Semiárido: o desafio de atender às unidades familiares - Entrevista especial com Valber Matos

Economia

Semiárido: o desafio de atender às unidades familiares – Entrevista especial com Valber Matos


por Redação do IHU On-Line


[caption id="attachment_80801" align="alignleft" width="300" caption="Foto: portal Uol"][/caption] “Apesar de não haver racionamento nas cidades, as unidades centrais de abastecimento d’água da região estão secas e sem possibilidade de sustentabilidade para o abastecimento futuro das populações do semiárido”, informa o integrante da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA. “A guerra pela água no sertão quase não existe mais, pois programas estruturantes resolveram consideravelmente essa questão, disseminando unidade de captação d’água”, diz Valber Matos à IHU On-Line em entrevista concedida por e-mail. Apesar de apontar medidas que descentralizaram o acesso à água na Paraíba, com o uso de cisternas, o integrante da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA reitera que “é necessário entender que boa parte dessas unidades secaram e estão sujeitas a reabastecimento pelos caminhões-pipa e, em especial, pelo programa do governo federal chamado ‘Pipas’, que está sendo administrado pelo exército brasileiro”. Segundo ele, as políticas públicas “amenizaram a fome e a sede do povo”, mas ainda é necessário investir em “cisternas de placas, cisternas-calçadão, bombas populares, barragem subterrâneas, barragem de pedra sucessivas, tanques de pedra, barreiros, barramento trincheiras (implementações de pequeno porte que atendam às unidades familiares)”. Na entrevista a seguir, Valber Matos também comenta a transposição do Rio São Francisco e é enfático: “Esse tipo de empreendimento atende apenas às demandas dos latifundiários (a margem dos rios) e às multinacionais que se instalam de forma a massacrar os pequenos que vivem à margem. Por sua vez, não atende à demanda hídrica difusa em nossos municípios, instalando a verdadeira indústria da seca, com direito aos desvios e descasos com os recursos públicos, como está sendo visto nos noticiários”. Valber Matos é membro da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA. Confira a entrevista: IHU On-Line – Quais são os maiores problemas em relação à seca na Paraíba? Valber Matos – Hoje, o maior problema é a falta de acesso à água potável em várias comunidades rurais e na zona urbana. Apesar de não haver racionamento nas cidades, as unidades centrais de abastecimento d’água da região estão secas e sem possibilidade de sustentabilidade para o abastecimento futuro das populações do semiárido. Há perda considerável das criações de animais, que chega a 75%, e perda das sementes da paixão, semeadas na tentativa de multiplicação e subsídio alimentar. [caption id="attachment_80802" align="alignright" width="300" caption="Foto: Portal Arte Blog"][/caption] IHU On-Line – Ainda fala-se muito em “guerra pela água no Sertão”. Esse continua sendo um problema atual? Valber Matos – A guerra pela água no sertão quase não existe mais, pois programas estruturantes resolveram consideravelmente essa questão disseminando unidades de captação d’água, a exemplo das cisternas de placas, das barragens sucessivas, entre outras implementações nas unidades familiares rurais. Essas medidas descentralizaram o acesso à água, diferenciando a prática de outrora, que priorizava a concentração de água em propriedades particulares dos oligárquicos e dos latifundiários. Porém, é necessário entender que boa parte dessas unidades secaram e estão sujeitas a reabastecimento pelos caminhões-pipa e, em especial, pelo programa do governo federal chamado “Pipas”, que está sendo administrado pelo exército. IHU On-Line – Em que consistem as obras do Perímetro Irrigado das Várzeas de Sousa – Pivas? Os agricultores reclamam de falta de água por conta dessa obra. Qual a atual situação? Valber Matos – O Pivas é uma unidade irrigada de 6.000 ha de terras agricultáveis administrada pelo governo estadual, distribuída da seguinte forma: 3 empresas; 146 famílias agricultoras (reordenação fundiária); 100 famílias assentadas (Incra); e parte da área é reserva legal (40%). As empresas praticam o agronegócio e das 146 famílias arrendadas pela reordenação fundiária, apenas quatro praticam agroecologia. A área da Reserva Legal foi invadida pelos coronéis da região (coronelismo existente ainda em nosso sertão), que a utilizam indevidamente com os animais de suas propriedades. IHU On-Line – Há denúncias de irrigação irregular em Sousa, na Paraíba. Fala-se de 122 irregularidades. Pode nos explicar do que se trata especificamente essas irregularidades? Valber Matos – As empresas adotam sistemas de irrigação autopropulsores que têm uma grande necessidade de carga potencial que succiona o sistema, deixando boa parte dele comprometido, haja vista que foi projetado para atender à demanda de desvio de utilidade da água, manejo inadequado, disperdícios d’água, entre outros problemas. Não podendo esquecer que o projeto original do Pivas foi atender à Fruticultura Orgânica ou Agroecológica. IHU On-Line – Quais as implicações da transposição do rio São Francisco para a situação de seca do semiárido? Como a transposição atinge, especificamente, o estado da Paraíba? Valber Matos – A transposição do rio São Francisco busca, segundo propaganda do Estado, manter abastecidas as principais bacias hidrográficas do semiárido, em especial as áreas que compõem o Polígono das Secas, com perspectiva de atender à demanda de perímetros irrigados. Em nossa concepção, esse tipo de empreendimento atende apenas às demandas dos latifundiários (a margem dos rios) e às multinacionais que se instalam de forma a massacrar os pequenos que vivem à margem. Por sua vez, não atende à demanda hídrica difusa em nossos municípios, instalando a verdadeira indústria da seca, com direito aos desvios e descasos com os recursos públicos, como está sendo visto nos noticiários. IHU On-Line – Quais são as questões fundamentais que não estão sendo discutidas no que se refere ao combate da seca e à vida na região do semiárido brasileiro? Valber Matos – A mudança de vida dos agricultores e agricultoras das regiões secas no tocante aos projetos de estruturação e programas de governo, que amenizaram a fome e a sede desses povo. IHU On-Line – Que tecnologias de fornecimento hídrico para o consumo humano e produção agropecuária poderia ser pensada para a região? Valber Matos – É preciso investir em cisternas de placas, cisternas-calçadão, bombas populares, barragem subterrâneas, barragem de pedra sucessiva, tanques de pedra, barreiros, barramento trincheiras (implementações de pequeno porte que atendam às unidades familiares). IHU On-Line – Qual tem sido a postura do governo federal em relação à situação do semiárido brasileiro? Quais são as políticas públicas para o semiárido e suas implicações? Valber Matos – Muito se avançou nas conquistas de luta, porém sempre travando as ações já conquistadas, a exemplo da criminalização das ONGs, que tanto têm colaborado com as ações sustentáveis em parceria com as políticas públicas. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.

