Dá para ganhar dinheiro no mercado financeiro com juros baixos

Economia

Dá para ganhar dinheiro no mercado financeiro com juros baixos


por Paulo Itacarambi*


Investimentos com critérios de sustentabilidade rendem dividendos atraentes e contribuem para o bem-estar social e o crescimento da economia. Será que não existe outra maneira de ganhar dinheiro com investimento que não seja elevando juros e promovendo desemprego e concentração de renda? Sim, existe e cada vez mais se torna uma opção inteligente, porque esse tipo de investimento sai do modelo ganha-perde e constrói um modelo ganha-ganha, isto é, o investidor é bem remunerado, a economia cresce com equilíbrio e a sociedade consegue melhorar seu bem-estar. Um exemplo disso está aqui no Brasil. É o Fundo Itaú de Excelência Social (Fies). Foi constituído em 2004 e vem constantemente melhorando seu desempenho. A aplicação nesse fundo rendeu 24,6% em 2012. O acumulado entre março de 2012 e março de 2013 foi de 20,3%. Como o fundo conseguiu esse resultado? Compondo a carteira com empresas que adotam boas práticas de sustentabilidade e fazendo a gestão de forma competente, por especialistas do mercado, com metodologia baseada em critérios de sustentabilidade e acompanhamento do comportamento das empresas, e com apoio de seu Conselho Consultivo. O objetivo desse fundo é gerar retorno no longo prazo e usa a carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Bolsa de Valores de São Paulo, como benchmark. Metade da taxa de administração do fundo é dirigida a projetos sociais de educação, que são escolhidos anualmente por meio de edital de concorrência. Os projetos são submetidos à apreciação de Conselho Consultivo. Quanto aos repasses a projetos educacionais, entre 2004 e 2012 o Fies destinou mais de R$ 22,4 milhões a 131 ONGs, beneficiando 24 mil crianças e 2.583 educadores. Cada projeto aprovado recebe atualmente R$ 120 mil e mais apoio técnico. O Fies é um dos exemplos de que o chamado investimento socialmente responsável (SRI, da sigla em inglês) cria valor para o investidor e para a sociedade, não apenas na forma de investimento social privado, mas como crescimento dos ativos que pode ser potencializado para as partes interessadas. Interessante notar que, nos últimos anos, os fundos SRI no exterior tiveram desempenho inferior ao dos fundos tradicionais. No Brasil, ao contrário, nos últimos 24 meses, o ISE vem tendo um desempenho melhor do que o do Ibovespa (principal índice de desempenho de ações brasileiro) e o do IBX (índice que espelha o desempenho das 100 ações mais negociadas na Bolsa de São Paulo). Isso mostra que, no Brasil, a questão de juros não precisa ser uma queda de braço, na qual um lado perde e outro ganha. É possível aos dois lados ganhar, desde que se combine o jogo. E qual é esse jogo? Certamente, não é o da especulação desenfreada de curto prazo. As nações hoje consideradas “desenvolvidas” e com melhor desempenho em índices de bem-estar social começaram a crescer com justiça social e equilíbrio ambiental depois da adoção de programas e políticas que privilegiaram o crescimento com distribuição de renda e oportunidades para todos, inclusive investidores interessados em alavancar projetos que contribuíssem para melhorar o desempenho das empresas. O investimento pode ser posto a favor da distribuição de renda e do crescimento da economia e render dividendos atraentes. Basta que se adotem critérios de sustentabilidade. O Fies é um belo exemplo, que poderia ser seguido pelos outros fundos de investimento: escolher empresas com práticas de sustentabilidade e adotar metodologia de gestão que leve em conta a sociedade e olhe o comportamento das empresas, para, dessa forma, poder antecipar problemas e diminuir o impacto negativo no valor das ações. Há outros fundos socialmente responsáveis no país. O investidor pode escolher. Por que é importante adotar critérios de sustentabilidade para decisões de investimento? A sustentabilidade contribui para se estabelecer um consenso em que todos ganhem; elimina a ideia de que o investimento só renderá com o desemprego e a miséria; e, finalmente, os critérios de sustentabilidade podem fazer com que investidores, governantes e sociedades superem o axioma de que juro alto é sinônimo de inflação baixa. Na verdade, juro alto é sinônimo de concentração de renda e concentração de renda torna a economia insustentável e a sociedade, cada vez mais injusta. O PIB não é tudo. O importante é o bem-estar social e esse “valor” ainda não está integrado ao Produto Interno Bruto. Em artigo anterior, destacamos o resultado de uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrando que, apesar de o PIB brasileiro de 2012 ter sido baixo, a sensação de bem-estar da população equivale a um crescimento econômico de 6%. A consultoria Boston Consulting Group também fez pesquisa comparando PIB e bem-estar social em nível internacional. Concluiu que o Brasil foi o país que, entre 2006 e 2011, mais avanços fez na elevação dos padrões de vida da população. Hoje (12/4), o jornal Valor Econômico traz notícia de outra pesquisa comprovando esse dado. O grupo Social Progress Imperative criou um índice de bem-estar social segundo fatores de nutrição, assistência médica, moradia e sustentabilidade ambiental. Ele foi aplicado em 50 países, inclusive no Brasil. A liderança é da Suécia e o Brasil ficou com o 18º lugar. O país está no caminho certo ao buscar o crescimento com redução da desigualdade e erradicação da pobreza. Mas é preciso aperfeiçoar as políticas econômicas e os programas públicos de investimento, colocando o desenvolvimento sustentável como o objetivo central a ser alcançado. O Brasil tem capital natural, criatividade e um povo empreendedor. O que falta é direcionar essa energia para que o esforço despendido crie de fato um diferencial relevante para o mundo. A marca Brasil pode e deve estar indelevelmente associada à sustentabilidade. Esse é o modelo em que todos ganham. * Paulo Itacarambi é vice-presidente executivo do Instituto Ethos. ** Publicado originalmente no Instituto Ethos.

