Crise econômica pode ampliar desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho

Economia

Crise econômica pode ampliar desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho


por Bia Barbosa, da Carta Maior


Responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados, não valorizados pela economia de mercado, as mulheres também são as mais atingidas pelos mecanismos de precarização do trabalho. Para especialistas do campo da economia feminista, a retirada do Estado de serviços essenciais sempre redunda em mais trabalho para as mulheres. Num cenário de crise, é urgente romper com a divisão sexual do trabalho doméstico e desenhar um novo paradigma de sustentabilidade da vida humana. A reportagem é de Bia Barbosa. Historicamente, as relações desiguais entre homens e mulheres na sociedade foram sustentadas pela separação e hierarquização do trabalho através do sexo. O trabalho de homens e mulheres é separado entre produtivo e reprodutivo, e é hierarquizado de tal forma que o trabalho produtivo, considerado "masculino", tem maior valor econômico que o reprodutivo, considerado "feminino". Historicamente, também foram relegados às mulheres o trabalho doméstico e de cuidados, não remunerados e excluídos do que se compreende hoje por economia. Romper com a divisão sexual do trabalho sempre foi uma luta do movimento feminista. Porém, num cenário de crise capitalista como o atual, colocar este tema no centro do debate é estratégico para combater as desigualdades entre homens e mulheres. Reunidas esta semana num seminário internacional em São Paulo, especialistas do campo da economia feminista de diferentes partes do mundo afirmaram: é urgente construir uma nova dinâmica de relações sociais e desenhar um novo paradigma de sustentabilidade da vida humana. "A divisão sexual dos trabalhos profissional e doméstico entre homens e mulheres não é resultado de uma conciliação harmônica entre papéis, mas de relações sociais contraditórias e antagônicas. É reflexo de relações de exploração, opressão e dominação dos homens sobre as mulheres", afirma Helena Hirata, socióloga e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França. "Daí a importância de reconceitualizar o trabalho da maneira mais ampliada possível, de ter uma visão ampla de trabalho: profissional e doméstico, remunerado ou não, formal ou não formal. Se excluímos o trabalho doméstico da economia, tornamos invisível grande parte do trabalho das mulheres", explica. O tema não é novidade. Apesar do ascenso das mulheres no mercado de trabalho nos últimos 45 anos - incluindo a ultrapassagem dos homens no campo da escolaridade em quase todas as áreas - os trabalhos domésticos e de cuidados permanecem a cargo das mulheres. Na França, por exemplo, uma mulher casada com filhos dedica ao trabalho doméstico 4,36 horas por dia, enquanto os homens destinam apenas 2 horas aos serviços da casa e da família. No Japão, a desigualdade é brutal: mais de 4 horas por dia para as mulheres contra 20 minutos dos homens. No Brasil, a última pesquisa do IBGE mostrou que, em 2009, as brasileiras dedicavam 20 horas semanais ao trabalho doméstico contra 9,5 dos homens. Segundo as pesquisas, a desigualdade também persiste no mercado de trabalho convencional. Com o aprofudamento da globalização, a precarização do trabalho atingiu mais as mulheres do que os homens do ponto de vista do emprego. "Os empregos femininos criados são vulneráveis, com condições de trabalho precarizado. Lutamos muito para haver trabalho profissional para as mulheres, mas isso reforçou toda uma lógica de trabalho precarizado", disse Helena Hirata. "E as mulheres que saíram de casa para trabalhar o fizeram com o que chamamos de externalização do trabalho doméstico, via delegação das tarefas de cuidar das roupas, da casa e das crianças para outras mulheres. Esta delegação é incrivelmente desenvolvida no Brasil. Em 2010 eram quase 7 milhões de mulheres diaristas", acrescenta. Para a equatoriana Magdalena Leon, da Rede Latino-americana Mulheres Transformando a Economia (REMTE), o próprio modelo capitalista se encarregou de tornar as mulheres visíveis e de instrumentalizá-las para sua sustentação, com a multiplicação de trabalhos. "Durante o ajuste neoliberal, por exemplo, quando o que estava em jogo era a mercantilização da vida, as mulheres desenvolveram estratégias de sobrevivência, afirmando nosso papel como permanentes geradoras de meios de vida e condições de subsistência, que vão além do dinheiro", relata. "Nós, feministas, recuperamos princípios de uma outra economia: a reciprocidade, solidariedade e complementariedade, em vez da concorrência e eliminação do outro", conta. Agora, num novo cenário de crise capitalista, o risco de ampliação da desigualdade entre homens e mulheres crescer no mundo do trabalho é enorme, avaliam as feministas. Seja porque as mulheres já ocupam os trabalhos mais precarizados, que tendem a se ampliar; seja porque a retirada do Estado de serviços essenciais redundará em mais trabalho para as mulheres. "O objetivo é reduzir o que se considera necessário para garantir as condições de vida dos trabalhadores, que custam muito. Então o Estado transfere e privatiza serviços públicos", critica Antonella Picchio, da Universidade de Módena, na Itália. Para ela, o tempo e o trabalho das mulheres são utilizados como se fossem recursos inesgotáveis para sustentar o atual modelo econômico da sociedade. "O problema do trabalho não pago é central para as mulheres. Ele é usado para fazer com que os recursos monetários distribuídos com o trabalho pago bastem para sustentar a casa, porque outros - no caso as mulheres - trabalham sem receber. É um problema claro. O sistema descarrega nas famílias uma tensão grande acerca dos recursos necessários para a vida e usa as mulheres para o trabalho doméstico e de cuidados", explica Antonella, para quem o trabalho não pago está no centro do conflito da questão produtiva, distributiva e política contemporânea. Estado cuidador Para enfrentar as desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho, é necessário, na avaliação das especialistas presentes ao seminário, transformar a atual divisão sexual do trabalho no que diz respeito ao trabalho doméstico e cobrar o Estado sua responsabilidade com o trabalho de cuidados. "O cuidado não é uma atitude de preocupação e solicitude com o outro, mas é também um trabalho concreto, material", afirma Helena Hirata. "Temos que construir um Estado que é cuidador, responsável e participativo. Não podemos pensar no bem estar como algo que se dará natualmente", acrescenta Antonella Picchio. Na agenda política de alguns países, o trabalho de cuidados já em sendo redefinido como um fluxo de ações com resultados materiais substantivos para a vida. A CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), órgão das Nações Unidas, já afirma em seus documentos que o cuidado de pessoas dependentes deve ser compartilhado entre o Estado e as famílias. "É uma agenda que aos poucos começa a ser consenso entre líderes políticos da região. Estamos em momento de inflexões, de reflexões e redefinições de relações", analisa Magdalena Leon. "Mas esta crise está andando em grande velocidade e é uma das maiores. E se as mulheres não lutarem por outra política, serão sacrificadas", conclui Antonella. O Seminário Internacional Feminismo, Economia e Política: desafios e propostas para a igualdade e autonomia das mulheres foi organizado pela SOF - Sempreviva Organização Feminista. * Publicado originalmente no site Carta Maior.

Alcântara: moradores se opõem ao projeto de expansão da base. Foto: Reprodução/Internet Economia

Quilombos no caminho do desenvolvimento econômico?

