Emissões: responsabilidades diferenciadas?

Ambiente

Emissões: responsabilidades diferenciadas?


por Ricardo Abramovay*


A defesa de que chegou a vez de os emergentes emitirem carbono não se justifica mais. A revolução digital combinada à produtividade das renováveis mudou o panorama É nefasta a defesa, por parte da diplomacia brasileira, de que nas negociações climáticas, os direitos de emissão de gases de efeito estufa devem contabilizar o que cada país lançou na atmosfera desde 1850. Em primeiro lugar, não se justifica responsabilizar alguém por uma ação cujos impactos não eram conhecidos à época em que foi tomada. O German Advisory Council on Global Change também preconiza uma contabilidade das emissões per capita, levando em conta o passado, mas parte de 1990, momento em que a comunidade científica internacional tornou públicas as evidências de que os gases de efeito estufa eram destrutivos para o sistema climático e de origem antrópica [1]. Além de ser eticamente indefensável, voltar a 1850 é inviabilizar qualquer acordo, pela carência de informações sobre o que se emitia à época. É preciso reconhecer, claro, a imensa desigualdade na ocupação do espaço carbono global: segundo o último relatório do IPCC, as emissões médias per capita dos países de baixa renda são nove vezes menores que as dos países mais ricos. É, em última análise, sobre a base dessa constatação que se estabeleceu o Protocolo de Kyoto, o único compromisso legalmente vinculante nas negociações climáticas. O problema é que há uma incontornável armadilha em seu arcabouço: ele só atribui metas obrigatórias de redução aos países mais ricos. A própria ideia de responsabilidades comuns, porém diferenciadas, que dá conteúdo ao Protocolo de Kyoto, contém uma bomba de efeito retardado que explodiu junto com a ascensão da China a primeiro emissor global. É um dispositivo segundo o qual os países que, ao longo da história, emitiram menos teriam agora o direito de recuperar a perda. É um pouco como se dissessem: chegou a nossa vez. Os resultados só podem ser catastróficos não só globalmente, mas para os próprios países que insistem nesta rota. Até poucos anos atrás, essa postura poderia ser justificada pela ausência de alternativas. Ampliar a exploração e o uso de fósseis era, de fato, para a maior parte dos países em desenvolvimento, o meio mais barato para acesso à energia. Mas os efeitos combinados da revolução digital e dos ganhos de produtividade das renováveis (sobretudo solar e eólica) mudam radicalmente esse panorama. Ray Kurzweil, importante inventor e inovador americano, mostra, no caso da energia solar, que seu crescimento tem sido exponencial. Nos últimos 20 anos, a oferta dobra a cada dois anos. Dobrando mais oito vezes ao longo dos próximos 16 anos, 100% da oferta de energia do planeta poderia ser solar. Ao mesmo tempo, tudo indica que o grande limite das fontes renováveis modernas – a intermitência –, está em vias de ser superado, com a melhoria das condições de armazenamento da energia em baterias. É o que mostra um relatório recente do Rocky Mountain Institute, com o sugestivo título de Grid Defection, algo como o Abandono da Rede. As formas convencionais de geração de energia vão-se tornando economicamente inviáveis. E o que está em jogo não são apenas as usinas movidas a carvão, mas o próprio conceito de geração centralizada com distribuição subsequente (hub-and-spoke, na expressão em inglês). A organização financeira global UBS prevê que, ainda nesta década, as contas de energia elétrica na Itália, na Alemanha e na Espanha cairão de 20% a 30%, como resultado do aumento da autoprodução de energia. As empresas convencionais de energia na Europa devem perder 50% de seus lucros antes de 2020.´ Uma internet da energia O mais importante é que essas fontes renováveis avançam juntamente com o aumento da conexão em rede. Trabalho recente de consultores da McKinsey mostra que os sistemas centralizados de obtenção e posterior distribuição de energia, implantados de forma generalizada desde Thomas Edison, serão substituídos por redes descentralizadas a partir de dispositivos altamente conectados entre si: uma internet da energia. Estimular a generalização desse avanço é o maior desafio das duas próximas conferências do clima. lutar para garantir direitos de emissão aos países em desenvolvimento é insistir num caminho que os afasta dessa fascinante conquista civilizacional, resultante do crescimento da autoprodução de energia sobre bases renováveis. Dois estudos recentes do BNDES [2] mostram que China e Índia estão se preparando para essa mudança, com grandes empresas de atuação global em solar e eólica. Já o Brasil insiste na hidroeletricidade e no petróleo e condena-se a ser importador das tecnologias que hoje estão revolucionando as renováveis. Com o olho em 1850. * Ricardo Abramovay é professor Titular do Departamento de Economia da FEA/USP. ** Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.

Cientistas do Caribe desenvolvem variedades de cultivos resistentes à seca que distribuem a agricultores nos países mais afetados pela mudança climática. Foto: Desmond Brown/IPS Ambiente

O Caribe se esforça para adaptar-se a uma estação seca sem fim

[caption id="attachment_115687" align="aligncenter" width="529"] Cientistas do Caribe desenvolvem variedades de cultivos resistentes à seca que distribuem a agricultores nos países mais afetados pela mudança climática. Foto: Desmond Brown/IPS[/caption]   Saint John’s, Antiga e Barbuda, 30/6/2014 – Os esforços do Caribe para garantir sua segurança alimentar estão em risco porque os agricultores não conseguem produzir a quantidade necessária de alimentos básicos, devido à severa seca que atinge a região por causa da mudança climática. Mas os cientistas enfrentam a situação criando uma variedade de sementes tolerantes à falta de água, que são distribuídas entre os agricultores nos países mais prejudicados. “Nos afeta principalmente a seca”, disse Gregory Robin, representante do Instituto de Desenvolvimento e Pesquisa Agrícola do Caribe (Cardi) e coordenador técnico da Organização de Estados do Caribe Oriental (OECS). O Cardi, com sede em Trinidad e Tobago, “busca métodos de gestão sustentável para a produção usando variedades que toleram as condições secas. Trabalhamos com alguns produtos básicos e fazemos pesquisa aplicada para produzi-los na estação seca”, explicou a IPS. A organização, que trabalha há mais de 30 anos para fortalecer o setor agrícola dos países membros da Caricom (Comunidade do Caribe), está à frente dessas pesquisas. “Começamos primeiro com os cultivos que foram mais significativamente afetados pela seca. Tomamos, por exemplo, o inhame, que requer muita umidade, e me dedico a ele em São Vicente e Santa Lúcia”, afirmou Robin. “A validação servirá para Jamaica, Granada, República Dominicana, todas as ilhas que produzem inhame. Às vezes não é rentável fazer atividades em todas as ilhas, por isso em algumas ocasiões o trabalho com batata-doce que se faz aqui é usado em Saint Kits, Barbados e outras ilhas com semelhantes zonas agroecológicas e padrões de chuvas”, acrescentou o especialista. “O Cardi tem um grupo de profissionais na região, assim, se temos qualquer questão de mudança climática e seca, o Instituto conta com um corpo de cientistas disponível em todas as ilhas da Caricom”, afirmou Robin. O cultivo ao qual se dá especial atenção é a batata-doce. Robin disse que esta é muito importante e básica para a segurança alimentar e também como fonte de divisas. “Trabalhamos com os cultivos que acreditamos que serão mais afetados. A batata-doce pode aguentar um grande nível de estresse hídrico, mas o inhame e outros que exigem grande quantidade de umidade não suportarão tão bem, por isso primeiro começamos com os que exigem maior quantidade de água”, explicou Robin. Ao afirmar que a irrigação é essencial para a produtividade, o especialista do Cardi ressaltou que “há sete anos trabalho aqui e é a primeira vez que vejo o lugar tão seco, o que destaca a necessidade de olhar para nossos sistemas para coletar água de chuva”. A mudança climática também obrigou a Guiana, considerada o celeiro do Caribe, a desenvolver novas variedades. “Também plantamos diferentes variedades de cultivos resistentes à água salgada porque um dos impactos da mudança climática é que esta invade a terra, por isso pesquisamos arroz resistente ao sal, por exemplo. Além disso, buscamos cultivos que sejam muito mais resistentes a um clima seco e que possam tolerar períodos de inundações”, disse à IPS o ministro da Agricultura, Leslie Ramsammy. “Fizemos coisas como irrigação por gotejamento, utilizamos tecnologia e métodos, bem como animais e cultivos, que são muito mais resistentes às condições climáticas extremas”, acrescentou. Além de criar variedades tolerantes à seca, o Cardi também desenvolve novas tecnologias para ajudar os agricultores com a irrigação. “Lembro que quando comecei na agricultura, provavelmente há 20 anos, os produtores costumavam irrigar com baldes”, disse Bradbury Browne à IPS. Mas acrescentou que, com os anos, o Cardi introduziu a tecnologia de irrigação por gotejamento e outros métodos. “Por exemplo, se quero aplicar três mil galões de água em um acre de batata-doce posso programar o sistema de irrigação para não precisar estar presente para abrir a torneira e não haverá problemas de inundação caso me chamem para uma emergência”, explicou Browne, que agora trabalha com técnico de campo no Cardi. Por outro lado, o legislador de Antiga e Barbuda, Baldwin Spencer, disse que se prevê que as secas extremas e frequentes se converterão em uma característica do clima do Caribe. Também afirmou que o impacto das condições secas aumentará o estresse calórico, em particular para a população mais vulnerável, como as pessoas idosas. “Apesar da queda na produção e exportação de importantes produtos básicos do setor agrícola da OECS, a agricultura continua sendo um setor importante no desenvolvimento social e econômico da região do ponto de vista da segurança alimentar, da estabilidade rural e das contribuições a outros setores produtivos”, apontou Spencer, que foi primeiro-ministro de Antiga e Barbuda entre março de 2004 e junho deste ano. “Esses benefícios estão em risco por eventos climáticos, os quais aumentam na medida em que o clima continua mudando”, ressaltou. Os especialistas projetam que a diminuição na produção de importantes cultivos, combinada com o aumento da demanda por alimentos, representa grandes riscos em todos os aspectos da segurança alimentar no mundo e na região, incluindo o acesso aos alimentos, o aproveitamento e a estabilidade de preços. O Banco Mundial indicou que a segurança alimentar é considerada de forma consistente um dos principais desafios para as próximas décadas e que, até 2050, o mundo deverá produzir alimento suficiente para atender a demanda superior a dois bilhões de pessoas a mais do que os 7,2 bilhões de agora. Também afirmou que a maioria do crescimento populacional se concentrará nos países em desenvolvimento, o que aumentará as pressões sobre suas necessidades de se desenvolverem. Segundo o Banco Mundial, para cumprir as demandas alimentares, a produção agrícola precisa aumentar entre 50% e 70%, segundo diferentes estimativas. E isso ocorrerá porque se projeta que o impacto da mudança climática se intensificará, em particular afetando os países mais pobres e vulneráveis. Envolverde/IPS


por Desmond Brown, da IPS
A fratura hidráulica, método usado na extração de gás de xisto, exige uma mistura de substâncias químicas contaminantes, como neste poço no Estado norte-americano do Texas, fronteiriço com o México. Foto: Governo dos Estados Unidos Ambiente

