ANP aplicou 94% do orçamento em 2011 para fiscalizar exploração e produção de petróleo e gás

Petróleo

ANP aplicou 94% do orçamento em 2011 para fiscalizar exploração e produção de petróleo e gás


por Sabrina Craide, da Agência Brasil


Brasília – A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) empenhou R$ 13,9 milhões até o dia 30 de novembro para fiscalizar as atividades de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás. Segundo a Agência, esse valor equivale a 94% do orçamento do ano que foram aplicados em aquisição de bens e serviços para as ações de fiscalização.De 2008 a 2011, a ANP gastou R$ 75,5 milhões na fiscalização das atividades do upstream (exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás), o que corresponde a 90,92% do total previsto nos orçamentos do período.Já a fiscalização das atividades de distribuição de combustíveis (downstream) recebeu dotação de R$ 49 milhões em 2011, dos quais foram empenhados 99,7%. Entre 2008 e 2011, o orçamento para a atividade foi de R$ 191,5 milhões, dos quais foram empenhados R$ 176 milhões (92%).Em 2011, a ANP também teve orçamento de R$ 8 milhões para as ações de fiscalização de instalações e atividades de refino de óleo, processamento de gás natural, transferência e transporte de petróleo e gás e produção de biodiesel. Desse total, R$ 6,8 milhões (85%) foram aplicados até 30 de novembro. Nos últimos quatro anos, os orçamentos do segmento somaram R$ 28,37 milhões, dos quais foram empenhados R$ 25,29 milhões, com execução de 89,14% do total disponível.Edição: Rivadavia Severo.* Publicado originalmente no site da Agência Brasil.

e2 Brasil

Competência

Após ter enfrentado com sucesso o auge da crise dos mercados financeiros, em 2008 e 2009, dosando a derrapagem e a velocidade do crescimento quando uma boa parte da economia mundial atolava, o Brasil aparentemente está bem preparado para uma nova fase de desaquecimento. Não podemos esperar que nossa economia permanecerá todo o tempo imune aos efeitos da redução dos níveis da atividade no comércio internacional, da produção industrial e tudo o mais que envolve a circulação e o consumo de bens. Isso tudo numa situação complicada pela rigidez dos índices de desemprego nos Estados Unidos e na Eurolândia, e a confirmação da “puxada de freio” do gigante chinês.É inegável, contudo, que temos alguns trunfos importantes que nos ajudarão a continuar crescendo em meio à desaceleração global, embora num ritmo menos robusto, mas que não será menor que 3%, como se prevê para este ano, e certamente poderá manter-se entre 4% e 5% nos anos seguintes. Acredito que poderemos amortecer uma boa parte dos efeitos negativos que já se estão produzindo na economia mundial pelo seguinte: 1. Nossa participação no comércio externo ainda é pequena em relação ao PIB; 2. A exportação de produtos manufaturados é bastante reduzida (é uma desvantagem que na atual circunstância não atrapalha); 3. Temos um superávit comercial robusto e uma substancial reserva cambial, que se mantém acima de US$ 300 bilhões; 4. O déficit fiscal é pequeno (2,5% do PIB); 5. O endividamento público é baixo.A grande lição que já podemos extrair dessa sequência de crises, que a cada semana nos reserva uma surpresa desagradável, aumentando a volatilidade dos mercados financeiros, é que um sólido equilíbrio fiscal de longo prazo e uma apropriada relação Dívida Líquida/PIB são os fundamentos do sucesso de uma boa governança. A percepção desses fundamentos é que dá aos governos a capacidade de reagir com eficiência e competência no momento de lidar com as crises de oferta e procura globais. Gostem ou não gostem os catastrofistas “de plantão”, o Brasil é um sucesso dessa importante lição.Adicionalmente, já no início do segundo semestre de 2011, passou a ser evidente que as medidas prudenciais adotadas pelo governo da presidenta Dilma Rousseff para manter a inflação sob controle foram absorvidas pelos agentes econômicos, renovando as expectativas de retornar ao núcleo da meta até dezembro de 2012. A consequência dessa nova percepção é uma importante redução da volatilidade dos mercados financeiros e o retorno de estímulos aos investimentos do setor produtivo da economia. Não diria que estamos próximos da unanimidade, mas hoje certamente são poucos os agentes (mesmo no mercado financeiro) que não reconhecem o acerto das ações de política monetária conduzidas pelo Banco Central.O que se convencionou chamar de “Cenário Tombini”, construído a partir da antecipação de defesas inteligentes para enfrentar o desaquecimento da economia mundial, tem mostrado plena adequação, não apenas para enfrentar o “vento contra” do exterior, mas principalmente para a retomada dos estímulos ao crescimento da produção e do consumo internos. Tornou possível manter a sequência de redução da Selic, alimentando a expectativa de atingirmos taxas de juro real compatíveis com o objetivo de manter a economia brasileira crescendo em ritmo superior ao do resto do mundo. Nessa última reunião de 2011, o Conselho de Política Monetária, presidido por Alexandre Tombini, cortou mais meio ponto porcentual, baixando a taxa Selic para 11% ao ano.São fatos que nos animam a acreditar que, mesmo com a tempestade lá fora, a economia brasileira será capaz de manter o esforço de crescimento com base na expansão do mercado interno, sustentada, em parte, com a inclusão social dos trabalhadores beneficiados com a correção do salário real. A isso se pode somar o esforço do governo no controle das despesas de custeio da máquina pública, para permitir a destinação de recursos para as obras de recuperação e expansão da infraestrutura, principalmente nas áreas de transportes e energia.Infelizmente, não há condições de prever até quando a economia dos países desenvolvidos vai continuar beirando o atoleiro. É preciso reconhecer que a falta de estadistas na liderança da imensa maioria dos países ainda vai continuar a retardar, se não impedir, a tomada de decisões para solucionar os graves problemas econômicos e sociais que a imprudência política e a ambição financeira produziram nesses últimos anos.* Delfim Netto é economista, formado pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.** Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Delfim Netto*
Joseph Stiglitz Entrevista

Stiglitz: “A Europa e o euro caminham para o suicídio”