[caption id="attachment_64345" align="alignleft" width="341" caption="Alcântara: moradores se opõem ao projeto de expansão da base. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] Entre direito à propriedade e interesses econômicos, moradores de quilombos e governo se enfrentam em disputas judiciais pela terra. No século XVI, Portugal passou a importar escravos da África para garantir que suas fazendas prosperassem no Brasil colonial. Essa prática continuou até 1888. Hoje, os descendentes desses escravos são o tema principal no debate sobre a localização dos  quilombos brasileiros. Quilombos são assentamentos rurais fundados por escravos libertados ou fugitivos. O direito dos residentes à propriedade está garantido na Constituição.  Desde 1995, o Incra, órgão do governo responsável pela regularização agrária, vem formalizando as propriedades. Ainda assim, moradores são frequentemente ameaçados de despejo, principalmente quando seu direito à propriedade está no caminho de algum grande negócio ou dos planos de crescimento econômico do governo. Carlos Tauz, jornalista e coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e Controle Cidadão de Governos e Empresas, escreveu no Blog do Noblat sobre o projeto de duplicação da Estrada de Ferro Carajás, administrada pela Vale. “A Justiça reconhece prerrogativas de indígenas e quilombolas, mas a economia não considera a legitimidade dos direitos. É assim em toda a história brasileira e não tem sido diferente neste último surto de crescimento econômico que se inicia há cerca de 10 anos.” As obras de duplicação foram suspensas por danos ao meio ambiente e às comunidades vizinhas, que incluem cerca de 80 quilombos. O juiz responsável pela suspensão das obras acusou o Ibama de emitir a licença para o projeto sem a realização prévia de uma avaliação de impacto. A exportação brasileira de minério de ferro, especialmente para a China, é crucial para a economia brasileira. Segundo a Vale, a expansão da mina de Carajás e de suas vias de escoamento faria a exportação de minério saltar de 109,8 milhões de toneladas para 150 milhões em 2014. Lucio Flavio Pinto, jornalista paraense, descreveu a batalha entre a Vale e as comunidades locais como “a luta entre David e Golias”. O jornalista disse reconhecer a importância da mina para economia, mas acusou a Vale de ignorar as pessoas que moram ao longo dos 900 quilômetros da ferrovia. No Maranhão, estado mais pobre do país, uma batalha parecida está sendo travada. Na década de 1980, em Alcântara, região empobrecida e composta por diversos quilombos, 300 famílias foram realocadas para abrir caminho para a construção da base militar de Alcântara. O governo tem planos de expandir a base, mas os moradores se opõem ao projeto. Eles reclamam que desde a construção da base estão impedidos de pescar e produzir livremente, pois alguns militares temem espionagem. Jose Coelho, presidente da Agência Espacial Brasileira afirmou que centros de treinamento serão construídos para envolver a população local no dia-a-dia da base. Porém, os moradores não parecem acreditar muito na ideia. O repórter Henrique Kugler concluiu que a situação em Alcântara “não deixa de ser um retrato típico da contradição generalizada que é o Brasil”. Afinal de contas, Alcântara é um centro tecnológico localizado em uma região onde o século XXI parece ainda não ter chegado. * Publicado originalmene no site Bloomberg e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do Bloomberg
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Escândalos bancários, uma história de nunca acabar

San Salvador, Bahamas, agosto/2012 – Não passa uma semana sem que surja um escândalo relacionado com os bancos. O último foi o do banco britânico Standard Chartered, acusado pelo departamento de finanças do Estado de Nova York de lavagem de US$ 250 bilhões para potencial apoio a atividades terroristas. Até agora, o Standard Chartered era considerado um dos bancos mais limpos, mas no dia 14 deste mês concordou em pagar uma gigantesca multa de US$ 340 milhões para frear a ação judicial. Estamos agora entrando em outro nível da série incessante de escândalos bancários, já que começa a afetar diretamente alguns dos mais poderosos financistas do mundo, não apenas seus próprios bancos. O ex-ministro da Economia da Espanha e ex-diretor gerente do Fundo Monetário Internacional, Rodrigo Rato, foi responsabilizado pela desestabilização do sistema bancário espanhol, foi inquirido em uma audiência parlamentar e se sucedem os apelos públicos para seu julgamento. E, algo impensável até há pouco, o escritório do defensor do Povo Europeu (ombudsman) anunciou que iniciará uma investigação sobre a afiliação do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, ao chamado Grupo dos 30, por ser “incompatível com a independência, reputação e integridade do BCE”. Draghi foi vice-presidente do Goldman Sachs, o maior banco de investimentos do mundo, e o Grupo dos 30 (organização privada de altos funcionários, financistas, executivos de corporações e acadêmicos) é acusado de reunir personalidades influentes para orientar decisões nas áreas de economia, finanças e política internacionais. Acusações semelhantes foram feitas durante anos contra a Comissão Trilateral, o Grupo Bilderberg e o Fórum Econômico Mundial. A diferença é que o Grupo dos 30 ocupa-se especificamente de finanças. Por sua vez, a organização não governamental Corporate Europe Observatory, aponta o caso de outro executivo do Goldman Sachs: Mario Monti, primeiro-ministro da Itália, conselheiro internacional desse banco de investimentos entre 2005 e 2011. Que tudo isto tenha algum resultado, é muito duvidoso. Os laços entre finanças, corporações e política são tão estreitos que apenas uma verdadeira revolução poderia desfazê-los. O exemplo mais patente do caminho que está sendo seguido vemos nos Estados Unidos, onde o custo da campanha presidencial provavelmente superará a assombrosa quantia de US$ 2 bilhões. Isto se deve em grande parte à decisão de 2010 da Suprema Corte, que estendeu o direito à liberdade de expressão das pessoas às empresas. Portanto, as corporações já não estão sujeitas a limitações em suas doações para as campanhas eleitorais. O dinheiro procedente de doações secretas aumentou de 1%, em 2006, para 44%, em 2010. Este ano, 26 multimilionários doaram US$ 61 milhões aos Comitês de Ação Política. O valor do patrimônio desses 26 magnatas é igual ao valor conjunto da renda média de 50 milhões de norte-americanos. É democrática a proporção entre a liberdade de palavra de 26 multimilionários e de 50 milhões de cidadãos “normais”? Está bastante claro que o candidato republicano Mitt Romney, que junto com seu companheiro de chapa, Paul Ryan, ocupa a direita do cenário político norte-americano, dispõe de mais fundos para sua campanha do que seu adversário, o presidente Barack Obama, graças às contribuições das corporações e em especial dos bancos. Aparentemente, algumas pessoas começam a se dar conta da gravidade da situação e de sua insustentabilidade. Causou grande surpresa Sanford Weill (banqueiro, financista e filantropo norte-americano) declarar publicamente que “o que provavelmente deveríamos fazer seria separa os bancos de investimento dos bancos de depósito. Os bancos não devem fazer operações que coloquem em risco o dinheiro dos contribuintes, nem deve haver bancos que sejam grandes demais para quebrar”. Weill, ex-presidente do Citrigroup, manteve durante anos em seu escritório uma placa onde se lia “O destruidor de Glass-Steagall”. A lei Glass-Steagall, aprovada pelo parlamento norte-americano em 1933 após a grande Depressão de 1929, estabeleceu uma rígida separação entre os bancos de depósito (comerciais) e os bancos de investimentos. Dessa forma se protegeu o dinheiro dos clientes dos bancos comerciais, já que a lei determinava que não podia voltar a ser utilizado para atividades especulativas, que ficaram reservadas para os bancos de investimentos, por sua conta e risco. A lei Glass-Steagall foi revogada pelo presidente Bill Clinton em 1999 para agradar Wall Street. Desde então, John S. Reed, o cofundador do Citigroup, pediu perdão por ter criado este gigante devastador que, para impedir sua quebra, teve que ser socorrido por milhares de milhões de dólares de empréstimos governamentais, isto é, dinheiro dos contribuintes. Outros dois ex-diretores executivos de bancos de investimentos, Philip Purcell, do Morgan Stanley, e David Romansky, do Merrill Lynch, que tiveram papéis de destaque na revogação da lei Glass-Steagall, expressaram semelhante arrependimento. É uma pena que Weill e seus amigos já não estejam no poder. Até uma módica medida, com um imposto simbólico sobre as transações financeiras, chamada Taxa Tobin, é rechaçada pelo mundo das finanças, embora tenha o apoio de personalidades tão respeitáveis como a chanceler alemã, Angela Merkel. o ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy, e seu sucessor, François Hollande. Envolverde/IPS * Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News.


por Roberto Savio*
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África do Sul e Austrália assumem presidência da diretoria do Fundo Climático Verde

