A solução é a “economia verde”?

Artigo

A solução é a “economia verde”?


por Ivo Lesbaupin*


"A solução para a grave crise ambiental que estamos vivendo não é, pois, a colocação de preço nos bens naturais e nos 'serviços ambientais'. É a preservação dos bens e dos processos naturais como bens comuns, como bens de todos, de toda a humanidade. Nós não precisamos de uma 'economia verde': nós precisamos de uma outra economia, nós precisamos de um outro desenvolvimento", escreve Ivo Lesbaupin, integrante da diretoria executiva da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e secretário-executivo do Iser Assessoria, em artigo publicado no site do Iser Assessoria, em 2/3/2012. Eis o artigo. A humanidade está hoje na direção da não sustentabilidade, caminhando rapidamente para tornar a Terra inabitável. O mundo está sofrendo um aquecimento global sem precedentes, que tem produzido a multiplicação de eventos climáticos extremos (fortes ondas de calor, invernos rigorosos, tempestades e inundações, incêndios cada vez mais frequentes, furacões e tsunamis), a extensão das áreas de seca no mundo, forte impulso na desertificação, perdas frequentes de colheitas, redução das áreas agricultáveis, e a secagem temporária ou permanente de inúmeros rios. Está também derretendo fontes de água doce como as geleiras, os glaciares e as calotas polares, produzindo o aumento do nível dos mares. Estamos desmatando numa velocidade incrível por toda parte, o que faz prever o desaparecimento total das florestas em alguns países nos próximos anos(1). Nossa água doce está sendo utilizada em uma quantidade muito acima de sua capacidade de reposição. Além disso, ela está sendo poluída pelo não saneamento, pelos agrotóxicos, pelos produtos tóxicos das indústrias e da mineração. O processo de acidificação dos mares leva cientistas a preverem que, possivelmente dentro de 30 a 40 anos, desaparecerão os peixes. Recifes de corais inteiros já desapareceram ou estão em vias de desaparecer. Quais as causas destas mudanças climáticas tão dramáticas, destes desastres ambientais? Em primeiro lugar, a emissão de dióxido de carbono na atmosfera, numa proporção muito maior nos últimos duzentos anos – e sobretudo nos últimos trinta anos – do que nos setecentos mil anos anteriores. Esta emissão é produzida, em primeiro lugar, pela utilização de combustíveis fósseis – petróleo, gás, carvão. Ora, estes, especialmente o petróleo, têm sido a principal fonte de energia dos últimos cem anos. A “civilização do automóvel” tornou a emissão de gases um fenômeno exponencial e a poluição das cidades (e da atmosfera em geral) um fato habitual. O gás metano é um dos principais produtores de efeito estufa. Ora, um dos produtores deste gás é o gado. A extraordinária multiplicação do número de cabeças de gado no mundo – não para atender as necessidades de alimentação – aumentou enormemente a produção de metano. Outros produtores de gás metano são os lagos artificiais das usinas hidrelétricas que inundam partes de florestas. A madeira submersa, no correr do tempo, apodrece e produz metano. Em segundo lugar, a destruição dos bens naturais é produzida por um modelo de desenvolvimento centrado na produção e no consumo cada vez maior de bens, o modelo produtivista-consumista. Como a obtenção de lucros é o principal objetivo dos produtores, interessa-lhes que todo cidadão seja consumidor e que seja consumidor insaciável, de modo a comprar cada vez mais produtos. Esta obsessão pela produção tem como consequência a utilização dos bens naturais renováveis numa velocidade maior do que a sua capacidade de reposição e dos bens não renováveis em direção à sua extinção – o que pode variar é o prazo em que estes bens vão desaparecer. Além disso, a produção incessante de bens exige uma quantidade de energia sempre maior, tornando também crescente a necessidade de geração de energia. Sabe-se que os países desenvolvidos têm apenas 20% da população mundial