“As democracias devem garantir o desenvolvimento sustentável”

Ambiente

“As democracias devem garantir o desenvolvimento sustentável”


por Busani Bafana, da IPS


[caption id="attachment_74194" align="alignleft" width="350" caption="“Precisamos de um documento inspirador”, disse Ward à IPS. Foto: Busani Bafana/IPS"][/caption] Londres, Inglaterra, 7/1/2013 – “As crescentes pressões ambientais e a desigualdade causam grandes mudanças sociais em todo o mundo, colocando à prova as democracias”, disse Halina Ward, diretora da Fundação para a Democracia e o Desenvolvimento Sustentável, com sede em Londres, em entrevista à IPS. Porém, “estas não respondem de forma adequada, e exacerbam os efeitos desses desafios em lugar de vê-los como oportunidades para sua própria reforma”, acrescentou. A Fundação lançará seu Manifesto Pela Mudança em março próximo. O documento é um chamado aos cidadãos e líderes de todo o mundo no sentido de se buscar vias para que as democracias assegurem igualdade e um ambiente saudável para todos. IPS: O que vem primeiro, democracia ou desenvolvimento? HALINA WARD: Há um intenso debate precisamente sobre essa questão, e alguns governos mais autoritários afirmam que primeiro se deve garantir o crescimento econômico e depois a democracia. De nossa perspectiva, em certo sentido, não é um tema relevante. Nossa preocupação é o desenvolvimento sustentável, e não o crescimento econômico por si só. E, na realidade, o manifesto tampouco procura pregar a “democratização”. Quando se parte de uma perspectiva de desenvolvimento sustentável, que inclua ideias de igualdade e proteção ambiental, bem como de crescimento econômico, a democracia é inseparável. Uma das coisas positivas que surgiram da Conferência Nacional das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) foi o reconhecimento de que a democracia é, simplesmente, essencial para o desenvolvimento sustentável. E cremos que a democracia também necessita do desenvolvimento sustentável, porque a insustentabilidade e a desigualdade, quando não se erradica a pobreza, por exemplo, podem criar tensões no sistema democrático. IPS: A democracia e o desenvolvimento sustentável ainda são esquivos na África. Que diferença fará o manifesto nesse continente? HW: Trabalhamos com a ideia de que as pessoas, os grupos da sociedade civil e os representantes eleitos possam assumir compromissos para conseguir uma mudança na prática democrática. Adotamos a ideia de criar um “efeito de propagação” com o lançamento do manifesto e os posteriores processos de experimentação e inovação. Esperamos que o documento seja um recurso útil para as pessoas e as organizações em todo o mundo. Contudo, suspeito que os leitores africanos do manifesto descobrirão que há muito por fazer para adaptá-lo às múltiplas realidades e aos variados sistemas democráticos desse continente. Também devo destacar que recebemos menos insumos dos cidadãos na África do que de outras partes do mundo no processo de consultas. Desejamos que o manifesto tenha ressonância mundial, mas também reconhecemos que tanto o documento como o processo de experimentação e inovação associado a ele têm de evoluir com o tempo. Ficaremos encantados, por exemplo, se esse documento derivar em uma iniciativa para desenvolver uma série mais específica de princípios e ações para uma variedade de contextos africanos. Trata-se de capitalizar movimentos organizados para a mudança, em lugar de simplesmente difundir “nosso” manifesto no mundo. IPS: Por que um manifesto para a mudança? HW: Porque queremos traduzir nossos primeiros três anos de associação, análise e ativismo na Fundação no rascunho de um plano de ação. As soluções para as tensões entre a democracia e o desenvolvimento sustentável existem. Estamos convencidos disso, e estão sendo implementadas. O que precisamos é de um documento inspirador, que gere um efeito propagador e permita que tais soluções sejam difundidas por todos os lados. Esperamos que o manifesto se converta em um catalisador para a mudança, como o foram outros textos no passado. IPS: Em que se concentrará o manifesto? HW: Apresentará uma ampla visão de como pode funcionar uma democracia quando está equipada de forma adequada para assegurar um desenvolvimento sustentável, listará princípios voltados a essa visão e, por sua vez, apresentará sugestões de inovações para implantar esses princípios. Será um documento curto, de duas ou três páginas, com um tom positivo e construtivo, que, esperamos, tenha êxito. IPS: A democracia pode proporcionar desenvolvimento sustentável? HW: Neste momento, a democracia tem o potencial de garantir um desenvolvimento sustentável, mas nos fatos não o faz. As democracias, em geral, objetivam interesses de curto prazo com base nos ciclos eleitorais, com um enfoque desproporcional no crescimento econômico e com um insuficiente entendimento dos compromissos que implica uma democracia direta, representativa e deliberativa. Para piorar as coisas, algumas democracias nem mesmo garantem os direitos básicos. Violam os direitos humanos fundamentais, não proporcionam um acesso adequado à informação nem garantem a justiça, e mostram pouco respeito ao império da lei. Envolverde/IPS

A colheita de café na selva de Puno, Peru, ilustra o deslocamento de cultivos devido à mudança climática. Foto: Milagros Salazar/IPS Amazônia

TERRAMÉRICA – Amazônia regional

Em um cenário de ameaçadora mudança climática, nasce um projeto para que os governos de cinco países da América do Sul troquem informação sobre os impactos deste fenômeno global na Amazônia e adotem medidas para enfrentá-los. [caption id="attachment_74143" align="alignright" width="340" caption="A colheita de café na selva de Puno, Peru, ilustra o deslocamento de cultivos devido à mudança climática. Foto: Milagros Salazar/IPS"][/caption] Puerto Maldonado, Peru, 24 de dezembro de 2012 (Terramérica).- “Cada vez que alguém espirra no Peru, alguém no Brasil fica gripado. Cada vez que se produz um barril de petróleo no Equador, há um país vizinho que acabará comprando-o”, afirma a ecologista Yolanda Kakabadse. O que acontece nos países da América Latina está muito relacionado, com se fossem órgãos vivos de um mesmo corpo, completa Yolanda, ex-ministra do Meio Ambiente do Equador e atual diretora para a América Latina e o Caribe da Aliança Clima e Desenvolvimento (CDKN). Por essa razão, esta organização impulsiona uma iniciativa para que Brasil, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia avaliem – mediante evidência científica – os riscos, impactos e as ameaças da mudança climática que a região amazônica compartilha. Não se trata apenas de medir impactos que já se evidenciam, mas de projetar os danos em médio e longo prazos. Quais implicâncias terá na vida das pessoas mais vulneráveis a temperatura da Terra aumentar dois graus até 2025?, questionou ao Terramérica Carolina Navarrete, do Centro Internacional de Agricultura Tropical (Ciat), que também apoia esta iniciativa. Para dar uma ideia, o “aumento da temperatura em dois graus poderá fazer com que os cultivos de café tenham que se deslocar 300 metros para cima e o mesmo acontecerá com outros plantios. Como nos prepararmos diante desta situação sem exercer pressão sobre zonas sensíveis, como as áreas naturais protegidas, por exemplo?”, perguntou Carolina. A intenção é que as autoridades possam responder com fatos a estas perguntas cruciais para a sobrevivência da população, explicaram Yolanda e Carolina a jornalistas destes cinco países reunidos em Puerto Maldonado, capital da região amazônica peruana de Madre de Dios. Yolanda informou que o ministro do Meio Ambiente do Peru, Manuel Pulgar Vidal, seria o encarregado de convocar seus colegas dos demais países nos próximos dias, com a intenção de conseguir que sejam definidas, entre janeiro e fevereiro, medidas a serem adotadas. E em abril ou maio chegando a um compromisso formal. Contudo, esse ministério evitou se pronunciar a respeito, pois “ainda trabalha com outros setores e entidades vinculadas ao tema ambiental”, segundo comunicado entregue ao Terramérica no fechamento desta edição. “É preciso transcender os governos da hora, porque os impactos não estão se evidenciando apenas agora, e há muito por fazer em médio e longo prazos”, destacou Yolanda ao Terramérica. Como primeiro passo, uma equipe científica acaba de elaborar um informe preliminar que evidencia a vulnerabilidade da Amazônia em um cenário de mudança climática. Para o documento (conduzido por Global Canopy Programme e Ciat, com financiamento da CDKN), os especialistas revisaram mais de 500 publicações dos últimos 15 anos e consultaram sites da internet e plataformas de dados sobre desmatamento e modelagem hidrológica. O documento enfatiza as ameaças sobre os recursos hídricos, os alimentos e a energia, e como se relacionam entre si. Sem segurança hídrica na região, a segurança alimentar, energética e sanitária não será possível, afirma. O maior impacto será na qualidade da água, por desmatamento, extração de energia, mineração e uso de fertilizantes, entre outras atividades que ameaçam a selva e sua riqueza natural, alerta o estudo. Na última década, duas secas sem precedentes afetaram a Amazônia, em 2005 e 2010, enquanto as inundações arrasaram milhares de hectares de cultivos. Segundo o britânico Met Office Hadley Centre para a previsão e pesquisa do clima, os eventos extremos se intensificarão e poderão acontecer a cada dois anos até 2025. Neste cenário, a competição pela água aumentará. Os usuários mais poderosos poderão ter maior controle sobre esse recursos, enquanto as populações locais, quase sempre as mais pobres, terão acesso a água de menor qualidade e em menor quantidade, adverte o documento. A geração de energia também depende em boa parte da Amazônia. No Peru, a selva proporciona 73% da produção total de petróleo e gás natural. As centrais hidrelétricas amazônicas fornecem, por sua vez, mais de um terço da eletricidade no Equador e na Bolívia. Além disso, o apetite pelas grandes reservas provadas de petróleo na Amazônia exerce pressão sobre a proteção dos ecossistemas frágeis, em um contexto onde a energia gerada pelas hidrelétricas pode ser afetada pela mudança do comportamento dos rios. A ameaça está ao alcance da mão. O total da energia hidrelétrica da Amazônia do Brasil é estimado em 116 gigawatts (GW), dos quais são explorados apenas 16 GW. Do restante desse potencial, 25% afetaria territórios indígenas e 16% está em áreas naturais protegidas, detalha o informe. Simultaneamente, cresce a exportação de alimentos proporcionados pela Amazônia, um território em que, paradoxalmente, um em cada três habitantes passa fome. O surgimento de vetores de enfermidades em zonas antes não imaginadas – como a malária de climas quentes no frio Lago Titicaca – também exige enfrentar o problema em bloco, afirmam os especialistas. Todos esses impactos e projeções revelam que “o planejamento de longo prazo é importante, como a gestão do risco no presente”, pontuou Carlolina. Yolanda ressaltou que, em qualquer caso, não se deve perder de vista a enorme importância que tem a conservação da Amazônia e das suas áreas naturais protegidas. São “o cofre” que devemos preservar para tempos ainda mais difíceis que se avizinham, alertou. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS. LINKS Amazonas 2030: Indicadores para a crise climática Quando a Amazônia é protegida com planos Amazônia cada dia mais petroleira Mineradoras se aventuram na Amazônia peruana Satélites revelam redução no desmatamento amazônico no Peru Clima: Extremo e perigoso - Cobertura especial da IPS, em espanhol Aliança Clima e Desenvolvimento, em inglês e espanhol Centro Internacional de Agricultura Tropical, em inglês e espanhol Ministério do Meio Ambiente do Peru, em espanhol e inglês Met Office Hadley Centre, em inglês Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Milagros Salazar*
Luis Aillapán e sua mulher, Catalina Marileo, foram processados em 2002 por defenderem seu terreno. Foto: Marianela Jarroud/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Mapuches resistem à Rota Costeira

