TERRAMÉRICA - Transgênicos argentinos respondem ao desafio climático

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TERRAMÉRICA – Transgênicos argentinos respondem ao desafio climático


por Marcela Valente*


[caption id="attachment_45221" align="alignleft" width="300" caption="Paisagem típica do noroeste, em Tilcara, província de Jujuy, que só admite agricultura resistente à seca e pecuária de caprinos, o que agrava a degradação do solo. Foto: Juan Moseinco/IPS"][/caption]Sementes transgênicas de milho, trigo e soja desenvolvidas na Argentina prometem suportar a falta de água e entregar rendimentos sustentáveis, inclusive na presença de chuvas normais.Buenos Aires, Argentina, 12 de março de 2012 (Terramérica).- Pesquisadores da Argentina isolaram um gene do girassol e o implantaram no milho, no trigo e na soja para lhes dar maior tolerância à seca e à salinidade do solo, problemas associados ao aquecimento global nesta potência agrícola sul-americana. A descoberta foi de uma equipe liderada pela bióloga molecular Raquel Chan, do Instituto de Agrobiotecnologia do Litoral, criado pelo Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet) e pela estatal Universidade Nacional do Litoral, na província de Santa Fé.Os cientistas isolaram um dos 50 mil genes da estrutura do girassol, o HAHB4, que ajuda esta planta a resistir à escassez de água, e o introduziram em espécies de trigo, milho e soja. Os testes de campo consumiram três anos em regiões de climas e solos diferentes deste país. Segundo Raquel, a característica genética introduzida em laboratório pode se combinar com outras, como a resistência a herbicidas já presente em vários cultivos transgênicos.Também há outros pontos positivos. “As plantas melhoradas não só resistiram à seca e à salinidade, como aumentaram significativamente sua produtividade”, a característica mais nova da descoberta, explicou Raquel ao Terramérica. O maior rendimento varia de 15% a 100%, segundo a qualidade do cultivo, da região onde é plantado e das condições climáticas, mas em nenhum caso diminuiu. Até agora, não há no mercado sementes resistentes à seca, destacou.A literatura científica registra espécies melhoradas para tolerar maior estresse hídrico. Porém, nos testes publicados por instituições científicas, essas variedades perdem produtividade diante da ocorrência de chuva. Demonstram ser eficientes exclusivamente em condições de escassez ou falta de água, resumiu Raquel. As novas sementes driblam estas “penalidades”, afirmou. “As plantas mostraram que aumentam a produtividade também em condições climáticas normais, com chuvas mais frequentes”, ressaltou.O HAHB4, patenteado para benefício da universidade e do Conicet, foi apresentado no final de fevereiro, e seu uso e exploração foram cedidos por 20 anos à empresa argentina Bioceres, propriedade de mais de 230 produtores agropecuários. A Bioceres se associou com a norte-americana Arcadia Biosciences para criar a marca Verdeca, com a qual venderão as novas sementes no mercado internacional.Para entrar no mercado, as sementes ainda devem ser aprovadas em uma série de testes de efeitos no meio ambiente e na nutrição, bem como seus graus de toxidade. O processo levará de dois a três anos. O HAHB4 é importante para que a agricultura argentina suporte melhor algumas das manifestações da mudança climática, afirmou a destacada cientista Graciela Magrin, do Instituto de Clima e Água. Por causa do aquecimento, é previsto “um aumento na intensidade e frequência de eventos extremos como as secas”, disse ela ao Terramérica.A entidade na qual trabalha integra o estatal Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta), onde são estudados o impacto das condições climáticas sobre a produção rural e as formas de adaptação. Os cenários climáticos para a Argentina preveem períodos de fortes precipitações, concentradas em pouco tempo, e períodos mais prolongados de escassez hídrica, explicou Graciela.Neste verão, a falta de chuvas provocou uma queda na colheita de grãos, que não chegaria aos cem milhões de toneladas (com grandes perdas em milho), quando se esperava uma produção de 111 milhões de toneladas. A seca de 2008-2009, a mais severa em cem anos, fez cair a produção agrícola em 37%. A variabilidade natural e os eventos extremos – déficit ou excesso de água, geadas, tempestades severas, granizo – foram observados nos últimos anos com maior frequência e intensidade, segundo estudos do Inta.Além disso, há uma ocorrência periódica de falta ou excesso de chuvas, associada às fases fria (La Niña) e quente (El Niño) da Oscilação do Sul, um fenômeno oceânico-atmosférico de escala planetária. Os especialistas do Inta recomendam um manejo de cultivos que contemple esses desafios e o desenvolvimento de espécies e variedades resistentes. Graciela alertou que, onde a água começar a escassear, o solo poderá ficar mais salino, e neste aspecto o HAHB4 também é bem-vindo.De fato, 75% dos solos argentinos são áridos, semiáridos e subúmidos secos, o que os torna propícios a se degradarem e, eventualmente, se transformarem em desertos. O Inta alerta para uma crescente desertificação na Patagônia e manifestações graves no sudoeste da província de Buenos Aires. No entanto, os solos áridos não são inférteis. Metade das plantações deste país ocorrem nesses sistemas, segundo a Avaliação da Degradação de Terras em Zonas Áridas (Lada) na Argentina, publicada no final de 2011. Contudo, recomenda-se um manejo cuidadoso.As variedades melhoradas podem ajudar a agricultura a se adaptar melhor a este cenário. Os testes em zonas áridas nas províncias de Chaco (nordeste) e San Luis (centro-leste) deram bons rendimentos, informou Raquel. Organizações ambientalistas não veem as sementes transgênicas com tanto entusiasmo. Para a filial argentina do Greenpeace, podem ser o motor de um novo avanço da agricultura sobre as florestas. Este país já perdeu 70% de suas áreas florestais originais. “Se não for adotada uma política que proíba totalmente o desmatamento, esta semente transgênica implicará o fim das últimas florestas nativas”, alertou em um impresso Hernán Giardini, coordenador da campanha de florestas do Greenpeace.Para a diretora da equipe de pesquisa, o cuidado com a natureza é inestimável, mas deve estar combinado com uma produção maior de alimentos que o mundo demanda. “Somos biólogos moleculares e nosso desafio é produzir mais em menos hectares. Não nos compete decidir até onde se pode estender estes cultivos, mas sim ao Estado”, declarou Raquel. Graciela, do Inta, ressaltou que o novo desenvolvimento exige “um ordenamento territorial muito rígido, que defina onde se pode expandir um cultivo e onde há risco”.* A autora é correspondente da IPS. Este artigo é parte de uma série apoiada pela Aliança Clima e Desenvolvimento, que não necessariamente compartilha seu conteúdo.LINKSSemeando o futuroAs florestas se adaptarão a um mundo mais quente?Em busca de ferramentas para as primeiras vítimas do climaCautelosa reivindicação dos transgênicosBatatas estreiam supergenesClima: Cada vez mais quente – Cobertura especial da IPS, em espanholO desafio de produzir alimentos em terras secas, em espanholOutra vez a ameaça da seca na ArgentinaInstituto de Agrobiotecnologia do Litoral, em espanholUniversidade Nacional do Litoral, em espanholConselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas, em espanholBioceres, em espanhol e inglêsArcadia Biosciences, em inglêsInstituto de Clima e Água, em espanholInstituto Nacional de Tecnologia Agropecuária, em espanholBolsa de Cereais, em espanholGreenpeace Argentina, em espanholAvaliação da Degradação de Terras em Zonas Áridas, em espanholArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