mas utilizam 80% dos recursos naturais. A Terra é limitada, ela não comporta uma produção sem fim. Se o consumo dos habitantes da China se igualar ao consumo dos habitantes dos Estados Unidos, nem duas Terras serão suficientes. E a China, assim como a maioria dos países, almeja um nível de consumo semelhante. O que tem levado a desmatar nesta velocidade alucinante? O que tem levado a consumir muito mais água doce do que sua capacidade de reposição? O que tem levado a poluir as águas numa proporção tão grande? O modelo econômico dominante não busca apenas atender as necessidades dos cidadãos: ele produz incessantemente uma enorme quantidade de bens e procura convencer, pela propaganda, que são absolutamente indispensáveis para a vida. Ele os produz não para durarem, mas para se tornarem rapidamente obsoletos e precisarem ser repostos(2). Ele não os produz para poderem ser consertados, mas para serem, ao menor defeito, trocados por um novo. O modo como tais produtos são feitos impede que eles sejam consertados ou mesmo que sejam aperfeiçoados. Este modelo é baseado na descartabilidade dos produtos, com a consequente geração de um lixo cada vez maior e inaproveitado. Pois bem, estas são as principais causas dos nossos graves problemas ambientais. O que o documento-base (Rascunho Zero) produzido pela ONU para a Rio+20 propõe como solução a estes problemas? A “economia verde"(3). A “economia verde” propõe a redução da utilização do petróleo, do gás e do carvão nos próximos anos? A “economia verde” propõe a progressiva mudança da matriz energética do mundo, para passarmos dos combustíveis fósseis às energias renováveis (solar, eólica, geotérmica, etc.)? Não. Então, a “economia verde” não pretende atacar a principal causa do aquecimento global e, consequentemente, não pretende atacar a principal causa das dramáticas mudanças climáticas que a humanidade está sofrendo. A “economia verde” pretende superar o modelo produtivista-consumista, fonte da destruição acelerada dos nossos bens naturais e do aquecimento global? Não. Ao contrário, o “Rascunho Zero” encoraja fortemente os negócios e a indústria – e, aí dentro, especialmente as grandes empresas – a mostrarem sua liderança na realização da “economia verde”. Não se pede mudança nesta forma de agir da indústria, das grandes empresas, do business as usual. O documento apoia os instrumentos de mercado para reduzir a destruição dos bens naturais. Acredita que a solução virá do aumento do comércio mundial, do livre comércio (sem barreiras) entre os países. Enfatiza a importância do Banco Mundial, do FMI (Fundo Monetário Internacional), da OMC (Organização Mundial do Comércio) para a implementação desta “economia verde”. Em suma, o documento pretende que se faça uma “economia verde” sem mexer no essencial da economia dominante, naquele essencial que a torna depredadora da natureza. Quer manter as mesmas instituições – FMI, OMC, BM – que lideraram o processo de neoliberalização das economias dos últimos trinta anos, período no qual, a depredação da natureza foi ainda maior que nos períodos anteriores, graças à “desregulação”, à redução ou anulação dos controles públicos sobre a atuação dos bancos e das empresas. A prioridade atribuída ao capital financeiro e seus lucros – e, por isso, ao controle da inflação e dos gastos públicos em políticas sociais – desvalorizou os seres humanos, desprestigiou os trabalhadores, gerou um desemprego em massa e estrutural por toda parte, enfraqueceu os direitos humanos. Hoje, os seres humanos são menos importantes que a dívida pública: para enfrentá-la, tudo é válido, mesmo a destruição das condições de vida digna para as pessoas (como está ocorrendo na Europa atual). Os governos não governam em primeiro lugar para os cidadãos, governam para pagar aos bancos, aos investidores (nacionais e internacionais). E a concorrência desenfreada entre as empresas levou a uma destruição mais acelerada dos bens naturais, ao