A Rota Costeira nada mais é do que um caminho longitudinal para unir o longo e estreito território do Chile, o mais perto possível do Oceano Pacífico. [caption id="attachment_74138" align="alignright" width="340" caption="O Lago Budi já sofreu intervenção por causa da ponte de ligação à ilha Huapi. Foto: Marianela Jarroud/IPS"][/caption] Puerto Saavedra, Chile, 24 de dezembro de 2012 (Terramérica).- Indígenas mapuche da região chilena de La Araucanía lutam há mais de duas décadas contra a construção da Rota Costeira, um megaprojeto concebido pela ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) e que traz consigo perdas arqueológicas e culturais. A Rota Costeira nada mais é do que um caminho longitudinal para unir o longo e estreito território do Chile, o mais perto possível do Oceano Pacífico. O traçado total supera os 3.340 quilômetros, e até o momento já são mais de 2.600 quilômetros pavimentados. Este projeto viário se converteu em um dos desafios centrais de vários governos que sempre encontraram oposição por parte de comunidades indígenas. Em La Araucanía, 674 quilômetros ao sul de Santiago, a Rota Costeira compreende 41,6 quilômetros do trecho Puerto Saavedra-Toltén, justamente onde fica a Área de Desenvolvimento Indígena do Budi. As autoridades afirmam que a iniciativa integrará áreas isoladas, reduzirá o tempo de viagem e potencializará o desenvolvimento de novas áreas de atração turística. Estudos da Universidade de La Frontera indicam que a área possui “uma longa história cultural e um vínculo claro com ela, comprovadas pelos testemunhos arqueológicos e pela reprodução cultural, com alta prevalência de aspectos de identidade e cosmogônicos dentro da região”. Seus habitantes ancestrais são os mapuches lafkenches, palavra da língua deste povo que significa “gente do mar” ou que vive na costa. Um deles é Leonardo Calfuneo, “lonko” (autoridade máxima) da comunidade Konin Budi, de aproximadamente 60 famílias. [caption id="attachment_74139" align="alignleft" width="340" caption="Luis Aillapán e sua mulher, Catalina Marileo, foram processados em 2002 por defenderem seu terreno. Foto: Marianela Jarroud/IPS"][/caption] “Nos opusemos a este megaprojeto porque para o povo mapuche não significa progresso e desenvolvimento, mas a destruição irreparável de nossa cultura”, afirmou ao Terramérica. Calfuneo mora, com sua mulher, em uma pequena área onde fica uma acolhedora casa de madeira, na qual oferecem mate e sopaipillas (massa de farinha de trigo frita) aos visitantes. “Vivemos da pequena agricultura, somos camponeses, somos um povo milenar e nossa vida foi sempre da terra”, contou. Calfuneo enfrentou pessoalmente os avanços do projeto que não é executado por uma construtora, mas pelo Corpo Militar do Trabalho, vinculado ao exército. Em março, as máquinas desse órgão militar realizaram trabalhos em suas terras sem autorização, destruindo cercas vivas de plantas medicinais e um espaço sagrado para a comunidade. “Aqui vão destruindo para abrir os caminhos, e não se perde apenas as terras, mas também as plantas medicinais e as vertentes”, protestou. Em sua comunidade, “cada família conta com três, cinco ou dez hectares para viver”, um espaço escasso considerando que há apenas algumas décadas regia a propriedade comunitária no território mapuche. Pelo decreto-lei 2.568 de 1979, o regime do general Pinochet dividiu e titulou as terras mapuches. Muitas dessas áreas foram adquiridas por particulares, principalmente associados a empresas florestais, de energia e piscicultura. A estrada costeira criará uma ligação eficiente no litoral, potencializando o desenvolvimento econômico da região, afirmaram as autoridades locais. “Trata-se de um projeto que já tem bastante tempo e que queremos destravar logo”, disse ao Terramérica o intendente (governador) de La Araucanía, Andrés Molina. “Por diferentes motivos, o projeto nos interessa muito, mas, na prática, não conseguimos uma avaliação em termos de rentabilidade social e econômica com esses caminhos”, admitiu. Embora tenha melhorado a qualidade dos caminhos, “hoje em dia estamos trabalhando para obter um estudo de rentabilidade social para conseguir pensar em pavimentar. Não poderemos fazer nada enquanto não tivermos internamente uma avaliação social que nos permita investir como país”, explicou o intendente. Sua expectativa é “fazer isso o mais rápido possível e, oxalá, deixar iniciado o projeto no próximo ano”. Os prazos de Molina assustam Luis Aillapán, “gempin” (dono da palavra) de Konin Budi. Para este homem dotado de conhecimentos sobre a cultura, espiritualidade e filosofia de seu povo, a construção da estrada é “uma grande dor”. Ele disse ao Terramérica que “estamos acostumados à natureza, a caminhar um pouco e ter acesso ao mar e pescar o que precisamos”. Aillapán possui plantações e alguns animais. Sua família se alimenta do que a terra e o mar fornecem. De sua casa se vê o Oceano Pacífico, de um lado, pradarias verdes de outro e alguns montes que fazem parte da cordilheira da costa. E, aos pés de suas terras, os militares trabalham e as máquinas abrem caminho. “Gente do nosso próprio povo nos deu as costas e à noite ouve-se disparos feitos para nos amedrontar”, denunciou. Sua mulher, Catalina Marileo, e seu filho de quatro anos foram acusados, em 2002, de agredirem funcionários do Ministério de Obras Públicas que realizavam estudos de viabilidade do projeto. Mais tarde, Aillapán e sua mulher; sua cunhada, Margarita Marileo e seu marido, foram processados pela lei antiterrorista, herdada da ditadura e que hoje é aplicada quase exclusivamente ao povo mapuche em conflito. A comunidade de Saavedra, de 401 quilômetros quadrados entre o Pacífico e o lago salgado Budi, tinha 13.481 habitantes em 2009, segundo dados oficiais. Mais de 80% vivem em zonas rurais e 73,2% se declaram mapuches. Na Área de Desenvolvimento Indígena do Budi vivem 3.295 pessoas, que constituem 24,4% da população da comunidade. E na ilha Huapi, localizada no lago, há 43 comunidades habitadas por cinco mil mapuches. Um estudo da Universidade da Fronteira, encomendado pelo governo em 2001, mostra que 45,2% dos habitantes estavam a favor da Rota Costeira e 52,9% eram contra. A situação mudou quando o agora ex-prefeito de Saavedra, Ricardo Tripainao, percorreu as comunidades explicando os benefícios da estrada, como preço melhor a ser pago por seus produtos e os milhões que o Estado lhes pagaria pela expropriação de suas terras. O Terramérica constatou que hoje muita gente está descontente pelo fato de o Estado não realizar esses pagamentos e pelo aumento da extensão dos terrenos a serem expropriados, que inicialmente era de 13 metros, mas que em muitos setores chega a 20 ou 25 metros. Entre os habitantes da cabeceira municipal de Puerto Saavedra, uma localidade urbana com atrações turísticas, há um sentimento favorável em relação à estrada, pois atrairá mais visitantes e reduzirá o isolamento. O acampamento dos militares que trabalham na obra fica em uma margem do Budi, área protegida por seu patrimônio cultural. O intendente Molina garante que “está contemplada” a consulta às comunidades, como estabelece o Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho, já que “a ideia é que o projeto seja participativo”. Esse Convênio, adotado em 1989 e que entrou em vigor no Chile em 2009, estabelece garantias para as comunidades originárias, especialmente a de serem ouvidas sobre atividades ou projetos em seus territórios. Porém, o intendente adverte que “não vamos consultar enquanto não tivermos o projeto com todas as aprovações”. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS, enviada especial. LINKS Obra emblemática de Piñera decola com repúdio de mapuches, em espanhol Indígenas com a Corte Suprema como aliada, em espanhol Arde conflito mapuche em Araucanía – 2009, em espanhol Aeroporto divide governo e mapuches – 2006 Mapuches querem reger seu próprio destino – 2003 Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Marianela Jarroud*
lapis Ambiente

