O maior município do Brasil é também o que mais desmata na Amazônia

Ambiente

O maior município do Brasil é também o que mais desmata na Amazônia


por Redação do ISA


Análise espacial mostra degradação ambiental em Altamira, recordista de desmatamento na Amazônia. Entenda quem está condenando Altamira a liderar o ranking dos que mais desmatam em toda a história do bioma. Em novembro de 2013, informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) colocaram Altamira (PA) na cabeça da lista dos maiores desmatadores do país: quase 300 km² de floresta desmatados no ano. A esperança de melhoria em 2014 acabou de virar fumaça com os dados publicados recentemente dos sistemas de alerta do Imazon (SAD) e do Inpe (Deter). Para desespero dos gestores locais, o cenário é de aumento da devastação no município este ano. O corajoso viajante que decida ir da cidade de Altamira até a sede do distrito de Castelo dos Sonhos, no mesmo município, terá que enfrentar quase 1000 quilómetros de estradas em péssimo estado, atravessando boa parte do Pará pela Transamazônica e pela Cuiabá-Santarém (BR-163). Depois de dois dias de viagem e muita poeira (ou lama, dependendo da época), o nosso viajante terá avistado centenas de caminhões carregados de madeira, gado e soja e chegará ao seu destino final, uma pequena cidade fundada por imigrantes do sul há mais de 30 anos e atualmente sob a esfera econômica de sua poderosa vizinha, Novo Progresso, mas ligada administrativamente a Altamira. A ocupação intensiva, de fato, se deu, nos últimos dez anos. A história da região de Novo Progresso e Castelo dos Sonhos é uma soma de histórias individuais de ocupação e avanço sobre as florestas, diante da total ausência do Estado. Castelo dos Sonhos mais especialmente teve como origem um garimpo de mesmo nome, que ficou célebre por conta de seu dono. Reza a lenda que Rambo, como era chamado, teria desafiado as forças policiais durante anos e teria sido morto em embate com a Polícia Militar do Pará. O asfaltamento anunciado O anúncio do asfaltamento da BR-163 (que liga Cuiabá no Mato Grosso a Santarém no Pará), em 2002, entusiasmou os moradores locais, pois tiraria a região do atraso e do isolamento, mesmo que a motivação principal da obra fosse a viabilização do corredor logístico Mato Grosso-Pará e a consequente redução dos custos na exportação de commodities agrícolas (basicamente soja). Frente às vozes que alertaram sobre o risco de aumento do desmatamento nas florestas da região, ainda bem preservada, o governo idealizou, em 2006, o plano BR-163 Sustentável, que continha uma série de medidas para possibilitar que ‘o império da lei chegasse ao coração do Pará’. Pois bem, o asfaltamento só decolou no ano passado e o plano BR-163 Sustentável não teve avanços significativos especialmente no que se refere à regularização fundiária. Mesmo assim vale ressaltar que durante a gestão de Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente (2002-2009) várias Unidades de Conservação (UCs) foram criadas. Parte das UCs da Terra do Meio entraram nessa conta. Apesar disso, a ausência do Estado continuou e favoreceu assim a grilagem e as ocupações ilegais. Hoje, com o asfaltamento em fase de conclusão, milhares de caminhões carregados com soja transitam diariamente pela parte paraense da BR-163, atravessando territórios sem ordenamento fundiário, glebas federais sem destinação nem gerenciamento e assentamentos da reforma agrária deixados ao abandono. Piora começou em 2011 O caos fundiário e o súbito enriquecimento de grupos locais devido à chegada do asfalto foram os ingredientes principais desse quadro desolador que será analisado a seguir e cujos efeitos se traduzem no maior surto de desmatamento da história da Amazônia. No gráfico a seguir é possível constatar o momento em que o desmatamento no entorno da BR-163 dispara: é a partir de 2011 que a quantidade de floresta removida no distrito de Castelo dos Sonhos, de tamanho comparativamente pequeno, aumenta, para em 2012 superar a área desmatada no resto do município.   Para estudar o que aconteceu do ano passado para cá, é preciso analisar os focos de calor e os alertas de desmatamento naquela área. No gráfico abaixo pode-se observar a progressão de focos de incêndio, indicativos das atividades de desmatamento, de 2013 a 2014, na região estudada. Fica evidente a explosão em 2014, de focos de calor na região da BR-163 (Novo Progresso e distritos de Altamira). Os mapas a seguir mostram a localização dos focos de calor no mês de agosto que registra maior incidência de queimadas em 2013 e em 2014.   Além dos focos de calor, o ISA analisou a incidência de alertas de desmatamento na região e inferiu o total de desmatamento previsto para 2014.   Os mapas e gráficos mostram a destruição provocada pelo desmatamento sistemático e ano a ano de regiões inteiras de florestas, em um processo de varredura aparentemente incomparável. A partir desta análise, fica evidente que é da região da BR-163 que partem as maiores ameaças ao território altamirense, e, por extensão, às florestas preservadas do oeste do Pará. A abundância de terras não destinadas e não ocupadas em territórios afastados dos eixos principais de transporte atua como um ímã para as máfias do desmatamento. A operação Castanheira Depois de meses de trabalho de inteligência a Polícia Federal, a mando do MPF e junto com o Ibama e a Receita Federal, deflagrou em 27 de agosto, a chamada ‘Operação Castanheira’, para desarticular os grupos que têm promovido grande parte do desmatamento na região por meio de um esquema de grilagem e venda de terras. O surto de desmatamento na região de Castelo dos Sonhos teria sido consequência direta da atuação desses grupos, que grilavam, desmatavam e vendiam grandes fragmentos de floresta, auferindo enormes lucros nesse esquema criminoso. As ações de fiscalização ordinárias (multa e embargo) não teriam sido efetivas, conforme revelado pelos próprios infratores, que declaram que as multas ou embargos não afetam o preço da terra desmatada. Diante desse quadro desolador, a sociedade brasileira deve cobrar a efetividade das medidas a serem tomadas, daqui em diante para evitar que as terras assim devastadas possam de alguma maneira beneficiar os autores da destruição. Um sistema de embargo, por exemplo, poderia ser atrelado à localização espacial da destruição e não ao CPF do ocupante da terra, normalmente um ”laranja” ou vítima de engano. Se medidas como essas forem tomadas é possível que em 2015 haja uma diminuição significativa do desmatamento na região da BR-163, e, por extensão, no município de Altamira. Saiba mais http://www.prpa.mpf.mp.br/news/2014/operacao-desmonta-maior-quadrilha-de-desmatadores-da-regiao-amazonica http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Blog/ba-do-desmatamento/blog/46171/ * Publicado originalmente no site Instituto Socioambiental.

