

[caption id="attachment_87464" align="alignleft" width="300" caption="Foto: www.pragmatismopolitico.com.br"][/caption] “Como criar a possibilidade de ouvir constantemente os povos indígenas num espaço como o Congresso? Se dependermos exclusivamente de uma disputa de votos em eleição direta, vai ficar difícil”, afirma o antropólogo Spensy Pimentel. “A ida da ministra Gleisi Hoffman ao Congresso, na semana passada, anunciando a revisão da forma como são demarcadas as terras indígenas, assinala um agravamento da crise”, diz Spensy Pimentel à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail. Para o antropólogo, transferir a responsabilidade do processo de demarcação das terras indígenas no Mato Grosso do Sul para a Embrapa não é uma solução. “Num momento como este, o que precisa ficar claro é que a Funai precisa ser, além de respaldada e apoiada, fortalecida. O que não pode ocorrer é que ela seja esvaziada. Não se trata de retirar poderes da Funai, trata-se de dar a ela condições de cumprir o papel que deveria cumprir e de colocar outros órgãos para ajudá-la”, assinala. E dispara: “Ainda que a Funai tivesse o orçamento e os recursos humanos para fazer o que tem que ser feito, ela precisaria de um respaldo político que está além do seu alcance. É preciso que a Presidência da República e o Ministério da Justiça assumam sua responsabilidade”. Na avaliação de Pimentel, apesar de o Estado brasileiro, através da Comissão Nacional da Verdade, ter dado início a uma revisão da historiografia indígena, “no seu afã de promover o desenvolvimento, ainda há muita dificuldade de dialogar com os povos indígenas quando se trata de levar projetos a regiões onde eles estão presentes. É preciso olhar o passado para tentar fazer diferente. Não é possível que se construam usinas no Xingu ou no Tapajós como se construiu Itaipu, sem o menor respeito aos povos indígenas”. Na entrevista a seguir, Spensy Pimentel também comenta os desdobramentos do Relatório Figueiredo, elaborado entre 1967 e 1968, que documenta casos de tortura e trabalho escravo entre os indígenas brasileiros durante a ditadura militar. “Documentos como o Relatório Figueiredo podem ser importantes para que o país se repense, para que nós façamos um exame de consciência em relação à forma como o Brasil tratou e ainda trata os povos indígenas”, aponta. Spensy Pimentel é doutor e mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo – USP, onde graduou-se em Jornalismo. Confira a entrevista: IHU On-Line – O que é o Relatório Figueiredo e quais as principais denúncias feitas nele? Spensy Pimentel – Em síntese, poderíamos dizer que é um relatório feito entre 1967 e 1968 por um funcionário do Ministério do Interior, após encomenda do ministro à época a fim de apurar repetidas denúncias que eram feitas na imprensa e no meio político acerca de problemas no Serviço de Proteção ao Índio – SPI. A tal ponto esse conjunto de denúncias repercutiu que o SPI foi dissolvido, e em seu lugar se criou a Fundação Nacional do Índio – Funai. Mas dizer isso é dizer muito pouco, na verdade. Creio que ainda estamos entendendo o que é o Relatório Figueiredo e quais são suas consequências. É preciso avançar numa compreensão mais ampla do que foi todo esse processo de investigação e denúncia dos abusos do antigo SPI ao longo dos anos 1960. Como tem refletido o pesquisador Marcelo Zelic, do Tortura Nunca Mais, que tem sido o divulgador dessa cópia do documento que foi encontrada, a coisa toda começou com uma CPI, ainda no governo Jango, mas depois o golpe de 1964 atrapalhou o andamento da discussão pública a respeito do que estava havendo. É hora de retomar essa conversa, encontrar as pessoas que participaram dela e que ainda estão vivas, para entender melhor tudo isso. IHU On-Line – O que o Relatório Figueiredo aponta, especificamente, em relação ao Serviço de Proteção aos Índios – SPI? Spensy Pimentel – É preciso observar que, independentemente de “fulanizar” a discussão, de pensar o relatório como um conjunto de acusações nominais, com finalidade administrativa, temos um relato de alguém que visitou mais de 130 postos indígenas na época, ao longo de uma viagem que percorreu diversas regiões do país. Isso é suficientemente representativo, me parece, para percebermos traços recorrentes, que definem, como um todo, um modo de agir do Estado brasileiro na época em relação aos povos indígenas. Os funcionários não agiam como agiam por inclinação pessoal, simplesmente. Não se trata de problemas localizados, isolados. O que aconteceu naquela época foi que o país se olhou no espelho, percebeu o que tinha sido o resultado nefasto de um projeto que tinha começado com um tom humanista, com a figura do Marechal Rondon, e que tinha saído completamente do rumo. E mais: as pessoas, talvez, tenham tido a oportunidade de perceber que o próprio impulso “humanista” que tinha fundado o SPI era um equívoco, porque, muitas vezes, estava ligado a um projeto de transformar o índio, de civilizá-lo, de “melhorá-lo” (o que queria dizer: torná-lo igual a nós), em vez de ser um projeto de chegar até esses outros que são os povos indígenas para conhecê-los e, por meio desse contato, nós mesmos nos alterarmos. Além disso, claro, há nesse documento evidências importantes sobre vários casos de esbulho e de violência que poderão ajudar a entender melhor o tamanho da dívida que o país tem