Para entender o xadrez da economia

Economia

Para entender o xadrez da economia


por Luis Nassif*


A economia assemelha-se a um jogo de xadrez. Há inúmeras peças no tabuleiro, com as posições de cada uma influenciando-se mutuamente. E vários objetivos simultâneos, que podem ser conflitantes entre si. O desafio do jogo é atender a todos os objetivos sem comprometer o equilíbrio geral. É objetivo finalístico o atendimento do bem estar da população do país, garantindo emprego, renda e serviços públicos de qualidade. Esse objetivo precisa ser alcançado criando-se um mercado interno robusto, com estabilidade de preços e equilíbrio nas contas externas. *** Em uma economia aberta, a produção interna disputa dois mercados – o interno e o externo – com os concorrentes internacionais. O processo virtuoso de crescimento completa-se assim: cria-se um mercado interno robusto; que absorve uma produção interna robusta e competitiva; que gera mais emprego e mais renda, que ajuda a aumentar o mercado interno; que produz ganhos de escala permitindo alcançar outros mercados. *** A roda começa a pegar quando a produção interna não é competitiva em relação à externa – o que ocorre agora. Aí, o processo degenera. Primeiro, a queda da competitividade interna provoca a perda de mercados externos. Depois, a batalha é internalizada, e as empresas nacionais passam a lutar com as estrangeiras pelo próprio mercado interno de consumo. *** Para atender ao aumento da demanda, recorre-se cada vez mais aos importados. Quanto mais importação, mais déficit externo e mais vulneráveis ficam as contas externas. Quando se entra nessa dinâmica de déficits crescentes – quadro atual – há duas maneiras de resolver o pepino. A maneira usual é através do Senhor Crise. Quando os investidores percebem que a situação está ficando insustentável, saem correndo. Há um estouro da boiada que desvaloriza o câmbio até mais do que o necessário e reequilibra a balança comercial. *** O segundo governo FHC praticamente acabou no primeiro mês, com a desvalorização cambial – fruto da política de empurrar com a barriga o déficit externo. Em 2008, o segundo governo Lula caminhava para desastre semelhante. Foi salvo pela grande crise internacional, que desvalorizou o câmbio e obrigou a um conjunto de ações de emergência da Fazenda. *** Agora, já se entrou novamente nessa dinâmica. A acumulação de reservas cambiais por parte do Banco Central, que permitirá financiar os déficits por algum tempo. A cada semana o governo anuncia pacotes de subsídios, desonerações, incentivos financeiros para melhorar a competitividade da produção interna. Todas essas ferramentas são gambiarras, e visam adiar a solução de um problema básico, que não foi enfrentado por nenhum governo desde os anos 80: o desequilíbrio do câmbio, que tornam os preços internos muito superiores aos internacionais. *** A maneira não traumática de resolver a questão é proceder a uma desvalorização cambial controlada do real; e, depois, ter sangue frio para atravessar um período de turbulências inflacionárias até a economia se estabilizar em outro patamar. Não será nem neste ano, nem no próximo, devido ao fator eleições. Provavelmente será no primeiro ou segundo ano do próximo governo. * Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site http://www.advivo.com.br/luisnassif– lnassif2011@bol.com.br. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.

consumo Economia

Mais bem informado, consumidor brasileiro valoriza mais a sustentabilidade que o consumismo

Pesquisa Akatu destaca que os consumidores estão mais bem informados sobre sustentabilidade, têm mais interesse pela Responsabilidade Social Empresarial e estão mais críticos em relação às empresas.   Instituto Akatu lançou nesta quinta-feira (25) a Pesquisa Akatu 2012: Rumo à Sociedade do Bem-Estar. Trata-se da oitava edição da série de publicações sobre Responsabilidade Social Empresarial – Percepção pelo consumidor brasileiro, realizada desde 2000. O levantamento retrata um consumidor brasileiro que, mesmo em um clima econômico de mais consumo, mantém inalterados seus comportamentos cotidianos de consumo consciente, tem mais interesse e maior conhecimento sobre sustentabilidade e sobre Responsabilidade Social Empresarial e está mais crítico e exigente sobre as práticas das empresas nestas áreas. A pesquisa, que contou com patrocínio do Grupo Pão de Açúcar, Natura, Nestlé e Unilever, entrevistou 800 pessoas com mais de 16 anos, de todas as classes sociais e de 12 capitais e/ou regiões metropolitanas de todo o País. Apesar de o levantamento indicar uma estabilidade do número de consumidores classificados como “Conscientes” – em torno de 5% da população – houve crescimento na adesão a práticas de consumo consciente, ainda que, nesse momento, apenas de maneira eventual e não contínua. De 11 comportamentos considerados indicativos de consumo consciente, quando se adiciona aos consumidores que aderem “sempre” a esses comportamentos aqueles que aderem “às vezes”, oito comportamentos apresentaram aumento em relação a 2010, entre eles: planejar a compra de alimentos e roupas, desligar lâmpadas, fechar torneiras, usar o verso do papel, e ler rótulos de produtos. Esta tendência é reforçada por outro importante resultado da pesquisa: solicitados a priorizar seus desejos, os entrevistados optaram, em uma significativa maioria, por soluções mais sustentáveis. Em cinco dos oito temas propostos (afetividade, alimentos, água, mobilidade, durabilidade, energia, resíduos e saúde), eles deram preferência a alternativas mais ligadas ao “caminho da sustentabilidade” do que as relacionadas ao “do consumismo”. Um exemplo é o tema da afetividade, que possui a maior diferença entre os consumidores que preferem o cenário mais sustentável (passar tempo com amigos e família – com índice de prioridade de 8,3 em uma escala de 0 a 10) ao invés do consumista (comprar presentes – com índice de 2,6). Vale destacar que apreferência pelo “caminho da sustentabilidade” ocorre em todas as classes sociais, faixas etárias e em todos os segmentos socioeconômicos e geográficos. Para os brasileiros, o conceito de felicidade está relacionado à preferência pelos caminhos mais sustentáveis. Quando questionados sobre o que consideram ser felicidade, dois terços dos entrevistados indicaram que estar saudável e/ou ter sua família saudável é um fator essencial. Para 60% do público que respondeu à pesquisa, conviver bem com a família e os amigos também os aproxima mais da felicidade. Apenas três em cada 10 brasileiros indicaram a tranquilidade financeira em suas respostas sobre “o que é felicidade para você?”. “O estudo mostra que grande parte da sociedade brasileira já compartilha, mesmo que de forma difusa e pouco consciente, a noção de que, uma vez satisfeitas as necessidades básicas, a busca da felicidade implica em tomar o caminho da sustentabilidade e não o do consumismo”, afirma Helio Mattar, Diretor-presidente do Instituto Akatu. Decisão de Compra Ao valorizar mais o consumo consciente e as opções mais sustentáveis, o consumidor brasileiro também passou a ser mais exigente em relação à atuação das empresas. O levantamento do Akatu revela que o comportamento das empresas impacta diretamente na decisão de compra dos consumidores, que destacam cinco aspectos como motivadores de preferência ou admiração por determinadas empresas: “Não maltratar animais” (52%), “Ter boas relações com a comunidade” (46%), “Ter selos de proteção ambiental” (46%), “Ajudar na redução do consumo de energia” (44%) e “Ter selo de garantia de boas condições de trabalho” (43%). As duas práticas que mais negativamente impactam a disposição do consumidor para comprar produtos de uma empresa ou falar bem dela continuam as mesmas de 2010 e de anos anteriores: “Ter produtos que podem causar danos à integridade física dos seus consumidores” (72%) e “Fazer propaganda enganosa” (71%). “Saber que o potencial de adesão ao consumo consciente e à sustentabilidade já se expressa nos desejos dos consumidores é um sinal de alerta para empresas e lideranças em geral, que deveriam avaliar mais profundamente suas estratégias de explorar mais ainda um modelo esgotado, insustentável e conflitante com as aspirações dos consumidores e com suas concepções de felicidade”, indica Mattar. “Sustentabilidade e responsabilidade social são e continuarão a ser pilares fundamentais para apoiar a transição civilizatória em que estamos todos envolvidos. Por isso mesmo, estes pilares devem ser incorporados às práticas reais das empresas”, complementa. Por outro lado, a pesquisa indica que houve um aumento do ceticismo dos brasileiros com relação às empresas: o percentual de consumidores, já baixo em 2010, que acreditava incondicionalmente no que as empresas divulgam sobre suas práticas de Responsabilidade Social Empresarial caiu de 13% para 8%. O aumento do ceticismo se relaciona possivelmente com o crescimento da compreensão sobre sustentabilidade e do interesse por informações. O contingente de brasileiros que “ouviram falar” do termo sustentabilidade aumentou de 44% para 60% em dois anos, bem como o interesse de buscar informações sobre o tema (de 14% para 24%). Quando comparado a diversos outros, os dois únicos temas que tiveram expressivo crescimento no nível de interesse do consumidor foram justamente o da Responsabilidade Social Empresarial e o da Sustentabilidade: em 2010, ambos estavam em um patamar inferior a todos os demais e, em 2012, 24% apontaram seu interesse no tema Sustentabilidade e 25% em Responsabilidade Social Empresarial, praticamente ao mesmo nível de temas tradicionais, como Empresas/Negócios (26%) e Política (30%). Refletindo sobre o papel das empresas, Mattar apontou que “certamente há papéis fundamentais a serem desempenhados por todos os atores sociais. Mas, também é certo que as empresas têm um papel fundamental no processo, fomentando e dando concretude ao trajeto rumo a uma sociedade mais sustentável, de forma a incluir os bilhões de seres humanos ainda privados das condições básicas para a promoção de seu bem-estar e segurança material, respeitados os limites do planeta”. Para download: Relatório completo da Pesquisa Akatu 2012. Sumário de conclusões da Pesquisa Akatu 2012. * Publicado originalmente no sita Akatu.


