O futuro do Fundo Clima

Economia

O futuro do Fundo Clima


por Redação do Vitae Civilis


Um dos principais instrumentos do País para financiar ações de baixo carbono passa por um momento de inflexão: como ampliar e agilizar a concessão de recursos, sem perder de vista a transparência e a boa governança? O Comitê Gestor do Fundo Nacional de Mudanças Climáticas (FNMC), composto por representantes de diversos segmentos da sociedade e de governo, tem importantes decisões pela frente. Em reunião realizada no final de agosto, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) apresentou a proposta de que instituições parceiras passem a coordenar os procedimentos de editais, escolhendo os projetos contemplados de acordo com linhas temáticas estabelecidas pelo comitê. Argumenta-se que a medida poderia agilizar o desembolso, dada a relevante experiência de instâncias como o Fundo Nacional de Meio Ambiente, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) frente à estrutura limitada do MMA para tanto. Contudo, a legislação determina que cabe ao Comitê Gestor a palavra final sobre aprovação de projetos e destinação de recursos, reembolsáveis ou não. Teme-se que essa espécie de "terceirização" crie dificuldades de governança integrada de ações e resultados propiciados pelo fundo, bem como para a transparência quanto aos critérios aplicados. Outro problema identificado é que as linhas de empréstimo do Fundo Clima, administradas pelo BNDES a juros baixos, deixaram de ser competitivas por causa da redução de taxas em outras modalidades. Sabe-se, por exemplo, que já é possível obter crédito para empreendimentos energético que se valem de óleo diesel com vantagens praticamente iguais às oferecidas pela linha de mudanças climáticas para energia renovável. Para Rubens Born, do Instituto Vitae Civilis e membro do Comitê Gestor como representante de ONGs, essa dificuldade não se resolve apenas reduzindo ainda mais as taxas do Fundo Clima ou ampliando os recursos a fundo perdido. É preciso avaliar a coerência do conjunto das políticas públicas federais e em que medida priorizam empreendimentos de baixo carbono. A análise detalhada destes e outros dilemas está no relato elaborado por Born após a reunião (leia o texto na íntegra). Ele explica que encontrar soluções para esses desafios é essencial para a própria relevância do FNMC daqui em diante. "O risco de um baixo desempenho do FNMC é de haver mudanças legais ou políticas que diminuam a previsão de fluxo crescente de recursos", escreve, tendo em vista projeto de lei que já tramita no Congresso Nacional. * Publicado originalmente no site Vitae Civilis.

População iraniana paga o preço da disputa entre EUA e Irã. Foto: Reprodução/Internet Mundo

Ocidente está vencendo a guerra econômica contra o regime iraniano

[caption id="attachment_67738" align="alignleft" width="300" caption="População iraniana paga o preço da disputa entre EUA e Irã. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] Espiral decrescente em que o Irã se encontra comprova que o Ocidente está no caminho da vitória. Durante uma entrevista à uma rede de televisão na semana passada, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, fez uma afirmação incisiva. Segundo o presidente, o Ocidente declarou “guerra econômica” contra o seu país. Ahmadinejad está certo, e a espiral decrescente em que o país se encontra comprova que o Ocidente está no caminho da vitória. O desemprego no Irã está muito acima dos 12% declarados oficialmente e o país vem perdendo suas reservas cambiais de forma hemorrágica. Mas, as sanções impostas parecem não amedrontar o governo de Teerã. No último outubro, 2, fontes do governo disseram que, caso as negociações falhem, o governo está disposto a aumentar o enriquecimento de urânio de 20% para 60%, aproximando-se assim dos 90% necessários para a construção de armas nucleares. Apesar do discurso do governo, a verdadeira prova do impacto das sanções está fora de Teerã. Uma onda de greves e manifestações assola o país, mostrando o descontentamento da população com os rumos do governo. Ahmadinejad também vem criando cada vez mais desafetos políticos. O porta-voz do Parlamento iraniano, Ali Larijani, acusou Ahmadinejad de ser responsável por 80% das dificuldades econômicas do país. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, disse que não pode permitir que a população continue a ser punida pelo sonho nuclear de Ahmadinejad. Liderado pelos Estados Unidos e União Europeia, o Ocidente se prepara para ampliar as sanções, mirando não só o petróleo, mas todo o setor energético iraniano, dificultando a entrada de qualquer bem não-humanitário no país e reduzindo ainda mais as suas reservas cambiais. Com isso a inflação — tão estarrecedora que tornou a carne um produto de luxo –deverá aumentar ainda mais. Embora alegue que sua meta não seja prejudicar os iranianos, a verdade é que esta posição agressiva prova que os EUA estão dispostos a fazer o Irã escolher entre o enriquecimento de urânio e o bem-estar de sua população. * Publicado originalmente no Bloomberg e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do Bloomberg
Número de alunos de destacados programas de MBA da Europa despencou. Foto: Reprodução/Andy Smith Mundo

O declínio da educação empresarial europeia

[caption id="attachment_67703" align="alignleft" width="341" caption="Número de alunos de destacados programas de MBA da Europa despencou. Foto: Reprodução/Andy Smith"][/caption] Dados do último ranking de MBAs da Economist mostram que a atratividade da Europa está em queda. A culpa é da economia fraca e da imprudente política de vistos britânica. Em um passado não muito distante, estudantes de administração se dirigiam em massa para a Europa. Comparadas às suas similares americanas, as faculdades de administração europeias eram mais baratas e seu corpo discente mais diverso, duas características atraentes – e os salários dos alunos formados em MBA europeus também costumavam ser mais altos. Parte dessa atratividade permanece imaculada, mas ela já não é o bastante para atrair multidões. Dados do último ranking da Economist de MBAs integrais sugerem que o apelo da educação empresarial do Velho Mundo entrou em uma fase de rápido declínio. O número de alunos de muitos dos mais destacados programas de MBA integrais da Europa despencou. As matrículas no MBA da Aston Business School, por exemplo, caíram em mais de 50% no último ano acadêmico, de 129 para 59 estudantes. A maior queda sem dúvida foi a de estudantes asiáticos. Algumas faculdades menores têm feito esforços desesperados para conseguir os 30 estudantes que alguns rankings de MBA consideram o mínimo para que o curso tenha uma boa reputação. Uma razão óbvia que explica a distância dos estudantes é a situação ruim da economia. Os MBAs podem parecer um bom modo de evitar uma breve crise, mas perdem sua atratividade ao longo de crises mais longas. Sem nenhuma recuperação da geração de empregos europeus em vista, ir para o continente fazer um MBA soa como um ato de teimosia extrema. O declínio europeu também reflete um problema específico para o público mais importante do mercado de MBAs. O tamanho médio das turmas dos programas de MBA britânicos classificados pela Economist diminuiu em 11% ao longo do ano passado. As escolas culpam os novos requerimentos impostos para vistos para estudantes que não são da União Europeia. Os alunos que se formavam tinham o direito automático de permanecer e trabalhar no país por dois anos. Agora é necessário encontrar uma empresa que ofereça um emprego com um salário anual de pelo menos (US$ 32.000). O número de vistos disponíveis para estudantes que desejam abrir suas próprias empresas também está minguando. O fato de que as faculdades europeias estão passando por dificuldades é especialmente frustrante porque os EUA também restringiram as oportunidades de trabalho para estudantes que querem trabalhar no país após a graduação, o que ofereceu uma oportunidade extra para os europeus. Tudo isso deveria ter induzido os estudantes de países mais pobres a se matricularem em faculdades europeias. Em vez disso, os países que estão se beneficiando graças às portas fechadas e altos custos americanos são o Canadá e a Austrália. * *                                           * Publicado originalmente na The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação da The Economist
"Um dos resultados esperados da COP-11 é ter metas financeiras", projetou Braulio Dias. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr Economia