bem-verde-como-obter-agua-potavel-na-natureza-br Água

A crise da água e a sede de vida

No dia 22, a Organização das Nações Unidas (ONU) celebra mais um dia internacional da água. Em vários países, devido à urgência do problema, as reflexões e eventos sobre este dia tomarão toda a semana. De fato, estamos em situação de risco. O sistema de vida no planeta Terra está ameaçado e a água se torna o bem mais precioso. Hoje, 1,1 bilhão de pessoas já não têm acesso a água potável, e 2,4 bilhão de pessoas não têm saneamento básico. Cada ano, seis milhões de pobres, dos quais quatro milhões de crianças, morrem de enfermidades ligadas a águas contaminadas. Até o ano 2025, conforme um estudo da ONU, este problema afetará metade da humanidade.Há diversos motivos para esta crise. O planeta Terra tem 75% de sua superfície ocupada por oceanos, mas a água doce representa apenas 2,5% deste total. No último século, a população mundial aumentou muito e na maioria dos países a urbanização se fez de modo descontrolado. É ao redor das 217 bacias fluviais internacionais que se concentra 40% da população da humanidade. Por causa do crescimento demográfico e da poluição, nos últimos 30 anos, os recursos hídricos foram reduzidos em 40%. Da água disponível que tínhamos, a humanidade acabou com cinco mil quilômetros quadrados. E muitos ainda se comportam como se a água fosse um bem inesgotável. Usam os recursos hídricos de modo irresponsável e injusto.A água é um recurso natural limitado e pode acabar. Tem valor econômico e competitivo no mercado. Não pode ser desperdiçada (cada vez que se toma um banho com chuveiro aberto todo o tempo desperdiça-se mais água do que se usa). Quase todos os países atualizam legislações sobre a água. Em vários lugares, há conflitos entre povos por causa da água. Há quem diga que as guerras do futuro serão por causa de água. Organizações não governamentais e movimentos populares defendem que a água não deve ser mercantilizada – ela é mais do que uma mercadoria – e menos ainda privatizada. A Pastoral da Terra declara: “Sendo a água constitutiva do ser humano, da vida como um todo e do meio ambiente, ela é um direito natural, patrimônio da humanidade, dádiva divina e não obra humana. Por isto, ela não pode ser reduzida a uma mercadoria e a um bem particular. E nenhum ser humano pode arrogar a si o poder de negar a qualquer semelhante ou ser vivo este bem essencial à vida”.O cuidado com a água tem, então, motivos sociais e econômicos. Mas a nossa relação com a água só mudará se aprendermos com as culturas religiosas antigas a nos relacionarmos com a terra e com a água de forma amorosa e espiritual. A Bíblia fala da água como símbolo do espírito de Deus que derrama sobre o universo uma vida nova. Cuidar bem da água e defender os rios e fontes é uma forma de reconhecer a presença divina no universo, defender a vida e participar da Páscoa pela qual Deus “renova todas as coisas” (Ap 21, 5).* Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Marcelo Barros, do Brasil de Fato
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Mudanças climáticas devem ser questão de segurança, diz União Africana

Durante o Diálogo Interparlamentar sobre Mudanças Climáticas, Paz e Segurança, que ocorreu na semana passada na Etiópia, com organização da Fundação Friedrich Ebert (FES), parlamentares da União Africana (UA) declararam que as mudanças climáticas devem ser consideradas uma ameaça à segurança.Membros da UA de 14 países pediram que problemas envolvendo o clima passem a ser incluídos em políticas nacionais de segurança, já que, segundo diversas pesquisas, essas questões podem afetar direta ou indiretamente diversos problemas como a fome, a pobreza, distúrbios econômicos e até conflitos armados.“As mudanças climáticas podem não causar diretamente a violência, mas interagem com ela e exacerbam os problemas existentes. Conflitos surgem quando pessoas de diferentes grupos étnicos se mudam rapidamente para áreas que sofrem de recursos limitados. Isto pode compor pressões sociais e transferir o conflito de uma localidade para outra”, observou Debay Tadesse, do Instituto de Estudos de Segurança na Etiópia.“Tensões sociais e o potencial para a violência podem aumentar onde a chegada de uma população deslocada pelo clima causa competição. À medida que a população africana continua crescendo e a demanda por recursos continua a crescer, há um potencial significativo para conflitos por recursos naturais”, continuou Tadesse.A ameaça dos problemas ambientais, e mais especificamente das mudanças climáticas, como questão de segurança é um tema que já vem sendo debatido há algum tempo. Recentemente, a questão foi discutida na Organização das Nações Unidas (ONU), e criou certa discórdia entre os países.De um lado, alguns países defendiam que o fenômeno deveria passar a ser pauta do Conselho de Segurança, argumentando que esse tipo de problema desencadeia e intensifica ameaças à segurança humana.Do outro lado, outras nações não aprovavam que os impactos ambientais devessem ser vistos como assunto de segurança, justificando que colocar o problema nestes termos poderia prejudicar o combate ao fenômeno e tornaria os debates sobre a questão ainda mais incertos e burocráticos.Para William Lacy-Swing, diretor-geral da Organização Internacional para Migração (OIM), já passou da hora de incluir a segurança humana nos debates sobre mudanças climáticas, a começar pela questão do deslocamento de pessoas que o fenômeno já está causando, como acontece nas Ilhas Carterets, nas Ilhas Salomão e, mais recentemente, em Kiribati.Segundo a OIM, em 2010, cerca de 42 milhões de pessoas foram deslocadas por conta das alterações climáticas, e o número deve aumentar se nenhuma providência for tomada. “Acho que temos que fazer um trabalho melhor de reconhecer que o problema mais fundamental é que as pessoas vão ser deslocadas em grandes números”, comentou Lacy-Swing.“Eu estava em Copenhagen e estava em Cancún no último ano e estou aqui hoje. Foi em Cancún que o deslocamento populacional em grande escala foi mencionado depois de todos esses anos de conversa sobre as mudanças climáticas e seus efeitos. O que é mais significativo sobre as mudanças climáticas do que as pessoas?”, questionou o diretor da OIM.Mas, para combater o problema das mudanças climáticas como ameaça de segurança, Alex Evans, do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York, acredita que é necessário um maior avanço por parte dos governos, o que, segundo ele, não está ocorrendo.“Precisamos de uma participação mais radical dos governos. Tem havido muitas conferências sobre mudanças climáticas. Mas não estamos fazendo progresso. A África deveria liderar este debate”, comentou Evans.Já para Brenda Chikwe Mofya, oficial de ligação da FES-UA, o encontro realizado com a participação dos membros do parlamento (MPs) é o primeiro passo para lidar com a questão.“A inclusão dos membros do parlamento é para garantir que as decisões e instrumentos da UA serão implementadas. Essa conversação com os MPs é importante porque eles são os criadores das leis. Precisamos nos ajudar em relação ao papel que os MPs podem ter a fim de mitigar as mudanças climáticas”, finalizou Brenda.* Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Jéssica Lipinski, do CarbonoBrasil
Diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia afirma que Brasil é o único país capaz de colocar em prática o mecanismo que prevê recompensa a nações que combatem o desmatamento. Foto: Inpe REDD

