Eurozona concede resgate de mais 44 bilhões à Grécia

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Eurozona concede resgate de mais 44 bilhões à Grécia


por Redação da Agência France Press


A Zona do Euro e o Fundo Monetário Internacional chegaram a um acordo sobre a dívida grega, admitindo um limite de 124% do PIB em 2020, segundo o comunicado oficial divulgado na segunda-feira 26, ao final da reunião dos ministros das Finanças do Eurogrupo em Bruxelas. [caption id="attachment_71694" align="alignleft" width="300" caption="O primeiro-ministro da Grécia, Antonis Samaras. Foto: Thierry Charlier"][/caption] Ficou acertado que a Grécia limitará sua dívida a 124% do PIB até 2020, acima dos 120% exigidos pelo FMI, o que exigirá uma redução de 40 bilhões de euros nos próximos oito anos. Os ministros reunidos em Bruxelas também acertaram o desbloqueio de 43,7 bilhões de euros de ajuda à Grécia, em quatro parcelas, a partir deste mês de dezembro e até março de 2013, revela o comunicado final. “O Eurogrupo concluiu que a presença dos elementos necessários nos procedimentos nacionais já permite o desbloqueio da próxima parcela do fundo de apoio à Grécia, que é de 43,7 bilhões de euros”. O grosso do dinheiro – mais de 34 bilhões de dólares – será entregue a Atenas ainda no mês de dezembro. Os menos de 10 bilhões de euros restantes sairão em “subparcelas” no primeiro trimestre de 2013, desde que a Grécia cumpra com a reforma fiscal prometida para janeiro, destaca o comunicado. O acordo prevê que em dezembro a Grécia receberá 10,6 bilhões de euros para financiar o Orçamento e 23,8 bilhões de euros para recapitalizar os bancos, totalizando 34,4 bilhões. As decisões foram adotadas após mais de 12 horas de discussões entre representantes da zona do euro, do FMI e do Banco Central Europeu, a troica de credores da Grécia. Os ministros da Eurozona concordaram em reduzir as taxas de juros dos empréstimos bilaterais já concedidos à Atenas dentro do primeiro programa de ajuda à Grécia e decidiram entregar a Atenas parte dos lucros obtidos pelos bancos centrais nacionais e pelo BCE sobre os bônus gregos que possuem. Certos países da Zona do Euro precisarão do aval do Parlamento para desbloquear a ajuda em dinheiro, como é o caso da Alemanha, que prevê uma decisão positiva até a próxima sexta-feira 30, segundo seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble. O Eurogrupo espera anunciar “oficialmente” a ajuda até o dia 13 de dezembro. “Saúdo a decisão adotada pelos ministros das Finanças, que sem dúvida reduzirá a incerteza e reforçará a confiança na Europa e na Grécia”, destacou o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, sobre a elevação do limite da dívida grega em 2020. Segundo a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, que também participou da reunião, “o Fundo queria assegurar que a zona do euro adotaria as medidas necessárias para colocar a Grécia no caminho de uma dívida viável, e posso dizer que hoje isto aconteceu”. “Foi trabalhoso, construtivo, e fizemos um esforço coletivo” para obter uma solução. O primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, festejou a decisão em Atenas afirmando que “todos os gregos unidos vão lutar (para cumprir a meta) e amanhã começa uma nova etapa para a Grécia”. Samaras destacou que comunicará a boa notícia aos dirigentes dos outros dois partidos da coalizão de governo, o chefe dos socialistas Evangélos Vénizélosm e da direita democrática, Fotis Kouvelis. * Publicado originalmente no site Carta Capital.

Foto: Jefferson Bernardes Brasil

Ninguém é dono da internet

A internet é um espaço público, como uma cidade, um parque, o meio ambiente que, apesar de ter surgido num contexto de guerra, tornou-se o que é hoje por impulso do que o ser humano tem de mais nobre: a criatividade, inteligência e vocação para socializar, tornando-a uma importante e decisiva manifestação cultural. [caption id="attachment_71690" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Jefferson Bernardes"][/caption] E este espaço ainda está em estado bruto, sujeito ao poder dos grupos econômicos que veem na internet uma oportunidade infinita de lucros, bem como ao poder dos governos autoritários que encaram este valioso palco para as mais diversas e livres manifestações dos pensamentos e comunicação uma ameaça aos seus domínios. É neste contexto que nasceu o projeto de lei (PL 2126/2011) do Marco Civil da Internet, resultado de um debate intenso contando com a participação significativa da sociedade iniciado em 2009 pelo Ministério da Justiça, que se deu por intermédio de dois processos de consulta pública, até chegar à Câmara, tendo como relator o deputado Alessandro Molon (PT-RJ). Pretende-se com o PL o estabelecimento de princípios, garantias, direitos e deveres, bem como a definição de diretrizes para atuação dos Poderes Públicos para a regulação do uso da internet no Brasil. O PL traz princípios fundamentais para a garantia de que a internet não será apropriada por interesses comerciais e que não servirá de instrumento para a discriminação social, o cerceamento da livre manifestação do pensamento e para o desrespeito à garantia da privacidade. Sendo assim, é fácil entender o motivo pelo qual as teles têm mobilizado esforços significativos para impedir a aprovação do projeto. E seus esforços têm sido bem sucedidos, especialmente porque encontram respaldo na atuação retrógrada e marcada pelo viés oligárquico que domina o Congresso Nacional. Foi assim que no último dia 20 de novembro, por uma manobra hábil do deputado Eduardo Cunha (PMDB), o deputado Arnaldo Farias de Sá (PTB) se prestou a apresentar requerimento de retirada do PL da pauta de votação pela quarta vez, acolhido pelo voto da maioria dos partidos, menos do PT, PSOL e PCdoB. O golpe no PL poderá ter sido decisivo, pois o presidente da Câmara, deputado Marco Maia (PT-RS), irritado com a manobra, anunciou que a partir daquele momento o projeto deixava de ser uma prioridade, o que significa um retrocesso. Corremos o risco de deixarmos de ter a “Constituição da Internet”, como se comentou na imprensa internacional noticiando que o Brasil perdeu a oportunidade de se tornar uma referência geopolítica no cenário da regulamentação dos direitos da internet. O objetivo das teles é levar a discussão do tema para a próxima reunião da União Internacional de Telecomunicações (UIT), que ocorrerá em Dubai a partir de 3 de dezembro. Os grandes grupos econômicos pretendem que na UIT – órgão marcado pela falta de transparência e sujeito às pressões dos poderosos – consigam definir orientações contrárias ao princípio da neutralidade das redes, de modo que as empresas fiquem autorizadas a discriminar o tráfego de pacotes de dados na internet, de acordo com o valor pago pelos consumidores. Traduzindo: quem pagar mais vai ter privilégio no tráfego. Outro ponto fulcral para as teles: ao contrário do que estabelece o projeto, querem ter o direito de guardar e usar as informações privadas daqueles que usam suas redes. Dezenas de entidades da sociedade civil, entre elas a PROTESTE – Associação de Consumidores – enviaram cartas a ANATEL – que representa nosso país na UIT – no sentido de deixar claros os interesses dos cidadãos brasileiros e as divergências com as pretensões das teles. Sabemos que elas hoje têm um poder de influência determinante na agência e seria lamentável ver o Brasil defendendo posição retrógrada quanto ao que foi recentemente reconhecido pelo Conselho dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas de que, assim como a liberdade de expressão na internet, o acesso às redes de telecomunicações também se constitui como direito humano fundamental a ser protegido por todos os países. No meio dessa forte disputa, saudamos a União Europeia que, identificando a manobra dos grupos econômicos, no último dia 23 de novembro divulgou uma carta de diretrizes afinadas com os princípios expressos no PL do Marco Civil da Internet, especialmente no que diz respeito à neutralidade das redes. Estamos, então, num momento crucial, pois, no fundo, o que as teles pretendem é exercer o poder de donas da internet; pretendem confundir infraestrutura com o espaço virtual criado a partir das redes de telecomunicações, sob o falacioso argumento de que não é justo que empresas de conteúdo como Google, Facebook, Netflix, entre outras , paguem pelo uso da internet o mesmo do que os pequenos consumidores. Ocorre que, se essas empresas ocupam muito as redes é porque nós consumidores demandamos muitas informações; é este o maior valor envolvido na questão. Quanto mais as empresas de conteúdo pagarem às teles, mais caros ficarão os valores dos serviços contratados com os consumidores, trazendo consequências indesejáveis para a universalização dos serviços ofertados na internet. A mobilização da sociedade civil neste momento é urgente e imprescindível; temos de ser eficientes para que o Congresso Nacional, especialmente a Câmara dos Deputados, atuem de acordo com os anseios legítimos de nós que os elegemos, apoiando e fortalecendo os parlamentares comprometidos com o interesse público e com a aprovação do Marco Civil da Internet. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Flávia Lefèvre*
ec6 Artigo