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Projeto de acesso à biodiversidade tranca pauta sem previsão de votação

[caption id="attachment_120525" align="alignright" width="300"] Henrique Fontana: governo pediu urgência para assegurar a votação do projeto. Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados[/caption] Texto já recebeu 137 emendas, grande parte delas para incluir regras sobre agricultura e produção de alimentos, temas que não constam da proposta. Apesar de apelos da comunidade científica e do setor agropecuário, o governo vai manter a urgência constitucional do projeto que atualiza a legislação sobre pesquisa e exploração ao patrimônio genético de plantas e animais e de conhecimentos tradicionais associados (PL 7735/14). O projeto tranca a pauta do Plenário desde o dia 11 de agosto, mas ainda não tem relator, o que gera indefinição sobre a votação e pode inviabilizar a análise de outros projetos de lei no Plenário da Câmara dos Deputados. A comissão especial para discutir a norma também não foi criada. A proposta quer desburocratizar o início das pesquisas e regular o pagamento de compensação sobre a exploração econômica de substâncias brasileiras ou processos tradicionais. O líder do governo, deputado Henrique Fontana (PT-RS), disse que a urgência é a garantia de que o projeto será votado. Ele lembrou que o marco da mineração não voltou à pauta depois de ter o regime especial retirado pelo Executivo. O início das discussões, no entanto, vai ficar para depois das eleições. “A urgência veio para criar essa prioridade, até porque os setores envolvidos podem ter uma crítica ao artigo A ou B, mas defendem a votação desse novo marco legal”, disse Fontana. Cientistas A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, enviou uma carta à presidente Dilma Rousseff pedindo a retirada da urgência. “A tramitação da proposição deve permitir a realização de audiências públicas com a participação da comunidade científica e de outros representantes da sociedade impactados pelo tema, no sentido de possibilitar uma análise mais cuidadosa do PL e seu consequente aperfeiçoamento”, diz o texto enviado ao Planalto em 17 de julho. Não só os cientistas estão de olho no projeto, que também ganhou atenção especial dos deputados ligados ao agronegócio. O texto do governo especifica que as novas regras não valerão para as pesquisas ligadas à produção de alimentos e agropecuária, que continuarão regulamentadas pela Medida Provisória 2.186/01, mas a bancada ruralista apresentou várias emendas para mudar esse cenário. A inclusão do setor na proposta também é objeto de uma emenda do PV. Agronegócio O presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), disse que o setor já negociou com o Ministério da Agricultura uma norma sobre as pesquisas para a produção de alimentos e quer garantir que os temas sejam incluídos no projeto. Entre as preocupações do setor está a possibilidade de cobrança de royalties do agronegócio sobre o uso de sementes ou espécies do exterior. “Todos os produtos que o Brasil exporta vêm do exterior. Se outros países donos dessas moléculas resolverem cobrar alguma coisa, é extremamente complicado”, disse Heinze. O deputado Nilson Leitão (PSDB-MT) foi um dos que apresentou emendas relacionadas ao agronegócio. Uma delas inclui várias normas sobre o acesso ao patrimônio genético para desenvolvimento de alimentos ou agropecuária, que ficaria sob a responsabilidade do Ministério da Agricultura. Hoje, todas as pesquisas são reguladas pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen), ligado ao Ministério do Meio Ambiente. O texto da emenda também garante vários direitos ao agricultor, inclusive o de receber pela manutenção de técnicas agrícolas tradicionais e limita o pagamento de royalties pelo agricultor que explora patrimônio genético por dez anos. Cgen Já o deputado Roberto Freire (PPS-SP) apresentou uma emenda para acabar com o Cgen e transferir para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) a gestão das pesquisas e exploração do patrimônio genético. O texto também inclui a agricultura no marco regulatório. Freire criticou a atuação do Cgen que, segundo ele, faz poucas reuniões e não dá conta da demanda, ao contrário do CNPq, que tem eficiência reconhecida. “O CNPq é considerado uma das instituições mais sólidas na área de investigação científica e tecnológica entre os países em desenvolvimento, com larga tradição no Brasil em administração de projetos científicos”, diz o deputado. Espécies nativas ou exóticas Outra preocupação entre os deputados é sobre o escopo do projeto, ou seja, se vai se aplicar apenas à pesquisa e exploração de substâncias presentes na fauna e na flora nativa do Brasil ou às espécies importadas de outros países, mas que são cultivadas no Brasil (e, por isso, são chamadas de exóticas). A soja, por exemplo, não é uma espécie nativa, ao contrário do açaí ou do cupuaçu. Íntegra da proposta: PL-7735/2014 * Edição: Pierre Triboli. ** Publicado originalmente no site Agência Câmara.


por Carol Siqueira, da Agência Câmara
Hidrelétrica de Itaipu, a maior da América Latina. Foto: Itaipu Binacional Ambiente