InovaBrasil2 Economia

O ponto crítico do Inova Brasil

Lançado esta semana, o Plano Inova Brasil tentará focar em uma vulnerabilidade central do sistema de inovação brasileiro: a falta de instrumentos para investimentos em empresas inovadoras. Tem a importância de mapear as diversas operações em andamento nas diversas instituições públicas, juntar os diversos agentes de inovação, nas áreas pública e privada. Mas tem uma perna fraca: os instrumentos de investimento e financiamento. O novo desenho não assegura que a visão inovadora do sistema de tecnologia e inovação conseguirá se impor sobre hábitos e costumes consolidados, das instituições públicas financeiras. É fato que criou-se uma porta de entrada única, através da qual as empresas serão trabalhadas com os diversos instrumentos de estímulo do setor. Mas não ão há nenhuma garantia de que as instituições financeiras – especialmente o BNDES – mudarão sua forma de operar. Sem a criação de novos instrumentos institucionais, será mais difícil que cada instituiçāo entre no jogo e saia de sua zona de conforto. *** Tome-se o caso do BNDES. Historicamente, foi criado para financiar o novo, as novas atividades que surgiam no país. Mas sua atuação se enrijeceu. Não consegue atuar fora das formas tradicionais de concessão de crédito. Nos últimos anos não faltaram recursos para setores de baixíssima agregação tecnológica, como os frigoríficos e empresas alimentícias. E muito pouco se bancou para empresas inovadoras. *** A incerteza ou risco é a característica maior da inovação. E exige formas de análise que fogem completamente à tradição do banco. Na empresa inovadora, não se vai buscar o ganho certo no financiamento ou na participação acionária: ou se conseguirá um ganho extraordinário ou uma perda. A inovação se dá sempre em produtos não testados, em soluções nunca prospectadas. E a cultura do banco não foi adaptada para esse modelo. *** Dois exemplos ilustram essa posição do banco. A Opto Eletrônica é um dos orgulhos do país, em termos de empresa de alta tecnologia. Fundada por um físico, doutor pelo MIT, tornou-se uma empresa brasileira com produtos de relevância mundial. Fabrica lentes do satélite brasileiro e uma extensa gama de produtos de alta tecnologia. Em 2008, tentou adquirir uma empresa nos Estados Unidos, muito maior do que ela mas que, devido à crise, estava com o mesmo valor. A compra da empresa permitiria a ela desovar no mercado americano uma linha avançada de produtos, já desenvolvidos no Brasil, mas sem canais de comercialização. Foram cinco anos em vão atrás de apoio do BNDES. Todos os argumentos foram invocados para não conceder o financiamento, nem entrar no seu capital. Por fim, recomendaram à empresa buscar um fundo de investimento. Atualmente a empresa padece com falta de capital de giro, sem recursos até para adquirir máquinas para atender às demandas de seus clientes e manter salários em dia. *** A BRF Foods precisava se desfazer de parte de seus ativos, para completar a fusão com a Perdigão. O BNDES adquiriu, então, R$ 2,5 bilhões em debêntures da Marfrig, para que ela adquirisse as empresas. Ou seja, não agregou um centavo à capacidade produtiva do país e menos ainda à inovação Quando a empresa balançou, o banco converteu as debêntures em ações, registrando um prejuízo de R$ 1,2 bilhão. *** Aliás, a debênture conversível foi a maneira que o banco encontrou para continuar praticando o velho com cara nova. A burocratização do risco Se perguntar ao BNDES se quer dar dinheiro para inovação, ele dirá que sim. Aí terceirizará, aplicando recursos em algum fundo de inovação. Ou recorrerá à emissão de debêntures conversíveis, instrumento que nasceu para o banco lidar com risco sem se arriscar, e dentro do formato da grande empresa. O mesmo problema ocorre na Finep. Ela pode bancar dez projetos inovadores. Se um der errado, terá que prestar contas ao CGU. Mudando a lógica Para que o plano dê certo, o Plano pretende juntar todos os instrumentos de apoio às empresas inovadoras. Hoje em dia elas conseguem recursos carimbados do CNPq e das Fundações de Amparo à Pesquisa para pontos específicos: contratação de pesquisadores a fundo perdido, por exemplo. Se quiser romper com o modelo atual, os editais terão que deixar claro que as empresas apoiadas terão que trazer grandes ideias e as apostas estão sujeitas a grandes ganhos ou a perdas totais. Zona do conforto A aposta tem que ser firme, amparando com bolsas, investimento de risco, depois, apoio ao capital de giro, quando for necessário. Se o critério de apoio não for o do alto potencial de risco, não se sairá do lugar e o BNDES e Finep continuarão usando instrumentos tradicionais travestidos de alguma sigla nova. Tem que se ter um conceito claro que tire as instituições da zona de conforto. Prominp – 1 A parte mais sólida do movimento de inovação está se dando no pré-sal, no âmbito do Prominp (Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural), capitaneado pela Petrobras, e incluído no Plano Inova Brasil. Há o mesmo modelo de atuação, com a criação de câmaras e conselhos compostos por órgãos do governo e do setor privado, fornecedores da Petrobras. O Prominp – 2 O grande diferencial do Prominp é a possibilidade da Petrobras garantir a demanda. A cada ano, a Organização Nacional da Indústria do Petróleo – que reúne as principais associações do setor, Petrobras e Ministérios – define os desafios tecnológicos do ano. Identificam-se as empresas candidatas. Engenheiros da empresa, da Petrobras e de institutos de pesquisa desenvolvem o piloto. Aprovado, é incorporado nas plataformas e refinarias. O Prominp – 3 Quando não existe tecnologia nacional, fazem-se rodadas de negócios em outros países, atraindo fornecedores com interesse em montar parceria no Brasil. A cenoura são os enormes projetos demandados pelo pré-sal. O BNDES não tem dificuldade em financiar a cadeia produtiva, porque a garantia são os contratos da Petrobras. Para outras áreas, terão que ser buscados novos instrumentos. * Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luis Nassif*
Obama chega ao Capitólio para encontro com republicanos na quarta-feira 13. Foto: Alex Wong/ Getty Imagens North America / AFP Economia

