As mais diferentes expectativas para a Rio+20

Artigo

As mais diferentes expectativas para a Rio+20


por J. B. Libanio*


Os ares se agitam em torno da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, no mês de junho. Brotam as mais diferentes expectativas. O divisor de águas se fará entre a opção por encontrar soluções, mesmo que boas, dentro do atual modelo de desenvolvimento e de produção que o Ocidente vem pilotando faz séculos, ou iniciar processo radical de mudança.Os termos "ecologia", "verde", "cuidado com a Terra" soarão, sem dúvida, de todos os lados. Ninguém ousará discursar a favor da selvagem destruição do ambiente em curso. Ela poderá continuar, mas velada e camuflada sob nomes de defesa do meio ambiente. Nenhuma mineradora, nem montadora de automóveis, nem agrobusiness terão coragem de prosseguir, sem mais, no mesmo tipo de agressão ao ambiente.Mas a pergunta vai mais fundo. O que está em jogo quando se fala de sustentabilidade? Há dois pressupostos bem diferentes. Um implica o próprio sistema capitalista. Querem mantê-lo sustentável com o mínimo de destruição da natureza. Mas ele mesmo não está em questão. Buscam-se outras formas de diminuir-lhe o potencial destrutivo. No entanto, esquece-se que a lógica do capital não para diante de nenhum adversário. Ela pensa a curto prazo. A roda simples, mas fatal, do sistema funciona à base da produção para vender e acumular lucro. Não interessa se o produto pertence ao mundo da necessidade ou simplesmente pretende atrair as pessoas até ao mais despudorado supérfluo. Importa seduzir o comprador, vender, acumular capital, investir. A outra linha pensa diferente. Entra em questão a sustentabilidade do planeta. E o atual sistema, ao retirar da Terra 30% a mais do que ela pode repor, levá-la-á à exaustão. Portanto, absolutamente insustentável, se pensamos em termos de vida humana. O planeta continuará a girar em torno do Sol, só que sem nós. Ou mesmo sem qualquer tipo de vida à espera de bilhões ou milhões de anos até que surja outra vida, fruto do quase infinito jogo de probabilidades. E ser humano: nem falar!O verde desejado pelo sistema não significa o verde do bem viver. O primeiro engana os olhos. Pois deixa a máquina destruidora a funcionar. Só o verde, que acontece nas pequenas dimensões da existência humana, que evita as devastações das mineradoras e do agrobusiness, que poupa longos transportes de alimento com produção local, que incentiva a pequena propriedade, que controla os agrotóxicos e que toma outras medidas do mesmo jaez, salva o planeta.Não há verdadeiro verde sem justiça social, sem reforma agrária, sem deixar de medir um país pelo crescimento do PIB em vez do bem viver de seu povo, sem buscar alternativas para a produção de energia, abandonando definitivamente a originada do petróleo, barata, desperdiçada e poluente.A questão do desenvolvimento sustentável não se separa da ética, da justiça, da cultura, além naturalmente da economia. Esta não merece o primado absoluto que o sistema capitalista lhe atribui, mas cabe-lhe servir às outras dimensões do ser humano. Eis a grande inversão!* J. B. Libanio é padre jesuíta, escritor e teólogo. Ensina na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte, e é vice-pároco em Vespasiano, Minas Gerais.** Publicado originalmente no site Adital.

Criação de gado extensivo no Mato Grosso: setor é um dos mais criticados pelos ambientalistas. Foto: Roosewelt Pinheiro/Abr Brasil

Pecuária certificada: a quebra de um paradigma

[caption id="attachment_50441" align="alignleft" width="300" caption="Criação de gado extensivo no Mato Grosso: setor é um dos mais criticados pelos ambientalistas. Foto: Roosewelt Pinheiro/Abr"][/caption]Uma pecuária certificada e sustentável? Algo inimaginável há muito pouco tempo começou a tomar forma, pelo menos com um exemplo que poderá dar nova fisionomia a um dos setores mais conservadores e refratários a inovações sustentáveis.Afinal, se existe uma atividade econômica rotulada como pouco afeita a adotar critérios de sustentabilidade em seu negócios, principalmente aqui pelas terras de Pindorama, é sem dúvida a pecuária. No caudaloso cipoal de acusações consta a de contribuir na categoria para: desmatamento da Amazônia, degradação do solo, poluição do ar e da água, a responsabilidade por ocasionar perdas consideráveis à biodiversidade e ao agravamento do aquecimento global e das mudanças climáticas.A FAO, órgão das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, já classificou a atividade como uma das maiores contribuintes para o acirramento dos problemas ambientais. Para complicar ainda mais a má fama dos boizinhos e vaquinhas que compõem o enorme rebanho brasileiro, com mais de 200 milhões de cabeças (2º maior do mundo atrás apenas dos Estdos Unidos e 2º maior exportador de carne do planeta depois da Austrália), estudos indicam que em um hectare utilizado pela pecuária são produzidos apenas 34 quilos de carne. No mesmo espaço é possível produzir quase quatro toneladas de feijão e 6,5 toneladas de milho, por exemplo. O consumo de água também é cinco vezes maior na pecuária do que na produção de cereais, de acordo com a FAO.São argumentos poderosos para os que defendem dietas vegetarianas, ou a redução significativa do consumo de carne. As justificativas utilizadas até agora pelos conservadores pecuaristas integrantes desse poderoso setor econômico sempre foram baseadas nos dividendos obtidos pelas exportações. Afinal, o dinheiro pode tudo, ou não?Pois há quem discorde dessa afirmação e busque ensaiar uma positiva mudança na cadeia produtiva da carne brasileira.A Fazenda São Marcelo, pertencente ao grupo JD e localizada no Mato Grosso, acaba de conquistar a primeira certificação da Rede de Agricultura Sustentável no mundo para a pecuária, concedida pelo Imaflora (certificadora oficial da Rainforest Alliance no Brasil).Para fazer jus ao selo, a São Marcelo atendeu a 136 critérios diferentes ligados a práticas socioambientais e sustentáveis de produção, entre elas, o rastreamento integral de todo o gado da fazenda, cuidados específicos em relação ao bem-estar animal, recuperação de áreas degradadas, e o apoio ao aperfeiçoamento e reciclagem dos funcionários. A fazenda possui duas reservas particulares de patrimônio natural e, por meio de um termo de cooperação técnica com o Ibama matogrossense, realiza um trabalho de recuperação e soltura de animais apreendidos.Diferencial competitivoMas o que leva uma fazenda de gado a buscar uma certificação como essa, praticamente, indo na contramão das práticas de suas congêneres?Proprietário da São Marcelo, o empresário e pecuarista Arnaldo Eijsink , fornecedor da Brasil Foods e do Frigorífico Marfrig, explica que existem inúmeras vantagens em receber um selo de qualidade como o do Imaflora, conferindo ao seu produto um diferencial competitivo. Para quem exporta, esta é, sem dúvida, uma grande diferença. De olho nas exigências cada vez maiores do mercado internacional, Arnaldo acredita no aumento de vendas para novos compradores que procuram adquirir uma carne de origem comprovada e certificada.Outros ganhos estão agregados ao sistema de gestão socioambiental e que levam em conta o devido respeito aos ciclos naturais e a preservação da biodiversidade local. “Observamos uma infestação menor de pragas e doenças e a redução nos gastos com produtos químicos”, afirma Arnaldo. Ele destaca ainda, que a rotatividade de mão de obra, muito comum no setor, é pequena na São Marcelo, em virtude da satisfação dos funcionários.Será que essa primeira fazenda certificada vai efetivamente influenciar para que ocorram mudanças consistentes na pecuária brasileira?“Em primeiro lugar é preciso entender que é um setor heterogêneo”, afirma Luis Fernando Guedes Pinto, gerente de certificação do Imaflora, “portanto é possível obter avanços”, conclui com otimismo. Isto não significa que o desafio não seja enorme.O próprio Luis Fernando lembra que a pecuária, de modo geral, é um dos setores mais atrasados. Daqueles que fazem baixo uso de tecnologia, possuem visão de curto prazo e em geral terminam por não agregar valor a seus produtos.Exatamente para que a carne da São Marcelo alcance o almejado valor agregado, e seja reconhecida pelo consumidor final por suas vantagens e méritos, é que o objetivo agora é buscar frigoríficos, supermercados e até mesmo restaurantes que apoiem e garantam visibilidade a essa iniciativa.Mesmo que esse grande avanço chegue a mais propriedades e até mesmo reduza significativamente o enorme impacto causado pela atividade, boa parte dela ilegal, ainda teremos um longo caminho para alcançar algo que se possa chamar de sustentável.A nós consumidores resta a tarefa de adquirir produtos certificados ou de origem legal, mas também a de fazer mudanças importantes em nossa dieta alimentar. Um consumo menor ou mesmo livre de carne traria enormes benefícios ao nosso meio ambiente.Enquanto as grandes transformações alimentares dos humanos não se tornam realidade, resta-nos aplaudir alguns avanços e esperar que passos importantes sejam dados rumo a uma economia e um mundo menos insustentável para o bem geral, das pessoas, mas também dos boizinhos, das vaquinhas e de outros seres que por aqui habitam.* Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de Comunicação do Greenpeace e coordenador de Comunicação do Instituto Akatu. É colunista da revista Carta Capital, colaborador da Envolverde e professor de Gestão Ambiental na Fappes.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Reinaldo Canto*
Vista de um poço descoberto pela Repsol em Huacaya, 800 quilômetros a sudeste de La Paz. Foto: IPS/Photostock Petróleo

