O índice Big Mac

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O índice Big Mac


por Redação do The Economist


[caption id="attachment_60479" align="alignleft" width="341" caption="O índice Big Mac ajuda a explicar as mudanças no mercado monetário. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] O índice Big Mac avalia o verão de 2007, início da crise que atingiu os Estados Unidos e a Europa. Desta vez, o índice Big Mac da revista The Economist nos dá uma visão das mudanças ocorridas no mercado monetário desde o verão de 2007. O índice é baseado na teoria da paridade do poder de compra, que diz que as taxas de câmbio devem realizar ajustes para manter o preço da cesta básica igual em todos os países. Nossa cesta contém apenas um item: o hambúrguer Big Mac. O índice é feito a partir do cálculo da taxa de câmbio que levaria o Big Mac a custar o mesmo preço em todos os países. Por exemplo: de acordo com a taxa de câmbio atual, um Big Mac vendido por US$ 4,33 nos Estados Unidos custa apenas US$ 2,33 (75 rublos) na Rússia. Já no Brasil, o hambúrguer é vendido a US$ 5 (R$ 10). Logo, o dólar compra muito mais hambúrguer na Rússia, o que significa que o rublo é barato e o real é um pouco mais caro. Aconteceram algumas mudanças de grande porte na moeda local dos países desde os primeiros rumores da crise. O bolívar venezuelano supervalorizou de 1% para 83%, graças à alta inflação e à paridade cambial mantida com o dólar, que está criando um desequilíbrio crescente no comércio com os Estados Unidos. O dólar australiano passou de uma desvalorização de 14% para uma supervalorização de 8%. No início da crise, os capitalizados bancos australianos promoveram uma notável reestruturação. Mais recentemente, a moeda se beneficiou com o aumento no preço das commodities e as fortes exportações para a China. Ao contrário do pound inglês, que está desvalorizado: a indústria financeira britânica e grande parte da economia mundial foram o epicentro da recente agitação (o pound teve uma queda significativa em 2008) e seu maior mercado de exportação, a zona do euro, está em grande desordem. * Publicado originalmente no jornal The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.

e5 Entrevista

Desaceleração da economia: os desafios da indústria nacional

Para acelerar o crescimento brasileiro, será preciso também “superar o atraso tecnológico com maiores investimentos na pesquisa e educação, com o fortalecimento da grande empresa nacional, com a realização de parcerias com empresas estrangeiras, com maiores incentivos públicos”, diz o economista Anselmo Santos. Diante da desaceleração da economia brasileira, a crise no setor industrial “está sendo mais generalizada” e afeta os setores tradicionais mais desenvolvidos e que, “juntamente com outros, estão enfrentando enormes dificuldades de competir no mercado interno e internacional”, assinala o economista Anselmo Santos à IHU On-Line em entrevista concedida por e-mail. Entretanto, aponta, os maiores desafios dizem respeito aos setores intensivos em tecnologia. Segundo o economista, o baixo crescimento da indústria nacional está relacionado com a desaceleração econômica e com o agravamento da crise assim como o da concorrência internacional. As crises externas, acentua, exacerbam “os problemas relacionados ao processo de industrialização”, visto que restringem e limitam a expansão industrial. Para evitar a desindustrialização e garantir o desenvolvimento brasileiro, Santos enfatiza que o país não deve priorizar um setor em detrimento de outro, mas sim “conseguir combinar o sucesso do agronegócio, da mineração, do pré-sal, com o fortalecimento da nossa indústria, com a manutenção dos principais setores industriais, que construímos com muito custo no período 1930-1980, e a internalização de novos ramos, naqueles que estamos muito atrasados para os padrões internacionais, como na microeletrônica, informática, máquinas e equipamentos, telecomunicações, química e farmacêutica, etc.”. E dispara: “o pré-sal é um segmento fundamental nessa perspectiva de buscar a ampliação do investimento e o desenvolvimento sustentado”. Anselmo Santos é graduado e mestre em Ciências Econômicas. Doutor em Teoria Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trabalha como professor no Instituto de Economia dessa instituição e é diretor adjunto do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), do mesmo instituto. Confira a entrevista. IHU On-Line – A que atribuiu o aumento do desemprego no setor industrial? Anselmo Santos – Esse movimento deve-se principalmente à política de elevação da taxa de juros e de superávit primário, que afetaram duramente a economia brasileira no segundo semestre de 2011, e no primeiro semestre desse ano. Além disso, a taxa de câmbio muito sobrevalorizada até dois meses atrás, num cenário de encolhimento dos mercados e de acirramento da concorrência internacional, somou-se aos efeitos negativos provocados na indústria brasileira pela política econômica, com aumento de importações e grandes dificuldades para as exportações. Nesse contexto de juros muito altos, de desaceleração do ritmo de crescimento econômico, de agravamento da crise na zona do euro, a elevação da inadimplência e a retração do crédito privado também provocaram impactos negativos e as expectativas pessimistas em relação a novos investimentos completaram o quadro de forte desaceleração de inúmeros ramos industriais. Mesmo assim, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged/MTE) mostram que, de janeiro a junho desse ano, o saldo do emprego formal resultou na abertura de mais de um milhão de empregos regidos pela CLT. O saldo de emprego somente foi negativo no ramo de materiais de transportes (-3,8 mil empregos), embora tenha apresentado forte desaceleração na indústria mecânica e no segmento de alimentos e bebidas. IHU On-Line – Qual a situação da indústria brasileira hoje? Quais são hoje os setores da indústria mais desenvolvidos e os que ainda enfrentam os maiores desafios? Anselmo Santos – Do ponto de vista conjuntural, a situação parece estar melhorando com a redução da taxa de juros e de impostos, assim como deverá melhorar ainda mais com os impactos da elevação do preço do dólar. Este ano, a crise está sendo mais generalizada, afetando o segmento de material de transportes; papel, papelão, editorial e gráfica; mecânica; metalúrgica; e também a indústria de produtos alimentares e de bebidas. São ramos tradicionais já muito desenvolvidos no Brasil e que, juntamente com outros, estão enfrentando enormes dificuldades para competir no mercado interno e internacional. Por isto, a urgência de medidas de proteção e de promoção da competitividade, de elevação da produtividade. Os desafios são maiores nos ramos mais intensivos em tecnologia, na microeletrônica e informática, na química e farmacêutica, na aeronáutica e comunicações, no segmento de máquinas e equipamentos, entre outros, nos quais apresentamos, em geral, um reduzido nível de desenvolvimento da produção e de incorporação de tecnologia. Nesses casos, não se trata somente de proteger; é preciso criar – e aí os problemas são bem maiores e complexos, e os investimentos mais difíceis de viabilizar. Desse ponto de vista, mais estrutural, o governo também vem adotando um conjunto de medidas que deve ter impactos muito positivos nos próximos anos, mas os esforços requeridos são maiores e o sucesso das políticas – industrial, setorial, de incentivos, etc. – mais imprevisíveis. IHU On-Line – Como compreender a aumento das demissões e as crises da indústria automobilística, considerando que é uma das que mais recebem incentivo do governo federal? Anselmo Santos – O que estava ocorrendo era uma forte desaceleração resultante do quadro de forte desaceleração econômica, num segmento que vinha crescendo num ritmo muito forte, que tinha elevados estoques e cuja demanda está muito associada às condições de crédito, que se deterioraram rapidamente; situação que está melhorando com as medidas implementadas pelo governo. Por outro lado, os incentivos do governo foram importantes e bem-sucedidos nos momentos de forte crise, em 2008-2009, e devem também ser nesse momento, sustentando a demanda de um setor que tem uma grande capacidade de puxar o crescimento de outros ramos de atividade. A política governamental para esse setor também tem sido importante do ponto de vista mais estrutural; e isso pode ser expresso pelo fato de que quase todas as montadoras do mundo estão presentes na produção nacional, o volume de produção interna aumentou de forma impressionante nos últimos anos e o Brasil passou a ser um dos países mais importantes na produção mundial de automóveis. IHU On-Line – Dos recursos do BNDES, 64% foram aplicados em projetos de grandes empresas. Como compreender estes dados considerando o desenvolvimento da indústria como um todo? Por que no Brasil há uma tendência de favorecer mais as grandes indústrias e nem tanto as pequenas? Anselmo Santos – O desenvolvimento da grande empresa é uma política estratégica para o desenvolvimento do país, para melhorar a competitividade e a forma de inserção na economia internacional, para promover maiores avanços na pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, assim como para que o país possa alcançar melhores condições em termos de autonomia financeira, no financiamento do investimento de longo prazo, no equilíbrio externo, etc. Ou seja, o desenvolvimento da produção, da tecnologia e das finanças passa pela necessidade de fortalecimento da grande empresa, especialmente das nacionais. E é claro que elas demandam mais recursos do BNDES, porque é muito maior o volume de investimentos associados a seus projetos, num país marcado por praticar uma das maiores taxas de juros do mundo e sem um adequado sistema privado de financiamento do investimento, de crédito de longo prazo. É claro que isso não é incompatível com a melhoria das linhas de crédito do BNDES para o segmento de micro e pequenas empresas, que também tem se beneficiado de importantes linhas de financiamento deste e de outros bancos públicos. No entanto, pelo seu caráter estratégico na ampliação do investimento e do desenvolvimento do país, o crédito público para grandes empresas também possibilita a expansão e a abertura de novos mercados, que são fundamentais para que o segmento de médias e pequenas empresas tenham estímulos pela demanda, com a ampliação de seus mercados, que justifiquem a busca de um volume maior de financiamento. IHU On-Line – Com a queda das exportações de commodities, o Brasil enfrenta novamente uma desaceleração econômica. Quais são as consequências desse modelo agroexportador para o país? Anselmo Santos – A desaceleração não resulta do comportamento do setor de commodities; pelo contrário, ele apresenta um comportamento que ajuda a economia brasileira de várias formas, principalmente gerando um grande superávit comercial e contribuindo para melhorar os resultados das nossas contas externas, e seu comportamento deverá, muito provavelmente, melhorar nos próximos anos, quando (e se) passados os efeitos da atual crise internacional. O problema não é ter um forte setor produtor de commodities e exportador. Isto é uma grande vantagem. Na discussão do desenvolvimento, do risco da desindustrialização, a questão colocada não é a de escolher um setor em detrimento do outro – da indústria –, mas sim conseguir combinar o sucesso do agronegócio, da mineração, do pré-sal, com o fortalecimento da nossa indústria, com a manutenção dos principais setores industriais, que construímos com muito custo no período 1930-1980, e a internalização de novos ramos, naqueles que estamos muito atrasados para os padrões internacionais, como na microeletrônica, informática, máquinas e equipamentos, telecomunicações, química e farmacêutica, etc. IHU On-Line – Nesse cenário de desaceleração econômica, percebe o retorno da desindustrialização? Ou pode-se dizer que a desaceleração é consequência da desindustrialização em curso há um tempo no país? Anselmo Santos – A desaceleração econômica, num contexto de agravamento da crise e da concorrência internacional, exacerba os problemas relacionados ao processo de industrialização, porque tem restringido a expansão industrial num contexto de forte ampliação das importações de manufaturados e de enormes dificuldades para a ampliação das exportações na maioria dos ramos industriais. A desaceleração está muito mais associada, como disse, aos impactos da política econômica de elevação dos juros e do superávit primário, implementada desde o final de 2010, às restrições ao crédito e ao consumo interno e ao pessimismo – muito influenciado pela situação econômica e financeira internacional – que tem contribuído para adiar projetos e reduzir o volume de investimentos. IHU On-Line – Como vê as políticas econômicas do governo Dilma? As medidas anticíclicas de combate à crise são suficientes para manter o crescimento? O que mais precisa ser feito? Anselmo Santos – Essas políticas já estão mostrando seus efeitos positivos em termos de aumento da venda de automóveis, da ampliação do crédito, do aumento das exportações em alguns setores, como o de máquinas e equipamentos. Muita coisa ainda precisa ser feita; o mais importante é criar condições para a ampliação sustentada do investimento, para que ele amplie sua participação para um patamar de 24% a 25% do PIB. O grande desafio é manter a taxa de juros num patamar baixo e organizar também – além do BNDES e de outros bancos púbicos – um sistema privado de financiamento de longo prazo adequado às necessidades desse processo. Será preciso também superar o atraso tecnológico com maiores investimentos na pesquisa e educação, com o fortalecimento da grande empresa nacional, com a realização de parcerias com empresas estrangeiras, com maiores incentivos públicos. A infraestrutura é também um aspecto decisivo, e isso – mesmo com as concessões ao setor privado – vai requerer uma forte ampliação do investimento público, que poderá ser viabilizada pelos impactos da recente queda da taxa de juros, ou seja, pelo menor custo com o pagamento de juros ao setor privado. Além disso, precisaremos contar com um cenário internacional mais favorável, pois, se a crise internacional se agravar muito, os esforços terão que ser bem maiores, e para alcançar resultados mais modestos. IHU On-Line – Percebe-se, no caso do pré-sal, o desenvolvimento de uma indústria competitiva no país? Anselmo Santos – O pré-sal é um segmento fundamental nessa perspectiva de buscar a ampliação do investimento e o desenvolvimento sustentado. Em torno desse segmento podemos articular a promoção do desenvolvimento regional, o maior desenvolvimento da pesquisa e do setor de máquinas e equipamentos; poderemos fortalecer ainda mais a indústria naval e de transportes, a cadeia da petroquímica, etc. Tudo isso poderá contribuir também para evitar uma situação de crise externa, para preservar a atual situação de menor vulnerabilidade também externa, que é importante para manter os juros baixos para atrair capital estrangeiro e para manter por um período mais longo políticas fiscal e creditícia expansionistas. * Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
Europa não gera uma quantidade suficiente de empresas inovadoras que crescem rápido e se tornam grandes. Foto: David Parkins Economia