com vários povos indígenas. [caption id="attachment_87465" align="alignright" width="300" caption="Foto: www.estradasecaminhos.blogspot.com.br"][/caption] IHU On-Line – Estudiosos da questão declararam que o Relatório Figueiredo pode servir para corrigir injustiças históricas. Em que sentido isso tende a acontecer e como, a partir dele, será rediscutida a historiografia em relação aos indígenas? Spensy Pimentel – Em primeiro lugar, o relatório é uma oportunidade para rediscutir a historiografia do regime militar como um todo. Fica claro que a repressão no campo, na floresta, longe das cidades, foi a “outra face da moeda” da ditadura. Nas grandes cidades, os opositores eram calados. Mas, o que muitos desses opositores – muitas vezes, jornalistas, pesquisadores etc. – revelariam caso tivessem oportunidade? Justamente o tipo de barbárie que se vê no relatório: abusos que eram praticados em nome da civilização, do desenvolvimento, do progresso, tudo o que estava no cerne da ideologia aplicada pelos militares. Há, evidentemente, diversos casos em que poderá ajudar não só esse documento, mas vários outros que certamente hão de vir à luz com os debates propiciados pela Comissão Nacional da Verdade. Por enquanto, é hora de estudar os relatos e procurar os grupos indígenas citados para entender melhor as denúncias, que, durante muito tempo, foram abafadas. Por exemplo, como já tem vindo à tona, há as terras kadiweu, no Pantanal, que haviam sido concedidas por Dom Pedro II como recompensa pelo apoio dos indígenas na Guerra do Paraguai – boa parte delas foi tomada com a conivência de funcionários corruptos, e o documento talvez possa ajudar a provar isso na Justiça. Guarani Há questões como a dos Guarani que estão no litoral do Sudeste: o documento mostra muitas denúncias sobre torturas, humilhações e trabalho forçado nos postos indígenas do Paraná e da região Sul, de modo geral. Com esse tipo de informação, poderemos entender melhor qual foi o sentido de muitos desses indígenas se deslocarem para as matas da Serra do Mar: eles estavam fugindo de uma situação de opressão. Temos até muitos casos de Guarani que tiveram de fugir do país, cruzar a fronteira para o Paraguai, ou a Argentina, a fim de escapar da perseguição que era movida por fazendeiros e por agentes públicos. Absurdamente, hoje, quando eles, ou seus filhos, retornam ao país para cobrar seus direitos, são acusados de serem estrangeiros. No fim das contas, documentos como o Relatório Figueiredo podem ser importantes para que o país se repense, para que nós façamos um exame de consciência em relação à forma como o Brasil tratou e ainda trata os povos indígenas. Nós já tivemos, nos últimos 25 anos, uma pequena revolução na forma de tratar a questão negra. A tese da “democracia racial”, de uma “escravidão cordial” é cada vez mais uma peça de museu. Os negros vêm conquistando cada vez mais espaços na sociedade brasileira. Falta ainda, contudo, penso eu, que o país pare para repensar a questão indígena. Por exemplo, ainda é muito comum que as pessoas aprendam que a escravidão indígena não foi algo significativo na nossa história. Os povos indígenas foram, sim, vítimas do trabalho forçado – e, por sinal, em muitas regiões, têm sua força de trabalho explorada de forma terrível até hoje. Vide, por exemplo, as várias operações de fiscalização que flagraram indígenas trabalhando em condições análogas à escravidão em usinas de açúcar e álcool em Mato Grosso do Sul. Não é por acaso que no período colonial os indígenas foram chamados de “negros da terra” (em oposição aos negros que vinham da África). Os povos indígenas não são um resquício do passado, eles são parte do nosso presente, e é junto com eles que o país poderá construir o seu futuro, que será tão mais brilhante quanto mais nós tenhamos capacidade de incluí-los, enquanto povos, nessa discussão sobre o futuro. Porque, ao prever um espaço para eles no futuro do país, estamos alargando nossa perspectiva de mundo, estamos criando um mundo onde podem caber muitos mundos, para usar uma imagem proposta pelo movimento indígena mexicano. IHU On-Line – Qual a repercussão nacional e internacional da descoberta do Relatório Figueiredo? As informações são de que ele está quase intacto depois de 45 anos. Spensy Pimentel – Por enquanto, como eu dizia, os estudiosos ainda estão acessando o documento para conferir melhor o que há de novidade. De qualquer modo, a descoberta do relatório, evidentemente, atrai atenção da imprensa, dos pesquisadores mais jovens, e isso pode ser positivo para que tenhamos um fôlego novo no estudo dessa temática. (São milhares de páginas, fazendo-se preciso muita dedicação.) Isso é fundamental porque é preciso que não se perca a indignação com o que está retratado aí. Sobretudo, que não se perca a indignação em função de picuinhas, de questões menores. Não se pode descredenciar o documento por causa de uma acusação de corrupção que não possa ser provada, quando ele traz dezenas de acusações de tortura, violência sexual, escravidão que podem ser comprovadas facilmente pelo testemunho, a memória de centenas de indígenas espalhados país afora. IHU On-Line – Quais são os elementos para uma teoria política kaiowá e guarani e em que ela consiste? Spensy Pimentel – Esse é o tema de minha tese de doutorado. A ideia foi investigar como os Kaiowa e Guarani pensam e agem em