TERRAMÉRICA – Bolívia incentiva petroleiras estrangeiras

[caption id="attachment_50557" align="alignleft" width="300" caption="Vista de um poço descoberto pela Repsol em Huacaya, 800 quilômetros a sudeste de La Paz. Foto: IPS/Photostock"][/caption]Apesar de suas riquezas de hidrocarbonos, nacionalizadas em 2006, a Bolívia gasta cada vez mais divisas para importar combustíveis e triplicou os incentivos para as empresas que produzem petróleo.La Paz, Bolívia, 30 de abril de 2012 (Terramérica).- Perto de completar seis anos da nacionalização dos hidrocarbonos na Bolívia, a presença das empresas estrangeiras vai de vento em popa, enquanto o governo lhes concede incentivos para aumentar a produção do escasso petróleo. Na mesma semana em que a presidente da Argentina, Cristina Fernández, anunciava a expropriação de 51% das ações da empresa petrolífera YPF, que estavam em mãos da corporação europeia Repsol, o governo da Bolívia baixou um decreto aumentando os incentivos para a produção de petróleo de US$ 10 para US$ 40 por barril.O decreto 1.202 determina que o Tesouro Geral da nação emitirá notas de crédito fiscal de US$ 30 para pagamento de obrigações tributárias. Para cada barril de petróleo (de 159 litros) que produzirem, as empresas petrolíferas continuarão recebendo US$ 10 em dinheiro e mais uma nota de crédito fiscal para usar como instrumento de pagamento de impostos.Em um informe divulgado pela estatal de petróleo Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), no dia 19 de abril, seu presidente, Carlos Villegas, justifica o benefício afirmando que “as operadoras não realizaram investimentos significativos para encontrar maiores reservas de petróleo”. O pesquisador Carlos Arze, do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Trabalhista e Agrário, informou que os contratos assinados pelas empresas de petróleo com o governo boliviano, depois da nacionalização de 2006, não incluíam cláusulas para obrigá-las a repor reservas.No dia 1º de maio de 2006, o presidente Evo Morales determinou a nacionalização dos hidrocarbonos e em outubro daquele ano foram assinados novos contratos com empresas privadas, a maioria estrangeiras que atuavam país, avalizados pelo Congresso.Seis anos depois, essas empresas obtêm renda de US$ 824 milhões, “e nenhuma deixou a Bolívia”, disse Arze ao Terramérica. O analista recordou o comentário de um empresário brasileiro, que então concluía que seu negócio estaria inclusive mais seguro porque contava com apoio do parlamento. “Se foi uma nacionalização anti-imperialista, por que não partiram?”, questionou Arze.Em 2004, o negócio do petróleo e do gás natural na Bolívia movimentava US$ 1,172 bilhão. As empresas do setor ficavam com 71% (US$ 832 milhões), segundo Arze. Os novos contratos mudaram a equação. Agora, os atores privados recebem 27% da renda, enquanto o Estado fica com 73%, por meio de vários impostos, participação e prêmios, explicou Arze. Mas em números absolutos as quantias das empresas pouco variaram.Em 2010, o negócio gerou US$ 3,053 bilhões, e as petroleiras receberam US$ 824 milhões. Se a isto somarmos o incentivo à produção de petróleo, estimado em US$6 milhões ao ano, chega-se a US$ 830 milhões, apenas dois milhões abaixo do que obtinham antes da mudança das regras, detalhou Arze. Segundo a YPFB, entre 2001 e 2005, o Estado obtinha uma renda anual com petróleo de US$ 332 milhões. Depois da nacionalização esse valor subiu a uma média anual de US$ 2,07 bilhões. Nos últimos seis anos, o Estado conseguiu com petróleo US$ 12,424 bilhões, segundo a YPFB.A produção de gás segue aumentando: em 2005 obtinha-se 40,4 milhões de metros cúbicos por dia, e em 2011, 45,06 milhões de metros cúbicos, enquanto a de petróleo cai. Em 2005 a Bolívia produzia 50.035 barris diários, e em 2010, apenas 41.l47 unidades. Até junho de 2011, 15 empresas estrangeiras lideradas pela Petrobras conseguiram protocolar contratos na Bolívia na qualidade de titulares para atividades de exploração e prospecção de hidrocarbonos, com prazos de seis a 28 anos, segundo a YPFB.O professor de economia política Julio Alvarado disse ao Terramérica que a atual política para o petróleo estimula o desenvolvimento das empresas estrangeiras para garantir sua permanência nos campos produtivos. Alvarado recordou que o decreto de nacionalização instruía uma auditoria nas empresas transnacionais, mas os informes finais não foram divulgados. Esta proteção de dados demonstra uma política favorável aos investimentos estrangeiros, apontou.No entanto, a Bolívia depende cada vez mais da importação de combustível para seu consumo interno. Em 2010, a conta foi de US$ 600 milhões, em 2011 chegou a US$900 milhões e estima-se que este ano será de US$ 1,2 bilhão, segundo os dados de Alvarado. A espanhola Repsol era, em 2010, a segunda empresa estrangeira com maior participação na produção, com 8,7%, bem atrás da Petrobras, com 63%. Em matéria de petróleo, a Repsol possui operações em um quarto dos blocos e campos e participa em 5% das atividades de exploração.Na fase de nacionalização, a compra forçada por parte do Estado de 1,1% da participação espanhola na empresa Andina foi compensada com o pagamento de US$6,2 milhões em 2007. Em contraste, a nacionalização de ações da norte-americana Amoco na petroleira local Chaco foi alvo de uma demanda da companhia no valor de US$ 233 milhões contra o Estado boliviano, segundo Arze.A Repsol é a principal encarregada de explorar o gás jazida de Margarita, no departamento de Tarija, que tem cerca de dois trilhões de pés cúbicos de gás e é a fonte dos oito milhões de metros cúbicos diários fornecidos ao mercado argentino, volume equivalente ao consumo boliviano por dia. Em março de 2010, a Bolívia se comprometeu a aumentar esse fornecimento à Argentina até um volume diário de 20 milhões de metros cúbicos, até 2017.A fonte desse gás é o campo Margarita-Huacaya, operado por diferentes empresas. A espanhola participa ali na sociedade de risco compartilhado Repsol YPF & Bolivia SA, que possui 37,5% da exploração. Arze acredita que será bom negócio para a Repsol, pois se beneficiará do preço que paga a Argentina, que no primeiro trimestre de 2012 gira em torno de US$ 11 por milhão de unidades térmicas britânicas (BTU). O Brasil, que importa três vezes o consumo diário boliviano, paga US$ 9 por milhão de BTU.* O autor é correspondente da IPS.LINKSPetrolíferas estatais com vitamina nacionalistaBrasil mantém poderio em produção de gás boliviano, em espanholARGENTINA-BOLÍVIA: Incertezas do gasoduto do desenvolvimento, em espanholBOLÍVIA: Como foi nacionalizado o enorme negócio petroleiro – 2006, em espanholO negócio deve seguir, em espanholNovos objetivos para petroleira nacionalizada, em espanholCentro de Estudos para o Desenvolvimento Trabalhista e Agrário, em espanholYacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos, em espanholArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Franz Chávez*
Uma fábrica da Dow Chemical às margens do Lago Michigan, nos Estados Unidos. Foto: Domínio público Carbono