COP-11 da Biodiversidade começa na Índia, em meio à crise financeira mundial

[caption id="attachment_67699" align="aligncenter" width="450" caption=""Um dos resultados esperados da COP-11 é ter metas financeiras", projetou Braulio Dias. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr"][/caption] Uma cúpula com representantes de mais de 190 países, uma cidade indiana (Hyderabad) e um desafio em comum: definir estratégias de financiamento para a proteção da biodiversidade mundial, enquanto os países europeus enfrentam uma poderosa crise financeira. Este é o clima da 11ª Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica (COP-11), que começou nessa segunda-feira, 8 de outubro. Na reunião anterior, há dois anos, em Nagoya, no Japão, os 192 países-membros mais a União Europeia concordaram com as chamadas metas de Aichi - 20 compromissos a serem atingidos até 2020, que têm como objetivo conter a perda de biodiversidade. Cálculos feitos pela CDB, que serão apresentados durante a COP-11, consideram que, em um pior cenário, os custos podem chegar a algumas centenas de bilhões de dólares. A mais cara das metas - a que prevê que 17% das áreas terrestres e 10% das marinhas e costeiras sejam protegidas (hoje o mundo tem cerca de 12,7% e 4%, respectivamente) - poderia chegar a US$ 600 bilhões. Isso se não houver políticas públicas que incentivem o desenvolvimento sustentável. "Um dos resultados esperados da COP-11 é ter metas financeiras. Só que, infelizmente, isso está coincidindo com a crise econômico-financeira que ainda persiste. Então vai ser um grande desafio, vamos precisar de muita criatividade e boa vontade dos países para chegar a um acordo", projetou o brasileiro Braulio Dias, secretário-executivo da CDB, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. Mais além Segundo Dias, é fundamental fazer com que a biodiversidade receba uma atenção adequada nos outros setores. "Não pode ser apenas a área ambiental que vai cuidar disso. Os setores que usam ou impactam a biodiversidade têm de assumir sua parcela de responsabilidade e, com seus recursos, ajudar a reduzir esses impactos. Estou falando de setor agrícola, de pesca, de floresta, de produção de energia, setor de mineração, petróleo e gás, transporte. Se tiver sucesso nisso, aí a gente divide os custos e passa a ser mais viável implementar essa agenda." Sobre a implementação das Metas de Aichi, o secretário-executivo da CDB informou que foi contratado um estudo para tentar identificar quais seriam as necessidades que demandariam apoio do GEF, que é o fundo mundial para o meio ambiente e o mecanismo financeiro da convenção. "Esse relatório vai ser apresentado agora para ser apreciado pelos países. Ele fala em algumas centenas de bilhões de dólares. O estudo olha meta por meta, tentando identificar quanto cada uma custaria para ser implementada, levando em conta diferentes cenários, dos mais aos menos otimistas", destacou Dias. Conforme o secretário, esses custos dependem das condições políticas e econômicas de cada lugar. "Só para ter uma ideia, para implementar a meta 11, que é a de áreas protegidas, a estimativa é que serão precisos até US$ 600 bilhões. Esse é o limite superior para a meta mais cara de implementação, considerando o cenário de business as usual, sem ajuda de políticas públicas voltada para um desenvolvimento sustentável", observou. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
e3 Brasil