Diretrizes nacionais para programa de redução de emissões

[caption id="attachment_45157" align="alignleft" width="200" caption="Diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia afirma que Brasil é o único país capaz de colocar em prática o mecanismo que prevê recompensa a nações que combatem o desmatamento. Foto: Inpe"][/caption]Agência Fapesp – O Brasil é o único país com condições de colocar em prática um programa de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), mecanismo pelo qual nações que reduzem o desmatamento poderiam vender créditos de carbono no mercado internacional. Por conta disso, o governo brasileiro deveria apresentar diretrizes sobre o tema até a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que será realizada em junho no Rio de Janeiro.A análise foi feita por Paulo Moutinho, diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), durante o “Biota-Bioen-Climate Change Joint Workshop: Science and Policy for a Greener Economy in the context of Rio+20”. O workshop foi realizado pela Fapesp, nos dias 6 e 7 de março, em São Paulo.De acordo com Moutinho, embora a queima de combustíveis fósseis seja a principal responsável pelas emissões de gases-estufa, a forma mais rápida e barata de combater a mudança climática é deter o desmatamento de florestas, principalmente nas regiões tropicais do planeta. “Mas isto não quer dizer que o esforço que Brasil e outras nações estão fazendo para conter a derrubada de árvores tenha de valer pouco”, disse.O diretor do Ipam foi um dos idealizadores do conceito de “redução compensada de emissões”, que deu origem ao REDD. O argumento é que os países tropicais ajudam a estabilizar o clima do planeta por meio de suas florestas e, assim, os custos para mantê-las em pé devem ser divididos por todos.A ideia foi apresentada pela primeira vez em 2003, durante a 9ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP-9), na Itália. As discussões continuaram nas conferências seguintes. O conceito, que inicialmente focava o desmatamento evitado, passou a englobar ações como degradação florestal evitada, aumento de estoques de carbono e conservação florestal, sendo rebatizado como REDD+.Mas, até hoje, o mecanismo não foi devidamente regulamentado em nenhum lugar do mundo e, por esse motivo, passou a sofrer o que Moutinho chama de “efeito Saci-Pererê”: todo mundo já ouviu falar, mas ninguém viu.“Se isso não ocorrer no Brasil, não vai acontecer em nenhum outro lugar do mundo. Vários elementos fazem do país o lugar ideal para colocar esse grande experimento em andamento”, disse.Segundo dados do Ipam, o Brasil está entre os cinco maiores emissores mundiais de gases de efeito estufa. Mais de 60% das emissões brasileiras são resultantes de mudanças de uso do solo e desmatamento. Indonésia e Congo seriam os dois outros países tropicais com “desmatamento a ser tratado”, mas não têm as mesmas condições favoráveis do Brasil.O país, de acordo com Moutinho, avançou muito ao criar a Política Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC) e estabelecer metas para a redução do desmatamento até 2020.“Além disso, temos o Fundo Amazônia, um bom sistema de monitoramento, 185 bilhões de hectares de áreas protegidas – que abrigam 26 bilhões de toneladas de carbono, uma sociedade organizada, uma comunidade científica de excelência e uma governança crescente”, disse.Entre os obstáculos mencionados por Moutinho está o fato de que os grandes projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não têm salvaguardas ambientais explícitas. Ele cita também a demanda crescente por commodities como bioetanol e soja, os assentamentos florestais e a flexibilização da legislação ambiental, que pode ocorrer se for aprovado o novo Código Florestal.Estratégia regulamentadaO Estado do Acre, segundo Moutinho, possui o programa de REDD mais avançado do mundo. “Outros Estados amazônicos e também do Sudeste, como São Paulo, têm feito esforços para reduzir suas emissões por desmatamento. Mas falta uma estratégia nacional”, ressaltou.Para o diretor do Ipam, se não houver uma legislação federal que articule as estratégias estaduais, a instabilidade afastará os investidores internacionais. “Se cada programa tiver uma lógica diferente e sua própria forma de calcular as emissões, o investidor não vai saber o que está comprando. Até a Rio+20, o governo teria de dar diretrizes mais claras do que ele quer realmente implantar em âmbito nacional”, disse.Regulamentar uma estratégia de REDD, de acordo com Moutinho, é a grande oportunidade de mudar a lógica de produção e estimular uma economia de baixo carbono. “Não precisa deixar de produzir. É possível aumentar a produtividade em áreas menores e ainda ganhar dinheiro pela floresta que ficou em pé”, disse.A princípio, seria possível colocar isso em prática mesmo sem auxílio internacional, contando com recursos de isenção fiscal e fundos de compensação ambiental. “Mas a remuneração externa é importante, pois o mundo tem de reconhecer o esforço do Brasil em proteger a floresta”, disse Moutinho.* Publicado originalmente no site Agência Fapesp.


por Karina Toledo, da Agência Fapesp
sustentabilidade_empresarial Artigo

Em ano de Rio+20, o verde lava mais branco

Historinha útil em ano de Rio+20.Liguei para uma empresa a fim de perguntar quais as razões dela não ter uma política para prevenir, em sua cadeia produtiva, os impactos ambientais causados por sua demanda por matéria-prima. Não vou dizer o nome da companhia, poderia ser qualquer uma. Aliás, pode ser qualquer uma. Mas, tal qual I-Juca Pirama, esta é brava, é forte, é filha das selvas, nas selvas cresceu.- Claro que temos uma política! No ano passado, construímos X creches, Y escolas e Z centros técnicos para o design de camisetas para a promoção da vida de ursos pandas que comem bambu, pois apesar de não serem brasileiros natos, estão em risco de extinção e, por isso, merecem toda a nossa atenção, como você pode ver por esse belo vídeo institucional feito por um famoso cineasta e que está em nosso canal no You Tube. Ou coisa do gênero.Quando comentei que a pessoa estava enumerando casos de investimento social privado (para não dizer de greenwashing – porque, como todos sabemos, o verde lava mais branco) e não de políticas de responsabilidade social, houve algo como um “hein?” do outro lado da linha. Sabe? Investir em projetos e programas é importante, mas analisar, prever e evitar ou mitigar os impactos causados pela própria existência de um empreendimento é muito mais importante. Forneci alguns exemplos, como fugir de cadeias produtivas danosas, instaurar processos que respeitem as terras de populações tradicionais, controlar o uso desvairado de agrotóxicos e dar transparência ao mercado sobre os relacionamentos institucionais. Então, o céu se abriu e aconteceu um daqueles momentos de sinceridade extrema, daqueles de ano bissexto:- Ah, mas se as coisas fossem do jeito que você está sugerindo, a empresa perderia competitividade.Dei-me por satisfeito com a resposta, oferecendo com um longo silêncio (pois sou um boca mole) minha sincera anuência à avaliação.Essa foi bem melhor que a afirmação de outra empresa, nesta feliz segunda-feira, de que não adotava políticas duras em sua cadeia produtiva porque isso geraria desemprego. E, por isso, preferia um trabalho lento (e, pela minha constatação, inexistente) para tentar melhorar a qualidade dos fornecedores.De certa forma, o combate ao tráfico de drogas também gera desemprego. Com o agravante que o tráfico não demite quando tem pequenas quedas de lucro, como a empresa em questão.E a opção de se responsabilizar, de verdade, e não apenas com projetinhos-migalhas, pelos processos que você desencadeia com sua demanda por matéria-prima? E ajudar a gerar empregos decentes em atividades lícitas para inserir o pessoal que trabalhava em processos duvidosos em sua cadeia de valor?Se o sujeito usa de concorrência desleal e faz dumping social e ambiental, ele tem que responder por isso. Não apenas pelo impacto, mas por levar setores inteiros de nossa economia a responderem pela má-fé de alguns no comércio exterior. O engraçado é o corporativismo burro salvar esse pessoal da danação. Ei, otários, eles estão passando a perna em vocês que trabalham duro para seguir a lei!Tempos atrás, em um debate envolvendo parlamentares, defendi ações mais firmes para garantir que as mercadorias brasileiras vendidas para o exterior não fossem produzidas com danos ambientais ou maus tratos aos trabalhadores, levando o causador do problema à bancarrota se necessário fosse. Fui chamado de “comunista”. Rá!Na verdade, isso é capitalismo na veia. Garantir informação correta para que investidores e compradores possam tomar uma decisão embasada na hora de comprar, considerando custos e riscos. Sem isso, a economia sofre – para deleite de alguns. Alguns chamam de comunismo. Eu chamo de gerenciamento de riscos. E se não fosse assim, não haveria tanta empresa trazendo essa questão de cadeias produtivas e de responsabilidade empresarial para o seu core business. E entrando em contato com uma organização, como a Repórter Brasil, da qual participo, não para perguntar o que fazer, mas buscar informação para embasar suas ações.Estas sabem que verificar onde estão os buracos pelo caminho é a saída mais fácil para evitar acidentes e ir mais rápido.É economia, não é caridade. Ninguém faz isso pelo pobre do escravo, o coitado do índio ou o maltratado peixe-bagre-caolho-de-moicano-púrpura-do-alto-rio-Madeira. Fazem porque sabem que é a diferença entre ganhar e perder dinheiro, seja pela ação de agentes públicos que resolvem seguir a lei, sejam pelos interesseiros bloqueios comerciais da Europa e Estados Unidos. E é bom que seja assim. A missão de uma empresa é ganhar dinheiro, e da parte da sociedade civil é garantir que isso não aconteça se passar ao largo da dignidade humana.Nesse jogo, todos sabem seu papel. Mas há empresas que fazem de conta que não é com elas. Não vou dizer que elas não se darão bem no final e que tudo o que estou falando vá por água abaixo. Por hoje, contudo, dou um conselho aos colegas que fazem a assessoria de algumas empresas que, vira e mexe, são envolvidas em problemas: continuem sendo sinceros. Isto ajuda.* Publicado originalmente no site Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto
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Ritmo da acidificação oceânica pode ser a maior em 300 milhões de anos