Uma armadilha para Obama

[caption id="attachment_80780" align="alignleft" width="300" caption="Obama chega ao Capitólio para encontro com republicanos na quarta-feira 13. Foto: Alex Wong/ Getty Imagens North America / AFP"][/caption] É como se Barack Obama fosse Bill Murray, o protagonista de Feitiço do Tempo. A comparação, feita por Rachel Maddow, em na rede MSNBC, é a tradução exata para a semana em que o presidente foi visto mais no Congresso do que na Casa Branca, em uma tentativa aparentemente fracassada de cerzir uma “grande barganha” em torno do pacote de medidas a ser tomado para enxugar as contas dos EUA. Desde o primeiro dia de março o governo iniciou os cortes de 1 trilhão de dólares aprovados no ano passado – o chamado ‘sequestro’ – depois de os republicanos, maioria na Casa dos Representantes, se recusarem a aumentar o limite de endividamento do país. A Casa Branca estima que, até o fim do ano fiscal, haverá um corte de 9% dos programas federais não-militares. O salário-desemprego e o valor pago a médicos dos programas de saúde pública serão reduzidos. Somente em março, os cortes chegarão a 85 bilhões de dólares. O presidente do Comitê do Orçamento da Casa dos Repiresentantes, deputado Paul Ryan, candidato a vice-presidente na chapa de Mitt Romney, apresentou esta semana o projeto da direita, que inclui uma vez mais o corte de 1,2 trilhões de dólares em investimentos públicos, incluindo, na prática, a eliminação do programa de saúde Medicare, voltado para idosos, e um abono de pelo menos 200 milhões de dólares em impostos para os mais ricos. É como se a eleição de novembro simplesmente não tivesse acontecido e o cenário político americano se repetisse, tal qual o enredo do filme dos anos 90, indefinidamente. O x do problema está no fato de os republicanos só concordarem em aumentar o teto de empréstimo para Washington se o governo apresentar um pacote de redução drástica de custos que não inclua aumento de impostos. Os democratas, por sua vez, buscam assegurar os benefícios sociais estabelecidos nas eras Roosevelt e Johnson, ampliados por Obama, e querem aumentar os impostos pagos pelos mais ricos afim de financiar a reforma fiscal. Em entrevista na terça-feira ao canal ABC, o presidente refletiu sobre os encontros com os principais líderes da oposição: “Parece que se eu for a favor de determinada medida, fica muito complicado para um republicano concordar comigo. É como se eles sempre precisassem manter alguma distância de mim”. Na semana passada, o presidente levou 12 senadores republicanos para jantar no Hotel Jefferson, nas proximidades da Casa Branca, e esta semana reuniu-se com um número substancial de congressistas, em visitas diárias ao Capitólio. “Se a posição dos republicanos for a de que eles não podem concordar com nenhum aumento de impostos ou se o condicionarem ao esvaziamento do Medicare, da Previdência Social e da Medicaid (programa de saúde público voltado para os mais pobres), então provavelmente não chegaremos a acordo algum”, disse o presidente à ABC. Na conversa com os deputados, Obama chegou a acenar com ajustes na maneira como o governo calcula a inflação – o que reduziria os benefícios da Previdência Social – e uma revisão nos custos e tratamentos oferecidos pelo Medicaid, contrapontos para o aumento de impostos no bolso dos mais ricos. Republicanos como Dave Camp, do Michigan, presidente da comissão responsável pelos impostos e benefícios sociais na Casa dos Representantes, tentou antecipar-se à barganha, pedindo que Obama enviasse imediatamente um projeto de lei ao Congresso explicitando as modificações propostas. Obama não caiu na armadilha sem a garantia de votos republicanos para o aumento de impostos. Teoricamente, o Congresso pode agir a qualquer momento para impedir situações caóticas já previstas pela secretaria de Defesa, como o cruzar de braços de funcionários terceirizados responsáveis pelo controle aéreo, que receberão seus últimos cheques em abril. A tática democrata, até esta semana, era a de galvanizar a opinião pública para forçar os republicanos a sentar na mesa de negociações. “O problema é a matemática eleitoral, demonstrada claramente nos dois últimos quatro pleitos nacionais. Enquanto os democratas conseguem vencer a disputa presidencial com alguma facilidade, por conta da força de sua coalizão nos estados mais populosos, os republicanos mantém a maioria dos distritos legislativos, mantendo a maioria na Casa dos Representantes com o voto dos rincões mais conservadores. E estes deputados não querem votar contra a base, cada vez mais anti-Obama”, explica o colunista político Steve Kornacki, da “Salon”. Recebido com festa pelos republicanos, o plano alternativo para o equilíbrio das finanças dos EUA, apresentado por Paul Ryan, foi duramente atacado por institutos independentes. O Instituto de Política Econômica estima que os cortes propostos pelo republicano custarão 2 milhões de empregos aos americanos. O Cidadãos por Justiça no Pagamento dos Impstos estima em 200 milhões de dólares a anistia fiscal a milionários. Outro programa na lista de corte republicano é o que oferece vale-refeições aos mais pobres, hoje na casa dos 47 milhões de americanos. “O projeto apresentado por Ryan segue a mesma linha de raciocínio de que o problema da economia americana é o déficit público. Não é. Nosso problema é o desemprego, salários e crescimento baixos e aumento da desigualdade social”, escreveu esta semana o ex-secretário do Trabalho do governo Clinton e uma das estrelas da Universidade de Berkeley. Não por acaso, Obama abriu as conversas esta semana com os republicanos rezando pela mesma cartilha das eleições de novembro, afirmando ser um equívoco acreditar no déficit público como o principal problema econômico dos EUA na próxima década. Uma semana antes da Páscoa, o Congresso deverá votar o projeto de orçamento elaborado no Senado, de maioria democrata. Uma prévia da dor de cabeça que aguarda o presidente foi dada na quinta-feira 14, durante a aprovação do projeto elaborado pelos democratas, que inclui 1 trilhão de dólares em aumento de impostos. Senadores republicanos utilizaram o tempo destinado a discutir tecnicalidades para atacar o que consideram ser um ‘plano de aumento do tamanho do governo’. “A premissa de que este plano vai reduzir o déficit em 1,85 trilhões de dólares em dez anos é simplesmente falsa. Falsa. Falsa. Estou farto desta discussão!”, afirmou o senador Ron Johnson, deixando o debate enquanto seus colegas republicanos reclamavam as digitais da Casa Branca em um plano “fadado ao fracasso”. “Ainda vamos discutir bastante este tema, e por um longo tempo”, rebateu a presidente do Comitê do Orçamento do Senado, a democrata Pat Murray, aparentemente resignada com a síndrome do Feitiço do Tempo. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Eduardo Graça, da Carta Capital
inflacao Economia

