Perspectivas da economia brasileira para 2013

Economia

Perspectivas da economia brasileira para 2013


por Guilherme Costa Delgado*


É necessário separar as singularidades que caracterizam o tempo histórico para analisar qualquer fenômeno intercorrente no tempo. Assim, 2013 está cheio de singularidades; eleitorais, esportivas e até estatísticas, que o credenciam para um determinado crescimento econômico, maior que o do biênio precedente, sem que isto possa ser utilizado como argumento forte na linha da recuperação econômica. Mas é ponto de partida, que pode ou não ser confirmado, caso haja estratégias políticas e econômicas delineadas. Vamos, pois, partir da premissa de que as singularidades de 2013 – baixo crescimento pretérito, necessidade de “mostrar serviço” dos chefes de executivo que se candidatam à reeleição em 2014 e calendário esportivo – são eventos extra-econômicos, com forte incidência pró-crescimento conjuntural no ano que se inicia. Razões estatísticas, eleitorais ou esportivas são, por sua vez, argumentos e justificativas pobres para fundamentar um pequeno ensaio de perspectivas econômicas. É necessário ir além, sob pena de a ênfase incidir na superficialidade dos fenômenos elencados, sem pretensão de desvendá-los. Vejamos o tema das “Perspectivas” sobre outra ótica, qual seja, o arranjo diferencial da política macroeconômica do governo Dilma, ora em curso (política econômica conjuntural), face ao arranjo de economia política (sentido estrutural da acumulação de capital e da repartição da renda social que se persegue). Tudo isso se movendo num cenário de forte dificuldade de previsão sobre o futuro, provocado pela crise financeira externa. A política macroeconômica diferencial do governo Dilma inovou em 2012, relativamente aos governos Lula e ao seu próprio, no primeiro ano, com a adoção de certo arranjo fiscal, monetário, cambial e de determinados preços públicos (tarifa elétrica e dos derivados do petróleo) - com objetivo explícito de favorecer um ‘boom’ de investimentos privados, que de fato não ocorreu, mas que o governo espera ver em 2013. Segundo o ministro Mantega (artigo no caderno econômico do jornal ‘O Estado de São Paulo’ de 23-12-2012), em 2012, houve desonerações tributárias da ordem de 45 bilhões de reais (correspondentes a 1% do PIB), que serão mantidas em 2013, acrescidas das reduções tarifárias na energia elétrica e pela ampliação das desonerações patronais previdenciárias para 42 setores industriais e de serviços. Este verdadeiro ‘baú da felicidade’, direcionado ao setor empresarial, supostamente se viabilizaria, segundo a versão oficial, pelo espaço fiscal aberto com a redução dos juros internos, principalmente da taxa SELIC, incidente sobre grande parte da Dívida Líquida do Setor Público. Fora isso, há duas outras inovações praticadas: a virtual adoção da “banda de câmbio” acima dos dois reais por dólar, com informal abandono do regime flutuante sem controle de capitais; e a redução da tarifa elétrica em 20%, parcialmente arbitrada na renovação dos contratos de concessão vencidos, parcialmente complementada com recursos orçamentários, cada uma delas contendo ingredientes específicos, que não cabe aqui analisar. No conjunto, a projeção que o governo federal faz é de que desonerações, reduções de tarifa, queda de juros e melhoria no câmbio constituem um importante incentivo para investir, o que declaradamente espera que ocorra nos vários setores da indústria de transformação, mais afetados pela estagnação. Vejamos o outro lado da questão: o arranjo de economia política, no sentido das alianças ou acordos tácitos de grupos e classes sociais, que dariam sustentação virtuosa a essa pretensão da política macroeconômica de promover o crescimento econômico, mais além do evento circunstancial da conjuntura. Observe-se que a política econômica diferencial que enunciamos brevemente altera determinados acordos tácitos sobre repartição dos lucros e das remunerações do trabalho no conjunto da economia, que vigoraram nos dois governos Lula. Vou tentar utilizar uma linguagem simples, recorrendo a um recurso didático, que tomo emprestado do amigo já falecido, Tamás Szcmrecsanyi. Segundo o discurso oficial, o tripé clássico de acumulação de capital junto ao Estado brasileiro – banqueiros, usineiros e empreiteiros – teria sido preterido no primeiro caso (banqueiros), em benefício do demais, a quem se recalibrariam incentivos para crescer. Quanto aos assalariados, aparentemente nada teria mudado, visto que a mudança distributiva teria caráter de redivisão do lucro bruto dos capitalistas. Mas isto é um mero encadeamento de conjecturas e intenções declaradas, sem maior apoio nos fatos. Na verdade, o jogo de economia política que se opera no presente, se de fato reduz a fatia do lucro extraordinário percebido pelos rentistas financeiros, clientes da dívida pública, e pelos monopólios do setor elétrico, por outro lado os compensa em parte no próprio pacote da política econômica. Desonerações fiscais seletivas e desonerações patronais na Previdência Social para amplo setores, adicionando o presente ao setor financeiro que é a Lei dos Fundos de Previdência do Servidores Públicos (Funpresp), sancionada em meados de 2012, são compensações de praxe servidas ao sistema. Mas neste caso é a política social que paga a conta. Desonerações e renúncias fiscais na magnitude daquilo que ora vem sendo anunciado e implementado não se operam com base no “espaço fiscal” aberto pela queda dos juros. Isto não tem o fundamento empírico e legal que se apregoa. Mas são os recursos da seguridade social e de outras políticas sociais que entram direta e indiretamente em jogo com o apelo às desonerações previdenciárias. Ademais, por este mecanismo abre-se espaço à linha de tiro do coro conservador – sobre o recrudescimento do déficit ou do ‘rombo’ da Previdência, como preferem vociferar. O único segmento integralmente beneficiado pela política econômica diferencial é aquele que detém e aprofunda uma estrutura produtiva fortemente apoiada no monopólio de recursos naturais – o agronegócio, a mineração e a exploração de petróleo e gás natural, ainda que este último sofra consequência da política de preços internos dos combustíveis. Em síntese, em resposta à crise do crescimento externo, o sistema econômico recalibra suas estratégias de defesa, agora cada vez menos encadeadas com uma política social distributiva e cada vez mais concentradas com os segmentos do setor primário-exportador. Aposta-se demasiado numa fantasia verbal – “o espírito animal dos empresários” – em detrimento do argumento da igualdade social, este sim um bom princípio do Estado Social, inteiramente compatível com as idéias de John Maynard Keynes, aparentemente em curso de desmontagem. Sem o argumento da igualdade, seriamente considerado nas políticas social, tributária e agrária, os experimentos de crescimento que ora se perseguem apresentam durabilidade do voo de galinha. * Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.

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Os desafios econômicos para 2013

2013 será um ano decisivo para a economia brasileira. Está-se em meio ao maior conjunto de transformações econômicas desde o governo Collor. Depois da redemocratização, o país passou por três etapas relevantes: Etapa 1 – da Constituinte ao primeiro ano do governo Collor. Nela, são plantadas as bases para uma nova participação da sociedade civil. Embora de forma atabalhoada, a economia é liberada do pesado arcabouço estatal do período anterior. Etapa 2 – governo FHC, em que se consegue a estabilidade inflacionária, mas abandona-se completamente a luta pela competitividade da economia Etapa 3 – governo Lula, em que se acelera a inclusão social e se cria um mercado interno robusto, mas, ainda assim, mantendo a competitividade interna ao relento. *** Sem a perna da produção interna, o mercado não se sustenta. No dia 11 de março passado, em entrevista exclusiva ao blog (http://migre.me/cDrAz), Dilma assegurou que sua batalha seria a defesa da indústria brasileira. No decorrer do ano, a estratégia ficaria clara: Medidas de desestímulo aos ganhos especulativos, principalmente através da redução da taxa Selic e do fim do modelo de apreciação permanente do dólar. E também com a redução da relação dívida pública/PIB que está obrigando grandes fundos de pensão a direcionarem seus investimentos para a economia real. Medidas de estímulo aos investimentos produtivos, através da ampliação dos recursos do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), da desoneração fiscal de muitos setores, da ampliação dos contratos de concessão e do aumento da defesa comercial. Atuação sobre setores que influenciam a competitividade da economia, induzindo-o a trocar as margens de lucros elevadas por ganhos de escala. A ação maior foi sobre o setor elétrico, com a MP que reduziu as contas de luz; e sobre o setor financeiro, com os bancos públicos saindo na frente na redução dos spreads. *** 16 anos de juros elevados e de ganhos financeiros fáceis permitiram enorme poder de acumulação para o capital interno, tanto dos fundos de investimentos quanto das grandes empresas. O desafio consiste em definir um conjunto de medidas que os induza a reciclar esse capital, transferindo das operações especulativas para a economia real. *** Trata-se do mais relevante processo de mudanças desde o governo Collor. Como em toda mudança, há uma defasagem entre as medidas tomadas e os resultados alcançados. Tira-se setor privado, investidores e o próprio governo da zona de conforto, obrigando-os a rever práticas seculares, planos de negócio etc. Ao colocar a economia em movimento, após décadas de estagnação, surgem problemas típicos do crescimento, como gargalos em infraestrutura, mão de obra etc. Ao contrário do que supõem economistas mais superficiais, não se pode ter todos os fatores sob controle para então deflagrar o processo de crescimento. É o próprio crescimento que, ao mesmo tempo em que revela as vulnerabilidades da economia, cria as condições para sua superação. *** Mais do que nunca será necessário acompanhar essas mudanças sem oportunismo político, mas identificando os problemas reais e apontando-os para posterior correção. * Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luis Nassif*
Quem sabe se com a cara de Reagan os republicanos aceitariam melhor a moeda de um trilhão de dólares? Economia