O movimento dos fazedores e o espírito do faça você mesmo

Criar, reproduzir e distribuir informação, cultura, arte e ciência são hoje atividades que os dispositivos da sociedade da informação em rede colocam nas mãos das pessoas. Um smartphone tem a potência computacional de todo o Programa Apollo de 1969 e nada menos que 20 milhões de brasileiros possuem um aparelho desses, que funciona em rede. Isso não quer dizer, é claro, que qualquer conjunto de garagem pode tornar-se Rolling Stones ou que basta postar seus escritos num blog para converter-se em Paulo Coelho. Mas, contrariamente ao que ocorreu de forma predominante desde o século 19, submeter seu talento aos que controlam os meios de produção da cultura, da informação e da ciência não é a condição para que a criação possa ver a luz do dia. Hoje as pessoas se informam em redes sociais, e a importância do You Tube no lançamento de novos artistas é crescente. No campo da ciência, as mais prestigiosas revistas brasileiras e internacionais abrem amplo acesso ao que fazem os pesquisadores, como mostra, por exemplo, o Scielo. As transformações que as mídias digitais trouxeram para o mundo da cultura, da informação e da ciência atingem agora a própria produção material. Ou, como diz o recém-lançado e indispensável livro de Chris Anderson -"Makers, The New Industrial Revolution"/New York, Crown Business), a revolução digital chegou à oficina. Isso abre caminho para que se altere o próprio sentido do empreendedorismo no mundo contemporâneo. É verdade que a concepção dos produtos industriais já é feita há quase duas décadas por meio de técnicas computadorizadas e isso vai da agricultura de precisão ao controle de materiais na construção civil. Mas, até aqui, trata-se de um mundo fechado, em que criar e colocar os produtos no mercado depende de investimentos tão poderosos que só podem ser viabilizados por produção massificada. A novidade anunciada por Chris Anderson vai além das inovações tecnológicas que o computador trouxe à era industrial e isso se exprime em três mudanças decisivas: a criação de bens materiais torna-se acessível a indivíduos; as mais promissoras inovações vêm de redes sociais; e o poder sobre o que é oferecido aos consumidores está cada vez menos nas mãos dos que detêm os grandes meios de produção e troca. A revolução das redes extrapola o mundo virtual e entra na produção material. Micro e pequenas empresas sempre foram, no mundo todo, fonte importante de geração de emprego e renda. A última pesquisa do Sebrae sobre o tema mostra que 27 milhões de adultos no Brasil vivem de pequenos e micro negócios. Mas, na maior parte das vezes, esses negócios confinam-se a setores de baixa produtividade, intensivos em trabalho e pouco expostos à concorrência internacional. Lavanderias, pequeno comércio, pizzarias e empresas de motoboy são talvez suas expressões mais emblemáticas. Essa associação entre empreendimentos de pequena escala e atraso tecnológico começa agora a ser superada. A primeira característica daquilo que Chris Anderson não hesita em chamar de nova revolução industrial é a possibilidade individual de conceber e fabricar com eficiência bens que até recentemente só podiam sair de grandes unidades fabris. Trinta anos atrás, ninguém podia imaginar a impressão de um livro fora de uma gráfica profissional. Hoje, as impressoras a laser e o manuseio das fontes, dos layouts de páginas e das técnicas de revisão, que eram detidas por profissionais especializados, estão banalizadas. Isso começa a ocorrer no mundo da produção material com dispositivos como as impressoras em três dimensões e as máquinas de corte a laser. Os preços desses aparelhos já se tornam acessíveis à aquisição individual e o que eles podem fazer de maneira competitiva vai-se diversificando. A revolução trazida por este barateamento está no fato de se borrarem as fronteiras entre o inventor e o empreendedor. Conceber algo não exige necessariamente submeter sua ideia a um empresário fabricante para que o invento possa se concretizar. O que ocorre no mundo da cultura, no universo dos bits, chega ao mundo da matéria, ao universo dos átomos. Tão importante quanto essa desconcentração dos meios de produção a que as mídias digitais virtualmente dão lugar é a unidade entre o computador e a internet, ou seja, o fato de que a criação e as inovações funcionam em rede. Até 30 anos atrás, a principal preocupação do inventor era patentear sua criação, o que lhe trazia custos imensos e benefícios duvidosos. Hoje, a primeira iniciativa do criador não é patentear e sim publicar, difundir. É daí (e não dos controles administrativos) que virá não só o reconhecimento do seu talento, mas a interação com base na qual ele poderá aprofundar sua aprendizagem e mesmo seus ganhos econômicos. Inovação em rede está na raiz de novas iniciativas de formação da mão-de-obra e seria fundamental que organizações como o Senais, o Sebrae o Ministério do Trabalho estudassem os FabLab (laboratórios de fabricação ou laboratórios fabulosos), que, muito mais do que formar trabalhadores para a indústria, ensinam os jovens a utilizar técnicas digitais e a operar em rede para participar deste extraordinário movimento social por muitos chamados de internet das coisas. A cidade de Shangai, por exemplo, está implantando uma centena desses laboratórios e já existem mais de mil deles pelo mundo afora, inspirados pelo mais importante centro universitário de inovação no mundo, o norte-americano MIT. Isso não significa, é claro, que a produção de massa vai simplesmente desaparecer. Mas da mesma forma que a internet aboliu a passividade do expectador e do ouvinte e fez da interação e da mistura (do Remix) a base da cultura contemporânea, essa nova revolução industrial pode fazer da colaboração social em rede o principal fundamento da criação de riqueza das sociedades atuais. * Ricardo Abramovay é professor titular da FEA e do IRI-USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, e autor deMuito Além da Economia Verde, lançado na Rio+20 pela Editora Planeta Sustentável. ** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/Folha de S.Paulo.