Foto: Ernesto Rodrigues/ Estadão Conteúdo Economia

A chave de 2013: o investimento

[caption id="attachment_83619" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Ernesto Rodrigues/ Estadão Conteúdo"][/caption] O crescimento econômico de qualidade necessita ser impulsionado pelo investimento. Por exemplo, o investimento público em transportes pode melhorar a qualidade de vida da população. Mais: quando um empresário investe em máquinas e equipamentos que aumentam a produtividade do seu negócio, isto é, quando há uma diminuição de custos, então poderá haver redução de preços e poderá haver aumento de salários dos seus empregados. Além disso, o aumento da produtividade aumentará a capacidade do empresário de realizar novos investimentos. Portanto, os ganhos advindos da redução de custos podem ser divididos entre trabalhadores, consumidores e empresários. O aumento do investimento qualifica o crescimento econômico porque pavimenta a trajetória que possibilitará a continuidade do próprio crescimento da economia. Em outras palavras, o investimento numa hidroelétrica possibilitará a geração de mais energia que, por sua vez, possibilitará a instalação de novas fábricas consumidoras de energia. Logo, o investimento não somente impulsiona o crescimento de hoje, ele também abre a possibilidade para que haja mais crescimento com novos investimentos no futuro. Esta possibilidade de haver maior crescimento de forma contínua é chamada de PIB potencial – que é quanto uma economia pode crescer sem esbarrar em gargalos. Durante a gestão econômica do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), os investimentos públicos e privados eram baixos. As causas do fraco investimento eram variadas. Primeiro, investimentos do governo não combinavam com a visão de Estado mínimo: investimento público era sinônimo de intervencionismo. Segundo, faltavam recursos orçamentários: devido à falta de crescimento as contas públicas apresentavam resultados desastrosos. Terceiro, como não havia expectativas de crescimento mais robusto da economia, os empresários preferiam participar da especulação financeira a construir novas fábricas. [caption id="attachment_83620" align="aligncenter" width="525" caption="Fonte: SCN/IBGE"][/caption]   Houve a retomada dos investimentos na gestão do presidente Lula. As barreiras ideológicas, orçamentárias e as expectativas negativas foram superadas. O lançamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), em 2007, é o marco da virada ideológica. Foi naquele momento que o governo explicitou à sociedade que é dever do Estado organizar grandes projetos e realizar investimentos vultosos. O governo e as estatais federais passaram a investir. E a economia, que já tinha dado o primeiro salto entre 2004-2006, passou a crescer em média 4,6% ao ano até 2010. Com mais crescimento, houve aumento da arrecadação e folga orçamentária para a realização de gastos públicos com novos investimentos. E com expectativas positivas sobre a economia, os empresários voltaram a investir no mundo real. [caption id="attachment_83621" align="aligncenter" width="525" caption="Fonte: SCN/IBGE"][/caption]   baixo crescimento de 2011 e 2012 adormeceu as expectativas empresariais. De 2007 a 2010, o investimento crescia duas a três vezes o crescimento de toda a economia. Em 2011, devido à desaceleração da economia provocada pelo governo, o investimento cresceu apenas 4,7%. Cabe lembrar que, em 2010, havia crescido 21,3%. Em 2012, o cenário de desaceleração foi contaminado pelo pessimismo espalhado pela crise econômica européia e o investimento teve um desempenho negativo de 4%. A reversão do quadro de expectativas empresariais estabelecido em 2011 e 2012 dependerá da realização dos investimentos públicos planejados e de liderança política. A realização do investimento público estimula o investimento privado porque estabelece condições de redução de custos empresariais e porque reduz incertezas de demanda futura. Já a liderança política oferece garantias aos empresários de continuidade dos investimentos públicos e do baixo desemprego. Caso, em 2013, não haja a reversão do quadro de modesto crescimento com baixo investimento, poderá ser decretada a morte do modelo da Era Lula estabelecido no seu segundo mandato. Serão três anos com ruptura, de 2011 a 2013: o Brasil terá ingressado em outra trajetória. Na Era Lula, o investimento público foi elevado de 2,6% do PIB para mais que 4%, o que é significativo porque o Estado brasileiro tinha sido praticamente desmontado. A trajetória de recuperação do investimento público é uma necessidade da economia brasileira. E infelizmente para os pessimistas de plantão, há fortes indicadores de que houve uma recuperação consistente dos investimentos (público e privado) no primeiro trimestre de 2013. Por último, não é verdade que a Era Lula foi caracterizada por um modelo de estímulo exclusivo ao consumo. Foi também. E foi exatamente o crescimento do consumo associado ao aumento do investimento público, sustentado pela liderança política do presidente, que estabeleceram um modelo de crescimento com qualidade econômica (elevado investimento) e inclusão social. * João Sicsú é professor-doutor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por João Sicsú*
Encenação de um leilão de carbono em frente ao Parlamento Europeu. Foto: CAN Europe Economia

Ansiedade toma conta do mercado e preço do carbono cai

[caption id="attachment_83686" align="aligncenter" width="424" caption="Encenação de um leilão de carbono em frente ao Parlamento Europeu. Foto: CAN Europe"][/caption]   Aumento da possibilidade de que Parlamento da União Europeia rejeite a proposta de adiar os leilões do Esquema Europeu de Comércio de Emissões preocupa investidores e ativistas. Os preços do carbono na União Europeia caíram dos € 5 no início da semana para € 4,34 na ICE Futures Europe nesta quarta-feira (10) em meio às expectativas da votação na semana que vem sobre as propostas da Comissão Europeia de adiar os leilões de permissão de emissão. Na segunda-feira (8), Eija-Riitta Korhola, parlamentar finlandesa de centro-direita, comentou que a maioria da oposição é contra a proposta de adiamento, que visa incrementar os preços do carbono no mercado em crise. “O mercado se tornou cada vez mais nervoso em relação às declarações fortes do bloco anti-adiamento”, comentou Milan Hudak, analista da Virtuse Energy, em entrevista para a BusinessWeek. Neste cenário de temor que a proposta seja rejeitada, ativistas da CAN Europe e WWF fizeram uma encenação de um leilão de carbono em frente ao Parlamento Europeu na quarta-feira. “Neste momento, os lobistas do setor industrial pagam mais por um hambúrguer do que por uma tonelada de carbono, isto não é colocar um preço adequado para a poluição”, comentou Julia Michalak, ativista do grupo CAN Europe durante o protesto. Na encenação, o ‘leiloeiro’ pede por € 30/t de carbono, “mas será que a indústria fez lances pelo clima ou por poluição barata?”, ironiza a CAN Europe. Quando foi criado o Esquema Europeu de Comércio de Emissões (EU ETS), em 2005, a perspectiva era de que o valor do carbono estivesse atualmente em torno de € 30/tonelada. Porém, a crise econômica no bloco europeu fez com que as emissões de gases do efeito estufa caíssem muito abaixo do estimado. O resultado é que o excesso de créditos de carbono disponível no mercado europeu já gira em torno de 1,7 bilhão de toneladas, segundo estimativas da Thomson Reuters Point Carbon. A proposta da Comissão Europeia é adiar leilões de permissões de emissão que seriam realizados entre 2013-2015 para o período 2018-2020, uma solução apenas em curto prazo, enquanto um plano mais completo seria elaborado para aprimorar o esquema. Para isso, a Comissão precisa do aval do Parlamento, confirmando que tem a competência de adiar leilões, essa é a votação que será realizada na próxima semana. Há muita atividade tanto do lado dos defensores quanto dos opositores a ações que aumentariam o valor do carbono. Um grupo de empresas, incluindo a Shell, Alstom, Tesco e Unilever, enviou uma carta aos parlamentares pedindo apoio. “O Grupo de Líderes Corporativos da União Europeia, em conjunto com grupos industriais, empresas e ONGs, tem pedido consistentemente por uma reforma estrutural no EU ETS, permitindo que o esquema reaja a fatores exógenos e signifique uma mudança para as atividades econômicas ou para a inovação tecnológica”, diz a carta segundo o jornal The Parliament. Da mesma forma, outros representantes industriais, como as siderúrgicas, estão pressionando os legisladores para se oporem às medidas. Gordon Moffat, diretor geral do Eurofer, argumentou em um artigo que apesar da queda no valor do carbono, o EU ETS está funcionando como pretendido e não deve receber emendas. Do contrário, os custos crescentes do carbono influenciarão o valor da energia e tornarão a Europa menos competitiva internacionalmente, coloca. “O objetivo é reduzir as emissões de CO2 – em 21% até 2020 -, não criar um preço alto para o carbono”, escreveu Moffat segundo o Euractiv. Mesmo se a proposta for aprovada, ainda há um longo caminho pela frente, com boatos de que a oposição já estaria elaborando emendas que atrapalhariam a efetivação da proposta. * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fernanda B. Müller, do CarbonoBrasil
Foto: http://bit.ly/11197Rd Economia

Fluxos migratórios globais: a busca de trabalho e fuga da pobreza – Entrevista com Denise Cogo