Tapando um abismo com uma moeda

Parece coisa de gibi do Tio Patinhas – talvez um plano mirabolante para esconder sua fortuna dos Irmãos Metralha ou poupar o custo de construir uma segunda caixa-forte – mas economistas e analistas dos EUA começam a levar a sério a proposta de cunhar uma moeda de um trilhão ou dois trilhões de dólares como solução para o problema do “abismo fiscal”. O primeiro a fazer a proposta a sério, na virada do ano, foi o deputado democrata Jerrold Nadler, de Nova York. O prêmio Nobel de economia Paul Krugman a apoiou em seu blog e a economista Stephanie Kelton, editora de New Economic Perspectives, criou no Twitter a hashtag #mintthecoin para apoiá-la, multiplicada por especialistas da área econômica e financeira, incluindo os analistas Joe Wiesenthal e Henry Blodget, de Business Insider. [caption id="attachment_74335" align="alignright" width="300" caption="Quem sabe se com a cara de Reagan os republicanos aceitariam melhor a moeda de um trilhão de dólares?"][/caption] Como sabe quem acompanha o noticiário político e econômico dos EUA, a intransigência do Partido Republicano, majoritário na Câmara, bloqueia as negociações de uma solução para a crise enquanto não forem atendidos em sua exigência de corte radical e imediato de despesas do governo federal, incluindo programas que proporcionam assistência social, saúde e alimentos para os cidadãos pobres. Ameaçam negar autorização para elevar o teto (já alcançado) da dívida pública ou aumentar impostos, deixando o país na iminência de declarar moratória ou paralisar atividades governamentais. Para Blodget, isso é irresponsável, equivale a manter o país inteiro como refém e pode ser chamado de “terrorismo econômico doméstico”. Contra essa tática ultrajante e ridícula, julga digna de consideração a tática igualmente ultrajante e ridícula de cunhar a tal moeda, embora julgasse mais digno e sensato que o presidente Barack Obama peitasse a oposição e autorizasse o Tesouro a honrar seus compromissos por meio de uma ordem executiva, apesar de que isso levaria a uma batalha legal na Suprema Corte. A questão é que a lei dos EUA não permite que o governo federal pague suas dívidas simplesmente imprimindo dinheiro. Este precisa ser criado pelo Fed (Banco Central dos EUA) que o põe em circulação comprando dívida federal, mas esta não pode ser aumentada sem autorização do Congresso. Descobriu-se, porém, uma brecha legal: uma lei de 1997 (ironicamente proposta por um deputado republicano, Michael Castle), permite ao secretário do Tesouro (atualmente, Tim Geithner), cunhar moedas de platina na quantidade e valor que bem entender. A intenção era autorizar a emissão de moedas comemorativas para colecionadores e investidores, mas nada na letra da lei impede que o Tesouro cunhe em platina uma moeda com o valor nominal de dois trilhões de dólares, pague com ela parte da dívida nominal com o Fed e mande os líderes do Partido Republicano conversar com suas gentis genitoras. Por maior que seja, a moeda obviamente não teria um valor intrínseco de dois trilhões de dólares: isso significaria quarenta mil toneladas de platina, ou sete vezes a quantidade desse metal minerada em todo o mundo desde sua descoberta em meados do século XVIII. É apenas uma maneira de contornar a proibição de imprimir cédulas ou bônus do mesmo valor. Claro que se fosse cunhada de fato, ela se tornaria o sonho de consumo de todo colecionador de moedas, mas dificilmente chegará às mãos de qualquer deles. Nos EUA, notas e moedas nunca são desmonetizadas, de modo que ela teria de permanecer no Fed ou ser derretida. Alternativamente, também seria possível lançar mão de outra lei, de 2010 (de autoria do também deputado republicano Denny Rehberg), que autoriza o Tesouro a cunhar moedas de paládio de 25 dólares em qualquer quantidade. Por que não 80 bilhões delas? O problema, nesse caso, é que o paládio é tão raro quanto a platina – menos de 5 mil toneladas dele foram mineradas em todo o mundo – de modo que as moedas teriam de ser microscópicas, coisa de um miligrama ou menos. Um deputado republicano, Greg Walden, anunciou que vai propor um projeto de lei para tentar tapar a brecha, mas é improvável que se chegue a tentar pôr em prática qualquer dessas soluções. O mais razoável é que sejam usadas como advertência aos republicanos de que, caso continuem a se portar como crianças, eles poderão ser driblados de maneira igualmente infantil. Caso contrário, será preciso concluir que, embora o mundo não tenha acabado em 2012, em algum momento ele inexplicavelmente se converteu em uma história em quadrinhos. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Antonio Luiz M. C. Costa*
Ugandeses na área VIP de um show do músico norte-americano Sean Kingston. Foto: Will Boase/IPS Economia

Investimentos impulsionam a classe média africana

[caption id="attachment_74334" align="aligncenter" width="500" caption="Ugandeses na área VIP de um show do músico norte-americano Sean Kingston. Foto: Will Boase/IPS"][/caption]   Kampala, Uganda, 8/1/2013 – Os investimentos no setor de serviços da África, o aproveitamento de seus vastos recursos naturais e as sólidas políticas econômicas dos governos nas duas últimas décadas impulsionaram a expansão da classe média no continente a um ritmo mais rápido do que o próprio crescimento populacional. Os investimentos em setores importantes – como bancário, imobiliário, telecomunicações, tecnologias da informação, transporte e turismo – fizeram crescer a classe média do continente, explicou à IPS o pesquisador Lawrence Bategeka, do Centro de Estudos sobre Políticas Econômicas, com sede em Uganda. “A liberalização das economias africanas significou maior eficiência e um rápido crescimento do setor de serviços. O crescimento, impulsionado pelo setor privado, teve como consequência a ampliação da classe média do continente”, afirmou Bategeka. A classe média na África é definida como o grupo populacional que apresenta consumo diário por habitante entre US$ 2 e US$ 20, segundo o informe The Middle of the Pyramid (O Meio da Pirâmide), elaborado no ano passado pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). Por este estudo, a classe média africana passou de 27% da população do continente, em 1980, para 34% em 2010. A África conta hoje com cerca de um bilhão de habitantes. Isto significa taxa de crescimento de 3,1%, contra a de 2,6% da população em geral do continente no mesmo período, diz o BAD. A classe média é considerada fundamental para o futuro da África, já que é crucial para seu desenvolvimento econômico e político. Mas é difícil determinar exatamente os que entram nesse grupo e, portanto, definir sua constituição, segundo o BAD. Em Uganda, uma pessoa é considerada de classe média se tem boa instrução, pode alugar ou comprar uma boa moradia, tem acesso à internet, faz compras habituais em supermercados e gasta o equivalente a US$ 15 por dia, explicou à IPS o administrador associado da companhia privada de estudos Alpha Partners, Stephen Kabovo. Joseph Nsubuga, agente imobiliário próximo de Kampala, capital de Uganda, aproveitou bem a expansão da classe média. “O aumento da renda de muitas pessoas fez disparar a procura por terra e vi nisso uma oportunidade para fazer meus próprios ganhos. Comecei a vender o que havia herdado dos meus pais, e agora meu trabalho é comprar e vender terras. Meu ganho melhorou e posso enviar meus filhos para boas escolas”, contou à IPS. O pedagogo James Babalanda, de Kampala, também viu uma oportunidade para melhorar sua qualidade de vida. Ele disse à IPS que, “desde que as pessoas começaram a ganhar mais, passaram a comprar melhores equipamentos eletrônicos. Então, decidi abrir várias lojas desse ramo na capital e, acredite, tenho uma boa vida. Meu negócio cresce porque há um bom mercado. Bategeka afirmou que há espaço para um crescimento ainda maior da classe média, mas ressaltou que o governo deve investir mais em infraestrutura. “Uganda é um bom exemplo de como as reformas econômicas melhoram a renda das pessoas, e este crescimento seria ainda maior se houvesse mais investimentos em infraestrutura. A maioria dos países tem um lento crescimento do setor privado devido ao déficit em infraestrutura”, acrescentou. Reduzindo o controle estatal e adotando políticas favoráveis ao setor privado, as economias africanas estimularam o crescimento da classe média, e ainda há espaço para uma expansão maior se houver mais investimentos públicos em infraestrutura, insistiu Bategeka. Na década de 1990, as economias africanas adotaram os programas de ajuste estrutural exigidos pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), com políticas de livre mercado. “A liberalização, que se concentrou em um crescimento do setor privado, foi essencial para a expansão da classe média do continente”, pontuou Bategeka, acrescentando que “os países adotaram políticas econômicas sólidas que controlaram a inflação, beneficiando os investimentos em suas economias”. Para este especialista, “os investimentos no setor de serviços são parte do motor do crescimento da classe média no continente. As sólidas políticas macroeconômicas, ao mesmo tempo, atraíram investimentos estrangeiros diretos, que contribuíram para o crescimento da classe média”, ressaltou. Os países do norte da África são os que têm maior classe média. A Tunísia registra a maior proporção de população nesse setor socioeconômico, com 89,5%, seguida do Marrocos com 84,6%. A Libéria é o país que tem a menor concentração de classe média entre os países estudados, com apenas 4,8% de sua população, seguida de Burundi com 5,3%. “A classe média africana é uma fonte fundamental do crescimento do setor privado na África, pois representa uma grande parte da demanda efetiva de bens e serviços”, segundo o BAD. A África subsaariana continua protegida dos fatores negativos que afetam o crescimento em muitas nações em desenvolvimento, e a atividade econômica na região é, em geral, sólida. Espera-se que o crescimento no período 2012-2013 seja igual ao do período anterior, afirma o FMI em suas perspectivas para a região, apresentadas em outubro do ano passado. Envolverde/IPS


por Fred Ojambo, da IPS
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Usar o poder dos negócios para resolver problemas socioambientais

