Pernambuco: polo de geração de energia limpa?

Artigo

Pernambuco: polo de geração de energia limpa?


por Heitor Scalambrini Costa*


Ante o desastroso anúncio da instalação da maior (1.452 MW) e mais suja termelétrica do mundo no território pernambucano, verifica-se agora que os gestores do crescimento predatório mudaram o discurso perante a opinião pública. A mobilização da população contra este absurdo em pleno Século 21 foi fundamental, e isto refletiu no posicionamento do governo estadual, que já fala em reconversão desta usina, que antes estava prevista para funcionar com óleo combustível e lançar para a atmosfera 24 mil toneladas de CO2 por dia, para gás natural. Para esta empreitada seriam necessários mais de cinco milhões de metros cúbicos por dia deste combustível, que por sinal não está disponível para novos contratos, conforme afirmou recentemente o presidente da Petrobras. Uma tentativa tresloucada que compromete a credibilidade pública do governo estadual. Mas a tentativa ilusionista de esconder a realidade não para por aí. Lembrando que há poucos meses ocorreu a tentativa de trazer para Pernambuco a usina nuclear. E que também o governo da poluição aprovou a construção de Suape II no Cabo de Santo Agostinho, uma usina termelétrica a óleo combustível de 380 MW, cuja inauguração está prevista para ocorrer neste mês de janeiro de 2012, e que lançará para o meio ambiente diariamente em torno de seis mil toneladas de CO2, além de outros produtos químicos perigosos para a saúde pública. Esta tentativa de desviar a atenção da população e criar uma agenda positiva, culminou, nos últimos dias de 2011, em pronunciamentos de secretários e ex-secretário de que agora Pernambuco vai se tornar o maior polo de energia limpa do Brasil. Inicialmente foi dito, no discurso de posse do novo presidente da Chesf, que é a hora e a vez da energia solar. E também de maneira orquestrada vimos o pronunciamento do secretário estadual de Desenvolvimento Econômico afirmando que Pernambuco é o único Estado brasileiro que consolidou a cadeia produtiva da energia eólica, com a instalação de fabricantes de pás para os aerogeradores, torres de sustentação e de equipamentos de conversão eólico-elétrico. Todavia, deixou de mencionar que Pernambuco tem a irrisória potência instalada de 25 MW, comparada com os ínfimos dois mil MW de potência eólica instalada no Brasil. Sem dúvida alguma, é alvissareiro que o setor privado envolvido no aproveitamento dos ventos para geração elétrica vislumbre oportunidades de negócios em Pernambuco, mas daí às afirmações ufanistas e grandiloquentes existe uma distância muito grande. Se compararmos os recursos financeiros envolvidos com as fontes de energia solar e eólica, e as potências elétricas envolvidas, chega-se à conclusão de que é muito, mas muito pouco, o interesse e a participação do Estado relativos às fontes de energias renováveis, menos agressoras ao meio ambiente. Nestes cinco anos de governo, o que se verificou foi exatamente o oposto. Um total desprezo pelas fontes renováveis de energia, apesar do custo, antes apontado como pretexto para não se utilizar estas fontes de energia, mostrar uma tendência de diminuição, chegando ao ponto de hoje a energia eólica ter o custo mais baixo que todas as outras fontes energéticas disponíveis, menos a energia hidráulica. O tema das opções energéticas tem que ser tratado com mais respeito e seriedade, principalmente com os profissionais que se dedicam ao estudo deste tema, e envolver os pesquisadores das universidades, dos centros tecnológicos e de pesquisa nesta discussão, e mesmo nas decisões, já que isto não acontece. Basta de marketing e propaganda instantânea. * Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco.

Objeto de estudo feito na Unicamp, actinobactérias são importantes produtores de metabólitos secundários, moléculas que podem dar origem a diversos tipos de fármacos (Wikimedia) Pesquisa

Pesquisadores buscam novos antibióticos em bactérias no solo

[caption id="attachment_39284" align="alignleft" width="290" caption="Objeto de estudo feito na Unicamp, actinobactérias são importantes produtores de metabólitos secundários, moléculas que podem dar origem a diversos tipos de fármacos. Foto: Wikimedia"][/caption] Na esperança de descobrir moléculas com potencial para se tornarem drogas imunossupressoras, anticancerígenas ou antibióticas, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) têm se dedicado ao estudo de um grupo de micro-organismos existente no solo conhecido como actinobactérias. A pesquisa, intitulada Explorando a biodiversidade brasileira para a obtenção de produtos naturais “não naturais”, é coordenada por Luciana Gonzaga de Oliveira, professora do Instituto de Química, e tem apoio da Fapesp por meio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes. Oliveira explica que as bactérias existentes no solo e os fungos são os maiores produtores de moléculas conhecidas como metabólitos secundários. Ao contrário do que o nome possa sugerir, essas moléculas são essenciais para a sobrevivência dos micro-organismos, pois fazem parte dos processos de crescimento, desenvolvimento e reprodução. Além disso, muitos metabólitos secundários apresentam propriedades bioativas, ou seja, podem ser usados no desenvolvimento de fármacos. “A maioria dos metabólitos secundários com potencial terapêutico foi descoberta na era de ouro dos antibióticos – entre 1944 e 1972 – e deu origem a medicamentos que usamos até hoje, como a eritromicina e a rapamicina”, explicou a pesquisadora. Mas as pesquisas diminuíram à medida que se tornou mais difícil encontrar novas moléculas promissoras. Desde então, poucos antibióticos foram desenvolvidos – a grande maioria são variações de fármacos descobertos há mais de 50 anos. As bactérias patogênicas, por outro lado, foram se tornando resistentes a várias classes de drogas existentes. A esperança para reverter esse quadro sombrio veio com o avanço e barateamento das técnicas de mapeamento genético, de acordo com Oliveira. Muitas equipes investiram no sequenciamento total do genoma de várias actinobactérias. Descobriram então a presença de genes associados à produção de metabólitos secundários ainda não conhecidos. “Percebeu-se que o potencial biossintético dessas linhagens é subestimado. Esses micro-organismos possuem um verdadeiro maquinário para produzir metabólitos que pode ser explorado. Com a informação do genoma, é possível prever a estrutura desse metabólito e assim estimar o potencial do micro-organismo em sintetizar os alvos de interesse”, explicou. A equipe coordenada por Oliveira está particularmente interessada em dois tipos de metabólitos: os policetídeos reduzidos e os peptídeos não ribossomais, que possuem inúmeras atividades farmacológicas. Estas moléculas são sintetizadas por um grupo de proteínas e complexos enzimáticos conhecidos como policetídeo sintase (PKS) e peptídeo não ribossomal sintetase (NRPS). “Equipes de pesquisa ao redor do mundo têm investido em aproximações guiadas pelo genoma para a identificação de novos metabólitos. No Brasil, possuímos uma diversidade riquíssima em termos de fauna, flora e também de micro-organismos, mas temos poucos grupos empenhados em desenvolver pesquisas dessa natureza, que poderiam impulsionar a descoberta de novas drogas”, afirmou Oliveira. Sequenciamento Em vez de sequenciar todo o genoma das actinobactérias estudadas – o que atualmente é inviável por causa do custo –, o grupo da Unicamp está mapeando os fragmentos genéticos responsáveis pela produção das enzimas PKSs e NRPSs. Desta forma, é possível estimar o potencial biossinético de diversas linhagens de actinobactérias, entre elas a Streptomyces. Inicialmente, os pesquisadores investigaram 15 linhagens de bactérias. Depois, o número foi expandido para 80. Com o objetivo de concentrar esforços nos organismos mais promissores, aplicaram outros testes que ajudam a identificar a presença de PKSs e NRPSs. Desse modo, conseguiram escolher duas linhagens para estudo mais aprofundado. “Os estudos envolvem a identificação dos metabólitos produzidos em condições de cultivo em laboratório e também daqueles que não são produzidos, muitas vezes porque o sistema de expressão gênica não está sendo ativado nessas condições”, contou Oliveira. A pesquisadora ressalta que todo o trabalho seria facilitado e as previsões seriam feitas com mais agilidade se houvesse possibilidade de se fazer o sequenciamento total do genoma dos micro-organismos. “Queremos, em um futuro próximo, sequenciar essas duas linhagens completamente. Essas informações trariam resultados de maior impacto e permitiriam um progresso notável nessa área de pesquisa, tornando o país competitivo internacionalmente”, disse. Oliveira conta que o custo estimado do mapeamento completo do genoma de um micro-organismo está em torno de R$ 30 mil. “Estamos tentando nos reunir com outros grupos que também tenham interesse nessa área para investir no sequenciamento de vários micro-organismos da nossa biodiversidade”, disse. O projeto envolveu, até o momento, a participação de um aluno de mestrado e seis alunos de iniciação científica. Resultados parciais foram apresentados em congressos nacionais e internacionais, entre eles o da Sociedade Brasileira de Química e o Simpósio Ibero-Americano de Química Orgânica. * Publicado originalmente na Agência Fapesp.