por Ricardo Abramovay*
ec5 Brasil

“Nova classe média”: preferências econômicas e políticas

Embora o adensamento das camadas intermediárias seja um fenômeno incontestável, a maior parte das pesquisas que captam essa mudança incorre em dois erros: há uma associação superficial entre renda individual e classe social e há uma relação inadequada entre renda média e estrato médio. Para compreender essas mudanças em sua inteireza é preciso empreender uma análise que incorpore outras variáveis. O artigo e de William Nozaki. Classe C e Nova Classe Média Em comparação com os últimos cinqüenta anos, o Brasil convive atualmente com uma experiência inédita na transformação de sua estrutura social. As políticas de elevação real do salário mínimo, de expansão da oferta de crédito e de ampliação dos programas de transferência de renda estimularam o crescimento do PIB com base no avanço do mercado interno e originaram um tripé socioeconômico virtuoso caracterizado pelo aumento do mercado formal de trabalho, pela redução da pobreza e pela melhora na distribuição de renda. Essa combinação de fatores tem como uma de suas principais conseqüências um fenômeno nem sempre analisado com o devido cuidado e rigor: o crescimento daquilo que se chama de modo inapropriado de “classe C” ou “nova classe média”. Embora o adensamento das camadas intermediárias seja um fenômeno incontestável, a maior parte das pesquisas que captam essa mudança incorre em dois erros: (i) Há uma associação superficial entre renda individual e classe social. O fato, por exemplo, de um trabalhador industrial qualificado e um professor universitário auferirem a mesma renda pode ser encarado como um indicador macroeconômico de redução da desigualdade. Mas, sociologicamente, diz muito pouco, ou quase nada, sobre seus estilos de vida distintos e seus hábitos de consumo diferentes. Tais ganhos, certamente, serão utilizados a partir de referências culturais e entre redes sociais que não garantem nenhum laço de pertencimento de classe, pelo contrário: o mais provável é que a realização do consumo revele status sociais ainda muito desiguais. Nesse sentido, há muitas diferenças entre o estilo de vida da classe média estabelecida e da chamada “nova classe média” que estão longe de ser transpostas. (ii) Há uma relação inadequada entre renda média e estrato médio. Na maior parte das vezes, os estudos que abordam o assunto referem-se à média em seu sentido algébrico, ou seja: média é a posição matemática daquilo que está igualmente distante dos pontos extremos. Como a distribuição de renda no país é historicamente severa, como há uma distância muito grande entre os muito ricos e os extremamente pobres, o agrupamento intermediário orbita numa vasta faixa de rendimentos que vai, aproximadamente, de R$ 1000 a R$ 5000. Essa zona de estratificação dilatada impede análises mais criteriosas. Sendo assim, as denominações “classe C” e “nova classe média” são infelizes, posto que transmitem a impressão de que o Brasil está se tornando aquilo que não é: um país em que os remediados são a maioria e no qual a pobreza vai tornando-se um problema residual. Para compreender essas mudanças em sua inteireza é preciso empreender uma análise que incorpore outras variáveis como estrutura ocupacional, acesso a mercadorias privadas e a serviços públicos, padrões de consumo, entre outros. Perfil e preferências econômicas: Sob essa perspectiva o que se evidencia é que o mais adequado é denominar o estrato que ascendeu socialmente e economicamente nos últimos anos de nova classe trabalhadora urbana. Do ponto de vista ocupacional, trata-se de vendedores, balconistas, motoristas, motoboys, profissionais de telemarketing, os diversos tipos de auxiliares que atuam em empresas e comércios, recepcionistas, cabelereiros, garçons e uma heterogeneidade de trabalhadores qualificados. Do ponto de vista da educação, seus integrantes na maioria são aqueles que utilizam as escolas públicas ou escolas particulares com mensalidades mais baixas; e do ponto de vista da saúde, são aqueles que necessitam dos hospitais públicos ou de planos de saúde mais baratos. Esse balanceio instável entre os serviços públicos e as possibilidades privadas mais “em conta” se reproduz em outras esferas: habitação, transporte, segurança, alimentação, cultura, lazer, entretenimento etc. Por esses motivos, ao contrário da classe média estabelecida que se queixa dos impostos inadvertidamente, a nova classe trabalhadora percebe com contrariedade o aumento de impostos, taxas e tarifas pois sua elevação lhe afeta mais diretamente o poder de compra, mas ela também reconhece a importância e a necessidade dos serviços públicos pois depende deles mais frequentemente. Essa nova classe trabalhadora, em grande medida, trabalha de 10 a 14 horas por dia, tem dois ou mais empregos, trabalha de dia enquanto estuda a noite, e nas grandes cidades enfrenta horas de transporte público enquanto se desloca entre a casa e o trabalho. Também por esses motivos, ao contrário da classe média tradicional que tudo atribui ao mérito individual, a nova classe trabalhadora percebe sua ascensão como fruto do esforço individual e de privações, mas sabe que precisa contar frequentemente com alguma rede de solidariedade e laços fraternos entre os amigos e os vizinhos. Mais do que outros estratos, esse grupo se beneficia da expansão do crédito ao consumidor e está satisfeito com a possibilidade de adquirir novos bens considerados indispensáveis para o conforto doméstico e para a melhora na qualidade de vida na cidade, esse grupo está disposto a encontrar sua sociabilidade pelos caminhos do consumo. Ideias e preferências políticas: Esse conjunto de ambigüidades leva a crer que a nova classe trabalhadora não necessariamente tem uma consciência conservadora. Pelo contrário, esse setor está potencialmente disponível e aberto a visões mais progressistas, seus valores e seu voto podem ser conquistados pela esquerda. Para compreender a relação entre as preferências econômicas e políticas dessa nova classe trabalhadora é fundamental considerar que o aumento do poder de compra possibilitou o acesso a novos canais de formação e informação, mais do que isso: tais canais têm sido ocupados, sobretudo, por um número significativo de jovens, é a partir desse grupo que se irradiam certas opiniões políticas e eleitorais. A progressiva ampliação do acesso à educação e à internet tem promovido uma importante mudança em suas exigências e interesses políticos. No atual contexto, o eixo da formação de opinião se deslocou dos pais ou de velhas lideranças locais (representantes comunitários, padres e pastores) para os filhos. A maior parte desses jovens tem níveis de escolaridade mais elevados do que os dos pais, estão conquistando uma melhor inserção profissional e seguem atentos para as mudanças tecnológicas, por isso eles são ouvidos com maior atenção dentro das suas famílias e comunidades, atuando como referências prioritárias para a formação de opinião, de forma mais incisiva do que as propagandas e a própria televisão. Os pais dessa nova geração enxergavam o mundo pela ótica da carência que marca a periferia, observavam os políticos considerando aquilo que não havia sido feito e permaneciam mais suscetíveis à promessas de campanhas eleitorais. Já essa nova geração, ao circular por novos espaços como a universidade e as redes sociais, enxerga o mundo por uma ótica mais ampla, dispõem de um maior número de referências para operar comparações, avaliam os políticos e os partidos considerando aquilo que deveria ter sido feito e nutrem maior desconfiança com relação a promessas de campanhas eleitorais. Vale ainda notar que, se, por um lado, eles não desejam o estilo de vida da elite, por outro lado, eles desejam continuar ascendendo socialmente. Essa disposição para a mudança, entretanto, passa por marcos ambivalentes: esses jovens acreditam na política, mas não crêem em partidos; reconhecem a importância da coletividade, mas almejam crescer individualmente; buscam transformações, mas são pouco afeitos a rupturas; anseiam por novas idéias, mas são também pragmáticos. Em suma, esse novo caldo cultural exigirá renovações tanto na forma como se realiza a política partidária quanto no conteúdo das políticas públicas que se implementam. A mistura entre valores do liberalismo, do individualismo, da ascensão pelo trabalho e do sucesso pelo mérito, com valores mais solidários e coletivistas relacionadas à atuação do Estado, à universalização de direitos, à ampliação da inclusão social, permeiam a visão de mundo e o imaginário dessa nova classe trabalhadora. A nova classe trabalhadora entendida como um novo sujeito político pode fazer toda a diferença nos embates sociais, políticos, ideológicos e eleitorais que serão travados de agora em diante. * William Nozaki é Sociólogo e Economista, professor da Universidade Mackenzie e doutorando em desenvolvimento econômico (IE/Unicamp). ** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por William Nozaki*
ok Artigo