Orquestra-se subida dos juros a partir de fictícias pressões inflacionárias

A última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central manteve a taxa básica de juros em 7,25% ao ano, mas a orquestração do setor financeiro pela sua elevação continuou, em nome de presumidas pressões inflacionárias que a economia enfrentaria por todo o ano de 2013. Essas pressões para elevar juros se apresentam com base em dois argumentos distintos: 1) de que há tensões inflacionárias reais em perspectiva; 2) de que essas tensões devem ser combatidas pela elevação dos juros internos. A primeira proposição tem certa dose de realidade, mas não se deduza daí que esta corrobora a segunda, como se verá pela argumentação subsequente. Os preços das “commodities”, componentes de um filão importante dos alimentos da “cesta básica” – milho, soja, carnes (bovina, suína e de aves), açúcar e trigo –, experimentam pressões conjunturais externas. Como estes produtos são mercadorias importantes na pauta brasileira de exportáveis (milho, soja, carnes e açúcar) e de importação (trigo), pode-se prever um certo choque de preços por esta via, suscetível de impactar os Índices de Preços ao Consumidor em no máximo um ou dois pontos percentuais no ano, acima do patamar da inflação acumulada em 12 meses – ao redor dos 6,2%. Mas essa pressão externa conjuntural, se ocorrer na magnitude indicada, não poderia ser revertida pela elevação da taxa de juros determinada pelo Banco Central (a SELIC), cuja eficácia no corte da demanda interna de bens de alimentação é limitada; e praticamente não é eficaz para conter a demanda externa – das exportações de “commodities”. Outras políticas podem ser acionadas, que não a elevação dos juros. O governo anunciou mais um pacote de desonerações, de alimentos da cesta básica, remédio de caráter estrutural, que aparentemente também estaria sendo aviado para conter as pressões das “commodities”. Por sua vez, há na área dos estoques públicos de alimentos alguns arranjos em cogitação, tendo em vista recompor certas funções de coordenação de intercâmbio dos preços internos, que a política agrícola perdeu desde meados dos anos 90, com a desmontagem do sistema dos Preços de Intervenção no mercado atacadista. O fim da inflação elevada depois do Plano Real deixou a política antiinflacionária estritamente sob controle do Banco Central, mas não dos fatores estruturais que ainda provocam inflação. Em síntese, tensões inflacionárias potenciais sobre os preços da cesta básica existem de fato. A nossa inserção externa, com forte “primarização” do comércio exterior, força-nos a importar as pressões externas dos preços das “commodities” sobre componentes relevantes da cesta básica oriundos da agricultura. Isto se dá independentemente da escassez interna desses produtos. Nem sempre essas tensões são altistas. Quando for o caso, certamente não será com política de juros altos que tais pressões serão neutralizadas. Por outro lado, mantido o ritmo de crescimento da demanda interna em razão da evolução de massa salarial e dos rendimentos vinculados à política social, que é o que se espera com crescimento na faixa dos 4% a 5% ao ano, haverá certamente pressões para uma oferta diversificada e policultural de produtos agropecuários, cuja melhor política seria de fomento econômico aos setores mais vocacionados para tal resposta – a produção familiar e da pequena propriedade. A orquestração pela subida dos juros e as pautas de política agrícola totalmente voltadas à economia do agronegócio não resolvem as pressões inflacionárias oriundas do setor primário, até porque são parte de um problema maior e não de sua solução. * Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Guilherme C. Delgado*
solar Economia