Les misérables

[caption id="attachment_60489" align="alignright" width="341" caption="Europa não gera uma quantidade suficiente de empresas inovadoras que crescem rápido e se tornam grandes. Foto: David Parkins"][/caption] Além de uma crise do euro, a Europa tem uma crise de crescimento. Isto acontece graças à inabilidade crônica do continente para encorajar empreendedores ambiciosos. Dados revelam que a Europa continental tem um problema com a criação de novos negócios com altas chances de crescimento. De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor, que compila dados que podem ser comparados entre países, em 2010, empreendedores em “estágio inicial” totalizavam apenas 2,3% da população adulta da Itália, 4,2% da Alemanha e 5,8% da França. Os países europeus contam com, proporcionalmente, menos empreendedores – em muitos casos com muito menos – do que os Estados Unidos (7,6% da população adulta), China (14%) e Brasil (17%). Pouco numerosos, os empreendedores europeus não encaram seus prospectos com otimismo. Um estudo do ano passado da Ernst & Young, uma empresa de auditoria, mostrou que os empreendedores alemães, italianos e franceses sentiam-se muito menos confiantes em relação às condições de empreendedorismo dos seus próprios países. Pouquíssimos empreendedores franceses afirmaram que o seu país oferecia o melhor ambiente; 60% dos brasileiros, 42% dos japoneses e 70% dos canadenses responderam que as suas pátrias eram os melhores países para a prática da atividade empreendedora. Ao serem perguntados sobre quais cidades têm as melhores chances de criar o próximo Google ou Microsoft, os executivos que responderam à pesquisa da Ernst & Young apostataram em Xangai, São Francisco e Mumbai (ainda que Londres tenha ganhado alguns votos). Apesar de criar várias mercearias, salões de beleza e afins, a Europa não gera uma quantidade suficiente de empresas inovadoras que crescem rápido e se tornam grandes. Em 2003, em uma análise da lacuna empreendedora europeia, a Comissão Europeia citou um estudo que revelava que, na década de 1990, 19% das empresas de médio porte norte-americanas eram classificadas como de crescimento rápido, contra uma média de apenas 4% em seis países da União Europeia. A Kauffman Foundation, que promove o empreendedorismo pelo mundo, argumenta de maneira convincente que uma razão de os Estados Unidos terem superado a Europa na geração de empregos é sua capacidade de produzir empresas novas de crescimento rápido tal como a Amazon, uma varejista online, ou a eBay, um site de leilões. E, em termos de empregos, empresas novas e pequenas têm a vantagem adicional de serem menos propensas do que suas congêneres de maior porte a terceirizar boa parte de seus empregos para fornecedores baratos da Ásia. A fim de tentar descobrir o que desestimula os empreendedores, a Comissão analisou, no ano passado, os regimes de insolvência e descobriu que muitos países tratam empreendedores que vão à falência mais ou menos como estelionatários, ainda que apenas uma pequena parcela de falências envolva qualquer tipo de fraude. Alguns países mantêm empreendedores que faliram em um limbo por muitos anos. A Inglaterra perdoará as dívidas de um empresário que foi à falência após 12 meses; o mesmo processo acontece mais rapidamente nos Estados Unidos. Na Alemanha, as pessoas esperam seis meses para conseguir limpar o seu nome; na França espera-se que o processo leve nove anos. Na Alemanha, empresários falidos podem ter que enfrentar uma proibição vitalícia de ocupar cargos de alto escalão em empresas de grande porte. E os empreendedores europeus têm dificuldade para manejar as principais armas do empreendedor: as opções de ações e cotas gratuitas que tornam as empresas iniciantes atraentes para os profissionais. A complexidade legal de conceder cotas gratuitas a novos contratados é proibitiva, afirma um empreendedor que atualmente está tentando contratar um funcionário do Google, que frequentemente distribui ações a seus funcionários. Todos o aconselham a não fazê-lo, afirma. Isto limita mais ainda as possibilidades que um empreendedor tem de convencer pessoas a darem uma guinada em sua carreira. * Publicado originalmente no jornal The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do The Economist
Tocha olímpica chegando à Faculdade Tretherras, no povoado inglês de Newquayon. Foto: Bobchin1941/CC by 2.0 Economia