por Redação do Akatu
China Economia

Sobre o desenvolvimento chinês (III)

China expande seu poder há dois milênios. Seu “sistema hierárquico-tributário” merece estudo, inclusive porque Ocidente parece prestes a adotá-lo… Engana-se quem pensa que a China nunca foi um estado expansionista. O poder é sempre expansivo, ainda que ele possa ter longos períodos de “adormecimento” ou “fragmentação”. Foi assim, em qualquer tempo ou lugar, durante toda a história da humanidade, independente da existência de economias de mercado, e muito antes da existência do capitalismo. E o mesmo aconteceu na história da China. Começando pelo próprio processo originário de unificação do império chinês depois de longos séculos de guerras e conquistas, durante o período dos “Reinos Combatentes”, entre os anos de 481 a.C e 221 a.C.. Resumindo a história, o primeiro império chinês nasceu da expansão vitoriosa de dois reinos situados no nordeste da China atual: o Estado Qin, que foi o grande vencedor da guerra e promoveu a unificação, e o Estado Han, que o sucedeu em, 206 a.C, e foi responsável pela construção de um império que durou 400 anos, período “dourado” da história chinesa. O Império Han depois estendeu sua influencia à Coréia, Mongólia, Vietnã e Ásia Central, chegou ao Mar Cáspio e inaugurou a famosa “rota da seda”. Foi neste período que o império chinês concebeu o seu “sistema hierárquico-tributário” de relacionamento como povos vizinhos que aceitassem manter sua autonomia em troca do reconhecimento da superioridade da civilização chinesa. Um “modelo de relacionamento” que se transformou numa “rotina milenar”, dentro do mundo sinocentrico, até meados do século XIX. No século XIV, depois de um longo período de fragmentação territorial e guerras intestinas, a China viveu um novo processo de centralização do poder, sob a Dinastia Ming (1368-1644), que reorganizou o estado chinês e liderou uma segunda “era de outro”, nas artes, na economia, na filosofia, mas também nas conquistas territoriais e navais. De novo, a centralização do poder interno se prolongou no expansionismo externo, através da diplomacia, da guerra, e do brilho exemplar da civilização confuciana. Durante a Dinastia Ming, a China reconquistou a Mongólia, a Coréia e o Vietnã, e impôs seu domínio ao Japão, Java, Brunei, Srivijaya, Sião e Camboja. Em 1424, o império suspendeu as expedições marítimas do Almirante Cheng Ho, mas foi apenas uma opção pelas conquistas terrestres, através das infinitas “fronteiras móveis” do império, por onde se multiplicou o seu território e a sua população, sem que ele tivesse que se afastar de suas linhas de suprimento estratégico, como ocorreu com os impérios marítimos europeus. No tempo em que a acumulação do poder se media em território, população, excedente econômico e capacidade de tributação, a China conquistou, em três séculos, mais do que o dobro do que foi conquistado pela Europa e seus impérios marítimos. E o mesmo veio a ocorrer mais tarde, com a Dinastia Qing, que governou a China, entre 1668 e1912, em particular durante o reinado do Imperador Ch´ien-Lung (1735-1799), quando a China duplicou seu território, conquistando o Tibet, Taiwan, e todo o oeste do atual território chinês, até o Turkistão. No caso destas regiões, a conquista chinesa foi particularmente violenta e as terras conquistadas foram transformadas em colônias, numa posição inferior dentro do sistema de “círculos concêntricos”, como era concebido pelos chineses o seu “Império do Meio”, construído a partir do seu pináculo civilizatório, situado em Pequim. Depois das duas “Guerra do Ópio”, em 1839-42 e 1856-60, a China foi submetida a um século de humilhações por parte das potencias europeias do “Sistema de Westphalia”. Mas na segunda metade do século XX, o país voltou a centralizar seu poder interno, expulsou as potências coloniais, adotou o capitalismo como instrumento de acumulação de poder e entrou num novo período de crescimento econômico e expansão externa do seu poder e de sua influencia civilizatória. E está reconstruindo o seu antigo “sistema hierárquico tributário”, dentro e fora do antigo mundo sinocêntrico, o que leva muitos analistas a prever um grande embate civilizatório com o “Sistema de Westphalia”. Do nosso ponto de vista, entretanto, este choque não ocorrerá, por quatro motivos fundamentais: i. O “Sistema de Westphalia”, formado por estados iguais e soberanos, foi uma invenção europeia do século XVII, que só funcionou efetivamente na Europa, e até meados do século XX. ii. Quando este sistema se expandiu para fora da Europa, não foi igualitário nem respeitou o principio de soberania dos povos conquistados e submetidos à condição de colônias, protetorados, domínios ou periferias dependentes. iii. O que estamos assistindo no início do século XXI, dentro do mundo eurocêntrico, é um realinhamento de vários sistemas “hierárquico-tributários”, como por exemplo, no caso da nova relação da Alemanha com os demais países da União Europeia; ou dos EUA com os países da “Aliança do Pacífico”. iv. Não é improvável que o mundo eurocêntrico abandone aos poucos suas fantasias westfalianas, e aceite cada vez mais o modelo hierárquico chinês, enquanto o sistema mundial adota a forma de dois grandes “impérios do meio”, com algumas réplicas inferiores. (Ensaio sobre o “Desenvolvimento Chinês. Leia aqui o primeiro e o segundo segmento) * José Luis Fiori é professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPQ/UFRJ “O Poder Global e a Geopolítica do Capitalismo”. (www.poderglobal.net) ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por José Luís Fiori*
O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, participa de audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Foto: Antônio Cruz / ABr Economia