relação àquilo que nós costumamos chamar de “política”. Eu busquei entender o sentido da ação das lideranças, dos xamãs – essa parte do estudo pode ser conferida no vídeo “Mbaraka – A Palavra que age” –, sobretudo no movimento Aty Guasu (grande reunião), que surge em torno da organização de grandes assembleias, desde os anos 1980. Embora não tenham merecido muita atenção por aqui nas últimas décadas, as assembleias indígenas como as Aty Guasu são, desde os primeiros contatos com os europeus, uma fonte de imensa aprendizagem política. Para que se tenha ideia, as assembleias da Liga Iroquesa, no século XVIII, foram uma grande fonte de inspiração para o debate em torno da Constituição dos Estados Unidos. Um olhar mais atento ao movimento indígena pode revigorar nossa reflexão e nossas práticas políticas – é o que tem acontecido no México desde os anos 1990, a partir do levante zapatista. As assembleias indígenas guardam importantes lições sobre democracia e autonomia. Os xamãs também nos convidam a olhar o meio ambiente de outra forma, questionando essa tendência ocidental de tratar terra, plantas e animais como “recursos naturais” – como algo de que se extrai proveito econômico meramente. Uma atenção à relação dos indígenas com suas lideranças também pode ser importante para que nos questionemos sobre a forma passiva, alienada, como nos comportamos, muitas vezes, em relação a nossos governantes. IHU On-Line – Enquanto a Comissão Nacional da Verdade investiga os crimes cometidos contra indígenas no país, os parlamentares brasileiros sugerem várias Propostas de Emenda à Constituição, a exemplo da PEC 215, e o governo federal assume uma postura de garantir o desenvolvimento nacional desconsiderando a ocupação dos territórios indígenas. Como vê essa postura do Estado brasileiro em relação à questão indígena? Spensy Pimentel – O momento é, evidentemente, gravíssimo, como muitos já têm dito. É um momento de crise profunda. Eu poderia fazer muitas críticas, mas isso não vai ajudar a resolver os problemas. Estamos num momento novo, em que o Brasil não é mais aquele país pobre, subdesenvolvido, a quem os Estados Unidos ou a Europa podiam mandar “ajoelhar no milho” por conta de algum problema interno nosso. Temos de passar, aqui mesmo, no Brasil, por um processo de discussão mais séria a respeito da relação do país com os povos indígenas. As coisas ainda são muito mal resolvidas. O Estado brasileiro, no seu afã de promover o desenvolvimento, ainda tem muita dificuldade de dialogar com os povos indígenas quando se trata de levar projetos a regiões onde eles estão presentes. É preciso olhar o passado para tentar fazer diferente. Não é possível que se construam usinas no Xingu ou no Tapajós como se construiu Itaipu, sem o menor respeito aos povos indígenas. Também há muitos esqueletos no armário, quando se trata da questão fundiária. Injustiças horríveis foram cometidas ao longo do século XX, isso precisa ser reconhecido. Em lugares como o Mato Grosso do Sul -MS, a fronteira agrícola avançou literalmente atropelando povos como os Guarani-Kaiowá. Não é só o poder público que precisa ser cobrado, há o empresariado também. Nosso agronegócio é um destaque mundial hoje, e não é possível que as empresas do setor – frequentemente, multinacionais enormes – sejam tão insensíveis à necessidade de resolver a questão fundiária em lugares como MS. O clima de insegurança não é bom para ninguém, mas não adianta os ruralistas ficarem tratando os indígenas como idiotas, como se eles fossem manipulados por antropólogos e indigenistas “alinhados com interesses estrangeiros” (quando falam isso, me sinto como na época da Guerra Fria, sendo acusado de “agente comunista”). Diálogo A democracia é um processo em permanente construção. As pessoas precisam aprender a conversar. O sinal mais evidente de que precisamos aprimorar nossa forma de diálogo com os povos indígenas veio daquela cena da ocupação do plenário do Congresso por centenas de lideranças, algumas semanas atrás. Nós vamos nos assustar e correr, como aqueles deputados fizeram, num primeiro momento? É preciso incluir esse tipo de desafio quando se discute, por exemplo, uma reforma política para o país. Como criar a possibilidade de ouvir constantemente os povos indígenas num espaço como o Congresso? Se dependermos exclusivamente de uma disputa de votos, em eleição direta, vai ficar difícil. Até hoje, só um indígena, o xavante Mario Juruna, conseguiu ser eleito deputado, nos anos 1980 – e foi para um só mandato, e ainda por cima, pelo Rio de Janeiro, graças à proximidade dele com o Darcy Ribeiro, não pelo Mato Grosso, estado natal dele. IHU On-Line – Além de reconhecer as injustiças históricas, quais medidas deveriam se esperar do Estado brasileiro? Spensy Pimentel – O mais urgente seria encarar as situações críticas, em termos fundiários, como a de Mato Grosso do Sul, criando mesas de negociações, incluindo fazendeiros e indígenas. Estamos todos lidando com situações que não foram construídas no tempo de um governo; elas são resultado de décadas de erros, omissões e violências. Além disso, em relação aos empreendimentos que afetam terras indígenas – na Amazônia, sobretudo –, é urgente que se estabeleça diálogo quanto ao que está previsto na Convenção 169 da OIT, que exige consultas prévias às populações afetadas por projetos como as usinas hidrelétricas. Não