Pensar o desenvolvimento

Desenvolvimento

Pensar o desenvolvimento


por Silvio Caccia Bava*


[caption id="attachment_49919" align="alignleft" width="370" caption="Ilustração: Claudius"][/caption]Estamos, aos poucos, retomando uma trajetória interrompida: a discussão pública acerca dos rumos do desenvolvimento brasileiro. Bloqueado desde os anos 1990 pela hegemonia do pensamento neoliberal, que não se preocupa com o futuro, esse debate ganha agora nova vitalidade, quando a crise internacional obriga o governo brasileiro a traçar novas estratégias de defesa de nossa economia e sociedade, desta vez apostando em uma nova dinâmica do mercado interno, na ampliação da capacidade de consumo das maiorias.A retomada da discussão traz uma disputa entre distintos e importantes atores presentes na sociedade brasileira. As grandes corporações transnacionais, os maiores grupos financeiros, identificam desenvolvimento como sendo crescimento, e suas operações não visam ao território em que operam, mas sim sua reprodução no cenário internacional, e levam as riquezas geradas no Brasil para o circuito financeiro internacional. O território, nessa concepção, é sua plataforma de acumulação. Não há preocupações com a qualidade de vida no local nem com a sustentabilidade ambiental. E se os fatores de produção ficarem mais baratos em outro lugar, então se mudam para lá.Já os pequenos e médios empreendimentos não têm os mesmos objetivos. Eles são dependentes dos consumidores presentes em seu território e que nele vivem. Sua existência está condicionada à evolução da economia e da sociedade local. São a grande maioria, mais de seis milhões de micro e pequenas empresas.Outro setor importante, outros atores, são os 64% da população economicamente ativa que estão no setor informal de nossa economia, que em muitos casos se articulam de maneira cooperativa e solidária, e não se pautam por relações capitalistas de produção, pela exploração do trabalho, mas lutam pela sobrevivência contando com pouco apoio de políticas públicas para sua reprodução.A discussão sobre estratégias de desenvolvimento precisa acolher e articular em sua formulação esses distintos atores, e subordinar os interesses de lucro à função social da propriedade e da produção, isto é, ao fortalecimento dos agentes que atuam e vivem no território.Articular esses distintos atores na ótica da defesa do interesse público e do desenvolvimento do território é papel do Estado e significa uma ruptura com as políticas que apoiavam e financiavam as grandes corporações e o “livre mercado”. Nunca houve o “Estado mínimo” preconizado pela doutrina do Consenso de Washington. O Estado sempre teve papel determinante para garantir as condições de reprodução dos interesses transnacionais no território. Agora a discussão é se o Estado pode cumprir outro papel, atendendo à demanda de outros atores da sociedade.Pernambuco, por exemplo, está vivendo um boom de sua economia – portos, estaleiros, polo petroquímico, construção civil, etc. –; falta mão de obra especializada e o regime é de pleno emprego, mas não há qualquer preocupação com a questão social e ambiental. Ainda vigora a concepção de que crescimento é igual a desenvolvimento, mesmo que ele continue a gerar desigualdade e pobreza.Da mesma forma, nosso plano nacional de energia precisa acelerar seus investimentos para garantir o suprimento e assim sustentar o crescimento econômico. Não saiu da pauta a construção de usinas nucleares e termelétricas, que atendem aos interesses de investimentos transnacionais, mas estão sendo questionadas na Europa como formas perigosas e ultrapassadas de enfrentar a questão, principalmente depois do acidente de Fukushima. O desastre ambiental modificou a política de muitos países, que suspenderam investimentos em energia nuclear e pretendem fechar as usinas em operação. Nós, não. Continuamos com os planos de antes, como se nada tivesse acontecido.A disputa pelas alternativas de desenvolvimento está na ordem do dia, potenciada pela necessidade de o Brasil se defender da invasão de produtos mais baratos; de o Brasil se defender do “tsunami financeiro” mencionado pela presidente Dilma.São necessidades de curto, médio e longo prazos que precisam ser combinadas. Elas podem convergir para a criação de um novo modelo de desenvolvimento, como podem também manter a estratégia de facilitar os negócios das grandes empresas. A questão não é técnica, mas política. A quem beneficiará o novo modelo? É possível continuar com a estratégia de manter as facilidades para os grandes negócios e aumentar a renda e a capacidade de consumo dos mais pobres? Se a economia deixar de crescer ao ritmo dos últimos anos, vai acabar esse jogo em que todos ganham? Quais são os atores que podem impulsionar o surgimento de um novo modelo de desenvolvimento, este, sim, sustentável?Essas e outras perguntas estão ganhando espaço e importância na sociedade civil, estão sendo debatidas por grupos que buscam recuperar o papel da cidadania na definição dos rumos da nação. Bem-vindos os debates sobre as alternativas de desenvolvimento!* Silvio Caccia Bava é editor do Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador-geral do Instituto Pólis.** Publicado originalmente na área de editorial do site Le Monde Diplomatique Brasil.

Apesar dos progressos, taxas estão acima da média mundial. Crédito: Reprodução/Internet) Crédito

Queda de juros, problemas à vista

Juros bancários cobrados no país começaram a cair, mas a parte mais difícil ainda está por vir.[caption id="attachment_49916" align="alignleft" width="270" caption="Apesar dos progressos, taxas estão acima da média mundial. Crédito: Reprodução/Internet"][/caption]“Histórica”, “drástica”, “imbatível”: ninguém pode acusar a Caixa Econômica Federal, o quarto maior banco da América Latina, de minimizar o impacto dos seus mais recentes cortes de juros. Em qualquer lugar, exceto no Brasil, os cortes das taxas de crédito oferecidos se pareceria mais com usura. Juros sobre contas com saldos negativos, por exemplo, caíram de 157% ao ano para 51%. Os clientes cujos salários são pagos em uma conta da Caixa, em breve terão disponível um cartão de crédito com juros de 2,85% mensais, o que antes era de 12,86%. No entanto, a Caixa não está exagerando sobre a ruptura com o passado que as novas taxas representam. Para os brasileiros com memória recente da hiperinflação, juros de 51% ao ano são um ótimo negócio.Agora o governo está tentando forçar o ritmo. Em 18 de abril, o Banco Central fez um corte de juros pelo sexto ano consecutivo, trazendo-os para 9%. Autoridades brasileiras veem a repressão da demanda global como uma oportunidade para redefinir as taxas a um nível inferior, sem o risco de um retorno a uma inflação mais elevada.No entanto, funcionários do governo acreditam que grandes bancos do país exercem um robusto poder no mercado, e temem que eles devorem os benefícios em vez de passá-los aos consumidores. Como resultado, eles recorreram à intimidação, arrastando os banqueiros para o Ministério das Finanças e ordenando que cortem taxas e emprestem mais.Política monetária e pressãoNo início de abril, Murilo Portugal, o presidente da Febraban, Federação Brasileira dos Bancos, se reuniu com Guido Mantega, o ministro das Finanças. Ele sugeriu que os requisitos de reserva e impostos mais baixos, juntamente com mais direitos para os credores, ajudariam a reduzir as taxas. Mantega rebateu publicamente dizendo que as condições já estavam ideais para os bancos brasileiros deixarem de ser os “campeões mundiais de crescimento”. Ele sugeriu que os cortes poderiam sair dos lucros dos bancos.A combinação de política monetária e pressão parece estar funcionando. Assim como a Caixa e o Banco Central, outros grandes bancos reduziram o custo do crédito ao consumidor nas últimas semanas. Em 16 de abril, o HSBC reduziu a taxa de empréstimos para seus clientes de menor risco no Brasil, e no dia seguinte, o Santander disse que daria a pequenas empresas um crédito mais barato. Em 18 de abril, Bradesco e o Banco do Brasil disseram que vão cortar taxas também.Apesar desses progressos, tanto a taxa de juro do Banco Central como a margem entre os custos de empréstimos que os demais bancos cobram para o crédito permanecem em níveis bem acima de outros países.As cobranças no crédito ao consumidor, em particular, são enormes pelos padrões internacionais, só recentemente a taxa caiu para menos de 30%. Elevados custos de empréstimos são amplamente citados como uma razão para a taxa de crescimento do Brasil estar 4% aquém da tendência de outras grandes economias emergentes, como a China ou a Índia. Infelizmente, agora, cortes adicionais na taxa serão muito mais difíceis de serem alcançados.Uma barreira é a conta de poupança apoiada pelo governo, que oferece, garantido por lei, 6,17% de isenção de impostos de juros anual. Isto coloca um piso de cerca de 8,5% abaixo da taxa da política do Banco Central, e uma vez em queda, provavelmente, vai provocar uma migração em massa de títulos de taxa flutuante do governo. Essa barreira define o ponto de referência para outras contas de poupança também. Mas o governo se esquivou da luta política que seria necessária para mudar as regras.Empréstimos subsidiados às empresas favorecidas pelo banco de desenvolvimento do país, o BNDES, são outro obstáculo. Para estimular a demanda, o Banco Central tem que manter a taxa básica mais elevada do que seria necessário para controlar a inflação.A lista dos empréstimos do BNDES tem crescido substancialmente nos últimos anos, e suas taxas estão fortemente subsidiadas, como sempre. Em 16 de abril, seu presidente, Luciano Coutinho, disse que seriam dados muito mais créditos neste ano, como parte de um pacote de estímulo do governo.Porém, a maior culpada de tudo é a baixa taxa de poupança do Brasil, que tem média de apenas 16,5% desde meados da década de 1990. Se chegasse a 22,6%, permitiria que a taxa básica caísse por mais de dois pontos percentuais, sem correr o risco de uma inflação mais elevada, calcula Alex Segura-Ubiergo, do FMI. Se o aperto vem principalmente da poupança pública, o efeito seria ainda mais enfático. Mas não há sinal de que isso aconteça. Ao contrário, as previsões de analistas têm um consenso: “a inflação volta a subir ainda este ano. Isto forçará o Banco Central a elevar as taxas. O descanso para os mutuários brasileiros pode não durar”.Tradução: Opinião e Notícia* Publicado originalmente pelo The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação The Economist
Cartaz convoca mobilização mundial dos novos movimentos, em 12/5 próximo. Capitalismo

