Países ameaçam Europa com guerra comercial aérea

Carbono

Países ameaçam Europa com guerra comercial aérea


por Sérgio Abranches, do Ecopolítica


Grupo de 23 países que se opõem à decisão da União Europeia de cobrar uma “taxa de emissões de carbono” de toda aeronave que pouse em solo europeu ou decole dele se reuniu em Moscou e aprovou um conjunto de medidas retaliatórias, escalando as ameaças de darem início à primeira guerra comercial do carbono.Para Valery Okulov, vice-ministra de Transportes da Rússia e presidente da estatal Aeroflot, o objetivo é adiar a entrada em vigor ou o cancelamento da inclusão da aviação no Sistema de Comércio de Emissões (ETS) da União Europeia (UE).O documento final, cuja cópia foi também obtida pelo blog Business Green, lista oito contramedidas que os signatários poderiam adotar para enfrentar os planos da UE de efetivamente impor uma taxa sobre voos que entrem ou saiam da Europa. Entre os países que assinaram o documento estão Rússia, Estados Unidos, China, Brasil e Índia. Mas a decisão final foi que cada país está livre para definir a melhor combinação de medidas retaliatórias, tendo em vista as condições específicas de suas rotas com a Europa.Os opositores dizem que a taxa é unilateral e extraterritorial, ferindo a legislação internacional, e ameaçam entrar com uma reclamação formal junto à Icao, Organização Internacional de Aviação Civil.A Europa argumenta que a medida é legal, pois só vale em território europeu e que se está criando um enorme problema em torno de uma medida necessária e de pequeno impacto econômico, com grandes benefícios ambientais futuros, porque levará à busca de alternativas para reduzir as emissões da aviação. Segundo dados divulgados em fevereiro por autoridades europeias, a taxa aumentaria, por exemplo, em 1,34 euro (perto de R$ 3) o custo por passageiro de um voo de Londres para Nova York, e 0,76 euro (em torno R$ 1,71) a passagem de Londres a Moscou. Um operador do mercado de carbono, concorda, dizendo que está se fazendo uma enorme gritaria por causa de valores extremamente pequenos. A taxa corresponde a 15% das emissões totais, a cota correspondente aos 85% restantes é concedida gratuitamente.A Comissária Europeia para Ação sobre o Clima, Connie Hedegaard disse ao The Economic Times que a legalidade da medida ficou estabelecida quando as empresas aéreas do Estados Unidos entraram com reclamação contra ela nas Cortes de Justiça da Europa, cuja decisão foi que o ETS não viola nenhuma lei ou tratado internacional existente. Ela também minimizou a importância da reunião, dizendo que esta oposição não é tão forte quanto aparenta ser. “Foram convidados a Moscou 160 países, mas apenas vinte e tantos compareceram. Eu gostaria de perguntar aos ministros em Moscou, se não gostam do sistema europeu, então nos digam qual vocês gostam”.No Twitter, @CHedegaardEU, tuitou:@CHedegaardEU Unfortunately, our question for Moscow meeting participants remains unanswered: what’s your concrete, constructive alternative?@CHedegaardEU Infelizmente, nossa pergunta para os participantes do encontro em Moscou permanece sem resposta: qual a sua alternativa concreta e construtiva?Segundo o The New York Times, o governo Obama apoia regras globais para as emissões de gases estufa da aviação internacional, mas se opõe à medida europeia por causa de possíveis violações a tratados existentes de aviação e porque poderia atrasar o esforço por um acordo mais abrangente e global nas Nações Unidas.Essa ameaça de guerra comercial aérea já estava na pauta desde o ano passado, quando a União Europeia oficializou a medida e definiu o cronograma para sua implementação. Estava previsto que, a partir de 1º de janeiro, o ETS incluiria as empresas aéreas, que deveriam comprar créditos para compensar as emissões de carbono de todos os voos que comecem ou terminem em aeroportos europeus, o que define uma taxa efetiva sobre as emissões desses voos. Também já estava claro que a União Europeia não voltaria atrás.Em Durban, no final do ano, durante a reunião da Convenção do Clima, ouvi a Comissária Connie Hedegaard e Arthur Runge-Metzger, negociador-chefe da UE, dizerem que já previam algumas retaliações de parceiros descontentes. A mais previsível é que alguns voos deixassem de fazer escala em aeroportos europeus. Mas as perdas de eventuais retaliações, a maioria previsível, segundo eles, seriam compensadas pelos ganhos derivados da observância das metas europeias de emissões. Eles argumentaram, também, que a medida era legal, legítima e irreversível e que existia uma alternativa melhor: a aprovação de uma medida mais abrangente, aplicável globalmente, que poderia ser gerenciada pela Icao.A plataforma de Durban, aprovada ao final da COP17, em dezembro, prevê a finalização das negociações para acordos de redução de emissões tanto da aviação civil, quanto da navegação marítima. Mas estas negociações, até agora, permanecem paralisadas por impasses que vêm de anos. Os dois negociadores europeus argumentavam que a decisão da UE era soberana, dentro de seu plano de redução de emissões de gases estufa, o qual é mais avançado que o dos demais países. Esta decisão teria, também, o efeito adicional, disseram, de aumentar a pressão e o incentivo para que se alcance solução global eficaz para as emissões da aviação, que são muito altas, ao contrário do que teme o governo dos Estados Unidos.* Publicado originalmente no site Ecopolítica.

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Na era da hipocrisia: um novo mundo, um novo capitalismo