Substâncias químicas do gás de xisto sem barreiras no México

[caption id="attachment_115679" align="aligncenter" width="529"] A fratura hidráulica, método usado na extração de gás de xisto, exige uma mistura de substâncias químicas contaminantes, como neste poço no Estado norte-americano do Texas, fronteiriço com o México. Foto: Governo dos Estados Unidos[/caption]   Cidade do México, México, 30/6/2014 – O novo marco legal no México para a indústria petroleira não aprofunda o controle do uso de químicos nocivos na extração dos hidrocarbonos não convencionais, o que faz ambientalistas e especialistas temerem quanto ao aumento de seu consumo em uma indústria aberta ao capital privado. Com a reforma energética “se agravará o uso de químicos. As novas leis não abordam essa questão. Precisamos saber quais são usados, porque sim e não, não conhecemos as consequências. Por isso queremos a proibição do fracking” (fratura hidráulica), disse à IPS a ativista Claudia Campero, do canadense Projeto Planeta Azul. Um pacote de nove iniciativas que incluem a criação de oito novas leis e reformas para outras 12 sobre hidrocarbonos, água, eletricidade e fundos petroleiros chegaram na última semana deste mês ao plenário do Senado, após ser discutido desde o dia 10 em sua Comissão de Energia. O Congresso bicameral modificou, no dia 11 de dezembro de 2013, os artigos 25, 27 e 28 da Constituição, aceitando a abertura a investidores privados, locais e estrangeiros, da exploração, extração, refino, transporte, distribuição e comércio de hidrocarbonos. A reforma desmantelou as bases da nacionalização da indústria, vigente desde 1938. A análise dos projetos da estatal Petróleos Mexicanos (Pemex), junto com informes do Congresso dos Estados Unidos e da indústria petroleira local, permite dimensionar a utilização de químicos na extração de gás de xisto ou de lutitas (um tipo de rocha sedimentar). As perfurações para obter hidrocarbonos incrustados em rochas subterrâneas utilizam o método de fratura hidráulica, ou fracking, para liberá-los em grande escala. Esse processo e a recuperação do gás exigem grandes volumes de água e aditivos químicos, alguns nocivos. Além disso, a escavação e a fratura horizontal geram grandes quantidades de resíduos líquidos. No processo, esses resíduos podem conter químicos dissolvidos e outros contaminantes que requerem tratamento antes de serem jogados fora, e também durante, segundo especialistas e organizações como a ambientalista Greenpeace. O estudo de impacto ambiental da Pemex sobre o Projeto Regional Bacia de Sabinas Piedras Negras 2007-2027, nos Estados de Coahuila e Nuevo León, descreve que “os resíduos líquidos gerados serão lodo”. São dejetos qualificados como perigosos pelas próprias regulamentações mexicanas e se compõem principalmente de diesel, barita e betonita, um coquetel tóxico para a saúde humana e o ambiente. O documento indica que a perfuração e a fratura hidráulica requerem o uso de químicos nocivos como betonita, cal, carbonato de cálcio, cloreto de cálcio, soda cáustica, aditivos, emulsões e sabões. Esses elementos podem afetar a pele, os pulmões, o fígado e os olhos. O plano é destinar à prospecção e exploração de gás 34 mil dos 4,5 milhões de hectares da Bacia de Sabinas Piedras Negras. A área para extração de gás se estende por 21.270 hectares, dos quais 8.035 são para perfuração de poços. A isso se soma o Projeto Regional Petroleiro Poza Rica Altamira e Óleo Terciário do Golfo 2013-2035, que se estende pelos Estados de Veracruz, Hidalgo e Puebla, e que planeja o uso de químicos semelhantes. Em março a Pemex apresentou o estudo de impacto ambiental deste projeto ao Ministério do Meio Ambiente, mas o retirou em maio porque afetava áreas naturais em Puebla. A previsão é que seja reapresentado com uma extensão geográfica menor. O consórcio perfurou 18 poços de gás de xisto, dos quais cinco estão por encerrar a fase exploratória, em Coahuila, Nuevo León, Tamaulipas e Veracruz. A Pemex projeta para os próximos 50 anos operar 6.500 poços em nível comercial, mas a exploração de gás de xisto pode ficar em mãos privadas devido à reforma energética. O consórcio identificou cinco regiões com potenciais recursos de gás não convencional desde o norte de Veracruz até Chihuahua, na fronteira com os Estados Unidos. A norte-americana Administração de Informação de Energia (EIA) situa o México no sexto lugar mundial em reservas de gás não convencional tecnicamente recuperável, atrás de China, Argentina, Argélia, Estados Unidos e Canadá, em uma análise sobre 137 depósitos em 41 países. A Pemex carece de dados sobre o nível das substâncias químicas que utiliza da concentração Imediatamente Perigosa para a Vida ou a Saúde (IDHL). O Greenpeace calcula que a vida útil de um poço exige 380 mil litros de aditivos nos fluidos do fracking. A organização norte-americana Intercâmbio de Colapso Endócrino, dedicada a compilar e difundir informação científica sobre os problemas de saúde e ambiente por exposição a químicos que atuam como interruptores endócrinos, identificou 944 produtos usados na fratura hidráulica que contêm 632 substâncias desse tipo. Nos Estados Unidos operam mais de 72 mil poços fraturados, segundo o site desenvolvido pela indústria desse setor, que lista 59 químicos, coincidentes com os componentes injetados pela Pemex, como metanóis, isopropanol, carbonatos e ácidos. A governamental, mas autônoma, Comissão Nacional de Hidrocarbonos (CNH) já definiu um rascunho para as operações de gás de lutitas que não contém limites ao uso de químicos, segundo constatou a IPS. “O problema dos químicos é o resíduo, que deve ser tratado para evitar que entre em contato com as pessoas e gerem danos ambientais e à saúde humana. Vamos qualificar que sejam tratados”, disse à IPS o comissário Néstor Martínez. Essa avaliação se refere a temas como uso e contaminação da água, utilização de químicos perigosos e geração de sismos, e busca minimizar acidentes operacionais, prevenir a contaminação por resíduos, fluidos e químicos, bem como minimizar a pegada ambiental. Entre os itens regulados aparecem os tipos de lama de perfuração, a qualidade do fechamento do poço, a fratura hidráulica e a descarga de fluidos e sólidos. Os contratados pela Pemex devem apresentar à CNH um plano de manejo do poço, com especificações que os operadores deverão cumprir nesses itens. “Há muitos químicos que não foram testados, mais os novos que são desenvolvidos. As empresas usam o segredo industrial como escudo para ocultar informação”, denunciou Campero. Será em outubro, quando o Ministério do Meio Ambiente começar a rever as normas sobre perfuração de poços e descarga de resíduos. Outros modelos latino-americanos Países como Brasil e Colômbia já começaram a licitar áreas de exploração e prospecção de gás convencional e não convencional e a criar regulamentações. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Brasil (ANP) licitou 240 blocos de petróleo e gás em novembro de 2013. Em sua resolução 21, de 10 de abril, a ANP estipula uma relação de produtos químicos, com o potencial impacto sobre a saúde humana e o ambiente, utilizados no processo, transportados e armazenados, incluindo suas quantidades e composições. Além disso, o operador deve descrever os componentes químicos a serem usados durante o fracking, destacando se são inertes ou informando sobre seu potencial para reagir ao contato com água subterrânea, rochas, plantas e seres humanos e as medidas de controle. Na Colômbia, a Agência Nacional de Hidrocarbonos prepara as diretrizes para o uso de fratura. Este ano a entidade oferece 25 áreas petroleiras e gasíferas, incluídas de xisto. Envolverde/IPS


por Emilio Godoy, da IPS
Integrantes do Tribunal Ambiental Administrativo da Costa Rica fazem uma pausa durante a inspeção dos danos causados no mangue de Puntarenas por uma invasão de agricultores. Acima e no centro, seu presidente, o juiz José Lino Chaves. Foto: Diego Arguedas Ortiz/IPS Ambiente

Terramérica – A justiça se veste de verde na Costa Rica

[caption id="attachment_115671" align="alignleft" width="340"] Integrantes do Tribunal Ambiental Administrativo da Costa Rica fazem uma pausa durante a inspeção dos danos causados no mangue de Puntarenas por uma invasão de agricultores. Acima e no centro, seu presidente, o juiz José Lino Chaves. Foto: Diego Arguedas Ortiz/IPS[/caption] Puntarenas, Costa Rica, 30 de junho de 2014 (Terramérica).- O biólogo Juan Sánchez dirige seu veículo todo terreno por um caminho de terra no sudeste da Costa Rica, à frente de outro carro semelhante. Funcionários e técnicos vão inspecionar uma fazenda cujo proprietário arrasou um mangue. Sánchez é técnico do Tribunal Ambiental Administrativo (TAA), que tramita e sanciona os danos ao ambiente costarriquenho. Durante a inspeção no mangue que fica 280 quilômetros a sudeste de San José, Sánchez disse ao Terramérica que se “dedica a perseguir os maus”: empresas e particulares que prejudicam a natureza deste país centro-americano de 4,5 milhões de pessoas. Criado em 1995 e com um pessoal mais do que escasso, o TAA é um dos principais mecanismos costarriquenhos contra as agressões ao ecossistema e está vinculado ao Ministério de Ambiente e Energia (Minae), e não ao Poder Judiciário. Conta com apenas 20 funcionários para sua tarefa de aplicar justiça verde. “Temos tido êxito relativo nesta justiça administrativa ambiental”, contou ao Terramérica o presidente do TAA, juiz José Lino Chaves. Para ele, “a mudança de linguagem e de ações feita pelo tribunal a partir de 2008 conseguiu dar uma voz de alerta aos costarriquenhos de que estávamos fazendo algo muito ruim e que cuidar do ambiente é prioridade” para o país. A Costa Rica tem um quarto de seu território sob alguma forma de proteção ambiental, 53% de áreas florestais com quase 4% da biodiversidade mundial. Muito a ser atendido em uma nação que promove a natureza como seu principal atrativo e um ativo diante da mudança climática. A atuação do TAA é complementada pela Promotoria Agrária Ambiental do Ministério Público, que também sofre com falta de pessoal. “Recordo que um estudo, realizado no começo da década de 1990, dizia que 98% das denúncias de crimes ambientais acabavam em falta de mérito”, detalhou ao Terramérica o ex-ministro de Ambiente, Carlos Manuel Rodríguez. Então, “o sistema judicial formal não conseguia desenvolver uma tarefa eficiente e os acusados, segundo o estudo, eram absolvidos porque não se podia estabelecer uma responsabilidade objetiva”, acrescentou o também advogado ambiental e atual vice-presidente da organização não governamental Conservation International. “Não duvido da intenção das pessoas” do Tribunal, disse ao Terramérica o legislador e advogado ambientalista Edgardo Araya, que ganhou a batalha legal contra o projeto de mineração Crucitas junto ao Tribunal Contencioso Administrativo. “Mas o TAA não é viável como está, sem recursos nem juízes”, ressaltou. Álvaro Sagot, outro advogado ambientalista que venceu outra causa, esta perante o TAA, contra a gigante leiteira Dos Pinos, por contaminação, concorda com a crítica à falta de recursos, mas também destacou ao Terramérica o valor da acessibilidade do tribunal, onde qualquer pessoa sem conhecimento legal pode denunciar. Além disso, os denunciantes podem recorrer à justiça ordinária. Mas o ex-ministro Rodríguez (2002-2006) assegura que a via penal não serve, por falta de conscientização. “Recordo conversar com juízes que liberavam caçadores que eram detidos em parques nacionais porque não consideravam isso crime”, afirmou. Uma das resoluções de maior repercussão do TAA foi a que em setembro de 2009 obrigou o navio Tiuna, de bandeira panamenha, a pagar indenização de US$ 668 mil por pescar atum em áreas protegidas. Após avaliar o carregamento de 280 toneladas pescadas no Parque Nacional Isla del Coco, na costa ocidental do Oceano Pacífico, o tribunal estabeleceu o valor da multa. A Costa Rica busca construir uma reputação internacional como “país verde”. Durante anos seu lema foi “sem ingredientes artificiais” e em 2007 o governo da época apresentou a iniciativa “paz com a natureza”, para reafirmar o compromisso costarriquenho. Mas os casos vão sendo empilhados nos escritórios do TAA e o próprio Chaves reconhece que a conscientização ambiental é um caminho complexo. Neste mês se acumulavam no Tribunal um total de 3.600 expedientes abertos, mais que o triplo de uma década atrás. Conta para isso com apenas seis advogados e três juízes ambientais, dois deles advogados e outro engenheiro. Sobre os três juízes recai a tarefa de visitar cada área afetada para conhecer de perto o dano ambiental e poder decidir. Nessas viagens de campo, juízes e biólogos atuam uniformizados. Calçam botas de montanha, se protegem do sol com chonetes (chapéus camponeses de algodão) e levam um facão na cintura. Além das inspeções em casos específicos, o TAA realiza “varreduras ambientais”, como chamam internamente as viagens de inspeção de vários dias, porque com elas tentam limpar o território de danos ecológicos. Com esse método o tribunal já fechou 200 projetos imobiliários na costa do Pacífico e 40 na do Atlântico, desde que começaram essas varreduras em 2008, explicou seu presidente. Mas “os maus” não se rendem. Dias depois da viagem de inspeção do biólogo Sánchez, outro grupo de advogados, técnicos e juízes se deslocou ao mangue de Puntarenas, no Pacífico Central, 80 quilômetros a leste da capital, para investigar outra denúncia. O cenário era devastador: cinzas em um terreno de 25 hectares de mangue, arrasado por invasores que já estavam começando a cultivar milho e cana-de-açúcar. “Aqui eles vão indo, e se deixarmos acabam com toda a área. Incendeiam o mangue e vão usando essas terras para agricultura”, disse o biólogo florestal Alexis Madrigal, que também coordena o departamento técnico do tribunal. Enquanto membros da equipe técnica removiam sacos plásticos que os invasores usam para marcar suas novas terras, Chaves e as duas advogadas que o acompanhavam avaliavam os próximos passos. O primeiro é uma medida cautelar que paralise a invasão, e depois pode ser proibido o uso agrícola da terra ou ordenada uma indenização, ou as duas coisas. O TAA serviu de inspiração para a criação de três Tribunais Ambientais no Chile, cujos promotores compartilharam com Chaves a experiência costarriquenha. Os dois sistemas têm semelhanças: possuem três juízes, dos quais um deve ser científico, e contam com ampla autonomia e sobre eles recai punir o dano ambiental. O Peru avança com uma iniciativa semelhante. O principal desafio do TAA é aumentar seu pessoal, tanto de técnicos no terreno quanto de advogados em sua sede de San José, para que não aconteça como agora, de cada integrante da equipe legal ter a seu cargo 600 processos, algo, difícil de manejar. Também é necessária estabilidade. Entre 2012 e 2014, Chaves foi vice-ministro de Águas e Mares no Minae, onde conseguiu melhorias orçamentárias para o Tribunal, mas suas tarefas, particularmente as varreduras, diminuíram. Em julho, após ano e meio de inspeções menos ambiciosas, o TAA realizará uma da qual também participarão o Minae, instituições como a Secretaria Técnica Nacional Ambiental, o Instituto de Água e Esgoto e a Força Pública. Eles irão à zona norte do país, onde a expansão agrícola ameaça a biodiversidade e a água para consumo humano. Em seu escritório em San José, o juiz Chaves sorriu e afirmou: “Voltaram as varreduras ambientais”. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   Artigos relacionados da IPS Legislação sobre mudança climática cambaleia na Costa Rica Costa Rica neutra em carbono: apenas um slogan? Uma cruz na política ambiental – 2008, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Diego Arguedas Ortiz*
Um habitante de Jepelacio leva para casa um balde azul de 20 litros de “água Jepe” por uma das poeirentas, mas limpas, ruas do povoado amazônico peruano. Uma rotina saudável seguida por muitas famílias a cada dia. Foto: Milagros Salazar/IPS Ambiente