TERRAMÉRICA – Corporações financiam fraude de carbono

[caption id="attachment_50548" align="alignleft" width="300" caption="Uma fábrica da Dow Chemical às margens do Lago Michigan, nos Estados Unidos. Foto: Domínio público"][/caption]O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto sobre mudança climática terminou gerando um incentivo perverso que ganhou proporções de fraude na Europa, financiada por corporações dos Estados Unidos.Bruxelas, Bélgica, 30 de abril de 2012 (Terramérica).- Grandes corporações dos Estados Unidos, como Dow Chemical, ConocoPhillips, Chevron e Cabot Corporation, se servem de um questionado negócio de créditos de carbono para compensar no papel sua contaminação climática na Europa, conforme mostra a seguinte investigação. A Dow foi a principal compradora. A empresa possui fábricas de produtos plásticos e químicos que emitem dióxido de carbono na Alemanha, Bélgica, Espanha, Holanda e Polônia.Juntas ocupam o 21º lugar entre os cem principais compradores europeus de certificados de redução de emissões de carbono (CRE) originados em 19 projetos de duvidosa legitimidade.As geradoras de energia estabelecidas na União Europeia (UE), algumas delas subsidiárias de empresas norte-americanas, estão obrigadas a reduzir sua contaminação com gases-estufa – que aquecem a atmosfera – adotando tecnologias mais limpas ou compensando suas emissões mediante a compra de CRE. Para as empresas sai mais barato compensar suas emissões do que reduzi-las realmente. E, pelas debilidades das normas europeias, podem fazê-lo. Os CRE se incluem no contexto do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), do Protocolo de Kyoto, único tratado internacional que obriga as nações industriais que o assinaram a reduzirem sua contaminação climática.Cada CRE equivale a uma tonelada de dióxido de carbono que não foi lançada na atmosfera. E é entregue a favor do responsável por um projeto aprovado, após certificar que a redução realmente aconteceu. Depois, pode gerar instrumentos de comercialização, sujeitos às leis da oferta e da procura. O MDL foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para que os países industrializados subsidiassem a mitigação da mudança climática nas nações em desenvolvimento.No entanto, acabou criando um incentivo perverso usado para maximizar os lucros de um punhado de manufaturas de gases industriais, a maioria localizada na Índia e na China, que obtiveram 19 desses projetos. A chinesa Jiangsu Meilan Chemical e a indiana Navin Fluorine International, entre outras, se comprometeram a capturar e destruir HFC-23, um resíduo da produção do gás refrigerador HFCF-22 (hidroclorofluorocarbono), proibido na União Europeia e nos Estados Unidos por esgotar a camada de ozônio.O HCFC-22 também é um supergás-estufa, 1.810 vezes mais potente do que o dióxido de carbono, e seu subproduto HFC-23 o é 11.700 vezes mais. Contudo, as empresas indianas e chinesas acabaram produzindo mais desse gás e recebendo muito menos CRE do que os necessários, segundo uma pesquisa do painel de especialistas em metodologia do MDL. Em junho de 2010 as organizações não governamentais ambientalistas CDM Watch, com sede em Bonn, e Agência de Pesquisa Ambiental (EIA), de Londres, descobriram este flagrante mau uso do MDL e apresentaram provas.“Os certificados de HFC-23 não representam verdadeiras reduções de gases-estufa”, disse via email Diego Martínez-Schuett, da CDM Watch. “E seus compradores usaram essas falsas reduções como permissões para contaminar mais na Europa”. Os 19 projetos de destruição de gás industrial aprovados pelo MDL acumularam quase 500 milhões de créditos no valor de US$ 3,3 bilhões. Cerca de 90% deles inundaram a UE, e constituem mais da metade do total de compensações de emissões do bloco.Entre 2009 e 2010, as corporações norte-americanas adquiriram quase um milhão de créditos de HFC-23 ao preço médio de US$ 16 a unidade. Desde então “gastaram” pelo menos US$ 16 milhões em supostas reduções de emissões. A mesma conduta tiveram seus competidores europeus, como as britânicas BP e British Shell, a alemã RWE, a norueguesa Statoil, o grupo ítalo-espanhol Enel, e a francesa EDF.As dez companhias transatlânticas mais conhecidas entre as cotadas na principal bolsa de valores mundial, a Nyse-Euronext, ingressaram US$ 254 milhões em falsos créditos, sem contar os dados de 2011, ainda não divulgados. Em junho do ano passado, os reguladores europeus decidiram proibir estes CRE, mas a medida só será efetiva a partir de maio do ano que vem. “A UE recebeu pressões dos investidores para adiar a proibição, inicialmente prevista para 1º de janeiro de 2013”, disse a ativista Natasha Hurley, da EIA.No entanto, a porta continua aberta para que Dow, Shell e demais empresas contaminadoras adquiram outro 53 milhões de falsos CRE. As empresas norte-americanas asseguram que ignoravam a natureza ilegítima dos créditos de HFC-23 antes que a UE os descartasse. O que importa agora é “o que farão os compradores desses CRE para legitimar suas medidas de compensação”, advertiu Rob Elsworth, da Sandbag, uma organização não governamental que investiga a integridade do comércio de emissões e que somou as cifras usadas neste artigo para mostrar a implicação das empresa.A pergunta foi feita a várias dessas companhias. “Nos últimos anos usamos esses CRE para cumprir”, respondeu o responsável de comunicação da filial da Dow na Bélgica, Holanda e Luxemburgo, Drea Berghorst. “Continuaremos cumprindo as normas, o que significa que deixaremos de usar os CRE de gás industrial em abril de 2013”, acrescentou. Chevron e Cabot responderam de modo semelhante, sem descartar a opção de comprar mais créditos de HFC-23 enquanto estiverem em circulação.“A Chevron respeitou e continuará respeitando todos os aspectos exigidos pelas normas europeias de comércio de emissões”, disse Sean Comey, assessor de comunicação na sede mundial da empresa, na Califórnia. A companhia se valeu destes créditos para compensar emissões nos poços marinhos de petróleo que explora na Grã- Bretanha. “Trabalhamos com um agente financeiro de prestígio, a JP Morgan, para comprar esses CRE e ordenamos que todos fossem certificados e válidos”, respondeu Vanessa Apicerno, especialista em relações com a mídia da sede central da Cabot, em Boston. Esta empresa usou os CRE para compensar a contaminação que geram suas manufaturas de negro-de-fumo e termoplásticos na França e na Itália.A ConocoPhillips, que empregou os créditos para suas refinarias na Grã-Bretanha e na Noruega, não quis fazer comentários. Agora, mais do que nunca, as empresas têm boas razões para usar dinheiro de acionistas em investimentos que agravam a mudança climática. De fato, os intermediários tentam vender apressadamente os remanescentes destes CRE antes que se tornem lixo em 2013, e empurram os preços para baixo. Em fevereiro, as cotações eram de apenas US$ 6 a tonelada, depois de ter atingido um pico de US$ 33.“As empresas buscam a forma mais barata de cumprir as normas. Os atores do mercado são livres para terem suas considerações éticas sobre como agir diante da mudança climática, mas o sistema é regido pela economia”, afirmou Richard Chatterton, analista dessa área da Bloomberg New Energy Finance. As estatísticas mostram que a diferença de preços importa mais do que a qualidade do certificado.“Os CRE comuns (como os de HFC-23) ainda constituem mais de 95% dos volumes comercializados a futuro”, afirmou Sara Ståhl, diretora de mercados globais da Green Exchange, uma operadora da bolsa dedicada a derivados ambientais. “E são apenas US$ 0,46 mais baratos do que nossos CRE plus futuros (não HFC-23)”, acrescentou.Considerando a quantidade adicional de CRE inflados admitida pela UE até o próximo ano, pode-se estimar que a economia para o mundo empresarial será de US$ 24 milhões.A verdadeira discussão é se salvar estas moedas vale mais para as empresas do que salvar o mundo real do aquecimento.* Publicado sob acordo com a Freereporter www.freereporter.info. Esta pesquisa contou com apoio do Fund for Investigative Journalism e da Society of Environmental Journalists.LINKSTransações de carbono não esfriam o planetaImposto sobre o carbono abre caminhoO negócio europeu das emissões perversas (I)O negócio europeu das emissões perversas (II)Freereporter, em inglêsCDM Watch, em inglêsArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Stefano Valentino*
Vânia Vieira, diretora de Prevenção da Corrupção da Controladoria-Geral da União (CGU). Foto: Saulo Cruz/Sefot-Secom Envolverde Rio + 20

Conferência Ethos: sentido da Rio+20 está além de decisões governamentais

[caption id="attachment_50438" align="alignleft" width="242" caption="Vânia Vieira, diretora de Prevenção da Corrupção da Controladoria-Geral da União (CGU). Foto: Saulo Cruz/Sefot-Secom"][/caption]Em continuidade à série de entrevistas com representantes das organizações parceiras do Instituto Ethos na preparação da Conferência Ethos Internacional 2012, conversamos esta semana com Aron Belinky, membro da Vitae Civilis, Marcelo Cardoso, vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional e Sustentabilidade da Natura, e Vânia Vieira, diretora de Prevenção à Corrupção da Controladoria-Geral da União (CGU). Confira a seguir a avaliação deles sobre a importância da Conferência Ethos e sobre o alcance do encontro da ONU no Rio de Janeiro.A Conferência Ethos Internacional 2012 vai realizar-se entre os dias 11 e 13 de junho de 2012, em São Paulo. Para fazer sua inscrição, clique aqui.“A Rio+20 precisa ser entendida não como um evento oficial. Quem considerar importante apenas as decisões governamentais sofrerá frustração.” Com este alerta, Aron Belinky, membro da Vitae Civilis, destaca o amplo papel que o encontro mundial pode alcançar para o avanço dos processos deflagrados pela Organização das Nações Unidas (ONU) em suas conferências anteriores sobre meio ambiente e desenvolvimento.“Acredito que a Rio+20, assim como todas as conferências realizadas pela ONU, não deve ser enxergada como um fim em si, mas como uma oportunidade para o nascimento de uma nova ordem”, concorda Marcelo Cardoso, vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional e Sustentabilidade da Natura.“Vinte anos após a histórica Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro, na qual foram adotados documentos fundamentais para o regime de proteção internacional do meio ambiente, chefes de Estado e de governo, lideranças da sociedade civil e do setor privado e a academia terão a oportunidade de se encontrar novamente para discutir e lançar as bases para o ‘futuro que nós queremos’, que é justamente o tema deste ano”, completa Vânia Vieira, diretora de Prevenção à Corrupção da Controladoria-Geral da União (CGU).Aron Belinky observa que a Rio+20 deve ser vista sob o ângulo de pelo menos dois outros canais, além do governamental: o autônomo, no qual inúmeras entidades civis e empresariais estão organizando suas demandas e visões de futuro, e o semioficial, que vem promovendo diálogos sobre o desenvolvimento sustentável e abrindo espaços de expressão. Ambos, em sua avaliação, podem gerar produtos interessantes.“Para a continuidade da nossa existência, precisamos rever nossa forma de viver, produzir e nos relacionarmos, buscando soluções inovadoras para nossos dilemas do presente e do futuro. Nesse sentido, a Rio+20 é uma oportunidade privilegiada para a promoção da transformação social e discussão de medidas e mecanismos de implementação das decisões e acordos já firmados na conferência Eco-92, há 20 anos”, reforça Marcelo Cardoso.Participação oficialEssa visão ampliada, contudo, não deve descuidar também das interações formais. “Mesmo com a dificuldade das Nações Unidas em gerar medidas transformadoras, há temas na agenda oficial pelos quais vale a pena brigar”, salienta Belinky. Ele cita a existência de propostas contrárias à emenda sobre direitos humanos: “Não podemos deixar passar coisas assim”.Belinky destaca duas outras conquistas a serem buscadas com os governantes mundiais: “Precisamos de métricas novas, que levem em conta aspectos sustentáveis e humanos, assim como de uma convenção que garanta o acesso amplo à informação sobre meio ambiente”.A urgência em avançar, oficialmente, para medidas concretas, por meio de uma melhor gestão é lembrada por Vânia Vieira: “O contexto mundial de 2012, em meio à crise financeira iniciada em 2008, lança luz sobre a importância do debate acerca de modelos de governança, mais transparentes e íntegros, princípios indispensáveis para assegurar o desenvolvimento sustentável, seja em nível local ou global. Assim, diferentemente dos encontros das décadas anteriores, espera-se que a Rio+20 seja uma conferência voltada para a efetivação dos compromissos assumidos no campo do desenvolvimento sustentável, ao mesmo tempo em que princípios anteriormente considerados sejam fortalecidos nas próximas décadas”.Decifrando a complexidadeCompreender e influir no desenrolar da Rio+20 requer um aprofundado preparo. “Eventos focados com atores interessados em participar, como a Conferência Ethos, com o tema ‘A Empresa e a Nova Economia – O Que Muda com a Rio+20’, são fundamentais”, avalia Belinky. Para ele, a iniciativa do Instituto Ethos vai ajudar na participação e dar visibilidade a dilemas que estão em pauta e ficam, muitas vezes, sem o contexto necessário.“A Conferência Ethos Internacional 2012 pode nos ajudar a refletir sobre os temas que devem ser tratados na Rio+20, relevantes para nossa sociedade, considerando os aprendizados que já tivemos com outros eventos. O encontro do Ethos certamente deve colaborar para que, na Rio+20, sejam apresentadas propostas concretas, a fim de que as decisões políticas e econômicas sejam favoráveis a uma sociedade mais sustentável”, reforça Marcelo Cardoso.Vânia Vieira é da mesma opinião: “O envolvimento do Instituto Ethos com a Rio+20 é muito bem-vindo e apropriado, até mesmo porque as empresas e as indústrias são reconhecidas como um dos nove grupos principais (major groups) identificados na Agenda 21 como parceiros para o desenvolvimento sustentável. É interessante notar como a atuação do Ethos também está relacionada com outros dois major groups: as organizações não governamentais (capítulo 27 da Agenda 21) e os trabalhadores e sindicatos (capítulo 29 da Agenda 21)”.Ela segue avaliando que os temas de trabalho do Ethos estão diretamente relacionados aos temas da Rio+20 e acredita que o Instituto terá a oportunidade e o grande desafio não somente de aprofundar a discussão da Rio+20, mas também de fomentar a incorporação dos princípios de sustentabilidade no setor privado.Esperanças em altaAron Belinky crê que o evento do Ethos pode realmente consolidar a pauta e as atividades além das oficiais. Dessa forma, mostrará à sociedade em geral, e principalmente ao setor privado, que a economia verde não é só melhoria em ecoeficiência, mas sim a instituição de um novo modelo, com igual importância para o social, o econômico e o ecológico, capaz de estabelecer uma sociedade justa, com sustentabilidade próspera. A Rio+20, por sua vez, poderá ser um momento de convergência e energização, para trazer mais clareza em relação aos desafios atuais e apontar que caminhos devemos tomar, quais os encaminhamentos mais importantes e como chegar até eles.Marcelo Cardoso também acredita que tanto a Conferência Ethos quanto a Rio+20 têm grande potencial de estimular a reflexão que entrelaça diversos atores na busca por uma sociedade mais sustentável e justa: um modelo de capitalismo renovado e inclusivo. “Vejo que os dois eventos podem reunir e estruturar muitas das iniciativas dispersas e fragmentadas na sociedade, nos órgãos públicos e no setor empresarial”, diz.Cardoso destaca sua confiança e entusiasmo para empreender todos os esforços possíveis para que a Plataforma por uma Economia Inclusiva, Verde e Responsável – apresentada pelo Ethos em fevereiro de 2011– alcance seus propósitos nesses dois fóruns. “Trata-se de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável consistente, ambicioso e orientado por uma visão de futuro, que vai reunir e mobilizar as forças transformadoras da sociedade numa direção convergente”, explica.Da mesma forma, Vânia Vieira espera que ambos os eventos consigam avançar em relação a arranjos para melhorar a governança global, tanto em governos, como em empresas: “É notável como o setor empresarial tem um relevante papel a cumprir, sendo chamado a incorporar os princípios do desenvolvimento sustentável em suas atividades, o que está expresso em diversos pontos do documento de negociação”.A diretora da CGU tem a expectativa de que, na sensibilização e capacitação a respeito dos temas da Rio+20, a Conferência Ethos reflita, por exemplo, sobre como o acesso à informação, a transparência, a responsabilidade social corporativa e o fortalecimento de um sistema de integridade podem ser instrumentos facilitadores de padrões mais elevados de sustentabilidade, realizados de forma integrada, por meio do crescimento econômico, desenvolvimento social e proteção ambiental. “Talvez a ética seja justamente a perspectiva que deva ser valorizada pelos três pilares do desenvolvimento sustentável”, conclui.Cardoso acrescenta que deseja, ainda, que todos os cidadãos tenham chance de participar dos debates promovidos pela Rio+20 e que o evento seja marcado pela mobilização por meio do diálogo e da reflexão coletiva acerca do futuro do nosso planeta, nossos hábitos de consumo, nossas relações interpessoais e nossos recursos naturais. “Nosso esforço é para um acordo global com a finalidade de implementar um novo modelo de desenvolvimento capaz de aliar produção, consumo, conservação e uso sustentável da sociobiodiversidade”, encerra o vice-presidente da Natura.* Publicado originalmente no site Instituto Ethos.