Querem frear o Brasil

[caption id="attachment_85420" align="aligncenter" width="500" caption="O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini (à esquerda), participa de audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. À direita está o senador Lindbergh Farias. Foto: Antônio Cruz / ABr"][/caption]   Diz-nos o Sr. Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, que “A saída [da ‘crise’] é frear a economia. É demitir mesmo”. Dizem os ‘economistas’ midiáticos, catados a dedo pelos jornalões para confirmarem seus editoriais, que, ‘com esse nível de emprego’ (e aí repousa o cerne da história), a inflação vem a galope, e se é assim, a única coisa a fazer é subir os juros e promover o desemprego para que o consumo caia. Ou seja, desmontar a política que reduziu os efeitos da crise do capitalismo internacional e realizou a mais importante distribuição de renda conhecida entre nós. Demitir, afastar de vez a ‘ameaça’ do pleno emprego com que sonha a sociedade sadia. Esta é a pérola do pensamento neoliberal, reduzindo a vida da nação aos seus índices macroeconômicos, gasto público, juros, inflação etc., donde o aumento da taxa de juros real, produzindo menor taxa de inflação, menor PIB e maior desemprego. Com esse programa recessivo os economistas midiáticos vão ao orgasmo. Povo, como dizia a desterrada Zélia, é apenas um ‘detalhe’, a política é um estorvo, as metas estratégicas, em país que renuncia ao seu destino histórico, uma fantasia, administrada pela tecnoburocracia financeira estatal, preparando-se para o grande salto da gerência privada. Se o desemprego e a fome, a insegurança e o caos social são admissíveis, e são fenômenos puramente estatísticos para essa tecnoburocracia, enquanto uma reles inflação sazonal é inadmissível, aumentar o desemprego é a alternativa que retiram de seus manuais mal-traduzidos, o cediço receituário do monetarismo jurássico que ora destrói a Europa. A última decisão do Copom revela que a cantilena do mercado, tonitroada pelos jornalões, voltou a impor-se no BC, quebrando o viés de baixa inaugurado pela presidente Dilma. Sim, a questão é um pouco mais profunda. Não se trata, apenas, do injustificado aumento de 0,25%, mas do risco de um aumento, que poderia ser episódico, transformar-se em tendência, por exigência da mesma ideologia que comandou o BC nas últimas décadas. Eis o que nos dizem: é preciso aumentar os juros, pois é preciso diminuir o consumo, o pai e a mãe da inflação, e para diminuir o consumo é preciso desaquecer o mercado de trabalho. O grande vilão desta feita é ‘o crescimento do poder de renda da população’ pressionando os salários no setor de serviços (Júlio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda). Mas, como amaldiçoar o consumo, se não há excesso de demanda em relação à oferta, numa economia que no último ano cresceu miserável 0,9%, depois de haver crescido em 2011 apenas 2,7%, abaixo do crescimento médio mundial (de um mundo em crise) de 3,9% em 2011 e 3,12% em 2012? Os economistas midiáticos que ridicularizam o PIB de 0,9% – por eles chamado de ‘pibinho’ — vêm agora nos dizer que a economia precisa ser esfriada! Na verdade, as pitonisas da tragédia sempre na esquina se assustam com a perspectiva de o país crescer 3% em 2013, ainda abaixo dos 3,1% previstos (FMI) para o crescimento mundial. Somos o único país do mundo que não pode crescer acima de 3% a.a. e ter juros baixos. Só os nossos monetaristas estão certos, todo o resto do mundo, como os chineses, é incompetente. Viva a Espanha, viva Portugal, viva a Grécia, que, a despeito de conviver com a fome de suas crianças (The New York Times International Weekly/FSP, 29.4) anuncia mais 15 mil demissões no serviço publico (O Globo 29.4). Lá, naqueles países, aprofundar a recessão é o remédio que o FMI receita para a recessão, e assim ele caminham num crescendo de pobreza. No Brasil, para combater uma pressão de demanda que só eles vêem, os saudosistas do FMI receitam o desemprego (leia-se, a estagnação econômica). Mas, como falar em pressões de demanda, se a economia brasileira registra crescimento fraco? Bem, dirá o banqueiro, dizem os jornalões, haja ou não excesso de demanda, há inflação, e se há inflação é preciso anular a pressão dos salários, que crescem mais do que a produtividade. Agora querem deter o crescimento econômico, mínimo, repita-se sempre, para combater a inflação. Mas de qual inflação fala o sistema financeiro, se em nosso país ela está em queda desde o início do ano? É só conferir: janeiro, 0,86%; fevereiro, 0,60% e março, 0,47%. A inflação está em queda e a queda é tendencial, independentemente do BC. Explica-se: o mundo é deflacionário em commodities; os preços dos alimentos (responsáveis por 76% da inflação) começam a cair; o governo continuará desonerando produtos, de que resulta a redução de custos e dos preços ao consumidor, e permanecerá utilizando as importações como um regulador de mercado. E com juros mais baixos o governo gasta menos com o pagamento dos juros da dívida pública. Em artigo recente (‘Inflação’, FSP, 25.4.13) Marcelo Miterhof demonstra que nada justifica a recente alta dos juros (que afronta uma das principais conquistas do atual governo) para combater uma inflação sabidamente irrelevante porque cadente e sazonal, pois decorrente: 1) da queda da safra agrícola (mais precisamente reduziu-se a produção de alimentos em benefício dos produtos exportáveis) associada à elevação dos preços das commodities agrícolas no exterior, impactando os preços, sim, mas apenas temporariamente; 2) do aumento dos fretes, decorrente principalmente das mudanças regulatórias de 2012 (restrições à emissão de poluentes dos caminhões e limitação das jornadas dos caminhoneiros); e 3) da desvalorização do câmbio, positiva para competitividade, e ‘de efeitos limitados no tempo sobre a inflação’. De nada vale, porém, o grito da realidade, pois a visão ideológica da banca, a serviço da qual estão os jornalões, é insensível: os salários precisam crescer menos, donde a elevação do desemprego, quando a nação que produz festeja um quase pleno-emprego (5,4% da desocupação em janeiro, segundo o IBGE), talvez a mais importante conquista de nosso povo em toda a vida republicana. Na contramão da história, a elevação dos juros prejudica a retomada econômica (quem está satisfeito com os 0,9%, além dos banqueiros?), gera mais despesa com juros no governo federal e compromete o futuro do país. A presidenta Dilma tem declarado – e para isso precisa de nosso apoio, e uma forma de apoiá-la e combater a recidiva altista — que não sacrificará o crescimento da economia e o desenvolvimento social (sem o que não haverá nada, nem sociedade, nem povo, nem nação, nem país) para combater a inflação. Mas, graças à última reunião do Copom, reconquistamos (para gáudio dos Itaú, Bradesco, Citi e quejandos) a triste liderança do maior juro nominal do mundo. Precisamos ajudar a presidente para que esse aumento inoportuno não se transforme numa tendência no BC, porque o fim do padrão de juros altos permanece sendo um dos grandes legados do atual mandato. Ao fim e ao cabo, não há uma só justificativa para o aumento dos juros, senão a de atender aos reclamos da banca: ganhar mais dinheiro na ciranda financeira, mais precisamente na aplicação em títulos públicos indexados à Selic. A conta será paga por nós, os contribuintes. O governo Dilma precisa estar consciente da armadilha que lhe prepara o pensamento conservador. E precisa, principalmente, reagir. Tiro no pé A chamada crise entre o Congresso brasileiro, avacalhado pelo seu próprio comportamento, e o Judiciário, incensado e açulado pelos mesmos jornalões que denigrem o Congresso, tem um agente provocador e seu nome é ministro Gilmar Mendes, aquele que inventou estar sendo grampeado, tentou denegrir a honra do ex-presidente Lula e agora, em ato conscientemente injurídico, intervém, monocraticamente, em autos de medida liminar, na pauta do Senado, para impedi-lo de apreciar determinado projeto de lei aprovado na Câmara. Os que hoje tanto falam em ‘respeito entre os três poderes’ escondem de seus leitores que sempre foi um dogma do Direito Constitucional brasileiro o respeito às deliberações interna corporis do Congresso. A concessão da liminar constitui inominável abuso de poder. Essa provocação do ministro Mendes, é grosseira represália a um nada, pois é um nada a Comissão de Constituição e Justiça aceitar ‘a admissibilidade’ (sem importar qualquer juízo de mérito) de um projeto-de-lei, polêmico ou não. Pois é apenas isso o projeto do deputado Nazareno Fonteles: uma proposta em andamento, seguindo o circuito determinado pelo Regimento Comum. Protesta-se contra uma proposta parlamentar dentro do âmbito congressual, e silencia-se, silenciam os jornalões diante da intromissão do STF pelas mãos de um de seus ministros. Pensemos no inverso: o Congresso proibir o pleno do STF de apreciar determinado processo. Mas o pior de tudo é que a liminar acatada pelo ministro Mendes foi interposta por um senador da República, e, assim, uma vez mais, e não mais pela última vez, lamentavelmente, é o próprio Congresso, incompetente para decidir ele mesmo suas querelas, que apela para o STF, provoca sua ingerência, para depois chorar a dignidade perdida. * Roberto Amaral é cientista político e ex-ministro da Ciência e Tecnologia entre 2003 e 2004. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Roberto Amaral*
Venezuela Economia