América Latina deve cuidar da água para saciar sua ‘sede’ de energia

[caption id="attachment_120516" align="aligncenter" width="535"] Hidrelétrica de Itaipu, a maior da América Latina. Foto: Itaipu Binacional[/caption]   Você se lembra da última vez em que acabou a luz na sua casa? Algum dia ficou sem água? E o que faria se tais cortes ocorressem ao mesmo tempo e frequentemente? Estão aí reflexões de que nenhuma pessoa, na América Latina ou fora dela, vai conseguir escapar no futuro. Isso, porque o fornecimento de água e a geração de energia estão intimamente ligados, e o crescimento da população global nas próximas décadas aumentará a demanda por esses recursos cada vez mais limitados. A premissa vale sobretudo para o mundo em desenvolvimento, segundo o Conselho Global de Energia (WEC, na sigla em inglês). A América Latina, por exemplo, é uma das regiões em que a produção de eletricidade mais aumentará até 2050: 550%, fazendo o consumo de água crescer 360%. Só perde para a África, cuja produção de energia subirá 700% até a metade do século, puxando em 500% o uso de água. Os aumentos não serão impulsionados somente pelas hidrelétricas, que usam a força dos rios para gerar energia. O resfriamento de termelétricas e usinas nucleares, bem como a extração e o refino de combustíveis, por exemplo, também necessitam de água. E números recentes da Associação Internacional de Energia (IEA) provam essa dependência: até 2035, o consumo mundial de energia crescerá 35%, enquanto o consumo de água pelo setor energético aumentará em 85%. Está claro que, quando falta energia, a produção, o tratamento, o transporte e o consumo final de água falham. [caption id="attachment_120517" align="aligncenter" width="520"] Arte: Banco Mundial[/caption]   Além disso, tanto a energia como a água são usadas na produção agrícola, inclusive em culturas – como a cana de açúcar – destinadas a gerar energia por meio dos biocombustíveis. Nos próximos anos, não é só o crescimento populacional que coloca em risco os ciclos de produção de água, energia e agricultura. As mudanças climáticas também ameaçam elevar a temperatura e o nível do mar, por exemplo, e provocar secas mais intensas e frequentes, o que reduz a disponibilidade da água. Prejuízo para todos Esse último problema é algo que o Brasil conhece bem. Em 2012, o nível de água nas barragens no sudeste e no centro-oeste do país chegou a 28% da capacidade devido à pior seca em 50 anos. O percentual está abaixo do suficiente para garantir o abastecimento de energia elétrica. Quase 10 anos antes, o país enfrentou oito meses de racionamento por causa da estiagem no nordeste, resultando em um prejuízo de R$ 54 bilhões para a indústria e impactando o crescimento econômico em 2001. Outro país altamente dependente das hidrelétricas, a vizinha Venezuela, enfrentou em 2010 os mesmos problemas de interrupções no fornecimento de energia. Mas, assim como não só as hidrelétricas dependem de água, as fornecedoras de outros tipos de energia também vêm sofrendo com a disponibilidade cada vez menor do recurso natural. Em 2007, na Austrália – que então vivia a pior seca em mil anos –, três usinas a carvão tiveram de reduzir a produção para proteger os reservatórios de água municipais. Em síntese, 59% das empresas de energia e 67% das concessionárias de energia elétrica sofreram algum prejuízo relacionado aos recursos hídricos nos últimos cinco anos, informa o Relatório da Água (2013) divulgado pela CDP, consultoria na área de meio ambiente. Se as empresas passam dificuldades com a falta de recursos hídricos e de energia, imagine a população. Hoje, 2,8 bilhões dentre as sete bilhões de pessoas em todo o mundo vivem em áreas em que a oferta de água é reduzida, segundo o Programa Mundial de Avaliação dos Recursos Hídricos (WWAP). Para completar, de acordo com a IEA, 2,5 bilhões têm pouco ou nenhum acesso a eletricidade. Num mundo que não cuide dos seus recursos naturais e afetado pelas mudanças climáticas, os números podem se tornar bem piores – com impactos para a economia e a estabilidade política de muitos países, discute o estudo “Energia Sedenta: Garantindo o Abastecimento em um Mundo com Disponibilidade Limitada de Água“, do Banco Mundial. Planejamento realista Apesar dessas preocupações, o planejamento e a produção no setor energético vinham sendo feitos sem levar em consideração as limitações de água atuais e futuras. Essa é uma das principais conclusões do estudo, o primeiro de uma iniciativa – também chamada Energia Sedenta –, cujo objetivo é incentivar os países a agir de forma diferente. A China, um dos primeiros países a trabalhar com ela, vai incorporar essa limitação a seu próximo planejamento quinquenal de energia (2016-2020). Entre outras soluções propostas a ela e outros países, estão: Usar mais energias renováveis, como a solar e a eólica Reciclar e reutilizar a água usada na operação das usinas de energia Substituir usinas antigas e ineficientes Aumentar a eficiência da produção de biocombustíveis Criar leis e regulações sobre o direito de uso da água em momentos de escassez; Integrar a infraestrutura de energia e de água. E, por último, a iniciativa estimula governos e população a fazer algo simples, mas nem sempre seguido: conservar os recursos hídricos e economizar energia, sempre que possível, não importa o lugar. Trata-se do primeiro passo rumo a um mundo em que os cortes de água e luz sejam cada vez menos uma ameaça. * Publicado originalmente no site ONU Brasil.