aumento do aquecimento global. O que tem feito o “mercado” com relação aos bens naturais até agora? Na sua busca desregulada de lucro – que é o objetivo essencial do mercado –, as empresas exploram a natureza até o seu esgotamento. Esta é a razão pela qual as florestas estão desaparecendo, o petróleo continua sendo usado como principal fonte de energia, a água tem sido esgotada em inúmeras fontes por todo o globo terrestre. As condições de “comércio livre” têm favorecido a destruição da pequena agricultura de países emergentes pelos países desenvolvidos. Por que não se substituiu o investimento na produção de automóveis individuais pelo investimento na produção de meios de transporte coletivos (trens, metrôs e outros), muito mais eficientes, muito mais úteis para a população e menos poluentes? Porque as grandes empresas automobilísticas querem continuar a ter lucro e os governos as favorecem. A solução, portanto, não é o “mercado”, é o controle do “mercado”, é a submissão da lógica da busca do lucro individual à lógica da busca do bem público: os governos devem investir recursos públicos nos transportes coletivos, solução primeira para reduzir a utilização dos automóveis individuais, para reduzir o consumo dos recursos usados em sua fabricação, para a redução da utilização de combustíveis fósseis e da poluição atmosférica. Por que as florestas são desmatadas? Porque contêm madeira que tem muito valor no “mercado”. E porque devem ceder espaço para o agronegócio (o “mercado”). O que vai impedir o desmatamento? A exigência pública de que as florestas sejam preservadas. Não é o “mercado” que preserva a floresta, ao contrário, é sua afirmação como bem comum, bem de todos, do qual ninguém pode se apropriar privadamente. Para dar um exemplo de “precificação” dos bens naturais: o que aconteceu quando os serviços públicos de água em Cochabamba (Bolívia) foram privatizados (ou, passaram a ter “valor de mercado”) no ano 2000? O preço dos serviços de água foram quadruplicados – para dar lucro. Antes, era um serviço para a população: um serviço público não precisa de lucro, basta investir o necessário para sua realização. Já o serviço prestado por uma empresa privada, precisa de lucro para os seus proprietários e, eventualmente, para gastar menos (e ter mais lucro), a empresa pode deixar de fazer os investimentos necessários. A água só voltou ao valor anterior quando o serviço voltou a ser público, isto é, quando saiu do “mercado”. A solução para a grave crise ambiental que estamos vivendo não é, pois, a colocação de preço nos bens naturais e nos “serviços ambientais”. É a preservação dos bens e dos processos naturais como bens comuns, como bens de todos, de toda a humanidade. Nós não precisamos de uma “economia verde”: nós precisamos de uma outra economia, nós precisamos de um outro desenvolvimento. Notas (1) Segundo Jared Diamond, no Haiti restam florestas em apenas 1% do território. A destruição de florestas pluviais acessíveis em terras baixas fora de parques nacionais já está virtualmente completa na Malásia peninsular e, na taxa atual, se completará em menos de uma década nas ilhas Salomão, Filipinas, Sumatra, Sulawesi (Diamond, Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro, Record, 2009). (2) Como se explica que, mesmo dispondo de tecnologias e materiais mais aperfeiçoados, muitos bens produzidos hoje durem menos que produtos antigos – como é o caso de vários eletrodomésticos? (3) O “Rascunho Zero” foi elaborado a partir de contribuições de países, grupos regionais, organizações internacionais e se baseou fortemente num amplo relatório feito pelo Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) sobre a “economia verde” – de mais de 600 páginas (cf. www.unep.org/greeneconomy ). * Ivo Lesbaupin é integrante da diretoria executiva da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e secretário-executivo do Iser Assessoria. ** Publicado originalmente no site IHU Online.

