Eleições, bloco hegemônico e crise econômica

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Eleições, bloco hegemônico e crise econômica


por Paulo Passarinho*


As eleições municipais desse ano permitem as mais variadas avaliações, de acordo com os interesses de quem as analisa. Isto se deve ao que vários analistas apontaram como a “fragmentação” dos resultados obtidos, conforme as vitórias alcançadas pelos diferentes partidos. Não se pode afirmar, de fato, pela ótica estrita desses resultados, a hegemonia ou vitória consagradora de nenhuma das siglas partidárias. Levando-se em conta o número de municípios governados por cada legenda, o PMDB continua se mantendo como o principal partido, com mais de mil prefeituras sob o seu comando. Contudo, em termos de capitais, esse partido ficou apenas com as vitórias no Rio de Janeiro e em Boa Vista, Roraima. O PSDB, por sua vez, se mantém como o segundo partido em número de prefeituras, mas cada vez mais acossado pelo PT, terceiro partido com maior número de cidades sob o seu governo. E, em termos de capitais, os tucanos acabaram vitoriosos apenas nas regiões Norte e Nordeste, com os resultados positivos de Manaus, Belém, Teresina e João Pessoa, mas com a relevante derrota sofrida na cidade de São Paulo. Ainda pelo critério do número de prefeituras conquistadas, o curioso e novato PSD, de Gilberto Kassab, ficou com o quarto lugar, seguido pelo PP, de Paulo Maluf. Se ponderarmos esses resultados pela população sob o comando desses partidos, há uma inversão de posições, com o PT à frente, seguido pelo PMDB e pelo PSDB. Por esse critério populacional, o PSB e o PDT aparecem na frente do PSD e do PP. Houve resultados que chamaram atenção pelas disputas envolvidas entre aliados. O caso mais notório se relaciona com as disputas entre o PT e o PSB, em várias capitais e cidades importantes, como as ocorridas em Recife, Belo Horizonte, Fortaleza ou Campinas. Aliás, eleições que nessas cidades acabaram conferindo a vitória ao PSB, partido presidido pelo governador Eduardo Campos. Essas vitórias do PSB, por exemplo, permitiram muita especulação, por parte em geral de articulistas vinculados à mídia dominante, sobre uma possível aproximação, tendo em vista as eleições presidenciais de 2014, entre os partidários de Eduardo Campos e o PSDB. É evidente que em política tudo é possível, ainda mais em um quadro onde as questões mais relevantes parecem ser deixadas de lado ou condenadas ao esquecimento. Porém, levando-se em conta que o PSDB perde substância e influência, e assiste à derrocada espetacular do seu principal aliado (o DEM, apesar da vitória de ACM Neto, em Salvador), essa me parece uma hipótese muito mais afeita à vontade de analistas que se irritam com o comando do PT sobre o atual bloco hegemônico no país, no plano partidário. Sim, pois se não podemos apontar um partido hegemônico no país, existe, por outro lado, uma clara hegemonia política que não podemos desconsiderar. Essa hegemonia, no universo partidário, é exercida por um bloco que denomino como neo-centrão, em referência à sua matriz, o Centrão, formado pela direita durante os trabalhos da Constituinte de 1988 para bloquear as conquistas exigidas pela cidadania. Este bloco se reciclou, se ampliou e tem hoje o PT como o seu principal articulador mor. Uma prova cabal de que em política tudo é possível, caso as fronteiras político-ideológicas sejam diluídas pela cooptação ou metamorfose dos agentes sociais. Em recente artigo sobre o processo do julgamento do mensalão, Fábio Konder Comparato nos brindou com sua lúcida análise, apontando que “no Brasil, a esfera do poder sempre se apresentou dividida em dois níveis, um oficial e outro não-oficial, sendo o último encoberto pelo primeiro”. No nível oficial, aparecem os órgãos clássicos do Estado, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além dos partidos políticos e dos próprios políticos. O jurista lembra que “para a opinião pública e os observadores menos atentos, todo o poder político concentra-se aí”. E alerta: “é preciso uma boa acuidade visual para enxergar, por trás dessa fachada brilhante, um segundo nível de poder, que na realidade quase sempre suplanta o primeiro. É o grupo formado pelo grande empresariado: financeiro, industrial, comercial, de serviços e do agronegócio”. Alguém poderia discordar, desse modo, que no plano da representação política partidária real há um bloco hegemônico, articulado e comandado pelo PT, e que se subordina às forças assinaladas por Comparato como integrantes desse “segundo nível de poder”? São essas forças, por exemplo, que sustentam a pressão pela manutenção, por parte dos governos federais, do tripé da política econômica, em curso desde 1999, baseado no que denominam de câmbio flutuante/metas de superávit primário/metas de inflação. São essas mesmas forças, também, que no máximo apenas admitem pequenas e breves variações na ênfase com que cada um dos pilares desse tripé seja administrado. E dessa forma vamos assistindo apenas à administração de uma crise econômica que novamente já nos conduz à maldição do baixo crescimento econômico. O governo atual, para enfrentar a crise, insiste em medidas que em passado recente obtiveram efeitos positivos, pelo fato de terem representado mudanças no nível de renda, emprego e crédito de uma população muito carente. Mas que somente foram possíveis, dadas as excepcionais condições do comércio internacional das commodities que exportamos. Prosseguir nesse caminho dependeria de ações estruturais mais incisivas – de inclusão, de investimentos em educação, de reversão do processo de desindustrialização/desnacionalização do parque produtivo do país, de realização de uma ampla e massiva reforma agrária, de mudança da estrutura tributária e fiscal que temos hoje. Porém, a hegemonia política atual, pelo lado “oficial” e pelo seu lado mais oculto e decisivo, não permite a mudança. Por isso, ao se encerrarem as eleições, prefeitos eleitos pela situação – como é o caso de Haddad, de São Paulo –, pela oposição de direita – como é o caso de ACM Neto, de Salvador –, ou pela oposição de esquerda – como é o caso de Clécio Luis, de Macapá – já sinalizavam, cada um deles ao seu modo, a necessidade de arrancar recursos de Brasília, manter um bom relacionamento com o governo federal ou contar com apoios que facilitem negociações com o Palácio do Planalto. A rigidez que a atual hegemonia impõe à condução da política econômica é o obstáculo principal às mudanças necessárias. Mas também poderá se constituir no caminho que irá apenas aprofundar a própria crise, abrindo espaços para uma nova conjuntura, mais favorável às lutas do mundo do trabalho, na busca de alternativas. * Paulo Passarinho é economista. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.

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O Sul deve reconsiderar políticas e estratégias