Mercado solar norte-americano cresce 76% em 2012

Dados da Associação das Indústrias de Energia Solar dos Estados Unidos apontam que foram instalados 3,3GW no ano passado; Obama prepara fundo de US$ 2 bilhões para renováveis Os Estados Unidos parecem dispostos a consolidar sua posição de grande potência das fontes alternativas de energia depois de um período tendo sua liderança ameaçada pela China e pelos países europeus. Nos últimos dias duas notícias parecem confirmar essa tendência: o maior crescimento da história do mercado solar norte-americano e a possível criação de um fundo de US$ 2 bilhões para novas tecnologias em energia. A Associação das Indústrias de Energia Solar dos Estados Unidos (SEIA) divulgou seus mais recentes números e afirmou que o mercado cresceu 76% em 2012, passando de US$ 8,6 bilhões em 2011 para US$ 11,5 bilhões em 2012. “O ano de 2012 foi muito movimentado no mercado solar dos EUA. Chegamos a US$ 11,5 bilhões depois de termos registrado apenas US$ 3,9 bilhões em 2009. Tivemos boas notícias também para a garantia do espaço da manufatura local, com novas medidas de importação sendo tomadas contra a China. Em 2013 esperamos mais um forte ano, incentivado por novos mecanismos para financiamento e pela queda nos custos”, afirmou Shayle Kann, vice-presidente da GTM Research, consultoria que realizou o levantamento dos números para a SEIA. No ano passado foram instalados mais 3,3GW em capacidade fotovoltaica, elevando o total para 7,2GW. Na tecnologia de concentração solar foram mais 546MW. Toda essa energia é suficiente para atender 1,2 milhão de residências. A Califórnia foi o primeiro estado norte-americano a ultrapassar a marca de 1GW instalado em um único ano. O Arizona aparece como o segundo maior mercado. O segmento residencial teve no último trimestre de 2012 seu melhor resultado na história, com mais de 144MW instalados. Os preços médios para painéis fotovoltaicos residenciais registraram uma queda de quase 20%, passando de US$ 6,16 por watt em 2011 para US$ 5,04 em 2012. “Foram 16 milhões de painéis solares instalados nos EUA em 2012, mais de dois painéis por dia de trabalho, e todos eles um resultado da mão de obra norte-americana. Instalamos mais energia solar para a rede do que o combinado dos últimos três anos. Esse crescimento sustentável está permitindo a criação de milhares de postos de trabalho e fornecendo energia limpa e barata para famílias, empresas, geradoras e forças armadas”, declarou Rhone Resch, presidente da SEIA. Fundo A Casa Branca divulgou que está buscando estabelecer um fundo de US$ 2 bilhões para promover energias limpas. Os recursos seriam arrecadados através de taxas sobre as licenças de operação do setor de petróleo e gás. A ideia de utilizar o dinheiro dos combustíveis fósseis para financiar o crescimento das fontes alternativas já havia sido manifestada pelo presidente Barack Obama durante o discurso do Estado da União, feito no início desse ano. Grande parte desses recursos serão destinados para a pesquisa e desenvolvimento de uma nova geração de carros híbridos. “A única maneira de quebrar o ciclo de altos preços da gasolina, a única real maneira, é a transformação de nossos carros. Não é apenas uma questão de poupar dinheiro, é também uma medida para salvar o meio ambiente. Além disso, é um assunto de segurança nacional. Essa não é uma ideia democrata ou republicana, é apenas uma boa ideia”, afirmou Obama. Segundo o Departamento de Energia dos EUA, promover carros híbridos pode cortar as emissões do setor de transportes em 80% até 2050. O que significaria uma redução nas emissões totais dos Estados Unidos de até 26%. O fundo também promete aumentar em US$ 200 milhões ao ano o orçamento do escritório norte-americano de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias limpas. * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fabiano Ávila, do CarbonoBrasil
e4 Economia

Califórnia publica primeira lista de projetos de compensação de carbono

O órgão que administra o esquema de limite e comércio de emissões (‘cap and trade’) da Califórnia, o Air Resources Board (ARB), publicou na sexta-feira uma lista com 25 projetos cujos créditos de carbono – já emitidos – podem potencialmente ser convertidos em unidades aceitas para fins de compensação de emissões das empresas cobertas pelo sistema. Entre os projetos estão atividades de manejo florestal e de dejetos suínos para evitar emissões de metano e práticas de controle de substâncias que prejudicam a camada de ozônio. “Reconhecer estes projetos existentes dá suporte aos requisitos do AB 32 [lei climática do estado] visando garantir que reduções voluntárias antecipadas recebam créditos adequados e ajuda a criar uma oferta inicial de créditos”, colocou o ARB. Este é o primeiro passo do processo de transição dos créditos de compensação do mercado voluntário de carbono para o programa de ‘cap and trade’. Os projetos listados agora terão que passar pela análise de auditores independentes para garantir que os créditos foram corretamente calculados e verificados. “Determinamos que cada crédito de compensação californiano permitido no programa deve representar realmente uma tonelada de gás do efeito estufa reduzido”, enfatizou a presidente do ARB Mary D. Nichols. Se todos os projetos listados forem aprovados, potencialmente podem ser gerados até três milhões de créditos de carbono a serem disponibilizados para o cumprimento do esquema de ‘cap and trade’, estima o ARB. Os padrões voluntários aceitos até o momento sob o sistema californiano são o American Carbon Registry e o Climate Action Reserve. * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fernanda B. Müller, do CarbonoBrasil
Na internet, tudo pode ser alugado. Foto: Reprodução/Economist Economia