Big Mac, um cardápio pouco olímpico

[caption id="attachment_59759" align="alignleft" width="300" caption="Tocha olímpica chegando à Faculdade Tretherras, no povoado inglês de Newquayon. Foto: Bobchin1941/CC by 2.0"][/caption] Nova York, Estados Unidos, 24/7/2012 – Faltando poucos dias para o começo dos Jogos Olímpicos de Londres, no dia 27, as críticas à já tradicional associação dos organizadores com o patrocinador McDonald’s surgiram entre as manchetes. Este ano, protestam não apenas ativistas da sociedade civil contra o gigante do fast food, como também dirigentes políticos. “Londres ganhou o direito de organizar os Jogos de 2012 com a promessa de deixar um legado para crianças mais sãs e ativas”, afirmou Jenny Jones, do Partido Verde, diante da Assembleia de Londres, de 25 membros, dominada pelo Partido Trabalhista. “Entretanto, o próprio Comitê Olímpico Internacional (COI), que cedeu a organização a Londres, insiste em manter os acordos de patrocínio com os fornecedores de alimentos altamente calóricos que favorecem a ameaça de uma epidemia de obesidade”, detalhou Jones, que propôs excluir McDonald’s e Coca-Cola, entre outros, das empresas patrocinadoras. A estratégia de mercado do McDonald’s significa que o investimento em formação esportiva segue lado a lado com a venda de comida do tipo fast food a baixo preço e com muitas calorias. Na Grã-Bretanha, a companhia oferece US$ 117 mil aos clubes locais de futebol. “O McDonald’s adiantou-se às críticas contra sua comida suja há 30 ou 40 anos. Todas estas décadas esteve construindo uma estrutura e boa vontade para desviar as acusações sobre o impacto de seus produtos na saúde”, observou à IPS Sara Deon, da Corporate Accountability International, destacando que o patrocínio dos Jogos Olímpicos é um exemplo dessa política. O McDonald’s é patrocinador oficial dos Jogos Olímpicos desde 1976. Há pouco, conseguiu ampliar seu contrato com o COI até 2020. A Coca-Cola também faz parte dos Jogos desde 1926. Segundo Benjamin Seeley, do COI, a companhia “patrocina mais de 250 atividades físicas e programas de educação nutricional em mais de cem países”. Mais de 40% da renda para a organização da competição mundial depende desses acordos comerciais, e McDonald’s e Coca-Cola são dois dos principais contribuintes. A rede de fast food não respondeu aos reiterados pedidos de comentários sobre a qualidade de seus produtos em relação às necessidades nutricionais de adultos e crianças, e a respeito das críticas contra sua promoção das Olimpíadas. Médicos e defensores de uma boa alimentação também se mostraram preocupados pelo fato de as companhias serem patrocinadores oficiais, especialmente no contexto do crescente problema de obesidade na Grã-Bretanha. Ativistas da sociedade civil planejaram boicotar o patrocínio do McDonald’s por considerar que não merece o prestígio dos Jogos Olímpicos por oferecer gordura e açúcares, e por suas manipuladoras iniciativas de mercado. Ceci Charles-King, ativista pela justiça nutricional, disse à IPS que é preocupante “a mensagem para crianças e adultos. O McDonald’s é hidrogênio, sal e calorias vazias. A Coca-Cola é açúcar, xarope de milho rico em frutose e calorias vazias”. A Academia de Colégios Reais de Medicina declarou que o patrocínio do gigante do hambúrguer passa uma mensagem errônea na Grã-Bretanha, que concentra a maior quantidade de pessoas com sobrepeso na Europa – 22% da sua população é considerada obesa. Ao se procurar os valores nutricionais do cardápio infantil no site do McDonald’s Estados Unidos só se encontra o conteúdo de calorias, gorduras e proteínas, e omite-se o de gorduras saturadas, sal, vitaminas e açúcares. É necessário buscar a informação em outra seção. “O alimento continua tendo muito açúcar, gordura e sal. As chamadas ‘opções saudáveis’ não servem para quem busca alternativas realmente saudáveis”, apontou Deon à IPS. “A fruta e a sobremesa com aveia e geleia contêm mais gramas de açúcar do que um barra de chocolate”, acrescentou, como exemplo. “São pouco mais que um veículo para vender produtos com gordura e pão, hambúrguer, batata frita e refrigerante”, ressaltou. O investimento do McDonald’s em programas para promover a atividade física “não basta para a mudança significativa que precisamos para atender a epidemia de doenças derivadas da dieta, e a companhia deve centrar-se no assunto principal e acabar com o marketing voltado às crianças”, enfatizou Deon. O restaurante do McDonald’s na vila olímpica é o maior do mundo, com capacidade para 1,5 mil pessoas. A previsão é de que receba cerca de 14 mil clientes por dia durante os Jogos, e que distribua brinquedos temáticos com os cardápios infantis. A diretora-executiva do McDonald’s para o norte da Europa, Jill McDonald, argumentou que os atletas sabem melhor do que ninguém o que devem comer. “O COI se associa com organizações que trabalham de acordo com os valores do movimento olímpico”, ressaltou Seeley à IPS. Este não é o primeiro ano que as empresas patrocinadoras dos Jogos Olímpicos são criticadas. Em 2008, defensores dos direitos humanos organizaram um boicote para acabar com a participação do McDonald’s e de outras empresas semelhantes. Não só as companhias que vendem alimentos recebem críticas. Dirigentes e atletas indianos não participarão das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos em protesto pelo patrocínio da Dow Chemical. A empresa é proprietária da Union Carbide, cujo vazamento de gás em 1984 na cidade indiana de Bhopal causou a morte de mais de 22 mil pessoas, além da contaminação do solo e das fontes de água que levará anos para limpar. Envolverde/IPS  


por Isabelle de Grave e Stephanie Parker, da IPS
e1 Entrevista

Política econômica: “O antikeynesianismo por definição”

