Difícil, mas não há outro caminho

Artigo

Difícil, mas não há outro caminho


por Washington Novaes, do O Estado de S.Paulo


No emaranhado de notícias sobre as crises que cercam o mundo de hoje – clima, uso insustentável de recursos naturais, economia europeia – sobrevêm informações que despertam a esperança de que, apesar de tudo, se possa caminhar. Ou, pelo menos, definir – como nas discussões sobre a Conferência Rio+20 – rumos mais adequados.Pode-se começar pela notícia (Estado, 24/3) de que a Fundação Getulio Vargas de São Paulo passará a calcular o índice de Felicidade Interna Bruta, mais amplo que o de evolução do produto interno bruto (PIB), restrito a fatores econômicos, e que passará a ser apenas um dos componentes do novo índice, ao lado dos valores e custos ambientais, gastos com segurança pública, desastres naturais e outros. É um avanço importante. Desde a década de 1990, pelas mesmas razões, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) vem calculando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que inclui a esperança de vida ao nascer, taxas de alfabetização de adultos e de matrículas no ensino, ao lado do PIB per capita.Há pouco tempo o presidente da França encarregou uma comissão integrada pelos Prêmios Nobel Amartya Sen e Joseph Stiglitz, entre outros cientistas, de propor novo índice para medir o desenvolvimento que inclua esses novos fatores, a eles acrescentando o valor do trabalho doméstico, principalmente das mulheres, o valor do trabalho informal e outros. São caminhos para incorporar às políticas públicas ângulos que ficam de fora quando se dá prevalência absoluta a fatores apenas econômicos. Agora, divulga-se também (Folha de S. Paulo, 2/4) que a própria ONU "começa a implementar resolução que busca um 'padrão holístico' para medir o desenvolvimento dos países", capaz de também de "mensurar a felicidade e o bem-estar dos povos". O tema será discutido na Rio+20, inclusive por Stiglitz. Brice Lalonde, secretário executivo da Conferência, pensa que ali será adotado um mandato de três anos para que a ONU defina indicadores alternativos ao PIB que incluam o peso dos impactos naturais.Certamente não será fácil nem simples definir como valorar recursos e serviços naturais, incluí-los nas contabilidades nacionais e internacionais, estabelecer critérios para cobrar o custo de impactos nessa área, dizer quem vai pagá-los – cada país, cada empresa, cada pessoa? O exemplo da tentativa europeia de taxar as emissões geradas na aviação e na navegação marítima é muito indicativo: onde se taxará – no país de origem, no destino ou nos países intermediários? Pode-se avançar também para o campo do comércio exterior: onde taxar as emissões geradas pela produção de bens exportados – no país de origem dos recursos ou nos países de destino, consumidores?Ao que parece, os organizadores da Rio+20 esperam que ao final dos debates se produzam "pelo menos" quatro relatórios "de destaque" (Instituto Akatu, 3/4): uma carta oficial de compromissos dos países com o desenvolvimento sustentável, recomendações da sociedade civil aos governos, ações que possam ser assumidas pelos governos, empresas e cidadãos, e a lista de intenções e metas de desenvolvimento de cada país para seu âmbito interno – tal como enunciou a secretária do Ministério do Meio Ambiente, Samyra Crespo.Se os princípios em discussão chegarem à prática, encontrarão panoramas difíceis, como o apontado pelo professor Ricardo Abramovay, da USP, segundo quem "a extração de recursos da superfície terrestre cresceu oito vezes durante o Século 20, atingindo um total de 60 bilhões de toneladas anuais, considerando apenas o peso físico de quatro elementos: minérios, materiais de construção, combustíveis fósseis e biomassa" (Eco 21, fevereiro/2012). Insustentável. É o que começam a dizer tantos economistas sobre a finitude dos recursos materiais. Pelo mesmo caminho, diz o Instituto Carbono Brasil (Fabiano Ávila, 30/3), o aumento do PIB dos países emergentes tem ocorrido com "exploração abusiva da biodiversidade e dos recursos minerais". No caso brasileiro, ao aumento de 34% no PIB entre 1990 e 2008 teria correspondido um queda de 46% no "capital natural" no mesmo período. E acrescenta: "Se todos os fatores sociais, energéticos e manufaturados fossem levados em conta, o 'crescimento real' do Brasil seria de apenas 3%". É a conclusão da Conferência Planeta sob Pressão, realizada em Londres.Pena que num momento como este nossa presidente da República atribua a "fantasias" as críticas de vários setores à construção de hidrelétricas como Belo Monte e outras amazônicas, e diga que essas elucubrações distantes da realidade não serão discutidas na Rio+20. Porque, na sua visão, as críticas partem de quem acredita que o desenvolvimento ocorrerá apenas com energia solar (abundante) e eólica (já a preços competitivos) – até porque, segundo ela, não é possível "estocar vento".O ex-ministro professor José Goldemberg já considerou o discurso da presidente "um mau presságio" para a Rio+20. E tem razão. O que se esperava é que, numa conferência como essa, o governo discutisse a matriz energética nacional; estudos como o que produziram a Unicamp e o WWF já em 2006, mostrando que o país pode economizar cerca de 50% da energia que consome – quase 30% com programas de eficiência e conservação de energia (tal como fez no apagão de 2001), 10% reduzindo as inacreditáveis perdas nas linhas de transmissão (próximas de 17%), e mais 10% repotenciando antigos geradores de usinas, a custos muito mais baixos. E que o governo se dispusesse a discutir o plano de expansão de usinas nucleares, no momento em que quase todo o mundo as abandona (porque são perigosas, caras e sem destinação para o lixo nuclear).Mas não se deve perder a esperança – mesmo porque não há outro caminho.* Publicado originalmente no site O Estado de S.Paulo.

Por aqui, quem não tem corvo vai com frango. Montagem: Leronardo Sakamoto Artigo

“Não será um Código Ambiental perfeito.” E Dilma levou suas palavras a sério

[caption id="attachment_49757" align="alignright" width="600" caption="Por aqui, quem não tem corvo vai com frango. Montagem: Leronardo Sakamoto"][/caption]Em janeiro, Dilma Rousseff teve uma reunião de portas fechadas com movimentos e organizações sociais durante o Fórum Social, em Porto Alegre (RS). Foi questionada quanto ao projeto do novo Código Florestal, que tem sido alvo de críticas de cientistas e parte da sociedade civil por flexibilizar a legislação de proteção ambiental.Diante das reclamações, afirmou: “Não será, adianto para vocês aqui, o sonho dos ruralistas. Não será também um Código Ambiental perfeito. Tem ruralista e tem ruralista, como tem pequeno agricultor que tem horror ao Código Florestal”.Nesse sentido, o governo parece estar se esforçando para que o Código fique longe da perfeição e mais próximo do sonho dos ruralistas.Reportagem de Claudio Angelo e Valdo Cruz, na Folha de S.Paulo de hoje (14/4), afirma que Dilma deu o sinal verde para um acordo sobre a reforma do Código Florestal que flexibiliza ainda mais a recomposição de áreas desmatadas ilegalmente, anistiando pequenos e médios produtores rurais. As mudanças não beneficiariam os grandes. De acordo com a matéria, o acordo prevê que a Câmara elimine do texto em tramitação o artigo que estabelece as faixas mínimas de recomposição das Área de Preservação Permanente (APPs) em margens de rios.Com isso, o governo dispensaria, via medida provisória ou projeto de lei, pequenas e médias propriedades de repor vegetação. Isto consolida desmatamentos ocorridos em APPs em ao menos 92% das propriedades rurais – que representam 30% das terras agricultáveis do país. Eventuais recomposições serão decididas pelos Estados. Ou seja, não contem muito com recomposição de APPs.O projeto do novo Código Florestal tornou-se polêmico por propor um enfraquecimento na proteção ambiental do país. Anistia para quem cometeu infrações ambientais, isenção de pequenas propriedades de refazerem as reservas desmatadas, redução da faixa mínima de mata ciliar que deve ser preservada à beira de cursos d’água, estão entre as medidas. Proíbe novos desmatamentos por um prazo de cinco anos, algo difícil de cumprir uma vez que a política do fato consumado já mostrou que é o forte por aqui.Há alguns anos, venho escrevendo que o Ministério do Meio Ambiente tem menos controle sobre o desmatamento na região amazônica do que a Chicago Board of Trade, nos Estados Unidos, onde se define o preço mundial da soja, por exemplo. O grão passou um longo período com preço baixo no mercado internacional, o que freou sua expansão sobre a Amazônia e o Cerrado. Agora está nas alturas – e, portanto, ouve-se o ronco das motosserras. Muitas vezes, com financiamento público, ou seja, seus, meus, nossos impostos.O passa-moleque que a ministra Izabella Teixeira levou agora de Dilma Rousseff é bastante representativo disso, uma vez que ela era contrária a ceder o que o Planalto agora deve liberar.E o discurso de desenvolvimento sustentável e da necessidade de garantir qualidade de vida para as futuras gerações? Como diria o assessor de Bill Clinton: “É a economia, estúpido!”* Publicado originalmente no site Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto
Foto: Tuca Vieira Artigo