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Sete princípios para libertar a sociedade do domínio dos mercados financeiros

Para libertar as nossas sociedades do domínio dos mercados financeiros e coordenar políticas econômicas, monetárias, sociais e ecológicas progressivas, defendemos sete princípios básicos: retirar as finanças públicas dos mercados financeiros, sair da armadilha da dívida, aumentar os impostos sobre os ricos, colocar os bancos sob controle público, criar um setor bancário cooperativo e público, recuperar e expandir os serviços públicos e democratizar os processos de decisão em todos os níveis. O artígo é da Rede Europeia da Attac. O Banco Central Europeu (BCE) e o euro são os símbolos dessas políticas que estão entregando o controle da economia aos bancos privados e aos mercados financeiros, a pretexto de uma suposta crise das dívidas públicas. Ao mesmo tempo, a troika (BCE, Comissão Europeia e FMI) e os governos da União Europeia (UE) estão destruindo o bem-estar social e a impondo medidas de austeridade destrutivas, obrigando as pessoas a pagar dívidas pelas quais não são responsáveis. O modelo neoliberal da integração europeia agravou as diferenças entre os países periféricos e os do centro, e aumentou as desigualdades dentro e fora da Europa ao encorajar o dumping social, ambiental e fiscal. Os governos da UE deram mais um passo no sentido de destruir a democracia, ao impor aos seus povos e parlamentos processos tecnocráticos, chegando mesmo a instalar os seus próprios representantes (Grécia e Itália), de modo a colocar em prática processos destrutivos de redução de dívida. O funcionamento democrático da UE está também colocado em causa pela criação do Grupo de Frankfurt – constituído pela chanceler da Alemanha, o presidente de França, o governador do BCE, o presidente do Eurogrupo, a diretora-geral do FMI e os dois presidentes da UE –, que definem as linhas políticas estratégicas em nome da urgência da crise. Assim, a já frágil legitimidade da UE e os seus processos de decisão ficam cada vez mais debilitados. A Rede Europeia da Attac se opõe fortemente a este método de integração europeia e aos moldes como o euro existe, pois subordinam os interesses e necessidades dos povos aos interesses dos mercados financeiros. A dicotomia entre sair do euro ou aprofundar a presente forma de integração europeia não abarca os principais elementos da crise global. É urgente libertar a Europa e os povos do domínio dos mercados financeiros e promover, de forma coordenada, um conjunto de políticas econômicas, sociais, monetárias e ecológicas progressivas. Para isto, os cidadãos e os movimentos sociais devem esforçar-se em nível local e europeu para alterar as regras do sistema econômico e institucional vigente – e tornar outra Europa possível. Para libertar as nossas sociedades do domínio dos mercados financeiros e coordenar políticas econômicas, monetárias, sociais e ecológicas progressivas, devemos defender os seguintes sete princípios: • Retirar as finanças públicas dos mercados financeiros: permitir financiamentos públicos democráticos, por intermédio de um Banco Central controlado democraticamente, que financie diretamente os Estados; • Sair da armadilha da dívida: acabar com as políticas de austeridade e avançar com processos de auditoria que levem a cancelamentos da dívida. Os bancos e os agentes financeiros privados devem também assumir perdas; • Dar às finanças públicas uma base sustentável: aumentar os impostos sobre os ricos e os lucros das grandes empresas e harmonizar os impostos em nível europeu para erradicar o dumping fiscal; • Desarmar os mercados financeiros e colocar os bancos sob controle público: proibir movimentos especulativos prejudiciais (por exemplo, vendas de curto prazo, especulação nos produtos derivados, movimentos over-the-counter, trocas de alta frequência), e impor uma taxa de pelo menos 0,1% a todas as transações financeiras. Regular de forma sólida os bancos (separar a banca comercial da banca de investimento, desmantelar os bancos "demasiado grandes para quebrar"); • Permitir o financiamento público e democrático da economia: criar um setor bancário cooperativo e público que esteja sob o controle democrático, para garantir o financiamento das necessidades sociais e econômicas, garantir os direitos sociais e financiar um transição ecológica. As políticas de comércio internacional devem ser revistas para cumprirem estes objetivos, em cooperação com os países em vias de desenvolvimento; • Uma Europa para os povos, não para os lucros: promover políticas econômicas e sociais a nível europeu e recuperar e expandir os serviços públicos, para reduzir desequilíbrios, promover a transição ecológica das economias, garantir altas taxas de emprego, promover a igualdade de gênero, expandir os direitos econômicos e sociais básicos (saúde, educação, habitação, informação, cultura, bem-estar social, etc.), e garantir que sejam assegurados por uma rede 100% pública. • Democracia já: iniciar um processo constituinte de modo a democratizar os processos de decisão em todos os níveis, elaborar democraticamente um novo tratado europeu ratificado em referendos realizados em todos os países, e apoiar e promover um debate público e transparante sobre caminhos para a Europa e políticas alternativas para a UE. * Publicado originalmente no site Attac Portugal e retirado do site Carta Maior.