O maior ideólogo e articulista do Financial Times, porta-voz do mercado financeiro, escreveu um longo artigo indicando as sete lições para corrigir o capitalismo, que ele considera a "ideia mais brilhante da humanidade": em síntese, corrigir as práticas irregulares, fazer os ricos pagarem os impostos, distribuir a tributação não para os perdedores, faz questão de registrar, mas para os "filhos dos perdedores". E termina com um apelo: "esforcemo-nos para torná-lo melhor". Quem sabe, com um pouquinho maior de esforço, não acabamos logo de enterrá-lo.Essa é uma viagem sobre as conversas, debates, fóruns que ocorreram no início do ano trágico de 5126, o último ano do calendário maia. Quando dois outros calendários de povos antigos – chineses e judeus – apontam para uma coincidência histórica, o número 3. O ano do dragão 4710, na soma dos números indica 12. O ano de 5772, dos judeus, a soma é 21. Os dois resultam em 3, o número da superfície, como definiu Pitágoras de Samos (cerca de 580/578-497/496 a.C.), o homem que traduziu o funcionamento do planeta em números. Será o ano em que o capitalismo vai tremer nas bases?Aliás, só não começou, porque o Banco Central Europeu deu um presente de Natal aos 523 bancos do velho continente, a 1% de juros ao ano, com três de prazo para pagamento. A dose foi reforçada no apagar das luzes de fevereiro, com mais 530 bilhões de euros, nas mesmas condições. Uma medida com objetivo de evitar uma quebradeira maior que a do Lehman Brothers, em 2008.Portanto, essa é a viagem na era de impostura, da falsidade, das falsas devoções, a era da hipocrisia, a nossa própria era capitalista.O "Super Mário", como os articulistas do mercado financeiro apelidaram o italiano Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, nos anos 2002-2005 ocupou uma diretoria do Goldman Sachs. Foi ele o responsável pela muralha de dinheiro que impediu a falência do sistema bancário europeu. O Goldman, por sua vez, está em recessão e teve que cortar o salário do chefe, LLoyd Blankfein pela metade – US$ 7 milhões.Enquanto isso, no mundo emergente, o Brasil começa a preparação da Rio+20, conferência da ONU que pretende reunir 50 mil pessoas e 150 chefes de Estado, na visão dos diplomatas que coordenam a organização. O orçamento do evento foi aprovado pelo Congresso Nacional no final de 2011: são R$ 430 milhões, sendo R$ 230 milhões para segurança, R$ 190 milhões para logística, R$ 30 milhões para aluguel de espaços, como o Riocentro. Onde se concentrarão as discussões. Na Cidade do Rock, os estandes das empresas sustentáveis – bancos, mineradoras, petrolíferas, montadoras, varejistas. No Aterro do Flamengo, o "Território do Futuro", onde os representantes da sociedade civil encaminharão suas propostas.Passaram 40 anos, o futuro virou presente"Uma Terra Só", foi o lema da primeira conferência da ONU, em Estocolmo, na Suécia, em 1972. Resumia a preocupação com o futuro do planeta e as alternativas para resolver a situação. No mesmo ano, um grupo de empresários, cientistas e técnicos, lançavam os "Limites do Crescimento", pelo Clube de Roma, anunciando o desastre se os métodos de crescimento econômico não mudassem em cem anos. Como todo documento europeu, tinha uma preocupação com o crescimento da população, diga-se, dos pobres, e da possibilidade de não haver matéria-prima suficiente para todos."Nosso Futuro Comum", foi um outro documento da ONU, liderado por uma dirigente da Dinamarca, na Comissão Brundtland. Em 1997, na Rio+5, quando as entidades da sociedade civil colocaram um "mentirômetro" na porta do hotel no Rio, onde o evento acontecia, o lema tratava do "Futuro que Queremos". Um novo mundo de paz, crescimento justo, fim da miséria, uso de energia limpa, uma economia de baixo carbono.Em 2011, a ONU anunciou que dos 24 serviços ambientais que recebemos gratuitamente do planeta, 60% estão degradados. O Programa do Meio Ambiente da ONU (Pnuma), anunciou que precisamos de US$ 1,3 trilhão, para promover a economia de baixo carbono em dez setores principais, como indústria, transporte, energia e agricultura.Amnésia à beira marAproveitei a onda de calor de Porto Alegre, conhecida atualmente por Forno Alegre, a maior seca em 60 anos, mais a onda de frio na Europa do leste, e repassei os documentos aprovados e anunciados com suas metas estabelecidas, nos últimos anos. Principalmente, na Eco 92, considerada a maior conferência do gênero, ao reunir 120 chefes de Estado, quatro mil ONGs e 15 mil pessoas, no mesmo Rio de Janeiro. Os burocratas que organizam anualmente esses eventos têm uma preferência clara por cidades à beira mar, como Cáncun, onde realizaram a conferência climática de 2010, ou Durban, na África do Sul, no ano passado. Evento que enterrou o Protocolo de Kyoto, desde o anúncio da negativa de participação da Rússia, Canadá e Japão, na próxima etapa.Kyoto foi aprovado no Japão com a presença de 170 chefes de Estado, em 1997. Só entrou em vigor em 2005, quando a Rússia resolveu aderir, dando assim a percentagem final – mais de 50% das emissões de gases estufa –, necessária para a implantação. Porém, a amnésia é um dos ingredientes nos eventos dessa natureza.Agenda 21: 800 páginas, 40 capítulosEu não li as 800 páginas de documentos aprovados na Eco 92, na chamada Agenda 21, com quatro seções e 40 capítulos. Li um resumo de 160 páginas do professor José Carlos Barbieri, da Escola de Administração, da Fundação Getulio Vargas. O documento foi chamado de "Guia da Humanidade". E realmente era. A primeira seção abordava as dimensões sociais do desenvolvimento sustentável, a cooperação internacional, padrão de consumo, população, saúde. Tem sete capítulos. A seção II tem 14 capítulos, envolve as dimensões ambientais, a atmosfera, os oceanos, os ecossistemas frágeis, a biodiversidade. A seção III engloba os grupos sociais envolvidos, mulheres, jovens, índios, trabalhadores, empresários, ONGs. E a seção IV refere-se aos meios para implantar os programas e as atividades recomendadas nas seções anteriores, incluindo recursos financeiros, transferência de tecnologia, educação.Diz o professor Barbieri: "cada capítulo apresenta, via de regra, uma introdução ao problema e as áreas de programas de ação com objetivos, atividades e meios de implementação, com as estimativas de recursos financeiros necessários".Os países ricos, que ainda são os mesmos, se comprometeram a doar 0,7% do PIB, na época o volume da economia mundial estava em torno de US$ 16 trilhões, o que dava uma verba de US$ 112 bilhões ao ano. Mas as estimativas da Agenda 21 apontavam que seriam necessários em torno de US$ 607 bilhões por ano, durante o período 1993-2000, para a implantação das atividades recomendadas, em vários de seus capítulos.Reiventar a civilização industrialMais uma citação do professor Barbieri: "muito do que foi tratado na Agenda 21 e em outros documentos aprovados na CNUMAD (a conferência de desenvolvimento sustentável) não saiu do papel. Muitos chefes de governo apoiaram propostas e acordos internacionais contrários a suas convicções e compromissos partidários, face às pressões exercidas pela exposição dos temas na mídia internacional e à vigilância ruidosa de muitas ONGs, mas pouco fizeram para ratificá-los e implantá-los em seus países".Maurice Strong, ex-dirigente do Banco Mundial, foi o presidente do Conselho da Terra, em 1997: "precisamos reinventar a civilização industrial", anunciava ao público, "que produziu riscos para a sobrevivência da espécie humana... A mais bem-sucedida, mas sem controle. Nosso futuro está em nossas mãos, podemos gerar uma era de boas notícias para a família humana".Mikail Gorbachev, um líder ainda respeitado dizia: "a civilização chegou ao seu fim, exauriu suas possibilidades. Temos que chegar a um consenso sobre novos valores".Ainda em 1992, 140 ganhadores do Prêmio Nobel, lançaram um documento onde afirmavam: "com as tecnologias atuais em 30, 40 anos acontecerão mudanças irreversíveis na biosfera. Até 2015, no ritmo atual, podem desaparecer entre 1% e 11% das espécies nas florestas tropicais, com taxas de desmatamento acima de 15 milhões de hectares ano, ou 150 mil quilômetros quadrados (km2)".Na Amazônia, se desmatou mais de 20 mil km2 por ano, nesta época. As espécies sumiram, e grande parte das florestas também. Vieram os anos do neoliberalismo, da globalização do sistema financeiro, das privatizações do mundo em desenvolvimento, a era Bush, duas invasões de países, com mais de US$ 2 trilhões em gastos na guerra ao terror. A economia gera US$ 45 trilhões de riquezas, um bilhão de pessoas passam fome, dois bilhões não tem água, dois terços dos norte-americanos estão acima do peso.Indústria de embalagem fatura uns US$ 739 bilhõesMais de um bilhão de carros, com cinco novas montadoras se instalando no Brasil, o quarto mercado mundial de veículos. Os Estados Unidos comemoram o renascimento das montadoras nativas (GM e Chrysler, sob comando da Fiat). Em 2012, a meta é vender 13,9 milhões de carros, quando vendiam 17 milhões em 2007. Não vão alcançar a China, com seus 18 milhões. Qual será a meta da indústria mundial de veículos: dois bilhões de carros. Quem sabe três bilhões? Como será São Paulo com 12 milhões de carros, o dobro da frota atual?Vejamos as estratégias definidas pela Agenda 21: "Estimular o uso mais eficiente de energia e recursos, reduzir os resíduos ao mínimo, estimulando a reciclagem, redução do desperdício na embalagem de produtos e a introdução de novos produtos ambientalmente saudáveis. Estabelecer políticas de preços que incorporem os custos ambientais. Reforço aos valores que apoiam o consumo responsável, por meio da educação, de programas de esclarecimento público, publicidade de produtos ambientalmente saudáveis".A indústria de embalagens no planeta vai faturar US$ 739 bilhões até 2014, 60% com embalagens para consumo, uma parte, em embalagens de papel, onde o consumo cresce mais, junto com papel higiênico. A Stora Enso, com 85 fábricas no mundo, que no Brasil participa da Veracel, na Bahia, está transferindo sua sede mundial, na área de negócio de biomateriais, para um escritório no Itaim Bibi, capital paulista.No volume de US$ 447 bilhões gastos em publicidade no mundo, talvez, uma mínima percentagem seja destinada aos produtos "saudáveis".Um novo chamarizHipocrisia ainda é um termo muito polido e educado como retrato das condições atuais do planeta. Por exemplo: o Pnuma, com sede em Nairóbi, no Quênia, responsável pelos programas de meio ambiente da ONU, tem um orçamento em torno de US$ 100 milhões, e 80 países, dos 193 da entidade, participam. As verbas são doadas por contribuições do Japão e do Reino Unido. Não tem o poder da Organização Mundial de Saúde para definir leis e regulamentações sobre qualquer assunto ligado à sua área. Então, qual a nova ideia para atrair os chefes de Estado ao Rio de Janeiro: a criação da agência internacional do meio ambiente. Ideia que nem o Brasil, o anfitrião, concorda. Mas dá, vamos dizer, um novo chamariz ao evento.O tema da Rio+20 é "desenvolvimento sustentável no contexto da erradicação da pobreza". O debate, entre os diplomatas brasileiros e europeus, principalmente, é sobre a orientação das discussões. Mais para o lado ambiental, como querem os europeus, ou para a "economia verde", como defendem os brasileiros. Muitos debates estão acontecendo pelo país.Entidades como a Confederação Nacional da Indústria, a Confederação Nacional da Agricultura, o Instituto Ethos, onde participam grandes empresas, a Associação Brasileira de Agronegócio. Esta última realizou um debate no Macksoud Plaza, em São Paulo com o título "Despertar para a Rio+20", onde o ex-ministro da Agricultura, além de agricultor e dirigente da Fiesp, Roberto Rodrigues, opinou que "tem muito medo dessas reuniões gigantes se transformarem em uma imensa masturbação intelectual". O presidente da Abag, Luiz Carlos Carvalho, disse que o tema do encontro não é o meio ambiente, mas a sustentabilidade.Crédito para reserva legal com eucaliptoJá a presidente da Associação Nacional da Indústria de Papel e Celulose, Elizabeth Carvalhães, defendeu a recuperação das áreas degradadas e a concessão de crédito para os produtores, além de um Código Florestal moderno. Reserva legal para eles é plantio de eucalipto, é a monocultura industrial, que insistem em chamar de floresta. Tem mais: ainda pretendem colocar as "florestas" como sumidouro de carbono, porque sugam um bilhão de toneladas de CO2. Se fosse descrever o esquema industrial com seus aditivos químicos, o principal deles o cloro, usado no branqueamento da celulose e do papel, com seus derivados como a dioxina, ia faltar espaço.O Instituto Ethos definiu nove diretrizes e três metas para a Rio+20: economia verde, redução das desigualdades e combate à corrupção. As diretrizes são todas cópias da Agenda 21. Aliás, esta é a questão. Talvez fosse muito mais sustentável distribuir aos participantes uma cópia das 800 páginas, já definidas e não implantadas, 20 anos atrás.Programados para quebrarMas a vida segue. E a economia também. O capitalismo reinante ainda é o da obsolescência programada, conforme o caderno especial do jornal Valor Econômico, publicado no final de janeiro. Obsoleto, que está em desuso, saiu da moda, ou como deve ser aplicado o termo atualmente, programado para quebrar. É assim que funciona a indústria do Século 21. O período para troca de geladeira e lavadora de roupas era de dez anos. Agora é de 5,6 anos.Em 2009, foram lançados 163 modelos de televisores de tela plana. Em 2011, foram 256. A oferta dos tipos de celulares: de 116 para 175. De computadores de mesa, de 476 para 835. Em 2005, a LG tinha quatro modelos de fornos de micro-ondas, hoje, são 120. A outra coreana, a Samsung tinha dez passou para 200. A explicação da indústria é a seguinte: a taxa da obsolescência encurta à medida que a inovação tecnológica acelerou e o processo de produção ficou mais barato.O cálculo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) é que o lixo cresce a um ritmo maior do que a população, 6,9% em 2010. No Brasil a produção de lixo alcança 60 milhões de toneladas ano, sendo 60% destinado a aterros sanitários e 40% aos lixões.50 bilhões de aparelhos conectadosA quebra programada de produtos foi uma estratégia da indústria lançada após a Segunda Guerra Mundial. Faltavam consumidores, então, o negócio era fazer os mesmos comprarem novamente, novos produtos. Vamos dar uma reforçada com os números dos produtos eletrônicos adorados pelos modernos consumidores das metrópoles, das cidades pequenas, vilarejos. Em 2012, serão vendidos 103 milhões de tablets, a última maravilha da era digital. As vendas de PCs, computadores de mesa, deverá crescer 4,5%, para cerca de 370 milhões de unidades. E a Intel lançou na feira de Las Vegas, a maior de eletrônicos, o ultrabook (registrou o nome), para concorrer com smartphones e tablets – é um laptop mais fino, mais rápido, mais sensual, mais...Serão vendidos, segundo a empresa de pesquisa Gartner INC., 657 milhões de smartphones em 2012. Já existem 800 milhões ativos. Computadores são 1,5 bilhão e logo chegaremos aos dois bilhões. Segundo a multinacional de equipamento Ericsson, existem sete bilhões de dispositivos conectados no mundo, isso inclui, telefones, computadores, eletrodomésticos, carros, lâmpadas, sapato, vou sugerir – vaso sanitário. Em 2020, serão 50 bilhões. A seu modo, informa a empresa, "cada um desses itens precisará de componentes que permitam a eles se conectarem a redes, exibir informações ou até mesmo processar alguns dados".Blackberry virou CrackberryA Intel domina 80% de chips para computadores no mundo, e teve receita de US$ 43 bilhões, em 2010. O aparelho da Rim, empresa canadense, conhecido por Blackberry ganhou um apelido no mercado de executivos, logo ele, que era o brinquedinho favorito dos executivos abonados: "crackberry". Recentemente a Volkswagen, que pretende ultrapassar a Toyota na produção de carros no mercado global, produzindo mais de oito milhões de unidades, lançou um comunicado, depois de acordo com os sindicatos, onde os funcionários só podem receber telefonemas de trabalho ou email, 30 minutos antes e 30 minutos após o expediente. O presidente executivo da Volks, Martin Winterkorn parabenizou os trabalhadores ao completarem 38 turnos extras e por terem produzido 50 mil veículos adicionais, no final de 2011.Emergentes aquecidos representam 67% do crescimento da economia mundial, segundo o Goldman Sachs, e somarão 59% de todo o PIB global em 2030. Seus cidadãos botaram o pé na estrada, entupiram aeroportos e baixaram em Nova York com toda a força; a cidade recebeu 50 milhões de turistas, 655 mil brasileiros, que só estão atrás de ingleses e franceses, em gastos.Os brasileiros vão às compras no exterior, gastaram US$ 21 bilhões, enquanto os estrangeiros não gastaram US$ 7 bilhões nas belezas tupiniquins. Contando o juro das prestações e dos cartões de crédito gastos internamente, a montanha cresce muito. Segundo o professor Yoshiaki Nakano, da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas, os brasileiros pagam por ano R$ 130 bilhões em juros. O cara compra um veículo, paga dois, uma máquina de lavar, também, uma televisão de tela plana, também.Uma falha tão grave no mercadoÉ por isso que dois economistas de mercado, fãs de carteirinha, como assinalou Eduardo Giannetti da Fonseca, professor do Insper, e André Lara Resende, um dos criadores do Real, abriram o verbo. Primeiro Giannetti, em entrevista ao Valor: "Eu, que sou fã da economia de preços e de mercado, hoje, percebo que ela padece de uma cegueira absurda, que é o modelo como usamos os recursos ambientais. O sistema de preços é completamente omisso em relação ao custo ambiental de nossas escolhas de produção e consumo. Não sinaliza a gravidade de que estamos fazendo com o espaço biológico de que nossa vida depende".Outro trecho: "O sistema de preços vai ter de mudar. Ele padece de uma falha tão ou mais grave no longo prazo do que o planejamento central. Nunca imaginei que diria isso na vida. É muito sério e está em tudo. Nunca se imaginou que o sistema de preços e a economia competitiva de mercado, capaz de gerar riqueza, tivesse uma falha tão grave".Giannetti cita um exemplo sobre o aparelho de ar-condicionado nos Estados Unidos. Em 1960, 80% dos condomínios não tinham ar-condicionado, o equipamento era caro e o custo de energia elevado. Hoje, 84% dos condomínios têm o aparelho. Entre 1993 e 2005, a eficiência energética do ar-condicionado aumentou 20%, enquanto o consumo médio por aparelho aumentou 35%. Ficou tão barato que os donos deixam o aparelho ligado. "A China, entre 1997 e 2007, triplicou o número de aparelhos. Vai crescer dez vezes o uso de ar-condicionado entre 2005 e 2030. Com o compressor cada vez mais barato e a eficiência maior, o consumo de energia vai aumentar. Esta conta não fecha. Tecnologia não é a resposta."Economia mundial será obrigada a parar de crescerNo final de 2011, a China fechou uma outra conta: 690 milhões de cidadãos do país estão morando em cidades, contra 656 milhões que continuam no campo. Em 1979, 81% dos chineses moravam na zona rural. No mundo, dos sete bilhões, 51% moram na zona urbana.André Lara Resende escreveu um longo artigo para o Valor, "Os novos limites do possível", onde trata do mesmo tema, um pouco mais profundamente. Citando o ex-ativista do Greenpeace, agora professor de sustentabilidade da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Paul Gilding, que lançou recentemente um livro sobre o destino do modelo econômico atual.Lara Resende destacou a tese do professor inglês: "A economia mundial será obrigada a parar de crescer. Como não houve uma transição antecipada, como não nos preparamos para uma economia estacionária, seremos obrigados a enfrentar uma parada brusca, profundamente traumática. O momento da tomada de consciência do fim do crescimento e da necessidade de uma profunda reorganização da economia não está longe. Questão de, no máximo, mais uma década. Diante da falha do sistema de preços e da incapacidade de tomarmos medidas preventivas, chegamos ao limite sistêmico. As múltiplas dimensões desse limite estão todas interligadas. Ao romper-se uma delas o processo se acelera e aumenta a probabilidade de que outros também venham a ser rompidos".Para completar o raciocínio, segue Lara Resende: "Atingimos o limite físico do planeta. Para evitar uma catástrofe de grandes proporções seremos obrigados a tomar medidas de emergência, extremamente duras, com o estabelecimento de cotas. Seremos obrigados a reconhecer o que, apesar das evidências, nos recusamos a ver: não há como viabilizar sete bilhões de pessoas, com o padrão de consumo e as aspirações do mundo contemporâneo, nos limites físicos da Terra. O crescimento baseado na expansão do consumo de bens materiais está no seu capítulo final. A eventual parada súbita da economia chinesa seria a pá de cal na esperança de uma saída harmoniosa para o impasse em que a economia mundial se encontra".Resumindo: o crescimento pode não ser mais a opção de saída para a crise. Lara Resende ainda alerta que não está se discutindo nem uma abordagem nova sobre o tema: "o mecanismo psicológico de autoengano, da negação dos fatos, segue inabalável".Livrar o capitalismo do lado sombrioNão se pode chamar nem Gannetti nem Resende, que já trabalhou como banqueiro, de ecologistas ou ambientalistas. É por estas e outras que o debate sobre o rumo do capitalismo entrou em vários fóruns. Em Davos, a elite econômica chegou pessimista, mas se animou com os 489 bilhões de euros do BCE, "uma inundação de liquidez", como comentaram.O executivo chefe da empresa de consumo Unilevar, concorrente da P&G, com faturamento de 46 bilhões de euros, Paul Polman, disse que o capitalismo e o livre mercado devem ser mais sensíveis a questões sociais: "é inaceitável que 200 milhões de pessoas estejam desempregadas". A revista Time e a BBC, de Londres, animaram acirrados debates sobre a fórmula de "corrigir o capitalismo".David Rubenstein, um dos fundadores do Carlyle Goup, um dos maiores administradores de fundos do planeta, que embolsou US$ 400 milhões em salários e bônus, junto com dois de seus sócios no final do ano passado, estava preocupado: "O capitalismo é o melhor sistema para o mundo, é preciso melhorar as leis e regulamentações para que o sistema seja justo. Temos que investir em inovação e educação".Angel Gurria, secretário-geral da OCDE, organização que reúne os países ricos, disse que "precisamos livrar o capitalismo do seu lado mais sombrio". Qual deles? Na Europa o índice de desemprego da Espanha é de 22,9%, sendo que entre as pessoas com até 25 anos, 48,7% estão desempregadas. Na Grécia, o índice é de 19,2%, na Irlanda de 14,5%. Enfim, a média europeia é de 10,4%.Novo capitalismo: conectado e transgênicoJosé Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, declarou: "não podemos aceitar que 25% dos jovens da Europa estejam desempregados".Mas o melhor da festa em Davos, o requintado retiro dos abastados nos Alpes suíços, estava destinado aos representantes norte-americanos. A deputada democrata Nita Lowey, de Nova York foi incisiva: "Os Estados Unidos estão determinados a manter sua força militar e ser o poder predominante no Século 21". E o republicano (senador) Bob Corker completou: "Os norte-americanos não estão psicologicamente preparados para ter um papel secundário nos assuntos globais".Como o dono da bola num jogo de futebol, norte-americanos e europeus estão dizendo o seguinte: a bola é minha, só eu ganho. Sem concorrência. Senão, acaba o jogo. No caso do maior aparato militar do planeta, isto pode ter um significado tenebroso.Chegamos ao novo capitalismo. Depois da quebradeira ou das explosões dos ricos. Como funcionará o novo sistema? Conectado, logicamente. E também transgênico, conforme a previsão da indústria química, que também é a dona das empresas de sementes. Elas plantam 160 milhões de hectares, 30 milhões no Brasil, que é o país que mais investe em transgênicos do mundo em desenvolvimento, onde os índices não param de crescer. A indústria já tem quase 40% do mercado de sementes, que gira US$ 37 bilhões – o dado de 2011 é US$ 13 bilhões. Ela vende uma semente transgênica e um veneno definido, só a planta é imune.Mark, do Facebook: a minha ação vale 10Vai ser conectado porque são as empresas que mais crescem. O lucro da Apple foi de US$ 25 bilhões no ano passado. O Google tem US$ 40 bilhões em caixa. O Facebook, do jovem Mark Zuckerberg, vai lançar ações na bolsa e pretende captar US$ 5 bilhões. A empresa faturou US$ 3,7 bilhões, mas a especulação diz que vale US$ 100 bilhões. O Goldman Sachs, na dúvida, investiu US$ 1 bilhão antes de começar a corrida. O mesmo fez o príncipe Alwaleed Bin Talal, saudita, sobrinho do rei Abdulah, que investiu US$ 300 milhões no Twitter. Zuckerberg, como novo capitalista, frugal, de jeans, camiseta e tênis, continua com práticas antigas, usadas pelo usineiro Rubens Ometto, quando registrou a Cosan Limited, nas Ilhas Bermudas: as ações dele valiam dez vezes mais do que as vendidas em bolsa. Dessa forma, com 10% do capital, ele tinha o controle da empresa. Não é que o rapaz fez a mesma coisa. E ainda vai ser o presidente executivo e do conselho de administração, medida que não passaria nas regras do novo mercado da Bovespa. A diferença com Ometto é o tamanho do salário – o usineiro ganha R$ 13 milhões como presidente do conselho da Raízes (Cosan mais Schell), e Zuckerberg apenas US$ 1,49 milhão por ano.Se os preços forem internalizados, ou seja, cobrados os custos reais, envolvendo poluição, destruição de ecossistemas, tratamento dos empregados ou colaboradores, como queiram, a Apple vai fechar as portas. Numa pesquisa interna recente, constatou-se que 62% dos fornecedores têm algum tipo de prática ilegal, principalmente no quesito relações com trabalhadores.Na era digital, escravos montam aparelhosNão é por menos. Quase 50% do mercado de produtos eletrônicos terceirizados inclui iPhone, iPad, da Apple, Xbox360, da Microsoft, e outros tipos de consoles de jogos são fabricados pela Foxconn, de Taiwan. A empresa é controlada por Terry Gou, de 61 anos, recém-casado pela segunda vez, com uma bailarina 20 anos mais moça. Em agosto do ano passado, Gou deu uma festa no maior complexo industrial da corporação em Shenzen, na China. Se misturou à multidão de trabalhadores que dançavam break, dança de rua norte-americana. Depois anunciou que no futuro suas fábricas terão um milhão de robôs nas linhas de montagem.A Foxconn tem um milhão de empregados, alguns se suicidaram em 2011 (l4 ou l8, conforme a fonte). Ele mandou instalar redes de arame para cercar os edifícios-dormitórios, onde até 300 mil pessoas vivem.Um trabalhador da Foxconn, que faturou US$ 80 bilhões em 2011, trabalha 12 horas por dia de segunda à sábado, e ganha pouco mais de US$ 200 por mês. Sem a mão de obra escrava da China, o capitalismo acaba no outro dia.O maior ideólogo e articulista do Financial Times, porta-voz do mercado financeiro, também entrou na defesa do capitalismo. Escreve um longo artigo indicando as sete lições para corrigir o capitalismo, que ele considera a ideia mais brilhante da humanidade: em síntese, corrigir as práticas irregulares, fazer os ricos pagarem os impostos, distribuir a tributação não para os perdedores, faz questão de registrar, mas para os filhos dos perdedores – o problema já é genético. E termina com um apelo: "esforcemo-nos para torná-lo melhor". Quem sabe com um pouquinho mais de esforço, não acabamos logo de enterrá-lo. Esqueci de acrescentar a data, completa dos maias : 21 de 12 de 2012, na soma 11. Número da ruptura ou o início de novos tempos.* Najar Tubino é jornalista.** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Najar Tubino*
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O cenário tranquilo para 2012