O primeiro dia da reunião sobre a estruturação do Fundo Climático Verde, que promete distribuir US$ 100 bilhões anualmente para ações de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, terminou com a escolha dos representantes da África do Sul e da Austrália como presidentes da diretoria. Zaheer Fakir, do Departamento de Assuntos Ambientais sul-africano, e Ewen McDonald, vice-diretor da Agência Australiana de Desenvolvimento Internacional, devem agora organizar o restante do encontro para que seja possível alcançar o objetivo de estabelecer os processos decisórios internos do Fundo. Como ainda não se debaterá a origem dos US$ 100 bilhões, ou como eles vão ser distribuídos, a mais importante tarefa da dupla será alcançar um consenso de como as decisões serão realizadas, em especial como o país-sede do Fundo será escolhido. Alemanha, México, Namíbia, Polônia, Coreia do Sul e Suíça são os candidatos. Apesar de ser teoricamente apenas uma decisão logística, a escolha de um país rico ou emergente claramente carrega significados e a disputa está acirrada. “Primeiro precisamos definir como será feita essa votação, depois, provavelmente em outra reunião, em outubro, faremos a eleição. A intenção é apresentar o resultado na Conferência do Clima (COP18) em Doha, no Catar, em novembro, para que todas as nações possam endossar a escolha”, afirmou Henning Wuester, do secretariado interino do Fundo, ao RTCC. Apesar de ainda não ter divulgado resultados, a reunião desta semana já apresentou sua primeira polêmica. Um relatório, produzido pelas ONGs Friends of the Earth, Gaia e Institute for Policy Studies (IPS), traz o alerta de que o Fundo pode acabar sendo dominado por companhias e pelos governos doadores, fugindo assim de seu grande propósito de ajudar os mais vulneráveis. “Já vimos isso no passado e não é uma imagem bonita: o dinheiro público, que supostamente deveria ir para os pobres do mundo, acaba sendo desviado para os bolsos de corporações multinacionais poluidoras”, afirmam os autores. A principal razão para a desconfiança é a “cláusula de objeção” contida nas regras do Fundo. Segundo ela, qualquer membro da diretoria pode vetar a participação nas reuniões de entidades independentes que desejam monitorar a ferramenta. “Trata-se de uma medida mal elaborada e que pode resultar em uma severa deterioração na integridade ambiental e social do Fundo”, ressaltam. Segundo Janet Redman, do IPS, é preciso garantir que as atividades financiadas por recursos privados contidos no Fundo não sejam sujeitas à influência das companhias doadoras. “O setor privado possui suas motivações, mas estas devem estar alinhadas aos interesses e prioridades das pessoas que estão sofrendo os impactos das mudanças climáticas”, disse. A reunião sobre o Fundo Climático Verde terminou neste sábado (25). * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fabiano Ávila, do CarbonoBrasil
A De La Rue criou uma moeda para o país mais jovem do mundo, o Sudão do Sul. Foto: Reprodução/Reuters Economia

Setor de impressão de dinheiro prospera em tempos de crise

[caption id="attachment_62806" align="alignleft" width="341" caption="A De La Rue criou uma moeda para o país mais jovem do mundo, o Sudão do Sul. Foto: Reprodução/Reuters"][/caption] De La Rue, a maior empresa de impressão de dinheiro do mundo, se beneficiaria da desintegração do euro. Poucos negócios se beneficiam de um clima de instabilidade política global e desconfiança em relação aos bancos. A De La Rue, a maior empresa de impressão de dinheiro do mundo, é uma dessas. Os lucros da empresa, sediada em Basingstoke, na Inglaterra, aumentaram em 20% em 2003, graças em parte a um contrato para fornecer uma nova moeda para o Iraque. A empresa também criou uma moeda para o país mais jovem do mundo, o Sudão do Sul, quando de sua independência no ano passado. A desintegração da zona do euro seria terrível para a maioria dos negócios, mas representaria uma ótima oportunidade para a De La Rue. Com efeito, a crise financeira teve um efeito geral positivo sobre as gráficas que imprimem dinheiro. O colapso do Lehman Brothers, em 2008, gerou um aumento na demanda por notas, que ainda não foi arrefecida. Taxas de juros baixas reduziram o custo da manutenção de reservas em dinheiro vivo. Face à situação questionável dos bancos, muitas pessoas preferem guardar seus fundos debaixo do colchão, o que gera mais demanda por cédulas. Após cair continuamente nas décadas de 1970 e 1980, conforme o uso de cheques e cartões de crédito se disseminava, a circulação de dinheiro em espécie vem subindo novamente. A De La Rue cria cerca de cem novas cédulas todos os anos bem como dois mil “conceitos de design” – os quais incluem dispositivos de segurança e selos para títulos de alto valor. A empresa contribuiu na produção de 150 moedas e ganhou prêmios de design por promissórias criadas para os bancos centrais do Cazaquistão e de Uganda, entre outros. A De La Rue também imprime documentos de identidade, incluindo os passaportes britânicos, e até há algumas décadas fabricava o dinheiro brasileiro. * Publicado originalmente no jornal The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do The Economist
Ilustração: Daniel Kondo Economia