“Está se vendo agora como a economia está se recusando a aumentar o passo, mesmo com todos os incentivos tributários”, aponta a economista Leda Paulani nesta entrevista. A desaceleração da economia brasileira é consequência da crise econômica internacional, mas também de um “erro de cálculo da equipe econômica, que subestimou a gravidade da crise na Europa”, diz Leda Paulani à IHU On-Line. Nesse sentido, assinala, a elevação dos juros, especialmente de abril a julho do ano passado, “abortou, por assim dizer, a retomada que se restringiu ao ano de 2010”. A crise internacional reflete significativamente nas exportações de commodities e reafirma, segundo Leda, o que muitos economistas já apontavam em relação à opção de o Brasil investir no modelo agroexportador: “Depois de tudo que o país já tinha caminhado em termos de desenvolvimento industrial, era um tremendo regresso voltar a assentar nosso crescimento e a busca de divisas na produção de bens primários”. Na avaliação da economista, o governo Dilma é “mais claramente preocupado do que o anterior com o andamento da economia e com a questão do crescimento”. Entretanto, assinala, “políticas anticíclicas ancoradas na redução de impostos não são suficientes para recuperar o ritmo de crescimento, até porque, em termos de demanda efetiva, o que se dá com uma mão (supostamente um incentivo ao consumo e à produção) se retira com a outra (redução da capacidade de gasto do governo)”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Leda também comenta a notícia de que 64% dos recursos do BNDES são destinados a grandes empresas. Para ela, isso demonstra que o “Banco tem servido para viabilizar a troca de mãos de patrimônio já existente, não para criar capacidade produtiva nova”. Leda Paulani é doutora em Teoria Econômica, pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (USP). Obteve livre docência pela mesma universidade e é presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Econômicas e professora da USP, além de ser autora de obras como Modernidade e Discurso Econômico (São Paulo: Boitempo Editorial, 2005) e Brasil Delivery: Servidão Financeira e Estado de Emergência Econômico (São Paulo: Boitempo Editorial, 2008). Em outubro de 2007, Leda esteve na Unisinos participando do Ciclo de Estudos Fundamentos Antropológicos da Economia, no qual apresentou o pensamento de Guy Debord (1931-1994), com a palestra A Mercadoria como Espetáculo. Leda Paulani é autora do artigo A (Anti) Filosofia de Karl Marx, publicado nos Cadernos IHU Ideias, edição 41, de 2005. Confira a entrevista. [caption id="attachment_59747" align="alignleft" width="200" caption="Leda Paulani."][/caption] IHU On-Line – A que atribuiu a desaceleração econômica do país? Leda Paulani – Atribuo à crise econômica internacional e a um erro de cálculo da equipe econômica, que subestimou a gravidade da crise na Europa. Quando a economia brasileira, em 2010, retomou o forte ritmo de crescimento que vinha apresentando antes da crise, rapidamente surgiram as vozes pedindo elevação dos juros, e, tão cedo quanto em abril daquele ano, as taxas recomeçaram a subir e subiram até julho de 2011, já no governo Dilma. Ora, isso abortou, por assim dizer, a retomada que se restringiu ao ano de 2010. Ao tomar posse em janeiro de 2011, a equipe econômica de Dilma, em particular o Banco Central, finalmente sob nova direção, não se deu conta da gravidade da crise europeia (consequência, como se sabe, da crise anterior, de 2008) e de como sua continuidade poderia não só afetar o ritmo da economia mundial, principalmente das economias norte-americana e chinesa, prejudicando por tabela a evolução de nossas exportações, como também as expectativas dos empresários, fazendo deprimir ainda mais um investimento extremamente baixo para as pretensões de potência econômica do país. Assim, foi só em agosto de 2011 que o Banco Central inverteu o caminho dos juros, passando a reduzir a Selic. Como a situação externa não se reverteu, mas sim o contrário, isso não parece agora suficiente para fazer voltar a deslanchar o crescimento, mesmo com os estímulos pelo lado do crédito e dos tributos. IHU On-Line – O que a queda no valor das commodities sinaliza para o país, e em que sentido aponta para a opção de o país continuar investindo na exportação de produtos primários? Leda Paulani – Essa queda aponta aquilo que muitos economistas já vinham indicando sem serem ouvidos com a devida atenção, ou seja, que, depois de tudo que o país já tinha caminhado em termos de desenvolvimento industrial, era um tremendo regresso voltar a assentar nosso crescimento e a busca de divisas na produção de bens primários. É verdade que já há algum tempo os termos de troca estão a nosso favor. Mas isso, por si só, já seria naturalmente um incentivo para o crescimento desse setor, para o aumento de sua participação no PIB e nas exportações. Não precisava o governo ajudar com uma política monetária que apreciou sistematicamente o câmbio (com exceção dos períodos de crise, em 1999 e em 2002), sem falar no dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para ajudar a consolidar os grandes grupos de capital do país nessa área! IHU On-Line – Os atuais dados de inadimplência das famílias e empresas brasileiras são motivo de preocupação para a economia nacional? Leda Paulani – Não. Ainda não são motivo de preocupação pelo simples fato de que o percentual da população com acesso a crédito antes das transformações mais recentes era muito baixo, de modo que agora o volume do crédito cresce simplesmente porque está aumentando o número de pessoas/famílias que fazem parte desse universo, e não necessariamente porque o grau médio de endividamento (comprometimento do orçamento doméstico) esteja se tornando mais elevado. De qualquer maneira, parece que tem havido uma elevação na inadimplência que tem causado preocupação. Mas isso está evidentemente muito mais ligado à dificuldade da economia em voltar a deslanchar do que à criação de alguma coisa do tipo bolha de crédito em nossa economia. Isto não quer dizer que a expansão irrefreada do crédito ao consumo não possa vir a ser um problema. Ancorar a dinâmica macroeconômica no consumo e o consumo no crédito é tentar fazer a economia capitalista andar com o motor girando ao contrário. IHU On-Line – A política de acesso a crédito, amplamente utilizada pelo governo brasileiro desde 2008, está chegando ao limite? Qual é o sentido do crédito num país como o Brasil? Uma economia que baseia seu crescimento no crédito pode ser sustentável no longo prazo? Leda Paulani – É fato sabido que sem crédito a economia capitalista não anda, ou anda muito mal. Mas a importância dele está relacionada ao investimento, não ao consumo. E o determinante no caso dos investimentos é a disposição de investir dos donos do capital. É evidente que, sendo boa essa disposição mas escasso o crédito, o processo pode ficar complicado. No entanto, com crédito e sem disposição de investir ele não anda mesmo. E o consumo não é um bom substituto para isso, a não ser temporariamente e desde que seja capaz de fazer detonar o investimento. Isto posto, é dúbia a resposta que se pode dar à pergunta sobre os limites da política de acesso ao crédito. De um lado, é claro que uma política como essa tem limites claros: a partir do momento em que se tiver conseguido incorporar a grande maioria das famílias, zera o ganho adicional que se poderá obter daí. Trata-se aqui do tipo de ganho que os economistas chamam de once and for all. A partir daí, o ganho possível vai ter que se basear inteiramente na política de juros. De outro lado, porém, do ponto de vista da dinâmica macroeconômica, essa simplesmente não é uma política digna do nome, porque o máximo que faz é mexer com o consumo, e não com o investimento, que é a variável determinante. De qualquer forma, no Brasil, essa política significou um pouco mais do que simplesmente a tentativa de dar um empurrão na economia. No capitalismo financeirizado de hoje, quando a identidade dos indivíduos é substituída pelo número de seu cartão de crédito, não deixa de ser uma promoção fornecer essa carteira de identidade às populações localizadas nos estratos sociais mais rebaixados, que, no caso do Brasil, como se sabe, formam contingente expressivo. É uma forma perversa, eu diria, de promoção, porque crédito significa, principalmente para as famílias mais pobres, um comprometimento da renda futura que pode vir a ser muito perigoso, além de ser injusto, dado o nível das taxas de juros no Brasil, mas teve também esse sentido, indubitavelmente. IHU On-Line – Como vê as políticas econômicas do governo Dilma? Pode-se chamá-las de keynesianas? As medidas anticíclicas de combate à crise ancoradas