Capitalismo, movimentos e a grande encruzilhada

Novo livro sobre revoltas de 2011 sugere: sistema continua à deriva; sua crise gerará pesadelos; projetos alternativos precisam amadurecer rápido.[caption id="attachment_49910" align="alignleft" width="300" caption="Cartaz convoca mobilização mundial dos novos movimentos, para 12 de maio."][/caption]Saiu há semanas, na Inglaterra, um livro especialmente provocador, sobre os movimentos rebeldes de 2011. Seu título, em português, poderia ser "Por que tudo está começando"(1). Seu autor, o jornalista britânico Paul Mason, cobriu quase todas as revoltas sociais que marcaram o ano passado: Cairo, Madri-Barcelona, Atenas, Londres, Madison, Nova York. Mas a obra vai muito além do relato factual. Mason, um repórter experimentado [aqui, seu blog e verberte na Wikipedia], hoje na BBC, é também estudioso incomum da história das revoluções e do movimento operário, das mutações do capitalismo, das teorias sobre redes, políticas horizontais e internet. Ao articular vivência real nas ruas rebeladas com ferramentas teóricas capazes e potentes, ele pode chegar a três grandes hipóteses – tão esperançosas quanto perturbadoras. Elas aparecem em duas entrevistas recentes: uma, ao site norte-americano Alternet, outra, à revista londrina Red Pepper, traduzida e reproduzida alguns parágrafos adiante.A primeira hipótese de Mason está diretamente relacionada ao título do livro. Ele ressalta que, apesar de terem surgido em cenários políticos, sociais e culturais muito distintos – de um Egito empobrecido e governado com mão de ferro à opulenta e liberal Wall Street –, há uma identidade crucial entre as rebeliões de 2011. Todas elas foram deflagradas pelo “colapso” (aqui, não há meias palavras) do padrão de acumulação capitalista inaugurado no início dos anos 1980.Mason julga que a crise devastou a capacidade do neoliberalismo para produzir algo sem o que nenhum sistema se sustenta: esperanças e consensos. Até 2008, elas se mantinham, graças aos diversos aspectos que a financeirização das economias assumiu. O crédito fácil e barato mascarava a redução dos salários e o aumento das desigualdades. A perda de empregos industriais era amenizada por um setor de serviços vasto e, em alguns de seus segmentos, sofisticado e florescente. Os antigos vínculos com a empresa (“sou empregado da GM”), família e nação eram substituídos pela ideia de que, ao consumir produtos de uma determinada marca, garantia-se acesso a um mundo particular (“uso um iPhone”).No momento em que estas ilusões caem por terra, ressurge (em Tunis, Tel Aviv ou Santiago) um sujeito revolucionário particular. Mason identifica-o como “o jovem bem formado e sem futuro”. Não é um personagem novo. Tipos assim, frisa o autor, foram centrais para que eclodisse a Revolução Francesa. O que os domesticou por séculos, mais tarde, foi a perspectiva de um trabalho decente e uma vida confortável. Ora, provoca Mason, “o que o neoliberalismo fez, nos últimos trinta anos, foi exatamente destruir estas barreiras”…A segunda hipótese é terrível. Ao menos no momento, o capital não tem alternativas ao declínio de sua fase pós-industrial. No vácuo, pode emergir uma tragédia. Aqui, Mason parece um ultrapessimista com alguma razão. Ele lembra, sempre com vasto conhecimento histórico: certas circunstâncias, que os movimentos muito jovens não preveem, acabam levando-os a impasses em que ambas as saídas são trágicas. Herdeira do marxismo, a social-democracia alemã dos anos 1890 esperava chegar ao poder, sem sobressaltos, num processo que se estenderia por trinta anos. A I Guerra Mundial despedaçou seus planos. De um dia para outro, foi preciso escolher entre “tornar-se um recrutador de soldados, para esmagar outros povos, ou cair na clandestinidade”. Pode ser ainda pior. Mason lembra que bastaram cinco anos, na década de 1930, para que Berlim regredisse “de capital liberal da Europa e paraíso dos clubes gays para o inferno fascista da queima de livros em praça pública”. Ele adverte: “não pense que os laços culturais podem evitar esta desgraça. A economia prevalece”.A terceira hipótese é a mais polêmica e desafiante: ela refere-se à própria natureza dos novos movimentos – suas vantagens e os limites a superar. Para Mason, a horizontalidade que os marca foi até agora uma enorme vantagem. Ela assegura a “ruptura com as hierarquias que poderiam conter o movimento”. Ao mesmo tempo, facilita sua difusão, sua “replicação por gente que não sabe nada sobre teoria”. É algo muito diferente do “conhecimento estruturado e difícil de adquirir dos anos 1970 e 1980” – que, além disso, tinha como características “verticalismo, eliminação da dissidência, tentativa de apropriação partidária das lutas coletivas e burocratização”.Também houve uma clara mudanças de projetos. O livro vê, nas rebeliões contemporâneas, uma postura centrada em valores, não no poder. Procura-se criar “áreas de civilização” – regidas por lógicas, relações e práticas não capitalistas – em meio à selvageria oferecida pelo sistema. Já deu certo, no passado. Mason refere-se, por exemplo, ao Renascimento, que surgiu, desenvolveu-se e se impôs em meio à velha ordem feudal e eclesiástica. Mas há um problema, ele ressalta: até quando o capitalismo estará aberto a esta convivência?Neste ponto, embora não abertamente, o livro está em confronto com ideias como as expressas, por exemplo, por Slavoj Zizek. Num dos artigos que escreveu à época do auge do movimento Ocupe, o filósofo esloveno sugeriu que a nova rebeldia não precisava apressar-se, para expressar o que queria; ela deveria dar a si mesmo o tempo de amadurecer seus projetos.O que Mason parece contra-argumentar é que a História não espera. Nas entrevistas, ele relata que diversos movimentos, ligados à nova cultura política, acabaram perdendo força por não responderem, a tempo, a desafios que surgiram à sua frente. É o caso do Camp for Climate, uma sequência de acampamentos por novas relações sociais com o ambiente. Espalhou-se por vários países, no Norte do planeta, mas acabou se desfazendo. Ou, num exemplo ainda mais expressivo, do UK Uncut, a grande rede britânica de ação contra os cortes de serviços públicos decretados pelo governo David Cameron. Articulou mobilizações em massa e muito bem humoradas, principalmente nas universidades, em 2010. Mas perdeu boa parte de sua força, quando não conseguiu assumir uma posição clara, diante dos atos de violência praticados por setores do movimento que diziam falar em nome da rede.O novo cenário internacional que está se abrindo, sugere Mason, vai colocar em tensão o conjunto dos movimentos rebeldes. Diante da crise do neoliberalismo, as forças políticas e setores sociais retrógrados já têm uma resposta concreta. Na Europa, crescem as organizações de extrema direita – apoiadas na tentativa de estigmatizar o outro (sejam imigrantes, homossexuais, dissidentes…) e responsabilizá-lo pela crise. Nos Estados Unidos, há o risco de o Partido Republicano conquistar a Casa Branca com um discurso que aponta para “um retorno ao capitaslimo do Século 19”: crescimento e crise, laissez-faire, desigualdade, pobreza”.Aqui, Mason lança sua pergunta crucial: “qual o equivalente a isso”, na esquerda ou nos novos movimentos? Que projeto de novo futuro está sendo apresentado a sociedades que precisam ouvir novos discursos – mas estão amedrontadas e, portanto, suscetíveis até aos apelos mais reacionários? Nas entrevistas, o autor não sugere nenhum retorno ao verticalismo. Aponta dois, entre muitos caminhos possíveis e não contraditórios entre si. O primeiro, atuar fortemente no plano das soluções parciais e locais, pois “do contrário, a parte mais conservadora da sociedade vai impor suas ideias, apoiada em ligações seculares com a estrutura e a hierarquia do poder”. Outro é tirar proveito das brechas oferecidas pela institucionalidade e construir alternativas que a desafiam – como o Partido Política Pode Ser Diferente, na Hungria. Ou (num exemplo mais recente e ainda mais expressivo) o Partido Pirata alemão, que, após um crescimento meteórico, acaba de se converter no terceiro mais popular no país.Em quatro semanas, os Indignados espanhóis celebram um ano da ocupação da Puerta del Sol, em Madri. Estão sendo preparados (para 12 de maio, um sábado) protestos em todo o mundo, inclusive no Brasil. Os movimentos que se propõem a mudar o mundo (“nem políticos, nem banqueiros”, dizia-se em toda a Espanha) precisam refletir intensamente sobre si mesmos. O livro de Mason é uma excelente provocação para tanto.Nota(1) Why It’s Kicking Off Everywhere, Verso, Londres, 2012. 244 páginas, US$ 19,95, à venda via internet.* Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Antonio Martins, do Outras Palavras
1 Entrevista

A crise capitalista de 2007-2009. As interpretações marxistas. Entrevista especial com Alex Wilhans