A sustentabilidade que eu quero

[caption id="attachment_49754" align="alignleft" width="400" caption="Foto: Tuca Vieira"][/caption]Às vésperas da Rio+20, lembremos que jamais existirão soluções universais para combater a mudança climática – nosso mundo é pleno de diferenças.Em 2012, a Conferência Rio+20 promete trazer ao debate sobre desenvolvimento sustentável ativistas, militantes, líderes políticos e governos. Juntos, tentarão dar conta do complexo e difícil quebra-cabeça contemporâneo: preservar o meio ambiente. Há quem diga que só a extinção do capitalismo poderia salvar a humanidade de uma hecatombe impulsada pelo uso predatório de recursos naturais. Há quem defenda que, mesmo dentro deste sistema produtivo, é possível criar desenvolvimento sustentável e manter – ou melhorar – nosso padrão de vida e conforto.Eu penso que, com ou sem capitalismo, as estruturas sociais é que farão a diferença na vida das pessoas. Começo por um caso simples: numa cidade, o espaço não é homogeneamente distribuído entre os habitantes. Os pedaços de terra, casas, apartamentos são muito diferentes entre si e acarretam diferentes consequências na vida de seus moradores. Em São Paulo, quem mora no Jardim Pantanal não poderia, por livre e espontânea vontade, mudar-se para um apartamento na Vila Madalena. O Jardim Pantanal fica boa parte da época de chuvas alagado (ironia?) e a Vila Madalena não. As mudanças climáticas influenciam na quantidade de precipitação, no regime de rios e lagos. Seus efeitos não são os mesmos num bairro e no outro.Para ficar em outro exemplo óbvio, o aumento da amplitude térmica sempre será mais tranquilo para quem pode comprar casacos quentinhos, tem onde morar, está bem alimentado e pode ligar o ar-condicionado.O fato é que os próprios mecanismos para driblar os efeitos das mudanças climáticas correm o sério risco de converter-se em mercadorias. Nisso, estou com os que atacam esta questão pela raiz: numa estrutura capitalista de classes, onde recursos e grana não são distribuídos igualmente, será sempre impossível implementar soluções ambientais totalmente democráticas.Contudo, há ainda outros tipos de desigualdade social que parecem interferir diretamente na distribuição desigual de impactos das mudanças climáticas. Com o racismo estrutural no Brasil, por exemplo, é fácil prever que brancos e negros sofram de forma distinta este processo. Mesmo que haja políticas públicas sólidas de amparo a grupos sociais desprivilegiados, o tratamento dado pelo Estado e seus agentes (sejam eles policiais, funcionários públicos, políticos, etc.) não será muito igualitário. O racismo estrutural é anterior, está na forma com que moldamos nossas visões de mundo. Numa situação limite, em quem confiar? De quem desconfiar?A desigualdade de gênero, me parece, também é brutal. Quando há uma enchente, quem é que limpa a casa depois? Quem é que precisa se deslocar e abandonar a família para obter trabalho semiescravo nas grandes cidades? Quando esses maridos se vão, quem é que fica com os filhos e cuida da propriedade, da colheita, da água? O impacto das mudanças climáticas varia, ainda, entre homens e mulheres (embora “gênero” não diga respeito apenas a estas duas formas de classificar pessoas). Buscar trabalho, prover comida e conforto, trabalhar na lavoura, fazer jornadas triplas, quádruplas. Cuidar dos recursos e da saúde das crianças. Tudo isso se transforma substancialmente num contexto de mudanças climáticas.Frequentemente esquecemo-nos, ao elaborarmos políticas públicas, que não somos uma sociedade igualitária. Estas políticas costumam ser elaboradas tendo em mente o “ser humano universal”. O problema é que de universal esse ser humano não tem nada: é homem, branco, urbano e rico. Sem entendermos as especificidades cotidianas impostas pela estrutura social a diferentes grupos, as políticas ambientais só poderão salvar aqueles mesmos que as elaboram.* Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Marília Moschkovich, do Mulher Alternativa
Graças a representação em aquarela, muitas espécies saem do anonimato e são salvas da extinção. Biblioteca