Os monstros de nosso tempo

Lisboa, Portugal, novembro/2012 – A União Europeia (UE) vive uma das situações mais difíceis desde sua criação, em 1957, com a assinatura do Tratado de Roma. A economia especulativa, engendrada pelo neoliberalismo, exerce o controle da política por meio dos monstros sagrados de nosso tempo: os mercados. Em função dos interesses do momento, os mercados obrigam os Estados a se submeterem à sua vontade, por meio dos conglomerados financeiros que os controlam, com a ajuda das agências qualificadoras de risco (rating agencies). Estas agências emitem julgamentos sobre a solvência dos Estados e das empresas, não em função de avaliações objetivas, mas de acordo com os interesses variáveis de seus principais clientes, precisamente os senhores das finanças. A intolerável dependência da política em relação à especulação financeira e não à relação contrária, como foi no passado, bem como a aliança entre certos líderes políticos e determinados capitalistas, e o consequente declínio dos valores éticos, desembocaram na crise global que paralisa a União Europeia, está levando seus países-membros à ruína e faz temer que o bloco possa se desintegrar. Esta situação aflige todos os Estados-membros da UE, embora em graus diferentes, e em particular os países da zona do euro. No entanto, também a Grã-Bretanha, que não aderiu ao euro, enfrenta um quadro econômico de extrema gravidade. Portanto, compreende-se que esta involução esteja afastando, cada dia mais, os povos de seus respectivos líderes. Como superar esta crise, múltipla e global que, embora golpeie em particular a Europa, também afeta outras nações ocidentais? Creio que só há uma saída, como consequência do evidente fracasso da ideologia neoliberal: a mudança do modelo de desenvolvimento econômico e a criação de um novo paradigma. É curioso comprovar a aceleração das mudanças em nossos tempos. Em apenas 20 anos, assistimos ao declínio das duas grandes ideologias contrárias que marcaram o século 20: comunismo e neoliberalismo. Para que seja possível emergir o novo paradigma, deve acontecer uma revolução, que espero seja pacífica, que restabeleça a primazia da política sobre a economia e a vigência de valores éticos rígidos. No plano econômico, devem ser restaurados as regras e o controle sobre os mercados e eliminados os paraísos fiscais, as economias virtuais, as agências qualificadoras de risco e todas as modalidades que facilitaram a hegemonia do capitalismo especulativo e nos arrastaram à crise atual. Uma premissa é o aprofundamento da democracia em nossos países. Devemos ser mais liberais, não no sentido econômico, mas no político e também no social, pois estes são valores fundamentais da identidade errônea. A inversão do ideário liberal é um dos equívocos fomentados pelo neoliberalismo. Outro conceito que deve ser esclarecido é o da identidade política. Tradicionalmente, e até os nossos dias, as duas grandes correntes ideológico-partidárias do velho continente são a democracia cristã e o socialismo democrático. Entretanto, embora continuem se chamando socialistas ou democratas-cristãos, a grande maioria dos governantes dos países europeus é ultraconservadora. Na verdade, hoje escasseiam os políticos que podem ser considerados autênticos socialistas ou democratas-cristãos. Do meu ponto de vista, isto é o que explica que os líderes europeus, quando participam de reuniões de cúpula da UE, não tenham coragem nem a vontade política de modificar o modelo econômico. A reforma do modelo, mesmo parcial, implicaria necessariamente afetar certos interesses e fazer perigar a conivência malsã entre a política e os negócios, que está ligada ao financiamento dos partidos políticos. A consequência desta trama de interesses é a paralisia das instituições europeias e dos Estados-membros da UE. Estamos, portanto, em uma encruzilhada. Ou a União Europeia executa as reformas que agora requer e voltamos a ser um farol de esperança em um mundo cada vez mais interdependente e que reclama uma nova ordem, ou, tal como adverte uma análise do comitê de sábios presidido por Felipe González, nos encaminharemos para uma triste e inevitável decadência. Envolverde/IPS * Mário Soares é ex-presidente e ex-primeiro-ministro de Portugal.  


por Mário Soares*
O Fundo Verde para o Clima está vazio: apresentação da Oxfam na abertura da COP 18. Foto: Cortesia de Oxfam Inter Press Service - Reportagens

Maus presságios em Doha

[caption id="attachment_71649" align="alignleft" width="300" caption="O Fundo Verde para o Clima está vazio: apresentação da Oxfam na abertura da COP 18. Foto: Cortesia de Oxfam"][/caption] Doha, Catar, 27/11/2012 – Os eventos climáticos extremos, incluindo inundações e secas, se intensificaram por causa do aquecimento global e provocaram prejuízos de milhares de milhões de dólares este ano. Mas o que está por vir é muito pior. O alerta é do Banco Mundial, da Agência Internacional da Energia e, inclusive, da grande companhia de serviços profissionais PricewaterhouseCoopers International Limited (PwC), apresentado em relatórios separados sobre as consequências de não se fazer drásticas reduções nas emissões de dióxido de carbono. Esses estudos exortaram todos os países que participam da 18ª Conferência das Partes (COP 18) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que começou ontem em Doha, no Catar, a acordarem maiores reduções dos gases-estufa. Entretanto, “os Estados Unidos não preveem aumentar suas metas de redução de emissões além do que já foi acordado”, adiantou o chefe da delegação desse país na COP 18, Jonathan Pershing. “Já estamos fazendo enormes esforços com urgência singular”, disse em entrevista coletiva concedida ontem. Washington prometeu redução de 3% em suas emissões até 2020 em relação aos níveis de 1990. Pershing assegurou que seu país caminha para alcançar essa meta. Entretanto, cientistas coincidem em afirmar que as reduções dos Estados Unidos precisam ser muito maiores se a intenção é evitar que as temperaturas do planeta aumentem além de dois graus, o que desataria catástrofes climáticas ainda maiores. Um novo estudo realizado pelo cientista Kevin Anderson, do Centro Tyndall para a Pesquisa em Mudança Climática, da Grã-Bretanha, sugere que o Norte industrializado deveria fazer reduções de 70% até 2020, e a maioria dos demais países deveria realizar cortes semelhantes uma década depois. O Catar, país rico em petróleo, é o polêmico anfitrião desta conferência, com duração de duas semanas. Este pequeno país do Golfo apresenta a maior pegada de carbono do mundo por pessoa, sobretudo devido às suas enormes indústrias de gás e petróleo. Com menos de 2,5 milhões de habitantes, também é um dos países mais ricos do planeta. “Não concordo em contabilizar o carbono por habitante. O que importa é quanto gera cada país”, disse o presidente da COP 18, o catariano Abdalá bin Hamad Al Attiyah, que terá a difícil tarefa de liderar uma complexa série de negociações sob a Convenção Marco entre os 194 Estados-partes. Attiyah destacou que seu país conta com uma estratégia de redução de emissões, e que fez, e continuará fazendo, importantes investimentos contra o aquecimento global. “Estamos investindo muito dinheiro. Acreditamos que alcançaremos a meta mais alta, em comparação com outros países”, disse Attiyah, destacando que, como exportador de gás natural, o Catar ajuda outras nações a usar fontes de energia menos contaminantes do que o petróleo e o carvão. O Catar e o presidente da COP 18 terão que demonstrar sua capacidade de liderança, disse Wael Hmaidan, diretor da CAN International, rede global de mais de 700 organizações não governamentais. “Esta semana o presidente terá que mostrar ao mundo que se leva a sério a mudança climática. A melhor maneira de fazer isto é prometer uma meta de redução de emissões até 2020”, ressaltou Hmaidan. “Doha deve ter resultados”, disse à IPS a secretária executiva da Convenção Marco, Christiana Figueres. As negociações em Doha serão mais complexas do que nunca, acrescentou, lembrando que as delegações têm três objetivos primordiais. O primeiro é conseguir um acordo de metas de redução de emissões de gases-estufa até 2020, tendo como marco o Protocolo de Kyoto. “As nações industrializadas devem assumir a liderança nisto”, afirmou em entrevista coletiva. O segundo é preparar o terreno para um novo tratado climático mundial pós-2020, que necessariamente deverá obrigar a uma rápida redução do uso de combustíveis fósseis para criar uma sociedade mundial baixa em carbono. O terceiro é assegurar assistência técnica e financeira para ajudar os países do Sul em desenvolvimento a reduzirem suas emissões de carbono e se adaptarem aos impactos da mudança climática, como secas, inundações e perda de produtividade agrícola. Há três anos, na COP 15, em Copenhague, o Norte industrializado se comprometeu a repassar US$ 100 bilhões anuais ao Sul em desenvolvimento até 2020, uma vez que adotou um programa de financiamento rápido, no valor de US$ 30 bilhões entre 2010 e 2012. Embora os fundos rápidos já tenham sido entregues, apenas 33% podem ser considerados novos, segundo a Oxfam International. O restante do dinheiro já estava prometido antes da conferência na capital dinamarquesa. Além disso, somente 43% foram entregues como subvenções. A maioria chegou na forma de créditos que os países em desenvolvimento terão que devolver com diferentes taxas de juros, afirma a Oxfam em seu informe The Looming Climate Fiscal Cliff (O Iminente Precipício Fiscal Climático). Para 2013, não há dinheiro. Espera-se que em Doha os países comprometam mais financiamento por intermédio do Fundo Verde para o Clima, que terá sede na Coreia do Sul. “Se os líderes chegarem a Doha sem mais dinheiro, o Fundo Verde para o Clima poderá correr o risco de passar a ser uma casca vazia”, alertou o assessor da Oxfam em políticas sobre mudança climática, Tim Gore. “Os países em desenvolvimento se dirigem para um precipício fiscal climático sem nenhuma certeza de como receberão apoio para se adaptarem aos riscos da mudança climática, enquanto o Fundo ficará vazio pelo terceiro ano consecutivo”, acrescentou Gore em um comunicado. Envolverde/IPS


