Entidades buscam comprovar sustentabilidade de produtos

Ambiente

Entidades buscam comprovar sustentabilidade de produtos


por André Trigueiro*


Existem hoje, no Brasil, pelo menos 30 selos confiáveis para identificar se um produto é sustentável, mas existem muitos outros que são apenas propaganda enganosa. Você já reparou na quantidade de selos verdes que aparecem estampados nas embalagens de diversos produtos espalhados por aí? São marcas que se dizem ecológicas, sustentáveis, preocupadas com o meio ambiente. A pergunta é: dá para confiar? Uma pesquisa recente da Associação de Defesa dos Direitos dos Consumidores, a Proteste, revelou várias irregularidades no uso de selos verdes. “A palha de aço, por exemplo, dizia que não contém bactérias, tem ali um apelo “eco”, mas nós sabemos que isso não é verdade. Existe bactéria. Alguns produtos se dizem orgânicos. Quando a Proteste foi analisar, tem componentes químicos. Os xampus também se diziam ecológicos. Na verdade eles têm parabenos, que é uma substância química encontrada nesse tipo de produto”, diz Maria Inês Dolci, coordenadora da Proteste. Para piorar a situação, em alguns casos, os produtos com selo verde podem custar mais que o dobro da versão original sem nenhuma vantagem para o meio ambiente. Para a Associação Brasileira de Normas Técnicas, falta credibilidade à maioria absoluta dos selos verdes. “Eu diria que, no mundo, uma média de uns 500 selos verdes dentro os quais você poderia comparar, em 100 você poderia realmente ter uma confiança”, afirma Guy Ladvocat, gerente de Certificação de Sistemas da ABNT. A ABNT lançou o próprio selo em 2008. Para obter a certificação, o fabricante é obrigado a seguir até 30 exigências, que variam de acordo com o produto ou serviço. O custo da certificação varia de R$ 15 mil a R$ 150 mil. Ao todo, 235 produtos e três serviços já receberam o selo da ABNT. Até o bondinho do Pão de Açúcar entrou na onda do selo verde. Reduziu o consumo de água e energia, intensificou a coleta seletiva de recicláveis e realizou vários outros ajustes para se tornar o primeira atração turística certificada ambientalmente do Brasil. Se a propaganda é a alma do negócio, quem anuncia produtos sustentáveis que não merecem ser chamados assim tem culpa no cartório. Desde 2011, esses anunciantes estão na mira do Conar, o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária. “Para dar veracidade, para dar credibilidade, e mais, responsabilidade de fato socioambiental das empresas, marcas e produtos em sua comunicação”, diz Edney Narchi, vice-presidente executivo do Conar. Em um ano e meio, foram analisadas 30 campanhas publicitárias suspeitas. Nove foram obrigadas e fazer ajustes, e duas foram suspensas. “A grande maioria das falhas foi na omissão das informações. Alegava-se uma vantagem sem fazer com que o consumidor pudesse comprovar a veracidade daquilo”, afirma Narchi. Apesar do avanço da consciência ecológica, o Brasil continua sem uma lei que regule a certificação ambiental. Enquanto a lei não vem, não há outro jeito de se proteger senão buscar informações sobre o tal selo verde. “Principalmente qual foi a instituição que concedeu esse selo porque, sendo uma instituição que você conhece, que você sabe que tem reconhecimento nacional e internacional, vai ter uma certeza muito maior de que aquele trabalho foi feito de acordo com as boas práticas da rotulagem ambiental, que é o mais importante para você saber”, diz Ladvocat. * André Trigueiro é jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental pela Coppe-UFRJ onde hoje leciona a disciplina geopolítica ambiental, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-RJ, autor do livro Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em Transformação, coordenador editorial e um dos autores dos livros Meio Ambiente no Século XXI, e Espiritismo e Ecologia, lançado na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, pela Editora FEB, em 2009. É apresentador do Jornal das Dez e editor chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News. É também comentarista da Rádio CBN e colaborador voluntário da Rádio Rio de Janeiro. ** Publicado originalmente no site Mundo Sustentável. 