“Plantas Brasileiras”: a natureza eternizada

[caption id="attachment_49751" align="alignright" width="270" caption="Graças à representação em aquarela, muitas espécies saem do anonimato e são salvas da extinção."][/caption]Livro com aquarelas da ilustradora botânica Dulce Nascimento mostra a beleza de uma profissão rara e importante.Segundo o Programa de Meio Ambiente da ONU, seis milhões de hectares de florestas primárias são perdidos todo ano. Diante deste cenário assustador, o trabalho dos ilustradores botânicos nunca foi tão importante: cabe a eles registrar uma planta com a maior fidelidade e detalhamento possível, garantindo o reconhecimento do vegetal antes que este seja extinto para sempre. É também graças à representação em aquarela que muitas espécies saem do anonimato, tornam-se populares ou até mesmo são salvas da extinção.Técnica que se equilibra entre a arte e a ciência, o desenho botânico é milenar, vem desde os tempos dos egípcios. Mesmo assim, continua uma profissão relativamente desconhecida da população. Com mais de 30 anos de carreira, a ilustradora Dulce Nascimento, discípula de Maria Werneck de Castro, já registrou centenas de novas espécies do país. Algumas de suas estampas viraram selos, outras foram presenteadas à Rainha da Inglaterra. Um panorama de seu árduo trabalho encontra-se no recém-lançado Plantas Brasileiras, que traz desde as suas primeiras aquarelas até as diversas espécies amazônicas representadas pela artista em excursões, como cipós, bromeliáceas e orquidáceas.ON: Qual a função do desenho botânico?DN: A principal função do desenho botânico é a de registrar graficamente os detalhes dos vegetais que são objeto de estudos do cientista. Ele produz um texto descritivo em suas pesquisas, complementado por essas imagens. Para a ciência, é um poderoso instrumental, auxiliado nos dias atuais por novas tecnologias, tecnologias essas que não o substituem mas ajudam em sua produção. Do desenho exige-se precisão e acuidade na representação dos elementos que informam sobre a espécie ilustrada de modo que não seja confundido com uma espécie semelhante.ON: No que diz respeito ao registro de uma espécie, o desenho é mais preciso e tem um maior detalhamento do que tecnologias de imagens mais modernas, como a fotografia?DN: A fotografia e as novas tecnologias, que aliás são muito bem-vindas como aporte para o aprimoramento de nosso trabalho, são na verdade um outro tipo de linguagem. E para a ciência, o desenho dá foco e relata detalhes de uma maneira que essas tecnologias não alcançam. No desenho, buscamos esclarecer visualmente partes internas e externas relevantes ao seu estudo, como suas texturas, cores, formas e organização dos elementos entre outros detalhes, que facilitam seu reconhecimento pelo pesquisador, o que proporciona a imediata identificação.ON: Quais as maiores dificuldades enfrentadas por ilustradores botânicos? Por que é tão difícil chegar ao tom das cores?DN: Em se tratando do Brasil, são várias as dificuldades: a falta de coordenação entre os cursos que aqui são oferecidos, a falta de regulamentação da profissão, a consequente falta de difusão que proporcione o entendimento da estreita ligação com a ciência em todas as áreas (medicina, geografia, botânica, zoologia, arqueologia, entre outras). Quanto ao se chegar à cor, é uma das diversas etapas na execução de um trabalho, é necessária absoluta concentração e mistura na medida exata de pigmentos para se obter o tom desejado. Mas nada que um conhecimento técnico e uma experimentação paciente comparando sempre a cor misturada com a cor do “modelo ao vivo” não possa resolver.ON: É difícil se equilibrar entre a questão artística e as obrigações técnicas?DN: Nem tanto, porque uma questão está tremendamente ligada à outra. Uma prancha ilustrada, resultado final de um estudo, tem que ter uma apresentação harmoniosa, uma distribuição equilibrada da representação dos elementos que foram selecionados para figurar ali. A obrigação técnica só ajuda nesse equilíbrio, que por depender de tantos detalhes e atenção, consequentemente acaba também sendo uma apresentação artística. Cada ilustrador vai “traduzir” para a linguagem pictórica o objeto de seu estudo de maneira pessoal e particular, entretanto tendo como comum o fato de que está fazendo um documento, um registro para a ciência e para a posteridade. Ou seja, é artístico na forma e científico em seu conteúdo.ON: Até que ponto o desenho pode tirar do anonimato, popularizar ou até salvar uma espécie em extinção?DN: Quando as pessoas percebem algo que já fez parte da história do planeta, é primeiramente pela informação visual. O desenho que foi a primeira linguagem humana é o ponto de partida para estimular uma investigação. Um bom e sempre citado exemplo é o relato da vida do homem das cavernas, pois por intermédio dos desenhos feitos por ele, temos informações de como era o ambiente em que vivia naquela época. Nos dias de hoje, ao registrar uma espécie ameaçada, estamos sinalizando em favor de sua preservação. Unidos aos cientistas/pesquisadores, podemos chamar a atenção para o fato, inclusive relatando em conjunto as propriedades daquela espécie e o papel que ela desempenha no ecossistema aonde se encontra. O ideal é que esses trabalhos sejam cada vez mais divulgados e conhecidos de modo que os cuidados para evitar a tragédia da extinção sejam postos em prática de preservação.ON: Ilustradores botânicos também registram desmatamentos, queimadas e outros descasos. Em que medida isto é diferente de descrever espécies?DN: A diferença está na forma do registro, que nesses casos passa a ser documental de um ecossistema, de uma área determinada e não de uma espécie em particular. Nesses casos, o desenho propõe uma reflexão sobre fatos que ameaçam vários ecossistemas, é diferente porque se trata de um alerta ambiental e não de um estudo específico, mas é tão valioso quanto.ON: Como se sente ao pensar na quantidade de espécies que devem ter desaparecido sem que a ciência nunca as tenha descrito?DN: Como todas as pessoas que pensam em suas responsabilidades individuais no tocante aos cuidados ambientais, me sinto frustrada, dolorida até por termos “evoluído” tanto como humanos, mas sem respeitar o planeta como ele merece. Porque uma árvore sobrevive sem o homem, mas com o homem não acontece o mesmo. Gostaria muito de ver essa consciência se espalhando em todos os níveis, não só na minha área de atuação, mas de uma forma bem mais abrangente. Até porque acredito que o chamado “progresso” é possível e desejável quando acontece sem causar danos, alguns irreversíveis. Pode parecer utopia, mas devemos considerar cada bioma deste planeta e cada ecossistema como parte de nós, seres vivos que somos: indissolúvel.Registrando plantas[caption id="attachment_49750" align="alignleft" width="150" caption="Memora magnifica."][/caption]Memora magnifica“Quando em 1991 ilustrei espécies de cipós, um deles a Memora magnifica (pág. 62 do livro), um dos lugares que fui chamava-se Piranheira. Depois de viajar no land rover doado pela Inglaterra ao Museu Goeldi, por estradas de barro num dia inteiro de muito sol, chegamos lá suados e cansadíssimos por volta de meia-noite. Era uma noite abafada e quente de novembro e ficaríamos em um abrigo sem água e luz. Assim que tiramos toda nossa bagagem do carro, eu e a pesquisadora botamos maiô e fomos correndo tomar banho no riacho que soubemos passava nos fundos do abrigo. Era um riacho calmo com aquele barulhinho da água passando entre pedras roliças, ficamos quase uma hora de conversa naquela água fresquinha olhando para a lua crescente num céu negro. No dia seguinte, acordei e havia uma senhora no abrigo coando café, contratada para nos dar apoio e começamos a conversar com ela. Quando perguntei se ela sabia o motivo daquele lugar se chamar Piranheira ela respondeu: é que no igarapé lá atrás tem piranha, raia e jacaré! Não tive dúvidas que todos têm anjos da guarda.”[caption id="attachment_49749" align="alignright" width="150" caption="Tabebuia insignes."][/caption]Cipó da família Bignoniaceae“Quando participo de uma expedição geralmente fico dias ou semanas na mata. Vou pintando o que o pesquisador acha importante. Há dia que pode não surgir nada e há dia que pode surgir até três como uma vez. Estávamos em um barco do Museu Goeldi e desta vez a expedição chegou até o médio Xingu. Esforcei-me nesse momento ao máximo, colocando os três ramos coletados à minha frente. A viagem seguia em frente, o barco balançava e ventava e fui ilustrando nessa situação; desenhava um pouquinho de cada planta numa espécie de rodízio pondo a prova meu equilíbrio emocional e minha técnica, sem saber se ia dar conta, mas apostando em não perder a oportunidade de documentar espécies que ninguém saberia dizer se seriam novamente encontradas, provavelmente não. Nesta expedição, consegui bons registros de cipós da família Bignoniaceae.”[caption id="attachment_49747" align="alignleft" width="150" caption="Cycnoches pentadactylum."][/caption]Cycnoches“Para ilustrar é preciso registrar todos os detalhes importantes para o cientista que a estuda, deve-se sempre ter a planta ao vivo. Esta é a prancha da orquídea Cycnoches pentadactylum, que ocorre no Tocantins e as delicadas flores ficam pendentes em cachos. Pintei ela quando morava em Belém do Pará. Manoela Silva que é uma importante pesquisadora de orquídeas do Museu Emilio Goeldi me emprestou para ilustrá-la. Mas as flores caiam com muita facilidade e resultado: aqueles dias que pintei ela, foram um grande exercício de controle, pois eu ficava pintando e no meio do trabalho a flor despencava na minha frente, lembro ainda o perfume de chocolate que tinham. Tive que entrar noite adentro pintando senão quando eu acordasse não teria mais nenhuma presa ao caule e eu não terminaria o trabalho. Um ano depois, no Rio, esta prancha seria adquirida pelo então presidente Fernando Henrique para ser o presente de Estado para a Rainha da Inglaterra.”[caption id="attachment_49746" align="alignright" width="150" caption="Philodendron ruthianum."][/caption]Philodendron ruthianum“Espécie nova encontrada na Reserva Florestal de Linhares, foi ilustrada pela primeira vez. O projeto Brasileiro Imortal, da Vale, a escolheu para homenagear a Sra. Ruth Cardoso e por isso foi nomeada Philodendron ruthianum pelo botânico Marcus Nadruz. A estampa virou selo.”Victoria amazonica[caption id="attachment_49745" align="alignleft" width="240" caption="Victoria amazonica."][/caption]“Esta é a folha, flor e ambiente da vitória-régia, de nome científico Victoria amazonica. Ao final da tarde seus botões se abrem muito alvos. Emite um perfume agradável para atrair seu polinizador que é um pequeno besouro. Aos poucos a flor branca vai se tornando rosa clara e a cada hora adiante essa cor rosa se intensifica até atingir na manhã seguinte este tom de rosa-choque, ela murcha e se desfaz”.* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Bolívar Torres, do Opinião e Notícia
Trecho do rio Xingu (foto), onde está sendo construída a usina de Belo Monte. Foto: NYT Belo Monte

Belo Monte: os problemas de um projeto político

[caption id="attachment_49742" align="alignleft" width="300" caption="Trecho do Rio Xingu (foto), onde está sendo construída a usina de Belo Monte. Foto: NYT"][/caption]Os problemas envolvendo a usina de Belo Monte, que está sendo construída no Rio Xingu, pouco acima da principal reserva indígena do Brasil, já rodaram o mundo, mas ainda não despertaram a atenção de Brasília.Os últimos anos foram marcados por um debate entre ambientalistas e técnicos, gente que defende pontos de vista específicos e, muitas vezes, inconciliáveis.O projeto passou por ajustes para minimizar seus impactos sobre a região, o lago diminuiu, uma inovadora e também polêmica tecnologia de geração, a “fio d’água”, foi adotada e empresas e fundos estatais foram chamados par financiar o projeto cujo custo está estimado em R$ 25 bilhões (valor solicitado pelo consórcio que toca a obra), mas pode chegar a R$ 35 bilhões no final, devido às compensações que estão sendo pedidas pela prefeitura de Altamira, o município mais atingido. Tudo isso para gerar quatro mil megawatts (médios) de energia, segundo técnicos, em uma estimativa otimista.Belo Monte será construída. A usina já é parte da paisagem política do Brasil, assim como dezenas de outros empreendimentos que estão em obras ou em pranchetas para a Amazônia. Os impactos ambientais sem dúvida serão imensos, mas podem ser o menor dos danos desse iceberg. Ainda no campo político, a Comissão Interamericana dos Diretos Humanos (CIDH), organismo ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), chegou a pedir ao governo brasileiro a suspensão da obra em 2011. O governo ignorou a notificação e seguiu em frente com seus planos. Agora, as questões pendentes de Belo Monte chegam a um campo mais conhecido do governo, a militância sindical, que começa a impor condições para que os trabalhadores sigam em frente com a obra, com greves já realizadas e ameaças constantes de paralisação. Os motivos: “melhores condições de trabalho”.A própria prefeitura de Altamira já solicitou a paralização da obra por conta dos impactos na cidade, que não tem infraestrutura para atender cem mil pessoas a mais que vão utilizar os serviços públicos municipais de educação, saúde e outros. Segundo o IBGE, a cidade tem hoje cerca de 85 mil habitantes. As experiências de ocupação de área despreparadas, sem infraestrutura e sem serviços básicos no Brasil são muitas e, em sua maioria, desastrosas. O melhor exemplo disso é o entorno de Brasília, o que hoje chamamos de “cidades satélites”, mas que na verdade foram formadas por aglomerados de trabalhadores levados ao planalto central para construir a capital federal e depois foram abandonados à própria sorte. Não há nada que indique que será diferente na construção de Belo Monte e de outras grandes obras de infraestrutura na Amazônia.Outra frente de problemas emerge novamente dentro do próprio governo. Um parecer do Ibama mostra que o consórcio responsável pela obra não cumpriu muitas das condicionantes com as quais havia se comprometido para obter a licença de instalação da usina. O relatório apresentado pelo Ibama analisa a trabalho realizado até o período de julho a dezembro de 2011 e aponta que, até a data da sua publicação, apenas uma das 20 condicionantes havia sido atendida – quatro condicionantes não foram cumpridas, quatro possuem pendências e 11 ainda estão em atendimento. Programa de Capacitação de Mão de ObraOs dados apresentados no relatório não refletem a projeção apresentada anteriormente e não foi apresentado o histograma de empregados efetivamente contratados no período ou justificativa para não ter sido atingida a projeção.Programa de Saúde e SegurançaNão foi prevista efetiva solução de responsabilidade do empreendedor para o atendimento regular de saúde dos trabalhadores contratados.Programa de Educação Ambiental para os TrabalhadoresNão foi apresentado relatório específico para o Programa e nenhuma das ações do cronograma apresentado no PBA previstas até o 4º trimestre de 2011 foi iniciada.Projeto de Recomposição da Infraestrutura de SaneamentoA empresa responsável pela execução do Projeto ainda não foi contratada e a execução do cronograma encontra-se significativamente atrasada.Projeto de Reassentamento UrbanoO cadastro socioeconômico foi previsto para estar concluído até o fim do 3º trimestre de 2011, mas ainda está em andamento.Projeto de SaneamentoSegundo o cronograma, a implantação dos sistemas de abastecimento de água, esgotamento sanitário e do aterro sanitário deveria ter sido iniciada ainda no segundo trimestre de 2011, mas ainda não foi implantado em Altamira. Confira a íntegra do Parecer Técnico: http://www.xinguvivo.org.br/wp-content/uploads/2012/02/Parecer-Tecnico-sobre-andamento-do-PBA.pdf* Dal Marcondes é diretor da agência de notícias Envolverde.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Dal Marcondes*
calor Clima