O que mais chama a atenção na lista internacional dos cem melhores presidentes de empresa, publicada na edição de janeiro/fevereiro deste ano da "Harvard Business Review", é a impressionante distância entre o bom (para os acionistas) e o bem (para a sociedade). No artigo da prestigiosa revista, o abismo é literal e está num box cujo título é: "Does doing good help CEOs do well?", ou seja, "Será que o bom desempenho ajuda os executivos a fazerem o bem?". A resposta é inequívoca: "Não há correlação entre resultados financeiros e responsabilidade social". O texto mostra algumas exceções a essa regra e assinala a existência de 5% dos executivos que se destacam no campo financeiro e no socioambiental, sugerindo que a unidade entre as duas dimensões não é impossível. E conclui de maneira singela: "Nós não prevemos um tempo, num futuro próximo, em que medidas de desempenho social serão tão objetivas quanto as medidas de desempenho financeiro que nós desenvolvemos. Isso dito, vamos continuar rastreando o que fazem os presidentes de empresa nas duas áreas, com o objetivo de encorajá-los a brilhar em ambas". Mas a objetividade dos números não tem que ser necessariamente a antecâmara do cinismo. Iniciativas socioambientais palpáveis podem ser muito eloquentes. Na verdade, o desempenho financeiro em virtude do qual os líderes empresariais foram escolhidos esconde custos cuja contabilização mudaria inteiramente o perfil dos seus negócios. Já foi citado, nesta coluna, o trabalho inédito liderado por Jochem Zeitz presidente da Puma: se o consumo de água, a produção de lixo, a emissão de gases de efeito estufa, a poluição atmosférica, a erosão da biodiversidade e o uso de solo ligados a suas atividades tivessem preço, a cadeia de valor da empresa pagaria nada menos que 145 milhões de euros, diante de um lucro da companhia estimado em 220 milhões de euros em 2010. A partir desse cálculo, Jochem Zeitz lançou um movimento chamado Lucros & Perdas Ambientais (Environmental Profit&Losses ou E P&L), cujo objetivo é desenvolver parâmetros para uma contabilidade do capital natural. A empresa dá agora um passo a mais para aprofundar esse movimento e acaba de publicar um relatório de 22 especialistas que discutem o alcance e os limites dos métodos aplicados pelas consultorias contratadas pela Puma, com sugestões para torná-los ainda mais transparentes e precisos. Tão relevante quanto o resultado da contabilidade natural é o fato de a empresa e as consultorias se submeterem a uma avaliação externa e competente a respeito de seus impactos socioambientais. O mais importante, porém, é o fato de que sua inovação tecnológica passa a ser guiada pelo empenho em reduzir estes custos socioambientais. Em outubro de 2012, a Puma lançou produtos (um tênis e uma camiseta) quantificando claramente a redução de impactos ligados a sua produção e seu uso. Dizer que ela só faz isso por visar o lucro não passa de uma tautologia: agregar valor é a essência daquilo que define qualquer empresa. O fundamental é saber o conteúdo dessa agregação, a quem se destina, quais são seus métodos e seus beneficiários. Longe de tomar indicadores financeiros como sinais indiretos de satisfação de demandas sociais, o movimento de Lucros & Perdas Ambientais procura avaliar de forma objetiva os efeitos diretos e reais da gestão empresarial sobre a sociedade. E é nesse sentido que se trata de um movimento social. Minoritário, certamente, mas que já começa a atrair uma quantidade significativa de novos empresários. Uma de suas expressões mais emblemáticas é a Benefit Corporation, organização que contestou o princípio legal que exigia das firmas, pela lei norte-americana, que respondessem única e exclusivamente às demandas dos acionistas e não a qualquer outro objetivo (socioambiental, por exemplo). A partir de 2010, a Justiça americana começa a aceitar, em vários Estados, que essa exigência seja flexibilizada e permite a formação de empresas cujo objetivo explícito é fazer dos negócios e dos mercados um meio de promover transformações sociais. Hoje já existem 664 empresas credenciadas como Benefit Corporations, atuando em 23 países e em 60 setores econômicos. Essas empresas não se contentam em cumprir a lei ou em reduzir os impactos negativos de sua atuação. Seu lema é o que dá o título a este artigo: não se trata apenas de encontrar e explorar uma oportunidade de mercado. O que caracteriza as empresas B Corp é que o modelo de negócio, ou seja, a maneira como o empresário e sua equipe concebem a ideia de sucesso econômico não faz do ganho financeiro um elemento autônomo com relação ao conjunto da vida social em que a firma está inserida. Os valores financeiros são certamente indicadores de peso quanto à gestão empresarial: mas eles não podem ser aceitos como independentes dos resultados da atividade sobre as pessoas e os ecossistemas. A Benefit Corporation é parte de um conjunto maior que os pesquisadores norte-americanos Nardia Haigh e Andrew Hoffman chamam de organizações híbridas. Sua marca distintiva é que constroem pontes entre universos que as ciências sociais sempre consideraram intransponíveis, o da obtenção de lucro e o das realizações socioambientais construtivas. Por enquanto, ínfima minoria. Mas, possivelmente, um caminho para que o cinismo triunfante dos números financeiros não seja a única forma de reconhecimento da competência empresarial. * Ricardo Abramovay é professor titular da FEA e do IRI-USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, e autor deMuito Além da Economia Verde, lançado na Rio+20 pela Editora Planeta Sustentável. ** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/Folha de S.Paulo.


por Ricardo Abramovay*
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COP-18: Um recomeço ou um museu de grandes novidades?

Localizado na Península Árabe e com uma área de apenas 11,57 mil km2 e 1,85 milhões de habitantes, o Qatar é apenas o 164º país em área do mundo e o 148 mais populoso. Mas os números modestos param por aí. Com uma economia baseada no petróleo e no gás natural, o país possui a maior renda per capita do planeta e o décimo maior IDH da região que engloba a Ásia e a Oceania. Porém, atualmente também é o maior emissor de carbono per capita, emitindo aproximadamente 23 vezes mais carbono per capita do que o Brasil. E é justamente em Doha, capital do Qatar, que foi realizada a 18ª Conferência das Partes (COP-18) ¬- o braço executivo da Convenção -Quadro da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Mudança do Clima (UNFCCC, em inglês). Na conferência, decide-se sobre a aplicação e o funcionamento das diretrizes do tratado Protocolo de Kyoto, a implementação dos mecanismos acordados e o cumprimento das metas determinadas. Cada conferência inicia-se com uma agenda preestabelecida, visando dar andamento às atividades colocadas anteriormente e definindo e acordando novas metas e mecanismos. A COP de Doha começou de maneira tensa. Logo antes da Conferência, a ONU alertou que as emissões de carbono em 2010 foram 14% maiores do que se espera para 2020 caso as metas estabelecidas nas COPs anteriores fossem cumpridas. Ou seja, já se emitiu mais do que o natural aumento esperado para dez anos à frente. Com a continuação desse cenário, é certo que não atingiremos a meta de limitar o aumento médio da temperatura global em até 2 ºC antes de 2100. Aliás, o aumento pode ser de até 5 ºC, com consequências calamitosas e imprevisíveis para boa parte da sociedade. Além disso, a COP de Doha também carregava outra enorme expectativa: a extensão do Protocolo de Kyoto, cujo primeiro período acaba em 2012. O Protocolo é o principal tratado internacional que estabelece metas e mecanismos de mercado para que os países desenvolvidos e em desenvolvimento consigam, em conjunto, reduzir as emissões globais para os patamares acordados previamente. Sem uma definição clara sobre o futuro de Kyoto após este ano, todo o esforço realizado anteriormente perderia a inércia e cada vez mais a humanidade se distanciaria das metas necessárias para que tenhamos um futuro comum em harmonia com os recursos do planeta em que vivemos. Entretanto, os representantes dos 190 países envolvidos decidiram pela extensão do Protocolo até 2020. As regras continuam basicamente as mesmas, o que assegura a continuidade do já combalido mercado de carbono e do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Este diz respeito ao financiamento de projetos de reduções de emissões nos países em desenvolvimento. E por que o mercado de carbono está enfraquecido? Depois de atingir um preço recorde de quase 23 euros por crédito em 2008, as incertezas sobre o futuro do Protocolo e a saída de alguns países do acordo, o valor do crédito de carbono despencou nos últimos anos para centavos de euro. Mesmo com a notícia sobre a continuidade do Protocolo, o valor do crédito continua em queda livre, o que impõe um sério problema: com o valor do crédito baixo assim, diversos projetos de redução de emissões de carbono perdem a sua viabilidade. Também foram decididos outros assuntos importantes em Doha: os países desenvolvidos vão disponibilizar mais recursos para suportar ações climáticas nos países em desenvolvimento, as metas de temperatura vão passar por um robusto processo de revisão até 2015 e mais recursos serão destinados para o combate ao desmatamento nos países em desenvolvimento e para a educação e capacitação do público em geral. Isto é fundamental para que a nossa sociedade desenvolva a consciência e a vontade de seguir em frente nesse tema que tem se apresentado tão difícil. No encerramento da COP-18, Christiana Figueres, secretária executiva da UNFCCC, ressaltou que a Conferência abriu novos caminhos para acelerar a luta contra a mudança global do clima: “O mundo agora possui recursos e tecnologia suficientes para atingir as metas. Após Doha, é uma questão de rapidez e determinação para manter a agenda”. Realmente, tecnologia e dinheiro temos. Mas teremos a determinação necessária? Ainda é cedo para dizer... * Magno Castelo Branco é biólogo e doutor em Ecologia e Recursos Naturais, é diretor técnico da Iniciativa Verde. É também consultor do Banco Mundial e da CNIe da Embaixada Britânica sobre assuntos relacionados à mudanças climáticas.


