Terramérica - Até a morte pela última floresta

Ambiente

Terramérica – Até a morte pela última floresta


por José Adán Silva*


[caption id="attachment_86630" align="alignleft" width="300" caption="O desmatamento é um dos maiores danos no sul da Reserva da Biosfera de Bosawas. Foto: José Garth Medina/IPS"][/caption] Comunidades aborígines do norte nicaraguense reclamam ações urgentes das autoridades para deter o ataque às suas vidas e ao habitat por parte de milhares de intrusos. Manágua, Nicarágua, 13 de maio de 2013 (Terramérica).- Indígenas da etnia mayangna travam uma batalha crucial em defesa de seu ancestral assentamento na Reserva da Biosfera de Bosawas, no norte da Nicarágua, gravemente ameaçada pela depredação por colonos invasores. O presidente da nação indígena mayangna, Aricio Genaro, contou ao Terramérica que a luta dos povos autóctones por esta reserva, que ainda constitui a maior selva da América Central, se intensificou a partir de 2010, diante do aumento da presença de camponeses procedentes do leste e centro do país. Genaro assegurou que a invasão se tornou violenta contra os recursos naturais e a própria comunidade, estimada em cerca de 30 mil integrantes. Neste contexto, Genaro afirmou que 13 indígenas morreram desde 2009 em defesa do território. A última vítima desse enfrentamento foi o indígena Elías Charly Taylor, que morreu em decorrência dos ferimentos a bala que recebeu na comunidade de Sulún, no dia 24 de abril, quando regressava de uma manifestação contra a destruição da floresta. Este protesto, iniciado em fevereiro, chamou a atenção do governo esquerdista de Daniel Ortega e expôs o tema da destruição da área que, em 1997, quando foi declarada Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), contava com mais de dois milhões de hectares de espécies florestais e florestas tropicais úmidas. O estudo publicado em 2012 pela Sociedade Alemã de Cooperação Internacional, União Nacional de Agricultores e Pecuaristas, União Europeia e Oxfam alertava que “serão necessários 24,4 anos para não ter florestas em Bosawas e 13,3 anos para dispor de zona de amortização na Reserva” caso continue a depredação em curso.   Vida silvestre em retirada Os mayangnas vivem da caça, da pesca, da criação de animais para consumo doméstico, coleta de frutas, e produção de grãos e tubérculos com antigos métodos de cultivo natural. Mas esta forma de vida foi perturbada pelos camponeses invasores. “Disparam contra tudo, queimam tudo, envenenam a água dos rios e cortam as árvores gigantes que por anos nos deram sombra e proteção, e depois prosseguem, nada os detém”, afirmou Genaro. “Já não se vê antas, os pumas e jaguatiricas fugiram da área e já não se ouve o canto dos milhares de pássaros que nos anunciavam a chuva. Nem os peixes grandes a gente vê nos rios. Tudo está desaparecendo”, detalhou. Segundo o ecologista Kamilo Lara, da não governamental rede de organizações ambientalistas Fórum Nacional de Reciclagem, já foram destruídos mais de 96.500 hectares dentro do núcleo da Reserva da Biosfera de Bosawas. Lara apontou que “55% das florestas na zona de amortização, onde se assentaram cerca de 20 mil mestiços camponeses, foram derrubados para se vender a madeira”, e também estimou que 12 mil dos 19.896 quilômetros quadrados que compunham originariamente a reserva foram depredados com a expansão dessa área de amortização, que em sua origem era inferior a 5.500 quilômetros quadrados. O assessor presidencial para assuntos ambientais, Jaime Incer Barquero, disse ao Terramérica que as autoridades nacionais deveriam acelerar as medidas de proteção, “antes que a reserva perca o status (de patrimônio da humanidade) e o mundo perca a reserva”. Com ele concordou o representante da Unesco na Nicarágua, Juan Bautista Arríen, que afirmou ao Terramérica que também é favorável à aplicação de “urgentes e firmes ações” para proteger tanto a comunidade indígena quanto a natureza.   Reação oficial Diante da denúncia dos indígenas e das observações dos ambientalistas, o governo de Ortega começou a implantar algumas medidas contra a depredação. Autorizou o uso da força mediante o envio de 700 militares do Batalhão Ecológico do Exército da Nicarágua e outro tanto de policiais, com o propósito inicial de controlar a violência entre colonos e indígenas. Também criou uma comissão de autoridades nacionais para coordenar ações e aplicar uma política de “mão dura” contra pessoas e organizações apontadas como depredadoras do meio ambiente. Após visitar a área no começo deste mês e constatarem in loco o dano, as autoridades baixaram o decreto 15-2013 que cria a Comissão Interinstitucional como um órgão de caráter permanente para a Defesa da Mãe Terra em Territórios Indígenas e Afrodescendentes do Caribe. Para “fortalecer o Regime de Autonomia da Costa do Caribe”, esta comissão terá a função de garantir os direitos ancestrais de propriedade nos territórios indígenas com as instâncias operacionais e amparar as medidas que forem tomadas em conjunto com as autoridades da comunidade e territoriais para resguardar a biodiversidade da reserva. Também foi anunciado o início de uma série de julgamentos penais, administrativos e ações civis contra todas as pessoas acusadas de destruírem e atentarem contra o meio ambiente e os direitos das comunidades indígenas. Segundo o Estatuto de Autonomia das Regiões da Costa Atlântica da Nicarágua, a Norte e a Sul, os territórios indígenas só podem ser ocupados e usufruídos por membros das comunidades autóctones. O diretor do Centro de Iniciativas de Políticas Ambientais, sociólogo Cirilo Otero, apoiou as ações de proteção, mas disse que a aplicação de medidas coercitivas para proteger o meio ambiente, sem o acompanhamento de políticas de apoio aos camponeses que invadem a área por questão de pobreza, criaria outro conflito socioeconômico e violência rural. O governo expôs o problema e pediu ajuda à diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, enquanto o país procura por seus próprios meios deter a destruição da último grande selva da América Central. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   LINKS Fuzis e leis contra depredadores, em espanhol Reserva da Biosfera de Bosawas segundo a Unesco, em inglês A reserva e os mayangnas segundo a Unesco, em espanhol Fórum Nacional de Reciclagem, em espanhol Análise das causas do desmatamento e o avanço da fronteira agrícola nas zonas de amortização e zona núcleo da Reserva de Biosfera de Bosawas-RAAN, Nicarágua, pdf em espanhol Procuradoria Geral da República da Nicarágua, em espanhol Decreto presidencial No. 15-2013, em espanhol e inglês Presidência da República da Nicarágua, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Especialistas desenvolveram modelos de unidades dessalinizadoras no Estado de Sonora para fornecer água a agricultores. Foto: Cortesia de Rodrigo González/Itson Ambiente