“Enquanto o capitalismo houver, Marx será uma referência importante para a análise da economia”, assegura o pesquisador Alex Wilhans.Ao revistar as teorias marxistas para compreender a causa e as consequências da crise financeira atual, Alex Wilhans Antonio Palludeto constata que é “difícil acreditar que o sistema capitalista está para acabar”. Autor da dissertação de mestrado intitulada Crise e capitalismo contemporâneo: uma revisão das interpretações marxistas da grande recessão (2007-2009), o pesquisador enfatiza que a crise financeira iniciada em 2007, como as demais crises do capital, “será resolvida nos marcos do capitalismo”. Em outras palavras, esclarece, “tudo caminha para que a valorização da riqueza privada continue subordinando as atividades econômicas”.Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Palludeto discorre sobre duas correntes teóricas do marxismo contemporâneo e explica como elas interpretam as turbulências do mercado financeiro. “De um lado, encontram-se aqueles que atribuem a crise à dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, ao que ficou tradicionalmente conhecido na literatura especializada como neoliberalismo. De outro, há aqueles que creditam a crise à dinâmica do sistema capitalista em geral – e não de uma etapa específica de seu desenvolvimento”, assinala.Em sua avaliação, as duas correntes teóricas apontam aspectos relevantes para a compreensão do capitalismo contemporâneo e da crise atual. Entretanto, enfatiza, “o declínio da taxa de lucro é a hipótese que mais se adequa aos fatos. Da mesma forma, não me parece que a crise recente seja resultado da dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, isto é, do neoliberalismo”.Alex Wilhans Antonio Palludeto é graduado em Ciências Econômicas pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e mestre em Economia pela mesma instituição. Atualmente é doutorando em Teoria Econômica.Confira a entrevista.IHU On-Line – Quais são hoje as correntes teóricas mais importantes do marxismo contemporâneo e como elas interpretam a causa e as consequências da crise financeira atual?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Parece-me possível identificar a existência de duas amplas abordagens entre os estudiosos marxistas que se dedicam ao exame da crise recente.De um lado, encontram-se aqueles que atribuem a crise à dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, ao que ficou tradicionalmente conhecido na literatura especializada como neoliberalismo. De outro, há aqueles que creditam a crise à dinâmica do sistema capitalista em geral – e não de uma etapa específica de seu desenvolvimento.De acordo com o primeiro grupo, as décadas de 1970 e 1980 marcam o início de um novo estágio da economia capitalista mundial, o neoliberalismo, e são os elementos constitutivos desta fase que conduziram à Grande Recessão. Entre os autores que adotam essa perspectiva, Gérard Dúmenil, Dominique Lévy, Alfredo Saad-Filho, David Kotz, John Foster, Fred Magdoff e David Harvey podem ser considerados alguns de seus principais representantes. Conforme procurei demonstrar em meu trabalho, os estudos que compõem essa vertente argumentam que as últimas décadas assistiram ao fortalecimento da classe capitalista, particularmente aquela fração que se dedica às atividades financeiras cujo poder foi supostamente restringido durante o imediato pós-guerra. Como resultado dessa mudança da relação de poder entre as classes capitalista e trabalhadora, forjou-se um arranjo institucional que provocou um aumento na desigualdade de renda, a elevação da taxa de lucro e a exacerbação da especulação financeira e do endividamento – sobretudo da classe trabalhadora, pressionada pela estagnação dos salários nas últimas décadas. A crise tem origem nesse arranjo, na estrutura institucional neoliberal que, ao combinar uma maior desigualdade de renda a um setor financeiro desregulado, propenso a atividades de maiores riscos, levou a economia a uma trajetória financeiramente insustentável.O segundo grupo, por sua vez, para o qual a crise é uma manifestação do modo de funcionamento geral do capitalismo, aponta para os movimentos da taxa de lucro e a acumulação de capital como fatores determinantes da Grande Recessão. Entre seus principais expoentes cabe citar Andrew Kliman, Alan Freeman, Guglielmo Carchedi, Nick Potts, Chris Harman, Robert Brenner e Anwar Shaikh. A tese básica, ao contrário da abordagem anterior, é de que a crise atual decorre de uma queda da taxa de lucro – que para muitos, por sua vez, é fruto da substituição de trabalhadores por máquinas. Para esses autores, o declínio da taxa de lucro inibiu o investimento e estimulou as aplicações financeiras, uma vez que a combinação de liquidez e rentabilidade que elas ofereciam tornou-se, então, bastante atraente aos olhos dos detentores da riqueza. A especulação e o subsequente colapso da pirâmide financeira que se erigiu no período foram, assim, apenas os passos seguintes em direção à crise.Discordância teóricaA implicação dessa discordância teórica me parece bastante evidente. Os primeiros, ao conceberem a Grande Recessão como resultado da dinâmica de uma etapa específica do capitalismo, sugerem a possibilidade de que uma estrutura institucional diversa poderia evitar ou mitigar a crise. Vale dizer que uma reforma adequada permitiria um capitalismo mais estável e, em certa medida, imune à crise. Os segundos, por sua vez, ao estabelecerem como causa última da Grande Recessão o que consideram ser uma tendência imanente ao sistema capitalista em geral – a tendência à queda da taxa de lucro –, são levados a argumentar pela inevitabilidade da crise.IHU On-Line – Após estudar duas correntes marxistas que atribuem causas diferenciadas para a crise financeira, qual delas explica melhor o momento atual que as principais economias do mundo estão enfrentando?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Creio que as duas vertentes teóricas que procurei delinear apontam aspectos relevantes para a compreensão do capitalismo contemporâneo e da crise recente. Com efeito, não é possível negar que a estrutura de classes, a distribuição da renda e a configuração atual do setor financeiro são importantes para a dinâmica econômica atual. Da mesma forma, os movimentos da taxa de lucro e da acumulação de capital não podem ser deixados de lado em qualquer análise que se pretenda séria.Se me for permitido destacar apenas um fator, no entanto, o declínio da taxa de lucro é, a meu ver, a hipótese que mais se adequa aos fatos. Da mesma forma, não me parece que a crise recente seja resultado da dinâmica de uma fase particular do sistema capitalista, isto é, do neoliberalismo – ao menos não nos termos em que os autores que analisei utilizam o conceito.Na verdade, a Grande Recessão é uma típica crise capitalista, manifestação da própria natureza do modo capitalista de organização da produção. Os argumentos do segundo agrupamento acima mencionado e as ilustrações empíricas que os sustentam me parecem, assim, mais convincentes para o estudo do momento atual. Esta crise, como qualquer crise tipicamente capitalista, é fruto, em última instância, da incapacidade da riqueza privada de se valorizar a um ritmo considerado satisfatório pelos capitalistas, e não resultado de um arranjo institucional de corte neoliberal.IHU On-Line – As contradições que Marx evidenciava no capitalismo do Século 19 se apresentam nos dias de hoje? Como?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Certamente. Embora tenha escrito em um contexto histórico muito particular, no qual o capitalismo ainda se restringia a determinadas porções do globo – e, mesmo nelas, sua operação se limitava a certas frações da reprodução material da sociedade –, Marx foi capaz de desvendar alguns traços constitutivos desse sistema. A mercantilização crescente da sociedade, o lucro como raison d’être da produção e o conflito entre capital e trabalho são algumas das características do capitalismo identificadas por Marx ainda mais visíveis no mundo atual. O arcabouço político-institucional que dá forma concreta a esses elementos é, naturalmente, diverso daquele da segunda metade do Século 19. Apenas para mencionar algumas dessas mudanças, em contraste com aquele período: o Estado tem uma importante participação na economia como regulador e/ou provedor direto de bens e serviços; a sociedade por ações se tornou uma das principais formas de organização empresarial e, com ela, a bolsa de valores converteu-se no palco privilegiado da concorrência intercapitalista; os sindicatos, ainda que enfraquecidos nos últimos anos, são mais numerosos e atuantes; as firmas se tornaram maiores e o oligopólio comum na maior parte das atividades econômicas. Enfim, de lá para cá, ocorreram inúmeras transformações, mas os aspectos básicos do sistema capitalista, suas contradições fundamentais, não se alteraram – ainda que a forma pela qual elas se manifestam certamente se modificou. Assim, enquanto capitalismo houver, Marx será uma referência importante para a análise da economia.IHU On-Line – Você concorda que o capitalismo está chegando ao fim, ou esta é apenas mais uma de suas crises? A partir das teorias de Marx, quais os rumos que podemos imaginar para o mundo capitalista, a partir da crise financeira internacional?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Observando a conjuntura atual, parece difícil acreditar que o sistema capitalista está para acabar. Esta crise, como tantas outras, será “resolvida” nos marcos do capitalismo. Em outras palavras, tudo caminha para que a valorização da riqueza privada continue subordinando as atividades econômicas.Tentar predizer o que, de fato, ocorrerá é, ao mesmo tempo, tentador e perigoso. Ademais, a experiência demonstra que, pelo menos em relação à economia, tal tarefa geralmente está fadada ao fracasso. No entanto, acho possível que, com cautela, se possa identificar alguns possíveis desdobramentos gerais da crise recente a partir da teoria marxista. Em primeiro lugar, a concentração do mercado deverá aumentar sobremaneira, estimulada pela onda de fusões e aquisições que a crise enseja. De certo modo, esse processo já teve início. Particularmente no setor financeiro norte-americano, as instituições sobreviventes aproveitaram a oportunidade para adquirir aquelas à beira da bancarrota e, assim, fortalecer suas próprias posições. Em segundo lugar, uma vez que os Estados têm atuado na tentativa de conter os prejuízos do setor privado e evitar que as falências se multipliquem – socializando as perdas –, é bastante provável que as economias dos países centrais passem por um longo período de estagnação. Ao se impedir que empresas quebrem, evita-se que um dos principais mecanismos “autorreguladores” do capitalismo identificados por Marx opere: a desvalorização do capital.Com a crise, empresas são fechadas, o capital se desvaloriza, a taxa de lucro se recupera para os capitalistas que restaram e, portanto, se cria um novo ambiente propício ao crescimento. Cabe destacar que este não é um processo harmonioso ou equilibrado, mas, enfim, permite que se inicie um novo ciclo econômico ascendente. Contudo, na crise atual, ao se evitar que o capital se desvalorize em maior volume, o processo de “restauração” ao qual fiz menção é interrompido e a estagnação se torna o caminho mais provável. Por fim, também é possível que a classe trabalhadora seja ainda mais prejudicada. Com a elevação das taxas de desemprego em virtude da crise – e da estagnação que se espera ocorrer –, cria-se um novo contingente de mão de obra disponível, fato que pressiona os salários para baixo.IHU On-Line – A crise do capitalismo também representa a crise da esquerda?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Não. A crise atual, na verdade, revela a crise da esquerda, mas não é sua causa. Desde as décadas de 1970 e 1980, os pensadores e ativistas de esquerda vêm perdendo terreno em todas as frentes: na academia, na cultura, na política, etc. O desmantelamento do bloco soviético e a consolidação do capitalismo em nível mundial, na passagem para os anos 1990, reforçaram ainda mais esse movimento generalizado de perda de influência. Com o aparente triunfo do sistema capitalista, restou pouco espaço para aqueles que defendiam sistemas socioeconômicos alternativos. A difusão da ideia de que, com o capitalismo e a democracia liberal, o “fim da história” havia chegado à humanidade (veja-se o livro de 1992 de Fukuyama: The end of history and the last man) é sintomático do enorme enfraquecimento da esquerda nas últimas décadas.Desestruturação da esquerdaA crise recente põe em evidência esse processo de longa data. A falta de organização dos movimentos de contestação do regime atual, a ausência da definição de objetivos claros e as propostas de transformações socioeconômicas consistentes nos dias de hoje apenas revelam a desestruturação pela qual passou a esquerda. O melhor exemplo disso são, a meu ver, as diversas manifestações recentes inspiradas nos movimentos Ocupe Wall Street, dos Estados Unidos, e 15M, da Espanha. A despeito da mobilização inicial de milhares de pessoas, a falta de uma organização que fosse capaz de direcionar o movimento, estabelecer reivindicações claras e, assim, torná-lo efetivo na implementação de mudanças na sociedade – aliado, naturalmente, à forte repressão empreendida por aqueles com compõem o status quo – fez com que em poucos meses as manifestações perdessem fôlego.Uma crise profunda como a que estamos presenciando sempre abre as portas para que transformações radicais ocorram. Ao demonstrar as fragilidades do sistema atual e possibilitar a união e o consequente fortalecimento daqueles que verdadeiramente sofrem com a crise – e a classe trabalhadora –, a Grande Recessão se apresentou como uma dessas oportunidades históricas de mudança. No entanto, para aproveitá-la a esquerda precisaria de muito mais vigor do que atualmente apresenta.IHU On-Line – Por que a economia é uma ciência que, de modo geral, desconsidera as questões sociais?Alex Wilhans Antonio Palludeto – Não creio que a economia, como ciência, seja particularmente alheia a considerações de ordem social. A impressão que tenho é de que aquilo que ocorreu com ela aconteceu também à ciência política, à sociologia e todas as demais ciências humanas – e naturais. Nos últimos 150 anos, a produção do conhecimento, nos seus mais variados ramos, atravessou um processo de compartimentalização. O trânsito entre as ciências, e até mesmo entre áreas particulares de uma mesma ciência, tornou-se cada vez menos comum. A economia não foi poupada desse movimento. É verdade que esse modo de “fazer ciência” permitiu avanços importantes na nossa compreensão do mundo; no entanto, a ausência de uma visão de conjunto, a incapacidade de pensar o objeto como um todo, trouxe também, a meu ver, diversos prejuízos – sobretudo para as ciências humanas, nas quais o recorte da realidade que se pretende analisar sempre é, de certo modo, arbitrário.Acredito que esse seja o principal fator que explique a crescente falta de comunicação e intercâmbio entre economistas, sociólogos, cientistas políticos, antropólogos... No caso da economia, a especialização certamente trouxe benefícios, mas parece-me cada dia mais necessário um programa de pesquisa interdisciplinar, de forma a impedir a fragmentação do conhecimento e, em última instância, o próprio esvaziamento do significado daquilo que chamamos de ciência econômica. É preciso relembrar aos economistas que por trás dos números e modelos há relações humanas, sociais, que transcendem a esfera propriamente econômica.* Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação IHU
1 Juros

A nova etapa da competição bancária

Como era previsto, os bancos privados acabaram seguindo os caminhos do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, de redução das taxas de empréstimo.A razão é simples: estava começando uma revoada de clientes para os dois bancos públicos, valendo-se da portabilidade – o direito de um correntista de transferir sua operação de crédito para um banco concorrente.A crise de 2008 já havia permitido um notável crescimento dos bancos públicos, ocupando o espaço aberto pelos privados, quando pisaram no freio. Aparentemente, não quiserem repetir o erro.Nas duas oportunidades – 2008 e agora – observam-se os mesmos repetidos erros de análise de comentaristas ideológicos.Em 2008, diziam que haveria um festival de inadimplência nos bancos públicos. O terrorismo provocou uma queda inicial nas ações do BB, depois de destituída uma diretoria pouco propensa a ampliar as operações. Nos meses seguintes, houve crescimento expressivo dos seus ativos, obrigando a banca privada a correr atrás do prejuízo.O mesmo ocorreu agora, com a redução expressiva, por parte do BB e da CEF, das taxas de algumas linhas de crédito.Os mesmos comentaristas de sempre prognosticaram que a iniciativa era temerária, que não seria acompanhada por outros bancos. Erraram de novo.É acachapante a incapacidade desse pessoal de analisar a dinâmica da economia, as mudanças de etapa. Fixam-se na defesa cega de privilégios, em uma visão estática da economia, em uma insensibilidade total sobre os mecanismos de funcionamento do mercado.Ainda há muito a caminhar. Mas a redução de juros – pelo Banco Central –, do spread – pela competição bancária –, quando trouxer o custo final do dinheiro para níveis civilizados, provocará uma revolução no setor bancário-financeiro.Nas últimas décadas praticamente não houve competição bancária. As escandalosas taxas de juros patrocinadas pelo BC, os lucros extraordinários, sem muito esforço, a ausência de mudanças estruturais na economia inibiram qualquer forma de competição.Em outros tempos, o processo de industrialização, o surgimento de novas atividades, o desbravamento de regiões pioneiras, permitiram que bancos se diferenciassem pela sua atividade principal: a capacidade de financiar o desenvolvimento.Foi assim com o Banco Francês e Italiano, antes da Segunda Guerra, com o Banco do Commercio e Indústria de São Paulo, financiando o café, com o Bradesco financiando a expansão da economia para o Paraná e os novos setores, com o Banco Moreira Salles montando suas alianças com grandes bancos internacionais, o BIB desenvolvendo o mercado de capitais.Nos próximos anos, crescerão os bancos que conseguirem popularizar o varejo, atender à imensa legião desbancarizada e ao exército de novos empreendedores, que se seguirá à ascensão da nova classe C, a criar ferramentas de captação que compensem a queda de juros da poupança, a avançar nas novas regiões de crescimento dinâmico.Será a maneira do setor bancário recuperar a legitimidade perdida, de ter uma função econômica relevante, garantindo seus lucros por meio dos ganhos de escala – não dos spreads escandalosos.* Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br.** Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Luis Nassif*
Banco Central do Brasil. Juros

