Olá, sou Sandy

Inter Press Service - Reportagens

Olá, sou Sandy


por Stephen Leahy, da IPS


[caption id="attachment_69400" align="aligncenter" width="500" caption="Furacão Sandy visto do espaço. Foto: NOAA"][/caption]   Uxbridge, Canadá, 30/10/20121 – Olá, aqui é o furacão Sandy. As pessoas me chamam de “Frankentormenta”, “supertormenta”, e inclusive de “bomba meteorológica”. A verdade é que não pretendo prejudicar ninguém. Mas uma umidade atmosférica e um calor oceânico sem precedentes me deram um poder incontrolável. Lamento dizer que tenho tanta potência eólica que estou colocando o mar dentro de suas salas ao longo de toda a costa leste dos Estados Unidos, no Oceano Atlântico. O mar é como uma saladeira cheia de água e inclinada de tal modo que esta só pode derramar. Meus ventos chegam a 150 quilômetros por hora. Perderão velocidade na medida em que adentrarem na terra, mas até então terão empurrado tanta água sobre a costa que haverá inundações por toda parte e durante toda a noite de ontem para hoje. Inundações causadas por tantas ondas recordes já ocorreram em várias áreas de Nova Jersey. E continuarão assim nesse Estado e em seu vizinho Nova York. Provavelmente cause danos de milhares de milhões de dólares em Washington, Nova York, Boston e outras partes do nordeste dos Estados Unidos. E seguramente matarei várias pessoas. Já o fiz. Cerca de 60 perderam a vida quando passei por Jamaica, Cuba e Haiti há alguns dias. Sou uma força da natureza, mas é importante entenderem que isto não é minha culpa. Nasci apenas no dia 22 deste mês nas águas quentes do sudoeste do Mar do Caribe, como um conjunto de tempestades elétricas e chuva, o que vocês chamam de depressão tropical, primeiro estágio na formação de um furacão. Uma das raridades do meu nascimento foi que aconteceu bem no final da temporada de furacões. Mas isto acontece cada vez com maior frequência, na medida em que o clima esquenta e grandes partes do oceano conservam o calor por mais tempo. O ar e a água estão mais quentes porque agora a atmosfera tem centenas de milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) procedentes da queima de carvão, petróleo e gás, bem como do desmatamento, da agricultura e das indústrias. Vocês sabem que o CO2 é como uma cobertura que mantém o planeta temperado, retendo parte do calor provocado pelos raios solares. Mas essas centenas de milhões de CO2 que vocês, humanos, lançam na atmosfera fazem com que esta cobertura seja cada vez mais grossa e capture mais calor do Sol. Esta quantidade extraordinária de energia calorífica presa equivale à explosão de 400 mil bombas atômicas, como a lançada sobre Hiroshima, a cada dia, 365 dias por ano. A maior parte desse calor extra foi para os oceanos. Por isso as temperaturas terrestres aumentaram, em média, apenas oito décimos de grau desde a era pré-industrial. Os mares estão mais e mais quentes, levando suas águas a se expandirem, como a onda formada quando o leite ferve. Esta é uma razão para a elevação do nível do mar; a outra é o derretimento das geleiras e dos gelos polares. O ar mais quente também pode carregar mais umidade. As medições realizadas mostram que agora há entre 4% e 6% mais vapor de água no ar, por isso as precipitações são mais intensas. Nasci na água a uma temperatura não inferior a 28 graus. Para crescer forte, preciso de água temperada e ar bem carregado de umidade. Havia abundância de ambos na semana passada, e na noite do dia 22 a velocidade dos meus ventos era suficientemente forte para ser batizada de tempestade tropical. No dia 24 estava mais poderosa e me deram o nome de furacão Sandy, o décimo da temporada. Este ano já aconteceram 18 tempestades tropicais, por isso 2012 pode se converter no terceiro ano de maior atividade ciclônica da história. Nós, furacões, vivemos sobre a água quente e o ar úmido. Por isto, perdi potência quando passei pelas montanhas e colinas da Jamaica e de Cuba. Mas a extensa área de águas incomumente quentes, que se estendem da Flórida até o norte da costa leste dos Estados Unidos, me forneceram a energia para continuar existindo e crescer em poder e tamanho. De fato, sou tão grande que poderia ser o maior registrado até agora. Isto tampouco deve surpreender. O calor crescente retido na cobertura de CO2 é o combustível das tempestades e da crescente umidade para chuvas mais copiosas e mais inundações do que no passado. E a elevação do nível do mar significa que as ondas serão mais destrutivas. Durante milhões de anos, nós, furacões e tufões, fomos a forma que a Terra encontrava para redistribuir o calor. Imaginem que somos como gigantescas válvulas de pressão. Quando o calor atmosférico aumenta, como agora, ninguém deve se assustar por sermos maiores e mais potentes. Já disse que sou uma força da natureza. Muitos dirão que sou um ato de Deus. Contudo, agora sabemos que isso não é verdade, certo? Ontem pela manhã virei rumo norte-noroeste e estou a cerca de 400 quilômetros a sudeste de Nova York. Já devo ser a tempestade de maior tamanho, com uma extensão total de aproximadamente 3.200 quilômetros. Queria permanecer sobre o mar aberto, mas uma grande coluna de ar frio e alta pressão sobre a região dos Grandes Lagos me colocaram neste rumo. A iminente colisão entre esse frio e o ar muito quente e úmido me tornará mais forte e perigoso. É impossível dizer com certeza se o derretimento do gelo marinho do Ártico, que este ano atingiu um recorde histórico, tem alguma responsabilidade nisto. Sei que a maior parte do gelo do Ártico derreteu em 2012. O gelo reflete a energia solar, mas o oceano escuro a absorve. Para que o Ártico volte a congelar, deve livrar-se do calor, lançando-o na atmosfera. Agora, precisamente ali, há quantidades recordes de energia calorífica saindo do mar e entrando no ar. Isto vem acontecendo a cada outono boreal nos últimos anos. Novamente, não devem se surpreender pelo fato de a liberação de todo esse calor extraordinário alterar os padrões meteorológicos. A corrente em jorro, os ventos oeste-leste que atuam como fronteira entre o frio ártico e as latitudes médias mais temperadas, está perdendo força, movendo-se mais para o norte e tornando-se mais errante. Outro fator que me impulsiona para dentro do território dos Estados Unidos é uma maciça cúpula de alta pressão localizada no sudoeste da Groenlândia. Sem esse bloco de alta pressão, possivelmente tivesse resistido ao empuxe do sistema de baixa pressão e permanecido no mar. Esse sistema de alta pressão está parado ali há duas semanas; os bichos raros da meteorologia o chamam de “evento de obstrução”. Já produziu uma extensão recorde de altas temperaturas e um degelo também recorde na Groenlândia. Sim, estou usando muito a palavra “recorde”. É porque o clima enveredou por um terreno desconhecido. O calor e a seca sem precedentes do recém-terminado verão boreal nos Estados Unidos são apenas um exemplo. E as coisas continuarão mudando. As tempestades poderão ser cada vez maiores e poderemos aparecer com maior frequência ou nos apresentar em lugares em que não íamos antes. Não há como saber. De uma coisa podem estar certos: o clima dos últimos 20 séculos já não existe. Sou parte da nova normalidade. Envolverde/IPS * Fala o furacão Sandy – Blog em inglês.