por Redação da Attac Portugal
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A sustentabilidade é um produto que dá boa visibilidade

Gradativamente as empresas estão percebendo que investir em sustentabilidade é um bom negócio no médio e longo prazos. Em breve, será um bom negócio mesmo no curto prazo, pois a consciência por um mundo melhor, despoluído, faz bem às pessoas e economiza recursos do setor público na área de saúde. Isto está cada vez mais presente na mente das pessoas, enquanto consumidoras ou mesmo dirigentes públicos e privados. Durante muitos anos, a indústria tabagista recolhia para o governo menos impostos do que ele gastava em seus hospitais e com previdência social. Ou seja, o malefício do tabaco era e é maior do que os benefícios tributários. Por esta razão, essas empresas já não gozam, como no passado, da simpatia do governante. A própria legislação já não vê o fumante como um cidadão de primeira classe, banindo o fumo de ambientes públicos, fechados ou até mesmo abertos. Guindados à categoria de droga, os cigarros e as bebidas são vistos como inimigos de uma sociedade mergulhada em drogas e com problemas sociais, de segurança e de saúde . Instaurou-se uma caça a bruxas, a produtos nocivos à saúde. E esta guerra não se restringe a produtos finais. Ao longo de toda a cadeia do processo produtivo, há uma preocupação com preservação e bem-estar das pessoas. O amianto, por exemplo, antes visto como um produto excelente na construção civil, na fabricação de telhas e caixas d’água, ganhou inimigos em quase todos os países do mundo, que travam uma batalha sem tréguas para eliminar esse produto cancerígeno. E a indústria do amianto corre tardiamente em busca de matéria-prima ou processo que substitua o amianto, sobretudo no segmento de construção civil. Em meio a uma guerra declarada a drogas e aos produtos nocivos à saúde, as empresas, começam a abraçar a causa socioambiental, como a sua grande bandeira, na construção de uma sociedade com mais qualidade de vida e que projete para o seu negócio uma melhor imagem. O marketing da sustentabilidade O novo consumidor procura alimentos saudáveis e naturais e adota de vez a ideia de vida com saúde. Hoje, há uma busca por um comedimento alimentar, na qual a magreza é vista como uma nova virtude. Portanto, muitas empresas precisam repensar seus negócios, antes que seja tarde e seus produtos emagreçam e virem pó, como aconteceu com os filmes fotográficos e cinematográficos analógicos em rolo da antigamente toda poderosa Kodak, diante das câmaras digitais. Foi ela quem inventou a câmera digital e o filme digital, mas manteve a invenção na prateleira, esperando um momento melhor, ou seja, tentando alongar ao máximo a vida útil do filme em celuloide. Antes tarde do que nunca é uma grande bobagem: a espera torna um produto obsoleto antes mesmo de ser lançado. São negócios inteiros que se desfazem por falta de visão tecnológica e/ou mercadológica. Portanto, faz-se necessário pensar em sustentabilidade 24 horas ao dia. As empresas devem ver o seu negócio dentro da aldeia global como um evento para um mundo melhor, aqui, agora e sempre. Temos novos mandamentos básicos neste novo mundo que precisa ser sustentável: preservar a água dos rios e nascentes, praias e lagoas, manter limpo o ar e o solo, e, sobretudo, não desmatar. E eles valem sobretudo para as grandes empresas que estão expostas diariamente ao consumo e enfrentam uma grande concorrência. É preciso, no entanto, investir em comunicação para divulgar as ações preservacionistas que ajudarão a manter a imagem da empresa, sempre com bom conceito, junto a uma comunidade cada vez mais esclarecida e preocupada com a qualidade de vida. Esta é uma ação que trás mais visibilidade para a empresa e, consequentemente, resultados de médio prazo nas vendas e, por decorrência, no