Foto: Divulgação/ Internet Ambiente

Não faltam avisos: cuidado com o clima

[caption id="attachment_80619" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Divulgação/ Internet"][/caption] É preciso insistir e insistir: as grandes cidades brasileiras - mas não apenas elas - precisam criar com urgência políticas do clima que as habilitem a enfrentar com eficiência os "desastres naturais", cada vez mais frequentes e intensos e que provocam um número cada vez maior de mortos e outras vítimas; precisam arrancar do fundo das gavetas projetos que permitam evitar inundações em áreas urbanas; criar planos diretores que incorporem as novas informações nessa área; rever os padrões de construção, já obsoletos, concebidos em outras épocas, para condições climáticas muito mais amenas - e que se mostram cada vez mais vulneráveis a desabamentos; incorporar as universidades nessa busca de formatos científicos e tecnológicos. Segundo este jornal (21/2), de 12 locais alagados em uma semana no mês passado na cidade de São Paulo, 11 já sofriam com inundações há 20 anos - entre eles, alguns dos pontos com mais veículos e pessoas, como o Vale do Anhangabaú, a Avenida 23 de Maio, a Rua Turiaçu. E a Prefeitura de São Paulo promete desengavetar 79 obras antienchentes, algumas delas abafadas há 15 anos. Inacreditável. O governo do Estado assegura que vai trabalhar em 14 piscinões (outros 30 caberão a parcerias público-privadas), além de aplicar mais R$ 317 milhões em desassoreamento do Rio Tietê, onde já foi gasto R$ 1,7 bilhão (terá de gastar muito mais enquanto não decidir atuar nas dezenas de afluentes do rio sob o asfalto, que carregam sedimentos, lixo, esgotos, etc.). A população paulistana ficará muito grata - ela e 1 milhão de pessoas que entram e saem diariamente da cidade (Estado, 27/2). Enquanto não houver uma ação enérgica na área do clima e na revisão dos padrões de construção em toda parte, continuaremos assim, como nas últimas semanas: obra irregular provoca desabamento de prédio na Liberdade e mata pedestre (1.ª/3); edifício de 20 andares desaba no Rio e arrasta mais dois, com 22 mortos (25/1); desabamento de lajes em construção de 13 pavimentos em São Bernardo do Campo mata duas pessoas (6/2); enchente em fábrica mata quatro em Sorocaba; inundação no Rio mata cinco pessoas (8/3); homem salva três pessoas e morre junto com um estudante, levados pela enxurrada durante temporal de cinco horas no Ipiranga, quando caiu um terço da chuva prevista para o mês e fez transbordar o Tamanduateí (11/3); deslizamento na moderna Rodovia dos Imigrantes mata uma pessoa e interrompe o tráfego (22/2), numa chuva de 183,4 milímetros, algumas vezes mais do que o índice médio de chuvas em um mês na região. Até o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, perdeu mais de 130 caixas de documentos históricos num temporal no centro da cidade (10/3). Não pode haver ilusões. O Brasil já está em quinto lugar entre os países que mais têm sofrido com desastres climáticos. O Semiárido, em outubro último, teve o mês mais seco em 83 anos, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (Estado, 31/10); 10 milhões de pessoas foram atingidas em mais de 1300 municípios. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão da Convenção do Clima, este ano só divulgará parte de seu novo relatório, mas seu secretário-geral, Rajendra Pachauri, já adverte que é preciso "espalhar a preocupação", de vez que, com o aumento da temperatura, até 2050, entre 2 e 2,4 graus Celsius, o nível dos oceanos se elevará entre 0,4 e 1,4 metro - mas poderá ser mais, com o avanço do degelo no Ártico (Guardian, 28/2). Não é por acaso, assim, que o sistema escolar público dos Estados Unidos já tenha, este ano, incorporado as questões do clima a seu currículo para os alunos. E que o Conselho da União Europeia tenha aprovado 20% do seu orçamento - ou 960 bilhões - para políticas e ações nessa área. Porque as informações são altamente preocupantes. Como as da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (9/3) de que duplicou, de 1970 para cá, a superfície de terras afetadas pela seca no mundo; ou a de que as emissões de dióxido de carbono CO2 por desmatamento, atividades agrícolas e outros formatos, entre 1990 e 2010, cresceram muito - e o Brasil responde por 25,8 bilhões de toneladas equivalentes de CO2, seguido pela Indonésia (13,1 bilhões de toneladas) e pela Nigéria (3,8 bilhões). Os problemas com o clima, diz a Universidade de Reading (1.º/3), indicam que será preciso aumentar a produtividade na agricultura em 12% a partir de 2016, para compensar as perdas e as mudanças nos ambientes. A vegetação nas latitudes mais ao norte da América está mudando, começa a assemelhar-se à das áreas mais ao sul, segundo a Nasa (UPI, 12/3), que analisou o período 1982-2011; e lembra que as atividades no campo terão de adaptar-se. Também há alterações muito fortes em outras regiões, como nos Rios Tigre e Eufrates, que em sete anos (2003-2010) perderam 144 quilômetros cúbicos de água, equivalentes ao volume do Mar Morto (O Globo, 14/2). Em toda parte as informações inquietam. Universidades da Flórida, por exemplo (Huffpost Miami, 12/3), alertam que será preciso transplantar três grandes estações de tratamento de esgotos no sul do Estado para evitar que elas fiquem "confinadas em ilhas" em menos de 50 anos, por causa da elevação do nível do mar. O almirante Samuel J. Locklear III, comandante da frota norte-americana no Pacífico, diz que essa elevação do nível dos oceanos "é a maior ameaça à segurança". E que China e Índia precisam preparar-se para socorrer e evacuar centenas de milhares ou milhões de pessoas. Retornando ao início deste artigo: as cidades brasileiras não podem adiar o enfrentamento das mudanças do clima, principalmente quanto a inundações e deslizamentos de terras (o Brasil tem mais de 5 milhões de pessoas em áreas de risco). Segundo a revista New Scientist (20/10/2012), 32 mil pessoas morreram no mundo, entre 2004 e 2010, em eventos dessa natureza (em terremotos, 80 mil). Não faltam avisos. * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


por Washington Novaes*
O grão mobilizou, nesta safra, 439 famílias que vivem em 24 assentamentos da reforma agrária. Foto: Tamires Kopp/MDA Ambiente

Famílias colhem 14,5 mil toneladas de arroz orgânico no Rio Grande do Sul

[caption id="attachment_80641" align="aligncenter" width="450" caption="O grão mobilizou, nesta safra, 439 famílias que vivem em 24 assentamentos da reforma agrária. Foto: Tamires Kopp/MDA"][/caption]   Um arroz agroecológico, produzido de forma ambientalmente correta e sem o uso de agrotóxicos, gera emprego e renda para famílias de 15 municípios gaúchos, além de fazer bem à saúde dos consumidores. Representantes do governo federal participam na sexta-feira, 15 de março, da abertura da 10ª Colheita de Arroz Agroecológico no Rio Grande do Sul, no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão (a 32 km de Porto Alegre). O grão mobilizou, nesta safra, 439 famílias que vivem em 24 assentamentos da reforma agrária nas regiões de Canoas e Porto Alegre, o que irá resultar em 14,5 mil toneladas de arroz orgânico. Segundo o secretário de extrativismo e desenvolvimento rural sustentável do Ministério do Meio Ambiente, Paulo Guilherme Cabral, a iniciativa demonstra que é possível produzir de maneira sustentável, com agregação de valor ao produto, em assentamentos da reforma agrária. “São famílias engajadas com a preservação do meio ambiente, que muitas vezes atuam como protetores de áreas ricas em biodiversidade”, destacou Cabral. Ele ressaltou, ainda, que a atividade vai ao encontro do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, em discussão pelo governo. “A partir dessa experiência gaúcha podemos replicar em outros estados”, acrescentou. Produção mais limpa Inserido na Área de Proteção Ambiental Banhado Grande, o assentamento Filhos de Sepé produz arroz orgânico há mais de uma década. Conhecido como o maior Assentamento Ambientalmente Diferenciado do Rio Grande do Sul, ocupa área de 9,4 mil hectares. Essa característica ambiental faz com que o assentamento seja referência em produção agroecológica, forte também nas atividades de frutas e hortaliças. O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) apoiam diretamente a iniciativa, que também conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
carros Ambiente