Terramérica – Povoado amazônico melhora vida com muita criatividade

[caption id="attachment_115666" align="alignleft" width="340"] Um habitante de Jepelacio leva para casa um balde azul de 20 litros de “água Jepe” por uma das poeirentas, mas limpas, ruas do povoado amazônico peruano. Uma rotina saudável seguida por muitas famílias a cada dia. Foto: Milagros Salazar/IPS[/caption] Jepelacio, Peru, 30 de junho de 2014 (Terramérica).- Tem 33 anos e a imagem de rapper, mas José Antonio Bardález é o prefeito de Jepelacio, na Amazônia peruana, que, com muita criatividade, converteu o manejo ambiental do lixo em uma fonte de renda e tornou potável a água dos mananciais, entre outras inovações. “Sou engenheiro civil, mas pensam que sou engenheiro ambiental”, contou o prefeito ao Terramérica, enquanto dirigia sorridente sua caminhonete. No caminho, parava com frequência para saudar, entre piadas, moradores do distrito, localizado no departamento amazônico de San Martín, no norte do país. Bardález usa calça jeans, óculos escuros e gel no cabelo. Completa sua imagem uma caminhonete na cor preta com vidros polarizados, da qual mudou as letras da marca comercial do veículo para que seja lida a que criou para os produtos sustentáveis do lugar: “Jepe”. Jepelacio, um dos maiores distritos da província de Mayobomba, tem mais de 20 mil habitantes e 70 vilas. A maioria vive da agricultura, principalmente do cultivo de café. O distrito conta com uma grande e exuberante biodiversidade, mas também sofre um grave desmatamento. Embora entre 2006 e 2011 as áreas desmatadas em San Martín tenham diminuído em 36%, em média, o nível do desmatamento do vale de Gera, um dos principais de Jepelacio, ainda tem um nível de desmatamento de 65%, segundo a não governamental Associação Amazônicos pela Amazônia (Ampa). Além disso, metade da população vive em situação de pobreza e 26% das crianças menores de cinco anos sofriam de desnutrição crônica em 2009, segundo dados oficiais. Quando assumiu a prefeitura, no final de 2010, Bardález decidiu converter as carências em uma oportunidade de mudança, com orçamento mensal de apenas US$ 93 mil, cerca de US$ 4 por habitante. Para isso, começou a envolver os moradores na coleta do lixo para transformá-lo em adubo para a agricultura, de maneira econômica. As famílias mantêm limpas as ruas e separam o material orgânico e inorgânico, para depois colocá-lo em baldes de plástico, sacos, ou qualquer outro vasilhame que sirva para a tarefa. Nas ruas poeirentas e sem asfalto de Jepelacio observa-se esses pequenos depósitos do lado de fora das casas que são recolhidos pelo pessoal da municipalidade para processar o lixo com a ajuda de micro-organismos eficientes, como mescla de levedura, melaço, soro de leite. Um litro deste fermento é capaz de decompor cem toneladas de material orgânico, segundo o prefeito. Em cinco dias, esses resíduos podem chegar à temperatura de 70 graus centígrados. Depois, o que restar passa por um separador até que o produto final seja o “Jepe adubo”. O processo dura pouco mais de duas semanas. A cada mês o município decompõe 30 toneladas. Para fazê-lo custa cerca de US$ 3,5 mil, que financiam a venda do adubo a US$ 143 a tonelada. Para Bardález, é uma fórmula rentável de todos os pontos de vista, porque construir um aterro sanitário custaria quase US$ 1 milhão, que a municipalidade só poderia financiar destinando todo seu orçamento de um ano, sem possibilidade de realizar uma única obra. “O melhor de tudo é que os micro-organismos não geram mau cheiro, há zero contaminação e se ensina as pessoas a processarem o lixo para que tenham uma renda com a venda do adubo”, afirmou o prefeito. Para que a experiência seja replicada, a municipalidade realiza um concurso de minifábricas de adubo para dez de suas vilas. “Com isso já ganhei dez locais limpos”, apontou Bardález. Além disso, começa a constar dos graus superiores do ensino secundário do distrito um curso para que os estudantes aprendam como fazer o adubo e tenham noções do manejo de uma empresa familiar, para ajudar a melhorar a gestão das fábricas de suas famílias. “Este adubo tem um valor. Não se deve dar as coisas às pessoas. Se você não paga, você não valoriza”, afirmou Bardález após explicar que existem programas governamentais que entregam sacos de adubo aos agricultores e estes, em lugar de usá-los, os vendem pela metade do preço para conseguir dinheiro. “Tudo bem que façam esse adubo para vender à população a preço menor”, disse Martina Díaz Vásquez, de 39 anos e sete filhos. Ela contou ao Terramérica que chegou aos 11 anos a Jepelacio, procedente de Cajamarca. [caption id="attachment_115667" align="alignright" width="340"] O prefeito José Antonio Bardález na unidade de tratamento de “Jepe adubo”, que instalou para gerar mudanças sustentáveis em seu distrito na Amazônia peruana. Foto: Milagros Salazar/IPS[/caption] Mais de 80% dos habitantes do distrito procedem de outros departamentos, principalmente dos andinos de Cajamarca e Piura, o que implica o desafio de envolvê-los em um projeto de um lugar onde não nasceram, explicou ao Terramérica a diretora da Ampa, Karina Pinasco. “É novidade uma autoridade ter transformado um problema (do lixo) em uma oportunidade. Não vi outra experiência semelhante em San Martín”, acrescentou. Bardález aparece em outras obras municipais associadas aos recursos naturais do distrito. O prefeito viu na água clara de um manancial a possibilidade de deixá-la própria para consumo humano e assim resolver o problema de doenças diarreicas no distrito. Agora essa água é filtrada e processada com finas varas de prata, metal que funciona como potente eliminador de bactérias. Desde 2012, os moradores podem ter acesso a recipientes de 20 litros de água por menos de US$ 0,50. “É boa para beber, já não precisamos fervê-la. Economizamos tempo e dinheiro”, disse ao Terramérica Margarita Delbado, mãe de três filhos. Atualmente, esses chamativos vasilhames azuis de “água Jepe” são entregues gratuitamente às escolas e a cem “famílias saudáveis”, para manterem limpas suas casas e o entorno e processar adequadamente o lixo. Em abril de 2013, a municipalidade de Jepelacio recebeu um reconhecimento do governo do departamento de San Martín como aliado na implantação de um programa especial para melhorar a nutrição infantil. Em dezembro, o Ministério da Saúde o reconheceu como um dos municípios que contribuem para enfrentar problemas sociais que afetam a saúde da população. Ao manejo do lixo e do tratamento da água se soma a criação de uma piscina feita na queda da água do riacho Rumi Yacu. Bastou represar a água e rodeá-lo por pedras para criar um espaço lúdico ao ar livre para as crianças e suas famílias. “Pode-se inovar com pequenas coisas. O passo seguinte é que haja mais ‘água Jepe’ para todo o distrito, melhore o tratamento dos resíduos e se continue avançando”, ressaltou Bardález, que decidiu entrar para a política porque em seu trabalho como técnico não conseguia concretizar suas ideias. Quando nos primeiros dias de sua gestão pediu um empréstimo para comprar maquinário pesado, choveram críticas. Por que comprar uma escavadora, um caminhão-trator, uma motoniveladora ou um caminhão basculante. Mas as vozes se calaram quando viram a abertura de caminhos ou o movimento de pedras. Bardález é um convencido de que é preciso arriscar. E arriscou. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   Artigos relacionados da IPS Camponesas do Peru protegem biodiversidade milenar de alimentos, em espanhol No Peru, um café que produz sonhos, em espanhol Nasce tribunal ético contra mineração   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Milagros Salazar*
Foto: manosso.nom.br Ambiente

Reciclagem de resíduos sólidos: a propaganda é bonita, mas o processo explora os catadores