TERRAMÉRICA – Água do mar para remediar as secas

[caption id="attachment_86623" align="alignleft" width="300" caption="Especialistas desenvolveram modelos de unidades dessalinizadoras no Estado de Sonora para fornecer água a agricultores. Foto: Cortesia de Rodrigo González/Itson"][/caption] A dessalinização é vista como uma arma efetiva contra a falta de água doce, embora os riscos de contaminação decorrentes do processo tenham disparado vários alarmes. Cidade do México, México, 13 de maio de 2013 (Terramérica).- Diante da seca que ameaça o México, a dessalinização da água aparece como uma opção viável, embora especialistas questionem seus efeitos ambientais. Um dos métodos é a filtragem por meio de membranas semipermeáveis para reter os sais. “Esta e outras tecnologias buscam resolver problemas de certas áreas com baixa disponibilidade do recurso e para isso é preciso apenas acesso ao mar ou a zonas de água salobra”, explicou ao Terramérica o pesquisador Rodrigo González. “Representam uma oportunidade para zonas costeiras com características áridas ou semiáridas”, ressaltou este especialista do Departamento de Ciências da Água e do Meio Ambiente do Instituto Tecnológico de Sonora (Itson, estatal). Para experimentar esse método e atender as necessidades hídricas do Estado de Sonora, o Itson e a local Comissão Estatal da Água criaram o Centro Regional de Pesquisa e Desenvolvimento da Água e da Energia, cuja função é armar e instalar plantas dessalinizadoras. No ano passado, o México sofreu uma dura e persistente seca que afetou especialmente uma vasta área entre o centro e o norte do país, com forte impacto sobre a agricultura, a pecuária e o bem-estar de dezenas de comunidades. A previsão para este ano não é muito diferente, com especial prejuízo para o norte. A disponibilidade de água neste país, hoje com 117 milhões de habitantes, era, em 2010, de 4.250 metros cúbicos por pessoa, que cairá para 3.936, em 2020, e para 3.822 em 2025, um nível considerado entre médio e muito baixo, segundo projeções da Comissão Nacional da Água (Conagua). As estatísticas de 2010 indicam que 77% da água encanada eram destinada a usos agrícolas. A dessalinização  ou dessalgação, “é uma opção viável, mas deve ser a última após se esgotarem todas as outras”, disse ao Terramérica o diretor do Escritório Noroeste do não governamental Centro Mexicano de Direito Ambiental, Agustín Bravo. “O problema do abastecimento em zonas desérticas ou semidesérticas tem a ver com a falta de uma política hídrica integral e ecossistemática que atenda e privilegie as necessidades humanas entre outras”, criticou. O recurso potável Existem diversos métodos de dessalinização, como destilação, cristalização ou congelamento, e a absorção ou mudança iônica, que requerem o uso de energia, enquanto a osmose inversa, ou filtração, e a eletrodiálise, ou filtração seletiva, ocorrem com a passagem da água por membranas mediante pressão mecânica. As águas salobras contêm entre um mil e dez mil partes por milhão (ppm) de sais, as chamadas salinas entre dez mil e 30 mil ppm, e as do mar entre 30 mil e 50 mil ppm, enquanto a potável apresenta menos de um mil ppm. A água marinha contém principalmente clorito, sódio, sulfato, magnésio, cálcio e potássio. Existem no mundo 15.988 estações de dessalinização, que possuem capacidade instalada superior a 66 milhões de metros cúbicos diários, e atendem mais de 300 milhões de pessoas, segundo os últimos dados da Associação Internacional de Dessalgação. O estatal Instituto Mexicano de Tecnologia da Água lista 435 plantas em operação, a maior funcionando no Estado de Baixa Califórnia Sul com capacidade de 200 litros por segundo. A maioria dessas instalações trabalha para o setor turístico. Porém, esse método de tornar a água potável não conta neste país com um contexto regulatório que aborde os processos e o despejo dos resíduos líquidos. Na verdade, a única norma de qualidade estipula um nível máximo de sólidos dissolvidos totais de um mil ppm. “Persiste um limbo jurídico. Não está claro exatamente como serão regularizados todos os passos para dessalinizar. Se será competência das autoridades nacionais, dos Estados e dos municípios, e, também, os possíveis efeitos negativos sobre o meio ambiente”, disse ao Terramérica o acadêmico César Nava, do Instituto de Pesquisas Jurídicas da Universidade Nacional Autônoma do México. Os riscos do benefício A dessalinização implica benefícios como a redução do consumo de água doce, o fim da redução dos aquíferos e a possibilidade de recarregá-los. Mas os especialistas insistem nos possíveis danos ecológicos desta tecnologia, cujo custo por metro cúbico equivale a US$ 0,50. No processo “é gerada uma salmora, mais concentrada do que no mar, que é preciso dispor de uma maneira segura e, além disso, separar o sal exige um consumo importante de energia”, afirmou González, que construiu junto com sua equipe modelos de osmose inversa, eletrodiálise e termossolar. Os pesquisadores instalaram este mês uma planta dessalinizadora em um cultivo de manga, sorgo e beterraba no Vale do Yaqui, região agrícola do sul de Sonora. A meta é contar, no prazo de dois anos, com um centro de produção e montagem de estações, cujo custo é de aproximadamente US$ 8 milhões. A mistura é depositada em lagoas de secagem, onde a água evapora e o sal fica confinado ou é lançado no oceano. Mas esta opção pode prejudicar bancos de coral, pastagens e espécies marinhas. “As águas lançadas no mar não diluem, seu comportamento hidrodinâmico é como um fluido, vai emigrando e seus danos não estão devidamente estudados nem avaliados”, assegurou Bravo. O governo do presidente Enrique Peña Nieto pretende apresentar este ano ao parlamento um projeto de nova lei de águas nacionais, que incluirá a abordagem deste método e delimitará situações como a propriedade do recurso dessalinizado quando se entregar em concessão o serviço a particulares. “Meu medo é que se atenda a questões políticas, porque então os governos locais de zonas costeiras com escassez de água serão os que ficarão com a decisão final. Se a lei não contemplar cláusulas de proteção, prevalecerão favoritismos e a amizade e assim poderá haver uma orientação que não vai salvaguardar o interesse público”, alertou Nava. Desde 2010 está pronta para aprovação uma regulamentação a respeito, da qual González participou, mas o governo ainda não deu luz verde. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   LINKS Manejo comunitário da água busca sair do limbo legal mexicano Mesoamérica ignora sua pegada hídrica Agro mexicano necessita de uma revolução hídrica Gotas de salvação No México falta água para extrair gás de xisto, em espanhol Água comunitária passa pelos tribunais, em espanhol México enfrenta severo problema hídrico, em espanhol Departamento de Ciências da Água e Meio Ambiente - Instituto Tecnológico de Sonora, em espanhol Centro Regional de Pesquisa e Desenvolvimento da Água e da Energia - Instituto Tecnológico de Sonora, em espanhol Comissão Estatal da Água – Sonora, em espanhol Comissão Nacional da Água, em espanhol Centro Mexicano de Direito Ambiental, em espanhol Associação Internacional de Dessalinização, em inglês Instituto Mexicano de Tecnologia da Água, em espanhol Instituto de Pesquisas Jurídicas – Unam, em espanhol Água e dessalinização no México: Do engano ao obscurantismo jurídico, pdf em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Emilio Godoy*
amianto Ambiente