por Neuza Árbocz, do Instituto Ethos
cara Artigo

Cara de pau

Um queijo suíço, apodrecido! Assim se poderia resumir o relatório apresentado pelo deputado Paulo Piau (PMDB-MG) para a etapa final da votação do novo Código Florestal no Congresso Nacional. Não havendo condições políticas para a rejeição pura e simples do substitutivo aprovado pelo Senado, Piau propõe a supressão de 21 dispositivos que retiram da lei todos os princípios e várias das definições dos tipos de áreas passíveis de conservação, todas as extensões de APPs (Áreas de Preservação Permanente), a competência do Ibama (Instituito Brasileiro do Meio Ambiente) para proteger espécies ameaçadas de extinção, os instrumentos que restaram para a proteção parcial de veredas, apicuns e áreas de pousio, além de recusar a destinação de parte do pagamento pelo uso da água para a recuperação de matas ciliares.Como nessa etapa do processo legislativo não é mais possível à Câmara dos Deputados introduzir no texto legal novas formulações, cabendo-lhe apenas aprovar ou rejeitar o que já tenha sido aprovado por uma das casas do Congresso, caso as supressões sugeridas sejam acolhidas, a nova lei simplesmente passará a não dispor sobre essas questões, resultando basicamente numa lei de anistia total aos desmatadores. Segundo Piau, caso o governo considere indispensável suprir as lacunas, poderia vir a editar uma nova medida provisória.Seguindo orientação da bancada ruralista, Piau desenvolve um raciocínio contraditório e tortuoso para defender o “queijo suíço”. Quando sugere a supressão de qualquer obrigação de recuperação de APPs em qualquer propriedade, ele afirma que não se trata de anistia, pois os proprietários rurais teriam que apresentar e negociar com o órgão ambiental local, no prazo de cinco anos, um “plano de regularização” que poderia prever algum tipo de recuperação, “se necessária”. Porém, quando tenta justificar a supressão da condição desta regularização para acesso futuro ao crédito rural, afirma que “o governo não será capaz de implementar tais planos e o cadastro ambiental rural no prazo previsto na nova lei".O relatório de Paulo Piau deixa a presidente Dilma Rousseff muito mal. Demonstra que a bancada ruralista não honrará o acordo supostamente feito no Senado para atenuar alguns dos aspectos mais desastrosos da proposta anteriormente aprovada na Câmara. Continuará chantageando o governo e o país, condicionando os seus votos em qualquer decisão do Legislativo à aniquilação de qualquer medida de controle ou que estabeleça responsabilidades de caráter socioambiental para proprietários rurais. Sua eventual aprovação obrigará a presidente a exercer o seu direito de veto, às vésperas da Rio+20.Em síntese, um relatório com cara de pau!* Publicado originalmente no site Instituto Socioambiental (ISA).