[caption id="attachment_115738" align="alignleft" width="320"] Foto: manosso.nom.br[/caption] “A Política Nacional de Resíduos Sólidos optou por fazer reciclagem investindo nas pessoas, gerando riqueza e conhecimento a partir dos resíduos para incluir e não para excluir”, diz coordenador do Fórum de Catadores de Porto Alegre, Alex Cardoso. Quatro anos depois da publicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, “menos de 40 municípios contrataram catadores para realizar a coleta seletiva” e apenas 34% deles fizeram um Plano Municipal de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, informa Alex Cardoso em entrevista à IHU On-Line, concedida por telefone. Na avaliação dele, a implantação da PNRS está caminhando a passos lentos, “porque os gestores municipais e estaduais não estão enxergando os benefícios ambientais e sociais que a política traz”. Além disso, pontua, “as prefeituras subestimam as pessoas, pensando que a pobreza está interligada à questão da inteligência. Elas pensam que, porque as pessoas estão em uma situação de exclusão e de extrema pobreza, são burras. (...) A lupa de visão delas é outra e, dessa forma, por exemplo, a prefeitura de Porto Alegre entrega a coleta seletiva para uma empresa privada pela bagatela de meio milhão de reais por mês, e outros municípios, a exemplo de Caxias do Sul, pagam 400 mil reais por mês para uma empresa fazer a coleta seletiva, sem enxergar o trabalho que os catadores podem desenvolver com muito mais qualidade e eficiência”. Para ele, a discussão e a propaganda feita em torno dos benefícios da reciclagem de resíduos sólidos “é muito bonita”, mas o processo de reciclagem no país está sendo feito com base na “extrema exploração dos catadores, ferindo inclusive os direitos humanos, porque está sob o controle de meia dúzia de empresas, formando quase que um 'cartel'”. Membro do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, Cardoso diz que, para cumprir as determinações da PNRS, o processo de reciclagem precisa de “estruturação e organização”. Como proposta, sugere a expansão da Reciclagem Popular, que reconhece e valoriza o trabalho do catador como protagonista desse processo. “Nessa perspectiva, defendemos que as prefeituras façam contratos com as cooperativas de reciclagem, garantindo parte da infraestrutura, que o governo do estado pague pelos serviços ambientais que os catadores desenvolvem e que o governo federal seja responsável pela infraestrutura necessária para garantir a prestação de serviço, como a compra de máquinas, equipamentos, construção de galpão, como tem sido nos últimos anos”, explica. Como exemplo de uma rede de cooperativas que está desempenhando um trabalho satisfatório em relação à reciclagem, Cardoso menciona a atividade desenvolvida por aproximadamente 480 catadores durante a Copa do Mundo. “Esse é um exemplo do que estamos desenvolvendo nacionalmente: mais de 840 catadores estão dentro dos estádios das cidades-sede da Copa do Mundo, incluindo as Fan Fest, com gerenciamento integrado de resíduos sólidos. Eles foram contratados, valorizados e estão recebendo, diariamente, mais ou menos 80 reais. Durante este mês da Copa do Mundo, a renda deles, que varia entre 600 e 800 reais, vai passar para aproximadamente dois mil reais”, conclui. Alex Cardoso é membro do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR, integrante da Coordenação do Fórum de Catadores de Porto Alegre – FCPOA e da Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis do Loteamento Cavalhada – ASCAT. Confira a entrevista: IHU On-Line - Qual é a posição do movimento nacional dos catadores em relação à reciclagem de resíduos sólidos e como o movimento vê a discussão acerca da incineração de resíduos? Alex Cardoso - A reciclagem, no que se refere à propaganda ou divulgação, é uma coisa muito bonita e parece que só tem benefícios. Mas a forma como a reciclagem está sendo organizada é baseada na extrema exploração dos catadores, ferindo inclusive os direitos humanos, porque está sob o controle de meia dúzia de empresas, formando quase que um “cartel”. Além disso, muitos ferros-velhos estão comprando materiais recicláveis a preço que eles colocam, e os catadores estão sem infraestrutura adequada, trabalhando nas ruas. Para sobreviver, acabam tendo de se sujeitar a essas situações. Nossa primeira preocupação é em relação à organização desse setor produtivo em cooperativa. Com isso, queremos que toda a riqueza gerada a partir da reciclagem possa ser dividida em partes quase ou iguais entre as pessoas, para que cresça economicamente o coletivo e não apenas alguns indivíduos. No que se refere à questão social, gostaríamos de envolver um milhão de catadores e as suas comunidades, porque a partir do momento em que se faz um investimento direto nas pessoas, as comunidades também podem se desenvolver. O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis - MNCR vê que a reciclagem – para cumprir a própria Política Nacional de Resíduos Sólidos - PNRS –, necessita de estruturação e organização por parte do setor produtivo da reciclagem. Nossa proposta é aplicar o que chamados de “Reciclagem Popular”, que consiste em um processo de reconhecer e valorizar o trabalho do catador como protagonista da reciclagem. Nessa perspectiva, defendemos que as prefeituras façam contratos com as cooperativas de reciclagem, garantindo parte da infraestrutura, que o governo do estado pague pelos serviços ambientais que os catadores desenvolvem – cada tonelada de papel que se recicla, economiza o corte de 24 árvores –, e que o governo federal seja responsável pela infraestrutura necessária para garantir a prestação de serviço, como a compra de máquinas, equipamentos, construção de galpão, como tem sido nos últimos anos. No Brasil, onde se formam os aglomerados de catadores, se formam as vilas, e a base econômica dessas vilas é a reciclagem. Então, quando se investe em catadores, automaticamente está se investindo nas suas comunidades. Outra preocupação dos catadores é a questão ambiental. Hoje, sem equipamento e na condição em que nos encontramos, conseguimos ser campeões mundiais na reciclagem de latinha, reciclando quase 99% das latinhas, 60% de pet e 45% de papelão. Com investimento e infraestrutura, com certeza conseguiríamos alcançar índices muito maiores. Se hoje os catadores atingem todos esses índices de reciclagem utilizando suas próprias mãos, empurrando carrinho ou puxando uma carroça, imagina se estivéssemos equipados, formados e qualificados para prestar este serviço, contratados e pagos. A questão da incineração é a contramão da reciclagem. Hoje, há duas rotas tecnológicas em relação à reciclagem: uma é a reciclagem popular, a outra é o reaproveitamento energético. O reaproveitamento energético com base no processo de incineração dos resíduos sólidos é uma alta tecnologia que está concentrada nas mãos de quatro ou cinco empresas, as quais fazem a gestão dessa tecnologia no mundo. Trata-se de uma tecnologia muito cara para ser implantada, uma vez que uma indústria incineradora custa no mínimo 400 milhões de reais, demora 20 anos para se pagar e seu tempo máximo de funcionamento é de 30 anos, ou seja, teria 10 anos para funcionar sem ter custos. O material principal para alimentar o forno das caldeiras para gerar calor e energia é um material potencialmente reciclável, como papel e plástico. Outros materiais, como vidros e metais, não têm potencial calorífico e os orgânicos necessitam de outros tipos de materiais para poderem ser queimados. A parte mais cara da incineração não é a parte de implantação da usina, mas o custo posterior com o tratamento dos afluentes, porque a queima dos produtos libera toxinas que acabam tomando conta de territórios internacionais, ou seja, se queimar material reciclável no Uruguai, automaticamente nós vamos sentir os efeitos no Brasil. Além disso, o tratamento dos afluentes requer investimento e controle técnico. Hoje, para ter uma ideia, na França, onde tem a maior concentração de incineradores – totalizando 158 – e onde se encontra o incinerador mais tecnológico do mundo, são gastos aproximadamente 58 euros por tonelada para fazer o tratamento dos afluentes. Mas, olhando para a realidade brasileira, onde ainda existem filas no SUS, crianças fora da escola, buracos na rua, percebemos que o Brasil tem outras urgências a resolver. Nesse sentido, a Política Nacional de Resíduos Sólidos optou por fazer reciclagem investindo nas pessoas, gerando riqueza e conhecimento a partir dos resíduos para incluir e não para excluir. IHU On-Line - O que mudou no processo de reciclagem no Brasil depois da PNRS? Alex Cardoso – Os processos populares que têm a incumbência de incluir o povo, tendem a demorar mais que os processos de exclusão do povo. Hoje, no Rio Grande do Sul, nove municípios – entre eles Gravataí, Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Jaguarão e Santa Cruz do Sul – já contrataram catadores a partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos, os quais são responsáveis pela coleta seletiva de forma solidária e participativa e ensinam os moradores a separar os materiais de forma adequada. Quando analisamos esse processo no país, percebemos que menos de 40 municípios contrataram catadores para realizar a coleta seletiva, ou seja, em quatro anos de existência da PNRS, apenas 34% dos municípios brasileiros fizeram um Plano Municipal de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos e apenas quatro estados têm planos estaduais. A implantação da política está caminhando a passos lentos, porque os gestores municipais e estaduais não estão enxergando os benefícios ambientais e sociais que a política traz. Estamos em um processo de luta de organização dos catadores. Nesses últimos quatros anos, 14 mil catadores foram formados no país, sendo que mil deles residem no Rio Grande do Sul. Houve um processo de qualificação dos gestores das cooperativas em relação à logística na coleta coletiva nos municípios. Também conseguimos equipamentos e caminhões para três cooperativas no Rio Grande do Sul, nos municípios de Gravataí, Santa Cruz do Sul e São Leopoldo, as quais são responsáveis pela coleta seletiva. Além disso, estamos trabalhando muito firme na organização dos catadores que ainda trabalham nas ruas, para que eles se organizem a partir de suas cooperativas. Também estamos tentando organizar as cooperativas em redes de cooperativas para que assim, de forma mais organizada, consigam fazer geração de serviços para grandes geradores, a exemplo do que estamos fazendo na Rede CATAPOA, que é a rede dos catadores de Porto Alegre e da região metropolitana, a qual é responsável pela administração dos resíduos gerados na Copa do Mundo. IHU On-Line – Como tem funcionado o trabalho dos catadores durante a Copa? Alex Cardoso - Os catadores de Porto Alegre estão no estádio fazendo a coleta, a triagem e a destinação correta dos resíduos gerados na Copa do Mundo. Esse é um exemplo do que estamos desenvolvendo nacionalmente: mais de 840 catadores estão dentro dos estádios das cidades-sede da Copa do Mundo, incluindo as Fan Fest, com gerenciamento integrado de resíduos sólidos. Eles foram contratados, valorizados e estão recebendo, diariamente, mais ou menos 80 reais. Durante esse mês da Copa do Mundo, a renda deles, que varia entre 600 e 800 reais, vai passar para aproximadamente dois mil reais. IHU On-Line - Como tem se dado a relação das cooperativas com as prefeituras no que se refere ao processo de coleta seletiva e reciclagem? Alex Cardoso - As prefeituras subestimam as pessoas pensando que a pobreza está interligada à questão da inteligência. Elas pensam que, porque as pessoas estão em uma situação de exclusão e de extrema pobreza, são burras. As prefeituras entendem que os catadores estão nessa situação de vulnerabilidade por causa deles próprios. A lupa de visão delas é outra e, dessa forma, por exemplo, a prefeitura de Porto Alegre entrega a coleta seletiva para uma empresa privada pela bagatela de meio milhão de reais por mês, e outros municípios, a exemplo de Caxias do Sul, pagam 400 mil reais por mês para uma empresa fazer a coleta seletiva, sem enxergar o trabalho que os catadores podem desenvolver com muito mais qualidade e eficiência. As prefeituras pensam que os catadores, por estarem na situação em que estão, não conseguirão dar conta do trabalho da coleta seletiva. Mas quando nós questionamos se são os empresários que fazem a coleta na rua ou se são as pessoas pobres que fazem esse trabalho, não há resposta. Muitos dos funcionários dessas empresas são catadores que acabam saindo da cooperativa para trabalhar como gari fazendo coleta de resíduos. São pessoas humildes, que trabalham por um salário mínimo. A diferença é que uma empresa tem equipamento, recebe pelo trabalho e consegue, por alguns métodos – os quais não aprovamos –, financiar campanhas políticas. IHU On-Line - Que percentual de resíduos sólidos os catadores conseguem reciclar? Como tem se dado esse processo de reciclagem após a publicação da PNRS? Alex Cardoso – Nós não conseguimos ter números exatos sobre a quantidade de resíduos reciclados. Temos números aproximados com base em dados fornecidos pelo Compromisso Empresarial para Reciclagem - CEMPRE, os quais cruzamos com dados do governo federal a partir da divulgação feita pelo IPEA. Com isso, conseguimos visualizar, por exemplo, que quase 100% das latinhas de alumínio coletadas são encaminhadas para reciclagem no Brasil. Dessas latinhas, aproximadamente 80% passam pelas mãos dos catadores e os outros 20% são vendidos aos ferros-velhos por bares e armazéns. A latinha de alumínio tem bem menos valor do que a garrafa PET. A garrafa PET é a segunda “campeã de reciclagem”, já que aproximadamente 64% do PET produzido no Brasil é reciclado. Desse material, aproximadamente 40% acaba se transformando em tecido, inclusive a camiseta da seleção brasileira é feita de PET reciclado. Posso apostar que grande parte desse PET reciclado saiu das mãos dos catadores. IHU On-Line - Quais são as principais dificuldades em relação ao trabalho com reciclagem? Alex Cardoso – Tem um que é gritante: a questão da infraestrutura. Nós conseguimos adquirir conhecimento, temos catadores que viajam o mundo inteiro, eu mesmo já visitei todos os continentes, já conheci todas as tecnologias possíveis para a questão do reaproveitamento de resíduos. Conheci e vi de perto o processo de incineração, conheci e vi de perto os processos de biodigestão e reaproveitamento de resíduos orgânicos, conheci e vi de perto vários processos industriais, que são desenvolvidos pelo setor privado, por exemplo, na Suíça, onde as lixeiras são colocadas em uma espécie de container enterrado no chão, e um caminhão automatizado coleta esses materiais que já foram separados pelas pessoas. Também vi processos coletivos, a exemplo do que ocorre na Espanha, que tem uma cooperativa de 400 catadores responsáveis pelo processo de coleta dos materiais recicláveis. No Brasil existem vários tipos de coleta, só que muitas delas estão no processo “informal”: os catadores fazem a coleta puxando carrinho, carroça ou com um cavalo na frente, ou pior, empurrando um carrinho de supermercado ou puxando um saco nas costas. Então, a principal dificuldade que temos é a da infraestrutura. Com essa falta de infraestrutura, vence o discurso de não contratar os catadores. Mas como os catadores vão fazer a coleta seletiva se não têm um caminhão, se não têm equipamento adequado para isso? Mal se sabe que, com o contrato firmado com o município, nós conseguimos ter carta branca para pedir financiamento no banco e comprar equipamentos. O BNDES, em parceria com o Banco do Brasil, tem uma linha de financiamento direta, com pouca burocracia, para liberar no mínimo 400 mil reais para os catadores que estiverem contratados pelas prefeituras para executar o serviço de coleta seletiva. Então, existem formas de como buscar financiamento, de os catadores executarem o serviço, mas falta decisão política dos municípios de fazer a contratação dos catadores. Essa é a segunda dificuldade que temos. IHU On-Line - Deseja acrescentar algo? Alex Cardoso - Há questões importantes que devem ser consideradas, a exemplo da questão das mulheres. Elas representam 75% dos catadores do Brasil e cerca de 60% delas são mulheres chefes de família; elas sustentam os seus filhos a partir da reciclagem. Nesse sentido, a questão da mulher também é algo preocupante e deveria ter uma atenção maior. Na prática, investindo nos catadores, se investe em um público que está em situação de vulnerabilidade. Além de serem pobres, terem pouca formação, não terem espaço de formação para crescimento pessoal ou coletivo, as mulheres são excluídas nos seus pequenos projetos de convivência, inclusive nas cooperativas, na vila. Precisamos ter políticas próprias para a questão das mulheres catadoras. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação do IHU On-Line
Sistema Cantareira. Foto: Sabesp Ambiente