No Ministério da Fazenda há a agenda comum com o Banco Central de redução do spread bancário (diferença entre taxas de captação e de aplicação dos bancos comerciais).Ainda não existe um pacote definido de medidas, mas a agenda foi retomada. O spread é resultado da taxa de inadimplência do banco, mais impostos, mais margem de lucros dos bancos e também da política monetária (definição do nível do compulsório, isto é a parcela dos depósitos bancários recolhidos ao BC, e a taxa Selic).Pelas análises iniciais, constata-se que não dará para reduzir impostos. Tem-se reduzido o compulsório e flexibilizado a taxa de juros. A margem dos bancos depende da competição. Sobra a inadimplência a ser atacada, por meio de uma série de medidas destinadas a melhorar as estatísticas do sistema e aprimorar as análises de crédito.Essa retomada dos estudos microeconômicos se deve à relativa folga proporcionada pela economia mundial.Nos Estados Unidos, foi prorrogado o programa de desoneração fiscal de Obama e o seguro desemprego. Mudou a perspectiva da economia e poderá nem ocorrer desaceleração do PIB norte-americano.A União Europeia continua presa a soluções com tempo de validade, como é o caso da Grécia. O lado positivo é o fato de o Banco Central Europeu estar injetando mais liquidez na economia, reduzindo o risco de crise financeira. Mas falta crescimento para poder fugir da armadilha da crise fiscal.A China experimentará uma desaceleração modesta, de 9,5% para 8,5% de crescimento.O fato novo são as tensõesNo caso brasileiro, estima-se um crescimento ao longo do ano. No final do ano, a economia poderia estar crescendo a um ritmo anualizado de 5% a 6% ao ano – projeção mais otimista que a do Banco Central. A discussão é apenas sobre o ritmo de aceleração, já que se aceita que haverá.A discussão é sobre o ritmo de aceleraçãoOs recentes cortes de R$ 50 bilhões no orçamento, a rigor, não deverão interferir no ritmo da atividade econômica. Na verdade são cortes em relação ao que foi orçado pelo Congresso. Se se comparar o novo orçamento com o do ano passado, se verá crescimento. O que ocorreu foi muito mais um corte na expectativa negativa de crescimento de despesas.Além disso, o contingenciamento orçamentário preservou os investimentos públicos. E visou exclusivamente a manter os compromissos com superávit.Assim, ao contrário de outros anos, a parte fiscal será neutra, não acelerará mas também não significará um freio no crescimento da economia, ao contrário do ano passado, quando foi claramente restritiva.Em relação ao câmbio, não há preocupações de curto prazo. O déficit nas contas externas tem financiamento. O problema são os impactos sobre o desenvolvimento produtivo. Mas aparentemente não é preocupação de primeiro plano.A inflação ainda está elevada, mas está claramente desacelerando, proporcionando maiores graus de liberdade na política monetária. Alguns estudos de consultorias de mercado mostram que, dessazonalizados os dados, a inflação corrente está rodando a 4,5% ao ano. A aposta da Fazenda, assim como do BC, é chegar ao final do ano com o IPCA abaixo dos 5%.* Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luis Nassif*
1213 Economia Verde