[caption id="attachment_36545" align="alignright" width="300" caption="Joseph Stiglitz."][/caption]Em entrevista ao jornal Página/12, o Prêmio Nobel de Economia 2001, Joseph Stiglitz, analisa a evolução da crise na zona do euro e afirma categoricamente: os dirigentes europeus não aprenderam nada com a experiência da Argentina. “A Europa e o euro caminham para o abismo.” Para Stiglitz, o esquema que a Alemanha está impondo ao resto da Europa vai conduzir à mesma experiência desastrosa que a Argentina teve com o Fundo Monetário Internacional (FMI).Joseph Stiglitz é um militante contra as receitas de ajuste fiscal que propõem uma “desvalorização interna” pela via da diminuição de salários e da submissão dos devedores aos credores. Anos atrás, a Argentina padeceu esses males como nenhum outro país, situação que conseguiu superar a partir da aplicação de um conjunto de políticas econômicas de sinal oposto, como a recomposição da competitividade a partir de uma forte desvalorização, compensada com a expansão do gasto público e política de renda ao estilo keynesiano, e uma forte reestruturação da dívida externa que repartiu os custos da quebra.Por isso, Stiglitz se tornou um defensor do modelo argentino. “Nos anos 1990, foi o FMI que orientou a Argentina a aplicar as políticas de austeridade, com resultados desastrosos. Na zona do euro não aprenderam a lição. Agora de novo, a Europa deveria prestar atenção ao crescimento argentino, que mostra que há vida depois da quebra”, explicou em uma conversa exclusiva com o jornal Página/12.Na primeira hora da manhã, um pouco antes de partir para o Chile, o Prêmio Nobel de Economia 2001, enquanto saboreava um abundante café da manhã norte-americano ao ar livre com pão, ovos, bacon e frutas, abordou em profundidade a crise do euro, as saídas possíveis para as economias mais débeis, a incapacidade dos governos de Alemanha e França e das novas administrações de corte “tecnocrata” que surgiram na Itália e na Grécia. Stiglitz lembrou a reportagem que o Página/12 fez em agosto, na cidade alemã de Lindau, onde ocorreu a conferência mundial de Prêmios Nobel de Economia. Admitiu que, em relação àquela conversa, sua percepção a respeito da crise europeia tornou-se mais negativa. “A Europa e o euro caminham para o suicídio”, resumiu. Ele recomendou que a Grécia abandone a moeda comum.Ele também destacou a relativa relevância do contexto internacional favorável para explicar o desempenho econômico argentino, referiu-se à inflação e ao giro de rendimentos das multinacionais. Esta semana, Stiglitz reuniu-se com a presidenta, Cristina Fernández. “Tanto Néstor, quando tive a oportunidade de conhecê-lo, como Cristina, me pareceram duas pessoas muito interessantes. Ainda que ela seja mais passional”, relatou.Você menciona que a “Argentina desta vez está fazendo melhor”. Qual a explicação para o bom desempenho da economia nacional e de outros países emergentes?Na Argentina, o fim do regime da convertibilidade e a quebra geraram um alto custo e um intenso período de queda. Logo depois, a economia começou a crescer muito rápido, inclusive na ausência daquilo que muita gente considera serem as “melhores” práticas econômicas. Creio que a Argentina, o Brasil e a China adotaram políticas macroeconômicas muito boas, ao aplicar estímulos keynesianos bem desenhados para alavancar a economia, diversificá-la e melhorar a situação do mercado de trabalho. Além disso, as regulações bancárias em muitos países em desenvolvimento são de melhor qualidade que as dos Estados Unidos e Europa. Em alguns casos, isso se deveu a que esses países já tinham atravessado grandes crises.Qual o papel do contexto internacional favorável neste processo?Vocês se beneficiaram do contínuo crescimento econômico da China. Neste sentido, pode-se dizer que tiveram sorte.Refere-se ao chamado “vento de popa”?Sim, mas para explicar o resultado final, sem dúvida é preciso mais do que isso. A Argentina manteve o fluxo de crédito, desvalorizou sua moeda e impulsionou o investimento em saúde e educação. Também foi importante o crescimento do Brasil. Um fator fundamental, com certeza, foi a reestruturação da dívida, que de fato pode servir como guia em outros processos similares que estão ocorrendo agora na Europa. Essas políticas, aplicadas em conjunto, permitiram ao país começar a melhorar a elevada desigualdade de renda.O superávit em conta corrente se reduz à medida que a economia cresce. Um fator que gera uma importante perda de divisas é a remessa de lucros e dividendos das empresas multinacionais. O que a Argentina poderia fazer para enfrentar essa tensão?Os lucros de algumas empresas têm origem em rendas de tipo monopolista, por causa da falta de competição. Para atacar isso, é preciso introduzir competição, de forma que a magnitude dessas rendas caia. Abrir os mercados pode gerar fortes retornos sociais. Provavelmente, alguns dos problemas poderiam ser solucionados com mais competição. Depende muito do setor.Em que medida os tratados bilaterais de investimentos que a Argentina assinou reduzem a margem de ação para regular as multinacionais?Muitas ações que podem ser tomadas em termos de regulação podem terminar em demandas judiciais, com a argumentação de que foram introduzidas mudanças nos termos do contrato. É preciso sair desses acordos e, além disso, lutar nas cortes especializadas. A política econômica não deve ser ditada por esses convênios.A CRISE EUROPEIAPor que a crise se instalou na Europa e não se vislumbra uma saída?Creio que o problema fundamental é que a concepção geral da União Europeia (UE) foi errada. O Tratado de Maastricht estabeleceu que os países deveriam manter déficits baixos e uma proporção reduzida da dívida em relação ao PIB. Os líderes da UE pensaram que isso seria suficiente para fazer o euro funcionar. No entanto, Espanha e Irlanda tinham superávit antes da crise e uma boa proporção de dívida em relação ao PIB e, mesmo assim, estão com problemas. Alguém poderia pensar que, em função dos acontecimentos recentes, a UE teria se dado conta de que essas regras não eram suficientes. Mas seus líderes não aprenderam isto.A que se refere?Agora propõem o que chamam de uma “união fiscal”, que, na verdade, é só a imposição de maior austeridade. Reclamar austeridade agora é uma forma de assegurar-se de que as economias colapsem. Creio que o esquema que a Alemanha está impondo ao resto da Europa vai conduzir à mesma experiência que a Argentina teve com o FMI, com austeridade, PIB caindo, magras receitas fiscais e, por isso, a suposta necessidade de reduzir mais o déficit. Isto gera uma queda em espiral, que conduz a mais desemprego, pobreza e aprofunda as desigualdades. O déficit fiscal não foi a origem da crise, mas sim a crise que acabou gerando o déficit fiscal.Que papel desempenha o Banco Central Europeu (BCE) neste processo?O BCE torna as coisas ainda mais complicadas, porque tem o mandato de preocupar-se somente com a inflação, quando, em troca, o crescimento, o desemprego e a estabilidade financeira importam muito mais agora. Além disso, o BCE não é democrático. Podem decidir políticas que não estão de acordo com o que os cidadãos querem. Basicamente, representa os interesses dos bancos, não regula o sistema financeiro de forma adequada e há uma atitude de estímulo aos CDS (Credit Default Swaps), que são instrumentos muito daninhos. Isso também é uma mostra de que os bancos centrais não são independentes, mas sim políticos.Como explicar que Alemanha e França estejam empurrando os europeus para esse abismo?Creio que eles querem fazer as coisas corretas, mas têm ideias econômicas erradas.Estão errados ou, na verdade, representam interesses de determinados setores?Creio que ambas as coisas. Por exemplo, é claro que estão colocando os lucros dos bancos acima das pessoas. Isto é claro para o caso do BCE, mas não creio que seja claro para Nicolas Sarkozy ou Angela Merkel – presidente da França e chanceler da Alemanha, respectivamente. Creio que eles estão convencidos. Podem estar protegendo os bancos, mas o fazem porque acreditam que, se os bancos caem, a economia cairá. Por isso digo que tem um olhar errado, além do que não creio que estejam colocando os interesses dos gregos ou dos espanhóis no topo da agenda. Este é outro problema, a falta de solidariedade. Eles dizem que não é uma “união de transferência de dinheiro”. De fato, o é, mas a transferência de dinheiro vai da Grécia para a Alemanha.A união monetária é um problema em si mesmo?Sim, é um problema. Não há suficiente similitude entre os países para que funcione. Com a união monetária eles ficaram sem um mecanismo de ajuste, como é a modificação dos tipos de câmbio. É como ter imposto um padrão ouro nessa parte do mundo. Se tivessem um banco central com um mandato mais amplo, que contemplasse, além da inflação, o crescimento e o desemprego, com uma cooperação fiscal real e assistência através das fronteiras, então seria concebível o funcionamento da união monetária, e ainda assim seria difícil. No atual esquema, pode funcionar, mas com um enorme sofrimento de muita gente.Que análise você faz da aparição de governos tecnocráticos, como o de Mario Monti, na Itália, ou o de Lucas Papademus, na Grécia?O principal problema é ter criado um marco econômico a partir do qual a democracia ficou subordinada aos mercados financeiros. É algo que Merkel sabe muito bem. As pessoas votam, mas se sentem chantageadas. Deveria se reformular o marco econômico para que as consequências de não seguir os mercados não sejam tão severas.Em agosto, você disse que o euro não tinha que desaparecer. Qual é sua postura agora?Naquele momento eu era mais otimista. Pensava que os líderes iam se dar conta de que o custo de dissolver o euro era muito alto. Mas desde aquele momento, a confrontação com o mercado piorou e a incapacidade dos governos europeus tornou-se evidente. Em lugar de aprender com os erros, estão repetindo-os. Creio que realmente querem sobreviver, mas demonstraram falta de entendimento de economia básica, o que me faz ter mais dúvidas.É possível ter um euro a duas velocidades, como alguns economistas propõem?Um euro a duas velocidades é uma das formas de ruptura do euro. Isto pode ser possível, a solução pode ser a criação de duas moedas com mais solidariedade entre elas. A moeda única contribuiu para o problema. Não era inevitável o estouro, mas aconteceu. Quando se reconhece que os mercados têm quotas de irracionalidade, talvez seja melhor manter mais autonomia monetária.Você disse que a reestruturação da dívida é boa para as finanças públicas europeias e citou o exemplo da Argentina. Mas nosso país também desvalorizou. Acredita que a Grécia precisa adotar essa medida?Esta é a pergunta fundamental. A Grécia vai ter que reestruturar sua dívida, isto é algo que todos aceitam agora, ao contrário do que ocorria há um ano. Se tivessem encaminhado as coisas de outra maneira há dois anos, a reestruturação poderia ter sido evitada. Em troca, impuseram a austeridade. Agora, a pergunta é: dada a reestruturação, isso será suficiente para recompor o crescimento econômico? Acredito que a resposta, para a Grécia, é não. A menos que tenham algum tipo de ajuda externa, inclusive depois da reestruturação, estarão sob um regime de austeridade. Por isso, o PIB vai cair ainda mais. Não há competitividade e há duas maneiras de consegui-la.Uma é por meio de uma desvalorização interna, mas se os salários caem, a demanda cai mais ainda e torna mais fraca a economia. Por outro lado, se a Grécia sai do euro e desvaloriza, a transição será difícil e complexa, mas uma vez que o processo tenha acabado, o fato de a Grécia fazer limite com a União Europeia será um impulso para a recuperação. Novos bancos se instalariam e haveria mais comércio.* Tradução: Katarina Peixoto.** Publicado originalmente na Carta Maior.