[caption id="attachment_83674" align="alignleft" width="300" caption="Foto: http://bit.ly/11197Rd"][/caption] Para a pesquisadora em comunicação Denise Cogo, os movimentos migratórios estão relacionados, entre outros fatores, a razões econômicas muito fortemente ligadas à crise de 2008. “Vale lembrar ainda que fatores econômicos, tais como a busca de trabalho e a fuga de situações de pobreza, são importantes impulsionadores dos fluxos migratórios globais, o que ajuda a entender porque esses fluxos têm se dirigido prioritariamente aos chamados países e regiões de maior desenvolvimento como América do Norte e Europa Ocidental, ou, ainda, o Oriente Médio e alguns países asiáticos como Japão”, avalia Denise em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Denise Cogo é pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos. Em 2011 a professora participou – junto de outros pesquisadores brasileiros e de representantes de redes migratórias e organizações de apoio às migrações – da construção de uma proposta dirigida à elaboração do II Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, em consulta pública promovida pelo governo federal, por meio do Ministério da Justiça, da Secretaria de Direitos Humanos e da Secretaria de Políticas para Mulheres. Na última semana foi disponibilizado para download a versão online do Guia das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para Comunicadores – Migrantes no Brasil, resultado de dois anos de trabalho quee contou com a colaboração de colegas pesquisadores de universidades nacionais e internacionais. O livro foi editado pelo Instituto de la Comunicación da Universidade Autônoma de Barcelona e divulgado em acesso aberto pelo Instituto Humanitas Unisinos –IHU.  Confira a entrevista: IHU On-Line – Qual o contexto mundial em que as migrações têm se estabelecido nas últimas décadas, tendo em conta os deslocamentos, trânsitos e acolhidas de migrantes? Denise Cogo – As migrações transnacionais são uma experiência humana e um fenômeno sociocultural, econômico e político que conformam a história de nossas sociedades. Os movimentos e fluxos migratórios são dinâmicos e assumem especificidades em diferentes etapas e contextos históricos, podendo ser mais permanentes ou transitórios. Múltiplos fatores vêm colaborando para impulsionar fluxos e ciclos migratórios em todo o mundo tais como as guerras, os regimes ditatoriais, as crises econômicas, os desastres ambientais, as políticas de incentivo ou repressão às migrações por parte de Estados e governos. As próprias redes migratórias operam também como espaços de interação sociocomunicacional entre os migrantes, podendo colaborar para a constituição, ampliação ou reforço de determinadas rotas e movimentos de migração entre nações ou regiões. Como exemplo contemporâneo desses fluxos, podemos lembrar o papel preponderante desempenhado pelos imigrantes turcos na reconstrução da Alemanha no período pós-guerra. Outro exemplo é o da Espanha, que se constituiu por muito tempo como um país de emigração em decorrência da pobreza, desemprego e de episódios como a Guerra Civil e a ditadura franquista, que impulsionaram o exílio de espanhóis. Posteriormente, a partir do final dos anos 1990 até 2008, especialmente a partir da criação da União Europeia, a Espanha se tornou um dos principais países receptores de imigrantes no contexto europeu e internacional, passando a abrigar populações de várias nacionalidades oriundas, dentre outros, da América Latina, de países árabes, da Ásia e do próprio Leste Europeu, atraídas especialmente pelas oportunidades econômicas e de trabalho em setores como o da construção civil. Com a crise econômica desencadeada em 2008 e que vem afetando, de modo importante, os Estados Unidos e os países da Europa, a Espanha e outras nações europeias, como Portugal e Grécia, voltaram a ser países com significativa emigração ao mesmo tempo em que países da América do Sul como Brasil e Argentina vão vivenciando um crescimento dos fluxos migratórios oriundos da Europa, Estados Unidos e da América Latina. Um dos fluxos migratórios recentes e que vêm se intensificando no Brasil é o dos haitianos que começaram a chegar ao país após o terremoto que atingiu o país em 2010. Dados do Ministério do Trabalho revelam que, em 2012, cresceu em 3,5% os vistos de trabalho concedido a estrangeiros no Brasil, números que não incluem imigrantes que não dispõem de autorizações ou vistos de trabalho e aqueles que não conseguiram a regularização jurídica no país. Novo cenário Nesse novo cenário de crise global, devemos levar em conta o retorno significativo de imigrantes sul-americanos, dentre os quais se situam brasileiros que compõem contingentes de imigrantes de retorno de países como Portugal, Estados Unidos e Japão, contextos que se transformaram nos principais destinos da migração brasileira no exterior. Por conta desse crescimento da imigração para o Brasil e do retorno de brasileiros, o governo, os movimentos migratórios e organizações de apoio às migrações passaram a discutir a necessidade de definição de políticas migratórias que atendam às necessidades de inserção desses novos fluxos que chegam ao país uma vez que a imigração é regida, ainda, pelo Estatuto do Estrangeiro criado na época da ditadura. Vale lembrar ainda que fatores econômicos, tais como a busca de trabalho e a fuga de situações de pobreza, são importantes impulsionadores dos fluxos migratórios globais, o que ajuda a entender porque esses fluxos têm se dirigido prioritariamente aos chamados países e regiões de maior desenvolvimento como América do Norte e Europa Ocidental, ou, ainda, o Oriente Médio e alguns países asiáticos como Japão. IHU On-Line – De que maneira podem ser explicadas as relações entre o aumento da intensidade da migração internacional clandestina e a sociedade de consumo? Denise Cogo – A produção e circulação de informação, assim como a confiabilidade atribuída a tais informações, é uma das dinâmicas presentes historicamente na trajetória dos migrantes e as redes migratórias transnacionais. As interações comunicacionais interpessoais foram e são imprescindíveis para a circulação e intercâmbio dessas informações no interior dos grupos de referência dos migrantes. O pesquisador Oswaldo Truzzi observa que, nas migrações do final do século XIX, os contatos pessoais assumiam maior importância do que as informações não pessoais como fontes de informação para aqueles que desejavam migrar. Segundo o autor, a pessoa ou família que pensava em migrar tendia a confiar mais nas informações fornecidas, ao vivo ou por carta, por um parente, vizinho ou amigo, por exemplo, que nos folhetos de propaganda distribuídos por um agente recrutador, cujos lucros dependiam apenas do número de indivíduos que conseguisse colocar a bordo de um vapor. Nas últimas décadas, esse cenário se reconfigura com a intensa presença e consumo das tecnologias da comunicação – como a internet e o telefone celular –, que vêm colaborando para um reordenamento territorial das experiências dos migrantes em âmbito local e global e nas experiências do transnacionalismo migrante e das redes migratórias. Como assinala o pesquisador Alejandro Portes, embora existam, na história das migrações, exemplos de transnacionalismo, o fenômeno recebeu um forte impulso com o advento das tecnologias na área dos transportes e das telecomunicações, que vieram facilitar enormemente a comunicação rápida das fronteiras nacionais e a grandes distâncias. Pesquisador do tema das migrações, Rogerio Haesbaert situa igualmente na maior velocidade dos meios de transporte e no acesso às tecnologias da comunicação os fatores primordiais que impulsionaram experiências de multiterritorialização relacionadas preponderantemente aos movimentos migratórios e, que, de certa forma reconfiguraram, ao longo do século XX, a dinâmica socioespacial e geográfica contemporânea, possibilitando aos migrantes a vivência concomitante de pertencimento a distintos territórios. Sociedade de consumo Sem dúvida, no contexto da sociedade de consumo, eu preferiria falar de sociedade da informação, a facilidade de contato e interação, através das tecnologias da comunicação, com um intenso e acelerado fluxo de imagens, representações e imaginários sobre modos de vida de diferentes culturas, sobre os cenários e conjunturas políticas e econômicas de nações e regiões, fatores que podem motivar o desejo de migrar, favorecer o conhecimento sobre possíveis lugares de migração, contatar com migrantes e redes migratórias etc. Pesquisas acadêmicas e reflexões geradas no contexto de pastorais e organizações de atendimento às migrações já começam a evidenciar que, nos fluxos recentes de imigrantes haitianos para o Brasil, não se pode desprezar a força de imagens do nosso país como “potência econômica”, das oportunidades de trabalho possibilitadas pelos grandes eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Isso se evidencia em expectativas expressas por imigrantes haitianos sobre o Brasil como destino migratório, ainda que essas expectativas não se cumpram necessariamente. Expectativas que podem estar relacionadas ao consumo das tecnologias midiáticas por parte desses imigrantes que possibilitam interações com o Brasil previamente à emigração, ou às interações cotidianas da população haitiana com brasileiros integrantes da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah). Evidentemente que isso não nos leva a desconsiderar outros fatores que colaboram nesses processos migratórios como a necessidade de emigrar desencadeada pela situação de precariedade vivenciada pelos haitianos, agravada com o terremoto que assolou o país em 2010 ou, ainda, o contato com redes migratórias de outros haitianos já estabelecidos no Brasil assim como a ação das máfias de migrante que atuam para que essa migração se concretize. Portanto, essa relação entre impulso à migração e sociedade de consumo ou sociedade da informação não pode ser vista de modo causal, uma vez que os migrantes, embora condicionados por diferentes estruturas e fatores – econômicos, políticos, sociais e culturais –, são também sujeitos de suas próprias histórias migratórias e atuam, com o capital material e simbólico de que dispõem, de modo ativo na constituição de seus próprios processos migratórios nos quais concorrem a mediação ou não desses imaginários sobre os lugares de emigração. As motivações para migrar são frequentemente multifatoriais. Múltiplas variáveis e com pesos distintos concorrem na decisão e implementação dos processos migratórios. A questão da clandestinidade é uma dessas variáveis que assume várias dimensões, derivando seja das políticas e leis migratórias mais ou menos restritivas, seja da presença de máfias que sustentam a migração clandestina, ou ainda do interesse de empresários e governos em manter a mão de obra de menor custo de imigrantes etc. IHU On-Line – Qual a importância de um debate mais amplo sobre a questão das migrações nos produtos midiáticos? Denise Cogo – Se, na análise das relações entre mídias e migrações, adotarmos o entendimento proposto por Bakhtin da linguagem como matéria social e dialógica, expressão simbólica ou representativa dos conceitos, preconceitos e valores, que resulta senão da convivência e embates coletivos entre os sujeitos situados social e historicamente, poderemos entender que tanto as migrações (como experiência humana e fenômeno social) quanto os meios de comunicação (como espaços simbólicos de construção, visibilidade e circulação de ideias e imagens) não são fatos dados, mas produtos da ação humana que se constituem na linguagem através de espaços de interação verbal ocupadas por diferentes sujeitos. As categorias e conceitos, como as próprias noções relacionadas com as migrações, que resultam das disputas e relações de poder que envolvem desses diferentes sujeitos ocupantes destes espaços de interação, não são portanto apenas descritivos, mas também constitutivos e explicativos da realidade social. Imigração qualificada Com base nesse entendimento, pesquisas acadêmicas realizadas em diferentes contextos nacionais têm se ocupado, já há alguns anos, em refletir sobre a crescente presença de representações midiáticas criminalizadoras