O clima está preso por um fio: a longa e calorosa luta para combater a mudança climática

Em março se registrou o primeiro desastre climático do ano nos Estados Unidos, que provocou mais de US$ 1 bilhão em danos. Os tornados que castigaram quatro dos Estados centrais do país deixaram um saldo de 41 mortos. Mitt Romney está por converter-se no candidato republicano à Presidência e já começa a atacar o presidente Obama com respeito às políticas sobre mudança climática.O Pentágono a conhece. As principais empresas de seguros do mundo a conhecem. Os governos podem ser derrubados por causa dela. É a mudança climática, e é real. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, em março se registraram temperaturas recordes no país, o que o converte no março mais quente desde que começou a ser feito o registro, em 1895. As temperaturas médias estiveram 4,8 graus Celsius acima da média e foram batidos mais de 15 mil recordes de temperaturas máximas em nível nacional. A seca, os incêndios florestais, os tornados e outros eventos climáticos extremos já estão afetando o país.No outro lado do mundo, nas Ilhas Maldivas, o aumento do nível do mar continua ameaçando esse arquipélago do Oceano Índico. Trata-se da nação mais baixa do mundo, com uma média de apenas 1,3 metros sobre o nível do mar. A grave situação das Maldivas foi notícia em nível mundial quando seu jovem presidente, o primeiro presidente eleito democraticamente no país, Mohamed Nasheed, se converteu em uma das principais vozes do mundo que se levantou contra as mudanças climáticas, em particular na etapa prévia à conferência sobre mudança climática da ONU realizada em Copenhague em 2009. Nasheed realizou uma reunião ministerial embaixo da água, na qual seu gabinete vestia equipamentos de mergulho, para ilustrar o potencial desastre.Nasheed declarou: “A mudança climática é um problema real e está acontecendo agora. Não é um problema do futuro. Qualquer desequilíbrio na natureza terá impactos enormes nas Ilhas Maldivas e não só nestas ilhas, em outras regiões costeiras do mundo também. Acho que cerca de um terço da população mundial vive em zonas costeiras e se verá gravemente afetada se não fizermos algo para combater a mudança climática nos próximos anos. Deve-se alcançar um acordo internacional para reduzir as emissões de carbono”.Em fevereiro deste ano, Mohamed Nasheed foi derrubado da presidência à ponta de pistola. O governo de Obama, por meio da porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, disse sobre o golpe de Estado: “atuaram dentro do marco constitucional”. Quando falei com o presidente Nasheed no mês passado, me disse: “Foi muito surpreendente e muito preocupante que o governo dos Estados Unidos reconhecesse de imediato o reestabelecimento da antiga ditadura. Temos que reinstaurar a democracia no nosso país. É uma democracia muito jovem. Conseguimos ter eleições multipartidárias recém em 2008, e só durou três anos. Em seguida houve um golpe de Estado muito bem planejado. Nos surpreendeu que os Estados Unidos reconhecessem tão rápido o novo regime”. Há um paralelismo entre as posições nacionais sobre mudança climática e o apoio ou a oposição ao golpe nas Maldivas.Nasheed é o personagem principal de um novo documentário denominado The Island President (O presidente da ilha), que mostra sua notável trajetória. Durante a ditadura de Maumoon Abdul Gayoom, foi um destacado militante estudantil que foi preso e torturado, como muitos outros. Em 2008, quando finalmente se celebraram eleições no país, Nassheed derrotou Gayoom e acabou eleito presidente. Entretanto, me disse: “É fácil derrotar um ditador, mas não é tão fácil livrar-se de uma ditadura. As redes, as dificuldades, as instituições e tudo o que foi estabelecido pela ditadura continuam em pé, inclusive depois das eleições”. No dia 7 de fevereiro de 2012 pela manhã, Nasheed renunciou, após generais rebeldes do Exército ameaçarem de morte, ele e seus seguidores.Embora ainda não se tenha achado nenhum vínculo direto entre o ativismo contra a mudança climática de Nasheed e o golpe, ficou claro que, durante a cúpula de Copenhague em 2009, foi uma pedra no sapato para o governo de Obama. Nasheed e outros representantes da Apei, a Aliança de Pequenos Estados Insulares, assumiram a postura de defender a futura existência de seus países e de construir alianças com grupos de base como o 350.org, que se opõe às políticas sobre o clima dominadas pelas empresas.Enquanto isso, em março se registrou o primeiro desastre climático do ano nos Estados Unidos, que provocou mais de US$ 1 bilhão em danos. Os tornados que castigaram quatro dos Estados centrais do país deixaram um saldo de 41 mortos. O doutor Jeff Masters, da página web de informação meteorológica Weather Underground, escreveu em seu blog que as temperaturas recordes registradas em março “não só foram minimizadas, mas foram modificadas”. No dia 23 de março, o governador conservador do Texas, Rick Perry, renovou o estado de emergência declarado no ano passado como consequência das fortes secas.Mil dos 4.710 sistemas de gestão comunitária da água do Texas estão sofrendo restrições. A localidade texana de Spicewood, com uma população de 1.100 habitantes, ficou sem água e agora depende da distribuição de água em caminhões cisterna. Enquanto os habitantes enfrentam fortes restrições no uso da água, para o governador Perry restringir o uso da água às empresas que emitem os gases de efeito estufa, que provocam a mudança climática, seria impensável.Mitt Romney está por converter-se no candidato republicano à Presidência e conta com o apoio de ex-rivais como Perry. Os republicanos já começaram a atacar o presidente Obama com respeito às políticas sobre mudança climática. O Conselho Norte-Americano de Intercâmbio Legislativo (Alec, na sigla em inglês), promoveu leis nas câmaras de deputados estaduais que se opõem a qualquer legislação sobre clima e incitou os membros do Congresso a que bloqueiem todo tipo de ação federal, em particular, que obstaculizem o trabalho da Agência de Proteção Ambiental.Como detalhou o Center for Media and Democracy (Centro de Estudos sobre Mídias e Democracia) em seu informe denominado Alec Exposed, a Alec conta com o financiamento das principais empresas contaminadoras do país, como ExxonMobil, BP America, Chevron, Peabody Energy e Koch Industries. Os irmãos Koch também financiaram grupos do Tea Party, como o grupo Freedom Works, para dar a impressão de que fazem ativismo social.Este período eleitoral provavelmente será marcado por mais eventos climáticos extremos, com a consequente perda de mais vidas e bilhões de dólares em danos.Enquanto o presidente Nasheed se esforça para voltar a apresentar-se como candidato à Presidência que lhe foi arrebatada, o presidente Obama tenta aferrar-se à sua. Entretanto, o clima está preso por um fio.* Amy Goodman é a apresentadora do Democracy Now!, noticiário internacional emitido diariamente em mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em mais de 350 em espanhol. É coautora do livro Os que lutam contra o sistema: Heróis ordinários em tempos extraordinários nos Estados Unidos, editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur.** Tradução: Libório Junior.*** Publicado originalmente no site Democracy Now e retirado da Carta Maior.