As intenções do ambientalismo de mercado na Rio+20

Tendências da economia verde buscam na extrema mercantilização da natureza uma saída para o capitalismo em crise.Em 1992, governos de todo o mundo aterrissaram sobre o Rio de Janeiro para a Cúpula da Terra, também conhecida como Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento ou Eco 92. Ali estabeleceu-se pela primeira vez uma agenda global com o intuito de buscar a conciliação entre desenvolvimento e sustentabilidade. Foram criadas a Convenção sobre a Diversidade Biológica, a Convenção das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a Convenção de Combate à Desertificação e a Comissão de Desenvolvimento Sustentável, esta última responsável por dar continuidade à agenda assumida.Passados quase 20 anos, foram realizadas 17 Conferências das Partes (COP) sobre mudanças climáticas, nove COPs sobre desertificação e dez sobre biodiversidade. Muitas promessas e medidas foram tomadas, mas os desequilíbrios climáticos se aceleram pelo mundo, a biodiversidade vegetal e animal está em regressão, os desertos crescem, as florestas e as zonas úmidas encolhem. Uma das explicações está na falta absoluta de mecanismos que determinem o cumprimento dos acordos estabelecidos nestes encontros e preveja punições aos infratores. Como aponta a pesquisadora e advogada da ONG Terra de Direitos, Larissa Packer, “a obrigação é mais moral do que jurídica”, uma vez que as decisões não são vinculantes, como são na Organização Mundial do Comércio (OMC), e não há uma espécie de Tribunal Internacional Ambiental, capaz de sancionar aqueles que descumpram os acordos assinados na esfera da Organização das Nações Unidas (ONU).Força empresarialApesar de valorosos esforços empreendidos nestas conferências, seja por representantes governamentais ou pelas inúmeras articulações sociais que clamam por mudanças, ainda que sem poder oficial de voz, a incapacidade de governança sobre os rumos do desenvolvimento prevaleceu. Ao fim e ao cabo, este poder paira sobre uma estreita, mas poderosa, rede de empresas transnacionais. Segundo um estudo publicado em julho de 2011 pelo Instituto Federal de Tecnologia da Suíça (ETH Zurique), com base em análise de 43.060 transnacionais, localizadas em 116 países, apenas 737 empresas controlam 80% do valor de todas elas, sendo 147 corporações controladoras de 40%.Estas corporações não se mantiveram avessas, ao longo do tempo, ao problema ambiental. Ao contrário, o problema reside justamente na paulatina hegemonização destas conferências pelas soluções que mercantilizam os bens comuns e da natureza, conformando o que o discurso corporativo chama de “economia verde”.“A alternativa para o cumprimento das convenções é – e eu ouvi isso do secretário da Convenção da Diversidade Biológica que é um brasileiro, Bráulio Dias, então secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente – nós convencermos o setor corporativo da importância da biodiversidade, do seu valor econômico. O ambientalismo de mercado prega que o valor da mercadoria não é só formado pelo gasto de energia, gasto com o trabalho, custos fixos, etc., e que também deve-se inserir neste cálculo o custo ambiental ou as “externalidades ambientais”. Por isto, estão desenvolvendo instrumentos de valoração econômica da polinização das abelhas, da captura do carbono e de outros serviços ambientais. Mas como calcular isto?”, indaga Packer.Economia verde e o capitalismoA grande expectativa do ambientalismo de mercado na Rio+20 é avançar no reconhecimento internacional destes instrumentos de valoração da natureza e compatibilizar legislações mundo a fora que regulem o regime de propriedade e o comércio neste novo mercado, permitindo, sobretudo, a sua entrada nas Bolsas de Valores. Este processo não é essencialmente novo: desde 1968, a partir das novas regras de propriedade intelectual estabelecidas pela OMC e obrigatoriamente internalizadas em forma de legislação por seus países-membros, as sementes são objeto de patentes, o que, tempos mais tarde, deu origem à realização mais bem acabada de propriedade privada sobre formas de vida, os transgênicos.Não é por acaso que já circula nos grandes meios de comunicação que “está crescendo a ideia de se criar uma OMC ambiental”, proposta desenhada pela França e Alemanha, podendo ser este um dos “grandes feitos” da Rio+20.Por trás das propostas corporativas, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que oficializa o mercado de carbono como política de combate às mudanças climáticas, a REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) e a TEEB (Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade, por sua sigla em inglês, uma metodologia para estipular valor econômico da biodiversidade), estão a criação de instrumentos financeiros, num movimento que a pesquisadora Larissa Packer qualifica como uma “acumulação primitiva do capital”, no qual bens como ar, água e biodiversidade passam a ser novos lastros para o mercado financeiro gerar valor em cima de valor. “O mercado de carbono é uma primeira tendência de internacionalização de coisas que até então eram inapropriáveis pelo capital fictício”, destaca.Com a bolha do capital financeiro em constante risco de estourar, especialmente depois de 2008, com a crise do subprime nos Estados Unidos, existem trilhões de dólares em busca de novos lastros para aterrissar. Não é por acaso que, enquanto a “economia verde” desenvolve suas bases legais, científicas e infraestruturais, os países em desenvolvimento vêm sofrendo nos últimos anos um ataque brutal sobre suas terras.A assessora da Terra de Direitos, Larissa Packer, ressalta as consequências perversas da aplicação da lógica do mercado financeiro no combate à degradação ambiental. “Quanto mais escassa uma mercadoria, mais valiosa. A cada mudança climática, as bolsas de valores se adaptarão para valorizar os títulos. Quanto mais desmatamento, maior o valor dos títulos. Assim, vão inflar a bolha verde”, conclui.* Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Vinicius Mansur, do Brasil de Fato
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Mudanças sutis nas gôndolas do supermercado

Não há melhor laboratório, para economistas e curiosos dos assuntos do dinheiro, do que o supermercado. Minhas últimas incursões (mais por necessidade do que por interesse científico, diga-se) permitiram antecipar dois temas que terão espaço crescente na mídia. Ao primeiro: os produtores de laranja brasileiros estão preocupados, segundo manchete do Valor Econômico na sexta-feira 17, diante da possibilidade de a Pepsico – dona da marca de sucos Tropicana, quase onipresente nas gôndolas dos Estados Unidos – reduzir significativamente as importações da fruta. Simplesmente porque a concorrência não vende mais o produto 100% natural, e sim o chamado néctar, que preenche as garrafas com mais de 50% de água e açúcar, o que garante à empresa um lucro substancialmente maior.Faz um bom tempo que o néctar, que na verdade é apenas o nome novo dado ao antigo refresco, dominou as prateleiras no Brasil. Desafio um consumidor a encontrar um suco integral na seção de “sucos de caixinha” dos grandes hipermercados. Pior imaginar que a maioria das donas de casa paga por aquela mistura de água, açúcar e conservantes e imagina que vai levar para casa um produto realmente saudável e nutritivo.O curioso é ver um problema que até então poderia se restringir à seção de defesa do consumidor ganhar status de ameaça à balança comercial. Somente em 2010, as exportações de suco de laranja superaram US$ 2 bilhões. Mas, nas duas últimas safras, a queda nas vendas, em volume, foi de 27%. Quem sabe o lobby dos citricultores, de olho em reforçar ao menos o mercado doméstico, não inicia uma campanha de orientação do consumidor sobre os benefícios do consumo do suco integral?Sem deixar a seção de bebidas, o consumidor mais atento deve ter percebido um sintoma de um problema de escala planetária: já é mais barato comprar refrigerante do que água mineral. É claro que a vantagem de preço depende das marcas selecionadas, mas não chega a ser preciso comparar uma Perrier com a mais barata das colas. Não custa lembrar também que a água usada pelas fábricas apresenta, ou deveria apresentar, exatamente as mesmas propriedades básicas encontradas nas fontes dos Alpes suíços: o liquído deve ser incolor, inodoro e insípido.Há cerca de duas décadas, senão menos, o consumo de refrigerante de uma família de classe média praticamente se resumia a uma garrafa (de vidro retornável) de um litro, a ser dividida por cinco pessoas no almoço dominical. Daí a bebida gaseificada continuar a ser considerada um item de desejo na pauta de consumo de parte da população, sobretudo a parcela que ascendeu para a classe C nos últimos anos.Em que pesem as consequências (certamente negativas) para a saúde pública do consumo desenfreado de refrigerantes, o que mais choca o observador incauto é o processo de valorização da água mineral. Para os habitantes do país que detém as maiores reservas mundiais de água doce, é difícil avaliar o tamanho da sombra da escassez já percebida por quem vive nas regiões menos afortunadas pela natureza. Mas é fácil ver a proliferação de logotipos de multinacionais nos rótulos das marcas à disposição nos pontos de venda. Mais um movimento do mercado que, a exemplo do sumiço dos sucos 100% naturais, não deveria ficar de fora do radar das autoridades brasileiras – e nem dos consumidores.* André Siqueira é editor de Projetos Especiais de CartaCapital. Cursou jornalismo na UFF e especializou-se (MBA) em economia pela Fipecafi/USP e pela FIA/USP.** Publicado originalmente no site CartaCapital.


por André Siqueira*
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Qual é o “plano B”?