E o Brasil continua a defender o amianto

É constrangedor. Contrariando parecer do Ministério do Meio Ambiente, o Brasil há poucos dias absteve-se de votar em Genebra uma resolução no âmbito da Convenção de Roterdã que obrigaria qualquer país exportador de qualquer produto baseado em qualquer variedade de amianto a informar previamente o importador sobre o conteúdo dessa carga perigosa. Não se tratava de proibição de exportar, apenas de informação prévia. Os Ministérios brasileiros do Desenvolvimento e de Minas e Energia tomaram posição contra a resolução sob o argumento de que poderia prejudicar as exportações brasileiras da variedade crisotila, que não seria problemática, embora centenas de pareceres científicos no mundo todo digam que é tão prejudicial quanto o amianto. Por isso 66 países já baniram o uso de qualquer variedade - incluídos Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Holanda, Japão, Itália, Hungria, Grã-Bretanha e Estados Unidos; na América do Sul, Argentina, Chile e Uruguai estão entre os países que proibiram a importação. A União Europeia condena o uso. Recentemente, na Itália, dois proprietários de uma grande empresa produtora de artefatos de amianto foram condenados a 16 anos de prisão pelos danos à saúde dos trabalhadores. Os ministérios que se posicionaram contra a adesão do Brasil alegam prejuízos econômicos à produção e à geração de empregos - o Brasil é o terceiro maior produtor mundial, com 306,3 mil toneladas anuais no último balanço (a Rússia é o maior), e o segundo na exportação (134,1 mil toneladas de fibras, no valor de US$ 79,9 milhões, e 49,9 mil toneladas de manufaturados, no valor de US$ 145,3 milhões). Toda a produção nacional para consumo no mercado interno está hoje concentrada na mina de Cana Brava, em Minaçu (GO), que tem vida útil prevista para quase mais 30 anos. A indústria de construção civil interna consome a maior parte da produção que aqui fica, em telhas onduladas, chapas de revestimento, tubos e caixas d'água. Na indústria automobilística, o consumo está concentrado em produtos de fricção (freios, embreagens). Mas há consumo também em produtos têxteis, filtros, papel e papelão, isolantes térmicos. E o setor que produz fibras alternativas à crisotila assegura que pode atender a todo o consumo dos produtos problemáticos. É, no mínimo, curiosa a posição brasileira contrária à informação prévia na exportação, pois desde 1984 a variedade nacional de amianto vem sendo questionada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que na Resolução 348 incluiu os resíduos de amianto na classe dos perigosos e passou a exigir uma advertência impressa aos consumidores, em todos os produtos, quanto ao risco do consumo. Só que a legislação "não pegou". Dois anos depois, uma portaria do Ministério do Trabalho relacionou os perigos dos materiais a que os trabalhadores nessa área estavam expostos. A Convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre os mesmos riscos (n.º 162), assim como sobre a prevenção e proteção dos trabalhadores no setor, é de 1986. No Senado brasileiro há muito tempo tramita um projeto do senador Eduardo Suplicy que propõe o banimento do produto. Não é só. Vários Estados brasileiros já aprovaram legislação que proíbe o uso do amianto e a exportação, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Mato Grosso. A execução da lei, entretanto, está suspensa, à espera do julgamento de recursos dos produtores no Supremo Tribunal Federal. A alegação é de "inconstitucionalidade" dessas leis estaduais. É problemático, já que a Organização Mundial de Saúde calcula que a cada ano morrem 100 mil pessoas que foram expostas aos produtos extraídos - que ela considera cancerígenos - ou seus derivados. E serão 10 milhões de pessoas até 2030, vítimas de cânceres do sistema respiratório e de membranas que recobrem os pulmões, o peritônio e o pericárdio. As mortes também podem estar associadas ao câncer de laringe e ao câncer do ovário. Tudo isso tem levado os críticos do amianto/crisotila a propor o fim da extração, do transporte, da industrialização, da comercialização e da utilização do produto, em todas as suas formas, em todo o País - até porque "não há limite de tolerância seguro para a exposição e o manuseio". Já o argumento central dos defensores do amianto/crisotila está nos prejuízos que advirão para o município e a região de Minaçu, onde está a extração. Ali quase tudo depende dessa atividade - o emprego, o transporte, a comercialização, a hospedagem, etc. Em mais de três décadas de discussões e questionamentos, entretanto, nada foi feito para lá criar novas atividades substitutivas. Um parecer da Unicamp, de agosto de 2010, observa que o prejuízo econômico "pode ser minimizado por meio de algumas medidas de política industrial (...) e de fomento à pesquisa de novos produtos e materiais alternativos, além dos atualmente disponíveis". Acrescenta que "haverá quem defenda a continuidade das exportações, sob o argumento econômico de que desta forma o País continuará a contar com preciosas divisas (...). Mas o que é imperioso é colocar em evidência o fato de que o Brasil exporta amianto para outros países periféricos e com isso coloca em risco a vida de milhões de trabalhadores". E lembra o veto da União Europeia ao amianto desde 2005. A conclusão final é contundente: "Triste sina a desses países condenados a ficar à mercê de interesses econômicos mais espúrios. Mais triste ainda é o país que permite a exploração desses miseráveis, que possibilita que interesses econômicos se beneficiem da ignorância de populações de países carentes". Observa ainda que se beneficiarão os países que desenvolvem tecnologias mais adequadas. Não está no parecer, mas pode ser lembrado que a indústria produtora em Minaçu é uma das maiores financiadoras de campanhas eleitorais no País. * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


por Washington Novaes*
Adalton Jair Akai Munduruku, um dos participantes da ocupação, observa o canteiro de obras paralisado da casa de força principal de Belo Monte. Foto: Leticia Leite (ISA) Ambiente