por Amy Goodman*
03 Amazônia

Ver a Amazônia na sua intimidade

A nova palestra que fiz há duas semanas no auditório do Museu Emílio Goeldi, sobre a relação do jornalismo com a ciência, foi mais uma oportunidade para plantar a semente da maior ideia que me surgiu em quase meio século de peregrinação pela Amazônia: o kibutz científico.Conforme sua aptidão e o seu zoneamento ecológico-econômico, a região receberia kibutzim espalhados por toda sua extensão. Eles seguiriam um plano global, que os articularia e complementaria. Seus alunos ficariam nesses kibutzim da graduação até obterem o título de pós-doutorado. Não com uma tese em abstrato, meramente formal e intelectual: com um experimento. Se bem-sucedido, seriam aprovados. Se fracassassem, ficariam sem o título. Levariam um comprovante de frequência e uma declaração das suas aptidões.Para esse desafio ser bem enfrentado, os estudantes seriam instalados em locais confortáveis e adequados à pesquisa. Teriam uma bolsa de alto valor. Recursos para financiar seus experimentos. Assistência e ensinamentos dos melhores nomes da ciência no mundo. E a bonificação de se tornarem proprietários particulares quando seus experimentos se tornassem realidade. A ciência saltaria à frente de todas as frentes pioneiras na busca da harmonia entre saber e fazer. A última tentativa de salvar a Amazônia da sua descaracterização ou destruição.Enquanto falava, me veio uma preocupação: e até que essa utopia possa se materializar, o que fazer? Nenhum dos meus auditórios reagiu à ideia do kibutz científico. Mesmo um auditório seletivo e rigoroso, como o do BNDES, que se surpreendeu com a proposta, a considerou na hora em que podia levá-la a sério. Sugeri que o banco não pulverizasse os recursos do Fundo Amazônia, criado com dinheiro da Noruega.Podia usar toda a verba num único projeto, que mudaria o conceito da ciência para impor o conceito de Amazônia nas ações de ocupação (que deixariam de ser etimológica e semanticamente de ocupação, uma renovação histórica do colonialismo e do imperialismo). Mas acabaram fazendo o de sempre: um pouco de dinheiro para cada átomo de intenções.Enquanto a linguagem sustentava a palestra, meu cérebro arquitetava outro sonho. Seria um programa de documentários sob o título "A Amazônia por dentro”. Uma boa equipe, composta por repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, produtores, editores, assistentes e assessores científicos, produziria a série de documentários, que cobririam todos os elos da vida na região.O objetivo seria mostrar o efeito da interação e conflito do homem com a natureza em cada ciclo, etapa ou momento do processo. Exemplo: o percurso da água das chuvas. Um momento seria a chuva em si: como cai, seu volume, onde cai, o que significam seus índices de quantificação e qualificação. Outro momento seria o percurso da água num ambiente com cobertura vegetal original e nas paisagens formadas pelo homem, quase sempre substituindo o cenário natural.A água retida na copa das árvores e sua descida até o solo e daí aos cursos d’água. E a trajetória de impacto direto no solo quando não há a proteção vegetal. O que acontece quando esse volume de sedimentos arrastados pelas chuvas penetra num rio? A ação sobre os peixes e outros organismos vivos. A deposição no fundo, provocando sedimentação. E assim por diante.Bem feitos, atraentes, didáticos e dinâmicos, esses documentários seriam exibidos em salas de aula e colocados em disponibilidade na internet para que as pessoas, de dentro e de fora da Amazônia, tenham uma compreensão profunda do que o homem está fazendo nessa região, magnífica oportunidade para mostrarmos que somos realmente animais racionais. E o que estamos desperdiçando.* Lúcio Flávio Pinto é jornalista.** Publicado originalmente no site Adital.