e2 Artigo

Os custos pesados do trivial variado

É quase inacreditável, mas o próprio ministro interino de Minas e Energia admite, após apagões, que "o sistema elétrico do Distrito Federal não é confiável". Se não é confiável lá na capital da República, sede do Executivo, do Legislativo e do Judiciário em mais alto nível, ao lado de centenas de órgãos e instituições, onde o será? (No momento em que estas linhas estão sendo escritas, em Goiânia, começa mais um dos blecautes que acompanham chuvas; segue-se com bateria de computador e luz de velas.) A informação sobrevém à de que "a seca levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico a acionar as usinas térmicas a óleo combustível" (poluentes). E à de que 32 parques eólicos (não poluentes) estão prontos, mas não podem operar e fornecer energia porque as linhas para ligá-los às redes de transmissão não foram instaladas ). E este ano já aconteceram 63 amplos "apagões" . Ainda assim, só planejamos multiplicar a energia eólica (que é competitiva com a das hidrelétricas) por quatro, passando de 2 GW para 8 GW até 2015. No mundo, calcula-se que essa forma de energia possa chegar até a 18 trilhões de watts (FEA-USP, 23/10), como diz o livro Energia Eólica, coordenado pelo professor José Eli da Veiga. Já a energia solar aumentou 20% em uma década. Melhor passar a outro assunto, neste trivial variado, para não correr o risco de entrar também pelo imbróglio das concessões de hidrelétricas. E como aflora o tema das energias poluentes, pode-se mencionar a aflição dos participantes de uma discussão sobre respostas das cidades aos desastres climáticos - promovido em Brasília pelo Urban Environment -, diante das informações de que é insignificante a atuação do poder no Brasil, um dos países que mais sofrem com "eventos extremos". Mesmo sabendo que neste momento temos mais de mil municípios do Semiárido sofrendo com a maior seca em 50 anos. Com 1,7 milhão de pessoas em São Paulo vivendo em áreas de risco ou inadequadas, 400 mil ocupando áreas de preservação permanente à beira de reservatórios. No Rio de Janeiro, mais de 3 milhões em 2.500 favelas. A Amazônia e o Extremo Sul enfrentando secas devastadoras e inundações alternadas. Adiante, no trivial, para encontrar a informação de que 50% das áreas mais importantes para a biodiversidade no Brasil (dono de pelo menos 13% do total mundial) não têm proteção adequada. Na reunião da respectiva convenção, encerrada na semana passada na Índia, a visão dos especialistas foi de que é preciso multiplicar os investimentos na área no mundo, chegar a pelo menos US$ 200 bilhões - mas só foram aprovados US$ 5 bilhões anuais, que poderão ser US$ 10 bilhões a partir de 2015. O WWF acha que seriam necessários US$ 200 bilhões anuais. Bráulio Dias, o brasileiro que dirige a convenção, pensa que poderiam ser US$ 600 bilhões. E tomaram-se decisões importantes ali, como a de ratificar as metas convencionadas em Nagoya (2010), de proteger pelo menos 17% das áreas terrestres e 10% das áreas oceânicas importantes para a biodiversidade (o Brasil protege 16,8%, em termos legais, de áreas terrestres, mas só 1,5% de áreas marinhas). Muito importante também, na Índia, a decisão de incluir nas avaliações de impactos ambientais obras de infraestrutura e outros projetos, inclusive em áreas costeiras. Por aí se entra no trivial estampado pela comunicação no capítulo dos custos "ambientais" ocultos. E pode-se começar pela notícia de que o Ministério Público de São Paulo está exigindo na Justiça que a empresa de saneamento pague R$ 11,5 bilhões pela poluição no Rio Tietê provocada pelo despejo de esgotos sem tratamento. Pode-se ir longe, já que perto de 40% dos domicílios brasileiros nem sequer dispõem de coleta de esgotos, só uns 30% dos esgotos coletados recebem algum tratamento e os não tratados vão para os rios. Mas só 4% dos municípios cumpriram no prazo a Lei do Saneamento, que os obriga a fazer planos diretores para a área. E nos oito anos do governo Lula só foram aplicados R$ 26,5 bilhões dos R$ 51,6 bilhões previstos para a área (Instituto Trata Brasil, 14/1/2011). Também pela senda dos custos ocultos se chega ao tema dos resíduos, do lixo, do qual ninguém quer ouvir falar - cidadãos e empresas. Todo mundo acha que esse é um custo que "cabe ao Estado", seja qual for a quantidade que cada um produz e sua especificidade (tóxico, eletrônico, orgânico, seco, resíduos de construção, etc.). Só de lixo domiciliar são 220 mil toneladas diárias (mais de um quilo por pessoa), que, ao custo médio de R$ 50 por tonelada coletada, significam R$ 11 milhões diários, mais de R$ 4 bilhões anuais. Fora o custo dos aterros. E o desperdício, pois 90% do que está no lixo domiciliar, levado para aterros (que também têm custos de implantação e operacionais), poderia ser reaproveitado ou reciclado. E os custos no sistema público de saúde gerados pela poluição do ar produzida por veículos? E os custos de implantação/manutenção das infraestruturas de transporte? E custos como o da transposição das águas do Rio São Francisco, que em cinco anos passaram de R$ 4,6 bilhões para R$ 8,2 bilhões e no ano que vem aumentarão pelo menos mais 18% (Rematlântico, 23/10)? Se ainda fosse pouco, vai-se ficar também com os custos do desmatamento legal ou ilegal, que - qualquer que seja o resultado final da disputa em torno do Código Florestal - vão continuar ocorrendo. Porque a fiscalização é quase inexistente (repita-se: o Ministério do Meio Ambiente tem menos de 1% do Orçamento federal e parte desses recursos é contingenciada todo ano). Porque não temos uma legislação adequada para cada bioma, como tanto pedia o professor Aziz Ab'Saber: como regular da mesma forma a beira-rio na Amazônia, onde 20% das terras são alagadas ou alagáveis, e a de terras do Semiárido, ou do Cerrado, ou do Pantanal? Melhorar parar com esse trivial variado duro de roer. * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