das migrações contemporâneas através da frequente associação dos migrantes a “problemas, ameaças e conflitos” ou, ainda, a “ilegalidade”. Tais representações têm contribuído para fixar sentidos e compor um tipo de memória sobre as migrações transnacionais que não favorece o entendimento da alteridade migratória e nem colabora para as relações interculturais e processos de cidadania das migrações. No caso do Brasil, com o crescimento da imigração internacional para o país, mais recentemente podemos observar também que a mídia vem atuando na construção do conceito de “imigração qualificada” ou de “mão de obra qualificada,” para fazer referência a imigrantes portadores de níveis diferenciados de escolaridade e especialização profissional, assim como de padrões de desenvolvimento econômico e social das nações das quais procedem – especialmente as europeias -, os quais estariam preparados para ocupar postos de trabalhos carentes de mão de obra no Brasil. Na construção da noção de “imigração qualificada”, a mídia não deixa, assim, de atualizar sentidos em torno dessa memória sobre um “ser europeu” ou uma “europeidade” a partir da construção da qualificação da nova imigração procedente da Europa em contraponto a não qualificação e, às vezes, conflitividade em que aparecem enquadrados os imigrantes oriundos de outros contextos, como América Latina e África, alguns dos quais já presentes no Brasil anteriormente a esse novo fluxo migratório europeu. Claro que, nesse processo, a mídia não está sozinha, mas outras instituições, como as governamentais, desempenham um papel importante nessa construção. Disputas de hegemonia Precisamos entender que essas tendências de criminalização das migrações disputam hegemonia com outras narrativas sobre as migrações que são construídas e circulam em diferentes contextos. Em primeiro lugar, porque o universo das mídias é homogêneo. Em segundo lugar, porque no atual cenário da chamada sociedade em rede as disputas narrativas sobre fenômenos e experiências sociais, tais como as migrações, são favorecidas pelo próprio advento das mídias digitais como internet e de suas características como a hipertextualidade, a multimidialidade, a interatividade que possibilitam processos transmidiáticos e transnarrativos que vão compor fluxos do que alguns pesquisadores vêm chamando de “conversações públicas” em torno do tema das migrações, contribuindo para pluralizar os imaginários e memórias sobre as migrações contemporâneas e inserir, na agenda pública, demandas relacionadas aos direitos humanos dos migrantes. Nesse contexto, os próprios migrantes, suas redes, associações e as organizações de apoio às migrações vêm fazendo amplo uso das mídias digitais e impressas – seja produzindo meios de comunicação próprios e se aproveitando de espaços como a das redes sociais, conforme pudemos ver em nossa última pesquisa em que estudamos dez experiências de produção midiática de imigrantes latino-americanos nas cidades de Porto Alegre, São Paulo, Buenos Aires, Lisboa e Barcelona. Ao usar as mídias, os imigrantes que pesquisamos buscam construir, organizar e dar visibilidade pública às suas lutas por direitos humanos e cidadania em âmbito local e global, exercitando o que denominamos de cidadania comunicativa das migrações latino-americanas. Com diferentes usos das mídias, os imigrantes promovem uma articulação identitária da diáspora latino-americana dispersa pelo mundo; atribuem visibilidade à diversidade que compõe a própria cultura latino-americana; esforçam-se por constituir um campo discursivo contra-hegemônico de construção midiática das migrações transnacionais em contraposição à criminalização das migrações e usam essas mídias para constituir estratégias de mobilização no campo das políticas migratórias nacionais e supranacionais relacionadas às demandas por cidadania universal das migrações, buscando a universalização dos direitos sociais e políticos para além do pertencimento a territórios nacionais. Experiências Outra experiência recente de apropriação da internet é o da Plataforma “No nos vamos nos echan”, criada e mantida por jovens espanhóis e que vem se capilarizando por vários espaços da internet como um esforço de articulação à diáspora espanhola juvenil, dentro e fora do espaço da internet, em torno do debate, denúncia e busca de alternativas acerca do que esses jovens denominam de exílio forçado da juventude espanhola que decorre da crise econômica vivida pela Espanha. No último dia 9 de abril, o grupo convocou uma manifestação pública em capitais de países para onde emigraram jovens espanhóis (Paris, Bruxelas, Buenos Aires, etc.) utilizando redes sociais como Facebook, Twitter, YouTube, etc. Em seu site o grupo disponibiliza um mapa interativo onde os jovens imigrantes podem propor breves relatos sobre sua condição de imigrantes e de precariedade juvenil através do preenchimento de um formulário que inclui, dentre outros, dados como nome, idade, em que país vive, situação laboral, profissão, história de precariedade, condição de migração forçada, desejo de retorno, etc. Interessante que aqui poderíamos falar de jovens que lutam pelo direito à não migração ou pelo menos pela construção de um espaço de autonomia juvenil que possibilite vivenciar a imigração como um desejo ou projeto. Na perspectiva de colaborar para o deslocamento da dimensão criminalizadora que vem pautando a cobertura das migrações contemporâneas e contribuir com subsídios para comunicadores e jornalistas que atuam na cobertura da realidade das migrações transnacionais em crescimento no Brasil, lançamos recentemente o Guia das migrações transnacionais e diversidade cultural para comunicadores – migrantes no Brasil, que está disponível em versão online para download gratuito e em versão impressa. Este guia é produto de um trabalho de mais de dois anos que buscou dar aplicabilidade para mais de dez anos de pesquisas sobre o tema das mídias e migrações. Foi elaborado em parceria com a jornalista e pesquisadora Maria Badet, que reside em Barcelona e em colaboração com um grupo de investigadores de universidades nacionais e internacionais, sendo editado pelo Instituto de la Comunicación da Universidade Autônoma de Barcelona e pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). IHU On-Line – Quais dinâmicas de cidadania intercultural estão relacionadas às questões das migrações? Denise Cogo – Primeiramente, é necessário fazer uma diferenciação entre migração como experiência humana e o caráter social e jurídico que vai assumir essa migração em uma etapa da nossa história. A figura social e jurídica do imigrante-emigrante não existiu desde sempre, mas se consolidou no contexto de criação dos Estados-nação e do nacionalismo na América e na Europa no século XX, como uma categoria definidora daquele que abandona um país para se estabelecer em outro e que se torna alvo de vigilância e controle de Estados e governos. No entanto, como experiência humana, as migrações não se desenrolaram e nem se desenrolam limitadas a esse espaço “objetivo”, de caráter institucional e soberano vinculado à ideia de nação, ou seja, as migrações se constituem também por sua dimensão humana e subjetiva de movimento e ação que implica a vivência de múltiplas territorialidades e experiências simbólicas em torno das quais o ser cidadão, para os imigrantes, não tem a ver unicamente com os direitos reconhecidos pelo Estado ou com modos de pertença a uma nacionalidade, mas com práticas sociais e culturais que vão sendo gestadas pelos próprios migrantes em seus processos cotidianos de trânsito e/ou permanências em contextos diferenciados que envolvem os lugares de origem com o de destino. As dimensões jurídicas (relacionadas à obtenção de documentação para permanência) assim como a dimensão material e econômica (relacionada a trabalho, moradia, etc.) são fundamentais para a constituição dos processos de cidadania dos migrantes, mas não esgotam o espectro das subjetividades que compõe as experiências migratórias. Teorias da cultura Nessa perspectiva, no marco das teorias da cultura e do multiculturalismo, a interculturalidade é um conceito útil para que nos indaguemos sobre a necessidade de os migrantes serem reconhecidos como sujeitos de direitos sociais e culturais nas múltiplas dimensões que compõem sua subjetividade, e não apenas econômica ou jurídica. Embora muitos governos e instituições tendam a enfatizar quase que exclusivamente uma dimensão economicista das migrações quando, por exemplo, restringem com leis a circulação de pessoas ou quando promovem a chamada “migração qualificada”, os migrantes, suas redes e organizações têm se empenhado em forjar espaços de diálogo que permitam a produção de um “lugar” ou uma “ética” não assimilacionista que seja capaz de fazer convergir dimensões culturais e identitárias universais e/ou particulares relacionadas tanto aos contextos de origem quanto de destino dos migrantes. Podemos dizer que a cidadania intercultural se evidencia no desejo e esforço dos migrantes de serem compreendidos como Outro em sua cultura, de gestarem espaços para a expressão de sua diversidade histórica e cultural na expectativa de que suas experiências identitárias não sejam geradoras de desigualdades de situações e oportunidades. A própria luta pela chamada cidadania universal tem servido para evidenciar o quanto os migrantes são vistos como pertencendo a outro governo e com lealdade a outra soberania. IHU On-Line – Que pistas existem no sentido de uma abertura maior na discussão das agendas das migrações em termos midiáticos e como isso pode contribuir para o combate do tráfico humano? Denise Cogo – Nessa proposta, levantamos um conjunto de sugestões, dentre os quais alguns abrangeram aspectos específicos sobre o papel da mídia relacionado ao tráfico de pessoas, levando em conta especialmente a proximidade dos eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Destaco aqui esses aspectos, conforme aparecem na redação do documento enviado ao governo federal: a) Instituir a atuação de Conselhos Consultivos com representantes do Estado e da sociedade civil que colaborem na definição de diretrizes para a produção e circulação de imagens sobre o Brasil em materiais de turismo, propaganda e divulgação a serem veiculados nos meios de comunicação impressos e digitais e em espaços públicos diversos no país e, principalmente, no exterior. A atuação do Conselho poderia contribuir para diversificar as representações do Brasil pautadas em matrizes do tropicalismo, especialmente aquelas que tendem associar o Brasil à sexualidade ou certos estereótipos étnicos e sexuais. b) Na atuação do Conselho, sugerimos uma atenção especial para a intensificação do fluxo de imagens e discursos sobre o Brasil que deverá decorrer da realização de grandes eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Todavia, para além desses eventos de grande visibilidade, é necessário criar instâncias de observação e monitoramento da elaboração de imagens sobre o Brasil veiculadas fora do país – na modalidade, por exemplo, de observatórios. Tais instâncias fomentariam o debate sobre essas imagens e sua efetiva contribuição para a prevenção ao tráfico. c) Elaborar materiais impressos e online de subsídios para jornalistas e comunicadores que atuam em organizações midiáticas e em movimentos sociais, visando à sensibilização e à orientação sobre o tratamento midiático da temática do tráfico de pessoas. d) Criar instâncias de acompanhamento da internet (na modalidade, por exemplo, de observatórios de estudos) para o desenvolvimento de pesquisa acadêmica sobre as diversas formas de envolvimento e usos do espaço digital (sites, redes sociais, etc.) que possam servir de subsídios para orientar a formulação de políticas e ações institucionais. Entende-se que o espaço digital não deve ser controlado, mas pode ser utilizado para mobilizar ações positivas visando à sensibilização da sociedade civil e dos agentes de estado para a complexidade e desafios tanto de caracterização dos sentidos atribuídos à condição de “vítima” do tráfico quanto à diversidade de dinâmicas que envolvem o trabalho sexual. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação do IHU On-Line
UE Economia