por Lúcio Flávio Pinto*
Ilza Girardi. Entrevista

Precisamos de outra racionalidade, mais sistêmica e menos cartesiana

[caption id="attachment_49732" align="alignleft" width="300" caption="Ilza Girardi."][/caption]Mentalidade fragmentária chegou até a ONU e aos governos, e precisa ser substituída por uma compreensão sistêmica da vida, que nos inclua como parte da Terra Pátria, pontua a jornalista Ilza Girardi.“Precisamos mudar o padrão de pensamento que existe e que chegou até a ONU e aos governos. É uma mentalidade cartesiana, que separa tudo, fragmenta as coisas. Assim, não é possível compreender o mundo em sua extensão sistêmica. É fundamental adotar uma outra racionalidade em nossa ação no mundo. Para isso, podemos nos basear no paradigma complexo, sistêmico ou, em outras palavras, nos incluindo no meio ambiente como sujeitos que são parte do ecossistema.” A afirmação é da jornalista Ilza Girardi, em entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. Ela critica a terminologia “economia verde” como uma espécie de nome fantasia “para algo que vai continuar sendo feito da mesma forma”. Ela menciona, ainda, a ênfase que tem sido dada pela mídia às coberturas econômica e política, relegando o aspecto ambiental a um plano secundário. “Este é o grande problema, e que vai chegar na Rio+20”. Ilza teme que esse evento termine sem decisões efetivas: “Tenho receio de que a Rio+20 seja constituída somente de reuniões e que as decisões sejam postergadas para outro encontro”.A pesquisadora estará na Unisinos nesta quarta-feira, 18/4/2012, com a temática Da Eco-92 aos acordos que a sucederam e o que está em jogo na Rio+20, das 19h30min às 22h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU. A atividade faz parte do Ciclo de Palestras: Rio+20 – Desafios e Perspectivas, organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU). A programação completa do evento pode ser conferida em http://bit.ly/IEaCIq.Ilza Girardi é graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista em sociologia rural pelo Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas e mestre em comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo (Unimep). Cursou doutorado, também em comunicação, pela Universidade de São Paulo (USP), com a tese O discurso do agricultor ecologista sobre a biotecnologia. É uma das organizadoras de Ecos do planeta: estudos sobre informação e jornalismo ambiental (Porto Alegre: UFRGS, 2011) e Jornalismo ambiental: desafios e reflexões (Porto Alegre: Dom Quixote, 2008). É diretora de comunicação do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS.Confira a entrevista.IHU On-Line – O que mudou de 1992 para cá no tratamento que é dado pela mídia ao meio ambiente em nosso país?Ilza Girardi – Saímos da Eco-92 com vários projetos, assinaturas e compromissos, como a Agenda 21, por exemplo. No decorrer desse período, muitos daqueles compromissos assumidos não foram implementados, a começar pelo conceito de desenvolvimento sustentável, o qual criticamos muito. Há um grupo numeroso que afirma a impossibilidade de existir um crescimento sustentável. Existe outra visão de mundo que propõe a construção de sociedades sustentáveis, ou de um mundo sustentável. Esta é outra perspectiva. De lá para cá, o que houve é que prevalece, em todos os debates, a preponderância do aspecto econômico junto do político. O próprio aspecto político defende, via de regra, o econômico. O lado ambiental, que propõe uma outra forma de olhar e uma nova racionalidade, não tem sido incluído nos debates. Este é o grande problema e que vai chegar na Rio+20.IHU On-Line – O meio ambiente é um assunto prioritário no Brasil ou ainda é relegado a terceiro ou quarto planos?Ilza Girardi – Penso que, ao mesmo tempo em que melhorou, como podemos ver pela maior atenção dada pela imprensa a essa temática, ainda temos que avançar muito. De toda forma, a percepção da sociedade civil é outra. Hoje se fala mais sobre essas temáticas, e a visibilidade de fatos como desastres ambientais, por exemplo, é muito maior. Isso trouxe certa consciência, mas aqueles que têm o poder de tomar decisões não têm feito muita coisa nesse sentido. Cito o exemplo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No caso da construção das hidrelétricas do PAC, não têm sido ouvidos os pedidos dos movimentos sociais e das pessoas que são atingidas pelas obras. No Parque Nacional do Xingu, as nações indígenas se mobilizaram e fizeram diversos pedidos, mas eles não foram considerados. Então, o PAC, com todos os impactos que vai trazer via hidrelétricas, é uma mostra de que, nesse aspecto, não evoluímos. Continuamos focados somente no aspecto econômico. Contudo, o aspecto econômico não sobrevive se não considerarmos o ambiental em conjunto. Estamos comprometendo a qualidade de vida de todos os seres que compõem o planeta conosco.IHU On-Line – Como avalia a acusação da ONU de que a agenda da conferência para o desenvolvimento sustentável está muito ampla? Em que aspectos isto pode prejudicar os debates e decisões?Ilza Girardi – Trata-se de um evento longo que pode, sim, terminar sem decisões efetivas. A economia verde será a grande discussão da Rio+20. Segundo os analistas, e pelo que tenho lido, é uma outra maneira de se falar em desenvolvimento sustentável, que é um conceito cheio de problemas. É uma forma de fazer com que o capitalismo assuma outra forma, mas esse sistema existe e continuará a existir tendo como base a exploração do trabalho e de toda a natureza. Enquanto isso não for mudado, não haverá mudança real. A ONU não tem agido muito em relação a isso, pois tem batido na tecla do desenvolvimento sustentável. São muitos pensadores a dizer que não é esse o caminho, assim como muitas ONGs ambientalistas. Tenho receio de que a Rio+20 seja constituída somente de reuniões e que as decisões sejam postergadas para outro encontro.Tivemos a COP-15 e COP-16, realizadas em Copenhagen e, depois, no México. Analisamos seus resultados como frustrantes, porque nenhum país conseguiu avançar nas discussões. Nenhum país aceita diminuir suas emissões de gases que acirram o efeito estufa e o aquecimento do planeta. Isto ainda vai causar muitos problemas, que já começam a ser sentidos, como demonstra o relatório do IPCC. As mudanças climáticas têm ação do homem, sim. E nós podemos agir em sociedade para mudar isso. É o caso do consumo, que precisa ser discutido e revisto.IHU On-Line – Especialistas apontam que, desde 1992, o mundo se tornou mais insustentável. Não é um paradoxo frente ao desenvolvimento de mais tecnologias limpas?Ilza Girardi – Trata-se de um paradoxo, sim. Um absurdo, na verdade. Antes, não se falava de meio ambiente, e agora o tema é largamente discutido na sociedade. E como é que continua a haver descalabros? Existe uma disputa de visão de mundo que não quer mudar em nada o que existe, pois pressupõe que nada vai acontecer. O que vale, na mentalidade dessas pessoas, é o acúmulo de capital, poderio econômico e bens. Esta mentalidade reflete-se em todos os âmbitos da sociedade. Basta ver o que representam os impactos da mineração, as hidrelétricas, o uso dos agrotóxicos e as “tecnologias condenadas” pelos problemas que causam ao ambiente. Há alternativas, sim, bem como tecnologias que nos permitem fazer um caminho diferente. Mas este caminho é de autonomia, e esta não interessa aos poderosos no campo político e econômico.Financiamentos discutíveisSe pudéssemos ter painéis para energia solar em casa, isso seria ideal. Contudo, trata-se de uma tecnologia cara para nós, cidadãos, adquirirmos. Mas por que não há linha de crédito para construirmos painéis fotovoltaicos em nossas casas, se existe financiamento para erigir hidrelétricas, atrair indústrias de celulose e incentivar a silvicultura? Esses segmentos recebem, inclusive, incentivo de bancos públicos. Se tivéssemos esses dispositivos em nossas residências, o problema da energia poderia ser resolvido. O governo diz que as hidrelétricas estão sendo construídas para evitar um apagão. Mas esse caminho vai comprometer ecossistemas inteiros, alterando a velocidade das águas dos rios em função da construção das barragens. O resultado é que haverá mudanças para os animais que vivem nas águas e, em última instância, os atingidos serão as comunidades que dependem da pesca, por exemplo. Precisamos mudar o padrão de pensamento que existe e que chegou até a ONU e aos governos. É uma mentalidade cartesiana, que separa tudo, fragmenta as coisas. Assim, não é possível compreender o mundo em sua extensão sistêmica. É fundamental adotar em nossa ação no mundo uma outra racionalidade. Para isso, podemos nos basear no paradigma complexo, sistêmico ou, em outras palavras, nos incluindo no meio ambiente como sujeitos que são parte do ecossistema.IHU On-Line – É que as pessoas normalmente compreendem o meio ambiente como um agente exógeno, e não se incluem nele. Quando aparece alguém que o faz, como órgãos ambientais fiscalizadores, estes são taxados de obscurantistas e fundamentalistas...Ilza Girardi – Exatamente. O meio ambiente vira um problema. Na construção de condomínios, a primeira atitude das empreiteiras é terminar com a vegetação considerada daninha e “feia”. Nessa visão de mundo, até o capim é um problema. Plantam-se, então, vegetações exóticas para embelezamento e que não têm nada a ver com o ecossistema originário daquele local. Quando aparece alguém que se preocupa com a natureza, é apontado como obscurantista, contrário ao progresso. É lamentável.IHU On-Line – Como analisa a cobertura que a mídia tem realizado sobre a Rio+20?Ilza Girardi – Não vi na imprensa, até agora, uma discussão a fundo para tratar sobre o que é a economia verde. Estas questões não são colocadas. Ele é um nome muito bonito, e a economia poderia ser verde, já que economia significa casa, em grego. Seria a administração da casa, digamos assim. Contudo, economia verde é um nome fantasia, quase um marketing verde para algo que vai continuar sendo feito da mesma forma. E a imprensa não está atenta a isso. Como a imprensa também participa dos jogos de interesses, essas temáticas não são discutidas a fundo. Há casos isolados desses debates, que ocorrem em horários muito avançados, quando já estamos com sono e não conseguimos assistir televisão, ou na TV a cabo, à qual a maioria da população não tem acesso. Essa discussão deveria ser pautada em todo tipo de cobertura, inclusive no esporte. A abordagem ambiental não é separada das outras. As outras é que devem incorporá-la. Mas isso dá trabalho, pois é um tema complexo que exige aprofundamento, leituras, discussões. É preciso procurar boas fontes para se informar a partir delas.IHU On-Line – O “rascunho zero” da Rio+20 cita diversas vezes o termo "economia verde", mas não traz uma definição para essa expressão. Em sua opinião, o que esse termo pode significar? Seria esse conceito suficiente para frear a destruição do planeta e as mudanças climáticas?Ilza Girardi – Da forma como tem sido usado, esse termo não é deslocado do capitalismo como balisador de tudo. É preciso mudar o conceito, pois há economistas que falam em crescimento zero ou, até mesmo, em decrescimento. Fritjof Capra fala em sociedade sustentável. Leonardo Boff fala em modo de vida sustentável. Pessoas que trabalham com o clima falam da necessidade da mudança do consumo. Em si o conceito não traz nada de novo. Poderia fazê-lo se o levássemos realmente a sério.Contudo, parece-me maquiagem. Gostaria de estar errada. Quero ter esperanças que surja algo bom para o planeta e para nós, seus habitantes. As ONGs que estiverem presentes na Rio+20 terão que pressionar muito para serem ouvidas e pautadas pela imprensa. Na maioria das vezes, elas não são pautadas pela imprensa, e isso aconteceu na Eco-92. Espero que a imprensa tenha aprendido alguma coisa para a Rio+20, ouvindo o que os movimentos sociais e ambientalistas têm a dizer. Debates que ficam somente na esfera governamental descambam normalmente em picuinha.Terra PátriaAlgo que pode aparecer é a reclamação por parte dos países em desenvolvimento de que não querem refrear sua emissão de gases de efeito estufa porque, ao contrário dos Estados Unidos, estão começando agora a crescer. Contudo, a questão não é essa. A questão é que todos os países ricos, medianos e pobres têm que mudar a mentalidade e suas ações. O planeta é esse e ele é finito. Os países ricos costumam jogar seus problemas para fora. Depois que aconteceu o tsunami na Indonésia, em 2005, apareceram na costa da África os dejetos e lixo tóxico dos países desenvolvidos. Este lixo é depositado no fundo dos oceanos e, com tamanha movimentação ocorrida pelo tsunami, foram deslocados. Como nada pode ser escondido eternamente, o lixo aparece.Outro exemplo é o que ocorre com os piratas somalis. Ocorre que a pirataria surgiu por várias razões, que não são dadas e contextualizadas. O que os países de ricos fazem na costa da Somália não é divulgado. Isso sem falar nos problemas políticos, construídos por interesses econômicos. Por isso, reafirmo que é fundamental haver uma mudança de visão de mundo. Como diz Edgar Morin, é preciso considerar nosso planeta como Terra Pátria. A partir disso, precisamos resgatar a solidariedade, a compaixão. Por que uns têm que ter tanto, e outros, nada? O que adianta eu ter tantas coisas, dinheiro, e outros não terem nada? Precisamos reabilitar os valores éticos já existentes para construirmos um mundo melhor. A ética do cuidado, por exemplo, pressupõe que eu tenha cuidado comigo e com os outros seres. Já há iniciativas nesse sentido, como a agricultura ecológica. Esse tipo de agricultura traz uma outra visão de mundo, que pode mudar tudo. Ao desenvolver uma agricultura ecológica, faz-se necessário que também nós mudemos. O produto que está sendo cultivado não é mais pura e simplesmente um produto: é um alimento. Isto muda tudo.IHU On-Line – Particularmente, o que você espera da Rio+20, vendo-se tanto do ponto de vista das discussões como também da eficácia de possíveis decisões tomadas?Ilza Girardi – Espero que realmente se tomem decisões e que todos os países assumam compromissos concretos. Precisamos mudar tecnologias que estão contribuindo para o aumento da temperatura do planeta. É preciso assumir, de verdade, esses compromissos, e que estes sejam efetivados. Espero que isso aconteça, porque o poder econômico é demasiado forte, e a luta vai ser grande. Contudo, apostemos nessa boa luta.* Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Márcia Junges, do IHU-Online
386725-imagem-Rio+20 Artigo