Os Munduruku só querem uma conversa pra valer

[caption id="attachment_86673" align="aligncenter" width="450" caption="Adalton Jair Akai Munduruku, um dos participantes da ocupação, observa o canteiro de obras paralisado da casa de força principal de Belo Monte. Foto: Leticia Leite (ISA)"][/caption]   Assistimos a mais uma ocupação do canteiro de obras da usina de Belo Monte, em Altamira (PA), a terceira apenas neste ano. Mas essa teve algo diferente das outras. Primeiro, foi liderada não por grupos de pessoas diretamente impactadas pela hidrelétrica, mas por indígenas Munduruku, que vivem na Bacia do Tapajós, próximo rio amazônico a ser interrompido por grandes barragens. Segundo, os manifestantes não estão chorando sobre o leite derramado, buscando migalhas de compensação para sobreviver até a próxima ocupação, mas lutam para que possam ter o direito de opinar sobre seu futuro. Na Bacia do Tapajós está prevista, pelo Ministério de Minas e Energia e as grandes empreiteiras associadas, a construção de 14 grandes hidrelétricas. Embora o status oficial dessas usinas ainda seja “em estudos”, 10 entre 10 representantes do setor elétrico sabem que a maior delas, São Luiz do Tapajós, estará no leilão de energia a ser realizado no início de 2014. Os Munduruku, povo do Tapajós (no século XIX a região era conhecida como Mundurukânia), sabem que esse plano significa sua destruição enquanto povo. Mesmo que essas usinas sejam construídas no estilo “plataforma” e a fio d´agua, como prometem os planejadores do setor elétrico, o Tapajós não será mais o Tapajós se for transformado numa sequência de 14 lagos. Toda a riquíssima vida aquática desse imenso rio tropical será severamente afetada, assim como já está acontecendo com o Rio Madeira e possivelmente ocorrerá com o Xingu. Os Munduruku querem conversar sobre o assunto. Não querem assistir impassíveis seu destino ser definido numa prancheta de algum engenheiro ou na planilha de algum empresário. Acham-se no direito de discutir esse plano. Talvez porque vivam ali há séculos. O governo federal, ante esse posicionamento, reage de forma ambígua. Enquanto uma parte lhes garante que quer ouvi-los antes de tomar qualquer decisão, outra parte viaja à Europa para vender as hidrelétricas, tidas como certas. Os índios acham que estão sendo enrolados. Não há como tirar-lhes a razão. Sobretudo sabendo que dentro do próprio governo naufragaram todas as tentativas de se fazer um planejamento socioambiental da expansão hidrelétrica sobre a bacia. Ante a perspectiva de ter que abrir mão de determinados aproveitamentos em prol da manutenção dos fluxos vitais da região, a velha guarda do setor elétrico, respaldada pela Presidência da República, decidiu que não queria mais brincar. Para ela, só vale fazer estudos e discussões se for para chegar à mesma conclusão a que previamente já tinha chegado. Nesse contexto, os Munduruku estão endurecendo o jogo. Não se recusam a conversar, mas querem garantias de que essa conversa não será inútil, algo que seus interlocutores no governo não podem lhes dar. Atentos ao que acontece ao seu redor, sabem que encontros mal feitos podem ser tomados, para fins oficiais, como consultas realizadas, tal como ocorreu com Belo Monte. O governo, por seu lado, demonstra insatisfação e está começando a tentar desqualificar o movimento, sugerindo que seus líderes querem, na verdade, manter suas atividades ilegais de garimpo no rio, que desapareceria com a construção das hidrelétricas (leia mais). Antropólogos que conhecem os Munduruku, no entanto, refutam veementemente essa afirmação. Mesmo porque, se fosse por causa do dinheiro, não faria sentido não sentar numa mesa de negociação, pois, isso sim, as empresas estão dispostas a discutir. Portanto, embora não se possa dizer que os líderes do movimento em Belo Monte representem toda a nação Munduruku, pois ninguém os representa dessa forma, não há dúvidas de que a ação é legítima, sobretudo pelo que expressa. De que adiantará acampar no canteiro de obras de São Luiz do Tapajós para exigir migalhas? De que adianta gritar sozinhos nas aldeias do Tapajós, se não há ninguém lá para escutá-los? Compreensível, portanto, decidir ocupar a menina dos olhos do governo federal e tentar mudar o destino que parece já estar traçado. O que não faz sentido é a Secretaria Geral da Presidência alegar má fé dos índios por não querer conversar, enquanto o governo que ela integra continuar seguindo adiante com o plano pré-estabelecido de esquartejar o Tapajós. A essa altura do campeonato, com todo o histórico que lhe precede, quem tem de demonstrar boa fé é o próprio governo. E isso passaria, por exemplo, pela retirada da hidrelétrica de São Luiz do PAC e do leilão de 2014, com a implementação de um plano alternativo para segurar a onda da demanda por eletricidade no período de discussão, o que poderia incluir, por que não, politicas mais eficazes de redução do desperdício, subsídios à microgeração descentralizada e moratória à instalação de novas atividades eletrointensivas no País. Poderia o Ministro Gilberto Carvalho garantir algo nessa linha? * Raul Silva Telles do Valle é coordenador do PPDS. ** Publicado originalmente no site Instituto Socioambiental.