Genebra, Suíça, novembro/2012 (IPS-South Centre) – Há diversas razões para crer que as forças que impulsionaram o crescimento das economias em desenvolvimento e emergentes desde 2009 desaparecerão no médio prazo. Tampouco voltarão as muito favoráveis condições econômicas internacionais existentes antes da crise global. Isso significa que, a menos que existam mudanças fundamentais em como esses países se integram à economia mundial, a recente assombrosa ascensão do Sul poderá ser apenas um fenômeno passageiro, e a velocidade de sua convergência com os níveis de renda das economias avançadas poderá diminuir nos próximos anos. Os países em desenvolvimento enfrentam dois desafios interdependentes que exigem uma reconsideração de suas estratégias. Em um futuro imediato correrão o risco de uma relevante queda em suas taxas de crescimento, que poderá ser mais severa se se aprofundarem a recessão europeia e o consequente dano à economia norte-americana. Em segundo lugar, no médio prazo e com o atual modelo econômico, esses países não poderão voltar ao ritmo desfrutado durante o período de expansão do crédito imobiliário nos Estados Unidos, mesmo com os países avançados se recuperando completamente e empreendendo um caminho rigoroso e estável para o crescimento. Os países em desenvolvimento agora têm menos espaço para instrumentalizar uma resposta anticíclica diante dos impulsos deflacionários e desestabilizadores. Em muitas economias emergentes ampliaram-se os desequilíbrios fiscais e externos nos últimos anos, e agora devem recorrer a todos os meios possíveis para evitar uma acentuada queda da atividade e um aumento do desemprego. Muitas economias em desenvolvimento e emergentes, especialmente na América Latina, têm algum espaço em suas políticas comerciais, especialmente em matéria de tarifas alfandegárias, mas as margens são bastante estreitas para a maioria delas. Uma saída poderia ser invocar, como último recurso, as medidas de salvaguarda do Acordo Geral sobre Comércio de Serviços, destinadas a enfrentar as dificuldades de pagamentos que alguns países possam ter em consequência de seus esforços para expandir seus mercados internos ou das instabilidades nos termos do intercâmbio. Usadas cuidadosamente, tais medidas não restringiriam necessariamente o volume total das importações, mas sua composição. Por outro lado, a restrição seletiva das importações não essenciais, bem como as de bens e serviços que possam ser substituídas por produtos nacionais, poderia aliviar os problemas de pagamento e facilitar políticas macroeconômicas expansivas. Naturalmente, o fornecimento de uma adequada liquidez internacional por parte das instituições financeiras multilaterais poderia atenuar a necessidade de medidas de restrição comercial, embora não fosse sensato para as economias em desenvolvimento usar tais recursos para importar bens e serviços não essenciais. Na eventualidade de continuadas e amplas fugas de capitais, esses países deveriam estar preparados para impor restrições cambiárias e inclusive a suspensão transitória do serviço da dívida, e isso deveria ser apoiado pelo Fundo Monetário Internacional por meio da concessão de empréstimos. A China não pode recorrer a outra maciça injeção de investimentos para manter um aceitável ritmo de crescimento sem comprometer sua futura estabilidade. Qualquer resposta de política anticíclica deveria ser coerente com os ajustes de longo prazo necessários para manter um crescimento rigoroso, e também deveria enfrentar o problema do baixo consumo. Uma alta imediata no consumo privado poderia ser alcançada por meio de amplas transferências do setor público, especialmente para os pobres nas áreas rurais, bem como um forte aumento das prestações para saúde e educação. A China também deve aumentar a participação nos salários no produto interno bruto (PIB), mais rápido do que o efetuado até agora. Com sua crescente demanda, a China tem um papel fundamental para as economias exportadoras de matérias-primas, mas não é um mercado importante para os exportadores de manufaturas. Portanto, para formar um mercado importante para as economias em desenvolvimento e emergentes, a China não deve apenas elevar a participação dos salários e da renda familiar no PIB, mas também aumentar as importações relacionadas com o consumo. Uma virada para o crescimento impulsionada pelos salários e pelo consumo não implica que, como consequência do aumento de suas importações, a China deixe de ser o maior exportador mundial de manufaturas. Embora uma parte importante do consumo elevado possa ser atendida por produtores domésticos, tal virada implicaria também um significativo aumento na importação desse tipo de bens. Para outras economias em desenvolvimento e emergentes, os desafios variam, mas todos estão vinculados de um modo ou de outro ao acúmulo e ao crescimento da produtividade. Na América Latina, os exportadores de matérias-primas têm pouco controle sobre dois determinantes cruciais de seu rendimento econômico: os fluxos de capitais e a flutuação dos preços internacionais das matérias-primas. O grande desafio dessa região é como ganhar maior autonomia. É necessário reduzir a dependência do capital estrangeiro. Os ricos latino-americanos, embora recebam maior porção da renda nacional do que os ricos asiáticos, economizam e investem uma porcentagem muito menor do que os segundos. Os baixos níveis de investimento e produtividade, junto com a alta dependência dos capitais estrangeiros, são os principais causadores da desindustrialização da América Latina, agravada por recentes booms nos mercados de matérias-primas e nos fluxos de capitais. O baixo investimento público e privado e a alta dependência do capital estrangeiro são os principais problemas a serem enfrentados, não apenas na América Latina, como também em alguns países exportadores de manufaturas, como a Turquia. No entanto, uma alta taxa de poupança nem sempre se traduz em igual nível de investimento e um alto nível de investimento não necessariamente se traduz em um rápido crescimento industrial. Para superar tais dificuldades são necessárias intervenções públicas precisas, com um uso eficaz dos instrumentos macroeconômicos e da política industrial. Envolverde/IPS * Yilmaz Akyuz é economista-chefe do South Centre, com sede em Genebra. Para mais informação ver South Centre, Issue 66 e SC RP 44 (www.southcentre.org).


por Yilmaz Akyuz*
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A visão em torno da bioeconomia

A relação nada amistosa entre a economia e a natureza fez surgir, em meados da década de 1960, explicações técnicas que procuravam dar conta da imprescindível necessidade de mudar o processo econômico-produtivo. Àquela altura vislumbrava-se claramente que as constantes agressões ao meio ambiente, fruto da expansiva atividade econômica que fere as fronteiras do ecossistema, geram consideráveis passivos ambientais. Foi no calor dessas discussões que surgiu uma nova visão da teoria econômica que envolvia tanto a biologia quanto a física: a bioeconomia. O que seria isso? Bioeconomia se configura na base científica da economia. Na essência, pode-se defini-la como um conceito de desenvolvimento que pressupõe novas relações com o meio ambiente, com o planeta Terra em si e com as pessoas. Federico Chicchi, sociólogo italiano e um dos mais preparados estudiosos desse assunto, aponta que "a bioeconomia refere-se ao processo de captura da vida e à produção da própria vida no interior das regras do discurso econômico”. Para René Passet, outro renomado especialista no assunto, a bioeconomia é o "novo paradigma da economia”. Esse pensador francês destaca que o conceito de bioeconomia surgiu como consequência do alerta ecológico dos anos 1960/70, que descobriu o processo econômico como uma extensão da evolução biológica. A termodinâmica e a biológica são os seus fundamentos. O objetivo, diz Passet, "é integrar as atividades econômicas nos sistemas naturais porque as leis da macroeconomia não se reduzem às da microeconomia”. O interesse geral é muito mais do que a soma das partes. Os mecanismos naturais (como o ar, a água, o solo) não têm que ver com as leis de mercado; por sinal, problemas com esses bens comuns e naturais transcendem a lógica das nações e dos mercados. Dessa forma, na visão de Passet, a economia situa-se além de si mesma e vislumbra um novo modelo de desenvolvimento, chamado, pois, de bioeconômico. E esse modelo para se efetivar precisa ser de caráter integrador, caso contrário, malogrará. Para enfatizar a questão esse seria um modelo capaz de conciliar os interesses públicos, privados e solidários com o interesse amplo e geral, envolvendo o que a macroeconomia tradicional tanto esquece: as pessoas e suas relações com a natureza. Com isso, enaltecemos que a economia tem tudo a ver com um projeto de desenvolvimento que envolva as pessoas e o capital natural, caso contrário não se sustentará na linha do tempo tendendo, pois, a se desequilibrar logo mais à frente. As pessoas e o desenvolvimento econômico e humano, em consonância com o aspecto da natureza, precisam andar juntos. Os objetivos econômicos precisam apontar para essa realização. Só há (e haverá) verdadeiro desenvolvimento socioeconômico quando as pessoas forem definitivamente contempladas. De nada adianta buscar o desenvolvimento das instituições, por exemplo, se essas não forem colocadas à disposição das pessoas. São as pessoas que fazem funcionar a economia, as instituições, e, claro, o próprio mercado. Ademais, uma vez que esse processo macro envolve sensivelmente a participação das pessoas, nada mais normal que abordar as relações dessas para com a natureza, tendo em vista que o homem não é dono do meio ambiente, mas sim seu hóspede e, do meio ambiente depende vertiginosamente para dar prosseguimento ao curso natural da vida. Infelizmente, esse "hóspede” tem se comportado como aquele inquilino que, descontente com o valor do aluguel, "destrói” partes de sua moradia. Por esse prisma, a bioeconomia não deve então ser apenas entendida como uma aproximação econômica ao vivente, mas sim como uma aproximação "vivente” à própria modelagem econômica. Essa simbiose necessita ser sincronizada, uma vez que a economia nada mais é que uma atividade de transformação que tem como finalidade precípua satisfazer as necessidades humanas mais elementares. E onde estão mesmo os recursos indispensáveis para esse atendimento? É evidente que se encontra na natureza todo e qualquer recurso necessário para a produção (transformação, na verdade) de bens que suprirá as necessidades humanas. Por fim, nunca é demais aduzir que a economia intervém em três níveis: i) transformação e cálculo; ii) o nível humano; e, iii) o nível natural. Logo, a interface homem-atividade-natureza se realça a todo e qualquer instante. * Marcus Eduardo de Oliveira é economista, professor e especialista em Política Internacional pela Universidad de La Habana – Cuba. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Marcus Eduardo de Oliveira*
Escola de pensamento defende a divulgação da maior parte dos dados financeiros de uma empresa a seus funcionários. Foto: Reprodução/The Economist Empresas