As vitórias do BC e o medo da última batalha

[caption id="attachment_49901" align="alignleft" width="259" caption="Banco Central do Brasil."][/caption]Ontem os dois maiores bancos privados brasileiros, Bradesco e Itaú, aderiram ao movimento de redução de juros. Foi um movimento previsível, para quem acompanha a coluna. Em poucos dias de redução de juros, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil conseguiram substancial aumento na sua carteira de crédito – parte dele com a atração de clientes de concorrentes.A nota do Bradesco deixou claros os benefícios que esse movimento traz para a economia e para o próprio sistema bancário.A redução dos juros aumenta a base de clientes, permitindo o ingresso no sistema dos desbancarizados – classes D e C ascendentes que ainda não tiveram acesso a crédito bancário.Amplia a base de clientes e, ao mesmo tempo, reduz o risco de crédito – pela diversificação da base e pela própria redução dos juros.Além da redução dos juros, o Bradesco disponibilizou recursos para parceiros, entre os quais bancos ligados a montadoras.Tudo isso ocorreu em um quadro de terrorismo amplo, praticado por comentaristas econômicos, que garantiam ser insustentável o movimento de redução das taxas, que inviabilizaria os bancos públicos, que jogaria a economia em um caos.É uma retórica insuportavelmente hipócrita, desmascarada pelos próprios supostos beneficiários desse lobby: os bancos comerciais.De agosto para cá, o Banco Central e a Fazenda conseguiram vitórias históricas sobre esse ideologismo imobilizador, terrorista, do mercado e seus porta-vozes. O BC derrubou a taxa Selic e a inflação continuou caindo. Antes, recorreu a um conjunto expressivo de instrumentos monetários para conter os preços, sem precisar apelar para elevação de taxas de juros. Agora, completa-se o ciclo com os bancos públicos devolvendo a competição ao sistema.Mantidas as condições de voo da economia, nos próximos anos haverá uma revolução no sistema de crédito e nas perspectivas da economia brasileira. A mera redução de taxas ao consumidor de 4% para 2% ao mês, em um financiamento de 12 meses, significa um aumento de poder aquisitivo da ordem de 13%. Para prazos de 24 meses, aumento de 24%. Para 36 meses, aumento de 35% – ou seja, com o mesmo valor de prestação se conseguirá adquirir um bem 35% mais caro.Mas a grande batalha final ainda não foi empreendida. Trata-se da questão cambial.Já passou muito da hora de se resolver essa questão. Há anos analistas mais consistentes vêm alertando para os problemas que a moeda apreciada trouxe para a malha industrial brasileira – ainda mais em um período em que a China emerge como potência oferecendo produtos baratos em todo espectro industrial.O receio da volta da inflação fez com que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciasse uma espécie de meta de dólar a R$ 1,80. É claramente insuficiente. Sabendo disso, recorre-se a um conjunto enorme de gambiarras – desonerações de folha, incentivos fiscais – que, além de setorizadas, não compensam minimamente os impactos do câmbio apreciado.Até agora o governo vem acumulando vitórias na frente econômica e política. É um reforço a mais para a batalha final, de mudança do patamar do câmbio. Ou, em caso de receio em mexer na moeda, uma mera vitória de Pirro.* Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luis Nassif*
1 Governo

Um tiro no inimigo

Finalmente, o governo parece haver se dado conta de que precisava impor um freio à continuidade da ação sem peias do sistema financeiro, tanto internacional quanto nacional. E, felizmente, em paralelo, tornou visível o papel que podem desempenhar, no desenvolvimento nacional, as empresas públicas estatais, sejam aquelas voltadas para a produção, sejam as que funcionam na circulação financeira.A decisão de rebaixar os juros cobrados por essas empresas, em especial o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, representou o primeiro tiro direto no pior inimigo do desenvolvimento econômico e social brasileiro. Até que ponto o governo está preparado para sustentar a disputa com esse monstrengo, não se sabe ainda. A reação inicial da fera, embora ainda soft, foi de uma desfaçatez total, exigindo compensações do poder público, como se fosse um miserável à míngua.Mas ninguém deve se iludir quanto às manobras sujas e desproporcionais que esse setor da economia vai empregar para retomar seus lucros astronômicos. E não é apenas ao governo que cabe enfrentá-lo, porque ele assalta, direta ou indiretamente, a todos os bolsos. Pode ser um bom motivo, inclusive para os setores sindicais que se juntam à Fiesp para reclamar da desindustrialização brasileira, discutirem com mais propriedade o papel oculto que esse sistema financeiro, internacional e nacional, desempenha nos custos de produção das empresas brasileiras e, portanto, em sua perda de competitividade nos mercados doméstico e externo.Assim, também do ponto de vista da comunicação social, talvez fosse conveniente o governo Dilma fornecer ao povo brasileiro dados e informações mais consistentes sobre a lucratividade desbragada do sistema financeiro. Isto, de modo a municiar os setores democráticos e populares frente às inevitáveis ações que aquele sistema vai adotar para melar as decisões que bateram fundo em sua rentabilidade, mas vão dar novo gás à competitividade de muitas empresas e a grandes camadas da população. Essa não será uma disputa a ser resolvida apenas nos salões e gabinetes governamentais. Ela interessa a todos, e a mobilização social pode jogar papel decisivo no enquadramento da lucratividade financeira a níveis menos bárbaros.Por outro lado, o governo também poderia aproveitar melhor a simpatia geral pela ação das estatais financeiras. Poderia redefinir a função das estatais elétricas na industrialização de sua cadeia produtiva, ao mesmo tempo em que poderia avançar na estruturação de outras empresas públicas capazes de acelerar os investimentos em infraestrutura e em plantas industriais.Se a Vale continuasse sendo uma empresa pública, ela hoje poderia estar desempenhando papel-chave na expansão das indústrias de base, especialmente do setor siderúrgico. Por outro lado, é incompreensível que as estatais elétricas não possam participar em associação com empresas estrangeiras na instalação de plantas industriais importantes para a diversificação da matriz elétrica, como as fabricantes de turbinas hidráulicas e eólicas, e as fabricantes de placas fotovoltaicas e lentes especiais para a produção de energia termo-solar. O que garantiria a possibilidade de transferir novas tecnologias para outras empresas nacionais, privadas e estatais, evitando que esses setores sejam monopolizados ou oligopolizados por empresas externas que possuem tais tecnologias.Outro resultado interessante da ação dos bancos públicos para corrigir as distorções do mercado financeiro foi a descoberta pública da necessidade imperiosa de evitar a monopolização ou a oligopolização dos diversos setores da economia nacional. Essa concentração monopolista ou oligopolista também causa distorções brutais em cada um desses setores, a exemplo do que acontece nas indústrias farmacêutica, automobilística e outras. O protecionismo a esses setores, a pretexto de evitar a desindustrialização nacional, só tem servido para eles aumentarem os preços de seus produtos. O que, quando se trata de bens de capital, mesmo intermediários, resulta em freio ao crescimento econômico e em tensões inflacionárias.Bem vistas as coisas, esse tiro no inimigo pode contribuir para um debate mais fundamentado sobre o desenvolvimento econômico, tendo por base a industrialização, e o desenvolvimento social, tendo por base a continuada e ampliada redistribuição da renda.* Wladimir Pomar é escritor e analista político.** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Wladimir Pomar*
Ilustração: Alves Mídia