União Europeia, um barco à deriva

Com a zona do euro em recessão no ano passado e provavelmente neste também, com países fora da órbita do euro, como o Reino Unido, igualmente em situação de contração econômica, está claro que o Plano A (Austeridade) está fazendo água, mas uma mistura de visões ideológicas e preferência política atuam como trava para formular uma alternativa. O artigo é de Marcelo Justo, direto de Londres. Londres – A União Europeia é um barco à deriva no qual não há acordo sequer sobre o tipo de salva-vidas a usar em caso de naufrágio. Na reunião dos ministros de finanças europeus, em Dublin, ficou claro que Chipre terá que se virar como puder com sua crise e que o esforço se concentrará em evitar o contágio sem que se avance um centímetro na questão central do problema: o crescimento econômico. O avanço mais positivo do encontro – o combate aos paraísos fiscais – encontrou a oposição cerrada da Áustria a uma medida reclamada pelas ONGs que lutam contra a evasão fiscal: o intercâmbio automático de informação sobre as contas bancárias. A falta de rumo na União Europeia ficou clara quando os ministros tomaram como base de suas discussões um estudo encomendado a um think-tank, o Zsolt Darvas, de Bruxelas, para ver o que podia ser feito para estimular o crescimento. Com a zona do euro em recessão no ano passado e provavelmente neste também, com países fora da órbita do euro, como o Reino Unido, igualmente mergulhados em uma contração econômica, está claro que o Plano A (Austeridade) está fazendo água, mas uma mistura de visões ideológicas e preferência política atuam como trava para formular uma alternativa. Segundo disse à Carta Maior John Bowler, diretor de risco-país da Unidade de Inteligência do semanário britânico The Economist, tudo dependerá do governo da chanceler Angela Merkel. “A Alemanha insiste que a periferia tem que colocar suas contas fiscais em ordem e é muito reticente em concordar que isso seja um objetivo de longo prazo e que no curto prazo seja adotada uma estratégia diferente porque a austeridade fiscal está provocando mais problemas do que soluções ao aprofundar a recessão e impactar negativamente a arrecadação. O tema é que a Alemanha tem que prestar contas ao seu próprio eleitorado em um ano de eleições”, observou Bowler. As eleições alemãs são em setembro e não há garantia de que apontem um resultado que incline a balança na direção de um Plano B. A zona do euro tem tempo para isso? O debacle do Chipre deixou claro que a afirmação de Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), de que utilizaria todo o poder que tem em suas mãos para salvar o euro, serviu para conter a sangria em agosto do ano passado, mas não representa uma cura definitiva. Em Dublin, os ministros de finanças da União Europeia estimaram que o custo total da debacle cipriota é de 23 bilhões de euros, cerca de 7 bilhões a mais do inicialmente previsto, e deixaram claro que não colocariam um euro a mais sobre a mesa: Chipre deverá se encarregar de cobrir essa diferença. Por seu peso específico, uma queda de Chipre não pode colocar em perigo o euro: o temor é a possibilidade de contágio. Em sua tentativa de abrir o guarda-chuva ante uma iminente tormenta, os ministros de finanças decidiram prolongar o prazo de Portugal e Irlanda para pagar os empréstimos da Troika (Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia) até 2020: sete anos além do que havia sido acordado. No caso de Portugal não está claro se isso é suficiente. A recente resolução da Corte Suprema que declarou inconstitucional a redução salarial e da aposentadoria dos funcionários públicos colocou sobre as cordas o plano de austeridade pactuado com a Troika. O primeiro ministro conservador Pedro Passos Coelho indicou que o país se encontrava em uma “emergência financeira” e teria que fazer novos cortes para ter acesso aos fundos de resgate. O ex-primeiro ministro Mario Soares, chave na transição para a democracia que se seguiu à ditadura de Salazar, foi mais além e defendeu a formação de uma grande coalizão para repudiar o resgate. “Portugal nunca pagará sua dívida. Se alguém não pode pagar, a única solução é não fazê-lo. Quando a Argentina esteve em crise, não pagou. Aconteceu algo? Não, não aconteceu nada”, assinalou. Candidatos a ser o novo Chipre não faltam. Com cerca de 7 bilhões de euros em “empréstimos incobráveis”, equivalentes a uma quinta parte de seu Produto Interno Bruto (PIB), a Eslovênia é o mais óbvio. O governo de centro-esquerda da primeira ministra Alenka Bratusek, que assumiu o poder em 20 de março, desmentiu categoricamente que o país precisará de um resgate. O problema é que os resgates da Grécia e Irlanda em 2010, de Portugal em 2011, do setor bancário espanhol no ano passado e de Chipre agora começaram com desmentidos similares. Nos mercados o impacto já é visível. Na sexta-feira, o preço internacional do ouro caiu ao seu nível mais baixo em 18 meses em função do medo de que a venda de ouro que Chipre terá que fazer para arrecadar os 7 bilhões de euros adicionais de que necessita, seja somente um primeiro capítulo. “Se Chipre conseguir atingir o mercado do ouro, há boas razões para estar preocupados já que Eslovênia, Hungria, Portugal, Espanha e Itália poderiam adotar a mesma política para lidar com seus problemas de financiamento”, disse ao “The Guardian” o analista de investimentos de SK Hart Management, Milko Markow. O único capítulo em que a reunião de Dublin mostrou um avanço foi o tema dos paraísos fiscais. Nove países – Espanha, Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Polônia, Holanda, Bélgica e Romênia – aderiram a um projeto piloto de intercâmbio automático de informação bancária sobre os dados dos não residentes. A Áustria se opôs a uma iniciativa que requer unanimidade entre os 27 países que conformam a União Europeia. Segundo a Áustria, o direito à privacidade das contas, consagrado no princípio do sigilo bancário, é sagrado. O tema será decidido na cúpula da UE, em 22 de maio. * Tradução: Katarina Peixoto. ** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Marcelo Justo, da Carta Maior
Foto: Divulgação Economia