O argumento a favor do fim do segredo em torno das finanças das empresas

[caption id="attachment_69890" align="alignright" width="300" caption="Escola de pensamento defende a divulgação da maior parte dos dados financeiros de uma empresa a seus funcionários. Foto: Reprodução/The Economist"][/caption] Sigilo ocorre pelo medo de que funcionários descontentes sejam contratados por concorrentes e levem dados confidenciais consigo. A maioria dos chefes corporativos não vê com bons olhos a revelação de dados vitais a respeito de suas empresas. As empresas de capital aberto seguem regras rígidas, publicando resultados trimestrais, sendo, no entanto, bastante evasiva a respeito de toda informação que não precisa divulgar: nenhum investidor pode ter acesso a informações importantes antes do público em geral. Os chefes mantêm os resultados escondidos de todos, exceto de um grupo seleto de administradores. Suas razões para fazê-lo vão de um desejo de esconder as dimensões dos lucros ao medo de que funcionários descontentes sejam contratados por concorrentes e levem dados confidenciais consigo. Contudo, uma escola de pensamento chamada “administração de livro aberto” defende a divulgação da maior parte dos dados financeiros de uma empresa a seus funcionários uma vez a cada mês, semana ou dia. A administração de livro aberto não requer apenas que os chefes abandonem suas inibições em relação à revelação de dados financeiros, mas envolve também ensinar os funcionários a entender demonstrações contábeis. Administradores de livro aberto concebem ferramentas para mostrar à equipe como o seu esforço individual contribui para os resultados finais. Eles também adotam esquemas de divisão de lucros que permite que os funcionários se apropriem de parte da riqueza que criam. O objetivo é convencer os empregados a se comportarem como donos em vez de autômatos. Já que as pequenas empresas são as mais vulneráveis em momentos de crise, alguns observadores esperavam que os livros que foram abertos fossem lacrados. Por exemplo, a Srijan, uma pequena empresa indiana de softwares, mantém uma planilha no Google em que os funcionários podem checar o salário de todos os seus colegas, inclusive o de Rahul Dewan, o fundador da empresa. Dane Atkinson, o chefe da SumAll, uma nova empresa de software americana, quer ir ainda mais longe. Sua empresa redigiu uma “constituição” que habilita os funcionários a se envolverem em toda sorte de processo decisório. Uma empresa não precisa ser radicalmente transparente para ter sucesso: a Apple é tão aberta como um cadeado. E uma administração de livro aberto não funcionará se os funcionários não confiam no chefe. No entanto, ainda assim este é um experimento a ser observado. * Publicado originalmente no site The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação da The Economist
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“Portugal está sendo assaltado por dentro e por fora”

Economista e coordenador político do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã defende que “a única salvação da economia contra a bancarrota é reduzir na única despesa cuja redução não provoca crise e não cria desemprego nem reduz os salários e as pensões das pessoas: na dívida”. Portugal pagou nos últimos 10 anos 600 bilhões de euros em transferências para o estrangeiro. "Estamos sendo roubados por dentro e por fora". Visita da chanceler alemã Angela Merkel a Portugal será marcada por protestos. No dia 14 d enovembro, ocorrerá a primeira Greve Geral Ibérica. Lisboa - O economista e dirigente do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, defendeu, sexta feira, que “a única salvação da economia contra a bancarrota é reduzir na única despesa cuja redução não provoca crise e não cria desemprego nem reduz os salários e as pensões das pessoas” e “essa despesa que tem que ser reduzida é a dívida”, porque ela é “excessiva e abusiva”. "O governo quer cortar na despesa, e chama despesa aos nossos salários e às pensões dos nossos pais”, mas “não quer cortar nos 9 bilhões de euros que são pagos em serviço da dívida este ano. E é isso que arruína a sociedade portuguesa”, adiantou Louçã, sublinhando que “é pago tanto nessa dívida como se gasta em todo o Serviço Nacional de Saúde”. “Portugal pagou nos últimos 10 anos 600 bilhões de euros em transferências para o estrangeiro. Este ano, Portugal já transferiu para o estrangeiro 30 bilhões de euros em dividendos e em investimentos de carteira”, que representam “dinheiro produzido em Portugal que foi transferido para os beneficiários das operações financeiras ou para os titulares de ações em empresas portuguesas que não vão pagar imposto sobre esse dinheiro”, lembrou o dirigente bloquista. “Nós dizemos já basta!”, enfatizou, sublinhando que “não estamos dispostos a aceitar que se corte nas pensões dos nossos pais para pagar juros a quem não devemos. Não estamos dispostos a cortar no SNS, a arruinar a economia portuguesa para a sacrificar por uma extração financeira que é um expurgo à economia portuguesa”. Segundo o coordenador da Comissão Política do Bloco de Esquerda, “o sistema financeiro não está colocando dinheiro na economia, porque recusa empréstimos à atividade econômica, que é o que cria emprego, mas está colocando todo o dinheiro para juros especulativos sobre a dívida portuguesa”. “No último ano, a banca portuguesa, incluindo o BPI de Fernando Ulrich, retirou sete bilhões de euros dos empréstimos que fazia à economia para pôr outro tanto em juros de dívida, comprando dívida no mercado secundário com a expectativa de conseguir ter um negócio com juros de 15%. Ou seja, em quatro anos duplica o seu capital”, avançou Francisco Louçã. "Não aceitamos a vergonha, a humilhação nacional" Sobre a anunciada reforma do Estado, que, segundo Pedro Passos Coelho, constituirá "uma refundação" do memorando de entendimento com a troika e que visará o corte de quatro bilhões de euros na despesa pública, dos quais 3,5 bilhões serão nas áreas da Educação, Saúde e Segurança Social, Louçã frisou que "não aceitamos a vergonha, a humilhação nacional, que é ver esses senhores de fato cinzento e gravata azul do FMI, do Durão Barroso, do Banco Central Europeu, a imporem estes cortes sobre a Saúde, sobre a Educação e sobre a Segurança Social. Pura e simplesmente, não aceitamos esses cortes". "Que estes cortes sejam feitos com esses técnicos matreiros que se juntam aos políticos do Governo para tentarem impor um ataque à Segurança Social, à Saúde e à Educação é uma vergonha que Portugal não pode aceitar, é uma humilhação que Portugal não tem o direito de aceitar", acrescentou. Portugal está sendo assaltado por dentro e por fora Para Louçã, Portugal “está sendo assaltado por dentro e por fora: assaltado pela troika e assaltado pelo sistema financeiro que acha que não tem nada a dever à economia” e que, portanto, “pode levar aquilo que quiser como se isto fosse um saco de piratas”. “A Ulrich, à troika, à Merkel, e a todos os outros, a única resposta que podemos ter é a democracia. Uma democracia responsável, a capacidade de luta, a capacidade de resposta, esse milhão de pessoas que no dia 15 de setembro disse “Que se lixe a troika”, essa força enorme que podemos juntar”, advogou. Francisco Louçã considera que é preciso mobilizarmo-nos contra “a ideia de que o salário tem que ser reduzido, tem que ser atacado, que é o centro da política do orçamento”, e de que “a saúde e a educação não servem para as pessoas, servem para o lucro financeiro, são mercados, são negócios, são vantagens de quem tem tudo sobre quem não tem nada”. “Este orçamento e a política que leva a cabo só nos garante que, no próximo ano, e já não falo daqui a três anos, a economia portuguesa vai estar tão devastada que fica próxima da bancarrota. E a bancarrota é a falência das pessoas”, alertou Louçã. Nesse sentido, “o combate pela demissão deste governo é a política mais importante que temos de ter, e por isso mesmo convidámos todos os partidos da oposição a apresentarem conjuntamente moções de censura para que todos digam que o governo deve ser demitido”, recordou. Para Francisco Louçã, aproximam-se momentos chave, entre os quais o Comício Internacional organizado pelo Bloco, em 9 de novembro, que antecede a visita de Angela Merkel ao nosso país, durante o qual vão intervir os principais dirigentes das esquerdas que “lutam contra o autoritarismo que está destruindo a Europa”. No dia 12 de novembro, a manifestação contra a chanceler alemã representa "uma oportunidade para que o ex ministro das finanças do PS Silva Lopes", que admitiu que a única manifestação em que gostaria de estar presente seria a manifestação contra a Sra Merkel, e para quem nunca teve numa manifestação, "possam vir nesse dia defender Portugal e defender a Europa contra a chantagem financeira que nos está arruinar”. Dois dias depois, ocorrerá a primeira Greve Geral Ibérica, que “mobilizará muitos sindicatos, muitas pessoas que não pertencem a sindicatos mas que sentem que o seu salário não pode ser desperdiçado para esta agiotagem financeira”. Este será “o princípio de uma luta que tem que trazer este espírito do 15 de setembro, da multidão dos milhões de pessoas que estão a ser sacrificados por esta crise e que vão à luta para responder pelos outros, por todos, pelo trabalho, pela dignidade, pelo respeito pelas pessoas”, afirmou Francisco Louçã. * Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Redação da Carta Maior
Luiz Augusto Pereira de Almeida. Foto: Divulgação Artigo

Quem paga a conta da sustentabilidade?