O alerta do Sistema Cantareira

[caption id="attachment_112355" align="alignleft" width="277"] Sistema Cantareira. Foto: Agência Brasil. Foto: Divulgação/Sabesp[/caption] Como ele reflete a necessidade urgente por adoção de boas práticas ambientais Se as pessoas esperavam um alerta real para adotarem práticas sustentáveis, ele está acontecendo neste exato momento no Sistema Cantareira. A maior estiagem da história do complexo de tratamento de água que atende a região metropolitana de São Paulo exige mudanças de hábitos para evitar uma tragédia inimaginável tempos atrás: a completa falta d’água no local e o inevitável racionamento para uma população estimada em 10 milhões de pessoas. Considerado o maior sistema da América Latina, o Cantareira envolve as represas de Jaguaí/Jacareí, Cachoeira, Atibainha, Paiva Castro, Águas Claras e a estação de Guaraú. Em meados de 2014 o nível de armazenamento de água caiu para assustadores 7% da capacidade útil. Não fosse o aproveitamento do volume morto, nome dado ao reservatório que fica abaixo das comportas de captação e que garantiu mais 400 milhões de metros cúbicos, a água poderia acabar em agosto. Agora, há uma sobrevida até o fim de outubro, de acordo com dados da própria Sabesp. Muitos culpam o clima instável nos últimos anos para tentar explicar o fenômeno. Isso porque a região Sudeste teve apenas 25% da chuva esperada para o período entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014 – tradicionalmente os meses mais chuvosos do ano. A instabilidade ambiental é resultado da falta de ações sustentáveis no passado. O planeta começa a cobrar o preço por anos de exploração. Em três décadas, por exemplo, a emissão de dióxido de carbono (principal gás do efeito estufa) aumentou de 330 para 400 partes por milhão, o que contribuiu para a redução de 40% da camada de gelo do Oceano Ártico e 30% da biodiversidade do planeta. O aquecimento global faz com que o clima oscile, gerando secas frequentes em alguns pontos e chuvas torrenciais em outros. É preciso pensar na sustentabilidade tanto no lado econômico quanto no social. Uma pesquisa do Ministério do Meio Ambiente mostra que 66% dos brasileiros desconhecem o conceito de “consumo sustentável”, mesmo considerando o desperdício de água e energia como um dos mais graves problemas ambientais do país. Ações bem simples seguem ignoradas por grande parte da população: ainda hoje é comum ver pessoas lavando calçadas ou que deixam a torneira aberta ao escovar os dentes. No ambiente corporativo, aparelhos eletrônicos costumam ficar ligados fora do horário do expediente. E na esfera pública, as energias eólica e solar ainda são consideradas cara demais. O sistema Cantareira já deixou uma mensagem clara: passou da hora de ações sustentáveis nortearem a vida das pessoas e a agenda governamental. Caso contrário, pode ser tarde demais. * Cecília Vick é Diretora Executiva da GreenClick, empresa que contribui com a neutralização da emissão de CO2 no país.