por Washington Novaes*
e1 Artigo

A fome: desafio ético e político

Por causa da retração econômica provocada pela atual crise financeira, o número de famintos, segundo a FAO, saltou de 860 milhões para um bilhão e duzentos milhões. Tal fato perverso impõe um desafio ético e político. Como atender as necessidades vitais destes milhões e milhões? Historicamente este desafio sempre foi grande, pois a necessidade de satisfazer demandas por alimento nunca pôde ser plenamente atendida, seja por razões de clima, de fertilidade dos solos ou de desorganização social. À exceção da primeira fase do paleolítico quando havia pouca população e superabundância de meios de vida, sempre houve fome na história. A distribuição dos alimentos foi quase sempre desigual. O flagelo da fome não constitui, propriamente, um problema técnico. Existem técnicas de produção de extraordinária eficácia. A produção de alimentos é superior ao crescimento da população mundial. Mas eles estão pessimamente distribuídos. 20% da humanidade dispõe para seu desfrute 80% dos meios de vida. 80% da humanidade deve se contentar com apenas 20% deles. Aqui reside a injustiça. O que ocasiona esta situação perversa é a falta de sensibilidade ética dos seres humanos para com seus coiguais. É como se tivéssemos esquecido totalmente nossas origens ancestrais, aquela da cooperação originária que nos permitiu sermos humanos. Esse déficit em humanidade resulta de um tipo de sociedade que privilegia o indivíduo sobre a sociedade, valoriza mais a apropriação privada do que a coparticipação solidária, mais a competição do que a cooperação, dá mais centralidade aos valores ligados ao masculino (no homem e na mulher) como a racionalidade, o poder, o uso da força do que os valores ligados ao feminino (também no homem e na mulher) como a sensibilidade aos processos da vida, o cuidado e a disposição à cooperação. Como se depreende, a ética vigente é egoísta e excludente. Não se coloca a serviço da vida de todos e de seu necessário cuidado. Mas está a serviço dos interesses de indivíduos ou de grupos com exclusão de outros. Uma desumanidade básica se encontra na raiz do flagelo da fome. Se não vigorar uma ética da solidariedade, do cuidado de uns para com os outros não haverá superação nenhuma. Importa considerar que o desastre humano da fome é também de ordem política. A política tem a ver com a organização da sociedade, com o exercício do poder e com o bem comum. Já há séculos, no Ocidente, e hoje de forma globalizada, o poder político é refém do poder econômico, articulado na forma capitalista de produção. O ganho não é democratizado em benefício de todos, mas privatizado por aqueles que detém o ter, o poder e o saber; só secundariamente beneficia os demais. Portanto, o poder político não serve ao bem comum. Cria desigualdades que representam real injustiça social e hoje mundial. Em consequência disso, para milhões e milhões de pessoas, sobram apenas migalhas sem poder atender suas necessidades vitais. Ou simplesmente morrem em consequência das doenças da fome, em maior número, inocentes crianças. Se não houver uma inversão de valores, se não se instaurar uma economia submetida à política e uma política orientada pela ética e uma ética inspirada numa solidariedade básica não haverá possibilidade de solução para a fome e subnutrição mundial. Gritos caninos de milhões de famintos sobem continuamente aos céus sem que respostas eficazes lhes venham de algum lugar e façam calar este clamor. Por fim, cabe reconhecer que a fome resulta também do desconhecimento da função das mulheres na agricultura. Segundo a avaliação da FAO são elas que produzem grande parte do que é consumido no mundo: de 80% - 98% na África subsaariana, de 50%-80% na Ásia e 30% na Europa central e do leste. Não haverá seguridade alimentar sem as mulheres agricultoras, caso não lhes for conferido mais poder de decisão sobre os destinos da vida na Terra. Elas representam 60% da humanidade. Por sua natureza de mulheres são as mais ligadas à vida e à sua reprodução. É absolutamente inaceitável que, a pretexto de serem mulheres, se lhes neguem os títulos de propriedade de terras e o acesso aos créditos e a outros bens culturais. Seus direitos reprodutivos não são reconhecidos e se lhes impede o acesso aos conhecimentos técnicos concernentes à melhoria da produção alimentar. Sem estas medidas continua válida a crítica de Gandhi: ”a fome é um insulto; ela avilta, desumaniza e destrói o corpo e o espírito…senão a própria alma; é a forma de violência mais assassina que existe”. * Leonardo Boff é teólogo, membro da Comissão Central da Carta da Terra e professor emérito de ética da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). ** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
Euro Artigo

Por que a Europa do euro afunda na crise que ela própria alimenta

Os governos, para salvar os bancos, tiveram de levar a níveis recordes o déficit e a dívida pública. O que surgiu como crise financeira devida à pornográfica especulação foi transformada em crise fiscal pelos governos neoliberais. Qualquer pessoa com nível razoável de reflexão é capaz de entender a essência da crise financeira mundial que se concentra, sobretudo, nos países mais ricos do mundo, e principalmente na área do euro. Entretanto, essa percepção fica comprometida por um bombardeio ideológico de mídia que se manifesta ora pela distorção dos fatos ora pela manipulação de conceitos econômicos tendo em vista a defesa de interesses específicos de grupos. Vejamos como isso tem funcionado. A crise originou-se de uma bacanal especulativa nos Estados Unidos e na Europa pela qual trilhões de dólares emprestados e rolados no mercado virtual de tomadores essencialmente insolventes revelaram-se impagáveis. Diante da quebra iminente, o governo norte-americano, isto é, o Tesouro e o Fed intervieram no mercado para salvar os bancos ilíquidos. A crise financeira privada migrou para a Europa, forçando os governos locais a também intervirem para salvar os bancos. A contrapartida do socorro aos bancos foi a absorção das suas dívidas pelos governos. No caso norte-americano, o Fed e o Tesouro atuaram conjuntamente, no primeiro caso através de trilhões de dólares de empréstimos de liquidez, e no segundo através de um programa especial (TARF) adotado ainda no Governo Bush, da ordem de 700 bilhões. Além disso, no caso americano, já no Governo Obama aprovou-se um programa adicional de 767 bilhões de dólares de estímulos fiscais, que em parte funcionou. Disso tudo resultou um aumento vertiginoso do déficit e da dívida pública norte-americana, esta alcançando cerca de 90% do PIB. Não é uma dívida nada extraordinária, considerando-se o tamanho da recessão e do desemprego. Contudo, é uma dívida muito grande para o Partido Republicano. Tendo este último ganhado as eleições para a Câmara em 2009, tratou imediatamente de bloquear no Congresso um novo programa de estímulo proposto por Obama em 2010 de 400 bilhões de dólares. Portanto, os Estados Unidos poderiam ter perfeitamente insistido no programa de recuperação não fosse a postura fundamentalmente ideológica republicana. Isso teria custado alguns pontos percentuais adicionais da dívida pública, os quais seriam provavelmente recuperados com uma aceleração do crescimento e da receita pública, como acontece em todos os ciclos de crises. Afinal, a despeito do valor absoluto da dívida, o país continua financiando-a a taxas extremamente baixas (3,5%). De qualquer modo, é preciso esperar o resultado das eleições para especular sobre qual destino os Estados Unidos escolherão levando boa parte do mundo consigo. Na área do euro a situação tornou-se bem mais complexa. Os governos, para salvar os bancos, tiveram de levar a níveis recordes o déficit e a dívida pública. O que surgiu como crise financeira devida à pornográfica especulação foi transformada em crise fiscal pelos governos neoliberais. Assim mesmo, teria sido possível enfrentar a crise mediante um programa de estímulo fiscal caso esses governos, justamente por serem neoliberais, não estivessem obcecados pela ideia de cortar o déficit e a dívida. E aqui não se trata apenas de ideologia, mas da institucionalidade européia estabelecida a partir da ideologia neoliberal. A Europa do euro criou um Banco Central independente (BCE) que se subordina aos mercados privados, não aos governos. Quando um governo, digamos, a Espanha, decide captar empréstimos, aumentando a dívida pública, fica exclusivamente em mãos do mercado financeiro, que exige a taxa de juros que quiser. Diferentemente do Fed americano, que irriga o mercado de moeda para facilitar a colocação desses títulos a taxas mais baixas, o BCE mantém rígida a oferta monetária, não prestando qualquer ajuda aos governos. Mais recentemente, Mario Draghi, o presidente do BCE, anunciou a disposição do banco de adquirir títulos dos governos em dificuldade de forma ilimitada desde que subordinem sua política fiscal a programas de austeridade. Isso ajuda muito pouco. É que a compra será no mercado secundário, criando grande conforto para os investidores, mas não liberando dinheiro diretamente para os governos A hipótese é que os donos privados dos títulos no mercado secundário vendam esses títulos ao BCE criando espaço para a compra de títulos novos emitidos pelos governos. Contudo, atenção: os governos não poderão fazer gastos novos financiados por esses títulos porque estarão limitados pelo programa de austeridade. Assim, a Europa do euro, pela ideologia de seus dirigentes e por sua institucionalidade, mergulhou nas tramas de um oximoro: com a decisão do BCE, ela pode ter uma maior capacidade de gasto público, sim, mas desde que não use essa capacidade do lado fiscal, já que tem que reduzir o déficit e a dívida pública. Enquanto isso, a demanda continua estagnada, o desemprego se eleva às nuvens – 13% em média, 25% na Espanha e na Grécia, 50% entre jovens, contração na maioria dos paises e queda da taxa de crescimento até na orgulhosa Alemanha, que tem feito tudo para matar o seu mercado impondo-lhe políticas restritivas do gasto público! * J. Carlos de Assis é economista, professor de Economia Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, do recém-lançado “A Razão de Deus”, pela editora Civilização Brasileira. Esta coluna sai também nos sites Brasilianas e Rumos do Brasil, e, às terças, no jornal carioca “Monitor Mercantil”. ** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por J. Carlos de Assis*
ec7 Artigo