Sustentabilidade na ponta do lápis

Com 251 anos de existência, uma das mais antigas empresas do mundo, a Faber-Castell desenha seu futuro pautada em princípios sustentáveis “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.” Ao ouvir o trecho da música Aquarela do compositor Toquinho, logo vem à mente o marcante comercial da Faber-Castell, a mais antiga fabricante de materiais para escrever, desenhar, pintar e promover o desenvolvimento da criatividade, principalmente de crianças. No vídeo, os traços leves e seguros vão aos poucos construindo um mundo que inclui atores da natureza, como a gaivota, o Sol e a chuva. Mas a relação com o meio ambiente vai além do cenário traçado no papel. A sustentabilidade faz parte dos pilares da fabricante e está inserida em toda sua cadeia produtiva. “Em todas as áreas da empresa, sejam elas administrativas ou operacionais, são identificados aspectos e impactos ambientais associados a atividades, produtos ou serviços”, descreve Otávio Perez, gerente de sustentabilidade da Faber-Castell. Este diagnóstico citado pelo executivo é refletido em posturas ambientalmente corretas, que contribuem para a concretização de um modelo de negócio sustentável. A fabricante, que ainda hoje tem sua sede localizada na Alemanha, ao lado do castelo da família fundadora, está longe de ser retrógada e antiquada. A companhia é referencial em inovação e cuidado com o meio ambiente. No Brasil, a Faber-Castell possui 9,6 mil hectares de florestas, sendo que, dessa área, cerca de 2,7 mil hectares são áreas de reserva legal e preservação permanente. [caption id="attachment_73622" align="alignright" width="350" caption="Vista de um dos parques florestais localizados no município de Prata, Minas Gerais. Foto: Juliana Guarexick"][/caption] Toda essa extensão está dividida em dez parques florestais situados nos municípios de Prata e Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Tanto o plantio de madeira, como o próprio EcoLápis, produto carro-chefe da fábrica brasileira, possuem certificação Forest Stewardship Council (FSC), principal órgão internacional na área de manejo florestal sustentável. O mais interessante é que a matéria-prima excedente da produção do EcoLápis é reutilizada no processo industrial ou vendida para outras empresas, resultando no aproveitamento de 100% de cada árvore. Os resíduos, como folhas e galhos finos, por exemplo, são aproveitados como adubo, devolvendo à terra os nutrientes necessários para a renovação do solo. O espaço, porém, não é meramente uma fonte de renda para a empresa. Os parques florestais são ambientes propícios para a preservação da fauna e da flora locais. “Após identificar o número de espécies existentes, a etapa atual é melhor a alocação para que as aves, por exemplo, não sejam presas fáceis de predadores”, explica o gerente de sustentabilidade. Otávio refere-se ao projeto Animalis, que há 20 anos monitora e identifica os animais que vivem nos parques florestais da Faber-Castell, incluindo espécies ameaçadas de extinção, como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira. A preservação da flora também é uma preocupação da empresa, com o projeto Arboris, que consiste na preservação, recuperação e adensamento de remanescentes da flora nativa local. [caption id="attachment_73624" align="alignleft" width="305" caption="Estação de Tratamento de Efluentes. Foto: Juliana Guarexick"][/caption] Para tratar da água utilizada em seus processos industriais, a Faber-Castell possui uma Estação de Tratamento de Efluentes, que purifica toda a água utilizada antes de devolvê-la ao meio ambiente. A água tratada passa por um aquário com peixes que atestam sua pureza antes da devolução aos rios. “Até agora nenhum peixe morreu”, enfatiza Otávio, reforçando a qualidade do processo. Além do tratamento da água a empresa destina corretamente o lixo produzido. Todos os resíduos são encaminhados para Estação de Tratamento de Resíduos e separados. O lixo reciclável é vendido para outras empresas, para serem posteriormente reutilizados. Os resíduos industriais são triturados, acondicionados e encaminhados para coprocessamento em uma fábrica de cimento em Minas Gerais. A Política Nacional de Resíduos Sólidos inclui a responsabilidade das empresas pelo ciclo de vida dos produtos. É a chamada logística reversa, ou seja, a coleta e destinação correta dos resíduos sólidos após seu uso. “A Faber-Castell está antecipando-se às exigências da lei, que só é aplicada hoje a pilhas, baterias e materiais eletroeletrônicos”, acrescenta o executivo ao mencionar o processo de reciclagem realizado pela empresa. Em parceria com a TerraCycle, a instituição promove a coleta de instrumentos de escrita, como canetas, marcadores e suas respectivas embalagens, transformando-os em matéria-prima reciclada. O programa prevê o reaproveitamento de materiais de outras marcas, bastando o consumidor se inscrever gratuitamente no Programa de Coleta e na Brigada de Instrumentos de Escrita Faber-Castell pelo site da TerraCycle. Os principais problemas ambientais são a geração de resíduos sólidos e as emissões atmosféricas que causam males irreparáveis ao meio ambiente. A Faber-Castell reconhece a importância desta preocupação e estabelece metas para que as populações futuras possam ter acesso aos recursos naturais que temos hoje. “A Faber-Castell já está em sua oitava geração e a nossa ideia é que ela não termine nesta geração”, finaliza Otávio. (Envolverde)


por Juliana Guarexick, da Envolverde
A iniciativa industrial Desertec prevê instalar uma rede de usinas termosolares, fotovoltaicas e eólicas no Magreb. Foto: Green Prophet1/CC-BY-2.0 Ambiente

A utopia verde deixa o Magreb

[caption id="attachment_73588" align="aligncenter" width="550" caption="A iniciativa industrial Desertec prevê instalar uma rede de usinas termossolares, fotovoltaicas e eólicas no Magreb. Foto: Green Prophet1/CC-BY-2.0"][/caption] Berlim, Alemanha, 17/12/2012 – Quando a Iniciativa Industrial Desertec, uma aliança de 21 corporações europeias, anunciou sua intenção de instalar uma rede de usinas termossolares, fotovoltaicas e eólicas no Magreb, no norte da África, para gerar eletricidade, foi saudada como uma “utopia verde”. E parou por aí. O projeto, que previa gerar 100 gigawattas até 2050, consumiria 400 bilhões de euros (US$ 521 bilhões). Em um estudo divulgado no verão boreal, a Desertec previu que um sistema de energia integrado para Europa, Oriente Médio e norte da África permitiria à Europa reduzir suas emissões de dióxido de carbono (CO2) em 95%, importando 20% de eletricidade do Magreb e economizando 33 bilhões de euros (US$ 43,2 bilhões) por ano. A iniciativa permitiria aos países do Oriente Médio e do norte da África cobrirem suas necessidades energéticas, graças à abundância de recursos como sol e vento, e reduzir as emissões de CO2 em 50%, apesar do grande aumento da demanda. A região se beneficiaria de uma indústria de exportação que chegaria a 63 bilhões de euros (US$ 82,4 bilhões) ao ano. Entretanto, três anos depois do anúncio, o sonho Desertec continua sem se concretizar. A euforia se transformou em duras críticas, que vão de acusações de incompetência até carências na governança corporativa. Nas pautas do projeto, a Desertec Industrial Initiative (DII) diz: “O potencial econômico de longo prazo da energia renovável da Eumena (Europa, Oriente Médio e do norte da África, em inglês) supera de longe a demanda atual, e o potencial de energia solar apequena todas” as outras alternativas. Baseando-se em dados de institutos de pesquisa alemães e do Clube de Roma, o estudo estima que, “para cada quilômetro quadrado de deserto, pode-se obter 250 gigawatts de eletricidade ao ano com a tecnologia que concentra a energia termossolar”. De fato, cada quilômetro quadrado de terra no Oriente Médio e no norte África da “recebe uma quantidade de energia solar equivalente a 1,5 milhão de barris de petróleo. Uma central termossolar do tamanho do Lago Nasser, no Egito, de seis mil quilômetros quadrados, poderia gerar tanta energia quanto a atual produção de petróleo do Oriente Médio”. Marrocos, onde começaria o projeto-piloto, tem particular interesse em que se concretize a empresa, devido ao enorme impacto que terá na economia local, especialmente na criação de emprego no setor de energias renováveis. A confirmação das dificuldades foram comunicadas aos especialistas no dia 7 de novembro, em Berlim, durante a apresentação oficial das primeiras centrais termossolar, fotovoltaica e eólica, que seriam instaladas na província marroquina de Uarzazate, e que, se previa, estaria gerando eletricidade em 2014. Os planos de construção teoricamente foram acordados, mas dependem da aprovação da Espanha, principal sócio do projeto, para que a eletricidade gerada seja transportada para a Europa. Madri, atribulada com a grave crise econômica, não pôde confirmar seu apoio, uma situação que pouco provavelmente mude, já que a Espanha é um exportador de eletricidade para o Marrocos, e não desejará reverter isso, segundo especialistas ouvidos pela IPS. A aliança DII compreende o alemão Deutsch Bank e a operadora e transportadora espanhola TSO Red Eléctrica. “O negócio para um projeto de referência da Desertec, preparado por nós e pela agência solar marroquina Masen, foi amplamente discutido nos últimos dois anos com empresas espanholas, a TSO Red Eléctrica e a Comissão Europeia, e foi declarado factível”, afirmou, na apresentação de Berlim, Paul van Son, diretor-geral da DII. O primeiro projeto no Marrocos, encabeçado pela gigante alemã do setor energético RWE, terá capacidade instalada de 100 megawatts de energia fotovoltaica e eólica. Um segundo projeto, de energia termossolar, será supervisionado pela ACWA Power International, da Arábia Saudita, e terá capacidade instalada de 160 MW. A previsão é de que os dois projetos estejam operando em 2014. “Foram encontrados investidores, os subsídios iniciais estão disponíveis e a indústria quer participar”, confirmou Son. No entanto, a Espanha se negou a enviar representantes a Berlim e ainda não assinou o projeto do Marrocos. Son está convencido de que “os outros sócios, do Marrocos e da União Europeia, poderão convencer a Espanha”, já que o próprio governo deste país se beneficiará com esta iniciativa. Outra dificuldade deste projeto apareceu no final de outubro, quando a Siemens, gigante alemã do setor eletrônico, anunciou sua retirada da aliança, embora seja um membro contribuinte da DII desde 2009. O fato foi interpretado por muitos como uma prova de que a Desertec é um fracasso. Para Friedrich Fuehr, membro fundador da junta de diretores da Fundação Desertec, a DII “segue uma estratégia equivocada”. Fuehr, advogado alemão e consultor de negócios, disse à IPS que a principal responsabilidade, desde 2009, era conceber um mapa do caminho para superar todas as dificuldades de coordenação internacional e resolver questões como a forma de implementar subsídios e impostos. “Uma coalizão de companhias privadas tão poderosas e capazes como Deutsch Bank, UniCredit, RWE e SCHOTT Solar deveriam em três anos poder formular um marco político necessário para que a Desertec funcione”, acrescentou Fuehr, lamentando, porém, que “ainda estamos esperando por isso. Por outro lado, a DII se concentrou em lançar um único projeto-modelo”, em Uarzazate. Fuehr também afirmou que a revolução energética que o mundo precisa para enfrentar a realidade do aquecimento global “está ocorrendo sem a participação da Desertec”. Envolverde/IPS  


