Repensar a economia. O desafio do Século 21.

Entrevista

Repensar a economia. O desafio do Século 21.


por Patricia Fachin, Luana Nyland, Natália Scholz, do IHU-Online


“Não se trata de contestar o crescimento econômico por si só. Trata-se de fazer a pergunta que a ciência econômica habitualmente não faz: crescer para quê, para produzir o quê, para ter qual resultado na sociedade?”, questiona Ricardo Abramovay, professor titular do curso de Economia da Universidade de São Paulo (USP).Embora tenha sido possível produzir bens de consumo emitindo 21% a menos de gases de efeito estufa e consumindo 23% menos materiais, o crescimento econômico mundial foi tão expansivo, nas últimas duas décadas, que os esforços econômicos e ambientais não surtiram efeito. Com base nestas informações, e partindo de uma posição moderada, nem pessimista nem otimista demais, o professor da USP, Ricardo Abramovay (foto), destaca que, no atual período de transição para uma economia de baixo carbono, os desafios para o planeta atingir a sustentabilidade perpassam por mudanças não só na forma de produzir bens de consumo e serviço, mas também de repensar a ciência econômica.Essas foram as discussões centrais da palestra que Abramovay ministrou na Unisinos, na quarta-feira, 12/4/2012, participando do Ciclo de Palestras Rio+20, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Apesar de ser favorável ao conceito de economia verde, um dos temas centrais a serem abordados na Rio+20, ele é enfático: “Reconhecer a importância das inovações tecnológicas embutidas na ideia de economia verde não significa dizer que a economia verde e, muito menos o suposto crescimento verde, são capazes de resolver os problemas do Século 21”. Para ele, a desconfiança que os diferentes participantes da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável têm em relação à efetividade da economia verde “tem razão de ser”. E esclarece: “Esta desconfiança só será atenuada caso se consiga associar as inovações tecnológicas da economia verde – que são importantes e necessárias, a partir da ideia de limites e luta contra as desigualdades”.Antes do evento, Abramovay conversou com a IHU On-Line pessoalmente e falou sobre o que significa repensar a economia e os desafios intelectuais e políticos que envolvem essa discussão. Segundo ele, o momento atual exige mudanças decisivas, especialmente “nos propósitos da vida econômica. (...) Para a ciência econômica (a economics) o sentido da vida econômica não é algo que deva ser questionado: porque cada indivíduo vai cuidar de si e o resultado vai ser o melhor para todo mundo. Isto talvez fosse verossímil em um mundo de três bilhões de pessoas. Mas em um mundo tão desigual, e rumando para dez bilhões de habitantes, temos que nos perguntar para que se produz e quais são as finalidades da vida econômica. É neste sentido que penso que precisamos ir além da economia, ou seja, repensar a economia com base nas suas origens, como uma ciência organicamente integrada à questão do bem viver e da ética. E não como uma mecânica dos interesses individuais de cuja interação resultaria, de forma não intencional, não voluntária, maior riqueza e, portanto, supostamente, maior bem-estar”, esclarece.O professor também comenta a atuação dos líderes políticos que, preocupados com o crescimento econômico, não estão atentos às questões ambientais. Em relação aos governos de esquerda e a um projeto que minimize as desigualdades sociais, ele enfatiza que “as grandes aspirações emancipatórias que marcam os movimentos socialistas desde o início do Século 19 terão que ser concebidas hoje no âmbito de uma sociedade em que mercados e empresas privadas terão um papel decisivo e que não será esvanescente”. Uma discussão profunda, assegura, consiste em “repensar o mercado, vislumbrar a possibilidade de fazer dele um dos mais importantes instrumentos de transformação social. Mas não se trata absolutamente de suprimi-lo, nem imaginar que é possível ter uma instância exterior ao mercado que o controlasse e que seria o Estado”.Ricardo Abramovay é graduado em Filosofia, mestre em Ciência Política e doutor em Sociologia. É professor titular do curso de Economia da Universidade de São Paulo (USP). Para acompanhar as publicações do pesquisador, acesse sua home page abramovay.pro.br, ou pelo Twitter @abramovay.Confira a entrevista.IHU On-Line – Quais serão os temas mais críticos para o Brasil na Rio+20, considerando a agenda ambiental brasileira?Ricardo Abramovay – A grande dúvida é que papel o Brasil, como liderança global, vai exercer na Rio+20. Este papel será o de se adaptar à desconfiança que os temas ambientais vêm suscitando cada vez mais no G-77, como se eles fossem sinônimo de protecionismo por parte dos países desenvolvidos, como se fossem antagônicos às grandes metas do desenvolvimento? Ou, ao contrário, o Brasil tentará mostrar para os outros países do G-77 que, submeter o comércio mundial a regras civilizatórias referentes ao trabalho e à manutenção dos serviços dos ecossistemas, dos quais dependemos, pode ser um fator fundamental não só para a sociedade, mas também para a própria prosperidade dos negócios?Trata-se de dois caminhos antagônicos, e os documentos até aqui produzidos (o Rascunho Zero e o documento brasileiro) flertam com a ideia de que temas ambientais são formas usadas para impor barreiras comerciais não tarifárias. Esta ideia traz um prejuízo muito forte para o avanço da discussão global sobre o desenvolvimento sustentável.IHU On-Line – Você tem uma visão otimista da economia verde, mas esta percepção não é um consenso entre ambientalistas, pesquisadores, líderes políticos e empresas. Alguns alegam que se trata de uma mercantilização das questões ambientais pela economia, e outros veem na economia verde a alternativa para pensar um mundo sustentável. Como debater e avançar na Rio+20, se cada uma das partes tem uma compreensão diferente do que seja economia verde?Ricardo Abramovay – As críticas feitas por países como Cuba, Bolívia, Venezuela, Equador e alguns países do Caribe, na reunião da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), em novembro de 2011, sobre a Rio+20, são procedentes. Por mais que se consigam avanços tecnológicos no sentido de melhorar o uso dos recursos ecossistêmicos dos materiais e da energia, e por mais que se avance em direção de energias renováveis, tudo isto é largamente insuficiente para enfrentar os grandes problemas socioambientais do Século 21. Então, reconhecer a importância das inovações tecnológicas embutidas na ideia de economia verde não significa dizer que ela (a economia verde) e, muito menos, o suposto crescimento verde são capazes de resolver os problemas que temos pela frente.Para resolver essas questões, faltam duas coisas. A primeira delas resulta do fato de que, por mais que a economia verde tenha avançado, isto é, por mais que sejamos capazes de produzir cada dólar, euro, yuan ou real emitindo menos por unidade de dólar e usando menos material por unidade de dólar, isto não é suficiente para dar conta dos problemas ambientais do planeta. Nos últimos 20 anos, a economia global produziu emitindo 21% a menos de gases de efeito estufa por dólar, e consumindo 23% menos materiais (relativamente a cada unidade de valor levada ao mercado) do que há duas décadas. Só que o crescimento da economia mundial foi tão espantoso que as emissões em termos absolutos, nesses 20 anos, aumentaram 39%, e o consumo de materiais aumentou 41%. Isto mostra que é redondamente falsa a expectativa de que se pode continuar com o pé no acelerador do crescimento e, por outro lado, que se possam introduzir inovações tecnológicas que mudariam a composição e os métodos produtivos para prosseguir no ritmo atual de expansão da economia mundial.IHU On-Line – Os líderes políticos têm consciência de que não é mais possível crescer dessa maneira?Ricardo Abramovay – Deveriam ter, porque esses dados que citei se encontram nos principais documentos internacionais produzidos pelas Nações Unidas e pelas mais importantes consultorias globais.Portanto, a desconfiança dos países que mencionei anteriormente com relação à economia verde tem razão de ser. Esta desconfiança só será atenuada caso se consiga associar as inovações tecnológicas da economia verde – que são importantes e necessárias – a dois elementos decisivos: limites e luta contra as desigualdades. Não é possível imaginar que os andares superiores da pirâmide social mundial continuem com seu atual consumo de recursos na expectativa de que a economia verde seja capaz de propiciar que todas as pessoas tenham acesso a esse mesmo patamar. As contas não fecham: não há energia e materiais suficientes para fazer isso.IHU On-Line – Como os tomadores de decisão econômica tendem a se apropriar desse conceito de economia verde? Corre-se o risco de novamente se mercantilizar a questão ambiental, como aconteceu na Revolução Verde, em que se aumentou a produção de alimentos, mas até hoje não se resolveu o problema da fome, sem falar na ampliação do uso de agrotóxicos? As aspirações do mercado e das corporações são as mesmas daqueles que querem um planeta sustentável? As empresas estão dispostas a fazer transformações sociais?Ricardo Abramovay – As empresas agem por interesse. O interesse delas é, antes de tudo, sobreviver. Mas dizer simplesmente que as empresas visam somente ao lucro e não estão preocupadas com as questões socioambientais é ingênuo. Sobretudo, no que se refere às grandes corporações, porque elas fazem estudos prospectivos relativos ao que será o mundo nos próximos 50 anos e procuram se organizar estrategicamente em função disso. Então, o que domina hoje o ambiente corporativo – se não domina ao menos tem uma forte influência – é a ideia de que estamos transitando de um mundo no qual o básico na inovação é melhorar a produtividade do trabalho e do capital para um mundo onde o mais importante desafio da inovação é melhorar a quantidade e a qualidade de bens de consumo e serviço que se consegue obter da mesma quantidade de matéria e de energia, emitindo e poluindo menos.Por que as empresas estão preocupadas com isso? Por razões duplamente materiais: por causa do seu “próprio bolso”, e também pela consciência – e isto é inédito – de que matéria, recursos bióticos e energia não são infinitos e, portanto, os critérios e parâmetros para seu uso terão de ser mudados. Além disso, tem uma questão adicional que é a influência da sociedade civil sobre as empresas. Esta influência foi muito importante com relação à indústria do tabaco, cuja importância tende a declinar em função da imensa pressão social. De certa forma, a indústria automobilística, cada vez mais, também é vista dessa forma. As pessoas que vivem nos centros metropolitanos se sentem mais felizes quando conseguem organizar sua vida sem automóvel em comparação a quando conseguem acesso ao ele. A indústria agroalimentar também não poderá manter a atitude predominante até aqui, de produzir alimentos que geram obesidade, e tentar compensar isto colocando nos bairros pobres quadras de esportes para as pessoas fazerem exercícios.IHU On-Line – De que maneira a economia de baixo carbono poderia fomentar a indústria nacional e interferir no processo de desindustrialização?Ricardo Abramovay – Foi anunciada uma medida segundo a qual o Brasil levará para a Rio+20 a ideia de que as compras públicas em todo o mundo devem ser pautadas por critérios de sustentabilidade. Isto é um elemento positivo. Mas quando se observa o que está acontecendo em termos de política industrial desde o início do atual governo, e quando se considera que estamos no ano da Rio+20, percebe-se que há distância entre desenvolvimento sustentável e as preocupações com relação à desindustrialização. Cito um exemplo: o jornal Valor