por Tomás Lukin e Javier Lewkowicz*, do Página/12
e4 Economia

Novas definições garantem continuação do MDL

O acordo sobre um roteiro de compromissos para as ações climáticas e uma série de definições no texto da última conferência do clima em Durban (COP 17) dividem opiniões em se tratando de incentivos para os mercados de carbono e uma economia mais limpa, porém trazem novidades.“O acordo oferece um impulso significativo para investidores em tecnologias de baixo carbono”, disse Abyd Karmali, chefe global de mercados de carbono do Banco das Américas Merril Lynch.A decisão sobre o segundo período do Protocolo de Kyoto, que começará em 2013 e contará com a participação de 30 países, significa que o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) continuará operacional apesar das mudanças significativas impostas ao longo dos últimos anos.Resta saber quais serão as bases legais para a extensão de Kyoto, que dá as diretrizes para o MDL, pois o seu funcionamento após 2012 não está totalmente definido.Após anos de negociações, a conferência deixou claro que projetos de captura e armazenamento de carbono (CCS, em inglês) passariam a fazer parte do rol de atividades do MDL, o que suscitou elogios de grupos como a Shell e Alston.“O avanço conseguido no Fundo Verde do Clima e na inclusão do CCS no MDL é um passo a frente valioso e sério”, comentou Joan MacNaughton, vice-presidente sênior de políticas ambientais e energéticas da gigante Alston, ao Business Green.“Esta importante tecnologia agora tem a oportunidade de ser empregada globalmente sob uma regulamentação clara, que todos os países sancionaram”, enfatizou o conselheiro sênior sobre mudanças climáticas da Shell, David Hone.Porém, o CCS deve ter uma entrada sutil no MDL, já que ainda não tem uso comercial certo, com muitos projetos em estágio piloto e em desenvolvimento. Além disso, existe a dificuldade de provar a sua adicionalidade (sob os valores atuais das RCEs). Por fim, ainda será preciso passar pelo processo de aprovação de uma metodologia.As regras definidas obrigam à reserva de 5% das Reduções Certificadas de Emissão (RCEs), que serão devolvidas aos desenvolvedores de projetos apenas 20 anos após o fim do período de creditação, sob a comprovação de que não houve vazamento de CO2.A questão da “materialidade” (leia a decisão) na avaliação de projetos de MDL, ou seja, a definição de um limiar (threshold) tolerável para erros identificados como “materiais”, foi aprovada no texto final. Cinco limiares foram acordados, dependendo do volume de reduções de emissão de um projeto.A proposta de um grupo de países da América Latina, de que auditores do MDL deem maior atenção às opiniões de comunidades locais na validação dos projetos, não conseguiu consenso e foi retirada do texto no domingo (11/12) pela manhã.O mecanismo de Implementação Conjunta, desenvolvido especialmente nas chamadas economias em transição, teve mais uma vez a decisão sobre a sua extensão após 2012 adiada. Isto pode causar uma correria dos proprietários para a venda destes créditos o mais breve possível.Novo esquemaA extensão do Protocolo de Kyoto até 2017, somada ao acordo para criação de um novo mecanismo de mercado para precificação do carbono (ainda sem muitos detalhes) ligado ao tratado que sucederá Kyoto, injetaram ânimo em alguns analistas do setor.O novo mecanismo operaria sob a Conferência das Partes da UNFCCC e levaria em conta “as circunstâncias diferentes dos países desenvolvidos e em desenvolvimento”. Outros detalhes foram jogados para a Conferência do ano que vem, no Catar.A União Europeia quer que o novo esquema seja baseado na legislação internacional, para evitar fragmentação do mercado de carbono.As discussões foram no sentido de que as regras devem garantir a integridade ambiental dos novos mercados e evitar a dupla contagem. Um ponto importante levantado é que as diretrizes garantam o alcance de uma redução líquida nas emissões, uma diferença enorme do que acontece atualmente com as chamadas “compensações” ou offsets.* Publicado originalmente no site do CarbonoBrasil.