por Cecília Vick*
Foto: http://www.shutterstock.com/ Ambiente

Pequenas ações têm grandes impactos ambientais

[caption id="attachment_115451" align="aligncenter" width="500"] Rodrigo Lopes ganhou o Prêmio Rey da España 2003, na categoria Ibero-Americana, pela série de reportagens Uma nova chance para a Argentina, produzida durante as eleições presidenciais do país vizinho. Foto: Arquivo Pessoal/Jornalismo Ambiental[/caption]   Um dos desafios do jornalismo ambiental é mostrar que o meio ambiente é um assunto presente no dia a dia das pessoas, defende nesta entrevista o jornalista Rodrigo Lopes, atualmente editor de capa do jornal Zero Hora de Porto Alegre (RS) e professor de jornalismo investigativo da UniRitter. Pós-graduado em jornalismo literário e especializado em jornalismo ambiental pelo International Institute for Journalism, de Berlim (Alemanha), Lopes tem em seu currículo diversas coberturas internacionais, entre elas a destruição causada pelo furacão Katrina em New Orleans. Também editou por dois anos o extinto caderno Ambiente. Como é feita a cobertura de notícias ambientais no jornal Zero Hora? Rodrigo Lopes – A gente teve vários espaços nobres para o jornalismo ambiental na Zero Hora, desde o final dos anos 70, quando a cobertura começou a ficar mais forte no Rio Grande do Sul, berço de movimentos importantes na área ambiental, como a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) criada pelo Lutzenberger. No início dos anos 2000, criamos o caderno Ambiente onde fui editor, por dois anos, voltado mais para questões práticas do consumidor e do leitor. Falava-se muito naquela época em separação do lixo, as pessoas geralmente não sabiam separar o lixo e até hoje não sabem muito bem, mas na época se vivia muito está situação. Criamos esse caderno com oito páginas tentando trazer as notícias ambientais para o dia a dia das pessoas. Após dois anos, acabou por falta de patrocinador. É incrível falar disso, que acabou por falta de patrocínio, porque existe um lobby verde das empresas querendo se mostrar como ecologicamente corretas, então elas querem patrocinar coisas ambientais para dizer que respeitam o meio ambiente, existe muito interesse comercial, tem também muito interesse jornalístico, mas a gente não consegue no jornalismo diário fazer uma cobertura bacana com o espaço que o assunto merece. Têm algumas questões pontuais, como a extração ilegal de areia no Jacuí ou no Guaíba, quando tu tens uma investigação ou uma denúncia, ai ganha espaço. Mas no dia a dia o jornalismo ambiental no Rio Grande do Sul não é bem feito. Na Zero Hora, os assuntos ambientais tem espaço normal ou geralmente ocupam espaços periféricos? Rodrigo Lopes – No jornal Zero Hora e na grande imprensa não é dado o espaço devido, só em questões pontais como no Dia Mundial do Meio Ambiente. Não é um assunto que a imprensa trate da forma que o tema mereça. O espaço é reduzido, é um espaço que é menor em detrimento de outros assuntos. Às vezes ficam até engavetadas? Rodrigo Lopes – Exato, porque às vezes não tem um grande apelo. Há preconceito com jornalistas que simpatizam com temas ecológicos? Rodrigo Lopes – Não tem preconceito em relação ao jornalismo ambiental, até porque tem alguns jornalistas que gostam de cobrir essa área e estão em busca de espaço. Talvez por parte de algum editor até possa ser menosprezado “ah não, esse é ecochato”, às vezes também tem coisas mais importantes, então o assunto é tratado não com a devida atenção que merece. O jornalista que gosta desse assunto acaba não tendo seu espaço. Têm vários colegas que gostariam de fazer uma coluna, um blog etc., mas existe toda uma estrutura de uma redação que não privilegia o assunto jornalismo ambiental e ele acaba sendo menosprezado. [caption id="attachment_115452" align="aligncenter" width="460"] Em 2008, Rodrigo Lopes cobriu em Washington a eleição e a posse do presidente democrata Barack Obama. Foto: Arquivo Pessoal/Jornalismo Ambiental[/caption]   Nas reuniões de pauta do jornal Zero Hora, qual é a frequência que você vê sugestões sobre temas ambientais? Rodrigo Lopes – Com frequência são levados alguns assuntos para a reunião de pauta, mas como não tem um grande apelo acabam não se traduzindo em grandes reportagens. Outros assuntos são privilegiados, a não ser em datas específicas como o Dia Mundial do Meio Ambiente, como já comentei, ou alguma investigação maior que esteja sendo feita, por exemplo, extração de areia ou alguma operação do batalhão ambiental, mas como eu te disse não há uma regularidade tão intensa. Como foi a experiência de cobrir tragédias ambientais e naturais? Rodrigo Lopes – Aqui no Rio Grande do Sul eu cobri alguns alagamentos na região da campanha, eu acabei fazendo uma reportagem para a RBS TV que se chamava “Rio Grande de extremos”, onde mostrava como o Rio Grande do Sul estava sendo afetado pelas mudanças climáticas. Eu utilizei os quatro elementos: terra, fogo, água e Ar. No ar, por exemplo, eu abordei o furacão Catarina (que assolou Torres no final de março de 2004) e também os tornados que estavam atingindo o Rio Grande do Sul. Na água tratei das inundações. No fogo, as queimadas, que por sinal são um grande problema ambiental no estado, pois tem uma tradição na serra de utilizar muito a queimada para revigorar o solo, e algumas vezes se perde o controle e acaba incendiando matas. No elemento terra eu falei sobre o desmatamento, uso do eucalipto que é bem polêmico, e também a desertificação de algumas regiões. Sobre as catástrofes naturais, eu costumo dizer que tem dois tipos de cobertura de guerra, uma produzida pelo homem e a outra pela natureza. Pelo homem é sempre no sentido do homem contra o próprio homem, envolvendo poder. No caso da natureza é uma cobrança do que o homem causou. Quando eu cobri os impactos do furacão Katrina em New Orleans eu era muito jovem, tinha uns 25 anos. Foi uma das minhas primeiras viagens em que fui obrigado a ficar sozinho na cobertura. Com um carro alugado, fui de Houston no Texas pela Interstate Ten, que é a rodovia que corta todo o Sul dos Estados Unidos. Eu dormi duas noites dentro do carro. A cidade estava 80% de baixo d’água, porque o furacão entrou e destruiu os diques e as águas do lago Pontchartrain invadiram a cidade. Quando conseguir chegar no centro tive várias experiências, por exemplo, tinha uma brasileira tetraplégica que eu não consegui chegar até onde ela morava, ela já estava morta e eu só pude avisar as equipes de resgate, eu fazia pequenas incursões, eu ia até New Orleans e como não tinha luz, água, comida, hotel e internet, eu ficava seis horas apurando informações e saia até uma cidade onde tinha uma estrutura para dormir. Já na cobertura do terremoto no Peru, que aconteceu na cidade de Pisco, onde há uma população muito pobre, casas feitas de adobe, que é feita de barro com água, foi onde eu vi pela primeira vez uma destruição total. Você se sente minúsculo perante o poder da natureza. [caption id="attachment_115453" align="aligncenter" width="513"] Rodrigo Lopes é autor do livro Guerras e tormentas: diário de um correspondente internacional (Besouro Box, 2011), em que relata o dia-a-dia e os bastidores do seu trabalho como correspondente internacional. Foto: Arquivo Pessoal/Jornalismo Ambiental[/caption]   No resgate dos mineiros no Chile, você foi acompanhado pelo vencedor do concurso Primeira Pauta. Como foi trabalhar com um estudante? Rodrigo Lopes – Foi muito legal. O Álvaro Andrade, que hoje é repórter da Rádio Gaúcha, ganhou o concurso e o prêmio era acompanhar uma grande reportagem. Ele foi comigo cobrir o resgate dos 33 mineiros no Chile, que ficaram mais de 60 dias embaixo da terra. A gente se conheceu uma semana antes, ele gostava de aventura e esportes radicais, já eu não sabia nem montar uma barraca e ele tinha todos os equipamentos, logo quando chegamos lá na mina São José no meio do deserto do Atacama enquanto eu procurava sinal de internet, ele ia montando a barraca. Foi uma parceria muito legal, foi uma questão de sobrevivência porque estávamos no meio do deserto, tínhamos que levar água, pois não tinha aonde comprar. Teve um dia que eu estava sem dormir mais de 24 horas e entreguei a ele a responsabilidade de fazer os boletins na Rádio Gaúcha. Foi uma oportunidade para ele e também uma mostra de confiança da minha parte. Nessas coberturas internacionais que você já fez, Líbano, Vaticano, Chile entre outras, nunca surgiu tempo para apurar uma pauta ambiental? Rodrigo Lopes – Não dá tempo de pensar, é uma viagem muito focada naquilo que está acontecendo, é uma cobertura normalmente multimídia, que exige você entrar várias vezes no mesmo dia no rádio e na TV, escrever para o jornal e ainda manter a cobertura em tempo real da internet, com isso não propicia que você fique mais tempo para cobrir outros assuntos. Como a mídia pode envolver os mais pobres nas discussões socioambientais? Rodrigo Lopes – O desafio é tentar mostrar para o leitor das comunidades que a gestão ambiental é um assunto do dia-a-dia deles, que não é um assunto só da mídia ou das grandes conferências internacionais sobre o clima, que é um assunto deles, que o lixo que eles jogam na rua acaba no bueiro que entope o arroio, este é o nosso desafio. A gente já passou da fase de ensinar a separar o lixo. Temos que formar a consciência de que pequenos atos mudam tudo, por exemplo, a gordura que se despeja na pia pode ir para o esgoto pluvial e vai resultar em tal dano. O jornalista tem que mostrar para comunidade que pequenas ações têm grandes impactos. Raramente há espaço para análises, investigação, interpretação e apresentação de novos caminhos nas matérias ambientais. Você acha que os jornalistas precisam mergulhar mais nesse processo de produção das matérias ambientais? Rodrigo Lopes – Eu acho que o jornalismo só de informação está fadado a morrer. O jornalismo do futuro vai ser o de análise e interpretação, mergulhar nos fatos, usar números, usar dados, traçar estatísticas. O resto é jornalismo fast-food, este que vemos no Facebook. E já tem gente que acha que o Google é um veículo de comunicação ou uma empresa de jornalismo. Ele pode até facilitar a comunicação, mas ele é uma ferramenta, ele não tem pessoas por trás, fazendo investigação ou fazendo uma reportagem. O futuro caminha para se diferenciar do breaking news do jornalismo mais superficial. Aquele que apostar no jornalismo mais interpretativo vai acabar se dando bem porque o leitor está carente de profundidade, embora às vezes a gente ache que as pessoas só querem ler as noticiazinhas do Facebook. Em geral até pode ser, as pessoas dizem que os brasileiros não leem. As pessoas não leem textos ruins. Se o texto é bom as pessoas irão ler, não importa o tamanho. E para o estudante escrever bem, precisa ler muito e é cada vez mais difícil fazer isso neste mundo de interconexão, você fica muito tempo no computador, liga o rádio, vê TV, lê o jornal, são muitos veículos disputando a sua atenção. Parar tudo e pegar um livro para ler até parece uma coisa do século 18. Só que não existe uma fórmula de aprender a escrever bem sem ler coisas boas. O lead é o que prende o leitor? Rodrigo Lopes – Sim, o lead é o que vai fisgar o leitor. Se você lê o lead e o lead está bom você vai adiante, mas se o lead não é bom o cara não vai ler tudo, tem diferentes níveis de leituras, às vezes você tem que ficar satisfeito só com um leadizinho. Em outras, você só vai ficar satisfeito com uma matéria de 19 páginas, como foi o caso da matéria “Os Filhos da Rua” da Letícia Duarte, porque 19 páginas num momento que as pessoas falam que o jornal está acabando, que o papel é caro, que as pessoas não leem mais, porém as pessoas leram e gostaram e o papel é um documento. Todo mundo fala que têm meninos de rua, que normalmente são usuários de crack, que isso é uma chaga social. A reportagem mostrou como não é apenas uma chaga social quando isso acontece, mas principalmente a falência das estruturas do Estado. Aquele menino já tinha passado pelo Conselho Tutelar, tinha problemas na escola e na família. Isso mostra a falência de vários setores, por isso só com uma grande reportagem de profundidade você consegue mostrar que não é uma coisa isolada. Este caso representa muitos outros. O papel do jornalista é conscientizar as pessoas ou apenas levar a informação ao leitor? Rodrigo Lopes – É conscientizar. Eu não acredito no jornalismo dissociado do papel social. O jornalista tem o papel social como educador, formação de opinião, como fortalecedor da democracia, e ai entra a questão ambiental, não adianta você apenas denunciar o que está acontecendo, você precisa dar todo um contexto. Por exemplo, no caso da extração de areia do Jacuí é preciso mostrar também quais os elos econômicos que levavam à extração ilegal da areia. São dois caminhos, um é formar pessoas e comunidades. O segundo é mostrar análises e informar melhor. * Publicado originalmente no site Jornalismo Ambiental.


por Anderson Furtado, do Jornalismo Ambiental
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O lugar da água

Deveria ser na Cantareira, mas ela não está lá; não deveria ser sobre a Avenida Francisco Sá, mas ela estava lá, arrastando veículos. São Paulo com reservatório seco e ruas alagadas; Belo Horizonte com partes altas já enxutas e a cidade baixa ainda submersa com bocas de lobo mandando jatos de água para cima como se repuxos projetados fossem. Muito se tem falado de falta e de excesso de água. A falta d’água é atribuída à de chuva e o excesso de água ao descontrole do clima. Simples como isto? Nada mais errado! O descontrole da água nos meios urbanos é uma espécie de punição por pecados originais das cidades, que não cogitaram definir um lugar para a água substituindo o que lhe foi tomado, com vias implantadas em nível colado aos fundos de vales, ou o que lhe foi tornado inacessível pelos telhados e asfalto (placa tecnogênica, ou algo mais pedante, chamado antropostroma de Passerini). Como começa: Os arruamentos pioneiros não contaram com uma rede de drenagem formal, mas a sua implantação corresponde a um processo de drenagem, não dirigida, mas mesmo assim, uma drenagem; rios e córregos começam a ter cheias maiores que as naturais. São Paulo e Belo Horizonte já tiveram cinco quilômetros de diâmetro. As inundações urbanas duravam o tempo da chuva e na segunda esquina já caíam no meio rural para sossego dos citadinos. A cidade cresce e as vias vão se estendendo ao tempo em que a drenagem se sofistica passando a distinguir-se em categorias de micro e macro. O conjunto assume forma arborescente, em que córregos, quais galhos tortos, ficam retilíneos levando a água rapidamente aos rios. Em Belo Horizonte, que cresceu rio acima, a árvore da analogia tem galhos grandes para um tronco (o Arrudas da parte baixa) que não pode mais crescer. Bocas de lobo das partes altas, tão reclamadas, ficam mais limpas com a coleta de lixo mais eficiente, e despejam águas abundantes sobre as baixas, onde se dão as inundações, que cobrem bocas de lobo locais, algumas projetando refluxos pela alta pressão de águas das galerias a que dão acesso. As cidades têm recursos que insistem em não adotar de forma decidida: usar resíduos inertes para absorver parte do fluxo em cabeceiras e fundos de vale não urbanizados; usar telhados como coletores; promover reconexão hidrológica do telhado ao subsolo para evitar a ocorrência de subsolo sedento com enxurradas correndo por cima. Que fique claro: a falta de água na seca não é somente devido a falta de chuva assim como o excesso nas águas não é apenas por causa das mudanças climáticas, mas por excesso de descarga. Pode piorar porque esse excesso leva com a água o solo que o processo geológico não substitui na vida curta da civilização. E pensar que não se fala do solo erodido como um recurso não renovável! No plano mais amplo, que envolve o campo, pergunto por que defendemos todas as nascentes, inclusive das voçorocas, se queremos a recarga dos aquíferos, sendo elas tão eficazes dispositivos geológicos de descarga dos aquíferos! * Edézio Teixeira de Carvalho é engenheiro geólogo. ** Publicado originalmente no site da revista Eco21.