Econômico publicou, no início de março, um balanço das ações do governo federal para atenuar o quadro de desindustrialização pelo qual o Brasil está passando. Nessa página do Valor há uma tabela com 16 medidas que foram tomadas desde o início do governo, e seis medidas que foram prometidas. Destas 22 medidas, nenhuma tem relação com a economia verde. As medidas do governo, por outro lado, são de incentivar o crédito, conceder isenções fiscais, subsídios, etc., e, como sempre, com forte ênfase no setor automobilístico.O Brasil está na contramão de países como a China, Coreia do Sul e Estados Unidos. Duas semanas depois da publicação dessa reportagem, houve um encontro entre os 28 principais industriais brasileiros e a presidente Dilma. O único momento em que a questão ambiental apareceu foi quando o representante da Vale se queixou da lentidão no licenciamento ambiental.Ou seja, o Brasil fez algo muito importante do ponto de vista do clima, que foi reduzir o desmatamento, que era de 24 mil quilômetros quadrados em 2004 para sete mil quilômetros quadrados hoje. Mas temas como a questão urbana, a mobilidade e o crescimento industrial estão completamente dissociados da economia verde. É como se a economia verde fosse uma espécie de tema florestal. Nesse sentido, o Brasil está muito aquém do necessário para um país que será sede da Rio+20.IHU On-Line – Pode citar alguns exemplos das iniciativas que visam a alcançar maior eficiência energética e material, gerando menos poluição e impactos ao meio ambiente, que já estão sendo implantadas na China e na Coreia do Sul?Ricardo Abramovay – O ritmo global da transição para a economia verde é muito mais lento do que deveria ser. Em todo caso, há exemplos importantes nos carros elétricos, em residências que não só consomem menos energia que o habitual, mas chegam a fornecer energia para a rede e nos investimentos em eólica e solar, sobretudo vindos da China. O planejamento urbano também recebeu sinais positivos, com cidades sendo pensadas em função das pessoas, e não dos carros. Este é um dos elementos mais importantes para se conseguir compatibilizar a vida social com os ecossistemas. Cidades sustentáveis são uma grande esperança de que os limites não sejam destrutivos no sentido de bloquear as realizações das pessoas. Pelo contrário, espera-se que o enfrentamento desses limites traga para os indivíduos as maiores possibilidades de eles viverem uma vida que vale a pena ser vivida, uma vida melhor e não pior. Ou seja, uma vida em que uma pessoa não fique três horas parado dentro de um carro, em que as pessoas possam trabalhar próximo de suas residências para que conheçam as pessoas do seu bairro e que vivam num círculo local e, ao mesmo tempo, cosmopolita. Isto porque as pessoas estão conectadas, ligadas às redes sociais.IHU On-Line – Como imagina que seria a lógica de funcionamento das indústrias da economia de baixo carbono, considerando que hoje há muita pobreza no entorno das regiões nas quais estão instalados os portos, as mineradoras e as hidrelétricas? No caso da construção de um campo de energia eólica, poder-se-ia criar um bolsão de pobreza também?Ricardo Abramovay – Hoje uma das grandes preocupações das mineradoras, por pressão da sociedade, é como será possível extrair minérios – porque eles são necessários – de maneira não predatória. Isto depende menos da vontade das empresas do que do ambiente em que elas estão atuando. O Brasil tem uma tendência a fazer uma mineração cada vez menos predatória. Nos países andinos, minha impressão é que os problemas socioambientais da mineração são bem mais graves do que no Brasil. Ainda é cedo para saber que regime de trabalho fazendas de energia eólica vão implantar. Mas no Nordeste brasileiro, por exemplo, elas já estão sinalizando algo positivo, que são novas fontes de renda para agricultores familiares em cujas terras vão se instalar.IHU On-Line – Quando o economista francês Serge Latouche esteve na Unisinos, disse que não conhecia o termo economia de baixo carbono, mas sim pós-carbono. De todo modo, ele argumenta que para resolver os problemas ambientais era preciso atuar além da economia. O senhor concorda com esta percepção? A resolução da questão ambiental passa pela economia ou está para além dela? Pensar em uma economia de baixo carbono é significativo para as transformações necessárias neste momento, ou é preciso ir além da economia?Ricardo Abramovay – Nas línguas latinas, a palavra economia serve para dizer coisas que em inglês são diferentes. Ir além da economia pode significar ir além da ciência econômica (economics). Isto sem dúvida é verdade, porque a ciência econômica padece de um duplo vício. De um lado, ela afirma-se como ciência à medida que se separa da ética, porque as decisões dos atores são tomadas em função de seus ganhos. Então, imagina se você tivesse um restaurante, e eu entrasse aí. Você não vai reduzir o preço do almoço porque eu sou eventualmente simpático a você. Quer dizer, as relações econômicas não passam por relações pessoais, e esta é a condição de eficiência. Nesse sentido, a economia se emancipa da ética. É importante essa emancipação. Em segundo lugar, a ciência econômica se afirma como ciência à medida que se emancipa da natureza. O nosso desafio maior, para o qual a ciência econômica tradicional não está municiada, é reintegrar a ética à economia, e a natureza à sociedade. Nesse sentido, concordo que temos de ir além da economia verde e da ciência econômica, da economics.Mas a economia real (em inglês, a economy), entendida como o uso que a espécie humana faz dos recursos ecossistêmicos necessários à sua reprodução, como ciência do metabolismo, da relação entre a espécie humana e os meios dos quais ela dispõe para viver, não será suprimida nunca, ao menos enquanto a humanidade existir. Mas acho que não era disso que o Latouche falava. Ir além da economia, no fundo, para ele, é ir além do mercado. Claro que tem que ir além do mercado. Isto é necessário, porque tem de se fazer da economia uma ecologia social. Nosso grande desafio intelectual e político consiste em pensar como podemos nos organizar para usar os recursos de que dispomos, buscando produzir cada vez mais bem-estar. Quando se fala de ir além da economia, do que se está falando? De ir além do mercado? Sim, isto é necessário. Mas o que isso significa? Ir além do mercado para fazer um planejamento central? Duvido que Latouche concorde com esta ideia. Se é ir além do mercado no sentido de que o crescimento não pode ser a orientação geral, segundo a qual se norteia o uso dos recursos, aí então a concordância com esta ideia é, felizmente, crescente e atinge segmentos do próprio mainstream da ciência econômica.IHU On-Line – Qual seria, então, um novo projeto para a economia? Os Estados ainda precisam interferir mais no mercado financeiro?Ricardo Abramovay – Imaginar que os Estados sejam capazes de dar conta do desafio que nós temos é ingênuo. Os Estados têm um horizonte de curto prazo e, muitas vezes, de muito mais curto prazo do que as empresas. Os Estados tendem a planejar em horizontes relativamente curtos e, mesmo quando planejam em horizontes longos, a sua gestão é muito menos clarividente do que habitualmente se supõe. Isto não significa abolir o planejamento, que é absolutamente decisivo. Muito menos as imposições legais que orientam a conduta dos agentes econômicos. Significa, isto sim, que o planejamento do uso dos recursos ecossistêmicos não responde mais à dicotomia convencional de um mercado supostamente cego e de um Estado visionário.Hoje, temos dispositivos extremamente poderosos de conhecimento da vida social por meio das mídias digitais. Para se ter uma ideia: um smart phone hoje tem a mesma potência computacional do Programa Apollo, que foi para a Lua em 1969. Essa potência está nas mãos das pessoas. O professor Ignacy Sachs conta que o planejamento econômico na Polônia, nos anos 1950, era baseado no ábaco, um antigo instrumento de cálculo. Imagine as possibilidades de planejamento que os dispositivos digitais contemporâneos oferecem. Ainda mais que são descentralizados e estão nas mãos das pessoas. A compatibilidade entre planejamento e descentralização é muito maior do que já foi na história humana. Na tradição marxista, o planejamento seria descentralizado porque haveria assembleias, conselhos com pessoas participando, que emitiriam sinais sobre o que a sociedade quer, etc. Só que isto não funciona, resulta em autoritarismo; é ineficiente. Mas é claro que os preços não podem ser os únicos vetores informativos sobre o que é a demanda social. E os processos cooperativos aos quais a economia da informação em rede abre caminho têm um potencial transformador extraordinário.IHU On-Line – Nesse sentido, qual a relevância das articulações em rede, tais como aquelas do Ocupe Wall Street?Ricardo Abramovay – São muito relevantes! Porque movimentos como esses representam, em primeiro lugar, uma denúncia contra a injustiça. Houve nos países desenvolvidos um processo impressionante de reconcentração de renda. A concentração de renda nos Estados Unidos, hoje, atingiu o nível que tinha em 1929, depois de ter caído durante todo esse período. Em 1980, 1% mais rico da população norte-americana ficava com 8% da renda; hoje, esse mesmo percentual fica com 24% dela. Triplicou a participação na renda do 1% mais rico.Comunidades virtuaisMas tão importante quanto esse movimento, digamos assim, que assume um caráter mais espetacular e de rua, é um movimento mais difuso que se manifesta em forma de organização, de comunidades virtuais voltadas a produzir bens e serviços, seja de maneira gratuita, seja de maneira paga. Um exemplo disso é a Wikipédia, que é o sétimo site mais visitado da internet, tem 300 milhões de visitas por mês e produz algo que é extremamente importante, conhecimento. A qualidade da Wikipédia é totalmente comparável à qualidade da Enciclopédia Britânica, que é feita por especialistas. A Wikipédia é feita quase que integralmente, com exceção de uma pequena equipe administrativa, em caráter voluntário e gratuito e produz uma riqueza impressionante. O software livre também. Inclusive, algumas empresas, como a IBM, que é uma empresa privada, se apoiam em software livre para muitos dos serviços que oferecem. Ou seja, há um borrão, uma mistura entre o mercantil, o privado e o público – o colaborativo que abre horizontes muito promissores para o funcionamento da vida econômica.Portanto, o debate é se a cooperação humana vai poder triunfar sobre o simples autointeresse ou não. O que as mídias digitais propiciam é que essa cooperação humana ganhe uma eficiência em uma escala não paroquial completamente inédita, que abre horizontes que não conseguimos imaginar quanto à sua fertilidade.IHU On-Line – Então a mudança na economia, na política e nos rumos do mercado financeiro, passa por uma participação do cidadão por meio das redes?Ricardo Abramovay – São mudanças decisivas no próprio sentido, nos objetivos, nos propósitos da vida econômica. Esta que é a questão básica da nossa conversa. Para a ciência econômica (a economics), o sentido da vida econômica não é algo que deva ser questionado: porque cada indivíduo vai cuidar de si e o resultado vai ser o melhor para todo mundo. Isso talvez fosse verossímil em um mundo de três bilhões de pessoas. Mas em um mundo tão desigual e rumando para dez bilhões de habitantes, temos que nos perguntar para que se produz e quais são as finalidades da vida econômica. É nesse sentido que penso que precisamos ir além da economia, ou seja, repensar a economia com base em suas origens, como uma ciência organicamente integrada à questão do bem viver e da ética, e não como uma mecânica dos interesses individuais de cuja interação resultaria, de forma não intencional, não