por Karina Toledo, da Agência Fapesp
trafico animais be1 Preservação

Noções sobre o tráfico de animais no Brasil

O tráfico de animais silvestres é o terceiro maior negócio ilegal do mundo, ficando atrás apenas dos tráficos de drogas e de armas. Segundo dados da ONG PEA (Projeto Esperança Animal), estima-se que ele movimenta mundialmente cerca de U$ 10 bilhões por ano. No Brasil, fala-se de algo em torno de 10% a 15% do comércio mundial, ou seja, o equivalente a US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão por ano, e cerca de cem mil animais silvestres apreendidos anualmente, o que representa apenas uma pequena parcela do que é traficado. A conceituação de fauna silvestre é dada pelo Artigo 1.º da Lei 5197/67: são animais de qualquer espécie que, por sua natureza e em qualquer fase de seu desenvolvimento, vivem fora do cativeiro. A estes são equiparados os seus ninhos, criadouros naturais e abrigos. A Lei 9605/98, em seu Artigo 29, §3, nos traz que devem ser entendidos como espécimes da fauna silvestre todos aqueles que pertençam às espécies nativas, migratórias ou outras, sejam aquáticas ou terrestres, desde que tenham todo ou parte de seu ciclo de vida ocorrendo nos limites territoriais brasileiros, incluindo as águas. A Constituição Federal foi bastante abrangente no tocante à proteção da fauna, não restringindo quanto às espécies e categorias de animais protegidos, enunciando ser dever do poder público sua proteção, vedando práticas que coloquem em risco sua função ecológica, que levem à extinção ou submetam os animais à crueldade, em conformidade com seu Artigo 225, § 1.º, inciso VII. No Brasil, duas leis e um decreto constituem os principais instrumentos legais de combate ao tráfico de animais silvestres: Lei 5197/67, que dispõe sobre a proteção à fauna; Lei 9605/98, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente; e Decreto 6514 de 2008, que revogou o antigo Decreto 3179/99 e dispõe sobre as infrações e sanções administrativas ao meio ambiente. Não há, juridicamente, um crime nas normas ambientais penais tipificado como “traficar animais”, pois na realidade trata-se de um conjunto de ações que, por si só, constituem o crime de tráfico. A previsão dos tipos penais ambientais para as condutas consideradas crimes contra a fauna está no Artigo 29 da Lei 9605/98, assim descrita: “Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida. Pena – detenção se 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e multa”. As condutas ligadas especificamente ao que chamamos usualmente de tráfico são trazidas pelo §1°, inciso III do artigo supracitado, que abrange vender, exportar, adquirir, guardar, ter em cativeiro, utilizar ou transportar ovos, larvas ou espécimes da fauna silvestre, assim como eventuais produtos e objetos dela provenientes. Associam-se também às condutas do “tráfico de animais” os chamados maus tratos, previstos no Artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, segundo o qual é crime punido com detenção de três meses a um ano e multa, a prática de abuso, maus-tratos, ferimento ou mutilação de animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos. Os maus tratos relacionam-se ao tráfico, pois os animais são transportados de forma velada, para não atrair a atenção de agentes fiscalizadores. Em decorrência disso, o transporte é sempre feito de maneira inadequada, como, por exemplo, dentro de caixas de leite ou tubos com pequenos orifícios para garantir o mínimo de oxigênio. Existem algumas circunstâncias que podem agravar a pena do crime em questão, como a reincidência nos crimes de natureza ambiental, o agente ter cometido o crime visando à vantagem pecuniária (o que geralmente acontece), em unidades de conservação, em domingos e feriados, à noite ou atingindo espécies ameaçadas listadas em relatórios oficiais. O Decreto 6514 de 22 de julho de 2008 prevê multa administrativa de até R$ 5 mil por animal para quem comete esse tipo de infração, valor este que, diante da magnitude e da gravidade do tráfico de animais, em muitos casos é praticamente insignificante. Entretanto, em razão das penas previstas para os crimes contra a fauna serem, via de regra, inferiores a dois anos de detenção, aqueles que forem flagrados cometendo tais crimes são submetidos aos procedimentos descritos na Lei 9099/95 (Juizados Especiais Criminais), e geralmente os processos acabam terminando em transação penal ou, no máximo, com a aplicação de uma pena restritiva de direitos, com a mesma duração que teria a restritiva de liberdade, como a prestação de serviços à comunidade, a interdição temporária de direitos e o recolhimento domiciliar. Diante da insuficiência da fiscalização em um país de dimensões continentais como o Brasil, a única solução para o crescente aumento do tráfico de animais parece ser a elaboração de mudanças efetivas no tocante à penalização do crime, tornando mais severos tanto o quantum da pena quanto o valor máximo da multa, como forma de coibir esse tipo de ação, além da realização de campanhas educativas para que cada cidadão possa se conscientizar e então colaborar para a redução da demanda por animais silvestres. * Roberta Raphaelli é advogada do escritório Fernando Quércia Advogados Associados. ** Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Roberta Raphaelli*
monocultura trigo Desenvolvimento