por Magno Castelo Branco*
Foto: Caliel Costa Economia

Aumenta em 50 número de empresas que publicam relatório de sustentabilidade ou justificam

[caption id="attachment_73745" align="aligncenter" width="450" caption="Foto: Caliel Costa"][/caption]   A iniciativa "Relate ou Explique", recomendação lançada pela BM&FBovespa em junho, durante a Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável), com o objetivo de facilitar o acesso de todos os stakeholders (especialmente investidores e analistas) a informações relacionadas aos negócios e às práticas de sustentabilidade das companhias, já conta com a adesão de 253 empresas - eram 203 em maio (aumento de 57,95%). Essas companhias informam, por meio de seus Formulários de Referências, dados relacionados às dimensões social, ambiental e de governança corporativa ou explicam por que ainda não possuem esta prática, de acordo com uma atualização extra, realizada pela BM&FBovespa. Os relatórios de sustentabilidade estão entre as principais fontes de informação usadas por analistas. Como resultado, o público tem acesso a uma tabela, de fácil visualização, que apresenta os links para os relatórios das empresas que publicam as informações, as explicações das companhias que ainda não publicam e também aquelas que deixaram a resposta em branco. As companhias que inseriram as informações no seu Formulário de Referência (item 7.8), até 19 de outubro, integram o banco de dados atualizado. As informações socioambientais ganham cada vez mais importância para os investidores. Segundo uma recente pesquisa realizada com fundos de pensão, desenvolvida pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces), os relatórios de sustentabilidade estão entre as principais fontes de informação usadas por analistas. * Baixe a lista completa das companhias (em PDF). ** Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
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A crise em Portugal: advertência para nós e para o mundo

Nossa primeira surpresa em Portugal, minha e de Marília, quando lá chegamos no dia 23/11/2012, depois da nossa última visita há 25 anos, foi a distância que percorremos no aeroporto antes de chegarmos ao controle de passaportes. Meu deslocamento mais longo a pé em um aeroporto até então fora no México, uma cidade de mais de 20 milhões de habitantes, enquanto Lisboa tem um pouco mais de 2 milhões. Eu não sabia, mas era um indicador das grandes obras que foram implantadas no país no processo de integração de Portugal à Comunidade dos Estados Europeus, depois na União Européia. De fato, Portugal tem hoje uma infraestrutura impecável, para um país de 10,5 milhões de habitantes. Nosso primeiro contato pessoal foi com o taxista que nos levou ao hotel. Pessoa educada, prestativa, que não me deixou colocar as malas no carro. Ele mesmo o fez, com a maior gentileza. No deslocamento fomos conversando. As pequenas perguntas e respostas de praxe sobre a viagem e de onde éramos. Ele estava interessado em saber mais sobre o Brasil, decantado país “aonde a crise não chegou”, segundo ele e muitos outros com quem conversamos. Sem que falássemos em crise – nossa viagem era de turismo –, ele disse que estava diante de um dilema. Era arquiteto, mas já não conseguia trabalho por conta da crise. O Brasil seria uma opção. Ele teve um convite para Angola, mas não aceitara. A razão que alegara era ficar longe da família. Os contatos se multiplicaram, quase todos levavam ao mesmo assunto, a crise. Ao darmos um endereço a outro taxista, ele justificou não conhecê-lo por ser novo naquela atividade. Ele é comerciante de móveis, que ficara com a empresa do pai, onde ele trabalha há trinta anos, desde sua fundação. Com a crise os clientes sumiram e ele disse aos familiares que seria obrigado a fechá-la, depois de já ter despedido seus sete empregados. Ficaram apenas ele e sua mulher. Um cunhado seu, taxista, pediu-lhe para não fechar a firma. Para isso conseguiu-lhe aquele taxi de uma empresa com o qual ele complementa seus rendimentos, mantendo a loja aberta. Em Fátima, Marília foi comprar algo em uma loja da rodoviária e ouviu a dona dizer a outra mulher que já completara 65 anos, mas não poderia vender sua loja, pois, se parasse, não poderia manter sua família. As exceções foram um taxista que nada falou, outro que alegou que as manifestações contra medidas governamentais eram coisa de “comunistas que não queriam trabalhar” e um funcionário do restaurante do hotel que disse não haver crise para ele. Mas esse tinha consciência que essa condição era para ele e outros que trabalhavam na área de turismo, florescente em Portugal, que francamente merece ser visitado, por uma série de razões positivas. Para mim aquela era a sexta viagem a Portugal. A primeira havia sido em 1979, quando voltávamos para o Brasil depois de quase dez anos de exílio. Daquela feita, tivemos a oportunidade de assistir a comemorações dos cinco anos da Revolução dos Cravos em clima alegre e descontraído, de um povo que soube usufruir da liberdade depois de mais de quarenta anos sob a ditadura salazarista. Ficamos empolgados, já que voltávamos esperançados com a anistia e o próximo fim da ditadura militar no Brasil. Seria esse o clima que o Brasil viveria? Tudo era festa, além, é claro, do trabalho duro, tanto para os portugueses quanto para nós, da construção de uma sociedade que imaginávamos republicana e democrática. Daquela feita, passei em Portugal dois meses, tendo a oportunidade de conhecer muita coisa, sobretudo manter boas relações com muitos portugueses. Não há dúvidas que tanto Portugal quanto o Brasil avançaram depois de superadas as respectivas ditaduras. Mas nem tudo seriam sonhos. Os nossos problemas nós pensamos conhecer. Os portugueses também pensam o mesmo sobre os deles. Mas eles estão muito mais conscientes do que nós. Eles sabem que a crise lhes pegou e estão lutando para superá-la, ou livrarem-se dela, enquanto muitos brasileiros parecem viver alhures, cegos, ou fingindo de cegos, para o que se passa no nosso país, o que nos coloca não apenas na rota do tsunami, mas também despreparados para enfrentá-lo. Porém, isso é questão para outra narrativa ou discussão. Assim, voltemos às observações sobre Portugal. Dado o longo período que nos separava da última visita ao país, nossa preocupação não era conhecer coisas novas, mas revisitar aquilo que mais apreciamos nas visitas anteriores. A primeira coisa foi ir à Baixa, o que fizemos no dia em que chegamos descendo a Avenida da Liberdade, junto à qual estávamos hospedados. Fomos, no dia seguinte, visitar um amigo que mora em uma aldeia perto de Fátima, que tivemos a oportunidade de conhecer. Numa visita a pé à Cidade Alta, em Lisboa, onde colocamos à prova nosso preparo físico, fomos surpreendidos por uma chuva, que nos obrigou a ficar algum tempo debaixo de um pequeno toldo de um restaurante que ainda não estava aberto ao público. Por um momento a chuva diminuiu e pudemos continuar nossa caminhada, não sem entrar na primeira loja de quinquilharia que vendia guarda-chuvas. A loja estava vazia. Poderia ser por conta da chuva, mas não só. Nossa entrada foi festejada pelo casal, já sexagenário, que ali trabalhava. Disseram que a crise para eles era grave. O senhor, português de boa cepa, que cultiva a honestidade em todo e qualquer tipo de relação, disse-me para substituir o guarda-chuva que peguei por outro. Este não presta, vai acabar logo, disse. Não nos conhecia, mas para ele freguês é freguês, tem que ser bem tratado e não pode ser tapeado, mesmo que não volte mais. Interessante é a sua maneira de ver a crise. Dizia: o dinheiro sumiu. Parece que ele foi roubado e o esconderam em alguns buracos por aí, que eu ainda não encontrei. Enquanto sua senhora sorria, e nós também, ele se animou e completou. Que roubaram, roubaram, porque ele sumiu! Depois que a Europa adotou a moeda única, os países menos capitalizados e com menos tecnologia, portanto com produtividade menor, tiveram desvantagem na concorrência. As empresas estrangeiras entraram neles e foram dominando a atividade econômica, com imensos recursos. A partir de 2008, com a recessão, os capitais iniciam seu retorno às origens, retirando postos de trabalho e dinheiro da circulação. O lojista tinha razão, o dinheiro sumiu. Só não foi colocado em esconderijos como ele descreveu, mas voltou para casa, mais gordo com os lucros que obteve no hospedeiro. Quando concordei com ele, foi isso que lhe disse. Mas nossa andança continuou. Fomos descendo a Rua do Arco de S. Mamede, até alcançarmos a Rua São Bento. A chuva havia parado e o sol brilhava, quando observamos que havia uma grande movimentação de pessoas descendo aquela rua. Seguimos na mesma direção. A algumas quadras à frente, notamos a presença de policiais e barreiras para carros. Havia uma manifestação mais abaixo, onde estimei a presença de cerca de vinte mil pessoas, em frente à Assembleia da República. Estava sendo votada a Lei do Orçamento de 2013. Mas por que tanta gente protestando contra uma lei orçamentária? Ela não tratava apenas do orçamento, mas também do corte nos valores da aposentadoria e de outros direitos dos funcionários públicos e de autarquias e do aumento de tributos, para ajustar o orçamento aos ditames da troica, União Européia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional. Ali pudemos ouvir alguns discursos das lideranças corporativas e comentários de pessoas. Marília ouviu uma manifestação indignada de uma senhora aposentada que dizia: ...estou aqui porque os meus filhos, apesar de estarem trabalhando, não estão recebendo e eu preciso ajudá-los. Se cortarem a minha aposentadoria como é que ficamos? Interpretamos que ela se referia a atrasos no pagamento dos salários dos filhos. O problema é que, se reclamam, correm o risco de ficarem desempregados, sem esperança de outro emprego. Era sobre aquele evento e outros anteriores que um dos taxistas com quem conversamos se referia, ao dizer que eram comunistas que não queriam trabalhar. Eu lhe observei que a manifestação era de cerca de vinte mil pessoas. Se fossem todas comunistas, os comunistas estariam muito fortes. Ele não comentou. De fato, eram funcionários que defendiam a manutenção de seus direitos, que estão sendo usurpados não apenas em Portugal. Lá estavam comunistas, socialistas, verdes e muitos outros com ou sem militância política. Na Espanha e na Grécia, o problema social é muito mais grave. Pudemos constatar que o desemprego em Portugal é de 16,3%, sendo que para os jovens esse percentual já ultrapassa 31%. Na Espanha, a taxa geral é de 26,2%, sendo que, para a juventude, de mais de 50%; e na Grécia, a taxa geral é de 25,4%. Portugal perdeu mais de 700 mil postos de trabalho desde a crise de 2008. Espanha e a Grécia têm taxas de desemprego correspondentes à dos Estados Unidos durante a crise de 1929, que foi de 27%, com 15 milhões de desempregados. A tragédia foi maior nos Estados Unidos porque, praticamente, lá não havia leis trabalhistas para proteger os trabalhadores, ao contrário da Europa do pós-guerra. Voltando à questão portuguesa, pudemos perceber que a votação da lei orçamentária para 2013, aprovada pela maioria governamental da Assembleia da República, com apenas uma defecção, e rejeitada pela unanimidade da oposição, mostra que o estamento político de Portugal está fortemente polarizado. Os governistas buscam justificar as barbaridades que estão cometendo com um argumento ridículo: para afastar um mal maior. Já a oposição trabalha para levar a decisão a julgamento por inconstitucionalidade junto ao Tribunal Constitucional. Membros influentes do Partido Socialista veem a necessidade de derrubar o governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, antes que ele degrade ainda mais as condições sociais de Portugal, levando o país para o caminho já percorrido pela Grécia e pela Espanha. O Partido Comunista Português assume a mesma postura. A dificuldade está na composição de uma oposição unitária, já que na cúpula comunista há sérias restrições a uma aliança com os socialistas. Mas isso são sequelas de enfrentamentos anteriores, que a gravidade da situação social se encarregará de minimizar. Essa condição de polarização reflete o estado de espírito da sociedade, mas também influi nela, polarizando-a ainda mais, na medida em que oferece uma oportunidade aos prejudicados de se manifestarem e lutar por seus direitos, enquanto uma elite ganha dinheiro como nunca e cultua “o bom viver” da grande burguesia internacional. Em Lisboa estão presentes, se não todas, mais de 90% das grifes europeias de luxo. A tendência é o acirramento do confronto, mesmo porque, a permanecer a atual política econômica do governo português, a situação social será tão grave que poderá produzir revolta geral. Mas qual a natureza desse confronto? No que pudemos assimilar do que vimos e ouvimos, há duas visões que sintetizam as duas partes polarizadas. A de que a economia deve servir às pessoas e à evolução da humanidade, e a de que são as pessoas que servem à economia e ao lucro, mesmo que isso conduza à tragédia social. Nota do autor: Este artigo é apenas o primeiro de uma série que submeteremos à discussão sobre as contradições e extravagâncias que dominam a sociedade chamada moderna, que caminha a passos largos para o impasse. Cabe-nos encontrar um caminho para o reordenamento desse mundo de fantasias e mentiras que se esfacela à semelhança de um circo que pega fogo, enquanto o palhaço tenta distrair as pessoas para que elas não percebam a tragédia que se aproxima. * Arnaldo Mourthé é historiador e autor do livro História e Colapso da Civilização. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Arnaldo Mourthé*
ec7 Economia