A ascensão da economia de compartilhamento

  [caption id="attachment_80082" align="alignleft" width="300" caption="Na internet, tudo pode ser alugado. Foto: Reprodução/Economist"][/caption] Na internet, pessoas alugam camas, carros, barcos e outros ativos diretamente de seus proprietários. Na noite passada, 40.000 pessoas alugaram quartos através de um serviço que oferece 250.000 quartos em 30.000 cidades de 192 países. Elas escolherem seus quartos e efetuaram o pagamento on-line. Mas suas camas foram fornecidas por pessoas físicas ao invés de uma cadeia de hotéis. Anfitriões e hóspedes foram conectados pelo Airbnb, uma empresa baseada em São Francisco. Desde seu lançamento em 2008, mais de 4 milhões de pessoas usaram o serviço – 2,5 milhões delas apenas em 2012. Trata-se do exemplo de maior destaque de uma vasta nova “economia de compartilhamento”, na qual pessoas alugam camas, carros, barcos e outros ativos diretamente de seus proprietários, sendo que tudo é combinado pela internet. Pode parecer que isso não difere em nada do desafio de administrar um albergue, participar de um esquema de timeshare ou de carona. Mas a tecnologia reduziu os custos de transação, o que fez com que o compartilhamento de ativos se tornasse mais barato e fácil do que nunca – e portanto possível em uma escala muito maior. A grande mudança é a disponibilidade de mais dados a respeito das pessoas e coisas, o que permite que os ativos físicos sejam desmembrados e consumidos como serviços. Antes da internet, alugar uma prancha de surfe ou vaga de estacionamento de alguém era factível, mas em geral gerava mais problemas do que hoje em dia. Agora sites como Airbnb, RelayRides e SnapGoods conectam os proprietários e os locatários; smartphones com GPS permitem que as pessoas vejam onde se encontra o carro estacionado mais próximo; redes sociais fornecem uma maneira de checar a reputação das pessoas e incremente a confiança; e sistemas de pagamento online lidam com as contas. Mediante uma taxa, tudo o que é meu é seu Assim como empresas como o eBay permitem que qualquer um se torne um varejista, sites de compartilhamento permitem que indivíduos ajam como taxistas, empresas de locação de veículos e hotéis butique ad hoc quando lhes aprouver. O modelo funciona para itens cujo custo de aquisição é alto e que em geral não são usados todo o tempo. Quartos e carros são o exemplo mais óbvio, mas também é possível alugar vagas em campings na Suécia, terrenos na Austrália e máquinas de lavar na França. Como os entusiastas da economia de compartilhamento gostam de dizer, o acesso transcende a propriedade. Rachel Botsman, autora de um livro sobre o assunto, afirma que apenas o mercado de aluguel par-a-par movimenta US$ 26 bilhões por ano. * Texto traduzido e adaptado da Economist por Eduardo Sá. ** Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Redação do Opinião e Notícia
e2 Economia

Cartão BNDES vai financiar diagnósticos de eficiência energética para Micro, Pequenas e Médias Empresas

  O Cartão BNDES passará a financiar Diagnósticos de Eficiência Energética para Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs), informou o site Ambiente Energia. Para tanto, está credenciando como fornecedores em seu portal de operações as Empresas de Serviços de Conservação de Energia, as chamadas Escos. O objetivo é ampliar a oferta desse serviço especializado às MPMEs e, consequentemente, aumentar a demanda por financiamentos para implantação de projetos de eficiência energética no país. O diagnóstico, que passa a ser financiado pelo Cartão BNDES, pode apontar caminhos para que as MPMEs economizem até 30% de energia, percentual médio de desperdício do segmento apontado pelo Plano Nacional de Eficiência Energética, publicado em 2011 pelo Ministério de Minas e Energia. Para se credenciarem como fornecedoras, as Escos deverão atender aos critérios de qualificação do Programa QualiESCO, criado em 2010 por meio de cooperação entre a Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), a Fundação Santo André e a Agência Alemã de Cooperação Técnica Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ). Em termos gerais, a eficiência energética é a maior capacidade de um equipamento transformar a energia elétrica requerida para seu funcionamento em um produto final. Assim, uma lâmpada, que transforma a eletricidade em luz e calor, será mais eficiente na medida em que produzir mais luminosidade com a energia que consome. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
Em Málaga, no dia 10, participantes de uma das manifestações espanholas contra o desemprego e os cortes. Foto: Cortesia de CCOO Economia

Os jovens espanhóis não partem, são buscados

[caption id="attachment_80047" align="alignleft" width="300" caption="Em Málaga, no dia 10, participantes de uma das manifestações espanholas contra o desemprego e os cortes. Foto: Cortesia de CCOO"][/caption] Málaga, Espanha, 12/3/2013 – “Queriam me contratar, e isto era algo que nunca me acontecera”, contou Marta Seror, uma espanhola de 25 anos, agora empregada na Polônia em uma empresa de outsourcing e com uma história semelhante à de milhares de jovens que emigram diante da falta de trabalho e expectativas. “Estou há três meses e meio neste país e cada vez vejo mais gente como eu. Sinto que fui praticamente obrigada a tomar a decisão” de aceitar um trabalho fora da Espanha, “sacrificando o bem-estar de permanecer ao lado da família”, disse à IPS. Agora ela ganha mais de 600 euros mensais (US$ 780), “mas é um país barato”, ponderou. No final de 2012 o desemprego juvenil, daqueles com menos de 25 anos, chegou a 55,13%, o que situou o número de jovens sem trabalho em 930.200, segundo o Instituto Nacional de Estatística da Espanha (INE). O desemprego geral concluiu o ano em 26,02% da população economicamente ativa, o que se traduz em 5,9 milhões de pessoas que querem trabalhar e não podem. “Os cortes em educação, pesquisa e ciência tornaram impossível o desenvolvimento de uma carreira científica na Espanha. Somos obrigados a emigrar”, lamentou David, doutor em biologia de 33 anos, em depoimento por escrito desde a África do Sul para a campanha digital “Não partimos, nos buscam” (nonosvamosnosechan.net), promovida pela organização Juventude Sem Futuro. A organização foi criada em abril de 2011 pelo Movimento Estudantil de Madri, um dos grupos que convocaram as mobilizações iniciadas em 15 de março desse ano, conhecido como Movimento 15M. A campanha busca denunciar a situação de “exílio forçado” dos jovens espanhóis, dar nomes aos dados estatísticos, bem como tecer redes entre os que estão no país e no exterior, para juntos lutarem para mudar a situação mediante iniciativas específicas. “Estou desejando que a situação mude, embora não confie que isso acontecerá no curto prazo”, afirmou Seror à IPS. Eduardo González, jornalista de 23 anos e membro da Juventude Sem Futuro, disse à IPS que a diáspora juvenil é forçada pela situação econômica e pela aplicação de políticas de austeridade em setores como educação e saúde. “Por um lado se corta e por outro se resgata os bancos com milhões de euros”, apontou o jovem. A campanha conseguiu reunir em poucos dias quase seis mil histórias de jovens que residem no país e no estrangeiro, acessíveis mediante um clique em pontos amarelos localizados em um mapa mundi. “Só encontrei emprego como bolsista desde que terminei os estudos”, queixou-se González. Além de denunciar a precariedade do trabalho na Espanha, o jornalista também disse que “a grande maioria” dos jovens tampouco encontra no exterior “o paraíso profissional”, mas ocupações mal pagas ou que não estão de acordo com sua profissão. José é médico e trabalha como garçom e animador turístico na República Dominicana, enquanto Gemma é desenhista e ganha a vida como instrutora de esqui na Islândia, segundo seus testemunhos no site da campanha. Seror, licenciada em ciências físicas, não duvidou em aceitar um trabalho muito distante de sua profissão na localidade polonesa de Lodz, diante do péssimo cenário trabalhista e “para acabar com a rotina de levantar a cada dia na casa da minha mãe, enviar currículo sem obter resposta e ficar deprimida”, explicou. Agora é executiva de processos da sede polonesa de uma empresa de outsourcing da Índia, contou. Segundo o INE, o desemprego afeta um pouco menos as mulheres jovens (53,89) do que os homens (56,24). Todos sofrem um drama, acrescentou: a falta de contribuição para o Sistema de Seguridade Social, por isso não contam com compensação para o desemprego, ao contrário de outros grupos etários. O tardio começo em contribuir como empregados e a longa permanência com salário de bolsita ou da economia marginal também são parte dessa realidade. A organização Juventude Sem futuro convocou para 7 de abril mobilizações em várias cidades espanholas e nas embaixadas da Espanha no exterior. “É hora de organização, tanto das pessoas forçadas a emigrar quanto das que permaneceram”, afirma na internet. No dia 7 o governo do direitista Mariano Rajoy anunciou a criação dos chamados miniempregos, que já funcionam na Alemanha, para incentivar a contratação em tempo parcial com vínculo para a formação de menores de 30 anos. São contratos de trabalho temporários, com no máximo 15 horas semanais e salário mensal em torno dos 400 euros (US$ 520). Seis em dez jovens espanhóis entre 22 e 30 anos estão a favor dos minitrabalhos, segundo pesquisa da empresa My World divulgada no dia 4 pela emissora de rádio Cadena Ser. “Entre não ter nada e ganhar 400 euros, as pessoas aceitam estes contratos”, justificou González, que não descarta buscar trabalho fora da Espanha quando acabar a bolsa de nove meses com a qual se mantém agora. Diversas vozes se levantam contra a reforma trabalhista aprovada pelo governo de Rajoy, que permite às pequenas e médias empresas demitir sem nenhuma causa ou indenização durante o primeiro ano de contrato, pois abre as portas para a legalização do emprego precário e temporário. A maioria das pessoas que deu seu depoimento na campanha tem entre 23 e 28 anos, embora “também haja alguns que beiram os 40 anos, porque o problema não é só juvenil. O exílio forçado se estende a toda a população”, apontou González. Vicente Ortí, jornalista de 45 anos com 25 de experiência na imprensa e na televisão, trabalha na capital dominicana e se mostra muito pessimista sobre o futuro dos jovens profissionais de seu país. “Parti pelo mesmo motivo que leva milhares de pessoas a partirem, a falta de trabalho. A Espanha, profissionalmente falando, está devastada”, afirmou à IPS. Envolverde/IPS  