Agricultura familiar combate inflação: está na hora de se falar mais disso

Inflação dos alimentos medida pelo IPCA já subiu quase 10% em dozes meses, impulsionada por produtos como grãos e legumes. É sinal de que os formuladores da política econômica precisam reforçar o apoio às políticas para a agricultura familiar, principal origem de nossos alimentos. Quanto mais batata e arroz nas gôndolas dos supermercados, menos a inflação corroerá o bolso dos brasileiros. São Paulo – Ir ao supermercado virou motivo de chateação. Prova disso é que, mês após mês, quando saem os índices de preços, as pessoas se assustam com a alta dos alimentos. Em setembro não foi diferente. O IBGE divulgou na sexta-feira (5) que o IPCA, o índice de inflação mais importante do país, que guia a política monetária, subiu 0,57% no mês passado e ficou 0,16 ponto percentual acima da taxa registrada em agosto. Ainda que setores como habitação tenham pressionado o índice, mais uma vez a alimentação foi campeã, respondendo por 52% da alta. É quase o mesmo impacto apurado no mês anterior, quando os alimentos foram responsáveis por 51% da elevação do índice. Um primeiro comentário é que não há nenhum motivo para alarde, como fazem crer alguns. O IPCA segue distante do centro da meta, que é de 4,5% no ano, mas, aos 5,28% no acumulado de 12 meses, está “dentríssimo” da margem de tolerância, de dois pontos percentuais. Um segundo, e mais importante comentário, é que a principal razão para a alta é sazonal e/ou climática, e, portanto, tem data para acabar. Logo mais, é quase certo que alimentos que subiram muito agora, como a batata (+21%), despenquem de preço. Foi o que ocorreu em setembro com o tomate, cuja cotação caiu 13% no mês. Mas isso também não significa que não se possa fazer nada para aliviar a chateação do consumidor. E ela não deve ser pequena. A alta dos alimentos já alcança 6,43% entre janeiro e setembro, próximo aos 7,18% verificados em todo o ano de 2011. Nos 12 meses anteriores de setembro, os alimentos já subiram 9,51%. Uma estratégia que pouco se comenta em nosso país, pelo menos no caso dos alimentos, é atacar essa inflação pelo lado da oferta. Mais produção de batata ajudaria a segurar o IPCA em níveis suportáveis. E quem poderia fazer isso? Não há outra resposta que não a agricultura familiar. Esse setor da economia, formado por propriedades de até quatro módulos fiscais e gerido pelas próprias famílias, é responsável pela maior parte dos alimentos consumidos pelos brasileiros. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, o último disponível, vieram de propriedades familiares 87% da mandioca do país, 70% do feijão, 59% dos suínos, 58% do leite, 50% das aves, 46% do milho, 38% do café e 34% do arroz. O surpreendente é que os agricultores e as agricultoras familiares fazem tudo isso ocupando apenas 24% da área agrícola do país, e empregando mais, 74% total de trabalhadores e trabalhadoras do campo. São 12,2 milhões de pessoas. Diante desse cenário, resta pouca dúvida de que uma maneira de combater a inflação no país é investir na agricultura familiar – com crédito, seguro agrícola, tecnologia e infraestrutura de escoamento – para que esse setor aumente sua produção e reduza os períodos de gargalo dos produtos. É preciso que se reconheça que a gestão que comanda o governo federal há dez anos tem o que mostrar. Quem diz isso não é só o próprio governo, mas pesquisadores do Observatório de Políticas Públicas para a Agricultura (Oppa) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Eles lembram que foi apenas em 2012 que completaram uma década de Plano Safra da Agricultura Familiar. Só a linha de crédito do Pronaf aportará R$ 18 bilhões neste ano no setor, três vezes mais do que em 2003. Mas é preciso mais. O grande agronegócio, por exemplo, receberá R$ 115 bilhões na atual safra, seis vezes mais do que o destinado aos agricultores familiares. A amplitude das variações dos preços dos alimentos no IPCA indica que os formuladores da política econômica precisam reforçar seu apoio às políticas para a agricultura familiar. Afinal, se houvesse mais batata no supermercado em setembro, a inflação não teria chateado tanto os brasileiros. * Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Marcel Gomes, da Carta Maior
e2 Entrevista

