Vertentes do desenvolvimento

Artigo

Vertentes do desenvolvimento


por Wladimir Pomar*


Mesmo os setores mais à esquerda do espectro político brasileiro não se furtam de se pronunciar sobre a necessidade do desenvolvimento. Outros setores fazem questão de acrescentar ao desenvolvimento o termo politicamente correto de sustentável, na esperança de que tal desenvolvimento ocorra sem danos ao meio ambiente e sem traumas sociais.Há, também, os que querem o desenvolvimento, mas abominam a construção de grandes hidrelétricas, a exploração do petróleo do pré-sal, a energia atômica e outras atividades que consideram economicamente superadas. Para eles, falar em industrialização não passa de palavrão. E liquidar a agricultura intensiva e comercial, transformando-a em milhões de unidades agrícolas familiares, autossustentáveis, seria o melhor dos sonhos.Menos mal que, atualmente, essas correntes de pensamento começam a falar do capitalismo como a razão principal dos danos ambientais e sociais. Até há pouco, elas jogavam toda a culpa sobre a humanidade ou sobre indivíduos e instituições governamentais. Por outro lado, mesmo agora, não se dão conta da necessidade histórica do capitalismo, nem das demais formações sociais que o antecederam, e pretendem realizar um desenvolvimento que deixe de lado os imperativos econômicos. Pretensão que as experiências socialistas, sejam as utópicas, sejam as de tipo soviético, mostraram estar em contradição com o desenvolvimento social.No momento, em termos globais, temos em curso três grandes vertentes de desenvolvimento. A primeira, puramente capitalista, é a dos países avançados, explicitamente os Estados Unidos, Alemanha, Japão, França e Inglaterra. O desenvolvimento das forças produtivas e da acumulação de capital nesses países alcançou um grau que lhes impôs uma taxa média decrescente nos lucros e entrou em contradição com sua capacidade de realização interna. Portanto, o desenvolvimento nesses países bateu no teto.Para continuarem se desenvolvendo, eles teriam que realizar um intenso processo de inovação científica e tecnológica, agravando ainda mais a tendência de queda da taxa média de lucro. Por isso, a saída adotada pelas empresas capitalistas tem sido praticar uma intensa especulação financeira, e transferir ou relocalizar plantas industriais em países agrários. Em outras palavras, elevar suas taxas médias de lucro por meio da produção de dinheiro fictício e da extração de mais-valia absoluta em países com força de trabalho barata.Essa saída intensificou as contradições nos países desenvolvidos. Incentivou a desindustrialização interna e o consequente desemprego. Fez emergir uma cisão entre o lucro das corporações empresariais globalizadas e os recursos que elas internalizavam para manter os Estados nacionais e o padrão de vida das camadas altas e médias de suas populações. Transformou em concorrentes comerciais muitos dos países de baixo desenvolvimento capitalista, ao estimular sua industrialização. E abriu as comportas para a ocorrência de crises financeiras e econômicas ainda mais profundas. Embora haja diferenças no grau em que essas contradições afetam cada um daqueles países capitalistas desenvolvidos, as tendências principais são as mesmas.A segunda vertente é aquela representada pela China e Vietnã, que combinam o modo de produção camponês e o modo de produção socialista com o modo de produção capitalista, num tipo de economia que eles próprios denominam de socialista de mercado. Esses países se aproveitaram dos excedentes de capitais dos países desenvolvidos e da decisão de relocalização de plantas industriais das corporações empresariais. Com um razoável conhecimento das lacunas de suas cadeias produtivas, e sem medo de enfrentar a concorrência e os problemas próprios do modo de produção capitalista, estabeleceram programas específicos e controlados para atrair investimentos diretos e plantas industriais, de modo a adensarem aquelas cadeias e introduzirem tecnologias avançadas em suas empresas estatais.Os resultados dessa vertente foram variados. Houve um crescente e rápido crescimento industrial e agrícola, acompanhado da transferência de grandes massas da população dos trabalhos agrícolas para trabalhos de construção e produção industriais, comerciais e de serviços.Ocorreu uma crescente geração de riqueza, que permitiu uma redistribuição constante da renda, embora com desigualdade. A participação da economia desses países no mercado mundial deu um salto. Em contrapartida, houve um intenso processo de degradação ambiental, que agora começa a ser revertido.Elevaram-se também as tensões econômicas e sociais relacionadas com a contradição entre o alto ritmo de crescimento e o ritmo mais lento da construção infraestrutural, da descoberta de novas fontes de matérias-primas e da elevação dos salários. Ocorreu, ainda, um descompasso entre a elevação do produto interno bruto e a elevação do produto nacional bruto.O grande esforço atual relaciona-se com a superação dos problemas pendentes no desenvolvimento econômico, social e ambiental. O ritmo de crescimento deve ser reduzido. A renda das camadas mais pobres está sendo elevada, de modo a tornar o mercado doméstico o principal foco da produção industrial. Os serviços públicos estão em processo de universalização para todo o país. A inovação científica e tecnológica está voltada para transformar a agricultura, limpar a matriz energética e elevar o produto nacional bruto.Não há indícios de que esses países pretendam eliminar, a curto prazo, a combinação entre os modos de produção socialista e capitalista. Também continua indefinido qual desses modos predominará quando o desenvolvimento das forças produtivas atingir seu auge, mesmo porque tal desenvolvimento ainda está longe desse teto. Por outro lado, em ambos os países aumenta o esforço para uma administração equilibrada da paulatina, mas crescente, luta entre os trabalhadores industriais e seus patrões capitalistas e estatais.A terceira vertente é aquela representada por Brasil, Rússia, África do Sul, Coreia do Sul, Indonésia e diversos outros países da América Latina, África, Ásia e Europa. Neles predomina o modo de produção capitalista, mas suas forças produtivas ainda não alcançaram, em geral, o estágio dos países capitalistas avançados. Eles já concorrem, em certa medida, com produtos de consumo avançados. Porém, nem sempre fabricam equipamentos produtores daqueles bens de consumo. E quase nunca fabricam as máquinas capazes de produzir aqueles equipamentos. Vivem, assim, numa grande dependência tecnológica dos países desenvolvidos, o que incide fortemente em sua competitividade no mercado internacional.Em vários desses países, a aplicação de políticas neoliberais causou a privatização de parte considerável das empresas estatais, a oligopolização de ramos industriais inteiros, o desmonte de parcela importante dos parques industriais e o sucateamento da infraestrutura logística. Tudo isso reduziu a capacidade de intervenção do Estado no processo de desenvolvimento e a capacidade de alavancagem industrial do país.Além disso, resquícios das políticas neoliberais têm levado os setores burgueses a só investirem em projetos industriais se tiverem garantias e financiamentos governamentais. E muitos governos vacilam ou têm dificuldade em adotar programas efetivos de industrialização, voltados tanto ao adensamento das cadeias produtivas quanto à reconstrução de instrumentos ativos que possibilitem ao Estado nacional induzir o desenvolvimento econômico e social.Em alguns desses países, como o Brasil, a adoção de políticas de crescimento econômico e de redistribuição mais eficaz da renda permitiu elevar as taxas de emprego e retirar do nível da miséria alguns milhões de seres humanos, elevando o poder de compra de parcelas consideráveis da população. Porém, um crescimento mais lento na produção e na oferta de alimentos e produtos industriais de consumo introduziu uma tensão nos preços e nas tendências inflacionárias, trazendo à tona as lacunas existentes no processo de desenvolvimento.A novidade dessa vertente de desenvolvimento é a presença de governos de esquerda e socialistas em alguns desses países. Na prática, esses governos foram colocados na incômoda situação de ter que estimular o desenvolvimento capitalista para fazer frente às demandas geradas pelas políticas sociais de redistribuição da renda, geração de empregos e melhoria das condições de vida. Alguns acham que isto é uma verdadeira traição ao socialismo. Outros, que isto é uma situação concreta que deve ser enfrentada como tal.* Wladimir Pomar é escritor e analista político.** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.