Donos de carros mostram resistência a carona solidária

[caption id="attachment_80673" align="alignleft" width="230" caption="Individualismo e questões culturais dificultam adesão a carona solidária. Foto: George Campos / USP Imagens"][/caption] A pesquisa procurou identificar os motivos que levam as pessoas a participar ou não da carona solidária na cidade de São Paulo. Ao mesmo tempo, verificou quais eram os conhecimentos, percepções e opiniões a respeito da relação entre saúde e meio ambiente, e de que forma eles influenciam a adesão. Ao todo foram entrevistados 256 funcionários de uma instituição pública hospitalar de grande porte da cidade de São Paulo. “Os participantes do estudo responderam um questionário com seis questões. Posteriormente, foram entrevistados 14 profissionais de saúde e pesquisadores das áreas de saúde e meio ambiente sobre o tema”, diz Sandra. Na primeira etapa da pesquisa foram identificados 125 funcionários que possuíam automóvel, porém a maioria não mostrou interesse em aderir a um Programa de Carona Solidária. Entre as 131 pessoas que não possuíam carro, a maior parte se mostrou propensa em aderir ao programa. “A princípio imaginou-se que os donos de veículos resistiriam a participar alegando razões de segurança, mas este não foi o único fator evidente”, ressalta a pesquisadora. “Outros obstáculos à participação foram o individualismo e questões culturais. Alguns motoristas alegaram que preferiam estar sozinhos, indicaram incompatibilidade de horários e outros compromissos que impediriam oferecer carona.” Qualidade de vida Apesar das resistências, Sandra observou que os respondentes manifestaram preocupação com a degradação do meio ambiente. “Eles pensavam no futuro do planeta, nas futuras gerações, na qualidade de vida e também percebiam claramente que a poluição causa prejuízos à saúde”, ressalta. A instituição hospitalar iniciou no ano passado um programa de carona solidária para seus funcionários. O cadastro de usuários interessados é gratuito, sendo feito no site especializado, existente desde 2009. “No acesso à página é possível fazer um cadastro e, por meio de uma senha, inserir trajetos e entrar em contato por telefone ou e-mail para combinar as caronas”, explica a pesquisadora. De acordo com Sandra, os especialistas ouvidos na pesquisa ressaltaram a importância da carona solidária e apontaram que as ações para seu incentivo podem ser focadas nas empresas, pois dentro delas, entre os funcionários, há maior aceitabilidade, já que as pessoas são mais conhecidas. “Embora o transporte público seja imprescindível, políticas públicas também poderiam servir de estímulo para a população aderir à iniciativa, como por exemplo estabelecer a integração entre os transportes públicos e automóveis participantes do programa com estacionamentos reservados ou garantindo espaços de mobilidade em faixas exclusivas para os participantes”, ressalta. Além do estudo, a pesquisadora divulga a importância da iniciativa organizando palestras sobre carona solidária e os efeitos da poluição do ar na saúde. “São apresentados vários benefícios adquiridos com a prática da carona, como a redução do número de carros nas ruas o que diminui a emissão de poluentes e ajuda a melhorar o trânsito. O menor tempo de percurso permite que os usuários fiquem menos estressados e disponham de mais tempo para usufruir do lazer”, conta. ”Além do ganho na qualidade de vida, também é possível reduzir gastos, já que as despesas de combustível podem ser divididas por várias pessoas que viajam no veículo.” De acordo com Sandra, “o que falta para aumentar a difusão da carona solidária é um trabalho educativo mostrando como pode ser feita e os benefícios que poderá proporcionar”. A pesquisa é descrita na dissertação de mestrado Educação Ambiental para Promoção da Saúde com Trânsito Solidário, apresentada na FSP em 21 de fevereiro. O trabalho foi orientado pela professora Maria Cecília Focesi Pelicioni. * Publicado originalmente no site Agência USP.


por Júlio Bernardes, da Agência USP
Boas notícias para as populações de pássaros. Foto: Reprodução/Internet Ambiente

Uma boa notícia para os ornitólogos

[caption id="attachment_80669" align="alignleft" width="300" caption="Boas notícias para as populações de pássaros. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] Fundo Britânico de Ornitologia revela que algumas populações de pássaros estão aumentando, apesar das mudanças climáticas. Observadores de pássaros britânicos estão acostumados a receber notícias ruins. Os números dos pardais-domésticos caíram de estimados 30 milhões em 1966 para 10 milhões hoje. Tornou-se raro avistar um maçarico, e sua população diminuiu em 50% em 15 anos. Cucos, outrora visitantes frequentes da África, tiveram seu total reduzido em 63% no sudeste nas últimas duas décadas. Primaveras antecipadas que confundem os pássaros migratórios, técnicas de agricultura mais eficientes e a transformação de prédios abandonados (bons para a construção de ninhos) em habitações modernas contribuíram para essa crise. Mas dados divulgados pelo Fundo Britânico de Ornitologia (BTO, na sigla em inglês), uma instituição de pesquisa sem fins lucrativos, sugerem que algumas populações estão aumentando. A pesquisa, que monitora as populações de pássaros por meio de estudos frequentes, revela o retrato mais claro até hoje de 49 espécies espalhadas por toda a Grã-Bretanha. Toutinegras-de-barrete-preto, pequenos pássaros naturais da Alemanha e do leste europeu, estão ficando por mais tempo após sua temporada de verão: desde 1967 seus números aumentaram em 177%. A garça-branca-pequena, um pássaro semelhante à garça-branca-grande, chegou da Europa continental em 1989 e agora sua população já conta com mais de 5 mil espécimes. Pombos-torcaz, outrora encontrados apenas em florestas, conquistaram as cidades e os subúrbios. Mudanças ambientais e de agricultura tanto desorientaram quanto ajudaram os pássaros. Técnicas de cultivo modernas permitem que grãos sejam plantados no outono em vez de no verão; isso ajuda os pombos-torcaz a se alimentarem no inverno. Invernos mais quentes significam que há menos chances de os rios e lagos congelarem, o que aumenta a oferta de alimentos para as pequenas-garças-brancas. James Pearce-Higgins do BTO afirma que os toutinegras-de-parrete-preto se beneficiam especialmente do aumento da popularidade do cultivo de bagas silvestres (tais como sorva e teixo) em jardins particulares. * Texto traduzido e adaptado por Eduardo Sá. ** Publicado originalmente na revista The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação da The Economist
Foto: Divulgação/ Internet Ambiente