Problemas da economia da Venezuela são solucionáveis

Em entrevista à Carta Maior, Mark Weisbrot, do “Center for Economic and Policy Research”, analisa a situação da economia venezuelana e rejeita as visões catastrofistas sobre seu futuro. “A Venezuela tem problemas econômicos, mas todos são perfeitamente solucionáveis. Em outras palavras, a economia venezuelana não tem um problema de sustentabilidade”, diz Weisbrot. Por Marcelo Justo, de Londres. Londres - Os vaticínios apocalípticos sobre a economia venezuelana abundam tanto no próprio país como no exterior. As duas desvalorizações do presidente em exercício Nicolás Maduro nos últimos dois meses serviram para abonar a tese dos que preveem o colapso da economia e asseguram que o modelo chavista é insustentável. Se a taxa de pobreza caiu 37,6% e a da pobreza absoluta 57,8% desde 1999, seus críticos asseguram que foi à custa da saúde da própria economia. No ano passado a Venezuela cresceu mais de 5%, mas segundo projeção do Banco Mundial este ano crescerá só 1,8%. Carta Maior conversou com o co-diretor do heterodoxo “Center for Economic and Policy Research”, de Washington, Mark Weisbrot, que publicou um pouco antes das eleições do ano passado um informe sobre a economia venezuelana no qual descartava a possibilidade de uma hecatombe. Carta Maior - Desde aquele informe, ocorreram duas fortes desvalorizações. Elas fizeram o senhor mudar de opinião? Mark Weisbrot - A Venezuela tem problemas econômicos, mas todos são perfeitamente solucionáveis. Em outras palavras, a economia venezuelana não tem um problema de sustentabilidade. Em 2006, nos Estados Unidos, houve uma bolha imobiliária que inevitavelmente iria terminar em desastre. Era um desequilíbrio insustentável. Na Venezuela, as desvalorizações se devem ao fato de que eram necessárias em um regime de câmbio fixo porque sua inflação era maior que a de seus sócios comerciais. Nos anos 70, isso não teria importado porque uma inflação de 20% era comum. Agora, como as outras economias têm uma inflação mais baixa, a moeda venezuelana termina se valorizando. As desvalorizações serviram para corrigir este desequilíbrio. CM - No entanto, o gasto fiscal cresceu cerca de 30% no ano passado e o déficit fiscal é de aproximadamente 12%. Isso é sustentável ou o governo terá que inevitavelmente diminuir o gasto? MW - Não creio que um gasto dessa magnitude possa ser sustentado durante dez anos, mas sim por um tempo considerável se se tem uma estrutura da dívida como a da Venezuela. Em um país exportador de petróleo é preciso fixar-se em duas coisas para analisar a estrutura da dívida: a dívida externa e a interna. A interna é em bolívares e a uma taxa de juros zero ou negativa se se leva em conta a inflação, de maneira que não afeta o governo. Quanto à dívida externa, quando ela é analisada do ponto de vista das exportações, que é o ponto de vista mais estrito, vê-se que ela é perfeitamente sustentável. Os juros constituem entre 3 e 4% de suas exportações. Medida em relação ao Produto Interno Bruto, a dívida pública venezuelana não chega a 50%. Em comparação, a União Europeia tem uma dívida de 82% e países em crise como a Grécia ou a Itália superam generosamente os 100%. CM - De maneira que há espaço para que o estado estimule a economia. MW - Com estas cifras teriam que fazer mais e investir em infraestrutura, seguindo dentro do possível o modelo chinês no qual não se importa tudo o que se necessita, mas sim ativa-se a própria indústria. O que está claro é que a solução não é a austeridade. Se olhamos para o que aconteceu depois de 2002, a economia se duplicou nos cinco anos seguintes em termos reais, ou seja, levando em conta a inflação. O setor privado respondeu a isso e foi um grande criador de emprego. CM - Em sua análise do ano passado você criticava o governo por não ter investido de maneira contracíclica, ou seja, aumentando o gasto em um momento de desaceleração econômica. MW - No último trimestre de 2008 e em 2009 não o fizeram e por isso tiveram uma recessão por um ano e meio. Poderiam ter evitado isso. Não creio que voltem a cometer o mesmo erro. A Venezuela não tem o problema do euro. Tem sua própria moeda, de modo que sua vulnerabilidade está no setor externo, ou seja, na possibilidade de uma crise na balança de pagamentos. A maioria dos comentaristas contrários ao chavismo, quer dizer, a grande maioria dos que se lê no estrangeiro, aponta para isso porque é a única via pela qual poderia haver uma crise terminal. Esta crise não vai ocorrer por causa de uma inflação de 20 ou 30%. É um problema, seria melhor que estivesse mais baixa, mas não é uma hiperinflação. A Coreia do Sul teve mais de 20% de inflação durante os anos 70 quando eram a economia que mais crescia no mundo. De modo que a única esperança para os que querem ver o fim do atual governo é uma crise da balança de pagamentos. Dada a estrutura da economia venezuelana, não creio que isso seja possível. CM - Você disse que conviria que o investimento em infraestrutura fosse feito com empresas venezuelanas. Este foi um problema que Hugo Chávez não conseguiu resolver, o da diversificação econômica em relação ao petróleo. MW - Nos primeiros quatro anos, Chávez teve que se concentrar na mera sobrevivência em função dos ataques da oposição que levaram ao golpe militar de 2002. Passado esse período, concentrou-se nos programas de saúde e educação. Diversificar uma economia é uma coisa muito difícil. O governo do Equador é um dos melhores que já conheci, mas não conseguiu diversificar a economia. É difícil, leva tempo. O governo de Chávez tentou fazer isso, mas poderia ter feito mais. Poderia ter desenvolvido uma política industrial escolhendo um setor para desenvolver com incentivos assim como fizeram Coreia do Sul, China ou Japão. Esse processo tem que ser liderado pelo Estado nos países em desenvolvimento. Mas é difícil. Creio que a Venezuela não tinha a capacidade administrativa para um programa desta natureza e por isso Chávez não conseguiu fazer. CM - Com a morte de Chávez, como será o pós-chavismo em nível econômico? MW - É difícil prever porque dependerá das medidas que vierem a ser adotadas. O cenário catastrofista tem sido muito exagerado: não vai acontecer. Se lançarem um bom programa de investimento em infraestrutura, a economia vai crescer novamente e o crescimento tem sua própria dinâmica ao reduzir a pobreza, aumentar o emprego e estimular o setor privado. É o que ocorreu depois de 2002 e voltou a ocorrer nos dois últimos anos. CM - Há alguma possibilidade de ser restringida a chamada “petrodiplomacia”, a venda de petróleo a preços preferenciais? MW - Não creio porque isso é muito importante para eles. Uma coisa sobre a qual não se escreve na imprensa internacional é que a Venezuela é provavelmente o principal objetivo dos Estados Unidos depois do Irã. Os EUA investiram muito dinheiro para desestabilizar a Venezuela. Acaba de sair um novo informe de Wikileaks sobre os planos do ex-embaixador de Caracas, William Brownfield, para desestabilizar o governo de Hugo Chávez. O plano era muito claro: tirá-lo do poder. De modo que é possível que façam algum corte, mas nada substancial, porque é muito importante para eles e têm uma visão de uma integração profunda de América Latina e Caribe. * Tradução: Katarina Peixoto. ** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Marcelo Justo, da Carta Maior
Foto: coletivoverde Economia

Terceiro Setor: qualidade ou jeitinho de fazer as coisas?