por Stephen Leahy, da IPS
e666 Entrevista

Nova corrida pelo ouro

“A estrutura a ser criada no novo Marco Legal da mineração é exatamente similar ao da energia elétrica, só mudam as siglas”, constata a educadora ambiental Telma Monteiro. “O mesmo Estado que criou áreas de proteção para preservar os biomas demarcou terras indígenas, discutiu por anos a fio o novo Código Florestal, e agora está criando um monstro na forma de um novo Marco Legal da mineração que vai afetar justamente essas mesmas áreas especiais, explorando seus recursos minerais”. A declaração é de Telma Monteiro, ao criticar a proposta de um novo Código da Mineração. Para ela, a elaboração de um novo código para o setor causa a impressão de que “o Estado, que não tem (ainda) o poder de anular as leis já existentes ou de extingui-las, opta por criar novas leis que, na prática, acabam anulando as que se opõem aos seus projetos de poder”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Telma diz que a maior parte dos projetos de mineração está na Amazônia Legal, em unidades de conservação e em terras indígenas. Segundo ela, o atual Marco Legal da área impossibilita validar a mineração em determinadas áreas. Por isso, “foi preciso, então, aproveitando a tramitação do PL 1610/96, começar atrair investidores com uma possível viabilização, em paralelo do novo Marco Legal da mineração brasileira”. E acrescenta: “É uma operação casada, na verdade, um tripé que vai permitir que o governo passe a leiloar, como na energia elétrica, o direito de exploração mineral”. Telma Monteiro é especialista em análise de processos de licenciamento ambiental e coordenadora de Energia e Infraestrutura Amazônia da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé. Confira a entrevista. IHU On-Line – Que fatores motivam a alteração no Código da Mineração? Em que consiste e como avalia a proposta de um novo marco regulatório para o setor? Telma Monteiro (foto) – Segundo o governo, burocracia e “fraqueza” do poder concedente foram diagnosticadas como os principais problemas do setor de mineração. Em meu entender, isso significa que o Estado se sente inseguro e, como não dizer, pouco soberano com o estado da arte da mineração brasileira. Quando se olha o mapa do Brasil, em especial o da Amazônia Legal, com a sobreposição dos processos minerários, nota-se que a maior parte desses processos está localizada em unidades de conservação e em terras indígenas. Ora, com o atual Marco Legal é praticamente impossível viabilizar a mineração em áreas especiais e não há investidor disposto a bancar o risco. Então, aproveitando a tramitação do Projeto de Lei n. 1610/96, foi preciso começar atrair investidores com uma possível viabilização, paralelamente ao novo Marco Legal da mineração brasileira. É uma operação casada, na verdade trata-se de um tripé que vai permitir que o governo passe a leiloar, como na energia elétrica, o direito de exploração mineral: Plano Nacional de Mineração 2030 que foi lançado em 2011, o Marco Legal que também começou a ser discutido em 2011 e o Projeto de Lei n. 1610/96, que passou a ter uma visibilidade maior também em 2011. É muito importante ressaltar que o Congresso pretende votar o mais rápido possível, este ano ainda, o Código da Mineração. A estrutura a ser criada no novo Marco Legal da mineração é exatamente similar ao da energia elétrica, só mudam as siglas. O Ministério de Minas e Energia vai ter o poder total sobre a exploração dos recursos minerários no Brasil. É uma concentração de poder num único ministério, sem precedentes na história. IHU On-Line – Como você avalia o Projeto de Lei n. 1610, que regulamenta a exploração de minérios em terra indígena? Telma Monteiro – Uma comissão especial da Câmara dos Deputados está funcionando para dar um parecer sobre o PL 1610/96 de autoria do senador Romero Jucá (PMDB/RR). Eu não acredito no objetivo de fazer uma legislação moderna sobre mineração, voltada para a realidade brasileira, sem consultar os principais interessados no assunto: os indígenas. A presidente Dilma quer acelerar o processo, pois o Projeto de Lei já foi aprovado pelo Senado e agora tramita na Câmara dos Deputados. Há um entendimento do Ministério Público e das lideranças indígenas no sentido de que a matéria seja vinculada ao Estatuto dos Povos Indígenas que tramita com dificuldade no Congresso. Porém, a própria comissão especial já sinalizou que não seria possível. A principal preocupação com relação ao PL 1610/96 é quanto ao poder de veto da comunidade. Embora se fale em oitivas conforme determina a Constituição Federal, a decisão não seria vinculante. Isso seria o mesmo que aprovar a exploração mineral e terra indígena antecipadamente. A oitiva funcionaria como uma praxe para apenas legitimar. IHU On-Line – Quais as implicações da mineração para os índios Yanomami? Telma Monteiro – Se for aprovada no Congresso a lei que prevê a regulamentação da mineração em terras indígenas, todos os indígenas do Brasil serão afetados, não apenas os Yanomami. IHU On-Line – Como os índios Yanomami se manifestam diante da mineração em suas terras? Há divergência de opiniões? Telma Monteiro – Os Yanomami são contra a mineração em suas terras, pois acreditam que isso vai lhes trazer problemas, prejuízos à saúde e dificuldades de relacionamento entre eles. Estão preocupados com a degradação ambiental que a mineração causa e como isso afetaria sua sobrevivência. Ainda não há divergências entre eles. IHU On-Line – Você declarou recentemente que 80% da terra dos índios Yanomami estão destinadas às empresas mineradoras que apenas aguardam a regulamentação para extrair minério dessas terras. Quais são as empresas envolvidas nesse processo? Telma Monteiro – Posso citar inúmeras empresas envolvidas com processos minerários no Departamento Nacional de Produção Mineral – DNPM, em terra Yanomami. Algumas delas têm dezenas de processos, mas o interessante é que não são conhecidas e na internet só consta ocasionalmente um endereço físico. Tenho a impressão que são apenas empresas formadas com o propósito específico de assegurar para o futuro a “posse” de um naco do território quando for aprovada a mineração em terras indígenas. Imagino também que esses processos serão repassados a empresas maiores como aconteceu no caso da mineradora canadense Belo Sun Minig, no Xingu, que adquiriu parte dos direitos minerários de titulares brasileiros. Eis os nomes de algumas empresas que têm números expressivos de processos, todos na Terra Indígena Yanomami: Mineração Amazônia Ltda., BR Mineração Ltda., Eldorado Norte Empresa de Mineração Ltda., C.R. Almeida Engenharia e Construções (essa é conhecida); Brasil Lithium Comércio e Indústria de Minérios Ltda., Mineração Guararema Ltda., Mineração Montes Roraima Ltda., Mineração Novo Astro S.A., que pertence ou pertenceu a Eike Batista. É interessante também notar que cada empresa tem interesses em várias substâncias, tais como: ouro, cobre, nióbio, estanho, chumbo, manganês, cassiterita, berílio, alumínio, platina, prata, tântalo, lítio, césio, tungstênio, zinco, tantalita. Quando se vê o mapa da terra indígena Yanomami sobreposta com os processos minerários dá para se ter uma ideia da tragédia que seria caso liberassem a mineração em terras indígenas. A maior parte do território está quadriculada. IHU On-Line – Quais são as maiores contradições do Estado brasileiro em relação à mineração e à exploração dos recursos minerais? Telma Monteiro – A maior contradição é que o mesmo Estado que criou áreas de proteção para preservar os biomas demarcou terras indígenas, discutiu por anos a fio o novo Código Florestal, e agora está criando um monstro na forma de um novo Marco Legal da mineração que vai afetar justamente essas mesmas áreas especiais, explorando seus recursos minerais. A impressão que fica é que, à medida que o Estado, que não tem (ainda) o poder de anular as leis já existentes ou de extingui-las, opta por criar novas leis que, na prática, acabam anulando as que se opõem aos seus projetos de poder. O Estado tem obrigação de cumprir a lei que, se existe, é graças à aspiração da sociedade. O Estado não pode contornar o cumprimento da lei para satisfazer interesses setoriais, criando outra lei. IHU On-Line – Nos últimos dias a imprensa tem divulgado notícias sobre a “corrida do ouro” no Pará, e da possível atuação da Belo Sun Mining na região. Como avalia a atuação internacional no território brasileiro? O que essa “corrida pelo ouro” significa e quais as implicações disso para o Brasil? Telma Monteiro – É muito estranho a gente achar alguns sites de grandes empresas internacionais de mineração com chamadas para os investimentos em minas de ouro no Brasil. Empresas como Eldorado Gold, Belo Sun Mining, Brazilian Gold e International Goldfields estão disputando palmo a palmo concessões na região do rio Tapajós, no rio Teles Pires e no rio Juruena ondes serão construídas ao todo mais de 20 hidrelétricas e outro tanto de PCHs. Na região do Teles Pires-MT, Província Mineral de Alta Floresta, a australiana International Goldfields adquiriu, em 2011, 90 % dos direitos minerários de uma área de 3,250 km². Enfim, parece que estamos tendo mesmo uma nova “corrida pelo ouro” no Brasil. As implicações só conheceremos, espero que não, se forem aprovados os projetos do governo para minerar em terras indígenas e unidades de conservação. Até lá a sociedade deve ficar atenta. * Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
e5 Artigo