por Fernanda B. Müller, do CarbonoBrasil
e6 Crédito

A nova cara da sustentabilidade

Alessandra França, 25 anos, diretora-presidente do Banco Pérola. Aparentemente, a descrição remete a uma executiva prodígio, nascida em berço de ouro, formada nos bancos de Harvard, herdeira de um império financeiro. Banqueira, sim! Prodígio, também. Mas trata-se, aqui, de uma espécie de Muhammad Yunus (economista, criador do conceito de microcrédito, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2006) tupiniquim.Uma banqueira dos pobres que se define como alguém que, modestamente, pretende “mudar o mundo”. Na boca de qualquer outro jovem, a autodefinição soaria rebelde ou até infantil. Na de Alessandra – apesar da figura meiga e do jeito de menina tímida – adquire um tom de segurança e uma estatura a ponto de acreditar-se que – sim – é possível. “Sou uma jovem que tem sonhos, mas, principalmente, uma vontade de contribuir para a melhoria do mundo por meio do meu trabalho. Sonhadora, mas com os pés no chão” – adianta Alessandra, com uma serenidade tão comovente quanto incomum para alguém da sua idade.Filha de pai caminhoneiro e mãe dona de casa, Alessandra cresceu em Aparecidinha – bairro industrial da periferia de Sorocaba, interior de São Paulo. Aos 14 anos, foi “pescada” por um curso de informática e cidadania de uma ONG tradicional da cidade, o Projeto Pérola. “Naquele ano, o melhor aluno do curso ganharia uma bolsa de estudos para cursar o ensino médio numa conceituada escola particular. E nós conseguimos”, conta Alessandra, que consegue referir-se a si própria no plural sem parecer pedante.Paralelamente aos estudos, Alessandra foi se engajando cada vez mais no Projeto Pérola: trabalhou como monitora, instrutora dos cursos, passou para o núcleo pedagógico, ajudando a elaborar conteúdos programáticos, depois mais um ano na gestão financeira até chegar à coordenação-geral, cargo no qual permaneceu durante quatro anos (2005-2009), quando, finalmente, chegou a hora de colocar em prática o sonho que ela começou a sonhar aos 16 anos.Até Bangladesh sem sair de casaAlessandra conta que estava no Pérola havia um ano quando caiu em seu colo o livro O Banqueiro dos Pobres, uma biografia de Yunus e sua experiência com o Grameen Bank, em Bangladesh. “Lendo aquela história, parecia que eu estava lá: me imaginava caminhando pelas ruas daquela cidade. Senti imensa alegria ao ver que empréstimos tão pequenos, chamados de microcrédito, faziam tanta diferença na vida daquelas pessoas. Isto me encantou. E comecei a pensar que, apesar das diferenças, Brasil e Bangladesh têm também muitas semelhanças.”A sensação de déjà vu vinha, na realidade, de sua própria origem: comunidade pobre, periferia de grande cidade, onde as pessoas “têm uma questão de autoestima, de não se sentirem merecedoras de entrar num banco, conseguir um crédito e crescer”. Alessandra conta que via isso dentro de casa, nos próprios pais. “Meu pai é caminhoneiro, sempre foi um empreendedor. Mas tanto ele quanto minha mãe tinham medo do banco – era um mito!” Hoje, além do “empreendimento” do pai, a mãe e a irmã mais nova tocam, em casa, uma pequena confecção. “O meu processo de aprendizagem começa em casa: são 24 horas por dia estudando o comportamento do jovem empreendedor e da família. É um laboratório!”A semente da pérolaA soma de todas essas referências, aliada ao espírito comunitário participativo – influência do pai ex-sindicalista, que “sempre gostou de política e fez com que eu me interessasse por assuntos como reforma agrária” – foram fundamentais na concepção da organização de microcrédito concebida por Alessandra, que começou a ser gestada durante a passagem dela pela direção do Projeto Pérola. “Coordenei o programa Escola de Talentos numa comunidade muito complicada de Sorocaba, com altos índices de violência e prostituição, onde buscávamos o desenvolvimento dos sonhos dos jovens. Mas tivemos muitas frustrações, porque víamos que eles tinham boas ideias, boas iniciativas empreendedoras, mas elas sempre naufragavam, justamente pela falta de dinheiro.”O projeto em questão estava em andamento graças a um concurso da organização Artemísia (organização internacional de apoio a negócios sociais). “Durante um ano participamos da seleção, onde avaliava-se tanto a parte comportamental quanto do plano de negócios, e saímos campeões” – lembra Alessandra , com a modéstia que lhe é peculiar.As frustrações colhidas na Escola de Talentos serviram para reorientar o caminho. “Percebemos que o jovem tem talento e boas ideias, mas se não tiver dinheiro não consegue colocá-las em prática. E as instituições financeiras convencionais excluem esse público, porque os créditos são concedidos de acordo com o histórico da pessoa. O jovem não tem comprovação de renda, não tem histórico, não tem nada!”Diante dessa conclusão – e do pioneirismo da iniciativa voltada a jovens urbanos – a experiência, então rebatizada como Banco Pérola, recebeu seu primeiro investimento – R$ 110 mil, sendo R$ 40 mil para empréstimos (Artemísia) e R$ 70 mil (Projeto Pérola) para o desenvolvimento da metodologia, pagamento da equipe e o custeio das incontáveis idas e vindas às comunidades carentes, na busca pelos jovens talentos empreendedores.Um banco para chamar de nossoO ponto de referência na conquista dos clientes do Banco são as unidades do Sabe Tudo – construções circulares inspiradas no Farol do Saber de Curitiba –, espalhadas por 22 bairros de Sorocaba, sempre anexas a escolas municipais –, onde o Projeto Pérola oferece seus cursos de informática e cidadania. Nem sempre os melhores alunos são os mais empreendedores. “Geralmente é o pessoal da ‘turma do fundão’ que tem ideias de negócios inovadores”, conta Alessandra – ela própria uma exceção. “Sempre fui estudiosa, certinha, sentava na primeira fileira da classe, não conversava com ninguém. Mas na hora do lazer, sempre foi com a turma do fundão” – faz questão de frisar.Em um ano de projeto-piloto – completados no dia 28 de outubro de 2010 – o Banco Pérola concedeu 25 créditos. O primeiro deles, inclusive, tornou-se o principal case de sucesso da organização de microcrédito fundada por Alessandra. “Foi um empréstimo de R$ 400,00 que mudou completamente a vida da Isabel”, conta.Na época, a jovem de 26 anos tinha uma renda de R$ 80,00 mensais, do programa Bolsa Família do governo federal, para sustentar os dois filhos, de cinco e oito anos. “Se fosse trabalhar fora, ela gastaria quase tudo com transporte e pagamento de alguém para cuidar das crianças, e ainda não teria a certeza de uma boa educação. Então, optou por ficar em casa para cuidar dos filhos”, conta Alessandra.Isabel usou o empréstimo para reformar um carrinho de cachorro quente, ganho de um tio, e comprar as matérias-primas. E foi vender o lanche na porta de um forró do bairro. De cara, viu a renda familiar multiplicada por dez: R$ 800,00 por mês. Algum tempo depois o forró fechou, a concorrência surgiu, as vendas caíram e Isabel teve de se reinventar. “Ela percebeu que a comunidade precisava de frutas e verduras e, como pagou o primeiro empréstimo direitinho, pôde solicitar um novo crédito, de R$ 1 mil, para montar um hortifruti.” Hoje, o sacolão de Isabel fatura em média R$ 2 mil mensais.“Quando chegamos na casa dela pela primeira vez, não tinha nem lugar para sentar”, lembra Alessandra.Aos poucos, a primeira cliente do Banco foi reformando a casa, fez convênio médico para os filhos, o marido, que tinha ido embora, voltou… Ah, os homens… No negócio de Alessandra, eles estão mesmo em baixa! Dos 25 empreendimentos apoiados pelo Banco Pérola, apenas três são tocados pelo sexo masculino. “Esta é uma de nossas semelhanças com o banco do Yunus, em Bangladesh. As mulheres são muito mais interessadas nos pequenos negócios familiares, sobretudo porque pensam muito nos filhos. Elas sempre acabam dando jeito para tudo. Isto faz com que queiram crescer. É um movimento natural, espontâneo. O Banco não priorizou esse público. Simplesmente aconteceu”, conta.Economista por tabelaMas e a jovem Alessandra, como se sente podendo transformar assim a vida das pessoas? “É uma satisfação enorme, uma grande realização, porque vejo que, com tão pouco dinheiro, é possível estimular uma cadeia muito sólida. Na maioria das vezes, são pessoas que estão pouco acima da linha da miséria. Alguns já têm alguma coisa, precisam do dinheiro para capital de giro. Mas o caso da Isabel é emblemático porque ela saiu do zero e teve um crescimento gigantesco. Acredito que há muitas ‘isabéis’ por aí, que só precisam de um incentivo.”A emoção de colher os frutos de seu trabalho, no entanto, não tira de Alessandra o peso da responsabilidade. Pelo contrário. Para administrar o Banco Pérola, ela conta, sim, com um apoio “logístico”: um advogado, um contador, dois consultores de gestão estratégica, três profissionais para desenvolver a futura comunicação (até agora feita no boca a boca, já que o Banco não dispunha de recursos suficientes para altos voos, situação que tende a mudar em breve) – todos “emprestados” do Projeto Pérola ou terceirizados, com dedicação de tempo parcial ao Banco.Para tocar o dia das operações – em tempo integral, muitas noites e finais de semana – são apenas três profissionais: Alessandra, hoje formada em Marketing com especialização em Gestão de Pessoas, e Adriene Garcia, 24 anos, formanda em Psicologia, cuidam mais da gestão e da relação com parceiros e investidores; e Leonardo Balter, 21 anos, estudante de Gestão da Qualidade, é o chamado “agente de oportunidade”, que fica na comunidade, identificando os clientes potenciais do Banco. Curiosamente, nenhum dos “banqueiros” tem formação na área financeira. Um questionamento, aliás, que Alessandra sempre ouve nas palestras que tem dado pelo Brasil – uma por mês, em média.“O microcrédito está muito relacionado à pessoa, à família. Os casos de inadimplência geralmente se dão por algum problema nesse nível, como doença, briga, morte – já que a violência está muito presente nas periferias. Mas não porque o negócio não está dando certo”, explica a “economista da vida”, ainda em formação nos grupos de liderança apoiados pela Artemísia.Baixa inadimplência, aliás, é uma das características dos empreendimentos de microcrédito em geral. Agora comprovada também junto ao público jovem. “Tínhamos referências de pesquisas nesse tipo de negócio, mas como não existia nenhuma experiência voltada especificamente para o jovem, podia acontecer qualquer coisa. E foi superlegal”, conta Alessandra, referindo-se a uma taxa média de inadimplência mensal de 4,5%  – baixíssima, portanto, se comparada aos bancos convencionais, onde esse percentual oscila entre 10% e 18% ao mês. “Dos R$ 40 mil que emprestamos até agora, tivemos R$ 600,00 de perda. É muito pouco”, orgulha-se Alessandra.A amostragem é, de fato, animadora e fundamental para atrair novos investidores. Eles também já perceberam isso: para 2011, o Banco Pérola deverá contar com uma carteira de R$ 350 mil para empréstimos, resultado de dois investimentos conquistados, por exemplo, junto a um grupo de herdeiros de grandes fortunas, dedicados a apoiar causas sociais relevantes. “Acreditamos que, só em Sorocaba, existam 40 mil clientes potenciais que precisam do tipo de crédito que oferecemos. Para atender cada um deles com R$ 1.300,00 (tíquete médio dos empréstimos do banco), é preciso ter um belo funding.” (E ela ainda diz que não é especialista em economia, hein…)E a sustentabilidade, onde fica?Conseguir um empréstimo no Banco Pérola, exige, claro, o atendimento de alguns critérios. E o principal deles é a honestidade. Só se concede o primeiro crédito para quem estiver integrado a um grupo de três a cinco empreendedores, que se avalizam mutuamente. É o chamado “grupo solidário”, no qual a garantia de todos significa, também, a de cada um: se alguém do grupo não paga, os demais têm de pagar por ele. Portanto, o processo de formação dos grupos já representa uma garantia, na medida em que ninguém quer parceiros desonestos e caloteiros.Segunda condição: além de economicamente viável, o empreendimento precisa estar dentro da lei. “Já fomos procurados por gente que quer vender CDs e jogos piratas, tem negócio com caça-níquel e até venda de drogas”, conta Alessandra.Diante desse quadro, exigir, como condição para o empréstimo, que o empreendimento adote boas práticas socioambientais ainda é um luxo, na avaliação da presidente do Banco Pérola. “Atividades sustentáveis são uma pauta constante das nossas discussões. Mas quem não tem nada e precisa correr atrás do que comer no dia seguinte não vai ouvir esse tipo de apelo.”Esperar que a mudança venha apenas da elite, admite Alessandra, não é um bom caminho. “Claro que a sobrevivência do planeta depende de uma mudança de pensamento na base da pirâmide, que representa mais de 70% da população (nossa, é muita coisa para pensar, é complexo!)”, surpreende-se com sua própria constatação. Mas ela permanece otimista. “Penso que o maior desafio é a inclusão do ser humano como um todo, não só num único pilar do tripé. A inclusão social, econômica e ecológica têm de caminhar juntas. Este trabalho tem de ser feito na base, para que o empreendedor perceba os benefícios disso para ele e para o planeta.”Nesse sentido, Alessandra já estuda o lançamento de um novo produto do Banco Pérola, uma espécie de programa de fidelidade para empreendedores “cinco estrelas”: aqueles que adotarem ações socioambientalmente responsáveis teriam melhores taxas de juros para os empréstimos.Multiplicação das pérolasEnquanto essa hora não chega, no entanto, Alessandra vai espalhando a mensagem por onde passa. No mês de outubro, participou como palestrante do Fórum de Sustentabilidade do SWU (Starts With You ou, em português, Começa com Você), em Itu, no interior de São Paulo, onde cerca de mil jovens de classe média disputaram espaço nas tendas destinadas a essa discussão. “Para os shows musicais – principal atração do evento – foram 50 mil. Acho que a conscientização dos jovens está nessa proporção. Mas aqueles mil acordaram mais cedo só para ouvir os ‘ecochatos’ falando desse assunto. Portanto, eles estão engajados, se não, não iriam”, comemora. “O importante é que a discussão começou e isto já é superpositivo. Se cada um desses mil fizer um pouco, transmitir nas suas relações e influenciar os outros, já será muito.”Fazer muito com pouco parece ser mesmo o destino de Alessandra França. Embora admita um certo desânimo, de vez em quando. “Às vezes, a gente vê tanta corrupção, tanta coisa errada… Daí penso se estou sonhando demais… Mas, ao mesmo tempo, vejo tanta transformação nas comunidades com tão poucos recursos que penso que devo continuar sonhando, mas sempre com os pés no chão”, repete.E assim, entre uma nadadinha, uma malhação na academia e uma aula de dança do ventre ou de salão “com o namorado, duas vezes por semana!” – coisas “normais” que ela ama fazer, como tantas outras jovens da sua idade, Alessandra segue traçando planos, também sobre seu futuro profissional. “Sei que o Banco Pérola vai chegar num tamanho que caminhará sozinho, não vai precisar mais de mim. Quando chegar esse momento, vou querer outras coisas, mas não me vejo numa empresa tradicional. Quero trabalhar com formação de gestores, desenvolvimento de pessoas, uma consultora, talvez.”Se uma das missões do Projeto Pérola é encontrar joias em estado bruto nas comunidades, certamente Alessandra França está entre as pérolas mais bem lapidadas que a organização já produziu.A metodologia do Banco PérolaAssim como em outras organizações de microcrédito, num primeiro momento é preciso que o candidato ao empréstimo integre o chamado grupo solidário (entre três e cinco empreendedores). Os empreendimentos passam, então, por uma análise de crédito, a partir do preenchimento de um questionário padrão, desenvolvido pela equipe do Banco Pérola. A aprovação tem de ser unânime: se um dos três gestores do Banco discordar ou tiver dúvidas, o empréstimo é negado.Como se trata de uma instituição voltada ao jovem, a faixa etária prioritária de atendimento varia dos 18 aos 29 anos – com possibilidade de extensão até os 35 anos a partir de 2011. Os empréstimos – de R$ 50 a R$ 3,5 mil para o primeiro crédito – são sempre decididos em conjunto com a equipe do Banco, pelo sistema de microcrédito produtivo orientado. A partir da segunda concessão, os valores podem ser individuais e chegar a R$ 5 mil.O tempo médio para quitação da dívida é de sete a dez meses, a uma taxa média de juros de 4,5% ao mês. Se o empreendedor consegue se formalizar, leva vantagem: os juros caem para 4% ao mês.Pescador de ilusõesO Projeto Pérola é uma organização social que tem como objetivo promover a conquista da dignidade de jovens de baixa renda por meio de ferramentas sociais, valorizando talentos e lideranças e incentivando a consciência protagonista.Movido pela vontade de ir além de suas obrigações legais como empresário, Jorge Proença fundou o Projeto Pérola em janeiro de 2000, em Sorocaba, no interior de São Paulo. Hoje, são 22 unidades no município e mais 11 distribuídas nas cidades de Votorantim, Salto, Mairinque, Itapeva, Itapirapuã Paulista, Itapetininga e Iperó, mantidas com o apoio de 113 instituições parceiras.Além dos cursos de informática, que promovem a inclusão digital, o projeto oferece aulas de cidadania, meio ambiente, mercado de trabalho e responsabilidade social. Ao longo de dez anos, mais de 50 mil pessoas foram beneficiadas, entre crianças, jovens e adultos. E muitas pérolas encontradas.* Publicado originalmente no site Ideia Sustentável.