[caption id="attachment_85409" align="alignleft" width="300" caption="Foto: coletivoverde"][/caption] Nas últimas décadas, mais precisamente depois dos anos 90, assistimos a um crescimento exponencial das organizações do Terceiro Setor no cenário mundial. A importância dessas organizações, por meio de suas ações e projetos, torna-se relevante frente a questões de desenvolvimento social, econômico e ambiental. Por outro lado, a responsabilidade aumenta perante o compromisso de atuar de maneira profissional e transparente. Será que as organizações ou as pessoas que fazem parte do setor sabem da importância dessas questões? Tenho presenciado em muitas organizações um alto grau de interesse e compromisso em fazer suas ações com qualidade, seriedade e responsabilidade. E outras que vão desenvolvendo trabalhos de qualquer maneira. São caminhos árduos e muitas vezes difíceis de trilhar, frente a uma cultura brasileira voltada para um "certo jeitinho" de fazer as coisas conforme o vento, o acaso e o improviso. Infelizmente, na área social, existe um conjunto de organizações do Terceiro Setor que trabalha de qualquer maneira e de qualquer jeito -o famoso amadorismo. Mas existe também um grande número que persegue trilhas de profissionalismo, responsabilidade e seriedade em tudo que faz. Dessa forma, não basta para o Terceiro Setor crescer e fazer inúmeros projetos com todo o jeitinho que só o brasileiro sabe fazer. Se faz necessário crescer de outra maneira, ou seja, de maneira séria, profissional e com credibilidade na busca constante da qualidade dos serviços prestados à sociedade. Portanto, o caminho para o alcance da qualidade constante requer que o Terceiro Setor invista em conhecimento e em capital humano com o objetivo principal de formar pessoas com alto grau de profissionalismo e compromisso ético consigo mesmo e com o outro. Acredito que esse passo só será dado com firmeza por meio da superação urgente do paradigma da cultura voltada para o "jeitinho brasileiro de fazer as coisas". Não é fácil, mas é possível construir um novo paradigma. Como dizia o eterno tio Ho (Ho Chi Minh), "Tudo muda, é a lei". * Márcia Moussalem é sociológa, vice-presidente e coordenadora do Iats (Instituto de Administração para o Terceiro Setor) Luiz Carlos Merege. ** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/Folha de S. Paulo.


por Márcia Moussalem*
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O trabalho mediado pelas inovações tecnológicas