Gasotudo entre Paquistão e Irã carregado de energia e desafios

[caption id="attachment_80614" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Divulgação/ Internet"][/caption] Manila, Filipinas, 18/3/2013 – Após quase três décadas de negociações ininterruptas e dois anos de intensa oposição dos Estados Unidos, o demorado e controvertido gasoduto entre Paquistão e Irã foi inaugurado oficialmente e bem encaminhado para estar totalmente em operação dentro de 15 meses. Em uma demonstração das crescentes dificuldades energéticas do Paquistão, o presidente Asif Ali Zardari decidiu ignorar a forte oposição externa e visitar o Irã no dia 27 de fevereiro, para finalizar um acordo que poderia converter as relações entre os dois países em uma associação estratégica. Zardari e o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, inauguraram, no dia 11, o gasoduto, cujo custo de construção é de US$ 7,5 bilhões. Quando estiver totalmente concluído, o que está previsto para meados de 2015, o gasoduto de 1.881 quilômetros poderá transportar diariamente 21,5 milhões de metros cúbicos de gás natural. Sairá do condado de Asaluyeh, no sul do Irã, e percorrerá 1.100 quilômetros pela província paquistanesa do Balochistão e da vizinha Sindh, para se conectar à rede existente. O Irã tem quase terminadas as obras em seu território, mas o Paquistão teve que buscar fundos para completar sua parte do acordo. Após se reunir com autoridades iranianas em Teerã, Zardari pôde selar um acordo final para terminar as obras em território paquistanês, ao custo de US$ 1,5 bilhão. Pelo acordo, o Irã aportará US$ 500 milhões em forma de empréstimo brando. Um consórcio binacional formado pela companhia iraniana Tadbir Energy e a paquistanesa Interstate Gas Company estará à cargo da construção do gasoduto no Paquistão. Está previsto que as obras estejam totalmente terminadas em dezembro de 2014, segundo um acordo prévio de compra e venda de gás. “Os dois países têm relações consolidadas e de mútua confiança apesar dos esforços dos que tentem arruinar os vínculos entre Teerã e Islamabad, bem como impedir nossa cooperação”, declarou o presidente paquistanês após a assinatura do acordo na capital iraniana. “A construção deste projeto é muito benéfica para as duas partes e apoiamos o trabalho realizado até agora”, acrescentou. Por sua vez, Ahmadinejad disse que “Irã e Paquistão estarão juntos com uma perspectiva estratégica”. Acrescentou que o acordo é um golpe diplomático contra a crescente pressão externa para isolar Teerã por causa da questão nuclear. Antes da visita de Zardari, um comitê do gabinete paquistanês, integrado por personalidades dos ministérios de Finanças, Justiça e Petróleo, encabeçado pelo ministro das Finanças, aprovou investimento de US$ 1,5 bilhão. Nesse sentido, a visita de Zardari objetivou ajustar detalhes do acordo, em particular os termos da contribuição iraniana, a participação na construção e os preços do gás, pois a burocracia paquistanesa já estava totalmente a favor desta iniciativa. Porém, a viagem marcou um giro drástico na política externa de Islamabad, pois Zardari desafiou a pressão internacional e arriscou um afastamento irreversível de Washington, que promoveu de forma incansável uma via alternativa de fornecimento. Tratava-se de uma tubulação começando no Turcomenistão e que passava pelo Afeganistão, conhecido como gasoduto TAPI (Turcomenistão, Afeganistão, Paquistão e Índia). Antes da viagem de Zardari, a agora ex-secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, havia advertido o Paquistão em uma declaração feita no congresso dos Estados Unidos. “Iniciar a construção desse gasoduto, seja um projeto iraniano ou conjunto, violará nossas sanções contra o Irã”, afirmou. No entanto, do ponto de vista do Paquistão, o Ocidente não é sensível aos seus interesses nacionais. O Paquistão sofre uma crise de energia e cortes de energia já prejudicam a indústria e enfurecem as pessoas. As relações entre Islamabad e Washington se esfriaram e estão cheias de controvérsias, gerando eventuais golpes diplomáticos no marco da tensão bilateral causada pelos ataques de aviões não tripulados e operações contra o terrorismo em solo paquistanês. Em um momento de crise de segurança no Afeganistão, devido à redução da presença militar do Ocidente, apesar da pressão implacável do Taliban contra o frágil governo em Cabul, o gasoduto TAPI, promovido por Washington, está longe de ser uma alternativa viável e oportuna. O Irã é um fornecedor de energia a preços acessíveis e em tempo útil, o gasoduto vai ajudar a cobrir 20% da produção de eletricidade do Paquistão. O acordo é um subtexto de tendência do Irã de fazer pesar suas enormes reservas de hidrocarbonos para gradualmente atrair aliados dos Estados Unidos desesperados por energia, como a Turquia, o maior cliente de gás natural iraniano e um forte crítico das “segundas sanções” do Ocidente para parceiros do Irã. Paquistão e Irã, junto com a Turquia, foram membros fundadores da Organização de Cooperação Econômica, e por décadas exploraram várias maneiras de melhorar as relações bilaterais e a integração econômica regional. Inicialmente, o gasoduto estava programado para chegar na Índia, com o potencial de se estender até a China. Mas a combinação de problemas de segurança, a pressão externa e desacordos de preços reduziu o projeto aos dois vizinhos de fronteira. O gasoduto servirá de base para a criação de um corredor de energia transnacional, no qual o Irã ocupará um lugar central. Durante seu encontro, os dois governantes discutiram acordos de cooperação estratégica, especialmente sobre a insurgência e a instabilidade no Balochistão, uma grande ameaça para o gasoduto, bem como o futuro do Afeganistão. Devido às sanções impostas pelo Ocidente ao setor energético e financeiro do Irã, as conversações bilaterais também ofereceram uma base para a concretização de substanciais acordos de intercâmbio. O acordo final representa um novo capítulo nas relações entre Irã e Paquistão, pois pode resolver as dificuldades energéticas deste último, mas também destaca a limitada capacidade do Ocidente em isolar completamente o Irã, rico em recursos. Envolverde/IPS * Richard Heydarian é especialista em política e Oriente Médio.


por Richard Heydarian*
Bactérias litoautotróficas do basalto, fotografadas a mil metros de profundidade. As células são vistas em vermelho e a rocha de basalto da qual se alimentam aparece em verde. Foto: Photostock/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Nas profundezas da Terra