Dentro de mais alguns anos, o Brasil deverá entrar para o clube das cinco maiores economias do mundo, do qual fazem parte hoje Estados Unidos, China, Alemanha, Japão e França. Seremos então o país com o 5º maior PIB. Provavelmente na época já não teremos a maior taxa de juros do mundo, nem estaremos mais na companhia dos quatro países com a pior concentração de renda, mas o Brasil continuará sendo o maior em exportações de soja, açúcar, carnes, celulose, café, suco de laranja, etanol de cana-de-açúcar, minério de ferro, etc. Como o único critério para ser aceito nesse clube é a grandeza do PIB, o Brasil fará parte dele, mesmo distante dos demais sócios em aspectos decisivos: nível educacional da população, dimensão do mercado consumidor, participação na indústria mundial, transporte de cargas por ferrovia e hidrovia, taxa de investimento em relação ao PIB, participação do comércio exterior na formação do PIB, e investimento em ciência, tecnologia e inovação.Uma das causas para essa rápida ascensão do Brasil no ranking das economias mundiais (era a 12ª maior, há apenas dez anos), é a relação comercial com a China, que evoluiu de US$ 2,3 bilhões em 2001, para US$ 77 bilhões no ano passado. As exportações brasileiras para a China batem recordes, ano após ano: US$ 44,3 bilhões em 2011, quase o dobro das vendas para os Estados Unidos (US$ 25,9 bilhões). Mantido este ritmo de crescimento, superior a 40% anuais, o comércio com a China deverá atingir US$ 300 bilhões em 2015. E há os investimentos no Brasil, cada vez maiores, em indústrias de diversos setores, de vários Estados. Cresceu tanto o ingresso de capitais chineses no Brasil, que, além de maior parceiro comercial e maior comprador de produtos agropecuários, a China tornou-se também o maior investidor no setor produtivo brasileiro.A sociedade brasileira assiste atônita a essa ofensiva comercial chinesa. As quantias crescentes tendem a ofuscar a análise qualitativa do que é comprado e do que é vendido pela China, e se diz assim porque a iniciativa é muito mais dela. Diversas lideranças industriais têm protestado, alertando sobre os riscos da desindustrialização que já estaria ocorrendo no Brasil. Alguns intelectuais, em geral economistas, escrevem com frequência sobre os possíveis impactos dessa relação desigual – o Brasil comprando manufaturados da China e ela comprando commodities, ambos em quantidades crescentes. Até agora, o resultado das trocas comerciais com a China tem sido positivo para o Brasil, tendo inclusive mais do que dobrado em 2011, em relação a 2010, a ponto de responder por quase 40% do superávit total da balança comercial brasileira. No curto prazo, as compras e investimentos chineses são bem-vindos, mas será que eles resistem a uma análise de caráter estratégico?O movimento de lá para cá segue claramente uma estratégia, perceptível nos discursos e ações dos dirigentes políticos e das empresas chinesas – apesar de serem de setores diferentes, revelam sintonia entre si, como se cada qual soubesse a sua parte no jogo. Enquanto isso, do lado de cá, há divergências em relação ao que fazer com a China nos governos, legislativos, universidades, entidades empresariais e sindicais, mídia, etc. O meio empresarial brasileiro está visivelmente “rachado” no tema China, entre os setores que estão ganhando muito dinheiro – agronegócio, mineração e comércio –, e os segmentos do setor industrial que estão perdendo. Sindicalistas, intelectuais, empresários e integrantes dos governos falam da possibilidade do ressurgimento do desemprego, caso as importações de manufaturados da China continuem crescendo, e muitos temem, em relação a empresas chinesas, a concessão de áreas de exploração de petróleo e a venda de terras agrícolas e minas, entre outros perigos para a economia e a soberania nacionais.Quem analisa a situação do ponto de vista estratégico para o Brasil, leva em consideração o que ocorreu com os Estados Unidos na relação com a China, desde que esta iniciou seu programa de reformas e abertura, em 1980, após o fim do bloqueio norte-americano (que durou de 1949 a 1979). Naquele ano, a China não estava entre as dez maiores economias do mundo; até 2020, será a maior economia mundial. Durante as décadas de 1980 e 1990, a China realizou uma proeza impensável: conseguiu a transferência de milhares de indústrias dos Estados Unidos para o território chinês, onde elas respondem hoje por mais de 60% das exportações “made in China”. Este fenômeno resultou na redução significativa da participação dos Estados Unidos na indústria mundial, no período 1980-2010, e na multiplicação por dez da participação da China (de 1,5% para 15%). Outro indicador impressionante dessa inversão do peso dos dois países no mundo é revelado pela Organização Mundial do Comércio (OMC): no período 1948-2010, a China saiu de 0,9% de participação nas exportações mundiais para 10,6%, e os Estados Unidos caíram de 21,7% para 13,2%. No mesmo período, os Estados Unidos mantiveram a sua fatia nas importações mundiais em 13%, enquanto a China saltou de 0,6% para 9,3%.Perdendo parte considerável da sua importância na indústria e comércio mundiais para a China, restou aos Estados Unidos fincar pé nas exportações agrícolas e cortar fundo as despesas militares, reduzindo centenas de bilhões de dólares do orçamento do Pentágono, diminuindo os efetivos das bases que ainda mantêm em quase todo o mundo e retirando-se do Iraque. A prioridade militar dos Estados Unidos agora é o Pacífico, onde precisam manter presença ostensiva por causa justamente da China. Registre-se que o encolhimento militar dos Estados Unidos é inversamente proporcional à modernização das forças armadas chinesas, que tem realizado expressivos investimentos em equipamentos bélicos, treinamentos, etc. Mas nada é mais simbólico da transformação radical promovida pela China na relação com os Estados Unidos, do que o fato dela ser hoje a sua maior credora, com quase US$ 1,5 trilhão em títulos do Tesouro norte-americano.Como tudo isso ocorreu muito rápido, e a situação chinesa de hoje é infinitamente superior à de 1980, causa arrepio na espinha pensar no que pode acontecer com o Brasil na relação com a China, se deixarmos o barco correr para ver aonde a correnteza vai nos levar. Daí o medo (quase pânico) de muitos que acompanham o assunto, de que as coisas cheguem a um ponto sem volta, que se traduziria, em termos práticos, no Brasil tão somente grande exportador de commodities para o mundo, particularmente para a China, e dependente da importação de manufaturados, em especial chineses, com perdas econômicas gigantescas, resultando em desemprego, queda da arrecadação e tudo o mais que os Estados Unidos enfrentam hoje. Situação agravada pelo peso chinês em setores estratégicos da economia nacional, como mineração e energia.Diferenças importantes a considerarAinda que esse quadro assustador baseie-se no exemplo norte-americano, há aspectos diferenciais no caso brasileiro que devem ser considerados, para que se possa estabelecer a relação com a China em outras bases, de maneira a assegurar ao Brasil os recursos necessários para o desenvolvimento do país e melhor participação no maior mercado consumidor do mundo.Sabemos da realidade brasileira, do potencial e das debilidades estruturais das diferentes regiões. Mas o que se sabe realmente sobre a China no Brasil – nas universidades, entidades empresariais e sindicais, governos federal, estaduais e das maiores cidades, empresas internacionalizadas e na mídia? Mesmo onde os ganhos são mais expressivos, sob todos os aspectos, como é o caso do agronegócio (ainda que o lucro das mineradoras esteja nas alturas), pouco se investe para conhecer as características do mercado, as tendências das demandas alimentares chinesas e as possíveis iniciativas do governo e empresários do país para lucrarem com o setor, sem abrir mão da soberania alimentar, algo vital para a China.Chega a ser perturbador constatar a leviandade com que o país é tratado por gente importante, expressa na utilização de informações erradas e em uma dose considerável de preconceitos. É inegável que estamos despreparados para lidar em pé de igualdade política e comercial com a segunda maior economia do mundo. Felizmente, esta situação está mudando para melhor, há mais pessoas no Brasil se preocupando em aprofundar o conhecimento e as relações com a China, buscando oportunidades não apenas comerciais, mas também de intercâmbios em áreas diversas.A soja é um bom exemplo dos benefícios da entrada decisiva da China no mercado mundial. O Brasil atingiu a produção de um milhão de toneladas em 1969; dez anos depois, chegou a 15 milhões de toneladas. Foram necessários mais 20 anos para a produção dobrar. Com a China comprando, em dez anos a produção brasileira dobrou novamente, atingindo 70 milhões de toneladas. Significa que não apenas houve aumento da produção, mas também da produtividade – resultado de ciência e tecnologia e da utilização de insumos industriais. Esta mesma lógica serve para a celulose, etanol de cana-de-açúcar, carnes suína, bovina e de frango, fumo, suco de laranja, algodão, e outros produtos agrícolas.Maior compradora de produtos agropecuários do Brasil, tudo indica que a China seguirá importando em velocidade muito superior ao do crescimento da sua economia: tem 20% da população mundial e há cada vez mais pessoas com maior poder aquisitivo; dispõe de pouca água (6% da existente no mundo), mal distribuída e com risco de contaminação; seu estoque de terras disponíveis para agricultura está no “limite vermelho”; o esforço permanente para aumentar a produtividade agrícola tem um custo muito alto, que requer subsídios cada vez maiores; e a produção de grãos tem se mantido em 550 milhões de toneladas. O detalhe aparentemente contraditório é que a China não só exporta produtos agrícolas, como tende a transformar-se rapidamente em um grande pólo agroindustrial, utilizando matérias-primas próprias e importadas para a industrialização em larga escala de alimentos e outros produtos.Passar de maior importadora agrícola, para maior exportadora de alimentos industrializados, papel, tecidos de algodão e outras fibras naturais, móveis de madeira, etc., para a Ásia (2,5 bilhões de pessoas), será o grande “pulo do gato” do dragão chinês. Vendedora por natureza, altamente capitalizada, com 800 milhões de pessoas economicamente ativas, localização central, fronteiras terrestres e ligação ferroviária atual ou futura com 15 países, a China revolucionará a logística de transporte mundial de uma maneira fantástica, porque construirá ferrovias entre países da Ásia Central, na sua região oeste, e o Oceano Pacífico, onde possui os maiores portos do mundo e gigantesca frota mercante. Este plano foi anunciado por autoridades do governo central chinês em 2008, na cidade de Chengdu, capital de Sichuan, durante evento reunindo 12 províncias e regiões autônomas e representantes dos países vizinhos. Quando estiver concretizada essa “rota da seda sobre trilhos”, as trocas comerciais da Ásia com o restante do mundo atingirão volumes impensáveis hoje.A capacidade de transporte por ferrovia é uma das razões da competitividade imbatível chinesa: mais de 80 mil quilômetros, ligação entre todas as municipalidades, capitais de províncias e de regiões autônomas, velocidade média de 80 quilômetros/hora (km/h) para carga (os trens de passageiros vão de 100 km/h a 350 km/h), com um movimento tão grande que só perde para o dos Estados Unidos. Após construir a ligação ferroviária entre Qinghai e Lhasa (capital do Tibete), a última entre capitais que faltava, e as ferrovias de alta velocidade, entre Pequim e Shanghai, o próximo objetivo é aumentar a malha para cem mil quilômetros.Uma ferrovia ligando o Oeste brasileiro ao Pacífico aumentará a competitividade da exportação de soja para a Ásia, tornando o preço do produto brasileiro imbatível. Esta possibilidade, mais o potencial agrícola, florestal e mineral da região, tornam o investimento na construção muito atraente para empresas chinesas, que também se interessarão em vender locomotivas, vagões e trilhos. Considerando os cenários possíveis do setor agropecuário mundial para os próximos dez anos, esta ferrovia adquire uma importância extraordinária para o agronegócio brasileiro, cujo crescimento internacional (exportou US$ 94,6 bilhões ano passado, 24% a mais em relação a 2010) incomoda muito a concorrência, principalmente a norte-americana, que será a mais afetada por essa ferrovia na disputa pelo mercado asiático. Apesar disso, até aonde se sabe, não há nenhum trabalho da região ou do governo federal sendo desenvolvido com o objetivo de atrair investimentos do país com a maior liquidez do mundo.As oportunidades do crescimento chinêsCrescer tanto, com dezenas de milhões de pessoas migrando o tempo todo das áreas rurais e demandando infraestruturas e empregos nas cidades, gera várias contradições e desigualdades. Trata-se de construir, nos próximos 30 anos, o equivalente a dois “brasis”. Calcular as quantidades necessárias de energia, cimento, aço, alumínio, vidro, madeira, plástico, e tudo o mais, para tantos edifícios residenciais e comerciais, indústrias, escolas, hospitais, etc., chega a ser surreal. Além disso, durante o processo contínuo de migração e construção, deverá continuar ocorrendo aumento da renda, e por consequência, aumento do consumo, como tem sido desde 1980, efetivando um ingresso na classe média chinesa de mais 300 milhões, ou 400 milhões, elevando o seu mercado consumidor para inacreditáveis 700 milhões, ou até 800 milhões de pessoas.Ainda que muitos analistas não acreditem que o fenômeno chinês vá continuar por muito tempo mais, é bom considerar esta possibilidade, e se preparar para aproveitar as oportunidades em todas as áreas, porque a China precisará importar mais, seu parque industrial não dá conta de atender a demanda doméstica, muito menos o crescimento dela decorrente da decisão governamental de continuar o crescimento via consumo interno. Mas de onde ela vai importar mais, se os custos de produção europeus, norte-americanos, japoneses e brasileiros são muito maiores do que os seus? Por isso, a China precisará investir muito, na própria China e no restante do mundo, para aumentar a capacidade de produção e reduzir custos. Ano passado, ela recebeu US$ 103 bilhões em investimentos estrangeiros, e teria investido no exterior pouco mais de US$ 60 bilhões.Esse movimento simultâneo (atrair investimentos e investir em outros países) continuará em grande escala, porque, ao mesmo tempo em que é “obrigada” a investir em ativos em outros países, precisa obter capital alheio, porque o seu superávit na balança comercial está caindo (ano passado foi US$ 28 bilhões menor, em relação a 2010), e a tendência é continuar assim, conforme aumentem as suas importações. Prova da sua disposição de continuar atraindo capital estrangeiro é a decisão do governo, anunciada no dia 30 de dezembro de 2011, e em vigor a partir de 30 de janeiro de 2012, de abrir mais setores da economia ao investimento estrangeiro. O objetivo declarado pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China e o Ministério do Comércio é atrair investimentos em “indústrias emergentes estratégicas”: economia de energia, energias alternativas, veículos de combustíveis alternativos, despoluição, tecnologias de informação de nova geração, biotecnologia, produção de equipamentos modernos e materiais avançados.Ao mesmo tempo, permitirá aumento do capital estrangeiro em alguns setores, velha reivindicação dos investidores, que se recusavam a ficar minoritários nas sociedades. O comunicado conjunto dá conta ainda que o governo “continuará dando as boas-vindas aos investidores estrangeiros em indústrias de ponta e de serviços modernos”, e também os incentivará a investir nas indústrias de reciclados.As novas diretrizes do governo chinês reforçam a atração de investimentos e indicam por onde caminhará a política industrial do país nos próximos anos: o governo retirará o apoio ao capital estrangeiro na produção de automóveis, devido à necessidade de obter “um saudável desenvolvimento da produção nacional nesse setor” e tampouco apoiará o investimento estrangeiro nos setores de silício policristalino e química de hulha, devido ao receio de excesso de oferta industrial e excesso de capacidade instalada. Por fim, o governo chinês anunciou que produzirá “uma política detalhada para as regiões central e oeste do país, levando em consideração as diferenças de desenvolvimento regional”.Atrair investimentos da China para o BrasilA Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), conta com escritório na China, em Pequim. Sua congênere chinesa, a Ccpit, com a qual possui acordo de cooperação, está estruturada a nível central, setorial, provincial e municipal. Enquanto o Brasil possui uma Apex, a China possui 700 Ccpit. Quando o Brasil se dispuser a atrair investimentos chineses, precisará de escritórios e equipes da Apex também em Shanghai, Guangzhou e outras grandes cidades chinesas. Tem que estar perto, tem que conviver, conhecer, estabelecer relações. Esta lógica vale também para a representação diplomática brasileira na China. Além da embaixada e consulado em Pequim, há consulados também em Shanghai, Guangzhou e Hong Kong. A equipe brasileira é hoje bem maior do que era há dez anos, mas ainda assim não chega a 10% do efetivo norte-americano e é menos de um terço da representação do Canadá. Com um agravante: muda a cada quatro anos. Ou seja, quando o diplomata começa a conhecer a China, ele vai embora.O Banco do Brasil tem um escritório em Shanghai, onde está a maioria das empresas brasileiras na China. Mas falta Banco do Brasil em Guangzhou, no sul da China, e em Pequim, no norte. Aumentar a presença institucional do Brasil na China é fundamental para todos que queiram se relacionar com o país: estudantes, empresários, governos, artistas, esportistas. Enquanto o programa do governo federal de envio de estudantes para o exterior quer “exportar” 75 mil jovens para o mundo, o governo Obama anunciou sua disposição de mandar cem mil estudantes somente para a China (contrapondo-se assim aos 130 mil estudantes chineses nos Estados Unidos), para aprenderem a língua e conhecerem a cultura do principal adversário dos Estados Unidos.Competição e competitividadeO panorama mundial é deveras preocupante, mas para muitos no Brasil a relação comercial com a China é mais preocupante ainda pelos riscos que implica, até porque algumas das empresas que querem vir para o Brasil são estatais. Ainda está vivo na memória o ocorrido na segunda metade do século passado, quando o Brasil foi “invadido” e “dominado” por empresas norte-americanas, alemãs, japonesas, francesas, italianas, etc., que tornaram-se donas de minas, fazendas e indústrias. De mais a mais, competir com as empresas chinesas parece ser impossível, elas trabalham com juro de 5%, quase metade da carga tributária brasileira, custos de produção e de transportes muito menores e margens de lucro inferiores às praticadas no Brasil.Competindo com todos os países, o Brasil comprou e vendeu um total de US$ 482 bilhões em 2011, quase o mesmo, em termos populacionais, que os US$ 3,6 trilhões obtidos pela China. Mais do que a competitividade das chinesas, a maior dificuldade comercial das empresas brasileiras naquele mercado é a competição com empresas do mundo inteiro, que já estão lá há vários anos. Existem algumas dezenas de empresas do Brasil na China, e dezenas de milhares dos outros países. Enquanto uma empresa do setor lácteo nacional reluta em investir no mercado chinês, empresas da China importam anualmente cem mil vacas leiteiras do Uruguai, Nova Zelândia e Austrália, com o objetivo de formar um rebanho leiteiro de alta qualidade. Hoje a China já produz mais leite de vaca do que o Brasil, e importa leite em pó a preços inferiores aos praticados por nossas empresas no mercado internacional.O aumento da entrada de produtos chineses no Brasil é resultado exclusivo da ação de empresas brasileiras, dos setores industrial e do agronegócio, que vão até lá comprar, visando a obter redução de custos e a elevação das margens do que produzem, e do setor comercial, que busca preços que permitam margens elevadas na revenda. Entidades empresariais desses setores organizam e levam comitivas para comprar na China, e este movimento cresceu demais nos últimos cinco anos, resultando em aumento da quantidade de empresas que importam da China e em US$ 33 bilhões de compras em 2011.Esse quadro complexo, contraditório e volátil, requer da sociedade e do governo brasileiros definições de como lidar com a China, de maneira a permitir realizar uma ofensiva articulada, visando a estreitar relações nas áreas cultural, esportiva, educacional e de ciência e tecnologia, aumentar a presença institucional do Brasil no país, e estimular ações dos governos e das empresas, de atração de investimentos e de penetração no mercado chinês, inclusive por meio de instalação de indústrias lá. Temos necessidade e condições de fazer tudo isso, nós só não temos um “plano B”.* Milton Pomar é empresário, editor da revista em chinês Negócios com o Brasil. Artigo publicado originalmente na revista Amanhã, edição de fevereiro/2012.** Publicado originalmente no site Carta Maior e retirado do Mercado Ético.