Uma nova pesquisa sobre a acidificação dos oceanos, liderada pela Universidade Columbia e desenvolvida por cientistas da Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Grã-Bretanha e Países Baixos, revelou que não apenas o fenômeno está ocorrendo, como está no ritmo mais acelerado dos últimos 300 milhões de anos, época em que ocorreu uma grande extinção em massa que extinguiu cerca de 95% das espécies do planeta.Para realizar o estudo, os pesquisadores analisaram registros químicos preservados em rochas para avaliar as acidificações de oceanos anteriores. Os resultados mostraram que a acidificação atual só é menor do que uma que ocorreu entre 300 milhões e 250 milhões de anos atrás, quando os dinossauros foram extintos, e comparável a outra que foi registrada há 55 milhões de anos.Mas, mesmo neste último evento, passaram-se pelo menos três mil anos para que o pH dos oceanos diminuísse 0,5 grau. “Esta é uma ordem de magnitude mais lenta do que a de hoje”, observou Bärbel Hönisch, paleo-oceanógrafa da Universidade Columbia. Atualmente, o pH está caindo cerca de 0,1 grau por século.“Embora similaridades existam, nada nos últimos 300 milhões de anos se compara às taxas das projeções futuras em termos da química de carbonatação dos oceanos – uma consequência da rapidez sem precedentes da liberação de CO2 que está ocorrendo atualmente”, observou Andy Ridgwell, coautor, da Universidade Bristol.E embora não haja certezas sobre como o fenômeno afetará os mares, estudos recentes indicam que o evento pode prejudicar crustáceos, recifes de corais, peixes, causar desequilíbrios nas populações de alguns animais, extinguir boa parte das espécies oceânicas e, consequentemente, afetar a alimentação mundial.“O registro geológico sugere que a atual acidificação é potencialmente sem precedentes em pelo menos 300 milhões de anos na história da Terra, e aumenta a possibilidade de que estejamos entrando em um território desconhecido da mudança do ecossistema marinho”, alertou Ridgwell.“Sabemos que a vida durante o último evento de acidificação oceânica não foi varrida – novas espécies evoluíram para substituir aquelas que morreram. Mas se as emissões industriais de carbono continuarem no ritmo atual, podemos perder organismos que nos importam – recifes de corais, ostras, salmões”, concluiu Hönisch.* Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Jéssica Lipinski, do Carbono Brasil
size_590_Fim_do_mundo Artigo

Fim do mundo e sustentabilidade

Por mais duro que seja o golpe na nossa autoestima e sentimento de superioridade, para a natureza e o planeta somos plenamente dispensáveis. Tudo pode continuar sem nós, a não ser, claro, nós mesmos. A natureza e as demais espécies não são recursos naturais à disposição da espécie humana. Muito menos uma lixeira para nossos restos. Ou revemos nossa visão e atitudes, ou acontecerá com nossa civilização – e talvez com nossa espécie – o que já aconteceu com outras antes.Não é de hoje que se anuncia o fim do mundo. Os maias, por exemplo, anunciaram o deles para agora, 12/12/2012, só que ironicamente não terão a oportunidade de conferir, por que eles próprios se encarregaram de abreviar a passagem deles pelo planeta. Quando os invasores europeus chegaram por lá, foi para dar o golpe de misericórdia e roubar todo o ouro, por que a civilização maia já estava em declínio pela falta de água. Aliás, situação parecida com a que vitimou a civilização dos faraós, no Egito, e mais tarde a da Ilha de Páscoa. Será que os maias, os faraós e o povo da Ilha de Páscoa não se deram conta dos riscos, ou apenas perceberam quando já era tarde demais? Ou será que escolheram não dar bola para os avisos de alerta?Qual é a dificuldade em compreender que se estivermos caminhando numa determinada direção, tenderemos a chegar lá? Em 2005, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um relatório intitulado Avaliação Ecossistêmica do Milênio (AEM), resultado de cerca de quatro anos de estudos intensivos de 1.360 cientistas de 95 países, que produziram um dos documentos mais completos e atualizados sobre a situação do meio ambiente no planeta. O estudo revelou que cerca de 60% de todos os ecossistemas do planeta estão degradados ou sendo usados de um modo não sustentável.Assim como o colapso de civilizações humanas inteiras, devido ao mau uso da natureza, não é novidade na história humana, a extinção de espécies também não é novidade para a natureza. Os cientistas conhecem pelo menos dez eventos de extinção em massa no nosso planeta. E a natureza se recuperou. O mais recente foi provocado por um meteoro que caiu na península de Yucatán, no Golfo do México, e extinguiu todos os animais terrestres com mais de 25 quilogramas, entre os quais a espécie mais famosa é a dos dinossauros. Sorte nossa que os ancestrais mamíferos estavam na minoria que sobrou, e mais sorte ainda por que não teriam que se esconder mais dos dinossauros, permitindo a nossa existência hoje. Então, o que é crise para uma espécie pode ser oportunidade para outra.A diferença é que agora o "meteoro" somos nós. E os dinossauros também!Para compreender a profundidade do nosso impacto na natureza precisamos ir à raiz do problema, ou talvez não consigamos produzir as mudanças além da superfície. Ao contrário do que pensam os cartórios de registros de imóveis e de patentes, o mundo não nos pertence.Em nossa ilusão e arrogância, temos torcido e retorcido a realidade até que as respostas se encaixem em nossa visão de espécie superior. No passado, aceitávamos a escravidão de outros humanos sob o argumento de serem inferiores, perdedores ou sem alma. Hoje, fazemos o mesmo com os animais e com a natureza. O que nos diferencia das demais espécies não é a inteligência ou sentidos mais apurados. Muitas espécies possuem sentidos mais desenvolvidos que os nossos e também têm inteligência, são seres sensíveis, comunicam-se por meio de sons e gestos, usam ferramentas, etc. O que nos torna diferentes é a consciência. Aparentemente, um atributo exclusivo da espécie humana.Se por um lado a consciência nos deu uma identidade e nos tornou únicos, por outro, nos deu a ilusão de separação. E daí a nos achar separados da natureza foi um pequeno pulo de nossa imaginação, como se o que fizéssemos à natureza e às demais espécies não fosse nos atingir de alguma forma. Estava dada a largada para o modelo de consumo irresponsável, a concentração de riquezas e a injustiça social e ambiental. Então, se pretendemos sobreviver, teremos de sentir, pensar e agir diferente. Ou nos reposicionamos na natureza, ou, mais cedo ou mais tarde, nossa civilização conhecerá o mesmo destino de outras que nos sucederam.* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a Rebia (Rede Brasileira de Informação Ambiental), em janeiro de 1996 fundou o Jornal do Meio Ambiente e, em 2006, a Revista do Meio Ambiente e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 do Programa da ONU para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas. Site www.escritorvilmarberna.com.br.