lucro ao longo prazo. Por isso, investir em marketing – em todas as suas fases, da matéria-prima ao descarte, deve ser uma ação contínua, pois, se for esporádica, poderá ser inócua. Quanto custa a sustentabilidade? O custo de um marketing que inclua itens socioambientais e o valor dos produtos seriam sustentáveis? Em um artigo, Nizan Guanaes propõe uma resposta: “o sonho de consumo do brasileiro não é só o básico, é o luxo; a base da pirâmide não sonha em ser a base, mas sonha para cima". (Manhã de Carnaval, Folha de S.Paulo, 21/2/2012, caderno B Mercado, p. B4.) E na busca da realização de seus sonhos estaria o consumidor preocupado em consumir apenas produtos ecologicamente corretos? Talvez sim, talvez não. O mercado brasileiro está preparado para estes produtos ecologicamente corretos? As pessoas estariam dispostas a pagar 20% a mais pelos produtos sustentáveis? Segundo estudos do Instituto Akatu, os consumidores estão dispostos a pagar até 25% a mais por produtos ambientalmente amigáveis, pois ele sabe que vai ter de pagar a diferença de qualquer jeito, seja na hora da compra, seja no futuro, com a manutenção da saúde ou limpeza do meio ambiente. O próprio Nizan Guanaes, no mesmo texto, arremata: “cada vez mais, o mundo quer ser brasileiro. Nosso estilo de vida agrada ao mundo. O Brasil não odeia ninguém. O Brasil não quer derrotar ninguém (menos no futebol, a Argentina). O Brasil é sorriso, e o mundo quer sorrir”. Mas todos no planeta odeiam o Brasil, quando o assunto é o desmatamento da Amazônia. Passos para a sustentabilidade Sustentabilidade de acordo com a ONU é “o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades”. Isto implica mudança de postura empresarial. A seguir, sugerimos um roteiro. 1. A sustentabilidade deve ser uma busca contínua dentro da empresa. Mas “se uma empresa buscar ser 100% na sustentabilidade de imediato ela quebra”, afirma Albélio Dias, da Academia Mineira de Marketing. <http://www.administradores.com.br/informe-se/entrevistas/marketing/se-uma-empresa-entrar-100-na-sustentabilidade-ela-quebra-diz-especialista-em-marketing/65/> Acesso: 24.fevereiro.2012, 17h45min 2. Eu digo, porém, que, se as empresas muito expostas não considerarem a sustentabilidade em seus planejamentos estratégicos, a probabilidade de quebra também existe e é grande. As menos expostas, provavelmente, demorarão mais a serem percebidas pelos clientes. 3. A busca pela sustentabilidade deve fazer parte da cultura da empresa, mobilizando funcionários, acionistas, fornecedores e consumidores. É sobretudo, um processo educativo. 4. A sustentabilidade deve ter início em um produto e depois se estender aos outros produtos da linha da empresa. 5. A sustentabilidade deve estar focada no negócio da empresa. 6. É preciso formar pessoas social e ecologicamente responsáveis. 7. Deve-se desenvolver pensamentos sustentáveis nos consumidores e fornecedores. O hemisfério norte experimentou um desenvolvimento baseado na utilização de matérias-primas e mão de obra do hemisfério sul. Muitas vezes, esse uso foi abusivo, devastando grandes áreas florestadas e, o que é muito mais grave, destruindo grupamentos humanos. A palavra sustentabilidade está na moda. As ações de sustentabilidade estão na primeira infância. O marketing socioambiental pode ajudar a acelerar o processo de amadurecimento. * Marcos Cobra é professor da Universidad De La Empresa (UDE), Montevidéu, Uruguai; presidente do Instituto Latino-Americano de Marketing e Vendas (Ilam), São Paulo, SP; pós-doutorado na University of Texas System (UTS), Estados Unidos; mestre e doutor em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, onde foi professor e chefe do Departamento de Marketing; homenageado no Mkt Best 2011 pela sua contribuição ao marketing brasileiro como professor e profissional (http://www.ilam.com.br/).