Recuperar o estado de confiança face à dura incerteza da economia em crise

Dois importantes analistas da economia contemporânea – o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein (longa entrevista ao cientista político coreano Lee-Su-hoon publicada pelo jornal sul-coreano Hankioreh), sobre as tendências do capitalismo mundial; e o brasileiro Delfim Netto (artigos recentes em ‘Carta Capital’, especialmente o de 12/12, que trata da “Engrenagem da Confiança”) – analisam, cada qual à sua maneira, a situação presente de crise econômica, recorrendo aos conceitos keynesianos de ‘incerteza dura’ e ‘estado de confiança’. O ponto de convergência, se é que assim se pode falar da análise de ambos, é o apelo à ação política como via de superação da ‘incerteza dura’ no mundo da economia, face aos graves perigos que esta traz à vida e à paz social. Vejamos como se colocam essas abordagens e que consequências nos trazem às nossas condições concretas de vida humana nos próximos anos. Estou simplificando ao extremo as convergências das abordagens teóricas de Wallerstein e Delfim Netto, porque na verdade suas proposições de agir político face à crise capitalista são muito diferentes com relação ao conteúdo da ação suscetível de recriar um ‘estado de confiança de longo prazo’. Segundo a concepção keynesiana de Delfim Netto, a persistência de um clima de incerteza no meio empresarial brasileiro, especialmente financeiro, de teor ideológico, mesclado com psicologia social inspirada na crise da economia mundial, paralisa o investimento privado, mesmo quando há sensação de melhoria de situação econômica, segundo a expectativa revelada pela esmagadora maioria das famílias consultadas. De maneira muito sintética, a abordagem do ex-ministro e professor Delfim Netto tem foco na ação econômica do Estado brasileiro com vistas a reanimar o ‘espírito animal’ dos empresários (queda dos juros, desonerações, investimento público vigoroso etc.), que ele aplaude no governo Dilma; mas também aplaude a política social, e aqui está a novidade – ‘que melhora os níveis de igualdade’, passo a passo, com a reativação econômica, porque é com este clima de legitimidade social que se recupera o estado de confiança tão almejado. Por outro lado, a visão comum sobre a necessidade de superação das condições de incerteza econômica financeira, que desde 2008 domina a economia mundial, faz de Wallerstein um obstinado defensor da ação política e civil, não propriamente para restaurar o estado de confiança no mundo dos negócios, como apregoaria um keynesiano convicto, que este sociólogo não é. Mas é como precaução contra a barbárie coletiva e mundial, que a longa crise estrutural da economia capitalista ainda enfrentará nos próximos 20 ou 30 anos, que se precisariam adotar, em todos os recantos do planeta, micro ou nano ações de defesa contra a desordem global, decorrente da desestruturação do capitalismo mundial ora em curso. Segundo este autor, é a emergência de inúmeros novos atores políticos e sociais, atuando para criar novas condições de vida, trabalho, atendimento a necessidades e organização das economias domésticas, que criaria condições para o trânsito da incerteza dura criada pela crise financeira estrutural, e de hegemonia dos Estados nacionais líderes do sistema-mundo, para uma nova organização internacional, que sucederia o capitalismo mundial. Nesse entremeio, muitos riscos de xenofobias e autoritarismos, mas também muitas oportunidades novas se abririam para criação de nova sociedade e novos Estados democráticos. Mas é a ação das micro e nano iniciativas nacionais e sociais que é capaz de mover este devir histórico, porque não haverá hegemonias planetárias de Estados e de mercados globais, já que padeceriam de uma crise sistêmica, insolúvel pela via global e financeira, que caracteriza o capitalismo contemporâneo. Estejamos ou não de acordo com o diagnóstico sobre a crise global de Wallerstein, temos de lhe reconhecer o mérito enorme da sua proposta de ação, como uma espécie de semeadura de esperança que se devolve à sociedade civil, para preparar os caminhos de transição para uma ordem democrática pós-capitalista. E não é pela derrubada violenta da ordem capitalista global, mas pelo suicídio do sistema. No entanto, é preciso ter muita cautela, porque se realmente o sistema capitalista mundial vive esta crise longa e irreversível, de que nos fala este autor, forças poderosas da barbárie estarão também sendo liberadas, contra as quais precisamos nos prevenir e nos proteger. * Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Guilherme Costa Delgado*
ec6 Economia