juros Brasil

O Brasil e o cavalo selado

A enxurrada diária de dólares que ingressa no país, destinada quase toda ela a operações especulativas, é estimulada pela nossa política de juros altos que vem dos tempos cada vez mais longínquos da inflação alta, quando o Estado, para financiar seus gastos, era obrigado a se submeter aos ditames do capital financeiro. Ora, há cerca de duas décadas que a inflação está sob controle e o governo ainda hesita em completar a desindexação da economia, providência indispensável para que os juros caiam para patamar civilizado. Enquanto houver diferença significativa entre a taxa de juros internos e a de juros externos, o capital especulativo correrá para cá, a não ser que o governo estabeleça controles sobre o fluxo de capitais, como recomendado hoje até por economistas do Banco Mundial.Mais ainda, da associação de juros altos e depreciação da moeda norte-americana decorrem algumas consequências graves, a começar pela invasão de importados, principalmente de manufaturados, e principalmente chineses. Isso, que pode ser chamado de crise cambial, está se refletindo na produção industrial, atacada no mercado interno via concorrência dos importados e contundência dos juros altos, e prejudicada no acesso ao mercado externo, via desvalorização do dólar.Estados Unidos, Europa e China, isto é, todas as grandes economias, desvalorizam artificialmente suas moedas para assim poderem exportar mais, e para exportar mais reduzem a capacidade de produção dos demais países numa concorrência desleal e predatória que compreende barreiras alfandegárias claras ou mascaradas e subsídios. Essa política vem de décadas, há duas pelo menos, e portanto antecede à crise financeira global (a história é velha: livre cambismo como receita para as colônias, protecionismo como prática da metrópole), a qual, agora, é apenas pretexto para seu aprofundamento. Diante dessa política, a OMC (Organização Mundial do Comércio) nada faz, porque seu conceito de livre comércio é seletivo. Depende dos interesses das grandes potências. Os emergentes e os mais pobres, de sua parte, ainda não encontraram alternativas de defesa, nem lançam mão, de forma concertada, de medidas clássicas, paliativas ou não, como a regulação dos fluxos de capitais, como o estabelecimento de cotas de importação, a taxação das importações e a desoneração das exportações (acompanhada de financiamento) ou mesmo o controle cambial, ou ainda uma política de Estado que leve o sistema financeiro privado a investir na atividade produtiva. Limitados, como é sabido, por contradições, os Brics se vêem, até o momento, impossibilitados de agir como um coletivo.Nosso real sobrevalorizado é consequência da desvalorização artificial do dólar, do euro e do yuan. É verdade. Mas essa não é a única explicação para a crise da indústria nacional, que não se encerra, tampouco, na alegada baixa produtividade nacional. É evidente que não se pode pôr de lado os efeitos dos já mencionados juros ainda estratosféricos, nem muito menos o peso da carga tributária, nem o alto custo da burocracia, nem as deficiências de infraestrutura e logística em geral (com destaque para os sistemas viário e portuário), nem muito menos o custo do capital para quem não tem acesso ao sistema BNDES, nem o custo da energia (cujos preços subiram na última semana para R$ 188 por megawatt-hora, o mais alto valor em 17 meses), nem a dependência de insumos e tecnologia, importados.Tudo isso precisa ser levado em conta, mas há mais o que considerar, como os custos do financiamento da dívida pública, que em 2010, com juros e amortizações (incluindo refinanciamento), consumiu a bagatela de R$ 635 bilhões, nada menos que 45% dos recursos da União! Recursos os quais poderiam, em parte, ser mobilizados para o ataque às nossas notórias deficiências nas áreas de serviços e infraestrutura. Muitos dos problemas nomeados no parágrafo anterior poderiam ser enfrentados.Sem descartar todas essas questões objetivas, é preciso pôr na mesa o que nos parece ser o núcleo de todos os problemas: a inexistência de uma política industrial que associe o papel indutor do Estado (com destaque para suas responsabilidades estratégicas) a um mínimo de protagonismo do empresariado nacional, pouco afeito ao pioneirismo e amante do rentismo.O Brasil precisa livrar-se do modelo de industrialização (tardia) dependente implantado nos anos 50 do século passado, dependente do mercado fechado à concorrência, dependente de tecnologia (importando tecnologia vencida), dependente de capital estrangeiro, caro, e hoje dependente de exportações, para voltar-se para o mercado interno (que os governos de Lula-Dilma têm expandido e vão continuar expandindo), contribuindo efetivamente para o desenvolvimento (sustentável) do país e melhoria de qualidade de vida de nosso povo, gerando empregos e redistribuindo renda. Repitamos à exaustão: as potências se medem pelo tamanho de seus mercados internos e sua soberania está na ordem direta de sua capacidade de atender autonomamente às suas necessidades, capacidade medida pelo seu índice de desenvolvimento científico e tecnológico.Jamais seremos o país com o qual sonham as atuais gerações enquanto dependermos da exportação de grãos, ou, amanhã, de petróleo bruto.O papel do Estado será crucial, principalmente considerando as características de nosso empresariado, não raro infenso à inovação e resistente a investir em pesquisa tecnológica (pois prefere a dependência sem risco do pagamento de royalties). Para o que quer que seja, para qualquer melhoria, seja econômica, seja social, precisamos, coletivamente, sociedade, Estado, empresariado, enfrentar nosso verdadeiro calcanhar de Aquiles: um modelo de educação mais que deficiente e uma universidade, privada, descomprometida com a formação de profissionais qualificados.Do ponto de vista ideológico, despertando as entidades de classe de sua letargia, presas às miudezas do dia a dia, e no silêncio da universidade, ao governo cumpre abrir e estimular e sustentar (sem medo das viúvas do neoliberalismo) uma discussão nacional sobre nosso projeto desenvolvimentista (que país queremos?) e, do ponto de vista da política industrial, optar por aquelas linhas de maior emprego de tecnologia avançada, garantidoras de nosso futuro, como a nanotecnologia, a biotecnologia e a fusão nuclear, a fonte energética do futuro próximo, necessária, limpa e barata. O país que fez a Embrapa, que construiu o BNDES e o CNPq, pode e deve comandar esse processo. Mas é operação para já.Não queremos, é certo, ser o "país do futuro", louvaminha que virou maldição. Mas seria igualmente trágico, agora que começamos a tomar gosto pelo jogo do crescimento, nos tornarmos “aquele que poderia ter sido e não foi”, como nos lembrava o sempre saudoso Darcy Ribeiro. Por isso, cumpre agir. Dizem os chineses, sempre eles, que na vida há três coisas sem volta: a flecha atirada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.* Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Roberto Amaral, da Carta Capital
Trabalhadores-indústria Artigo

O grito da indústria

Que eu me lembre, é a primeira vez: sindicatos e centrais sindicais mobilizam trabalhadores e vão às ruas empunhando a bandeira desfraldada por uma importante entidade patronal, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq). E se unem em um protesto contra os altos juros, a excessiva carga tributária, o câmbio supervalorizado e em defesa dos empregos ameaçados pela invasão das importações (especialmente chinesas) que competem deslealmente com a produção de nossa indústria de transformação.“Ocuparam” ruas centrais de Porto Alegre em 26 de março, uma segunda-feira que ficará na história como o primeiro ato de um movimento apropriadamente chamado de “Grito de Alerta”. Outras manifestações foram agendadas para abril em Curitiba, São Paulo, Manaus e, em 10 de maio, em Brasília.Ajudou a mobilizar empresários e trabalhadores para a divulgação de um recente estudo da Abimaq, alertando para os problemas criados com as importações facilitadas pela supervalorização da taxa de câmbio, deixando a indústria nacional em desvantagem para competir em nosso próprio mercado interno. Sem contar as enormes dificuldades para enfrentar a concorrência nos mercados mundiais dos países que estão com suas moedas cada vez mais desvalorizadas.Se pudéssemos imaginar uma OMC menos complacente com o comportamento errático de parceiros poderosos, as mesmas condições deveriam valer para todos os participantes do comércio internacional. Não é assim, quando alguns parceiros fazem manobras implícitas (como é o caso dos Estados Unidos e da Eurolândia neste momento) ou explícitas (como é o caso da China, há pelo menos duas décadas) para “desvalorizar suas moedas e expandir suas exportações à custa da redução da produção nacional dos outros”.Normalmente, um país em desenvolvimento assiste a uma “valorização” da taxa de câmbio. Isto explica por que a taxa de câmbio é sujeita à vigilância das autoridades nacionais, atentas aos efeitos que podem ser devastadores quando ela é produto de um evento (por exemplo, um aumento importante das relações de troca), que pode durar alguns anos e produzir cicatrizes definitivas na estrutura produtiva do país. É claro que o problema brasileiro não é apenas de câmbio valorizado, mas também não é apenas de “produtividade”, como querem fazer crer alguns sacerdotes da religião do mercado.Entre 2008 e 2011, o saldo da balança comercial da indústria de transformação passou de uma posição de equilíbrio para um déficit de US$ 43 bilhões. O que mudou na “produtividade” do setor, a não ser a “supervalorização cambial” e a ação dos países predadores com suas moedas desvalorizadas (especialmente a China), que se defenderam da crise invadindo os mercados dos países incautos? Com o yuan administrativamente “desvalorizado” em ao menos 30% (além dos subsídios de toda natureza), pode-se falar, sem corar, em “competição” ou diferença de “produtividade”?Há evidências empíricas de que a produtividade por homem/hora no chão de fábrica no Brasil e na China é praticamente igual. A diferença está fora do portão da fábrica! O trabalho que a Abimaq divulgou é preocupante. Seus números estão cuidadosamente registrados. Entre 2004 e 2009, os preços de máquinas e equipamentos (IPA) cresceram 21,1% e o faturamento líquido do setor, 32,8%. Isto sugere um crescimento físico do setor da ordem de 1,9% ao ano, enquanto o PIB subiu a 3,6% ao ano. Os preços dos insumos elevaram-se à taxa de 6,3% ao ano, os salários à taxa de 9% e os encargos e benefícios, 10%. No caso dos insumos, em 2011, por exemplo, a tonelada de aço no Brasil custava 30% acima do preço internacional e o gás natural, por milhão de BTU, seis vezes mais do que nos Estados Unidos.Os efeitos acumulados do rápido crescimento dos preços dos insumos básicos internos, da proteção da tarifa efetiva de insumos importados e a “supervalorização” da taxa de câmbio entregaram o mercado interno à produção estrangeira, dando-lhe condições para ocupar sua capacidade ociosa e aproveitar os ganhos de escala. Não foi sem razão, portanto, que o crescimento de 0,1% do nosso setor manufatureiro nos roubou quase 1% do crescimento do PIB.É hora de cuidar do câmbio e de proporcionar condições isonômicas para nossos produtores. Este é o sentido do Grito de Alerta de trabalhadores e empresários que preferem não esperar nascer o dia em que terão de repetir o Grito de Agonia dos desempregados do mundo desenvolvido.* Delfim Netto é economista, formado pela Universidade de São Paulo, professor de Economia, e foi ministro de Estado e deputado federal.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Delfim Netto*
Ilustração: Daniel Kondo Artigo