"Com o trabalho mediado pelas inovações tecnológicas existe um grau de abstração um pouco diferente, pois tem uma mediação diferente, já que às vezes você não está vendo o que está acontecendo, mas você recebe informações pela tela de um computador", constata o coordenador do Observatório da Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados da USP, Mário Sergio Salerno. Embora a indústria tenha passado por inúmeras revoluções técnicas, sobretudo após o taylorismo-fordismo no início do século passado, as novas tecnologias reorganizaram de forma significativa o trabalho na contemporaneidade. Para o professor, a intermediação do trabalho pelo computador reorganiza-o profundamente nas linhas de produção. “O trabalho mediado pelo computador em uma indústria química, se o processo funciona normalmente, o empregado não vai fazer nenhuma intervenção física. Aparentemente ele não está fazendo nada, mas na verdade ele está o tempo todo verificando o estado do processo”, explica Salerno, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. “O melhor operador automatizado é o que menos esforço faz, pois ele antecipa o problema. Então, o conceito do que é um bom operador, como será a formação e a remuneração dele muda”, complementa. Mário Sergio Salerno (foto) é professor do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da USP, onde coordena o Laboratório de Gestão da Inovação. É coordenador do Observatório da Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados da USP. Também é organizador de diversos livros sobre o tema e autor da obra Projeto de organizações integradas e flexíveis: Processos, grupos e gestão democrática via espaços de comunicação-negociação (São Paulo: Atlas, 1999). Confira a entrevista: IHU On-Line – A revolução tecnológica impactou profundamente a produção. É possível identificar as grandes mudanças em curso resultantes dessa revolução produtiva no mundo do trabalho? Mário Sergio Salerno – Esse impacto teve várias pontes. Dá para identificar uma tecnologia stricto sensu, que é a hegemonia capitalizada pelas tecnologias de informação e comunicação, ou seja, a computadorização dos meios de produção e a quimificação da indústria. Há processos e produtos mais baseados em química do que em metalurgia. Um exemplo pode ser o para-choque ou o revestimento dos carros. Se entrarmos em um carro dos anos 1960/1970, as partes internas eram todas metálicas e, hoje, elas têm muitos plásticos, com processos muitos diferentes e, normalmente, poupadores de mão de obra. Fora da mudança tecnológica stricto sensu, existe um conjunto importante de mudanças organizacionais dentro da empresa, entre empresas e de logística que acabam impactando a forma como as pessoas trabalham. Exemplos Para exemplificar vamos pensar no contêiner. Você pega uma série de sacos de café na fábrica ou na fazenda, coloca no caminhão, vai para o porto, onde se tem terminal de contêineres. Um guindaste pega-o e coloca dentro do navio. Antes do contêiner você precisava carregar saco a saco ao caminhão, chegar ao porto e descarregar em determinado local, colocar no guindaste e, em alguns casos, estivadores levavam saco a saco para o navio. Quando a carga chegava ao destino, tinha que repetir o mesmo processo. Já nos contêineres, que em alguns caso mal podem ocupar o espaço, porque nem sempre ele está repleto até o teto e sobra espaço dentro do navio, não ocupam tão bem os espaços como o carregamento a granel, mas o tempo logístico total é muito menor, o número de pessoas que trabalha nesse processo também é menor, porém com atividades diferentes, menos de estiva e muito mais atividades de manipulação de massas. Se formos pensar em edição de texto, como são feitos os jornais e as revistas, são exemplos muitos simples. Antigamente os redatores datilografavam a matéria, iam a um editor especial onde tinham os tipógrafos ou linotipistas, em que colocavam em ordem as letras do texto, que gerava a chapa da impressão, aí então se imprimia. Hoje o jornalista senta ao computador, existe um editor de texto que já vai corrigindo uma parte dos erros de digitação; o envio para a impressão é por sistema informatizado. Há alguns lugares que nem tem máquina de impressão; vai tudo via internet. Hoje se fazem livros e tudo é enviado diretamente pelo autor para a gráfica. O processo muda radicalmente, e isso vale para piloto de avião, para torneiro mecânico. Vamos pegar o Lula, por exemplo, cuja profissão é torneiro mecânico. Torneiro mecânico é uma profissão difícil até hoje. Ele precisa conhecer os processos de fabricação, saber ler os desenhos técnicos, conhecer materiais. Então, ela pega a peça e planeja a execução do seu trabalho. É por isso que os torneiros de um tempo para cá precisam de uma formação escolar. Esse é o topo dos torneiros, o ferramenteiro, o profissional, que é diferente do torneiro operacional que aperta o botão e tira a peça do outro lado. Esse torneiro ferramenteiro vai planejar e executar isso manualmente. Ela precisa ter habilidade manual. Isso é muito difícil, porque você pode até planejar, mas precisa da habilidade manual que não é tão trivial. Hoje, você planeja a atividade (ou programa essa atividade) em computador, o que não é muito difícil de fazer, e manda a máquina executar. Isso significa que a sua relação com o meio de trabalho muda a passa a ser mais abstrata, porque no modo operacional você vai executando e pode ir mudando o planejamento. Mas, quando você programa, isso vai até o fim. A abstração é maior, a sua relação com o produto que está sendo feito é diferente. IHU On-Line – O chão de fábrica brasileiro assimilou os princípios de organização do trabalho toyotista ou ainda majoritariamente prevalece o taylorismo-fordismo? Mário Sergio Salerno – Essa é um discussão de três meses e eu precisaria entender o que você chama de toyotismo e taylorismo. Existem análises no Brasil que alguns setores industriais sequer entraram no taylorismo-fordismo. Tem de tudo. Primeiro, o taylorismo-fordismo não entra em todos os setores produtivos, o que grosso modo se chama de toyotismo muito menos. O que dá para dizer é que existe uma heterogeneidade muito grande nos locais de trabalho; têm experiências muito avançadas de trabalho em equipe autônoma, sem chefe, em que operários trabalham em turnos contínuos, 24 horas por dia, onde os superiores trabalham em turno administrativo. Assim, a maior parte das horas operacionais só tem operário na fábrica e são experiências muito exitosas, que são antitaylorismo e antitoyotismo. O toyotismo é uma extensão dos princípios clássicos do taylorismo, mas isso são coisas do século XIX. Tendência A tendência para a indústria de ponta é ela trabalhar com esquemas mais flexíveis, menos hierárquicos, no qual o trabalhador tem muito mais liberdade para tomar decisões e muito mais responsabilidade nas decisões que toma, o que é o contrário do taylorismo e do fordismo, que são muito regrados. Pensamos muito em produção de alto volume, produção de automóvel, mas essa é uma pequena parte dos processos produtivos, embora seja muito importante porque tem um peso enorme no PIB. Do ponto de vista das pessoas que trabalham, mesmo na indústria automobilística, está havendo uma redução dos níveis hierárquicos, do número de cargos dentro de um mesmo nível hierárquico e isso tem a ver com a necessidade de flexibilidade e eficiência da indústria moderna. Essa talvez seja a mudança mais importante que está em curso em termos organizacionais. IHU On-Line – O crescente recurso do “trabalho em equipe” no chão de fábrica tem sido adotado com o discurso de uma maior autonomia aos trabalhadores. De fato, isso tem ocorrido, ou se trata de uma estratégia para alavancar a produtividade? Mário Sergio Salerno – Essas são duas coisas que não são antagônicas. É possível uma maior autonomia e maior produtividade. Todos os casos que eu conheço de maior autonomia estão ligados à eficiência, pois nenhuma empresa vai introduzir um sistema que diminua a produtividade. Não tem nenhuma pesquisa no Brasil que consiga dizer que o trabalho em equipe esteja aumentando ou diminuindo, se é majoritário ou se os grupos têm mais autonomia ou não. O que existem são inúmeros estudos de caso onde se pode dizer: em tal caso os trabalhadores têm mais autonomia, em tal caso têm menos. Minha percepção é que estão aumentando os casos em que os trabalhadores têm autonomia decisória, ou seja, no trabalho que ele faz. Às vezes as pessoas confundem e pensam em decisões em geral, mas os operários continuam operários e os gerentes financeiros continuam gerentes financeiros. Nos sistemas muito automatizados onde há variação de produção, a autonomia é muito funcional para a empresa, pois os grupos de trabalho antecipam problemas. A autonomia versus produtividade, e que está bem escrito em literatura de pesquisa, indica que há uma tendência para o trabalho mais autônomo, em que a pessoa controla mais o seu tempo, tem uma carga de responsabilidade maior e é cobrada por isso, a “faca de dois gumes”. IHU On-Line – Como remunerar esse tipo de atividade que envolve a tomada de decisões e autonomia? Mário Sergio Salerno – Todo o trabalho tem um grau de subjetividade inserida, mesmo da pessoa que trabalha na linha de montagem. Existe um mundo de trabalho não fabril e não operário onde esse tipo de coisa existe há séculos. O mundo operário, numa acepção historicamente ampla, nas atividades mais diretas, quem trabalha no comércio, banco, etc., por muito tempo reduziu os salários dos trabalhadores por motivos de economia. Depois houve as lutas sindicais para reduzir abusos, houve muita regulamentação das atividades, trabalho igual, salário igual. Quando a lógica do trabalho passa a ser menos pelo movimento que ele faz e mais pelo raciocínio, fica muito difícil comparar uma atividade com outra. Mediação Por exemplo, no trabalho mediado pelo computador em uma indústria química, se o processo funciona normalmente, o empregado não vai fazer nenhuma intervenção física. Aparentemente ele não está fazendo nada, mas na verdade ele está o tempo todo verificando o estado do processo. O padrão operador é se antecipar e não deixar que haja alteração na temperatura, que uma chapa não grude na outra, fazendo correções antes que o problema aconteça. O melhor operador automatizado é o que menos esforço faz, pois ele antecipa o problema. Então, o conceito do que é um bom operador, como será a formação e a remuneração dele muda. Quando o empregador contrata, ele contrata o potencial das pessoas e não necessariamente o que eles vão fazer. Quando eu contrato um advogado eu não estou pensando que ele vai escrever 300 mandados de segurança em um mês ou mais 50 petições. Eu não pago por isso, eu pago pelo potencial de trabalho por meio de um contrato. Esse tipo de coisa está chegando ao trabalho direto e a tendência é que essa remuneração seja pelo aumento do potencial dele, conforme vai aumentando a experiência e o potencial dele vai subindo no seu grau de remuneração. O trabalhador que faz mais cursos vai subindo no grau de remuneração, mesmo que aparentemente não use aquilo, mas ele tem o potencial de usar se for necessário. É como o corpo de bombeiros: você é treinado para várias situações, mas o ideal é que você nunca precise utilizar. IHU On-Line – Fala-se muito que com as inovações tecnológicas falta mão de obra qualificada no mercado de trabalho brasileiro. Qual é o real tamanho do problema? Mário Sergio Salerno – Não sei e ninguém sabe. O Brasil está crescendo em uma condição de pleno emprego, então falta qualquer tipo de mão de obra qualificada. Nós temos um problema no atacado escolar e temos um ponto importante porque o Brasil forma poucos engenheiros atualmente. Tem aumentando o número de engenheiros, mas ainda é pouco. Tem muita análise impressionista de que está aumentando, mas se você faz uma análise comparativamente com países no mesmo nível de industrialização, vemos que temos menos engenheiros, uma escolaridade mais baixa. Existe relação, embora não seja muito direta, entre formação escolar e trabalho, com as novas tecnologias, principalmente as mediadas por computador. Com o trabalho mediado pelas inovações tecnológicas existe um grau de abstração um pouco diferente, pois tem uma mediação diferente, já que às vezes você não está vendo o que está acontecendo, mas você recebe informações pela tela de um computador. Então a pessoa tem que interpretar o que está acontecendo a partir de dados sintético s e tomar uma decisão. É diferente de estar lá olhando, pois no tipo de raciocínio que se usa para construir uma abstração do que está acontecendo estão presentes etapas da formação escolar que ajudam. Por exemplo, quando aparece na tela do computador um gráfico do conteúdo de processo e mostra que aquelas peças em fabricação estão com o diâmetro crescendo, eu vou tomar uma decisão antes que a peça cresça e saia do padrão. Um operário que fez ensino médio e estudou física deve ter feito experiências de velocidade, quando ele trabalha com gráfico, seja da física ou da química. A pessoa que estuda matemática tem muito mais facilidade de trabalhar com abstrações do que uma pessoa que não estuda matemática. Então, tem um tipo de formação que não é tão instrumental, de decorar fórmula, mas de lógica de pensamento, que é dada pelo ensino formal. Isso tem uma relação importante com o trabalhar com novas tecnologias. Independentemente disso, se o sujeito vai trabalhar como robô ou não, ele como cidadão tem direito a uma boa formação. Nesse contexto, eu entendo que há uma relação funcional, sim. O trabalhador melhor escolarizado, em geral, tende a ter um desempenho melhor no trabalho. IHU On-Line – A indústria brasileira tem produzido tecnologia ou é meramente importadora da tecnologia de fora? Mário Sergio Salerno – Tem de tudo. A maior parte das cadeias produtivas brasileiras está dominada por empresas multinacionais nos ramos automobilístico, da química e eletrônica. Isso veio do Juscelino, que optou por fazer uma internacionalização para produzir aqui para o mercado interno. Poucos países fizeram esse tipo de política. Desde lá que a governança das cadeias e das redes produtivas está dominada por empresas multinacionais. Tais empresas, como é esperado, têm seu centro decisório fora do Brasil. Há exceções de praxe como a Embraer, por exemplo. O centro decisório é composto pela diretoria e são levadas em conta as decisões financeiras e a estratégia de produto, o que está ligado ao centro de estratégia de pesquisa e engenharia. Por outro lado, existem as empresas brasileiras e, nesse universo, há um conjunto de organizações que estão investindo mais em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Assim, existe um problema na estrutura de que se inova pouco. Tem um apoio do Estado muito significativo. Depois de 2004 a Finep aumentou o investimento em várias vezes. IHU On-Line – Quais são as exigências do mercado de trabalho para o trabalhador do século XXI? Mário Sergio Salerno – Escolaridade, trabalho em equipe com outras pessoas de formação diferente e autonomia para tomar decisões e assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas. * Publicado originalmente no site IHU On-Line. 