  [caption id="attachment_79963" align="alignleft" width="300" caption="Bactérias litoautotróficas do basalto, fotografadas a mil metros de profundidade. As células são vistas em vermelho e a rocha de basalto da qual se alimentam aparece em verde. Foto: Photostock/IPS"][/caption] O ciclo do carbono na superfície do planeta é bem conhecido. Mas há outro ciclo, que envolve as profundezas terrestres e se desenvolve através de eras geológicas. Os cientistas estão começando a descobrir seus segredos. Uxbridge, Canadá, 11 de março de 2013 (Terramérica).- Cada ser vivente, desde as bactérias até o ser humano, é feito de carbono procedente da explosão das estrelas. Há milhões de anos, as partículas de carbono e outras poeiras estelares formaram a Terra. O carbono é a base da vida, mas a maior parte deste elemento desapareceu nas profundezas do planeta, afirmam os cientistas. E, embora pareça incrível, a vida prospera nas camadas rochosas localizadas vários quilômetros abaixo de nossos pés. “Os micróbios sobrevivem comendo rocha nessas profundidades”, explicou Robert Hazen, diretor-executivo do Deep Carbon Observatory (Observatório do Carbono Profundo), um projeto internacional de pesquisa sobre o funcionamento interno do planeta. “A vida é muito diferente sob essas tremendas pressões e temperaturas”, afirmou Hazen ao Terramérica. A variedade de vida bacteriana em profundidade, onde a pressão é extremamente alta, constitui uma espécie de “Galápagos” subterrâneo, acrescentou. “Faça um buraco de um ou dois quilômetros de profundidade em qualquer parte e encontrará uma comunidade microbiana escassa mas resistente”, destacou Isabelle Daniel, da Universidade Claude Bernard, em Lyon, na França. “Estes micróbios, que vivem nas gretas e fissuras mais diminutas das rochas, sobrevivem graças à energia química dos minerais”, detalhou Isabelle, integrante do grupo de cientistas que participam do Deep Carbon Observatory. As análises genéticas revelam uma diversidade de micro-organismos, a maioria unicelular, embora muito abaixo do solo oceânico vivam organismos com estruturas celulares mais complexas, semelhantes aos fungos. Os pesquisadores estimam que se trate de seres extraordinariamente longevos, que possivelmente vivam milhões de anos. “Também há uma enorme quantidade de vírus”, com sua informação genética “cuidadosamente alojada em células viventes”, explicou Hazen. Estes vírus não matam os organismos nos quais se alojam, mas permanecem adormecidos durante centenas ou milhares de anos, à espera de que uma célula tenha alimento suficiente para se reproduzir e, então, se tornam ativos. Os cientistas inclusive especulam que a vida pode ter começado vários quilômetros abaixo da terra. “As profundidades subterrâneas podem ter sido o laboratório natural para a origem da vida, com múltiplos experimentos simultâneos”, disse John Baross, da Universidade de Washington, com sede em Seattle, nos Estados Unidos, coeditor do livro Carbon in Earth (Carbono na Terra), que resume os primeiros três anos de trabalhos do Observatório. O livro foi apresentado em uma reunião científica internacional realizada entre os dias 3 e 5 deste mês na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em Washington. “O Observatório poderá encontrar formas de vida totalmente novas, na medida em que chegarmos a maiores profundidades e temperaturas, e a pressões mais altas. E é bem possível que a vida mais profunda da Terra não utilize o ADN (ácido desoxirribonucleico) e as proteínas do modo como fazem as células normais”, afirmou Baross em um comunicado. O carbono é o elemento mais importante da Terra. Não só está presente em todas as formas de vida como, praticamente, em todos os materiais dos quais depende a humanidade: plásticos, petróleo, medicamentos, tinturas e materiais de construção, apontou Hazen. “Nenhum outro elemento contribui de modo tão crucial para o bem-estar e a sustentabilidade da vida na Terra, incluída a espécie humana”, ressaltou. O ciclo do carbono superficial é bem conhecido: os animais inalam oxigênio e exalam dióxido de carbono, enquanto as plantas realizam o processo inverso. Mas há outro ciclo do carbono, de duração muito longa, que implica a saída de enormes volumes deste elemento das profundezas do planeta para a superfície, pelos vulcões e afloramentos nas crostas oceânicas. Por sua vez, o carbono é eliminado da superfície da Terra nas zonas de subducção, onde o solo oceânico afunda e as placas continentais deslizam umas sobre as outras, explicou Rajdeep Dasgupta, da Rice University em Houston, Texas, nos Estados Unidos. Por sua vez, nas zonas onde há movimentos tectônicos (terremotos), “o carbono da superfície volta a submergir no manto terrestre”, acrescentou ao Terramérica. Esta forma de sequestro deste elemento tem particular interesse diante do enorme aumento das emissões humanas de carbono na forma de gás lançado na atmosfera, que está causando a mudança climática, disse Dasgupta. Petróleo, carvão e gás são carbono de matéria vegetal afundado nas profundezas durante milhões de anos, e a queima destes combustíveis libera esse antigo carbono. Através das eras geológicas (milhões de anos), o planeta regula a quantidade de carbono que há na atmosfera, enterrando-o profundamente no solo, detalhou Dasgupta. Um dos objetivos do Observatório, que completará seu trabalho em 2020, é determinar quanto carbono se “exala” e se enterra nesse longo ciclo. “O carbono é assombroso, fascinante e fundamental para nosso bem-estar. Precisamos saber tudo o que pudermos sobre ele”, concluiu Hazen. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   LINKS Oceanos assentados sobre bactérias gigantes Vasculhando o mar em busca da matéria criadora da vida Deep Carbon Observatory, em inglês Université Claude Bernard, em francês Universidade de Washington, em inglês Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em inglês Rice University, em inglês   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Stephen Leahy*
Tiago Maranhão Alves mostra um pedaço de plástico solar. Foto: Cortesia de CSEM Brasil/Rafael Motta/Agência Nitro Ambiente