As fontes morais da austeridade

[caption id="attachment_48463" align="alignleft" width="221" caption="Ilustração: Daniel Kondo"][/caption]A União Europeia aprovou novo acordo para ajuda financeira à Grécia, com a condição de que ela aceite uma “supervisão reforçada” da sua gestão orçamentária. O plano agrava ainda mais a situação de um país que já sangra. A obstinação em preconizar o rigor se explicaria por convicções morais mais poderosas que a razão?"Rigor”, “austeridade”, “esforços”, “sacrifícios”, “disciplina”, “medidas dolorosas”... De tanto assediar nossos ouvidos com suas fortes conotações moralizadoras, o vocabulário da crise acaba por intrigar. Em janeiro, na véspera do Fórum Econômico de Davos, seu presidente, Klaus Schwab, falou, sem rodeios, de “pecado”. “Nós estamos pagando pelos pecados dessas dez últimas décadas”, diagnosticou, antes de se perguntar “se os países que pecaram, especialmente os do Sul, têm a vontade política de empreender as reformas necessárias”.(1) No Le Point, num texto de Franz-Olivier Giesbert, o veredito contra nossos bacanais desenfreados é mais amplo: o editorialista deplora “trinta anos de disparates, loucuras e imprevidência, quando vivemos acima de nossos meios”.(2)Líderes e comentaristas repetem sem cessar o mesmo relato puramente fantástico: ao se mostrarem preguiçosos, descuidados e perdulários, os povos da Europa teriam atraído para eles, como uma punição justa, a praga bíblica da crise. Agora, têm de passar por uma expiação. Precisamos “apertar os cintos”, restaurar a honra das boas e velhas virtudes de poupança e frugalidade. O Le Monde (17/1/2012) cita o exemplo da Dinamarca, um país modelo onde um “remédio amargo” permitiu voltar às boas graças das agências de rating. E, em seu discurso de posse em dezembro de 2011, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, arengava seus compatriotas: “Nós estamos diante de uma tarefa ingrata, como a daqueles pais que têm de se virar para alimentar quatro pessoas com o dinheiro para duas”.Muitos observadores apontam para a fraude desse raciocínio que pretende calcar o comportamento de um Estado no de um lar. Ele escamoteia a questão da responsabilidade pela crise com o fardo insuportável que a austeridade impõe às pessoas, cujo único defeito foi terem desejado tratar da própria saúde ou pagar professores para seus filhos. Para uma pessoa, o rigor no orçamento pode ser uma fonte de orgulho e satisfação; para um Estado, isso significa a ruína de milhões de cidadãos, quando não descamba, como é o caso da Grécia, num “sociocídio” puro e simples. Na Dinamarca, o Le Monde especificou, o “remédio amargo” foi traduzido numa explosão do desemprego e numa redução drástica nos programas sociais: “70 mil famílias perderam suas casas”. Assim, esse falso bom senso não apenas apaga magicamente as desigualdades sociais e oculta os estragos da austeridade, como defende, diante da crise, uma política econômica que só faz piorá-la, impedindo qualquer recuperação pelo consumo. “Poupar e investir são virtudes para as famílias; é difícil para as pessoas imaginar que na escala das nações um excesso de frugalidade pode causar problemas”, observa o editorialista Peter Coy da Business Week (26/12/2011).Irracionais, a bem dizer delirantes, os chamados à contrição não mantêm nenhuma relação com o menor elemento da realidade. Como explicar então que eles continuem a ressoar de um extremo a outro do espaço europeu? Porque eles servem aos interesses dominantes. De fato, eles oferecem a oportunidade de finalizar, sob o pretexto da dívida, a destruição das conquistas sociais do pós-guerra, levada a cabo há trinta anos. Antes disso, eles já tinham permitido, na França de Vichy, que enterrassem a memória funesta da Frente Popular. O “processo de Riom”, realizado em 1942 na pequena cidade de Puy-de-Dôme, visava demonstrar que os líderes “revolucionários”, como Léon Blum e Edouard Daladier, eram responsáveis pela derrota de junho de 1940 contra o Exército alemão. A mudança para as 40 horas nas fábricas de armamentos, e não as decisões do Estado-maior, teria sido fatal para as tropas francesas... Em vista da “recuperação nacional”, o marechal Philippe Pétain pretendia substituir o “espírito de diversão” pelo “espírito de sacrifício”. Na abertura do processo, o diário Le Matindesignava Blum como “o homem que inoculou o vírus da preguiça no sangue de um povo”.(3) Os franceses, setenta anos antes dos gregos.E o mesmo se passa com os portugueses, que seu primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, admoesta com estas palavras: “Vocês com certeza se lembram daquele episódio grotesco, quando a Troika (europeia) trabalhava em Lisboa para elaborar um programa de assistência em Portugal (em 2011) e tudo estava fechado no país, porque todo mundo estava aproveitando uma emenda de feriado. A Troika, que emprestava dinheiro para Portugal, estava trabalhando; e o país curtia a folga”.(4)Um modo de pensar onipresenteMas o convite para o trabalho, a mortificação e a abnegação não passaria de um artifício para fazer o maior número possível de pessoas aceitar a espoliação? Suas ênfases sinceras, apaixonadas, levam a pensar que ela não deve tudo ao cinismo, e que está enraizada num fundo cultural sólido. “Esse humor ‘sacrificial’, da ordem do éthos tanto quanto o raciocínio, suscita por parte de muitos comentaristas uma espécie de alegria mórbida, como se o sofrimento popular tivesse também uma dimensão ‘purificadora’”, constata o sociólogo Frédéric Lebaron a propósito da situação atual.(5) Pétain, igualmente, queria lembrar aos franceses que “desde Adão, a punição é um apelo à reabilitação, uma promessa de regeneração”.(6) Mais próximo de nós, Rajoy profetiza: “O esforço não será inútil. As nuvens escuras desaparecerão, vamos erguer a cabeça e chegará o dia em que falaremos bem da Espanha; o dia em que vamos olhar para trás e não nos lembraremos mais dos sacrifícios”.A reivindicação, por parte do povo, de condições dignas de vida só faz alarmar aqueles cujos interesses são por ela contrariados: ela lhes inspira uma espécie de terror supersticioso, como se representasse uma transgressão impensável. Quando da derrota de 1940, relatou o historiador e membro da Resistência Marc Bloch, os líderes militares, oriundos da alta sociedade, haviam “aceitado o desastre, porque eles encontravam nela atrozes consolações: ficar de joelhos diante do castigo que o destino havia enviado a uma nação culpada”.(7)Contudo, aqueles que, por sua posição na sociedade, não têm nenhum interesse objetivo em subscrever essa leitura dos acontecimentos são, no entanto, em bom número, receptivos a ela. Em vista dos danos infligidos à coletividade, os movimentos de “indignados” aparecem até como uma resposta bem tímida, dando a entender que a retórica da expiação necessária encontra, apesar de tudo, um terreno fértil. Em maio de 2011, um funcionário grego que já tinha visto seu salário passar de 1.200 euros para 1.050 euros, para um horário de trabalho que subira de 37,5 horas por semana para 40 horas, assegurava, por exemplo, estar “pronto para esforços adicionais”.(8)Que um substrato cultural, até mesmo religioso, determine as atitudes dos protagonistas da crise do euro é algo que alguns não deixaram de apontar. “Especialistas e políticos negligenciam um fator: Deus. Enfim, a religião e, mais especificamente, o protestantismo luterano. Filha de pastor, (a chanceler alemã) Angela Merkel tem a noção do pecado, como muitos de seus compatriotas. Existe uma maneira alemã de falar do euro que tem bem o cheiro da influência do Templo. E que obviamente não deixa de ter consequências nas soluções propostas para socorrer a união monetária europeia”, escreve Alain Frachon no Le Monde (23/12/2011).No entanto, pode-se duvidar que a influência do protestantismo se limite à área geográfica onde ele tomou impulso no Século 16. O sociólogo alemão Max Weber mostrou em um ensaio famoso, em 1905, como a ética protestante contribuiu para impulsionar o capitalismo, moldando um “espírito” que lhe era favorável.(9) A partir daí, e até hoje, esse espírito tem perdurado e prosperado de maneira autônoma, além de qualquer referência religiosa. Ele acabou por se tornar tão onipresente e invisível quanto o ar que respiramos. A historiadora Janine Garrison cita o exemplo de Jean-Paul Sartre, que fazia ironia com a fé protestante de seu avô materno, sendo ele mesmo “muito mais próximo dele, de seu puritanismo, de seu gosto pelo conhecimento, do que gostaria de admitir. Não é o mesmo Sartre que proclama em alto e bom som que um intelectual que não trabalha pelo menos seis horas por dia não pode reivindicar esse título prestigioso?”.(10)A tese de Weber é de fato que o protestantismo “fez a ascese sair dos conventos”, onde o catolicismo a havia confinado. A doutrina calvinista da predestinação, segundo a qual todo ser humano é eleito ou condenado por Deus por toda a eternidade, sem que nenhum dos seus atos seja suscetível de mudar o que quer que seja, poderia ter levado a uma forma de fatalismo. Ela produziu um efeito inverso: submetendo a totalidade de sua vida a uma disciplina rígida, os fiéis investiram toda sua energia no trabalho, buscando no sucesso econômico um sinal de sua salvação. A fortuna deixou então de ser condenável – muito pelo contrário. Só o fato de desfrutar dela era errado. Weber cita o caso de um rico fabricante cujo médico o havia aconselhado a comer todos os dias, para sua saúde, algumas ostras, mas não conseguia se permitir uma tal suntuosidade, não por avareza, mas por escrúpulo moral.“A ideia do dever profissional”, escreve o sociólogo, “passeia por nossa vida como um fantasma das crenças religiosas de outrora”. Porque a mão de obra teve também ela de aprender a “realizar o trabalho como se fosse um fim absoluto em si mesmo – uma ‘vocação’”. Essa mentalidade, hoje dominante, só se impôs ao preço de um “combate pesado contra um mundo de potências hostis”, especialmente com a ajuda de uma política de baixos salários: João Calvino acreditava que a massa dos trabalhadores e dos artesãos “devia ser mantida em situação de pobreza para permanecer obediente a Deus. O protestantismo escavou entre eleitos e amaldiçoados “um fosso a priori mais intransponível e mais preocupante do que aquele que separava do mundo o monge da Idade Média – um fosso que imprimiu uma marca profunda a todos os sentimentos sociais”. O puritanismo inglês também inventou “uma legislação sobre a pobreza cuja dureza contrastava fortemente com as disposições anteriores”.Fosse o homem rico ou pobre, a partir de então relaxar, curtir a vida, “perder tempo”, eram coisas que não poderia fazer sem peso na consciência. Temos uma ideia do que o mundo atual deve a essa visão quando lemos que o pastor luterano Philipp Jacob Spener, fundador do pietismo, denunciou como moralmente condenável “a tentação de se aposentar prematuramente”.Em suma, como notara desde o Século 16 o humanista alemão Sebastian Franck – citado por Weber –, a Reforma “impôs a todo homem que ele fosse um monge ao longo de sua vida”. A influência do cristianismo e sua desqualificação da existência terrena viram-se fortemente ampliadas. Pode-se presumir que esse patrimônio espiritual e cultural inibe as respostas possíveis aos ataques desferidos contra as sociedades. Após a secularização dos Estados, que dizer sobre a secularização das mentes?Notas(1) Entrevista a L’Hebdo, Lausanne, 18 jan. 2012.(2) Le Point, 23 nov. 2011. Cf. Mathias Reymond, “Les éditocrates sonnent le clairon de la rigueur” [Os editocratas soam a corneta do rigor], Acrimed.org, 12 dez. 2011.(3) Citado por Frédéric Pottecher, Le Procès de la défaite. Riom, février-avril 1942 [O processo da derrota. Riom, fevereiro-abril 1942], Fayard, Paris, 1989.(4) Expresso.pt, Lisboa, 6 fev. 2012.(5) Frédéric Lebaron, “Un parfum d’années 30...” [Um perfume de anos 30...], Savoir/Agir, n.18, dez. 2011.(6) Citado por Gérard Miller, Les Pousse-au-jouir du maréchal Pétain [O atirar-para-desfrutar do marechal Pétain], Seuil, col. “Points Essais”, Paris, 2004 (1.a ed.: 1975).(7) Marc Bloch, L’Etrange défaite [A estranha derrota], Gallimard, col. “Folio Histoire”, 1990.(8) “Comment les Grecs se sont mis au régime sec” [Como os gregos foram colocados no vagão], La Croix, Paris, 8 maio 2011.(9) Max Weber, L’Ethique protestante et l’esprit du capitalisme [A ética protestante e o espírito do capitalismo],col. “Champs classiques”, Paris, 2000 (1.a ed.: 1905). Mesma referência para as citações seguintes desse autor.(10) Janine Garrisson, L’Homme protestant [O homem protestante], Complexe, Bruxelas, 2000.* Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique Brasil.