Cerrado, mera fonte para aumentar o PIB brasileiro

Os sistemas produtivos do Cerrado “estão pautados em um modelo tecnológico que, além de desmatar grandes extensões de vegetação nativa e gerar poucos empregos, utiliza grandes quantidades de insumos químicos”, diz a coordenadora administrativa da Rede Cerrado, Lara Montenegro. As monoculturas que invadem o cerrado brasileiro são hoje o principal entrave à conservação do bioma. As plantações de soja, algodão, cana-de-açúcar e eucalipto já contribuíram para devastar metade dos dois milhões de km² do bioma, e “22 milhões de hectares já estão ocupados por cultivos agrícolas”, assinala a pesquisadora Lara Montenegro em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Em sua avaliação, a situação ambiental do bioma é um reflexo do “entendimento” do governo federal em relação à área. “O cerrado é a principal frente para a expansão do agronegócio” e é através da expansão agrícola no ecossistema que o governo pretende aumentar o “PIB e o superávit primário”, lamenta. Segundo Lara, “as linhas de crédito do Ministério da Agricultura para os grandes produtores de commodities são absurdamente superiores àquelas oferecidas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário aos agricultores familiares, que são responsáveis por 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros”. Além da cana-de-açúcar, que abastece o setor sucroalcooleiro, o cerrado brasileiro está sendo invadido pela plantação de pinus e eucalipto. Conforme a pesquisadora, somente em 2010 mais de “6,5 milhões de hectares” do bioma eram destinados à silvicultura. Entretanto, apesar da constatação dos impactos ambientais, como a exaustão de nascentes e mananciais, “os Planos Setoriais de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas, que estão sendo desenvolvidos pelo governo federal, preveem a ampliação desses plantios florestais em três milhões de hectares até 2020”, para substituir o carvão nativo. Lara Montenegro é assessora técnica do Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN e coordenadora administrativa da Rede Cerrado. Faz parte da equipe de coordenação do VII Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, ao lado de representantes de outras organizações. Confira a entrevista. IHU On-Line – Qual é a situação e as demandas para a conservação do bioma Cerrado? Lara Montenegro – O Cerrado ocupa quase ¼ do território nacional, o equivalente a dois milhões de km². Hoje, mais da metade dessa área já se encontra devastada, e muitas das regiões que ainda contam com cobertura vegetal estão fortemente antropizadas e sob grande pressão da expansão da demanda por terras para o agronegócio. A pecuária extensiva também é uma grande ameaça ao bioma, principalmente por conta das baixas tecnologias empregadas e do péssimo índice de produtividade: uma cabeça de gado por hectare. O precário manejo das pastagens resultou em mais de 4,2 milhões de hectares de pastagens degradadas, o equivalente a 10% da terra utilizada para pecuária no Cerrado. Da perspectiva de conservação, há diferentes estratégias a serem promovidas e incentivadas por meio de políticas públicas e por iniciativa da sociedade civil. A Rede Cerrado entende que é fundamental fomentar modos de vida tradicionais que promovem o uso sustentável da biodiversidade (que aliam geração de renda, qualidade de vida e conservação da natureza), garantindo terra e acesso a recursos para agricultores familiares e povos e comunidades tradicionais. Nesse sentido, a demanda prioritária é de reconhecimento e demarcação de terras indígenas, territórios quilombolas e de comunidades tradicionais, áreas que ainda se encontram conservadas em função dos modos de vida desses grupos, mas que estão sob ameaça permanente. Na Carta dos Povos do Cerrado, elaborada ao final do VII Encontro dos Povos do Cerrado, ocorrido em setembro em Brasília, está listada uma série de demandas nesse sentido. A estratégia de conservação pelo uso sustentável da biodiversidade tem potencial para ser aplicada em grande escala, inclusive fora de áreas protegidas. Além disso, propõe atividades econômicas em áreas que continuarão provendo seus serviços ambientais. A viabilização da atividade agroextrativista é, portanto, de grande urgência. Hoje, estas cadeias produtivas encontram todos os tipos de dificuldades fiscais, sanitárias e ambientais, que praticamente inviabilizam sua existência. IHU On-Line – Nos últimos anos tem aumentado a plantação de eucalipto no Cerrado brasileiro. É possível estimar que percentual do território já é ocupado por essa cultura? Lara Montenegro – Em 2010, a área plantada de pinus e eucalipto no Brasil era de mais de 6,5 milhões de hectares, área maior que as dos estados do Rio de Janeiro e de Sergipe somadas. Essas monoculturas ocupam uma área cada vez maior no Cerrado, principalmente no norte de Minas Gerais e no sul da Bahia. A atividade gera poucos empregos e é responsável por grande parte dos problemas que o bioma e seus povos têm enfrentado. Por serem árvores de crescimento rápido, ciclo curto e que são plantadas em elevada densidade, há grande demanda de água, o que frequentemente leva à exaustão de nascentes e mananciais. Além de reduzir a quantidade de água, a qualidade do solo e a biodiversidade, as plantações de eucalipto muitas vezes causam o isolamento de comunidades locais, impedindo seu acesso a recursos naturais essenciais a sua sobrevivência. Apesar disso, os Planos Setoriais de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas, que estão sendo desenvolvidos pelo governo federal, preveem a ampliação desses plantios florestais em três milhões de hectares até 2020. Partem do princípio de que o uso do eucalipto substituirá o carvão retirado do Cerrado nativo para a siderurgia. Porém, a solução não é tão linear quanto parece. Há muitos problemas ambientais e sociais associados a estes cultivos, já apontados por organizações e pesquisadores, como a Rede Alerta Contra o Deserto Verde. IHU On-Line – Por que as monoculturas são prejudiciais para o bioma? Há algum controle em relação às plantações e à degradação gerada? Lara Montenegro – A maior frente de expansão do cultivo de cana para produção do biocombustível etanol, de soja para exportação, de eucalipto para produção de celulose e de carvão para a siderurgia está ocorrendo no Cerrado, empurrando outras culturas e a criação de gado para áreas mais distantes, nas partes norte e oeste do Cerrado e sul da Amazônia. Em geral, qualquer plantio homogêneo causa problemas que já são bem conhecidos. Estes problemas são ambientais (práticas agrícolas inadequadas que causam erosão, perda de biodiversidade, contaminação de mananciais e de pessoas com agrotóxicos, emissão de gases de efeito estufa) e sociais (expulsão de comunidades de seus territórios, concentração de renda, destruição de recursos naturais amplamente utilizados pelas comunidades locais). Especificamente no caso da cana-de-açúcar, com o aumento das áreas plantadas, é cada vez mais frequente a constatação de problemas que envolvem a não observância das áreas de preservação permanente e a prática de trabalho escravo ou similar ao escravo. Na maioria dos casos, os trabalhadores são horistas e ganham por produtividade, trabalhando à exaustão, sob más condições de alojamento e alimentação. Tais questões precisam ser devidamente consideradas na discussão da estratégia do governo federal de promoção em larga escala do uso de biocombustíveis. IHU On-Line – Como as comunidades tradicionais do Cerrado têm utilizado a terra? Lara Montenegro – Muitas comunidades tradicionais e agricultores familiares comprometidos com a conservação do bioma têm trabalhado no sentido de aproveitar os ricos recursos oferecidos pelo Cerrado, por meio do extrativismo de frutos e produtos tais como o baru, o pequi, o babaçu, o buriti, a gueroba, entre outros. Tais recursos são utilizados para a produção de alimentos, fitocosméticos, artesanato etc., a partir de um conhecimento consolidado e transmitido através de gerações. A aliança entre agricultura familiar e extrativismo sustentável (baseado em boas práticas de manejo na coleta) tem rendido bons resultados tanto do ponto de vista de conservação do bioma como do de geração de renda e qualidade de vida para a população do campo. O resgate de sementes crioulas tem permitido a muitos grupos retomar o cultivo de alimentos que vinham se perdendo. Práticas agroecológicas também vêm progressivamente ganhando espaço e se disseminando, consolidando-se como uma estratégia