por Cláudia Piche, do Ideia Sustentável
e8 Mundo

COP17 determina estrutura do Fundo Climático Verde, mas não resolve a questão de como levantar os recursos

Os países reunidos em Durban para a Conferência das Partes das Nações Unidas (COP 17) conseguiram chegar a algumas decisões sobre o Fundo Climático Verde (GCF, em inglês), que promete disponibilizar até US$ 100 bilhões ao ano em ajuda para as nações mais vulneráveis às mudanças climáticas.Ficou definido que um conselho com 24 membros, incluindo representantes de países ricos e pobres, se reunirá periodicamente para administrar o GCF e decidir sobre projetos que poderão acessar os recursos. As duas primeiras reuniões estão marcadas para o começo de 2012 na Suíça e na Coreia do Sul.Também foi descrito que o GCF terá duas modalidades principais de financiamento: adaptação e mitigação. Outras atividades, como capacitação de grupos da sociedade civil e transferência de tecnologia também poderão ser contempladas.A gestão dos recursos acabou ficando com o Banco Mundial e com a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Assim, foram atendidas as duas propostas mais fortes sugeridas na COP 17. A dos Estados Unidos, que pedia a gestão do Banco Mundial, e a dos países emergentes, que queriam que a ONU ficasse responsável pelo dinheiro.Porém, o problema de levantar os recursos continua existindo. Apenas dois países aproveitaram a COP17 para prometer a liberação de dinheiro: a Alemanha, com US$ 53,5 milhões, e a Dinamarca, com US$ 20 milhões.No documento final da Conferência de Durban sobre o Fundo Climático Verde, apenas duas frases dizem respeito a como os recursos serão mobilizados: “O Fundo receberá recursos financeiros dos países desenvolvidos da Convenção” e “O Fundo também poderá receber recursos de outras fontes, públicas ou privadas, incluindo fontes alternativas”.A ONG Friends of The Earth descreveu o GCF como uma “casca vazia – uma conta bancária sem nenhum dinheiro dentro”.Iniciativa privadaMuito se falou durante a COP 17 em como mobilizar o capital privado para lidar com as mudanças climáticas. Foram sugeridas ferramentas como impostos sobre emissões de gases de efeito estufa ou sobre o setor marítimo internacional. Mas nenhuma dessas ideias conseguiu o apoio necessário para figurar no texto final.As próprias empresas não parecem muito interessadas em contribuir, ainda mais neste período de crise econômica mundial. Segundo dados preliminares de um levantamento da consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), que entrevistou 800 executivos das maiores multinacionais do planeta, apenas 27% dos CEOs estão preocupados com as mudanças climáticas.“A iniciativa privada até possui a questão da sustentabilidade em mente, mas geralmente está mais interessada na causa ambiental e de eficiência energética do que no clima”, afirmou Richard Gledhill, da divisão de sustentabilidade e mudanças climáticas da PwC.Segundo Jonathan Grant, também da PwC, o resultado de Durban não contribuirá para mudar este quadro.“O acordo que foi alcançado é uma vitória do processo de negociação das Nações Unidas e não da luta contra as mudanças climáticas. As empresas continuarão afastadas da causa climática esperando por ações concretas dos governos”, disse Grant.* Publicado originalmente no site do CarbonoBrasil.