Pressões inflacionárias sobre os preços dos alimentos

[caption id="attachment_83646" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Divulgação"][/caption] O debate econômico sobre causas prováveis da pressão inflacionária conjuntural e das políticas necessárias à sua erradicação contamina-se por duas teses simplistas: de um lado, a explicação do choque conjuntural de oferta, banalizado na mídia televisiva pela “explosão” dos preços do tomate; de outra, a tese muito cara ao setor financeiro e seus áulicos, de que é preciso cortar a demanda interna com elevação de juros e/ou redução da despesa pública que alimenta a massa das remunerações do trabalho (salários e benefícios sociais monetários), sob pena da propagação das pressões inflacionárias. Se olharmos a trajetória recente de uma década – 2003/2013 –, veremos que, em três conjunturas bem delineadas, houve pressão forte dos preços agrícolas, que em última instância promoveram tensões no nível geral de preços, provenientes de diferentes situações: 1) na conjuntura de 2003/2004, quando uma mini-crise cambial, pós-eleição do presidente Lula, provocou forte desvalorização cambial (o dólar chegou a 4 reais e a inflação do IPCA em 2003 atingiu 14,7%); 2) em 2008, com a inflação do IPCA em 5,7% puxada por pressões de preços agrícolas substancialmente mais altos; 3) em 2013, quando a inflação dos últimos 12 meses ficaria provavelmente acima do limite da meta inflacionária de 6,5%, enquanto os produtos alimentares da cesta básica (trigo, carnes, cereais e grãos, açúcar e derivados) crescem no mercado interno praticamente o dobro dessa meta. Observe-se que há um fator comum às três conjunturas citadas, em geral desconsiderados nos diagnósticos ortodoxos do controle da inflação pela via da elevação dos juros e do corte de ‘despesas’ públicas - teses prevalecentes em 2003/2004 e 2008. O país realizava e ainda realiza uma política de ajuste externo fortemente apoiada na exportação de “commodities” agrícolas e minerais. Entre 2003 e 2008, ainda se navegava nas vias oficiais na crença do equilíbrio externo por esse caminho. Atualmente, depois de cinco anos sucessivos de déficit na Conta Corrente (2008 a 2012), com o ano de 2013 aparecendo ainda mais complicado, com déficit previsto em torno de 4% do PIB, crescem as pressões por elevar as exportações primárias ‘a qualquer custo’. Diante do modelo de ajuste externo pelo setor primário que vimos perseguindo nesta primeira década do século XXI, diga-se de passagem, sem evidência de sucesso, há tensões inflacionárias intermitentes, aparentemente oriundas do setor agrícola. Essas pressões na verdade decorrem da dependência estrutural do sistema econômico de encontrar equilíbrio externo pela via das exportações primárias, em especial de alimentos relevantes na cesta básica. Isto ocorre quando os preços externos das “commodities” se elevam ou mesmo quando ocorre crise cambial (conjunturas de 2003 e 2007); ou ainda mesmo quando os preços externos declinam (2013); mas não os preços internos, puxados pela pressão física por exportar e pela demanda oriunda da massa salarial interna de uma economia que se programa para crescer. Em síntese, e visitando o pensamento clássico de Celso Furtado, tão combatido e pouco lido pela ortodoxia econômica, as tensões inflacionárias de tipo estrutural, como as que ora se recolocam na economia brasileira, precisam ser equacionadas. Políticas monetárias e fiscais ortodoxas afetam suas aparências porque podem até cortar conjunturalmente pressões inflacionárias à custa de desemprego, recessão, desoneração etc., mas não resolvem a questão, porque não atacam as raízes da dependência externa e da desigualdade distributiva interna, causas mais profundas do problema em discussão. Diante de um diagnóstico estrutural da inflação, um pragmático puro desdenhará por não oferecer respostas imediatas. O acadêmico heterodoxo desdenhará do primeiro em face da inutilidade do pragmatismo, desprovido de explicação conceitual adequada à classe de fenômenos em consideração. Mas não estará chegando a hora de debatermos com seriedade, sem desdém, ideologizações pragmáticas e banalidades, o fenômeno inflacionário real? * Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Guilherme C. Delgado*
Margareth Thatcher. Foto: http://mingaudeaco.blogspot.com.br/ Economia