Os economistas engajados

Editoriais, colunas radiofônicas, estúdios de televisão: em plena campanha presidencial, economistas dividem o espaço midiático. Apresentados como acadêmicos, eles encarnam o rigor técnico no coração de uma batalha ideológica. Mas “especialistas” teriam tanta credibilidade se tornassem públicas suas outras atividades?[caption id="attachment_49895" align="alignleft" width="350" caption="Ilustração: Alves"][/caption]Chama-se “efeito Drácula”: como o célebre vampiro dos Cárpatos, os arranjos ilegítimos não podem resistir à exposição à luz do dia. A controvérsia diz respeito ao conluio entre economistas e instituições financeiras. Muitos professores universitários convidados pelas mídias para esclarecer o debate público, e também pesquisadores apontados como conselheiros pelos governos, recebem, na verdade, algo dos bancos ou das grandes empresas. Um especialista pode, “com toda a independência”, exaltar a desregulamentação financeira quando ele ocupa simultaneamente um cargo de administrador de um fundo de investimento?Essas ligações perigosas, fontes de conflitos de interesses, não são secretas. Mas seus beneficiários bem que evitam fazer publicidade a respeito. Antes do cataclismo de 2008, cada um tirava seu proveito do equívoco: os jornalistas exibiam seus especialistas considerados neutros, que embolsavam os dividendos de sua onipresença sob a forma de notoriedade crescente e de dinheiro no bolso. Mas, depois do colapso de 2008, os economistas e seus conhecidos estão na berlinda. O efeito Drácula deve-se então a essa forma intelectual de prevaricação? Bastaria torná-la pública para vencê-la? Esta é a aposta da prestigiosa Associação Norte-Americana de Economia (American Economic Association, AEA).Desde o começo deste ano, os artigos publicados nas revistas científicas por membros da associação devem revelar os eventuais conflitos implicando seus autores. Os economistas deverão assim identificar e mencionar “as ‘partes interessadas’(1) que lhes tenham pago uma remuneração financeira importante, quer dizer, um valor total superior ou igual a US$ 10 mil, ao longo dos três últimos anos” (comunicado do dia 5 de janeiro de 2012). A medida se aplicará também às somas recebidas pelos “próximos”. Encabeçando algumas das mais influentes revistas da disciplina, a venerável AEA – perto de comemorar seu 130º aniversário – não está mais sujeita a caprichos. Sua decisão tocou os espíritos.Depois do sucesso do documentário Inside Job, de Charles Ferguson, a irritação se tornou palpável. Os emolumentos de alguns conselheiros próximos ao presidente Barack Obama implicados na liberalização do setor bancário tinham levantado questionamentos na opinião pública. Como Lawrence Summers, diretor do Conselho Econômico Nacional (National Economic Council), remunerado em US$ 5,2 milhões, entre 2008 e 2009, pelo fundo especulativo D. E. Shaw e em até US$ 135 mil por suas conferências, mais frequentemente organizadas por empresas financeiras – sem contar seus freelances (generosos) no Financial Times. A cólera cresceu também dentro da profissão. Durante 2011, explica-nos George DeMartino, da Universidade de Denver, “uma série de estudos científicos demonstrou que os conflitos de interesses constituem mais a regra do que a exceção”. Em 3 de janeiro de 2011, por iniciativa dos professores Gerald Epstein e Jessica Carrick-Hagenbarth, uma carta aberta soava o alarme, pedindo que a AEA reagisse. Ela foi assinada por mais de trezentos economistas, entre eles George Akerlof, laureado com o prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel, e Christina Romer, antiga conselheira do presidente Obama. Doze meses depois, eles foram ouvidos.Mas o eco desse movimento ético tem dificuldades para atravessar o Atlântico(2). No Le Monde do dia 1º de fevereiro, o economista Olivier Pastré esbravejou contra os projetos de saída da moeda única europeia. Ele se fixou uma missão: “explicar aos franceses mais frágeis e mais submissos à desinformação quais são os riscos de um abandono do euro”(3). O jornal apresenta o autor como “professor de Economia da Universidade Paris 8”, mas Pastré preside também o banco tunisiano ImBank. E pertence aos conselhos de administração do banco CMP, da Associação de Diretores de Banco, assim como do Instituto Europlace de Finanças. E, no entanto, é o “professor da universidade” que intervém todo sábado de manhã na rádio France Culture durante o programa A economia em questões, do qual é coprodutor.Quando 2 + 2 são 5“Este é um exemplo perfeito do tipo de situação que nos levou a reagir”, comenta o professor Michael Woodford, membro do comitê diretor da AEA, quando lhe contamos o caso. A associação exorta “o conjunto dos economistas a aplicar os mesmos princípios para todas as publicações: jornais acadêmicos, editoriais, artigos de imprensa, comentários difundidos na rádio ou na televisão”. “No caso”, continua Woodford, “parece-me que os leitores têm o direito de saber se o especialista em questão defende uma análise ou os interesses da instituição para a qual trabalha”. Pastré garantia, em seu artigo de 1º de fevereiro, que na hipótese de uma saída do euro os bancos “veriam o custo de sua dívida a curto e longo prazos explodir”, alarmando-se com uma eventual “baixa de sua rentabilidade”.Para Patrick Artus, responsável pela pesquisa econômica para o banco Natixis e administrador da Total, a tese defendida por Woodford “tem sentido nos Estados Unidos e no Reino Unido. Mas não creio realmente que ela pudesse ser aplicada na zona do euro”, pois “o número de economistas ligados às finanças aqui é muito pequeno com relação ao mundo anglo-saxão”(4). Um pequeno grupo, talvez... Mas muito representado entre os especialistas midiáticos.Três de novembro de 2011. O jornal matinal da rádio France Inter analisa os objetivos do G-20 que vai acontecer em Cannes. Quem ele convida? "Jean-Hervé Lorenzi, presidente do Círculo dos Economistas." Raramente apresentada, essa associação reúne Patrick Artus, Jean-Paul Betbèze (economista-chefe no banco Crédit Agricole), Laurence Boone (economista-chefe no Merrill Lynch), Anton Brender (economista-chefe do Dexia Asset Management), Olivier Pastré, etc. Alguns dias depois, na mesma rádio pública, o programa Le Téléphone sonne (O telefone toca) “faz uma análise” da reunião. No microfone, “Jean-Hervé Lorenzi, presidente do Círculo dos Economistas”. É também com esse título que Lorenzi, entre outras coisas conselheiro do candidato socialista à presidência, François Hollande, analisa o mercado imobiliário em Les Echos, a queda das bolsas na rádio Europe 1 ou o “fabuloso destino da França” na rádio RTL(5). No entanto, esse cartão de visitas omite alguns detalhes. Lorenzi tem cargos nos conselhos de administração da empresa PagesJaunes, da Associados em Finanças, da Associação Francesa das Operadoras de Celular (Afom), da seguradora ligada ao banco BNP Paribas-Assurance. Ele é também censor do grupo de crédito Euler-Hermes, membro dos conselhos de vigilância da Companhia Financeira Saint-Honoré, do instituto de pesquisa de opinião BVA, do Grupo Ginger e conselheiro da diretoria da Companhia Financeira Edmond de Rothschild.Já Christian Saint-Etienne se apresenta como professor do Conservatório Nacional de Artes e Profissões (Cnam) na rádio France 24 e como economista e analista político nas colunas do Point – nunca como conselheiro científico do Conselho Estratégico Europeu SA, um gabinete de conselho em gestão de patrimônio. Elie Cohen, também conselheiro de Hollande, é orientador de pesquisa no Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS) e professor na Sciences Po na rádio France Inter ou no Le Figaro – nunca membro do conselho de administração das empresas PagesJaunes ou da EDF Energies Nouvelles. Jacques Mistral? Economista nas colunas do Le Monde e na rádio France Culture, ou diretor de estudos econômicos no Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri) no programa C dans l’air (canal de televisão France 5) – e não administrador da BNP Paribas Assurance. Daniel Cohen, conselheiro de Martine Aubry, mostra-se mais discreto sobre seu título de senior adviser do banco Lazard – que aconselha, por exemplo, o governo grego na renegociação de sua dívida – do que quando se trata de lembrar sua qualidade de professor de Ciências Econômicas na Escola Normal Superior e na Universidade Paris 1.Marcando presença nos conselhos de administração de grandes empresas (35 mil euros por mandato, em média, para as empresas do CAC 40 e a metade para as outras empresas cotadas, segundo os dados do Instituto Francês de Administradores – IFA), nas conferências privadas (para as quais Lorenzi, por exemplo, cobra 6.600 euros), na redação remunerada de relatórios... Assim como seus colegas norte-americanos, os economistas franceses “dispõem de inúmeros meios para ganhar muito, muito dinheiro”, observa DeMartino. “Eles sabem, portanto, melhor que outros, que nada é gratuito, que todo benefício implica um custo. E o custo, neste caso, é a perda da independência.”“Acho que isso tem um resquício dos anos 1930”, protesta Lorenzi. “A questão é saber se a maneira como você ganha sua vida influencia seu julgamento. E não é o caso.” No fim das contas, pode-se argumentar que 2 + 2 são 4 trabalhando tanto para uma universidade como para um banco? “Sem dúvida nenhuma”, responde Woodford com um sorriso. “Mas a maioria das questões às quais um economista é confrontado trata de julgamentos mais sutis. E não se deixem enganar: nossos debates têm um impacto direto sobre alguns interesses privados.” Seria preciso concluir, com a professora Deirdre McCloskey, da Universidade de Illinois, que pode acontecer de “economistas se comportarem como advogados, defendendo tal ou tal ponto de vista, independentemente dos fatos”?(6) Ou – para dizer com outras palavras – que, interessados no resultado, eles tentem às vezes convencer que 2 + 2 são 5?Diretor do documentário Inside Job, Ferguson encontrou o economista Frederic Mishkin, da Columbia Business School:Ferguson – Em 2006, você coescreveu em um estudo do sistema financeiro islandês: “É um país evoluído, dotado de excelentes instituições. Pouca corrupção, Estado de direito, economia convertida à liberalização financeira. Regulação e vigilância prudenciais de qualidade”.Mishkin – Aí estava o erro (em 2008, a economia islandesa afundava). Descobriu-se que a regulação e a vigilância prudenciais não eram satisfatórias.– O que o fez acreditar no contrário?– Utilizamos as informações de que dispomos. E a opinião geral dizia que a Islândia tinha excelentes instituições e era muito evoluída.– Quem lhe disse isso? Que pesquisas você realizou?– Falamos com pessoas, confiamos no Banco Central, que, no fim, não estava à altura.– Por que você confiou no Banco Central?– Utilizamos as informações que temos.– Quanto você ganhou com isso?– Eu fui pago... o valor é público.(Mishkin recebeu US$ 124 mil da Câmara de Comércio Islandesa para redigir o estudo.)– Em seu currículo, o título do relatório “Estabilidade financeira na Islândia” foi mudado para “Instabilidade financeira na Islândia”...– Oh... Eu ignoro a razão, mas... Talvez seja um erro de digitação.Advogado devotado ao cliente ou cientista equivocado, a diferença se revela por vezes tênue. Como nota DeMartino, “os economistas gozam de um privilégio que as outras profissões não conhecem: ninguém lhes pede prestação de contas de seus erros”. E, no entanto, eles os cometem.No dia 17 de agosto de 2007, a crise do subprime acabava de começar do outro lado do Atlântico. Elie Cohen já anunciava o fim: “Em algumas semanas”, garantia, “o mercado vai se reformar, e os negócios vão voltar como antes” (LeMonde.fr, 17 ago. 2007). Seis meses depois, no canal Direct 8, Alain Minc, banqueiro de negócios e conselheiro de Nicolas Sarkozy, entusiasmava-se com a “inacreditável plasticidade do sistema”: “Dir-nos-iam que ele seria regulado de tal forma que evitaríamos uma crise, que poderia ser até mesmo do tamanho das grandes crises financeiras que conhecemos no passado! No fundo, ainda é um universo muito flexível”. Veredicto? “A economia mundial é bem administrada” (8 jan.)(7). No mesmo ano, Lorenzi anunciou que “(sua) convicção é clara”: “O diagnóstico dos bancos centrais foi rápido, justo e seguido de efeito. Em uma crise do mercado interbancário, eles souberam com talento se esquivar da catástrofe; no caso, evitaram aos Estados Unidos a falência dos bancos hipotecários e permitiram que grandes estabelecimentos bancários verdadeiramente em perigo reintegrassem, sem risco de liquidação, uma parte de seus produtos titularizados”(8). Pouco depois que essas palavras foram impressas, o banco Lehman Brothers sucumbiu, levando com ele uma parte do sistema financeiro mundial. Quanto a Artus, redator fanático de Flash Economie do Natixis (cinco artigos por dia em média), ele alardeava em Challenges, no dia 28 de agosto de 2008 (duas semanas antes do crash!): “O caso dos subprimes é passado”. Mais tarde, ele iria protestar contra a ideia de que os bancos paguem mais impostos e continuem a financiar as economias fragilizadas pela crise. “Não podemos pedir tudo para os bancos”, dá como título o empregado do Natixis em seu Flash Economie de 18 de agosto de 2011.Nem de esquerda nem de direita: banqueiroPoderíamos nos perguntar sobre a relação entre tais erros de julgamento e as remunerações que os autores recebem. Ou exigir, juntamente com Epstein, que os economistas sejam “responsáveis perante seus colegas, a imprensa, os estudantes, os cidadãos”(9). Mas devemos fingir espanto quando um banqueiro defende os interesses dos banqueiros? Pois é bem nesses termos que Lorenzi, por exemplo, encara sua atividade: “Eu sou o que se chama de senior banker”, explicou ele recentemente. “Tento, de modo geral, desenvolver negócios correspondentes às diferentes atividades da Companhia Financeira Edmond de Rothschild.”(10) Pastré e ele têm essa missão no espírito, quando, em seu livro Direita contra esquerda? Os grandes casos que farão a eleição presidencial, publicado em 2012, intimam os leitores a “renunciar às ilusões sobre o Estado protetor”, a “fazer enfim a aposta audaciosa em favor do mercado” e, principalmente, a evitar “os julgamentos apressados” contra a indústria bancária.“No fim”, temia em novembro passado Jean-Pierre Jouyet, presidente da Autoridade para os Mercados Financeiros (AMF) e antigo secretário de Estado encarregado dos negócios europeus de Sarkozy, “os cidadãos vão se revoltar contra a ditadura de fato (dos mercados)”(11). Mas os “mercados” não exercem já sua influência até no seio da AMF, que deveria regulá-los? Pois quem aconselha a autoridade presidida Jouyet? Os mesmos: Artus, Olivier Davanne (cogerente do Groupama Invest), Olivier Garnier (diretor-adjunto do banco Société Générale), Ruben Lee (presidente-diretor-geral do Oxford Finance Group), Pastré, etc.De volta aos Estados Unidos, onde Ferguson entrevista John Campbell, diretor do Departamento de Economia de Harvard:Ferguson – Um pesquisador de medicina escreveu um artigo que diz: “Para curar essa doença é preciso prescrever tal medicamento”. Revela-se que esse médico recebe 80% de seus ganhos do fabricante do remédio. Isto o incomoda?Campbell – Acho que, é claro, é importante revelar... Mas, ah... ah... É um pouco diferente do que estamos evocando aqui, porque... ah...A pertinência da analogia também não salta aos olhos de Barbara Frugier, adjunta à diretora de comunicação da AMF. “Escute, eu não conheço a indústria farmacêutica”, interrompe. Antes de continuar: “Não vejo bem aonde você quer chegar. É normal, em minha opinião, que a gente se informe com os especialistas”. No entanto, segundo o site da Autoridade, a instância encarregada, entre outras coisas, de controlar o orçamento da instituição e de fixar as regras internas e gerais é, contrariamente ao Conselho Científico, “submetida a regras éticas e de prevenção de conflitos de interesses”. Quando foi promovido do segundo cenáculo ao primeiro, em junho de 2011, o economista Christian de Boissieu, que também é presidente do Conselho de Administração Econômica (CAE), foi então convidado a deixar suas funções de conselheiro do fundo especulativo HDF Finance, de Ernst & Young, assim como seu cargo no comitê de auditoria do banco Neuflize OBC, do qual ele permanece membro do conselho fiscal. “Enquanto espero para deixar este conselho em breve”, explica, “eu me deporto (eu saio da sala e não participo de forma alguma das deliberações) quando se trata, na AMF, direta ou indiretamente desse banco.”Louváveis, as disposições da AMF e de Boissieu não constituem uma reprovação implícita aos que não tomam medidas similares? Começando, por exemplo, pelas mídias.Jornalista na rádio France Info, Jean Leymarie recebeu Lorenzi nos dias 16 de dezembro de 2009, 24 de novembro de 2010 e 29 de junho de 2011. Conhecia as funções de seu convidado no seio da empresa Rothschild? “Sim, claro!” E, no entanto, ele não as evocou no ar? “Nossos ouvintes não são idiotas. Eles sabem.” Mas como saberiam se seus colegas também adotam geralmente a mesma conduta, mesmo que eles não ignorem em nada os múltiplos cargos de seus convidados?Foi com conhecimento de causa que Jean-Marc Sylvestre convidou Lorenzi para evocar os perigos de uma maior regulamentação do setor bancário, no canal LCI (24 abr. 2010); que Yves Calvi deu a palavra a Godet e Saint-Etienne para explicar a inevitabilidade das políticas de rigor em seu programa C dans l’air, no canal France 5 (9 nov. 2011); ou que o Financial Times abriu suas colunas para Summers para tirar as consequências da “crise do capitalismo” (8 jan. 2012). É preciso ouvir atentamente as respostas quando fazemos tais perguntas a tais convidados?A informação dos franceses não sofreria talvez uma amputação severa demais se a imprensa consagrasse mais espaço – algumas linhas, alguns segundos no ar – a uma apresentação completa de seus especialistas: “Seria tão simples que eu me espanto que não seja o caso”, responde-nos o economista Hubert Kempf, presidente da Associação Francesa de Ciências Econômicas (Afse), tido como “ortodoxo”. Sua organização pretende interpelar seus membros com relação ao conflito de interesses? “Organizaremos talvez uma mesa-redonda durante nosso próximo Congresso”, em julho de 2012. E a Associação Francesa de Economia Política (Afep), criada há dois anos para promover mais pluralismo no seio da profissão? “Ainda não formalmente, mesmo que a questão seja, a priori, um consenso aqui”, indica-nos Nicolas Postel, secretário da associação. “Mas”, acrescenta, “considerar que o problema se limitaria à questão do conflito de interesses constitui, para mim, um erro”.Privatização do expertiseOutro caso. Na edição de 14 de fevereiro, o Le Monde publicou, no caderno “Internacional”, uma análise da crise grega. A jornalista Claire Gatinois citou diversos economistas, todos diretamente ligados ao mundo das finanças. Não há conflito de interesses aí: as funções estão claramente identificadas. Christopher Probyn? “Economista-chefe do State Street, grupo financeiro sediado em Boston” (citado três vezes). Natacha Valla? “Economista do Goldman Sachs” (citada três vezes). Jésus Castillo? “Economista do Natixis.” Sem contar os “especialistas da UBS”. Sem dúvida, ela estima que os “economistas de banco” são os mais bem posicionados para analisar uma crise como a que balança a Grécia. “Por que seriam?”, objeta Postel. “Num assunto como esse não esperamos das mídias um relatório supertécnico de mecanismos financeiros obscuros, mas uma interrogação fundamental sobre o status da dívida do país: é legítima? De onde vem? E, nesse plano, os economistas de banco não são necessariamente os mais competentes.”Podemos imaginar um economista do Goldman Sachs afirmando que a crise grega vem antes de mais nada de uma dívida ilegítima que não deveria ser paga? “Não”, admite Gatinois, “isso me parece bem pouco provável”. “Para este artigo”, explica ela, “eu pensei que era interessante questionar os economistas de banco, mais liberais, para mostrar que eles também se preocupam com a situação grega”. Tratava-se, em suma, de apresentar, só uma vez, claro, o ponto de vista liberal. Esse tipo de reflexo profissional parece mais frequente na grande imprensa do que a ideia de entrevistar, por exemplo, representantes sindicais – que são, ao menos, tão informados sobre os mecanismos e consequências do drama social em curso quanto os economistas liberais. Em outubro de 2011, por exemplo, Gatinois deu a palavra a quarenta economistas, grupos de economistas ou similares. Vinte e nove trabalhavam diretamente para bancos ou instituições financeiras. Três se expressaram em nome de sindicatos(12). Entre 1º de setembro de 2008 e 31 de dezembro de 2011, o Le Monde citou Artus – responsável pela pesquisa para o banco Natixis – em 147 artigos. Mais vezes que Jacques Attali (132 artigos) e que Alain Minc (118). E muito mais que Jean Gadrey (cinco artigos sobre questões econômicas) e Frédéric Lordon (quatro). Proporções similares a essa são observadas nos jornais Libération ou Le Figaro, assim como na maioria das revistas.Nessas condições, a transparência pode ser suficiente para influenciar a tendência natural dos profissionais das finanças a defender... Os interesses das finanças? No fim de nossa conversa, Gatinois solta: “Reconheço que, de fato, não apresento todos os pontos de vista”.Notas:1 As “partes interessadas” são definidas como “todo indivíduo, grupo ou organização ligado financeira, ideológica ou politicamente ao conteúdo do artigo”. 2 O economista Jean Gadrey expôs os dados do problema no texto “Les liaisons dangereuses” (As ligações perigosas), 21 set. 2009. Disponível em alternatives-economiques.fr/blogs/gadrey. Nossa pesquisa se beneficiou de seus conselhos assim como do trabalho realizado por François Ruffin no programa Là-bas si j’y suis (Se eu estiver lá), consagrado aos “economistas de guarda” (France Inter, 2-3 jan. 2012). 3 Olivier Pastré, “La sortie de l’euro, un suicide” (A saída do euro, um suicídio), Le Monde, 1º fev. 2012. 4 “Se os economistas subestimaram a crise, não foi por cumplicidade com os financistas”, Le Monde, 10 set. 2009. 5 Respectivamente nos dias 3 de outubro, 19 de agosto e 3 de abril de 2011. 6 Citada por Ben Casselman em “Economists set rules on ethics” (Economistas estabelecem regras em ética), The Wall Street Journal, Nova York, 9 jan. 2012. 7 Citado por Gilles Balbastre e Yannick Kergoat no documentário Les nouveaux chiens de garde (Os novos cães de guarda), JEM Productions, 2012. 8 Jean-Hervé Lorenzi, “Qui va payer?” (Quem vai pagar?), Especial Crise Financière: Analyses et Propositions” (Crise Financeira: Análise e Propostas), Revue d’Économie Financière, Paris, 2008, p.468. 9 The Wall Street Journal, op. cit. 10 Investisseurs (revista da empresa da Companhia Rothschild), n.4, dez. 2011, p.16-17. 11 Entrevista no Journal du Dimanche, Paris, 12 nov. 2011. 12 Contagem efetuada por Thomas Vescovi.* Renaud Lambert é jornalista.** Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique Brasil.