na redução de impostos são suficientes para manter o crescimento? O que mais precisa ser feito? Leda Paulani – O governo Dilma é mais claramente preocupado do que o anterior com o andamento da economia e com a questão do crescimento. Ao menos está enfrentando destemidamente a questão dos juros, o que não era sem tempo, e mais do que isso a questão dos spreads bancários, que chegam a ser vergonhosos em nosso país. Está fazendo o que tem que ser feito sem se importar com a cara feia e os maus humores do “mercado”, nem com os discursos terroristas da “banca”. Ao mesmo tempo tem utilizado muito a política tributária (com redução de alíquota do IPI) para empurrar o consumo, além da desoneração fiscal da folha de pagamento (substituição da contribuição social sobre a folha por uma alíquota incidente diretamente sobre o faturamento) para supostamente incentivar o emprego. Ora, essas duas últimas medidas podem ser qualquer coisa, menos keynesianas. Ao contrário, têm mais a cara do supply side economics, que é o antikeynesianismo por definição. No caso da redução de alíquotas do IPI, está se tentando novamente aquilo que foi feito em 2009, como resposta à crise financeira internacional do final do ano anterior, e que trouxe, para 2010, um crescimento de 7,5%. Acontece que naquele momento a economia simplesmente retomou o bom ritmo de crescimento que vinha obtendo em 2007 e 2008 (em torno de 5% a 6%), até ser subitamente golpeada pela crise. Então foi muito mais a retomada do ritmo que o país vinha apresentando que produziu esse resultado do que as quedas de preços decorrentes das reduções de alíquotas, que afinal não foram tão expressivas assim (e essa retomada foi rápida graças ao descongelamento do crédito operado pelos bancos estatais). Evidentemente políticas anticíclicas ancoradas na redução de impostos não são suficientes para recuperar o ritmo de crescimento, até porque, em termos de demanda efetiva, o que se dá com uma mão (supostamente um incentivo ao consumo e à produção) se retira com a outra (redução da capacidade de gasto do governo). Está se vendo agora como a economia está se recusando a aumentar o passo, mesmo com todos os “incentivos” tributários. IHU On-Line – Quais são os acertos e contradições na conjuntura macroeconômica? Leda Paulani – O professor Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge, deu recentemente uma entrevista em que afirma que o governo Lula, ao optar pela dupla “juro alto/câmbio apreciado”, escolheu as finanças, as commodities e os serviços, desdenhando e prejudicando a indústria, que seria beneficiada pela política oposta. Está certíssimo e é preciso lembrar que essa opção veio de antes, veio do governo de Fernando Henrique Cardoso, tendo sido aprofundada por Lula. E o que significa prejudicar a indústria? Significa dificultar que os setores que mais agregam valor e que são os mais dinâmicos do ponto de vista tecnológico assumam a dianteira. No nosso caso isso significou um claro regresso, porque já estivemos em situação muito melhor desse ponto de vista. Veja-se o que aconteceu com a indústria automobilística: tínhamos internalizado a cadeia produtiva inteira e, hoje, as indústrias de automóveis que operam no Brasil são quase maquiladoras. Ao reduzir decididamente os juros, o governo Dilma parece estar impondo uma correção nesse rumo, optando por uma política que pelo menos não contribui com a apreciação do câmbio e incentiva o investimento privado com a redução do juro básico. Mas, de outro lado, em vez de combinar isso com uma política fiscal ativa, corta recursos do governo, com os incentivos tributários, e corta gastos, encolhendo a demanda efetiva. IHU On-Line – Dos recursos do BNDES, 64% foram aplicados em projetos de grandes empresas. Como compreender estes dados num país em que o Estado assume a postura de Estado máximo? Quais as implicações destes investimentos para o restante da indústria e o desenvolvimento social? Leda Paulani – O Brasil, apesar da onda neoliberal que aqui vicejou por duas décadas, conseguiu preservar alguns instrumentos preciosos para a capacidade de intervenção do governo na economia. Os bancos estatais são exemplos deles. Aliás, eles tiveram um papel determinante, como já indiquei, na possibilidade que o país teve de sair rapidamente do círculo vicioso da crise instalada ao final de 2008. Como quem manda neles é o Estado, eles passaram a ofertar crédito e descongelaram muito rapidamente o mercado interbancário, coisa que os bancos privados não fariam, como não estavam fazendo. (O governo Lula tinha reduzido muitíssimo o compulsório dos bancos, esperando com isso que a situação no interbancário se normalizasse, mas a liquidez obtida foi reaplicada em títulos do governo.) Portanto, é extremamente importante podermos contar com um instrumento poderoso como o BNDES, que hoje mobiliza recursos anuais de quase US$ 100 bilhões (volume três vezes maior do que o mobilizado pelo Banco Mundial e dez vezes maior do que o mobilizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento). Mas as operações que o Banco tem financiado nos últimos anos são muito mais para tornar possíveis processos de fusões e aquisições do que para incentivar investimentos produtivos. Quer dizer, o Banco tem servido para viabilizar a troca de mãos de patrimônio já existente, não para criar capacidade produtiva nova. E muitas vezes, como já indicado, os recursos para custos subsidiados acabam sendo investidos nos setores de commodities, que, ao contrário, deveriam ser sobretaxados, em função dos lucros extraordinários que já há alguns anos vêm obtendo. Além disso, é preciso acrescentar que o volume de recursos que o Tesouro Nacional tem diretamente aportado no BNDES vem crescendo substantivamente, em função do esgotamento da fonte principal de seus recursos, que é o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – a participação do Tesouro na estrutura passiva do BNDES passa de 7% em 2007 para 46% em 2010. É o caso então de se perguntar se o país não ganharia mais se o setor público aplicasse diretamente esses recursos, por exemplo, em infraestrutura, encetando, aí sim, uma política de fato keynesiana (demanda efetiva na veia) e fundamental para o país, que há três décadas está com sua relação Formação Bruta de Capital Fixo/PIB no chão. IHU On-Line – Qual o impacto dos ajustes fiscais para as economias que enfrentam crises e, de modo mais amplo, para o desenvolvimento dos países? Leda Paulani – Os ajustes fiscais são deletérios. A história já mostrou com abundância de evidências que políticas de austeridade matam o doente em lugar de curá-lo. Mas esse tipo de discurso, amparado pela ciência econômica ortodoxa, ainda tem muito espaço, muitos ouvidos, muito eco. No caso da periferia europeia hoje, parece óbvio que, cortando salários de funcionários, gastos sociais e pagamento de aposentadorias, a economia só pode piorar. Se a economia encolhe, encolhem também os recursos que o governo arrecada, implicando aumento da dívida pública. Se ao mesmo tempo o PIB está caindo, de que modo a relação dívida pública/PIB, que é um dos critérios mais importantes que eles olham, pode ser melhorada? Mas na Europa, para além da questão stricto sensu econômica deste presente momento, há a grande complicação trazida por esta situação inédita de um ponto de vista histórico, que é a existência de uma moeda sem Estado. Quando o euro foi adotado, para blindar a Europa do ponto de vista cambial, o pressuposto era que as economias europeias, em que pesem suas enormes diferenças sociais e seu histórico bélico, viessem a se irmanar, de modo que os vários estados nacionais funcionassem em uníssono. Mas isso não aconteceu nem vai acontecer, antes o contrário. IHU On-Line – Por que há uma racionalização da economia, como se ela fosse o setor determinante da sociedade? Leda Paulani – A economia, gostemos ou não, é a instância determinante da sociedade moderna. Marx dizia que a forma de reprodução material da sociedade é que determinava qual das instâncias sociais era a determinante em cada modo de produção. Ora, na sociedade moderna, com a reprodução da existência material do homem sendo organizada pela troca e pelo mercado, é a própria existência material que se torna determinante. O modo específico que o processo de acumulação toma em cada momento, que alguns autores chamam de “regime de acumulação”, pode atenuar ou intensificar essa característica. O momento em que vivemos, ou melhor, a etapa da história capitalista iniciada há três décadas é do segundo tipo, o que implica dizer que vivemos numa era de completo e absoluto domínio do mercado e do capital, que triunfa e tripudia. * Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
pre-sal Artigo