por Milton Pomar*
serie-do-mes-desmatamento-turcius-sex-23 Empresas

Até que ponto as empresas devem levar em conta a sustentabilidade?

Há um discurso de proteção ambiental e preservação de valores sociais, éticos e ecológicos que nem sempre tem sido eficaz para interromper o desequilibro devastador originário de um ganho exacerbado com base em desmatamentos, poluição ambiental e outros deslizes, numa sociedade cada vez mais consumista.O interesse econômico tem prevalecido em relação à consciência dos malefícios que o uso excessivo e sem controle dos recursos naturais causa à humanidade.A consciência, se é que ela existe, está focada no pressuposto de que os fins justificam os meios. E, assim, é comum uma cidade aprovar a instalação de uma indústria química poluidora na presunção de que ela gerará empregos para o município. E é muito comum esta empresa poluidora gozar de isenções tributárias e fiscais.Apesar de isso parecer coisa de antigamente, podemos encontrá-las na mente de políticos e empresários oportunistas e sem escrúpulos.Hoje, a consciência do consumidor reprova a utilização agrícola do solo com a adoção de agroquímicos, usados para combater as pragas, mas nocivo à saúde humana e ao mundo animal e vegetal quando utilizados inadequadamente. Há ainda o caso das sementes geneticamente modificadas (transgênicas) que permitem uma superssafra agrícola, mas que ainda provocam polêmicas quanto ao seu uso.E há também questões globais: fatores que causam danos ao clima dos países, como o aquecimento global, têm sido muito debatidos em conferências de clima, como a de Kyoto no Japão. E há países, como os Estados Unidos, que se negam a seguir os conselhos preservacionistas. Mesmo no Brasil, pouca prática existe sobre a adoção da política de cotas de carbono que cada cidadão poderia utilizar na compra de um carro, isso se ele não se dispuser, em contrapartida, a plantar certa quantidade de árvores ao ano.Na Europa, o anúncio de carros vem com a informação da cota de carbono, que cada comprador deverá dispor para a compra e o uso daquele veículo. No Brasil, os aparelhos elétricos vêm com valores de consumo, com uma etiqueta informando quanto de energia ele consome, se é econômico ou não. Contudo, os institutos de pesos e medidas, muitas vezes, comprovam que as cifras informadas não correspondem ao consumo real daquele aparelho. Isto fere a ética da informação. Além disso, o consumidor brasileiro costuma desprezar informações importantes sobre os produtos, como essas questões energéticas.Eletrodomésticos terão que ser mais econômicosMarcas de sucesso, como Brastemp, Consul e Eletrolux, entre outras, terão que modificar seus eletrodomésticos se não quiserem perder consumidores.“Com a nova classificação de consumo de energia do Inmetro (instituto que mede os desempenhos de produto), aparelhos como geladeiras e condicionadores de ar, que hoje recebem nota A (mais econômico, em uma escala que vai até E), mudam de classificação."Hoje, 80% dos eletrodomésticos vendidos no país são nota A. Com o aperto do Inmetro, este número cairia para 40% se nenhum fabricante se mobilizasse para adequar seus produtos. Uma pesquisa do instituto mostra que 78% dos consumidores são influenciados pela classificação na hora de escolher aparelhos. (Folha de S.Paulo, caderno B Mercado, 1/10/2011, p.C1.)O novo consumidor e o marketing da sustentabilidadeAinda engatinhamos na preservação dos valores éticos e ambientais e, portanto emergem alguns dilemas empresariais:– Vale a pena se investir em sustentabilidade?– Até que ponto o consumidor está disposto a pagar mais por produtos ecologicamente corretos?– O que se perde em rentabilidade pode ser compensado com o que se ganha em imagem de sustentabilidade?– Poluir pode ser um bom negócio financeiro?– Não poluir pode significar redução de lucros, nem sempre compensados com os ganhos na imagem da marca do produto?Diante de dilemas como esses, muitas empresas retardam a produção de produtos ecologicamente corretos, pois a impunidade pode compensar.Mas a humanidade caminha na contramão de interesses financeiros de empresas que provoquem danos à coletividade.É possível que o novo consumidor ainda não esteja totalmente consciente dos seus direitos e dos riscos que a exploração de recursos naturais pode causar à qualidade de vida das pessoas. Porém, cada vez mais, o novo consumidor é esclarecido no que diz respeito ao conteúdo dos produtos, embora ainda se preocupe mais com valores monetários totais. Mas, ele já começa a criar consciência do erro socioambiental cometido por uma etiqueta.As empresas que não perceberem que os tempos estão mudando, e que isto exige maior comprometimento com a sustentabilidade do planeta, tendem a se transformar em enormes dinossauros, candidatos a extinção.* Marcos Cobra é professor da Universidad De La Empresa (UDE), Montevidéu, Uruguai; presidente do Instituto Latino-Americano de Marketing e Vendas (Ilam), São Paulo, SP; pós-doutorado na University of Texas System (UTS) Estados Unidos; mestre e doutor em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, onde foi professor e chefe do Departamento de Marketing; homenageado no Mkt Best 2011 pela sua contribuição ao marketing brasileiro como professor e profissional.


por Marcos Cobra*
porque-economia-verde-Blog-550px Economia Verde

A “economia verde” na Rio+20

"Em economia não existe almoço grátis. Alguém sempre está pagando. É um equívoco cruel pretender convencer os países emergentes de que não existem elevados custos de transição, para sairmos da 'economia marrom' e atingirmos a condição de 'economia verde'".Em junho, no Rio de Janeiro, ocorrerá a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Um dos eixos temáticos da Conferência – seguramente o mais importante – será a “economia verde”. Trata-se da primeira tentativa concreta de se discutir uma agenda econômica positiva para o planeta de modo a evitar a mudança climática e de pôr os olhos em cima do mais importante estrangulamento das ações das políticas públicas que rondam o assunto: a questão da diminuição dos elevados custos de adaptação e de transição, que economias emergentes como a nossa exigem, com o fim de evitar o “desemprego verde”.Os dados sobre os “custos da mudança climática” – a agenda negativa – existem para qualquer tipo de imaginação; já os dados sobre os “custos de se evitar” a mudança climática – a agenda positiva – ainda carecem de bom juízo. Assim, é bem recebido o esforço do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) de lançar o Relatório Economia Verde (REV) com o objetivo de suprir exatamente esta inaceitável deficiência. Ora, será que o REV consegue dar conta da missão, e finalmente nos dizer quão turbulenta pode ser a nossa viagem?Aparentemente não. Digo “aparentemente” porque o alentado REV tem mais de 400 páginas (pode ser baixada a versão completa em inglês do sítio do Pnuma) e, embora bem organizado, às vezes confunde alhos com bugalhos.Sugiro quatro reflexões:a) o REV é extremamente otimista quanto à possibilidade de conciliar crescimento + sustentabilidade + inclusão social. Aliás, o Relatório – infelizmente – é mais apologético do que analítico. Boa parte desta deficiência decorre dos reducionismos metodológicos adotados pela equipe técnica que divide o mundo em países “desenvolvidos”, “em desenvolvimento” e “menos desenvolvidos”. Neste tipo de corte algumas barbaridades, tipo colocar na mesma frigideira a região amazônica e o Estado de São Paulo, aparecem por inferência uma vez que o Brasil está entre os países “em desenvolvimento”. Tudo é muito homogêneo. Parece que para o Pnuma a capital do Brasil continua sendo Buenos Aires;b) o REV não apresenta nenhuma estimativa para os custos de inclusão social embora a expressão se apresente diversas vezes ao longo do Relatório. Aliás – aqui é necessário fazer justiça ao Pnuma –, o REV defende, desde o seu início, que a “green economy” será puxada pelo desenvolvimento. Mas não dá a receita do pudim;c) o Relatório começa a ficar assustador quando se debruça sobre a agricultura e defende a retirada imediata de todos os subsídios fiscais concedidos a energia de combustível fóssil, do setor pesqueiro e diversos subsetores da agricultura. Um período de transição e adaptação, nem pensar;d) o REV confunde fluxo e estoque no esforço de persuadir que a “economia verde” opera com mais eficiência do que a economia atual (“business as usual”– BAU, no jargão da ONU). Um erro primário em teoria econômica. Afirma que “a escala de financiamento requerido para a transição rumo à economia verde é substancial, mas em ordem e magnitude bem menor do que o investimento global” (sic), e prossegue “... neste sentido é importante notar que os 2% de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (outra linearização!) global é uma fração da formação de capital bruta total, cerca de 22% do PIB mundial em 2009”(sic). É simplesmente inacreditável! A formação de capital bruta é saldo final de investimentos acumulados (estoque). É elementar que o investimento inicial (os 2%) seja uma fração do saldo que ele ajudará a formar ao longo do tempo. Trata-se de um truísmo. Não tem como ser diferente.Em economia não existe almoço grátis. Alguém sempre está pagando. É um equívoco cruel pretender convencer os países emergentes de que não existem elevados custos de transição, para sairmos da “economia marrom” e atingirmos a condição de “economia verde”. Sem transferência de recursos financeiros e tecnologia para o lado de baixo do Equador, o “desemprego verde” virá. Infelizmente.* Mário Ramos Ribeiro é doutor em economia pela Universidade de São Paulo, docente da Universidade Federal do Pará, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa). ** Publicado originalmente no site EcoAgência.