Sacrificando a Biodiversidade no altar dos mercados

Os sucessivos acordos internacionais sobre biodiversidade têm falhado no seu objetivo de travar a destruição sistemática de espécies pela máquina produtiva capitalista. Mas os líderes dos países mais desenvolvidos têm uma ideia revolucionária para preservar a biodiversidade: usar o poder dos mercados financeiros. Em Hyderabad, na Índia, decorre atualmente a 11ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica. Desde que a Convenção foi assinada, na Cúpula da Terra, em 1992, os governos mundiais já assumiram vários compromissos voluntários para diminuir o ritmo de extinção de espécies, mas estes compromissos nunca foram cumpridos. As negociações atualmente estão centradas na discussão sobre mecanismos de financiamento de programas de proteção da biodiversidade, necessários para inverter a extinção de espécies. Um estudo publicado recentemente na Science concluía que o custo de recuperar e preservar as espécies ameaçadas de extinção no mundo ascende a 62 bilhões de Euros por ano. O montante equivale a menos de metade dos bônus pagos a administradores de bancos no ano passado. Portanto não estamos falando de muito dinheiro. Mas os governos que se reúnem à portas fechadas em negociações internacionais, na sua maioria, não estão minimamente interessados em confrontar os interesses dos mais poderosos. Pelo contrário, o que está sobre a mesa de negociações é dar ainda mais poder a quem lucra com a destruição do Planeta. A partir do exemplo frustrado do mercado de carbono, a União Europeia, assim como vários outros governos do mundo, pretende criar um mercado global para a biodiversidade. A ideia é que passaria a ser possível, por exemplo, a uma empresa destruir um rio construindo uma mega-barragem num ponto do Planeta, desde que outra empresa pague para preservar um rio em outro ponto do Planeta. Neste mercado, a natureza pode mesmo ser produzida. Assim, uma empresa pode comprar uma área arenosa e transformá-la numa área úmida, criando um lago artificial e soltando algumas espécies de animais típicas de áreas úmidas, e assim ganhar créditos que podem ser comprados por quem queira destruir qualquer zona úmida. O céu é o limite para a imaginação neste jogo de equivalências, sendo possível estipular que uma monocultura de árvores equivale e uma floresta antiga ou que um pântano artificial equivale a um pântano natural. Não é muito difícil prever que nada disto pode dar bom resultado. Correntemente enfrentamos ainda as consequências de uma crise mundial provocada, sobretudo pela financeirização da economia. Sabemos também que os projetos de “conservação da natureza” que foram surgindo pelo mundo impulsionados pela financeirização da natureza, sobretudo ao abrigo do mercado de carbono europeu, têm levado a violações de direitos humanos, desrespeito pelos direitos de comunidades indígenas, apropriação ilegal de terras e todo o tipo de fraudes destinadas a encobrir o insucesso dos projetos. Mesmo assim, muitos governos ainda parecem achar que é uma boa ideia entregar o destino do Planeta aos especuladores. A privatização e financeirização da natureza abrem novas áreas para a acumulação de capital, ao mesmo tempo que oferece aos poluidores instrumentos para comprar o direito de poluir. Não é surpreendente, portanto, ver como as maiores empresas do mundo, incluindo bancos, empresas de seguros e petroleiras têm pressionado fortemente os governos mundiais para que criem mais mercados ambientais, onde se transacionam licenças para destruir a natureza. A natureza, contudo, não pode ser reduzida a um conjunto de mercadorias. Como defendeu Isaac Rojas, da ONG Friends of the Earth (Amigos da Terra), “A biodiversidade e as florestas são essenciais para a sobrevivência das pessoas e do Planeta e, portanto, não têm preço. A nossa biodiversidade necessita ser protegida e não ser alvo de especulação por mercados financeiros negligentes e nada transparentes”. Acabar com a destruição da natureza em que vivemos e de que dependemos envolve questionar não só toda a economia e estrutura produtiva, mas até a própria sociedade industrial. Não é tarefa pequena, mas podemos e devemos começar com passos que nos conduzem na direção certa, como enfrentar as máfias que dominam o comércio de animais ameaçados de extinção e de madeiras raras ou as empresas de mineração, de combustíveis fósseis, de energia e de papel que destroem vastas áreas naturais. Criar novos mercados para a biodiversidade, pelo contrário, é um passo no sentido errado e uma perigosa distração. * Ricardo Coelho é jornalista especializado em Economia Ecológica. ** Publicado originalmente no site Revista Eco 21.


por Ricardo Coelho*
investidores Artigo

A sabedoria dos espertalhões

No domingo, 14 de outubro, a manchete da Folha de S.Paulo proclama “Intervenções de Dilma e PIB fraco afastam investidores estrangeiros”. No corpo da reportagem, a jornalista Patrícia Campos Mello esclarece que a deplorada queda no ingresso de capitais está concentrada em ações e títulos de dívida, o chamado investimento de portfólio. Entre janeiro de 2011 e agosto de 2012, essa modalidade de investimento estrangeiro apresentou queda de 1,8% para 0,3% do PIB. Já o investimento direto subiu no mesmo período de 2,3% ­para 2,8% do PIB. Nas palavras da jornalista, esses números transmitem melhor o humor (sic) dos investidores porque (o investimento de port­fólio) são mais voláteis do que o investimento direto estrangeiro, bem como menos influenciados por uma grande operação. Em seguida, ela organiza um desfile de opiniões de gestores de fundos dedicados à especulação e à arbitragem com os movimentos esperados de juros e câmbio. Certo Ruchir Sharma, chefe da área de Mercados Emergentes do Morgan Stanley, disparou: “É uma decepção, o Brasil terá crescimento de 1,5% a 2%, nem a metade da média dos emergentes. Para completar, o governo adotou medidas intervencionistas que aproximam o Brasil de países como a Venezuela de Chávez e terão efeito negativo a longo prazo”. O insigne Michel Shaul, presidente da Marketfield Asset Management, entregou o ouro: “O governo implementou uma série de medidas anticapital que podem até ser boas para a população que vai pagar menos juros no cartão de crédito, mas que não agradam ao investidor”. Já um grande investidor estrangeiro que preferiu o anonimato lamentou: “O governo começou a caça às bruxas contra os bancos, as ações despencaram. Dilma espremeu as elétricas e os papéis desabaram”. O estudo do FMI intitulado Recent Experiences in Managing Capital Inflows, de fevereiro de 2011, reconhece que a volatilidade dos investimentos de carteira não só é elevada como aumentou depois da crise financeira, com consequências indesejáveis na gestão da política econômica ao provocar o desalinhamento nas taxas de câmbio. No pós-crise, os fluxos líquidos de “dinheiro quente” ganharam força com as sucessivas rodadas de injeção de liquidez pelos bancos centrais. O movimento de capitais de curto prazo na busca de rendimentos mais parrudos cresceu rapidamente e alcançou 435 bilhões de dólares entre o terceiro trimestre de 2009 e o segundo de 2010. Ultrapassou, assim, os picos anteriores à crise em países como ­Brasil, Indonésia, Coreia e Tailândia. Na maioria dos casos, diz o estudo, o influxo de capitais de portfólio foi determinado pelos diferenciais de taxas de juro, crescimento rápido ou posições fiscais e de endividamento saudáveis, num ambiente global de maior apetite pelo risco. “Em sua maioria, os países adotaram medidas de vários tipos para obviar a valorização das taxas de câmbio. As medidas visaram conter os impactos dos movimentos de capitais de curto prazo sobre os mercados de ativos, ao mesmo tempo preservando o ingresso de capitais produtivos e resguardando a economia das súbitas reversões.” Nos anos 1990, tempos de glória da globalização financeira, a olímpica tranquilidade dos encantadores de serpente fundava-se nas convenientes falácias da liberalização das contas de capital do balanço de pagamentos. A economia brasileira, ensinavam por aqui, vai pegar no tranco, impulsionada pela entrada pródiga de capitais, aqueles que voavam nas asas da globalização. Os custos dessa aposta, qualquer um sabe, foram: 1. Perda significativa na liberdade de manejar a taxa de câmbio para conter a invasão das importações e impedir a perda de competitividade das exportações. 2. Rápida ampliação do déficit em conta corrente, derivada de um déficit comercial em expansão e de um passivo externo em processo de ampliação. 3. Crescente e perigosa dependência do financiamento forâneo, ou seja, submissão da política econômica e das metas de crescimento da economia aos humores (sic) dos mercados de capitais internacionalizados, que, como é notório, passam abruptamente da euforia à depressão. Na inesquecível década dos 90, entre tantas loucuras, os apologetas do capitalismo desbragado e seus ideólogos trataram de convencer a população e a si mesmos de que só eles sabiam das coisas, eram detentores do monopólio das boas ideias, aquelas capazes de salvar a humanidade de suas agruras. Como toda loucura, essa também tem método: os mandachuvas devem sempre simular que seu poder é fruto da inteligência. É preciso ocultar que só parecem inteligentes porque têm poder. Os sábios globais deram de ombros para as advertências dos críticos. Passada a euforia do dinheiro fácil, os chamados emergentes se afogaram na maré vazante dos capitais em fuga e na repetição dos ajustamentos assimétricos entre países de moeda forte e aqueles de moeda fraca. * Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de Carta Capital. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luiz Gonzaga Belluzzo*
ec6 Brasil