voluntária, maior riqueza e, portanto, supostamente, maior bem-estar.IHU On-Line – A segunda proposta da Rio+20 é pensar uma governança mundial. Qual deveria ser o perfil desta governança? Ela será possível?Ricardo Abramovay – Ninguém sabe. Nós sabemos criar agências nas Nações Unidas e alguns acordos internacionais, mas isto está muito aquém do mínimo necessário para se enfrentar essas questões. E, mesmo assim, não estamos fazendo nem aquilo que está nas convenções já criadas. Apesar da existência de uma Convenção da Biodiversidade ratificada amplamente, o Índice Planeta Vivo do WWF apresenta redução de 30% entre 1992 e 2008 nos trópicos, decorrente de desmatamento, poluição dos mares e aquecimento global, entre outras coisas. São realizadas reuniões climáticas anuais e as condições climáticas continuam se degradando; a desertificação não para de aumentar; os países não chegam a um acordo. E a raiz disto é que, por enquanto, nenhum governo aceitou a ideia de que é necessário repensar o sentido do crescimento econômico. Não se trata de contestar o crescimento econômico por si só. Trata-se de fazer a pergunta que a ciência econômica habitualmente não faz: crescer para quê, para produzir o quê, para ter qual resultado na sociedade? A ideia de que o crescimento é bom porque produz empregos, impostos e um pouco de inovação é insuficiente para legitimar o que a vida econômica representa para a sociedade.IHU On-Line – Recentemente, a presidente Dilma declarou que na Rio+20 não há tempo para fantasias, referindo-se àqueles que são contrários à construção de novas hidrelétricas. Como o senhor interpreta a posição brasileira de investir em mais hidrelétricas nos próximos anos, considerando que se busca um modelo sustentável?Ricardo Abramovay – É normal que uma presidente diga isso. Você precisa de energia. A preocupação dela é fazer com que as coisas funcionem. Agora, o que não me parece razoável, sobretudo num país como o Brasil, é imaginar que construir hidrelétricas na Amazônia para redistribuir essa energia para o resto do país, num modelo energético altamente centralizado, seja a única maneira possível de obter segurança energética. Por mais complexa que possa ser a questão, tenho a impressão que isso é um raciocínio do Século 20, não do 21. O último livro de Jeremy Rifkin, por exemplo, menciona o esforço de produção descentralizada de energia, com a associação entre uso sustentável dos recursos e inteligência digital. É um caminho que precisa ser mais explorado.IHU On-Line – Gostaria de retomar a questão de que os líderes políticos ainda não têm a percepção de investir nas questões ambientais. Tratando-se especificamente dos líderes de esquerda, como vê esse posicionamento? O que impede a esquerda de lançar novas propostas?Ricardo Abramovay – A esquerda europeia, sobretudo, se organizou até o início dos anos 1980 a partir da ideia de que o caminho da transição para uma sociedade melhor passava por nacionalizações democráticas. Era o programa da Union Populaire na França. Nacionalizar os dez maiores monopólios do país colocaria nas mãos do Estado três quartos da capacidade de investimento. Quando o governo Mitterrand, na França, assumiu o poder em 1981, a ideia que dominou era de se estatizar e nacionalizar uma parte importante da vida econômica, fazendo com que esse segmento escapasse à lógica do mercado e passasse a obedecer a uma lógica social. Isso durou um ano e foi cabalmente revertido. E o mais impressionante é: nunca mais, em qualquer parte do mundo, a esquerda voltou a conceber um modelo de transição com esse conteúdo.Acerto de contasSó que não se fez um acerto de contas com essa estratégia da qual hoje ninguém mais fala. Quer dizer, havia uma estratégia que, no fundo, era de crítica ao mercado e que rumava em direção à ideia segundo a qual uma sociedade melhor é aquela em que mercados e empresas privadas vão exercendo papéis cada vez menos importantes. Posteriormente, os líderes abandonaram essa ideia, só que continuaram sendo de esquerda. Se as pessoas não concordam mais com esses valores, continuam sendo de esquerda por quê?As grandes aspirações emancipatórias que marcam os movimentos socialistas desde o início do Século 19 terão que ser concebidas hoje no âmbito de uma sociedade em que mercados e empresas privadas terão um papel decisivo e que não será esvanescente. Os equipamentos intelectuais que tínhamos para pensar a emancipação social, quando a estratégia era a nacionalização democrática, não foram substituídos por um corpo conceitual que nos permita pensar esses processos emancipatórios no âmbito de uma sociedade em que mercados e empresas privadas são fundamentais.O que acontece com a esquerda europeia é que, quando chega o momento da eleição, todo mundo vira anticapitalista: banaliza-se a crítica à globalização e, muitas vezes, às grandes empresas. Só que esta crítica se torna puramente retórica. A meu ver, esse impasse só pode ser substituído por uma reflexão muito séria sobre o que é empresa privada e o que são mercados. E aí justamente a economia é muito insuficiente. A sociologia, particularmente a sociologia econômica, pode dar uma contribuição muito forte.IHU On-Line – A falta de proposta da esquerda decorre, em certa medida, do fato de ela ter sido cooptada pelo neoliberalismo ou por ela não ter conseguido avançar por si só?Ricardo Abramovay – A social democracia foi certamente cooptada. Mas, na verdade, o problema é que se perdeu o horizonte anterior e ninguém sabe muito bem qual é o novo horizonte. Dizer que tem que ir além da economia, quando você está numa economia em que o mercado tem o papel decisivo, é complicado. O que queremos dizer com essa discussão? Menos mercado? Menos empresas privadas? Certamente há um amplo acordo sobre o fato de que o domínio das finanças sobre a vida econômica extrapolou os limites do razoável. Mas isto é um consenso mesmo em Davos. Nossa discussão é mais profunda e se refere àquilo que até aqui foi encarado como quadratura do círculo: a possibilidade de uma economia voltada ao bem-estar das pessoas e que respeite as fronteiras dos ecossistemas, mas que se organiza fortemente com base em incentivos de mercado e em organizações privadas.Por isso que considero tão promissores os movimentos sociais que se formam a partir da sociedade da informação em rede. André Gorz depositava imensa esperança nestes movimentos emancipatórios, embora ele não tenha visto o que me parece a salutar e promissora mistura entre economia cooperativa e economia privada no interior desses movimentos.IHU On-Line – A partir da história do capitalismo, o senhor vislumbra o quê?Ricardo Abramovay – Não é salutar para uma sociedade moderna (foi o que mostrou o curto Século 20) suprimir a concorrência nos mais diferentes planos, e não é salutar dissociar inteiramente a vida econômica dos ganhos que a oferta de bens e serviços pode traduzir para as pessoas. Mas, ao mesmo tempo, o que está se tornando mais claro é que o potencial da cooperação, da colaboração direta entre as pessoas na oferta eficiente de bens e serviços, é tão grande e foi tão maximizado com o advento da sociedade da informação em rede que nós vamos ter, provavelmente, uma mistura das duas coisas. Uma mistura, porém, que não pode ser encarada como, de um lado, um setor e, de outro lado, outro setor. Essa mistura vai ser um verdadeiro borrão em que o setor privado vai estar fortemente determinado nas suas ações por preceitos de natureza ética e de respeito aos ecossistemas, e o setor associativo também vai ter uma lógica competitiva, sem a qual ele acaba caindo no clientelismo. Isto já começa a ocorrer.IHU On-Line – É como juntar um pouco das ideias da direita e um pouco das ideias da esquerda em uma terceira via, ou uma alternativa pela cooperação, como o senhor diz?Ricardo Abramovay – Não é uma terceira via. Ignacy Sachs usa a figura da terceira margem do rio. É fundamental repensar o mercado, vislumbrar a possibilidade de fazer dele um dos mais importantes instrumentos de transformação social. Mas não se trata absolutamente de suprimi-lo, nem imaginar que é possível ter uma instância exterior ao mercado que o controlasse e que seria o Estado. Há uma organização empresarial norte-americana chamada Benefit Corporation que vai exatamente nessa direção. Os mercados devem converter-se em meios para atingir finalidades sociais. Num certo sentido é também o que faz o Grameen Bank, quando se associa com a Danone. Mas tudo isso é muito incipiente. É muito mais forte a reflexão cética, segundo a qual nós perdemos o horizonte, do que a reflexão propositiva, que diz que se está construindo um novo horizonte.IHU On-Line – Professor, para encerrar, pode nos falar sobre o seu novo livro intitulado Muito além da economia verde, que será lançado na Rio+20, pela editora Planeta Sustentável?Ricardo Abramovay – Este livro nasceu de um pedido que me foi feito pela Fundação Avina para aprofundar uma reflexão sobre a nova economia, sem que soubéssemos muito bem o que este termo significava exatamente. Foi constituído um grupo, no interior da Avina, que durante várias semanas realizou reuniões virtuais, e isto ajudou a dar os contornos do que seria o trabalho, que acabou se tornando o livro. Não é muito habitual que organizações da sociedade civil proponham uma reflexão abrangente sobre o significado geral da vida econômica para as sociedades contemporâneas. O ponto de partida da Fundação Avina é uma categoria cara a Leonardo Boff e ao filósofo colombiano Bernardo Toro, a ética do cuidado. À primeira vista, nada poderia ser mais distante da ética do cuidado do que a frieza e a impessoalidade própria das relações econômicas numa sociedade capitalista. Muito mais do que formular ideais abstratos sobre o que poderia ser uma vida econômica em que a ética do cuidado orientasse os comportamentos, nossa reflexão conjunta procurou duas coisas. Em primeiro lugar, o texto afasta-se das soluções fáceis que consistem em dizer (como vimos no início de nossa conversa) que há soluções rápidas e indolores para a transição pela qual devemos passar.MutaçãoTalvez seja nesse sentido que Marina Silva (autora do prefácio do livro) fala que não é transição e sim mutação. Por mais importantes e necessárias que sejam as conquistas científicas e tecnológicas da economia verde, elas não são e não podem ser um atalho para permitir que a economia mundial siga no rumo do crescimento, que agora seria um crescimento sustentável. O livro se inspira no pensamento de Amartya Sen, no sentido de mostrar que o fundamental não é apenas o aumento da riqueza, mas sim o que as pessoas fazem com ela. Tão importante quanto esta abordagem crítica do crescimento econômico e da riqueza é o fato de que há sinais muito significativos de mudanças (base para as mutações das quais fala a Marina) por parte de empresas, dos Estados e de organizações da sociedade civil.A quantidade e a profundidade crítica de documentos vindos de algumas das mais importantes consultorias globais são um sintoma disso. Forma-se um movimento empresarial incipiente, porém expressivo, contra a submissão da vida econômica aos imperativos das finanças. Mais do que isso, estamos vendo o início de um surpreendente questionamento, vindo do próprio meio de negócios, sobre o que significa valor. Isto entre estudiosos, consultorias, mas também no interior de algumas grandes empresas. Essa reflexão relaciona-se com um processo crescente de participação de organizações da sociedade civil na própria gestão empresarial. A sociedade da informação em rede abre, sobretudo, um horizonte, um conjunto de possibilidades para a cooperação que são muito promissoras. Sou muito grato à Fundação Avina por ter me aberto a possibilidade de aprofundar tais reflexões.* Publicado originalmente no site IHU-Online.