por Mona Chollet, do Le Monde Diplomatique Brasil
Acionistas buscam meios de limitar poderes dos chefes corporativos. Foto: Felipe Varne Corrupção

Na mira dos acionistas

[caption id="attachment_48460" align="alignleft" width="270" caption="Acionistas buscam meios de limitar poderes dos chefes corporativos. Foto: Felipe Varne"][/caption]Concentração de poder e altos salários dos executivos chefes de empresas podem estar com os dias contados.Vinte anos atrás, Bob Monks publicou um anúncio no Wall Street Journal declarando que os membros do conselho da Sears, para o qual ele esperava (em vão) ser eleito, eram “ativos sem desempenho”. Hoje em dia, os acionistas ativistas apenas criam um website. No dia 2 de abril, Dan Loeb, um chefe de fundos de hedge, lançou o valueyahoo.com, repleto de propostas para a ressurreição das empresas de internet que passam por dificuldades. Loeb está tentando ser eleito para o conselho do Yahoo! contra a vontade dos seus gestores – uma luta que poderia ser o destaque da temporada anual de assembleias gerais que está a caminho. Ele pode ganhar o voto dos acionistas, se o Yahoo! não chegar a um acordo com ele antes.Vários fundos de hedge estão incitando acionistas a abandonar os conselhos. A Starboard Value nomeou cinco candidatos ao conselho da AOL, outra empresa de internet que passa por maus bocados. No dia 2 de abril, a Pershing Square adicionou um sétimo candidato à chapa alternativa para o conselho da Canadian Pacific Railway. O ativismo dos acionistas está “voltando ao normal após a crise financeira de 2008″, diz Peter Harkins da DF King, uma empresa que informa os participantes em disputas por procurações.Não são só os fundos de hedge que estão dando demonstrações de força. Os fundos de pensão também estão fazendo isso. Em 27 de março foi relatado que a Goldman Sachs tinha feito as pazes com o fundo de pensões da Federação Norte-Americana de Empregados Estaduais, Regionais e Municipais (AFSCME, na sigla em inglês), que propôs uma resolução para dividir as funções de executivo chefe e presidente, ambos atualmente nas mãos de Lloyd Blankfein. O banco convenceu a AFSCME a retirar sua proposta, concordando em designar um “conselheiro principal” para manter Blankfein sob controle. O sindicato apresentou propostas semelhantes em várias empresas, incluindo o JPMorgan Chase, cujo chefe é descrito pelo presidente da AFSCME como “o homem mais perigoso dos Estados Unidos”. Rupert Murdoch, o presidente e executivo chefe em apuros da News Corporation, vai enfrentar uma moção pedindo que ele entregue sua presidência a alguém independente.Salários exageradosDuas outras questões são esperadas para atrair a atenção dos acionistas neste ano. Uma delas são os salários dos chefes. “Os investidores vão mostrar uma dispoisção maior para reduzi-los, tendo cometido um grande engano no ano passado”, prevê Anne Simpson, que supervisiona as atividades de governança corporativa da CalPERS, um fundo de pensão gigante para funcionários públicos da Califórnia. Muitos conselhos lutaram para conquistar o apoio de 70% para pacotes de remuneração do ano passado, na primeira vez em que esses votos foram necessários. Este ano, vários podem perder o voto (que não é obrigatório) a menos que eles liguem o pagamento ao desempenho de maneira mais explícita, avalia Paul Hodgson da GMI Ratings, uma empresa que mede a governança corporativa.Talvez as resoluções mais polêmicas serão aquelas que exijam que as empresas sejam mais transparentes sobre seus gastos políticos, e exijam que os conselhos garantam que esse dinheiro seja usado no interesse dos acionistas, e não dos administradores. Este esforço está sendo ferozmente resistido. A Câmara de Comércio dos Estados Unidos argumenta que essas resoluções, que em sua maioria vêm de acionistas que também são membros de sindicatos ou ativistas sociais, não estão nos melhores interesses das empresas envolvidas. Jim Copland, do Manhattan Institute, uma usina de ideias, diz que “algumas dessas propostas podem servir principalmente para relaxar amplamente o discurso político corporativo, inclusive em questões em que os mais diversos acionistas podem preferir que as opiniões da corporação sejam ouvidas”.Bem, talvez. Mas, assim como em outras questões sobre as assembleias neste ano, a decisão caberá aos acionistas.* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Redação do The Economist
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Dilma, a utopia e um panda de pancake

Até o mais tonto dos passarinhos da Esplanada dos Ministérios sabe que criticar, ainda que de forma construtiva, os grandes projetos de usinas hidrelétricas na Amazônia é certeza de levar, no mínimo, uma bronca cabeluda de Dilma Rousseff. Então, imagino como ela deve ter ficado feliz com poréns levantados por representantes da sociedade civil em reunião do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas nessa quarta (4).Como resposta, ela afirmou que o país tem a missão de propor novos modelos de crescimento que não pareçam “etéreos ou fantasiosos”. E que não há espaço na Rio+20 (a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável) para fantasia. "Não estou falando da utopia, essa pode ter, estou falando da fantasia”, afirmou.Utopia é para ser perseguida, não necessariamente alcançada. Funciona como um norte de bússola.Nesse sentido, a utopia pareceria mesmo fantasia para quem considera como o norte de seu governo a manutenção de modelos de desenvolvimento tradicionais, que podem até melhorar a qualidade de vida de parte da população, mas às custas da dignidade da outra parte.(Como já disse aqui, não adianta se dizer contra os verde-oliva e seguir a cartilha deles.)Quem vê uma alternativa complexa como uma impossibilidade política ou econômica dificilmente conseguirá propor novos modelos de desenvolvimento que, por exemplo, tentem aliar crescimento ao respeito aos direitos humanos de populações e trabalhadores diretamente afetados por grandes obras. Digo “tentem” porque sabemos que a menos que ocorra uma mudança profunda em nosso modo de produção, o rosário de desgraças continuará acontecendo pela sua própria natureza. Parafraseando o assessor de Bill Clinton, “é o capitalismo, estúpido!”Enfim, não conseguir mirar um norte diferente é não conseguir ver alternativas de caminho como reais. É se contentar, pelo contrário, com maquiagens do modelo atual como mudanças profundas e acreditar nelas. É ver um panda coberto de pancake e chamá-lo de meu querido urso polar.Aí, sim, me pergunto: quem está fantasiando?…Por isso, soa profética outra coisa que ela disse na reunião: “Tenho de explicar para as pessoas como é que elas vão comer, ter acesso A agua e energia. Não faço proposta olhando só para o próprio umbigo. Vamos ter de ser capazes de fazer a junção do social, econômico e o ambiental, incluir, proteger e conservar”.Certamente, ela vai ter que explicar isso para muita gente mesmo. A começar: como é que os atingidos por essas grandes obras vão comer, ter acesso a água e energia? Vale lembrar que a Amazônia é grande exportadora de eletricidade e os novos projetos de engenharia existem para abastecer o país como um todo. Ou seja, o povo de lá fica com os problemas e nós com o ar-condicionado.Não sou idiota de achar que as soluções são fáceis e que iremos abandonar a matriz hidrelétrica tão cedo. Mas o governo não se esforça no sentido de calcular o custo/benefício de seus projetos, incluindo os impactos socioambientais, antes de tocá-los (ou até calcula, mas como sai vantajoso para alguém, manda ver). Ela prefere ser irônica com energia eólica e solar e nem citar a biomassa, a repotencialização das usinas, a melhoria no sistema de transmissão, a melhor integração entre diferentes matrizes, a busca por respeitar as populações locais envolvidas.Segue, dessa forma, a “utopia do possível”, impossibilidade técnica inaugurada por FHC e abraçada por Lula.O pior de tudo é que, no fundo, Dilma sabe de tudo isso. Ela só não quer tentar.* Publicado originalmente no site Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto
Oakland (EUA), outubro de 2011: manifestantes ocupam porto da cidade. Artigo