Escola Margareth Thatcher

[caption id="attachment_83747" align="alignleft" width="281" caption="Margareth Thatcher. Foto: http://mingaudeaco.blogspot.com.br/"][/caption] Determinado bem pertencente ao povo brasileiro, que vale no mercado em torno de US$ 1,5 trilhão, vai ser repassado, no próximo mês de maio, a empresas estrangeiras pelo pagamento de US$ 225 bilhões de royalties durante um período de 30 anos. Pode ser suposto que, para colocar o bem no mercado, as empresas precisam recuperar investimentos e custos realizados, além de ter um bom lucro, ou seja, elas precisam retirar US$ 600 bilhões do negócio. Em outras palavras, nosso povo deveria receber pelo bem em torno de US$ 900 bilhões (= US$ 1,5 trilhão - US$ 600 bilhões). Como recebe só US$ 225 bilhões, ele vai ter seu patrimônio subtraído exatamente em US$ 675 bilhões, parcela esta que irá para os caixas das empresas como superlucro. O PIB do Brasil em 2012 foi de US$ 2,3 trilhões. Assim, esta subtração do patrimônio do nosso povo é igual a cerca de 30% do PIB brasileiro. No entanto, nenhum meio de comunicação tradicional, quer sejam os jornalões ou as revistas semanais ou as TV abertas ou por assinatura, falou sobre este fato. A população brasileira nada sabe sobre uma ação que representará uma gigantesca subtração de patrimônio público. Este silêncio é a comprovação da parcialidade da grande mídia, que oculta as verdadeiras questões de interesse da sociedade. Por outro lado, fica patente também a falta de compreensão da classe política, com raras exceções, com relação às prioridades da nossa sociedade. Se não for falta de compreensão, pode ser algo bem pior. É preciso deixar claro que tudo será feito e o patrimônio será entregue estritamente dentro da lei. Uma lei extremamente injusta para com a sociedade e muito benéfica para as empresas, principalmente as estrangeiras. Mas é a lei vigente para blocos fora da área do Pré-sal, de número 9.478 de 1997. A referida subtração é aprovada a partir da entrega de áreas do território nacional como concessões para empresas explorarem e produzirem petróleo e gás, que ocorrerá na 11ª Rodada de leilões de blocos, promovida pelo governo brasileiro nos dias 14 e 15 de maio. A estimativa de petróleo a ser descoberto nestes blocos foi fornecida pela própria diretora-geral da ANP em seminário de promoção da Rodada. Vou repetir argumentações de outros artigos meus sobre este assunto, para explicar sumariamente como esta Rodada é pouco atraente. As empresas estrangeiras arrematarão grande número de blocos e irão exportar todo petróleo descoberto nestes blocos in natura. Na fase de investimentos, quase não irão comprar no país, não irão contratar desenvolvimento tecnológico nem engenharia no Brasil, quase não irão empregar mão de obra local e deixarão no Brasil o royalty, que é, em comparação com o lucro, uma parcela bem menor. Também, o Brasil perde a possibilidade de uso do fornecimento garantido de petróleo de médio prazo a outros países como instrumento de ação geopolítica. A lei 9.478 permite todas estas injustiças e usurpação da nossa riqueza. À primeira vista, a alegria devido à morte de um ser humano pode ser considerada uma desumanidade. No entanto, pode também significar uma explosão de alívio, pois a fonte de opressão e insensibilidade, representada pelo morto, foi extinta. Foi o que aconteceu com a morte de Margareth Thatcher. Ou seja, o povo comemorou a execução pela Justiça divina, ou pelo acaso, daquilo que a Justiça terrestre foi incapaz de corrigir. Injustiças causadas pelo preposto do capital, com ajuda da mídia subalterna, tristemente suportadas pelo povo, oprimem tanto que a morte do algoz pode ser comemorada. Apesar da inegável realização social dos governos Lula e Dilma, fica uma pergunta na nossa mente: qual o legado a presidente Dilma quer deixar neste setor? Ser lembrada como membro da Escola da privatista Margareth Thatcher? Se você estiver convencido sobre o que foi explicado e quiser fazer valer seu desejo, mesmo porque a Constituição afirma que todo poder emana do povo, remeta um recado para a presidente Dilma acessando aqui. Com relação aos deputados e senadores, mandar mensagens é mais complicado, porque teria que ser através de e-mails individuais. Um e-mail para cada um dos 513 deputados e cada um dos 81 senadores. No entanto, não deixe de mandar para aqueles nos quais você acredita. Sugiro, também, que você se defenda, pois estará sendo lesado. Lute como puder para esta usurpação ser barrada. * Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Paulo Metri*
juros Economia

Mesmo com economia patinando, o lobby por juros altos

Os últimos indicadores econômicos mostraram o seguinte: - Na sexta foi divulgado o IBC-BR (Índice de Atividade Econômica do Banco Central). Trata-se de um indicador que tenta antecipar os resultados do PIB (Produto Interno Bruto). O de fevereiro registrou queda de 3,13%. Em doze meses, uma alta de apenas 0,87%. - Um dia antes, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) constatou uma queda de 0,4% nas vendas de varejo, pior desempenho desde fevereiro de 2003. No acumulado do ano e em 12 meses, os indicadores são razoáveis. A explicação para a queda no varejo é que o aumento da inflação provocou uma retração no consumo. - No caso dos supermercados, houve queda de 2,1% nas vendas de alimentos e bebidas, também em decorrência da alta de preços. *** Tem-se, portanto, um quadro definido. Em relação ao comportamento geral da economia, índices claudicantes de recuperação. Em relação ao varejo, queda de consumo decorrente do aumento de preços. Ou seja, a própria inflação criando seu anticorpo, seja através da redução da renda, seja através das manobras defensivas dos consumidores. Vários itens de pressão nos preços começam a ceder. Entre os que acreditam nos poderes mágicos da Selic, há a crença de uma defasagem de 8 meses entre uma eventual elevação da taxa e seus efeitos. *** Suponha que a Selic tenha eficácia e que exista essa defasagem sobre seus efeitos. Ela incidiria sobre uma economia desaquecida, em que até os indicadores de varejo começam a claudicar. Ou seja, exerceria um papel pró-cíclico (de acentuar a tendência dominante). Tem-se uma inflação que superou de leve o limite de alta da meta inflacionária. Ao mesmo tempo, um conjunto de sinais mostrando uma economia a meia trava e outro conjunto de sinais mostrando distensão nos fatores principais de pressão sobre os preços. Aliás, o melhor sinal veio da própria queda de vendas dos supermercados, comprovando que as grandes fabricantes de produtos de varejo, que reajustaram seus preços nos últimos meses, sofreram queda de vendas. *** Mesmo assim, o coro prossegue, por razões que nada têm a ver com preocupações inflacionárias. Além dos especuladores habituais da Selic, há um conjunto de atores engrossando o coro. Existem gestores de fundos de pensão que não conseguiram fazer a transição para o mercado de renda variável e necessitam de juros altos para fechar suas contas. Os bancos de investimento atuam em várias frentes e uma redução de juros beneficiaria os segmentos que trabalham com empresas. Mas o sistema de bônus faz com que cada área lute ferozmente para preservar seus ganhos. E os maiores ganhos dos economistas – a parte do mercado com maiores vínculos com a mídia – se dá justamente nos resultados da renda fixa, no comportamento da Selic. Com apoio dos bancos públicos, Banco Central e Fazenda coordenaram com maestria os movimentos do mercado em direção à redução dos juros e ao aumento do crédito. Desde que se percebeu consistência nas medidas para reduzir os juros, os bancos comerciais se prepararam para atuar em um cenário de competição. Toda essa construção irá por água abaixo, será uma autêntica abertura da porteira, se o Copom ceder à pressão e aumentar a Selic. * Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br. ** Publicado originalmente no site Carta Capital. 


por Luis Nassif*
Segundo Mantega, governo pode adotar medidas impopulares para combater a inflação. Foto: Celso Junior/AE Economia

Mantega: governo adotará as medidas necessárias para conter a inflação, mesmo que impopulares

[caption id="attachment_83757" align="alignleft" width="300" caption="Segundo Mantega, governo pode adotar medidas impopulares para combater a inflação. Foto: Celso Junior/AE"][/caption] São Paulo – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reiterou na sexta-feira (12) que o governo federal não permitirá o aumento da inflação no país, mesmo que medidas consideradas impopulares sejam necessárias. “Elevamos os juros em 2010, época de eleições”, lembrou. “Combater a inflação sempre será uma prioridade”, acrescentou. Mantega disse que para conter a alta de preços poderão ser implementados vários tipos de medidas e que a elevação da taxa de juros seria apenas uma delas. “Mas isso só se o Copom [Comitê de Política Monetária], se o Banco Central [BC] considerar conveniente” declarou. Ele destacou que a tomada de decisão sobre juros cabe apenas ao BC. “Cada um faz a sua parte, mas eu não sei o que vai acontecer com os juros, nem quero saber.” De acordo com o ministro, a preocupação com o aumento da inflação ocorre em função, principalmente, da alta dos preços dos alimentos. Segundo ele, o choque de oferta provocado pela seca do ano passado nos Estados Unidos e no Brasil encareceu as commodities. Além disso, os alimentos como o tomate, a cebola e a farinha de mandioca foram afetados pela a irregularidade de chuvas. “Estamos já terminando o regime de chuvas e entrando nas safras, que vão despejar toneladas de alimentos [no mercado]”, ressaltou o ministro. Outro fator que faz Mantega acreditar que a inflação será menor em 2013 é que o país não deve enfrentar a desvalorização do câmbio brasileiro, como ocorreu no ano passado. “Esses são dois fatores que vão favorecer uma inflação menor em 2013”, reiterou o ministro, que participou de seminário em São Paulo promovido pela Revista Brasileiros. * Edição: Juliana Andrade. ** Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Fernanda Cruz, da Agência Brasil
dolar Economia