por Vilmar Sidnei Demamam Berna*
1612-sustentabilidade Envolverde Rio + 20

Rio+20 deverá ter foco em economia verde inclusiva

Agência Fapesp – A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que será realizada no Brasil em junho, não terá o caráter legislativo da Eco92, cujo legado transformou para sempre a perspectiva mundial sobre o tema do meio ambiente.No entanto, a Rio+20 poderá alcançar um impacto planetário de magnitude semelhante ao da Eco92, contanto que consiga superar o desafio de integrar de forma equânime os três pilares do desenvolvimento sustentável: as dimensões ambiental, econômica e social.A defesa dessa integração é o cerne da posição brasileira na Conferência, de acordo com o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, subsecretário-geral de Meio Ambiente, Energia e Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que participou nesta terça-feira (6/3) do Biota-Bioen-Climate Change Joint Workshop: Science & policy for a greener economy in the context of Rio+20. Machado é o secretário executivo da comissão brasileira para a Rio+20.Planejado para que a comunidade científica possa discutir os temas da Rio+20, o evento foi realizado conjuntamente pelo Programa Biota-Fapesp, pelo Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) e pelo Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).“A Rio+20 é uma conferência sobre desenvolvimento sustentável e não apenas um debate sobre meio ambiente. A intenção da presidência da Conferência é que as dimensões ambiental, social e econômica tenham o mesmo peso no debate. O governo brasileiro, por sua vez, entende que, se os desafios do Século 21 não forem vistos de maneira integrada, jamais conseguiremos atingir níveis de sustentabilidade”, disse Machado.De acordo com o embaixador, o mundo atravessa uma época de crise internacional e os atuais modelos de desenvolvimento demonstram uma erosão em sua capacidade de dar respostas aos novos desafios.“Os modelos atuais produzem crises em todos os pilares do desenvolvimento sustentável: a crise climática, a perda acelerada da biodiversidade, a degradação social e a crise energética demonstram isto. Estamos fazendo algo errado”, disse.Na época da Eco92, segundo Machado, os países desenvolvidos acreditavam que haviam resolvido suas questões econômicas e sociais e dirigiam o foco das discussões para os temas exclusivamente ambientais. Enquanto isso, os países em desenvolvimento tinham o foco no desenvolvimento econômico apoiado no contexto da sustentabilidade.“Vinte anos depois, o mundo virou de cabeça para baixo: os países desenvolvidos estão lidando com uma profunda crise econômica e social, enquanto países como o Brasil são líderes na área em tecnologias verdes, em investimentos em energia limpa e avançaram na inclusão social”, disse.Nesse novo contexto, segundo Machado, a Rio+20 não tem mais uma agenda que olha o econômico, o ambiental e o social separadamente. Por isto, a comissão brasileira da Conferência tem utilizado o termo “economia verde inclusiva”, a fim de remeter ao trinômio “crescimento”, “inclusão social” e “proteção da natureza”.“A decisão política do Século 21 é a de integrar essas três dimensões. Este é um desafio para todos os países e para a Rio+20. Se conseguirmos esta integração, finalmente poderemos, depois de duas décadas, realizar as promessas da Eco92”, afirmou Machado.Na abertura do evento, o presidente da Fapesp, Celso Lafer, destacou o protagonismo do Brasil e a importância central da ciência no contexto da Rio+20. Segundo ele, o Brasil é uma grande potência no tema do meio ambiente e nenhum dos grandes problemas dessa agenda pode ser encaminhado sem ativa participação brasileira.“A liderança brasileira tem legitimidade internacional. É preciso ressaltar também a relevância do conhecimento no processo da Rio+20. A Conferência envolve problemas de natureza complexa para os quais uma adensada pesquisa fornece indicações imprescindíveis”, disse Lafer.“Este workshop proposto pela Fapesp, com participação dos pesquisadores que vêm alargando o horizonte do conhecimento sobre mudanças climáticas, bioenergia e biodiversidade, contribuirá para a preparação das negociações, integrando nosso discurso”, disse.Questão energéticaDurante o evento, a palestra A produção de bioenergia no contexto da Rio+20 foi apresentada pelo físico José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), que era secretário do Meio Ambiente do Brasil durante a Eco92.De acordo com Goldemberg, o documento preparado pelo secretariado da ONU com contribuições dos países participantes da Rio+20, incluindo o Brasil, contém 128 parágrafos, sendo que dois deles são dedicados ao problema da energia. Um dos principais objetivos estabelecidos pelo documento é o acesso básico universal a um mínimo de energia moderna, até 2030, com o dobro da eficiência energética atual.“O significado dessas considerações é muito profundo, se observarmos os dados de que dispomos. Atualmente, mais de 80% da energia consumida no mundo provém de fontes fósseis: petróleo (34,6%), gás (22,1%) e carvão (28,4%). As energias renováveis correspondem a 12,9% do total”, afirmou Goldemberg.A extrema dependência do petróleo impõe uma limitação física insustentável: o esgotamento das reservas. Por maiores que sejam as reservas descobertas no pré-sal brasileiro, segundo Goldemberg, elas são uma contribuição modesta para as fontes de energia de petróleo do mundo.“Além da limitação física, o petróleo tem um grave problema de acesso, já que as fontes estão distribuídas de forma errática no mundo. Em seguida, temos o problema mais grave que é o impacto ambiental das emissões de gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global. Os combustíveis fósseis são responsáveis por boa parte da prosperidade e conforto que a humanidade conseguiu, mas lamentavelmente esta situação não pode durar”, disse.Parte significativa do consumo de combustíveis fósseis, segundo Goldemberg, é proveniente do transporte individual. E a tendência é que o número de carros aumente expressivamente nos próximos anos, alavancando o consumo de gasolina. Entre 1980 e 2010, a demanda mundial por gasolina subiu de 0,8 trilhão de litros por ano para quase 1,3 trilhão de litros.São 30 milhões de barris diários, correspondendo a um terço do consumo mundial de petróleo. Esta situação não vai melhorar. Nos Estados Unidos há quase 800 automóveis por mil pessoas. Outros países industrializados têm 500 automóveis por mil habitantes – que é aproximadamente a escala na cidade de São Paulo. Os países menos desenvolvidos estão seguindo esta trajetória. A previsão é que, em 2050, em vez dos atuais 750 milhões de automóveis, tenhamos 2,25 bilhões”, disse.Para reduzir a magnitude do problema, segundo Goldemberg, é preciso que o mundo busque um modelo semelhante ao brasileiro: expandir a matriz hidrelétrica onde for possível e investir em outros componentes renováveis. Um dos caminhos do desenvolvimento sustentável na área de energia, de acordo com ele, é a substituição da gasolina por um combustível produzido a partir de biomassa.“O único combustível que vem fazendo isso de maneira eficiente e em escala comercial até agora é o etanol de cana-de-açúcar. Se conseguirmos desenvolver o etanol de segunda geração, poderemos aumentar a produção sem aumentar a área plantada. Para isto é preciso investir em pesquisa. No contexto da Rio+20, acredito que a contribuição do etanol de cana-de-açúcar originário de países tropicais deverá ser uma das cartas importantes na discussão”, disse.Clima, bioenergia e biodiversidadeDurante o evento, o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, fez uma apresentação sobre os programas Biota-Fapesp, Bioen e PFPMCG. De acordo com ele, o Biota tem como objetivo não apenas caracterizar a biodiversidade do Estado de São Paulo, como definir mecanismos para sua conservação e uso sustentável.“O Biota-Fapesp já teve 915 projetos de pesquisa e bolsas aprovados. Foram cerca de R$ 100 milhões investidos em 12 anos. Em 2011, o programa cresceu muito, com renovado interesse da comunidade científica paulista, e o valor concedido, apenas naquele ano, foi de R$ 22 milhões. Um dos impactos importantes do programa, além de fazer ciência de boa qualidade, foi que ele gerou vários decretos, leis e resoluções sobre conservação da biodiversidade”, afirmou.Na área de bioenergia, segundo ele, a Fapesp teve uma primeira iniciativa em 1999, com a criação do projeto Sucest, que avaliou o transcriptoma da cana-de-açúcar. O Bioen foi criado em 2008.“O programa Bioen envolve 314 cientistas, sendo 229 de São Paulo, 33 de outros Estados e 52 de outros países. Os recursos investidos já se aproximam de R$ 100 milhões, em 55 projetos. O programa tem inúmeras colaborações com empresas, que cofinanciam pesquisas”, disse Brito Cruz.O PFPMCG também agrega colaborações internacionais de instituições como o Natural Environment Research Council (Nerc), do Reino Unido, um dos organismos que compõem os Research Councils UK – que mantêm acordo com a Fapesp desde setembro de 2009 –, Agence Nationale de La Recherche (ANR), da França, e Interamerican Institute for Global Change Research (IAI), organização intergovernamental apoiada por nove países nas Américas.* Publicado originalmente no site Agência Fapesp.