por Redação da ONU Brasil
eucalipto Ambiente

Brasil avalia liberar eucalipto transgênico

[caption id="attachment_120511" align="alignright" width="350"] Eugenio Ulian, vice-presidente de Assuntos Regulatórios da FuturaGene. Foto: ©Greenpeace[/caption] Variedade desenvolvida pela FuturaGene / Suzano pode ser a primeira árvore transgênica plantada em todo mundo; estudos apresentados são insuficientes para garantir a segurança. O Greenpeace participou ontem (4) da audiência pública sobre o eucalipto transgênico, realizada pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança). O encontro é parte do processo de liberação comercial da variedade de eucalipto geneticamente modificada da FuturaGene / Suzano Papel e Celulose, desenvolvida com o objetivo de produzir mais celulose em menos tempo. A audiência contou com a participação de representantes das empresas envolvidas, membros da CTNBio, cientistas autônomos, representantes de Ministérios, apicultores e representantes de ONGs e movimentos sociais. Caso o pedido seja aprovado pela CTNBio, o Brasil será o primeiro país do mundo a plantar árvores transgênicas em escala comercial. Se o uso indiscriminado de soja, milho e algodão transgênicos já é preocupante, o pedido de liberação comercial feito pela FuturaGene / Suzano polemiza a questão ainda mais. Árvores vivem por muito mais tempo e fazem parte de cadeias alimentares naturais e de ecossistemas complexos, e portanto representam ameaças ambientais de longo prazo para ecossistemas ricos em biodiversidade - ameaças que podem ser difíceis (se não impossíveis) de prever e avaliar. O escape de pólen ou semente de árvores de eucalipto geneticamente modificadas pode colocar em risco a vida natural. “Não é à toa que nenhum país do mundo tenha autorizado o plantio comercial de árvores transgênicas até hoje”, lembra Gabriela Vuolo, coordenadora da campanha de agricultura e alimentação do Greenpeace Brasil. “É importante que a CTNBio tenha realizado esta audiência pública, porque ficou ainda mais claro que a liberação desta variedade transgênica de eucalipto poderá trazer danos seríssimos para o meio ambiente, para a população e para a economia”, acrescenta ela. Durante a audiência, diversas intervenções pontuaram a insuficiência ou inadequação dos estudos apresentados pela FuturaGene / Suzano. Perguntada, a empresa declarou que não realizou, por exemplo, estudos específicos para comparar o consumo de água da variedade transgênica com a variedade convencional. Representante do Ministério do Meio Ambiente afirmou que não foram apresentados estudos de longa duração, e lembrou que os efeitos da soja e do milho transgênicos no médio e longo prazo não foram positivos. Destacou-se também que a Convenção de Biodiversidade, da qual o Brasil é signatário, recomenda cautela com relação a árvores geneticamente modificadas. O representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário alertou que os estudos realizados para avaliar os efeitos do eucalipto nas abelhas e na produção de mel são insatisfatórios, pois levaram em conta apenas cinco colmeias de uma única localidade. Cerca de 25% do mel produzido no Brasil vem do eucalipto, e a pesquisa apresentada pela FuturaGene / Suzano não avalia os aspectos nutricionais do mel produzido a partir de pólen trangênico, tampouco sua toxicidade ou alergenicidade. A Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (ABEMEL) se mostrou preocupada com a possível liberação: como não há aprovação desta variedade em nenhum outro lugar do mundo, as exportações brasileiras de mel e própolis poderão ser afetadas, numa situação semelhante à ocorrida no México em 2011. “Com base nos estudos apresentados, não dá pra dizer que o mel produzido a partir destes eucaliptos é seguro para consumo”, alerta Gabriela. E questiona: “O que vai acontecer com os 350 mil apicultores brasileiros que dependem da produção de mel para sobreviver? E a produção orgânica de mel, própolis, pólen e geleia real? Liberar o eucalipto transgênico sem estas respostas é uma temeridade, uma irresponsabilidade”. Selo FSC Outra preocupação levantada foi a de que os critérios do FSC (Forest Stewardship Council) não aceitam variedades transgênicas para certificação florestal. A Assembleia Geral do FSC se reúne na Espanha, na próxima semana, e a Campanha Internacional para Parar Árvores Geneticamente Modificadas (CSGET, na sigla em inglês) irá apresentar uma carta, pedindo que o FSC se desvincule da Suzano caso a liberação do eucalipto transgênico seja aprovada no Brasil. * Publicado originalmente no site Greenpeace.


por Redação do Greenpeace
Árvores cortadas à margem do rio Branco por uma geradora de energia. Projetos hidrelétricos ameaçam a biodiversidade e as formas de vida das comunidades do Estado de Veracruz, no sudeste do México. Foto: Cortesia do Comitê de Defesa Livre Ambiente