A soberania alimentar e seus desafios

As monoculturas em larga escala para a produção de alimentos foram introduzidas, acompanhadas pelos “pacotes tecnológicos” da “revolução verde” que, ao longo dos anos, têm envenenado e empobrecido a biodiversidade. Isto tem afetado em especial as mulheres, por elas, em muitas comunidades ao redor do mundo, serem as principais responsáveis por cuidar da saúde, do abastecimento de água e da produção de alimentos, atividades muito atreladas à conservação da biodiversidade. Enquanto muito da diversidade foi perdida, foram introduzidas e avançaram monoculturas geneticamente modificadas, como a soja, milho, eucalipto, etc., aprofundando os impactos sobre a biodiversidade. Nas suas definições, organismos oficiais, como a FAO, apoiam e fortalecem o modelo monocultural, chamando, por exemplo, uma monocultura de eucalipto transgênica de “floresta” e, com isso, desconsiderando por completo a biodiversidade imensa de uma verdadeira floresta. O modelo de monoculturas em larga escala tem sempre alegado a sua suposta “produtividade” que, no entanto, não conseguiu evitar que cerca de um bilhão de pessoas no mundo continuem passando fome. Vale esclarecer que esta “produtividade” está sendo contestada seriamente, inclusive pela ciência. O mais longo estudo nos Estados Unidos sobre o assunto comprovou que a agricultura sem insumos químicos é muito superior ao modelo convencional em termos de colheita e viabilidade(1). E mais: é fato que os camponeses, mesmo com todas as pressões vividas, continuam responsáveis pela produção da maior parte da comida consumida pela população mundial. E foram justamente camponeses e camponesas, organizados na Via Campesina, que no início da década de 1990, desenvolveram o conceito de soberania alimentar. Este é um conceito amplo, que engloba enfoques especiais para enfrentar e estimular alternativas às políticas neoliberais que sustentam o paradigma de desenvolvimento dominante, fundamentado no comércio agrícola internacional liberalizado, na segurança alimentar baseada no comércio e produção industrial agrícola e de alimentos. Essas políticas, canalizadas em grande medida pelo “marco” internacional dado pela Organização Mundial do Comércio, pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial e demais organismos da política econômico-financeira internacional, têm sido responsáveis, dentre outras coisas, pela contínua expulsão de camponesas e camponeses de suas terras. Também têm sido responsáveis pelo crescente controle de algumas empresas transnacionais sobre a cadeia produtiva, da produção das sementes até a venda dos grãos, o que tem provocado uma redução da soberania alimentar. Dentro dessa mesma lógica, há algumas décadas, está em curso um processo de apropriação e privatização de sementes no mundo por poucas empresas transnacionais ocidentais, o que se chama “patenteamento”. Hoje em dia, muitos camponeses se veem obrigados a comprar sementes, pagando royalties às empresas “donas” das mesmas, que enriquecem enquanto os camponeses perdem sua autonomia para reproduzir a vida na terra. E para as empresas é estratégico ter o controle sobre todas as sementes para continuar a garantir o fornecimento para os agricultores. Mais recentemente, surgiu o conceito dos chamados “serviços ambientais”, para os quais elementos da biodiversidade como a água, a regulação do clima e a conservação do solo passam a ser comercializados, até mesmo nas bolsas de valores, abrindo margem para a “especulação com a natureza”. O fato é que seu valor necessariamente vai depender da oferta, o que resulta na lógica perversa de quanto mais destruição, mais poderá render um “serviço ambiental”. E tudo isto é chamado de “economia verde”. O que significa isso para as populações locais e, sobretudo, para a biodiversidade e a soberania alimentar? Significa mais pressão sobre os recursos naturais, sobre a biodiversidade, das quais essas populações dependem, o que resultará em mais expulsão de milhares de pessoas. E se, por acaso, sua permanência for aceita, a população não poderá mais interferir nos recursos, na biodiversidade. Isto é um desrespeito à sua cultura e reduz a soberania alimentar quando, por exemplo, elas são proibidas de fazer suas roças de subsistência, o que já está ocorrendo em diversas partes do mundo. Com isso, perdem controle sobre o território, perdem sua autonomia. Por isso, é muito importante que as comunidades hoje em dia busquem entender plenamente as propostas chamadas “verdes” que são feitas a elas, desde o mecanismo de carbono florestal – REDD+ –, até a venda de serviços ambientais. Geralmente, são apresentadas como coisas boas que beneficiariam a comunidade e melhorariam o meio ambiente. Na realidade, são mecanismos que, por sua própria lógica, tendem a piorar o meio ambiente global, e pelo controle que querem exercer sobre o território das populações indígenas, tradicionais e rurais, afetarão profundamente a soberania alimentar de milhões de pessoas no mundo que querem conservar seus modos de vida. Nota (1) Veja http://www.rodaleinstitute.org/fst30years. * Publicado originalmente no Outras Palavras e retirado site Mercado Ético.  


por Redação WRM (Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais)
efeitoestufa Preservação