por Inés Benítez, da IPS
ee Economia

Áreas contaminadas no passado assombram o futuro e cobram seu preço

Duas notícias ocuparam simultaneamente os espaços da mídia nos últimos dias, de maneira independente, apesar de possuírem mais pontos em comum do que se poderia esperar à primeira vista. Uma inclusive está bem próxima de seu final e a outra apenas começa a trilhar um caminho repleto de dramaticidade. A primeira envolve 1.068 ex-trabalhadores de uma fábrica em Paulínia, cidade próxima a Campinas (SP), enquanto na segunda, 1.200 pessoas estão em busca de moradia na região norte da capital paulista. Tão distintas e mesmo assim, tão próximas. Pois ambas estão unidas pelo mesmo problema comum: a contaminação. Acordo garante indenização de 370 milhões de reais a ex-funcionários A de Paulínia, que está sendo chamada de a maior ação trabalhista no Brasil, deverá garantir aos ex-empregados da fábrica de agrotóxicos, uma indenização de, aproximadamente, 180 mil reais para cada trabalhador, pela exposição a diversas substâncias tóxicas. A fábrica primeiro pertenceu à Shell do Brasil (atual Raízen) nos anos 70 e, posteriormente, foi adquirida pela Basf no ano de 2000, até que dois anos depois foi interditada e fechada pelo Ministério do Trabalho. Para se chegar ao alto valor da indenização foram realizados diversos laudos anexados ao processo, entre eles, exames em 69 trabalhadores que apresentaram uma média de seis doenças diferentes. A ação tramitava desde 2007 e agora um acordo estabeleceu o montante a ser pago a cada trabalhador, além de 200 milhões de reais que serão destinados pelas empresas (Raízen e Basf) para a construção de uma Maternidade em Paulínia e a entidades como o Crest de Campinas (Centro de Referência à Saúde do Trabalhador) e à Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro). As empresas relutaram muito em aceitar o acordo e, mesmo em nota, a Raízen, sucessora da Shell, afirma possuir estudos comprovando que a contaminação ambiental não foi responsável por afetar a saúde dos trabalhadores. Bem ou mal, podemos dizer que se chegou a um final “feliz”, entre aspas, pois não será o dinheiro que irá recuperar a saúde dos trabalhadores. Famílias ocupam área contaminada Muito diferente e longe de qualquer solução minimamente positiva está o caso das famílias pertencentes ao movimento Frente de Luta por Moradia (FLM). Há dois meses elas ocuparam um terreno onde antes funcionou um aterro sanitário, no bairro da Vila Nova Cachoerinha, em São Paulo. Estive lá e conversei com as lideranças do movimento. Elas disseram já ter passado mal, inclusive as suas crianças, com sintomas de náusea, vômitos, entre outros, provavelmente causados pelo gás metano. A própria Cetesb, órgão ambiental do estado de São Paulo, já havia declarado a área imprópria. As famílias alegam não ter para onde ir, apesar dos riscos de contaminação e até mesmo de explosão, pois o metano é um gás bastante instável e altamente inflamável. Uma difícil e delicada situação que merece toda a atenção das autoridades para uma rápida solução que leve em conta, com todos os cuidados necessários, a preservação de direitos e da dignidade das pessoas. Um problema mais comum do que podemos imaginar O exemplo de Paulínia nos dá a esperança de ações punitivas a quem merece. Já a história das famílias da Zona Norte de São Paulo nos enche de tristeza ao ver as crianças com suas mochilas saindo cedinho da área ocupada para estudar, sem a garantia de voltar para um lugar que lhes garanta conforto, segurança e a preservação de sua saúde. Existem muitas situações como essas em todo o Brasil. São ex-lixões e aterros, fábricas desativadas, terrenos utilizados legalmente ou ilegalmente para despejo de materiais tóxicos, posteriormente cobertos e abandonados como se o problema estivesse sumariamente eliminado. Doce ilusão. O passado cobra um preço muito alto para os desmandos sejam eles conscientes ou frutos apenas de uma ignorância inconsequente. O certo é a urgência de denunciar e exigir dos responsáveis a identificação e a descontaminação de todas as áreas. O futuro agradece. * Reinaldo Canto é jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento. Passou pelas principais emissoras de televisão e rádio do País. Foi diretor de comunicação do Greenpeace Brasil, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e colaborador do Instituto Ethos. Atualmente é colaborador e parceiro da Envolverde, professor em Gestão Ambiental na FAPPES e palestrante e consultor na área ambiental. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Reinaldo Canto*
Foto: Divulgação/Internet Economia