por Mário Ramos Ribeiro*
Miguel Urbano: crise atual do capitalismo é estrutural. Foto: Miriam Zomer-Alesc Entrevista

“O socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem”

[caption id="attachment_43646" align="alignleft" width="300" caption="Miguel Urbano: crise atual do capitalismo é estrutural. Foto: Miriam Zomer-Alesc"][/caption]Miguel Urbano Rodrigues acredita que um socialismo humanizado abrirá ao homem a possibilidade de desenvolver todas as suas potencialidades e de se realizar integralmente, liberto das forças que o oprimem há milênios.“O mundo está num caos em consequência da crise global do capitalismo.” Assim, o jornalista e escritor português Miguel Urbano Rodrigues define o atual cenário mundial. Para ele, a crise atual do capitalismo é estrutural. Segundo o escritor, a crise, iniciada nos Estados Unidos, se alastrou à Europa, e as medidas tomadas por Bush, primeiro, e Obama depois, em vez de atenuarem a crise, agravaram-na. “Os Estados Unidos, polo do sistema que oprime grande parte da humanidade, mostram-se incapazes de controlar os colossais défices do orçamento e da balança comercial.”Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Urbano diz que o grande capital pouco alterou as práticas criminosas e fraudulentas que originaram a crise. Para ele, a fatura é paga pelos trabalhadores que tiveram os seus salários brutalmente diminuídos e suprimidas conquistas históricas. Taxativo, afirma que as guerras fazem parte das alternativas imperialistas e que as agressões militares são sempre precedidas de uma campanha midiática de âmbito mundial. Embora avesso a profecias, Urbano acredita que o socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem. de acordo com as suas tradições, cultura e peculiaridades de cada uma.Brasil de Fato – O mundo vive hoje uma de suas maiores crises financeiras. Que avaliação o senhor faz dessa crise que tem se agudizado principalmente nos Estados Unidos e na Europa?Miguel Urbano Rodrigues – O mundo está num caos em consequência da crise global do capitalismo. É uma crise estrutural. Nos países centrais, a teoria da acumulação não funciona mais de acordo com a lógica do capitalismo e, na busca de uma solução, os Estados Unidos, polo hegemônico do sistema, multiplicam as guerras contra países do terceiro mundo para saquear os seus recursos naturais.As medidas tomadas pelos governos, a seu ver, resolvem os graves problemas dessa crise? E o agravamento dessa crise, que é estrutural do capitalismo, a seu ver, vai enfraquecer ainda mais o imperialismo?A crise, iniciada nos Estaddos Unidos, se alastrou para a Europa. As medidas tomadas por Bush, primeiro, e Obama depois, em vez de atenuarem a crise, agravaram-na. O objetivo foi salvar a banca, as seguradoras e grandes empresas à beira da falência, como as da indústria do automóvel. Mais de um trilhão foram investidos pelo Estado Federal nessa estratégia com resultados medíocres. Um volume gigantesco de dinheiro (os dólares emitidos) foi encaminhado para os responsáveis pela crise, enquanto a principal vítima, os trabalhadores norte-americanos, foi esquecida. Centenas de milhares de famílias perderam as suas casas, e o desemprego aumentou muito em consequência das dispensas em massa. O grande capital pouco alterou as práticas criminosas e fraudulentas que originaram a crise. É significativo que o atual secretário do Tesouro, Thimothy Geithner, que goza da total confiança de Obama, seja um homem de Walt Street, comprometido com as políticas de desregulamentação que tiveram efeitos funestos.Na União Europeia, que é um gigante econômico mas um anão político, a estratégia adotada para enfrentar a crise foi diferente. A fragilidade do euro é inseparável do fato de o dólar ser, na prática, a moeda universal cujas emissões são incontroláveis. O Banco Central Europeu não pode imitar Washington.A crise atingiu primeiro países periféricos, como a Irlanda, a Grécia e Portugal. A Alemanha e a França, que põem e dispõem em Bruxelas, sobrepondo-se à Comissão Europeia e às instituições comunitárias em geral, impuseram a esses três países “políticas de austeridade” orientadas para a redução drástica dos défices orçamentais e a salvação da banca. A fatura foi paga pelos trabalhadores que tiveram os seus salários brutalmente diminuídos, suprimidas conquistas históricas como os subsídios de Natal e de férias, enquanto setores sociais como educação e saúde eram duramente golpeados.A Itália e a Espanha encontram-se também à beira de um colapso, na iminência de pedirem à Comissão Europeia e ao FMI uma “ajuda”, que agravaria extraordinariamente as condições de vida da classe trabalhadora. Na Espanha, o desemprego ultrapassa já os 21%.A chanceler Merckel e o presidente Sarkosy estão, porém, conscientes de que os efeitos da crise atingem também perigosamente os seus países. O Reino Unido, fora da zona do euro, não é exceção, e teme igualmente o agravamento da situação.Neste contexto, o futuro do euro e da própria União Europeia apresentam-se sombrios. São a cada semana mais numerosos os políticos e economistas que preconizam a saída do euro de alguns países.Obviamente, as tensões sociais na contestação ao sistema assumem características explosivas, sobretudo na Grécia, Portugal, Espanha e Itália.Os Estados Unidos e as grandes potências da União Europeia puseram fim às guerras interimperialistas, substituindo-as por um imperialismo coletivo. O senhor poderia explicar como têm se dado guerras?O imperialismo evoluiu nas últimas décadas para responder à crise do capitalismo. As guerras interimperialistas, que na primeira metade do Século 20 devastaram a Europa e a Ásia, não vão repetir-se; remotíssima esta hipótese. As contradições entre as potências imperialistas mantêm-se. Mas não são hoje antagônicas.Um imperialismo coletivo – a expressão é do argentino Cláudio Katz – substituiu o tradicional.Os seus contornos principiaram a definir-se na primeira Guerra do Golfo e tornaram-se nítidos com as agressões aos povos do Afeganistão, do Iraque e da Líbia.Hegemonizada pelos Estados Unidos, formou-se uma aliança tática da qual participam o Reino Unido, a Alemanha e a França, além de sócios menores como a Itália, a Espanha, o Canadá e a Austrália, inclusive países da Europa do Leste, ex-socialistas.Então é este bloco imperialista que comanda o mundo hoje e fomenta as guerras?A superioridade militar e tecnológica do bloco imperialista permite-lhe, com um custo de vidas reduzido, atacar e ocupar países do terceiro mundo para saquear os seus recursos naturais, nomeadamente os petrolíferos.Isso ocorreu já no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Atinge agora a África com a intervenção militar dos Estados Unidos em Uganda. O Africa Comand, por ora instalado na Alemanha, anuncia a criação de um exército permanente para o continente africano, previsto para cem mil homens.Obama já afirmou que a “ajuda militar” (leia-se intervenção) ao Sudão do Sul, ao Congo e à República Centro-Africana depende de um simples pedido a Washington.As guerras têm sido as saídas para o capitalismo. Com essa crise, teremos novas guerras?As agressões militares são sempre precedidas de uma campanha midiática de âmbito mundial. A receita tem sido repetida com algum êxito. Para impedir a solidariedade internacional com os povos a serem alvo de agressões previamente planejadas e semear a confusão e a dúvida em milhões de pessoas nos países desenvolvidos, os Estados Unidos e seus aliados promovem campanhas de satanização de líderes apresentados como ditadores implacáveis, ou terroristas que ameaçam a humanidade. A invasão do Afeganistão foi precedida da diabolização de Bin Laden – definido como inimigo número um dos Estados Unidos –, e a guerra do Iraque, da satanização de Sadam Hussein. No caso da Líbia, Kadafi, que um ano antes era recebido com todas as honras em Paris, Londres, Roma e Madri, e tratado com deferência por Obama, passou de repente a ser apresentado como um monstro sanguinário que submetia o seu povo a uma opressão cruel. O desfecho é conhecido: a aprovação pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) de uma “zona de exclusão aérea” para “proteger as populações”. Logo depois começaram os bombardeios de uma guerra que durou sete meses, definida como “intervenção humanitária”. Sabe-se hoje que a “insurreição” de Bengasi foi preparada com meses de antecedência por comandos britânicos e agentes da CIA, dos serviços secretos britânicos e franceses, e da Mossad israelense.Como o senhor avalia as consequências dessa crise para os países pobres, do chamado terceiro mundo?O custo destas agressões imperiais para os países por elas atingidos tem sido altíssimo. Não há estatísticas credíveis sobre as destruições de infraestruturas e o saque de bens culturais, e sobre o número de mortos civis resultante das guerras no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. Mas o saldo dessa orgia de barbárie ocidental ascende – segundo grandes jornais da Europa e dos Estados Unidos – a centenas de milhares.A satanização de Bashar Assad e do seu exército gera o temor de que a intervenção imperial na Síria esteja iminente. Mas o grande “inimigo” a abater é o Irã. Motivo: é o único entre os grandes países muçulmanos que não se submete às exigências do imperialismo.Israel ameaça atacar e incita os Estados Unidos a bombardear as instalações nucleares de Natanz. Obama conseguiu que o Conselho de Segurança aprovasse vários pacotes de sanções ao Irã, mas o Pentágono hesita em envolver-se numa nova guerra contra um país que dispõe de uma capacidade de retaliar ponderável. A invasão terrestre está excluída e o bombardeio das instalações subterrâneas de Natanz com armas convencionais poderia, na opinião dos especialistas, ser ineficaz.O balanço das guerras do Afeganistão e do Iraque não é animador para a Casa Branca. O presidente Obama, ao anunciar a retirada das últimas tropas norte-americanas do Iraque, sabe que mentiu aos seus compatriotas. Num discurso eleitoreiro, triunfalista, que pode ser qualificado de modelo de hipocrisia, afirmou que os Estados Unidos alcançaram ali os objetivos previamente fixados. Na realidade, a resistência prossegue e dezenas de milhares de mercenários substituíram as forças do Exército e da Força Aérea. Mas qualquer previsão sobre futuras agressões é desaconselhável. Tudo se pode esperar da engrenagem do sistema imperial, comandado por um presidente elogiado como humanista e defensor da paz, quando, na realidade, a sua estratégia de dominação planetária configura uma ameaça sem precedentes à humanidade.Como o senhor avalia o papel de organismos como a ONU, o FMI, o Banco Mundial e a OMC?O Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) são instrumentos do sistema imperial, criados para o servir. Quanto à Organização da Nações Unidas (ONU), há que estabelecer a distinção entre a Assembleia Geral e o seu órgão executivo, o Conselho de Segurança. A primeira, representativa de quase 200 Estados, é uma instituição democrática, mas as suas resoluções somente produzem efeito se referendadas pelo Conselho de Segurança. Este, manipulado pelos Estados Unidos, com o apoio do Reino Unido e da França, funciona há muito como instrumento da vontade dos três, até porque a Rússia e a China, os outros membros permanentes, não têm exercido o direito de veto, com raríssimas exceções.Como o senhor vê os protestos e as mobilizações que têm ocorrido em vários países, na chamada Primavera Árabe, na Grécia e nos Estados Unidos?Em primeiro lugar, é útil esclarecer que a expressão “Primavera Árabe”, muito divulgada pelos governos ocidentais e pela mídia é, por generalizante, fonte de confusão. Os levantes populares no Egito e na Tunísia foram espontâneos e inesperados para o imperialismo. Triunfaram ambos, provocando a queda de Hosni Mubarak e de Ben Ali.No caso da Tunísia, a vitória de um partido islamista moderado nas recentes eleições não representa um problema para o imperialismo. Tudo indica que as relações dos Estados Unidos e os grandes da União Europeia com Tunis serão cordiais como eram com o governo da ditadura.No Egito, tudo permanece em aberto, porque o povo não aceitou o governo dos militares comprometidos com o imperialismo e continua a exigir a sua renúncia.No Bahrein e no Iêmen não houve qualquer “primavera”. Washington e os seus aliados abstiveram-se de criticar os regimes que eram alvo dos protestos populares. No tocante ao Bahrein, base da IV Frota da US Navy, os Estados Unidos manobraram de modo a que tropas sauditas e dos Emirados do Golfo invadissem o pequeno país e reprimissem com violência as manifestações.Os protestos populares na Europa e nos Estados Unidos contra regimes de fachada democrática, que na prática são ditaduras da burguesia e do grande capital, apresentam também características muito diferenciadas.O acampamento inicial dos indignados em Madri funcionou como incentivo para movimentos similares em dezenas de cidades da Europa e dos Estados Unidos. Esses jovens sabem o que rejeitam e os motiva a lutar, mas não definem com um mínimo de precisão uma alternativa ao capitalismo.Inspirado pelos espanhóis, o acampamento de Manhattan, realizado sob o lema “Ocupe Wall Street”, alarmou a engrenagem do poder. A solidariedade de intelectuais progressistas como Noam Chomsky, Michael Moore e James Petras contribuiu para que o movimento se alastrasse para muitas cidades.No caso norte-americano, os protestos foram uma surpressa? Como o senhor analisa a reação do governo dos Estados Unidos a estas manifestações?A reação da administração Obama foi inicialmente de surpresa. Mas, perante a amplitude assumida pelo movimento, recorreu a uma repressão brutal. As consequências desta opção foram inversas às esperadas pelo governo. Os acontecimentos de Oakland, na Costa do Pacífico, demonstraram que a contestação é agora dirigida contra a engrenagem capitalista responsável pela crise que afeta 99% dos cidadãos e beneficia apenas 1%, tema de um slogan que já corre pelo país. A profundidade do descontentamento popular é transparente. Uma certeza: alarma Obama e Wall Street.Paralelamente aos protestos espontâneos referidos, desenvolvem-se na Europa outros, promovidos pelos sindicatos e por partidos revolucionários.A greve geral de novembro, em Portugal, e as grandes manifestações de protesto ali realizadas traduziram, não só a condenação de políticas de direita impostas por Bruxelas e a submissão ao imperialismo, com perda de soberania, como a exigência de uma política progressista incompatível com a engrenagem capitalista.É sobretudo na Grécia que as massas exprimem em gigantescas e permanentes concentrações populares a sua determinação de lutarem contra o sistema capitalista até a sua destruição Quinze greves gerais num ano, empreendidas sob a direção de uma Frente Popular na qual o papel do Partido Comunista da Grécia é fundamental, os trabalhadores da pátria de Péricles batem-se hoje com heroísmo pela humanidade inteira.Frente a esse cenário de crise mundial do capitalismo, qual a alternativa para os povos? Como o senhor vê o futuro da humanidade?A única alternativa credível à barbárie capitalista é o socialismo. O capitalismo conseguiu superar desde o Século 19 sucessivas crises. Desta vez, porém, enfrenta uma crise estrutural para a qual não encontra soluções. Os Estados Unidos, polo do sistema que oprime grande parte da humanidade, mostram-se incapazes de controlar os colossais défices do orçamento e da balança comercial. Forjaram um tipo de contracultura monstruosa que pretendem impor a todo o planeta. Mas o declínio do seu poder é transparente e irreversível.Por si só, as gigantescas reservas de dólares e os títulos do Tesouro norte-americano, que a China e o Japão acumularam, estimados aproximadamente em US$ 2 trilhões, são esclarecedores da fragilidade da economia dos Estados Unidos, um colosso com pés de barro, hoje o país mais endividado do mundo.Sou avesso a profecias de qualquer natureza. Mas creio que o socialismo do futuro terá as cores das sociedades que por ele optarem de acordo com as suas tradições, cultura e peculiaridades de cada uma – um socialismo humanizado que abrirá ao homem a possibilidade de desenvolver todas as suas potencialidades e de se realizar integralmente, liberto das forças que o oprimem há milênios.Quem éMiguel Urbano Rodrigues é jornalista e escritor português, foi redator e chefe de redação de jornais em Portugal antes de se exilar no Brasil, onde foi editorialista principal do jornal O Estado de S. Paulo e editor internacional da revista brasileira Visão. Regressando a Portugal após a Revolução dos Cravos, foi chefe de redação do jornal do Partido Comunista Português (PCP) Avante!, e diretor de O Diário. Foi ainda assistente de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, presidente da Assembleia Municipal de Moura, deputado da Assembleia da República pelo PCP entre 1990 e 1995 e deputado das Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental, tendo sido membro da comissão política desta última. Tem colaborações publicadas em jornais e revistas de duas dezenas de países da América Latina e da Europa e é autor de mais de uma dezena de livros publicados em Portugal e no Brasil.* Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Nilton Viana, do Brasil de Fato
Criado em 1999, Repetro já permitiu renúncia fiscal de R$ 46 bilhões. Petróleo