por Márcio Santilli, do Instituto Socioambiental
Foto: fusky Água

Guia do consumo consciente da água

[caption id="attachment_50473" align="aligncenter" width="425" caption="Foto: fusky"][/caption]A água é um recurso natural fundamental na sobrevivência do ser humano e indispensável também como recurso para produção, desenvolvimento econômico e qualidade de vida. Embora 70% da superfície terrestre seja coberta pela água, somente 1% de todo o recurso natural existente está disponível para o consumo humano. E, mesmo assim, esse percentual ínfimo está sujeito a desigualdade na distribuição e seriamente ameaçado de escassez.A estimativa das Nações Unidas é que, até 2015, pelo menos 11% da população mundial, o equivalente a 783 milhões de pessoas, continuarão carentes de água potável. De acordo com os dados, 1,1 bilhão de pessoas continuam sem redes de esgoto, e cerca de quatro mil crianças morrem diariamente por doenças diarréicas associadas à falta de qualidade da água.Diante disso, é mais do que fundamental reduzir o consumo de água. A ideia não é deixar de usar a água, mas sim ter consciência de que é importante poupá-la. Para tanto, é preciso adotar soluções para um consumo consciente, como o reúso de água, fundamental para minimizar a utilização deste recurso e ainda economizar na conta de água. A captação de água das chuvas, por exemplo, pode também trazer forte impacto positivo, econômico, ambiental e até auxiliar na prevenção de enchentes.Várias soluções podem ser feitas em sua própria casa, de forma bem simples. Confira.No banheiro[caption id="attachment_50472" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Henrique Vianna"][/caption]Prefira torneiras únicas – Quem utiliza torneiras com medição individual para água quente e fria sabe quanta água é gasta até se chegar à temperatura ideal. Por isso, prefira as torneiras com saída única de água. Dessa forma, seja no chuveiro ou na pia, a água já cairá misturada e você poderá acertar a temperatura mais facilmente, contribuindo com a economia de água.[caption id="attachment_50471" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Tahiana Máximo"][/caption]Faça xixi no banho – Isso pode soar bastante estranho, mas ao fazer xixi durante o banho é possível economizar uma descarga, o que representa 12 litros de água potável que deixam de ser usados. Os dados são de uma campanha da fundação SOS Mata Atlântica. Eles defendem o hábito como uma forma de contribuir com a conscientização popular sobre o desperdício da água e com isso degradar menos a natureza, preservar os recursos naturais e as nascentes dos rios. Portanto, se você estiver tomando banho e bater aquela vontade, pode fazer seu xixi tranquilamente. O meio ambiente agradece.[caption id="attachment_50470" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: teresia"][/caption]Coloque uma garrafa PET cheia dentro do vaso da descarga – Para reduzir o consumo de água no banheiro, encha uma garrafa PET, tampe-a e coloque dentro do vaso da descarga. Assim, ela ocupará um espaço que seria da água e fará com que o equipamento encha mais rápido. Dessa forma, você evita o gasto desnecessário de água sem impactar a eficiência da descarga. Você vai economizar a quantidade de água relativa ao tamanho da garrafa. Ou seja, uma garrafa de um litro representa um litro a menos de água a cada descarga.[caption id="attachment_50469" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: laerte"][/caption]Evite as duchas de alta potência – Além de mais caras, essas duchas consomem mais água e, consequentemente, mais energia. Em apenas um minuto, esses chuveiros podem consumir 15 litros de água aquecida. Com cinco minutos de banho, o consumo das duchas pode ser equivalente ao de um banho de banheira. Por isso, opte por chuveiros mais econômicos.[caption id="attachment_50468" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: sapienssolutions"][/caption]Instale um arejador nos seus chuveiros e pias – Esse pequeno instrumento introduz bolhas de ar no jato d’água, reduzindo a tensão superficial da água durante a vazão da torneira e diminuindo os respingos e o desperdício de água. A economia de água pode chegar a 50% e a eficiência do chuveiro e pia continua a mesma. Os arejadores podem ser facilmente encontrados em casas de material de construção e custam cerca de R$ 5.[caption id="attachment_50467" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: brunobucci"][/caption]Evite banhos de banheira – Se você puder optar entre chuveiro e banheira, escolha o primeiro. Um banho de banheira gasta, em média, 80 litros de água enquanto que o chuveiro (aberto durante cinco minutos) gasta 45 litros. Por isso, tente evitar ao máximo o banho de banheira e deixe-o apenas para ocasiões especiais. Além de economizar um bem precioso, que é a água, você reduzirá a conta no final do mês.[caption id="attachment_50466" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Mylla"][/caption]Instale torneiras automáticas – Se você puder, instale torneiras automáticas em sua casa, condomínio ou escritório. Esses modelos de torneira possuem um tempo de abertura automático e fecham depois disso, impedindo que a água corra sem necessidade. Se possível, opte por modelos com sensores automáticos. Apesar de mais caros, esses aparelhos podem proporcionar uma economia de até 70% no consumo de água.[caption id="attachment_50465" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Carolina Morena"][/caption]Aproveite a água do chuveiro enquanto espera ela esquentar – Na hora do banho, enquanto você espera a água esquentar, deixe um balde debaixo do chuveiro para captar a água fria. Você poderá usar essa água limpa depois no jardim, na horta, para lavar as roupas, o carro ou o que precisar. Se você fizer isso a cada banho poderá poupar uma boa quantidade de água limpa ao final do dia e que seria desperdiçada inutilmente.[caption id="attachment_50464" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Tahiana Máximo"][/caption]Passe menos tempo no banho – Se você é daqueles que adora relaxar debaixo do chuveiro e leva horas tomando banho, saiba que você pode estar contribuindo para o consumo exacerbado de água e para o aumento da conta no final do mês. Cinco minutos é o tempo indicado para um banho completo e sustentável. Segundo dados da campanha De Olho nos Mananciais, um banho de ducha de 15 minutos, com o registro meio aberto, consome 243 litros de água. Fechando o registro enquanto nos ensaboamos e reduzindo o tempo do banho para cinco minutos é possível reduzir o consumo de água total para 45 litros. Também é importante ficar atento ao tipo de chuveiro. Os movidos a aquecedor solar, apesar de consumir menos energia, gastam até duas vezes mais água que os chuveiros elétricos.[caption id="attachment_50463" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: emanuele spies"][/caption]Economize quando escovar os dentes – Feche a torneira enquanto escova os dentes. Se enxaguar a boca com um copo d’água, conseguirá economizar mais de 11,5 litros de água (casa) e 79 litros (apartamento).Na cozinha[caption id="attachment_50462" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Fernando Meyer"][/caption]Feche a torneira para lavar a louça – Quando estiver lavando a louça, não se esqueça de fechar a torneira. Abra-a apenas na hora de molhar e de enxaguar. Lavar a louça com a torneira meio aberta durante 15 minutos representa um consumo de cerca de cem litros de água. Por isso, nada de desperdício.Lave a louça em uma bacia de água – Use uma bacia com água para ensaboar a louça sem precisar deixar a torneira aberta. O resultado é o mesmo e você poderá poupar até 160 litros a cada lavagem. Você ainda pode fazer isso na própria pia, tapando a passagem da água. Uma conta do Instituto Akatu mostra que com essa atitude, uma família que lava louça três vezes ao dia pode economizar até 480 litros de água, e se cinco famílias adotarem essa medida, em vinte anos terão salvo 17,5 milhões de litros – o suficiente para abastecer quase nove milhões de pessoas em um dia. Para tornar essa economia ainda maior, experimente usar duas bacias – uma para ensaboar e outra para enxaguar as louças. Você vai utilizar apenas 20 litros e economizar 660 litros de água em um único dia.Só use água corrente na hora de enxaguar a louça – Abra a torneira apenas na hora de enxaguar a louça. Antes de ensaboar, encha a pia e deixe os pratos, talheres e copos sujos lá dentro. Isto amolece a sujeira, facilita a limpeza e reduz o consumo de água. Com essa ação simples você diminui o trabalho na hora de lavar a louça e ainda economiza água e detergente.Enxágue a louça de uma só vez – Na hora de lavar os pratos, ensaboe e lave tudo de uma só vez. Assim você evita abrir e fechar a torneira diversas vezes, o que acaba desperdiçando água. Para evitar o gasto desnecessário, acumule todos os pratos, panelas e talheres e coloque aqueles mais sujos de molho, para “soltar” a sujeira. Depois ensaboe tudo com a torneira fechada e só ligue-a na hora de enxaguar.Na higienização de frutas e legumes – Para higienizar frutas e legumes utilize cloro ou água sanitária, de uso geral (uma colher para um litro de água, por 15 minutos). Depois coloque duas colheres de sopa de vinagre em um litro de água e deixe por mais dez minutos, economizando o máximo de água possível.Na lavanderia[caption id="attachment_50461" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Gov/BA"][/caption]Use a roupa mais de uma vez antes de lavar – Algumas roupas como casacos e calças jeans, podem ser utilizadas mais de uma vez antes de irem para a máquina de lavar. Ao fazer isto, você poupa água, energia, produtos de limpeza e, claro, dinheiro. Por isto, avalie as condições das peças antes de jogá-las no cesto de roupa suja e veja se não dá para usá-las mais uma vez.Junte bastante roupa suja antes de ligar a máquina ou usar o tanque – Não lave uma peça por vez. Procure usar a máquina no máximo três vezes por semana. Se as roupas são lavadas no tanque, deixe-as de molho e use a mesma água para esfregar e ensaboar. Use água nova apenas no enxágue. Aproveite esta última água para lavar o quintal ou a área de serviço.No jardim[caption id="attachment_50460" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: txato"][/caption]Regue suas plantas com moderação – Se está ameaçando chover, não faz sentido você molhar suas plantas. Use a água da chuva. Caso seja necessário regar, prefira fazer isso à noite ou no início da manhã: nessas horas mais frias, as plantas usam menos água para sobreviver. Fazendo isso elas permanecerão molhadas por mais tempo e você não terá que repetir o ato tão cedo, economizando água. Lembre-se que a água é um recurso não renovável e que todos nós devemos ser responsáveis pelo seu manejo sustentável.[caption id="attachment_50459" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Hipopótominha"][/caption]Deixe a grama crescer – A grama alta retém mais umidade. Por isso, durante o verão, deixe o gramado crescer pelo menos quatro centímetros. Esta providência evitará a aparição de trechos ressecados e diminuirá a necessidade de regar, economizando água.[caption id="attachment_50458" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: floresyplantas.net"][/caption]Irrigue suas plantas com um sistema de gotejamento – Esse sistema irriga as plantas de forma lenta, contínua e controlada e garante uma boa economia de água. Você pode montar um desses em seu jardim fazendo pequenos furos em uma mangueira e colocando-a próxima ao caule das plantas, de modo a umedecer continuamente as raízes. Esse método de irrigação é preciso e econômico. Um aspersor de grama comum, por exemplo, pode medir a vazão de água em litros por minuto, enquanto que um gotejador é classificado em litros por hora. A vazão de água é tão vagarosa que é facilmente absorvida pelo solo. Em um sistema bem ajustado, há pouca probabilidade de excesso de escoamento de água e desperdício.[caption id="attachment_50457" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Danilo Cattani - Teco"][/caption]Troque a mangueira por vassoura e balde – Quando for lavar a calçada ou o quintal, evite usar a mangueira. Uma forma muito mais sustentável de limpar a porta de casa é utilizando a boa e velha dupla vassoura e balde. Primeiro varra o local para tirar a sujeira mais grossa e depois jogue a água do balde para finalizar a limpeza. Se um balde de água não for suficiente, encha outro, mas evite usar a mangueira. Fazendo isso você poderá economizar até 250 litros de água.[caption id="attachment_50456" align="aligncenter" width="300" caption="Foto: Roberto Berlim"][/caption]Cubra sua piscina – Se você tem piscina em casa, procure mantê-la sempre coberta. Dessa forma, você evita que litros de água evaporem todos os meses. Uma piscina média exposta ao Sol e ao vento tem uma taxa de evaporação de até 3.800 litros mensalmente. Com uma cobertura (encerado, material plástico), a perda é reduzida em 90%.* Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
codigo-florestal Código Florestal

A escolha de Dilma

O Brasil teve duas conquistas importantes nas últimas duas décadas, conquistas consideradas impossíveis por muitos.O país derrotou a inflação crônica e experimentou um crescimento econômico real que trouxe consigo uma vida melhor para milhões de pessoas, até mesmo para aquelas que vivem em localidades extremamente pobres. Um programa econômico centrado nas pessoas comuns conduziu o país a resultados muito melhores do que a postura de favorecimento aos ricos que os Estados Unidos utilizam. Lula foi corretamente aclamado como um herói por muitos em todo o mundo.De maneira ainda mais notável, no mesmo período, o Brasil conseguiu reduzir drasticamente o ritmo do desmatamento da Amazônia. Com a liderança de pessoas como Marina Silva, que mantiveram o enfoque nas populações carentes, o Brasil diminuiu as emissões de carbono mais do que qualquer outro país no mundo. Enquanto a China despejou fumaça de carvão na atmosfera e as empresas petroleiras paralisaram o Congresso norte-americano, o Brasil reforçou sua responsabilidade global, fortalecendo os instrumentos de comando e controle para proteger a Amazônia, provavelmente, o bem mais importante do planeta.Agora vamos ver se a presidente Dilma Rousseff é capaz de dar continuidade a este tipo de progresso. Neste momento, os indícios são ruins, na verdade, são péssimos. Dilma precisa decidir se veta ou não as alterações do Código Florestal Brasileiro aprovadas ontem (25/4/12) pela Câmara dos Deputados, que levarão ao desmatamento generalizado acompanhado pela liberação em massa de gases do efeito estufa na atmosfera.Se não for vetada pela presidente, a lei anistiará aqueles que derrubaram ilegalmente parte da floresta na última década, diminuirá os espaços de proteção dos rios e permitirá mais exploração madeireira. O Código pode eliminar cerca de 79 milhões de hectares retirando da área de preservação um território maior que o da Alemanha, Áustria e Itália juntas.Isso também pode sinalizar que o Brasil está seguindo um novo/velho caminho: aquele no qual os interesses dos poderosos (neste caso, os latifundiários e o agronegócio) exercem o poder político real. Em vez de demonstrar, como o governo Lula fez com tanto vigor, que é possível fazer a economia crescer e, ao mesmo tempo, proteger o meio ambiente, Dilma parece pronta para adotar uma postura mais parecida com a dos Estados Unidos.Esse é um dos motivos pelos quais, no dia 5/5/12, o Brasil será um dos países onde as pessoas vão se reunir para protestar e “ligar os pontos” sobre a ameaça das mudanças climáticas ao nosso futuro.O mundo vai se reunir em junho no Rio de Janeiro para celebrar o 20º aniversário da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92. A Rio+20 deveria ser a ocasião para uma verdadeira celebração de tudo o que foi realizado, tendo o Brasil como um dos poucos exemplos mundiais de progresso. Em vez disso, se o novo Código Florestal entrar em vigor, esta será uma reunião muito triste, uma reunião para lembrar com que rapidez, mesmo os países progressistas, podem sucumbir e regressar às práticas econômicas atuais.* Bill McKibben é escritor e co-fundador da 350.org, uma campanha internacional ativa em mais de 180 países que visa a criar soluções possíveis para a crise climática.“350” representa as 350 partículas por milhão (ppm) que muitos cientistas e especialistas em clima consideram ser o limite de segurança máximo para a quantidade de CO2 na nossa atmosfera. Atualmente estamos em 392 ppm e os números continuam subindo. Mais informações: www.ligandoospontos.org.** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Bill McKibben*
782PEQ Entrevista