por Fábio de Castro, da Agência Fapesp
agricultura_500 Agronegócio

Legislação ambiental não impediu sucesso do agronegócio

Análise apresentada em evento da Frente Parlamentar Ambientalista na Câmara dos Deputados jogou na balança das discussões sobre o projeto de reforma do Código Florestal o poderio econômico do agronegócio e suas demandas por infraestrutura e menos proteção ambiental.Doutora em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), Regina Araújo ponderou que o superávit do modelo agrícola exportador nacional parece blindar a economia interna de crises econômicas globais cada vez mais comuns. Levando assim a um cenário onde governos seriam aparentemente obrigados a ceder a suas exigências crescentes por estradas, portos e ferrovias, bem como pelo desmanche da legislação ambiental brasileira.“Nossas leis ambientais estão em construção desde a década de 1930, e até agora não provocaram nenhum impedimento ao espantoso crescimento do agronegócio”, lembrou a pesquisadora. O Brasil é hoje o segundo maior exportador individual de produtos agrícolas, logo atrás dos Estados Unidos e da União Europeia.“Esta conquista não é exclusiva do setor, mas do conjunto da sociedade brasileira, que bancou com subsídios e créditos anos de pesquisa e desenvolvimento”, ressaltou.Observando o bloco econômico europeu, Regina também comentou que lá a agropecuária foi estruturada em pequenas e médias propriedades. Bem diferente do modelo concentrador de terras e renda focado em produzir commodities de exportação e não alimentos para chegarem à mesa dos brasileiros.Sete em cada dez quilos de soja produzida no Brasil são processados por apenas nove empresas, e destas cinco são transnacionais: ADM (Estados Unidos), Cargill (Estados Unidos), Bunge (Holanda), Louis Dreyfus (França) e Grupo Noble (Cingapura).“Não deixa de ser irônica a crítica que setores do agronegócio tecem à suposta ingerência do movimento ambientalista em assuntos de interesse brasileiro”, escreve a pesquisadora em conjunto com a geógrafa Paula Watson (USP) no artigo De onde vem a força do agronegócio?.Avançando há décadas sempre para onde a terra é “mais barata” e a infraestrutura é precária, setores atrasados do agronegócio pautam governos incessantemente com exigências por asfaltamento de estradas, construção de portos e outras obras embaladas em pacotes como o do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).“Mas a sociedade ainda não entendeu a extensão e os reais custos desses projetos, quase sempre destinados a atender demandas setoriais e não aos interesses reais e de longo prazo do país. O país não pode seguir como refém de um modelo perverso de produção e exportação que despreza nossas riquezas socioambientais”, disse Regina Araújo.Anistiar é a ordem – Pouco antes de ser vaiado ontem (28) durante o seminário Código Florestal – o que diz a ciência e os nossos legisladores ainda precisam saber, na Câmara, o relator do projeto de reforma do Código Florestal, deputado Paulo Piau (PMDB-MG), admitiu que manterá anistias a quem desmatou ilegalmente em seu texto e que o governo federal tem interesse em aprovar a absurda peça o mais rapidamente possível, reduzindo os efeitos sobre a Rio+20, que acontece em junho no Rio de Janeiro.Pois, uma outra análise encabeçada pelo jornalista Leão Serva aponta pelo menos dez pontos de anistias no texto em tramitação no Congresso. Eles livram de responsabilidade quem destruiu mangues, ocupou margens de rios, encostas, nascentes e topos de morros, sempre com a justificativa de legalizar para oferecer segurança jurídica a quem trabalha no campo.“Vai se dar bem quem até agora desrespeitou a lei. Impressiona como os parlamentares vêm ignorando completamente os alertas da ciência e da própria natureza quando apontam a necessidade de preservação dessas regiões”, comentou ele, lembrando de tragédias recorrentes que se abatem sobre populações que vivem em áreas de risco, como as ocorridas em janeiro do ano passado no Rio de Janeiro ou as mais recentes no Acre. Evitar anistias foi uma das promessas de campanha da presidente Dilma Roussef.Conforme o jornalista – que já atuou em veículos como Folha de S.Paulo, Jornal da Tarde, Lance! e iG –, a Rússia alterou sua legislação florestal em 2007 em moldes semelhantes ao que propõe a bancada ruralista com aval do governo federal. A “estadualização” da gestão florestal aprovada por um Congresso russo que também ignorou alertas de cientistas não trouxe outro resultado senão o aumento franco do desmatamento e das queimadas em todo o país, um dos mais ricos em cobertura verde do planeta.“Pode ocorrer o mesmo aqui se o texto em tramitação for derrubado, no Congresso ou pela Presidência da República”, ponderou Serva. “E isso é ainda mais preocupante quando pesquisadores russos acabam de descobrir que as florestas funcionam como corações, bombeando ventos e chuvas para várias regiões”, ressaltou.Com tantas evidências na mesa, é mais do que claro que a proposta de reforma do Código Florestal não está pronta para ser votada. “Do jeito que está, é puro atropelo. O projeto é repleto de falhas técnicas e legislativas que deixam completamente a descoberto o patrimônio ambiental brasileiro”, completou Regina Araújo, da USP.* Publicado originalmente no site WWF.