por Fabiano Ávila, do Instituto CarbonoBrasil
1 China

China: a economia cresce, a identidade cultural desaparece

Xian, China, dezembro/2011 – Xie Jing tem 15 anos e pertence à geração que em 2020, segundo as previsões, verá a China convertida na maior potência econômica mundial. No entanto, Xie não tem nenhum interesse político ou cultural. Sua geração é muito diferente das que a antecederam. Ela vive em um mundo próprio, totalmente globalizado, onde o estilo de vida norte-americano é o principal ponto de referência. Veste-se como uma adolescente norte-americana, ouve as mesmas músicas, tem os mesmos ídolos e a mesma relação com a internet e o mundo virtual.O jornal governamental China Daily publicou duas notícias de impacto. No dia 28 de outubro, informou que a grande moda entre os jovens é o casamento eletrônico. Um jogo chamado cybermarriage registrou um milhão de participantes no primeiro mês. Calcula-se que os espaços para casamentos eletrônicos tenham 30 milhões de inscritos e que 70% dos “casados” são menores de 18 anos.Este casamento não tem valor algum. É apenas um jogo. Mas, Qian Yu, de 15 anos diz ao jornal: “Me sinto muito isolado, mesmo quando estou entre meus companheiros de estudo não posso dizer-lhes o que penso. Nos jogos online falamos mais do que na escola, ali estão meus amigos mais próximos”. Huang Zhao, educador de Guanzhou que proporciona ajuda online aos adolescentes comenta: “A geração de filhos únicos demonstra menos capacidade de comunicação pessoal, e a vida virtual parece satisfazer sua solidão interior. Não lhe interessa os sentimentos de seus companheiros, tudo o que fazem é em função de suas próprias emoções”.A outra notícia, de 8 de novembro, revela a descoberta de um grupo de prostitutas de 20 adolescentes (duas delas de 14 anos), organizado por duas estudantes entre suas companheiras. O que impressionou a polícia foi que não consideravam que faziam algo ilegal. Uma das organizadoras disse: “Não queria causar problemas para minhas companheiras. Todas gostamos de fazer isso, porque nossos pais não nos dão dinheiro suficiente para nossos gastos”.Até 1949, com a vitória de Mao, a mulher na China esteve submissa ao homem, desde a primeira dinastia Qin, em 221 aC. Confúcio inculcou a norma de que em uma sociedade harmoniosa se respeita o superior: o idoso sobre o jovem, a autoridade sobre o cidadão, o homem sobre a mulher.A geração da revolução maoísta, que eu conheci na conferência mundial de estudantes em 1957, era de uma austeridade impressionante. E a geração seguinte, em 1966, foi protagonista da revolução cultural. Nela, os estudantes foram os mais fanáticos destruidores dos velhos monumentos e de tudo o que se relacionava com a cultura do passado. Só com a política das reformas, após a morte de Mao, em 1976, se consagra a celebração do mercado e da riqueza. E, em 1979, para controlar a explosão demográfica, se estabelece que cada casal pode ter apenas um filho.Há consenso de que as diferenças entre as gerações dos anos 1980 e 1990 eram mínimas, e que com o advento da sociedade consumista as distâncias se dilatam entre as de 1990 e a da primeira década deste século e que a diferenciação prossegue velozmente.Depois da revolução cultural, o passado e a história não recuperaram o prestígio perdido. É raríssimo ver menores de 30 anos em um concerto de música clássica chinesa. Durante cinco semanas ao longo da China não ouvi uma única vez música chinesa, apenas ocidental, basicamente norte-americana. Perguntei aos jovens que encontrei se acreditam nos princípios filosóficos da cultura médica e espiritual: o Chi, a energia interna; o yin e yang, os dois polos que coexistem no homem. Para todos eles, é apenas uma antiga superstição.O governo e o Partido (que são o mesmo) acabam de estabelecer que a cultura é prioritária. A geração dos governantes não entende a atual, e, em lugar de atualizar os valores clássicos, dá nas escolas a memorização das máximas de Confúcio.É inevitável perguntar aos dirigentes se percebem que por este caminho a China não plasmará uma identidade própria. Todos se dão conta, mas não sabem bem o que fazer.A China chegará a ser a maior potência mundial, mas, de fato, se integrará no mundo ocidental em uma medida inesperada.Cabe esclarecer que este é um fenômeno de prevalência urbana. A brecha entre as cidades (onde vivem 50,32% da população) e as áreas rurais continua crescendo de modo exponencial. A cada ano a China tira da pobreza cerca de 15 milhões de pessoas, e assim se legitima o domínio do Partido Comunista. Mas os emigrantes rurais que ainda não têm permissão de residência nas cidades chegavam a 242 milhões no ano passado. A maioria deixou seus filhos com os avós, já que sem permissão de residência as crianças não podem frequentar as escolas urbanas. Calcula-se as crianças “deixadas para trás” em 50 milhões, carentes de educação e alimentação em relação às crianças urbanas, com grandes desvantagem física e mental. Para elas não há jogos da internet nem acesso ao consumo. A identidade cultural deste setor subdesenvolvido não é assimilável à globalização ocidental. Está moldada pela pobreza e pelas antigas gerações e, portanto, não é uma resposta válida.Uma China ocidentalizada fará o mundo mais rico ou mais pobre? Envolverde/IPS* Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS).


por Roberto Savio*
1 Dívida

O serviço da dívida ou “a serviço da dívida”?

Bancos preferem emprestar para governos porque o risco é menor. Não é mais assim. Agora tem uma quantidade imensa de títulos públicos que geram dinheiro do nada e que não podem ser pagos.Todos os meses nos relatórios da administração monetária e cambial dos países tem uma alínea que mostra o “serviço da dívida”, ou seja, quanto se está pagando ou reservando para a amortização de juros da dívida que cada país tem lastreada em títulos públicos. É um dos negócios mais rentáveis do mundo para instituições financeiras e, até bem pouco tempo, um dos mais seguros. Os juros pagos pelos governos para a emissão de títulos do Tesouro não são os mais altos do mercado. Perto do que um brasileiro paga para utilizar o cheque especial e o cartão de crédito, não chega nem a fazer cosquinhas. Mas os governos devem muito e qualquer juro aplicado sobre montantes de bilhões, muitos bilhões de dinheiros, sejam dólares, euros ou reais, significa ter de pagar aos bancos milhões, muitos milhões de dinheiros, sem que nenhum parafuso tenha sido produzido ou apertado.Já houve ministros da Fazenda que declararam em alto e bom som que “dívida não se paga, rola-se”, e é isto que vem sendo feito há décadas por governos de todo o mundo. Nos anos 1980-1990, os países do chamado terceiro mundo, hoje considerados “emergentes”, enfrentaram suas “crises da dívida”, quando as taxas de juros para a venda de títulos do governo chegaram a extremos e os países não conseguiam mais pagar. Foi um tempo de moratórias e calotes. A receita dos credores, os grandes bancos internacionais representados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), foi um tremendo aperto cambial e fiscal que jogou muita gente na recessão. Brasil, México, Coreia do Sul e até a Rússia amargaram crises. No Brasil, o então presidente Sarney decretou a moratória e seu então ministro da Fazenda, Dilson Funaro, deu início a uma interminável série de planos econômicos milagrosos, com o Plano Cruzado.Bom, mas isto é história. E, apesar de parecer que nada se aprendeu com essa história, a verdade é que os bancos internacionais aprenderam muito. A principal lição é que vale mais a pena emprestar para governos, que podem emitir dinheiro e aumentar impostos para garantir pagamento, do que para empresas que podem não conseguir realizar seus negócios e, assim, pagar suas dívidas. Ou seja, o risco que os governos ofereciam eram baixos e, portanto, todo o crédito fácil do mundo deveria ser direcionado para os títulos dos tesouros ao redor do mundo. E o dinheiro fácil seduziu muita gente importante de países que sempre torceram os narizes para os devedores da América Latina ou da periferia do mundo.Então, o que aconteceu? Os títulos dos Tesouros começaram a vencer em quantidade cada vez maior, ao invés de bilhões de dinheiros, passaram a ser trilhões de dinheiros. Para pagar, os governos emitem mais títulos e aumentam a dívida. É mais ou menos como usar um cartão de crédito para pagar a fatura de outro cartão de crédito. Isto feito em uma ciranda sem fim, até que os bancos perceberam que alguns governos não tinham mais como arrancar o que deviam por meio de impostos sobre os seus cidadãos. Parece simples. Uma simples declaração do tipo “devo e não nego, pago quando puder” poderia ser a solução. Mas, e os vizinhos, o que iam pensar?Todo mundo morre de medo só em pensar que um banco vai quebrar, vide a crise de 2008, quando alguns vários trilhões de dinheiros foram injetados no sistema financeiro global para evitar que as velhinhas ficassem sem suas pensões e que os banqueiros perdessem seus bônus. Agora é a mesma coisa. Os governos gastaram o que tinham e o que não tinham para salvar os bancos. O resultado é que rasparam os cofres públicos até as últimas moedas e não têm dinheiro para saldar as dívidas que realmente assumiram. O sistema financeiro não se importa se foi o beneficiário da ajuda em 2008. Para ele, só importa que títulos estão vencendo e precisam ser pagos. É mais ou menos como se um cidadão se vestisse de Papai Noel, fosse às compras e gastasse tudo o que tivesse de limite em seus cartões de crédito para dar presentes a crianças pobres. No dia do vencimento da fatura do cartão, o banco vai querer receber, não importa com o que o Papai Noel gastou o dinheiro.Bom, parece que o Papai Noel dos bancos quebrou. Os pobrezinhos precisavam de presentes em 2008 e receberam muitos. Os governos não têm como honrar esse cartão de crédito e precisam assumir isso de forma muito transparente. A grande crise global do sistema financeiro não vai deixar de existir com o pagamento dos juros das dívidas dos países. Pelo contrário, vai apenas inchar a ciranda financeira com dinheiro sem lastro e empobrecer os países que seriam capazes de produzir riquezas reais.* Dal Marcondes é jornalista e já foi editor de economia e finanças de diversos grandes meios de comunicação.