O fim do almoço grátis no Brasil

[caption id="attachment_68927" align="alignleft" width="236" caption="Chegou a hora dos bancos brasileiros descobrirem um jeito de lucrar com margens mais baixas e volumes maiores. Foto: Reprodução/Economist"][/caption] Bancos brasileiros terão de adaptar-se a margens de lucro menores e volumes maiores. A boa notícia é que há muita gordura para cortar antes de chegar ao osso. Em 10 de outubro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu pela décima vez consecutiva em pouco mais de um ano a taxa básica de juros, a Selic, de 7,5% para 7,25% – o menor patamar da série histórica iniciada em 1996. A medida surpreendeu analistas, uma vez que a taxa já havia atingido uma baixa recorde e a inflação estava acima do centro da meta do Copom de 2,5-6,5%. Nem o crescimento econômico – que deve terminar o ano em apenas 1,5% – nem a moeda – que tende a oscilar com a taxa, já que juros baixos atraem investidores estrangeiros em busca de retornos rápidos –, devem, em teoria, desempenhar um papel nas deliberações do Copom. Entretanto, a maioria dos analistas acredita que as decisões do Copom estão sendo tomadas com vistas a impulsionar o crescimento e enfraquecer a moeda, e que a menos que a inflação ameace romper a barreira de 6,5%, as taxas vão permanecer baixas durante algum tempo. Por enquanto, a moderada demanda global sinaliza que a inflação não deve sair do controle. Mas, no longo prazo, o governo terá de conter os gastos públicos e avançar com reformas difíceis se quiser que o Brasil cresça a um ritmo mais rápido do que 3-4% ao ano sem alimentar a inflação. Medidas recentes para cortar impostos sobre a folha de pagamento, limitar aumentos salariais no setor público, reduzir os custos de energia e melhorar uma infraestrutura de transporte lamentável deverão contribuir para aumentar o ritmo modesto do crescimento econômico. Essas medidas também convenceram muitos brasileiros de que a presidente Dilma Rousseff está disposta a fazer o que for preciso para impedir que o Banco Central seja obrigado a elevar novamente a Selic. Taxas de juros permanentemente mais baixas representariam a evolução econômica mais positiva no Brasil desde que a hiperinflação foi controlada há quase 20 anos, afirma Enestor dos Santos, do BBVA, um banco espanhol que atua no país. As empresas investiriam mais – e ao conseguirem retornos decentes, teriam mais capital livre para investir em projetos produtivos ao invés de deixar aplicadas suas verbas em títulos do governo, como fazem atualmente. Retornos ao credor Mas algumas indústrias devem se preparar para uma queda nos lucros. Quando os investidores perceberam que as empresas de energia elétrica teriam de aceitar retornos mais baixos a partir do início do próximo ano, ou não teriam suas concessões renovadas (as antigas começam a vencer a partir de 2015), os preços das ações despencaram. Masha Gordon, da PIMCO, uma gestora de fundos, elogia o governo por ter ignorado os interesses das empresas e posto um fim ao “almoço grátis” no Brasil. Concessionárias dos setores de infraestrutura e energia que fecharam negócio quando as taxas estavam muito mais elevadas foram enormemente beneficiadas quando elas caíram, aponta Gordon, fazendo com que alguns projetos de baixo risco tivessem retornos líquidos de aproximadamente 20%. Essas concessionárias não poderiam crer que isso fosse durar para sempre. Mas são os bancos que terão de fazer mais para adaptar-se à nova realidade de juros baixos no Brasil, diz Gordon. Suas margens de lucros vêm caindo há anos, na medida em que as taxas que os bancos cobram nos empréstimos caem em linha com a Selic e as possibilidades de reduzir as taxas que eles oferecem em empréstimos é reduzida. Isso tem reduzido boa parte de suas margens de lucro. A pressão para reduzir os lucros dos bancos também aumentou recentemente, com o governo pressionando os bancos a oferecerem taxas menores e mais rapidamente para seus clientes. Os dois grandes bancos controlados pelo Estado, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, reduziram suas taxas por ordem do governo. Os bancos privados tiveram de seguir o mesmo caminho sob ameaça de perder participação no mercado. De acordo com a Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), a taxa média paga pelos mutuários brasileiros em setembro ficou abaixo de 100% pela primeira vez. Taxas para empréstimos comerciais também atingiram uma baixa recorde de 48% ao ano. Margens de lucro X Volume de negócios Para os padrões brasileiros tais taxas podem até ser baixas, mas pelo padrões internacionais elas são de amargar. A maior razão, disse Sergio Furio do BankFacil, uma start-up que oferece informações sobre financiamento ao consumidor na internet, é a ineficiência dos bancos brasileiros. Apesar de suas receitas por funcionário estarem amplamente em linha com as de outras grandes economias, sua baixa produtividade é mascarada por preços muito mais elevados. Eles precisam do dobro de funcionários para gerar os mesmos volumes que bancos na Europa ou nos EUA, afirma Furio, mas ainda são rentáveis ​​porque as margens são duas ou três vezes maiores. “Os bancos brasileiros têm se agarrado ao último suspiro de taxas de juros ultrajantes”, disse Furio. Em vez disso, eles deveriam estar tentando se tornar mais eficientes e atrair clientes melhores. Empréstimos com juros muito altos tendem a afastar os tipos abastados que poderiam até pagá-los. Isso significa que os juros precisam ser ainda mais altos para cobrir frequentes casos de inadimplência. O BankFacil espera ganhar dinheiro quebrando este ciclo, indicando as instituições financeiras que cobram menos a seus clientes bem informados e disciplinados. As taxas de juros mais altas são aquelas de cartões de crédito, que no Brasil são usados ​​principalmente para comprar bens em parcelas sem juros. Varejistas oferecem planos de pagamentos autofinanciados em até 18 meses. Eles escondem seus próprios custos adicionais no preço dos produtos e só solicitam o pagamento do cliente ao emissor do cartão mês a mês. Os bancos ganham pouco dinheiro com essa prática peculiar dos varejistas, que representa 70% do total de empréstimos em cartões de crédito no Brasil. Só quando um titular não efetua o pagamento é que o emissor do cartão começa a cobrar juros. Mas as chances de inadimplência entre esses retardatários chega a 28%, ou seja, as taxas devem ser astronômicas se os bancos estão conseguindo lucrar alguma coisa. No mês passado, o Itaú Unibanco, o maior banco privado do Brasil, deixou claro que gostaria de colocar um fim a esta prática em seus cartões de crédito. Mas o governo teme que os consumidores brasileiros estejam tão acostumados a pagar tudo – de roupas a carros – em parcelas sem juros, que eles poderiam parar de gastar, cortando a nascente recuperação econômica pela raiz. Qualquer medida terá de ser gradual. A boa notícia é que os bancos brasileiros têm muita gordura para cortar antes de chegar ao osso. Eles também adquiriram muitos novos clientes durante a última década, lembra Franklin Santarelli, da Fitch Ratings, fato que deve oferecer recompensas durante o árduo próximo passo. Chegou a hora dos bancos brasileiros, como fazem aqueles em outros países, arrumarem uma forma de lucrar com margens mais baixas e volumes maiores. * Publicado originalmente na The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação da The Economist
ec4 Artigo