O gato de Felipe González

[caption id="attachment_62835" align="alignleft" width="350" caption="Ilustração: Daniel Kondo"][/caption] Não é por acaso que “crise” foi substituída por “queda no crescimento” ou que o salvamento de um banco privado por fundos públicos foi apresentado como um “empréstimo em melhores condições”. Desde o primeiro dia da transição democrática na Espanha, o eufemismo se impôs como elemento estrutural do discurso político. Todo relato tem como ponto de partida um lugar e um momento determinados. A crise me afeta diretamente: muitos de meus amigos espanhóis padecem de sua fúria devastadora. Sentem que o futuro está povoado de incertezas e assistem dia após dia, estupefatos, ao desmantelamento da normalidade de um país europeu governado por um poder de duas cabeças, o Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) – incapazes de dar qualquer explicação sobre os acontecimentos de ontem, as consequências de hoje e os problemas que podem surgir no futuro. Supõe-se que o papel de um governo seja construir o relato de uma sociedade, com suas contradições e problemas. Esta narrativa, contudo, não existe – e jamais existirá – na Espanha, pela simples razão de que, desde a morte de Franco e o início da transição para a democracia(1), os responsáveis políticos construíram a preguiça intelectual como marca registrada. Jamais se pensou em um modelo de funcionamento viável para o país. Quando relemos, como fiz, as declarações do Parlamento ou os discursos de campanha eleitoral, buscamos em vão qualquer menção a um projeto de sociedade espanhola. O único homem de Estado que encarou essa empreitada foi Manuel Azaña, o último presidente da República antes do golpe de Estado franquista. Não houve outros, porque a grande carência da Espanha se deve à inexistência de uma burguesia esclarecida, que decorre, por sua vez, da ausência de homens de Estado. A única declaração marcante de um chefe de Estado espanhol foi feita por Felipe González(2), citando o dirigente chinês Deng Xiaoping: “Não importa se o gato é branco ou negro, desde que ele capture os ratos”. Partindo dessa metáfora, cujo significado se impôs a todas as situações sociais, econômicas, culturais e políticas do país, tentarei construir uma narrativa que permita compreender o que aconteceu, o que acontece e por quê. Como cidadão europeu, necessito de um relato que torne inteligível o pesadelo atual e me ajude a encontrar uma saída, antes que a crise se apodere de mim, como o retrato maldito de Dorian Gray. * Fazia frio em Madri naquela manhã de 4 de fevereiro de 1988, mas a aspereza do inverno se sentia na rua, e não na sala confortavelmente aquecida do Palácio do Congresso. Convidados pela Associação pelo Progresso da Direção (APD), cerca de mil empresários bebiam as palavras de Carlos Solchaga, o ministro da Economia e das Finanças do governo socialista de Felipe González: “A Espanha é o país da Europa, e talvez do mundo, onde mais se ganha dinheiro em curto prazo. Não sou eu quem diz: é o que afirmam os consultores e analistas financeiros”. A ovação recebida pelo ministro fez a temperatura subir a um nível tropical. O PSOE falava claro e sem atropelo: a Espanha era um país onde só os idiotas não eram ricos – ou negavam convencer-se de que o eram. O funcionamento da economia, o princípio da solidariedade, a concepção social-democrata de bem-estar, a análise de esquerda das origens da riqueza: tudo isso e todo o resto haviam sido varridos para dar espaço ao caminho glorioso que conduziria a sociedade a reconhecer-se apenas na fortuna, e, ademais, na fortuna “em curto prazo”. Como pode um país ceder dessa forma às sereias do dinheiro fácil? Os argumentos lançados pelos economistas para explicar a crise mundial eludem um fato essencial: não somente o sistema capitalista fracassou em seu conjunto, como, no caso particular da Espanha, esse fracasso foi amplificado pela transição incompleta da ditadura nacional católica para um Estado democrático cuja única obsessão é virar a página. A incorporação da Espanha à Comunidade Europeia tornou impossível ou inaudível qualquer discussão sobre a natureza do campo democrático. A experiência republicana foi ignorada sem que ninguém se preocupasse com o preço a pagar pela ausência de referências históricas, ou pelo desejo do Ocidente que nos jogou nos braços da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no fim da Guerra Fria, ou ainda por essa maldição cultural chamada “picaresca”(3). O gato, seja qual for sua cor, deveria capturar o rato. O espetáculo da canalhice arranca risos e diverte o povo cego, mas, quando essa veia picaresca se torna um princípio de vida, ou pior, do governo, as consequências podem ser duradouras: os fracassos de hoje existem para nos fazer lembrar dos de ontem. Entre esses fracassos, o uso de um vocabulário pervertido pode afastar a realidade. Não é por acaso que o terrorismo de Estado praticado contra o ETA(4) na década de 1980 foi chamado de “política antiterrorista”, nem que a palavra “crise” foi substituída por “queda no crescimento”, ou ainda que o salvamento de um banco privado por fundos públicos foi apresentado como um “empréstimo em melhores condições”. Desde o primeiro dia da transição democrática, o eufemismo se impôs como um elemento estrutural do discurso político. Três anos antes da queda do Muro de Berlim, do desmoronamento do socialismo chamado real nos países do Leste Europeu e da proclamação da “nova ordem mundial”, a Espanha aderia à União Europeia, e a palavra globalização ainda soava como um barulho difuso, calando qualquer reflexão sobre a oportunidade real ou sobre a maneira mais sábia de integrar a Espanha à nova economia globalizada. Tranquilas, na certeza de pertencer por osmose à minoria mais afortunada da humanidade, a classe política em geral e a imensa maioria dos economistas espanhóis não refletiram nem um segundo sobre as consequências de uma decisão que está na raiz da crise atual. Quando os economistas mais poderosos do mundo decidiram que as nações menos desenvolvidas deveriam se transformar em um mercado gigante, com a condição de abrir-se à concorrência do “primeiro mundo”, nenhum profeta como Carlos Solchaga parou de acreditar e martelar que as condições impostas aos países do dito terceiro mundo, por mais injustas e ingratas que fossem, impulsionariam uma dinâmica irresistível: os pobres venderiam mais mercadorias aos ricos e se tornariam mais competitivos em relação às indústrias do primeiro mundo. Esses países conheceram um crescimento espetacular e foram batizados de “economias emergentes”. Seu enriquecimento, que poderia ser tomado como a justa reparação pelos séculos de pilhagem, teve como efeito colateral a concentração da maioria das riquezas nas mãos das elites e incitou os Estados a fazerem prevalecer as “necessidades” econômicas em detrimento das considerações políticas. Sempre em benefício próprio, os países ocidentais não hesitaram em sacrificar as próprias indústrias nacionais. O deslocamento de fábricas em busca da redução de custos e as chantagens do tipo “nada de impostos ou vou embora” os incitaram a restringir o estilo de vida e buscar as primeiras brechas no Estado de bem-estar social, enquanto esperavam seu completo desmantelamento. Era surpreendente o comportamento desses novos senhores? Não. O rosto que exibe o capitalismo não tinha nada de novo. Muito tempo antes de a palavra “globalização” entrar no vocabulário da economia e da política, seu conteúdo havia sido perfeitamente decifrado pelo presidente de uma nação latino-americana longínqua, Salvador Allende(5), durante um discurso pronunciado diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 4 de dezembro de 1972: “Assistimos a um confronto direto entre as grandes transnacionais e os Estados. Estes últimos estão parasitados em suas decisões essenciais – políticas, militares e econômicas – por organizações mundiais que não dependem de nenhum Estado e não respondem por seus atos diante de nenhum Parlamento, nem diante de uma instituição que garanta o interesse coletivo. Em uma palavra, toda a estrutura política do mundo está sendo destruída”. Nessa época, o mercado já se comportava como uma ditadura, e a política, essa velha arte do possível, tomava ares de uma competição que serviria para avaliar os melhores empresários do mercado. Tudo isso foi sumamente ignorado pelos políticos espanhóis. O provérbio “desprezo aquilo que ignoro”, tão característico do pícaro, colocou-os em um imobilismo absoluto diante dos primeiros sintomas da crise. A adesão da Espanha à União Europeia, ao lado de Grécia e Portugal, marcou não somente o fim da autossuficiência ibérica, mas também o começo de um fluxo intenso – com os famosos fundos de coesão e ajuda ao desenvolvimento –, que drenaria mais dinheiro do que o Plano Marshall conseguiu reunir para toda a Europa no pós-guerra. Para o período entre 2007 e 2013, a Espanha obteve US$ 3,25 bilhões. Apesar do dogma “a Espanha vai bem” pregado durante os oito anos de reinado de José María Aznar e da confiança de José Luis Rodríguez Zapatero(6) de que o país gozava de uma economia mais próspera que a da Itália e empreendia as mais altas performances financeiras do mundo, a Espanha não depositou nem um centavo aos dez países do Leste que se incorporaram à União Europeia em 2004. Essa mesquinharia teria sido suficiente para deixar seus vizinhos europeus com a pulga atrás da orelha. Se esse não foi o caso, é porque os mercados viam na Espanha – como fizeram antes com os Estados Unidos – uma galinha dos ovos de ouro muito mais promissora que a incerta modernização do sistema produtivo: a especulação imobiliária e a concessão ilimitada de créditos hipotecários. Poucos foram os homens políticos e os economistas espanhóis que entenderam a dimensão do fato de que, durante os cinco anos que precederam a queda do banco Lehman Brothers, as economias emergentes como a China, o Brasil e a Índia registraram picos de crescimento fenomenais. Foram poucos, porque a corrida pela competitividade empreendida por algumas empresas espanholas ainda capazes de sair do jogo mundial não importava muito perante a promessa de ganhos a curto prazo com a bolha imobiliária. A febre imobiliária e a corrupção alastrada se materializaram em aeroportos grandiosos onde jamais aterrissou um avião, em linhas de trem de grande velocidade que não transportam nenhum passageiro, em circuitos de automobilismo que se transformaram em reprodutores de coelhos, em centros culturais faraônicos que servem de poleiros de pombas. Em meio a tudo isso, os bancos apresentaram os balanços mais rentáveis da história. O gato havia capturado o rato. A profecia do mago Solchaga tinha se concretizado − a Espanha era o mais belo e melhor país do mundo para ganhar milhões da noite para o dia, graças a uma fonte natural inesgotável cujo valor não cessava de subir: o solo. Diz-se que a cultura empreendedora de um país se mede pela diversidade de sua produção. O mercado imobiliário traiu essa premissa, e praticamente todas as pequenas e médias empresas se consagraram ao setor de construção. Desde o início do boom imobiliário, os dirigentes econômicos e sindicais sabiam que estavam sentados sobre um barril de pólvora. Porém, apesar dos alertas tímidos da Esquerda Unida(7), ninguém quis dar o primeiro passo. O gato deveria continuar a capturar os ratos, ainda que fossem apenas miragem. Se o povo deve trocar seus dirigentes quando eles não valem nada, os dirigentes gostariam de trocar de povo quando lhes convém. Esta observação de Bertolt Brecht demonstra bem o estado de espírito do PSOE após sua dolorosa derrota eleitoral no ano passado. Durante seus últimos meses no poder, os socialistas tinham enfrentado a crise – cuja existência eles negaram no início e recorreram à ideologia de mercado para certificar o caráter invulnerável da economia espanhola – renunciando a qualquer vontade de governar à esquerda. Julgou-se supérfluo explicar aos cidadãos porque os bancos não emprestam mais, porque as pequenas e médias empresas quebram uma atrás da outra e porque o desemprego sobe a cada dia. Os poucos esforços feitos pelo governo de Zapatero para salvar o que podia ser salvo se chocavam com os bombardeios da direita espanhola, que empreendeu uma das oposições mais irresponsáveis já vistas em um país democrático. Contudo, as ações dos dois lados coincidiam em um ponto: a ansiedade que tomou conta do povo não valia nada diante da necessidade imperiosa de “tranquilizar os mercados”, ou seja, gratificar os bancos pela indigestão de fundos públicos. Uma tragicomédia: assim se resumem os últimos meses do mandato socialista. Enquanto o governo reduzia os salários e regava os bancos, opositores como Cristóbal Montoro, o atual ministro da Fazenda e da Administração Pública se gabavam em público: deixemos o país seguir seu rumo, que nós o salvaremos. Na lista dos salvadores, Luis de Guindos, presidente executivo do Lehman Brothers na Espanha e Portugal de 2006 a 2008, distribuiu às autoridades ibéricas as informações em primeira mão que possuía sobre as contas problemáticas do banco e sobre os sinais que anunciavam sua quebra. Três anos depois, foi recompensado com o posto de ministro da Economia e da Competitividade no governo de Mariano Rajoy. Assim, enquanto o governo socialista estrangulava as despesas sociais com o pretexto de “ajustes necessários” e de “obrigações impostas por Bruxelas”, o número de desempregados passava de dois milhões para três milhões, logo para quatro milhões e, hoje, atinge os cinco milhões. Nas eleições, a ausência de uma narrativa suscetível de esclarecer os acontecimentos deixou apenas uma questão em suspenso: queremos ser cidadãos ou consumidores? Uma parte importante da sociedade optou pela segunda alternativa e conferiu à direita uma vitória esmagadora. O gato poderia continuar a capturar os ratos, desde que um novo festim fosse oferecido à sua voracidade: a oferta da dívida pública. Os fundos depositados nos bancos, em realidade, não serviram para irrigar as empresas e salvá-las da falência nem para aliviar os créditos hipotecários e evitar a expulsão dos pequenos proprietários incapazes de reembolsá-los; serviram, sim, para comprar a dívida pública a uma taxa de juros de 3% a 5%: trata-se de uma especulação subvencionada pelo Estado. Em resumo, a crise financeira deixou as finanças intactas. Talvez esteja menos estufada que antes, mas não morre de fome. Em virtude das regras da União Europeia, cabe aos Estados garantir a seriedade, a robustez e a perenidade de seus sistemas financeiros. Esta perversão permite aos especuladores ganhar em qualquer situação: se os negócios são bem-sucedidos, monopolizam os lucros; se fracassam, o contribuinte paga pelo rombo. As receitas fiscais se esgotaram alguns meses antes da saída de Zapatero do governo. Mas, como o gato ainda estava com fome, o Banco Central Europeu (BCE) desbloqueou empréstimos a apenas 1% de juros, sem se preocupar com a saúde dos bancos aos quais esses créditos foram destinados. O gato teve a oportunidade de se empanturrar: com o dinheiro fácil do BCE, os bancos abocanharam a dívida pública a uma taxa de juros de 5%, logo 6% e depois 7%. Solchaga não tinha mentido: a Espanha continuava o melhor lugar do mundo para ganhar o máximo de dinheiro em um mínimo de tempo. Na Espanha, todas as manhãs, somos despertados por um novo golpe: o gato continua capturando os ratos, mesmo que tenham forma humana. Cortes na educação, reduções de despesas com a saúde, demissões batizadas de “ajustes”, silêncio de chumbo diante dos escândalos de corrupção, roubos e pilhagens em série. A narrativa da crise espanhola começa e termina com uma apologia à corrupção, uma crítica socialista à cultura do lucro e um gato de cor indefinida, grande comedor de ratos. Karl Marx dizia que o capitalismo contém os germes de sua própria destruição. O filósofo de barba branca pensava na Inglaterra, mas, se hoje ele tomasse sol em uma praia de Marbella, com o gato de Felipe González mordiscando suas orelhas, ele diria, talvez, que o capitalismo, enquanto sistema de exploração que cria a mais-valia, longe de se autodestruir, se regenera ao emprestar ao mercado sua cara invisível, seu corpo insaciável e sua voracidade prodigiosa. E talvez Marx pegaria seu iPhone para ligar para Friedrich Engels e dizer: “Um espectro ronda o mundo. É o espectro do mundo no qual queremos viver, o espectro de uma sociedade possível da qual queremos participar”. Mas enquanto o espectro não se concretiza em realidade, o gato maldito não para de capturar ratos. Notas (todas as notas são da redação) 1 Quando o general Francisco Franco morreu, em 20 de novembro de 1975, a monarquia foi restaurada. Juan Carlos I, então, empreendeu um processo de transição democrática. 2 Presidente espanhol de 1982 a 1996. 3 O romance picaresco apareceu na Espanha no Século 16. Seu protagonista central é o pícaro, um anti-herói oriundo do setor popular, geralmente sem escrúpulos. 4 Euskadi Ta Askatasuna (País Basco e Liberdade), organização armada independente criada em 1959. Em 20 de outubro de 2011, o ETA anunciou o “fim definitivo de sua ação armada”. 5 Presidente socialista do Chile (1908-1973), eleito em 1970 e derrubado pelo golpe de Estado do general Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973. 6 Respectivamente, dirigente do Partido Popular (PP, direita), no poder entre 1996 e 2004, e sucessor do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, esquerda), líder do governo até 2011. 7 Partido político fundado em 1986 ao redor, sobretudo, do Partido Comunista Espanhol. * Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique Brasil.