por Renaud Lambert*
Manifestantes ecologistas na conferência sobre mudança climática de Copenhague, em 2000. Foto: Ana Libisch/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Rio+20: Diálogos para o futuro

[caption id="attachment_49832" align="alignright" width="340" caption="Manifestantes ecologistas na conferência sobre mudança climática de Copenhague, em 2000. Foto: Ana Libisch/IPS"][/caption]Uma plataforma online que admite até 400 mil pessoas conectadas ao mesmo tempo permitirá apresentar recomendações aos governantes reunidos na Conferência Rio+20.Rio de Janeiro, Brasil, 23 de abril de 2012 (Terramérica).- Inovar e redobrar a pressão sobre os governos é o lema da sociedade civil com vistas à Rio+20, que tem a ambiciosa meta de mudar a forma como a humanidade se relaciona com o planeta. A Rio+20 é a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que acontecerá entre 20 e 22 de junho no Rio de Janeiro, mesma cidade onde em 1992 aconteceu a histórica Cúpula da Terra.Ali será discutida a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável, da erradicação da pobreza e do âmbito institucional para se alcançar esse desenvolvimento. “Há muita preocupação pelo que vai acontecer, há ceticismo”, disse ao Terramérica o coordenador executivo do não governamental Instituto Vitae Civilis, Marcelo Cardoso. “Para nós será uma oportunidade para que a sociedade civil internacional busque em conjunto agendas de convergência” com as autoridades e o setor privado para chegar ao consenso, explicou.Na Agenda 21, um plano de ação adotado na Cúpula da Terra, está prevista a participação social, organizada em nove grupos principais para influir nas negociações intergovernamentais: povos indígenas; agricultores; trabalhadores e sindicatos; autoridades locais, empresas e indústrias; comunidade científica e tecnológica; mulheres, crianças e jovens; e organizações não governamentais. Estes grupos tentam incidir nas discussões formais e organizam campanhas e atividades paralelas no Fórum de Setores Interessados para um Futuro Sustentável (Stakeholder Forum for a Sustainable Future).“A sociedade civil organizada tem que assumir um papel planetário”, afirmou Marcelo. Trata-se de um coletivo fundamental para “os processos decisórios, mas complexo e muito fragmentado”, reconheceu. “Queremos aglutinar as organizações que trabalham o tema da economia verde e integrar programas”, enfatizou. Em 1992, a sociedade civil teve um papel de contexto. “Hoje precisa agir em conjunto com o setor privado e o governamental”, insistiu.O Instituto Vitae Civilis foi um ator civil destacado em 1992, quando foram adotadas as definições sobre desenvolvimento sustentável. Desde 2008, participa das discussões na Organização das Nações Unidas (ONU) para redação do documento final da Rio+20, conhecido como zero draft (rascunho zero), integrando o grupo de organizações não governamentais. Além deste documento, da Rio+20 deverá surgir um programa de metas de sustentabilidade que inclua da erradicação da pobreza até a estabilização do clima planetário, embora o mais provável seja a não adoção de compromissos obrigatórios.Também deverão ser assentadas as bases de instituições globais com poder para implantar e fazer cumprir o que for acordado. Segundo sua definição tradicional, o desenvolvimento sustentável atende as necessidades humanas do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de fazerem o mesmo. Como princípio orientador de longo prazo, se compõe de três pilares: os avanços econômico e social e a proteção ambiental.No entanto, as últimas décadas testemunharam poucos progressos desse modelo, e hoje o mundo enfrenta uma crise econômica e financeira que afeta sobretudo o Norte industrializado e crises mais profundas e duradouras, como a climática, a perda de biodiversidade e de recursos naturais e a persistência da pobreza. A Rio+20 corre o risco de acabar em um grande retrocesso para a natureza, alertam 18 especialistas em meio ambiente, ex-ministros e legisladores do Brasil em um documento divulgado no dia 18.Os autores do documento – entre eles a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva – consideram que a agenda da cúpula está muito “diluída”, pois não colocou o ambiental como eixo principal. Para Carlos Henrique Painel, coordenador do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, o desafio social é apresentar as “verdadeiras soluções”. Painel é um dos organizadores da Cúpula dos Povos sobre a Rio+20 pela Justiça Social e Ambiental, que entre 15 e 23 de junho buscará ser contraponto da conferência oficial.Muitas organizações criticam o conceito de economia verde como uma “monetização da natureza e dos bens comuns”, alertou Carlos Henrique ao Terramérica. O que se necessita é um “novo pacto para uma agenda global. Queremos apontar para as causas das crises estruturais que vivemos, mostrar as verdadeiras soluções que os povos praticam, como agroecologia e permacultura”, explicou.O negociador-chefe da delegação brasileira na Rio+20, embaixador André Corrêa do Lago, afirmou que a sociedade civil não só poderá fazer sugestões como também influir nos rumos e nas opções que muitos países tomarem. Desde o dia 16 deste mês, uma plataforma virtual, a Rio+20 Diálogos (www.riodialogues.org/es), pretende melhorar essa participação, informou o diplomata em um seminário para jornalistas.A ferramenta, que suporta até 400 mil pessoas conectadas ao mesmo tempo, busca reunir especialistas mundiais do setor acadêmico, da sociedade civil, das empresas e dos meios de comunicação que definam recomendações práticas “que serão comunicadas diretamente aos chefes de Estado e de governo durante as sessões de alto nível”.Os diálogos, explicou o embaixador, estão organizados em dez tópicos: água; florestas; ecocidades e inovação; desenvolvimento sustentável como resposta às crises econômicas; desemprego, trabalho decente e migrações; economia do desenvolvimento sustentável; energia sustentável para todos; erradicação da pobreza; oceanos; e segurança alimentar e nutrição. Por meio da tecnologia, pode-se assegurar uma “participação grande e inovadora”, estimou. Embora não seja ideal, “é uma contribuição importante”, concluiu.* A autora é correspondente da IPS. LINKS Mais ecologia e menos economia na Rio+20Sociedade civil deve assumir as rédeas da Rio+20Sociedade civil busca salvar a Rio+20ONGs brasileiras criticam indefinição de proposta para a Rio+20“Rio+20 deve dar um impulso sustentado”Sociedade civil, a nova superpotência – Cobertura especial da IPS, em espanholRio+20, em inglêsRascunho zero do documento final da Rio+20, em inglêsInstituto Vitae CivlisFórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, em português e inglêsCúpula dos PovosFórum de Setores Interessados para um Futuro Sustentável (Stakeholder Forum for a Sustainable Future), em inglêsDiálogos Rio+20, em português, inglês, espanhol e francêsArtigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde. 