por Edézio Teixeira de Carvalho*
1 Ambiente

Uma nova era ambiental

“É tempo de deixar de ser o que éramos para nos transformar no que somos capazes de ser” Marianne Williamson “Tenho a sensação de estar vivendo o final de muitas épocas”, escreveu Miguel Delibes, que sempre mirava o futuro. A imensa maioria dos dirigentes vive ancorada no passado sem se dar conta de que, por fim, depois de séculos e séculos de poder absoluto masculino, em que a imensa maioria dos seres humanos eram anônimos, invisíveis, obedientes, tementes, agora se avizinham, a passos largos, profundas transformações que nos permitirão progressivamente “ser” todas as pessoas, passando de espectadores passíveis a atores. Será possível colocar em prática a lúcida expressão de “Nós, os povos...” com a qual se inicia a Carta das Nações Unidas, porque as novas tecnologias da informação e comunicação permitiram a um considerável número de seres humanos “fazerem-se visíveis”, participarem, exporem seus pontos de vista, seus protestos e suas propostas. Com isso, adquiriram uma cidadania mundial e uma consciência global que lhes permite comparar, apreciar o que têm e conhecer as precariedades alheias. Mas, para a mudança de época é, sobretudo, imprescindível contar com a participação feminina, com seu inerente respeito à vida e utilizar sem propensões a força e o domínio para impor seus critérios – de tal modo que a equidade seja um dos principais pilares do novo paradigma. O mundo deve hoje conhecer e reconhecer o insólito poder cidadão. A sociedade civil, submissa desde a origem dos tempos, passará agora a ser protagonista, em poucos anos, de múltiplas mudanças, apesar da inércia, apesar das travas de toda ordem que serão colocadas por aqueles que continuam presos ao ontem e não querem aceitar as responsabilidades que lhes são incumbidas para superar a crise sistêmica que afeta a humanidade e que tantos rompimentos vem produzindo – particularmente, no tecido social mais vulnerável. Se não há evolução, haverá revolução, agora sem derramamento de sangue porque se dará, sobretudo, no ciberespaço. Os que impuseram suas ambições hegemônicas e substituíram os valores éticos pelas leis do mercado e as Nações Unidas por grupos plutocráticos (G6, G7, G8… G20) são culpados não apenas do naufrágio econômico, mas de ter levado, no começo do século e do milênio, a desigualdades sociais inadmissíveis e a uma total ausência de liderança institucional e pessoal. De fato (não me canso de repetir porque é um ensinamento para a ação cotidiana), 60 mil pessoas, em sua maioria crianças de um a cinco anos, morrem de fome todos os dias, ao passo que são investidos 4 bilhões de dólares em armas e gastos militares. Agora vêm ao caso os preciosos versos de José Ángel Valente: “Eu lhes escrevo de um naufrágio. Do que temos destruído diante de tudo, em nós... mas lhes escrevo também da vida de um mundo vindouro”. Para isso, seria imprescindível que se abrissem os horizontes de tantos moradores da Terra que estão confinados. Para que eles pudessem escapar. Para que fossem iguais em dignidade... Tudo isso está a caminho. O mundo “vindouro” se aproxima a passos largos. As novas tecnologias da informação e da comunicação são peças essenciais dessa repentina “epifania” humana, desse deixar de ser imperceptíveis e silenciosos. “O compromisso supremo de cada geração”, dizia o Presidente Nelson Mandela, “é levar em conta a geração seguinte”. A responsabilidade intergeracional deve vir para o primeiro plano, em um momento no qual, obcecados com o presente de alguns poucos, nos damos conta de que nos esquecemos do mais importante: o bem-estar de nossos filhos e descendentes, a habitabilidade da Terra, a qualidade de um contexto ecológico no qual todos os seres humanos, já identificáveis, visíveis e capazes de se expressar, possam exercer plenamente suas faculdades distintivas. Estamos no advento do antropoceno – as atividades humanas incidem no meio ambiente – e a força da razão deve se impor de uma vez sobre a razão da força. Mas os grandes consórcios mundiais continuam baseando a “marcha” da humanidade nos combustíveis fósseis. É urgente, como em todos os processos potencialmente irreversíveis, diminuir, mediante um grande pacto supervisionado pelas Nações Unidas, por meio de um Conselho de Segurança do Meio Ambiente, as gravíssimas alterações que já estão sendo produzidas neste momento. Em poucos anos, deve-se favorecer a recaptura do anidrido carbônico pelo fitoplâncton dos mares, achar as ligas que permitam o transporte de grandes quantidades de eletricidade, promover as energias renováveis (fotovoltaica, termossolar, eólica... painéis nas casas e nos edifícios, carros híbridos e elétricos...), investindo de uma vez por todas em segurança vital uma parte – bastariam 30 ou 40% – do que atualmente representa a segurança militar, que abrange apenas 20% da humanidade. No lugar de tantos aviões típicos de guerras passadas, é urgente dispor de aviões e artifícios para lutar contra os incêndios, as inundações, as catástrofes naturais e de toda índole, mediante estratégias cientificamente projetadas. O poder cidadão deverá situar entre suas primeiras reivindicações o desarme nuclear imediato. Trata-se de outro grande pacto global promovido por um colossal clamor dos cidadãos do mundo. Nos últimos anos, proliferaram-se os diagnósticos. Agora faltam os tratamentos a tempo para favorecer uma autêntica remodelação em escala mundial, antes que seja tarde demais. É preciso um novo paradigma – cuja proposta é liderada pelos professores Ivo Slaus e Garry Jacobs da Academia Mundial de Arte e Ciência – que eu tenho certeza de que não tardará a se adaptar graças ao “grito das pessoas”, de “Nós, os povos”, atuando com firmeza. Com as Nações Unidas refundadas, dispondo de uma Assembleia Geral integrada igualmente por Estados e por representantes da sociedade civil, além do Conselho de Segurança atual e do acima mencionado, um Conselho de Segurança Socioeconômico, será possível a transição da atual economia de especulação, deslocamento produtivo e guerra para uma economia de desenvolvimento global sustentável e humano que possa se tornar realidade em poucos anos. Obcecados pelo curto prazo, acreditam que, em um mundo finito, se possa crescer indefinidamente sem substituir o que se consome, sem atender cuidadosamente a conservação da Terra, sem imaginar novos caminhos para o amanhã. O que é infinita é a criatividade que distingue os seres humanos. É essa a nossa esperança para resolver tanto as crises econômicas como as sociais que delas derivam. A Carta da Terra estabelece em seu preâmbulo: “Estamos em um momento crítico da história da Terra, no qual a humanidade deve escolher seu futuro”. “Nenhum desafio está além da capacidade criadora da espécie humana”, proclamou o Presidente John F. Kennedy em 1963. É imprescindível tornar possível aquele desenvolvimento integral, endógeno, sustentável e humano que se defendeu então como a melhor fórmula para a governança mundial, de tal modo que os seres humanos, e não apenas uns poucos, possam se beneficiar do progresso científico. Apenas em um contexto de democracia genuína será possível passar de uma cultura de imposição, violência, domínio e guerra para uma cultura de encontro, conversação, conciliação, aliança e paz. O imenso poder das redes sociais será a pedra angular da grande transição de súditos para cidadãos plenos, da força para a palavra. A Revolução Digital será, por seu âmbito e profundidade, a mais importante desde a origem dos tempos. Em termos antropológicos, sociais e econômicos, o mundo já não será como antes. A maior longevidade contribuirá para dispor de conhecimentos e experiências que permitam tornar realidade o sonho universal da igual dignidade humana. O bairro próspero da aldeia global se ampliará de tal modo, que as assimetrias e desigualdades que hoje ofuscam o horizonte serão reduzidas até desaparecerem. Em resumo, nós nos encontramos em um momento de profundas transformações sociais, que ocorrem com uma rapidez sem precedentes. Situações sem precedentes que, como indicou Amin Maalouf, requerem soluções sem precedentes. E, quase inadvertidamente, nos encontramos diante de um novo ser humano capaz de intervir, de expor suas opiniões, de assumir plenamente as funções que lhes são correspondidas. O tempo do silêncio, da obediência, do anonimato... acabou. Uma nova era se avizinha. “E que seja ouvida a voz de todos, solenemente e clara que tudo está por fazer e tudo é possível mas, quem senão todos?” Esse poema escreveu de maneira lúcida Miquel Martí i Pol. A voz de todos. Por fim, falar, falar todos. A palavra, a nova era, o novo começo. * Federico Mayor Zaragoza é ex-Diretor Geral da UNESCO, Presidente da Fundação Cultura de Paz. ** Publicado originalmente no site da revista Eco21.


por Federico Mayor Zaragoza*
Jonas Campos, repórter da RBSTV – Foto: Arquivo Pessoal Ambiente