Suape: um desafio para Pernambuco

“Trata-se de um Complexo diferenciado no que se refere à dimensão ambiental, pois 51% da área é destinada à preservação. Suape está se tornando um germe de nova centralidade econômica na região metropolitana do Recife”, assinala o economista Valdeci Monteiro dos Santos.A ideia de estruturar um porto e um complexo industrial em seu entorno na região metropolitana de Pernambuco é antiga e remete ao padre francês Louis Joseph Lebret, que já nos anos 1950 vislumbrava a possibilidade de desenvolver o Estado pernambucano. Em 1983, suas ideias ganharam forma e Suape passou a operar. Até meados de 2005, o porto teve “limitada capacidade de irradiação na economia regional”. Entretanto, nos últimos sete anos “passa a vivenciar uma nova etapa caracterizada por uma verdadeira ‘avalanche’ de investimentos produtivos, cujo marco foi o anúncio da instalação da Refinaria de Petróleo General Abreu e Lima”, relata o economista Valdeci Monteiro dos Santos à IHU On-Line.A ampliação de Suape tem gerado controvérsias entre aqueles que defendem o desenvolvimentismo e os que levam em consideração as implicações sociais e ambientais que um empreendimento deste porte poderá acarretar em alguns municípios pernambucanos. De acordo com o economista, “Suape convive com um entorno complexo: herdeiro de grande pobreza (cidades e população); recém-saído do rápido fechamento de numerosas usinas; dotado de rico patrimônio natural e cultural (polo turístico nacional – o melhor destino de praia do Brasil); com infraestrutura de acessibilidade insuficiente para os novos tempos; inserido numa metrópole em redefinição e dialogando com municipalidades pouco estruturadas”, afirma o economista. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Santos avalia que “Suape, ao mesmo tempo em que é uma grande oportunidade para Pernambuco, é também um grande desafio que passa pela necessidade de ações concretas visando a um crescimento sustentável e profundas mudanças na cultura empresarial, dos governos e da sociedade em geral”.Valdeci Monteiro dos Santos é doutor em Economia pela Unicamp, professor de Economia da Universidade Católica de Pernambuco e sociodiretor da Consultoria Econômica e Planejamento (Ceplan). Integrou a equipe do consórcio Planave-Projetec, que elaborou o Novo Plano Diretor de Suape (2010) e está atualmente participando do Projeto Suape Sustentável, integrando a equipe do Consórcio Diagonal-Ceplan.Confira a entrevista.IHU On-Line – Pode nos dar uma visão geral sobre o Complexo Industrial Portuário de Suape? Quais as atividades econômicas que concentra e as obras de ampliação?Valdeci Monteiro dos Santos – O Complexo Industrial Portuário de Suape (CIPS) tem uma área de 13,4 mil hectares (equivale à área da cidade do Recife) e está localizado, em parte, nos municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho.A estrutura portuária atual envolve um porto que opera navios nos 365 dias do ano, sem restrições de horário de marés e que movimenta cerca de dez milhões de toneladas de carga, destacando-se, entre elas, os granéis líquidos (derivados de petróleo, produtos químicos, alcoóis, óleos vegetais, etc.), a carga geral em contêineres, os granéis sólidos e a carga geral solta/diversa que, segundo o seu novo Plano Diretor, finalizado em 2010, deverá ter seu layout, especialmente em termos de novos cais internos, muito ampliado até 2030.Com relação à área destinada para as indústrias e atividades de logística, os dados mais atuais apontam para a existência de cerca de 120 empresas em operação ou em processo de instalação. Fora os investimentos produtivos já incorporados, estão sendo alocados neste momento recursos da ordem de R$ 45 bilhões e cerca de 50 mil empregos gerados na parte de construção dos projetos (apenas a Refinaria General Abreu e Lima, no pico das obras que está ocorrendo este ano, está demandando 40 mil trabalhadores).Em termos setoriais, podem ser destacadas em Suape as áreas: I) petróleo e gás (Refinaria Abreu e Lima); II) petroquímica, têxtil sintético e resina plástica (Petroquímica Suape, Citepe, Mossi & Guisolf, Cristal Pet, Brasalpa, Lorempet); III) naval (estaleiro Atlântico Sul, estaleiro Promar, Construcap, Navalmare); IV) energia eólica (Impsa Eólica, RM Eólica); V) Siderurgia (Companhia Siderúrgica Suape - CSS); VI) alimentos e bebidas (Bunge, Pepsico, Rexam, Pernod Ricardo, Campari, Coca-Cola, Cereser); VII) cerâmica (Duratex, Pamesa, Thor); VIII) polo de granéis líquidos e gases (Decal, Tequimar, GLP, Brasilgas, Petrobras, Ultracargo, Pandenor, Temape, Pool Petrobras/Shell/Esso/Ipiranga/Texaco); IX) complexo logístico (Cone Suape), centrais de distribuição (CD GM) e terminal de contêineres (Tecon).Os grandes projetos em fase ainda de implantação são a Refinaria Abreu e Lima (R$ 26,6 bilhões), Petroquímica Suape (R$ 5 bilhões), CSS (R$ 1,8 bilhões), estaleiro Promar (R$ 1 bilhão), Construcap (R$ 750 mi), Navalmare (R$ 500 mi) e Impsa Hydro (R$ 250 mi).Além das zonas portuária e industrial-logística, o CIPS conta com 51% de sua área como zona ambiental e também conta, dentro de seus limites, com a presença de diversas comunidades perfazendo um contingente que gira em torno de 28 mil pessoas. Em sua grande maioria, comunidades irregulares (um segmento pequeno de moradores são os antigos colonos).Vale também lembrar que o Complexo está inserido no que o governo de Pernambuco estabeleceu, e o Plano Diretor de Suape chancelou, como o chamado Território Estratégico de Suape, que compreende oito municípios além de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, localidades onde se situam a área do CIPS e os municípios que ficam em seu entorno, quais sejam: Jaboatão dos Guararapes, Moreno, Escada, Ribeirão, Sirinhaem.IHU On-Line – O Complexo tem sua origem em que período e contexto político e econômico?Valdeci Monteiro dos Santos – A ideia de se estruturar um porto na localidade de Suape surgiu de forma visionária, em 1954, com o padre francês Louis Joseph Lebret, que era economista e engenheiro especialista em portos. Lebret identificou nesta localidade potencial de implantação de um porto e, próximo dele, uma refinaria de petróleo.A visão de Lebret começou a ter sentido estratégico no início dos anos 1970, quando começou a se traçar o projeto de construção de um porto integrado a uma zona industrial, inovador para a época, sintonizada com o que se fazia em alguns países.Em 1973, foi lançada a pedra fundamental. O projeto surgiu num contexto mundial do primeiro choque do petróleo, crise econômica mundial e impulso da financeirização. No Brasil, ele surgiu na era Geisel, com o país resistindo à crise via endividamento externo, com o lançamento do chamado II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), iniciando o processo de desconcentração da base produtiva, na qual Pernambuco não engata. Portanto, Suape surge numa atitude ousada do governo de Pernambuco de lançar um complexo portuário-industrial sem estar no bloco de investimentos do II PND.Ademais, começou efetivamente a operar, ainda que de forma precária, a partir de 1983, em meio ao aprofundamento da crise da economia brasileira. A infraestrutura portuária foi sendo constituída gradativamente até o final da década de 1990.Pode-se dizer que, até meados de 2005, Suape se caracterizaria por investimentos no porto e na instalação de empresas de médio porte, com baixa complexidade tecnológica, pouca exigência de qualificação profissional e limitada capacidade de irradiação na economia regional. Vale lembrar que as décadas de 1980 e 1990 e os anos iniciais do Século 21 foram marcados pelo baixo crescimento e, em especial, por um processo de desindustrialização da economia estadual. Só para se ter uma ideia: em 1985, a indústria de transformação de Pernambuco representava cerca de 25% da base produtiva estadual, e, em 2005, essa participação caiu para 10,7%.A partir de 2005, Suape passa a vivenciar uma nova etapa caracterizada por uma verdadeira “avalanche” de investimentos produtivos, cujo marco foi o anúncio da instalação da Refinaria de Petróleo General Abreu e Lima. Ao menos três fatores principais podem ser destacados como facilitadores deste novo momento: I) o ambiente de retomada da economia brasileira em novas bases, em que o Nordeste passou a apresentar taxas de crescimento acima da brasileira; II) a decisão do governo federal, por meio da Petrobras de construir uma nova refinaria depois de 28 anos no Nordeste, e também de reativar a indústria de construção naval a partir da sinalização de encomenda de novos navios e plataformas feitas em estaleiros do Brasil (o que viabilizou a implantação do estaleiro Atlântico Sul em Suape); e III) a postura e ação proativa do governo de Pernambuco em termos de política de atração de investimentos, favorecidas também pelo seu alinhamento político com o governo federal.IHU On-Line – Por que o projeto é considerado estratégico para o Nordeste?Valdeci Monteiro dos Santos – Suape está geograficamente bem posicionado na porção oeste da região. Se considerarmos um raio de 800 quilômetros a partir do CIPS, têm-se presente sete capitais, sete aeroportos internacionais, oito portos (um fluvial) e um mercado que envolve 30 milhões de pessoas e 90% do PIB do Nordeste. Num raio de 300 quilômetros, temos uma população de 12 milhões e 35% do PIB regional.Por outro lado, com a perspectiva da implantação da ferrovia Transnordestina, Suape se candidata a ser uma importante referência no escoamento de produtos de grande impacto econômico e social para o interior do Nordeste, destacando-se o transporte de grãos, minérios, gipsita/gesso, frutas, etc., para Suape, bem como para o interior do Estado. A Transnordestina permitirá uma maior integração da sua parte oriental com a ocidental e para o CIPS, um potencial de expansão de mercado. Também merece destaque a duplicação da BR-101 Norte e Sul, por possibilitar o incremento dos negócios regionais. Vale lembrar que o CIPS será uma nova referência de entreposto.A posição do porto equidistante da Europa e dos Estados Unidos facilita também como referência no transporte por cabotagem do Sudeste para o Nordeste e deste para o Norte e vice-versa.IHU On-Line – Qual é hoje o peso de Suape na economia pernambucana?Valdeci Monteiro dos Santos – Dois parâmetros podem servir de referência: I) os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, onde se localiza Suape, detinham juntas 9,7% do PIB estadual em 2000; este percentual subiu para 13,9% em 2009; II) os investimentos que estão em curso em Suape entre 2008 e 2014 são da ordem de R$ 45 bilhões representam aproximadamente 60% do PIB atual do Estado.Além da dimensão e peso de Suape na economia, lembrando que alguns empreendimentos ainda estão em fase de maturação (refinaria, parte da petroquímica, estaleiros, etc.), é preciso destacar a contribuição de Suape na mudança de perfil produtivo, com o surgimento de novas atividades e cadeias produtivas (petróleo e gás, petroquímica, siderurgia, construção naval) como também reativação de atividades tradicionais (processamento de alimentos e bebidas, têxtil, construção civil, metal-mecânica). Também está acionando o setor de serviços locais, tanto os pessoais como aqueles voltados para a produção.IHU On-Line – Quais são os problemas sociais provocados pelo projeto em seu entorno? Houve crescimento da especulação imobiliária? Outros problemas surgiram?Valdeci Monteiro dos Santos – Forte fluxo migratório para as cidades dos arredores. As pessoas são atraídas pelo emprego nas obras de implantação dos projetos, pelo emprego direto nas empresas e pela possibilidade de montar um negócio. Ou mesmo são atraídas por um novo emprego. O dinamismo regional já vem provocando no entorno de Suape problemas como:aumento da violência urbana, incluindo aumento de mortes por armas de fogo ou brancas; aumento do tráfico e consumo de drogas; aumento de doenças sexualmente transmissíveis, como a aids; aumento de gravidez na adolescência, com impactos na assistência social; déficit habitacional versus aumento da demanda por moradia, provocando aumento no preço dos imóveis e dos aluguéis, exacerbado pelo componente especulativo; forte especulação também nas terras rurais; transtornos ligados à mobilidade e à acessibilidade.Numa dimensão antropológica, há um choque cultural, lembrando que se trata de uma região com uma memória histórica ligada à cana-de-açúcar, com predominância de muita área rural e que está assistindo a forte influência do mundo industrial.Vale destacar o contexto delicado das comunidades presentes dentro dos perímetros de Suape, onde hoje vivem mais de 28 mil pessoas. De forma ilegal e muito recente, a maioria ocupa o território. A sinalização do governo está no sentido de remoção para outra área fora de Suape. A presença de tais comunidades é por si só geradora de muita tensão.IHU On-Line – Ambientalistas criticam que a sustentabilidade não foi levada em consideração no projeto. Procede a crítica?Valdeci Monteiro dos Santos – Diria que realmente foi pouco considerada a questão ambiental ao longo de sua trajetória. Controle precário, em meio a uma expansão que, em que pese a existência de um primeiro plano diretor, se deu com controle e fiscalizações incipientes, o que permitiu uma ocupação e uso do solo desordenados. Nos últimos anos, com o boom de crescimento verificado, o grau de vulnerabilidade ambiental aumentou, apesar dos esforços que a administração pública vem empreendendo no sentido de tornar Suape ambientalmente mais sustentável. Atualmente, 51% da área de Suape é destinada à preservação, com ações de recomposição de matas ciliares, plantio de novas mudas de árvores associadas ao bioma da Mata Atlântica e às tentativas de fiscalização e prevenção ambiental. A tensão entre as atividades produtivas e a presença de um grande contingente de pessoas, que ocuparam de forma ilegal e irregular a área no entorno de Suape, existe e inspira preocupação.Por outro lado, merecem atenção especial os impactos negativos que estão sendo gerados no sistema marinho, ou seja, na parte oceânica, levando em conta o impacto que a movimentação de navios pode causar à flora e à fauna do mar, na temperatura e nas correntes marinhas, além, é claro, do perigo, mesmo que remoto, de ocorrência de vazamento de óleo.Além do espaço natural, observam-se vulnerabilidades na sustentabilidade do patrimônio histórico e arquitetônico presentes dentro de Suape (engenhos, igrejas, fortificações, etc.).IHU On-Line – Há problemas trabalhistas nos canteiros de obras de Suape como se verifica nas obras das hidrelétricas?Valdeci Monteiro dos Santos – As notícias da imprensa indicam que os grandes investimentos do complexo de Suape têm enfrentando importantes conflitos por conta da relação trabalhista, com problemas como atrasos nos pagamentos. Funcionários da Previne – empresa terceirizada do Estaleiro Atlântico Sul – acabaram paralisando as obras por dez dias. Também têm-se verificado problemas de atraso salarial e condições de trabalho associados à relação das empreiteiras com os operários, a exemplo da própria Refinaria, que já sofreu, inclusive, algumas paralisações por conta de protestos dos funcionários. Foram constatados também esquemas de “venda” de empregos em Suape, a exemplo de uma empresa do Piauí, que ofereceu um pacote que custaria R$ 350, que incluía taxa do agenciamento do posto de trabalho e o transporte para Pernambuco.Uma importante questão relativa ao mercado de trabalho em Suape é o panorama evidenciado de baixo grau de qualificação profissional (e na base da população da região, também um nível de escolaridade ainda muito ruim), refletindo na obtenção de mão de obra de outros Estados.IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?Valdeci Monteiro dos Santos – Ao longo de três décadas, passando por sucessivos momentos da conjuntura nacional e estadual adversos, enquanto outros Estados priorizavam a “guerra fiscal”, o projeto maior de Suape foi tomando forma, mobilizando governos de bases políticas distintas, contando com o apoio irregular do governo federal.O que se tem hoje é um ativo estratégico, com porto moderno, muito bem localizado, em franca expansão (triplicou o movimento de cargas e quintuplicou o de contêineres entre 2003 e 2010); um ativo estratégico com Plano Diretor atualizado, com um amplo distrito industrial possuindo um perfil diversificado e portador de futuro (novos tipos de indústrias). Trata-se de um Complexo diferenciado no que se refere à dimensão ambiental, pois 51% da área é destinada à preservação. Suape está se tornando um germe de nova centralidade econômica na região metropolitana do Recife.A questão é que Suape convive com um entorno complexo: herdeiro de grande pobreza (cidades e população); recém-saído do rápido fechamento de numerosas usinas; dotado de rico patrimônio natural e cultural (polo turístico nacional – o melhor destino de praia do Brasil); com infraestrutura de acessibilidade insuficiente para os novos tempos; inserido numa metrópole em redefinição e dialogando com municipalidades pouco estruturadas.Nesse sentido, Suape, ao mesmo tempo em que é uma grande oportunidade para Pernambuco, é também um grande desafio que passa pela necessidade de ações concretas visando a um crescimento sustentável e profundas mudanças na cultura empresarial, dos governos e da sociedade em geral.* Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
Mulheres plantam arroz de terras úmidas perto da baía de Lang Co, no Mar da China Meridional. Foto: Photostock/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Arrozais invadidos pelo mar