por Aldem Bourscheit, do WWF
cratera Artigo

Como enfrentar a sexta extinção em massa

Referimo-nos anteriormente ao fato de o ser humano, nos últimos tempos, ter inaugurado uma nova era geológica – o antropoceno –, era em que ele comparece como a grande ameaça à biosfera e o eventual exterminador de sua própria civilização. Há muito que biólogos e cosmólogos estão advertindo a humanidade de que o nível de nossa agressiva intervenção nos processos naturais está acelerando enormemente a sexta extinção em massa de espécies de seres vivos. Ela já está em curso há alguns milhares de anos. Estas extinções, misteriosamente, pertencem ao processo cosmogênico da Terra. Nos últimos 540 milhões de anos, ela conheceu cinco grandes extinções em massa, praticamente uma em cada cem milhões de anos, exterminando grande parte da vida no mar e na terra. A última ocorreu há 65 milhões de anos, quando foram dizimados os dinossauros entre outros.Até agora todas as extinções eram ocasionadas pelas forças do próprio universo e da Terra, a exemplo da queda de meteoros rasantes ou de convulsões climáticas. A sexta está sendo acelerada pelo próprio ser humano. Sem a presença dele, uma espécie desaparecia a cada cinco anos. Agora, por causa de nossa agressividade industrialista e consumista, multiplicamos a extinção em cem mil vezes, diz-nos o cosmólogo Brian Swimme em entrevista recente no Enlighten Next Magazin, n.19. Os dados são estarrecedores: Paul Ehrlich, professor de ecologia em Standford calcula em 250 mil espécies exterminadas por ano, enquanto Edward O. Wilson de Harvard dá números mais baixos, entre 27 mil e 100 mil espécies por ano (R. Barbault, Ecologia geral, 2011, p. 318).O ecólogo E. Goldsmith da Universidade da Geórgia afirma que a humanidade, ao tornar o mundo cada vez mais empobrecido, degradado e menos capaz de sustentar a vida, tem revertido em três milhões de anos o processo da evolução. O pior é que não nos damos conta desta prática devastadora, nem estamos preparados para avaliar o que significa uma extinção em massa. Ela significa simplesmente a destruição das bases ecológicas da vida na Terra e a eventual interrupção de nosso ensaio civilizatório, e quiçá até de nossa própria espécie. Thomas Berry, o pai da ecologia norte-americana, escreveu: "Nossas tradições éticas sabem lidar com o suicídio, o homicídio e mesmo com o genocídio, mas não sabem lidar com o biocídio e o geocídio” (Our Way into the Future, 1990, p. 104).Podemos desacelerar a sexta extinção em massa já que somos seus principais causadores? Podemos e devemos. Um bom sinal é que estamos despertando a consciência de nossas origens há 13,7 bilhões de anos e de nossa responsabilidade pelo futuro da vida. É o universo que suscita tudo isso em nós porque está a nosso favor e não contra nós. Mas ele pede a nossa cooperação, já que somos os maiores causadores de tantos danos. Agora é a hora de despertar enquanto há tempo.O primeiro que importa fazer é renovar o pacto natural entre Terra e humanidade. A Terra nos dá tudo o que precisamos. No pacto, a nossa retribuição deve ser o cuidado e o respeito pelos limites da Terra. Mas, ingratos, lhe devolvemos com chutes, facadas, bombas e práticas ecocidas e biocidas.O segundo é reforçar a reciprocidade ou a mutualidade: buscar aquela relação pela qual entramos em sintonia com os dinamismos dos ecossistemas, usando-os racionalmente, devolvendo-lhes a vitalidade e garantindo-lhes sustentabilidade. Para isto necessitamos nos reinventar como espécie que se preocupa com as demais espécies e aprende a conviver com toda a comunidade de vida. Devemos ser mais cooperativos que competitivos, ter mais cuidado que vontade de submeter, e reconhecer e respeitar o valor intrínseco de cada ser.O terceiro é viver a compaixão não só entre os humanos, mas para com todos os seres, compaixão como forma de amor e cuidado. A partir de agora, depende de nós se eles vão continuar a viver ou se serão condenados a desaparecer. Precisamos deixar para trás o paradigma de dominação que reforça a extinção em massa e viver aquele do cuidado e do respeito que preserva e prolonga a vida. No meio do antropoceno, urge inaugurar a era ecozóica que coloca o ecológico no centro. Só assim há esperança de salvar nossa civilização e de permitir a continuidade de nosso planeta vivo.* Leonardo Boff é autor com Mark Hathaway de O Tao da Libertação: explorando a ecologia da transformação, Vozes, 2011.** Publicado originalmente no site Adital. 


por Leonardo Boff*
Corte de árvores na Nicarágua. O desmatamento é inerente à economia predadora, tanto para explorar madeira, como o solo ou o subsolo. Foto: Germán Miranda/IPS Economia Verde