As ameaças da nova geopolítica do petróleo

Os combustíveis fósseis vivem um novo ciclo de expansão, cujos resultados vão alterar de maneira drástica a geopolítica da energia global. O pré-sal brasileiro é parte desse processo, mas seu epicentro decisivo encontra-se nos Estados Unidos. Longe do declínio previsto por muitos especialistas e sintetizado na expressão "pico do petróleo", a capacidade da produção mundial diária deve passar dos atuais 93 milhões de barris para 110 milhões em 2020. Dois são os requisitos fundamentais deste verdadeiro "oil revival", que tem mobilizado investimentos superiores a US$ 500 bilhões anuais, desde 2010: o primeiro é que o preço do barril do petróleo esteja acima de US$ 70 e o segundo é que sejam vencidas as barreiras socioambientais que ameaçam este avanço. Sob o ângulo geopolítico, dos quatro protagonistas centrais desta ampliação da oferta (Estados Unidos, Canadá, Brasil e Iraque), três encontram-se fora do círculo de influência do Golfo Pérsico, o que modifica completamente a ligação entre segurança nacional e energia, sobretudo nos Estados Unidos, que devem tornar-se a segunda potência petrolífera mundial até 2020. Essa virada torna-se mais provável caso os preços mantenham-se elevados ao menos até 2015, o que estimulará os investimentos necessários para que ela se concretize. Essas são algumas das conclusões de um trabalho fundamental lançado em junho pelo Belfer Center for Science and International Affairs da Harvard Kennedy School. Leonardo Maugeri, seu autor, hoje pesquisador visitante sênior da prestigiosa instituição, é uma das grandes autoridades mundiais em petróleo e dirigiu a ENI, grande multinacional italiana na área de petróleo e gás. Não há qualquer exagero no título de seu estudo – Petróleo, a Próxima Revolução – que vem ocupando um espaço crescente na imprensa e nos círculos especializados em energia no mundo todo. O que está em jogo nessa discussão são os próprios caminhos pelos quais vai passar o processo de descarbonização da economia global. Mais do que constatar fatos objetivos e estabelecer hipóteses sobre as tendências daí decorrentes, o trabalho de Maugeri preconiza uma rota em que a exploração crescente de petróleo seria compatível com as exigências socioambientais das sociedades contemporâneas. Por um lado, Maugeri procura mostrar que os problemas das novas tecnologias de exploração do petróleo (o fraturamento hidráulico, fracking, em inglês) são menores do que se imagina. A infiltração de gás natural nos aquíferos, o envenenamento do subsolo por meio do uso excessivo de produtos químicos e mesmo os pequenos terremotos em algumas áreas de exploração não passam, a seu ver, de episódios esporádicos derivados de técnicas mal aplicadas. Quanto às consequências do aumento da oferta sobre o aquecimento global, estes são temas que a captura e armazenagem de carbono, bem como a geoengenharia, seriam capazes de enfrentar. Em outras palavras, é um caminho em que mais extração e maior uso de combustíveis fósseis em nada comprometem o objetivo de luta contra o aquecimento global. Apesar de sua importância, o trabalho de Leonardo Maugeri deixa na sombra ao menos dois problemas decisivos desta nova geopolítica do petróleo. O primeiro foi denunciado na parte do recém-publicado Global Environmental Outlook referente à América do Norte. Estados Unidos e Canadá, diz o trabalho, têm sido "lentos na expansão de fontes renováveis de energia, capazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa". As oportunidades de negócios trazidas por essas novas técnicas de extração de petróleo são imensas. E na prática seu aproveitamento reduz o potencial de investimentos e de inovação nas fontes renováveis. Em 2010, por exemplo, dos US$ 710 bilhões gastos em energia, no mundo, apenas US$ 70 bilhões foram para renováveis, como mostra um importante relatório das Nações Unidas. Os efeitos dessa revitalização do petróleo são de longo prazo: cada dólar investido em energias fósseis (não só na extração, mas também na armazenagem e na distribuição) encarece os investimentos em fontes renováveis. Isto não apenas para o petróleo e o gás, mas para o conjunto da indústria petroquímica. Por mais promissoras que sejam as inovações tecnológicas voltadas à exploração do petróleo em locais e circunstâncias inimagináveis há alguns anos, elas trazem o inevitável inconveniente de fortalecer as estruturas materiais e institucionais da economia baseada em combustíveis fósseis. Quanto à captura e à armazenagem do carbono, o jornalista neozelandês Gordon Campbell lembra que, até aqui, trata-se de uma técnica que foi pouco além da prancheta dos engenheiros. O segundo problema do revigoramento recente da exploração de combustíveis fósseis está em seus custos energéticos. Nenhum dos defensores da tese do pico do petróleo imagina que o precioso líquido negro vá desaparecer das profundezas do planeta. A questão está nos custos de sua exploração. Estes custos devem ser medidos não apenas em termos econômicos, mas também energéticos, com base na pergunta: quanta energia se gasta para obter uma unidade de energia sob a forma de petróleo? Em 1930, a resposta era de um para cem. Os poços eram tão férteis que, com técnicas energeticamente pouco dispendiosas, obtinha-se muito petróleo. O pico do petróleo consiste, em grande parte, no fato de que esses rendimentos vão caindo com o passar do tempo. A média mundial hoje gira em torno de dez unidades de energia para cada uma que se investe na extração de petróleo. E, mesmo com as técnicas revolucionárias aplicadas no fraturamento hidráulico norte-americano, as médias das jazidas mais promissoras está muito aquém disso: no local mais emblemático dessas novas formas de exploração, no Estado de Dakota do Norte, a média é de apenas quatro unidades de energia para cada uma investida na sua obtenção. Nas areias asfálticas do Estado de Alberta, no Canadá, a proporção é de apenas três para um. Quando se somam a estes custos energéticos aqueles embutidos na armazenagem e na captura do carbono (condição básica para que o aumento da oferta não agrave ainda mais o aquecimento global), o resultado é inequívoco: há um contraste evidente entre o entusiasmo que este novo ciclo dos combustíveis fósseis desperta em governos e investidores e a ineficiência energética em que ele se apoia. O mais recente boom do petróleo pode contribuir para a segurança energética dos Estados Unidos. Mas certamente não ajuda a aumentar as chances de compatibilizar a expansão do sistema econômico global com a manutenção dos serviços ecossistêmicos dos quais as sociedades humanas dependem. * Ricardo Abramovay é professor titular da FEA e do IRI-USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, e autor de Muito Além da Economia Verde, lançado na Rio+20 pela Editora Planeta Sustentável. ** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/Folha de S.Paulo.


por Ricardo Abramovay*
David Cameron não defende a saída britânica da União Europeia, mas quer renegociar os termos de adesão. Foto: Peter Schrank Mundo

Estados Desunidos da Europa

[caption id="attachment_59665" align="alignleft" width="341" caption="David Cameron não defende a saída britânica da União Europeia, mas quer renegociar os termos de adesão. Foto: Peter Schrank"][/caption] Enquanto a zona do euro luta para se manter unida, o Reino Unido está cada vez mais distante da União Europeia. “Que a Europa surja!”. Esta foi a conclusão do discurso de Winston Churchill em 1946 em Zurique, apresentando sua visão dos “Estados Unidos da Europa”. O Reino Unido não seria parte deles, já que ainda tinha o seu próprio império e a Commonwealth. Mas Churchill disse que o Reino Unido, e outros, deveriam “ser os amigos e patrocinadores da nova Europa”. Há algo do espírito de Churchill nos pedidos britânicos para que a zona do euro siga a lógica da integração e salve a moeda única – desde que o Reino Unido não esteja envolvido. Mas, enquanto Churchill foi muitas vezes visto como um antepassado do projeto europeu, as intervenções de David Cameron só parecem irritar os vizinhos. Em parte, Cameron surge como alguém irritantemente triunfalista, embora a economia britânica tenha dívida e valores do déficit piores que, por exemplo, a França. Mais irritante é a perspectiva de que Cameron pode tentar segurar outros países como reféns, bloqueando movimentos para integrar a zona do euro, a menos, digamos, que eles concordem em afrouxar os laços do Reino Unido com a União Europeia (UE). Todos estão cientes da agitação dos eurocéticos quanto a um referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE. Cameron diz que não defende a saída da união, mas quer renegociar os termos de adesão, e depois talvez colocar o resultado em uma votação popular. William Hague, o secretário das relações exteriores, lançou este mês uma auditoria da autoridade da UE. Uma reflexão em separado sobre o futuro da UE, concentrando-se nos poderes a serem centralizados em Bruxelas, está ocorrendo entre vários chanceleres convocados pelo alemão Guido Westerwelle. Embora Hague seja um dos “Três Grandes” da União Europeia, ele não foi convidado. Além disso, Berlim está dizendo ao Reino Unido, sem rodeios, que “não será chantageada”. Uma preocupação é que a busca do Reino Unido pela renegociação possa desfazer décadas de compromissos complexos que criaram a UE de hoje. A maior preocupação é que isso vai prejudicar a capacidade da zona do euro de responder de forma decisiva para sua crise existencial. As relações do Reino Unido com o resto da Europa podem ser redefinidas. Com o aval de Cameron, a União Europeia concordou em criar um único supervisor bancário da zona do euro, com base no Banco Central Europeu (BCE), até o final do ano. Fundos de resgate poderiam então ser usados diretamente para recapitalizar os bancos em apuros. Este poderia ser um passo importante rumo a uma maior partilha de riscos. Mas há muitas perguntas. Como distinguir entre a preservação da estabilidade financeira (uma questão para os 17 Estados da zona euro) e a preservação do mercado único de serviços financeiros (uma pergunta para todos os 27 membros da UE)? Por enquanto, todos querem evitar um novo cenário negativo com o Reino Unido. Mas uma explosão pode acontecer por engano. O Reino Unido não é o único país onde as paixões antiUE estão aumentando. Talvez o euro acabe. Ou talvez ele se consolide. Ambos os resultados representam problemas para os britânicos e ambos vão reformular suas relações com o resto da Europa. * Publicado originalmente no jornal The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do The Economist
Economia Brasil