por Luis Sepúlveda, do Le Monde Diplomatique Brasil
Enquanto Merkel se esforça para encontrar uma solução, seus assessores fazem planos para o fim do euro. Foto: Reprodução/Getty Economia

Estaria Angela Merkel tentada a dissolver o euro?

[caption id="attachment_62044" align="alignright" width="341" caption="Enquanto Merkel se esforça para encontrar uma solução, seus assessores fazem planos para o fim do euro. Foto: Reprodução/Getty"][/caption] Por ora, dissolver o euro seria mais caro do que tentar mantê-lo junto, mas se a Europa não parar de apenas discutir, as contas mudarão. Especula-se que Angela Merkel esteja considerando agora mesmo como dissolver o euro. Para essa mulher extremamente prática, há também uma razão prática para começar a se preparar para um rompimento: tal cenário está se tornando cada vez mais provável. A Grécia espera o pior. Boa parte do sul da Europa está em crise e os credores do norte estão se tornando cada vez menos compreensivos. Uma desintegração caótica seria uma calamidade. Enquanto Merkel se esforça para encontrar uma solução, seus assessores certamente estão fazendo planos razoáveis sobre um cenário de fim da união monetária. Por ora, dissolver o euro seria mais caro do que tentar mantê-lo junto, mas se a Europa não parar de apenas discutir, as contas mudarão. Comecemos pela Grécia. Há uma falácia comum, na Alemanha inclusive, de que expulsar os gregos constituiria uma maneira muito menos cara de dar uma lição útil. Com efeito, o Banco Central Europeu (BCE) detém títulos da dívida grega cujo valor de face é de € 40 bilhões (US$ 50 bilhões), os quais seriam convertidos para uma dracma desvalorizada e os quais poderiam não ser honrados pela Grécia. Mais cerca de US$ 160 bilhões em empréstimos que a Grécia recebeu poderia ter o seu valor reduzido ou mesmo zerado. Os US$ 122 bilhões da dívida temporária que a Grécia acumulou com o sistema de pagamentos do BCE poderiam se transformar em uma perda. Adicione-se o outro empréstimo de, digamos, US$ 122 bilhões para fortalecer a Grécia e a conta atinge US$ 392 bilhões. Estimar o custo da expulsão da Grécia é um trabalho de adivinhação, mas a parcela da Alemanha pode atingir US$ 135 bilhões, cerca de 4% do PIB do país. Um plano B mais ousado amputaria muito mais do que apenas o local de infecção, cortando fora Espanha, Irlanda, Portugal e Chipre. O custo de um plano B mais robusto seria alto. Quando se soma o valor dos títulos das dívidas soberanas mantidas pelo BCE, as dívidas temporárias em seu sistema de pagamento, empréstimos de resgate, e um pacote de estímulo para suavizar o impacto de ser removido do bloco, o custo total para Espanha, Irlanda, Portugal, Chipre e Grécia talvez atinja US$ 1,8 trilhão. Mas o cheque em branco para proteger os outros quatro países em crise após uma caótica expulsão grega pode ser mais alto do que isto; e a expulsão mais ampla estabeleceria uma zona do euro mais defensável e coordenável. O euro poderia ter sido salvo há muito tempo caso os políticos houvessem concordado a respeito de quem deveria arcar com o que ou de quanta soberania se abriria mão. Em vez de ir adiante, Merkel esperou, contando com a possibilidade de que ajustes fiscais e reformas estruturais estimulariam mais crescimento no sul da Europa e de que os políticos poderiam se entender. No entanto, a evidência é de que o tempo está contra ela. A não ser que Merkel pressione em alguma direção, a escolha terá que ser feita entre uma dissolução cara mais cedo e uma realmente catastrófica mais tarde. * Publicado originalmente no jornal The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do The Economist
Brasil ocupa o 104º lugar em qualidade de infraestrutura na lista do Fórum Econômico Mundial. Foto: Reprodução/Internet. Economia