Harvey: “ultracapitalismo encontrou um adversário”

[caption id="attachment_48431" align="alignleft" width="300" caption="Oakland (Estados Unidos), outubro de 2011: manifestantes ocupam porto da cidade."][/caption]Em coletânea sobre movimentos de 2011, geógrafo e urbanista sustenta: “nas praças do mundo, nossos corpos mostraram que uma era está acabando”.O Partido de Wall Street controlou os Estados Unidos sem dificuldades por tempo demais. Controlou totalmente (em contraste com parcialmente) as políticas dos presidentes por pelo menos quatro décadas (para não dizer mais), independentemente de se algum presidente individual foi ou não seu agente por vontade própria. Corrompeu legalmente o Congresso por meio da dependência covarde de políticos dos dois partidos em relação ao poder do dinheiro e ao acesso à mídia comercial que controla. Graças a nomeações feitas e aprovadas pelos presidentes e Congresso, o Partido de Wall Street domina muito do aparato estatal e do Judiciário, em especial a Suprema Corte, cujas decisões estão crescentemente a favor dos interesses venais do dinheiro, em esferas tão diversas quanto eleitoral, trabalhista, ambiental e comercial.O Partido de Wall Street tem um princípio universal de dominação: não pode haver qualquer adversário sério ao poder absoluto do dinheiro de dominar absolutamente. E este poder é para ser exercido com um único objetivo. Os detentores do poder do dinheiro não devem apenas ter o privilégio de acumular riqueza sem fim a seu gosto, mas também de herdar o planeta, tomando direta ou indiretamente o domínio da Terra, todos os seus recursos e as potencialidades produtivas que nela residem. O resto da humanidade se torna, nessa visão, supérfluo.Esses princípios e práticas não surgem da ganância individual, falta de horizonte ou abusos (por mais que todos esses ocorram aos montes). Esses princípios se formaram no corpo político de nosso mundo por meio da vontade coletiva de uma classe capitalista instigada pelas leis coercivas da competição. Se meu grupo de pressão gasta menos do que o seu, então receberei menos favores. Se esse departamento gasta para atender às necessidades das pessoas, então se torna menos competitivo.Muitas pessoas decentes estão presas a um sistema que está completamente podre. Se querem ter um salário razoável, não têm outra opção além de se render à tentação do diabo: só estão “seguindo ordens”, como Eichmann disse, “fazendo o que o sistema pede”, como se diz hoje em dia, aceitando os princípios e práticas bárbaras e imorais do Partido de Wall Street. As leis coercivas da competição nos forçam todos, em diferentes níveis, a obedecer as regras desse sistema cruel e insensível. O problema é sistêmico, não individual.Os ideais de liberdade e autonomia do partido, a serem garantidos pelos direitos à propriedade privada, livre mercado e livre comércio, se traduzem na realidade pelo direito de explorar o trabalho alheio, de despossuir as pessoas de seus bens a seu bel prazer e na liberdade de saquear o meio ambiente para seus benefícios individuais ou de classe.No controle do aparato estatal, o Partido de Wall Street geralmente privatiza todos os ramos de atividade interessantes, abaixo do valor de mercado, para abrir novas frentes para a acumulação do capital. Arranja esquemas de subcontratação (do qual o complexo militar industrial é um exemplo claro) e de tributação (subsídios ao agronegócio e baixos impostos sobre os ganhos do capital) que lhe permitem limpar livremente os cofres públicos. Estimula deliberadamente sistemas regulatórios complicados e níveis surpreendentes de incompetência administrativa no resto do aparato estatal (vide a Agência de Proteção Ambiental sob Reagan e a Agência Federal de Gestão de Emergências sob Bush), de modo a convencer um público inerentemente cético de que o Estado não consegue ter um papel construtivo ou de apoio para melhorar a vida ou as perspectivas futuras das pessoas. Por fim, usa o monopólio da violência, que todo Estado soberano reivindica, para excluir o público do espaço público e para pôr pressão, vigiar e, se necessário, criminalizar e prender quem não aceitar de modo amplo suas ordens. É exímio nas práticas de tolerância repressiva, que perpetuam a ilusão de liberdade de expressão enquanto essa expressão não expuser claramente a natureza verdadeira de seu projeto e o aparato repressivo sobre o qual repousa.O Partido de Wall Street articula incessantemente a guerra de classes: “Claro que há uma guerra de classes”, disse Warren Buffett, “e é minha classe, os ricos, que a está fazendo e vencendo”. Em grande parte, essa guerra é articulada em segredo, atrás de uma série de máscaras e ilusões pelas quais os planos e objetivos do Partido de Wall Street se escondem.O Partido de Wall Street sabe muito bem que quando perguntas políticas e econômicas se transformam em questões culturais, não há como respondê-las. Geralmente aciona uma enorme variedade de opiniões de especialistas cativos, na sua maior parte empregados em institutos de pesquisa e universidades que financia e espalhados na mídia que controla, para criar controvérsias sobre assuntos que de fato não importam e sugerir soluções a perguntas que de fato não existem. Num instante, só fala da austeridade necessária a todas as outras pessoas para tratar do déficit e, num outro, propõe a redução de sua própria tributação sem se importar sobre o impacto no déficit. A única coisa que nunca pode ser debatida ou discutida é a verdadeira natureza da guerra de classes que tem mantido de modo incessante e tão cruel. Descrever algo como “guerra de classes” é, no clima político atual e no julgamento dos especialistas, colocar-se fora do espectro de considerações sérias, sendo chamado de imbecil, senão de sedicioso.Mas agora pela primeira vez há um movimento explícito que enfrenta o Partido de Wall Street e seu mais puro poder do dinheiro. Wall Street está sendo ocupada – ô, horror dos horrores – por outros! Espalhando-se de cidade em cidade, as táticas do Ocupe Wall Street são tomar um espaço público central, um parque ou uma praça, próximo a onde muitos dos bastiões do poder estão localizados, e fazer com que corpos humanos convertam esse lugar de espaço público em uma comunidade de iguais, um lugar de discussão aberta e debate sobre o que esse poder está fazendo e as melhores formas de combater seu alcance. Essa tática, mais conspicuamente presente nas lutas nobres e atuais da Praça Tahrir, no Cairo, se alastrou por todo o mundo (Praça do Sol, em Madri, Praça Syntagma, em Atenas, agora as escadarias de Saint Paul, em Londres, além da própria Wall Street). Mostra como o poder coletivo de corpos no espaço público continua sendo o instrumento mais efetivo de oposição, quando o acesso a todos os outros meios está bloqueado. A Praça Tahrir mostrou ao mundo uma verdade óbvia: são os corpos nas ruas e praças, não o fluxo de sentimentos no Twitter ou Facebook, que realmente importam.O objetivo desse movimento nos Estados Unidos é simples. Diz: “Nós, as pessoas, estamos determinadas a retomar nosso país dos poderes do dinheiro, que atualmente o controlam. Nosso objetivo é mostrar que Warren Buffett está enganado. Sua classe, os ricos, não vai mais governar sem oposição e não vai mais herdar automaticamente a Terra. Sua classe, os ricos, não está destinada a sempre vencer”.Diz: “Somos os 99%”. Somos a maioria e essa maioria pode, deve e vai prevalecer. Na medida em que todos os outros canais de expressão estão fechados por causa do poder do dinheiro, não temos outra opção a não ser ocupar os parques, praças e ruas de nossas cidades até que nossas opiniões sejam ouvidas e nossas necessidades atendidas.Para ter êxito, o movimento precisa alcançar os 99%. Conseguirá e o está fazendo um passo por vez. Primeiro, há todas as pessoas jogadas na miséria pelo desemprego e aquelas que foram ou estão sendo despossuídas de suas casas e bens pela falange de Wall Street. Deve formar grandes coalizões entre estudantes, imigrantes, subempregados e todos os que estão ameaçados pelas políticas de austeridade, totalmente desnecessárias e draconianas, impostas sobre a nação e o mundo para atender ao Partido de Wall Street. Deve pôr o foco nos níveis estarrecedores de exploração nos locais de trabalho – dos empregados domésticos imigrantes que os ricos exploram tão cruelmente em suas casas aos funcionários de restaurantes que são escravizados por quase nada nas cozinhas dos estabelecimentos onde os ricos comem tão copiosamente. Deve unir os trabalhadores criativos e artistas cujos talentos são transformados tantas vezes em produtos comerciais pelo grande poder do dinheiro.O movimento deve especialmente atingir todos os alienados, os insatisfeitos e os descontentes, todos os que reconhecem e sentem nas entranhas que há algo de muito errado, que o sistema criado pelo Partido de Wall Street não só é bárbaro, antiético e moralmente errado, mas também está falido.Tudo isso tem de ser unido democraticamente em uma oposição coerente, que também tem de contemplar livremente com o que se parece com uma cidade alternativa, um sistema político alternativo e, por fim, uma forma alternativa de organizar a produção, distribuição e consumo para o benefício do povo. Se não o fizer, o futuro para os jovens – que se encaminha para uma crescente dívida privada e austeridade pública profunda, em benefício do 1% – não é um futuro.Em resposta ao movimento Ocupe Wall Street, o Estado, apoiado pelo poder da classe capitalista, tem um argumento surpreendente: ele, e só ele, tem o direito exclusivo de regular e organizar o espaço público. O público não tem o direito comum ao espaço público! Com que direito prefeitos, chefes de polícia, oficiais militares e autoridades do Estado dizem ao povo que têm o direito de determinar o que é público em “nosso” espaço público e quem pode ocupar esse espaço? Quando consideram de seu interesse expulsar-nos (o povo) de qualquer espaço que nós (o povo) decidamos ocupar coletiva e pacificamente, dizem que agem no interesse público (e se referem a leis para prová-lo). Mas nós somos o povo! Onde está “nosso interesse” nisso tudo? E, aliás, não é “nosso” dinheiro que os bancos e financistas usam tão descaradamente para acumular “seus” bônus?Diante do poder organizado do Partido de Wall Street de dividir e conquistar, o movimento que está emergindo também deve ter como um de seus princípios fundadores não se dividir, nem se desviar de seu curso até que o Partido de Wall Street caia na real – e perceba que o bem comum tem de prevalecer sobre os estreitos interesses do dinheiro – ou de joelhos. Os privilégios das corporações – ter todos os direitos dos indivíduos, sem as responsabilidades de verdadeiros cidadãos – têm de ser eliminados. Os bens públicos, como educação e saúde, têm de ser oferecidos publicamente e acessíveis a todos. Os poderes monopolistas na mídia têm de ser abalados. A compra de eleições tem de ser considerada inconstitucional. A privatização do conhecimento e cultura precisa ser proibida. A liberdade de explorar e despossuir outras pessoas deve ser controlada e, no fim, impedida.Os norte-americanos acreditam na igualdade. Pesquisas de opinião pública mostram que, para a população (independentemente da filiação partidária), os 20% poderiam ter 30% da riqueza total. O fato de os 20% mais ricos deterem 85% da riqueza é inaceitável. O fato de que a maior parte disso seja controlada pelos 1% mais ricos é totalmente inaceitável. O que o movimento Ocupe Wall Street propõe é que nos comprometamos a reverter esse nível de desigualdade, não só de riqueza ou salários, mas, ainda mais importante, o poder político que essa disparidade gera. O povo norte-americano tem orgulho, com razão, de sua democracia, mas ela está à mercê do poder de corromper do capital. Agora que é dominada por esse poder, o tempo de fazer outra Revolução Americana, como Jefferson sugeriu ser necessário há muito tempo, está se aproximando: e que seja baseada em justiça social, igualdade e cuidado e contato consciente na relação com a natureza.A luta que se criou – o Povo contra o Partido de Wall Street – é crucial para nosso futuro coletivo. A luta é global, assim como local, em sua natureza. Reúne estudantes confinados a uma luta de vida ou morte contra o poder político no Chile, para criar um sistema de educação gratuito e de qualidade para todos, desmantelando o modelo neoliberal que Pinochet impôs brutalmente. Engloba os ativistas da Praça Tahrir, que reconhecem que a queda de Mubarak (como o fim da ditadura de Pinochet) foi apenas o primeiro passo de uma luta para emancipar-se do poder do dinheiro. Inclui os indignados da Espanha, os trabalhadores em greve na Grécia, a oposição militante que surge em todo o mundo, de Londres a Durban, Buenos Aires, Shenzhen e Mumbai. A dominação brutal do grande capital e o poder do dinheiro estão na defensiva em todo lugar.De que lado estaremos, nós, indivíduos? Que rua vamos ocupar? Só o tempo dirá. Mas o que sabemos é que o tempo é agora. O sistema não está só quebrado e exposto, mas também é incapaz de qualquer resposta a não ser a repressão. Então nós, o povo, não temos outra opção senão lutar pelo direito coletivode decidir como o sistema será reconstruído e com base em qual modelo. O Partido de Wall Street teve sua vez e fracassou miseravelmente. Como construir uma alternativa em suas ruínas é tanto uma oportunidade inescapável quanto uma obrigação que nenhum de nós pode ou vai querer deixar de lado.* David Harvey é um dos pensadores marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo The Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes, além de O enigma do capital (Boitempo), são: A Companion to Marx’s Capital (Boitempo, no prelo) e O novo imperialismo (São Paulo, Loyola, 2004).** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por David Harvey*
120331-Imperialismo21 Artigo