A hora de rever os incentivos aos automóveis

É hora de rever a política de incentivos à indústria automobilística. Não se pode continuar andando pelo mar dos incentivos sem uma bússola para se orientar. O Ministério da Fazenda está se baseando em uma análise superficial sobre os ganhos para a economia com a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para automóveis. Compara-se a venda esperada com a nova venda, estimulada, e considera-se o diferencial como ganho. Não é assim. *** Entenda, primeiro, o que se considera engano na avaliação das perdas fiscais com a isenção. Muitos analistas calculam a perda fiscal total como produto do total de veículos vendidos pelo imposto que deveria ter sido recolhido. Técnico do governo sustentam que a conta é incorreta porque, não fosse a isenção, seria muito menor a quantidade de veículos vendida. *** Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. A redução temporária do IPI tem efeito apenas de antecipação pontual de compra de veículos. No momento seguinte ao do fim da isenção, há uma queda nas vendas justamente devido ao efeito-antecipação. No máximo, o ganho líquido estimado seria o da redução do prazo de troca do veículo. Ou seja, em vez de esperar 4 anos para trocar o veículo, o consumidor troca em 3 anos. Mas esse ganho ocorre apenas uma vez – durante o período de isenção. Depois não se repete mais, a não ser por outros fatores – como a melhoria de renda – que nada tem a ver com a isenção fiscal. *** Não apenas isso. No orçamento dos consumidores o automóvel compete com grande variedade de itens, de bens de consumo durável ao lazer. O dinheiro despendido em um automóvel novo foi desviado da compra de uma geladeira, de um computador, de uma moto, da renovação do guarda-roupas, bens de consumo que recolhem impostos. Privilegiando exclusivamente o setor automobilístico, a Fazenda compromete a isonomia fiscal, ampliando as vendas de um setor em detrimento de todos os demais. *** Nos anos 90, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo apresentou sugestões muito mais criativas, de estímulos à troca de veículos antigos por novos (reduzindo a poluição), de programas para a renovação de frotas etc. *** No modelo atual, sem maiores contrapartidas, não estão claros os ganhos da economia. Pode-se alegar que, ao estimular a venda de automóveis, o governo movimentou a cadeia produtiva, impedindo uma queda maior do PIB e, consequentemente, uma queda maior na arrecadação. Mas não há dados comprovando esses ganhos, seja pelo efeito-substituição no próprio setor, seja pela competição com a venda de outros produtos. *** Há que se repensar também o novo acordo automotivo. O governo condicionou benefícios fiscais a um conjunto de exigências, um PPB (Processo Produtivo Básico) mais consistente – isto é, com mais etapas de produção no país -, o aumento das compras internas de autopeças e ganhos de eficiência. É bom, mas é pouco, especialmente levando-se em conta o potencial do mercado brasileiro, em um mundoem crise. Oque o Brasil pretende ser no futuro? Qual o nicho de mercado que pretende ocupar? Como tornar as inovações desenvolvidas por aqui ativos nacionais e não apenas das montadoras? Está faltando um choque de capitalismo chinês no governo. * Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luis Nassif*
“A vida de criança no campo é boa”, diz Valmir, em sua plantação de alface. Foto: Gabriela Vasconcellos Economia