por Julio Godoy, da IPS
País precisa investir mais em pesquisa no campo das vulnerabilidades e adaptação. Foto: RMTip21 Ambiente

Brasil precisa investir mais em C&T para superar desafio das mudanças climáticas

[caption id="attachment_73578" align="aligncenter" width="450" caption="País precisa investir mais em pesquisa no campo das vulnerabilidades e adaptação. Foto: RMTip21"][/caption]   "O Brasil está muito distante de uma situação ideal de investimento em pesquisa de alto nível para produção de novas tecnologias e inovação, ou para estudos no campo das vulnerabilidades e adaptação, na área de mudanças climáticas". A conclusão consta no Informe sobre o Estado e Qualidade das Políticas Públicas sobre Mudanças Climáticas e Desenvolvimento no Brasil, elaborado pela Plataforma Climática Latino-Americana (PCL), organização que teve o apoio da Fundação Avina. Segundo a publicação, que também avaliou outros nove países latino-americanos a respeito das políticas públicas sobre mudanças climáticas, a iniciativa privada pouco investe nessas áreas. "Isso pode prejudicar o país em termos de competitividade no mercado internacional e também não permite uma contribuição maior dos brasileiros para soluções mais duradouras e eficazes para a remediação do problema das mudanças climáticas no nível planetário, podendo prejudicar muito a economia e a sociedade brasileira." Mais grave ainda é a falta de estudos sobre vulnerabilidades ambientais, sociais e econômicas decorrentes das mudanças climáticas, que poderiam impactar especialmente as populações mais vulneráveis. De acordo com o estudo, mais grave ainda é a falta de estudos sobre vulnerabilidades ambientais, sociais e econômicas decorrentes das mudanças climáticas, que poderiam impactar especialmente as populações mais vulneráveis, pois costumam habitar justamente as áreas mais sujeitas aos graves impactos das alterações climáticas, por sua precariedade de infraestrutura, em locais mais sujeitos a deslizamentos, secas, falta de saneamento básico, dentre outros fatores potencializadores de desastres ambientais ou impactantes em termos de saúde pública. Desafio brasileiro "A falta de produção científica também impacta a formulação de políticas públicas que depende de informação de qualidade e relevante para tomada de decisão. Deve impactar também a orientação de fluxos financeiros, bem como os investimentos privados em desenvolvimento de tecnologias", pontua o informe. Autores como o economista José Eli da Veiga acreditam que o desafio Brasil nos próximos anos consiste em investir em Ciência, Tecnologia e Inovação para não ficar dependente das soluções que surgirão em outros países, e que para tanto, deveríamos usar todos os recursos que seriam investidos no pré-sal para investir em Ciência e Tecnologia. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
am5 Ambiente

Documento “vazado” destaca evidências das mudanças climáticas

Apesar de ainda ser um trabalho em andamento, o quinto relatório do IPCC apresenta dados preocupantes e aponta que a concentração de CO2 na atmosfera é a grande responsável pelo aquecimento global. Quando o blog Watts Up With That divulgou, sem autorização, uma cópia do próximo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, sua intenção era enfraquecer a entidade e toda a tese de que o aquecimento do planeta se deve às emissões de gases do efeito estufa resultantes das atividades humanas. Foi um tiro no pé. Pois, apesar do autor do blog, Alec Rawls, se esforçar para destacar alguns pontos que teoricamente dariam suporte para suas próprias teorias contrárias à participação do homem nas mudanças climáticas, uma análise mais calma do relatório mostra justamente o oposto: as evidências de que o clima está se transformando são inequívocas e é extremamente provável que isso seja culpa nossa. Segundo o documento, as temperaturas médias globais vêm subindo desde o começo do século XX e esse aquecimento foi particularmente acelerado depois dos anos 1970. Cada uma das últimas três décadas foi significantemente mais quente do que todas as outras desde 1850. A temperatura combinada da terra e do mar teria sofrido um aumento de 0.8°C no período de 1901 a 2010 e de cerca de 0.5°C entre 1979 e 2010. “Existem evidências consistentes de que há um aumento na rede de energia do sistema terrestre graças a um desequilíbrio. É virtualmente certo que isto é causado por atividades humanas, fundamentalmente pelo aumento das concentrações de dióxido de carbono (CO2)”, afirma o relatório. O IPCC aponta que o CO2 é a principal causa das mudanças climáticas, muito mais relevante para o aquecimento do que outros fatores naturais. A concentração atual de CO2 na atmosfera é a maior em 800 mil anos. O documento identifica também que houve mudanças nos eventos climáticos extremos, mas salienta que o nível de confiança sobre o que mudou varia conforme o tipo de fenômeno e com a região onde ele ocorre. Para a questão do aumento das chuvas intensas, por exemplo, as estatísticas apontam que existe um crescimento da sua frequência desde 1950. Porém, com relação às secas, é mais difícil observar uma tendência de longo prazo, devido às inconsistências geográficas. O relatório registra ainda que os oceanos avançaram entre 2,8mm a 3,6mm ao ano desde 1993. A subida pode ser acompanhada nos últimos dois séculos, sendo que se acelerou depois de 1900. “Desde 1970, o aquecimento e a expansão oceânica e o degelo foram os contribuintes dominantes do aumento do nível do mar, juntos explicando 80% do avanço observado”, afirma o relatório. A previsão é que o mar suba entre 0,29 metros e 0,82 metros até 2100. O IPCC destaca que é grande a confiança nos modelos climáticos atuais e que eles conseguem simular com precisão os múltiplos cenários previstos. Vários aspectos climáticos, como precipitações em larga escala, comportamento do gelo do Ártico e temperaturas oceânicas, seriam bem representados nessas ferramentas. Esse tipo de conclusão é possível graças a simulações realizadas que podem ser comparadas com dados reais. Por exemplo, cientistas conseguem realizar um experimento no qual um modelo recria a flutuação da temperatura terrestre nos últimos 50 anos e depois comparam os resultados com o que se sabe realmente aconteceu. “O ponto mais interessante do 'vazamento' do relatório é a revelação do quão grande é o sentimento de negação entre os céticos climáticos. Se eles são capazes de distorcer um documento da forma que fizeram, imagine como são malucas as interpretações que fazem das evidências científicas”, afirmou à rede ABC Steven Sherwood, pesquisador da Universidade de Nova Galês do Sul e membro do IPCC. * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fabiano Ávila, do CarbonoBrasil
Imagem aérea mostra painéis solares instalados no telhado de uma casa na Alemanha. Foto: Miguel Villagran Ambiente