por Fabíola Ortiz, da IPS
Ricardo Abramovay. Foto: Érico Hiller. Artigo

Em busca do capitalismo sustentável

[caption id="attachment_49241" align="alignleft" width="300" caption="Ricardo Abramovay. Foto: Érico Hiller."][/caption]O capitalismo está sob cerco. As empresas são vistas, cada vez mais, como causas de grandes problemas sociais, econômicos e ambientais. A percepção pública é que lucram à custa da comunidade. A chamada responsabilidade corporativa em nada atenuou essa situação. A legitimidade dos negócios (e, portanto, da própria atividade empresarial) caiu a níveis mais baixos que nunca antes na história.O julgamento não vem de membros do Occupy Wall Street, da Via Campesina ou do Comandante Marcos. Está logo nas primeiras linhas do texto que dois gurus da administração empresarial contemporânea, Michael Porter e Mark Kramer, publicaram alguns meses atrás na "Harvard Business Review".Mas não se trata de um desabafo isolado e excêntrico. O tom é cada vez mais frequente em documentos das grandes consultorias globais. Em fevereiro último, uma empresa fundada por Al Gore, a Generation Investment Management, publicou uma espécie de manifesto cujo título pode suscitar um sorriso irônico, mas é certamente sinal dos tempos: Capitalismo Sustentável.Seus autores reivindicam nada menos que um novo paradigma: "Um quadro que procure maximizar a criação de valor econômico de longo prazo, reformando os mercados para que respondam a reais necessidades, levando em conta todos (sublinhados no original) os custos e todos os stakeholders".Três ideias são aí importantes: em primeiro lugar, está a ruptura com o que caracterizou o sistema econômico mundial dos últimos 30 anos, que é o predomínio quase absoluto das finanças na tomada de decisões empresariais. O resultado desse predomínio é uma obsessão com os ganhos de curto prazo. Segundo muitos economistas, isso deveria resultar em maior fluidez e, sobretudo, em melhores escolhas dos investimentos, uma vez que não seriam mais as burocracias empresariais que tomariam as decisões e, sim, uma instância descentralizada, pulverizada e dotada de mecanismos automáticos de correção: o mercado. A crise de 2007/2008 mostrou a destruição social a que essa crença mágica conduziu. Várias empresas já começam a insurgir-se contra a prática de organizar suas contas como parte do jogo especulativo das finanças.A segunda ideia fundamental do documento da Generation Investment Management está na expressão "reais necessidades". Não se trata apenas de julgar a utilidade daquilo que se produz por sua capacidade de gerar empregos, propiciar arrecadação de impostos e estimular a inovação. Nem tampouco de identificar eficiência com atendimento genérico à demanda. Trata-se de saber se o sistema econômico está preenchendo "reais necessidades". Definir essa expressão é difícil. Pode dar lugar à tentação autoritária. Ao mesmo tempo (e é para isso que chamam a atenção tanto Porter e Kramer como a Generation Investment Management), parte muito importante dos bens e serviços que emergem do sistema econômico não preenche "reais necessidades". A epidemia global de obesidade não pode ser desligada das práticas da indústria alimentar. Em 2010, a obesidade já atingia 35,7% dos adultos e 17% das crianças norte-americanas. Um exemplo dado pelo Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos mostra a gravidade do problema: uma pessoa de 1,75 é considerada obesa quando seu peso é superior a 92 quilos. Com mais de um terço da população norte-americana nessa condição, será que se pode dizer que a indústria alimentar responde a reais necessidades?Mas não é só na alimentação que se verifica a distância entre o que predomina na atividade empresarial e aquilo que a Generation Investment Management chama de reais necessidades: os engarrafamentos de trânsito e o inútil esforço de contorná-los por meio de obras cada vez mais caras e destrutivas da paisagem urbana não podem ser dissociados do que faz a indústria automobilística. Num encontro realizado em 2010, a Audi contratou um amplo grupo de consultores para discutir como se converter de indústria que produz carros em indústria voltada para atender às reais necessidades de mobilidade das pessoas. O interessante nessa discussão (e fundamental para o empreendedorismo social) é que a noção de necessidades deixa de ser um tema filosófico abstrato, um assunto de governo ou de organizações de consumidores. Terá que integrar o âmago das decisões empresariais.A terceira ideia importante na frase da Generation Investment Management refere-se aos custos da atividade empresarial. A consultoria global Trucost calculou os danos ambientais embutidos nas atividades das 3.000 maiores corporações globais. Foram levados em conta apenas três fatores: emissões de gases de efeito estufa, uso da água e geração de lixo. Não estão aí, por exemplo, as perdas sociais derivadas dos engarrafamentos ou das doenças provocadas pela obesidade. Mesmo assim, os resultados são chocantes: US$ 2,15 trilhões. Isso corresponde a nada menos que metade de seus lucros (o que os especialistas chamam, na sigla em inglês de Ebitda: ganhos antes dos pagamentos de juros, impostos, depreciação e amortização). O relatório da consultoria global KPMG onde se encontram essas informações mostra que estes custos ambientais estão aumentando: eles dobram a cada 14 anos. Os piores impactos ambientais são os da indústria alimentar: 224% daquilo que ganha. E é importante frisar: são custos ocultos, não se incorporam aos preços, é a sociedade como um todo que os paga sob a forma de perdas ecossistêmicas muitas vezes irreparáveis.Criação de valor a longo prazo, produção voltada a melhorar o bem-estar das pessoas, das comunidades e de seus tecidos territoriais e capacidade de preservar e regenerar os serviços ecossistêmicos dos quais dependem as sociedades humanas: o maior desafio de nosso tempo é juntar empresas, governo e sociedade civil no enfrentamento desses desafios. Até aqui, manifestações como as de Porter e Kramer, da Generation Investment Management e o diagnóstico da KPMG são francamente minoritárias no meio empresarial. Mas são visionárias e sinalizam para a emergência de uma nova economia em que ética e respeito aos limites dos ecossistemas estejam no centro das decisões.* Ricardo Abramovay, professor titular da FEA e do IRI/USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, é autor de "A Transição para uma Nova Economia", a ser lançado na Rio+20 pela ed. Planeta Sustentável.* * Publicado originalmente na Folha.com/Empreendedor Social.