por Marcos Cobra*
20080915_capitalismo Artigo

Do ilusório gene egoísta ao caráter cooperativo do genoma humano

Tempos de crise sistêmica como os nossos favorecem uma revisão de conceitos e a coragem para projetar outros mundos possíveis que realizem o que Paulo Freire chamava de o “inédito viável”. É notório que o sistema capitalista imperante no mundo é consumista, visceralmente egoísta e depredador da natureza. Está levando toda a humanidade a um impasse pois criou uma dupla injustiça: a ecológica por ter devastado a natureza e outra social por ter gerado imensa desigualdade social. Simplificando, mas nem tanto, poderíamos dizer que a humanidade se divide entre aquelas minorias que comem à tripa forra e aquelas maiorias que se alimentam insuficientemente. Se agora quiséssemos universalizar o tipo de consumo dos países ricos para toda a humanidade, necessitaríamos, pelo menos, de três Terras, iguais à atual. Este sistema pretendeu encontrar sua base científica na pesquisa do zoólogo britânico Richard Dawkins, que há 36 anos escreveu seu famoso O gene egoísta (1976). A nova biologia genética mostrou, entretanto, que este gene egoísta é ilusório, pois os genes não existem isolados, mas constituem um sistema de interdependências, formando o genoma humano que obedece a três princípios básicos da biologia: a cooperação, a comunicação e a criatividade. Portanto, o contrário do gene egoísta. Isto o demonstraram nomes notáveis da nova biologia, como a prêmio Nobel Barbara McClintock, J. Bauer, C. Woese e outros. Bauer denunciou que a teoria do gene egoísta de Dawkins “não se funda em nenhum dado empírico”. Pior, “serviu de correlato biopsicológico para legitimar a ordem econômica anglo-norte-americana” individualista e imperial (Das kooperative Gen, 2008, p.153). Disto se deriva que se quisermos atingir um modo de vida sustentável e justo para todos os povos, aqueles que consomem muito devem reduzir drasticamente seus níveis de consumo. Isto não se alcançará sem forte cooperação, solidariedade e uma clara autolimitação. Detenhamo-nos nesta última, a autolimitação, pois é uma das mais difíceis de ser alcançada devido à predominância do consumismo, difundido em todas classes sociais. A autolimitação implica uma renúncia necessária para poupar a Mãe Terra, para tutelar os interesses coletivos e para promover uma cultura da simplicidade voluntária. Não se trata de não consumir, mas de consumir de forma sóbria, solidária e responsável face aos nossos semelhantes, à toda a comunidade de vida e às gerações futuras que devem também consumir. A limitação é, ademais, um princípio cosmológico e ecológico. O universo se desenvolve a partir de duas forças que sempre se autolimitam: as forças de expansão e as forças de contração. Sem este limite interno, a criatividade cessaria e seríamos esmagados pela contração. Na natureza funciona o mesmo princípio. As bactérias, por exemplo, se não se limitassem entre si, e se uma delas perdesse os limites, em bem pouco tempo, ocuparia todo o planeta, desequilibrando a biosfera. Os ecossistemas garantem sua sustentabilidade pela limitação dos seres entre si, permitindo que todos possam coexistir. Ora, para sairmos da atual crise precisamos mais que tudo reforçar a cooperação de todos com todos, a comunicação entre todas as culturas e grande criatividade para delinearmos um novo paradigma de civilização. Há que darmos um adeus definitivo ao individualismo que inflacionou o “ego” em detrimento do “nós” que inclui não apenas os seres humanos, mas toda a comunidade de vida, a Terra e o próprio universo. * Leonardo Boff é autor de Preservar a Terra-Cuidar da Vida. Como evitar o fim do mundo, Record, RJ 2011.