por Raul Silva Telles do Valle*
desmatamento2 Ambiente

Amazônia pode perder 65% da sua biomassa terrestre até 2060

Tornar mais terras na Amazônia disponíveis para a agricultura e a pecuária significa derrubar mais árvores para criar espaços - e pesquisadores dizem que os riscos de mais expansão agrícola levarão simplesmente a menos produção, por causa do efeito do desmatamento no clima. Não haverá ganhadores se a agricultura possibilitada pela ampla derrubada na Amazônia continuar a se expandir, afirmam pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos. Eles calculam que a expansão em larga escala da agricultura em detrimento da floresta pode implicar na perda de quase dois terços da biomassa terrestre da Amazônia até o final desse século. O estudo, publicado no periódico Environmental Research Letters, mostra que o desmatamento não apenas reduzirá a capacidade natural de sumidouro de carbono da Amazônia. Também causará reações climáticas que diminuirão a produtividade do pasto e da soja – a razão primordial do corte das árvores. O Brasil está sob intensa pressão para converter as florestas amazônicas para produzir colheitas e fornecer pasto para o gado. Mas os ecossistemas naturais das floretas sustentam a produção de alimentos, mantêm a água e outros recursos, regulam o clima e a qualidade do ar e amenizam o impacto de doenças infecciosas. Os pesquisadores são das universidades federais brasileiras de Viçosa, Pampa, Minas Gerais e do Centro de Pesquisa Woods Hole nos EUA. Eles usaram simulações para avaliar como o rendimento agrícola da Amazônia seria afetado por dois cenários diferentes de uso da terra: um, ‘business-as-usual’, no qual tendências recentes de desmatamento continuam e novas áreas protegidas não são criadas; e outro, um cenário de governança, que assume que legislação ambiental brasileira seja implementada. Eles preveem que até 2050 uma diminuição na precipitação causada pelo desmatamento reduzirá a produtividade do pasto em 30% no cenário de governança e em 34% no cenário ‘business-as-usual’. Eles declaram que o aumento das temperaturas poderia causar uma redução na produção de soja de 24% no cenário de governança, e de 28% sob o cenário ‘business-as-usual’. É significativo que o estudo tenha descoberto uma diferença relativamente pequena entre os resultados dos dois cenários, talvez sugerindo que o Brasil precise fortalecer sua legislação ambiental drasticamente e aplicá-la mais efetivamente. Talvez a conclusão mais chocante dos autores seja que uma combinação da remoção da biomassa florestal, e das mudanças climáticas resultantes, que influenciam a produtividade do ecossistema, possa resultar no declínio da biomassa terrestre em até 65% para o período de 2041-2060. E tudo isso mudaria pouco ou nada em termos de produção alimentar. Os pesquisadores escreveram: “... a produção agrícola total pode ou aumentar muito menos do que o esperado em proporção à expansão potencial na área agrícola, ou ainda diminuir, como uma consequência das reações climáticas das mudanças no uso da terra.” “Essas reações climáticas, frequentemente ignoradas em estudos anteriores, impõem uma redução na precipitação que levaria a expansão agrícola na Amazônia a se tornar auto-destrutiva: quanto mais a agricultura se expandisse, menos produtiva se tornaria.” A principal autora do estudo, Dra. Leydimere Oliveira, disse: “Estávamos inicialmente interessados em quantificar os serviços ambientais fornecidos pela Amazônia e sua substituição pela produção agrícola. “Esperávamos ver algum tipo de compensação, mas foi uma surpresa para nós que os altos níveis de desmatamento possam ser um cenário sem ganhos – a perda de serviços ambientais por causa do desmatamento pode não ser compensada por um aumento na produção agrícola.” O estudo mostra que os efeitos do desmatamento serão sentidos principalmente nas regiões do leste do Pará e do norte do Maranhão. Lá, a precipitação local parece depender fortemente das florestas, e as mudanças na cobertura da terra afetariam drasticamente o clima local, possivelmente a um ponto no qual a agricultura se tornaria inviável. “Pode haver um limite para a expansão da agricultura na Amazônia. Abaixo desse limite, não há consequências econômicas importantes”, afirmou Dra. Oliveira. “Além desse limite, as reações que demonstramos começam a apresentar perdas significativas na produção agrícola.” Citação: Large-scale expansion of agriculture in Amazonia may be a no-win scenario DOI:10.1088/1748-9326/8/2/024021 * Traduzido por Jéssica Lipinski. ** Publicado originalmente no site Climate News Network e retirado do site CarbonoBrasil.


por Alex Kirby, do Climate News Network
Foto: www.telmadmonteiro.blogspot.com.br Ambiente

“O governo brasileiro não tem interesse em respeitar os direitos indígenas”

[caption id="attachment_86663" align="alignleft" width="300" caption="Foto: www.xinguvivo.org.br"][/caption] “Queríamos que o ministro Gilberto Carvalho viesse aqui no canteiro para entregarmos nas mãos dele as nossas reivindicações, para que ele nos respondesse diretamente quais ações são possíveis e quais não são, mas infelizmente parece que o diálogo com ele não será possível”, diz Valdenir Munduruku, liderança munduruku. “Esse mandato de reintegração de posse é baseado em informações que não são verdadeiras, ou seja, de que estamos impedindo os trabalhadores de sair e de entrar no canteiro de obras, dizendo que estamos depredando o patrimônio da empresa. Ficou provado, nesses dias de diálogos, que isso não é verdadeiro”. A declaração é de Valdenir Munduruku, liderança indígena da Aldeia Teles Pires, na entrevista a seguir, concedida por telefone, após os indígenas terem recebido a notícia de que o Tribunal Regional Federal da 1a Região – TRF1 deferiu, na noite do dia 08 de maio, a reintegração de posse do canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, na região de Altamira, no Pará. De acordo com Valdenir Munduruku, a liminar judicial foi recebida com “surpresa” horas depois de eles terem enviado um documento ao governo brasileiro, solicitando tempo para responder à carta recebida na tarde de 8 de maio. “Ficamos surpresos com a decisão, porque até o momento estávamos negociando e dialogando com o governo”, disse Valdenir Munduruku, à IHU On-Line, por telefone. Há uma semana, 160 indígenas de seis etnias ocuparam o canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e reivindicaram a presença do ministro Gilberto Carvalho para negociar seus direitos. Sem possibilidade de negociação, Valdenir Munduruku lamenta: “Essa decisão do governo federal, de não atender a nossa reivindicação e enviar a reintegração de posse, mostra mais uma vez que não há interesse em resolver os problemas da questão indígena. Nós vamos continuar essa luta, porque somos impactados por essas obras e temos de lutar pelos nossos direitos”. Confira a entrevista: [caption id="attachment_86665" align="alignright" width="300" caption="Foto: www.telmadmonteiro.blogspot.com.br"][/caption] IHU On-Line – Como os indígenas que estão acampados nos canteiros de obra de Belo Monte receberam a notícia de que a Justiça determinou a reintegração de posse do canteiro de obra de Belo Monte? Valdenir Munduruku – Ficamos surpresos com a decisão, porque até o momento estávamos negociando e dialogando com o governo. Recebemos uma carta do governo na tarde de 5 de maio, e pedimos um tempo para respondê-la, mas ontem à noite recebemos a notícia da reintegração de posse. Ainda estamos acampados no canteiro de obras, de forma pacífica, aguardando o oficial de justiça apresentar o mandato. IHU On-Line – Qual era o conteúdo da carta enviada pelo governo federal? Valdenir Munduruku – A carta dizia que o governo estava disposto a dialogar, agendar uma reunião com as comunidades e realizar consultas prévias, desde que nós desocupássemos o canteiro de obras. Ficou muito claro que se tratava de uma carta que não respondia às nossas reivindicações. IHU On-Line – Como o Ministério Público Federal se manifestou diante do mandato de reintegração de posse do canteiro? Valdenir Munduruku – O Ministério Público está tentando reverter a situação, até porque esse mandato de reintegração de posse é baseado em informações que não são verdadeiras, ou seja, de que estamos impedindo os trabalhadores de sair e de entrar no canteiro de obras, dizendo que estamos depredando o patrimônio da empresa. Ficou provado, nesses dias de diálogos, que isso não é verdadeiro. Ficamos acampados por sete dias de forma pacífica. Queríamos que o ministro Gilberto Carvalho viesse aqui no canteiro para entregarmos nas mãos dele as nossas reivindicações, para que ele nos respondesse diretamente quais ações são possíveis e quais não são, mas infelizmente parece que o diálogo com ele não será possível. Resta-nos aguardar para ver o que irá acontecer daqui em diante. IHU On-Line – Como os trabalhadores dos canteiros de obra reagiram às ocupações? Valdenir Munduruku – Os trabalhadores apoiam totalmente a nossa luta, porque eles entendem o nosso sofrimento e os nossos direitos. Vários deles deram depoimentos favoráveis à nossa causa. Eles também já realizaram algumas manifestações reivindicando seus direitos que não estão sendo cumpridos. Estamos tendo um relacionamento bom com os trabalhadores e em nenhum momento houve conflito entre nós. IHU On-Line – Segundo notícias da imprensa, foi autorizado o uso de força policial para retirar os indígenas dos acampamentos caso haja resistência. Como a polícia tem atuado durante essa semana de manifestações? Valdenir Munduruku – Os policiais da Força Nacional de Segurança e da Polícia Militar estão aqui na região, e nesse momento vários deles estão no canteiro de obras. Porém, não houve nenhum conflito. IHU On-Line – Que novas ações pretendem realizar a partir de agora, diante do mandato de reintegração de posse do canteiro? Valdenir Munduruku – Num primeiro momento iremos aguardar a ordem judicial de reintegração de posse e, assim que a recebermos, vamos sair do canteiro e ver novas maneiras de lutar pelos nossos direitos. IHU On-Line – Qual seu sentimento diante de mais uma tentativa de diálogo frustrada com o governo brasileiro? Valdenir Munduruku – Eu sinto muito por o governo brasileiro demonstrar que não tem interesse em respeitar os direitos indígenas. Nós estamos aqui acampados reivindicando nada mais do que os nossos direitos. Não estamos aqui para pedir barco, motor, carro. Estamos reivindicando aquilo que é nosso, que está na lei. Essa decisão do governo federal, de não atender a nossa reivindicação e enviar a reintegração de posse, mostra mais uma vez que não há interesse em resolver os problemas da questão indígena. Nós vamos continuar essa luta, porque somos impactados por essas obras e temos de lutar pelos nossos direitos, para mostrar para a sociedade que nem tudo acontece como o governo diz, quando fala que os direitos indígenas estão sendo respeitados, e para fazer ver que e as comunidades não estão sendo bem atendidas. IHU On-Line – Como está o projeto hidrelétrico do complexo Teles Pires? Houve alguma negociação com vocês? Valdenir Munduruku – Os técnicos estão realizando os estudos, mas não nos consultaram. A Força Nacional está lá para garantir a segurança dos pesquisadores, invadindo o nosso território. Isso nos deixa muito revoltados. Já vimos que o governo é capaz de tudo quando quer realizar os seus empreendimentos e, se precisar, manda matar, como aconteceu na aldeia em que eu vivo, a aldeia Teles Pires, na ocasião da Operação Eldorado, quando um indígena foi assassinado. Nós não confiamos na Força Nacional nem na Polícia Federal. Claro que existem pessoas boas e sinceras, mas tantos outros não querem saber o que vai acontecer; querem apenas cumprir as ordens do governo. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação do IHU Om-Line
Plantas funcionam como placas solares mais eficientes que as desenvolvidas até hoje. Foto: orgazmika Ambiente