há um acordo sobre como devem ser realizadas essas consultas, e isso dificulta muito a situação. Não adianta fazer de conta que a convenção não existe – ela foi ratificada pelo Congresso brasileiro em 2002 e, depois, promulgada por decreto presidencial em 2004! Também, é preciso mais seriedade na fiscalização das condicionantes que as empresas assumem nesses projetos. A falta de compromisso em relação a essa questão está desmoralizando o processo e gerando posturas cada vez mais radicais, porque desesperadas, diante da falta de diálogo, da indiferença. IHU On-Line – Como avalia os últimos acontecimentos em torno da questão indígena no país, especialmente a possibilidade de a Embrapa ser responsável por demarcar as terras indígenas no MS, e a tentativa de esvaziar a Funai? Spensy Pimentel – A ida da ministra Gleisi Hoffman ao Congresso, na semana passada, anunciando a revisão da forma como são demarcadas as terras indígenas, assinala um agravamento da crise que eu apontava numa das respostas acima. No momento, estamos todos ansiosos para conhecer as propostas que o governo fará. Creio que muitos de nós – sobretudo os que, como eu, têm visto de perto situações graves como a de MS – reconhecerão que o governo precisa, mesmo, agir, porque deixar toda a responsabilidade pela mediação dos conflitos com a Funai é algo temerário. Agora, num momento como este, o que precisa ficar claro é que a Funai precisa ser, além de respaldada e apoiada, fortalecida. O que não pode ocorrer é que ela seja esvaziada. Não se trata de retirar poderes da Funai; trata-se, isto sim, de dar a ela condições de cumprir o papel que deveria cumprir e de colocar outros órgãos para ajudá-la. Em alguns casos, seria até necessário organizar um mutirão de diversos órgãos do governo federal. Por exemplo, o caso guarani-kaiowá é extremamente complexo, uma verdadeira crise humanitária, envolve assassinatos, suicídios, mortes por desnutrição infantil (fome), todas as mazelas imagináveis. A Funai jamais será capaz de cuidar disso sozinha. Embora o movimento indígena por lá sempre enfatize que a demarcação de terras é condição sine qua non para enfrentar a crise, isso precisa ficar claro. Ainda que a Funai tivesse o orçamento e os recursos humanos para fazer o que tem que ser feito, ela precisaria de um respaldo político que está além do seu alcance. É preciso que a Presidência da República e o Ministério da Justiça assumam sua responsabilidade. Sei que os marqueteiros que hoje guiam os passos de nossos governantes jamais os aconselhariam a enfrentar esse tipo de situação. Sejamos claros: usando o jargão, é algo que “não dá voto”, um tema espinhoso, com grandes chances de abalar imagens de incautos. Falar bobagem quando se está tratando de povos indígenas é muito fácil. Realpolitik Num país como o Brasil, o bom trato com a questão indígena ajuda a definir o grau de nobreza de um governo. Porque os indígenas, aqui, não são expressivos, em termos eleitorais, mas eles são um componente da mais alta relevância no que se refere a nossa história e nossa identidade como brasileiros. É preciso que exijamos do governo algo além de uma atitude pragmática, de uma realpolitik que ignora um passado de altos ideais de toda a militância de esquerda deste país. Chico Mendes, por exemplo, foi um petista de primeira hora! O que ele diria sobre o que se passa hoje com a Amazônia, com os povos indígenas? Oxalá o Relatório Figueiredo ajude as pessoas que têm um passado de luta contra a ditadura a perceber que elas e os indígenas estiveram juntos, do mesmo lado, naquele período, e que, hoje, seus representantes neste governo estão se aliando, muitas vezes, com os antigos inimigos. IHU On-Line – A partir das suas pesquisas, quais são as dificuldades para entender os povos indígenas? Spensy Pimentel – A dificuldade principal vem do fato de que quem inventou o “índio” fomos nós, não foram eles. Quem chegou aqui e, por sinal, de forma equivocada, chamou as pessoas de “índios”, em alusão à Índia, foram os europeus. Nós é que temos na cabeça uma espécie de índio imaginário que atrapalha muito nossas conversas, porque, o tempo todo, pensamos que eles devam ser aquilo que aprendemos desde pequenos: que devam andar nus, morar “na oca”, fazer a “dança da chuva”, falar “tupi-guarani”, ter “pajé e cacique” etc. O mais absurdo é que, se eles não correspondem a essa nossa ideia de índio, parecem ser “menos índios” aos nossos olhos. É preciso fazer uma espécie de faxina mental para retirar essas ideias, esses fantasmas, e começar a construir novas imagens a partir de um diálogo real com os povos indígenas. Estamos falando de 305 grupos indígenas, com 274 línguas diferentes, vivendo em 688 terras indígenas, espalhados por lugares tão distintos como a Serra do Mar, o Alto Rio Negro, o Pantanal, a Caatinga e em cidades grandes e pequenas, de todas as regiões do país. Já está mais que na hora de o brasileiro deixar de lado algumas ideias simplórias sobre os povos indígenas. O caminho para isso passa, sobretudo, pela escola. Os professores têm de ser convocados a essa tarefa. Já temos o instrumento legal, a lei 11.645, de 2008, que institui a obrigatoriedade do ensino sobre a história e as culturas indígenas. Agora, a população tem que cobrar nos estados e municípios a aplicação da lei. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação do IHU On-Line