Nova técnica pode facilitar políticas de preservação

Pesquisadores calculam a capacidade das florestas de resfriar o ambiente e salientam que este serviço ecossistêmico deveria ser levado em conta para justificar ações de mitigação do aquecimento global e de uso da terra. Quando se pensa em manter a floresta intacta como uma forma de combater as mudanças climáticas, o que costuma ser considerado é a quantidade de carbono que seria liberado para a atmosfera se as árvores fossem derrubadas. Agora, pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, em parceria com instituições brasileiras, propõem que a capacidade das florestas de resfriar o ambiente também seja utilizada como um argumento a favor de ações de preservação. “Todos sabem que o desmatamento causa a liberação de dióxido de carbono e que isto contribui para o aquecimento global. Mas os serviços ecossistêmicos das florestas que atuam sobre o clima também deveriam ser levados em conta”, afirmou Kristina Anderson-Teixeira, uma das autoras do artigo. As florestas contribuem para o resfriamento de uma região ao liberar vapor de água no ambiente, um tipo de “suor planetário”. “É preciso uma grande energia para converter água em vapor e esse processo resfria o solo e a superfície das folhas da mesma maneira como o suor resfria a nossa pele”, explicou Evan DeLucia, coautor da pesquisa. A importância da presença das florestas para o clima já é conhecida há muito tempo, a dificuldade está em quantificar esta ajuda de forma que possa ser um argumento a mais para a preservação ambiental. Para tentar resolver esse problema, Kristina Anderson-Teixeira e Evan DeLucia, ambos da Universidade de Illinois, se uniram aos professores Peter Snyder e Tracy Twine, da Universidade de Minnesota, e aos professores Santiago Cuadra, do Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro, e Marcos Costa, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. A equipe compilou dados para calcular o “valor dos gases do efeito estufa” (a capacidade de absorção desses gases) de 18 “ecorregiões” das Américas, e também criou uma modelagem de suas características biofísicas. Foram analisados dados de diversos tipos de florestas, gramíneas, tundra, savana e de culturas agrícolas, como a soja e a cana-de-açúcar. “O desafio é combinar os valores dos gases do efeito estufa com os efeitos biofísicos uma vez que eles operam em escalas muito diferentes”, afirmou Kristina. Os pesquisadores decidiram que a melhor maneira de combinar os dois fatores, e assim conseguir um panorama mais abrangente do efeito da vegetação no clima, era dividir os efeitos biofísicos pela área global de superfície de terras. Em seguida, eles converteram esses valores em unidades de dióxido de carbono equivalente (CO2e), um padrão comum nas negociações climáticas internacionais. Assim, foi possível quantificar o papel de cada tipo de vegetação para o resfriamento de uma região. Comparando os dados dos locais estudados, os cientistas concluíram que a Amazônia possui o maior valor de regulação climática nas Américas. Uma surpresa foi que as culturas agrícolas também têm um papel importante para limitar o aquecimento. “Pensa-se que as plantações como o milho contribuem apenas para as mudanças climáticas, mas se levarmos em conta sua capacidade de refletir o calor e sua alta taxa de transpiração de vapor de água, o efeito final é o resfriamento local”, disse DeLucia. Os pesquisadores reconhecem que seu método não é o único a tentar quantificar os serviços climáticos dos ecossistemas, mas salientam que é um dos mais abrangentes e que é mais um argumento a favor da preservação e do bom uso do solo. “O valor de regulação climática que propomos neste artigo busca capturar como os ecossistemas afetam o clima, mas é importante salientar que é apenas um dos muitos serviços que os ecossistemas providenciam. O valor final da natureza para a sociedade deve incluir todos esses serviços, como biodiversidade, purificação da água e produção de fibras e alimentos.” “Esperamos que nossa proposta facilite a construção de políticas de uso da terra que protejam o clima”, resumiu Kristina. * Publicado originalmente no Instituto CarbonoBrasil e retirando do site Mercado Ético.