‘Economist’ dá nota zero para a infraestrutura brasileira

[caption id="attachment_62050" align="alignleft" width="341" caption="Brasil ocupa o 104º lugar em qualidade de infraestrutura na lista do Fórum Econômico Mundial. Foto: Reprodução/Internet."][/caption] Revista questiona a capacidade do Brasil de aumentar investimentos em infraestrutura para os Jogos olímpicos de 2016 e a Copa de 2014 “Se o candidato republicano à presidência dos EUA, Mitt Romney, duvidava da preparação de Londres para receber os Jogos olímpicos, o que diria ele em relação ao Brasil?”, questiona uma mordaz reportagem da revista ‘Economist’ publicada nesta quinta-feira, 9. As Olimpíadas de 2016 e a Copa de 2014 serão realizadas em um país que tem apenas 14% das suas estradas pavimentadas, revela o texto. O Brasil ocupa o 104º lugar em qualidade de infraestrutura na lista do Fórum Econômico Mundial, atrás de China (69º lugar), Índia (86º lugar) e Rússia (100º lugar). A lista contém 142 países. No porto de Santos, o maior porto brasileiro, o correspondente da revista inglesa diz, com ironia, ter observado homens limpando os restos de um navio cuja carga, composta de agentes químicos, explodiu na distante década de 70. Em teoria, sugere o correspondente, a urgente carência de infraestrutura no Brasil pode gerar um alto pico de investimentos. De 2011 a 2014, o governo irá gastar R$ 163 bilhões, ou seja, 1% do PIB anual do Brasil, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).  Entrevistado pela ‘Economist’, Arthur Carvalho, o economista-chefe para o Brasil do banco Morgan Stanley, disse, entretanto, que isso ainda não é o bastante. De acordo com um relatório divulgado pelo banco em 2010, o país precisará gastar de seis a oito por cento do PIB anualmente para ser capaz de se igualar à Coréia do Sul daqui a 20 anos, e quatro por cento anualmente para se igualar ao Chile. Diversas razões levam a crer que o capital privado não irá fornecer grande ajuda, prenuncia a reportagem. Financiar projetos de infraestrutura de longo prazo em reais é muito caro e conseguir licença ambiental para dar início a um projeto do tipo é extremamente complicado, o que acaba causando atrasos de até cinco anos. A ‘Economist’ conclui que a vontade dos investidores de enfrentar atrasos, burocracias e altos custos irá depender do retorno que irão receber. Os investidores em infraestrutura querem projetos duradouros com fluxos de caixa estáveis​​, o que significa que provavelmente irão deixar para o governo a tarefa de construir estádios que podem ser mal utilizados após os Jogos olímpicos de 2016, como ocorreu com diversas instalações construídas no Rio para os Jogos Pan Americanos de 2007. * Publicado originalmente no jornal The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do The Economist
t3 Economia

Olimpíadas mostram um mundo esportivo próspero e alheio à crise financeira mundial

Com a tradicional festa de abertura repleta de representações teatrais sobre a história e cultura locais, adornadas por um vasto desfile de manifestações estéticas e artísticas, teve início em Londres nesta sexta-feira, 27, a 30ª edição dos Jogos Olímpicos, a última antes de serem realizados pela primeira vez na América do Sul, mais precisamente no Rio de Janeiro, daqui a quatro anos. Com cerca de 10.000 atletas de 203 países, a disputarem 26 modalidades esportivas, os jogos tiveram orçamento de aproximadamente 30 bilhões de reais, financiados evidentemente pelos cofres públicos ingleses em sua maioria. Já o Comitê Olímpico Internacional, deverá arrecadar a bolada de 23 a 25 bilhões de reais na soma de direitos de televisão, vendas de produtos licenciados e patrocínios. Por conta disso, o evento terá uma das marcas dos tempos modernos, a despeito de velhos “lemas olímpicos”, que apesar de iniciados na Grécia Antiga não escapam do culto ao “deus” contemporâneo, o mercado. Medidas de exceção foram tomadas para preservar os interesses comerciais dos patrocinadores oficiais, notadamente os da área alimentar, como o McDonalds, que só após muita pressão “liberou” o fish and chips que tanto marca o cardápio dos britânicos. Com isso, verifica-se claramente a velha equação de custos públicos com lucros privados. O governo e, consequentemente, a sociedade locais bancam a maior parte dos custos e a arrecadação vai majoritariamente para o bolso do COI e seus respectivos aliados, mantendo tal renda nas esferas de controle da cartolagem internacional, a exemplo das práticas da FIFA no futebol e suas confederações de aliados. Diante da magnitude do evento, há expectativas de audiências globais extraordinárias. Estima-se que só a cerimônia de abertura pode ter sido assistida por 4 bilhões de seres humanos! Decisões das principais modalidades, com alguns dos ídolos mundiais, devem superar a casa do bilhão de telespectadores. Clichês à parte, um momento único de congraçamento dos povos e envolvimento coletivo em torno de uma causa universal, o que tanto urge em tempos de crises do capital e de regimes políticos, rodeadas por cada vez mais alarmes ambientais. Exatamente por isso, reforçou-se outra marca da atualidade: um aparato de guerra para prover a segurança desejada aos jogos, parte ponderável do orçamento total. Apesar disso, a G4S, empresa encarregada de treinar e dispor 10 mil profissionais da área para trabalhar nos cuidados e monitoramento dos eventos e pessoas, fracassou em sua tarefa, causando uma considerável consternação interna. O fiasco veio à tona quando a apenas duas semanas da abertura o governo inglês não teve mais como esconder sua falta de confiança na empresa e convocou em caráter de urgência 3.500 integrantes de suas forças armadas para trabalharem nas ruas de Londres. O fato causou indignação no parlamento e na população, uma vez que vários recrutas tinham outras missões a cumprir, ou delas voltavam, dentre elas o nada “olímpico” Afeganistão. Fora o fato de terem se passado sete anos desde a escolha da cidade como sede. Com isso, passou a se notar certo clima de tensão, até relatado pela mídia, entre os novos “voluntários” dos jogos e os torcedores, vindos de todos os cantos do mundo, de todos os estilos e espécies turísticas. Aliado a estratégias neuróticas de revista e monitoramento dos presentes nas competições e à enorme lista de proibições de objetos e alimentos tolerados nas arenas (inclusive qualquer imagem de Che Guevara), tornam-se um tanto ostensivas as facetas comerciais e militares, dentro de algo que deveria ser presenciado em clima de despreocupação e festa, ao menos se comparamos com outras questões mais complexas da vida humana. Mas a bomba que matou duas pessoas e feriu outras 100 nos jogos de 1996, em Atlanta (EUA), não saem da memória, sem esquecer, mais atrás, do trágico assassinato de 11 atletas israelenses em Munique, 1972, por membros do Setembro Negro. De toda forma, antecipa as mesmas operações de segurança que veremos por aqui, com a diferença que nossas forças de segurança são acostumadas a atuar na mais absurda ilegalidade e truculência contra seu “inimigo interno” de cada dia. Precisaremos estar atentos a possíveis violências contra os habitantes mais pobres do Rio de Janeiro, que certamente serão tratados como seus congêneres baianos em trios elétricos de carnaval, vendo do lado de fora uma festa para poucos e visitantes. Para preservar os interesses dos patrocinadores oficiais, uma série de leis de exceção já são editadas desde já (assim como o foram em Londres), tornando crime diversas formas prosaicas de comércio, a partir de mínimas associações de seus produtos com as Olimpíadas, seus símbolos e imagens icônicas. Toda concorrência “extra-oficial”, entre aspas para evitar um tratamento “marginal” aos milhares de comércios e trabalhadores que não podem assinar contratos com o COI, será combatida e afastada dos locais de competições. Tratando da parte aprazível, não faltará diversão aos telespectadores, pois não há época igual para acompanhar e se entusiasmar com modalidades sempre ignoradas do noticiário, heróis de ocasião cujas histórias impregnam nas mentes humanas e as esperadas consagrações de atletas que ficarão imortalizados em suas especialidades. Com competições que começam e geralmente se definem em um ou dois dias, não haverá instante em que alguma medalha não esteja sendo colocada no peito de algum(a) atleta. A maioria das competições tem disputas ou performances de curta duração, de modo que se pode acompanhar de forma mais palpitante os esportes com os quais temos menos intimidade – e avançar um pouco em sua compreensão e divulgação, se o Brasil realmente se pretende uma potência olímpica. São poucos esportes, como o futebol, o basquete ou a vela, em que uma disputa dura tanto tempo, nesses casos, duas ou mais horas. Além do mais, não faltará cobertura midiática. Pela primeira, e provavelmente única, vez na história a Rede Globo não transmitirá o maior evento do esporte mundial, ao lado da Copa do Mundo. Por 60 milhões de dólares, a Record ganhou a corrida e ficou com os direitos exclusivos de transmissão, o que na prática só valerá para a televisão aberta. A Sportv, emissora fechada da própria Globo, desembolsou 22 milhões de reais e disporá de quatro canais diários cobrindo os eventos 24 horas por dia. ESPN (três canais), Band (dois canais, Sports e News), Esporte Interativo e o próprio braço da TV de Edir Macedo, a Record News, formam a lista dos canais que cobrirão as Olimpíadas na televisão por assinatura. Uma overdose, a ser reforçada pela mesma Globo em 2016, que redobrou esforços para não ficar de fora da festa dentro de seu próprio quintal. Ao todo, o COI arrecadou 4 bilhões de dólares em direitos de televisão, número com alta probabilidade de ser superado pela edição carioca, que já garantiu 3,7 bilhões, com quatro anos ainda pela frente, tempo de sobra para novos contratos. Os ingleses fecharam 11 patrocinadores; para 2016, já existem 10 garantidos, o que também ressalta o momento econômico das grandes, e cada vez mais transnacionais, empresas brasileiras. Rompendo definitivamente com certas ilusões, a terceira Olimpíada londrina (as outras foram em 1908 e 1948) não dará contribuição alguma, a não ser moral, “espiritual”, à complicada conjuntura econômica britânica. Servirá como um bom anestésico a ser aplicado por 17 dias consecutivos no combate às agruras do mundo capitalista em crise. Aliás, crise financeira é algo que não existe no principal escalão do mundo esportivo. * Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Gabriel Brito, do Correio da Cidadania
t2 Economia