fundamental para melhoria da qualidade do solo, aumento da produtividade, conservação de biodiversidade e manutenção de serviços ecossistêmicos. No caso das comunidades que vivem em áreas coletivas e protegidas (como alguns grupos quilombolas e indígenas), verifica-se que fazem melhor uso da área do que a média da região. Há um padrão verificado internacionalmente (e no Brasil não é diferente) que comprova que as florestas geridas por comunidades em geral são as áreas mais bem preservadas. Esses padrões são facilmente verificáveis por imagens de satélites. IHU On-Line – Qual a importância delas para a manutenção e conservação do bioma? Lara Montenegro – As práticas destes grupos permitem a consolidação do que chamamos de paisagens produtivas sustentáveis, baseadas na produção diversificada da agricultura familiar associada à prática do extrativismo. Dessa forma, a partir da variedade de espécies cultivadas e da manutenção de vegetação nativa, é possível manter fluxos gênicos, estabelecer corredores ecológicos, manter o ciclo hidrológico, entre diversas outras funções. Como se sabe, a diversidade biológica é fundamental para a polinização e para evitar pragas. As práticas de adubação verde também permitem a conservação de água e solo assim como a redução do consumo de fertilizantes. IHU On-Line – De acordo com alguns pesquisadores, o Cerrado é o bioma menos contemplado pelas políticas públicas e tem menos regras em relação à ocupação. Diante disso, como o agronegócio tem ameaçado a sustentabilidade do bioma? É possível conciliar a conservação do bioma diante do crescimento de monoculturas? Lara Montenegro – No Cerrado, 22 milhões de hectares estão ocupados por cultivos agrícolas. As monoculturas de maior expressão são as de soja, eucalipto, cana-de-açúcar e algodão. Estes sistemas produtivos estão pautados em um modelo tecnológico que, além de desmatar grandes extensões de vegetação nativa e gerar poucos empregos, utiliza grandes quantidades de insumos químicos, o que levou o Brasil ao posto de maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Muitos dos pesticidas utilizados aqui já foram banidos em outros países. O resultado disso é a contaminação da água, do solo, dos alimentos e das pessoas. Tivemos um exemplo recente no Mato Grosso do Sul em que até o leite materno encontrava-se contaminado com agrotóxicos. Frequentemente, essas plantações deixam de herança vastas áreas de solos degradados, que, quando ainda conseguem ser recuperados, levam décadas até que possam voltar a desempenhar seus serviços ambientais para manutenção da água, da biodiversidade e do carbono. Entendemos que o esforço deve se dar no sentido de destinar as áreas já desmatadas para as atividades de produção de grãos e cana-de-açúcar, aprimorar as tecnologias para ampliar a produtividade da pecuária (reduzindo a demanda de áreas para pastagens) e, por outro lado, garantir o direito à terra e à manutenção de modos de vida tradicionais de agricultores familiares e povos e comunidades tradicionais, de forma associada também à criação de Unidades de Conservação – UCs. Uma estratégia que vem ganhando visibilidade, com bons resultados, é a de criação de mosaicos de áreas protegidas, integrando UCs, terras indígenas e/ou territórios quilombolas, como no caso da experiência do Mosaico Sertão Veredas/Peruaçu, no norte de Minas Gerais. É possível compatibilizar o agronegócio com a conservação do Cerrado, desde que sejam adotadas novas práticas agrícolas que permitam a coexistência dessa atividade com a proteção do bioma. No modelo atual, a coexistência é um desafio quase intransponível. IHU On-Line – Há denúncias de que as comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas têm sido expulsas dos biomas em que vivem. Isso se repete no Cerrado brasileiro? Lara Montenegro – O modelo de produção vigente no campo brasileiro tem provocado inúmeros conflitos e causado o isolamento e a perda de territórios de povos e comunidades tradicionais em todo o país. Povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares estão sendo expulsos de suas terras, sofrendo ameaças constantes, com inúmeros casos de assassinato de lideranças comunitárias e indígenas, que infelizmente não têm sido devidamente investigados e encaminhados pelas autoridades competentes. Há situações críticas e de largo conhecimento público, como o caso da Terra Indígena Xavante Maraiwatsede, no Mato Grosso, homologada em 1998, mas que permanece com 90% de sua área ocupada por fazendeiros e posseiros não indígenas, e dos etnocídios dos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul e dos Ava-Canoeiro, em Goiás, mas que seguem invisíveis diante das autoridades, pois o poder econômico e os interesses do agronegócio falam mais alto do que os legítimos pedidos de reconhecimento de direito à terra de povos indígenas e comunidades tradicionais. Como forma de desestruturar as lutas destas minorias, as terras em disputa estão sendo queimadas e desmatadas por latifundiários. IHU On-Line – De acordo com alguns pesquisadores, o Parque Nacional das Nascentes do Parnaíba está “na mira” de grupos econômicos, que pretendem utilizar as águas dos rios para formar lagos de usinas hidrelétricas ou plantações de soja. A informação procede? Qual a situação das unidades de conservação do bioma? Lara Montenegro – A situação geral das unidades de conservação do bioma é de grande isolamento diante de uma área crescente de monoculturas em seus entornos. Apenas 2,8% do território do Cerrado encontra-se protegido por meio de unidades de conservação de proteção integral, e há mais de sete anos não se cria nenhuma nova unidade de conservação no bioma. Há entraves em função dos interesses do setor de mineração e do agronegócio, e as negociações dentro do governo federal não avançam. Além disso, as reservas extrativistas (ou simplesmente Resex) homologadas nunca foram implementadas, isto é, a regularização fundiária nunca se efetivou, o que tem gerado conflitos permanentes. Para completar, muitas das áreas previstas para criação de Resex vêm sendo destruídas com vistas a inviabilizar sua constituição, como ocorreu recentemente na área prevista para a Resex Areião/Vale do Guará, no norte de Minas, que foi foco de incêndios criminosos neste mês de setembro. IHU On-Line – A senhora participou do encontro da Rede Cerrado com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira? Como foi a conversa e de que forma a ministra se posiciona diante das demandas do Cerrado? Nesse sentido, qual é a postura do governo brasileiro em relação à conservação do bioma? Lara Montenegro – Na tarde do dia 13 de setembro, após o Grito do Cerrado, realizado na Esplanada dos Ministérios, a ministra Izabella Teixeira recebeu uma comissão de cerca de 20 representantes da Rede Cerrado, onde foram discutidas rapidamente algumas estratégias prioritárias para a defesa do bioma. A ministra enfatizou a importância do Cerrado e da Caatinga, que não têm a mesma visibilidade que Amazônia e Mata Atlântica, e destacou a preocupação do ministério com o controle de queimadas no Cerrado. Ela autorizou o uso de recursos do GEF Cerrado para realizar o mapeamento de conflitos no bioma, mas declarou desconhecer diversas demandas pela criação de UCs. No entanto, o entendimento predominante no âmbito do governo brasileiro é o de que é necessário ampliar o PIB e o superávit primário, e o Cerrado é a principal frente para a expansão do agronegócio. Assim, as linhas de crédito do Ministério da Agricultura para os grandes produtores de commodities, por exemplo, são absurdamente superiores àquelas oferecidas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário aos agricultores familiares, que são responsáveis por 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. No âmbito do próprio Ministério do Meio Ambiente, as ações voltadas para o Cerrado andam a passos lentos, como é o caso do Programa Cerrado Sustentável, criado em 2005, mas sem recursos orçamentários para sua implementação, e o Zoneamento Ecológico Econômico do bioma, que se arrasta há anos e que sequer tem a etapa de diagnóstico concluída. O fato de não se criar nenhuma unidade de conservação no bioma há sete anos, como disse acima, reforça o entendimento de que a conservação do Cerrado está longe de ser um tema prioritário para o governo brasileiro. * Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
O serraleonês Emmanuel Kargbo trabalha com um arado de motor que recebeu da cooperativa agrícola à qual pertence. Foto: Damon Van der Linde/IPS Economia