Pesquisadores conseguem extrair energia elétrica de plantas

[caption id="attachment_86687" align="alignleft" width="300" caption="Plantas funcionam como placas solares mais eficientes que as desenvolvidas até hoje. Foto: orgazmika"][/caption] Do Reino Vegetal é possível extrair alimentos, remédios, fragrâncias e... energia elétrica! Sim, os pesquisadores da Universidade de Georgia (UGA) resolveram extrair eletricidade das plantas, segundo um estudo publicado no Journal Energy and Environmental Science. A pesquisa revela que as folhas funcionam como eficientes placas solares durante a fotossíntese. Os professores explicam que, durante a fotossíntese, as plantas usam a luz solar para dividir átomos de água em hidrogênio e oxigênio. É nesta fase que produzem elétrons, os quais ao serem recém-liberados produziriam açúcares que servem de alimento para as próprias plantas. "Nós desenvolvemos uma maneira de interromper a fotossíntese, para que possamos capturar os elétrons antes que a planta use-os", explicou o autor da pesquisa Ramaraja Ramasamy, professor da UGA College of Engeneering e membro do Núcleo de Nanociência. Em geral, as placas solares tradicionais têm entre 12% e 17% de eficiência quântica - a maioria das plantas consegue aproveitar 100%. Ou seja, para cada fóton de luz solar que uma planta capta, produz um número igual de elétrons, partículas dos átomos que geram energia. Metódo O estudo intitulado Alta atividade foto-eletroquímica de compósitos de nanotubos de carbono tilacóide para a conversão de energia fotossintética, utiliza nanotubos de carbono, 50 mil vezes mais finos que um fio de cabelo humano para separar estruturas na célula vegetal chamada de tilacóide - responsáveis por captar e armazenar a energia da luz solar. Essa estrutura é imobilizada para interromper o fluxo de elétrons e então os nanotubos agem como condutores elétricos, fios de energia. Os experimentos realizados até hoje já obtiveram níveis de corrente elétrica duas vezes maiores que em sistemas semelhantes. Porém, Ramasamy informou que ainda há muito trabalho a ser feito até que esta tecnologia alcance as pessoas comuns e que muitos testes precisam ser feitos para a estabilidade de seu dispositivo. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
sucata Ambiente