Um dólar ao ano não é nada… menos ainda na ONU

Nações Unidas, 9/4/2013 – O Grupo dos 77 (G-77), a maior coalizão de nações em desenvolvimento dentro da Organização das Nações Unidas (ONU), desafia a habitual prerrogativa de sucessivos secretários-gerais do fórum mundial para designar “enviados especiais”, cujos serviços são objeto de contratos nominais de “um dólar ao ano”. A nomeação destes enviados está fora das pautas tradicionalmente propostas ou supervisionadas pelo Comitê Assessor das Nações Unidas sobre Questões Administrativas e Orçamentárias, a chamada Quinta Comissão (de Assuntos Administrativos e Orçamentários), e pela Assembleia Geral. Ao longo dos anos houve dezenas de enviados especiais, entre eles o ex-presidente Bill Clinton (1993-2001), designado para o Haiti; o diplomata norueguês Terje Rød-Larsen, primeiro coordenador especial para o processo de paz no Oriente Médio que agora vigia o Líbano, e Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Colúmbia e atual assessor especial do secretário-geral para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Embora estejam contratados pelo salário nominal de um dólar ao ano, têm direito a numerosos benefícios pagos pela ONU, que incluem viagens e hospedagens em hotéis quando em suas funções. Ao Comitê Assessor foi dito que as designações “não representam a criação de postos e que os fundos extraorçamentários foram usados para cobrir os custos associados” às suas nomeações. Mas há pouca ou nenhuma transparência, seja sobre as pautas que regem as designações, seja para os gastos dos enviados especiais. Em declarações feitas com a condição de não ter seu nome revelado, uma fonte do G-77 disse à IPS que todas as nomeações feitas pela ONU estão sujeitas a normas e regulações. Estas incluem pautas relativas a uma distribuição geográfica equitativa, a um equilíbrio de gênero e aos mais altos padrões de eficiência, competência e integridade. Porém, em vista disso, afirmou que nenhum destes critérios é aplicado aos enviados especiais, que estão, majoritariamente, em altos postos da escala hierárquica da ONU, situando-se como diretores (D-1 e D-2), secretários-gerais adjuntos ou subsecretários-gerais. Na última semana de março, a Quinta Comissão, por iniciativa do G-77 e da China, finalizou o rascunho de uma resolução que “expressa preocupação diante da falta de controle no recrutamento de indivíduos D-1 e em contratos acima de um dólar por ano”. Nela é enfatizado que “os contratos de um dólar ao ano deveriam ser concedidos em circunstâncias excepcionais, e também deveriam estar limitados a designações de alto nível”. E, o que é mais importante, requer que o secretário-geral, Ban Ki-moon, prepare, pela primeira vez, “pautas relativas ao uso destes contratos”, que deverão ser apresentados na 69º sessão da Assembleia Geral, que começará em setembro de 2014. A resolução, que se espera seja adotada pela Assembleia Geral, alerta que “não será concedido nenhum contrato de um dólar por ano” enquanto o órgão da ONU estiver analisando essas pautas. “A Assembleia Geral, em seu rascunho de resolução sobre recursos humanos, enfatizou que os contratos de um dólar ao ano deveriam ser concedidos somente em circunstâncias especiais e limitados a designações de alto nível, que é a prática atual”, disse à IPS o porta-voz da ONU, Farhan Haq. Também requereu que o secretário-geral redija as pautas relativas ao uso destes contratos, de modo semelhante ao estabelecido para as designações dos “realmente empregados”, acrescentou. “A emissão de pautas para contratos de um dólar por ano garantirá um manejo mais constante dessas designações”, acrescentou Haq. Por último, destacou que a Assembleia Geral pediu a Ban Ki-moon que informe ao Comitê Assessor sobre a emissão desses contratos, bem como sobre a criação de certas categorias de postos, como os que são considerados “realmente empregados”. “Esta solicitação não tem nenhum impacto sobre a autoridade do secretário-geral para estender esses contratos ou criar esses postos”, disse Haq. E ao secretário-geral não se requer buscar a aprovação do Comitê Assessor, mas apenas mantê-lo a par das ações que tomar a este respeito, acrescentou. A resolução também “reitera sua preocupação quanto ao aumento do uso de consultores, especialmente nas atividades centrais da Organização”. Ao secretário-geral foi indicado que o uso de consultores “deveria ser regido pelas resoluções relevantes da Assembleia Geral”, incluída a necessidade de os potenciais candidatos serem escolhidos a partir da base geográfica mais ampla possível, e também lhe foi requerido “fazer o maior uso possível da capacidade interna”. Durante o biênio 2010-2012, foi concedido um total de 267 contratos de consultores e ex-membros do pessoal cujo último posto esteve no nível de subsecretário-geral, secretários-gerais adjuntos ou diretores, segundo informou no final de março a Quinta Comissão. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
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As agências e o modelo de financiamento à informação

O Brasil vive uma concentração no mercado publicitário que, na falta de um modelo para o financiamento à informação para a sociedade, vai consolidar um círculo fechado entre grandes anunciante, grandes agências e grandes veículos. O mercado publicitário brasileiro tem dado saltos de faturamento. Em 2012 chegou a quase R$ 45 bilhões em faturamento e as projeções para 2013 apontam crescimento próximo a 10%. São essas agências que respondem pela compra de espaços publicitários nos meios de comunicação. Analisam as necessidades de seus clientes e decidem comprar páginas, público e minutos nos mais diferentes veículos. Claro, produzem os comerciais a serem veiculados, o que as agências brasileiras fazem com raro talento. Este cenário tem atraído muitos investidores para comprar agências no Brasil, fazer aquisições de empresas e grupos menores, mas com bons talentos ou clientes, além de garantir excelente retorno aos investidores. Alguns anos atrás os maiores grupos brasileiros foram comprados por grandes agências internacionais, a ponto de entre as cinco primeiras no ranking nacional, três serem controladas pelo mesmo grupo inglês, o WPP. São elas a YR, a Ogilvy Brasil e a JWT. A AlmapBBDO pertence à Omnicon, dos Estados Unidos, e a Borghi/Lowe é controlada pela Interpublic, também dos Estados Unidos. [caption id="attachment_82944" align="aligncenter" width="300" caption="Fonte: Folha de S. Paulo"][/caption]   Esta semana saiu a notícia de que o Grupo ABC, que controla a agência África, recebeu um aporte de capital de R$ 170 milhões do fundo Kinea, controlado pelo Banco Itaú. O projeto aparentemente é fortalecer o ABC, adquirir novas agências e preparar o grupo para a abertura de capital em alguns anos. Se for mesmo isso seria a primeira abertura de capital de uma agência de publicidade ou de comunicação no Brasil. Esse mercado tem sido mantido à margem das bolsas de valores. No lado dos meios de comunicação a legislação proíbe que empresas detentoras de veículos de comunicação tenham capital aberto. As explicações para isso são as mais esdrúxulas possíveis. A mais comentada é que seria para “manter a independência editorial” dos veículos. Independência editorial depende principalmente de recursos para a gestão de uma redação comprometida com a sociedade em que está inserida. Recursos para bancar jornalismo de boa qualidade em diversas frentes ideológicas e não apenas algumas privilegiadas que assumem o discurso homogêneo do capital. O movimento de concentração do controle das agências de publicidade nada tem a ver com livre iniciativa, mas sim com hegemonia. A concentração dos recursos publicitários, fortalecida com a prática do BV (Bonificação por Volume), vem espremendo o mercado editorial e desestimulando novas iniciativas. Mesmo nas mídias digitais, que poderiam romper com essa lógica, as grandes agências estabeleceram como regra o “custo por mil”. Ou seja, o valor é calculado por cada mil visitantes dos sites, não importando muito o perfil desses leitores ou sua qualificação. É importante que os movimentos de capitais, fusões e aquisições de empresas de publicidade sejam acompanhados de perto pelos maiores interessados, os meios de comunicação, em especial aqueles que trabalham para levar informações qualificadas para a sociedade em áreas estratégicas como educação, cidadania, meio ambiente, economia sustentável etc. A estrutura que está se desenhando desde a entrada dos grandes grupos estrangeiros é um circulo fechado que envolve grandes anunciantes, grandes agências e grandes veículos. Neste cenário o melhor seria acabar com as reservas de mercado e permitir que qualquer empresa de comunicação vá à bolsa de valores buscar recursos. (Envolverde) * Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde, passou por diversas redações da grande mídia paulista, como Agência Estado, Gazeta Mercantil, revistas IstoÉ e Exame. Desde 1998 dedica-se à cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, educação, desenvolvimento sustentável e responsabilidade socioambiental empresarial.


por Dal Marcondes, da Envolverde

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