por Redação do IHU On-Lne
Pesquisas sugerem que 262 milhões de jovens em países emergentes estão inativos. Foto: Reprodução/Economist Economia

Geração desemprego

[caption id="attachment_85463" align="alignleft" width="300" caption="Pesquisas sugerem que 262 milhões de jovens em países emergentes estão inativos. Foto: Reprodução/Economist"][/caption] O número de jovens sem trabalho no mundo inteiro é quase tão grande quanto a população dos Estados Unidos Há mais jovens ociosos hoje em dia do que jamais houve. Números da OECD sugerem que 26 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos de idade em países desenvolvidos não estão empregados, estudando ou em treinamento; o número de jovens desempregados aumentou 30% desde 2007. A Organização Mundial do Trabalho afirma que 75 milhões de jovens no mundo todo estão à procura de empregos. Pesquisas do Banco Mundial sugerem que 262 milhões de jovens em países emergentes estão economicamente inativos. A depender da técnica de estimação, o número de jovens sem emprego pode ser tão grande quanto a população dos EUA (311 milhões de pessoas). Dois fatores desempenham papéis importantes. Em primeiro lugar, a longa desaceleração do Ocidente reduziu a demanda por trabalho, e é mais fácil evitar a contratação de jovens do que demitir funcionários antigos. Em segundo lugar, o crescimento populacional das economias emergentes é mais rápido em países cujos mercados de trabalho são disfuncionais, tais como Índia e Egito. O resultado é um “arco de desemprego”, que se inicia no sul da Europa, passa pelo norte da África e chega até o sul asiático, onde a recessão do mundo rico se encontra com o terremoto jovem dos países pobres. O ódio entre os jovens desempregados já chegou às ruas do Oriente Médio. Além disso, a incidência de crimes violentos, que em geral está em declínio nos países ricos, está aumentando na Espanha, Itália e Portugal – países com um altíssimo nível de desemprego entre os jovens. * Texto adaptado e traduzido da Economist por Eduardo Sá. ** Publicado originalmente na revistas The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação da The Economist
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EUA atacam ‘capitalismo de Estado’ da Ásia

Países asiáticos como China, Malásia, Vietnã e Cingapura levantaram sua econômicas com um modelo de ‘capitalismo de Estado’, em que órgãos públicos apoiam ativamente suas transnacionais. Mas esse modelo está agora sob risco diante das negociações do Acordo de Associação Trans Pacífico, um tratado comercial e de investimentos impulsionado pelos EUA e que é negociado à portas fechadas. Numerosos livros e artigos têm se ocupado do contraste e da competição entre os atuais modelos econômicos asiático e ocidental. O exitoso modelo asiático de “capitalismo impulsionado pelo Estado” se vê agora ameaçado pelo Acordo de Associação Trans Pacífico (TPPA, na sigla em inglês). Os países ocidentais têm, supostamente, um modelo de livre mercado baseado na competição entre empresas privadas, no qual o governo não intervém. E os países do leste asiático praticariam o “capitalismo de Estado”, no qual o governo tem um papel importante, colaborando com o setor privado nacional e no qual também numerosas empresas são total ou parcialmente de propriedade estatal. Os países ocidentais fustigam cada vez mais o modelo asiático, argumentando que as empresas estatais contam com ajuda estatal, obtendo uma vantagem desleal frente às empresas estrangeiras que competem com elas. China, Malásia, Vietnã e Cingapura são alguns dos países nos quais o Estado desempenha um papel fundamental. No Japão e Coreia do Sul, suas empresas nacionais cresceram até se transformarem em colossos mundiais com o apoio sistemático de seus governos. Para estes países, o chamado capitalismo de Estado (ou socialismo orientado ao mercado, no caso dos socialistas) tem funcionado bem graças a um desenvolvimento industrial e um crescimento econômico relativamente alto e contínuo. Alguns países ocidentais tentaram frear, ou até eliminar o modelo asiático de capitalismo de Estado ou ajudado pelo Estado. Esta é uma atitude hipócrita, porque na Europa, Estados Unidos e Japão, o setor agrícola está fortemente subsidiado e protegido. Muitos de seus estabelecimentos agrários não poderiam sobreviver sem a ajuda determinante do Estado e dos altos impostos de importação. Além disso, vários de seus bancos e empresas industriais também estão subvencionados de variadas maneiras, inclusive mediante os resgates multimilionários por conta das recentes crises financeiras. Mas isto não os impediu de atacar o modelo asiático. A última tentativa de botar-lhe freio foi através das negociações do Acordo de Associação Trans Pacífico. Este tratado sobre comércio e investimento do qual participam Estados Unidos, Canadá, Malásia, Cingapura, Vietnã, Brunei, Peru, Chile, Austrália e Nova Zelândia contém uma importante seção sobre as empresas públicas, impulsionada pelos Estados Unidos e Austrália. Como sua negociação se realiza em segredo, não se conhece ainda o texto da seção de empresas públicas, mas tudo permite pensar que muito provavelmente contenha controles para frear e dar forma ao comportamento de três tipos de empresas estatais. Os Tratados de Livre Comércio (TLC) bilaterais recentemente concluídos pelos Estados Unidos contém um capítulo sobre a competição que se refere a dois tipos de empresas estatais. É provável que Washington proponha no Acordo de Associação Trans Pacífico algo similar ao que se estabelece no TLC com o Peru, por exemplo, em matéria de controles sobre os monopólios designados e empresas do Estado. Ali se diz que, na hora de comprar ou vender os bens ou serviços de um monopólio, os monopólios estatais atuarão exclusivamente de acordo com considerações comerciais, em particular com respeito ao preço, a qualidade, a disponibilidade e ao transporte. Sendo assim, deverão oferecer um tratamento não discriminatório aos investimentos, bens e serviços de outros membros do Acordo de Associação Trans Pacífico e não utilizarão sua posição monopólica para incorrer em práticas anticompetitivas através das relações com suas casas matrizes, filiais ou outras empresas de propriedade comum em um mercado não monopolizado, por tratar-se de práticas que afetam negativamente os investimentos de outros países. As empresas estatais oferecerão, igualmente, um tratamento não discriminatório na venda de bens ou serviços aos investimentos de outros países. Mais importante ainda: Os Estados Unidos e a Austrália propõem um terceiro tipo de empresa pública que também estaria regida por controles. Segundo relatórios de imprensa, a Austrália introduziu o princípio de “neutralidade competitiva” para controlar as empresas estatais. A forma em que se aplicará este princípio pode ser antecipada a partir das diretrizes do governo australiano sobre neutralidade competitiva, que se baseiam no conceito de “negócios de propriedade estatal”. A empresa comercial de propriedade estatal que compita com empresas privadas pode obter vantagens que impeçam ao setor privado competir em igualdade de condições. De acordo com as diretrizes australianas, essas vantagens incluem isenções de impostos, financiamento mais barato da dívida (pela qualificação de baixo risco ou pelas garantias governamentais), não necessidade de uma taxa comercial de retorno e isenção de restrições reguladoras ou de gastos. Para compensar estas vantagens, as diretrizes australianas estabelecem agora a forma em que as empresas estatais devem pagar os impostos em sua totalidade, como devem devolver ao governo central a diferença dos custos de seus empréstimos em comparação com os custos dos empréstimos do setor privado, o pagamento dos honorários das licenças equivalentes ao governo central e garantir que obtenham uma taxa de rentabilidade comercial. É provável, pois, que o projeto do Acordo de Associação Trans Pacífico tenha controles para uma terceira categoria de empresas estatais, as entidades comerciais vinculadas ao governo que estejam envolvidas em atividades comerciais que competem com o setor privado. Os controles propostos poderiam estar nessa mesma linha, pela qual se recusariam as “vantagens” que têm as empresas vinculadas ao Estado, como as mencionadas nas diretrizes australianas. * Tradução: Liborio Júnior. ** Publicado originalmete no site Carta Maior.


por Martim Khor, da Rede do Terceiro Mundo
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Incentivos à indústria química podem frear o déficit do setor