[caption id="attachment_69946" align="alignleft" width="300" caption="Luiz Augusto Pereira de Almeida. Foto: Divulgação"][/caption] Em grande parte dos 5.565 municípios brasileiros, os prefeitos, vices e vereadores eleitos este ano, a exemplo do que vem ocorrendo com as presentes gestões e as anteriores, terão grande dificuldade orçamentária para atender às prioridades sociais e cumprir todos os compromissos inerentes à administração pública. Com exceção das cidades onde há concentração industrial ou recursos minerais e jazidas petrolíferas que rendam royalties, a receita da maioria das cidades brasileiras limita-se basicamente ao Fundo de Participação dos Municipios (uma transferência constitucional formada por recursos oriundos da arrecadação do Imposto de Renda e Imposto sobre Produtos Industrializados) e ao IPTU. No caso do litoral paulista, a arrecadação tributária é muito  dependente do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Ou seja, é nítida a falta de recursos para suprir adequadamente a sociedade, no âmbito da competência municipal, nas áreas prioritárias da saúde, educação, saneamento, moradia digna, infraestrutura, segurança e educação. Nesse contexto, nem há muito como pensar e planejar investimentos em sustentabilidade, em especial se considerarmos a acepção mais ampla e contemporânea do termo, que abrange a preservação e recuperação ambiental, o crescimento econômico e inclusão social, com a erradicação da miséria. As limitações financeiras ocorrem porque as cidades brasileiras, em geral, não têm como gerar recursos para financiar seu desenvolvimento. Nas últimas décadas, na esteira de discursos ambientalistas, normas e leis nem sempre realistas e de bom senso vêm surgindo como barreiras imensas à exploração do potencial e da vocação econômica de cada município, mitigando sua capacidade de ampliar receitas e melhorar a qualidade da vida de sua população. A cidade de Bertioga, por exemplo, no Litoral Norte de São Pualo é um bom exemplo para ilustrar essa realidade. Em 2012, o município ganhou a maioridade plena, completando 21 anos de emancipação, com avanços e desafios para suprir as carências de uma população de 48 mil habitantes. Somente as suas despesas de saúde e educação ultrapassam R$ 100 milhões ao ano. A maior fonte de receita da cidade para financiar tais custos decorre da arrecadação tributária do IPTU e ITBI, que está próxima de R$ 70 milhões ao ano. Somente a Riviera de São Lourenço, um projeto de desenvolvimento urbano que está sendo implantado naquele município, é responsável, em seu estágio atual, pela arrecadação de aproximadamente R$ 40 milhões/ano, podendo chegar a R$ 70 milhões/ano, quando de sua conclusão. Bertioga, por sua localização estratégica,  próxima a Santos e aos negócios do pré-sal, já projeta para 2020 uma população de 60 mil pessoas, ou seja, um crescimento de 50%. Ao mesmo tempo, porém, sofre, por força do alarmismo ambiental, um estrangulamento na sua capacidade de planejamento urbano. Hoje, o município dispõe de menos de 3% de todo o seu território para se desenvolver. Dos demais 97%, 5% já estão ocupados e 92%  são áreas ambientalmente protegidas. Não é difícil entender que, se Bertioga não for capaz de ordenar seu crescimento na diminuta área que lhe resta,  dificilmente, daqui a dez anos, poderá contar com recursos suficientes para custear seus serviços públicos básicos e necessários para uma sadia qualidade da vida de sua comunidade. Pelo contrário, muito provavelmente ocorrerá a ocupação desordenada, como estamos cansados de ver ao redor das represas Guarapiranga e Billings, ou mesmo ao longo de nosso litoral,  que só acarreta ônus para os municípios, com moradias de baixa qualidade, degradação do meio ambiente, irrisória arrecação de IPTU, falta de  segurança, transporte ou benfeitorias urbanas. Substitui-se o legal viável pela realidade sem controle e fiscalização do ilegal que ocupa o espaço da legislação exagerada e impraticável. Nunca foi tão necessário o incentivo ao  crescimento planejado, que aproveita de maneira sustentada o uso do solo e é capaz de gerar inclusão social, com moradia digna, empregos de qualidade e renda para o munícipe e município.  Vale a pena citar  projeto que está sendo desenvolvido em Nordhavnen, região portuária ao Norte de Copenhague, capital da Dinamarca. Por razões de limitação de espaço na cidade, está em curso um projeto de desenvolvimento urbano, em cima do oceano. Ocupando 200 hectares, ou seja, 200 campos de futebol e construído por meio de aterros, o empreendimento deve receber cerca de 40 mil pessoas a partir de 2025. Solução científica, para problemas de espaço urbano. Não podemos ignorar que o crescimento populacional das cidades, seja por fluxos migratórios ou vegetativo, é inexorável. Em menos de três décadas, seremos nove bilhões de habitantes no mundo. No Brasil, um país em desenvolvimento, 215 milhões. Se quisermos ter a sustentabilidade discutida na Conferência das Nações Unidas Rio + 20, é imperativo que, desde já, passemos a nos empenhar no correto planejamento do desenvolvimento de nossas cidades. Caso contrário, fica a pergunta: quem vai pagar a conta da tão desejada sustentabilidade? * Luiz Augusto Pereira de Almeida é diretor da Fiabci/Brasil e diretor de marketing da Sobloco Construtora S.A.


por Luiz Augusto Pereira de Almeida*
Não existe sustentação teórica ou demonstração empírica para garantir que o Brasil não possa ter uma taxa de juros de 2% Artigo

Juros altos, ainda…

[caption id="attachment_69880" align="alignleft" width="300" caption="Não existe sustentação teórica ou demonstração empírica para garantir que o Brasil não possa ter uma taxa de juros de 2%"][/caption] Economistas e analistas do mercado financeiro teimam em afirmar que os juros no Brasil estão exageradamente baixos. São opiniões respeitáveis, de pessoas competentes, mas que deviam reconhecer a tentativa de apenas “chutar o balde”… Não existe nenhuma razão objetiva para dizer que, no Brasil, os juros reais estejam suficientemente baixos. É verdade, os juros se reduziram recentemente (e devem continuar baixando), mas ainda estão muito altos quando confrontados com a realidade mundial. Basta observar a grande maioria dos países. Hoje temos uma taxa de juros real próxima de 2%, o que nos deixa relativamente longe da taxa de juros real do mercado internacional,às voltas de 2% negativos. O atual diferencial entre o juro real interno e o externo é parecido, portanto, com 4%. O movimento de capitais continua funcionando. Em um ambiente de política cambial defensiva, aquele diferencial deixa ainda margem para a exploração (no sentido de “pesquisa”, “sondagem”, acompanhando o nosso Aurélio) de oportunidades lucrativas para o capital estrangeiro de curto prazo, principalmente nas atuais circunstâncias em que o mundo ameaça submergir na enxurrada de liquidez produzida externamente. O Brasil sustentou durante anos (duas décadas ao menos!) a maior taxa de juros real do universo conhecido, estimulando um movimento de capitais especulativos que ajudou a supervalorizar a taxa de câmbio real e aprofundou os inconvenientes da redução global da atividade produzida pelo controle monetário. Quem pagou mais caro por isso foi o setor da manufatura nacional. O diferencial persiste bem menor, mas o controle cambial, a meu ver, retira riscos maiores de movimentos especulativos no curto prazo. A ideia de que a economia brasileira precisa de juros acima do normal ocupou a mente de um número muito grande de economistas brasileiros, em uma boa época para se ganhar dinheiro, na qual nada do que foi produzido justifica a sua defesa. Não conheci nenhum estudo acadêmico capaz de ser digerido. Li nesse período trabalhos recheados de conteúdo fantasmagórico, verdadeiras barbaridades do ponto de vista teórico, e absurdos do ponto de vista econométrico. O tripé e a obsessão Todos tentando defender a festa dos juros, quando não existe nenhuma estimativa razoável de qual seja a “taxa de juros neutra”, quer dizer a taxa de juros que, eles imaginam, não aceleraria a inflação. Era uma concepção puramente teórica: os países testam até hoje movimentos completamente diferentes, porque o mundo mudou. A taxa de juros foi posta no nível atual por um erro de política monetária. Havendo uma dúvida sobre o financiamento da dívida pública, foram instituídos papéis com correção diá­ria (Letras do Tesouro Nacional, as LFTs), que agora o governo Dilma está reduzindo. Não existe nenhuma sustentação teórica ou demonstração empírica para garantir que o Brasil não possa ter uma taxa de juros de 2%. Há argumentos ridículos, repetidos em estudos mais recentes, usando modelos que introduzem o custo-Brasil externo em comparação com a evolução da Libor (a antes “respeitável” London Interbank Offered Rate), que hoje se sabe produziu índices eivados de falsidades. Esperava-se um pouco mais de moderação, de humildade, menos desrespeito ao conhecimento das pessoas. Qualquer um pode dizer: “Não gosto de juros reais de 2%, prefiro de 5%”, o que é um direito dela até certo ponto respeitável. Absurdo é afirmar peremptoriamente, como se fosse produto de conhecimento científico, que o Brasil não pode ter uma taxa de juros real abaixo de 5%. Isso não existe nem mesmo como convicção religiosa. De ­ciência não tem nada. A política monetária avançou muito nos últimos anos, desde quando os bancos centrais eram “templos” onde se praticava uma arte esotérica ao alcance apenas de alguns iniciados e era mantida no maior segredo. A prática monetária tinha um dialeto próprio, usado mais para esconder as ideias (quando elas existiam!) do que para explicar os fundamentos das medidas. Em nossos dias, especialmente na gestão de Alexandre Tombini, que organizou uma competente equipe, passou a prevalecer a transparência e a comunicação aberta e fácil, o apanágio da nova política monetária. * Delfim Netto é economista, formado pela Universidade de São Paulo, professor de Economia, e foi ministro de Estado e deputado federal. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Delfim Netto*
e1 Artigo