por Fabiano Ávila, do Instituto CarbonoBrasil
raquel kleber foto 2 Entrevista

Ecojustiça: Um desafio debatido pelos jovens, em Durban

A COP-17, que aconteceu no final do ano passado, em Durban, foi o cenário de inspiração para a formação de jovens líderes religiosos que integram divesas confissões religiosas. Reunidos no continente Africano, 30 jovens de 21 países trocaram experiências, refletiram sobre as consequências das mudanças climáticas, sobre o conceito de justiça ambiental e participaram das manifestações da sociedade civil em defesa de um mundo melhor. Raquel Helene Kleber, membro da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, foi uma das integrantes do treinamento organizado pelo Conselho Mundial de Igrejas – CMI e pela Federação Luterana Mundial – FLM, e destaca que “a essência do encontro Youth for Eco-Justice foi perceber a presença de Deus em toda a criação e o nosso desafio, como cristãos, de a cuidarmos, no sentido de que somos interconectados com ela, e não uma parte independente. Foi relevante também perceber a importância da igreja em abordar as questões de justiça socioambiental, empoderando as pessoas para que reflitam sobre as causas dos problemas, relacionando as ações com a fé”. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, a estudante de Relações Internacionais relata as diversas manifestações sociais que aconteceram durante a conferência do clima e enfatiza o papel das igrejas na busca de soluções para pensar um modelo político e econômico mais justo. “As mudanças climáticas são uma das manifestações da injustiça socioambiental, na qual os seres humanos falharam em encontrar o equilíbrio. A busca pela justiça e o cuidado com a criação está no centro da palavra de Deus, e a igreja tem um papel crucial a desempenhar na sociedade, proporcionando uma perspectiva ética sobre a mudança climática e promovendo a justiça social e ambiental”. Raquel Helene Kleber é estudante de Relações Internacionais da ESPM-Sul. Confira a entrevista IHU On-Line – Você participou do treinamento global para jovens líderes intitulado Youth for Eco-Justice, representando o Conselho Mundial de Igrejas e a Federação Luterana Mundial em Durban, África do Sul, durante a COP17. Como foi esse treinamento e qual era o seu objetivo? Raquel Helene Kleber – Youth for Eco-Justice foi um treinamento global transformador sobre ecojustiça para jovens líderes. O grupo do qual fiz parte reuniu-se em Durban, África do Sul, durante a 17ª Conferência das Partes (COP-17) da Convenção-Quadro das Nações Unidas para a Mudança do Clima (UNFCCC). O programa contou com a participação de 30 jovens de 21 países, de confissões luterana, anglicana, metodista, ortodoxa grega, presbiteriana e católica romana, sob a organização conjunta do Conselho Mundial de Igrejas – CMI e da Federação Luterana Mundial – FLM. A formação em ecojustiça é contínua, uma vez que se estenderá através da sólida rede formada entre os participantes e através dos projetos que serão implementados pelos jovem em seus respectivos países e igrejas, conectando dessa forma os diálogos e ações locais, nacionais e internacionais. O encontro oportunizou o compartilhamento de ideias e experiências acerca dos contextos locais de cada participante e incentivou a planificação de projetos a serem posteriormente implementados nos respectivos países. A questão das mudanças climáticas está intimamente ligada às injustiças socio ambientais que vemos em nosso mundo, uma vez que as comunidades mais pobres e vulneráveis são aquelas que mais sofrem as consequências. Foi relacionado a esse conceito de justiça que tivemos muitas de nossas reflexões e diálogos durante o treinamento, sempre tendo como base a palavra de Deus. Para mim, a essência do encontro Youth for Eco-Justice foi perceber a presença de Deus em toda a criação, e o nosso desafio, como cristãos, de a cuidarmos, no sentido de que somos interconectados com ela, e não uma parte independente. Foi relevante também perceber a importância da igreja em abordar as questões de justiça socioambiental, empoderando as pessoas para que reflitam sobre as causas dos problemas, relacionando as ações com a fé. Volto deste treinamento com a certeza de que existe um chamado para toda a sociedade se engajar na construção de justiça e sustentabilidade, e os jovens têm, neste contexto, um papel oportuno de liderança. IHU On-Line – Quais foram os principais temas discutidos no encontro? Como elas podem ser aplicadas ao contexto brasileiro? Raquel Helene Kleber – Enquanto aprendíamos sobre o significado de ecojustiça, termo que conecta justiça climática, ambiental, social e econômica, aprendemos também sobre a sua teologia, que apresenta a busca pela justiça como centro do ser cristão, chamando atenção da igreja para atuar em defesa daqueles que mais precisam, dos excluídos e oprimidos. A ligação com o ambiental encontra-se em versículos como Romanos 8:18-23, que revelam a criação que geme, ou seja, que sofre os impactos de seu uso irresponsável por parte dos seres humanos. E é ainda através das palavras da Bíblia que somos chamados para nos tornar “cuidadores” da criação de Deus. O treinamento visou capacitar jovens cristãos para serem multiplicadores da ecojustiça, estudando e compreendendo as complexas relações entre as questões ambientais e os processos das estruturas socioeconômicas. Os participantes receberam treinamentos e participaram das atividades da sociedade civil da COP-17. O programa incluiu estudos teológicos e bíblicos, oficinas e reuniões com especialistas, formação em comunicação, campanha, projeto e gestão, arrecadação de fundos, ecumenismo, celebração da comunhão, promoção da ecojustiça nacional e internacional e atividades artísticas e culturais. Ao final da segunda semana cada jovem foi desafiado a pensar um projeto que será implantado a partir de agora em seus respectivos países, tendo como ponto de partida a realidade e o contexto de cada lugar e de cada igreja. Cada projeto foi pensado em conjunto com os coordenadores do programa e recebeu, ao final, uma avaliação dos próprios colegas, que, após uma apresentação para o grande grupo, fizeram críticas e sugestões. Os projetos poderão receber um pequeno subsídio da FLM e do CMI, mediante a apresentação de relatórios de planejamento e implementação, mas deverão contar com apoio financeiro local. Segundo Roger Schmidt, “são essas iniciativas, de trabalho de base, que são essenciais para transformar a injustiça que as pessoas enfrentam diariamente”. Segundo ele, “estes projetos permitem que as igrejas contribuam para construir o consenso global da obrigação ética de tomar atitudes concretas face os desafios ecológicos”. IHU On-Line – Que eventos aconteceram paralemamente à COP-17? Que avaliação faz desses encontros? Raquel Helene Kleber – Enquanto os 194 países negociavam na COP-17 a respeito da redução das emissões de gases de efeito estufa, principais causadores das mudanças climáticas, o grupo Youth for Eco-Justice, do qual fiz parte, engajou-se ativamente em mobilizações da sociedade civil que clamavam aos governos por uma ação rápida e efetiva de combate às mudanças do clima. O Global day of action é um exemplo disso e que contou com mais de 30 mil pessoas (mais informações: http://lwfyouth.org/2011/12/04/y4ej-youth-participate-in-global-day-of-action-demonstration/). O primeiro momento marcante que vivenciei foi a participação no Encontro Interconfessional de Justiça Climática, que ocorreu no estádio de Rugby ABSA Kingspark, em Durban, no dia prévio ao início das negociações. Os jovens do treinamento de ecojustiça tiveram participação de destaque, ao carregar um banner que continha o nome do próprio grupo, chamando a atenção da mídia internacional. No encontro estiveram presentes, além de delegados ecumênicos de diversos países, o bispo emérito anglicano Desmond Tutu. Em seu discurso ele afirmou o compromisso da comunidade de fé com a busca pela justiça climática e disse que “Deus quer que vivamos em um jardim, e não em um deserto”. Outro destaque coube à campanha We have faith, act now for climate justice, que consistiu em um movimento panafricano que disseminou a visão da luta pela justiça climática na África, trazendo para Durban as expectativas e o clamor para a adoção de um acordo ousado e vinculante para reduzir as mudanças climáticas. Foram realizados durante esta campanha diversos eventos de sensibilização, sendo que o principal deles a