[caption id="attachment_49836" align="alignleft" width="340" caption="Mulheres plantam arroz de terras úmidas perto da baía de Lang Co, no Mar da China Meridional. Foto: Photostock/IPS"][/caption]Arrozais do delta do Rio Mekong já sofrem a elevação do nível do mar nessa zona que é a “tigela de arroz” do Vietnã, o segundo maior exportador desse grão.Bangcoc, Tailândia, 23 de abril de 2012 (Terramérica).- Com a ameaça do mar que se eleva e as águas salgadas que adentram no fértil delta do Rio Mekong, o futuro do Vietnã como grande exportador de arroz depende em boa parte de uma pesquisa que é realizada nas Filipinas. Cientistas do Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz (Irri) trabalham com colegas vietnamitas na localidade de Los Baños, 63 quilômetros a sudeste de Manila, desenvolvendo uma nova variedade de arroz que resista até duas semanas submerso em água salobra.Uma variedade chamada “arroz mergulhador”, pelo gene SUB 1 que lhe permite ficar completamente sob a água tanto tempo, já oferece metade da solução. “O Irri realiza experimentos para encontrar uma variedade que dê resposta aos dois problemas. Mesmo um arroz tolerante à inundação pode morrer devido à salinidade”, explicou Bjoern Ole Sander, cientista desse instituto não governamental.A busca por este arroz começou no Estado indiano de Orissa, lar de um arroz que retoma o crescimento após ter permanecido até 14 dias submerso, o que o diferencia de outras variedades que morrem se estão sob água por mais de uma semana. “Isto foi conseguido sem manipulação genética, com o fitomelhoramento da variedade SUB 1, que pode ficar submersa por 17 dias”, explicou Bjoern ao Terramérica.O arroz, domesticado há cerca de 12 mil anos, é o principal alimento de boa parte da humanidade, especialmente na Ásia, e é o terceiro grão de maior produção mundial, depois do milho e do trigo. Em sua longa história, adaptou-se a diversas condições climáticas e práticas agrícolas. Na Ásia é muito comum seu cultivo semiaquático em áreas inundadas (conhecidas em inglês como paddy fields), tanto planas como em montanhas. Hoje é o único cereal que pode suportar submersão.No entanto, uma coisa é esse substrato aquoso controlado, de cinco a 15 centímetros de altura, e outra são as inundações causadas pela elevação do nível do mar. Encontrar uma variedade resistente à salinidade, que possa ser combinada com o SUB 1 é mais complexo. “Demorará pelo menos quatro anos. Esta seria a resposta aos problemas que o delta do Mekong enfrenta”, pontuou Bjoern.O Mekong nasce na planície do Tibete e percorre 4.880 quilômetros serpenteando através de China, Birmânia, Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã, em cujo território desemboca no Mar da China Meridional. Esta desembocadura, um extenso delta de 39 mil quilômetros quadrados no extremo sudoeste do Vietnã, é conhecida como a “tigela de arroz” desse país. A água marinha, que há 30 anos avançava até dez quilômetros no delta, agora penetra até 40 quilômetros.“O futuro do delta está em jogo. Por isso trabalhamos com o Irri para desenvolver esta variedade de arroz”, explicou Nguyen Van Bo, presidente da Academia de Ciências Agrícolas do Vietnã, uma entidade apoiada pelo governo de Hanói. “Dos arrozais do delta, 7% já estão sob o efeito da elevação do mar”, acrescentou. Os agricultores já começaram a mudar de ocupação: muitos passam do cultivo de arroz para a criação de camarões, contou ao Terramérica. “Existe uma mudança muito clara em relação a épocas anteriores, quando o cultivo de arroz e a criação de camarões eram estacionais”, observou.O futuro do Vietnã não é bom, particularmente no delta, alertaram especialistas asiáticos em agricultura e mudança climática reunidos nos dias 11 e 12 deste mês, em Bangcoc. É que existe a necessidade de somar os males que causam os erráticos padrões meteorológicos que prejudicam outros importantes produtores de arroz da região, como a Tailândia. Com rendimento de três colheitas anuais, o delta fornece quase metade dos 42 milhões de toneladas de arroz em casca que o Vietnã produz, segundo maior exportador mundial depois da Tailândia.Em 2011, o Vietnã exportou o recorde de sete milhões de toneladas de arroz, principalmente para as Filipinas e outros mercados asiáticos. O Vietnã tem 87 milhões de habitantes. A rede de rios e riachos que forma o Mekong em seu delta é crucial para a produção de arroz da qual dependem mais de 17 milhões de pessoas que moram nessa área úmida e plana. Quatro represas construídas pela China no curso acima do Mekong foram as primeiras a afetar os produtores de arroz do delta.Na medida em que diminuiu o fluxo do caudaloso rio, a água salgada abriu passagem terra adentro, e a sedimentação que o Mekong distribuía pelo delta durante as inundações de monções anuais também caíram, afetando a fertilidade natural da região. O certo é que as represas proporcionaram pistas sobre o possível impacto da mudança climática. Quase um terço do delta pode ficar submerso em água salgada se o nível do mar aumentar um metro, alertava em 2009 um informe do Instituto Nacional de Hidrometeorologia e Ciência Ambiental.Estudos do Banco Mundial sobre 87 países pobres indicam que as comunidades do delta do Mekong estão entre as mais ameaçadas pelo aumento do nível do mar. Alertas científicos indicam que 21% dos cultivos da Ásia serão afetados pelo aquecimento global até 2050. Porém, este dado ainda não foi suficiente para que os governantes de mais de 190 países incluam a agricultura nas negociações da próxima Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança Climática.“A agricultura e a produção alimentar são mencionadas na Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, mas isso não se traduz em um programa específico de trabalho”, alertou Bruce Campbell, diretor do Grupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR), patrocinado por várias agências das Nações Unidas e pelo Banco Mundial. “Não há uma voz comum sobre a agricultura nas negociações da Convenção Marco. A mudança climática se faz sentir nos sistemas agrícolas e coloca em risco os cultivos”, disse ao Terramérica. “Os sistemas agrícolas devem se transformar para que a agricultura seja resistente ao clima”, apontou.* O autor é correspondente da IPS. LINKSMekong revolto diante dos avanços da China, em espanholProjeto de represa causa incertezas no Mekong, em espanholAlta de preços, não por escassez, em espanholCorredores para a vida no Mekong, em espanholInstituto Internacional de Pesquisas do Arroz, em inglêsGrupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola Internacional, em inglês Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde. 