Cooperativas, alternativa para trabalho juvenil

[caption id="attachment_67677" align="alignleft" width="300" caption="O serraleonês Emmanuel Kargbo trabalha com um arado de motor que recebeu da cooperativa agrícola à qual pertence. Foto: Damon Van der Linde/IPS"][/caption] Toronto, Canadá, 9/10/2012 – Jovens em diferentes partes do mundo enfrentam limitadas perspectivas de trabalho pelas vias tradicionais. Em meio a esta crise de emprego, as cooperativas buscam maneiras de manter contato com esta reserva de talentos não aproveitados. É por isto que a Cúpula Internacional de Cooperativas, que acontece, de ontem e até dia 11, na cidade canadense de Quebec, reservará cadeiras para futuros líderes. Cerca de 150 jovens foram convidados para representar suas respectivas organizações cooperativas neste encontro mundial. É uma oportunidade para manterem contatos com seus pares e aprenderem dos mais velhos sobre suas cooperativas, disse, na conferência, Stephanie Guico, coordenadora do programa Futuros Líderes. Mesmo havendo painéis especiais e acontecimentos criados para eles, espera-se que os jovens líderes, com idades entre 20 e 35 anos, deem suas próprias contribuições. “Espero que tragam uma voz jovem, ideias inovadoras, perspectivas novas. Espero que não se autocensurem”, declarou Guico à IPS. “Há muito a ganhar ouvindo os jovens, que estão mais em contato com a integração na área virtual e com maneiras de colaborar e comunicar que são novas”, acrescentou. Charles Gould, diretor-geral da Aliança Cooperativa Internacional, disse à IPS que “agora há uma geração que cresceu com certo tipo de cooperação por meio das redes sociais”, acrescentando que “isto deveria torná-los mais receptivos ao modelo cooperativo, mas não ouço sobre ele como modelo empresarial”. Dev Aujla é especialista em criar conexões por meio das redes sociais para responder a uma necessidade, e será uma das pessoas que dissertarão para os jovens líderes. Aujla, fundador da organização sem fins lucrativos DreamNow, que converte ideias em bens sociais, colaborou na redação de um livro com Billy Parrish, ativista contra a mudança climática que escreve para a revista norte-americana Rolling Stone. Os caminhos de Parrish e Aujla se cruzaram na internet, como amigos no Facebook que nunca se viram, mas compartilham princípios semelhantes e dedicam suas vidas a mobilizar os jovens para abordar os problemas de suas comunidades. Seu livro Making Good: Finding Meaning, Money and Community in a Changing World (Fazendo o Bem: Encontrando Significado, Dinheiro e Comunidade em um Mundo Mutável) serve como mapa do caminho para jovens interessados em fazer carreira na área dos projetos sociais. Embora essa carreira possa ter momentos desanimadores, está se convertendo em uma opção atraente para os que querem um emprego que pague suficientemente bem e busque servir a comunidade, observou Aujla. Para os que estão interessados, o modelo das cooperativas pode proporcionar uma base de apoio, porque não exige muito capital e porque com ele “se pode pegar qualquer indústria imaginável e reinventá-la de tal modo que faça o bem”, afirmou. O modelo corporativo fala o idioma no qual se criou a geração atual, mediante a exposição ao diálogo sobre mudança climática e outros assuntos ambientais. “Toda esta geração sabe que deseja fazer algo bom e simplesmente se sente atraída”, destacou Aujla. Guico, formada em desenvolvimento internacional, disse que, apesar de os jovens terem maior acesso à informação para se educarem sobre os temas da atualidade, o modelo das cooperativas não lhes é tão familiar porque nem sempre está incluído nos programas acadêmicos. As redes sociais podem ajudar o movimento cooperativo em seus esforços para se conectar com os jovens, mas é preciso mais educação sobre como podem oferecer uma via alternativa para o emprego. “Sendo realistas, isto exigirá uma apresentação diferente do modelo e uma explicação melhor do mesmo”, ressaltou Gould. Foi necessário que Guico fizesse suas próprias pesquisas e conhecesse a pessoa certa para abrir caminho no movimento das cooperativas. O mesmo ocorreu com outras pessoas à sua volta. “A maioria esbarrava com o movimento, o que diz algo sobre o quanto é bom o movimento cooperativo em promover a si mesmo e em comunicar sua identidade”, pontuou. Guico considera que parte do problema está no fato de as cooperativas operarem de um modo mais discreto do que as corporações. “Teríamos que nos impor antes que isso forje uma percepção sobre nossa importância”, afirmou. Outro motivo pelo qual as cooperativas não estão nas mentes de muitos jovens é que as escolas não aprofundam no que o modelo oferece, se é que o mencionam, segundo Guico. “A maioria das instituições educacionais está voltada para o modelo capitalista, que é muito complexo, e tendem a simplificá-lo ou minimizá-lo”, explicou Guico. Se não tivesse decidido explorar as cooperativas por sua conta, Guico seguramente teria continuado a pensar que estas somente se dedicavam ao artesanato e a funcionar como pequenas empresas agrícolas, como lhe fizeram crer. No Canadá, a Saint Mary’s University, de Halifaz, oferece curso de mestrado pensado em torno da empresa cooperativa. Este centro de estudos patrocinou o Imagine 2012, encontro sobre economia cooperativa que antecedeu a cúpula. Contudo, o mestrado, que é cursado por pessoas de todo o mundo na internet, está dirigido a cooperativistas inseridos no movimento. A maioria dos estudantes trabalha no setor há 15 ou 20 anos, e busca obter novas ferramentas de administração e se conectar com outros líderes do setor. Se as pessoas aprendessem sobre este tema da forma como se estuda habitualmente, o cooperativismo estaria muito mais avançado, afirmou Karen Miner, diretora-gerente do programa de Administração, Cooperativas e Uniões de Crédito em Saint Mary’s. Dessa forma, “estaríamos muito melhor educados sobre o setor e inclusive sobre nós mesmos. Temos uma grande quantidade de gerentes de cooperativas que procedem das empresas tradicionais, e nisso me incluo”, contou Miner à IPS. A ecossocióloga Laure Waridel, que também falará aos jovens na cúpula, considera que os recursos universitários não valorizam suficientemente a economia social, particularmente na área da administração. Waridel, que deu um curso na McGill University, em Montreal, buscou incorporar algumas lições sobre empreendimentos sociais em suas conferências, convidando oradores que trabalhavam na economia social. O modelo cooperativo, que se orgulha de abraçar valores democráticos e participativos, permitindo aos jovens ajudar a influir e a moldar o futuro do movimento, tem muito espaço para crescer e somar novos membros, disse Waridel. “A mensagem aos futuros líderes é que precisamos preparar uma transição para outra economia. Está muito claro que o modelo dominante no qual estamos imersos é insustentável”, afirmou à IPS. Envolverde/IPS