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Política econômica permanece no reino do curto prazo

“Sob pressão, bancos privados reduzem juros” é a manchete do dia 19 de abril, do jornal O Globo. A Folha de S.Paulo também vai no mesmo caminho: “Bancos privados cedem a Dilma e barateiam crédito”. Esse diário complementa a informação, destacando que o “Banco Central também reduziu a Selic e levou o Brasil a ter a menor taxa de juros reais já registrada”.Para um leitor desavisado, essas notícias podem levá-lo a imaginar que estão em curso medidas que acarretariam mudanças substantivas na política econômica. Convém, contudo, prudência e melhor entendimento da atual realidade macroeconômica, antes de conclusões apressadas.O maior dilema do governo, em sua imagem junto à opinião pública, é a necessidade de se contrapor à tendência apontada pela desaceleração do ritmo da atividade econômica, e a sua tradução em termos de uma baixa taxa de crescimento da economia para este ano de 2012. Dilma Rousseff quer evitar a repetição do desempenho do país em 2011, quando o PIB apresentou uma taxa de expansão de apenas 2,7%, a menor dentre todos os países da América do Sul.No ano passado, o primeiro sob a presidência de Dilma, o Banco Central abusou de sua conhecida política de elevação da taxa básica de juros, levando a taxa Selic a 12,5% ao ano, depois de cinco sucessivas decisões de aumentá-la, entre janeiro e julho. A justificativa para tamanho furor – em meio às taxas de juros negativas ou próximas de zero que predominam em todos os países que querem se desenvolver de fato – era o velho e surrado argumento do combate à inflação. Era a prevalência do samba de uma nota só, melodia ao gosto dos banqueiros e transnacionais que comandam o país desde a década de 1990.Agora, até os mais ortodoxos admitem que todas as projeções de comportamento da inflação para os próximos meses não oferecem o menor temor e o que temos pela frente é apenas o risco de mais um ano de baixo crescimento da economia.É este temor da repetição do pífio resultado do PIB de 2011que procura ser evitado. A redução da taxa Selic pelo Banco Central, e as medidas espúrias de incentivo à indústria, divulgadas pelo Ministério da Fazenda, se relacionam com essa realidade.As medidas para a indústria são espúrias, porque procuram incentivar a competitividade industrial por meio de medidas como a desoneração da folha de pagamento de 15 setores, substituindo a contribuição previdenciária patronal de 20% por uma contribuição sobre o faturamento das empresas; estímulos à produção nacional, por meio de compras governamentais; e linhas de créditos com custos mais reduzidos e prazos de pagamentos mais longos, pelo BNDES. É o mais do mesmo do que já vem sendo tentado já há alguns anos, sem que resultados palpáveis sejam conseguidos, frente ao que se denomina de desindustrialização.Com relação à desoneração da folha, o prejuízo para as receitas do Orçamento da Seguridade Social é admitido até mesmo pelo governo, em um quadro onde sabemos que a sonegação fiscal poderá se elevar, frente à baixa eficiência fiscalizatória que temos. Prejuízo ao futuro das receitas previdenciárias que, com certeza, dará mais combustível ainda para aqueles que insistem no suposto déficit da previdência como forma de fortalecimento da previdência privada, baseada no regime de capitalização.Por outro lado, a redução da taxa Selic, absolutamente viável frente às estratosféricas taxas vigentes, apenas facilita a chamada queda de braço entre os bancos públicos e privados. Iniciada pelos bancos do Nordeste, do Brasil e Caixa Econômica, foi uma medida finalmente tomada pelo governo, como forma de forçar uma redução na diferença entre o custo de captação dos bancos e o custo cobrado à clientela dos mesmos em suas operações de crédito e financiamento.Aparentemente, e somente na aparência, essa é uma medida que prejudica os bancos. Primeiramente, pelo fato de o custo de captação dos bancos ser hoje muito reduzido, em função de as operações de captação externa – a taxas reduzidíssimas – serem hoje um vetor importante da capitalização dos mesmos, com uma elevada rentabilidade garantida, em função das elevadas taxas cobradas pelas entidades bancárias. A redução da taxa Selic também contribui para isso, pois esta taxa é a cobrada pelo Banco Central em suas operações de redesconto junto aos bancos com dificuldades de caixa de curto prazo.Além disso, as reduções de taxas cobradas dos clientes, inclusive nos bancos públicos, tendem a se concentrar com mais relevância nas linhas de crédito que já operavam com taxas relativamente mais reduzidas, pelo fato de serem hoje quase de risco zero para os bancos: financiamento de veículos, casa própria e empréstimos consignados. Em linhas de crédito como o do cheque especial ou do cartão de crédito, a tendência é que saiamos do patamar de juros pornográficos para os juros escandalosos. Onde talvez, e bote talvez nisso, as taxas sofram maiores mudanças, dada a (reduzida) concorrência bancária, é no segmento de empréstimos para as empresas. Em todo o caso, ainda é cedo para avaliarmos o conjunto dessas medidas.De qualquer maneira, o nível de endividamento das famílias poderá ser atenuado, com as operações que certamente ocorrerão de substituição de antigas operações de financiamento, com taxas mais elevadas, por novos contratos, com taxas mais reduzidas. E a redução do risco de inadimplência também é de interesse de todos os bancos.Por fim, sob o ponto de vista do governo, o que não está nem um pouco solucionado é o dilema das nossas contas externas. Com o peso crescente do déficit da conta de serviços – irreversível no curto prazo, dadas as condições estruturais da economia brasileira, escancarada em termos financeiros, comerciais e produtivos –, a incerteza é para lá de preocupante. Com um saldo comercial em declínio e incapaz de cobrir a conta de serviços (juros, remessa de lucros, royalties, fretes e viagens), o governo somente fecha suas contas externas com a entrada de recursos externos, pela via financeira, para a aplicação em títulos ou a aquisição/investimento de ativos produtivos.Nesse aspecto, o tal tsunami monetário, denunciado por Dilma Rousseff de forma bizarra, acaba sendo funcional: é ele que acaba contribuindo para fecharmos o rombo corrente das contas externas. Contudo, é ele também que ajuda a desvalorizar o nosso câmbio – flutuante – e acelerar o ritmo das importações, que reduzem gradativamente o já combalido déficit comercial.A alteração substantiva da política econômica passaria pelo rompimento do tripé representado pelo câmbio flutuante/superávit primário/metas de inflação, deixando para trás o esquema das aberturas financeira, comercial e produtiva. Como essa alternativa é hoje impensável, pelos compromissos do governo com o pacto de poder dominante, somente nos resta assistir à administração dos dilemas econômicos atuais em uma perspectiva de curto prazo, e míope frente ao nosso futuro.* Paulo Passarinho é economista e apresentador do programa de rádio Faixa Livre.** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Paulo Passarinho*
caderno Entrevista

A crise capitalista de 2007-2009. As interpretações marxistas.

“Enquanto capitalismo houver, Marx será uma referência importante para a análise da economia”, assegura o pesquisador Alex Wilhans Antonio Palludeto.Ao revisitar as teorias marxistas para compreender a causa e as consequências da crise financeira atual, Alex Wilhans Antonio Palludeto constata que é “difícil acreditar que o sistema capitalista está para acabar”. Autor da dissertação de mestrado intitulada Crise e capitalismo contemporâneo: uma revisão das interpretações marxistas da grande recessão (2007-2009), o pesquisador enfatiza que a crise financeira iniciada em 2007, como as demais crises do capital, “será resolvida nos marcos do capitalismo”. Em outras palavras, esclarece, “tudo caminha para que a valorização da riqueza privada continue subordinando as atividades econômicas”.Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Palludeto discorre sobre duas correntes teóricas do marxismo contemporâneo e explica como elas interpretam as turbulências do mercado financeiro. “De um lado, encontram-se aqueles que atribuem a crise à dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, ao que ficou tradicionalmente conhecido na literatura especializada como neoliberalismo. De outro, há aqueles que creditam a crise à dinâmica do sistema capitalista em geral – e não de uma etapa específica de seu desenvolvimento”, assinala.Em sua avaliação, as duas correntes teóricas apontam aspectos relevantes para a compreensão do capitalismo contemporâneo e da crise atual. Entretanto, enfatiza, “o declínio da taxa de lucro é a hipótese que mais se adequa aos fatos. Da mesma forma, não me parece que a crise recente seja resultado da dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, isto é, do neoliberalismo”.Alex Wilhans Antonio Palludeto é graduado em Ciências Econômicas pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e mestre em Economia pela mesma instituição. Atualmente é doutorando em Teoria Econômica.Confira a entrevista.IHU On-Line – Quais são hoje as correntes teóricas mais importantes do marxismo contemporâneo e como elas interpretam a causa e as consequências da crise financeira atual?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Parece-me possível identificar a existência de duas amplas abordagens entre os estudiosos marxistas que se dedicam ao exame da crise recente.De um lado, encontram-se aqueles que atribuem a crise à dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, ao que ficou tradicionalmente conhecido na literatura especializada como neoliberalismo. De outro, há aqueles que creditam a crise à dinâmica do sistema capitalista em geral – e não de uma etapa específica de seu desenvolvimento.De acordo com o primeiro grupo, as décadas de 1970 e 1980 marcam o início de um novo estágio da economia capitalista mundial, o neoliberalismo, e são os elementos constitutivos desta fase que conduziram à Grande Recessão. Entre os autores que adotam essa perspectiva, Gérard Dúmenil, Dominique Lévy, Alfredo Saad-Filho, David Kotz, John Foster, Fred Magdoff e David Harvey podem ser considerados alguns de seus principais representantes. Conforme procurei demonstrar em meu trabalho, os estudos que compõem essa vertente argumentam que as últimas décadas assistiram ao fortalecimento da classe capitalista, particularmente aquela fração que se dedica às atividades financeiras, cujo poder foi supostamente restringido durante o imediato pós-guerra. Como resultado dessa mudança da relação de poder entre as classes capitalista e trabalhadora, forjou-se um arranjo institucional que provocou um aumento na desigualdade de renda, a elevação da taxa de lucro e a exacerbação da especulação financeira e do endividamento – sobretudo da classe trabalhadora, pressionada pela estagnação dos salários nas últimas décadas. A crise tem origem nesse arranjo, na estrutura institucional neoliberal que, ao combinar uma maior desigualdade de renda a um setor financeiro desregulado, propenso a atividades de maiores riscos, levou a economia a uma trajetória financeiramente insustentável.O segundo grupo, por sua vez, para o qual a crise é uma manifestação do modo de funcionamento geral do capitalismo, aponta para os movimentos da taxa de lucro e a acumulação de capital como fatores determinantes da Grande Recessão. Entre seus principais expoentes cabe citar Andrew Kliman, Alan Freeman, Guglielmo Carchedi, Nick Potts, Chris Harman, Robert Brenner e Anwar Shaikh. A tese básica, ao contrário da abordagem anterior, é de que a crise atual decorre de uma queda da taxa de lucro – que para muitos, por sua vez, é fruto da substituição de trabalhadores por máquinas. Para esses autores, o declínio da taxa de lucro inibiu o investimento e estimulou as aplicações financeiras, uma vez que a combinação de liquidez e rentabilidade que elas ofereciam tornou-se, então, bastante atraente aos olhos dos detentores da riqueza. A especulação e o subsequente colapso da pirâmide financeira que se erigiu no período foram, assim, apenas os passos seguintes em direção à crise.Discordância teóricaA implicação dessa discordância teórica me parece bastante evidente. Os primeiros, ao conceberem a Grande Recessão como resultado da dinâmica de uma etapa específica do capitalismo, sugerem a possibilidade de que uma estrutura institucional diversa poderia evitar ou mitigar a crise. Vale dizer que uma reforma adequada permitiria um capitalismo mais estável e, em certa medida, imune à crise. Os segundos, por sua vez, ao estabelecerem como causa última da Grande Recessão o que consideram ser uma tendência imanente ao sistema capitalista em geral – a tendência à queda da taxa de lucro –, são levados a argumentar pela inevitabilidade da crise.IHU On-Line – Após estudar duas correntes marxistas que atribuem causas diferenciadas para a crise financeira, qual delas explica melhor o momento atual que as principais economias do mundo estão enfrentando?