A direção inversa da economia brasileira

Os fatores que favoreceram o crescimento da economia e do emprego “não são mais suficientes para que este processo prossiga. A continuidade do processo, assim como sua sustentabilidade, exige maior participação do setor industrial, inverso do que vem sendo observado”, constata o economista Leandro Horie. O crescimento econômico, que trouxe a estabilização da inflação e o aumento do emprego, por outro lado “nos colocou em uma ‘camisa de força’”, diz o economista Leandro Horie à IHU On-Line, ao analisar a situação da economia brasileira. Ele refere-se aos limites da “sustentabilidade do crescimento econômico a partir de um maior dinamismo da indústria, seus encadeamentos setoriais e os efeitos positivos de seu investimento”. Para ele, “esta faceta” é constatada ao observar os resultados da economia neste ano, que, mesmo com estímulo, “não consegue melhores resultados”. Na avaliação de Horie, o baixo progresso técnico da indústria brasileira está comprometendo o crescimento econômico, porque é o “único setor que tem possibilidade de crescer dentro dele mesmo”. O atual desempenho da indústria é justificado por uma “‘reespecialização regressiva’ e de perda de densidade das cadeias nacionais importante”, apesar de este ser um movimento que se “arrasta” desde os anos 1980. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o economista também avalia a ascensão da baixa classe média, e diz que ela está relacionada à “criação de postos de trabalho de ocupações ‘típicas’ deste estrato como escriturários, vendedores, secretárias, técnicos de nível médio, trabalhadores na produção de bens, funcionários públicos sem nível superior, entre outros”. Apesar de esta política ter favorecido a distribuição de renda, “os ocupados que ascenderam socialmente para a ‘baixa classe média’ teriam atingido seu cume social neste contexto. A mesma dinâmica econômica que promoveu um contingente considerável de trabalhadores ‘miseráveis’ para a ‘baixa classe média’ pode, por outro lado, impedir que continuem ‘escalando’ a pirâmide social”, avalia. Leandro Horie (foto abaixo) é mestre em Economia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, com a dissertação Política econômica. Dinâmica setorial e a questão ocupacional no Brasil. Confira a entrevista. IHU On-Line – O processo de distribuição de renda está ameaçado? Por quê? O que isso significa? A forma de distribuir renda no país é sustentável? Leandro Horie – Estamos diante de um momento fundamental. Antes de tudo, existem dois conceitos importantes neste sentido que não podem ser desprezados: um é a melhora da distribuição de renda propriamente dita, ou seja, quando aumenta a proporção da renda dos mais pobres em detrimento dos mais ricos; outro é o caminho pelo qual isso pode ocorrer, através de um movimento de ascensão social proporcionado por um aumento da renda do trabalho, por exemplo. Já ocorreu um movimento de ascensão social muito forte no Brasil, notadamente na década de 1970, mas ao mesmo tempo houve uma piora na distribuição da renda nacional. São movimentos contraditórios? De forma alguma, presume-se apenas que, quando analisado em conjunto, o ideal seria que os dois ocorressem em conjunto para esta melhora. Por isso o movimento recente de ascensão social e melhora na distribuição de renda foram muito expressivos, mesmo que se leve em conta que as pessoas realmente “ricas” são subestimadas por completa insuficiência de bases de dados, o que pode prejudicar um pouco a análise. Colocadas essas questões, o aumento no nível de crescimento econômico e da geração de postos de trabalho, as políticas de renda e, principalmente, a valorização do salário mínimo foram fundamentais para a melhora da distribuição de renda nos últimos anos. Ela acabou por gerar maior dinamismo no mercado consumidor interno e assim favoreceu mais o crescimento econômico. A valorização do salário mínimo teve papel importante por se tratar de um salário de referência para muitos tipos de ocupações, dentre as quais boa parte nos serviços e no comércio (dois dos setores que sustentaram este aumento na geração de postos de trabalho). O emprego industrial teve também crescimento devido ao fato de que o aumento no consumo interno favoreceu as atividades direcionadas a este mercado. No geral, o que se observou é que os trabalhadores da base da pirâmide ocupacional observaram crescimento na sua renda superior aos demais, o que proporcionou um movimento dinâmico “positivo”, onde houve aumento na proporção da renda dos mais pobres em relação ao total e um movimento de ascensão social. “Camisa de força” No entanto, este crescimento econômico e do mercado de trabalho se deu sem grandes modificações na condução do regime macroeconômico oriundo desde a década de 1990. Se por um lado ele proporcionou o fim da inflação, o que é positivo, por outro nos colocou em uma “camisa de força” justamente porque ele limita as possibilidades de maior sustentabilidade do crescimento econômico a partir de um maior dinamismo da indústria, seus encadeamentos setoriais e os efeitos positivos de seu investimento. Inclusive esta faceta está clara no período a partir de 2011, onde a economia brasileira, mesmo com estímulos, não consegue melhores resultados. Do ponto de vista do processo de distribuição de renda juntamente com ascensão social (como ocorrido no Brasil recentemente), isso acaba por gerar impactos já que ele se deu vinculado ao mercado de trabalho. Havia “espaço” para que a incorporação dos trabalhadores promovesse melhora na renda dos mais pobres e ascensão social, que foi potencializada pelo papel do salário mínimo. Porém, o problema agora reside no fato de que um prosseguimento do processo de melhora da distribuição de renda, juntamente com ascensão social, pode num primeiro momento ficar “travado”, podendo, caso persista uma inflexão negativa na economia brasileira, sofrer uma reversão. Ficará “travado” porque a melhora ocorrida até agora se deu pela incorporação ao mercado de trabalho e ao salário mínimo. Preenchido estes espaços, passa a haver necessidade de que, para melhora da distribuição de renda juntamente com ascensão social, haja aumentos salariais consistentes e melhora no perfil ocupacional, ou seja, o aumento na geração de postos de trabalho de maiores salários que presumem maior conhecimento, especialização ou qualificação, por exemplo. É aí onde pode se localizar o problema atual: tanto um aumento nos salários da economia como um aumento na geração de postos de trabalho de maiores salários depende do crescimento econômico e que haja maior complexidade na estrutura produtiva, que por sua vez gera maior sustentabilidade ao ciclo econômico. E estes dois aspectos estão diretamente ligados ao papel da indústria brasileira: se ela está se enfraquecendo, todo seu encadeamento produtivo também diminui, e da mesma forma as possibilidades de maior sustentabilidade do crescimento econômico. Do ponto de vista da discussão sobre distribuição de renda e ascensão social, os efeitos são, além de menor crescimento econômico, a definição do perfil de postos de trabalho em direção a menores salários, já que uma economia com uma estrutura produtiva mais pobre também demanda menos serviços especializados, técnicos, entre outros postos de trabalho de maiores salários. Com isso acaba somente sendo gerados postos de trabalho de menores salários, assim como aqueles de alta rotatividade, notadamente no comércio, na construção civil e numa infinidade de serviços pessoais. Portanto, respondendo à sua pergunta de forma sintética: sim, a prosseguir este cenário de estagnação econômica e diminuição da densidade tecnológica e da densidade das cadeias produtivas nacionais, o processo de melhora da distribuição de renda e de ascensão social está ameaçado. Além disso, os fatores que favoreceram esta melhora não são mais suficientes para que este processo prossiga. Então, a continuidade do processo, assim como sua sustentabilidade, exige maior participação do setor industrial, inverso do que vem sendo observado. Seria uma nova etapa; e, sem uma estrutura produtiva mais complexa que a atual, não há sustentabilidade. IHU On-Line – Em que medida o baixo desempenho da indústria nacional também contribui para esse processo? Leandro Horie – Contribui porque impede uma maior diversificação produtiva. Com isso a sustentabilidade do processo de crescimento econômico é severamente comprometido. Há de se salientar que, além de ser o único setor econômico que tem possibilidade de crescer dentro dele mesmo, como uma resposta a um aumento na competição, por exemplo (em lugar de ser muitas vezes uma resposta ao crescimento da renda corrente, como é o caso do comércio e dos serviços, o que lhe dá um perfil passivo), ele possui fortes encadeamentos setoriais, o que aumenta a complexidade produtiva e favorece o aumento da renda corrente. Então, quanto mais ocorre o processo de aumento de diversificação produtiva, de densidade tecnológica e de crescimento das cadeias nacionais, mais a economia se torna complexa, competitiva e de maior produtividade, o que demanda mais atividades especializadas (de maiores salários), eleva a taxa salarial geral e mantém a economia mais “imune” a flutuações típicas da economia mundial. E o baixo desempenho do setor industrial no país o coloca cada vez mais na direção inversa. IHU On-Line – Quais as razões do baixo desempenho da indústria brasileira? Também compartilha da visão de que o Brasil está se desindustrializando? Leandro Horie – São duas questões que têm carregado considerável contestação nos debates econômicos recentes. Pessoalmente, acredito que sim: a indústria brasileira tem observado uma “reespecialização regressiva” e de perda de densidade das cadeias nacionais importante. Mas há de se destacar que este movimento não é novo: a meu ver, este é um processo que vem se arrastando, em intensidades diversas, desde meados da década de 1980 e principalmente na de 1990, em contraposição ao fato de que, no final dos anos de 1970, a indústria brasileira era alinhada tecnologicamente aos países centrais. E esta regressão tecnológica e desadensamento das cadeias produtivas poderá significar, se não houver reversão, em uma “desindustrialização” do país. A desindustrialização em si não é necessariamente um processo ruim, mas existem dois tipos: a positiva, decorrente da transferência de atividades de menor valor adicionado ao exterior (permanecendo no país as atividades de maior valor adicionado), processo típico de países de industrialização madura (com alta produtividade) e alta renda per capita, que estimula o crescimento do setor de serviços, em especial os produtivos. Outra forma, negativa, ocorre onde a indústria não atingiu sua maturidade em seu desenvolvimento, passando a haver uma desindustrialização precoce, com a diminuição da participação da indústria na economia, na geração de empregos, além do crescimento do déficit comercial do setor. O caso brasileiro, em minha opinião, é o negativo. Partindo-se do pressuposto de que este processo vem ocorrendo desde a década de 1980, elenco alguns elementos que, interagindo entre si, acabaram por colocar o setor na atual situação. Na década de 1980, talvez os principais problemas tenham sido a ausência de crescimento econômico aliado ao aumento da inflação, que significaram diminuição gradual das taxas de investimento da economia. E isso se tornou sério a partir do momento em que se consolidava um novo padrão produtivo (da tecnologia de informação e microeletrônica) no mundo, o que afastou cada vez mais a indústria brasileira dos novos setores-chave industriais. Quando se inicia a década de 1990, a abertura econômica do país sem qualquer política explícita de defesa da indústria (a exceção foi o setor automobilístico) expôs um setor cada vez mais defasado nacionalmente em uma competição que, além de incluir os