Economia mundial navega em um mar de dívidas

Um estudo da consultoria Mc Kinsey Global Institute mostrou que, em 2011, a dívida total do Japão –a maior do mundo desenvolvido – era de cerca de 512% de seu PIB (ou seja, de tudo o que sua economia produz em um ano. Em segundo lugar, estava o Reino Unido com 507%. Os Estados Unidos tinham “apenas” 279%. Para muitos economistas, esta gigantesca desproporção entre a riqueza anual de um país e sua dívida se explica por um mecanismo que nas últimas três décadas mudou a face do capitalismo: a financeirização. O artigo é de Marcelo Justo. Londres - A economia mundial navega em um mar de dívidas. Um colossal estudo comparativo da consultoria Mc Kinsey Global Institute mostrou que, em 2011, a dívida total do Japão –a maior do mundo desenvolvido – era de cerca de 512% de seu PIB (ou seja, de tudo o que sua economia produz em um ano. Em segundo lugar, estava o Reino Unido com 507%. Os Estados Unidos tinham “apenas” 279%. Esta dívida total é uma soma das dívidas estatal, estadual ou municipal, individual, hipotecária, corporativa, financeira e bancária. Com esses percentuais a impressão era de que a nave poderia naufragar a qualquer momento ou se despedaçar contra o muro do impagável. Muitos economistas opinam que esta gigantesca desproporção entre a riqueza anual de um país e sua dívida se explica por um mecanismo que nas últimas três décadas mudou a face do capitalismo atual: a financeirização. “A financeirização explica o crescimento do crédito na década de 2000 e as causas da crise atual. No centro da mesma está a crescente importância de atores e instituições financeiras na economia e das finanças como fonte de lucros”, disse à Carta Maior Adam Leaver, pesquisador e membro do Centro de Investigação da Mudança Sócio-Cultural, de Manchester. No capitalismo das últimas três décadas se produz uma explosão daquilo que, em inglês, é denominado pela sigla FIRE (Financiamento, seguro e setor imobiliário) que cresceu tanto em relação ao PIB como em detrimento da economia produtiva. Na América Latrina este FIRE se encontra potencializado pela falta de regulação e competição. Se tomamos como exemplo o recente balanço anual do banco espanhol Santander podemos que ver que Brasil e Chile garantem lucros infinitamente superiores aos de países desenvolvidos. “O Brasil, por exemplo, representa 15% dos ativos do Santander, ou seja, seus empréstimos para consumo, empresas, etc., representam cerca de 30% de seus rendimentos mundiais. Em países como o Reino Unido a relação é inversa. A falta de regulação e competição permite aos bancos obter lucros absurdamente altos”, disse à Carta Maior Gabriel Palma, catedrático de Economia comparada na Universidade de Cambridge. Dito de outro modo, os lucros não se devem a uma meritória competitividade da América Latina em termos de qualidade, serviço e eficiência, mas sim a falhas do sistema regulatório em que operam. A roleta A financeirização se dissemina por toda a economia reforçando o lucro de curto prazo e especulativo sobre o setor produtivo. As grandes corporações têm ramos financeiros que, com frequência, geram mais lucros do que aquilo que as empresas produzem e vendem. Nos Estados Unidos, a General Motors passou a ganhar mais com o fornecimento de créditos para a aquisição de automóveis do que com a venda mesma de veículos. “As empresas do setor real, produtivo, começam a se comportar como empresas financeiras. Isso é claro no caso da própria General Motors que tinha uma empresa de venda de hipotecas de casas. Alguém pode argumentar que emprestar dinheiro para que se compre automóveis esta de acordo com a lógica produtiva: ao ajudar o financiamento do cliente, ajudo a venda do automóvel que produzo. Mas, investir no mercado hipotecário, é outra coisa. Funciona como substituto de um investimento produtivo para obter um lucro de curto prazo. É um claro sinal de como a financeirização afeta o investimento e a mudança tecnológica”, indicou Gabriel Palma. Em nível individual, o símbolo mais cotidiano desta financeirização é o cartão de crédito que antes dos anos 80 era tratado com reverência de clube exclusivo e hoje se converteu em um meio de pagamento da vida diária. Mas a explosão do crédito vai muito além do cartão. No estouro financeiro de 2008, a gota que fez transbordar o copo de uma economia endividada até o último fio de cabelo foi o empréstimo hipotecário para famílias sem recursos: as chamadas hipotecas sub-prime de alto risco. Os estudos sobre o período do boom mostram que nos Estados Unidos as famílias passaram a gastar no pagamento de juros de cartões de crédito e empréstimos quase o dobro do que gastavam em comida e roupas. No Reino Unido, a dívida individual ou familiar chegou a ser 165% da receita disponível (renda que fica depois do pagamento de impostos). Segundo Paolo dos Santos, especialista bancário de SOAS, da Universidade de Londres, essa mudança veio junto com a retirada do Estado benfeitor como garantidor da saúde, educação, moradia e aposentadoria, que foi funcional para a expansão do sistema financeiro. “Nos últimos 30 anos, a política social em muitos países desenvolvidos se baseou na transferência do risco e do custo desses serviços sociais do Estado para o indivíduo. Este tem que recorrer ao sistema bancário para poder financiar a educação de seu filho ou seu seguro de saúde ou sua aposentadoria”, assinalou Dos Santos à BBC. Brasil na mira Um informe recente da Federação de Comércio de São Paulo mostra que a taxa de juro média paga pelos brasileiros é de 230% ano. O cálculo é que o serviço da dívida individual brasileira será de 30% da receita disponível este ano. Nos Estados Unidos, se considera que quando a dívida alcança 14% a situação é de alto risco. O Brasil não é um caso isolado, O Chile o segue de perto. No Peru, o crédito quadruplicou nos últimos cinco anos. No México, o nível de inadimplência no pagamento de microfinanciamento do consumo se situa entre 20 e 30%. A Argentina é um caso peculiar. A crise de 2001 e o brutal descrédito do sistema bancário teve um paradoxal efeito neutralizador desta financeirização que havia arrasado com a economia nos anos 90. Enquanto que, na América Latina, a média hoje de crédito fornecido pelo setor bancário em relação ao PIB é de 67%, na Argentina é de 29%. Em comparação, no Brasil esse índice é de 98%. No Chile é de 90% e no México de 45%. “O crédito azeita a economia, mas um excesso de dívida nas famílias se traduz em estancamento do consumo. Na América Latina o problema não é o montante da dívida, mas sim seu serviço pelas condições leoninas que muitas linhas de crédito apresentam. Esta financeirização tem um impacto no investimento. É mais negócio ganhar com um produto financeiro do que investir na economia real. Uma parte importante da elite industrial de São Paulo abandonou a produção pelas finanças”, disse Palma à Carta Maior. * Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Marcelo Justo*
ec3 Artigo