O papel do setor de sucatas na Política Nacional de Resíduos Sólidos

[caption id="attachment_86629" align="alignleft" width="300" caption="Foto: http://www.revistadoaco.com.br/"][/caption] Depois de 21 anos de tramitação no Congresso Nacional, o Brasil instituiu, em agosto de 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instrumento indispensável para implantar uma eficaz logística reversa no país e evitar o descarte inadequado de milhares de produtos, de pneus a eletrodomésticos, de pilhas a agrotóxicos. Para que a lei saia do papel, uma série de passos precisa ser dada. O primeiro é a adesão dos municípios à política de reciclagem e descarte de resíduos sólidos. A meta é que, até 2014, todos os municípios brasileiros deverão ter coleta seletiva e reciclagem. Quem vive nas cidades brasileiras sabe que esse objetivo está claramente ameaçado. E o próprio governo Federal sabe disso, já que, até agora, menos de 10% das cidades brasileiras entregaram seus planos com esse fim ao Ministério do Meio Ambiente. Mesmo com essa má notícia, é possível pensar que o país pode sim implantar um sistema de logística reserva eficiente e diminuir o impacto ambiental do consumo e produção industrial no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 32,3% das cidades brasileiras possuíam alguma iniciativa de coleta seletiva em atividade em 2011. Vários setores empresariais também têm se debruçado sobre o assunto e implantando procedimentos adequados. O desafio, no entanto, é muito grande, já que são coletadas cerca de 190 toneladas de resíduos sólidos todo dia no país. O setor do comércio atacadista de sucata ferrosa acredita que tem muito a contribuir para que a lei não caia no esquecimento e se torne realmente um instrumento eficaz. Sem dúvida, a reciclagem de ferro e aço é um dos segmentos de reaproveitamento de material mais antigo em atividade no Brasil. O setor atende às das grandes indústrias siderúrgicas (compradoras de sucata de ferro como insumo na produção do aço), e de toda a indústria geradora de sucata. É um setor em que os catadores são personagens essenciais e que estão contemplados na lei através de um capítulo específico. No Brasil, atuam cerca de 5 mil pequenas e médias empresas, processando mais de 12 milhões de toneladas de sucata de ferro por ano e gerando renda para cerca de 1,5 milhão de pessoas. O Instituto Nacional das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Inesfa) acredita que o setor pode contribuir com a sua experiência, ajudando os órgãos públicos nos planos adequados e fechando acordos setoriais com os segmentos interessados. É importante lembrar que a Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê que algumas empresas, independente das ações de Estado e Municípios, devem se responsabilizar pelo descarte adequado dos seus produtos. Entre essas empresas, estão produtores de eletrodomésticos, carros e autopeças, pneus etc. As empresas do comércio atacadista de ferrosos associadas ao Inesfa, que já têm sistema de coleta e distribuição consolidado, têm trabalhado e aprimorado seus procedimentos com investimento constante em equipamentos, o que possibilita hoje, por exemplo, exportar sucata para o exigente mercado internacional. O comércio atacadista de ferroso já conhece os limites econômicos e de logística da reciclagem e têm ideias para que esses limites se modifiquem de maneira a impulsionar a logística reversa. Enfim, através do Inesfa, o comércio atacadista de sucata está pronto para contribuir de maneira definitiva para que o Brasil possa estar na ponta em relação à logística reversa. A questão é urgente e atual, afinal, o crescimento econômico do Brasil e o surgimento de uma nova classe média são dois fatores que mostram um potencial ainda maior para que o setor possa implantar uma rede de reciclagem que acabe com o descarte inadequado e ajude o Brasil a economizar matéria-prima e aprimorar sua logística. Com essa ajuda, o país pode ser referência em logística reversa para o mundo, usando no país a sucata ferrosa aqui produzida e exportando-a para outros países, quando condições econômicas forem melhores. * André de Almeida é sócio do Almeida Advogados e Diretor Jurídico e Institucional do INESFA.


por André de Almeida*
verdes Ambiente

Além da rastreabilidade

Recentemente, observamos várias iniciativas que visam garantir a origem dos produtos que são oferecidos aos consumidores. Mas uma análise mais apurada nos força a pensar o que realmente está sendo rastreado. Não deveria ser orgulho para ninguém garantir que a carne ou o café venha de uma área sem desmatamento ilegal, livre de trabalho escravo ou ainda garantir que, naquela área específica, somente foram aplicados os agrotóxicos permitidos. Isso tudo é obrigação. Está na lei. Talvez nós, os consumidores, estejamos muito acomodados, já que chegamos ao ponto de valorizar iniciativas e mercadorias somente por atestarem que, em seu processo produtivo, respeitaram as leis do país ou, às vezes, por até menos que isso: somente por terem sinalizado a intenção de virem a cumpri-las um dia. A agropecuária está contaminada por essas iniciativas, nas quais se rastreia o simples básico -das fazendas ao varejo. Os produtores do Brasil, todavia, já mostraram que têm condições de oferecer muito mais garantias aos consumidores. Este país é o líder em produção socioambiental certificada: café, suco de laranja, cana-de-açúcar e, mais recentemente, de carne e couro. Atualmente, são mais de 250 mil hectares sob bom manejo. Sistemas de certificação de terceira parte, como é o caso do selo Rainforest Alliance Certified, garantem muito além do básico: por meio de auditorias independentes e pelo comprometimento dos produtores, as propriedades têm planos escritos e implementados para recuperação e conservação da biodiversidade, proteção dos recursos hídricos e garantias aos trabalhadores, como treinamento, moradias e salários acima da média local. São mais de cem diferentes critérios avaliados nas auditorias, anualmente. Os produtores certificados não são tratados como simples fornecedores, mas, sim, como profissionais valorizados pelo alto padrão de desempenho socioambiental que atingem a partir de suas ações. Seus produtos são diferenciados, o que traz benefícios de imagem e mercado. Embora boa parte destes produtos tenha destino internacional, uma iniciativa do Grupo JD, Imaflora, Marfrig e Carrefour disponibiliza em 13 hipermercados cortes nobres de carne com o selo Rainforest Alliance Certified. Também foi o caso da empresa italiana Gucci, ao confeccionar bolsas com couros da mesma origem. Essas e outras ações, como a da ABPO (Associação Brasileira de Pecuária Orgânica), no Mato Grosso do Sul, demonstram que a cadeia produtiva da pecuária está se abrindo para novas oportunidades, buscando diferenciação e ferramentas de mercado que possam valorizar seus produtos. Essas iniciativas oferecem aos consumidores brasileiros produtos rastreados de alto desempenho socioambiental e mostra como a união da cadeia produtiva pode gerar resultados também ao ambiente e àqueles que vivem do campo. * Eduardo Trevisan Gonçalves é engenheiro agrônomo, é secretário-executivo adjunto do Imaflora. A ONG faz parte da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais. ** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/ Folha de S. Paulo.


por Eduardo Trevisan Gonçalves*
Foto: Divulgação/ http://mercadoetico.terra.com.br/ Ambiente

Marcas sustentáveis ou empresas sustentáveis?