Desenvolvimentismo e “dependência”

As raízes das “teorias da dependência” remontam ao debate do marxismo clássico, e da teoria do imperialismo, sobre a viabilidade do capitalismo nos países coloniais ou dependentes. Elas nasceram em meio a um clima de estagnação e pessimismo que envolveu a América Latina na década de 60 do século passado, um período de crise econômica e política.Na década de 60 do século passado, a crise econômica e política da América Latina provocou, em todo continente, uma onda de pessimismo, com relação ao desenvolvimento capitalista das nações atrasadas. A própria Cepal fez autocrítica, e colocou em dúvida a eficácia da sua estratégia de “substituição de importações”, propondo uma nova agenda de “reformas estruturais” indispensáveis à retomada do crescimento econômico continental. Foi neste clima de estagnação e pessimismo que nasceram as “teorias da dependência”, cujas raízes remontam ao debate do marxismo clássico, e da teoria do imperialismo, sobre a viabilidade do capitalismo nos países coloniais ou dependentes.Marx não deu quase nenhuma atenção ao problema específico do desenvolvimento dos países atrasados, porque supunha que a simples internacionalização do “regime de produção burguês” promoveria, no longo prazo, o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, no mundo dominado pelas potências coloniais europeias. Mais tarde, no início do Século 20, a teoria marxista do imperialismo manteve a mesma convicção de Marx, que só foi questionada radicalmente depois do lançamento do livro do economista Paul Baran, A Economia Política do Desenvolvimento, em 1957.Após sua publicação, a obra de Baran se transformou numa referência obrigatória do debate latino-americano nos anos 1960. Para Paul Baran, o capitalismo era heterogêneo, desigual e hierárquico, e o subdesenvolvimento era causado pelo próprio desenvolvimento contraditório do capitalismo. Além disto, segundo Baran, o capitalismo monopolista e imperialista teria bloqueado definitivamente o caminho do nos países atrasados.As ideias de Baran casaram como luva com o pessimismo latino-americano dos anos 1960, e suas teses se transformaram numa referencia teórica fundamental das duas principais vertentes marxistas da “escola da dependência”: a teoria do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, do economista norte-americano A. G. Frank, que exerceu pessoalmente, uma forte influencia no Brasil e no Chile; e a teoria do “desenvolvimento dependente e associado”, formulada por F. H. Cardoso, com o suporte intelectual de um grupo importante de professores marxistas da USP.A tese central de Gunder Frank, vem diretamente de Paul Baran: segundo Frank, o imperialismo seria um bloqueio insuperável, mesmo com a intervenção do estado, e o desenvolvimento da maioria dos países atrasados só poderia se dar por meio de uma ruptura revolucionária e socialista. Esta tese de Frank, foi sendo matizada por seus discípulos, mas ainda é a verdadeira marca acadêmica internacional da teoria da dependência. Por outro lado, a tese central de F. H. Cardoso já nasceu menos radical: segundo Cardoso, o desenvolvimento capitalista das nações atrasadas seria possível mesmo quando não seguisse as previsões clássicas, mas seria quase sempre um desenvolvimento dependente e associado com os países imperialistas.O avanço da teoria do “desenvolvimento associado” foi interrompido pelo seu próprio sucesso político, ao se transformar no fundamento ideológico da experiência neoliberal no Brasil, sob liderança do próprio F. H. Cardoso. Com relação a G. Frank e seus discípulos, ele mesmo “imigrou”, nos anos 1980, para outros temas e discussões históricas, e sua teoria do subdesenvolvimento ficou paralisada no tempo, como se fosse apenas uma lista de características especificas, estáticas e intransponíveis, da periferia capitalista. Ou, quem sabe, uma espécie de teoria dos “pequenos países”.Apesar de tudo, a “escola da dependência” deixou plantadas quatro ideias seminais, que abalaram o fundamento teórico do “desenvolvimentismo de esquerda”, dos anos 1950:i) o capital, a acumulação do capital e o desenvolvimento capitalista não têm uma lógica necessária, que aponte em todo lugar e de forma obrigatória, para o pleno desenvolvimento da indústria e da centralização do capital;ii) a burguesia industrial não tem um “interesse estratégico” homogêneo, que contenha “em si” um projeto de desenvolvimento pleno das forças produtivas “propriamente capitalistas”;iii) não basta conscientizar e civilizar a burguesia industrial e financiar a centralização do seu capital para que ela se transforme num verdadeiro condotieri desenvolvimentista;iv) por fim, a simples expansão quantitativa do estado não garante um desenvolvimento capitalista industrial, autônomo e autossustentado.O que chama a atenção é que até hoje o “desenvolvimentismo de esquerda” não tenha conseguido se refazer do golpe, nem tenha conseguido construir uma nova base teórica que possa dar um sentido de longo prazo às suas intermináveis e inconclusivas deblaterações macroeconômicas, e ao seu permanente entusiasmo pelo varejo keynesiano.* José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por José Luís Fiori*
FHC: 'Brasil não precisa crescer tanto quanto a China'. Economia Verde

