Pesquisa por Marcela Valente* [caption id="attachment_45221" align="alignleft" width="300" caption="Paisagem típica do noroeste, em Tilcara, província de Jujuy, que só admite agricultura resistente à seca e pecuária de caprinos, o que agrava a degradação do solo. Foto: Juan Moseinco/IPS"][/caption]Sementes transgênicas de milho, trigo e soja desenvolvidas na Argentina prometem suportar a falta de água e entregar rendimentos sustentáveis, inclusive na presença de chuvas normais.Buenos Aires, Argentina, 12 de março de 2012 (Terramérica).- Pesquisadores da Argentina isolaram um gene do girassol e o implantaram no milho, no trigo e na soja para lhes dar maior tolerância à seca e à salinidade do solo, problemas associados ao aquecimento global nesta potência agrícola sul-americana. A descoberta foi de uma equipe liderada pela bióloga molecular Raquel Chan, do Instituto de Agrobiotecnologia do Litoral, criado pelo Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) e pela estatal Universidade Nacional do Litoral, na província de Santa Fé.Os cientistas isolaram um dos 50 mil genes da estrutura do girassol, o HAHB4, que ajuda esta planta a resistir à escassez de água, e o introduziram em espécies de trigo, milho e soja. Os testes de campo consumiram três anos em regiões de climas e solos diferentes deste país. Segundo Raquel, a característica genética introduzida em laboratório pode se combinar com outras, como a resistência a herbicidas já presente em vários cultivos transgênicos.Também há outros pontos positivos. “As plantas melhoradas não só resistiram à seca e à salinidade, como aumentaram significativamente sua produtividade”, a característica mais nova da descoberta, explicou Raquel ao Terramérica. O maior rendimento varia de 15% a 100%, segundo a qualidade do cultivo, da região onde é plantado e das condições climáticas, mas em nenhum caso diminuiu. Até agora, não há no mercado sementes resistentes à seca, destacou.A literatura científica registra espécies melhoradas para tolerar maior estresse hídrico. Porém, nos testes publicados por instituições científicas, essas variedades perdem produtividade diante da ocorrência de chuva. Demonstram ser eficientes exclusivamente em condições de escassez ou falta de água, resumiu Raquel. As novas sementes driblam estas “penalidades”, afirmou. “As plantas mostraram que aumentam a produtividade também em condições climáticas normais, com chuvas mais frequentes”, ressaltou.O HAHB4, patenteado para benefício da universidade e do Conicet, foi apresentado no final de fevereiro, e seu uso e exploração foram cedidos por 20 anos à empresa argentina Bioceres, propriedade de mais de 230 produtores agropecuários. A Bioceres se associou com a norte-americana Arcadia Biosciences para criar a marca Verdeca, com a qual venderão as novas sementes no mercado internacional.Para entrar no mercado, as sementes ainda devem ser aprovadas em uma série de testes de efeitos no meio ambiente e na nutrição, bem como seus graus de toxidade. O processo levará de dois a três anos. O HAHB4 é importante para que a agricultura argentina suporte melhor algumas das manifestações da mudança climática, afirmou a destacada cientista Graciela Magrin, do Instituto de Clima e Água. Por causa do aquecimento, é previsto “um aumento na intensidade e frequência de eventos extremos como as secas”, disse ela ao Terramérica.A entidade na qual trabalha integra o estatal Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta), onde são estudados o impacto das condições climáticas sobre a produção rural e as formas de adaptação. Os cenários climáticos para a Argentina preveem períodos de fortes precipitações, concentradas em pouco tempo, e períodos mais prolongados de escassez hídrica, explicou Graciela.Neste verão, a falta de chuvas provocou uma queda na colheita de grãos, que não chegaria aos cem milhões de toneladas (com grandes perdas em milho), quando se esperava uma produção de 111 milhões de toneladas. A seca de 2008-2009, a mais severa em cem anos, fez cair a produção agrícola em 37%. A variabilidade natural e os eventos extremos – déficit ou excesso de água, geadas, tempestades severas, granizo – foram observados nos últimos anos com maior frequência e intensidade, segundo estudos do Inta.Além disso, há uma ocorrência periódica de falta ou excesso de chuvas, associada às fases fria (La Niña) e quente (El Niño) da Oscilação do Sul, um fenômeno oceânico-atmosférico de escala planetária. Os especialistas do Inta recomendam um manejo de cultivos que contemple esses desafios e o desenvolvimento de espécies e variedades resistentes. Graciela alertou que, onde a água começar a escassear, o solo poderá ficar mais salino, e neste aspecto o HAHB4 também é bem-vindo.De fato, 75% dos solos argentinos são áridos, semiáridos e subúmidos secos, o que os torna propícios a se degradarem e, eventualmente, se transformarem em desertos. O Inta alerta para uma crescente desertificação na Patagônia e manifestações graves no sudoeste da província de Buenos Aires. No entanto, os solos áridos não são inférteis. Metade das plantações deste país ocorrem nesses sistemas, segundo a Avaliação da Degradação de Terras em Zonas Áridas (Lada) na Argentina, publicada no final de 2011. Contudo, recomenda-se um manejo cuidadoso.As variedades melhoradas podem ajudar a agricultura a se adaptar melhor a este cenário. Os testes em zonas áridas nas províncias de Chaco (nordeste) e San Luis (centro-leste) deram bons rendimentos, informou Raquel. Organizações ambientalistas não veem as sementes transgênicas com tanto entusiasmo. Para a filial argentina do Greenpeace, podem ser o motor de um novo avanço da agricultura sobre as florestas. Este país já perdeu 70% de suas áreas florestais originais. “Se não for adotada uma política que proíba totalmente o desmatamento, esta semente transgênica implicará o fim das últimas florestas nativas”, alertou em um impresso Hernán Giardini, coordenador da campanha de florestas do Greenpeace.Para a diretora da equipe de pesquisa, o cuidado com a natureza é inestimável, mas deve estar combinado com uma produção maior de alimentos que o mundo demanda. “Somos biólogos moleculares e nosso desafio é produzir mais em menos hectares. Não nos compete decidir até onde se pode estender estes cultivos, mas sim ao Estado”, declarou Raquel. Graciela, do Inta, ressaltou que o novo desenvolvimento exige “um ordenamento territorial muito rígido, que defina onde se pode expandir um cultivo e onde há risco”.* A autora é correspondente da IPS. Este artigo é parte de uma série apoiada pela Aliança Clima e Desenvolvimento, que não necessariamente compartilha seu conteúdo.LINKSSemeando o futuroAs florestas se adaptarão a um mundo mais quente?Em busca de ferramentas para as primeiras vítimas do climaCautelosa reivindicação dos transgênicosBatatas estreiam supergenesClima: Cada vez mais quente – Cobertura especial da IPS, em espanholO desafio de produzir alimentos em terras secas, em espanholOutra vez a ameaça da seca na ArgentinaInstituto de Agrobiotecnologia do Litoral, em espanholUniversidade Nacional do Litoral, em espanholConselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas, em espanholBioceres, em espanhol e inglêsArcadia Biosciences, em inglêsInstituto de Clima e Água, em espanholInstituto Nacional de Tecnologia Agropecuária, em espanholBolsa de Cereais, em espanholGreenpeace Argentina, em espanholAvaliação da Degradação de Terras em Zonas Áridas, em espanholArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.