[caption id="attachment_86654" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Divulgação/ http://mercadoetico.terra.com.br/"][/caption] Acreditamos que é uma ótima oportunidade para refletir sobre o papel de grandes empresas em nossa sociedade. Confesso que quando eu conheci a conferência pela primeira vez, fiquei na dúvida sobre uma coisa – por que se fala apenas de brands e não de companies. É realmente possível pensar numa marca sustentável sem falar de uma empresa sustentável? Pensei nisso e percebi algumas coisas. De fato, os times de marketing, branding e comunicação que tem mais interações com seu público tendem ser os protagonistas da mudança. Isso acontece tanto porque eles são os primeiros a receberem sugestões e críticas, quanto porque eles tem a responsabilidade de criar táticas e estratégias que acompanham o zeitgeist (espírito dos tempos) para manter relevância. Esse momento atual que é definido por fatorse como uma crise ambiental, desigualdade social, crescimento inédito de tecnologia e de valores emergentes da nossa sociedade, naturalmente impacta o trabalho de marketing e comunicação. Em paralelo, equipes de estratégia, operações e vendas vivem uma outra realidade. As pressões do mercado e do zeitgeist são muito menores que as preocupações de receitas, margens e dividendos para os acionistas. O resultado disso é uma certa separação entre o que a empresa realmente está fazendo ou tentando fazer, com o que ela está ou está querendo comunicar. Nas décadas de 80s e 90s, chamávamos isso de greenwashing. As empresas, cientes que precisavam mudar a sua forma de atuação, criavam áreas de responsabilidade social. Entretanto, uma área de responsabilidade social parece partir da premissa que o resto da empresa é irresponsável. O próprio conceito parece ser problemático e pouco construtivo para qualquer stakeholder. Desde então, temos visto vários avanços acadêmicos e o crescimento da relevância das inovações que acontecem em empresas menores. Com cada novo modelo, as grandes empresas estão sendo desafiadas a evoluir. Depois de responsabilidade social empresarial (RSE) veio sustentabilidade, e hoje os conceitos mais falados são de valor compartilhado(shared value), the green leap e capitalismo consciente (conscious capitalism). Mas nas últimas conversas com algumas empresas multinacionais, tive a impressão que de fato continua um interesse muito maior em ser visto como sustentável do que de fato ser sustentável. Acredito mesmo que as grandes empresas estão avançando tanto na sua forma de pensar quanto na sua forma de atuar. Entretanto, o que anda mais rápido e de fato está mudando é a sua forma de comunicar e um oportunismo em relação aos novos modelos. Em outras palavras, estamos vivendo o shared value washing e o conscious capitalism washing muito mais do que mudanças ousadas e adequadas. Vivemos em tempos excepcionais. Cientistas dizem que temos 10 anos para mudar a nossa forma de viver para não correr o risco de acabar de vez com vários recursos naturais e a capacidade do planeta de suportar a nossa espécie. Não é um mistério para ninguém que a forma em que vivemos, fazemos negócio, consumimos e organizamos as coisas, não está funcionando mais. Precisamos de mudanças radicais. Precisamos re-imaginar nossa relação conosco mesmo, com o outro e com nosso ambiente e planeta. Precisamos de um esforço gigante, global e unido na direção de mudanças disruptivas e evolucionárias. Mudanças que são impulsionadas por uma nova consciência, que sejam escaláveis e que alavancam tecnologias emergentes. Precisamos criar o futuro dos negócios com base no princípio da criação de valor compartilhado: econômico, social, ambiental e simbólico. * Dhaval Chadha é indiano, cientista social formado pela Harvard e futurista pela Singularity University (programa do Google e NASA). Dhaval é socio-fundador da Cria, uma consultoria de inovação e Pipa uma aceleradora de empresas, ambas focadas na criação de negócios de valor compartilhado. Dhaval foi Gerente de Inovação no CDI, é fellow da INK (sócia Indiana do TED), conselheiro da Seed Stars World, Gifted Citizen pela Ciudad de las Ideas e membro da rede Sandbox. ** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Dhaval Chadha*
Nevoa, poluição e horizonte em São Paulo. Foto: Petria Chaves/ oecocidades Ambiente

Os efeitos colaterais do tal progresso

[caption id="attachment_85846" align="aligncenter" width="540" caption="Nevoa, poluição e horizonte em São Paulo. Foto: Petria Chaves/ oecocidades"][/caption]   Índice de poluição por ozônio bate recorde e compromete a saúde do paulistano. Infelizmente ainda existem muitas dificuldades e resistências para que possamos analisar criticamente o chamado modelo de desenvolvimento. Questionar o crescimento determinado pelos critérios tradicionais estabelecidos pelo Produto Interno Bruto – PIB, invariavelmente, são contestados como conversa de ambientalistas ou de quem é contra o país. Já ouvi o economista Eduardo Giannetti da Fonseca afirmar que, se fossem contabilizadas as perdas em recursos naturais da China, o real crescimento da potência asiática, que avançava na casa dos dois dígitos em anos recentes, seria infinitamente menor. Pois, se é mais difícil para muitos compreenderem o valor dos fundamentais serviços ambientais que a natureza do planeta nos oferece, talvez questões que impliquem na redução da qualidade de vida, possam ser mais fáceis de entender para ouvidos moucos e conservadores. A poluição atmosférica é um desses fatores conhecidos de nós brasileiros, principalmente daqueles moradores das grandes metrópoles. Só em São Paulo, esse tipo de poluição é responsável pela morte de 4 mil pessoas por ano e também responde por milhares de internações graças a um ar cada vez mais carregado de partículas comprometedoras à saúde humana. Neste período do ano muita gente sofre bastante com a piora na qualidade do ar. A dificuldade na dispersão dos poluentes afeta crianças e idosos em maior número, mas outras faixas etárias também são impactadas. O maior responsável nas grandes cidades, claro, é o nefasto escapamento dos carros a soltar seus gases poluentes para serem consumidos livremente por nossos pulmões. E, por mais que muitos resistam à ideia de limitar o número de veículos a circular pela cidade dando prioridade ao transporte público, mas sim investir e implantar tecnologias menos poluentes, a realidade se mostra mais forte. É verdade que um carro deste século XXI polui muito menos que um veículo dos anos 70 do século passado, nem por isso respiramos um ar melhor. Simplesmente porque existem mais carros hoje do que no passado. Situação piora sem solução no horizonte Na semana passada foram divulgadas novas informações que comprometem ainda mais a saúde dos paulistas. A poluição por ozônio bateu um novo recorde na Região Metropolitana de São Paulo chegando ao pior nível em 10 anos. Para o professor Paulo Saldiva, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP, “o ozônio está fora de controle” (Estadão, 23/04). Segundo o pesquisador, a péssima qualidade dos nossos combustíveis, associado a poucas chuvas e temperaturas mais altas, criaram um ambiente propício à piora na qualidade do ar. Chegará o dia, esperemos que não seja muito tarde, em que será preciso equilibrar o tal progresso baseado no aumento do lucro e nos ganhos imediatos com os reais interesses das pessoas e levando em conta os limites ambientais. Afinal, o verdadeiro progresso não deve se basear meramente no aumento do poder de consumo, mas em elementos que possibilitem melhorar a qualidade de vida de vida de todos. Respirar um ar limpo, beber água pura e ter uma alimentação saudável devem preceder quaisquer fatores econômicos. * Reinaldo Canto é jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento. Passou pelas principais emissoras de televisão e rádio do País. Foi diretor de comunicação do Greenpeace Brasil, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e colaborador do Instituto Ethos. Atualmente é colaborador e parceiro da Envolverde, professor em Gestão Ambiental na FAPPES e palestrante e consultor na área ambiental. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Reinaldo Canto*

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