Jonas Campos, um repórter apaixonado pela Amazônia

[caption id="attachment_115235" align="aligncenter" width="619"] Jonas Campos, repórter da RBSTV – Foto: Arquivo Pessoal[/caption]   Um jornalista que carrega no coração duas paixões, o rádio e a Amazônia. Assim é Jonas Campos, repórter da RBSTV desde 2013. Com a experiência de quem já trabalhou no Pará e no Mato Grosso para a Rede Globo, ele defende nesta entrevista uma cobertura permanente e séria na região da Amazônia, onde sonha voltar a trabalhar um dia. Jonas Campos é jornalista há 20 anos. Formado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) em São Leopoldo (RS), começou sua carreira na Rádio Gaúcha de Porto Alegre. Já atuou no SBT Curitiba, TV Liberal, TV Centro América e TV Iguaçu. No Pará e no Mato Grosso, atuou em coberturas de repercussão nacional, como ele mesmo conta nesta entrevista exclusiva, concedida em meio à correria da cobertura da Copa do Mundo em Porto Alegre. Por que você escolheu ser jornalista? Jonas Campos – Eu escolhi o jornalismo para aproveitar um talento que eu acho que meu pai, minha mãe e Deus me deram que é a minha voz. Eu adoro rádio desde pequeno. Achei que minha voz tinha qualidade para essa profissão. Nas leituras das missas dominicais, eu participava da liturgia lendo a primeira e a segunda leitura sempre. Os velhinhos que ficavam no fundo da igreja ao final da missa diziam “ô rapaz hoje a gente conseguiu ouvir a palavra, porque você realmente lê alto, claro, não fala com a voz na barriga”. Eu ficava feliz com os comentários. Então vi que era um lance interessante buscar o Jornalismo. Gostava de assistir jornais, das transmissões esportivas, então isso serviu de base. Comecei a fazer uma pesquisa sobre qual a profissão que eu iria escolher. O Jornalismo surgiu como a primeira opção mesmo. Todos me alertavam naquela época, em 1990, que era uma profissão que pagava pouco, que tinha plantão no final de semana, feriado, mas eu adorava estar no meio, era curioso, gostava de saber o que estava acontecendo e como acontecia. O Jornalismo possibilita trabalhar em vários meios de comunicação, qual você se identifica mais? Jonas Campos – Dos meios eu gosto mais do rádio, adoro rádio, sou apaixonado por rádio. Eu comecei no rádio, na Rádio Gaúcha em 1992, como estagiário. Foi pela Rádio Gaúcha que eu comecei no Jornalismo. Eu também gosto muito da televisão. Ela te oferece um futuro mais interessante para você crescer na profissão, mas o rádio é apaixonante em todos os aspectos. Como foi a experiência de trabalhar na Amazônia? Jonas Campos – Eu só posso agradecer a Deus por eu ter tido a oportunidade de ir para a Amazônia. Lá eu conheci outro Brasil, amadureci e aprendi a conviver com situações que aqui no Sul a gente não tem. Eu trabalhei no Pará seis anos, depois eu voltei aqui pro Sul por três anos e em 2008 fui para o Mato Grosso, onde voltei a ter contato com a Amazônia. Eu sou um apaixonado pela Amazônia, pelas coisas de lá, pelo povo que lá vive, são mais de 20 milhões de pessoas. Quando eu cheguei em 1999 no Pará, eu fui fazer uma reportagem sobre trabalho escravo, assunto que aqui no Sul eu nunca tinha ouvido falar. Lembro que quando cheguei lá parecia um filme passando na minha cabeça. A localidade ficava a mil quilômetros de Belém. Religiosos da Comissão Pastoral da Terra me passaram o mapa de uma fazenda onde 140 pessoas eram escravizadas. Que coisa é essa? Eu perguntava para os padres. Tem gente armada? Eles estão amarrados? Acorrentados? E os padres me explicavam que tinha gente armada e que só o isolamento já poderia ser considerado uma forma de escravidão. Você pega 140 trabalhadores e leva para uma fazenda que fica a 300 quilômetros da cidade mais próxima, isso aí é uma forma de aprisionamento, uma forma de escravidão. Eles são obrigados a comprar uma bota com preço superfaturado, comprar um quilo de feijão somente lá na cantina da fazenda, então cheguei e convivi com aquela situação, fiz várias reportagens sobre trabalho escravo, denunciando a exploração do trabalhador, onde a dignidade não existe. E a questão ambiental? Jonas Campos – Foi outra situação que a Amazônia me mostrou. Esta preocupação com o meio ambiente eu levei muito da educação do Sul, a preocupação com a árvore em pé. Lembro quando eu entrava naquelas estradinhas com minha equipe de reportagem e a gente ouvia o barulho da motosserra. Aquele barulho tinha dois significados, a transmissão de um som de uma vida que estava se indo e a transmissão de um som aterrorizante, porque eu sabia que era perigoso estar ali mexendo com um interesse tão forte que é a indústria madeireira. Ao denunciar uma exploração ilegal é uma cadeia toda que vai sendo comprometida. Você tem que ter cuidado. Para denunciar a derrubada ilegal da floresta tem que ir a regiões isoladas, longe das cidades, dos grandes centros da Amazônia. Teve algum episódio que te marcou? Jonas Campos – Em uma destas reportagens estávamos indo cobrir uma pauta envolvendo sem-terra. Percorríamos a estrada até uma parte que havia árvores do lado direito e do lado esquerdo. Então eu ouvi um barulho de motosserra. Estava com uma equipe muito querida de cinegrafista e motorista, e disse vamos entrar para ver o que estão derrubando. Encontrei o primeiro cara que estava operando a motosserra. Ele derrubou a primeira árvore e a gente filmou aquela árvore caindo, aquele barulho era o som de uma vida que se ia, uma árvore centenária. Junto foram mais umas três ou quatro pequenas, que ainda tinham muito a crescer. Eu perguntei para ele: “mas está árvore derrubou outras três?”. Ele disse que era assim mesmo que funcionava. Em questão de uma hora, aquele grupo de trabalhadores de oito pessoas derrubou mais de uma dezena de árvores. Tudo isso me ensinou muito no Jornalismo. Além da questão da perda de árvores, você tem a corrupção de políticos. Lá eu fui ameaçado. Sofreste represálias? Jonas Campos – Fui ameaçado pela turma do Jader Barbalho. Na época ele era o presidente do Senado. Eu espero um dia voltar para a Amazônia. É um lugar que precisa de um jornalismo ativo, porque o povo de lá sofre muito e a imprensa, na medida em que se afasta dos grandes centros, é cada vez mais coronelista, está dominada pelos interesses coloniais. Então às vezes um grande escândalo pra ele sair de lá, mesmo com advento da internet, tem um tempo de maturação, tem um tempo para ficar fermentando só que muitas vezes é um assunto urgente. Por isso é importante ter um jornalismo tipo o dos grandes veículos na Amazônia, e hoje, por exemplo, você não tem. Tem as afiliadas da Rede Globo, que tem repórteres credenciados para fazer as matérias para o Jornal Nacional. A Revista Veja tirou os repórteres dela de lá, a Folha de São Paulo tirou também seus repórteres da Amazônia. A grande imprensa só vai pra Amazônia em situações especialíssimas, quando se mata uma religiosa americana (referência à Dorothy Stang assassinada em 2005 no Pará). Quando tem uma crise? Jonas Campos – Exatamente, quando tem uma crise a grande imprensa vai para a Amazônia e não deveria ser assim, deveria cobrir essa parte do território brasileiro com mais atenção. Você não ficava com medo? Jonas Campos – Naquela época eu era muito gurizão, a gente vai, vai pelo que está acontecendo ali. E cada vez quer mais e mais, descobrir mais. E hoje seria da mesma forma que antes, só que talvez com um pouco mais de cuidado, mas faz parte do Jornalismo. O jornalista é assim, vai onde está a notícia. Muitas vezes precisa de uma declaração importante pra segurar uma matéria. E essa declaração é uma prova que o jornalismo investigativo busca que pode estar a mil quilômetros de distância e você tem que ir lá, porque a televisão é um meio que a equipe tem que estar presente. Não da para fazer por telefone. Como é o acesso à Amazônia? Jonas Campos – O acesso é muito ruim, às vezes leva dois dias pra chegar num lugar, às vezes eu passava dois dias dentro de um barco pra cobrir um acontecimento na ilha de Marajó, região do Brasil com o IDH mais baixo, mais podre, mais miserável. Muitas vezes dormia na estrada, em condições precárias, às vezes quebrava o carro e outra vez ia até de cavalo. Em algumas reportagens não tinha como ir de carro, nem de barco. Só que helicóptero e avião são caríssimos. Isso é um detalhe importante: o jornalismo na Amazônia é caro. Você precisa ter um bom orçamento para chegar a alguns lugares. Uma viagem para você voltar com uma matéria de 1 minuto e 30 segundo chega a custar 2 mil reais. Tem que ter dinheiro. A preservação ambiental ajuda ou atrapalha o cidadão que mora na Amazônia a viver melhor? Jonas Campos – Para quem está distante a resposta é óbvia. Vai dizer que ajuda. Agora ela tem que ser feita de uma forma sustentável, de uma forma que se preocupe com o ser humano que está lá. Não adianta de uma hora para outra os órgãos ambientais chegarem lá e fecharem todas as madeireiras em uma cidade, causando assim um desemprego de duas, três mil pessoas que não têm onde trabalhar, pessoas que precisam daquilo para comer, todas têm a carteira assinada e fazem o recolhimento da contribuição previdenciária corretamente, elas pagam seus impostos em dia. Então se o governo tá falhando na fiscalização, deixando que madeiras de lugares sem autorização cheguem às madeireiras, o IBAMA tem que se aprimorar, criando métodos para chegar com o crime acontecendo a fim de evitá-lo. O fiscal geralmente só chega a uma área devastada depois que todas as árvores já caíram e estão mortas. Pode citar uma reportagem que fizeste sobre isso? Jonas Campos – Eu fiz uma reportagem que foi exibida pela Rede Globo durante a Rio+20 (Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável realizado em 2012 no Rio de Janeiro). Esse projeto custou só de investimento de jornalismo 30 mil reais, e foi para ar no Jornal Hoje. A ideia era pegar uma área que estava sendo devastada por quadrilhas de ladrões de toras, entrar nesta área tomada por ladrões de madeira, abrir as toras que lá estavam jogadas no chão e colocar os chips de rastreamento. A partir daí ver aonde estas toras iriam para mostrar o seguinte: depois que um caminhão entra na madeireira, aquela carga que ele carrega se torna legal, pois eles botam um documento que esquenta aquela carga roubada, então é necessário que você pegue antes que ele chegue à madeireira, até ele chegar à madeireira ainda há uma chance, mesmo muito reduzida, de descobrir o crime. Na verdade você tem que pegar o crime antes de sair da floresta, olha só a dificuldade, o caminhão sai de uma área de 400 ou 500 quilômetros de distância da serraria. E o Ibama tem que pegar o crime antes do caminhão sair da floresta. E como conseguir isso? Tem que ter inteligência. Com este rastreamento, derrubamos uma quadrilha de 30 pessoas. A reportagem teve como consequência o fechamento de uma serraria. Revelamos a existência de uma quadrilha que estava devastando uma área importante da Amazônia, no norte do Mato Grosso. Até hoje o Ibama não conta com sistema de rastreamento igual ao que nós usamos. A preservação ambiental não pode ser vista só pelo radicalismo do ambientalista. Não podemos esquecer que lá na Amazônia tem 20 milhões de pessoas que precisam viver, precisam comer, precisam de educação, precisam de renda. Na tua opinião, o Jornalismo brasileiro cobre pouco os problemas da Amazônia? Jonas Campos – Claro que cobre pouco. O Jornalismo brasileiro vive de fuxico. Você tem aí um ano eleitoral, se um repórter lá da Amazônia oferecer uma matéria dizendo “olha eu peguei um flagrante de uma derrubada de mil árvores”, você vai ter o editor do Rio de Janeiro e São Paulo dizendo que não quer, porque o jornal e a revista estão cheios com matérias de política de Brasília. Já existiu um espaço muito grande, mas hoje estão reduzidos, os grandes veículos não cobrem bem a Amazônia brasileira, cobrem em cima de clichês. Em muitas vezes uma redação na Avenida Paulista estabelece em uma reunião de pauta e bota seu repórter em campo para comprovar a tese, que foi levantada em uma reunião de pauta no ar condicionado, então a Amazônia sobre o olhar da grande mídia é esquecida, não adianta você valorizar Amazônia só quando você tem uma enchente que deixa 2 ou 3 mil desabrigados, você tem que valorizar a Amazônia em tudo que ela significa, não pode deixar acontecer biopirataria, desrespeito aos direitos humanos, o desrespeito ao direito do trabalhador, desrespeito com a preservação das espécies, desrespeito com as grandes histórias dos vencedores daquele lugar, desrespeito com os seres humanos que todos os dias saem pra trabalhar e também lutam para preservar a floresta e são ameaçados. E ainda há as inúmeras pessoas na Amazônia que por abraçar a bandeira ambiental são ameaçadas de morte. Quando eu entrevistava um sindicalista ou uma liderança comunitária que dizia que estava sendo ameaçada e sete meses depois a pessoa era assassinada isso não foi um caso, foram vários, tendo como ponto mais nevrálgico o assassinato da Dorothy Stang, a missionária americana. Quantas vezes eu a entrevistei e quantas vezes ela disse que foi ameaçada. Para você ter uma ideia vinte dias depois dela me dar uma entrevista revelando os nomes de quem a ameaçava ela foi assassinada. Então quando eu vi tudo isso acontecendo eu pensei: eu tenho uma filha, que na época tinha dois anos. Então decidi recuar um pouco. Voltei para a região, desta vez no Mato Grosso, em 2008. Quando que um sindicalista ameaçado vai ser notícia na grande imprensa se não for um famosão, não tiver uma ONG por trás dele? Nunca. Agora se você tiver um repórter lá em Belém, Manaus, Macapá, um repórter atento, um repórter que não se corrompe… Tem outro detalhe importante, o que acontece muitas vezes é de um repórter ser abraçado pelo sistema que lá existe, participa das festas, das solenidades e se sente uma personalidade porque um jornalista famoso passa a ser uma personalidade lá em cima. Assim ele não vai ver todo este problema que acabei de narrar ou vai ver com outros olhos. A conscientização ambiental parte da imprensa, o jornalista tem essa força? Jonas Campos – Eu acho que a sociedade toda, governantes, órgãos ambientais, todo mundo tem que participar. Eu estou passado por uma fase crítica em relação à imprensa, eu acho que a imprensa tem que fazer uma autorreflexão do que ela está fazendo, para o que está servindo, muitas vezes ela faz uma leitura dos fatos que não bate com a realidade, uma leitura que só vê um lado, uma leitura que só tem uma visão do cara que nasceu em berço de ouro, do cara que está no ar condicionado decidindo o que vai virar manchete ou não. Eu acho que se o cidadão vive só da conscientização da imprensa ele vai ter um nível de conscientização não completo dos fatos, então hoje ele tem que se informar de tudo que é jeito, ele tem que se interessar e ir atrás do que ele acha importante para sua vida, para formar sua convicção. A imprensa é um dos meios de informação, mas ele precisa buscar outros. Não é o principal? Jonas Campos – Talvez seja o principal, eu acho que dentro da imprensa você tem a grande imprensa e você tem imprensa que não é grande, então para você entender toda a realidade é necessário que você leia a grande imprensa e a imprensa que não é grande para assim formar uma ideia do que esta acontecendo. * Entrevista realizada no dia 12 de junho de 2014 em Porto Alegre (RS) pelo aluno Anderson Furtado para a disciplina de jornalismo ambiental do curso de Jornalismo da UniRitter de Porto Alegre (RS), com edição do professor Roberto Villar Belmonte. ** Publicado originalmente no site Jornalismo Ambiental.


por Anderson Furtado, do Jornalismo Ambiental

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