O que vai salvar o euro?

O mercado financeiro está acreditando que o Banco Central Europeu pode salvar o euro? O problema é que não há plano B sobre a mesa. Com um endividamento de 82% sobre o PIB, com uma economia que começa a desaquecer e que desde a criação do euro só cresceu 1,4%, em média (menos que a França, Holanda e o conjunto da zona do euro), com uma chanceler democrata cristã, Angela Merkel, casada com o credo conservador, a Alemanha parece decidida ao não dar passo novo algum. O artigo é de Marcelo Justo. Londres - O mercado financeiro está acreditando que o Banco Central Europeu pode salvar o euro? Na quinta-feira, parecia que não. Na sexta, começou a parecer que sim. Vamos pôr as coisas em contexto. Na semana passada, o presidente do Banco Central Europeu (BCE) Mario Draghi tinha acalmado os mercados dizendo que “faria tudo” para salvar o euro. Na quinta assinalou que não interviria, a menos que os mesmos países lhe pedissem. A reação dos mercados foi instantânea: aumento do risco país da Espanha e da Itália, queda das bolsas europeias e asiáticas. Mas na sexta houve uma recuperação das bolsas europeias pela manhã, num movimento tão inesperado como a falta de anúncios concretos de Draghi. Para Adam Leaver, membro do centro interdisciplinar CRESC (Centre for Research on Socio-Cultural Change) e pesquisador da Manchester Business School, todas essas flutuações dos mercados não fazem mais que refletir a enfermidade de fundo do sistema financeiro internacional. “A reação ao que se disse na semana passada é tão extraordinária como a que está havendo nesta semana. É uma evidência da volatilidade e da incerteza do atual sistema financeiro, que não saiu da crise de 2008”, disse Leaver a Carta Maior. Esta incerteza global está atravessada por uma crise da zona do euro que começa a parecer crônica: crescimento nulo ou negativo, austeridade, déficit fiscal e recessão, altos níveis de endividamento com fortes vencimentos no curto prazo. Sob esse pano de fundo, Mario Draghi indicou que, em semanas, anunciará seus planos para a aquisição de bônus da dívida do estado e que “não havia sentido apostar contra o euro”. A reação ambivalente dos mercados pode ser entendida como uma resposta a partes distintas de seu discurso. Na quinta predominou a decepção com a falta de medidas concretas depois de ter gerado tanta expectativa. Na sexta, a certeza de que, desta vez, a intervenção não será esporádica, mas parte de um plano ordenado. Não há razão para pensar que os mercados já tenham fixado um sentido único para as suas palavras: nos próximos dias novas interpretações de sua mensagem e a posição do BCE podem dar lugar a novas flutuações dos mercados. Reação da Espanha e da Itália A Espanha e a Itália se preocuparam em reagir de maneira positiva ao anúncio. Numa declaração que o matutino espanhol “El País” interpretou como de “devolução da bola” a Draghi, Rajoy indicou que pediria ao fundo de resgate europeu que compre a títulos da dívida pública espanhola – o pedido é a condição que Draghi impôs – uma vez conhecidas as medidas “não convencionais” que o BCE disse que tomaria. Rajoy destacou que Draghi tinha dito que estava disposto a intervir. “Isso é muito importante, porque antes ele tinha dito exatamente o contrário”, afirmou. Num sentido similar se pronunciou o premier italiano Mario Monti, o qual, no entanto, descartou que a Itália necessite de um resgate financeiro. “O que se passa é que, às vezes, os mercados tardam a reconhecerem os esforços que se está fazendo”, disse Monti. O fundo de resgate é o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), claramente insuficiente (tem uns 388 bilhões de dólares de reserva). O fundo será substituído possivelmente em setembro pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE) que, quando estiver em pleno funcionamento, contará com uns 776 bilhões de dólares. Esta cifra só seria suficiente para a Espanha, que tem reservas na casa dos 48 bilhões de dólares, vencimentos de dívidas equivalentes a mais de 600 bilhões de dólares até 2015 e uma dívida externa que o mesmo Rajoy estimou em 900 bilhões de euros (mais de um bilhão de dólares). O resgate da Itália custaria um bilhão de dólares e está totalmente foram do alcance desses fundos. É por isso que a intervenção do BCE é considerada essencial para uma saída financeira da crise. O BCE adquiriu títulos da dívida de países membros da zona do euro em três oportunidades. Em maio de 2010, logo no começo do estouro da crise da dívida soberana grega, em agosto e em dezembro do ano passado, quando, com outros dois resgates (Irlanda e Portugal) decidiu neutralizar a pressão especulativa dos mercados sobre a Espanha e a Itália. A diferença agora é que Mario Draghi indicou que haverá um plano concreto com montantes específicos. Pode-se salvar o euro? A pergunta é se essa engenharia financeira será suficiente para acalmar as águas turbulentas e baixar as taxas de juros que a Espanha e a Itália pagam aos mercados financeiros. A segunda incerteza é: por quanto tempo a situação atual é sustentável. A terceira é que se as economias da zona do euro não voltarem a crescer, qualquer plano pode se tornar econômica e politicamente insustentável. O Plano A (austeridade) pôs em marcha, em 2010, não serviu. Grécia, Irlanda e Portugal tiveram de ser resgatados, apesar dos ajustes. O mesmo está acontecendo com a Espanha e a Itália. A crise além disso está se deslocando para as economias do norte europeu. A economia alemã já não cresce, suas exportações caíram e em julho a agência estadunidense Moody pôs em perspectiva negativa a qualificação máxima (AAA) que outorga à sua dívida soberana. O problema é que não há plano B sobre a mesa. Com um endividamento de 82% sobre o PIB, com uma economia que começa a desaquecer e que desde a criação do euro só cresceu 1,4%, em média (menos que a França, Holanda e o conjunto da zona do euro), com uma chanceler democrata cristã, Angela Merkel, casada com o credo conservador, a Alemanha parece decidida ao não dar passo novo algum. Como disse Gunnar Beck, especialista alemão em temas legais relacionados à União Europeia de SOAS, Universidade de Londres, à Carta Maior, quando for o momento, a Alemanha intervirá. “Na Alemanha, a própria Angela Merkel disse que se o euro fracassar, a Alemanha fracassa. É uma ideia muito arraigada no estamento político alemão, e tem a ver com a culpa nacional. Os políticos alemães sempre apostaram num aprofundamento da integração europeia”, disse Beck. Essa vontade política de última instância não é suficiente para garantir a sobrevivência do euro. À avaliação da agência Moody juntou-se, em julho, uma pesquisa do Bank of America de Gestores do Fundos, segundo a qual 32% calculava que a Alemanha seria arrastada para a crise. Isso explica a preocupação com a qual se acompanha o tema na Alemanha e o debate que gerou a proposta de solução da crise do partido da esquerda alemã Die Linke, como recentemente a Carta Maior publicou. A proposta da deputada federal Sarah Wagenknecht contempla a eliminação de todas as dívidas que ultrapassem 60% do PIB (limite de endividamento estabelecido pelo Tratado de Maastricht) e beneficiaria a própria Alemanha. Em outra época, uma iniciativa de uma deputada que pertenceu ao Partido Comunista da Europa do Leste não seria levada em conta. Mas os alemães estão preocupados. Uma reestruturação radical da dívida a tornaria administrável e liberaria fundos de investimento e o crescimento econômico. Segundo Gunner Beck, no entanto, isso não é politicamente viável. “O mérito da ideia é que ela oferece ao menos uma solução possível. O problema é que não é aceitável no nível político”, explicou Beck à Carta Maior. Mas o filme do euro está se aproximado de seu desenlace. Neste momento, a proposta pode parecer inviável, mas se a crise se aprofundar, a reestruturação da dívida terminará se impondo pela força, com base na lógica elementar de que ninguém pode pagar se não há dinheiro. Tradução: Katarina Peixoto * Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Marcelo Justo, da Carta Maior
Foto iambents/Flickr Economia