Evolução – e não apenas exaustão

Por mais que se queira não se consegue fugir ao tema que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chamou durante a conferência Rio+20, em junho, de "exaustão do sistema econômico e social planetário" - 868 milhões de pessoas que passam fome todos os dias, 1,3 bilhão vivendo abaixo da linha da pobreza, população total de 7 bilhões avançado para 9 bilhões até meados do século, recursos naturais usados em ritmo superior à reposição, "crise de finitude de recursos", impasse na produção de alimentos. Como produzir para mais 2 bilhões de pessoas no atual quadro? Segundo a Rádio ONU, estudos do Banco Mundial dizem que, embora a pobreza venha diminuindo, 22% da população do mundo "em desenvolvimento" ainda vive com menos de US$ 1,25 por dia (era 1,94 bilhão em 1981, baixou para 1,29 bilhão no fim da década passada; em 2015 ainda haverá 1 bilhão). Na África Subsaariana, uma em quatro pessoas na população de 856 milhões é subnutrida. Mesmo nos Estados Unidos 18,2% da população tem, segundo o Gallup, dificuldade para comprar alimentos (TV-Novosti, 28/9) - embora a própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) venha advertindo sobre o desperdício de 1,3 bilhão de toneladas anuais de alimentos no mundo, principalmente nos países mais ricos. Um dos documentos mais contundentes, divulgado na semana passada em Nairóbi (Quênia) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), diz que "os sustentáculos da segurança alimentar e da biodiversidade no mundo estão sendo minados". É urgente, por isso, incluir na agricultura e no seu planejamento os serviços prestados pela natureza para avaliar a situação em cada lugar - da mesma forma que, na Rio+20, a Universidade da ONU propôs um novo indicador, em lugar do produto interno bruto (PIB); esse Índice de Riqueza Inclusiva, avaliando o crescimento da China entre 1990 e 2008, e incluindo a perda de recursos naturais, baixou a taxa de 422% para menos de 20%; no Brasil, o índice caiu de mais de 40% no mesmo período para 13%. O documento do Pnuma avalia a situação nas áreas da sobrepesca, do uso insustentável da água, das práticas agrícolas que degradam o ambiente e propõe novos caminhos - como na estocagem de alimentos de pequenos produtores (para eliminar desperdícios), uso restrito de fertilizantes e pesticidas, redução da mecanização. Tudo é fundamental, diz o Pnuma, já que a agricultura provê 90% do consumo mundial de calorias e a pesca, os outros 10%. Mas, na primeira a competição pelo uso da água na irrigação, a perda da biodiversidade (com consequências na erosão e desertificação) e os desastres climáticos estão levando a situações insustentáveis. Na pesca, 55% dos estoques de espécies estão "plenamente explorados", 32% "explorados em excesso", 3% esgotados e 15% "moderadamente explorados". Os hábitats costeiros de espécies, recifes de corais e mangues já se reduziram quase à metade. E o aquecimento e acidificação da água são causas importantes. Também nas culturas em áreas continentais os problemas são graves. As recomendações incluem ainda a eliminação dos subsídios à pesca (US$ 25 bilhões a US$ 30 bilhões anuais) e a criação de impostos pesados para a pesca irregular; na agricultura, várias práticas para a conservação do solo, da diversidade biológica, da microfauna associada à fertilidade nas culturas, a redução de fertilizantes que provocam a eutrofização, a proibição do desmatamento. No Brasil, estudo do Ministério do Desenvolvimento Social e da Universidade Rural Federal do Rio de Janeiro tenta identificar as causas da alta dos preços dos alimentos para as camadas mais pobres da população, superior ao aumento inflacionário. E já aponta "o pico do preço do petróleo", os baixos estoques, fatores climáticos e os sistemas de financiamento e de especulação financeira (já se mencionou neste espaço que há commodities agrícolas brasileiras que ao final de sua trajetória no "mercado futuro", ao serem entregues concretamente ao consumo, já passaram por até 40 intermediários, cada um deles aumentando o preço). Diz ainda o estudo que, após a alta de preços, estes não retornam ao estágio anterior. Apesar de todos esses fatores, com o crescimento do salário mínimo e a ampliação dos programas de assistência às famílias de mais baixa renda no Brasil a situação nessa faixa melhorou. O Instituto Data Popular confirma que a classe E representava em 2001 cerca de 10% da população (17,3 milhões de pessoas) e em 2011 caíra para 3,6% (7 milhões). De qualquer forma, é tudo tão preocupante que economistas da Unicamp lançaram (Carta Maior, 22/10) um Manifesto em Defesa da Civilização, no qual afirmam que vivemos um período de "profunda regressão social" nos "países ditos desenvolvidos", com taxas muito altas de desemprego na Espanha e na Grécia. Por isso, pergunta: "Estamos vivendo crise que nega os princípios fundamentais da vida civilizada e democrática? E se isso for verdade, quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão?" Termina o texto dizendo que para não haver "uma reação inevitável, violenta e incontrolável" dos estratos mais prejudicados "é preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização". Talvez possa ajudar nos lembrarmos de Teilhard de Chardin (O Fenômeno Humano, Editions Du Seuil, 1955), quando diz que "avançamos, como que em meio às dores de um grande parto, que traz à memória a história de crises da humanidade" - a Guerra de Troia, a queda do Império Romano, a invasão dos bárbaros, a aventura das cruzadas, as grandes navegações, as grandes descobertas e invenções, a Revolução Russa, o existencialismo, o movimento hippie, a Teologia da Libertação. Estaríamos evoluindo "para um mais-ser, um ser mais pleno e definitivo; porque o Universo, o nosso Universo, não apenas está em evolução, mas é uma evolução". * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