Catarata de obras energéticas se choca com comunidades

[caption id="attachment_120501" align="aligncenter" width="529"] Árvores cortadas à margem do rio Branco por uma geradora de energia. Projetos hidrelétricos ameaçam a biodiversidade e as formas de vida das comunidades do Estado de Veracruz, no sudeste do México. Foto: Cortesia do Comitê de Defesa Livre[/caption]   Cidade do México, México, 5/9/2014 – Desde janeiro habitantes dos povoados próximos ao rio Los Pescados, no sudeste do México, bloqueiam a construção de uma represa do Projeto de Propósitos Múltiplos para o Fornecimento de Água de Xalapa, capital do Estado de Veracruz. “Violam nossos direitos a uma vida livre de contaminação, de decidir onde e como viver, à informação, à consulta prévia, livre e informada. Que não entrem em nosso território, apenas isso”, disse à IPS a ativista Gabriela Maciel, da organização Povos Unidos da Bacia Antiga por Rios Livres. Essa entidade reúne moradores de 43 comunidades de 12 municípios da bacia do rio e, junto com outra organizações, conseguiu suspender a obra, construída pela empresa brasileira Odebrecht e pela Comissão de Água do Estado de Veracruz. A represa de Jalcomulco, projetada com capacidade para armazenar 130 milhões de metros cúbicos de água em uma extensão de 4,13 quilômetros quadrados e a um custo superior a US$ 400 milhões, é parte da onda de construções projetadas pelos governos federal e estaduais, que se choca com as comunidades locais. Por trás da gigantesca ofensiva de infraestrutura no México que acompanha a reforma energética no país, cujo contexto legal ficou definitivamente fixado em 11 de agosto, abriu ao setor privado, nacional e estrangeiro, a exploração, distribuição e o comércio de hidrocarbonos, bem como a geração e venda de eletricidade. Está formado por nove iniciativas que estabeleceram nove novas leis e reformaram outras 12, que materializaram a histórica reforma promulgada em 20 de dezembro. A abertura energética atrairá para a segunda economia latino-americana altos investimentos, nacionais e estrangeiros, no período 2015-2018, segundo previsões oficiais. No dia 18 de agosto a estatal Comissão Federal de Eletricidade (CFE) anunciou 16 projetos no valor de US$ 4,9 bilhões de investimento, 27% deles públicos e 73% privados. No Programa Nacional de Infraestrutura (PNI) 2014-2018, a CFE planeja 138 projetos no valor de US$ 46 bilhões, entre centrais hidrelétricas, usinas de geração solar, eólica e geotérmica, redes de transmissão e distribuição. “Há uma debilidade dos marcos normativos ambientais e sociais para facilitar o investimento. Se debilitam normas de direitos dos povos ao território. Se aviva o risco de conflitos sociais e ambientais. É um retrocesso”, destacou à IPS a pesquisadora Mariana González, da área de Transparência e Prestação de Contas do Centro de Análises Fundar. No PNI, a estatal Petróleos Mexicanos (Pemex) apresentou 124 projetos superiores a US$ 253 bilhões. Essas obras se referem à construção de gasodutos, melhoria de refinarias, eficiência energética em instalações petroleiras e trabalhos de exploração e extração de petróleo, entre outras. O Estado de Campeche concentra a maioria de desembolsos planejados, com US$ 43 bilhões em exploração e manutenção de quatro poços marinhos. Em seguida vem o Estado de Tabasco, com quase US$ 15 bilhões em campos de petróleo em águas submersas e edificação e remodelação de instalações petroleiras. Em Veracruz, a Pemex pretende investir US$ 11 bilhões em depósitos marinhos em águas pouco profundas e na construção e atualização de instalações petroleiras, enquanto no Estado de Tamaulipas destinará US$ 6,67 bilhões em águas profundas e construção e modernização de infraestrutura. Além disso, em 13 de agosto, o Ministério de Energia (Sener) concedeu à Pemex 120 autorizações que lhe permitem manter as operações de extração de hidrocarbonos e que equivalem a 71% da produção nacional de petróleo, na chamada Ronda Cero (R-0), as áreas que permanecerão sob controle do Estado. Também ajudará a empresa a manter 73% da produção de gás nessa área. A produção diária atual da Pemex é de 2,39 milhões de barris (de 159 litros) de petróleo e 6,504 bilhões de pés cúbicos de gás. A Sener também aprovou desenvolver na Ronda Uno (R-1), por operadores privados, 109 blocos dedicados à exploração e 60 à produção de petróleo e gás. O governo calcula que esses projetos exigirão investimentos de US$ 8,525 bilhões entre 2015 e 2018 em exploração e prospecção de águas profundas e superficiais, campos terrestres e hidrocarbonos não convencionais, como gás de xisto. A Comissão Nacional de Hidrocarbonos prepara os termos das licitações, cujos contratos serão entregues entre maio e setembro de 2015. Manuel Llano, coordenador técnico da não governamental Conservação Humana, sobrepôs os mapas das rondas Cero e Uno com as áreas naturais protegidas, povos indígenas e comunidades. Llano disse à IPS que constatou que o total de áreas terrestres na R-0 soma quase 48 mil quilômetros quadrados, distribuídos em 142 municípios de 11 Estados. A maioria está em Veracruz, seguido por Tabasco. A R-1 engloba 11 mil quilômetros quadrados, com 68 municípios em oito Estados. Nos territórios da R-0 ficam 1.899 núcleos agrários, dos quase 32 mil existentes no país. Além disso, a R-1 flui por 671 territórios comunitários, com 4.416 quilômetros quadrados de propriedade coletiva. A R-0 também afeta 13 povoados indígenas com área de 2.810 quilômetros quadrados. Entre os grupos prejudicados estão os chontales, totonacas e popolucas. A R-1 envolve cinco povos originários, entre eles os huastecos, náhuatl e totonacas, e mais de 3.200 quilômetros quadrados. “É difícil dizer com exatidão os lugares que serão mais afetados. Em uma área muito pequena pode haver um grande dano. Depende de cada caso, com os cálculos, posso supor medianamente o que pode acontecer em um determinado polígono, não em todos”, explicou Llano. Em 2013, esse ativista fez um exercício semelhante com o Atlas de Concessões Mineiras, Conservação e Povos Indígenas, comparando o mapa de licenças de mineração com áreas protegidas e territórios indígenas. A nova lei de hidrocarbonos não deixa opção aos proprietários da terra, que têm de acertar com a Pemex ou operadoras privadas a ocupação da terra, ou aceitar o que a justiça decidir. “O trabalho das instituições não foi correto. Sabemos como trabalha o aparato governamental para conseguir o que quer. Nenhuma aprovação vai prosperar. Nossa luta seguirá. Não estamos sozinhos, há povos com o mesmo problema”, ressaltou a ativista Maciel. Desde março, várias organizações sociais realizam demandas coletivas contra entidades governamentais pela autorização para a represa no rio La Antigua e suas sequelas ecológicas. Los Pescados é um de seus afluentes. Entre 2009 e 2013, o Ministério de Meio Ambiente e Recursos Naturais autorizou 12 centrais hidrelétricas e mini-hidrelétrticas nos rios de Veracruz, cuja construção não começou. Llano pretende comparar os mapas de hidrocarbonos com as licitações e os contratos para determinar o potencial de recursos que o governo assegura existirem e se correspondem com os leilões. “Os hidrocarbonos não podem estar acima do direito a um ambiente saudável. Pode-se definir zonas para as explorações e estabelecer restrições”, destacou. Envolverde/IPS


por Emilio Godoy, da IPS
Campanha chega a Fortaleza este sábado. Foto: Banco Mundial/Curt Carnemark Ambiente