HSBC multado no México por envolvimento em lavagem de dinheiro

[caption id="attachment_60447" align="alignleft" width="335" caption="Foto: iambents/Flickr"][/caption] O banco decidiu não recorrer das acusações judiciais no país depois de o Senado dos Estados Unidos ter comprovado seu envolvimento com fundos de cartéis mexicanos. Uma semana depois da divulgação do relatório do Senado dos Estados Unidos que acusava o HSBC de ter exposto o país à rede de terrorismo e lavagem de dinheiro, o maior banco europeu pagou uma multa de 22,7 milhões de euros no México pelo seu fraco sistema de controle no país. Segundo a Comissão Nacional Bancária e de Valores, as filiais do HSBC no México deixaram de cumprir as regras para a prevenção de lavagem de dinheiro durante operações realizadas em 2007 e 2008. O valor da multa representa mais da metade do lucro obtido pelas agências bancárias mexicanas em 2011, e é a maior sanção imposta por autoridades mexicanas contra uma instituição financeira. [caption id="attachment_60448" align="alignright" width="247" caption="As filiais do HSBC no México deixaram de cumprir as regras para a prevenção de lavagem de dinheiro durante operações realizadas em 2007 e 2008. Foto: flickr"][/caption] A multa, que foi emitida em 7 de novembro de 2011, foi paga somente nesta quarta-feira (25/7) porque o banco desistiu de recorrer na Justiça contra as acusações. O HSBC mexicano emitiu uma declaração reconhecendo que falhou em relatar 39 transações suspeitas e se atrasou em relatar outras 1.729. “O HSBC México reconhece que não conseguiu cumprir rigorosamente a regulamentação bancária, nem as normas que os reguladores e clientes esperam de nossa instituição e se desculpa”, diz a nota. O banco está entre os cinco maiores no México com mais de 1,4 mil agências e seis milhões de clientes. Provas da lavagem de dinheiro A decisão do HSBC vem uma semana depois do Senado norte-americano ter publicado um relatório que contém diversas provas de seu comportamento irregular referente a ações bancárias ilícitas, incluindo no país mexicano. Segundo o documento, o banco continuou a realizar negócios com casas de câmbio mexicanas apesar das crescentes suspeitas de que estariam ligadas à lavagem de dinheiro do narcotráfico, enquanto outros bancos pararam de se relacionar com essas instituições. O banco “não tomou medidas decisivas para enfrentar essas filiais e colocar um fim à conduta”, diz o relatório. De acordo com as informações, as casas mexicanas possuíam uma filial nas Ilhas Cayman que mesmo movimentando 1,7 bilhão de euros em apenas um ano, não possuía funcionários nem escritório. O documento também aponta que unidades do banco nos Estados Unidos receberam 5,8 bilhões de euros das casas, transportados por aviões ou carros durante os anos de 2007 e 2008. Além da multa emitida pelas autoridades mexicanas, o HSBC terá que responder às acusações judiciais nos Estados Unidos. Analistas estimam que o banco terá de pagar cerca de US$ 1 bilhão, referente ao processo norte-americano, informou a rede Al-Jazeera. Escândalos financeiros O HSBC, considerado a maior instituição financeira da Europa, não foi o único banco britânico a enfrentar acusações por ter realizado ações irregulares no mercado. O Barclays, segundo maior banco da Grã-Bretanha, mentiu de 2007 a 2012 sobre a sua liquidez para dizer-se mais sólido do que realmente era. Os bancos sediados em Londres, como HSBC e Barclays, geraram receita de 41 bilhões de euros para os cofres britânicos em 2010, dinheiro suficiente para aliviar quase metade do déficit da balança comercial do Reino Unido com a Europa. Eles são considerados imprescindíveis pelo governo de David Cameron, do Partido Conservador, que preferiu romper com a União Europeia no final do ano passado a aumentar taxas e controles sobre suas operações. As multas podem ser suficientes para apaziguar as instituições políticas, mas não para acalmar a ira da população europeia e norte-americana que enfrenta um período de dura crise econômica. * Publicado originalmente no site Esquerda.net e retirado do site Revista Fórum.


por Redação Esquerda.net

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Derretimento de geleiras não-polares causa 30% da elevação do mar. Dado foi apresentado em estudo na revista ‘Science’.

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Austrália quer proibir fertilização do oceano com sulfato de ferro. Método reduziria acidificação e combateria efeitos da mudança do clima.

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Já pensou em vender ou comprar sobras de comida através da internet? Esta é a ideia da plataforma virtual Shareyourmeal, uma forma interativa de combater o desperdício de alimentos. Saiba mais aqui.

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CET de São Paulo abres inscrições para o curso “Pedalar com Segurança”. Saiba mais.

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Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.

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Unesco critica Austrália por riscos ambientais na Grande Barreira de Coral

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Estudo calcula benefícios de árvores urbanas dos Estados Unidos. Parques absorvem carbono emitido e poupam US$ 1,5 bilhão por ano.

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Países amazônicos criam órgão de defesa e pesquisa para proteger a floresta, que será responsável pela gestão sustentável dos recursos da floresta

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Desmatamento e degradação de florestas na Amazônia atinge área de 175 km² entre março e abril. O levantamento é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

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O lixo é considerado normalmente um problema. Em Oslo, capital da Noruega, o problema tem sido a falta de lixo. A cidade transforma os resíduos em energia.