caravana de jovens pela justiça climática, que partiu de Nairóbi, no Kenya, até Durban, tendo coletado, ao final, 200 mil petições. Ao final, elas foram entregues a Desmond Tutu, em um ato simbólico, estando contidas em uma reprodução da Arca de Noé. Em seguida elas foram apresentadas à presidente da COP-17, Christina Figueres e à ministra de Relações Internacionais da África do Sul, Maite Nkoana-Mashabane. Um momento marcante foi a participação na marcha Global day of action, em português, Dia Global de Ação. A marcha já se tornou tradição nas Conferências das Partes da UNFCCC e mobilizou este ano cerca de 20 mil pessoas, tendo como objetivo chamar a atenção dos governos para a urgência de tomar uma atitude com relação às mudanças do clima. Jovens e a comunidade ecumênica, que teve como ponto de encontro o Centro de Diaconia, levaram um banner dizendo Polluters Pay (poluidores pagam), exigindo que os países que mais emitem gases de efeito estufa assumam a responsabilidade do débito ambiental. Durante a marcha, foram entoados gritos de incentivos como “nós viemos de toda a África, e não iremos embora enquanto não formos ouvidos”. Os participantes estavam determinados a chamar a atenção e ser ouvidos. IHU On-Line – Como as igrejas têm se manifestado diante dos debates socioambientais e das mudanças climáticas? Raquel Helene Kleber – As comunidades cristãs estão cada vez mais preocupadas com a crise ecológica e a maneira como a humanidade tem tratado a criação de Deus. O planeta Terra está em perigo e a criação está sofrendo. Ao mesmo tempo, estamos vendo cada vez mais claramente as ligações entre a crise ecológica e a justiça socioeconômica. O prefixo “eco” vem da palavra grega oikos para “casa” e faz parte das raízes etimológicas da palavra economia e ecologia, mas também de ecumenismo. Na ligação entre as questões de justiça ambiental e social, a “ecojustiça”, em suma, reflete os desafios da destruição da terra pela humanidade e do seu abuso de poder econômico e político, que resultou na pobreza. “It always seems impossible, until it is done” (Sempre parece impossível, até que seja feito). Esta frase, de Nelson Mandela, utilizada no contexto do Apartheid, sistema político de segregação e discriminação racial que foi vigente na África do Sul, demonstra a fé e a esperança em um mundo mais justo e pacífico. Assim como naquela época e contexto a igreja passou por uma transformação interna para, então, ser a base para a luta contra o sistema vigente e a transformação para uma sociedade mais justa, assim também este papel profético é transportado para hoje, na busca das comunidades de fé por um mundo mais sustentável, com justiça social e ambiental, no qual as minorias e os mais vulneráveis tenham voz e tenham direitos e oportunidades, e no qual as nações que mais poluíram ao longo dos anos assumam o seu débito ambiental. Preocupação ambiental O Conselho Mundial de Igrejas tem um longo histórico de participação nas Conferências das Partes da UNFCCC. Desde a primeira delas, a organização tem utilizado o espaço conquistado para proferir a palavra ao mais alto segmento da COP, falando em nome de diversas igrejas, comunidades de fé e movimentos ecumênicos pelo mundo. A visão do Conselho Mundial de Igrejas consiste na certeza de que “compartilham a declaração de fé das comunidades, exigindo justiça climática para todos”, de acordo com Elias Abramides. Neste encontro, o Conselho Mundial de Igrejas proferiu um comunicado para os governantes que participaram da COP-17, ratificando a necessidade de um tratado justo, ambicioso e vinculativo, para enfrentar efetivamente as mudanças climáticas. Ao final da conferência, que foi a mais longa da história, as negociações da COP-17 tiveram como principais resultados: O Pacto Global do Clima, que lança uma base para um futuro acordo contra o aquecimento global, envolvendo metas de redução juridicamente vinculantes para países desenvolvidos e para aqueles em desenvolvimento. Este novo pacto, cujas discussões deverão ser concluídas até 2015, está previsto para entrar em vigor a partir de 2020, inclui os países maiores emissores de gases de efeito estufa, hoje a China, Estados Unidos e Índia. Foi decidido em Durban que em 2013 começa a vigorar o segundo período de compromissos do Protocolo de Kyoto, cuja vigência foi prorrogada até pelo menos 2017. O resultado desse processo culminará no já citado Pacto Global do Clima. Enquanto isso, países como Canadá, Japão e Rússia, que recentemente se desvincularam do Protocolo de Kyoto, somam-se aos Estados Unidos e China, maiores poluidores do mundo, os quais não fazem parte do acordo. Foram feitas ainda negociações sobre o Fundo Verde, que havia sido proposto na COP-16, em Cancún. Ele promete cerca de 100 bilhões de dólares anuais a partir de 2020 para combater emissões e promover ações de adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento. No entanto, não foram estabelecidas regulamentações, como de quem vem o dinheiro e quem irá administrá-lo. Apesar de deliberar importantes e relevantes avanços políticos na luta contra as causas e os efeitos das mudanças climáticas, os países que mais contribuem com as emissões ainda ficam livres para poluir, uma vez que não tem nenhum compromisso legal, e coloca o mundo rumo a um aquecimento irreversível. IHU On-Line – Por que o tema ambiental tem feito parte da formação de novos líderes religiosos? Raquel Helene Kleber – Tendo chamado a atenção da mídia global, o trabalho dos jovens participantes no treinamento internacional reafirmou o papel crucial da igreja para atuar ativamente na sociedade em defesa da ecojustiça e o comprometimento dos jovens com esta causa, uma vez que somos nós, jovens, que temos a esperança e energia para alterar essas situações, somadas à nossa capacidade de trabalho em rede e tecnologia. Seremos nós os afetados pelas decisões de hoje. Temos em mãos a oportunidade única de apresentar e aplicar soluções para este mundo. As mudanças climáticas são uma das manifestações da injustiça socioambiental, na qual os seres humanos falharam em encontrar o equilíbrio. A busca pela justiça e o cuidado com a criação está no centro da palavra de Deus e a igreja tem um papel crucial a desempenhar na sociedade, proporcionando uma perspectiva ética sobre a mudança climática e promovendo a justiça social e ambiental. Uma mudança no sistema econômico é, portanto, categórica, mas também uma mudança em nossas ações, a partir da posição de dominadores para mordomos da criação. É necessário reconhecer, nesta transformação, o status de seres interdependentes da criação, e não uma parte independente dela. No processo de criação de um mundo ecologicamente justo, a juventude tem um papel significativo a desempenhar. IHU On-Line – Como foi participar deste encontro? Raquel Helene Kleber – Fomos inspirados e encorajados, diariamente, através de um tempo de comunhão na celebração da manhã, tempo seguido pela leitura bíblica em pequenos grupos. As celebrações eram lideradas pelos próprios jovens que a conduziam de acordo com as suas culturas e tradições, compartilhando hinos e orações em suas próprias línguas. A possibilidade de trocar ideias e perspectivas sobre a palavra e os diferentes contextos oportunizou um aprendizado riquíssimo, revelando a presença de Deus em lugares e formas distintos. O testemunho de um jovem indiano, de meu grupo, revelou, por exemplo, a ainda existente discriminação em seu país, derivada do antigo sistema de castas. O jovem, que na comunidade indiana é um dálit, ou seja, intocado, é proibido de tocar a água e de andar de pés descalços, pois é considerado, o jovem, uma pessoa impura e indigna, simplesmente pelo fato de ter nascido em uma família de casta inferior. Ainda assim, nesses lugares de caos e de injustiças, tais jovens engajam-se no estudo da Bíblia e na busca pela justiça. Para eles, a fé oferece a força e o encorajamento para buscarem soluções e conquistarem direitos. Algo de muito positivo que vivenciei foi a receptividade e empolgação das pessoas que conhecia, quando eu dizia que era brasileira. Exclamações como “O Brasil é demais” e “quero muito ir pra lá” foram recorrentes. Inúmeros foram também os elogios para o nosso futebol e a nossa natureza exuberante. E foi sempre com muita expectativa que me saudavam pela realização da Rio+20 neste ano.   * A foto desta matéria foram enviadas pela entrevistada. ** Publicado originalmente no site IHU Online.