As ‘coisas indescritíveis’ do mundo do consumo

O historiador Eric J. Hobsbawn, que morreu no começo da semana passada, deixou livros em que caracterizou de forma contundente os tempos que estamos vivendo. "Quando as pessoas não têm mais eixos de futuros sociais acabam fazendo coisas indescritíveis", escreveu ele no ensaio Barbárie: Manual do Usuário. Ou, então, "aí está a essência da questão: resolver os problemas sem referências do passado". Por isso, certamente Hobsbawn não se espantaria com a notícia estampada no jornal O Estado de S. Paulo poucos dias antes de sua morte: Na Espanha, cadeados nas latas de lixo (27/9). "Com cada vez mais pessoas vivendo de restos, prefeitura (de Madri) tranca as latas como medida de saúde pública." Nada haveria a estranhar num país onde a taxa de desemprego está por volta de 25%, 22% das famílias vivem na pobreza e 600 mil não têm nenhuma renda. E que pensaria o historiador com a notícia (Estado, 26/9) de que as autoridades de Bulawato, no Zimbábue (África), "pediram aos cidadãos que sincronizem as descargas de seus vasos sanitários para poupar água. (...) Os moradores devem esvaziar os vasos apenas a cada três dias e em horários determinados"? Provavelmente Hobsbawn não se espantaria, informado das estatísticas da ONU segundo as quais 23% da população mundial (mais de 1,5 bilhão de pessoas) defeca ao ar livre por não ter instalações sanitárias em sua casa. As do Zimbábue ainda estão à frente. E da China que pensaria ele ao ler nos jornais (22/9) que a prefeitura de Xinjian, no leste do país, "está sob intensa crítica da opinião pública após enjaular dezenas de mendigos no mesmo lugar durante um festival religioso"? Ao lado da foto das jaulas nas ruas com mendigos encarcerados, a explicação de autoridades de que assim fizeram porque os pedintes assediavam peregrinos e corriam risco de ser atropelados ou pisoteados. Mas "entraram nas jaulas voluntariamente". Será para não correr riscos desse tipo que "quatro estrangeiros de origem ignorada" vivem há três meses no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, recusando-se a dizer sua nacionalidade e procedência (Folha de S.Paulo, 29/9)? "Em tempos de transformação", disse o psicanalista Leopold Nosek a Sonia Racy (Estado, 7/10), "quando o velho não existe mais e o novo ainda não se estruturou, criam-se os monstros". Para onde se caminhará? Na Europa, diz a Organização Internacional do Trabalho que, com todo o sul do continente em crise, o desemprego na faixa dos 15 aos 24 anos crescerá 22% em 2013, pouco menos no ano seguinte. Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego entre jovens está em 17,4%, talvez caia para 13,35% até 2017 (Agência Estado, 5/9). O desemprego médio nos 17 países da zona do euro subiu para 11,4%. Pulemos para o lado de cá. Um em cada cinco brasileiros entre 18 e 25 anos não trabalha nem estuda (Estado, 26/9). São 5,3 milhões de jovens. Computados também os que buscam trabalho, chega-se a 7,2 milhões. As mulheres são maioria. E o déficit ocorre embora o País tenha gerado 2,2 milhões de empregos formais em 2011. As estatísticas são alarmantes. A revista New Scientist (28/7) diz que 1% da população norte-americana controla 40% da riqueza. Já existem 1.226 bilionários no mundo. "Nós somos os 99%", diz o movimento de protesto Occupy. Entre suas estatísticas estão as que os relatórios do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) vêm publicando desde a década de 1990: pouco mais de 250 pessoas, com ativos superiores a US$ 1 bilhão cada, têm, juntas, mais do que o produto bruto conjunto dos 40 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas. Já a metade mais pobre da população mundial fica com 1% da renda global total. Menos de 20% da população mundial, concentrada nos países industrializados, consome 80% dos recursos totais. E 92 mil pessoas já acumulam em paraísos fiscais cerca de US$ 21 trilhões, afirma a Tax Justice Network. E que se fará, com a população mundial aumentando e os recursos naturais - inclusive terra para plantar alimentos - escasseando? É cada vez maior o número de economistas que já mencionam com frequência a "crise da finitude de recursos". Os preços médios de alimentos "devem dobrar até 2030, incluídos milho (mais 177%), trigo (mais 120% e arroz (107%)", alerta a ONG Oxfam (Instituto Carbono Brasil, 6/9). 775 milhões de jovens e adultos são analfabetos e não têm como aumentar a renda (Rádio ONU, 10/9). De volta outra vez ao nosso terreiro, vemos que "mais de 90% das cidades estão sem plano para o lixo" (Estado, 2/8). Na cidade de São Paulo, 90% do lixo reciclável vai para aterros sanitários (CicloVivo, 10/8). Diariamente 5,4 bilhões de litros de esgotos não tratados são descartados. Perto de metade dos domicílios não é ligada a redes de esgotos. A perda de água nas redes de distribuição (por furos, vazamentos, etc.) está por volta de 40% do total. Mas 23% das cidades racionam água, segundo o IBGE (Estado, 20/10/2011). E grande parte da água do Rio São Francisco que será transposta irá para localidades com essas perdas - antes de corrigi-las. E com o líquido custando muito mais caro, já que muita energia será necessária para elevá-lo aos pontos de destino. Enquanto isso, a campanha eleitoral correu morna em praticamente todo o País, com candidatos fazendo de conta que vivemos na terra da promissão, não precisamos de planos diretores rigorosos nas cidades, não precisamos responsabilizar quem mais consome - e mais gera resíduos -, não precisamos impedir a impermeabilização do solo das cidades nem impedir a ocupação de áreas de risco. "A sociedade de consumo", escreveu Hobsbawn, "interessa-se apenas pelo que pode comprar agora e no futuro". Mas terá de resolver o problema de 1 bilhão de idosos em dez anos (Fundo de População das Nações Unidas, 1.º/10). * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