X-tudo ambiental

Passadas duas décadas desde que se realizou a Rio-92, a Organização das Nações Unidas (ONU) resolveu organizar no Brasil uma nova conferência mundial. Concebida para avaliar o desenvolvimento sustentável, a Rio+20 ameaça ser um fracasso. Sua complexa agenda virou uma torre de Babel.A primeira conferência mundial sobre meio ambiente foi realizada em 1972 na capital sueca, a cidade de Estocolmo. Lá nasceu o importante Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Começavam a ser conhecidos, cientificamente, os limites da Terra para a explosão populacional humana. Consequências ecológicas do crescimento econômico.Importante relatório da ONU divulgado 15 anos depois, intitulado Nosso Futuro Comum, definiu as bases do conceito que virou mantra na atualidade: o desenvolvimento sustentável. Derivada da noção pioneira de "ecodesenvolvimento", proposta pelo economista polonês naturalizado francês Ignacy Sachs, a expressão propunha conciliar a economia com a ecologia. Mais tarde, na Cúpula da Terra (nome original da Rio-92), ampliou-se a compreensão sobre o tema, consagrando o famoso tripé da sustentabilidade: ecologicamente equilibrada, socialmente justa e economicamente viável.Ao se incorporar à temática do desenvolvimento econômico, a causa do ambientalismo, antes restrita aos idealistas e aos visionários, ganhou importância. A sociedade global mudava a compreensão sobre o seu devenir. O crescimento predatório, que emite notas promissórias contra o futuro, perdeu cartaz, abrindo espaço para o surgimento da "economia verde", novo paradigma da civilização.Em tese, tudo resolvido; na prática, imensas dificuldades. As nações jamais consolidaram passos subsequentes, necessários para obter governança global sobre o meio ambiente. As empresas, por seu lado, perderam tempo tratando a sustentabilidade apenas como uma jogada de marketing, pouco modificando os processos tecnológicos de produção. Entre as pessoas, a conscientização ecológica jamais ultrapassou as elites da sociedade. Em consequência, anda atrasado o enfrentamento consistente da crise ambiental.Falta também clareza sobre a ideia central. Desde que se formulou o conceito de desenvolvimento sustentável, suas três dimensões – ambiental, social e econômica – disputam espaço político em sua agenda. Se, num primeiro momento, a luta ambiental se robusteceu ao ser incorporada aos processos decisórios da economia, aos poucos o ambientalismo passou a dividir o seu ativismo com grupos centrados nas desigualdades sociais. Uma sociedade miserável, afinal, não pode ser considerada sustentável.Especialmente nos países emergentes, como o Brasil, os dilemas elementares do crescimento – emprego, moradia, energia, transportes – exigem obras que pressionam fortemente as variáveis ambientais. Nesse sentido, o preservacionismo radical, coerente nos países ricos, por aqui soa como elitista. Por isso a ideia de sustentabilidade, mais ampla, ganhou espaço, forçando o ambientalismo a ser realista. Mais do que eloquentes palavras, ações concretas.Em outra linha, certas organizações fizeram da sustentabilidade uma estratégia de combate à exclusão humana, fornecendo uma grife aos movimentos ligados à erradicação da miséria e à justiça social. Estes, agora, pegaram carona nos preparativos da Rio+20 e praticamente dominaram a mídia sobre a reunião. Negros, feministas, sem-terra, índios, gays, causas humanitárias variadas imiscuíram-se com o ambientalismo, resultando boa confusão, teórica e política.Resultado: a Rio+20 perdeu seu foco original, ligado à crise ecológica da civilização. Assim argumentam os cientistas, militantes da causa ambiental, laureados com o prêmio Planeta Azul, uma espécie de Oscar da sustentabilidade. O físico José Goldemberg é um dos que lideram a grita contra essa deformação nos debates pré-Conferência, marcada para início de junho. Rubens Ricupero, diplomata cuja ação foi decisiva para o sucesso da Conferência de 20 anos atrás, esclarece: "Se a questão ambiental não for encaminhada de maneira satisfatória, se o clima aquecer demais, não teremos nem social nem econômico (...), virá o colapso total".Para piorar o quadro, entidades (que se julgam) esquerdistas passaram a contestar o tema da economia verde, proposto originalmente pela ONU, argumentando que esverdear os processos produtivos interessa apenas ao capitalismo. Para libertar os povos oprimidos, defendem, será necessária uma nova e ampla "revolução", que, obviamente, ninguém sabe definir qual nem como. Nem onde.E assim nos aproximamos da Rio+20. Nesse contexto, provavelmente nada de importante nela se decidirá. Uma avaliação séria, se viesse a ser realizada, mostraria que, a despeito de boas ações aqui e ali, a civilização continua caminhando para o colapso. Inexiste uma força coordenadora, decisória, que enquadre a sociedade global na agenda futurista. Essa governança, que poderia ser o grande assunto do encontro no Rio de Janeiro, será provavelmente substituída pelas resoluções de sempre, genéricas, que empurram o problema com a barriga.A grande conferência da ONU deve configurar, infelizmente, apenas uma grande festa ideológica, cujo brilho até poderá ajudar no avanço da consciência ecológica mundial, mas não deixará marca registrada. Haverá uma mistureba semelhante ao recheio daqueles sanduíches do tipo x-tudo: uma fatia da diplomacia internacional, uma rodela de terceiro-mundismo clássico, pitadas da Via Campesina, pedacinhos de ambientalismo com molho oriundo dos povos oprimidos, um caroço do empresariado inteligente amolecido pelas entidades científicas, tempero blá-blá-blá à vontade.Fica delicioso, enche a barriga, mas não guarda o gosto de nada.* Xico Graziano é ex-secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo, é engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Administração.** Publicado originalmente no site EcoD.


por Xico Graziano*
People Connecting Continents Artigo

Como inventar um novo planeta

Afinal, a ONU divulgou, em 19 páginas, seu documento preliminar sobre a conferência mundial Rio+20, a realizar-se em junho, no Rio de Janeiro. O texto O futuro que queremos está repleto de boas intenções, mas quase vazio de meios concretos, específicos, para a realização – reforçando os temores de tantos estudiosos, muitos deles já mencionados neste espaço, de que a conferência venha a ser um malogro, ou apenas um espaço para palavras, sem consequências práticas.O documento reafirma “a determinação de livrar a humanidade da fome”, por meio da “erradicação de todas as formas de pobreza”. Assume também o compromisso de “lutar para que as sociedades sejam equitativas e inclusivas”, de modo a atingir “estabilidade econômica e crescimento que beneficie todos”. Também reitera o desejo de atingir, em 2015, os Objetivos do Milênio, que incluem essa erradicação da pobreza, universalização do saneamento básico (do qual está excluída 40% da humanidade), renda mínima para todos (hoje, 40% vive abaixo da “linha da pobreza”). E que os países industrializados cumpram o compromisso assumido na Rio 92 de ampliar de 0,37% de seu Produto Interno Bruto, para 0,7%, a ajuda aos países em desenvolvimento, para que se atinjam os objetivos (hoje, a ajuda é de 0,3%, inferior à de 20 anos atrás e pouquíssimos países cumpriram o que assumiram).Complicadíssimo. O próprio documento reconhece que hoje nada menos de 1,4 bilhão de pessoas vivem na pobreza; que 1,6 bilhão são subnutridas, sob a ameaça de pandemias e epidemias “onipresentes”, que o “desenvolvimento insustentável” agravou o estresse na área dos recursos naturais. Por isso tudo e muito mais, diz, o desenvolvimento sustentável é um “objetivo distante” – e a “governança global” dessa sustentabilidade é exatamente um dos temas centrais da conferência, junto com a “economia verde”. Ainda mais que a ONU pressupõe, para chegar a esses objetivos, que haja “participação da sociedade nas decisões”, que, por sua vez, depende de “acesso à informação”. Pressupõe até a inclusão, nas estratégias, do que está escrito na Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas. Da mesma forma, exige eliminar barreiras comerciais e subsídios, eliminar o “gap tecnológico” entre países desenvolvidos e os demais, criar até 2015 indicadores para avaliar as transformações, tendo ainda em conta que crescimento do produto interno bruto dos países é um indicador considerado insuficiente, porque não leva em conta fatores sociais e ambientais. Sem esquecer que tudo isso deverá estar no âmbito de uma “governança ambiental internacional”, que pode exigir até a criação de uma agência especializada da ONU.E vai por aí o documento, enumerando objetivos como reduzir o desperdício de água no mundo, planejar e implantar “cidades sustentáveis”, impedir a perda da biodiversidade e a acidificação nos oceanos, proteger estoques pesqueiros ameaçados, combater a desertificação na África, a deposição de lixo eletrônico e de plásticos no mar. E, em meio a isso tudo, reduzir os subsídios para combustíveis fósseis, para proteger a agricultura dos países centrais, para sustentar a pesca predatória. Assim como duplicar a porcentagem de energias renováveis na matriz mundial.Este último item remete ao relatório recente da Agência Internacional de Energia, lembrando que o aumento de 5% no consumo de energia primária em 2010 levou a novo “pico” nas emissões de dióxido de carbono, graças inclusive aos subsídios ao consumo de energias derivadas de fontes fósseis, que estão em US$ 400 bilhões anuais. Ainda assim, 1,3 bilhão de pessoas não têm acesso a energia elétrica. E os cenários traçados para o período que vai até 2035 chegam a prever um aumento de um terço na demanda de energia, mantida a previsão de aumento de 1,7 bilhão de pessoas na população nesse período e crescimento médio anual de 3,5% do PIB. 90% do aumento estará fora dos países industrializados. Tudo isso exigirá investimentos de US$ 38 trilhões em 25 anos, principalmente em estruturas para transporte de energia. O consumo de combustíveis fósseis deverá baixar apenas dos 81% totais de hoje para 75%. As energias renováveis – principalmente hidrelétrica e eólica – responderão por 50% da capacidade que será adicionada.Num quadro tão difícil, com as dificuldades da conjuntura econômica mundial, a pouca praticidade dos objetivos da conferência tem gerado críticas fortes. O renomado economista Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, tem dito que a conferência do Rio “deve servir para admitir duas décadas de fracasso no campo ambiental”, para reconhecer que “não há propostas para a crise”, que “o lobby da indústria de energia venceu Obama” (Estado, 18/11). Susana Kahn, que representa o Rio de Janeiro na conferência, admite que há “um grande risco de a Rio+20 ser um evento sem consequência nenhuma”, já que “não tem nada prático que vá sair do encontro” (Estado, 21/12).Muito mais complexa ainda é a questão levantada pelo teólogo Leonardo Boff, ao lembrar que sustentabilidade é tema muito abrangente: “É toda ação destinada a manter condições energéticas, informacionais, físico-químicas, que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana” – e ainda assegurando os direitos das gerações futuras. Meio ambiente, diz ele, não é “algo secundário e periférico”. Que fará a Rio+20 para abrir caminhos que assegurem tudo isso?Como haverá também, paralela à conferência, uma Cúpula dos Povos por Justiça Social e Ambiental, certamente se dirá que esse avanço da consciência social poderá abrir caminhos para transformações políticas que levem à superação das lógicas apenas financeiras no mundo – e ao desejado desenvolvimento sustentável. Difícil, mas não é impossível.* Washington Novaes é jornalista.** Publicado originalmente em 20/1/2012, no jornal O Estado de S.Paulo e retirado do site Blog do Washington Novaes.