TERRAMÉRICA – Brasil desenvolve plástico solar

  [caption id="attachment_79954" align="alignleft" width="300" caption="Tiago Maranhão Alves mostra um pedaço de plástico solar. Foto: Cortesia de CSEM Brasil/Rafael Motta/Agência Nitro"][/caption] Mediante uma técnica já existente, as células orgânicas solares, mas graças à sua própria fórmula secreta, cientistas brasileiros criaram painéis fotovoltaicos plásticos. Porto Alegre, Brasil, 11 de março de 2013 (Terramérica).- Pesquisadores brasileiros desenvolveram painéis plásticos capazes de gerar eletricidade a partir da luz do Sol. A descoberta é parte de uma tendência em alta no Brasil: o desenvolvimento e a inserção de tecnologias verdes. O plástico é fino e flexível, com aparência bastante comum, mas se trata de um painel de geração de energia fotovoltaica. O material, que em nada se parece com as pesadas e caras placas de silício que imaginamos ao pensar nesta fonte de eletricidade, foi criado por cientistas do CSEM Brasil, instituto com sede em Minas Gerais. Composto por polímeros comuns, aos quais são incorporadas células fotovoltaicas orgânicas, este material é transparente, com pequenas faixas nas quais estão impressos os polímeros orgânicos à base de carbono. A tecnologia para produzir estas células já era conhecida na Europa e nos Estados Unidos, e agora também é no Brasil. O “plástico solar” pode representar, afirmaram seus inventores, uma pequena revolução na forma de gerar energia limpa a partir do Sol. “Embora a capacidade de geração seja bastante parecida, por seu pequeno tamanho pode ter usos quase impossíveis para as placas de silício”, disse ao Terramérica o presidente do CSEM Brasil, Tiago Maranhão Alves, engenheiro físico que participou diretamente das pesquisas. Esta técnica pode ser empregada para fazer funcionar componentes elétricos dos automóveis, em dispositivos eletrônicos como telefones celulares, mouses de computadores e teclados sem fio. Porém, os brasileiros estão concentrados em desenvolver painéis solares, que podem revestir superfícies mais ou menos extensas, como janelas. “Um painel de dois ou três metros quadrados pode ser suficiente para gerar energia em uma casa onde vive uma família de quatro pessoas”, explicou Alves. “Como a relação custo-benefício é boa, pode ser uma opção para levar energia a áreas remotas que não têm serviço elétrico. No Brasil, com mais de 192 milhões de habitantes, há cerca de um milhão de lugares nessas condições”, acrescentou o cientista. A facilidade do transporte é sua principal vantagem em relação às placas de silício. “Como é simples transportá-las, os custos logísticos são baixos. Além disso, a pessoa pode levar com ela quando mudar de casa”, destacou Alves. O plástico pode ser usado ainda para revestir prédios e recintos como aeroportos ou estádios esportivos, evitando a necessidade de reservar uma área para instalar os painéis solares. Para alcançar a fórmula que tem o material brasileiro, foram investidos US$ 10 milhões e se prevê que o investimento duplicará no próximo ano. “Agora vamos estudar a melhor forma de dar escala ao produto. No estado atual já é possível comercializá-lo, mas o preço deve ser analisado caso a caso”, explicou Alves. Os recursos investidos, que também possibilitaram a criação do CSEM Brasil, procedem de uma sociedade entre a administradora de investimentos FIR Capital e o Centre Suisse d’Electronique et de Microtechnique. Além disso, o projeto obteve apoio da Fundação de Fomento à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). O projeto ainda é mantido reservado, pois está sujeito a segredo comercial. “Este é um mercado de milhares de milhões de dólares, e muitos centros estão atrás desta tecnologia”, pontuou o engenheiro. O anúncio dos pesquisadores de Minas faz parte de uma tendência crescente no Brasil: os investimentos em tecnologias limpas. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa estatal vinculada do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, implantou no ano passado o Programa Brasil Sustentável, que distribuirá o equivalente a US$ 10 milhões em linhas de crédito para iniciativas que considerarem a preservação dos recursos naturais. Segundo a Finep, o programa responde a uma demanda percebida pela instituição, que nos últimos anos destinou US$ 2,3 milhões a 480 projetos com alguma característica verde, 25% deles concebidos para geração de energias limpas. Para o professor e doutor em administração de empresas André Pereira de Carvalho, o aumento de recursos para este tipo de pesquisa se deve a que, tanto os fundos privados de investimento como as instituições públicas, perceberam que esta é uma área lucrativa. “Estas organizações avaliam principalmente se o produto é bom, possui uma fórmula difícil de ser copiada e tem potencial para ser produzido em escala. Isto vale para qualquer versão, seja uma empresa de tecnologias da informação ou de tecnologias verdes”, explicou ao Terramérica Carvalho, que coordena estudos sobre inovação para a sustentabilidade. No entanto, se comparado com Estados Unidos, Japão ou Alemanha, o Brasil está nas fraldas em matéria de negócios verdes, mas promete aprender a caminhar a grande velocidade. “Há alguns anos, o empreendedor que queria investir neste setor encontrava muitas dificuldades. Hoje ainda existe a desconfiança de olhá-lo como um mercado mais caro e de nicho, mas já é mais simples obter financiamento”, ressaltou Carvalho. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Quiosques solares brotam no carnaval de Puna O Sol também está presente à noite A energia solar ainda pode nos surpreender Energia – Cobertura especial da IPS, em espanhol CSEM Brasil, em português e inglês Centre Suisse d’Electronique et de Microtechnique, em inglês FIR Capital, em português e inglês Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Financiadora de Estudos e Projetos Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Alice Marcondes, da Envolverde
Várias regiões do mundo estão sendo afetadas por uma seca severa Ambiente

ONU: “seca causa mais mortes que furacões, enchentes e terremotos juntos”

[caption id="attachment_79938" align="alignleft" width="330" caption="Várias regiões do mundo estão sendo afetadas por uma seca severa"][/caption] Agências das Nações Unidas lançam esforço para implementação de políticas eficazes de combate ao fenômeno natural; reunião de alto nível começa esta segunda-feira, em Genebra; nordeste do Brasil foi citado como um dos casos de seca mais recentes. A ONU alertou que a seca causa mais mortes e deslocamentos que os furacões, as enchentes e os terremotos, juntos. Ela se transformou no mais perigoso e destrutivo fenômeno natural. Por isso, três agências das Nações Unidas realizam uma reunião de alto nível sobre Política Nacional da Seca, que tem início, esta segunda-feira, em Genebra, Suíça. Objetivo O objetivo é encontrar medidas de prevenção e de políticas de manejo e de controle do problema. O evento foi organizado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, pela Organização Mundial de Meteorologia, OMM, e pela Convenção da ONU para o Combate à Desertificação, Unccd. Clima O diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, disse que devido à mudança climática, secas mais rigorosas e mais frequentes estão tendo um impacto arrasador na segurança alimentar. Segundo ele, para acabar com isso, "os governos devem criar comunidades resistentes. Não devem apenas reagir à falta da chuva, mas precisam investir a longo prazo para que quando a seca ocorra, a população e os sistemas de alimentos possam superar o problema." Regiões As agências lembraram que as secas mais recentes atingiram duramente o nordeste do Brasil, os Estados Unidos e o México, assim como a área conhecida como Chifre da África e a região de Sahel, que inclui vários países africanos. O fenômeno climático também pode ser visto com bastante intensidade na China, Índia, Rússia e em algumas áreas da europa. Expectativa O chefe da OMM, Michel Jarraud, afirmou que, como resultado da mudança climática, a expectativa é que aumentem a frequência, a intensidade e a duração das secas, causando perdas humanas e econômicas. Jarraud disse que o mundo tem o conhecimento e a experiência para reduzir o impacto da seca. O que é necessário, para ele, "é uma política para implementá-los e ação." Seca A ONU informou que desde 1970, o território afetado pela seca mais do que dobrou. Segundo a Organização, mulheres, crianças e idosos são os mais atingidos. Atualmente, 168 países sofrem com a desertificação de parte de seus territórios. A desertificação é um processo de degradação da terra que afeta a agricultura e piora com a seca. * Publicado originalmente no site Rádio ONU.