Espírito de competição

É natural, é salutar, que a autoridade econômica procure estimular os nossos empresários a aumentar os seus investimentos, não se deixando intimidar pela onda de negativismo que muitas vezes rola do exterior e vem fazer “marola” nas praias brasileiras. É preciso entender, entretanto, que, sendo necessário, sempre, quase nunca é suficiente. Neste momento, particularmente, quando emplacamos o quarto ano de uma crise financeira planetária, é isso o que está acontecendo: o incentivo é importante, mas é preciso lembrar que já faz tempo que retiramos do empresário nacional as condições isonômicas que o animem a novos investimentos. E por que tantos se retraem? Porque ainda temos um nível de carga tributária exagerado, mesmo com as medidas de desoneração que o governo vem tomando; porque persistem as taxas de juro extravagantes (apesar do bem-sucedido esforço do governo Dilma baixando sistematicamente a Selic) e porque nós temos ainda uma taxa de câmbio sobrevalorizada, embora tenham sido colocadas em prática medidas importantes para corrigi-la. É fundamental devolver, especialmente aos empresários da indústria, as condições objetivas de competitividade que os induzam a fazer os investimentos necessários para aumentar a produção e enfrentar a concorrência externa. Hoje somos vítimas da importação de um pessimismo influenciado principalmente pela queda das ações nas bolsas de valores. Um empresário que vê a ação na bolsa valer menos que o seu custo de reposição, não vai fazer o investimento. As medidas que o governo vem tomando para despertar o “espírito animal” dos empresários e estimular os investimentos, particularmente a redução das taxas de juro, vão ter o seu efeito nas cotações. Uma coisa é certa, no entanto: o ânimo de investir só funciona quando o empresário acredita que vai ter demanda e taxas de retorno adequadas. Cada um dos empresários tem compromisso com ele mesmo e a maioria o tem com os investidores. A empresa responde a seus acionistas e só vai investir na medida em que as taxas de retorno sejam a melhor alternativa no mercado. É muito bom quando o governo reduz a taxa de juros, toma iniciativas de desoneração tributária e age para dar mais equilíbrio ao câmbio, porque tudo isso cria perspectivas de melhorar a demanda e, portanto, estimula o investimento na produção. Não há razão para que as autoridades monetárias e fiscais deixem de participar dos esforços para reanimar o espírito empresarial para o crescimento, como está fazendo, principalmente, o ministro Guido Mantega. A oposição ao governo faz a sua crítica para minimizar os resultados, muitas vezes apoiando-se no pessimismo que tomou conta dos negócios em países que são nossos importantes parceiros comerciais e hoje enfrentam dificuldades dramáticas para sair da crise. Ainda esta semana o governo Dilma trabalhou para obter a aprovação, na Câmara Federal, de Medidas Provisórias que ampliam benefícios fiscais a serviços essenciais e a alguns setores industriais e do agronegócio, no âmbito do programa Brasil Maior. Elas precisam ainda passar pelo Senado, onde se espera sejam votadas no início de agosto (sem grandes expectativas de oposição) e em seguida vão à sanção presidencial. Entre as medidas, contam-se as seguintes: a) Institui regime especial de tributação para a construção de escolas de educação infantil, isentando as obras até 31 de dezembro de 2018 dos impostos de Renda, PIS/Pasep, Cofins e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido; b) Isenta os produtos da cesta básica do pagamento do IPI e PIS/Cofins; c) Desonera folhas de pagamento nos setores hoteleiro, de transporte terrestre de passageiros e de carga aérea e marítima; d) Amplia os financiamentos para a modernização das embarcações pesqueiras nacionais. Trata-se, sem dúvida, de estímulos importantes para melhorar as condições de competitividade na indústria e na agricultura, mas insisto que o despertar do “espírito animal” dos empresários pode ser antecipado, sem comprometer o equilíbrio fiscal nos próximos 12 meses, se o governo for capaz de ampliar, com a cooperação dos Estados, os prazos de pagamento dos impostos que são recolhidos, em média, sete semanas antes de o produtor receber a fatura! É um aumento líquido de caixa, especialmente nas pequenas e médias empresas, que acelerará os efeitos das medidas já adotadas e reduzirá o pessimismo no setor empresarial. * Delfim Netto é economista, formado pela Universidade de São Paulo, professor de Economia, e foi ministro de Estado e deputado federal. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Delfim Netto*
pedagio Sociedade

Pedágio metropolitano: quem vai pagar essa conta?

Até 2014, o governo do Estado de São Paulo pretende instalar um sistema eletrônico de cobrança de pedágios nas rodovias privatizadas. De acordo com reportagem da Folha de São Paulo publicada nesta segunda-feira (16), com o novo sistema de cobrança serão pedagiados trechos urbanos como os que ligam Campinas à Unicamp e à PUC-Campinas e também a vários bairros e empreendimentos da região, como três shoppings. Serão pedagiados também trechos das rodovias que atravessam a Região Metropolitana de São Paulo, como por exemplo as ligações da capital paulista ao aeroporto de Guarulhos, a São Bernardo, Diadema e Cotia. O governo do Estado, no entanto, declarou que ainda estuda quais trechos urbanos serão pedagiados. Os pedágios das rodovias estaduais paulistas são os mais caros do país. Dependendo da região, o pedágio de uma viagem de 300 quilômetros, ida e volta, pode custar mais de R$ 100. É fato também que as estradas paulistas são as melhores do país, mas, por outro lado, a equação entre custos, benefícios públicos e lucros das concessionárias é muito pouco transparente. Isto porque quase todas as concessionárias são constituídas pelas mesmas empreiteiras que constroem e reformam as rodovias. Ou seja, as rodovias privatizadas foram construídas com dinheiro público e depois passaram a ser exploradas pela iniciativa privada, que ganha duplamente: recebem os pedágios que os cidadãos pagam e com isso investem em obras, remunerando suas próprias atividades como empreiteiras. Com a implantação do novo modelo proposto, mais motoristas terão que pagar pedágio, mas o governo do Estado argumenta que o sistema será mais justo porque reduzirá o valor da tarifa de cada um. Atualmente, o sistema está em fase de teste na rodovia SP-75, no trecho que liga Campinas a Indaiatuba, com pórticos de cobrança a cada oito quilômetros. A cobrança eletrônica será feita por meio da instalação de chips nos veículos, medida que já será obrigatória a partir de 2013 por decisão do Conselho Nacional de Trânsito. Além de afetar o bolso, o novo pedágio poderá impactar também a forma como as grandes cidades do Estado têm sido construídas. Nas últimas décadas, nas metrópoles, mas também em redes de cidades paulistas como as do Vale do Paraíba, o modelo de desenvolvimento e expansão urbana foi se estruturando, cada vez mais, no entorno das rodovias. São fragmentos de cidade que vão espalhando a urbanização por um vasto território, sem continuidade, com ligações basicamente rodoviárias. São bairros, mas também shoppings, condomínios industriais e centros de logística, fechados e isolados, muitas vezes cercados por muros. É o que vários pesquisadores denominam de "modelo de urbanização dispersa", no qual não existe mais claramente definida a fronteira entre o urbano e o rural, já que o "urbano", como continuidade de um tecido que agrega várias funções, desaparece para reaparecer como uma soma de empreendimentos isolados. Para quem vive em cidades construídas neste modelo, pedagiar a rodovia é a mesma coisa que pedagiar as vias internas da cidade, já que, na prática, são exatamente estas rodovias que constituem as únicas possibilidades de ligação entre estes fragmentos de cidade. Ou seja: a cobrança eletrônica de pedágio nas rodovias estaduais vai obrigar quem mora ou apenas circula no interior de uma macrometrópole a pagar para se deslocar dentro da cidade. A pergunta é: quem vai ganhar e quem vai pagar esta conta? Primeiro se construiu um modelo urbanístico carro-dependente e agora se transforma esse modelo num modelo caro e excludente que dificultará a circulação nestas cidades. * Raquel Rolnik é arquiteta urbanista, relatora da ONU no Brasil pelo Direito à Moradia, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas e coordenadora da área de urbanismo do Pólis – Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais. Blog da autora: http://raquelrolnik.wordpress.com/. ** Publicado originalmente  no Yahoo! Blogs e retirado do site Correio da Cidadania.