por Beatrice Paez, da IPS
e10 Artigo

Mais concorrência e responsabilidade na previdência privada

Dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) indicam que o mercado de previdência privada cresceu 32% no primeiro semestre deste ano, atingindo R$ 330 bilhões em ativos administrados. A combinação do crescimento da renda e a ainda baixa taxa de poupança da população brasileira devem contribuir para que esse crescimento continue acelerado nos próximos anos. É a forma que o brasileiro encontrou para se obrigar a poupar em favor da realização de um sonho futuro, seja a própria aposentadoria ou até mesmo a aquisição de um bem ou serviço, como a educação dos filhos. Esse movimento é muito positivo justamente porque retrata uma preocupação com o futuro ainda pouco verificada na nossa sociedade, viciada no imediatismo do consumo e nas compras parceladas. Claro que ainda estamos muito distantes de países com padrão de poupança consolidado, mas, aos poucos, vamos aprendendo a postergar a satisfação presente em nome da segurança financeira e da busca de sua realização de sonhos de longo prazo de maneira mais sustentável. O Brasil ainda tem uma parcela muito significativa da população ingressando no mercado de consumo - em particular, pessoas das classes C e D que não tinham praticamente acesso aos bens de consumo duráveis e de repente conseguem equipar a casa e adotar as compras no shopping como principal atividade de lazer. Felizmente, os planos de previdência têm acompanhado esse movimento, ganhando cada vez mais espaço na cesta de consumo do brasileiro médio. Na última década, os planos de previdência do tipo VGBL, por exemplo, tiveram crescimento médio de 19,85% ao ano, contribuindo para que o Brasil atingisse um volume de aplicações de previdência privada em geral de 21,7% do Produto Interno Bruto. Mas, apesar disso, ainda há muito espaço para crescimento, pois tal volume de investimentos reflete uma proporção consideravelmente inferior à verificada em países com perfil semelhante de população e de serviços públicos nessa área, como Austrália (90,95% do PIB), Estados Unidos (72,67%) e Chile (64,66%), segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nesse processo de desenvolvimento do mercado brasileiro, o aumento da concorrência tem o efeito muito benéfico de favorecer a redução das taxas de carregamento e de administração dos planos de previdência. Num contexto de taxas de juros cada vez menores e de investimento de longo prazo, o impacto disso pode ser altamente significativo na rentabilidade final. Outro aspecto fundamental é que, junto com o crescimento do mercado, há uma cobrança cada vez maior da sociedade em favor do aumento da transparência desses produtos. Isso porque o atual consumidor está muito mais consciente e criterioso em relação ao que compra. Assim como em muitos casos se recusa a comprar diretamente ações de fabricantes de armas e de cigarros e penaliza empresas que mantêm condições análogas ao trabalho escravo ou desrespeitam o meio-ambiente, quer garantia de que seu fundo de previdência seguirá princípios dessa natureza na hora de escolher em que empresas e segmentos investir. Esse movimento aumenta ainda mais as exigências em torno dos gestores, num cenário já complexo devido à necessidade de buscar a sonhada combinação de elevada rentabilidade e baixo risco num ambiente de redução das taxas de juros: precisam ficar atentos às opções de investimento mais sustentáveis no longo prazo, ou seja, justamente as empresas que focam no social, econômico e ambiental de maneira equilibrada. A boa notícia é que as organizações comprometidas com esses princípios tendem a apresentar maior rentabilidade em longo prazo. É isso que mostra, por exemplo, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Bovespa, que teve valorização de 112,77% no período de janeiro de 2006 a junho de 2012, enquanto o Ibovespa subiu apenas 65,12%. A diferença é menor, mas ainda muito expressiva, na comparação entre os indicadores do período de junho de 2011 a julho de 2012: 106,9% do ISE contra 87,4% do Ibovespa. Portanto, faz todo o sentido que os fundos de previdência sigam princípios semelhantes a esse tipo de aplicação, com foco em sustentabilidade. Afinal, o que pesa mais num produto desse tipo não é a variação da bolsa de valores em um dia, mas o potencial de crescimento e a segurança do negócio, de modo que possa continuar gerando valor daqui a 20 ou 30 anos e ajude a tornar realidade os sonhos e a poupança de milhões de brasileiros. * Camilo Terranova é coordenador de Análise Ambiental, Social, de Governança & Engajamento da Keyassociados.