por Marwaan Macan-Markar*
Manifestantes ecologistas na conferência sobre mudança climática de Copenhague, em 2000. Foto: Ana Libisch/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Rio+20: Diálogos para o futuro

[caption id="attachment_49832" align="alignright" width="340" caption="Manifestantes ecologistas na conferência sobre mudança climática de Copenhague, em 2000. Foto: Ana Libisch/IPS"][/caption]Uma plataforma online que admite até 400 mil pessoas conectadas ao mesmo tempo permitirá apresentar recomendações aos governantes reunidos na Conferência Rio+20.Rio de Janeiro, Brasil, 23 de abril de 2012 (Terramérica).- Inovar e redobrar a pressão sobre os governos é o lema da sociedade civil com vistas à Rio+20, que tem a ambiciosa meta de mudar a forma como a humanidade se relaciona com o planeta. A Rio+20 é a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que acontecerá entre 20 e 22 de junho no Rio de Janeiro, mesma cidade onde em 1992 aconteceu a histórica Cúpula da Terra.Ali será discutida a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável, da erradicação da pobreza e do âmbito institucional para se alcançar esse desenvolvimento. “Há muita preocupação pelo que vai acontecer, há ceticismo”, disse ao Terramérica o coordenador executivo do não governamental Instituto Vitae Civilis, Marcelo Cardoso. “Para nós será uma oportunidade para que a sociedade civil internacional busque em conjunto agendas de convergência” com as autoridades e o setor privado para chegar ao consenso, explicou.Na Agenda 21, um plano de ação adotado na Cúpula da Terra, está prevista a participação social, organizada em nove grupos principais para influir nas negociações intergovernamentais: povos indígenas; agricultores; trabalhadores e sindicatos; autoridades locais, empresas e indústrias; comunidade científica e tecnológica; mulheres, crianças e jovens; e organizações não governamentais. Estes grupos tentam incidir nas discussões formais e organizam campanhas e atividades paralelas no Fórum de Setores Interessados para um Futuro Sustentável (Stakeholder Forum for a Sustainable Future).“A sociedade civil organizada tem que assumir um papel planetário”, afirmou Marcelo. Trata-se de um coletivo fundamental para “os processos decisórios, mas complexo e muito fragmentado”, reconheceu. “Queremos aglutinar as organizações que trabalham o tema da economia verde e integrar programas”, enfatizou. Em 1992, a sociedade civil teve um papel de contexto. “Hoje precisa agir em conjunto com o setor privado e o governamental”, insistiu.O Instituto Vitae Civilis foi um ator civil destacado em 1992, quando foram adotadas as definições sobre desenvolvimento sustentável. Desde 2008, participa das discussões na Organização das Nações Unidas (ONU) para redação do documento final da Rio+20, conhecido como zero draft (rascunho zero), integrando o grupo de organizações não governamentais. Além deste documento, da Rio+20 deverá surgir um programa de metas de sustentabilidade que inclua da erradicação da pobreza até a estabilização do clima planetário, embora o mais provável seja a não adoção de compromissos obrigatórios.Também deverão ser assentadas as bases de instituições globais com poder para implantar e fazer cumprir o que for acordado. Segundo sua definição tradicional, o desenvolvimento sustentável atende as necessidades humanas do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de fazerem o mesmo. Como princípio orientador de longo prazo, se compõe de três pilares: os avanços econômico e social e a proteção ambiental.No entanto, as últimas décadas testemunharam poucos progressos desse modelo, e hoje o mundo enfrenta uma crise econômica e financeira que afeta sobretudo o Norte industrializado e crises mais profundas e duradouras, como a climática, a perda de biodiversidade e de recursos naturais e a persistência da pobreza. A Rio+20 corre o risco de acabar em um grande retrocesso para a natureza, alertam 18 especialistas em meio ambiente, ex-ministros e legisladores do Brasil em um documento divulgado no dia 18.Os autores do documento – entre eles a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva – consideram que a agenda da cúpula está muito “diluída”, pois não colocou o ambiental como eixo principal. Para Carlos Henrique Painel, coordenador do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, o desafio social é apresentar as “verdadeiras soluções”. Painel é um dos organizadores da Cúpula dos Povos sobre a Rio+20 pela Justiça Social e Ambiental, que entre 15 e 23 de junho buscará ser contraponto da conferência oficial.Muitas organizações criticam o conceito de economia verde como uma “monetização da natureza e dos bens comuns”, alertou Carlos Henrique ao Terramérica. O que se necessita é um “novo pacto para uma agenda global. Queremos apontar para as causas das crises estruturais que vivemos, mostrar as verdadeiras soluções que os povos praticam, como agroecologia e permacultura”, explicou.O negociador-chefe da delegação brasileira na Rio+20, embaixador André Corrêa do Lago, afirmou que a sociedade civil não só poderá fazer sugestões como também influir nos rumos e nas opções que muitos países tomarem. Desde o dia 16 deste mês, uma plataforma virtual, a Rio+20 Diálogos (www.riodialogues.org/es), pretende melhorar essa participação, informou o diplomata em um seminário para jornalistas.A ferramenta, que suporta até 400 mil pessoas conectadas ao mesmo tempo, busca reunir especialistas mundiais do setor acadêmico, da sociedade civil, das empresas e dos meios de comunicação que definam recomendações práticas “que serão comunicadas diretamente aos chefes de Estado e de governo durante as sessões de alto nível”.Os diálogos, explicou o embaixador, estão organizados em dez tópicos: água; florestas; ecocidades e inovação; desenvolvimento sustentável como resposta às crises econômicas; desemprego, trabalho decente e migrações; economia do desenvolvimento sustentável; energia sustentável para todos; erradicação da pobreza; oceanos; e segurança alimentar e nutrição. Por meio da tecnologia, pode-se assegurar uma “participação grande e inovadora”, estimou. Embora não seja ideal, “é uma contribuição importante”, concluiu.* A autora é correspondente da IPS. LINKS Mais ecologia e menos economia na Rio+20Sociedade civil deve assumir as rédeas da Rio+20Sociedade civil busca salvar a Rio+20ONGs brasileiras criticam indefinição de proposta para a Rio+20“Rio+20 deve dar um impulso sustentado”Sociedade civil, a nova superpotência – Cobertura especial da IPS, em espanholRio+20, em inglêsRascunho zero do documento final da Rio+20, em inglêsInstituto Vitae CivlisFórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, em português e inglêsCúpula dos PovosFórum de Setores Interessados para um Futuro Sustentável (Stakeholder Forum for a Sustainable Future), em inglêsDiálogos Rio+20, em português, inglês, espanhol e francêsArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde. 


por Fabíola Ortiz, da IPS

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Ande a pé. Isso evita a queima de combustível e o lançamento de gás carbônico na atmosfera e, consequentemente, diminui o efeito estufa.
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Aproveite o sol como fonte de energia limpa. Instale painéis fotovoltáicos em sua residência ou empresa.
Na hora de comprar, escolha produtos com rótulos ecológicos e com menos embalagem, assim você estará escolhendo poluir menos o planeta.
Utilize lâmpadas de baixo consumo, elas economizam até 80% de energia e duram bem mais.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

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