Página 1 de 10612345...102030...Última »
Para enviar sua dica ou opinião, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Dica/Opinião

agenda

dica de
sustentabilidade

anterior | próxima
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

imagem do dia

|
Para enviar sua imagem, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Arquivo

Observações

 
Imagem do dia

Novo guia sobre aves da Mata Atlântica é lançado no Brasil. O material apresenta 100 espécies de pássaros. Foto: Haroldo Palo Jr

Imagem do dia

Filhote de panda brinca com a mãe em centro de reprodução na China. Instituição de pesquisa de Chengdu tenta salvar espécie da extinção.

Imagem do dia

Falta de lixo em Oslo, Noruega, pode comprometer geração de eletricidade. Pouca produção de resíduos de outros países pode afetar usinas.

Imagem do dia

Derretimento de geleiras não-polares causa 30% da elevação do mar. Dado foi apresentado em estudo na revista ‘Science’.

Imagem do dia

Austrália quer proibir fertilização do oceano com sulfato de ferro. Método reduziria acidificação e combateria efeitos da mudança do clima.

sobras_comida-300x202

Já pensou em vender ou comprar sobras de comida através da internet? Esta é a ideia da plataforma virtual Shareyourmeal, uma forma interativa de combater o desperdício de alimentos. Saiba mais aqui.

Imagem do dia

CET de São Paulo abres inscrições para o curso “Pedalar com Segurança”. Saiba mais.

vazamento

Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.

Imagem do dia

Unesco critica Austrália por riscos ambientais na Grande Barreira de Coral

imagem do dia

Estudo calcula benefícios de árvores urbanas dos Estados Unidos. Parques absorvem carbono emitido e poupam US$ 1,5 bilhão por ano.