por Washington Novaes*
ec22 Artigo

Sujeito vira objeto; objeto, sujeito

O consumismo neoliberal gera, hoje, uma proeza que deixa os filósofos mais encucados: o sujeito humano passa à condição de objeto e o objeto –a mercadoria– ocupa a condição de sujeito. O consumo já não é determinado pela necessidade. Depende, sobretudo, do sonho do consumidor de alcançar o status do produto. Isso mesmo: a mercadoria possui grife, status, agrega valor a quem a porta. Ao obtê-la, o consumidor se deixa possuir por ela. O valor que ela contém, criado pela mídia publicitária e pela moda, emana e impregna o consumidor. No universo consumista, se alguém deseja ser bem aceito entre seus pares, no círculo social que frequenta, precisa equipar-se com todos aqueles objetos de luxo que o revestem de uma auréola capaz de sinalizar socialmente o alto nível de seu status. Ai dele se não ostentar certas marcas de carro, relógio e roupa. Ai dele se não frequentar restaurantes seletos. Ai dele se não viajar em classe executiva para Nova York, Paris ou uma ilha do Pacifico apontada como o novo point. Caso o sujeito se recuse a ostentar a lista de objetos considerados requintados, ele corre o risco de ser excluído, deletado do círculo social que estabelece como código de identificação certo nível mínimo de padrão de consumo. Em suma, o sujeito passa a ser tratado como objeto. Duplo objeto: por se sujeitar à mercadoria e por ser rechaçado por seus pares. Porque no sistema consumista só é aceito quem transita despudoradamente no universo do luxo e do supérfluo. Esse processo de desumanização estimula a obsolescência das mercadorias. Agora se produz para atender, não a uma necessidade, mas a um sonho, um desejo, um anseio de alpinismo social. O produto adquirido hoje –carro, computador, ipad– estará obsoleto amanhã. Você pode até insistir em conservar o mesmo equipamento eletrônico, suficiente às suas necessidades atuais. Todos à sua volta constatarão o seu anacronismo. Você perdeu a identidade da tribo, que avança para a aquisição de mercadorias ainda mais sofisticadas, com design mais arrojado. O único modo de ser aceito na tribo é se revestindo dos mesmos objetos que, atuando como sujeitos, o resgatam do cinzento e medíocre universo do comum dos mortais. Essa inversão do sujeito humano tornado objeto e do objeto transformado em "humano” ou mesmo "divino”. Isso se dissemina através da publicidade – que não faz distinção de classes. O apelo é igual para todos. Tanto o biliardário em seu jato executivo quanto o jovem da favela semianalfabeto sofrem o mesmo impacto publicitário. A diferença é que o primeiro tem fácil acesso aos novos ícones do consumismo. O jovem absorve os ícones em seu embornal de desejos e reconhece o quanto ele é socialmente descartado e descartável por não se revestir de objetos que imprimem valor às pessoas. Daí a frustração e a revolta. A frustração pode ser compensada pela sadia inveja dos espectadores de brilho alheio: leitores de revistas de celebridades e internautas que navegam atraídos pelo canto da sereia de seus ídolos. A revolta leva ao crime - "não sou como eles, mas terei, a ferro e fogo, o que eles têm”. Haverá limites à obsolescência? Um dia a superprodução fará com que a oferta seja assustadoramente superior à demanda? Tudo indica que não. A indústria há tempos aprendeu que o consumidor é irracional, não se move por princípios, e sim por efeitos. É a emoção que o faz aproximar do balcão. Aprendeu também a fazer a produção acompanhar a concentração de renda. Já não se fabricam carros populares. Quem mais adquire veículos são as famílias que já possuem ao menos um. Agora na pós-modernidade, as pessoas já não se relacionam, se conectam. Os encontros não são reais, são virtuais. Já não se vive em sociedade, e sim em rede. Ninguém é excluído, e, sim, deletado. A intimidade cede lugar à extimidade, na expressão de Bauman. Faz desabar todos os muros da privacidade. A ponto de as pessoas se tornarem mercadorias vendáveis, vitrines ambulantes que esperam ser admiradas, desejadas, invejadas e cobiçadas. Daí o oneroso investimento em academias de ginástica, cosméticos, plásticas etc. Muitos buscam ansiosos ser objetos de desejo. Porque a sua autoestima depende do olhar alheio. E o mercado sabe muito bem manipular essa baixa autoestima. * Frei Betto é escritor, autor de Alfabetto – Autobiografia Escolar (Ática), entre outros –http://www.freibetto.org – twitter:@freibetto. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Frei Betto*
Novo modelo sueco difere do estereótipo esquerdista Reprodução/Internet) Mundo

O novo modelo econômico da Suécia

[caption id="attachment_68889" align="alignleft" width="341" caption="Novo modelo sueco difere do estereótipo esquerdista. Foto: Reprodução/Internet "][/caption] Um pouco mais desigual, muito mais eficiente. O país mais igualitário do mundo está se tornando um pouco mais desigual. O coeficiente de Gini para renda disponível é agora 0,24; ainda muito mais baixo que a média de 0,31 do mundo rico, mas cerca de 25% maior do que há uma geração. Este aumento tem causado bastante angústia em um país que tem uma autoimagem firmemente igualitária. Um grupo esquerdista gerou repercussão na mídia ao organizar um passeio de ônibus chamado de “safári de classe” em Saltsjöbaden e Fiksätra. Líderes da oposição insistem que que o partido de centro-direita que está no poder está transformando a Suécia nos EUA. Anders Borg, o ministros das finanças, discorda veementemente. Segundo ele a Suécia deixou de ser uma sociedade estagnada baseada em pensões para se tornar uma vibrante economia moderna com um aumento de desigualdade extraordinariamente baixo. Ele afirma que a experiência do país prova que dinamismo e igualitarismo não precisam estar em oposição. Os fatos confirmam as opiniões do ministro. A desregulação, disciplina orçamentária e uma extensa reforma do estado de bem-estar social desde a crise bancária da década de noventa transformaram o país. O novo modelo sueco é bastante diferente do estereótipo esquerdista. O capitalismo na Suécia não é inerentemente muito mais igualitário que em outros países. Antes das medidas do governo, o coeficiente de Gini para a população economicamente ativa é 0,37, número próximo à média da OECD e maior que o da Suíça. As disparidades de salários são menores que nos países anglo-saxões, graças a acordos centralizados entre sindicatos e empregadores que estabelecem salários mínimos em muitos setores. Os altos salários dos CEOs não aumentaram tão pronunciadamente como nos EUA. No entanto, a Suécia esteve na vanguarda em muitas das mudanças sociais que acirraram a desigualdade em outros países, tal como o declínio do casamento. A principal fonte de igualitarismo na Suécia (e nos outros países da Escandinávia) é a redistribuição estatal. Sob o antigo modelo de bem-estar social, as pessoas pagavam altos impostos e recebiam em trocas muitos serviços sociais e altas transferências. O nome modelo, grosso modo, manteve boa parte dos serviços, mas cortou os impostos e as transferências. Graças à desregulação, disciplina orçamentária e uma extensa reforma do estado de bem-estar social, a economia sueca foi transformada nas últimas duas décadas. No entanto seria ingênuo pensar que o modelo do país poderia ser reproduzido em outros lugares. Os cidadãos suecos são excepcionalmente comprometidos com a coesão social e estão dispostos a pagar por um Estado grande. * Publicado originalmente na The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação da The Economist

Página 24 de 101« Primeira...10...2223242526...304050...Última »
Para enviar sua dica ou opinião, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Dica/Opinião

agenda

dica de
sustentabilidade

anterior | próxima
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

imagem do dia

|
Para enviar sua imagem, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Arquivo

Observações

 
Imagem do dia

O governo escocês aprovou a construção da maior usina de energia a partir das ondas no mundo. O projeto faz parte do esforço do país em reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

Imgem do dia

Com a ajuda de um microscópio eletrônico, o artista japonês Susumu Nishinaga aprendeu a capturar detalhes peculiares de flores, invisíveis a olho nu. Foto: Divulgação

Imagem do dia

Novo guia sobre aves da Mata Atlântica é lançado no Brasil. O material apresenta 100 espécies de pássaros. Foto: Haroldo Palo Jr

Imagem do dia

Filhote de panda brinca com a mãe em centro de reprodução na China. Instituição de pesquisa de Chengdu tenta salvar espécie da extinção.

Imagem do dia

Falta de lixo em Oslo, Noruega, pode comprometer geração de eletricidade. Pouca produção de resíduos de outros países pode afetar usinas.

Imagem do dia

Derretimento de geleiras não-polares causa 30% da elevação do mar. Dado foi apresentado em estudo na revista ‘Science’.

Imagem do dia

Austrália quer proibir fertilização do oceano com sulfato de ferro. Método reduziria acidificação e combateria efeitos da mudança do clima.

sobras_comida-300x202

Já pensou em vender ou comprar sobras de comida através da internet? Esta é a ideia da plataforma virtual Shareyourmeal, uma forma interativa de combater o desperdício de alimentos. Saiba mais aqui.

Imagem do dia

CET de São Paulo abres inscrições para o curso “Pedalar com Segurança”. Saiba mais.

vazamento

Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.