por Edgard Júnior, da Rádio ONU
Pesquisa pode influenciar a produção de biocombustíveis de melhor qualidade. Foto: Wikimedia Commons Ambiente

Novo método separa componentes da biomassa da cana

[caption id="attachment_79930" align="alignleft" width="230" caption="Pesquisa pode influenciar a produção de biocombustíveis de melhor qualidade. Foto: Wikimedia Commons"][/caption] No Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, pesquisa criou uma nova metodologia óptica para separar as três componentes da biomassa da cana de açúcar (fibras de celulose, hemicelulose e lignina) para, no final, ter acesso à celulose pura e produzir um biocombustível mais eficiente. O projeto foi desenvolvido pelo professor Francisco Eduardo Gontijo Guimarães, do Grupo de Semicondutores, em colaboração com o mestrando Vitor Carlos Colleta, da pesquisadora Camila Alves Rezende, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Por meio da aplicação de microscopia confocal pela técnica de fluorescência óptica, Guimarães tem realizado experimentos para medir pequenas frações de lignina de fibras de bagaço de cana de açúcar após estas sofrerem tratamentos químicos específicos. “A maioria dos métodos já existentes só conseguiu medir concentrações de lignina de até 9%. Já chegamos a 1%, e isso porque, através das técnicas específicas que utilizamos, conseguimos enxergar coisas que as outras técnicas não conseguem”, afirma o professor. As consequências da descoberta e da metodologia desenvolvida por Guimarães pode influenciar diretamente na produção de biocombustíveis de melhor qualidade. O professor conta que, por meio dos experimentos realizados, detectou uma relação direta entre concentração de lignina e propriedades ópticas, ou seja, mediu a concentração de lignina nas fibras analisando suas curvas de fluorescência. “Pelo decaimento da fluorescência da lignina, conseguimos identificar a concentração de lignina presente na fibra e mapear sua presença ao longo da parede da fibra de cana de açúcar”, conta. Outra novidade nessa pesquisa é a medição individual de fibras de celulose. As técnicas já utilizadas com esse propósito até o momento só eram capazes de medir um conjunto de fibras, não possibilitando uma visão mais detalhada. “Quando se analisam diversas fibras de celulose juntas não se observam muitos detalhes, o que conseguimos com microscopia confocal”. Ordenamento Além desses resultados, outras descobertas foram feitas durante o experimento. Com uma visualização muito mais detalhada, Francisco viu que, na natureza, o arranjo de ligninas em fibras de celulose é extremamente organizado em qualquer ser vivo que a contenha e que, quando rompido esse ordenamento através dos pré-tratamentos químicos, a lignina aglomera-se na parede externa das fibras. Tantas novidades e inovações da pesquisa em questão chamaram a atenção dos editores da revista inglesa Biotechnology for biofuels que, em fevereiro passado, aceitaram o artigo científico de Guimarães sobre a pesquisa em questão para publicação. “Essa é uma revista de alto impacto e todos os árbitros da revista que avaliaram o artigo gostaram do que leram”. Sobre perspectivas futuras, Guimarães afirma que um dos objetivos é desenvolver novas metodologias capazes de acessar a retirada de frações ainda menores da lignina das fibras, indo do 1% (já alcançado) ao 0%. Tendo tido essa técnica óptica aperfeiçoada, as novas descobertas que virão como consequências ainda são desconhecidas, mas sabe-se que virão e, ao que tudo indica, abrirão um mundo de possibilidades, inclusive ecologicamente corretas. O estudo também teve a participação do professor Igor Polikarpov, do Grupo de Cristalografia do IFSC, que coordena uma pesquisa que visa à transformação da biomassa do bagaço da cana-de-açúcar em etanol. A pesquisa do professor Polikarpov conta com o apoio do Programa Equipamento Multiusuários (EMU) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que tem por objetivo apoiar a aquisição de Equipamentos para Pesquisa que não podem, ordinariamente, ser adquiridos em Auxílios à Pesquisa Regulares ou Projetos Temáticos. * Publicado originalmente no site Agência USP.


por Redação da Agência USP
Estudantes da escola municipal Nilo Peçanha almoçam no restaurante. Foto: Fotograma de vídeo filmado por Vincent Rimbaux/IPS Ambiente