por Washington Novaes*
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Notícias da Rio+100: aposto que o clima muda antes de nós

Os principais jornais do mundo têm uma coluna relembrando fatos passados: há 50 anos, há cem anos… Há algum tempo, com a ajuda de amigos, fiz um exercício inverso, de futurologia: daqui a 80 anos, quando estaremos – provavelmente – nos reunindo de novo, em uma nova conferência sobre desenvolvimento sustentável, para ver o que deu errado no meio do caminho (isto, é claro, se os maias não estiverem certos…). Algumas são mais verossímeis, outras nem tanto. Mas se alguém dissesse, há 80 anos, que nossa geração seria responsável por jogar o planeta no vaso sanitário e dar a descarga, quem acreditaria? O clima do planeta está mudando. Podemos até minimizar os impactos, mas a vida não será mais a mesma. Não dá para prever exatamente como será a realidade de nossos filhos e netos e mesmo daqueles entre nós que ainda estarão vivos neste novo mundo do final do século. O que é possível prever, certamente, é que vão culpar a nós pelo que fizemos e o que deixamos de fazer, pelo nosso consumismo idiota, pela ganância desmesurada, pela incompetência política, pelas falsas soluções, pelas grandes conferências que, ao final das contas, serviram mais para turismo e negócios vazios do que para resolver problemas. Cotidiano – São Paulo A prefeitura de São Paulo fará, neste domingo, um show para comemorar a retirada da última carcaça de automóvel do Grande Congestionamento de 2042. Na ocasião, o trânsito da capital paulista travou por 24 horas. Os motoristas abandonaram seus carros e a prefeitura considerou que seria mais simples depositar concreto sobre os veículos, construindo vias expressas mais modernas e tirando oito milhões de carros de circulação. Com o esgotamento da mina de Carajás em 2070, a multinacional Avert (Anglo-Vale Rio Tinto Inc.) decidiu por comprar do governo municipal o aço dos automóveis, refazendo as vias originais e rebaixando a cidade em 1,5 metro. As escavações encontraram restos do que parecem ser arcaicos veículos de transporte do início do Século 21, que os moradores daquele tempo chamavam de “bicicleta” e que foram proibidas por criar constrangimento aos automóveis. Cotidiano – Rio de Janeiro A prefeitura do Rio de Janeiro inaugurou ontem o Aquário de Copacabana, com um show de João Gilberto, que mostrou ainda ter vigor e reclamou do retorno do som. O Aquário foi construído com a substituição das barreiras de contenção da orla, que eram de concreto, por mais modernas, de alumínio transparente. A antiga barreira fora colocada em 2041 após o nível do mar subir devido ao aquecimento global e a ressaca atingir o salão de festas principal do hotel Copacabana Palace. Internacional Uma cerimônia em Pequim celebrou os dez anos da parceria estratégica “Lixo por Comida”, pela qual os países da região do Saara recebem o lixo produzido na China em troca da oportunidade oferecida aos cidadãos da região de vasculhar restos de alimentos nos contêinerse e usarem a sucata para os mais diversos utensílios. O Saara e a Antártida são os dois últimos grandes depósitos terrestres vagos de lixo no planeta. O custo mais baixo de despejar resíduos no deserto africano manteve uma vantagem produtiva para as empresas sediadas na China após o espaço do deserto de Gobi ter se esgotado. Na semana passada, a megalópole de São Paulo fechou acordo semelhante com a prefeitura de Gilbués, no Piauí. Economia O governo federal declarou, em nota, que vai zerar a alíquota para importação de verduras, legumes e frutas tropicais vindos da Patagônia. O objetivo é rebaixar a pressão inflacionária causada pelo aumento dos preços cobrados por esses produtos desde a drástica redução de oferta no Sudeste por conta da mudança no regime de chuvas. A aposta de que as espécies geneticamente modificadas conseguiriam se adaptar a um ambiente mais seco pós-colapso do clima não se cumpriu. Os produtores de soja da região de Mogi das Cruzes, que haviam comprado as pequenas propriedades rurais do antigo cinturão verde da capital paulista, quando o clima se alterou drasticamente, pedem que o governo financie a transposição e a dessalinização da água do mar para irrigação. Política Começa na próxima quinta (21), o leilão de matrizes de nelore em Altamira, o mais importante do país. Os pecuaristas prometem fazer barulho e levar seus tratores e colheitadeiras para fechar os pedágios da rodovia Transamazônica. Na pauta de exigências está a concessão gratuita dos últimos trechos disponíveis da Floresta Nacional do Tapajós. As autoridades do Estado de Tapajós querem igual tratamento para seus produtores que o recebido pelo Estado de Carajás, quando os últimos remanescentes indígenas foram indenizados pelo governo federal para deixarem suas reservas – hoje distribuídas entre os produtores de grãos de São Félix do Xingu. Reclamam que foi exatamente por conta dessa “discriminação” que eles se desmembraram do Estado do Pará em 2021. O MST promete uma marcha para Brasília no mesmo dia. Um grupo de refugiados ambientais do Tocantins, que estão acampados na Praça dos Três Poderes, depredou a estátua da ex-presidente Kátia Abreu. Desde que foi inaugurada, há 30 anos, a estátua teve que ser reposta 1.265 vezes. Cultura O governador do Estado do Mato Grosso do Sul inaugurou, na última terça, o Museu do Pantanal. O complexo de edifícios, construído em Corumbá, traz exemplares de pássaros e roedores empalhados que viviam na região e uma extensa coleção de sementes. Um mapa dos limites do Pantanal antes e depois do fim das cheias sazonais mostra o resultado do impacto do agronegócio nas cabeceiras da região. A construção do museu, produzido com tecnologia ambientalmente responsável, só foi possível graças a uma parceria com a federação estadual das usinas de etanol. A entrada para adultos custa 45 yuans. * Publicado originalmente no site Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto

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Ande a pé. Isso evita a queima de combustível e o lançamento de gás carbônico na atmosfera e, consequentemente, diminui o efeito estufa.
Reduza. Reutilize. Recicle. Três ‘Rs’ indispensáveis para preservar o meio ambiente e contribuir com o desenvolvimento sustentável em todo o mundo.
Aproveite o sol como fonte de energia limpa. Instale painéis fotovoltáicos em sua residência ou empresa.
Na hora de comprar, escolha produtos com rótulos ecológicos e com menos embalagem, assim você estará escolhendo poluir menos o planeta.
Utilize lâmpadas de baixo consumo, elas economizam até 80% de energia e duram bem mais.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

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