Energias renováveis para cidades sustentáveis

Saiba o que Nova York, Rizhao, Tel Aviv, Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia têm em comum quando o assunto é sustentabilidade. [caption id="attachment_73569" align="aligncenter" width="620" caption="Imagem aérea mostra painéis solares instalados no telhado de uma casa na Alemanha. Foto: Miguel Villagran"][/caption]   A palavra sustentável foi usada pela primeira vez como estratégia de equilíbrio para o desenvolvimento urbano por Lester Brown, fundador do WWI-Worldwatch Institute, no início da década de oitenta, para conceituar como sociedade sustentável “aquela capaz de satisfazer as necessidades do presente sem comprometer os direitos das futuras gerações”. Hoje, a urbanização caótica causa um gigantesco ônus à qualidade de vida e à saúde humana e ao ambiente, contribuindo para a instabilidade social, ecológica e econômica, exigindo soluções sustentáveis nas cidades. Mundialmente, a maior parte do uso da energia e das emissões de carbono provém de cidades que estão descobrindo modos mais eficientes de gestão, melhorando a qualidade de vida e impactando menos a saúde humana. Nos Estados Unidos, cidades aderiram ao Acordo de Proteção ao Clima realizado por governos municipais. Em Nova York, prefeito Bloomberg, que está cobrando de pedágio urbano, quer fazer da cidade dele a primeira “cidade sustentável do século 21″, usando a renovação do Empire State Building, um ícone da cidade, para exemplos de eficiência energética, construção verde e produção de eletricidade limpa. Em Rizhao, cidade costeira chinesa, 90% de todas as residências de mais de 3 milhões de habitantes, já usam aquecedores de água solares, e o governo local instalou painéis solares para alimentar a iluminação de rua e os semáforos. Tel Aviv, a maior área metropolitana de Israel, toda água do banho e da descarga vai para o maior complexo de tratamento do Oriente Médio, o Shafdan, movido a energia limpa, onde o esgoto é bombeado para dentro da terra e novamente retirado, passando por tratamentos físicos, químicos e biológicos, para ser purificada e recuperada. Os relatórios do WWI, usados em todo o mundo como referência para a sustentabilidade, mostram como a eficiência energética e a economia de gases de efeito estufa a partir de tecnologias de construção: isolamento de tubos, vedação de ar, revestimentos reflexivos de telhado, pigmentos e janelas isolantes, estimando que as melhorias na eficiência da construção, com menor teor de emissões, podem levar a uma redução de 41% no uso de energia e uma redução de 70% nas emissões de gases de efeito até 2030. No Brasil, ações urbanas começam a fazer parte das novas gestões das cidades. No Rio, o projeto “Estudantes pela Sustentabilidade”, apoiado pela Siemens, uma corporação transnacional que já descobriu que a sustentabilidade faz parte transversalmente dos seus negócios, que a América Latina é a região mais urbanizada no mundo em desenvolvimento e que atualmente 196 milhões de pessoas vivem em cidades brasileiras – um lucrativo locus para seus negócios sustentáveis – reuniu equipes de estudantes de diferentes países para desenvolver a próxima geração de líderes em sustentabilidade. São Paulo lançou a campanha “Assina Prefeito”, do Programa Cidades Sustentáveis, visando intensificar a divulgação nas redes sociais para que mais prefeitos tomem conhecimento e assinem a carta compromisso por cidades justas e sustentáveis. Em Pernambuco, a Cidade da Copa prepara a implantação de usina de geração solar fotovoltaica conectada à rede elétrica da Companhia Pernambucana de Energia. Na Bahia, a arrojada Arena Fonte Nova que voltará a ser o prédio que mais “vibra” no estado, usando o conceito “fonte nova”, perceberá o filão dos econegócios que está entrando para lançar, por exemplo, tecidos termoelétricos capazes de produzir energia a partir do calor liberado pelo corpo humano durante jogos, caminhadas intensas ou pela prática de exercícios físicos e recarregar celulares e outros aparelhos portáteis. Realidades do dia a dia nesta década. Um ícone esquecido do Brasil, o cartão postal mundialmente famoso e localmente mal tratado Forte de São Marcelo, na Bahia, conhecido historicamente como o umbigo da America Latina por estar na curva inferior da “barriga” do continente, atravessou os séculos incólume como capitão-mor do porto da Baia de Todos os Santos. O velho forte sente diariamente a energia maremotriz que passa por ele quatro vezes todos os dias durante os fluxos de enchente e vazante, torcendo para que descubram que tanto a energia solar que o ilumina como a energia das marés, se capturadas, podem abastecer a sua cidade. Satisfazendo as necessidades do presente sem comprometer os direitos das futuras gerações o forte aguarda, pacientemente, o despertar dos gestores para os potencial sustentável da cidades. * Publicado originalmente no Blog do Planeta e retirado do site Mundo Sustentável.


por Eduardo Athayde, diretor do WWI-Worldwatch Institute no Brasil
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A invisibilidade gerada pela citricultura