países centrais, agora continha os países asiáticos como a Coreia e a China. Muitas empresas nacionais ou quebraram ou foram compradas por estrangeiros, desnacionalizando cada vez mais o setor industrial. Conjugado a este cenário, surge o Plano Real. Estabilização O modelo de estabilização do Real, grosseiramente falando, presumia um câmbio fixo (pelo menos até 1999) ou flexível, mas valorizado, já que a “contaminação” da taxa de câmbio nos índices de inflação era (e ainda é) considerável, sendo que desvalorizações cambiais abruptas, além de indesejadas, devem ser evitadas na medida do possível para não difundir qualquer possibilidade de propagação de inércia inflacionária (se propagar no tempo e nos outros preços) e nem aumentar a indexação da economia. Isso, por sua vez, presume uma taxa de juros mais alta que a praticada pelo mercado internacional justamente para atrair recursos externos de forma a possibilitar a manutenção de uma taxa de câmbio valorizada. Isso teve um efeito positivo nos índices de inflação, mas do ponto de vista da atividade econômica em geral e da indústria especificamente, taxas de juros altas, além de valorizar o câmbio (que barateia os produtos importados e encarece a produção nacional) também desestimula o investimento. Este é o cenário macroeconômico que vivemos desde então e que não foi modificado em sua essência (apesar de se reconhecer que houve recentemente certa flexibilização), e que, por isso, tem resultado neste cenário complexo para a indústria nacional; sem sua modificação, dificilmente a indústria brasileira reverterá sua tendência de regressão tecnológica e desadensamento das cadeias produtivas. Ou seja, em minha opinião, existem vários fatores para a desestruturação da indústria (e o seu baixo desemprenho atual), mas estruturalmente eles residem principalmente na política macroeconômica praticada (com algumas modificações, mas mantida em sua essência) desde meados da década de 1990. Sem modificá-la, as possibilidades de reversão deste quadro se tornam cada vez mais escassas, caras e de menor efeito na economia. IHU On-Line – Como o senhor vê a discussão acerca da ascensão de uma nova classe média no país? O que define essa nova classe média? O que é possível vislumbrar e que interpretações faz dessa ascensão econômica? Leandro Horie – É importante dizer que as definições de classes sociais são relativamente arbitrárias e carregam relativa subjetividade, ou seja, muitas vezes um critério de estratificação social de um determinado trabalho ou autor não é necessariamente igual a outro. Porém, mesmo levando em conta estas diferenças, quase todas as pesquisas publicadas recentemente indicam que houve de fato um movimento de ascensão social e de melhora na distribuição de renda. Particularmente, em minha dissertação de mestrado, como estava trabalhando com o universo dos ocupados (e não a população inteira do país), utilizei a estratificação social proposta pelo professor Waldir Quadros, da Unicamp, que considera as ocupações e os rendimentos proporcionados por elas, o que acaba por definir certos agrupamentos ocupacionais em torno dos respectivos estratos sociais. Por exemplo, com esta metodologia, os ocupados em ocupações de trabalhos manuais menos complexos e/ou sem diferenciação, trabalhador instável como “bico”, de menor escolaridade e mais precários do ponto de vista das relações de trabalho são comuns aos “miseráveis”. E as ocupações de empregadores, profissionais liberais, funções de direção e gestão, de maior complexidade, escolaridade e formalização são mais comuns à média classe média e a alta classe média. Baixa classe média Nos últimos anos, houve um crescimento expressivo da baixa classe média, justamente porque os vetores econômicos do período favoreceram a criação de postos de trabalho de ocupações típicas deste estrato como escriturários, vendedores, secretárias, técnicos de nível médio, trabalhadores na produção de bens, funcionários públicos sem nível superior, entre outros. Ou seja, ocupações típicas do comércio, serviços não especializados e indústria (que no caso foi predominantemente de baixa intensidade tecnológica). Do ponto de vista econômico, o crescimento desse estrato também foi importante porque promoveu um aumento na demanda interna, elemento fundamental para o dinamismo da economia brasileira no pós-2004. E quais são os entraves desse fenômeno: a principal é que, em minha opinião, os ocupados que ascenderam socialmente para a baixa classe média teriam atingido seu cume social neste contexto. A mesma dinâmica econômica que promoveu um contingente considerável de trabalhadores “miseráveis” para a baixa classe média pode, por outro lado, impedir que continuem escalando a pirâmide social. A continuação da ascensão social destes ocupados para a média e alta classe média torna-se necessário reconstruir as estruturas ocupacionais (principalmente as intermediárias e superiores), trazendo a indústria de transformação novamente como protagonista da economia e direcionada a atividades de maior intensidade tecnológica, a fim de gerar mais demanda por serviços especializados, promovendo crescimento das cadeias produtivas, dos outros setores pelo efeito multiplicador, e assim aumentando os caminhos ocupacionais rumo a uma maior possibilidade de ascensão social. IHU On-Line – Em recente declaração, o senhor disse que a geração de emprego se concentrou em ocupações de até dois salários mínimos. O que isso significa e aponta em relação ao futuro no que se refere à melhoria social? Leandro Horie – Não se trata aqui somente de uma questão monetária, ou seja, de quanto se recebe, mas sim de que tipo de ocupação. No caso, o problema é menos a renda e mais as possibilidades geradas pela ocupação que proporciona esta renda. Colocado de outra forma, o mercado de trabalho gerou predominantemente postos de trabalho com esse nível salarial porque se tratam de ocupações que são presentes nos setores mais dinâmicos neste período recente, como comércio, serviços, construção e indústria intensiva em trabalho. O crescimento do emprego (e que promoveram este movimento de ascensão) se deu em ocupações com caminhos ocupacionais restritos (sem maiores possibilidades de ascensão profissional), muitas vezes com estruturação do emprego em ocupações que eram consideradas “porta de entrada” do mercado de trabalho, especialmente no comércio e serviços. Para que haja prosseguimento no movimento de ascensão social destes ocupados, é necessário haver, além da necessidade de adquirir maior qualificação/escolaridade, geração de fato de vagas de perfil de média ou alta classe média. E isso acaba esbarrando, por sua vez, na estrutura produtiva brasileira que, empobrecida, tem gerado número aquém do necessário. Por exemplo, é discurso corrente na imprensa sobre a suposta falta de engenheiros no Brasil. Porém, ao mesmo tempo em que em média se formam 30 mil engenheiros por ano no país, em 2011, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho e Emprego – CAGED-MTE, foram geradas menos de 11 mil novas vagas para engenheiros no mercado de trabalho. É lógico que se pode argumentar que existe muita assimetria na qualidade dos formados e outros fatores qualitativos aí, assim como o fato de parte dos formados ter optado por ser autônomo ou ter mudado de área, estar informal, etc. Mas, independentemente disso, a verdade é que a demanda é muito menor do que aparentemente faz-se crer, e isso é resultado direto deste empobrecimento produtivo, que acaba por demandar menor quantidade de trabalho destes profissionais mais especializados. E esse é só um exemplo e existem muitos outros. IHU On-Line – O governo Lula recebeu muitos elogios por conta do aumento gradual do salário mínimo. Que avaliação o senhor faz desta política, relacionando com a atual situação do emprego no país? Que desdobramentos é possível vislumbrar para a próxima década? Leandro Horie – Entendo que a política de valorização do salário mínimo, negociada com as centrais sindicais, foi muito importante neste cenário de melhora social verificada nos últimos anos, inclusive ocorrendo sem qualquer problema do ponto de vista econômico, ao contrário do que muitos “analistas” pregavam, de que esta política iria gerar vários problemas. Acho que esta medida foi a mais importante tomada pelo governo Lula, pela série de efeitos positivos que gerou na economia. Acredito também que a política de valorização do salário mínimo, neste contexto de estagnação econômica, tem papel fundamental ao impedir uma maior queda nos salários da economia e manter, mesmo que sem a força de antes, certo nível de demanda interna, que tem impedido que o país piore ainda mais seus indicadores de crescimento econômico, dado cenário de queda dos investimentos, crise internacional e estagnação da indústria. E a política de salário mínimo continua relevante justamente porque impacta diretamente em grande parte das vagas geradas atualmente no mercado de trabalho, que se localiza primordialmente nos serviços e no comércio. O salário mínimo é referência para a maior parte das vagas geradas no mercado de trabalho: quanto maior seu valor, mais impacto ele tem no restante da economia. Dado que avalio como positiva esta política, espero que ela continue de forma adequada e sustentável, e negociada permanentemente com as centrais sindicais, já que boa parte do movimento de diminuição substancial dos miseráveis do país se deve a ela, ou seja, dado a média salarial no país ainda ser muito baixa (em comparação a outros países como a Coreia do Sul, passíveis de comparação), um aumento no salário mínimo certamente tem impacto positivo na economia como um todo e nos menores salários em particular. IHU On-Line – Quais as características existentes entre a alta classe média, média classe média, baixa classe média, massa trabalhadora e miseráveis? Qual a disparidade salarial entre elas? Leandro Horie – Basicamente, os estratos possuem as seguintes características: A alta classe média é constituída pela elite dos ocupados, dentre eles os empregadores de empresas com mais de 10 empregados, dirigentes de empresas, vários tipos de profissionais liberais, etc. alta escolaridade (a maior dentre todos os estratos) e formalização. Na média classe média, o perfil ocupacional é semelhante ao da alta, sendo menor, porém, a quantidade de empregadores e aumenta o peso do trabalho assalariado, principalmente o de “White Collar” ou “Colarinho Branco”. Na baixa classe média, o estrato com maior crescimento nos últimos anos, há predomínio de ocupações como funções administrativas mais rotineiras, trabalhadores especializados e/ou da manutenção da produção de bens, vendedores, de trabalhadores manuais qualificados, entre outros, como escriturários, funcionários públicos sem nível superior, vendedores no comércio, prestadores de serviços pessoais, entre outros. Aqui existem também empregadores, mas este geralmente de pequenos negócios. No estrato da massa trabalhadora, há predomínio dos trabalhos em asseio e conservação, trabalhos manuais rotineiros, além de trabalhadores não especializados na produção, como contínuos, trabalhadores no asseio e conservação, etc. E os miseráveis. Geralmente se constituem de ocupados com trabalhos irregulares, instáveis, “bicos”, ou seja, com alta informalidade e baixa escolaridade (a menor entre todos). Estão relacionados a trabalhadores agrícolas sem propriedade da terra, trabalhadores na agropecuária, ocupados envolvidos em coleta de resíduos (reciclagem), entre outros. Como o foco são as ocupações e a renda derivada delas, e não somente a renda, as diferenças dos rendimentos entre os estratos são variáveis, já que englobam diversas ocupações. Porém, para o ano de 2009, em média, a alta classe média recebia, grosseiramente falando, aproximadamente 10/12 vezes mais que os miseráveis. * Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
ec5 Economia