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Creio que as duas vertentes teóricas que procurei delinear apontam aspectos relevantes para a compreensão do capitalismo contemporâneo e da crise recente. Com efeito, não é possível negar que a estrutura de classes, a distribuição da renda e a configuração atual do setor financeiro são importantes para a dinâmica econômica atual. Da mesma forma, os movimentos da taxa de lucro e da acumulação de capital não podem ser deixados de lado em qualquer análise que se pretenda séria.Se me for permitido destacar apenas um fator, no entanto, o declínio da taxa de lucro é, a meu ver, a hipótese que mais se adequa aos fatos. Da mesma forma, não me parece que a crise recente seja resultado da dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, isto é, do neoliberalismo – ao menos não nos termos em que os autores que analisei utilizam o conceito.Na verdade, a Grande Recessão é uma típica crise capitalista, manifestação da própria natureza do modo capitalista de organização da produção. Os argumentos do segundo agrupamento acima mencionado e as ilustrações empíricas que os sustentam me parecem, assim, mais convincentes para o estudo do momento atual. Esta crise, como qualquer crise tipicamente capitalista, é fruto, em última instância, da incapacidade da riqueza privada de se valorizar a um ritmo considerado satisfatório pelos capitalistas, e não resultado de um arranjo institucional de corte neoliberal.IHU On-Line – As contradições que Marx evidenciava no capitalismo do Século 19 se apresentam nos dias de hoje? Como?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Certamente. Embora tenha escrito em um contexto histórico muito particular, no qual o capitalismo ainda se restringia a determinadas porções do globo – e, mesmo nelas, sua operação se limitava a certas frações da reprodução material da sociedade –, Marx foi capaz de desvendar alguns traços constitutivos desse sistema. A mercantilização crescente da sociedade, o lucro como raison d’être da produção e o conflito entre capital e trabalho são algumas das características do capitalismo identificadas por Marx ainda mais visíveis no mundo atual. O arcabouço político-institucional que dá forma concreta a esses elementos é, naturalmente, diverso daquele da segunda metade do Século 19. Apenas para mencionar algumas dessas mudanças, em contraste com aquele período: o Estado tem uma importante participação na economia como regulador e/ou provedor direto de bens e serviços; a sociedade por ações se tornou uma das principais formas de organização empresarial e, com ela, a bolsa de valores converteu-se no palco privilegiado da concorrência intercapitalista; os sindicatos, ainda que enfraquecidos nos últimos anos, são mais numerosos e atuantes; as firmas se tornaram maiores e o oligopólio comum na maior parte das atividades econômicas. Enfim, de lá para cá, ocorreram inúmeras transformações, mas os aspectos básicos do sistema capitalista, suas contradições fundamentais, não se alteraram – ainda que a forma pela qual elas se manifestam certamente se modificou. Assim, enquanto o capitalismo houver, Marx será uma referência importante para a análise da economia.IHU On-Line – Você concorda que o capitalismo está chegando ao fim, ou esta é apenas mais uma de suas crises? Pelas teorias de Marx, quais os rumos que podemos imaginar para o mundo capitalista, a partir da crise financeira internacional?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Observando a conjuntura atual, parece difícil acreditar que o sistema capitalista está para acabar. Esta crise, como tantas outras, será “resolvida” nos marcos do capitalismo. Em outras palavras, tudo caminha para que a valorização da riqueza privada continue subordinando as atividades econômicas.Tentar predizer o que, de fato, ocorrerá é, ao mesmo tempo, tentador e perigoso. Ademais, a experiência demonstra que, pelo menos em relação à economia, tal tarefa geralmente está fadada ao fracasso. No entanto, acho possível que, com cautela, se possa identificar alguns possíveis desdobramentos gerais da crise recente a partir da teoria marxista. Em primeiro lugar, a concentração do mercado deverá aumentar sobremaneira, estimulada pela onda de fusões e aquisições que a crise enseja. De certo modo, este processo já teve início. Particularmente no setor financeiro norte-americano, as instituições sobreviventes aproveitaram a oportunidade para adquirir aquelas à beira da bancarrota e, assim, fortalecer suas próprias posições. Em segundo lugar, uma vez que os Estados têm atuado na tentativa de conter os prejuízos do setor privado e evitar que as falências se multipliquem – socializando as perdas –, é bastante provável que as economias dos países centrais passem por um longo período de estagnação. Ao se impedir que empresas quebrem, evita-se que um dos principais mecanismos “autorreguladores” do capitalismo identificados por Marx opere: a desvalorização do capital.Com a crise, empresas são fechadas, o capital se desvaloriza, a taxa de lucro se recupera para os capitalistas que restaram e, portanto, se cria um novo ambiente propício ao crescimento. Cabe destacar que esse não é um processo harmonioso ou equilibrado, mas, enfim, permite que se inicie um novo ciclo econômico ascendente. Contudo, na crise atual, ao se evitar que o capital se desvalorize em maior volume, o processo de “restauração” ao qual fiz menção é interrompido e a estagnação se torna o caminho mais provável. Por fim, também é possível que a classe trabalhadora seja ainda mais prejudicada. Com a elevação das taxas de desemprego em virtude da crise – e da estagnação que se espera ocorrer –, cria-se um novo contingente de mão de obra disponível, fato que pressiona os salários para baixo.IHU On-Line – A crise do capitalismo também representa a crise da esquerda?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Não. A crise atual, na verdade, revela a crise da esquerda, mas não é sua causa. Desde as décadas de 1970 e 1980, os pensadores e ativistas de esquerda vêm perdendo terreno em todas as frentes: na academia, na cultura, na política, etc. O desmantelamento do bloco soviético e a consolidação do capitalismo em nível mundial, na passagem para os anos 1990, reforçaram ainda mais esse movimento generalizado de perda de influência. Com o aparente triunfo do sistema capitalista, restou pouco espaço para aqueles que defendiam sistemas socioeconômicos alternativos. A difusão da ideia de que, com o capitalismo e a democracia liberal, o “fim da história” havia chegado à humanidade (veja-se o livro de 1992 de Fukuyama: The end of history and the last man) é sintomático do enorme enfraquecimento da esquerda nas últimas décadas.Desestruturação da esquerdaA crise recente põe em evidência esse processo de longa data. A falta de organização dos movimentos de contestação do regime atual, a ausência da definição de objetivos claros e as propostas de transformações socioeconômicas consistentes nos dias de hoje apenas revelam a desestruturação pela qual passou a esquerda. O melhor exemplo disso são, a meu ver, as diversas manifestações recentes inspiradas nos movimentos Ocupe Wall Street, dos Estados Unidos, e 15M, da Espanha. A despeito da mobilização inicial de milhares de pessoas, a falta de uma organização que fosse capaz de direcionar o movimento, estabelecer reivindicações claras e, assim, torná-lo efetivo na implementação de mudanças na sociedade – aliado, naturalmente, à forte repressão empreendida por aqueles compõem o status quo –, fez com que em poucos meses as manifestações perdessem fôlego.Uma crise profunda como a que estamos presenciando sempre abre as portas para que transformações radicais ocorram. Ao demonstrar as fragilidades do sistema atual e possibilitar a união e o consequente fortalecimento daqueles que verdadeiramente sofrem com a crise – e, a classe trabalhadora –, a Grande Recessão se apresentou como uma dessas oportunidades históricas de mudança. No entanto, para aproveitá-la a esquerda precisaria de muito mais vigor do que atualmente apresenta.IHU On-Line – Por que a economia é uma ciência que, de modo geral, desconsidera as questões sociais?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Não creio que a economia, como ciência, seja particularmente alheia a considerações de ordem social. A impressão que tenho é de que aquilo que ocorreu com ela aconteceu também à ciência política, à sociologia e todas as demais ciências humanas – e naturais. Nos últimos 150 anos, a produção do conhecimento, nos seus mais variados ramos, atravessou um processo de compartimentalização. O trânsito entre as ciências, e até mesmo entre áreas particulares de uma mesma ciência, tornou-se cada vez menos comum. A economia não foi poupada desse movimento. É verdade que esse modo de “fazer ciência” permitiu avanços importantes na nossa compreensão do mundo; no entanto, a ausência de uma visão de conjunto, a incapacidade de pensar o objeto como um todo, trouxe também, a meu ver, diversos prejuízos – sobretudo para as ciências humanas, nas quais o recorte da realidade que se pretende analisar sempre é, de certo modo, arbitrário.Acredito que esse seja o principal fator que explique a crescente falta de comunicação e intercâmbio entre economistas, sociólogos, cientistas políticos, antropólogos... No caso da economia, a especialização certamente trouxe benefícios, mas parece-me cada dia mais necessário um programa de pesquisa interdisciplinar, de forma a impedir a fragmentação do conhecimento e, em última instância, o próprio esvaziamento do significado daquilo que chamamos de ciência econômica. É preciso relembrar aos economistas que por trás dos números e modelos há relações humanas, sociais, que transcendem a esfera propriamente econômica.* Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
Ilustração: Silvano Mello Artigo