Movimento Limpa Brasil chega este sábado a Fortaleza

[caption id="attachment_120522" align="alignright" width="350"] Campanha chega a Fortaleza este sábado. Foto: Banco Mundial/Curt Carnemark[/caption] Campanha conta com a cooperação da Unesco no Brasil, do Ministério da Educação e apoio do Ministério do Meio Ambiente; iniciativa começou em 2010 e já passou por 19 cidades. A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, está cooperando com o movimento Limpa Brasil-Let's do it!, que este sábado chega a Fortaleza, no Ceará. No Brasil, a iniciativa de mobilização social começou em 2010 e já passou por 19 cidades. O projeto conta com o apoio também dos Ministérios da Educação e do Meio Ambiente e das prefeituras locais. Atitude O objetivo é incentivar uma mudança de atitude do cidadão comum em relação ao hábito de descartar o lixo. Os organizadores do evento disseram que a população da capital cearense vai poder exercer toda a sua cidadania participando de um mutirão para recolher material reciclável em várias regiões da cidade. As pessoas poderão participar entregando o material reciclável nos postos de entrega ou obtendo nesses locais um kit de coleta que contém um saco de 100 litros e luvas. Dessa forma, os voluntários poderão sair por diversos pontos de Fortaleza recolhendo material reciclável. Tudo o que for coletado será doado às cooperativas locais. Pelas cidades por onde passou até agora, o movimento Limpa Brasil-Let's do it! buscou educar a população quanto aos problemas causados pelo lixo e também incentivar o espírito de colaboração. Resultado Segundo os organizadores do projeto, o resultado foi surpreendente com a participação de mais de 155 mil voluntários e o recolhimento de 1,3 mil toneladas de materiais recicláveis. O Let's do it! representa o maior movimento mundial de cidadania e cuidado com o meio ambiente. A meta é conscientizar a população. A campanha surgiu na Estônia, no centro-norte da Europa, em 2008 e desde então alcançou mais de 140 países. No Brasil, o programa quer mostrar à população que não basta somente jogar o lixo na lata de lixo, é preciso reciclar. * Publicado originalmente no site Rádio ONU.


por Edgard Júnior, da Rádio ONU
A pesca ilega passou de 11 milhões para 26 milhões de toneladas anuais em 20 anos. Foto: Reprodução Ambiente

Estudo analisa sustentabilidade de projetos na Amazônia

[caption id="attachment_120438" align="alignright" width="230"] Pesquisa avaliou 13 experiências locais de desenvolvimento sustentável[/caption] Uma equipe de pesquisadores coordenada pela professora Neli Aparecida de Mello-Thery, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, esteve na segunda metade do mês de julho na amazônia, especificamente na região da Serra dos Carajás para atuar na pesquisa “Condicionantes do Desenvolvimento Sustentável na Amazônia” (Duramaz 2). O projeto, financiado pela Agence Nationale de la Recherche (ANR), da França, é a segunda etapa de uma pesquisa que avaliou 13 experiências locais de desenvolvimento sustentável e trata de temáticas que incluem as influências locais das mudanças climáticas, impacto de novos mecanismos de desenvolvimento sustentável e ações de responsabilidade social das empresas. Além da professora Neli, a equipe de pesquisadores é formada por Marie-Françoise Fleury, Hervé Théry e pelos doutorandos Luciana Riça Mourão, Paulo Roberto Cunha e Solen Le’Clech. O trabalho, que agrupa instituições francesas e de outros países europeus, com participação da Universidade de Indiana (EUA) e da USP, tem a interdisciplinaridade como base, reunindo estudiosos das questões amazônicas e sua sustentabilidade. O universo principal da pesquisa é a Área de Proteção Ambiental (APA) Igarapé Gelado, localizada no município de Parauapebas, no Pará, focado nas condições do desenvolvimento com sustentabilidade que vem se mantendo desde meados da década de 1990, embasadas nas ações de uma cooperativa que foi criada pela atuação de camponeses ligados à teologia da libertação. Sustentabilidade Entender os papéis dos diferentes atores públicos e privados, incluindo a Vale do Rio Doce, e compreender como os moradores (atuais agricultores que foram garimpeiros) da APA contribuem para a sustentabilidade estão entre os objetivos do projeto. A pesquisa é continuidade de outra desenvolvida entre os anos de 2007 e 2010, também com a participação da EACH, incluindo projeto de iniciação cientifica. Durante 15 dias, a equipe entrevistou agricultores, técnicos agrícolas e de saúde, presidentes de associações e cooperativas, secretários municipais, feirantes, gestores socioambientais e educadores para compreender as mudanças ocorridas entre 2007 e 2014, sobretudo para entender como contribuíram com experiências de sustentabilidade. Os pesquisadores também levaram o livro publicado na pesquisa anterior, Duramaz 1, para doar aos membros da associação dos produtores da APA. Os próximos passos do estudo envolvem a tabulação e análise dos dados, apresentação dos resultados desta e das outras experiências e discussão em seminários internacionais. A pesquisa deverá terminar em 2015 e um novo livro será publicado. * Publicado originalmente no site Agência USP.


por Redação da Agência USP
Uma das “mega usinas” ficará sobre a superfície do lago Nishihira, e vai gerar 1,7 megawatt, o que fará dela a maior instalação de seu tipo no mundo. Foto: [name here]/Shutterstock Ambiente

Japão anuncia construção da maior usina solar flutuante do mundo

[caption id="attachment_120434" align="aligncenter" width="450"] Uma das “mega usinas” ficará sobre a superfície do lago Nishihira, e vai gerar 1,7 megawatt, o que fará dela a maior instalação de seu tipo no mundo. Foto: [name here]/Shutterstock[/caption]  O acidente na usina de Fukushima ocorrido em março de 2011 ainda traz sérias dores de cabeça ao governo japonês, que procura alternativas a essa fonte energética. Outro problema é a falta de espaço cada vez mais latente no país asiático - formado por 233.000 quilômetros quadrados (tamanho equivalente ao estado de São Paulo), mas cuja população conta com 128 milhões de habitantes. Nesse cenário, a construção de projetos sobre a água surge como opção. Recentemente, as companhias Kyocera e Century Tokyo Leasing se associaram para montar duas enormes ilhas de painéis solares que irão flutuar em dois reservatórios e gerar 2,9 megawatts de energia. Segundo o anúncio, uma das “mega usinas”, ficará sobre a superfície do lago Nishihira, e vai gerar 1,7 megawatt, o que fará dela a maior instalação de seu tipo no mundo. A segunda estará localizada no lago Dongping, com capacidade de 1,2 megawatt. A construção começa ainda em setembro e deverá estar pronta em abril de 2015. As duas empresas pretendem explorar, ao todo, 60 megawatts de 30 usinas flutuantes, cada uma com 2 megawatts de capacidade. Segundo elas, grandes projetos solares em terra prejudicariam a agricultura. De acordo com o Science Alert, o sistema flutuante deverá ser mais eficiente graças ao efeito de resfriamento da água. A joint venture (associação de empresas) já produz 93 megawatts de energia solar em terra. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
Foto: http://portalctb.org.br/ Ambiente