por Redação da IHU Online
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Sustentabilidade faz bem para o planeta e o bolso

A cerca de sete meses da realização da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, é fundamental que governos e a sociedade mobilizem-se e se debrucem sobre o tema, considerando ser o evento uma grande oportunidade de se conter a tempo as consequências do efeito estufa, resgatar a qualidade ambiental e equacionar o abastecimento de água e a segurança alimentar. A humanidade está atrasada na agenda de sua sobrevivência, considerados os pífios resultados de iniciativas como o Protocolo de Kyoto e a Agenda 21, documento basilar da Rio 92. Em todo esse contexto, é fundamental o engajamento das empresas, que, independentemente das decisões governamentais, podem fazer muito. Felizmente, observa-se, no universo corporativo dos mercados emergentes, que cresce o número de organizações preocupadas com a questão e que muitas delas estão se beneficiando de iniciativas que aliam progresso ao desenvolvimento sustentável, mantendo práticas ambientais sensatas e crescimento social e econômico responsável. Em nosso país, o conceito emergiu com força na década de 1990. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), 46% das empresas entrevistadas afirmam que têm políticas de sustentabilidade e 37% possuem um departamento específico dedicado ao assunto. Contudo, os números mostram que o conceito ainda não está devidamente incorporado na totalidade das organizações: é estratégico para 32%, pontual para 30%, informal para 23%, existente, mas não aplicado, em 11%, e inexistente em 4%. Como se observa, temos muito a avançar. Uma contribuição relevante no sentido de sensibilizar as empresas e a sociedade quanto à importância das práticas sustentáveis é a disseminação ampla de suas vantagens. Exemplos inequívocos destes benefícios encontram-se nas chamadas construções sustentáveis, caracterizadas pela presença de painéis de energia solar, captação de água da chuva – dispositivo de redução do consumo e reúso da água –, utilização de materiais novos recicláveis que possam ser usados nas reformas, fonte de energia eólica, filtros e sensores de dióxido de carbono – melhorando a qualidade do ar interno –, aproveitamento de ventilação e iluminação naturais, paisagismo com espécies nativas, e mínima ocupação do solo, favorecendo a permeabilidade. Edificações com tais características propiciam economia de 30% de energia e até 50% de água, além de redução de até 60% na geração de resíduos sólidos e 35% de dióxido de carbono. Além dos benefícios ambientais e impactos positivos na qualidade da vida dos funcionários das empresas ou moradores de edifícios residenciais, esses avanços na concepção arquitetônica fazem muito bem ao bolso dos proprietários. No caso de prédios comerciais, obtêm-se, em média, acréscimo de 10% a 20% por metro quadrado no aluguel e 3,5% na ocupação. No caso de prédios residenciais, é de 14% a sobrevalorização. O avanço dos conceitos de sustentabilidade na arquitetura e construção suscita enormes oportunidades no tocante ao desenvolvimento de produtos, materiais, serviços e tecnologia. Implica, porém, os desafios de estimular todo esse movimento nos sistemas produtivos e incentivar a pesquisa e a inovação. O compromisso com a sustentabilidade não pode mais ser adiado. Se na Rio 92 a situação do planeta era de alerta, na Rio+20, é de emergência. Mais do que nunca, as empresas devem ser agentes de desenvolvimento e o poder público, instrumento de transformação. * Juan Quirós é presidente do Grupo Advento e vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base). ** Publicado originalmente no site Pauta Social.


por Juan Quirós
Águas residuais que saem das casas possuem 0,10% de matéria sólida. Foto: Henrique Oscar Loeffler Tecnologia

Águas residuais são transformadas em papel com método israelense

[caption id="attachment_38459" align="alignleft" width="300" caption="Águas residuais que saem das casas possuem 0,1% de matéria sólida. Foto: Henrique Oscar Loeffler"][/caption] Utilizar as águas residuais de zonas residenciais para produzir papel é o principal objetivo de um novo método desenvolvido em Israel. A novidade criada pelo médico Rafi Aharom, da região de Tzur Yigal, contribui com o meio ambiente e ajuda a baratear o preço da água e do papel. O responsável pela criação garante que o processo utiliza um recurso inovador de aproveitamento do material sólido, que é retido nos filtros das plantas urbanas de reciclagem e que são ricos em celulose. "Da mesma forma que fazemos com o plástico, não há nenhuma razão para não fazer essa reciclagem", destacou Aharom ao jornal Yedioth Ahronoth. Ele explicou que 99,9% das águas que saem das casas são compostas por material líquido, sendo que apenas 0,1% pode ser considerada matéria sólida. Para o especialista, esse pequeno percentual é muito aproveitável porque contém celulose proveniente de alimentos, além de papel higiênico. O método reduz pela metade o material sólido e, por isso, a unidade de reciclagem precisa de menos eletricidade e produtos químicos para descontaminar a água, o que significa economia para os consumidores. Depois de serem secos e purificados, os restos podem ser vendidos para empresas de papel a um preço inferior ao do papel reciclado comum. O sistema já foi instalado no Sul de Israel, lugar onde existem grandes quantidades de celulose. * Com informações da EFE. ** Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação EcoD
Inverno Cultural UFSJ. Economia Verde

Projeto pretende criar política nacional de desenvolvimento do ecoturismo

[caption id="attachment_38464" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Inverno Cultural UFSJ"][/caption] Um projeto em tramitação na Câmara dos Deputados pretende criar uma política de desenvolvimento do ecoturismo e do turismo sustentável. Aprovado pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados no dia 14 de dezembro, o Projeto de Lei 868/11 estabelece regras, instrumentos de gestão e recursos para garantir a preservação da biodiversidade em locais onde as atividades turísticas são exploradas, além de criar o Dia do Ecoturismo, a ser comemorado, anualmente, no dia 17 de dezembro, data do nascimento do ambientalista José Lutzemberger. Para o relator na Comissão, deputado Antônio Roberto (PV-MG), a política cumprirá um importante papel ao permitir que os recursos naturais abundantes, aliados a paisagens exuberantes e à diversidade cultural brasileira, possam ser conhecidos por um número cada vez maior de brasileiros e estrangeiros. De acordo com o projeto, a política de ecoturismo e turismo sustentável vai permitir que essas atividades sejam implementadas sem prejuízos para a biodiversidade e respeitando os princípios da preservação. “A proposta contribuirá para estabelecer padrões de preservação e ações preventivas para que os recursos a serem explorados, tais como áreas tombadas, monumentos naturais, paisagens, entre outros locais de interesse ecológico, não sejam degradados”, defendeu Roberto. Compatibilidade ambiental Segundo o autor do projeto, o deputado Giovani Cherini (PDT-RS), a criação da política tem como principal objetivo compatibilizar as atividades de ecoturismo com o uso sustentável dos recursos naturais, evitando o esgotamento. O texto ainda estabelece como metas a redução de resíduos sólidos gerados, a manutenção da diversidade natural e cultural, além do respeito à capacidade de cada região de suportar, sem provocar degradação do ecossistema, a circulação de pessoas em áreas de trilhas. A implementação da política prevê a atuação de diversos segmentos sociais na forma de parcerias, incluindo prestadores de serviços turísticos em geral e os que desenvolvem atividade de comércio, a população local e flutuante, os entes da federação e organizações não governamentais nacionais e internacionais (ONGs). Capacitação e estímulo O texto prevê ainda ações de conscientização, capacitação e estímulo à população local para a atividade de ecoturismo e de turismo sustentável. “O turismo é a indústria de maior crescimento na atualidade, movimentando recursos vultosos. E o Brasil tem um potencial muito grande em razão dos infindáveis recursos naturais que possui”, afirma Cherini. Segundo ele, para cada emprego direto na indústria do turismo, criam-se nove empregos indiretos, o que traduz o seu efeito gerador e multiplicador de empregos. “Por isso, mostra-se imprescindível a implementação de ações do poder público, de todos os entes da federação, para acelerar o acesso ao desenvolvimento no setor, sem comprometer a harmonia entre o crescimento econômico e a preservação do meio ambiente”, argumenta. Tramitação O projeto, que tramita em caráter conclusivo, ainda será analisado pelas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, de Turismo e Desporto, e de Constituição, Justiça e Cidadania. * Com informações da Agência Câmara de Notícias. ** Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação EcoD
Pesquisa feita no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Controle Biorracional de Insetos Pragas desenvolve método para preservar princípio ativo de bioinseticida. Ciência