TERRAMÉRICA – Economia verde busca manter crescimento

[caption id="attachment_44354" align="alignleft" width="300" caption="Corte de árvores na Nicarágua. O desmatamento é inerente à economia predadora, tanto para explorar madeira, como o solo ou o subsolo. Foto: Germán Miranda/IPS"][/caption]A atual crise econômica mundial é uma manifestação de que perdeu eficácia e factibilidade a receita keynesiana de ampliação forçada da demanda.Rio de Janeiro, Brasil, 5 de março de 2012 (Terramérica).- Tudo indica que as grandes catástrofes podem ser as novas parteiras da história. Contudo, buscando adiantar-se, a economia verde se propõe a reduzir “os riscos ambientais” e a “escassez ecológica”, melhorando o bem-estar humano e a igualdade social. As citações são parte dos argumentos da Iniciativa para uma Economia Verde do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).A adoção de um conjunto de políticas públicas, regulações, incentivos e acordos internacionais não poderá sozinho reverter a deterioração ambiental, mas poderá propiciar um crescimento econômico superior ao que permite a atual “economia marrom”, afirma o Pnuma. Este resultado se daria pelos instrumentos da economia verde que, entre outras vantagens, conduzem a um uso mais eficiente da energia e dos recursos naturais e a uma gestão melhor da água, dos resíduos e da infraestrutura.O investimento necessário seria de US$ 1,3 bilhão anuais, ou 2% do produto bruto mundial, estima a agência das Nações Unidas. Entretanto, isto parece “mais cartaz do que conteúdo”, já que as alternativas à economia atual carecem de escala que “justifique as expectativas geradas”, limitam-se a experiências pontuais e a “medidas graduais insuficientes para sustentar uma onda de investimentos”, afirmou Fernando Cardim de Carvalho, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro.Em energia ainda predominam petróleo, centrais hidrelétricas e, em menor grau, geração nuclear, enquanto fontes como a eólica e a solar são muito incipientes para “mover o mundo”, Fernando citou como exemplo. Por isto, o Brasil, vanguarda em agrocombustíveis, prioriza os hidrocarbonos recém-descobertos em águas profundas do Atlântico. Ocorre que “o capitalismo não opera olhando no longo prazo; as inovações têm de oferecer possibilidades de ganho imediato”, o que não favorece a economia verde, que tampouco se vê habilitada como uma “saída para a crise” financeira que afeta países ricos e ameaça o mundo, afirmou o economista ao Terramérica.“Um grande desastre ambiental, inimaginável hoje”, poderia mudar esse quadro, alterando repentinamente a percepção de “custo/benefício entre degradação ambiental e comodidades modernas”, destacou Fernando. No entanto, no momento e no horizonte próximo, “não existe uma coalizão de demandantes” que consiga fazer os Estados assumirem iniciativas de mudanças radicais, estimou. A alternativa é continuar o processo de “mudança marginal”: experiências locais e setoriais onde a situação obriga, como transporte em metrópoles como São Paulo ou Nova York, concluiu.Na linha do esgotamento dos recursos do planeta, o ambientalista australiano Paul Gilding, professor da University of Cambridge (Grã-Bretanha) e autor do livro The Great Disruption (A Grande Ruptura), prevê para esta década o colapso da economia mundial, o que porá fim ao crescimento e dará lugar a uma nova era sustentável, sem tanto consumismo. Economistas brasileiros conhecidos por sua adesão à economia de mercado reconhecem hoje que o modo de produção atual é insustentável, porque ultrapassou os limites ecológicos do planeta.André Lara Resende, protagonista de programas brasileiros de combate à inflação e das privatizações na década de 1990, afirmou em um artigo, publicado no dia 20 de janeiro no jornal Valor, que a crise econômica iniciada em 2008 nos Estados Unidos persiste provavelmente porque se está chegando ao “limite físico do ecossistema”. A atual não seria uma simples repetição das crises cíclicas do capitalismo por insuficiência de demanda, mas uma manifestação de que perdeu eficácia e factibilidade a ampliação forçada da demanda de bens materiais que recomenda o economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946), de influência renovada pela crise.Eduardo Gianetti da Fonseca, autor de vários livros de economia e sociologia, declarou no mesmo artigo que a “grave falha” do mercado, ao excluir os custos ambientais do sistema de preços, leva ao desastre da mudança climática e ao esgotamento dos recursos naturais. Entretanto, o Pnuma considera um “mito” opor progresso econômico e sustentabilidade ambiental, e assegura que “há provas substanciais” de que a economia verde gera riqueza e empregos. Outro mito, desmentido por exemplos de sucesso no mundo em desenvolvimento, seria restringir aos países ricos o “luxo” da “transição verde”.Em seu documento Para uma economia verde: guia para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza, o Pnuma defende o “reverdecimento das economias como um novo motor do crescimento, que constitui uma fonte de emprego digno e que, além disso, é uma estratégia essencial para erradicar a pobreza persistente”. As políticas e medidas recomendadas são acompanhadas de exemplos já comprovados. Reduzir ou eliminar subsídios prejudiciais é crucial. Os combustíveis fósseis, principal fator da mudança climática, receberam US$ 557 bilhões em subsídios para o consumo e mais de US$ 100 bilhões para a produção em 2008, segundo o Pnuma.Esses valores evidenciam que existe dinheiro para investimentos em programas ambientais, destacou Rubens Born, dirigente da Vitae Civilis, organização não governamental brasileira muito ativa em matéria de mudança climática. Porém, reduzir os subsídios, e, portanto, elevar os preços dos combustíveis, é uma operação de risco. Na Bolívia, uma alta da carga tributária de 72% para 82% sobre derivados de petróleo provocou, em dezembro de 2010, uma onda de protestos que obrigaram o presidente Evo Morales a voltar atrás e enfraquecer politicamente.A Nigéria enfrenta reações pela decisão de eliminar US$ 8 bilhões de subsídios anuais ao petróleo. Entretanto, a Indonésia adotou medidas semelhantes com sucesso em 2005 e 2008, compensando milhões de famílias pobres com transferências em dinheiro durante um ano. O Gabão também agiu, usando os fundos economizados em programas de microcréditos para mulheres, enquanto Gana atuou na educação e saúde de populações pobres, exemplos destacados pelo Pnuma.A Grameen Shakti, organização vinculada ao Grameen Bank de microcrédito, havia facilitado, até 2009, a instalação de 320 mil sistemas de energia solar doméstica com seus créditos brandos em Bangladesh. A meta é alcançar um milhão de domicílios até 2015. As tarifas preferenciais para incentivar o uso de energias renováveis, já aplicadas em 47 países, são outro caso exemplar mencionado pelo Pnuma, junto com a reciclagem de 95% das latas de alumínio no Brasil.A economia verde, proposta pelo Pnuma desde 2008, será tema da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20 (assim chamada para comemorar os 20 anos da Cúpula Mundial de 1992, também no Rio de Janeiro), que reunirá chefes de Estados e de governo entre 20 e 22 de junho. Nos nove dias anteriores, haverá encontros preparatórios e da sociedade civil, que atrairão dezenas de milhares de participantes para esta cidade.* O autor é correspondente da IPS.LINKSChovem críticas à economia verde no Fórum Social TemáticoEconomia verde divide águasRemédio contra mudança climática e pobrezaA economia verde alivia, mas não curaPrograma das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em espanhol e inglêsIniciativa para uma Economia Verde, em inglês, francês e espanholUniversidade Federal do Rio de JaneiroUniversity of Cambridge, em inglêsThe Great Disruption, em inglêsJornal ValorPara uma economia verde: guia para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza – Síntese para os encarregados da formulação de políticas, pdf em espanholVitae CivilisGrameen Bank, em inglês e espanholGrameen Shakti, em inglêsRio+20, em espanhol, inglês, francês e russoArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Mario Osava*

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Procure não deixar roupas penduradas atrás da geladeira, isso aumenta bastante o consumo.
Ande a pé. Isso evita a queima de combustível e o lançamento de gás carbônico na atmosfera e, consequentemente, diminui o efeito estufa.
Reduza. Reutilize. Recicle. Três ‘Rs’ indispensáveis para preservar o meio ambiente e contribuir com o desenvolvimento sustentável em todo o mundo.
Aproveite o sol como fonte de energia limpa. Instale painéis fotovoltáicos em sua residência ou empresa.
Na hora de comprar, escolha produtos com rótulos ecológicos e com menos embalagem, assim você estará escolhendo poluir menos o planeta.
Utilize lâmpadas de baixo consumo, elas economizam até 80% de energia e duram bem mais.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

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Os três componentes principais da biomassa da cana-de-açúcar são a celulose, a hemicelulose e a lignina. Foto:EcoD

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O Zoológico Skazka, na Ucrânia, exibe imagem de filhotes de tigresa albina ‘Tigrylia’, que nasceram no complexo. Um dos bichinhos puxou a mãe e também é um raro tigre albino.

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Frases a laser são projetadas nos prédios gêmios da Câmara dos Deputados, em Brasília. Foto: Divulgação

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Foto: Organização Earth We are one.

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Imagem da campanha Veta Dilma.

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Arte Sustentável de Daniel Murgel.

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Xingu. Foto: Dal Marcondes

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Marta Azevedo, a primeira mulher no cargo de presidenta da Funai. Foto: José Cruz/ABr