Quando a comida vira um produto financeiro

[caption id="attachment_51186" align="alignleft" width="217" caption="Ilustração: Silvano Mello"][/caption]O novo diretor-geral da ONU para a Alimentação e a Agricultura, José Graziano da Silva, promete aumentar os recursos destinados à África, a “prioridade” de seu mandato. Mas, além da ajuda pontual – necessária –, será preciso tirar as matérias-primas agrícolas do sistema de especulação financeira.A estrada é reta, asfaltada, monótona. Os baobás desfilam, a terra é amarela, empoeirada, apesar da hora matinal. Dentro do velho Peugeot preto, o ar é sufocante, irrespirável. Na companhia do engenheiro agrônomo e conselheiro em cooperação da embaixada da Suíça, Adama Faye, e de seu motorista, Ibrahima Sar, vamos em direção ao norte, onde estão as grandes propriedades do Senegal.Para medir o impacto da especulação dos produtos alimentares, dispomos – estendidos sobre nossos joelhos – das últimas tabelas estatísticas do Banco Africano de Desenvolvimento. Mas Faye sabe que outra demonstração nos espera, mais adiante. O carro penetra no vilarejo de Louga, a cem quilômetros de Saint-Louis. E, de repente, para: “Vem! Vamos ver minha irmã menor. Ela não precisa das estatísticas para explicar o que está acontecendo”, diz.Um mercado pobre, algumas barracas à beira da estrada. Montículos de niébé (tipo de feijão), mandioca, algumas galinhas cacarejando nas gaiolas. Amendoim, alguns tomates enrugados, batatas. Laranjas e tangerinas da Espanha. Nem uma manga sequer − uma fruta, no entanto, tão popular no Senegal.Atrás das mercadorias, vestida com um amplo vestido amarelo vivo e um xale combinando na cabeça, uma jovem mulher conversa com suas vizinhas: Aicha, a irmã de Faye. Ela responde às questões com vivacidade, mas, à medida que fala, sua raiva aumenta. Rapidamente, à beira da empoeirada estrada do norte, um barulhento e alegre agrupamento de crianças de todas as idades, de jovens e de velhas mulheres se forma em nosso entorno.O saco de arroz importado de 50 quilos custa 14 mil francos CFA(1). Como resultado, a sopa do jantar está cada vez mais líquida. Somente alguns grãos flutuam na água da panela. No mercado, as mulheres compram agora arroz por copo. Um pequeno botijão de gás aumentou, em alguns anos, de 1.300 para 1.600 francos CFA(2); o quilo de cenoura passou de 175 para 245 francos CFA; a baguete, de 140 para 175 francos CFA. O preço da bandeja de trinta ovos passou, em um ano, de 1.600 para 2.500 francos CFA. A situação não difere em relação aos peixes. Aicha está furiosa. Ela reclama de suas vizinhas, muito tímidas, em sua opinião, na descrição que fazem da situação: “Fala para o Toubab o preço que você paga pelo quilo de arroz! Conta para ele, não tenha medo! Tudo aumenta quase todos os dias”. É assim que, lentamente, as finanças matam de fome as populações, sem que estas compreendam os mecanismos sobre os quais repousa a especulação.Um dispositivo pervertidoTudo começa com uma singularidade, pois o comércio de produtos agrícolas não funciona exatamente como os demais. Nesse mercado, consumimos antes mesmo de vender. A explicação é a seguinte: “O comércio internacional de cereais representa apenas pouco mais de 10% da produção de todas as culturas juntas (7% para o arroz)”, estima o economista Olivier Pastré, antes de concluir: “Um deslocamento mínimo da produção mundial num sentido ou no outro pode perturbar o mercado”(3). Diante da demanda crescente, a oferta (a produção) não somente se fragmenta, mas também fica extremamente sensível à instabilidade climática: seca, grandes incêndios, inundações, etc.É por essa razão que, no início do Século 20, em Chicago, apareceram os produtos derivados. Estes instrumentos financeiros, cujos valores “derivam” do preço de outro produto, denominado “subjacente” – tais como ações, obrigações e instrumentos monetários –, foram inicialmente concebidos para permitir aos agricultores do meio oeste norte-americano vender sua produção a um preço previamente fixado na colheita – daí a expressão “contrato a termo”. Em caso de queda do preço no momento da safra, o agricultor estava protegido; em caso de alta, os investidores lucravam.Mas, no início dos anos 1990, esses produtos de vocação prudencial viraram produtos de especulação. Heiner Flassbeck, economista chefe da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), mostrou que, entre 2003 e 2008, a especulação sobre as matérias-primas por meio de fundos indexados(4) tinha aumentado 2.300%(5). No fim deste período, a explosão dos preços dos alimentos básicos provocou as famosas “revoltas da fome”, que sacudiram 37 países. As imagens das mulheres da favela haitiana de Cité-Soleil preparando bolos de barro para suas crianças eram difundidas incessantemente nas telas de televisão. Violência urbana, pilhagens, manifestações de milhares de pessoas nas ruas do Cairo, de Dacar, de Bombaim, de Porto Príncipe, de Túnis, pedindo pão para garantir a sobrevivência foram manchete dos jornais durante várias semanas.O índice 2008 dos preços da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) se estabelecia em média 24% acima daquele de 2007 e 57% acima do índice de 2006. No caso do milho, a produção de etanol norte-americano – distorcido por alguns US$ 6 bilhões de subvenções anuais distribuídas aos produtores do “ouro verde” – reduziu consideravelmente a oferta dos Estados Unidos no mercado mundial do milho. Ora, o milho contribui em parte para garantir a alimentação animal. Sua escassez nos mercados, ao mesmo tempo que a demanda por carne evolui, contribui para o aumento dos preços desde 2006. “Outro importante cereal de subsistência, o arroz, conheceu uma evolução parecida”, afirma o economista Philippe Chalmin, “com preços que, em Bangcoc, passaram de US$ 250 para mais de US$ 1 mil por tonelada”(6). O mundo de repente tomou consciência de que, no Século 21, dezenas de milhões de seres humanos morrem de fome. E de novo o silêncio recobriu a tragédia.Desde a explosão da crise financeira, a especulação sobre as matérias-primas alimentares só aumentou: fugindo do desastre que eles mesmos tinham provocado, os especuladores – sobretudo os mais importantes, os hedge funds, ou “fundos especulativos” – migraram para os mercados agroalimentares. Para eles, todos os bens do planeta podem se tornar objeto de apostas especulativas ao longo do tempo. Então, por que não os alimentos ditos “básicos”: o arroz, o milho e o trigo que, juntos, totalizam 75% do consumo mundial (50% para o arroz)? Segundo o relatório 2011 da FAO, atualmente somente 2% dos contratos a termo envolvendo matérias-primas acabam de fato na entrega de uma mercadoria. Os 98% restantes são revendidos pelos especuladores antes da data de expiração.Esse fenômeno alcançou uma proporção tão importante que provocou a inquietação do Senado norte-americano. Em julho de 2009, a instituição denunciou uma “especulação excessiva” sobre os mercados do trigo, criticando, sobretudo, o fato de alguns traders deterem até 53 mil contratos ao mesmo tempo! O Senado também denunciou que “seis fundos indexados estão atualmente autorizados a deter 130 mil contratos sobre o trigo ao mesmo tempo, isto é, uma quantia vinte vezes superior ao limite autorizado para os operadores financeiros padrão”(7).Por um controle mundial dos preçosO Senado norte-americano não é o único a se alarmar. Em janeiro de 2011, outra instituição classificou a alta de preços das matérias-primas, sobretudo alimentares, como uma das cinco grandes ameaças que pesam sobre o bem-estar das nações, do mesmo modo que a guerra cibernética ou o porte de armas de destruição em massa por terroristas: o Fórum Econômico Mundial de Davos...Uma condenação surpreendente, tendo em vista o critério de recrutamento desse seleto círculo. O fundador do Fórum Econômico Mundial, o economista suíço Klaus Schwab, não deixou por menos as admissões a seu “Clube dos Mil” (o nome oficial da reunião): somente são convidados os dirigentes das empresas cujo lucro ultrapasse o bilhão de dólares. Cada um dos membros paga US$ 10 mil de entrada. Somente eles podem ter acesso a todas as reuniões. Entre eles, evidentemente, os especuladores são numerosos.Os discursos de abertura realizados em 2011, no bunker do Fórum Econômico Mundial, no entanto, apontaram para o problema de forma clara. Eles condenaram com muito vigor os “especuladores irresponsáveis”, que, por pura sede de lucro, arruínam os mercados alimentares e agravam a fome no mundo.Durante os seis dias seguintes, ocorreu uma sequência de seminários, conferências, coquetéis, encontros, reuniões confidenciais nos grandes hotéis da pequena cidade nevada, para comentar a questão... Mas será verdadeiramente lá, nas salas de jantar dos restaurantes, nos bares, nos bistrôs de Davos, que o problema da fome no mundo vai encontrar os ouvidos mais atentos?Para vencer de uma vez por todas os especuladores e preservar os mercados de matérias-primas agrícolas dos repetidos ataques, Flassbeck propõe uma solução radical: “Arrancar dos especuladores as matérias-primas, sobretudo as alimentares”(8). Ele pede um mandato específico por parte da ONU. Este mandato, explica o economista, concederia à Unctad o controle mundial da formação de preços de matérias-primas agrícolas nos mercados. A partir desse momento, somente os produtores, os comerciantes ou os usuários das matérias-primas agrícolas poderão intervir nos mercados a termo. Qualquer um que negociar um lote de trigo ou de arroz, hectolitros de azeite, etc., deverá ser obrigado a fornecer o bem negociado. Será igualmente necessário instaurar – para os operadores – um nível de autofinanciamento elevado. Aquele que não fizer uso do bem negociado será excluído da Bolsa.Se fosse aplicado, o “método Flassbeck” afastaria os especuladores dos meios de sobrevivência dos condenados da Terra e serviria de obstáculo à financeirização dos mercados agroalimentares. A proposta de Flassbeck e da Unctad é defendida com vigor por uma coalizão de organizações não governamentais e de pesquisa(9).O que falta, por enquanto, é a vontade dos Estados.Notas(1) Os números são de maio de 2009.(2) R$ 1 = 286,45 francos CFA.(3) Olivier Pastré, La crise alimentaire mondiale n’est pas une fatalité (A crise alimentar mundial não é uma fatalidade). In: Pierre Jacquet e Jean-Hervé Lorenzi (coords.), Les nouveaux équilibres agroalimentaires mondiaux (Os novos equilíbrios agroalimentares mundiais), Presses Universitaires de France (PUF), Paris, 2011.(4) É um fundo de investimento cujo rendimento é determinado por um índice de referência (carteira de valores, CAC 40, etc.).(5) Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento, Relatório sobre o Comércio e o Desenvolvimento, Genebra, 2008.(6) Philippe Chalmin, Le monde a faim (O mundo tem fome), Bourin Éditeur, Paris, 2009.(7) Paul-Florent Montfort, Le Sénat américain dénonce la spéculation excessive sur les marchés à terme agricoles (O Senado norte-americano denuncia a especulação excessiva nos mercados a termo agrícolas), relatório do subcomitê permanente do Senado dos Estados Unidos, responsável pelas pesquisas. Disponível em: <www.momagri.org/fr>.(8) Heiner Flassbeck, Rohstoffe den Spekulanten entreissen (Arranquem as matérias-primas dos especuladores), Handelsblatt, Düsseldorf, 11 fev. 2011.(9) Sua argumentação é resumida no ensaio de Joachim von Braun, Miguel Robles e Maximo Torero, When speculation matters Washington (Quando a especulação importa para Washington), International Food Policy Research Institute (IFPRI), Washington, 2009.* Jean Ziegler é vice-presidente do comitê consultivo do Conselho dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. Autor de Déstruction massive: géopolitique de la faim (Destruição em massa: geopolítica da fome), Seul, Paris, 2011.** Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique Brasil.


por Jean Ziegler*
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Desindustrialização, um debate torto

O debate sobre desindustrialização, promovido principalmente pela Fiesp e alguns setores do movimento sindical, é um debate torto porque toma aspectos conjunturais da indústria brasileira atual como questões centrais, enquanto o que realmente importa hoje é o debate estrutural sobre a industrialização.Ao subordinarem o estrutural ao conjuntural, esses setores omitem do debate o grau de concentração e centralização, ou monopolização e oligopolização, da indústria brasileira, pelas corporações transnacionais, como se isto não tivesse qualquer influência sobre os bloqueios à industrialização nacional. E, ao realizarem aquela subordinação, tendem a responsabilizar a China por uma situação que decorre das políticas neoliberais, aplicadas principalmente nos anos 1990, trazendo à tona uma ignorância a respeito daquele país asiático, justamente no momento em que já era necessário conhecê-lo o suficiente para aproveitar as condições que pode oferecer para o processo brasileiro de industrialização.Esse debate torto talvez seja resultado de um dos erros cometidos pela esquerda após a vitória de Lula em 2002. Ela não trouxe à luz, como devia, o estrago causado pela calamidade neoliberal no parque produtivo do país. Nem aprofundou o estudo dos fenômenos que fizeram com que a China, em pleno processo de globalização, desse um salto em sua industrialização e despontasse como um desafio, tanto para os países capitalistas desenvolvidos quanto para os emergentes. Embora os planos chineses fossem públicos e conhecidos desde o final dos anos 1970, a esquerda preferiu achar que tais planos não passavam de propaganda, e que o crescimento chinês seria uma bolha de curta duração. Assim, ao descobrir, 25 anos depois, que tinha um dragão à sua frente, parte dessa esquerda acha mais fácil responsabilizá-la por nossos problemas.Nessas condições, o debate que realmente deve ser colocado em pauta pelo governo, pelos partidos de esquerda, pelo movimento sindical e demais movimentos sociais, além da intelectualidade, é o debate estrutural sobre a industrialização, envolvendo uma lista de problemas complexos. Em primeiro lugar, o papel da indústria como força motriz do desenvolvimento, já que ainda existe muita gente que acredita vivermos numa era pós-industrial, sem notar que esta era é a de declínio das sociedades capitalistas desenvolvidas, e não o caminho de desenvolvimento que transformou a Ásia do Pacífico no novo eixo econômico mundial, e está promovendo o renascimento da América Latina e da África.Em segundo lugar, os bloqueios com os quais o Brasil se defronta para a retomada da industrialização. A oligopolização da indústria instalada no país, com a prática desbragada de custos administrados, permitiu, por exemplo, a elevação dos preços de automóveis e caminhões, após as medidas protecionistas adotadas pelo governo. Há, também, os custos que cooperam para a baixa produtividade, como o pequeno desenvolvimento científico e tecnológico, no momento em que as ciências e as tecnologias se tornaram as principais forças produtivas. E aqueles que mantêm a baixa competitividade, como a infraestrutura "frankenstein", esgarçada e defasada.Também não basta dizer que as cadeias produtivas industriais estão mais esburacadas do que queijo suíço. Precisamos ter um mapa detalhado dessas cadeias e de seus elos faltantes, definir quais são aquelas em que realmente o país precisa investir, e estabelecer um plano a respeito. Isto não pode ficar a cargo do mercado, ou mais precisamente de uma burguesia que não tem disposição alguma de correr os riscos do empreendimento capitalista e depende quase totalmente do Estado. É este que deve assumir tal tarefa, inclusive criando os novos mecanismos estatais que forem necessários.Nesse sentido, em articulação com as definições acima, o debate sobre a industrialização precisa definir os setores industriais estratégicos para tornar o Brasil um país economicamente independente. O que só será possível se tiver uma forte indústria de fabricação de máquinas que produzam máquinas capazes de produzir equipamentos. Isto é, se possuir um parque científico e tecnológico com potencial suficiente para fabricar bens primários de capital de última geração. Nosso país não será economicamente soberano se continuar dependendo da importação desses bens.É evidente que sempre haverá algum outro país que, ao realizar seu desenvolvimento científico e tecnológico, produza alguns bens mais avançados do que os produzidos pelo Brasil. Mas o problema consiste em que não devemos ficar totalmente dependentes e precisamos ter a capacidade de concorrer nesse campo. Senão, por mais que nos orgulhemos de produzir aviões, navios, plataformas de petróleo, usinas hidrelétricas gigantes, e outros bens intermediários e de consumo, sempre dependeremos da tecnologia importada para colocá-los em funcionamento.Nesse sentido, importa saber se estamos dispostos a suportar, durante algum tempo, déficits na balança comercial de manufaturados, tendo em vista que pode ser muito mais caro tentar reinventar a roda, sendo preferível importar os bens de capital e as tecnologias que ainda não fabricamos, de modo a conhecê-las e, no processo de inovação, aprendermos a fabricá-las.Por outro lado, também importa saber como manter e desenvolver as empresas que utilizam tecnologias tradicionais e são intensivas em trabalho. Hoje, há milhares de médias, pequenas e micro empresas industriais, que são fundamentais para manter as altas taxas de emprego. Porém, apesar das normas governamentais que facilitam a sua existência, na prática elas continuam afogadas por altos impostos e por uma concorrência desproporcional com as grandes empresas que dominam o mercado.Portanto, se quisermos debater seriamente a reindustrialização brasileira, não podemos nos deixar levar pelo choro dos setores oligopolistas, que pretendem manter seus preços administrados e blindar-se contra o aumento da concorrência, nem pelo choro de setores tradicionais que perderam competitividade, nem pelo panorama cor-de-rosa de alguns setores governamentais, que acreditam na existência de uma verdadeira revolução microempresarial no país.Teremos que tratar dos problemas estruturais, alguns sinteticamente listados acima. Mas há outros, como aqueles relacionados com os modelos de financiamento, que beneficiam esmagadoramente as grandes empresas. Ou com o possível estreitamento, ou não, dos mercados internacionais, aqui incluindo a relação entre o nosso mercado interno e os mercados externos, explicitamente os Estados Unidos, Europa, Ásia e China. Temos, ainda, o possível papel coadjuvante do agronegócio e seus superávits comerciais; a solução das questões macroeconômicas, como juros, dívida, câmbio e inflação; o emprego adequado de mecanismos de defesa comercial; e a não menos importante e fundamental manutenção e ampliação das políticas de redistribuição de renda, em seus diversos aspectos.Finalmente, esse debate deve esclarecer o fato de que, mesmo se aproveitando das inúmeras experiências internacionais de industrialização e desenvolvimento econômico e social, não é possível para o Brasil seguir qualquer um dos modelos colocados em prática por outros países. O desenvolvimento histórico do Brasil tem características históricas próprias, diferentes de todos os demais países, e elas nos impõem a conformação de um modelo também próprio.Talvez a única coisa a extrair de todos os demais seja o fato de que a indústria continua sendo a força motriz do desenvolvimento. Sem ter cadeias produtivas industriais articuladas e densas, que se reproduzam por meio de uma constante elevação da produtividade, nos arriscamos a patinar no crescimento. Mas mesmo essas cadeias produtivas não podem ser iguais às de qualquer outro país.* Wladimir Pomar é escritor e analista político.** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Wladimir Pomar*
ok3 Artigo