“O setor de cítricos brasileiro, ao lado dos Estados Unidos, é responsável por 90% da produção de suco de laranja comercializado no mundo”, informa a socióloga Lidiane Maciel. “A citricultura no Brasil já nasceu internacionalizada e, a partir de 1962, passou a preencher lacunas deixadas pelo mercado americano. Para quem viaja pelo interior paulista, é possível observar ao lado dos imponentes canaviais os profundos laranjais, que resistem ao avanço da cana de açúcar”. Este é o panorama que Lidiane Maciel identifica no interior paulista, especialmente nas cidades de Araraquara e São Carlos, onde a produção de citricultura tem atraído milhares de migrantes. De acordo com a pesquisadora, “as lavouras de laranja e, principalmente, de cana-de-açúcar substituíram parcialmente as antigas lavouras de café e ocuparam novos espaços para uma produção compassada com o desenvolvimento industrial”. Apesar de ocupar o ranking na posição de maior produtor de laranjas do país, as cidades paulistas que concentram a produção enfrentam problemas sociais por conta dos migrantes que buscam “melhorar de vida”. Segundo Lidiane, que acompanhou a jornada dos trabalhadores para escrever sua dissertação de mestrado, eles têm um jornada que se inicia “por volta das 6h30min, e o almoço é realizado em meio à rua de trabalho”. E acrescenta: “Para que um trabalhador mantenha um salário mínimo, é necessário que colha por dia cerca de 90 caixas de laranja. Por cada caixa colhida é pago cerca de 0,36 centavos”. Além das dificuldades em relação à jornada de trabalho, Lidiane enfatiza, na entrevista feita por e-mail, que os migrantes são “invisíveis” na região. “A cidade não os reconhece como parte; é impresso neles grande estigmatização. São chamados de ‘boias frias’ de ‘baianos’ ou de ‘povo do norte’. O que de fato impede o fortalecimento de relações sociais fora de seus núcleos familiares e de amizade. Mas também não podemos afirmar que há uma segregação que gere total separação dos migrantes e dos locais”, assinala. Lidiane Maciel é graduada e mestre em Sociologia. Atualmente cursa doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Unicamp. Confira a entrevista. IHU On-Line – Quais as facetas da citricultura no estado de São Paulo? Muitos pesquisadores estudam os impactos e as implicações da produção da cana-de-açúcar na região, mas pouco se fala da cultura da laranja. Que avaliação faz dessa cultura no estado de São Paulo? Como e por quais razões ela se intensificou na região? Lidiane Maciel – A citricultura, como hoje é conhecida, data-se do início dos anos 1960. Nessa década pequenos produtores rurais do estado de São Paulo começaram a produzir laranja para comercializá-la no mercado consumidor internacional. É um setor que demanda muita mão de obra pouco especializada, sobretudo no período de colheita. Essa dimensão criou um sólido mercado de trabalho temporário cuja exploração da força de trabalho e precárias condições de atuação passaram a definir o setor. A citricultura no Brasil já nasceu internacionalizada e, a partir de 1962, passou a preencher lacunas deixadas pelo mercado americano. Para quem viaja pelo interior paulista, é possível observar ao lado dos imponentes canaviais os profundos laranjais, que resistem ao avanço da cana-de-açúcar. São em sua grande maioria pequenos produtores, cerca de 87%, que vendem sua produção a empresas líderes do setor, também localizadas na mesma região. O mapa abaixo localiza a Região Citricultora do estado de São Paulo. Nosso estudo se concentra na porção central do mapa. Figura 1 : Estado de São Paulo – destaque as Regiões citricultoras [caption id="attachment_73563" align="aligncenter" width="455" caption="Fonte: Neves (2010)"][/caption]     O setor de cítricos brasileiro, ao lado dos Estados Unidos, é responsável por 90% da produção de suco de laranja comercializada no mundo. E o estado de São Paulo é responsável por 80% da produção nacional, estando vinculado diretamente ao mercado mundial, gerando um montante de 1,5 bilhão a 2,5 bilhões de dólares anualmente. (Neves, 2010). As principais barreiras encontradas na produção são os impostos e as normas sanitárias internacionais de seus compradores. No ano de 2012, o setor vivenciou a pior crise desde seu nascimento. A queda da exportação causada pela barreira sanitária impostas pelos Estados Unidos em relação ao uso do fungicida Carbendazim – amplamente utilizado nas plantações paulistas no combate às pragas que assolam os pomares, como o greening e cancro – operou grandes perdas financeiras ao setor, segundo notícia veiculada pelo Jornal Nacional no dia 26 de julho de 2012¹, os produtores da cidade de Taquaritinga distribuíram cerca de 12 toneladas de frutas e jogam na praça central da cidade 200 litros de suco processado em protesto ao pouco incentivo dado pelo governo brasileiro ao consumo interno do suco de laranja, visto que as exportações estavam barradas. IHU On-Line – Segundo os pesquisadores, a cultura da laranja ocupou uma posição estratégica nas décadas de 1990 e de 2000, sendo que a população de São Carlos cresceu muito entre 1980 e 2010, com um salto de mais de 100 mil habitantes. Quais as implicações sociais desse processo? Lidiane Maciel – Não podemos evidentemente atribuir o crescimento da população da cidade de São Carlos à cultura da laranja, mas sim à posição que o município começou a ocupar nos anos 1980 e sua posição frente à dinâmica regional. Sendo considerada 1) um polo tecnológico por causa de suas duas universidades; 2) a marcha da desconcentração industrial de São Paulo, que atingiu esse município; e 3) o agronegócio estabelecido na Região. Observa-se a região como área de expansão. No nível microssocial, diversas redes familiares e de contratação foram certamente responsáveis pelas idas e vindas de população nessa cidade. IHU On-Line – Como o agronegócio se estrutura em Araraquara e São Carlos? Lidiane Maciel – A partir dos 1960, o estado de São Paulo passou a reorganizar e modernizar sua economia agrícola. Os incentivos governamentais, nos anos 1980, foram essenciais para que um novo complexo produtivo fosse estabelecido. Se atualmente, seguindo os dados da Fundação SEADE de 2008, nesta região a produção de cana-de-açúcar e laranja se destaca com certa preponderância ao lado da carne de frango, sabe-se também que nem sempre foi deste modo. Esta perspectiva agrícola é fruto de um conjunto de iniciativas governamentais que, a partir dos anos 1970, principalmente em relação à cana-de-açúcar, priorizaram esse tipo de plantação dado a uma série de incentivos oferecidos à produção de álcool pelo Programa Nacional de Álcool (Pró-álcool) (STOLCKE, 1985; ALVES, 1993; NEGRI, 1996). Em grande medida, as lavouras de laranja e, principalmente, as de cana-de-açúcar substituíram parcialmente as antigas lavouras de café e ocuparam novos espaços para uma produção compassada com o desenvolvimento industrial. Na década de 1990 no Brasil foram aprimoradas as políticas que, desde 1970, priorizavam o desenvolvimento agrícola via incrementos tecnológicos no campo, o que, consequentemente, acarretou um aumento da produtividade e um novo posicionamento frente ao mercado internacional. O novo modelo produtivo realiza-se pela utilização intensiva de fertilizantes e agrotóxicos, pela busca por sementes selecionadas para algumas plantações como a soja, na mecanização de etapas da produção e controle excessivo de pragas. Isso impacta diretamente na sustentabilidade do meio ambiente. O município de Araraquara, além de certa representatividade do setor sucroalcooleiro, possui a maior empresa de suco cítricos do país; o município é responsável por 70% da exportação de suco concentrado. Ao chegar a Araraquara, pela rodovia Washington Luís, o cheiro do processamento da laranja já faz parte da identificação local, além de avistarmos por todo caminho inúmeras plantações de cana-de-açúcar, principalmente em sua vizinha Ibaté. O setor de cítricos, principalmente a laranja, é bastante representativo no setor agroindustrial do estado de São Paulo. O complexo agroindustrial, nesse caso, é formado pelo plantio, colheita, estocagem e processamento do produto para a exportação. Isso se dá atuando em vários municípios desse estado, com destaque para região de Limeira e Araraquara.   Ao analisarmos as duas tabelas expostas acima confirmamos a potencialidade dos setores agrícolas ligados a produção de cana-de-açúcar e da laranja nas duas regiões consideradas. Nas décadas de 1990 e 2000 esses setores fortaleceram suas produções apresentando saltos significativos no que toca ao aumento da produção em toneladas como demonstram as tabelas. A região de Araraquara diferentemente da região de São Carlos, por ser maior e mais tradicional no seguimento agrícola, apresenta uma dinâmica econômica ligada não somente ao plantio dessas culturas, mas ao seu processamento e comercialização. O crescimento desse setor nas décadas de 1990 e 2000 está ligado às novas dinâmicas impostas pela modernização agrícola desencadeada Pesquisa tecnológica No município de São Carlos, encontra-se uma importante base de pesquisa tecnológica para a agricultura, a Embrapa, que anualmente é responsável por uma massa de pesquisas direcionadas ao manejo do campo e novas formas de processamento de produtos. Para além do incentivo de políticas para o desenvolvimento da agroindústria, é relevante considerarmos a conjuntura internacional no que diz respeito à preponderância deste setor para a formação de divisas. A posição privilegiada da cana-de-açúcar frente a outros produtos é derivada do poder de barganha que o açúcar e, principalmente, o álcool ganharam nestes últimos anos. Segundo estudos do Instituto Econômico Agrícola da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios – Apta, no ano de 2010, as exportações do agronegócio paulista atingiram US$ 5,19 bilhões no primeiro quadrimestre do ano (um aumento de 22,1% em relação a igual período de 2009); as exportações do agronegócio brasileiro cresceram 15,5%, para US$ 21,83 bilhões, representando 40,1% do total. As importações do setor tiveram elevação de 29,4%, para US$ 6,64 bilhões (12,7% do total). O superávit do agronegócio, no primeiro quadrimestre, foi de US$ 15,19 bilhões, 10,3% superior ao do mesmo período do ano anterior. IHU On-Line – Quem são e qual é o perfil dos trabalhadores da citricultura? Em relação à produção de cana-de-açúcar, fala-se da precariedade da jornada de trabalho. No caso da citricultura, qual a situação dos trabalhadores? Lidiane Maciel – Os trabalhadores rurais da laranja no estado de São Paulo são em grande maioria migrantes e moradores das periferias das cidades que ficam próximas dos laranjais. A condição educacional e o precário acesso ao mercado de trabalho urbano, bem como outros determinantes, levam essa população a empregarem-se durante a safra da laranja em sua colheita, que se inicia no mês de junho de cada ano. Segundo os dados da Relação Anual para o Ano de 2010 (Rais), temos o seguinte perfil para os trabalhadores da laranja devidamente contratados nas cidades de interesse: é homem, de 30 a 49 anos de idade com ensino fundamental incompleto; ainda cerca da metade desses trabalhadores ganham, em média, de um salário mínimo e meio a dois salários mínimos. A partir da comparação dos dados da Rais com os dados obtidos com o trabalho de campo, observamos que esses trabalhadores, quando não estão na safra da laranja, encontram-se em muitos trabalhos urbanos que, em média, pagam a mesma faixa salarial. Ou no caso dos trabalhadores migrantes “permanentemente temporários”, encontram-se em seus roçados no Nordeste. Alguns trabalhadores enfatizam que, na colheita de laranja, é aberta a possibilidade de ganhos maiores, pois o que conta é a produtividade. Assim, há uma valorização entre os trabalhadores dessa ocupação em relação a outras. Jornada A jornada de trabalho inicia-se por volta das 6h30min; o almoço é realizado em meio à rua de trabalho. Mesmo a empresa oferecendo bancas e toldo no ônibus, é muitas vezes impossível deslocar-se até lá. O uso dos Equipamentos de Proteção Individual – EPI é comprometido pela qualidade desses equipamentos, que, muitas vezes, não se ajustam ao corpo do trabalhador, forçando-os retirá-los durantes o trabalho. A colheita é realizada muitas vezes em meio à dispersão de fungicidas, o que causa diversos tipos de alergias e outros problemas de saúde. Também é comum o relato do contato com animais peçonhentos e a queda da escada. Para que um trabalhador mantenha um salário mínimo, é necessário que colha por dia cerca de 90 caixas de laranja. Por cada caixa colhida é pago cerca de 36 centavos de real. O contrato de trabalho é por tempo indeterminado, porém está sujeito ao término da safra. O sobe e desce constante das escadas para a colheita leva os trabalhadores a desenvolverem muitos problemas de coluna, os afastamentos e perda de dia de trabalho são comuns, algumas empresas se recusam a pagarem os atestados médicos. Assim, considero que situação é de bastante precariedade. IHU On-Line – Qual a razão dos fluxos migratórios por conta da citricultura? Quando e por que esse processo se iniciou e como está acontecendo? Lidiane Maciel – No município de São Carlos não é possível atribuir unicamente os fluxos migratórios à citricultura. Porém, podermos considerar que é claramente uma migração de caráter laboral e em busca de acessos a diversos direitos sociais, tais como educação e saúde. Porém, na vizinha cidade de Matão, a 90 km de São Carlos, esse processo é presente. Na pesquisa de doutoramento venho trabalhando com os piauienses, migrantes temporários, nessa cidade. Lá este processo começou nos anos 2000, com o fortalecimento do setor. Podemos falar que a razão dos fluxos migratórios para essa região está na busca de emprego e renda, bem como acesso aos direitos sociais. IHU On-Line – Como os migrantes são vistos em São Carlos? Lidiane Maciel – Considero que São Carlos historicamente é considerada uma cidade de migrantes, de início de migrantes internacionais na primeira metade do século XX (como os italianos, japoneses, portugueses etc.). Nos anos recentes, a entrada de mineiros, paranaenses e nordestinos alterou o perfil populacional da cidade. Como em qualquer outra situação migratória, o preconceito e criminalização dessa população restrita às áreas periféricas é enorme. No caso dos trabalhadores da citricultura, migrantes, recai certa invisibilidade. A cidade não os reconhece como parte; é impresso neles grande estigmatização. São chamados de “boias frias” de “baianos” ou de “povo do norte”. O que de fato impede o fortalecimento de relações sociais fora de seus núcleos familiares e de amizade. Mas também não podemos afirmar que há uma segregação que gere total separação dos migrantes e dos locais. IHU On-Line – Sua pesquisa aborda o conceito “melhorar de vida”, como uma das justificativas para os ciclos migratórios. O que os trabalhadores relatam sobre essa concepção a partir das suas experiências trabalhistas? Lidiane Maciel – Na década de 1990, segundo Paulo Jannuzzi , a migração e a industrialização perderam a força transformadora das décadas passadas, e a mobilidade – que outrora era desigual e restrita, porém ascendente – tendeu a apresentar-se de maneira descendente dada “as condições gerais do mercado de trabalho urbano [...], com baixa expansão do emprego formal, aumento da parcela dos trabalhadores por conta própria e dos assalariados sem contrato de trabalho formalizado e fortes oscilações do nível de desemprego e rendimento médio” (JANNUZZI, 2004, p. 3). Nesse contexto, a percepção de “melhorar de vida”, encontrada nas falas dos migrantes e em diversos trabalhos sobre migração, pode ser deslocada e não mais se relaciona estritamente com os ganhos econômicos conseguidos com a migração. Há, portanto, outras dimensões e motivações no que tocam os condicionantes do processo migratório que serão consideradas. Assim sendo, não devemos tão somente relacionar a ideia geral de “melhorar de vida” com mobilidade social, cujo caráter economicista é estruturador. Entender como os trabalhadores representavam essa noção de que “melhoram de vida” em uma periferia urbana foi o grande objetivo da pesquisa. A casa, o terreno, a horta e o precário acesso aos benefícios da cidade tornavam-se significativos no projeto de melhorar de vida. Apesar das condições precárias existentes, os migrantes estavam na “cidade”, e o valor atribuído a esta era demasiadamente grande. Assim, consideramos que as noções de “melhorar de vida” ou de seus significados passam pela esfera do mundo do trabalho, mas também se realiza em outras situações da vida social, dependendo de uma série de percepções construídas no âmbito das relações sociais. Melhorar de vida A noção geral de “melhorar de vida” ora apresenta materialidade econômica definida, ora aspectos simbólicos, quando não conjugam as duas faces. As interpretações traçadas sobre suas condições de vida são refeitas na dinâmica do cotidiano. O significado de “melhorar de vida” articula o lá (locais de origem) e o cá (locais de destino) e, conforme o processo migratório, consolidam-se outras noções que, a partir da expressão “melhorar de vida”, são produzidas. Na investigação dos significados da expressão “melhorar de vida”, foi possível mapear e categorizar, a partir da pesquisa qualitativa, quatro aspectos que expressam para os migrantes pesquisados a noção “melhorar de vida”. A primeira delas se relaciona com o acesso ao consumo de bens, sejam eles duráveis e não duráveis. O segundo aspecto vai de encontro com o acesso aos serviços sociais e/ou direitos sociais. Em terceiro, podemos citar a noção de libertar-se de esquemas de dominação – no caso das mulheres, essa máxima significa construir autonomia frente a seus maridos e, no caso dos homens, distanciarem de seus pais. Por fim, a própria circulação no espaço social de vida significava “melhorar de vida” para alguns dos entrevistados. Lembramos ainda que essa categorização é meramente formal, pois é possível perceber que, muitas vezes, esses quatro aspectos são ressaltados nos discursos, entretanto, em alguns casos, um ou outro toma maior relevância. IHU On-Line – Que novos rearranjos familiares são formados em São Paulo por conta dos fluxos migratórios da citricultura? Lidiane Maciel – A hipótese que orientou esse trabalho foi que os arranjos familiares eram alterados pela busca incessante de “melhorar de vida” que incluía o processo migratório. Consideramos que esse processo altera os arranjos familiares tanto no nível relacional quanto na disposição dos núcleos. Deslocar-se das regiões de origem pode implicar mudança nos “espaços de vida” em que as relações eram delimitadas. No caso dos trabalhadores rurais “temporários”, o mundo do trabalho geralmente é alterado e a distribuição das tarefas familiares e domésticas é modificada. A convivência com outras famílias com outros padrões de conduta também afeta a vida familiar, criando novos rumos para a gestão dos conflitos ocasionados pela convivência no novo espaço social de vida. A partir do trabalho de campo realizado entre os trabalhadores rurais migrantes dos bairros que compõem a região da Cidade Aracy, em São Carlos, categorizamos sete situações familiares que exemplificam os rearranjos proporcionados pela migração ou pela busca do “melhorar de vida”. Dentre elas destaco: formação de famílias vínculo entre mãe e filho (ou filha) e entre avó e neto (ou neta); a circulação de crianças entre outros núcleos familiares; a solidariedade e disputa entre o grupo de irmãos (ou irmãs) que vivem em um mesmo domicílio, e a redefinição dos papéis familiares, como a de pai e mãe. Ainda, por fim, considero que não podemos considerar um único padrão de arranjos familiares anteriores e posteriores à migração, mas que o processo migratório influencia diretamente na conformação dos núcleos, podendo ressignificar posições dos membros da família e recompor relações anteriormente perdidas. * Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
O manejo da água é fundamental para o abastecimento das comunidades rurais. Na imagem um manancial no Estado de Chiapas, sul do México. Foto: Emilio Godoy/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Manejo comunitário da água