Óleo nanoencapsulado contra pragas agrícolas

[caption id="attachment_38475" align="alignleft" width="200" caption="Pesquisa feita no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Controle Biorracional de Insetos Pragas desenvolve método para preservar princípio ativo de bioinseticida."][/caption] O nim ou neem (Azadirachta indica), planta natural do sudeste da Ásia, é considerado uma fonte promissora para a produção de inseticidas orgânicos. Na agricultura, essa árvore da família Meliaceae é utilizada em diversas regiões para o controle de pragas, agindo sobre cerca de 400 espécies de insetos. Com crescimento rápido e copa densa, o nim chega a alcançar 15 metros e pode ser cultivado em regiões de clima quente e solos bem drenados. No Brasil, as primeiras introduções de forma oficial foram feitas pela Fundação Instituto Agronômico do Paraná, em 1986, com sementes procedentes das Filipinas e, em 1989, com sementes da Índia, Nicarágua e República Dominicana. Na década seguinte, suas propriedades se tornaram mais conhecidas, dando início a plantios comerciais em diversos Estados. Especialistas apontam que sua extração no Brasil ainda precisa de ajustes. O óleo extraído por aqui, por exemplo, tem seu princípio ativo (a azadiractina) degradado quando exposto ao Sol. Mas um projeto de pesquisa conduzido em São Carlos conseguiu otimizar o processo de extração e, por meio da nanoencapsulação do óleo, preservar as propriedades inseticidas do nim. “Essa instabilidade da azadiractina sob a radiação solar é algo por demais dispendioso na lavoura, uma vez que o agricultor tem de aplicar diversas vezes o óleo”, disse Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva, professora do Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), à Agência Fapesp. Ela coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Controle Biorracional de Insetos Pragas, financiado pela Fapesp e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que tem por objetivo estudar compostos não tóxicos ao ser humano e que possam controlar doenças e o comportamento de pestes na agricultura. Entre as pesquisas do INCT, está o estudo "Nano e microencapsulamento de extratos vegetais de Meliaceae para controle de pragas de solo usando ligninas do bagaço de cana-de-açúcar", de Eveline Soares Costa e coordenado por Moacir Rossi Forim, ambos do Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia da UFSCar. Silva explica que no projeto foram identificadas falhas mecânicas no processo de extração convencional do óleo de nim. Segundo ela, durante o procedimento – que envolve a colheita do fruto e a retirada das sementes –, perde-se cerca de 60% do princípio ativo da planta. “A extração é feita por um processo conhecido por compressão, que forma uma espécie de ‘torta’. No entanto, essa torta – na qual se encontra a maior parte da azadiractina – é descartada”, disse. O estudo de Costa consistiu no desenvolvimento de uma metodologia para enriquecimento do óleo de nim. Além dos ajustes no processo de extração do óleo, que rendeu um pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), os pesquisadores desenvolveram um polímero natural de bagaço de cana-de-açúcar para em seguida envolverem – em escala nanométrica – o óleo de nim. “Esse nanoencapsulamento permite maior proteção ao princípio ativo em relação à radiação solar. Ao ser aplicado, o óleo tem maior tempo de vida no solo, o que representa uma importante economia para o agricultor, que não precisa aplicá-lo várias vezes”, ressaltou Silva. A pesquisa do nanoencapsulamento – que também rendeu um pedido de registro de patente – despertou o interesse da empresa alemã DVA, cuja representante brasileira é responsável pelas vendas no país do óleo de nim oriundo da Índia. Segundo Silva, a parceria fechada com a empresa deverá acelerar o ingresso do produto nanoencapsulado no mercado. “Como já comercializa o óleo indiano no país, a DVA conta com ensaios de toxicidade e autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Falta apenas o ensaio de toxicidade com o nanoencapsulamento”, disse. Saiba mais sobre o nim: www.cnpf.embrapa.br/publica/circtec/edicoes/circ-tec162.pdf * Publicado originalmente na Agência Fapesp.


por Mônica Pileggi
Aquecimento do oceano afina faixas de gelo, utilizadas para a reprodução. Foto: Yeimaya Biodiversidade

Degelo ameaça reprodução das focas no Hemisfério Norte, afirma estudo

[caption id="attachment_38479" align="alignleft" width="300" caption="Aquecimento do oceano afina faixas de gelo, utilizadas para a reprodução. Foto: Yeimaya"][/caption] Um estudo divulgado na quinta-feira, 5 de janeiro, pela Universidade Duke, dos Estados Unidos, afirma que a reprodução das focas-harpa pode estar ameaçada. Devido à elevação da temperatura na terra, as placas de gelo derretem na região do Atlântico Norte. Um publicação na revista PLoS One mostra que, desde 1976, o gelo proveniente do inverno teve uma redução de 6% em quatro regiões classificadas como zonas de reprodução das focas-harpa, e devido ao desaparecimento das placas de gelo estáveis, a taxa de mortalidade dos filhotes aumentou nos últimos anos. As focas dependem do gelo estável no mar para reprodução, pois consideram o local seguro para dar à luz e amamentar os filhotes. Geralmente, as fêmeas procuram as camadas de gelo mais grossas e firmes, mais no interior da região do Ártico, e se adaptam até o derretimento dessas calotas, com a chegada da primavera. Para avaliar os impactos dos fatores climáticos sobre a população de focas-harpa, os pesquisadores analisaram imagens de satélite do gelo existente no Golfo de St. Lawrence (costa leste do Canadá), entre 1992 e 2010, e as compararam com relatórios anuais que apontam o registro de focas mortas na região. Essas análises revelaram que a maior mortalidade dos filhotes se deu no Atlântico Noroeste, quando a cobertura do gelo foi mais leve e a oscilação do Atlântico Norte foi mais fraca. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação EcoD

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