por Ricardo Abramovay*
120409-Rio-NiteroiB Artigo

Pós-1964: “milagre” e modernização fugaz

Capitalismo e pobreza: regime autoritário semeou desenvolvimento industrial achatando salários e favorecendo grandes grupos econômicos. Colheu crise social que provocaria sua própria queda.Tive oportunidade de salientar, na primeira parte deste texto, que o julgamento de um acontecimento histórico não se destina nem a penalizar os que erraram, nem a recompensar os que sofreram as consequências, mas a trazer luz aos fatos, de modo a que possam servir de lição para o futuro.Os grandes desafios que o Brasil tem pela frente não tornam convenientes, nem revanchismos dos que foram prejudicados, nem a defesa intransigente das ações adotadas no passado e responsáveis por tais prejuízos. O fundamental é saber o que favoreceu e o que prejudicou o avanço do processo de desenvolvimento e o bem-estar da população e, quando necessário, apagar as manchas que ainda ofuscam nossa imagem de país democrático.Atitudes que acirram os ânimos impedem o conhecimento da verdade e produzem divisões que fragilizam a capacidade de reação do país diante dos reais inimigos do momento. Alguns, já presentes no passado, assumiram novas roupagens; outros, surgiram mais recentemente.A mudança de regime em 1964 produziu danos irreparáveis no esforço de desenvolvimento do Nordeste. Fulcro da crise social e política naquele período, a região vinha sendo impulsionada pela recém-criada Sudene, tendo à frente Celso Furtado, e, secundariamente, pelos governos estaduais progressistas, de Miguel Arraes em Pernambuco, e de Seixas Dória em Sergipe.Realizava-se, então, uma verdadeira revolução pacífica no Nordeste, desdobrável em três planos principais:a) na forma de pensar a problemática regional, deslocando o eixo das preocupações da acumulação d’água para fazer frente às secas – o chamado “enfoque hidráulico”, que basicamente beneficiava os grandes latifundiários – para uma visão desenvolvimentista. Esta nova visão, que era fruto principalmente do pensamento da Cepal e das pesquisas de Celso Furtado, visava à industrialização, ao aumento da produtividade da agricultura familiar, ao melhor e mais amplo conhecimento e exploração dos recursos naturais e às reformas sociais;b) na reforma da administração pública, com importante esforço de capacitação de pessoal, especialmente de alto nível, adotando-se técnicas de planejamento e a substituição do clientelismo por condutas impessoais e austeras na destinação e uso dos recursos públicos;c) no estímulo à organização e mobilização da classe trabalhadora (principalmente por meio da sindicalização rural), para defesa de seus direitos frente à classe proprietária tradicional, que dominava a agricultura e a agroindústria regionais.Com o golpe e o advento do novo regime, a Sudene e seu dirigente principal, Celso Furtado, os dois governadores progressistas em exercício e os sindicatos, foram escolhidos como alvos principais dos novos dirigentes do país.Assisti pessoalmente ao prédio da Sudene ser literalmente invadido pelo delegado do Dops, Wandenkolk Wanderlei, e seus vários auxiliares, em busca dos diretores, como se estivessem caçando bandidos, no dia seguinte ao início do movimento militar. Pude comprovar, posteriormente, que dois diretores estavam detidos no quartel da polícia militar, no Dérbi.Depois de uma semana em que o prédio da Sudene estivera cercado e fora vasculhado por forças militares, as portas foram reabertas aos funcionários e todos surpreendidos com a indicação de um militar da reserva para o posto de direção superior. De imediato, o escolhido instalou no local uma espécie de tribunal militar para ouvir e julgar os técnicos supostamente “subversivos”.Parte considerável dos técnicos foi submetida a dito constrangimento. Vários deles não retornaram a suas funções, sendo encaminhados à prisão. Num momento subsequente, vários foram demitidos sumariamente.O governador de Pernambuco, Miguel Arraes, foi detido no palácio do governo, logo no primeiro dia do golpe, e mais tarde transferido para uma prisão na ilha de Fernando Noronha. O governador de Sergipe, Seixas Dória, também foi detido. O Conselho de Desenvolvimento de Pernambuco teve seu secretário executivo detido e substituído por um técnico informante do IV Exército.Os sindicatos foram desmantelados e suas lideranças, perseguidas. A imprensa progressista, como foi o jornal Última Hora, foi fechada nos primeiros dias da nova ordem. O povo nordestino e suas organizações, que começavam a ter voz sobre os graves problemas sociais que os afligiam, foram subjugados e mantidos no silêncio secular que vinha dos tempos da colônia.Durante vários anos, a Sudene foi dirigida por militares. Jamais se recompôs como o grande órgão de desenvolvimento regional que existira durante os anos iniciais da década 1960, sob comando de Celso Furtado. Os novos dirigentes preservaram os incentivos fiscais e financeiros à indústria, pois a demanda criada já não podia ser contida. Mas nunca tentaram retomar a estratégia de desenvolvimento traçada no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste – o GTDN, que dera origem à Sudene –, nem de elaborar uma nova.Mesmo mutilada, a Sudene conseguiu sobreviver, mas sem a pujança que tivera em seus anos iniciais. Ao longo do tempo, foi perdendo substância, sem poder fazer face à estagnação econômica que se sucedeu e durou até o início da primeira década do presente século.Para ser justo, cabe reconhecer a passagem pela Sudene do general Euler Bentes Monteiro, um engenheiro competente, nacionalista, de grande seriedade, que permaneceu como superintendente entre 1966 e 1969. Tentou recuperar o órgão. Não foi bem-sucedido, devido às restrições a que estava submetido, por uma ordem que via a Sudene como uma entidade perigosa para a região. Viria a se colocar como candidato alternativo ao general Figueiredo, quando da escolha deste para a Presidência da República, em 1980.No plano nacional, a nova ordem ignorou inteiramente as “reformas de base” e buscou legitimar-se junto à classe dominante local e o governo dos Estados Unidos, principalmente, com uma política econômica liberal, simpática ao capital estrangeiro, facilitadora da oligopolização dos bancos e concentradora da renda em favor dos estratos mais ricos da população.O chamado “milagre econômico” dos anos 1967-1973, quando a produção nacional cresceu a taxas muito elevadas, decorreu das reformas conservadoras realizadas. Elas criaram fortes estímulos às empresas estrangeiras, facilidade de endividamento externo e arrocho salarial. A estes fatores, adicionaram-se a melhora dos termos de troca comerciais com o exterior e a capacidade ociosa das instalações produtivas, acumulada no final dos anos 1960.Esse quadro favorável durou até 1973, quando uma disparada dos preços do petróleo (que se multiplicaram por quatro, do dia para a noite) fez elevar as cotações de diversos outros produtos. Terminava assim o “milagre” e o Brasil voltava à dura realidade de um país com a maior parte da população empobrecida e uma classe média alta que artificialmente se nutria dessa pobreza, alcançando um padrão de consumo de país desenvolvido. Tudo propiciado pela política econômica, que transferira renda dos pobres para os ricos por intermédio dos mecanismos do mercado, do crédito e da ação fiscal, e estimulara o endividamento externo irresponsavelmente.Nas palavras de Celso Furtado(1): “As modificações institucionais introduzidas entre 1964 e 1967 abriram novas possibilidades de ação, mas também revelaram a intenção dos grupos que ascenderam ao poder, mediante o golpe militar, de abandonar a orientação do desenvolvimento às forças do mercado. As empresas transnacionais seriam as principais beneficiárias dessa política. A lei bancária de 1964 e a do mercado de capitais do ano seguinte ampliaram o campo de ação dos intermediários financeiros… Em função dos interesses desses intermediários… Parte significativa da poupança foi canalizada para o consumo dos grupos de rendas média e alta… A conjunção desses dois fatores – crédito ao consumo e redução do salário básico – produziu o perfil que favorecia as empresas produtoras de bens duráveis de consumo”.O tão exaltado milagre econômico contribuiu muito pouco para assentar as bases do desenvolvimento futuro, como frisa o próprio Celso Furtado(2): “Em síntese, no decênio compreendido entre 1964 e 1973, não obstante o considerável aumento do produto interno, não se assinala na economia brasileira nenhum ganho de autonomia na capacidade de autotransformação, nem tampouco qualquer reforço da aptidão da sociedade para financiar o autodesenvolvimento.”Mais adiante, Celso Furtado(3) afirma enfaticamente: “O consumo dos grupos de médias e altas rendas terá crescido mais do que a própria renda… Concomitantemente, o salário básico da população estava em declínio ou estacionário”. Poucas vezes ter-se-á imposto a um povo um modelo de desenvolvimento de caráter tão antissocial.O II Plano Nacional de Desenvolvimento (1974-1979), que apareceu como resposta do governo à crise deflagrada com o aumento dos preços do petróleo, foi inegavelmente bem intencionado em seu objetivo de fortalecer a estrutura industrial, com base na substituição de importações de insumos básicos e bens de capital, e de maior inserção do país na economia internacional.Na prática, porém, a política econômica persistiu em três erros básicos: a) valorização da moeda, como forma de favorecer as importações para controlar as pressões inflacionárias, levando a excessivo endividamento externo; b) manutenção da classe trabalhadora submissa e sem poder de reação frente às empresas, com o que prosseguiu o processo de concentração da renda e de estímulo ao consumo de bens duráveis; e c) ênfase na concessão de subsídios fiscais às exportações, o que requereu expandir substancialmente a emissão de títulos do Tesouro para financiamento do déficit público, contribuindo para a criação de condições favoráveis à especulação financeira e ao aumento das pressões inflacionárias.Segundo Celso Furtado(4): “ Em síntese, em 1979, no momento da segunda elevação dos preços do petróleo, a situação dos centros de comando da economia brasileira era de semiparalisia; quase nenhum espaço lhes restava para manobrar, seja no campo fiscal, seja no monetário, seja no cambial. As forças que os imobilizavam eram as mesmas que arrastavam o país para o crescente endividamento externo, forçando-o a aceitar taxas de juros e prazos de amortização cada vez mais elevados… Dessa forma, uma mudança na política monetária dos Estados Unidos é suficiente para desfazer todas as previsões que realize o governo do Brasil, com respeito ao serviço de sua dívida externa”.A brusca e intensa elevação dos juros pelos Estados Unidos, depois da crise cambial do México, em 1982, encontrou o Brasil altamente endividado no exterior, com elevado déficit fiscal e o grosso da população com o poder de compra reduzido pela política de contenção salarial, possibilitada pela ação repressiva do governo sobre os sindicatos de trabalhadores.Estava, assim, montado o quadro para a entrada em ação do FMI e a materialização do período de estagnação e instabilidade de preços que ficou conhecido como a “década perdida”. Transcorreu entre 1980-1990, mas acabou se prolongando ao longo dos dez anos seguintes. Este período, de quase estagnação econômica e fortes pressões inflacionárias, estabeleceu as bases para que o país elegesse para Presidência da República, em 1990, o aventureiro, demagogo e conservador Fernando Collor de Melo. Aprofundando, sob seu comando, o processo de rendição à onda de pensamento neoliberal que se espalhava pelo mundo. A tônica dessa doutrina era a subordinação aos ditames do livre mercado, atrás do qual estavam os interesses das grandes corporações internacionais e de seus representantes internos, que comandavam o processo de globalização à escala mundial.Enquanto isto, países como Índia e China davam exemplo de forte resistência à liberalização de suas economias e iniciavam o processo de mudança econômica que há algum tempo os coloca como as economias mais dinâmicas do mundo.O “desenvolvimentismo de direita”, que caracterizou os vinte anos de governos militares, realizou várias ações dirigidas ao fortalecimento do processo de industrialização do país, com investimentos estratégicos por parte de empresas estatais, como a hidroelétrica de Itaipu, a Ponte Rio-Niterói (foto), os polos petroquímicos da Bahia e do Rio Grande do Sul.Faltou-lhes, porém, a visão de conjunto da problemática do desenvolvimento econômico nacional, que não recomendaria apoiar-se exageradamente nas empresas estrangeiras, no endividamento externo e no empobrecimento e desorganização da classe trabalhadora, o que somente viria a debilitar o poder do estado nacional para pôr em prática política para o fortalecimento da economia nacional.Foi desperdiçada, assim, uma oportunidade histórica ímpar para realizar importantes reformas estruturais que aumentassem o grau de autonomia decisória do estado nacional, com consolidação do processo de industrialização, elevação das condições de vida da grande maioria da população e criação de uma democracia moderna.É importante lembrar que, durante os anos da ditadura, o agravamento das condições de vida da população rural foi responsável pelo processo perverso de fuga intensa em direção às periferias urbanas, onde se amontoaram sem qualquer presença do Estado, tornando-se presas fáceis do crime organizado, estando aí a gênese da violência que, desde então, só tem aumentado.O golpe de 1964 teve papel devastador sobre a vida universitária e cultural do país, com a cassação de professores, expulsão de alunos, dispersão e fuga para empresas privadas de quadros da administração pública, emigração de cientistas e técnicos para o exterior, perseguição de artistas e censura a manifestações culturais. Não menos daninha foram a eliminação da vida pública de políticos nacionalistas, a destruição de organizações de trabalhadores, estudantes e intelectuais, o desestímulo à renovação da classe política e o tolhimento da liberdade de imprensa.Em síntese, os militares de 1964, muitos deles bem intencionados, escolheram como inimigos os segmentos da população que noutras circunstâncias dariam o suporte político para a construção de uma sociedade mais justa e mais desenvolvida. Aliaram-se aos segmentos mais conservadores da sociedade e às forças externas – especialmente, os Estados Unidos – que, por razões óbvias, não tinham e continuam sem ter razões para compartilhar os objetivos reais do povo brasileiro.Objetivos esses que têm a ver com uma inserção na economia mundial com o máximo de autonomia possível, de modo a ser compatível com nossa realidade singular de um país de grandes potencialidades, mas que tinha e ainda tem necessidade de aprofundar sua industrialização, como forma de atender uma grande parcela da população carente e ansiosa por melhorar suas condições de vida. Tudo isto, num contexto internacional muito competitivo, no qual os países centrais usam abertamente os poderes econômico, ideológico e político para tolher nossa afirmação no plano internacional.* Flavio Lyra é economista com doutorado em economia pela Unicamp, e ex-técnico do Ipea.** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Flavio Lyra*

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