Futuro passa pela economia verde

[caption id="attachment_47777" align="alignleft" width="267" caption="FHC: "Brasil não precisa crescer tanto quanto a China"."][/caption]Em sua intervenção no III Fórum Mundial de Sustentabilidade, ex-presidente disse que política ambiental passa por acordo interministerial.“A passagem para a economia verde pode abrir caminho importante para o progresso”. A frase do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso foi um dos destaques de sua apresentação no III Fórum Mundial de Sustentabilidade, em Manaus (AM). Promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), o Fórum aconteceu entre os dias 22 e 24 de março, com a presença de políticos e ambientalistas.“Isso (a economia verde) não deve acontecer aqui (por ora)”, disse, “mas vai acontecer. As propostas do governo Obama podem sinalizar isso: mudar a matriz da economia norte-americana para uma economia mais verde. Na prática ainda não funcionou”.FHC evitou comparações de governos e citar ações da gestão atual, mas ressaltou que, no âmbito político, toda e qualquer política pública sobre o meio ambiente passa por um acordo interministerial. “Temos que atuar simultaneamente em várias áreas.”“Isso não é fácil de fazer”, frisou, embora veja avanços na ideologia da população e de seus mandatários. “Conseguimos criar numa mentalidade de Estado: temos uma área que cuida do meio ambiente. Mas vai convencer o outro mistério de que isso vale. (…) É complicado, porque cada um vai focar no seu interesse específico. Se precisar abrir uma estrada, vai fazer.”Para FHC, o tempo e as iniciativas de todas as esferas, governamentais ou não, maturou o debate no Brasil, que saiu de “uma posição retrógrada no desmatamento".“Historicamente a floresta para nós era um inimigo. Se fazia um roçado porque tem bicho. Leva tempo para mudar a mentalidade”, explicou, ao passo que enumerou desafios atuais. “Mas não adianta preservar a floresta sem mudar a visão urbana, melhorar a energia e os transportes.”Qualidade de vidaEm tempos de globalização avançada do comércio, apesar dos protecionismos, e de uma consciência mundial cada vez mais voltada para o progresso sustentável, o Brasil precisa encontrar um modo “de crescer de modo inteligente”, ressaltou o ex-presidente da República, que enfatizou, porém, que o “Brasil não precisa crescer como a China”, com elevados índices anuais mensurados pelo PIB.Para FHC, o importante é “a qualidade de vida”.“Pode-se ter um crescimento médio de 4% ou 5% ao ano e melhorar a qualidade. O nosso crescimento médio é 4%, nos últimos anos”, disse em rápida palestra para empresários e ambientalistas, lembrando principalmente as suas gestões e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.O ex-presidente recordou que, com exceção de 2010, um grande momento do país, a última vez que o Brasil cresceu tanto – 7% – foi “na década de 1970, no regime militar”. Frisou, no entanto, que aquele crescimento era um índice incompatível com a realidade social, problema que, a seu ver, persiste no país.“Escrevi num livro sobre crescimento e pobreza. Havia uma explosão demográfica de modo que transportes, saúde e educação foram prejudicados.”EnergiaPara FHC, o país precisa discutir que matriz energética vai propulsionar, e como será feito isso. Apontou um debate não apenas político ou partidário, mas com envolvimento da sociedade.“Nós temos petróleo, mas temos obrigação de saber como vamos extrair esse petróleo, qual a possibilidade de aumentar a energia eólica, de utilizarmos a fundo medidas de poupança de energia”, ressaltou, para fazer um mea culpa de que, em seu governo, houve “risco” de apagão. “Apelamos à população que reduzisse o consumo, e o esforço que fazemos para reduzir hoje é muito pequeno.”Na iminência da Conferência Rio+20, em junho, FHC reforçou a tese de que o país deve acelerar suas ações no que concerne ao compromisso de reduzir 36% a sua emissão de carbono em 20 anos.“Se não fizermos isso em dez anos, será difícil de ser revertido.(…) Acho que o desafio além de conhecer os mecanismos é colocá-los em prática. Mas há o desafio moral. É moral, tem que fazer porque é questão de valor, é a questão de vida.”Admitiu, no entanto, que a cobrança da sociedade deve se voltar para a própria, também, e não depender apenas do cenário político. “É difícil termos um Parlamento que ande depressa.”* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Leandro Mazzini, do Opinião e Notícia
Ilustração: TK. Artigo