[caption id="attachment_73558" align="alignleft" width="340" caption="O manejo da água é fundamental para o abastecimento das comunidades rurais. Na imagem um manancial no Estado de Chiapas, sul do México. Foto: Emilio Godoy/IPS"][/caption] Os serviços comunitários de água, que atendem cerca de 2.500 localidades rurais do México, são uma realidade que reclama reconhecimento legal. Cidade do México, México, 17 de dezembro de 2012 (Terramérica).- Os sistemas comunitários de abastecimento de água, que funcionam em milhares de localidades do México, querem que uma nova estrutura legal federal em estudo os reconheça como gestores do precioso recurso. “Estamos em um limbo jurídico, porque a lei não nos reconhece, e, ao mesmo tempo, exige que peçamos concessões e façamos investimentos”, disse ao Terramérica um integrante do Sistema de Água Potável de Tecámac, Ricardo Ovando. Esta entidade sem fins lucrativos e autônoma funciona desde a década de 1950 e foi legalizada em 1997; administra seis poços e abastece cerca de quatro mil usuários em Tecámac, município de 365 mil habitantes no Estado do México, 40 quilômetros ao norte da capital federal. O Sistema de Água Potável de Tecámac já conhece as perseguições, pois em 2005 o governo municipal tomou suas instalações, que foram recuperadas graças a um amparo legal em 2007. Há 2.517 órgãos operadores de água deste tipo, que atendem a 2.454 cabeceiras municipais sob a forma de sistemas autônomos ou de juntas ou comitês rurais, estima o não governamental Grupo de Estudos Ambientais. O restante das quase 198 mil localidades rurais mexicanas são abastecidas por sistemas estaduais ou municipais, ou por concessionárias. Mas neste país de quase 117 milhões de habitantes, 30% das moradias não têm água encanada e outros 15% a recebem a cada três dias por outros meios, segundo estatísticas oficiais. A Lei de Águas Nacionais, de 1992, não reconhece juridicamente os sistemas comunitários que, no entanto, funcionam graças aos conselhos de bacia, figura criada para a interação entre a governamental Comissão Nacional da Água e delegados dos usuários e de autoridades federais, estaduais e municipais. “As comunidades cuidam dos recursos naturais e devem decidir o que fazer com eles”, disse ao Terramérica Esteban Solano, morador na localidade de San Pedro Atlapulco, no município de Ocoyoacac, Estado do México, uma zona pródiga em riqueza florestal e hídrica. Essa população se abastece de três dos quatro mananciais que brotam das montanhas e que também permitem bombear 22 mil metros cúbicos de água por dia para a Cidade do México. Em compensação, o governo da capital entregou cerca de US$ 4 milhões desde 2006. A Constituição mexicana já reconhece o acesso à água como um direito humano básico, estabelecido em 2010 pela Organização das Nações Unidas (ONU), que lhe deu natureza vinculante. Contudo, o Congresso nacional deve aprovar uma nova lei para incorporar essa mudança e tem prazo até fevereiro para fazer isso. O novo governo, que tomou posse no dia 1º deste mês, prepara seu projeto, do qual poucos detalhes são conhecidos. Entretanto, o presidente Enrique Peña Nieto anunciou durante sua campanha eleitoral um pacote de 38 medidas para garantir o abastecimento universal, incluindo construção de represas, aquedutos e estações de tratamento, além da criação do Ministério da Água. Além disso, o novo governo deve apresentar nos próximos meses um Programa Nacional Hídrico até 2018. É necessário revisar de maneira “crítica e sistemática as concessões, atribuições e permissões que garantam a participação das comunidades locais e dos afetados”, disse ao Terramérica o presidente da Academia Mexicana de Direito Ambiental, Rolando Cañas. Por seu lado, as comunidades que administram seus recursos hídricos e outras organizações não governamentais preparam uma proposta para a futura lei de águas. Entre outros elementos, propõe reconhecer os sistemas de autogestão, a cogestão comunitária-municipal, a criação de programas locais de água potável e saneamento, os acordos entre vários municípios, e a supervisão comunitária do projeto, construção, operação e manutenção das estações de tratamento de esgoto. “A lei deve estar baseada em uma perspectiva de direitos humanos. Vamos em direção a um modelo muito ambicioso, temos que garantir um bem público. E precisamos pensar além da gestão de bacias, porque cada usuário defende seu uso da água”, disse ao Terramérica a pesquisadora Raquel Gutiérrez Nájera, da Universidade de Guadalajara, no Estado de Jalisco. A água é abundante do centro para o sul do território mexicano, mas escasseia na região norte, que sofreu este ano uma intensa seca, fenômeno que será mais frequente devido à mudança climática, segundo os cientistas. Blindar a administração hídrica comunitária é um passo para frear a privatização que ameaça o futuro marco legal, afirmam alguns. “Há uma intenção de privatização. Um exemplo é a construção de casas, na qual os desenvolvedores recebem poços para manejar, mas a água está acabando”, disse Ovando, em cuja região operam oito sistemas de gestão autônomos e os usuários pagam pelo serviço quase US$ 4 a cada dois meses. “As florestas são as fábricas de água. Nós cuidamos delas, é justo que nos recompensem”, opinou Solano. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   LINKS Mesoamérica ignora sua pegada hídrica Agro mexicano necessita de uma revolução hídrica Sem água ao Sul do Rio Bravo México enfrenta um severo problema líquido, em espanhol Água comunitária passa pelos tribunais, em espanhol Onda privatizadora se foi, desafios ficam, em espanhol Lei de Águas Nacionais, pdf em espanhol Grupo de Estudos Ambientais, em espanhol Academia Mexicana de Direito Ambiental no Facebook, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Emilio Godoy*
Luz Maldonado contraiu a doença de Chagas por um alimento e em uma área urbana de classe média e alta de Caracas. Foto: Estrella Gutiérrez/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Novo tratamento para o mal de Chagas