Brasil pode ampliar incentivo fiscal ao setor de petróleo

[caption id="attachment_43639" align="alignleft" width="270" caption="Criado em 1999, o Repetro já permitiu renúncia fiscal de R$ 46 bilhões."][/caption]Intenção é expandir benefício a todos os setores da cadeia produtiva.O regime tributário especial para a área de petróleo e gás (Repetro) deverá sofrer alterações a serem anunciadas ainda este ano. Segundo Mauro Borges Lemos, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), a política bilionária de incentivos fiscais deve se ampliar a todos os setores da cadeia de produção.O Repetro hoje está restrito ao primeiro elo dessa cadeia, beneficiando especialmente as operadoras dos campos de petróleo e gás. Criado em 1999, ele já permitiu a renúncia fiscal de R$ 46 bilhões. “É um regime de grande importância para o setor de petróleo e gás e, particularmente, para a Petrobras. Ele opera no Brasil há muitos anos e nós estamos implementando uma revisão do Repetro”, declarou Lemos.O presidente da ABDI disse ainda que a revisão poderá trazer uma desoneração maior do que a que se tem hoje. A Petrobras é responsável por mais de 90% da exploração do país e é a principal beneficiada pelo Repetro, que concede isenções de impostos de importação (II), sobre produtos industrializados (IPI), PIS, Cofins, além da taxa para renovação da Marinha Mercante. Com a abrangência atual, a maior parte das isenções do Repetro se restringe a encomendas de plataformas e embarcações. Segundo dados da Receita Federal, isto representa R$ 40 bilhões a menos de arrecadação. Só em 2010, a renúncia fiscal foi de quase R$ 10 bilhões.De acordo com Lemos ainda não há definição sobre se os incentivos fiscais do Repetro serão ampliados por inteiro para o restante da cadeia produtiva. “O que você pode fazer numa recalibragem é tirar alguns itens da lista de isenção do Imposto de Importação. Aqueles que já têm produção nacional desenvolvida”, exemplificou o presidente da ABDI, agência federal que atua na execução e elaboração da política industrial.Ele evitou ainda especular sobre o valor da renúncia para o incentivo ao desenvolvimento da cadeia produtiva, que ajudará a Petrobras a cumprir seu plano de investimentos, que hoje é de mais de US$ 200 bilhões em cinco anos. “A ideia é anunciar neste ano, com certeza. A renúncia é para o ano que vem”, esclareceu.Embora não saiba precisar o número de empresas que se beneficiam do Repetro hoje, a ABDI estima, com base em um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que a expansão da política beneficiaria cerca de 3.400 empresas industriais e de serviço.Bruno Musso, superintendente da Onip (Organização Nacional da Indústria do Petróleo), defende o incentivo ao setor de petróleo e gás, mas faz uma ressalva. “O regime foi eficiente em desonerar os investimentos, mas questões relativas à isonomia precisam ser analisadas com mais cuidado”, disse Musso.Outra pessoa ligada ao setor, que não quis se identificar, chamou atenção para as falhas e brechas do Repetro. Segundo ele, empresas que não são do setor utilizam estas brechas na legislação para a importação de bens alheios ao setor, como roupas. Ele diz que ajustes precisam ser feitos pelo governo para melhorar a fiscalização dos incentivos.* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Redação da Reuters
Os Estados Unidos são a fonte mais avançada do conhecimento técnico-científico e o Brasil poderá se beneficiar do entrosamento. Não custa lembrar que a China mantém 200 mil cientistas em universidades e centros de pesquisa no exterior. Foto: Wilson Dias/ABr Desenvolvimento

Desenvolvimento e ciência

[caption id="attachment_43608" align="alignleft" width="300" caption="Os Estados Unidos são a fonte mais avançada do conhecimento técnico-científico e o Brasil poderá se beneficiar do entrosamento. Não custa lembrar que a China mantém 200 mil cientistas em universidades e centros de pesquisa no exterior. Foto: Wilson Dias/ABr"][/caption]Dilma Rousseff tem viagem marcada para o início do mês de abril para os Estados Unidos, onde vai se encontrar com Barack Obama. Vai cumprir uma agenda, cujos destaques serão os temas relacionados com a educação, em particular iniciativas para turbinar o Programa Ciência sem Fronteiras, que prevê o intercâmbio de professores norte-americanos e alunos brasileiros nas universidades e centros de pesquisas dos dois países.É intenção do governo – segundo informou o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, em entrevista a CartaCapital, na quarta 15 de fevereiro –, aumentar neste ano para 18 mil o número de bolsas em cursos de pós-graduação no exterior e não somente nos Estados Unidos. Faz parte do objetivo estratégico de ampliar os incentivos à inovação, anunciado pela presidenta Dilma no fim de 2011, o financiamento oficial a cem mil bolsistas brasileiros nos próximos três a quatro anos, em todas as áreas que ofereçam a oportunidade de acelerar o desenvolvimento tecnológico.Os Estados Unidos são ainda a fonte mais avançada do conhecimento técnico-científico e, prosperando os acordos que se pretende firmar durante a visita, a economia brasileira poderá se beneficiar muito desse entrosamento, especialmente o seu setor industrial que depende fundamentalmente da inovação para garantir a futura capacidade de competição nos mercados mundiais. Não custa lembrar que o grande competidor universal mantém 200 mil chineses estudando em universidades e cursos científicos no exterior, aproximadamente 80% nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.Reportagem especial da The Economist, sob o título geral de Capitalismo de Estado (na verdade um primoroso ensaio de 14 páginas), inserida na edição de 15 de fevereiro de CartaCapital, traz informações e comentários muito interessantes sobre a evolução da economia mundial, com foco no que apontam como a batalha definitiva do Século 21: “Não será entre capitalismo e socialismo, mas entre versões diferentes do capitalismo…”O Brasil é citado, “embora en passant”, como um dos players importantes desse “grande jogo” que vai decidir o futuro da economia mundial. Somos apresentados como “um exemplo de boas práticas para os capitalistas de Estado se espelharem” e pelo fato de “ter sido pioneiro no uso do Estado como um acionista minoritário”. Certamente uma referência ao papel do BNDES, à presença dominante da Petrobras na área de energia e à participação dos fundos de pensão das empresas estatais nos investimentos privados e do próprio Estado.A estrela da reportagem, como não podia deixar de ser, é a China: sua subida meteórica ao primeiro escalão do poder mundial, suas demonstrações de eficiência na concepção de “novos” modelos e na gestão do processo de desenvolvimento e, fundamentalmente, suas ambições de, singelamente, ter o mundo em suas mãos.Como realizá-las, superando uma “brutal competição por recursos limitados”? (leia-se energia… energia, petróleo!) O texto relaciona ações do Estado chinês nas duas últimas décadas à procura de matérias-primas em todo o mundo (algumas, heterodoxas, bem conhecidas). Muito elucidativa é a avaliação de uma alta fonte diplomática, citada na revista: “Os países ocidentais se sentem seguros ao comprar petróleo internacionalmente porque criaram o sistema. A China, não. Ela está convencida de que precisa usar todos os elementos do poder nacional – suas empresas e bancos, suas agências de fomento e diplomatas – para assegurar sua cota justa”.Fica no ar a pergunta: e se o poder financeiro e “as ações diplomáticas” não forem suficientes para garantir a “cota justa”?São questões que certamente estarão presentes nos encontros que a presidenta Dilma terá com seu colega Obama e demais personalidades do governo e do empresariado norte-americano. Além do tema principal do intercâmbio universitário (no programa consta visita ao MIT), a mídia internacional já incluiu na pauta o interesse norte-americano em discutir parcerias na área energética, com destaque para as oportunidades de exploração do petróleo e gás das jazidas do pré-sal para novos investimentos no desenvolvimento da indústria petroquímica.Durante a visita, uma delegação de cerca de cem empresários organizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) estará se encontrando com seus colegas norte-americanos para discutir parcerias e transferência de tecnologia – segundo informou à imprensa o presidente da CNI, Robson Andrade.* Delfim Netto é economista, formado pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Delfim Netto*

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