A transição para o novo modelo da caderneta de poupança

No primeiro dia após o anúncio das mudanças na caderneta de poupança, a avaliação do Ministério da Fazenda é que a transição para o novo modelo será tranquila.Para o secretário executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, havia dois objetivos a serem alcançados.Montar o novo modelo sem mexer nos depósitos atuais e sem tirar a competitividade da poupança para os novos depósitos.Abrir espaço para a política monetária, para o Banco Central poder baixar ou aumentar os juros, de acordo com os cenários econômicos, sem os empecilhos anteriores do piso da poupança – em 6,17% ao ano mais TR –, que impediam baixar a Selic a menor de 8,5% sem provocar uma revoada de investimentos de outros ativos para a poupança.Evitou-se também sofisticar demais a poupança, estipulando taxas maiores para depósitos que permaneçam mais tempo na poupança. O banco que quiser poderá criar um ativo novo qualquer, batizar de poupança especial ou algo do gênero, e lançar.Mesmo com as mudanças, a poupança continuará bastante competitiva. Pelos cálculos da Fazenda, quando a Selic cair abaixo de 8,5%, a remuneração da poupança será equivalente à de um fundo DI (remunerado pela remuneração dos certificados de depósito interbancário) com uma taxa de administração de apenas 0,5%. Banco que quiser conservar seus fundos, terá que reduzir substancialmente sua taxa de administração.As mudanças efetuadas darão mais trabalho aos bancos, para reduzir o trabalho dos poupadores. Haverá a distinção entre depósitos anteriores e posteriores a 3 de maio. Os primeiros continuarão recebendo a remuneração de 6,17% mais TR. Sempre que a Selic for de 8,5% ou menos, os novos depósitos receberão 70% da Selic mais TR.Mas ambos os depósitos ficarão na mesma conta, para evitar que o poupador tenha que abrir novas contas. Caberá ao banco especificar nos extratos o saldo antigo e o novo, devidamente atualizados a cada mês.Todo esse movimento – redução da Selic, do spread bancário, da remuneração da poupança – será aprofundado, mas encerra-se aí.O próximo desafio da Fazenda será reduzir o custo da energia. Numa ponta, haverá a renegociação de tarifas na renovação das concessões. Há inúmeras fórmulas sugeridas e que serão definidas até o final do ano.Na outra ponta, estudam-se maneiras de desonerar a energia de tributos que incidem sobre ela – embora o mais pesado seja o ICMS estadual.Prosseguirão também os estudos para desoneração de setores mais atingidos pelas importações.Nelson Barbosa admite que esse modo de atuação pode passar a sensação de medidas dispersas de política industrial. Mas não vê outro caminho, já que a estratégia mais adequada – colocada em prática pela Fazenda – é a da mudança gradativa do ambiente econômico sem traumas, sem gestos heróicos.Pelos cálculos da Fazenda, o nível de atividade industrial deverá começar a reverter a partir do segundo trimestre. Espera-se que a partir do segundo semestre, a economia já esteja rodando a 5% ao ano, na ponta, embora ainda haja incógnitas no mercado internacional: Estados Unidos melhorando, Europa estagnada e a Argentina enfrentando seus próprios problemas.* Publicado originalmente na Carta Capital.


por Luis Nassif, da Carta Capital
A Pegada Ecológica é usada para medir rastros de hábitos deixados pelos seres humanos no planeta. Foto:sxc Economia

Cálculo de pegada ecológica em São Paulo ajudará na gestão pública

[caption id="attachment_51155" align="aligncenter" width="425" caption="A Pegada Ecológica é usada para medir rastros de hábitos deixados pelos seres humanos no planeta. Foto:sxc"][/caption]A cidade de São Paulo será a terceira do país a fazer o cálculo de Pegada Ecológica, uma importante ferramenta de gestão ambiental, proposta pela ong WWF, e que é usada para medir os impactos das atividades humanas no meio ambiente.Segundo a Agência Fapesp, o acordo foi assinado pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente do Município de São Paulo e com o WWF.Para realizar o estudo, serão capacitados seis técnicos de cada uma das duas secretarias. De acordo com as instituições participantes do projeto, o resultado do trabalho servirá para ajudar no planejamento e na gestão pública, mobilizar a população para rever seus hábitos de consumo, além de estimular empresas a melhorarem suas cadeias produtivas.A expectativa do WWF-Brasil e dos parceiros é conseguir o cálculo o quanto antes para ser apresentado na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que será realizada de 13 a 22 junho no Rio de Janeiro.De acordo com a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, a Pegada Ecológica de um país, Estado, cidade ou pessoa corresponde ao tamanho das áreas produtivas terrestres e marinhas necessárias para sustentar determinado estilo de vida. É uma forma de traduzir, em hectares, a extensão de território que uma pessoa ou sociedade utiliza para morar, se alimentar, se locomover, se vestir e consumir bens de modo geral.* Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação EcoD
Yilmaz Akyuz. Foto: IPS Columnist Service Artigo

A expansão econômica do Sul é sustentável?

[caption id="attachment_51151" align="alignleft" width="300" caption="Yilmaz Akyuz. Foto: IPS Columnist Service"][/caption]Genebra, Suíça, maio/2012 (IPS/South Centre) – O crescimento das economias em desenvolvimento se acelerou no novo milênio. Enquanto nas décadas de 1980 e 1990 cresceram em média pouco mais do que as economias avançadas, desde os primeiros anos deste século até a crise global, a diferença subiu para cinco pontos.Esta diferença aumentou ainda mais entre 2008 e 2011 após o colapso das economias avançadas. A aceleração se observa em todas as regiões em desenvolvimento, que crescem mais rapidamente do que no passado. A notável exceção é a China, que cresceu no novo milênio, em geral, no mesmo (embora rápido) ritmo dos anos 1990.Por isso, é costume se dizer que a economia do Sul está se “desacoplando” da do Norte. Contudo, a principal dúvida é se ocorre uma virada duradoura na tendência do crescimento do Sul com relação ao Norte. Um olhar mais atento mostra que o crescimento do Sul se deve em boa parte a excepcionais e insustentáveis condições econômicas, bem como à melhoria em seus próprios fundamentos.Antes de a crise financeira atingir, em 2008, o crédito e o consumo, e fizesse explodir as bolhas imobiliárias, sobretudo nos Estados Unidos, havia se formado um clima global altamente favorável para as economias em desenvolvimento no comércio e no investimento, nos fluxos de capital e nos preços das matérias-primas.Pelo menos um terço do crescimento pré-crise da China se deveu às exportações, principalmente para as economias avançadas. A proporção é ainda maior para as pequenas economias exportadoras asiáticas.Há uma estreita correlação entre expansão imobiliária e déficits em conta corrente, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países que sofreram transtornos financeiros em seguida.Desde o começo deste século, as taxas de juros historicamente baixas e a rápida expansão da liquidez nos Estados Unidos, na Europa e no Japão desencadearam uma busca por rendimentos e o consequente auge nos fluxos de capital para as economias em desenvolvimento.Isso foi complementado por uma onda de remessas de trabalhadores, que chegam a mais de 25% do produto interno bruto em alguns países menores, e a mais de 3% na Índia. Os preços das matérias-primas também subiram fortemente, em grande parte graças ao rápido crescimento da China, empurrado pelas exportações para as economias avançadas.Com a queda do mercado imobiliário, o ambiente econômico internacional se deteriorou em todas as áreas que antes haviam apoiado a expansão nos países em desenvolvimento.Os fluxos de capital e os preços das matérias-primas retrocederam e as economias avançadas se contraíram. No entanto, as economias em desenvolvimento mostraram resiliência e reagiram rapidamente, especialmente onde uma forte resposta anticíclica foi possível graças às reservas e às posições fiscais favoráveis acumuladas durante o período anterior.O impulso para o crescimento em algumas destacadas economias do Sul se voltou para a demanda interna, mesmo em países que antes tinham uma economia orientada para a exportação.O crescimento baseado no investimento deu um estímulo ainda maior aos preços já altos das matérias-primas, anteriores à crise.Os fluxos de capital também se recuperaram graças às drásticas baixas nas taxas de juros e à expansão monetária das economias avançadas em resposta à crise. A afluência de capitais foi mais do que suficiente para enfrentar déficits crescentes em vários dos principais países em desenvolvimento, incluindo Índia, Brasil, Turquia e África do Sul.Por várias razões, é improvável que se sustente a meio termo o excepcional crescimento gozado pelo Sul nos últimos dez anos. O retorno às muito favoráveis condições prevalentes antes da crise global é impedido pelos rígidos ajustes que agora enfrentam as economias avançadas.Certamente as tentativas para voltar ao “aqui não houve nada”, impulsionando a “locomotiva” norte-americana mediante crescentes déficits, desestabilizariam seriamente o comércio internacional e os sistemas monetários.Por outro lado, o crescimento pós-crise baseado na demanda doméstica não poderá se manter por muito tempo. Já há sinais de desaceleração.A estratégia da China de enfrentar a queda das exportações para as economias avançadas com elevação dos investimentos não pode funcionar indefinidamente.Falta uma política voltada para o crescimento que se apoie no consumo interno, o que implica aumentar o consumo privado, que atualmente é de apenas 35% do PIB. Isto é, optar por uma importante redistribuição da renda.Mesmo uma desaceleração moderada do crescimento na China, de 7%, poderia causar o fim do auge das matérias-primas e ameaçar as perspectivas de crescimento de uma série de países latino-americanos e africanos.A maioria das economias em desenvolvimento necessita rever seus modelos de desenvolvimento para sustentar o ritmo de crescimento da última década. As economias exportadoras asiáticas devem reduzir sua dependência das exportações para as economias avançadas mediante a expansão de seus mercados internos e regionais.Os exportadores de matérias-primas precisam reduzir sua dependência dos fluxos de capital e de sua renda com matérias-primas. Estas, que foram as duas chaves para seu crescimento, estão além do controle nacional. Por isto, é necessária uma saída genuína do fundamentalismo do mercado e do liberalismo, tanto nas políticas macroeconômicas como nas estruturais. Envolverde/IPS* Yilmaz Akyuz é economista-chefe do South Centre, com sede em Genebra (www.southcentre.org).