Transformação do capitalismo

[caption id="attachment_47880" align="alignleft" width="241" caption="Ilustração: TK"][/caption]Três questões de novo tipo encerram a complexa engrenagem capitalista: a resolução da consolidação do novo centro dinâmico global, a conformação de outra relação do Estado diante do avanço do processo de hipermonopolização do capital e a regulação do novo paradigma produtivo assentado na expansão do trabalho imaterial.Os termos do debate sobre a crise do capitalismo global correm o sério risco de ficar restritos cada vez mais às superficialidades dos entendimentos de curto prazo, que no máximo massageiam a ponta do iceberg. Natural, quando a capacidade de produzir conhecimento encontra-se cada vez mais (i) fragmentada, no caso das ciências, pelas especializações estimuladas pela visão neoliberal, (ii) enfraquecida pela orientação competitiva e produtivista em vigor nas universidades e (iii) enviesada pela lógica da comunicação contida de twitters, facebooks, e-mails, blogs, etc.Na mesma direção, o exercício do monopólio da mídia aprofunda-se na arte de confundir, o que ajuda mais o processo em curso de alienação. A escassez dos debates mais aprofundados sobre a mais grave crise do século impede que partidos políticos, sindicatos e o próprio movimento social identifiquem nesse acontecimento de ordem global a grande oportunidade para que a história seja escrita de outra forma.Isso porque a crise não resulta de um corpo estranho ao modo de produção capitalista. Pelo contrário, compreende justamente as situações específicas em que as condições de sua reprodução encontram-se esgotadas, enquanto as novas ainda permanecem imaturas. A longevidade da manifestação das crises depende fundamentalmente da capacidade política de superação dos entraves à reprodução do capital, simultaneamente ao abandono das velhas e anacrônicas formas de seu funcionamento. Consequentemente, a incapacidade política de superação da crise no capitalismo pode levar, inclusive, ao aparecimento de outros modos de organização social e produção econômica e à transição para eles.Nesse sentido, os arranjos político-institucionais se mostram estratégicos para a resolução ou continuidade das crises numa economia monetária de produção e distribuição de riqueza. E dependem direta e indiretamente dos enfrentamentos entre novos e velhos sujeitos e classes sociais. Com essa perspectiva, o presente artigo procura oferecer pistas para o entendimento dos elementos novos nas condições de reprodução capitalista, que, sem sua resolução política, poderão conferir maior longevidade à manifestação da crise atual. Antes disso, contudo, ressaltam-se brevemente as especificidades caracterizadoras das crises e suas transformações no capitalismo.Especificidades das crises capitalistasOs últimos dois séculos foram marcados pela convivência com distintas crises no modo de produção capitalista. Duas delas, todavia, merecem maior atenção. A primeira, ocorrida entre 1873 e 1896, expressou um conjunto de obstáculos para a consolidação do capitalismo urbano-industrial diante dos entraves emergentes da velha sociedade agrária. Destaca-se que, até o início do Século 19, o capitalismo urbano-industrial encontrava-se centrado na Inglaterra, enquanto predominavam em praticamente todo o mundo as sociedades agrárias em seus mais variados graus de funcionamento.Com o avanço, no Século 19, do ciclo de industrializações retardatárias em alguns países como Alemanha, Estados Unidos, França, Rússia, Itália e Japão, tornaram-se claras as disputas pela hegemonia de novos centros dinâmicos mundiais, não mais e apenas concentrados na velha Inglaterra. As duas violentas disputas mundiais, expressas pelas grandes guerras de 1914 e de 1939, consolidaram os Estados Unidos como centro dinâmico capitalista, ainda que em crescente tensão com o bloco de países de economias centralmente planejadas, liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.Toda essa transição geopolítica no capitalismo mundial foi acompanhada pelo aparecimento e pela consolidação de novos sujeitos sociais em âmbito nacional, como no caso das classes trabalhadoras e burguesas. A estruturação de inovadoras instituições de representação dos interesses desses novos sujeitos pelas mãos de sindicatos e associações patronais e laborais e partidos políticos consagrou o regime democrático formal como arena da resolução de conflitos capaz de oferecer possibilidades menos desiguais de produção e repartição da riqueza. A combinação explícita ou implícita dos entendimentos entre classes trabalhadoras e burguesas permitiu superar entraves impostos pelas condições de reprodução capitalista envelhecida pelo velho agrarismo.Mas isso, todavia, somente se tornou mais evidente a partir da resolução dos obstáculos revelados pela grande crise de 1929. De um lado, o abandono das ultrapassadas formas de funcionamento do Estado mínimo liberal, que permitiu a constituição de um novo Estado ampliado em suas funções e fortalecido pela regulação da competição capitalista. Com isso, o excedente econômico crescentemente multiplicado passou, em parte, a retornar a seus geradores originais, os trabalhadores. Estes, por sua vez, conquistaram, entre vários aspectos, a liberação do tempo de trabalho ao qual se encontravam prisioneiros. Assim, ganhou importância a libertação do trabalho heterônomo pela educação, nas faixas etárias mais precoces (crianças, adolescentes e jovens), e pelos esquemas de aposentadoria e pensão, nos estratos adoentados e envelhecidos; bem como a redução da jornada de trabalho (férias, feriados e tempo de 48 horas semanais).De outro lado, houve a fundamentação do padrão regulatório da competição e dominação intercapitalista em âmbito nacional e supranacional. O avanço das grandes empresas multinacionais e o caráter cada vez mais imperialista de manifestação do desenvolvimento capitalista no mundo exigiram o restabelecimento de acordos entre as principais nações. Nesse momento, os Estados Unidos assumiam de fato o centro econômico dinâmico do mundo, com moeda de curso internacional (padrão monetário ouro-dólar), forças armadas predominantes e complexo produtivo e tecnológico de grande dimensão.A consagração do sistema das Nações Unidas permitiu o estabelecimento de uma arena política reconhecida por todos os atores na definição compartilhada de soluções que atendessem aos compromissos ou às intervenções multinacionais em relação aos conflitos armados, assim como a regulação econômica (financiamento e moeda internacional) e comercial (liberação de fluxos financeiros e de bens e serviços interpaíses). Assim, por quase três décadas a partir do segundo pós-guerra, a trajetória de dinamismo capitalista foi surpreendentemente alta e associada aos anos de ouro, com a profusão da norma de produção e consumo do american way of life.Em plena Guerra Fria (1947-1991), alguns países periféricos conseguiram fazer avançar modelos distintos de constituição da sociedade urbano-industrial. Na América Latina, a experiência da industrialização tardia se deu por meio da associação subordinada do capital estatal e da burguesia nacional ao das grandes empresas multinacionais. A internalização da industrialização implicou modernização capitalista inegável em meio à maior dependência nacional ao capital internacional. Em alguns países asiáticos, a experiência de industrialização seguiu com maior apoio ao nascimento e fortalecimento de grandes empresas nacionais, contendo articulação entre capitais estatais e da burguesia nacional.Desde o começo da década de 1970, entretanto, sinais de esgotamento do paradigma da sociedade urbano-industrial passaram a ser observados. Inicialmente, a incapacidade de os Estados Unidos manterem intacta sua moeda de curso internacional, o que ficou claro com as medidas de abandono do padrão ouro-dólar. Também a regulação supranacional da competição intercapitalista sofreu abalos, com a crescente desregulação do sistema financeiro diante da crescente liquidez internacional gerada pelo deslocamento das grandes empresas multinacionais, novos enriquecimentos de países exportadores de petróleo e dos fluxos financeiros provenientes de atividades ilegais (tráfico de armas, pessoas, corrupção, drogas, entre outros).Ademais, o enfraquecimento relativo dos Estados Unidos em relação aos milagres econômicos da Alemanha e do Japão passou a indicar o aparecimento de um novo campo da política internacional para a disputa da sucessão norte-americana na hegemonia mundial. A resposta não tardou. A substituição dos pressupostos econômicos e monetários keynesianos pelo receituário neoliberal abriu novas oportunidades para o soerguimento repentino norte-americano em meio às crescentes fragilidades dos alemães, expostas pela unificação das duas Alemanhas, com o fim da Guerra Fria, e dos japoneses, que amargaram mais de uma década de crise imobiliária, o que antecipou rapidamente a decadência nipônica.O destampar do neoliberalismo fortaleceu o coração financeiro dos Estados Unidos com o enriquecimento impressionante do capital fictício. A acumulação capitalista por meio da expansão financeira de direitos de acesso à riqueza foi facilitada pela revolução tecnológica, especialmente nas áreas de informação e comunicação. Mas isso foi tornando gradualmente a economia norte-americana oca, pelo esvaziamento de seu sistema produtivo e o engrandecimento do seu castelo de cartas (dialética da geração de direitos de riqueza imaterial sem a equivalência da riqueza material).Outra característica marcante da liderança neoliberal no fim do Século 20 foi o aprofundamento do movimento de concentração e centralização do capital, convergindo cada vez mais para o engrandecimento das corporações transnacionais. As reformulações que apequenaram o papel do Estado, orientadas pela cartilha do Consenso de Washington e difundidas pelo sistema das Nações Unidas (Banco Mundial e FMI) e pelas representações nacionais vassalas (mídia, academia e política), foram vitais para o fortalecimento do poder privado sem comparação anterior.Mas a manifestação da crise em 2008 terminou por enunciar sua importante especificidade histórica. Pela primeira vez se observa uma crise efetivamente de dimensão global, com todos os países submetidos à lógica do capital. Nas grandes crises de 1873 e de 1929, o capitalismo não se apresentava ainda global, pois havia a presença de partes do planeta submetidas à condição de colônia e às experiências do socialismo desde 1917.Além disso, a crise atual revela-se sistêmica perante a gravidade que resulta da insustentabilidade ambiental, da fome e da pobreza mundiais, da ignorância e insalubridade populacional globais. Não se trata, portanto, de uma crise de natureza estritamente econômica, pois é muito mais do que isso, especialmente quando se considera o curso da revolução tecnológica e do reaparecimento de novas centralidades dinâmicas globais. Até pouco tempo seria inimaginável acreditar que os Estados Unidos pudessem depender das decisões do Partido Comunista chinês ou que países como Itália e Espanha, para não dizer a União Europeia, recorressem à Índia e ao Brasil para evitar o colapso de suas finanças públicas (uso das reservas soberanas na aquisição dos títulos do endividamento público).Crise como condição de transformaçãoO mundo continuará a conviver com a crise atual por tanto tempo quanto depender o processo de maturação do novo, em meio ao esgotamento das velhas condições de reprodução capitalista. Três questões de novo tipo encerram a complexa engrenagem capitalista, a saber: (i) a resolução da consolidação do novo centro dinâmico global; (ii) a conformação de outra relação do Estado diante do avanço do processo de hipermonopolização do capital; e (iii) a regulação do novo paradigma produtivo assentado na expansão do trabalho imaterial.Na perspectiva histórica, a emergência de novos centros dinâmicos não constitui fato inédito. A passagem do centro mundial asiático para a Inglaterra na segunda metade do Século 18 e a ascensão norte-americana no final do Século 19 não se deram de forma pacífica. Tudo foi acompanhado por importantes conflitos armados. No caso atual, quando a crise global deixa claro o conjunto de sinais de decadência dos Estados Unidos em meio à ascensão asiática, fica a pergunta: como será a acomodação dos países desenvolvidos perante o reposicionamento de nações que até então eram somente periféricas (China, Índia e Brasil)? A ausência de mecanismos de regulação global que permitam expressar essa nova realidade, como moeda de curso internacional, mantém ativo o desequilíbrio entre nações sem grandes complexos militares e tecnológicos.Uma nova governança mundial seria necessária, pois o atual vazio do sistema das Nações Unidas parece inconteste. O G20 ganhou expressão recente e importante, mas não tem institucionalidade e legitimidade requerida para colocar em prática suas decisões. É uma excrescência a permanência nos dias de hoje dos chamados países paraísos fiscais. O G20 já chamou a atenção para isso, mas quais foram as ações adotadas para a resolução do problema?Da mesma forma, a força das corporações transnacionais a dominar cada vez mais qualquer setor de atividade econômica torna proporcionalmente superior o exercício do poder soberano pelos Estados nacionais. Não são mais países que têm empresas, mas empresas que têm países e que se mostram capazes de financiar partidos e políticos e tornar presidentes, governadores e prefeitos, muitas vezes, meros caixeiros-viajantes dos interesses dos grandes grupos privados. Os regimes democráticos distanciam-se da expressão popular, subvertidos que são cada vez mais pelo poder do dinheiro e pelos interesses lucrativos do grande capital desviado de qualquer compromisso com a sustentabilidade do planeta. Como alterar o padrão econômico insustentável ambientalmente quando são as grandes corporações transnacionais – não mais de quinhentas no mundo – que resistem a manter intactos o modo de produção e a distribuição de riqueza comprometedora dos recursos naturais?O que se poderia esperar quando cerca da metade da riqueza do mundo e quatro quintos dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico são de responsabilidade das quinhentas maiores corporações transnacionais? Elas governam o mundo, pois se tornaram tão grandes que não podem mais nem sequer quebrar. Além disso, corporações são cada vez mais dependentes da associação com o Estado nacional, sugando, como carrapatos, parcela crescente do orçamento público. A alternativa tem sido ampliar o ajuste fiscal, comprimindo o financiamento do Estado de bem-estar social e ofertando recursos adicionais aos que “realmente contam” na lógica da crise global.Por fim, a transição para o trabalho imaterial, que faz emergir novas formas de riqueza assentada sobre exploração jamais vista, embora desconhecida diante do véu de alienação que cega aqueles que em tese deveriam, pelo menos, vigiá-la, denunciá-la e lutar contra ela. As jornadas de trabalho são mais intensas e extensas, pois a presença constante das novas tecnologias de informação e comunicação permite levar o trabalho heterônomo a qualquer lugar. O curso do desenvolvimento capitalista apropria-se não somente da força física do trabalhador, mas cada vez mais de seu coração e mente.A mão de obra segue plugada no trabalho quase 24 horas por dia. Se existe mais trabalho, há, em consequência, mais riqueza, que se concentra e conforma a força dos novos monopólios globais. Esta trajetória histórica do capitalismo corrói a força de seu dinamismo, que se tornou restabelecido quando reformas desconcentradoras da riqueza foram realizadas, especialmente pela força dos agentes sociais, e instrumentalizadas pelo Estado. Os atores políticos de uma nova ordem que protagonizariam a reforma do Estado forte e regulador seguem ainda desconhecidos.* Marcio Pochmann é professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).** Publicado originalmente no site Diplomatique Brasil.


por Marcio Pochmann*
Representante do Movimento Brasil Competitivo (MBC), Erick Camarano. Desenvolvimento

Identificar líderes contribui para executar ações públicas

[caption id="attachment_47868" align="alignleft" width="300" caption="Representante do Movimento Brasil Competitivo (MBC), Erick Camarano. Foto: Bernardo Rebello/ASN"][/caption]Segundo palestrantes de encontro sobre desenvolvimento sustentável, processo ajuda a mobilizar comunidade.Brasília – Liderança é fundamental para executar projetos de geração de renda e emprego nos municípios e identificar líderes constitui uma das tarefas dos gestores públicos. Esta foi a mensagem transmitida pelos expositores do painel Governança do Desenvolvimento Local Sustentável, na tarde de quarta-feira (28), durante o I Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Sustentável, no Centro de Convenções Brasil 21. A programação segue até esta quinta-feira (29), em Brasília, com a presença de mais de 500 pessoas, entre prefeitos, secretários, gestores e servidores municipais. O evento tem apoio do Sebrae.Na abertura do painel, os participantes conheceram, por meio de um vídeo, experiências de combate à pobreza da cidade de Lauro de Freitas (BA), município na região metropolitana de Salvador. Entre as iniciativas, destacou-se o programa de segurança alimentar, que garante aquisição dos produtos rurais. O vídeo mostrou que o primeiro passo da iniciativa foi identificar as potenciais lideranças da comunidade. A partir daí, houve envolvimento da população, na qual há beneficiários do programa Bolsa Família.O secretário de Desenvolvimento Regional de Dionísio Cerqueira (SC), Flávio Berté, ressaltou que a promoção do desenvolvimento municipal extrapola as fronteiras da própria cidade. “Exige ação e protagonismo de todos os atores públicos e privados e do terceiro setor, com interação entre os líderes”, frisou o secretário, também vice-prefeito do município, na fronteira com o Paraguai.O representante do Movimento Brasil Competitivo (MBC), Erick Camarano, enfatizou no painel a necessidade de o gestor público definir metas a serem atingidas e eleger programas com esta finalidade. Ele afirmou que o MBC trabalha para adaptar a visão empresarial à gestão pública. “Impossível falar de governança sem saber aonde o município quer chegar”, observou. Já o coordenador da Expo-Brasil Desenvolvimento Local, Caio Silveira, afirmou que o maior desafio das comunidades é encontrar um modelo próprio de desenvolvimento.* Publicado originalmente no site Agência Sebrae.


por Leandro de Souza, da Agência Sebrae

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