por Raquel Rolnik*
e1 Artigo

O fetiche do superávit primário e o crescimento da economia

O fetiche do superávit primário continua a inibir nossas autoridades econômicas, que parece não terem entendido ainda a relação entre ele e a recessão. A taxa de juros sobre a dívida pública é tão alta (continua alta mesmo depois das seguidas reduções pelo BC), que os receptores dos juros da dívida pública não têm qualquer estímulo para transformar em gastos correntes e investimentos os recursos oriundos do superávit primário que recebem do governo. O artigo é de J. Carlos de Assis. A evidência de que a economia está no rumo da recessão nos impõe considerar novamente a questão do superávit primário. É um tema que nunca foi claramente entendido no país, sobretudo pela maioria dos economistas neoliberais, o que se explica por uma razão simples: enquanto muitos, como eu, apontavam nos anos 1990 e 2000 para o caráter recessivo do superávit primário, a realidade tomava um caminho inverso, mostrando uma indiscutível compatibilidade entre superávit primário e crescimento econômico. Parecia que, diante dos fatos, a crítica ao superávit primário era irremediavelmente improcedente. Tentemos avaliar a essência da questão. Numa recessão, a retomada da economia depende essencialmente de um ou da combinação de três fatores: do investimento privado, do excedente de exportações ou do investimento público, em todos esses casos estimulando a demanda agregada. É claro que, numa situação sem perspectiva de aumento da demanda interna, não há estímulo ao investimento privado. Entretanto, se o contexto internacional favorece o aumento das exportações, a economia pode retomar pelo lado externo, sem depender necessariamente do aumento prévio do investimento público. Na etapa inicial do primeiro governo Lula, a economia se arrastava em torno de um crescimento inferior a 2% ao ano, prolongando a recessão do governo FHC. Em ambos os casos, o esforço de se fazer superávit primário tinha um efeito contracionista, que não era compensado nem pelas exportações, nem pelo investimento privado, nem, consequentemente, pelo aumento da demanda interna. Contudo, é necessário compreender melhor o superávit primário. Na institucionalidade financeira brasileira, isso é crucial para se entender a relação entre ele e o crescimento, ou contração econômica. Comecemos pelo elementar: superávit primário é o excesso da receita fiscal sobre as despesas governamentais, fora juros. E é usado justamente para pagar os juros da dívida pública. Em termos macroeconômicos, portanto, realizar superávit primário significa retirar recursos da sociedade, ou do lado real da economia, para empregá-los no pagamento dos juros da dívida pública. A retirada de recursos da economia pelo setor público, por meio de impostos, tem um efeito contracionista, a não ser que esses recursos voltem para a economia sob a forma de gastos públicos de custeio e de investimento. É aí que entra a peculiaridade do superávit primário brasileiro: a taxa de juros sobre a dívida pública é tão alta (continua alta mesmo depois das seguidas reduções pelo BC) que os receptores dos juros da dívida pública não têm qualquer estímulo para transformar em gastos correntes e investimentos os recursos oriundos do superávit primário que recebem do governo. Preferem manter o dinheiro aplicado em dívida pública. Com isso, os recursos do superávit primário retirados da economia sob a forma de imposto não retornam a eles sob a forma de demanda efetiva, de onde resulta a pressão contracionista sobre a economia. Como se explica, então, o crescimento da economia de 2005 a 2008, antes da crise financeira mundial? Elementar, meu caro Watson: o governo Lula recebeu de Fernando Henrique uma crise cambial que elevou o valor do dólar a quase US$ 4. Com isso, os exportadores tiveram um tremendo estímulo em suas vendas externas. Mesmo com o ciclo de valorização cambial que se seguiu, exportadores de commodities e de manufaturados se beneficiaram amplamente da política cambial. E os exportadores de commodities se beneficiaram adicionalmente na tremenda alta de importações da China e do entorno asiático. Foram as exportações, não qualquer mágica especial da política econômica, que estiveram por trás do sucesso brasileiro até a crise. Isto, a despeito da realização de elevados superávits primários. A situação hoje é totalmente diferente: a taxa cambial, mesmo que se tenha desvalorizado nos últimos meses, continua desfavorável à exportação de manufaturados. E a recessão na Europa e queda no crescimento chinês criaram uma situação desfavorável às commodities. Nesse clima, não há grande perspectiva para a retomada do investimento privado. E, para o investimento público retomar, é fundamental a redução e até a eliminação do superávit primário. Há um fato adicional a ser entendido: do ponto de vista macroeconômico, o conceito de superávit primário é um engodo. O que importa é o orçamento nominal, ou seja, o balanço entre a totalidade das receitas e das despesas (incluindo juros) públicas. Nesse sentido contábil, somos deficitários – o que é bom, em tese, para uma economia em recessão. Contudo, o orçamento nominal, como dito, está contaminado pelo pagamento de juros que não retornam ao circuito econômico. A eficácia do déficit nominal para o crescimento desaparece. Para que o déficit nominal tenha efeito sobre a demanda agregada, o setor público deve converter seu endividamento em gasto público, efetivando temporariamente o déficit nominal. Isto aconteceu em 2009 e 2010, tendo havido excelente resposta da economia. Entretanto, o fetiche do superávit primário continua a inibir nossas autoridades econômicas, que parece não terem entendido ainda a relação entre ele e a recessão. * J. Carlos de Assis é economista e professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), coautor, junto com o matemático Francisco Antonio Doria, de O Universo Neoliberal em Desencanto, pela Civilização Brasileira. Esta coluna é publicada também no site Rumos do Brasil e, às terças, no jornal carioca Monitor Mercantil. ** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por J. Carlos de Assis*
TAM Economia

Acidente da TAM: o crime e os culpados

Nos anos 1990, no mercado de CEOs, ganharam fama os chamados “exterminadores de custos”. Em alguns casos, utilizando metodologias sofisticadas, como o “seis sigmas”, que permite mapear processos e identificar desvios mínimos. Em outros casos, os inomináveis processos de “reengenharia” ou de cortar custos com machado. Foi o que ocorreu com a TAM, quando a gestão saiu das mãos de aviadores – como o próprio comandante Rolim – para a de açougueiros de mercado, a partir da gestão de Marco Bologna, egresso do mercado financeiro. *** A busca do resultado rápido levou a um desmonte dos padrões de qualidade da empresa. Cortou no treinamento, no atendimento ao público, no lanche de bordo. Pilotos e tripulações foram submetidos a uma pressão sem precedentes por resultados, para aproveitar ao máximo o boom de passageiros proveniente do fim da Varig e do advento das novas classes sociais. *** Os cortes eram sem rumo, sem plano de voo, sem controle de processos. Por exemplo, a empresa pagava uma nota preta por um sistema que permitia o controle das tripulações – evitando sobrecarga de horário. Mas não se utilizava o sistema, provocando uma balbúrdia infernal na definição das equipes de voo. Só passou a ser utilizado quando a soma de multas trabalhistas tornou-se pesada. A visão de gestão se baseava meramente nos números financeiros imediatos, sem pensar na lógica do setor, na visão de médio prazo, na perda do diferencial competitivo (que lhe permitia cobrar acima dos concorrentes) e, principalmente, na segurança dos passageiros. *** O que ocorreu no acidente da TAM em Congonhas foi um crime, cujos responsáveis maiores foram os CEOs que levaram a companhia àquela situação e os dirigentes da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) que fecharam os olhos para o abuso. *** O avião estava com o reverso (a peça que permite frenar o avião no solo) avariado. Havia orientação do fabricante de que, em caso de reverso avariado, o avião deveria parar no primeiro lugar que conseguisse para consertá-lo, antes de prosseguir o voo. Mas o avião continuou voando muito tempo devido ao ritmo maluco imposto pela empresa aos pilotos Provavelmente o avião estava com sobrepeso. Na época, um dos comentaristas do meu blog escreveu um post detalhadíssimo, com dados impressionantes. Foi até o site da Airbus e levantou as especificações do modelo de Airbus, inclusive o peso da aeronave vazia. Depois, somou o tanque cheio – a TAM abastecia o avião em Porto Alegre, para economizar ICMS. Levantou o número de passageiros – o avião estava superlotado – estimou um peso médio per capita para passageiros e bagagens. Somando tudo, o peso final superava em muito as recomendações da fabricante. A essas situações de risco somou-se uma terceira: a pista recém-recapeada do aeroporto. Mais que isso: uma noite de chuva intensa. Definir um ou dois culpados não refresca a situação. No pano de fundo, a disputa desenfreada das companhias de aviação para aproveitar cada centavo da demanda de passageiros e a complacência cúmplice da Anac para com essa prática. * Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luis Nassif*

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