por Dal Marcondes*, da Envolverde
1 Crise

As lições da Europa

A Europa está assombrada pelo fantasma da exaustão histórica. Depois de durante cinco séculos ter atribuído a si a missão de ensinar o mundo, parece ter pouco a ensinar e, o que é mais trágico, parece não ter capacidade para aprender com a experiência do mundo.O cantinho europeu, apesar de ser cada vez menor no contexto mundial, não consegue compreender o mundo senão por meio de conceitos gerais e princípios universais e nem sequer se dá conta de que a sua própria fidelidade a eles é hoje uma miragem.Partindo da ideia de que a compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão europeia do mundo, as dificuldades que a Europa passa podem ser um campo de aprendizagem fértil para o mundo. Eis as principais lições.Primeira lição: a ideia de que as crises são oportunidades é uma verdade ambígua, porque as oportunidades vão em direções opostas e são aproveitadas por quem melhor se prepara antes da crise.A direita usou a crise para aplicar a "doutrina de choque" das privatizações e da destruição do Estado social (privatização da educação e da saúde). Não tinha conseguido fazê-lo por via democrática, mas foi preparando a opinião pública para a ideia de que não há alternativa ao senso comum neoliberal.A esquerda, pelo contrário, deixou-se desarmar por esse senso comum, e por isso não pôde aproveitar a crise para mostrar o fracasso do neoliberalismo (tanto pela estagnação como pela injustiça) e propor uma alternativa pós-neoliberal.O movimento ecológico, que era forte, deixou-se bloquear pelo slogan do crescimento, mesmo sabendo que esse crescimento é insustentável, perdendo, assim, a oportunidade que lhe foi dada pela reunião da Rio+20 do próximo ano.Segunda lição: a liberalização do comércio é uma ilusão produtiva para os países mais desenvolvidos. Para ser justo, o comércio deve assentar-se em acordos regionais amplos, que incluam políticas industriais conjuntas e a busca de equilíbrios comerciais no interior da região.A Alemanha, que tanto exporta para a Europa, deverá importar mais da Europa? Para isso ser possível é preciso uma política aduaneira e de preferências comerciais regionais, assim como uma refundação da Organização Mundial do Comércio (OMC).Aliás, a OMC já hoje é um cadáver adiado, no sentido de começar a construir o modelo de cooperação internacional do futuro: acordos globais e regionais que, cada vez mais e sempre na medida do possível, façam com que os lugares de consumo coincidam com os lugares de produção.Terceira lição: os mercados financeiros, dominados como estão pela especulação, nunca recompensarão os países pelos sacrifícios feitos, já que não reconhecer a suficiência destes é o que alimenta o lucro do investimento especulativo. Sem domar as dinâmicas especulativas, o desastre social ocorre tanto pela via da obediência como pela via da desobediência aos mercados.Quarta lição: a democracia pode desaparecer gradualmente e sem ser por golpe de Estado. Vários países da Europa vivem uma situação de suspensão constitucional, um novo tipo de Estado de exceção que não visa a perigosos terroristas, mas, sim, aos cidadãos comuns, aos seus salários e às suas pensões.A substituição de Berlusconi (para a qual havia boas razões democráticas) foi decidida pelo Banco Central Europeu.O estatuto dos Bancos Centrais, criado para torná-los independentes da política, acabou por tornar a política dependente deles.A democracia, depois de parcialmente conquistada, pode ser gradualmente esventrada pela corrupção, pela mediocridade e pusilanimidade dos dirigentes, e pela tecnocracia em representação do capital financeiro, a quem sempre serviu.* Boaventura de Sousa Santos é sociólogo português, diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal, e autor, entre outros livros, de Para uma Revolução Democrática da Justiça, Cortez, 2007.** Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo de 21 de novembro de 2011.


por Boaventura de Sousa Santos*
1 Empresas

“Telefonica segue blindada, lucrando à custa dos pacatos cidadãos”