Uma nova classe rural

Eles são filhos do campo. Começaram a lavrar a terra quando ainda não diferenciavam a roça de seus brinquedos. Conhecimento antigo carregado por gerações, o trato da lavoura fez parte dos primeiros passos dos jovens estudantes da Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves, escola de ensino médio e técnico mantida há dez anos pela Cooperativa de Produtores Rurais locais, a Coopatan, pela Fundação Odebrecht e por empresas parceiras, no município do Baixo Sul da Bahia. [caption id="attachment_71093" align="alignleft" width="300" caption="“A vida de criança no campo é boa”, diz Valmir, em sua plantação de alface. Foto: Gabriela Vasconcellos"][/caption] “A vida de criança no campo é boa”, diz Valmir Santos Miranda, 19 anos, a lembrar da infância em contato com a terra, das brincadeiras. “Até abrir a cabeça para o que o mundo é mesmo”, conclui o moço de fala pausada, quase didática, que sabe o que é vir de uma família de sete irmãos e parcos recursos. Com a idade, vem a consciência da miséria, e a falta de perspectiva empurra muitos jovens para a vida urbana. A cidade de Presidente Tancredo Neves é paradisíaca em sua natureza, mas impiedosa com a maioria de seus 23 mil habitantes. A pobreza na região de economia agrícola contrasta a natureza e serviços desfrutados pelos turistas com o cotidiano duro da população, onde até 70% das famílias de agricultores dependem do programa federal Bolsa Família. Foi no projeto de ensino de alternância da Casa Familiar, onde os alunos ficam uma semana na escola e duas em casa, que jovens tancredenses encontraram os primeiros matizes para esboçar uma nova realidade de enraizamento em suas terras. Eles não querem ser empregados, nem ir para a cidade. Buscam nos conhecimentos técnicos a estrutura que seus pais não tiveram para conseguir uma vida digna no campo. É o sonho de ser uma classe média rural. “Eu não gosto da cidade, o ar me sufoca”, diz Valmir, sem saudades das poucas visitas à capital Salvador. Trabalhador do campo desde os oito anos, hoje cursa o primeiro ano do ensino médio com técnico em agropecuária na Casa Familiar. Nos dias passados na escola, a rotina é apertada. As aulas começam às sete da manhã e vão até às dez da noite, numa grade que integra as disciplinas comuns com os ensinamentos de técnicas agrícolas. Há intervalos apenas para almoço e para uma pausa no fim da tarde. Uma horta orgânica em forma de mandala, com um galinheiro ao centro, ocupa uma área na entrada da propriedade da família de Valmir. A iniciativa, desenvolvida no período de alternância, é incentivada pela Embrapa e pela Fundação Banco do Brasil. “É tudo com adubo orgânico, não vai química nenhuma.” As hortaliças fartas e as alfaces de verde vivo exibem o sucesso da empreitada que provou aos mais antigos que o controle de pragas pode trazer melhores resultados sem os fertilizantes químicos. “Eu não gosto da cidade, o ar me sufoca”, diz Valmir. Foto: Gabriela Vasconcellos Para aplicar o que aprendem na escola, muitas vezes é preciso “bater de testa com os pais”, contam alguns alunos na gíria local. Diante da tradição carregada pela família no trabalho da roça, os alunos pedem passagem para as novas técnicas. Reservam para si uma parte da lavoura para usar o que aprenderam na escola e, ao longo do tempo, comparam resultados com a área plantada pelos pais. “Não adianta falar que o jeito que meu pai sempre fez é errado, é preciso mostrar na prática o que dá maior rendimento”, diz o aluno Ednaldo, da turma de Valmir. Essas crianças amadurecidas cedo na lida têm o olhar duro, calejado. A capacitação técnica dos 150 jovens já formados na casa familiar, e dos mais 100 em formação, os tornou referência local. Um laboratório instalado na casa familiar realiza análise de solo para agricultores da região, indicando o tratamento adequado por 25 reais. Não raro os alunos são abordados por vizinhos para tirar dúvidas sobre o manejo das lavouras. Quando não sabem a resposta, procuram a orientação dos professores. O resultado do trabalho nas propriedades dos alunos também chama atenção da população local. A aluna Maurícia, moradora de um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) na região, desenvolveu, como Valmir, o sistema de horta em mandala e hoje vende produtos para a comunidade. “As pessoas comentam quando veem a gente passar com o uniforme. E pensam que não é só a zona urbana que dá retorno financeiro. Aqui também”, diz a menina contente em ver seu mundo pessoal valer a pena. Convencer os pais de que era bom ficar numa escola que permite passar duas semanas seguidas em casa foi outra tarefa difícil. No caso de Andreza, colega de Maurícia no assentamento do MST, os monitores precisaram ir até a sua casa para explicar à família do que se tratava o inusitado projeto educacional. “Insisti no que eu queria. Hoje meu avô diz que eu sou o orgulho da família”, conta a menina com as botas sujas de terra. Conseguir uma vaga na casa familiar não é uma tarefa simples. A equipe de monitores, sete engenheiros agrônomos com licenciatura, procuram um perfil certo de quem tem habilidade com agricultura e família com terra disponível para as atividades. No último processo seletivo, foram 323 inscritos para 38 vagas. Do total, apenas 120 foram selecionados para fazer as provas, após visitas dos monitores às casas. A avaliação escrita filtrou 60 dos candidatos para um período de três dias de experiência, e ao fim, 38 foram escolhidos. “Buscamos a história da pessoa, se ela tem o espírito de servir e viver em comunidade”, diz a monitora Rita Cardoso. Juscelino Macedo, 30 anos, líder da Aliança Cooperativa Estratégica da Mandioca, que reúne a Coopetan e a Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves, já sabia o que era contestar as verdades tradicionais. Viu seu pai perder muito dinheiro com a quebra das safras de mandioca de 1997/1998, que atingiu toda a região, e defendeu a importância da criação de uma cooperativa para os produtores locais, apesar de seu pai ver a iniciativa com desconfiança. Aos 18 anos, Juscelino já era um cooperado. “Os produtores se uniram pela dor, para poder resolver os seus problemas”, conta o rapaz atarefado com as demandas da entidade. A cooperativa foi além da mandioca. Cortou intermediários com o comércio e hoje beneficia a matéria-prima numa fábrica de farinha e de farelo de folha, construída com recursos do governo da Bahia. Os cooperados também começaram a plantar frutas e, com verbas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), construíram uma unidade de pré-beneficiamento dos produtos, que permite estocá-los em área refrigerada. A expectativa é que a cooperativa incremente cada vez mais a produção na cidade e alimente a Casa Familiar, que por sua vez receberá os filhos dos cooperados, que serão os próximos a manter essa estrutura. O desenvolvimento, além de econômico, passa pela reconstrução de valores como a modernidade, o progresso e a qualidade de vida como parte da vida no campo e não mais como atributos exclusivos das cidades. Valmir admite ter vida urbana por uns anos, porém, para fazer a faculdade de agronomia. Mas garante que volta. “Não quero ser assalariado, quero ser produtor.” * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Samantha Maia, da Carta Capital
e3 Crise