por Washington Novaes*
e55 Entrevista

A corrida estrangeira pela terra brasileira

“Apesar de pequenos agricultores produzirem quase a metade dos alimentos no mundo, eles constituem a população mais fragilizada, em situação de miséria e fome, cuja ausência de titularidade ou posse da terra os torna mais vulneráveis”, constata a socióloga Maíra Martins. A compra de terras por empresas estrangeiras está aumentando em “países cuja governança sobre a terra é frágil, as negociações são pouco transparentes e, em muitos casos, sem consulta prévia às populações envolvidas ou potencialmente atingidas pelos empreendimentos”, informa Maíra Martins, pesquisadora da ActionAid Brasil à IHU On-Line. Segundo ela, os dados do relatório “Situação da Terra”, realizado pela ONG, indicam que, diante da crise econômica internacional, “a garantia do direito à terra, acesso aos territórios e meios de vida das comunidades e populações pobres no meio rural é crucial para o combate à fome e para a redução das desigualdades no mundo”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Maíra esclarece que a aquisição das terras aumentou após a crise econômica de 2007 e 2008. “No contexto da crise financeira e econômica, muitos investidores voltaram-se para o mercado de terras. A chamada ‘corrida por terras’ se deve também à demanda por biocombustíveis e matérias primas, com destaque para algumas commodities como milho, soja, cana-de-açúcar, dendê e florestas plantadas (eucalipto), cultivos estes voltados para exportação”. E acrescenta: “Estima-se que as transações com terras, cuja média era de 4 milhões de hectares por ano até 2008, saltaram para 45 milhões de hectares somente entre outubro de 2008 e agosto de 2009, sendo grande parte dessas negociações, em torno de 75%, no continente africano”. O processo de estrangeirização das terras brasileiras ocorre desde os anos 1970, mas a partir de 2008, “também houve a intensificação da participação de estrangeiros em investimentos agropecuários, bem como na aquisição de terras no Brasil, acompanhando a tendência global”, informa. De acordo com a pesquisadora da ActionAid, o continente Africano é o principal alvo de interesse das empresas. “Em 2010, o Banco Mundial estimou que cerca de 46 milhões de hectares de terra agricultáveis haviam sido negociados no continente. Grande parte dessas aquisições ocorre em países com altos índices de fome e pobreza, cuja legislação e governança sobre a terra são frágeis, bem como os meios para proteger os direitos das populações afetadas”. Maíra Martins é assessora de pesquisa e políticas da ActionAid Brasil, socióloga e mestre em Ciências Sociais com foco em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ. Confira a entrevista. IHU On-Line – Quais são os dados mais preocupantes do relatório “Situação da Terra” em relação à compra de terras tradicionais por empresas estrangeiras e a crise alimentar? Maíra Martins – O relatório trata do problema das aquisições de terra em larga escala em países em desenvolvimento. Dividido em duas partes, na primeira apresenta os impactos da corrida por terras para as comunidades rurais e, em especial, para as mulheres. Na segunda parte analisa a situação de 24 países no que concerne a sua situação fundiária e sua capacidade (política, legal e jurídica) para proteger os direitos territoriais das populações e comunidades, cujo meio de vida depende da terra e dos recursos naturais. Chama atenção para o fato de que grande parte dos investimentos em compras de terras tem se dado em países cuja governança sobre a terra é frágil, as negociações são pouco transparentes e, em muitos casos, sem consulta prévia às populações envolvidas ou potencialmente atingidas pelos empreendimentos. Apesar de pequenos agricultores produzirem quase a metade dos alimentos no mundo, eles constituem a população mais fragilizada, em situação de miséria e fome, cuja ausência de titularidade ou posse da terra os torna mais vulneráveis. No caso das mulheres a situação é mais grave: embora tenham papel crucial na agricultura e reprodução dos modos de vida, possuem apenas 2% de toda a terra globalmente. Assim, no contexto de crise dos preços dos alimentos e fome no mundo, a mensagem central do relatório é de que a garantia do direito à terra, acesso aos territórios e meios de vida das comunidades e populações pobres no meio rural é crucial para o combate à fome e para a redução das desigualdades no mundo. IHU On-Line – Desde quando está em curso a estrangeirização de terras no Brasil e nos demais países da África e da Ásia? Maíra Martins – Após a crise dos preços dos alimentos em 2007-2008, identifica-se o aumento expressivo da aquisição de terras em larga escala. No contexto da crise financeira e econômica, muitos investidores se voltaram para o mercado de terras. A chamada “corrida por terras” se deve também à demanda por biocombustíveis e matérias primas, com destaque para algumas commodities como milho, soja, cana-de-açúcar, dendê e florestas plantadas (eucalipto), cultivos estes voltados para exportação. Estima-se que as transações com terras, cuja média era de 4 milhões de hectares por ano até 2008, saltaram para 45 milhões de hectares somente entre outubro de 2008 e agosto de 2009, sendo grande parte dessas negociações, em torno de 75%, no continente africano. No caso do Brasil, o processo de estrangeirização das terras não é necessariamente novo: a cooperação nipo-brasileira para o desenvolvimento da agricultura nos Cerrados, na década de 1970, é considerada um importante marco desse processo por pesquisadores. Contudo, tem sido verificado que, a partir de 2008, também houve a intensificação da participação de estrangeiros em investimentos agropecuários, bem como na aquisição de terras no Brasil, acompanhando a tendência global. IHU On-Line – Entre os países da América Latina, África e Ásia, é possível apontar em qual dos continentes há maior disputa pelos territórios e onde as empresas estrangeiras mais compram terras? Quais os interesses das empresas nesses países? Maíra Martins – O continente africano tem sido o principal alvo dos interesses das empresas em aquisições e terras. Em 2010, o Banco mundial estimou que cerca de 46 milhões de hectares de terra agricultáveis haviam sido negociados no continente. Grande parte dessas aquisições ocorre em países com altos índices de fome e pobreza, cuja legislação e governança sobre a terra são frágeis, bem como os meios para proteger os direitos das populações afetadas. As empresas, por outro lado, buscam boas oportunidades de investimento, nesse sentido, encontram facilidades para compra de terras ou contratos de arrendamento, incentivos fiscais, preços de terra mais baratos, bem como populações fragilizadas por não possuírem garantias legais. IHU On-Line – Que empresas participam desse comércio de terras? Quais as implicações dessas negociações? Maíra Martins – Diversos setores participam das negociações por terras, desde fundos de investimento e especuladores – cujo interesse é a valorização da terra, como empresas nacionais e multinacionais de produção de etanol, eucalipto, milho, soja – até setores da mineração e outras indústrias extrativas. IHU On-Line – O que muda em relação à produção agrícola uma vez que as empresas estrangeiras são donas dos territórios? Maíra Martins – Territórios que antes eram habitados ou produzidos por uma comunidade, bem como seus recursos naturais (água, solo, fauna, etc.), são monopolizados nas mãos de poucos, geralmente convertidos em regiões de monocultivos para exportação, com alto uso de agrotóxicos, intenso consumo dos recursos hídricos e poluição do ar ou do subsolo. Dependendo do setor, emprega-se pouca mão de obra, não contribuindo muito para o desenvolvimento local. IHU On-Line – Qual o posicionamento dos governos desses países em relação à compra de terras nacionais? Maíra Martins – Para muitos governos a entrada de investimentos estrangeiros no país é tida como oportunidade de geração de renda e emprego para as comunidades, além de ser uma oportunidade de transferência de tecnologia. Sabemos que não é esse processo que tem sido noticiado e denunciado por muitas organizações ao redor do mundo. Nesse sentido, há discussões em âmbito internacional e em muitos países sobre maneiras de fortalecer os mecanismos de governança sobre a terra e regular os investimentos das empresas, cobrando mais responsabilidades dos investidores estrangeiros. Mais de cem países do Comitê Global de Segurança Alimentar endossaram as diretrizes globais voluntárias sobre a gestão responsável da posse da terra e os direitos de acesso à terra, à pesca e aos recursos florestais. No entanto, por serem voluntárias, é necessário que os países adaptem aos seus contextos nacionais e incorporem os princípios e recomendações em formato de legislação. IHU On-Line – Qual a situação específica do Brasil? É possível estimar que percentual do território brasileiro já pertencente a empresas estrangeiras? Maíra Martins – O Brasil possui uma estrutura fundiária extremamente concentrada, resultado de nosso processo histórico, da maneira como a terra tornou-se propriedade privada e também reserva de valor. Como demonstra os dados do último censo agropecuário, as pequenas propriedades rurais, com menos de dez hectares, ocupam apenas 2,7% da área total dos estabelecimentos rurais, algo torno de 7,8 milhões de hectares, um terço do que, por exemplo, é hoje ocupado somente com a soja. Ao mesmo tempo em que assistimos a expansão das fronteiras agrícolas para as monoculturas de exportação, com forte investimento estrangeiro, os processos de reforma agrária, de demarcação de territórios indígenas e quilombolas estão quase parados. Há também fragilidades nos cadastros dos imóveis, revelando o fraco controle do estado sobre a governança da propriedade da terra no Brasil. Isso afeta uma identificação precisa das aquisições de terras por estrangeiros. Dos 850 milhões de hectares em terras no Brasil, apenas a metade está cadastrada como imóvel rural no sistema nacional de cadastro rural do Incra. Desse modo, é difícil definir percentuais sobre o território. Segundo estudos do Nead, baseado nas fontes do Sistema Nacional de Cadastro Rural – SNCR do Incra, em 2008 existiam 34.632 registros de imóveis em mãos de estrangeiros, equivalente a uma área total de 4 milhões de hectares, parte significativa desses imóveis classificados como grandes propriedades rurais. IHU On-Line – O comércio de terras em larga escala tem estimulado o aumento do preço dos alimentos e a produção dos biocombustíveis. Quais as razões dessas consequências? Maíra Martins – O interesse por terra para atender à demanda por commodities agrícolas ou para especulação tem provocado o aumento do preço da terra e a substituição de cultivos essenciais para segurança alimentar por produtos voltados para exportação. Esse processo reforça a tendência para concentração fundiária e monopólio, contribui para o encarecimento dos preços dos alimentos devido ao aumento dos custos de produção (preço da terra, distância e transporte etc.) e redução de oferta de alimentos. IHU On-Line – Como esse comércio tem prejudicado as comunidades tradicionais e pequenos agricultores em todo o mundo? Quais os riscos de acirrar ainda mais a crise alimentar? Maíra Martins – A pressão sobre as terras tem provocado o deslocamento de muitas comunidades – às vezes por processos violentos e conflituosos – inviabilizando seus modos de vida e formas de reprodução de sua cultura. Por não terem a propriedade ou posse da terra, as populações rurais mais pobres são facilmente deslocadas e expropriadas e, para aqueles que possuem a titulação, a pressão inflacionária do preço da terra e a chegada de investimento ao redor inviabilizam a permanência em suas terras, levando-os à venda ou arrendamento. Por exemplo, podemos imaginar uma família de pequenos agricultores que estão cercados por fazendas de cana de açúcar, com intenso uso de agrotóxicos, ocorrências de queimadas, e assoreamento dos rios, frequentemente assediadas para vender ou arrendar suas terras. Muitos são os riscos para a crise alimentar. Esse processo recente de aquisições de terras vai na contramão do que se considera necessário para garantir a produção de alimentos, reduzir os impactos das crises dos preços e inflação. Essa busca por terras contribui para agravar a concentração de terra, renda e investimentos em alguns setores, sobretudo na distribuição, pressionando os preços e contribuindo para inflação. Como dito acima, os agricultores familiares são aqueles que produzem grande parte dos alimentos consumidos no mundo. É preciso políticas que fortaleçam pequenos agricultores, comunidades tradicionais, dando-lhes acesso à terra e meios de produzir alimentos e reproduzir seus modos de vida com dignidade. * Publicado originalmente no site IHU Online.