Crise abre espaço para ultra-conservadores na Europa

A crise econômica tem fornecido um solo fértil na Europa para o retorno dos ultraconservadores ao primeiro plano político. Partidos de extrema-direita estão em alta, com a recuperação por parte dos setores mais reacionários dos espaços conquistados nas últimas décadas pelos direitos civis. Xenofobia, populismo, discurso católico fundamentalista e defesa dos valores do cristianismo, antieuropeísmo e um nacionalismo patriótico como poção mágica para todos os males do mundo são algumas das suas manifestações mais evidentes.   A crise tem fornecido um solo fértil na Europa para o retorno dos ultraconservadores ao primeiro plano político. Partidos de extrema-direita estão em pleno auge, com a recuperação por parte dos setores mais reacionários dos espaços conquistados nas últimas décadas pelos direitos civis. Xenofobia latente, populismo, ressurgimento do discurso católico fundamentalista e da defesa dos valores do cristianismo, antieuropeísmo e um nacionalismo patriótico como poção mágica para todos os males do mundo são algumas das manifestações mais evidentes da reconfiguração que está atravessando a Europa. Há algumas semanas, um importante senador da extrema-direita húngara, Márton Gyöngyösi, pediu que se preparassem “listas dos judeus que vivem aqui, sobretudo aqueles que estão no governo e no parlamento, que, de fato, representam um risco para a segurança da Hungria”. Com 44 deputados em uma câmara que conta com 386 integrantes, o partido de Gyöngyösi, Jobbik, é a terceira força política húngara. Longe de limitar-se aos países do Leste da Europa, a marcha dos ultraconservadores chegou também ao coração do sistema europeu de governo. Ao final de novembro, o Parlamento europeu aprovou a designação de Tonio Borg ao posto de comissário europeu de Sanidade e Consumo. Essa nomeação é um paradoxo absoluto: Borg é um homem político da Ilha de Malta cujo catálogo ideológico vai contra as leis e princípios que a maioria das democracias europeias defende: opõe-se ao aborto, ao divórcio e ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. A emergência destes personagens corresponde ao crédito que recuperaram na sociedade. A França, que é um símbolo universal dos direitos cívicos e sociais, da liberdade e do caráter laico da sociedade, conhece um férreo movimento de protesto contra uma série de leis que, entre outras coisas, apontam para a legalização do casamento entre homossexuais. Os “anti”-direitos já reuniram na rua mais de 100 mil pessoas e neste fim de semana se prepararam para protagonizar uma nova manifestação contra as leis promovidas pelo Executivo socialista do presidente François Hollande. A igualdade já não é percebida como um progresso, mas sim como uma ameaça, uma extensão contaminante do sistema político e econômico. Os partidários do “casamento para todos” e seus adversários se enfrentam hoje nas ruas do país. A resposta política se traduz nas urnas: aumento da representação da extrema-direita e volta à cena dos chamados “tradicionalistas”, ou seja, os representantes da corrente conservadora de inspiração religiosa. Esses partidos ou movimentos deixaram a posição discreta para ocupar amplos espaços de poder. Não só conquistam cargos ministeriais, mas também influenciam os partidos da direita que terminam incluindo seu ideário nos seus programas eleitorais. A direito de governo (UMP) tem na França um componente ultraconservador em seu interior, a chamada “direita popular”. Nas eleições presidenciais de abril e maio passado, a extrema direita da Frente Nacional obteve quase 18% dos votos, com o que, assim como na Hungria, passou a ser o terceiro partido, atrás das conservadora UMP e dos socialistas. O ex-presidente francês François Sarkozy fazia constantes referências aos “valores cristãos” da França e da Europa. No entanto, nenhuma estatística constatou um renascimento da prática religiosa, muito pelo contrário. Esses valores conservadores e cristãos aparecem como um amparo ante a agressividade desestabilizadora do mundo. A aposta parece totalmente contraditória: esses partidos populistas, ultradireitistas e conservadores se apresentam como uma alternativa modernizadora. A época em que o ingresso de um membro da extrema-direita em uma coalização de governo provocava crise na Europa já vai longe. A extrema-direita se banalizou e o mesmo está ocorrendo com o populismo conservador. Um estudo sobre a direita europeia publicado na Grã-Bretanha pelo centro de estudos Chatham House destaca que “os partidos populistas extremistas (PEP) representam um dos desafios mais urgentes para as democracias europeias”. O mesmo informe explica que os “partidos populistas extremistas mudaram suas estratégias nas últimas décadas. Isso permitiu a eles responder as novas questões que se colocavam e aos acontecimentos de forma mais inovadora e eficaz que os partidos já estabelecidos”. Os analistas do Velho Continente coincidem em aceitar que os eleitores desses partidos são o que o informe de Chatham House chama de “losers of globalization” (os perdedores da globalização). Trata-se de vastos setores sociais, sem qualificação, frequentemente de certa idade, para quem a globalização representou um castigo. A frustração ante um sistema que passou por cima deles buscou um culpado e o encontrou rapidamente: os estrangeiros e todas as formas de transtorno cultural. O pesquisador Matthew Goodwin escreve no informe de Chatham House que todos os seguidores dos partidos populistas extremistas “compartilham uma característica fundamental: sua profunda hostilidade em relação à imigração, ao multiculturalismo e ao aumento da diversidade cultural e étnica”. Pátria, família e pureza. Essa consiga ressoa hoje em todas as partes. O jornalista Daniel Vernet, ex-chefe de redação do vespertino Le Monde, agrega outra análise ao pertinente informe de Chatham House. Além da hostilidade aos estrangeiros, os eleitores ultraconservadores do Velho Continente tem outra característica comum: “a designação da União Europeia como deus ex-machina da grande empresa de destruição das proteções nacionais. Tecnocratas apátridas estariam ditando sua lei aos governos e aos povos despojados de sua soberania”. Além dos milhões de pobres que deixou no mundo, a globalização já conta com seus filhos políticos: os populistas extremistas. A defesa da identidade nacional, a restauração da ideia de fronteira, a culpabilização dos estrangeiros e a denúncia da corrupção do sistema político são seus cavalos de batalha. Essa ideologia se expandiu por toda a Europa nos anos 30. Em seu renascimento atual só mudou um par de figuras: o causador de todos os males já não é o judeu, mas sim o muçulmano. O muçulmano é “o outro” por excelência, o corruptor, o responsável pela diluição da identidade nacional, pelo desemprego e pela insegurança. É ele quem põe em perigo as bases da sociedade ocidental e cristã. O outro eixo de seu discurso é ao ataque ao cosmopolitismo financeiro e a uma suposta tecnocracia que atua nas sombras para destruir o nacional. A ofensiva ultra-conservadora mistura tudo em um mesmo projétil e mira no mesmo alvo. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Eduardo Febbro*

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