A falácia e o embuste envolvidos na ideia da eficiência que adviria a partir das privatizações já ficaram bastante evidentes com o longo transcorrer de anos desde a famosa década de 1990, iniciada por Collor e encerrada com FHC. Foi nessa década que se deu o início do desmonte acelerado do Estado nacional.Pelo menos para as parcelas mais desfavorecidas da população, que não têm como recorrer à saúde e educação privadas, este embuste fala em sua própria pele. A minoria privilegiada, que põe os filhos em escolas privadas e recorre à rede hospitalar VIP do país, pode também perceber de forma bem didática a falácia privatista a partir de algumas situações muito básicas. Quando fica horas no escuro em bairros nobres das cidades; ao se ver recorrentemente sem o sinal de internet no meio do trabalho, pagando uma salgada conta de telefonia no final do mês; ao se deparar com vários e caríssimos pedágios em passeios de curta quilometragem, e fazer a conta ao final da viagem; ao abrir os jornais e ter a sorte de encontrar alguma notícia sobre o sucateamento a que foi submetida a rede ferroviária pública do país, justamente aquela que os países desenvolvidos usam para baratear o transporte de carga.Mais exemplos não faltariam, mas talvez estes sejam suficientes para dar conta da ineficácia com que estão operando alguns dos setores de infraestrutura centrais em qualquer nação.Neste contexto, a cidade de São Paulo, maior metrópole da América Latina, pode alcançar alguns dos maiores rankings negativos do país em uma eventual pesquisa dirigida à avaliação da eficiência de vários dos setores de utilidade pública. O que não é de se espantar, vista a desestruturação a que está sendo conduzida uma das grandes capitais do terceiro mundo, com seu crescimento em ritmo alucinado e longe de qualquer perspectiva de um planejamento público e urbano digno de nota.E se o setor a ser pesquisado for o de telefonia e, mais especificamente, a provisão de internet a partir do famoso Speedy, da não menos famosa Telefonica, estes mencionados e nada favoráveis rankings provavelmente sofrerão nova e significativa baixa.A empresa espanhola, uma das maiores agraciadas com as benesses públicas que foram concedidas pelo Estado brasileiro às empresas estrangeiras para que comprassem o patrimônio nacional, é campeã, há anos, de reclamações em órgãos de defesa do consumidor. Não por acaso, visto que a espanhola oferece ao público brasileiro, comprovadamente, uma das mais caras e menos eficientes conexões de internet do mundo.Com a palavra, uma leitora.Uma leitora, um apurado relatoCarta enviada pela leitora Daniela Silveira, cliente do Speedy, ao Correio da Cidadania traz uma descrição primorosa, acurada e sensível dos transtornos a que somos submetidos nós, cidadãos, em um país que não elegeu o respeito à cidadania entre seus ditames fundamentais. Carta que motivou a redação deste artigo, como forma de dar voz àqueles que não a encontram na mídia corporativa, além de reforçar as avaliações que, há tantos anos, vêm fazendo estudiosos e técnicos comprometidos com a nação.Segundo a leitora, “em menos de duas semanas, foram dois problemas com o Speedy, o que resultou em pelo menos uma semana de interrupção do meu trabalho e quatro dias de plantão esperando pelo técnico, que, ora não chegava, ora chegava fora do horário estabelecido, ou chegava no final de semana, quando, claro, não havia ninguém no meu local de trabalho. Os inconvenientes foram muitos, dentre eles, as várias tentativas de entrar em contato com a central. As horas que te deixam esperando na linha sugerem, mesmo, ser um teste de paciência! Os prejuízos, além de financeiros, são morais, por tratarem o cliente como idiotas completos”.Daniela salienta ainda em seu relato algo para o qual já estão insensíveis as mentes, tão atoladas acabam por ficar em meio a incontáveis problemas associados aos serviços que lhes são prestados no cotidiano. A percepção da leitora se faz a partir de toda a cadeia de prestação de serviços, a qual passa pelos funcionários – em grande parte, técnicos terceirizados –, antes de chegar ao consumidor. Ressalta, portanto, da avaliação de Daniela, a lógica perversa que perpassa esta cadeia de serviços.Segundo sua descrição, “neste período (de espera pelo Speedy), foram recebidos três técnicos. No momento da raiva e no auge da insatisfação plena com a empresa, a primeira coisa que se pensa é em atacá-los assim que adentram pela porta. Mas, dois segundos depois, volta-se à sanidade, visto que nos deparamos com vítimas, tanto quanto nós, os clientes. Fato é que a terceirização dos técnicos isenta a Telefonica de maiores ônus, responsabilidades e encargos trabalhistas. E a comunicação entre as partes parece inexistente, não se pode sequer agendar um horário para recebê-los. E quando se consegue uma agenda, estes tampouco são avisados das observações feitas pelo cliente com relação ao período disponível para a visita”.Ainda segundo Daniela, “em um dos momentos do ocioso plantão, eis que surge o tão esperado encontro com o que seria o salvador da pátria – o técnico! Já em alguns minutos de conversa, pode-se perceber a insatisfação tão grande quanto a nossa com a empresa para a qual prestam serviços”.Os relatos de três técnicos com os quais Daniela teve contato em sua saga, por ela própria também descritos, revelam muito da insatisfação destes funcionários, além da visão profundamente crítica da empresa para a qual prestam serviços:1º Técnico – “Vocês realmente acham que a espanhola Telefonica vai querer investir aqui?”.2º Técnico (depois de constatar no medidor que o sinal está muito baixo e quase não chega) – “O sinal quase não chega aqui e não adianta pedir upgrade de mais velocidade porque não vai funcionar, vocês só vão pagar por mais MEGAS, mas continuarão recebendo a mesma velocidade, que é o máximo que a estrutura do cabeamento externo permite, pois são muito antigos, ainda do tempo da Telesp, e o que eles fazem para melhorar são na verdade remendos. A solução seria trocar todos os cabos, mas isso só tacando fogo em tudo, só com uma revolução”.3º Técnico – “Aqui no Brasil, pagamos mais por tudo, a água é a mais cara, a luz, o telefone, os impostos. O serviço de internet daqui é um dos piores do mundo, compara-se ao existente na África”.Daniela conclui magistralmente, enfatizando que “os clientes geralmente tratam muito mal os técnicos, que são bombardeados por suas queixas. Por serem o único canal direto com a empresa, funcionam como para-raios e são responsabilizados pela péssima qualidade dos serviços. Enquanto isso, a soberana Telefonica segue blindada, só lucrando à custa dos pacatos cidadãos”.Virada à vista?Nenhum país que hoje está no primeiro (ainda que decadente) mundo chegou a uma provisão adequada de serviços básicos para seus cidadãos alimentando um monopólio privado, ainda por cima carente de mecanismos eficazes de regulação. Em nosso país não seria diferente.A Telefonica já conquistou o primeiro lugar de queixas no Procon em vários anos e desobedece as determinações de governos no sentido de investir em infraestrutura; descumpre a lei que estabelece um minuto como tempo máximo para atendimento nos chamados SAC; faz ligações e cobranças abusivas a seus clientes por meio do mesmo SAC letárgico quando por nós acionado; por fim, a mais incrível das delinquências, tolerada até pelo governo federal, como ficou escancarado no anúncio (pró-mercado, portanto, não universalizante) de expansão da banda larga: não entrega a velocidade de conexão vendida e, mais fantástico ainda, fica isenta de toda e qualquer punição por tais crimes contra o consumidor.E não há um espectro muito animador pela frente, pelo menos quando se tem em conta quatro aspectos decisivos. Não se trata de derrotismo, ou pessimismo gratuito, apenas de lançar um olhar minimamente realista para o foco predominante da grande mídia comercial, para o governo federal, os governos estadual e municipal, e o cenário internacional.Ainda que tenhamos noção da imbricação de nossa “mídia livre e democrática” com os poderosos grupos econômicos, chega, às vezes, a soar incompreensível como ela não é capaz de denunciar, mesmo que pontualmente, a empresa que tem lesado seu “patrão” – o leitor, o telespectador – cotidianamente. E o faz, sem dúvida alguma, intencionalmente. Ao pagar onerosos anúncios em todos os jornais e tevês de grande audiência, a Telefonica mostra-se bem ciente das vantagens de se instalar em nosso território.Quanto ao governo federal, o transcorrer do primeiro ano de mandato da presidente Dilma tem dado mostras precisas de uma acentuação no veio conservador na condução da economia. Fato pouco surpreendente, visto que a própria índole da presidente, associada à lógica econômica que predomina desde o governo Lula, não poderiam sugerir outro cenário. Estão aí vários exemplos, como o corte orçamentário de cerca de R$ 50 bilhões logo no início do mandato; os anúncios de privatização dos aeroportos mais lucrativos; os reveses nos objetivos de conceder à Telebrás papel central e atuante na universalização da banda larga; os retrocessos na área ambiental e de direitos humanos, dos quais o Código Florestal e a Comissão da “Verdade” são exemplos simbólicos.Com os governos estadual e municipal, Alckmin e Kassab na liderança, não é preciso gastar muitas linhas. Afinal, foi o tucanato o grande artífice do processo de privatização no Brasil e no Estado de São Paulo. No Estado, estão encastelados há mais de dezesseis anos, e as circunstâncias atuais indicam um preocupante recrudescimento em um enfoque não somente conservador, mas perigosamente autoritário. Com polícia repressora na USP e contra os trabalhadores informais, nomeação de um dos líderes do massacre do Carandiru para dirigir a Rota e um gerenciamento cada vez mais militarizado de toda a cidade, simbolizado pela maciça presença de PMs à frente das subprefeituras, as perspectivas são sombrias.Finalmente, a crise europeia deve intensificar o apetite dos investidores europeus pelos paraísos da América Latina, especialmente os tropicais, Brasil entre eles. Segundo avaliado pelo site RFI (http://www.portugues.rfi.fr), “garantir uma parte do faturamento do outro lado do Atlântico é a estratégia das grandes empresas espanholas”. Ao lado da Telefonica, estariam no barco, conforme a RFI, “a Repsol, no setor energético, Banco Santander e BBVA nas finanças, Mapfre, segunda companhia de seguros na região, além de construtoras como ACS, Sacyr-Valermoso, OHL, Acciona e outras”.Apertar os nossos cintos, colocar a boca no trombone e lutar para fechar alguns cercos talvez sejam as únicas e mais fecundas armas que tenhamos no momento.* Valéria Nader é economista e jornalista, é editora do Correio da Cidadania.** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Valéria Nader*
1 Capital

A economia brasileira está em franco desaquecimento

Estudos de consultorias econômicas respeitadas prevêem que o PIB de 2011 registrará uma expansão de apenas 4% nos investimentos, contra 21,9% em 2010. A demanda interna não deverá avançar mais do que 4%, em comparação com 9% do ano passado. Desses 4%, mais de 1% será atendido por importações, reduzindo ainda mais a projeção de crescimento do PIB.Há um dado adicional. Como o ano começou relativamente aquecido, significa que o crescimento corrente – o que está ocorrendo agora – provavelmente está perto de zero, com ameaça de registrar queda nos próximos trimestres.Significa que o Banco Central errou no ritmo de redução da taxa de juros – apesar da queda de meio ponto, em setembro, ter sido saudada como uma mudança de linha. Significa que não acreditou no efeito das medidas prudenciais adotadas no final de 2010. Manteve a taxa Selic em alta até a penúltima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), quando já se temia que a economia pudesse desabar.No entanto, quem ler o Estado de S. Paulo de ontem, levará um susto: “Economistas temem volta da inflação”. A reportagem é com três ou quatro economistas.Com a economia desabando, apenas um dos entrevistados comete essa enorme bobagem de defender juros elevados porque a inflação “poderia” voltar: Gustavo Loyolla, ex-presidente do Banco Central, em cuja gestão o país acumulou a maior dívida da sua história, sem contrapartida de ativos.No regime militar, ao endividamento criado correspondiam obras, estatais levantadas. No período Loyolla, foi desperdício puro, com a dívida líquida subindo de 20% para mais de 50%, sem acrescentar um tijolo aos ativos nacionais.Em março de 1995, Pérsio Arida aumentou violentamente a taxa Selic, para 45% ao ano. Havia uma justificativa, uma corrida contra o real que ameaçava desestabilizar o câmbio.Nessas circunstâncias, todo país racional aumenta os juros. Passada a corrida, trata de trazê-lo para baixo o mais rapidamente possível.Loyolla nada fez. Baixou os juros de forma lentíssima e gradual, sob a alegação estúpida de que “ficaria mal se o BC derrubasse os juros e depois precisasse elevá-los novamente”.Em qualquer país sério do mundo, com uma opinião pública minimamente informada, essa declaração custaria o cargo ao presidente do BC, pela falta de senso.Ao longo da história econômica do país, poucas decisões individuais foram tão nefastas e com consequências negativas tão duradouras quanto a política monetária de Loyolla, consolidada em cima de bordões de mesa de bar.Apenas uma se iguala em malefícios: a decisão do ministro Maílson da Nóbrega, em 1988, de permitir a conversão de dívidas de dólares em cruzados novos – que catapultou a inflação para mais de 80% ao mês.Ambos jamais tiveram formação acadêmica sólida, jamais desenvolveram análises sofisticadas sobre a economia, provavelmente seriam incapazes de uma análise acurada sobre os dados do PIB.Limitam-se a dar palpites, tão válidos quanto qualquer discussão de bar.O mundo mudou, as fontes mudaram, as análises mudaram. Mas a pauta da imprensa econômica continua a mesma de 20 anos atrás.Pior: em cima de fontes que erraram em todos os momentos graves da economia.* Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif - lnassif2011@bol.com.br.** Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Luis Nassif*

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Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
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