por Redação do IHU Online
e4 Artigo

Desnacionalização e revolução

Desde há séculos o Brasil carece de governo autônomo, capaz de promover o progresso econômico e social. A independência proclamada em 1822 não se traduziu em autonomia real, pois o país atravessou o Império e os primeiros anos da República sob tutela financeira e política da Inglaterra, até o final da Primeira Guerra Mundial, e do império anglo-americano desde então. 2. Os lampejos de autonomia duraram pouco, logo apagados por intervenções da oligarquia mundial. Assim, nos anos 1840, com a tarifa Alves Branco, uma tentativa de viabilizar o surgimento de indústrias nacionais. Também, com os empreendimentos abrangentes do Barão de Mauá, dos anos 1850 aos 1880, e com iniciativas limitadas, como a fábrica de linhas de Delmiro Gouveia em Alagoas, 1912-1917. 3. Os avanços na redução da dependência econômica foram contidos ou anulados pela dependência política. E esta decorreu da subordinação da economia agrária e exportadora de bens primários aos interesses comerciais e industriais de potências estrangeiras. 4. Quando Getúlio Vargas promoveu maior grau de autonomia nacional - de 1934 a 1945 e de 1951 a 1953 -, as potências hegemônicas - coadjuvadas pelas “classes conservadoras” locais e pela mídia venal – montaram complôs para desestabilizar e derrubar o governo. 5. Como Vargas antes, João Goulart, em 1962-1963, não se precaveu diante das maquinações imperiais, tarefa difícil em regime “democrático” no qual o poder financeiro determina o processo político. 6. Mesmo sendo escassa a proteção tarifária e a não-tarifária, e operassem no Brasil vários cartéis e grandes empresas estrangeiras, surgiram numerosas indústrias de capital nacional substituidoras de importações na segunda metade do Século XIX e na primeira do Século XX. 7. Cito quatro livros que o demonstram: Warren Dean, A Industrialização de São Paulo (1880-1945); Edgard Carone, O Centro Industrial do Rio de Janeiro e sua Importante Participação na Economia Nacional (1827-1977), ed. Cátedra, Rio 1978; Delso Renault, 1850-1939 O Desenvolvimento da Indústria Brasileira, SESI; Eli Diniz, Empresário, Estado e Capitalismo no Brasil 1930-1945, ed. Paz e Terra, SP 1978. 8. O próprio Vargas só restringiu investimentos estrangeiros em poucos setores e demorou a notar o volume das remessas de lucros ao exterior, o que está longe de ser único dos prejuízos que eles causam à economia. 9. As potências imperiais realizaram seus objetivos a partir de Café Filho, fantoche dos entreguistas civis e militares (1954). JK, eleito em 1955, pelos votos getulistas, ampliou os benefícios ao capital estrangeiro. 10. Daí não terminou mais a escalada de desnacionalização, não obstante se terem criado estatais na área produtiva – privatizadas de forma vergonhosa a partir de 1990 -, tendo o Estado feito também investimentos nas infraestruturas econômica e social. 11. O poder público subsidiou as transnacionais, e esmagou empresas nacionais. 12. Resultado: em 1971, o capital estrangeiro já controlava setores importantes: mercado de capitais, 40%; comércio externo, 62%; serviços públicos, 28%; transportes marítimos, 82%; transporte aéreo externo, 77%; seguros, 26%; construção, 40%; alimentos e bebidas, 35%; fumo, 93,7%; papel e celulose, 33%; farmacêutica, 86%; química, 48%; siderurgia, 17%; máquinas, 59%; autopeças, 62%; veículos a motor, 100%; mineração, 20%; alumínio, 48%; vidro, 90%. 13. Em 1971, o estoque de investimentos diretos estrangeiros (IDEs) não chegava a US$ 3 bilhões. Em 2011, atingiu US$ 669,5 bilhões. 14. O montante de 2011 é 40 vezes maior que o de 1971, atualizado para US$ 16, 6 bilhões. No período, o PIB, em dólares corrigidos, só se multiplicou por 6. 15. Os IDEs referem-se só às empresas com maioria de capital estrangeiro, não aos “investimentos estrangeiros em carteira” (participações no capital de empresas e aplicações em títulos públicos e privados). Esses acumularam US$ 597 bilhões até 2011. Os empréstimos, US$ 190 bilhões. A soma dá quase US$ 1,5 trilhão. 16. É fácil emitir dólares do nada e com eles comprar ativos. Mais: grande parte dos IDEs é reinvestimento de lucros, e quantia muitíssimo maior que a dos ingressos foi remetida ao exterior a título de lucros, dividendos, juros, afora os ganhos camuflados em outras contas do balanço de transações correntes. Disso originou-se a dívida pública, fator de empobrecimento e de dependência. 17. A desnacionalização prossegue galopante. Conforme a “Pesquisa de Fusões e Aquisições” da consultoria KPMG, 247 empresas foram adquiridas por transnacionais de janeiro a setembro de 2012. Em todo o ano de 2011, haviam sido 208. De 2004 para cá, foram 1.247. 18. Em 2012, destacam-se: tecnologia da informação (33); serviços para empresas (20); empresas de internet (19); supermercados, açúcar e álcool (35); publicidade e editoras (10); alimentos, bebidas e fumo (10); mineração (9); óleo e gás (8); educação (7); shopping centers (7); imobiliário (7). 19. Ainda mais estarrecedora que a avassaladora ocupação da economia brasileira é a persistência na mentalidade de que os investimentos estrangeiros beneficiam a economia. 20. Não houve evolução, desde os anos 50 e 60, no entendimento da realidade. Continuam sendo escamoteadas as causas do enorme atraso tecnológico do país e disto tudo: pobreza, insegurança, infraestrutura lastimável, desagregação social, desaparelhamento da defesa e cessão de territórios a pretexto de proteção ao ambiente e a indígenas. 21. O impasse da economia brasileira, prestes a desembocar em dificuldades ainda maiores, sob o impacto da depressão nos países centrais, decorre das percepções errôneas, subjacentes às recomendações da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina da ONU) e à política “desenvolvimentista” de JK. 22. Estas foram as falsas premissas, ainda não atiradas ao lixo, como deveriam ter sido há muito tempo: 1) a industrialização como meta em si mesma, independente da composição nacional ou estrangeira e do grau de concentração do capital; 2) o capital estrangeiro tido por necessário para suprir pretensa insuficiência local de recursos. 23. As políticas decorrentes dessas ideias redundaram na desindustrialização e na descapitalização do país. Ignora-se a experiência histórica – sempre confirmada - de nunca ter existido real desenvolvimento em países nos quais predominem os investimentos estrangeiros. 24. Recorde-se que, de 1890 a 1917, ano da débâcle na guerra e da revolução, o volume de investimentos estrangeiros na Rússia foi cerca de três vezes superior ao do capital nacional. * Adriano Benayon é doutor em Economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento, editora Escrituras, SP. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Adriano Benayon*
Furacão Sandy visto do espaço. Foto: NOAA Inter Press Service - Reportagens