A pedra que canta

[caption id="attachment_80006" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Divulgação/Internet"][/caption] Há 40 anos terminavam as obras civis da Usina de Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo, no Rio Paraná, construída na divisa de Brasil e Paraguai por um consórcio das mais importantes empreiteiras nacionais. Suas turbinas iniciaram o fornecimento de energia aos dois países em 1984. Logo Itaipu passou a fazer parte da lista universal das sete maravilhas construídas pela mão do homem no século XX. Itaipu, ou “pedra que canta”, é a denominação em guarani do local onde foi erguida a barragem, poucos quilômetros acima das cataratas do Rio Iguaçu, principal afluente na margem esquerda. A hidrelétrica, que começou a operar dois anos após o término da construção, é responsável pela geração de 17% da energia consumida hoje no Brasil. Suas turbinas produzem entre 90 e 94/95 milhões de MWh, anualmente, uma oferta de energia superior à que vem conseguindo a hidrelétrica chinesa de Três Gargantas, a maior do mundo em capacidade de geração, mas cujo recorde de fornecimento foi de 79,5 milhões de MWh em 2009, atrás do recorde da nossa Itaipu, que gerou 94,6 milhões de MWh em 2008. É interessante notar que uma realização dessa natureza não desperta nenhum entusiasmo (pelo menos alguma curiosidade deveria…) nos ativistas das organizações não governamentais – as notórias ONGs, estrangeiras em maioria – que se apresentam como defensores do meio ambiente e participam em pleno século XXI de campanhas financiadas do exterior para impedir a expansão da oferta de energia limpa entre nós. Basta sentir o seu desinteresse (fruto da ignorância, talvez) em comemorar o fato de que a energia limpa conduzida por milhares de quilômetros a partir da Usina de Itaipu corresponde a eliminar a sujeira de 500 mil barris de petróleo, que teriam de ser consumidos diariamente para atender à demanda nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil e no leste paraguaio. Quando se discutiam os prós e contras do aproveitamento da energia naquele ponto do Rio Paraná, muitas pessoas temiam a degradação da rica natureza numa das regiões mais belas e interessantes do mundo, com prejuízos irreparáveis para a flora, a fauna e “custos sociais intoleráveis” por causa do deslocamento de uma população de aproximadamente 25 mil pessoas que vivia nas áreas que seriam tomadas pela formação do lago após a construção da barragem. A renda do turismo seria gravemente afetada nos municípios do entorno de Foz do Iguaçu, pois se imaginava que o volume das águas das famosas cataratas poderia ser dramaticamente reduzido. Era algo meio surreal dado que até os cordeirinhos da fábula de Esopo sabiam da localização da queda do Rio Iguaçu, a jusante da barragem do Paraná… Hoje, a imensa barragem e os equipamentos de geração constituem atração turística que rivaliza com as visitas às cataratas que, muito justificadamente, foram eleitas uma das sete maravilhas da natureza universal. Nessas quatro décadas que se sucederam à construção da hidrelétrica, ficou demonstrado que os “prejuízos” causados à região e os “custos sociais” derivados da produção da energia não eram mesmo mensuráveis: de uma população de aproximadamente 40 mil pessoas no início da década de 70, o município de Foz do Iguaçu conta hoje com 260 mil residentes, cuja renda anual per capita (entre 21 mil e 22 mil reais em 2010) é 25% superior à média brasileira. Antes de se completarem duas gerações, a renda da região alçou-se a níveis que aproximam seus habitantes dos padrões de vida dos brasileiros que vivem hoje nas ricas cidades do interior paulista e nos progressistas municípios de Mato Grosso que estão transformando o estado numa potência agrícola. Futuro semelhante se espera para a região do extremo-oeste brasileiro, com a operação das Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, que começam a gerar energia já a partir de 2013, impulsionando principalmente o desenvolvimento de Rondônia e Acre. Num horizonte de três a quatro anos o mesmo processo de desenvolvimento se dará a partir da região de Altamira, no Pará, em pleno coração da Amazônia, com o término da construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu. Por ora, ainda se repetem tentativas de retardar a expansão da matriz energética brasileira, mas aos poucos se vai reconhecendo mundialmente que, além de ser a mais limpa de todas e de ter o maior potencial hidrelétrico já catalogado, é seguramente a que oferece a maior diversidade de origens não poluentes e de menor impacto ambiental. * Delfim Netto é economista, formado pela Universidade de São Paulo e professor de Economia. Foi ministro de Estado e deputado federal. ** Publicado originalmente na coluna do autor, no site da revista Carta Capital.


por Delfim Netto*

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