por Camilo Terranova*
e8 Artigo

Prosperidade com ou sem crescimento

A crise ecológico-social que se espraia em todos os países está nos obrigando a repensar o crescimento e o desenvolvimento como ocorreu na Rio+20. Sentimos empiricamente os limites da Terra. Os modelos até agora vigentes se mostram insustentáveis. Por esta razão, muitos analistas afirmam: os países desenvolvidos devem superar o fetiche do desenvolvimento/crescimento sustentável a todo custo. Eles não o precisam porque conseguiram praticamente todo o necessário para uma vida decente e liberta de necessidades. Para eles, no lugar do crescimento/desenvolvimento cabe cobrar uma visão ecológico-social: a prosperidade sem crescimento (melhorar a qualidade de vida, a educação, os bens intangíveis). Ao contrário, os países pobres e emergentes precisam de prosperidade com crescimento. Eles têm a urgência de crescer materialmente para satisfazer as necessidades de suas populações empobrecidas (80% da humanidade). Não é mais sensato perseguir o propósito central do pensamento econômico industrialista/capitalista/consumista que se perguntava: como ganhar mais? Ele supunha a dominação da natureza em vista do benefício econômico. Agora face à realidade mundial mudada, a questão é outra: como produzir, respeitando os limites natureza, os seres vivos, os humanos e abrindo-se ao Transcendente? Na resposta a esta questão se decide se há prosperidade sem crescimento para os países desenvolvidos e prosperidade com crescimento para os pobres e emergentes. Para compreendermos melhor esta equação é ilustrativo distinguir quatro tipos de capital: o natural, o material, o humano e o espiritual. É na articulação destes quatro que se gera a prosperidade com ou sem crescimento. O capital naturalé formado pelos bens e serviços que a natureza gratuitamente oferece. O capitalmaterial é aquele construído pelo trabalho humano. O vigente foi alcançado, geralmente, sob condições de exploração da força de trabalho e de degradação da natureza. O capital humano é constituído pela cultura, as artes, as visões de mundo, a cooperação, realidades pertencentes à essência da vida humana. Aqui importa reconhecer que o capital materialsubmeteu o capital humano a constrangimentos, pois fez dos bens culturais também mercadoria. Como denunciou recentemente Davi Yanomami, xamã e cacique, num livro lançado na França sob o titulo A Queda do céu: “vocês brancos, são o povo da mercadoria, o povo que não escuta a natureza porque só se interessa por vantagens econômicas” (veja o site desinformemonos.org). O mesmo se deve dizer do capital espiritual. Ele pertence também à natureza do ser humano que se pergunta pelo sentido da vida e do universo, o que podemos esperar para além da morte, os valores de excelência como o amor, a amizade, a compaixão e a abertura ao Transcendente. Mas devido a predominância do material, o espiritual se encontra anêmico e não pôde ainda mostrar toda sua capacidade de transformação e de criação de equilíbrio e de sustentabilidade. O desafio que se apresenta hoje é: como passar do capital materialao capital humano e espiritual? Logicamente, o humano e o espiritual não dispensam o capital material. Precisamos de certo crescimento para garantir minimamente a subsistência material da vida. Um cadáver não pensa nem reza. No entanto, não podemos nos restringir ao crescimento com prosperidade porque ele não é um fim em si mesmo. Ele se ordena ao desenvolvimento integral do ser humano. Modernamente, foi Amartya Sen, indiano e prêmio Nobel de economia de 1998, quem melhor nos ajudou a compreender o que seja o desenvolvimento integral, capaz de ser sustentável e trazer prosperidade. O título de seu livro já define a tese central: Desenvolvimento como liberdade(Companhia das Letras 2001). Ele se coloca no coração do capital humano ao definir o desenvolvimento como “o processo de expansão das liberdades substantivas das pessoas”(p. 336), as de modelar o seu destino, as de definir sua profissão, as de atender seus anseios fundamentais de reconhecimento e dignidade e outras. O brasileiro Marcos Arruda, economista e educador, apresentou também um projeto de educação transformadora a partir da práxis e como exercício democrático de todas as liberdades (veja Educação para uma economia do amor: educação da práxis e economia solidária, Ideias e Letras 2009). Não se trata apenas de atender à nutrição e à saúde, condições de base para qualquer prosperidade; mas, o decisivo reside em transformar o ser humano. Para Amarthya Sen e para Arruda são fundamentais para isso a educaçãoe a democracia participativa. A educação não para ser sequestrada como um item de mercado (profissionalização), mas como a forma de fazer desabrochar e desenvolver as potencialidades e capacidades do ser humano, cuja “vocação ontológica e histórica é ser mais.. o que implica um superar-se, um ir além de si mesmo, um ativar os potenciais latentes em seu ser” (Arruda, Educação para uma economia do amor,103). Crescimento/desenvolvimento que visam a prosperidade significam então a ampliação das oportunidades de modelar a vida e dar-lhe um rumo. O ser humano se descobre um ser utópico vale dizer, um ser sempre em construção, habitado por um sem número de potencialidades. Criar as condições para que elas possam vir à tona e sejam implementadas, eis o propósito do desenvolvimento humano como prosperidade. Trata-se de humanizar o humano. A serviço deste propósito estão os valores ético-espirituais, as ciências, as tecnologias e nossos modos de produção. A forma política mais adequada para propiciar o desenvolvimento humano sustentável e próspero é, segundo Sen e Arruda, junto com a educação, a democracia participativa. Todos devem sentir-se incluídos para, juntos, construir o bem comum. Esse capital humano e espiritual quanto mais se usa mais cresce, ao contrario do capital material que quanto mais se usa mais decresce. A crise atual nos convida a ir nesta direção. * Leonardo Boff é teólogo, membro da Comissão Central da Carta da Terra e professor emérito de ética da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). ** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Leonardo Boff*
Quanto tempo Mariano Rajoy levará até para pedir um resgate? Foto: Reprodução/Internet Mundo

Os problemáticos bancos espanhóis

[caption id="attachment_67156" align="alignright" width="341" caption="Quanto tempo Mariano Rajoy levará até para pedir um resgate? Foto: Reprodução/Internet"][/caption] O teste de stress final dos bancos espanhóis. Os bancos espanhóis precisarão de “apenas” US$ 51 bilhões – US$ 75 bilhões dos fundos de resgate europeus para fortalecer o seu capital contra um possível agravamento da economia do país. Esta foi a conclusão de uma análise dos catorze maiores grupos bancários espanhóis feita pela Oliver Wyman, uma consultoria. Os resultados são mais baixos do que algumas pessoas temiam, sendo que o gigante estatizado BFA-Bankia previsivelmente lidera o grupo, com uma necessidade de capital de US$ 32 bilhões. Os bancos Santander, BBVA, Caixabank e vários outros saíram ilesos. Os US$ 75 bilhões representam os cálculos da Oliver Wyman da necessidade de recapitalização dos bancos espanhóis em um cenário adverso até 2014. A estimativa de US$ 40 bilhões é a previsão do governo espanhol de quanto será necessário após um terço dessas necessidades de capital terem sido fornecidas por outras fontes de recursos. Isso soa como um sinal de que a legião de pequenos investidores espanhóis que detêm controversos instrumentos híbridos e subordinados serão forçados a realizar um prejuízo grande e muito impopular. Muitos não entenderam o que exatamente estavam comprando quando os gerentes dos bancos venderam esses instrumentos a seus próprios clientes. O governo espanhol e o banco central mereceriam uma salva de palmas moderadas por tudo isso caso essas medidas não tivessem levado quatro anos desde a explosão da bolha imobiliária – muitas das maiores empreiteiras do país foram a falência – para serem postas em prática. Esta não é a primeira vez que um teste de stress dos bancos espanhóis é eivado de elogios. No entanto, as projeções do PIB para um cenário adverso – de 4,1% de crescimento real negativo neste ano e de 2,1% no ano seguinte – são certamente muito piores do que pode ser esperado, pelo menos para este ano. Mais questionável é a decisão de considerar um nível de desemprego de 25% como um caso adverso para 2012. Se esta estimativa deve ser considerada altamente improvável, conforme os burocratas afirmam, como explicar o fato de que a taxa de desemprego espanhola já atingiu esse patamar? Caso Alemanha, Finlândia e Holanda mantenham suas posições declaradas no início da semana de que nenhum fundo de resgate pode ir diretamente para os bancos, a dívida nacional da Espanha aumentará ainda mais. Espera-se que os resgates dos bancos representem entre 4 e 6% do PIB do país. O orçamento apresentado em 27 de setembro deu uma ideia de como o pagamento de juros está onerando a economia espanhola. Os custos do serviço da dívida aumentarão em um terço, ou quase US$ 12,85 bilhões (cerca de 1% do PIB), em 2013. A pergunta agora é quanto tempo Mariano Rajoy, o primeiro ministro da Espanha, levará para pedir um resgate, seja este de pequeno ou grande porte. * Publicado originalmente na revista The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação da The Economist

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