Olá, sou Sandy

[caption id="attachment_69400" align="aligncenter" width="500" caption="Furacão Sandy visto do espaço. Foto: NOAA"][/caption]   Uxbridge, Canadá, 30/10/20121 – Olá, aqui é o furacão Sandy. As pessoas me chamam de “Frankentormenta”, “supertormenta”, e inclusive de “bomba meteorológica”. A verdade é que não pretendo prejudicar ninguém. Mas uma umidade atmosférica e um calor oceânico sem precedentes me deram um poder incontrolável. Lamento dizer que tenho tanta potência eólica que estou colocando o mar dentro de suas salas ao longo de toda a costa leste dos Estados Unidos, no Oceano Atlântico. O mar é como uma saladeira cheia de água e inclinada de tal modo que esta só pode derramar. Meus ventos chegam a 150 quilômetros por hora. Perderão velocidade na medida em que adentrarem na terra, mas até então terão empurrado tanta água sobre a costa que haverá inundações por toda parte e durante toda a noite de ontem para hoje. Inundações causadas por tantas ondas recordes já ocorreram em várias áreas de Nova Jersey. E continuarão assim nesse Estado e em seu vizinho Nova York. Provavelmente cause danos de milhares de milhões de dólares em Washington, Nova York, Boston e outras partes do nordeste dos Estados Unidos. E seguramente matarei várias pessoas. Já o fiz. Cerca de 60 perderam a vida quando passei por Jamaica, Cuba e Haiti há alguns dias. Sou uma força da natureza, mas é importante entenderem que isto não é minha culpa. Nasci apenas no dia 22 deste mês nas águas quentes do sudoeste do Mar do Caribe, como um conjunto de tempestades elétricas e chuva, o que vocês chamam de depressão tropical, primeiro estágio na formação de um furacão. Uma das raridades do meu nascimento foi que aconteceu bem no final da temporada de furacões. Mas isto acontece cada vez com maior frequência, na medida em que o clima esquenta e grandes partes do oceano conservam o calor por mais tempo. O ar e a água estão mais quentes porque agora a atmosfera tem centenas de milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) procedentes da queima de carvão, petróleo e gás, bem como do desmatamento, da agricultura e das indústrias. Vocês sabem que o CO2 é como uma cobertura que mantém o planeta temperado, retendo parte do calor provocado pelos raios solares. Mas essas centenas de milhões de CO2 que vocês, humanos, lançam na atmosfera fazem com que esta cobertura seja cada vez mais grossa e capture mais calor do Sol. Esta quantidade extraordinária de energia calorífica presa equivale à explosão de 400 mil bombas atômicas, como a lançada sobre Hiroshima, a cada dia, 365 dias por ano. A maior parte desse calor extra foi para os oceanos. Por isso as temperaturas terrestres aumentaram, em média, apenas oito décimos de grau desde a era pré-industrial. Os mares estão mais e mais quentes, levando suas águas a se expandirem, como a onda formada quando o leite ferve. Esta é uma razão para a elevação do nível do mar; a outra é o derretimento das geleiras e dos gelos polares. O ar mais quente também pode carregar mais umidade. As medições realizadas mostram que agora há entre 4% e 6% mais vapor de água no ar, por isso as precipitações são mais intensas. Nasci na água a uma temperatura não inferior a 28 graus. Para crescer forte, preciso de água temperada e ar bem carregado de umidade. Havia abundância de ambos na semana passada, e na noite do dia 22 a velocidade dos meus ventos era suficientemente forte para ser batizada de tempestade tropical. No dia 24 estava mais poderosa e me deram o nome de furacão Sandy, o décimo da temporada. Este ano já aconteceram 18 tempestades tropicais, por isso 2012 pode se converter no terceiro ano de maior atividade ciclônica da história. Nós, furacões, vivemos sobre a água quente e o ar úmido. Por isto, perdi potência quando passei pelas montanhas e colinas da Jamaica e de Cuba. Mas a extensa área de águas incomumente quentes, que se estendem da Flórida até o norte da costa leste dos Estados Unidos, me forneceram a energia para continuar existindo e crescer em poder e tamanho. De fato, sou tão grande que poderia ser o maior registrado até agora. Isto tampouco deve surpreender. O calor crescente retido na cobertura de CO2 é o combustível das tempestades e da crescente umidade para chuvas mais copiosas e mais inundações do que no passado. E a elevação do nível do mar significa que as ondas serão mais destrutivas. Durante milhões de anos, nós, furacões e tufões, fomos a forma que a Terra encontrava para redistribuir o calor. Imaginem que somos como gigantescas válvulas de pressão. Quando o calor atmosférico aumenta, como agora, ninguém deve se assustar por sermos maiores e mais potentes. Já disse que sou uma força da natureza. Muitos dirão que sou um ato de Deus. Contudo, agora sabemos que isso não é verdade, certo? Ontem pela manhã virei rumo norte-noroeste e estou a cerca de 400 quilômetros a sudeste de Nova York. Já devo ser a tempestade de maior tamanho, com uma extensão total de aproximadamente 3.200 quilômetros. Queria permanecer sobre o mar aberto, mas uma grande coluna de ar frio e alta pressão sobre a região dos Grandes Lagos me colocaram neste rumo. A iminente colisão entre esse frio e o ar muito quente e úmido me tornará mais forte e perigoso. É impossível dizer com certeza se o derretimento do gelo marinho do Ártico, que este ano atingiu um recorde histórico, tem alguma responsabilidade nisto. Sei que a maior parte do gelo do Ártico derreteu em 2012. O gelo reflete a energia solar, mas o oceano escuro a absorve. Para que o Ártico volte a congelar, deve livrar-se do calor, lançando-o na atmosfera. Agora, precisamente ali, há quantidades recordes de energia calorífica saindo do mar e entrando no ar. Isto vem acontecendo a cada outono boreal nos últimos anos. Novamente, não devem se surpreender pelo fato de a liberação de todo esse calor extraordinário alterar os padrões meteorológicos. A corrente em jorro, os ventos oeste-leste que atuam como fronteira entre o frio ártico e as latitudes médias mais temperadas, está perdendo força, movendo-se mais para o norte e tornando-se mais errante. Outro fator que me impulsiona para dentro do território dos Estados Unidos é uma maciça cúpula de alta pressão localizada no sudoeste da Groenlândia. Sem esse bloco de alta pressão, possivelmente tivesse resistido ao empuxe do sistema de baixa pressão e permanecido no mar. Esse sistema de alta pressão está parado ali há duas semanas; os bichos raros da meteorologia o chamam de “evento de obstrução”. Já produziu uma extensão recorde de altas temperaturas e um degelo também recorde na Groenlândia. Sim, estou usando muito a palavra “recorde”. É porque o clima enveredou por um terreno desconhecido. O calor e a seca sem precedentes do recém-terminado verão boreal nos Estados Unidos são apenas um exemplo. E as coisas continuarão mudando. As tempestades poderão ser cada vez maiores e poderemos aparecer com maior frequência ou nos apresentar em lugares em que não íamos antes. Não há como saber. De uma coisa podem estar certos: o clima dos últimos 20 séculos já não existe. Sou parte da nova normalidade. Envolverde/IPS * Fala o furacão Sandy – Blog em inglês.


por Stephen Leahy, da IPS

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