[caption id="attachment_73546" align="alignleft" width="300" caption="Luz Maldonado contraiu a doença de Chagas por um alimento e em uma área urbana de classe média e alta de Caracas. Foto: Estrella Gutiérrez/IPS"][/caption] O mal de Chagas pode ser contraído pela ingestão de alimentos contaminados, em áreas urbanas e não necessariamente pobres. Pesquisadores venezuelanos avançam para sua cura. Caracas, Venezuela, 17 de dezembro de 2012 (Terramérica).- O mal de Chagas, terceira doença infecciosa da América Latina, muda de rosto e se urbaniza, enquanto um novo tratamento mostra uma luz para milhões de afetados. A mudança de rosto é exemplificada pela venezuelana Luz Maldonado, professora de 47 anos que há cinco contraiu a enfermidade por beber um suco contaminado, em um foco que atingiu 103 pessoas em uma escola de Chacao, município de classe média e alta de Caracas. Um menino morreu e a vida dos demais mudou para sempre. As microepidemias por contágio alimentar são novas e, segundo fontes científicas ouvidas pelo Terramérica, agravam a virulência porque milhares de parasitas ingressam repentinamente na corrente sanguínea. As maiores foram detectadas em 2005 no Brasil, em dezembro de 2007 em Caracas, e em 2010 na localidade vizinha de Chichiriviche de la Costa. Maldonado convive com cefaleias, edemas e erupções, problemas de articulação, perda de memória, taquicardias, insônia e depressão, em boa parte efeitos colaterais dos medicamentos contra o parasita. Por trás da doença está o Trypanosoma cruzi, parasita unicelular transmitido por insetos hematófagos que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta entre 17 e 20 milhões de pessoas na América Latina. Além disso, quase 25% da população regional está em risco de contrair a enfermidade, que mata anualmente pelo menos 50 mil pessoas. Segundo a OMS, o mal de Chagas é uma das 13 enfermidades tropicais mais desatendidas, a terceira de origem infecciosa na América Latina, atrás da aids e da tuberculose, e a parasitose de maior morbidade e impacto socioeconômico na região. Somente o Uruguai foi declarado, em meados deste ano, livre do inseto que a transmite. Os dados são relativos porque muitos casos “nunca são diagnosticados”, explicou ao Terramérica a chefe de imunologia do Instituto de Medicina Tropical (IMT), Belkisyolé Alarcón de Nola. Essas pessoas não têm sintomas ou os atribuem a outros males. Morrem décadas depois por um incidente cardíaco ou cerebrovascular, sem vincular ao mal de Chagas, disse a médica e pesquisadora que coordena na Venezuela o acompanhamento dos pacientes com essa doença. Agora “está superada a imagem de um mal rural e de pobres”, afirmou Nola. “Podemos ter casos em qualquer altitude, latitude ou camada social, e devemos modificar a maneira de enfrentar os vetores. A urbanização invadiu áreas silvestres dos vetores”, acrescentou. Caracas, enclave em um vale a mil metros de altitude, “tem uma espécie de dedos verdes que adentram nela e que são as áreas mais acessíveis para que os vetores cheguem às moradias”, explicou a médica. Os desmatamentos e queimadas de florestas “deixam com pouca alimentação os chipos”, com são chamados aqui os insetos transmissores, que em outros países recebem nomes como barbeiros, vinchucas, talajes, chinches, chirimachas, pitos ou chichas, detalhou Nola. “Temos vetores por todas as partes e mais ainda com a mudança climática, porque quanto maior o calor, mais favorecida é a reprodução de insetos”, destacou. Habitualmente, os insetos afetados picam as pessoas e ao ficarem cheios defecam ali mesmo. A pessoa se coça e assim as fezes entram no organismo pela picada ou por outros orifícios, como os olhos, quando coçados. Em Caracas “existe um mau vetor, o Panstrongyilus geniculatus, que é lento e defeca tardiamente”, disse Nola. Mas esse “mau vetor” está se adaptando. “Atraído pelas luzes das casas em áreas urbanas e periurbanas, entra pelas janelas e cozinhas, vagueia por utensílios e alimentos e evacua onde bem entende”, deu como exemplo. Na transição para a infecção oral, “há muitos pequenos focos, muitos não diagnosticados”, embora nenhum como o de Chacao, “por ser plenamente urbano e pelo número de afetados”, que consumiram suco de goiaba infectadas com fezes do inseto, na escola municipal. Dois tipos de cepas originam o mal de Chagas. Uma afeta do México até o norte da América do Sul e outra do Brasil até o extremo sul. A primeira afeta sobretudo o coração, e a segunda também prejudica esôfago e cólon, disse a especialista do IMT. Essa enfermidade tem três fases: a primeira, aguda, de casos “com sintomas e quadros muito acentuados” e outros suaves ou confundíveis com outros males. A segunda é indeterminada ou assintomática. Na terceira, crônica, “o tecido do miocárdio é destruído e não se regenera, sendo substituído por tecido fibroso. O coração aumenta de tamanho e sua contração já não é efetiva, manda menos sangue para os pulmões e cai paulatinamente em insuficiência cardíaca”, explicou Nola. Há apenas dois medicamentos indicados pela OMS para erradicar os parasitas: o nifurtimox, de 1960, e o benznidazol, de 1974. Mas a erradicação é parcial quando os parasitas estão alojados em tecidos profundos e na fase crônica. Além disso, o tratamento tem efeitos colaterais. “Os que provocam maior temor são os efeitos neurotóxicos, porque geram moléstias de neuropatia periférica, com sensação de frio, de calor, pés muito sensíveis e grandes cefaleias”, completou Nola. Entretanto, as descobertas dos pesquisadores venezuelanos, Julio Urbina e Gustavo Benaim, levaram Argentina e Bolívia a realizarem exames clínicos baseados em seus experimentos, enquanto na Venezuela “aspiramos fazer um estudo-piloto também”, informou a médica. Benaim, chefe do laboratório de sinalização celular e bioquímica de parasitas do estatal Instituto de Estudos Avançados, disse ao Terramérica que o objetivo é “atacar o parasita sem afetar o ser humano, como faz o tratamento atual, e conseguir drogas para a fase crônica, ainda inexistentes”. O estudo foi baseado em uma propriedade do Trypanosoma cruzi: não apresenta colesterol em suas membranas, mas sim o esterol ergoesterol. “Acabando com o esterol, que lhes é indispensável, acaba-se com o parasita”, explicou Benaim. [caption id="attachment_73547" align="aligncenter" width="500" caption="Distribuição mundial e patologia. Foto: Cortesia Gustavo Benaim"][/caption]     Há medicamentos efetivos para inibir a síntese do ergoesterol, como o posaconazol, aprovado pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos, embora apenas para fungos com esse esterol. Os pesquisadores vincularam isto com outra descoberta clínica: pacientes chagásicos cujas arritmias eram tratadas com amiodarona melhoravam substancialmente. “A aplicação nos parasitas é brutal, o efeito é letal para eles”, disse, entusiasmado, Benaim em seu laboratório. A amiodarona já é usada para tratar arritmias e 30% dos afetados pelo mal de Chagas nos Estados Unidos a recebem. “Não é inócua”, pois contém iodo, mas seus efeitos secundários são muito inferiores aos do tratamento atual, segundo Benaim. “Estudamos o mecanismo de ação do posaconazol e da amiodarona; sabia-se que ambos são inibidores de esteroides, mas demonstramos que a amiodarona também desorganiza a regulação do cálcio dos parasitas”, explicou o pesquisador. “Sua combinação produz um efeito que se potencializa, permite baixar as doses e limita os efeitos colaterais”, destacou. Outro novo medicamento contra a arritmia, a dronedarona, com menos iodo e mais eliminável, também foi testado em seu laboratório e “resultou muito exitoso, com mais potência e efeitos mais rápidos” para aniquilar o parasita, revelou Benaim. Um artigo sobre o novo tratamento foi publicado em outubro na Nature Review Cardiology. Além do mal de Chagas, pode funcionar em outras parasitoses, como leishmaniose. “Um bom inibidor dos esteroides pode acabar com essas doenças parasitárias, vistas como de pobres e por isso desatendidas”, afirmou. Nesses casos, “não é negócio pesquisar tratamentos, uma triste realidade”, ressaltou o cientista. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Mal de Chagas avança na Argentina Brasil desenvolve medicamento contra mal de Chagas Brasil em esforço global para ampliar acesso a medicamentos Instituto de Medicina Tropical, em espanhol The emerging role of amiodarone and dronedarone in Chagas disease (O papel emergente da amiodarona e da dronedarona no mal de Chagas), em inglês Informação da OMS sobre o benznidazol, em espanhol Informação da OMS sobre o nifurtimox, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Estrella Gutiérrez*

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