Um atalho entre o campo brasileiro e o almoço escolar

[caption id="attachment_79928" align="alignleft" width="300" caption="Estudantes da escola municipal Nilo Peçanha almoçam no restaurante. Foto: Fotograma de vídeo filmado por Vincent Rimbaux/IPS"][/caption] Paracambi, Brasil, 11/3/2013 – Entre a propriedade de Maria Gomes Morais e uma escola do Rio de Janeiro há campos, montes e caminhos intransitáveis quando chove. Mas um programa de alimentação escolar criou um caminho que une os frutos colhidos por pequenos agricultores como ela e a fome de 45 milhões de estudantes. São apenas 60 quilômetros desde a capital do Rio de Janeiro até a localidade de Sabugo, no município de Paracambi. Contudo, os mapas por satélite se perdem em Sabugo, em cujas vias convivem automóveis, bicicletas e carroças puxadas por cavalos cansados. A árida paisagem do povoado muda sutilmente para diferentes gradações de verdes, sobreviventes da tropical Mata Atlântica, até que, entre bananais nativos e bambus estrangeiros, se chega ao sítio Recanto da Alegria, propriedade de Maria Gomes, por todos conhecida como Neta. De 61 anos, ela trabalha desde os dez nos três hectares ocupados desde então por sua família, em uma parte de uma antiga fazenda da qual uma posterior reforma agrária lhe concedeu propriedade. “Nunca tive medo. Vou a qualquer parte, subo e desço os montes. Não me assustam cobras e essas coisas. Parece que fugiram de mim”, contou à IPS. “Os grandes agricultores têm suas máquinas. As nossas são estas: as mãos”, acrescentou com um humor que emana de sua vida no campo, “que não trocaria por nada”. Seu único apoio é um vizinho que a ajuda a desmatar o terreno onde planta hortaliças: quiabo (Abelmoschus esculentus), jiló (Solanum gilo) e frutas como limão, maracujá e laranja-lima, entre outras. A natureza lhe presenteia com bananas de toda variedade. Antes, vendia aos intermediários e tinha de esperar longo tempo para receber. “O que comíamos? Não me envergonho de dizer: angu de papa de banana com farinha de milho). Não tinha isso de agora, planos de alimentação. Esperava-se o intermediário para fazer a compra mensal. E, enquanto isso, o armário esvaziava e as crianças sem comer”, lembra sobre seus três filhos, já adultos. Contudo, mediante uma cooperativa do Estado do Rio de Janeiro, a Unacoop, Neta se converteu em fornecedora do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que o Brasil desenvolveu tão bem que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) o tem como modelo para replicar em outros países. O PNAE se vinculou à agricultura familiar em 2009, mediante uma lei que estabelece que 30% dos alimentos dos planos governamentais devem ser fornecidos por esse setor, que representa 10% do produto interno bruto. O PNAE tem duas finalidades: garantir a alimentação de crianças e adolescentes em idade escolar e melhorar a vida de 4,3 milhões de pequenos produtores rurais como Neta. “O bom é que melhorou o preço que nos pagam”, explicou Neta. Antes sua casa era apenas de adobe, mas agora tem várias paredes de tijolo rebocado. E comprou geladeira, fogão e lava-roupas, que pode usar porque também chegou a eletricidade. O PNAE prioriza os assentamentos camponeses criados pela reforma agrária, as comunidades indígenas e os quilombos, comunidades em terras onde se refugiavam os escravos. Um caminhão, ou trator quando chove, recolhe suas frutas e verduras e as leva a um mercado local, de onde são transportadas para o Centro de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro (Ceasa) e terminam em alguma das mais de 161 mil escolas públicas incluídas no programa nacional, 83% do total. Neta fornece banana, laranja, abacate, abacaxi, caju e cereja. “Para a merenda escolar, tudo tem de ser de primeira qualidade”, explicou. Os responsáveis por programas como o PNAE os definem como “interruptores do ciclo de pobreza”. Trata-se de uma política intensamente aprofundada pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e de sua sucessora Dilma Rousseff. O PNAE tem uma longa história. Nasceu em 1955, como um plano assistencialista para a infância mais pobre. Nos anos 1990, se descentralizou e incorporou em sua administração representantes das famílias, das comunidades, pessoal docente e os poderes Executivo e Legislativo, detalhou à IPS sua coordenadora nacional, Albaneide Peixinho. A partir de 2003 multiplicou seu orçamento em 300% e foi ampliado para alcançar estudantes do ensino médio e adultos em escolarização, acrescentou. O Ceasa é um burburinho de caminhões descarregando mercadorias na madrugada. Os produtos de Neta e demais integrantes de sua cooperativa chegam a um pavilhão especial para pequenos camponeses. Uma área de Agricultura Familiar e Extensão Rural dentro do Ceasa presta assessoria em planejamento produtivo e diversificação de cultivos. “O pequeno agricultor ainda não está capacitado para planejar os tempos de produção e entrega. Para uma merenda escolar, não se pode mandar uma banana verde como se faz quando se trata de um grande mercado que depois enviará para a feira. Tem de chegar madura no ponto de consumo”, destacou o chefe da área, Newton Novo. Entretanto, a assistência técnica é insuficiente. “Deve chegar ao próprio campo para fazer análise do solo e ver o que é adequado plantar em cada propriedade”, explicou à IPS a coordenadora da Unacoop, Margarete Teixeira. Tampouco é fácil ser um fornecedor do PNAE, que exige títulos da terra em ordem, em um país imenso como o Brasil, que arrasta problemas de propriedade agrária desde a época colonial. Contudo, o especialista em direito alimentar Leonardo Ribas destaca os resultados: fortalecer a economia local e a agricultura familiar, fundamental “em uma sociedade onde, pelo agronegócio, o alimento se converteu em mercadoria”, e acrescentou que “também se conseguiu que as crianças tenham uma alimentação mais adequada, porque começaram a consumir alimentos da região e produzidos de forma orgânica”, sem agroquímicos. A cozinha da escola municipal Nilo Peçanha, cujos alunos vivem em bairros pobres e lotados como a favela da Mangueira, prepara diariamente desjejum, almoço e merenda para 500 estudantes. Para criar os cardápios “são usados parâmetros de alimentos saudáveis, vinculados a cada idade, ao tempo de permanência na escola, período de colheita de cada produto, custo e hábitos alimentares dos alunos”, explicou a diretora do Instituto de Nutrição da Secretaria Municipal de Saúde, Fátima França. A diretora da escola, Márcia Alves, lembra que as crianças costumam se aborrecer com legumes e verduras, mas as aulas de ciências estimulam o consumo ensinando seus valores nutritivos. Os alunos parecem ter aprendido a lição. Pelo menos com a diretora por perto. “Comia muito fast food, mas agora tenho uma dieta balanceada”, contou Mariana Cristina, de 12 anos. “Antes comia mais doces do que comida, mas na escola isso foi mudando”, acrescentou Elisângela, da mesma idade. Na mesma hora em que os alunos almoçam suas verduras, Neta troca de roupa e vai à cidade para tentar que a logística do mercado local funcione melhor: conseguir uma câmara de amadurecimento de frutas e organizar as entregas dos produtores de seu município, o que lhes permitirá também aumentar os ganhos. “Estou muito satisfeita. Estamos matando a fome não apenas das crianças, mas de todas as pessoas”, enfatizou. Envolverde/IPS * Com a colaboração de Fabíola Ortiz (Rio de Janeiro).


por Fabiana Frayssinet, da IPS

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