A gestão dos recursos hídricos num período de crise

[caption id="attachment_117282" align="alignright" width="397"] Foto: http://portalctb.org.br/[/caption] “Os gestores públicos têm de avançar para uma visão de que não se pode simplesmente continuar explorando recursos naturais de forma indiscriminada. Obviamente isso tem a ver com a forma que se consomem os recursos do planeta. Estamos num círculo vicioso e o desafio é sair dele, trazendo para a sociedade a reflexão de que, se os recursos são finitos, ela precisa ser chamada a cuidar desses recursos não apenas no momento da crise”, pontua o sociólogo Pedro Jacobi. “Nós sabemos quantos litros de água são gastos para se tomar um cafezinho?”, pergunta Pedro Jacobi na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone. A indagação faz parte de uma série de perguntas a serem respondidas através da pegada hídrica, um indicador que analisa o uso da água na produção, para identificar quando e como ocorre o desperdício. Esse tipo de contabilização, explica o sociólogo, “passa a ser algo importante, mas é um processo lento e (...) ainda está se internalizando na sociedade”. Jacobi menciona que no Brasil as pesquisas sobre pegada hídrica ainda são “insignificantes” em relação ao volume de trabalhos realizados na área, e as empresas apresentam resistência em aderir ao indicador, porque “têm medo de que os números indiquem que elas não estão usando a água racionalmente”. Pedro Jacobi também comenta a atual crise envolvendo a gestão dos recursos hídricos no Brasil e pontua que ela “precisa ser qualificada em termos regionais, porque algumas regiões são mais afetadas e outras menos”. De todo modo, destaca, “aspectos associados aos investimentos, às perdas de distribuição de água e os aspectos associados à contaminação de fontes hídricas, que impedem que a água seja melhor aproveitada”, contribuem para a crise do setor. Diante desse quadro, reitera, “as mudanças climáticas devem ser consideradas de forma mais objetiva, porque esse fenômeno tende a se repetir de modo mais recorrente”. Pedro Roberto Jacobi (foto abaixo) é graduado em Ciências Sociais e Economia pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Graduate School of Design – Harvard University e doutor em Sociologia pela USP, onde leciona atualmente. Jacobi e Sonia Maria Flores Gianesella são os organizadores da obra A sustentabilidade socioambiental: diversidade e cooperação (São Paulo: Annablume, 2012). O pesquisador também é um dos editores da revista eletrônica Ambiente & Sociedade. Confira a entrevista: IHU On-Line - A crise em relação à gestão dos recursos hídricos no Brasil é um problema frequente ou pontual? [caption id="attachment_120419" align="alignleft" width="300"] Foto: bv.fapesp.br[/caption] Pedro Jacobi – Essa crise precisa ser qualificada em termos regionais, porque algumas regiões são mais afetadas e outras menos. Umas enfrentam uma crise por conta do excesso de água, como a que aconteceu na região Amazônica recentemente, e outras, como a cidade de São Paulo, devem considerar a variável das mudanças climáticas. Além disso, é importante destacar aspectos associados aos investimentos, às perdas de distribuição de água e os aspectos associados à contaminação de fontes hídricas, que impedem que a água seja melhor aproveitada. Então, trata-se de uma somatória de fatores e, nesse quadro, as mudanças climáticas devem ser consideradas de forma mais objetiva, porque esse fenômeno tende a se repetir de modo mais recorrente. IHU On-Line – É possível estimar qual é o impacto das mudanças climáticas nos recursos hídricos, comparando com outros períodos de crise? Pedro Jacobi – Estamos considerando este fenômeno das mudanças climáticas porque, de um lado, há o que aconteceu nos últimos dez anos e, de outro, o que virá a acontecer nos próximos anos. O fato é que a lógica climática começa a sofrer variações cada vez mais significativas, mas seria arriscado dizer que a crise do setor hídrico tem as mudanças climáticas como razão primeira. Entretanto, o que não se pode desconsiderar é que olhar para o futuro não significa mais apenas olhar como se deram esses processos no passado. IHU On-Line – E quais são as causas da crise por conta da falta de planejamento? O que o incidente da crise hídrica em São Paulo evidenciou sobre a questão do abastecimento no país? Pedro Jacobi – Neste caso, temos de olhar dois aspectos. O primeiro deles está muito associado à especialidade dos hidrólogos no sentido de saber quanta água precisamos e quanta água está disponível. Mas como até hoje o planejamento esteve associado — não sei se ainda estará — a um histórico que o precedeu, a gestão dos recursos hídricos ficou acomodada. Então, nesse sentido, é preciso observar que a lógica atual, ao menos para a região metropolitana, é insuficiente. Nesse sentido, precisamos nos referir a uma lógica macrometropolitana, que implica a interdependência de toda uma região que transcende os 39 municípios correspondentes à região metropolitana, e que se amplia para 170 municípios que correspondem às outras bacias hidrográficas que sempre estão vinculadas à região metropolitana de São Paulo. A região metropolitana de São Paulo tem 20 milhões de habitantes, ou seja, necessita da água de outras bacias, e ao mesmo tempo despeja água de má qualidade pela falta de saneamento básico, o que prejudica a captação e o aproveitamento de água, afetando várias cidades do interior do estado. De outro lado, sempre abordo um tema que é fundamental: como se dá a relação entre o Estado e o cidadão? O Estado só lembra de colocar o cidadão como corresponsável pela gestão dos recursos hídricos na hora da crise. No meu entender, o Estado e o cidadão precisam estar permanentemente como corresponsáveis, ou seja, os recursos não podem mais