Dilma defende mobilização mundial para Europa sair da crise

Em visita à Espanha, presidente do Brasil diz que esforço internacional feito em 2008 e 2009 após a quebra do Lehman Brothers deve ser repetido, avalia que situação das contas públicas dos Estados Unidos também é uma ameaça e reitera a necessidade de unir crescimento econômico a políticas de austeridade. A reportagem é de Naira Hofmeister e Guilherme Kolling, direto de Madri. Madri - A presidente Dilma Rousseff defendeu em três discursos distintos nesta segunda-feira, em Madri, um esforço mundial para ajudar a União Europeia (UE) a sair da crise econômica. A chefe de Estado brasileira comparou a iniciativa à mobilização internacional de 2008 e 2009 para minimizar os efeitos da quebra do banco Lehman Brothers, que desencadeou a crise do mercado financeiro. “Uma das grandes obras dos homens e das mulheres foi a construção da UE a partir das cinzas da Segunda Guera Mundial. Não podemos deixar que se rompa esse paradigma político e econômico. É preciso combater a especulação do euro, não se pode deixá-lo apenas nas mãos do mercado”, sustentou Dilma nas reuniões que manteve com o presidente do governo da Espanha, Mariano Rajoy, o rei Juan Carlos e empresários do país. “Precisamos fazer um pacto que impeça a desesperança gerada pela falta de empregos e oportunidades”, conclamou. A chefe do Executivo brasileiro ainda manifestou preocupação com a situação das contas públicas nos Estados Unidos, exposta após a reeleição de Barack Obama. A necessidade de um ajuste fiscal para combater o déficit público poderia frear a incipiente recuperação da economia norte-americana, o que levaria a uma recessão com efeitos globais. “Todos os países precisam contribuir, porque não é só uma ameaça à UE. Tem o problema fiscal dos Estados Unidos, que esperamos que não ocorra. E se de fato acontecer, atinge a todos, porque ninguém é uma ilha”, alertou. Assim como havia feito na Cúpula Ibero-americana de Cádis – encerrada no sábado, 17 de novembro –, Dilma avaliou que o remédio para a crise não pode ser só a austeridade. E que há um falso dilema opondo políticas de estímulo ao crescimento com ajuste fiscal. “As principais lideranças políticas da Europa ainda não encontraram esse equilíbrio. O corte radical de gastos e a retirada de direitos não podem ser único caminho”, criticou. Diplomaticamente, entretanto, rechaçou as insinuações dos jornalistas de que havia aconselhado Rajoy sobre o tema. “Não tenho receita para a Espanha. O que sei é a experiência e os erros do meu país, que passou por duas décadas de ajuste fiscal sem resultados. Só quando o combinamos com crescimento, combate à inflação com distribuição de renda, exportações com incentivo ao mercado interno é que conseguimos sair da crise”, ensinou, sugerindo que sejam as nações superavitárias as que desencadeiem medidas anticíclicas de combate à recessão. Avaliou, porém, que a Europa tem mais recursos para superar suas dificuldades do que a América Latina durante o anos 80 e 90, e que o Fundo Monetário Internacional (FMI) evoluiu – fazendo uma referência à declaração recente da diretora da instituição, Christine Lagarde, de que chega um ponto em que as políticas de austeridade deixam de dar resultados. “Espero que os países do mundo ibérico tenham a oportunidade de flexibilização (das metas impostas) para crescer e construir o ajuste sem tantos prejuízos à população”. Ressaltou ainda que teme o desmantelamento do estado de bem estar social europeu, “uma inspiração para os governos latino-americanos”, e o questionamento do sistema democrático, causado pela falta de perspectivas e pelo alto desemprego juvenil que já estão levando – em países como a Grécia – a uma revitalização de grupos de extrema direita e xenófobos. Discursos escancaram diferenças políticas entre Dilma e Rajoy Apesar do clima harmonioso do encontro bilateral e da mútua comemoração das parcerias comerciais estabelecidas, a coletiva de imprensa dos executivos brasileiro e espanhol escancarou as diferenças políticas entre Dilma Rousseff e Mariano Rajoy. Confrontado com a posição de sua homóloga brasileira, Rajoy se mostrou convicto nas ações de sua gestão. “Somos conscientes de que a redução do déficit é necessária, não (tomamos essas medidas) apenas porque essa seja uma norma da União Europeia. O que estamos fazendo será bom no médio e longo prazo”, defendeu, para, na resposta seguinte, reconhecer que “é verdade que (os ajustes) causam danos a muita gente”. O presidente do governo espanhol acredita que, apesar do aumento do desemprego e da manutenção da desconfiança dos mercados após um ano de governo (ele foi eleito em novembro de 2011), está no caminho certo e que seu país crescerá a partir de 2014, com um sistema bancário consolidado, que poderá dar crédito para que a sociedade espanhola invista. Recepção reforça importância do Brasil para Espanha Mais que os números dos investimentos espanhóis no Brasil, talvez seja a deferência destinada à comitiva da presidente Dilma Rousseff que demonstre o grau de interesse do país ibérico no gigante latino-americano. A chefe do Executivo brasileiro foi a única governante a ser recebida em 2012 pelos reis da Espanha no Palácio Real de Madri, o mais luxuoso patrimônio da família real na capital. Para servir o almoço no qual o rei fez um brinde ao Brasil, as portas do Palácio estiveram fechadas e os centenas de turistas que esperavam para conhecer suas instalações não puderam entrar. Dilma foi ainda condecorada com a ordem de Isabel a Católica pelo monarca. Juan Carlos também fez questão de ler dois parágrafos de seu discurso em português, assim como fez o ministro da Educação, José Ignacio Wert, antes de assinar a renovação de acordos bilaterais na área diante da presidente brasileira. Wert foi mais longe: provocado pelo diretor do jornal El País, que promoveu um dos eventos no qual a comitiva brasileira participou, garantiu que a Espanha incentivará o ensino do português como segundo idioma nas escolas e universidades públicas, “não somente pela proximidade com a nossa nação-irmã, Portugal, mas fundamentalmente pela importância da relação com o Brasil”. O encontro entre Dilma e seu homólogo espanhol teve um formato incomum, que combinou a reunião dos chefes do executivo de ambos países com encontros paralelos entre os ministros das distintas áreas. “A Espanha aposta mais do que nunca no Brasil, uma potência do presente”, observou Rajoy, para que não restassem dúvidas sobre a expectativa dos ibéricos com a visita. Dilma agradeceu muito o tratamento que recebeu na Espanha e afirmou que o país pode contar com o Brasil como um parceiro para enfrentar a crise. “Mas não da forma oportunista como fomos tratados nós durante nossa crise. Queremos estabelecer um programa que leve a um desenvolvimento conjunto”, concluiu. * Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Naira Hofmeister e Guilherme Kolling*
Funcionários devem cuidar de sua imagem pessoal. Foto: Reprodução/Richard Faust Emprego

Quatro habilidades essenciais para garantir um emprego em 2013

[caption id="attachment_71078" align="alignleft" width="300" caption="Funcionários devem cuidar de sua imagem pessoal. Foto: Reprodução/Richard Faust"][/caption] Quer garantir um emprego em 2013? Fique atento às quatro características mais desejadas pelas empresas. Funcionários que desejam se destacar dentro de uma empresa precisam mostrar mais do que competência básica. Cada ano que passa, as empresas exigem mais habilidades e resultados de seus funcionários. Para garantir uma promoção ou conseguir um emprego em 2013, aqui estão quatro habilidades essenciais que um funcionário deve ter. 1) Boa comunicação A boa comunicação é a chave para uma carreira profissional bem sucedida. “Esta habilidade permite ao funcionário expor seu ponto de vista e criar contatos através da comunicação”, diz Holly Paul, da agência de recrutamento americana PricewaterhouseCoopers. Durante uma entrevista de emprego, a boa comunicação permite que o entrevistador tenha um vislumbre das habilidades do candidato. Com o avanço da comunicação digital alguns funcionários perderam a capacidade de se comunicar pessoalmente, como em apresentações, por exemplo. “A tecnologia vem acabando com a nossa capacidade de escrever bem”, diz Paul McDonald, da agência de recrutamento Robert Half International. 2) Marketing pessoal Membros recrutadores de RH costumam vistoriar blogs, Twitter e redes de relacionamento profissional como o LinkedIN, e é importante que gostem do que encontrem. “É a sua imagem, como você se apresenta”, explica Peter Handal, CEO da Dale Carnegie Training. “Se você postar algo que pode prejudicar sua imagem, as pessoas verão”, completa. Ultimamente, mais empresas e pessoas estão contratando funcionários para cuidar de seus perfis na internet. A executiva Meredith Haberfeld conta que certa vez uma funcionária de um cliente seu postou em sua página do Facebook sobre comer comida chinesa e fumar maconha. “Eu vi, os supervisores dela também”, diz Haberfeld. 3) Flexibilidade A capacidade de responder rapidamente às mudanças de plano é muito importante dentro de empresas. “Muitas empresas querem que seus funcionários saiam de sua “zona de conforto” e aprendam a se adaptar”, diz Handal. A capacidade de aprender novas habilidades está no topo da lista. “Se implantamos um novo programa ou novas ferramentas, é importante que os funcionários da equipe estejam abertos a aprender a usá-los”, diz George Boué, vice-presidente de recursos humanos da Stiles. 4) Aumento da produtividade Os funcionários devem encontrar meios de aumentar sua produtividade. Executivos esperam um aumento de 20% na produtividade de seus funcionários em 2013. “Ser pró ativo é uma forma de se destacar dentro de uma empresa”, diz McDonald. As empresas estão buscando funcionários com capacidade de crescimento. “Meus clientes buscam funcionários capazes de entender as necessidades sem que precisem ser mandados”, diz Haberfeld. * Com informações do The Wall Street Journal. ** Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Redação do Opinião e Notícia

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