O governo federal deu um primeiro sinal de alívio à indústria química com a desoneração da matéria-prima para o setor. A alíquota do PIS e da Cofins para a aquisição de matérias-primas cairá de 5,6% para 1%. A redução dos impostos deve dar mais fôlego na concorrência com os importados. Desde 2009, o déficit da balança comercial dos produtos químicos praticamente dobrou e atingiu 28 bilhões de dólares no ano passado. Para 2013, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) estima que o déficit ficará em ao menos 30 bilhões. Os empresários reivindicam ainda a desoneração dos investimentos, da inovação e uma política específica para o uso do gás natural, ações na pauta do governo. Abaixo, uma entrevista exclusiva com o presidente da Abiquim, Fernando Figueiredo, sobre o pacote e os desafios do setor. [caption id="attachment_85355" align="alignleft" width="300" caption="Fernando Figueiredo, presidente da Associação Brasileiras das Empresas Químicas, sobre as crescentes dificuldades de competitividade do setor, ameaçado no mercado internacional. Foto: Marcos Méndez"][/caption] CartaCapital: Como está a situação da indústria química no Brasil hoje? Fernando Figueiredo: O consumo de produtos químicos tem crescido a taxas incríveis no País, mas a produção caiu 2,7% em 2012. Isso por causa do alto custo para investimento, da matéria-prima cara e da concorrência desleal dos importados, com a prática de dumping e subsídios fiscais. No ano passado conseguimos aprovar o fim da guerra dos portos, que permitia a importação de produtos químicos em Santa Catarina, por exemplo, com incentivo fiscal de 9%. E conseguimos ganhar 28 ações antidumping de 2009 a dezembro de 2012. O déficit da balança comercial do setor passou a ser exponencialmente crescente depois de 2006. Em 1990, ele era de 1,5 bilhão. A expectativa na década de 90 era de que o déficit se mantivesse por volta de 5 bilhões de dólares. Quando se chegou em 6,6 bilhões em 2000, já foi um alerta de que a coisa não estava caminhando bem. CC: Qual a perspectiva para a balança comercial este ano? FF: No trimestre, o déficit foi de 6,7 bilhões de dólares, com perspectiva de aumento. Se fecharmos o ano abaixo de 30 bilhões de dólares, vai ser um sucesso. Isso porque não tem nenhum projeto novo entrando em operação. No ano passado, a Braskem inaugurou uma planta de butadieno [matéria-prima utilizada na indústria de borrachas sintéticas] e outra de PVC [usada na fabricação de tubos, conexões, esquadrias], ambas de escala mundial. O único projeto em andamento hoje é o da Basf para a produção de ácido acrílico [matéria-prima para fraldas, químicos para construção, resinas acrílicas para tintas, tecidos e adesivos] no Polo de Camaçari (BA), que entra em operação no final do ano que vem. Não tem nenhum grande investimento que ambicione mudar o cenário de déficit. Estamos vendo uma redução da indústria química brasileira, com a perda constante de competitividade. CC: Como é possível identificar essa redução? FF: Temos um estudo ainda não publicado a respeito de fechamento de plantas. Só no ano passado foram fechadas mais duas plantas brasileiras que utilizavam o gás como matéria-prima. Foram as fábricas de tolueno diisocianato (TDI) da Dow Brasil e de metanol da GPC, as duas em Camaçari (BA). A GTC diz que parou temporariamente, mas esse período pode ser longo. CC: O que o senhor pode adiantar sobre esse estudo? FF: Não queremos falar sobre ele, porque estamos investindo muito agora no Conselho de Competitividade, do Plano Brasil Maior. A nossa postura é de que não adianta só reclamar, tem que propor soluções. Mas o fechamento de plantas foi dramático. Curiosamente, o número de emprego cresceu por volta de 2% em 2012, apesar da queda da produção [de 2,7%]. Vamos verificar se o responsável pelo impacto foi um setor específico. CC: Que soluções as empresas propõem para reverter esse quadro? FF: Foi feito um trabalho excepcional no Conselho de Competitividade da Indústria Química, com análise e verificação das medidas que deveriam ser tomadas para corrigir os problemas. Os trabalhos foram entregues em maio de 2012 com cinco pontos chaves, dos quais apenas um, o estudo do BNDES de diversificação da indústria, está em andamento. Os outros quatro foram anunciados recentemente pelo governo e estão na sua agenda estratégica. CC: Quais são esses pontos? FF: O primeiro é desonerar investimentos. O investimento no Brasil é 25% mais caro que na Ásia e 10% mais que no México. A proposta é criar um sistema de incentivo para excluir o PIS/Cofins da engenharia e das máquinas e equipamentos. O projeto foi elaborado, e o governo o copiou para o setor de fertilizantes, cuja regulamentação da medida provisória deve sair nos próximos dias. O segundo é desonerar a matéria-prima por meio de um sistema de crédito de PIS/Cofins na aquisição [medida anunciada na terça-feira 23, com redução da alíquota de 5,6% para 1%, válida até 2015]. O terceiro é estimular o investimento em pesquisa e inovação da química de renováveis, de forma que eles saiam do patamar atual de 0,6% do faturamento da indústria para 1,5% em dez anos. Os incentivos estão na pauta para serem lançados até agosto desse ano. E o quarto pilar é de criação de uma política de uso do gás como matéria-prima, que o governo se comprometeu a fazer até dezembro de 2013. Para baratear o gás natural, sugerimos que se faça um leilão específico de curto prazo para as plantas que existem hoje. O gás no Brasil custa quatro vezes o preço do gás nos Estados Unidos, onde foi desenvolvida a tecnologia para explorar o gás de xisto, que é tirado da rocha. Mas nós temos o pré-sal, que pode ser um grande diferencial brasileiro para desenvolvimento da indústria química. CC: Quais os resultados esperados com essas medidas? FF: No caso de fertilizantes, um investimento de 13 bilhões de dólares no curto prazo. Na indústria química em geral, no médio prazo a gente imagina que serão viabilizados cerca de 30 bilhões de dólares de investimento e, no longo prazo [dez anos], 167 bilhões. Se todas as medidas forem implementadas, o uso da capacidade instalada da indústria deve passar de 80% para 92%, e imagina-se uma redução de 5 bilhões de dólares nas importações. CC: Como se chegou à previsão de 167 bilhões em investimentos? FF: Em 2010, identificamos oportunidades de 167 bilhões de dólares de investimentos no Brasil até 2020, o que daria uma média de 15 bilhões por ano. Basicamente, são 87 bilhões para acompanhar o crescimento econômico do País e não aumentar o déficit. Para substituir o déficit, é preciso investir mais 45 bilhões. Na química de renováveis, imaginamos que são necessários 20 bilhões. E os 15 bilhões restantes são para aproveitamento do pré-sal. É muito dinheiro. CC: Qual a perspectiva real de investimentos hoje? FF: Se olharmos o que foi feito desde 2010, vemos que estamos muito longe do potencial [19 bilhões de dólares investidos e planejados de 2010 a 2016]. A Braskem concluiu dois projetos de escala mundial, duas plantas da Petroquímica Suape devem entrar em operação agora. Há também o projeto de amônia da Petrobras e o de acrílico da Basf, que devem entrar em operação no final de 2014. São 7,6 bilhões de dólares entre os valores investidos em 2012 e o que falta para finalizar os projetos. O que se tem de projeto planejado é fundamentalmente o Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, da Petrobras], que está postergado. O projeto de plástico verde da Mitsui com a Dow aparentemente também foi adiado. Os demais investimentos previstos somam apenas 2 milhões de dólares. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Samantha Maia, da Carta Capital

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Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.

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Unesco critica Austrália por riscos ambientais na Grande Barreira de Coral

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Estudo calcula benefícios de árvores urbanas dos Estados Unidos. Parques absorvem carbono emitido e poupam US$ 1,5 bilhão por ano.

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Países amazônicos criam órgão de defesa e pesquisa para proteger a floresta, que será responsável pela gestão sustentável dos recursos da floresta

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Desmatamento e degradação de florestas na Amazônia atinge área de 175 km² entre março e abril. O levantamento é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

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O lixo é considerado normalmente um problema. Em Oslo, capital da Noruega, o problema tem sido a falta de lixo. A cidade transforma os resíduos em energia.