ser tratados a partir de uma lógica de tutela. Tem de ser tratados a partir de uma lógica de corresponsabilização, coenvolvimento do cidadão. Cada um de nós é responsável pelo volume de água que consumimos e deterioramos. Nesse sentido, dentro de uma lógica de planejamento, tem de se incluir a variável de comunicação social e o diálogo com a sociedade, para que esta tome conhecimento de uma situação que pode ser melhor contornada, porque, quando o problema é apenas a falta de chuva, escapa ao controle do Estado. IHU On-Line - Quais são os projetos e regras que orientam a gestão dos recursos hídricos no país? Pedro Jacobi – A legislação parte do princípio de uma ação do Estado com a participação da sociedade a partir dos Comitês. A questão é saber se os comitês são eficientes e, ao mesmo tempo, saber quais decisões dos comitês ficam em segundo plano, porque os conselhos estaduais passam por cima das próprias decisões dos comitês. Então, temos um problema importante a ser tratado. Lutamos muito para ter uma participação maior, entretanto, notamos que há uma perda da capacidade dos comitês de tomarem decisões, visto que eles são encobertos e sobrepostos por decisões tomadas de forma mais centralizada. Essa é uma questão complexa porque, por outro lado, sempre prevalece o saber técnico sobre o saber social. O técnico sempre tem o conhecimento para tomar a decisão, o técnico orienta o gestor a tomar a decisão e, nesse sentido, o posicionamento da sociedade fica em segundo plano. Mas, sem dúvida, a questão que se coloca agora é que é preciso reduzir a perda da água através dos problemas que existem, de conexões, do envelhecimento dos equipamentos nas grandes cidades e, de outro lado, é preciso reduzir a contaminação de fontes de água que poderiam ser melhor aproveitadas. Nesse sentido, devem ser considerados esses dois aspectos dentro do planejamento. Hoje, o fato de não haver tratamento de forma adequada acaba sendo um problema que tem de ser reduzido significativamente para que as fontes de água estejam mais disponíveis, considerando a sua escassez. Os gestores públicos têm de avançar para uma visão de que não se pode simplesmente continuar explorando recursos naturais de forma indiscriminada. Obviamente isso tem a ver com a forma que se consomem os recursos do planeta. Estamos num círculo vicioso e o desafio é sair dele, trazendo para a sociedade a reflexão de que, se os recursos são finitos, ela precisa ser chamada a cuidar desses recursos não apenas no momento da crise. Assim, o Estado, que é o gestor, precisa avançar no sentido preventivo, ou seja, tem de se encontrar maneiras de garantir a preservação e o armazenamento das águas para que seja possível distribuí-la no momento em que não houver chuva. Todo esse processo tem de ser de absoluta transparência das informações e do conhecimento. Fiz uma pesquisa com um colega sobre a transparência nas informações acerca dos recursos hídricos no Brasil, utilizando os sites das diferentes instâncias responsáveis pelos recursos hídricos no país, e o resultado foi muito precário. Com isso, quero chamar atenção de que o poder público provavelmente nem disponha dos dados necessários para fazer uma avaliação. Então, corresponsabilidade, transparência e redução do desperdício e da contaminação são fatores fundamentais para garantir a gestão dos recursos hídricos, como a cobrança de quem gasta mais água e um planejamento e investimento que não precisam ser megalomaníacos, mas que envolvam a sociedade no processo de decisões. IHU On-Line - Quais são as inovações na governança da água e seus desdobramentos em diferentes escalas e processos? Pedro Jacobi – Toda a questão do reuso é fundamental. Na área industrial o reuso de água avança bastante, porque é de interesse da indústria economizar. Outra questão necessária é a cobrança da água; é preciso implantar a cobrança da água para que os grandes consumidores sejam cada vez mais responsáveis pela forma que a utilizam. A água tem de ser olhada como um componente finito, pelo qual a sociedade é responsável tanto pela quantidade quanto pela qualidade. O reuso em projetos urbanos também é importante, ou seja, os prédios novos a serem construídos precisam ter modos de reutilizar a água. Então, esses são aspectos que devem ser considerados quando falamos em inovação. Nessa mesma perspectiva, deve-se incluir a pegada hídrica, para ter maior racionalização do volume de água na produção, como, por exemplo, na agricultura, que é um dos grandes agentes de consumo exagerado de água no Brasil e no mundo todo. IHU On-Line - Qual tem sido a aplicabilidade da Pegada Hídrica no setor público e privado? O senhor pode dar alguns exemplos nacionais? Pedro Jacobi – Ainda é muito restrito. Algumas empresas utilizam a pegada hídrica, mas não tornam os dados públicos. Nós fizemos pesquisas e percebemos que os dados não estão sendo divulgados porque as empresas têm medo de que os números indiquem que elas não estão usando a água racionalmente. Em outros países, por outro lado, há mais pesquisas. A rede da pegada hídrica internacional, sediada na Holanda, tem olhado essa questão com muita ênfase, desenvolvendo pesquisas, porque o objetivo da pegada hídrica é justamente mostrar o volume de água que se utiliza e o volume que se desperdiça. Nós sabemos quantos litros de água são gastos para se tomar um cafezinho? Esse tipo de contabilização passa a ser algo importante, mas é um processo lento, como a pegada de carbono. Esses processos ainda estão se internalizando na sociedade e podem levar décadas para serem internalizados. No Brasil ainda é insignificante o volume de trabalhos e pesquisas sobre esse tema. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação do IHU On-Line

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