por Yilmaz Akyuz*
1 Brasil

O real

É fato intuitivo que o "futuro" é influenciado pela visão que hoje temos dele.Há poucas semanas todos presenciamos isso. Bastou que os transportadores de combustíveis fizessem uma greve – que, com toda probabilidade, não duraria mais do que dois ou três dias – para que os estoques de álcool e gasolina nos postos, que normalmente são suficientes para o suprimento de uma semana, esgotassem imediatamente.Esse fenômeno é uma manifestação da "profecia ou, talvez melhor, da 'previsão' que se autorrealiza", de Robert Merton (1948), uma aplicação do aforismo de W. I. Thomas (1928): "quando as pessoas definem uma situação como real, ela é real em suas consequências". A profecia (ou "previsão") autorrealizável é a que induz a comportamentos que tendem a validá-la.A "previsão autorrealizável" se aplica, obviamente, só ao comportamento humano. Se todos os agentes econômicos acreditassem nas "expectativas racionais" e agissem segundo tal hipótese, suas previsões se autorrealizariam...Quando a prevalência do pensamento único torna-se, por meio da comunicação, uma espécie de "oráculo" e tem a capacidade para "definir o que é a situação real, ela será real em suas consequências". Quando, por motivos político-ideológicos, explora-se, na busca pelo poder, a complexidade da situação com argumentos de pessimismo infundado, de derrotismo oportunista e de eventual ingovernabilidade do "presidencialismo de coalizão", isto pode ter consequências reais.É natural, pois, que a presidente Dilma tente cooptar o setor privado mostrando:1º) que os estímulos até agora dados à demanda terão de contemplar mais a oferta;2º) aos sindicatos e ao funcionalismo público que há um limite: os aumentos dos salários reais não podem ser permanentemente maiores do que os aumentos reais da produtividade do trabalho e que isso não impedirá o avanço cuidadoso da inclusão social com programas bem focados;3º) aos empresários (especialmente ao setor manufatureiro) que as ações do governo e as deles mesmos ajudarão a criar a demanda e a oferta para produzir um crescimento de 4% ao ano;4º) ao setor financeiro que a expansão cuidadosa do crédito e a redução dos spreads podem ser feitas, pois o BC tem musculatura para sustentar eventuais problemas externos.O governo necessita continuar a tomar medidas pontuais no curto prazo, apoiadas no programa de aumento da produtividade geral, que deve dar frutos em dois ou três anos. Por que não dar ao Congresso o que fazer, propondo-lhe as reformas macro e microeconômicas que o Brasil tanto precisa?* Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.** Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo e retirado do site EcoD.


por Delfim Netto*
Ricardo Abramovay. Sustentabilidade

Fazer mais com menos

[caption id="attachment_49922" align="alignleft" width="300" caption="Ricardo Abramovay."][/caption] São robustas as evidências empíricas
 do trabalho que coloca em dúvida a universalidade da tese central da economia ecológica contemporânea. O leitor está familiarizado com os nomes de Herman Daly, Peter Victor e Tim Jackson, cujas pesquisas mostram que, apesar da redução no consumo de energia e materiais, relativamente a cada unidade de valor levada ao mercado, o aumento da produção é de tal magnitude que contrabalança este ganho de eficiência e faz com que a pressão sobre os recursos não cesse de aumentar. O resultado é que, em um mundo finito, o crescimento econômico terá de respeitar as fronteiras ecossistêmicas cuja ultrapassagem ameaça o conjunto da vida social. A menos que seja possível crescer usando quantidade cada vez menor de matéria, não apenas relativamente a cada unidade de valor produzida, mas em termos absolutos. É exatamente isso que Chris Goodall(1), candidato do Partido Verde ao Parlamento britânico, encontrou, em um trabalho publicado ao final de 2011(2). Entre 2000 e 2007 (portanto, antes da recessão de 2008), a economia britânica reduziu de forma considerável a base 
material dos bens e serviços por ela consumidos. As evidências referem-se a água, alimentos, materiais
 de construção, cimento, fertilizantes, combustíveis fósseis, papel e energia primária, que teve seu pico de uso em 2001, caindo a partir daí. É verdade que as informações de Goodall cobrem menos de uma década
 e, como ele próprio reconhece, tem 
limites importantes. O trabalho não fala 
das emissões de gases de efeito estufa,
 por exemplo. Além disso, não calcula os materiais usados naquilo que os britânicos importam. De qualquer maneira, é a primeira vez que se constata empiricamente o desligamento (decoupling) entre a
oferta de bens e serviços e o consumo de materiais. (mais sobre decoupling em “Rio+20 + mudança social”, edição 56) Goodall não discute as razões que conduzem a esse inédito descasamento, mas propõe a hipótese de que o crescimento econômico não é necessariamente incompatível com a sustentabilidade. Mais que isso: talvez o crescimento econômico até ajude a reduzir os danos ambientais, pela inovação que propicia. Essa conclusão otimista (exposta discretamente e de maneira especulativa ao final do texto de Goodall) precisa ser recebida com um grão de sal, por duas razões básicas. Em primeiro lugar, a redução no uso de recursos não decorreu espontaneamente do crescimento econômico, mas foi influenciada por políticas públicas e privadas. No caso, por exemplo, dos automóveis, o que houve não foi a redução de materiais para produzi-los, mas um importante declínio absoluto em seu uso: obteve-se mais mobilidade com menos automóveis e não com automóveis mais eficientes. Além disso, o descasamento constatado por Goodall relaciona-se a mudanças no comportamento dos consumidores britânicos. O desenvolvimento sustentável não significa estagnação econômica, e, sim, mudanças nos métodos produtivos e na própria utilidade daquilo que o sistema econômico oferece no sentido de maior eficiência e bem-estar. Mudanças 
técnicas são fundamentais, mas elas se associam igualmente a alterações na cultura das famílias com relação ao consumo e na resposta que as firmas
 dão a estas alterações. O segundo alerta, no qual o próprio Goodall insiste, é que seus dados referem-se à economia britânica e talvez encontrem semelhança em alguns países europeus. Internacionalmente, entretanto, o quadro é bem diferente. A consultoria KPMG acaba de publicar um relatório(3) mostrando o espantoso aumento absoluto no uso de recursos ecossistêmicos, apesar do descasamento relativo em termos globais. Em 2011, cada unidade do PIB mundial foi produzida com 23% a menos de emissões de gases de efeito estufa e 21% a menos de materiais que 20 anos antes. Nesse período, entretanto, a extração total de materiais
 da superfície terrestre aumentou 41% e as emissões de CO2, 39%. O contraste entre o declínio relativo e o aumento absoluto no uso de materiais, nas emissões, no uso de energia, mas também no de água e de fertilizantes, como mostra a KPMG, é tão grande que não parece realista apostar fundamentalmente nas inovações tecnológicas subentendidas na expressão “economia verde” – por maior que seja sua importância –, para compatibilizar o tamanho do sistema econômico com os limites ecossistêmicos. Na Rio+20, construir um sistema global de cooperação científica e tecnológica voltado para a sustentabilidade não pode separar-se da governança dos limites além dos quais a oferta de bens e serviços compromete a própria qualidade da vida social. Notas (1) Autor de Ten Technologies to Save the Planet e How To Live a Low-Carbon Life. (2) Intitulado ‘Peak Stuff’– Did the UK reach a maximum use of material resources in the early part of the last decade?. (3) Entre em kpmg.com e busque: Expect the Unexpected: Building business value in a changing world. * Ricardo Abramovay é professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP e do Instituto de Relações Internacionais da USP, pequisador do CNPQ e coordenador de projeto temático sobre mudanças climáticas na Fapesp – Twitter: @Abramovay. ** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Ricardo Abramovay*
1 Emprego

O lado bom de ser demitido

A “crise” do desemprego foi, de fato, uma oportunidade de conhecer melhor a si mesmos e reavaliar suas prioridades para levar um vida mais satisfeita e feliz. Não há dúvida de que perder o emprego pode ser uma experiência difícil. Mas o choque também pode ter o seu lado positivo. Pelo menos, é isso que afirma uma pesquisa recente que analisou as experiências de gerentes que foram demitidos, nos Estados Unidos e na Austrália. O retorno dos participantes foi surpreendente. Segundo eles, o fato de perder o emprego lhes deu um renovado interesse em viver de acordo com seus valores. A “crise” do desemprego foi, de fato, uma oportunidade de conhecer melhor a si mesmos e reavaliar suas prioridades para levar uma vida mais satisfeita e feliz. O mais interessante da pesquisa, segundo Amy Kenworthy, professora de administração da Universidade de Bond, na Austrália, é que todos os entrevistados falaram sobre os aspectos positivos associados à perda de emprego. Em outras palavras, o choque lhes deu a oportunidade de refletir sobre o que querem da vida. Kenworthy afirmou que sua pesquisa foi exploratória e focada especificamente nas experiências daqueles que tinham cargos relativamente altos, portanto, os resultados não representam, necessariamente, a experiência de todos. Um dos focos do estudo foi refletir sobre a maneira como as pessoas acabam divorciando-se gradualmente de seus valores pessoais, enquanto sobem na escada corporativa. A pesquisa revelou que para muitos o conforto da rotina dá espaço para a inércia tomar conta. O abalo da perda do emprego pode ser de fato algo bastante útil para as pessoas. “É normal ficar zangado, triste, com medo e frustrado,” afirmou Amy. Mas ao invés disso, os resultados mostraram que os entrevistados não supervalorizavam a perda, mas sentiam o desejo de, a partir daquele ponto, levar suas vidas com mais autenticidade e integridade, mesmo que isto significasse renunciar a certos benefícios corporativos ou a um salário relativamente alto. Quanto às novas prioridades, os entrevistados se encaixavam em três categorias claras: o desejo de uma qualidade de vida mais alta, a vontade de ter mais tempo para a família e amigos, e um trabalho mais significativo que contribuísse para a sociedade de alguma forma. “As pessoas diziam coisas como: eu não sabia o quão tóxico o meu ambiente de trabalho era”, comentou Suzanne Janasz, professora de desenvolvimento da liderança na escola de negócios IMD, na Suíça. Ainda assim, a pesquisa aponta que é importante ajudar funcionários que foram demitidos recentemente a encontrar os seus caminhos. Por isso, para amenizar a queda, as pesquisadoras recomendam que as empresas ofereçam oficinas para ajudar os ex-funcionários a avaliar e priorizar os seus valores, ao invés de simplesmente atualizar seus currículos e redigir cartas de recomendação. Mais amplamente, os resultados foram um lembrete útil, de que até momentos de recessão têm o seu lado positivo. “Há algo que podemos tirar da cultura chinesa: o conhecimento de que a crise pode significar oportunidades”, afirmou Kenworthy. “Nós não encaramos as coisas dessa maneira, mas talvez devêssemos.” * Texto traduzido e adaptado da CNN. ** Publicado originalmente no site As Boas Novas.


por Redação As Boas Novas*

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Ande a pé. Isso evita a queima de combustível e o lançamento de gás carbônico na atmosfera e, consequentemente, diminui o efeito estufa.
Reduza. Reutilize. Recicle. Três ‘Rs’ indispensáveis para preservar o meio ambiente e contribuir com o desenvolvimento sustentável em todo o mundo.
Aproveite o sol como fonte de energia limpa. Instale painéis fotovoltáicos em sua residência ou empresa.
Na hora de comprar, escolha produtos com rótulos ecológicos e com menos embalagem, assim você estará escolhendo poluir menos o planeta.
Utilize lâmpadas de baixo consumo, elas economizam até 80% de energia e duram bem mais.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

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Os três componentes principais da biomassa da cana-de-açúcar são a celulose, a hemicelulose e a lignina. Foto:EcoD

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O Zoológico Skazka, na Ucrânia, exibe imagem de filhotes de tigresa albina ‘Tigrylia’, que nasceram no complexo. Um dos bichinhos puxou a mãe e também é um raro tigre albino.

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Frases a laser são projetadas nos prédios gêmios da Câmara dos Deputados, em Brasília. Foto: Divulgação

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Foto: Organização Earth We are one.

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Imagem da campanha Veta Dilma.

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Arte Sustentável de Daniel Murgel.

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Xingu. Foto: Dal Marcondes

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Marta Azevedo, a primeira mulher no cargo de presidenta da Funai. Foto: José Cruz/ABr