por Leonardo Boff*
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Os benefícios econômicos da conservação florestal

Ipam integra grupo de pesquisadores que estuda a rentabilidade de cadeias produtivas associadas a REDD+. Estudos científicos têm buscado conhecer melhor as formas de uso e extração sustentável dos recursos naturais e abundantes da floresta amazônica, tendo como foco a manutenção da floresta em pé, o desenvolvimento econômico e a valorização do conhecimento sociocultural. Neste sentindo, um grupo de pesquisadores ligado ao Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenado pelo pesquisador PhD Britaldo Soares Filho, vem realizando estudos para avaliar a rentabilidade de diversas cadeias produtivas na Amazônia, como forma de subsidiar políticas públicas e ampliar o conhecimento científico da região. Um desses estudos, recentemente publicado na revista Environmental Conservation, enfoca o potencial de concessões de castanha-do-Brasil, em Madre de Dios, no Peru. Intitulado Economic benefits of forest conservation: assessing the potential rents from Brazil nut concessions in Madre de Dios, Peru, to channel REDD+ investments (Benefícios econômicos da conservação florestal: avaliação da renda potencial de concessões de castanha-do-Brasil em Madre de Dios, Peru, para fins de canalizar investimentos de REDD+), o artigo publicado aborda o modelo de produção da castanha-do-Brasil, fonte de renda de diversas comunidades da Amazônia, avaliando a produtividade e lucros potenciais das concessões de castanha em Madre de Dios, sob três cenários de processamento e gestão (castanha com casca, descascada e descascada e certificada). De acordo com o artigo, a castanha-do-Brasil possui mercado internacional consolidado, provendo uma relevante renda às populações rurais e não rurais que a coletam. No Departamento de Madre de Dios, em torno 67% da renda familiar vem de concessões castanheiras que ocupam 12% da sua área total, com mais de 800 concessões. A comercialização deste fruto sem qualquer beneficiamento ou certificação reduz o potencial de sua rentabilidade, em torno de US$ 0,40 por quilo. Com o processo de certificação, ou beneficiamento simples com a retirada da casca da amêndoa, a rentabilidade por quilo de produto passa para US$ 2,60. O artigo elaborado por pesquisadores da UFMG/CSR (Felipe Nunes, Britaldo Soares Filho, Renzo Giudice, Hermann Rodrigues e Rafaella Silvestrini), University of California (Maria Bowman) e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Elsa Mendoza), é similar ao estudo realizado, pelos mesmos, no Estado do Acre, Brasil, especificamente nas reservas Chico Mendez e Cazumbá Iracema, na região Leste do Estado, que foi publicado no IX Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica, com análise do potencial da castanha no Estado do Acre, Brasil. Segundo o coordenador da pesquisa, Britaldo Soares, o trabalho representa um exemplo prático para implementação de REDD+. “Foram avaliadas as rendas potenciais de concessões de castanheiras em diferentes cenários de manejo e estimados os investimentos necessários para melhoria da cadeia produtiva da castanha com casca, para sem casca e certificada. O estudo também indica que estes recursos poderiam ser canalizados por meio de programa REDD+, haja vista o papel central dessas concessões na redução do desmatamento em Madre de Dios”, destaca o coordenador. Referência completa do artigo: FELIPE NUNES, BRITALDO SOARES-FILHO, RENZO GIUDICE, HERMANN RODRIGUES, MARIA BOWMAN, RAFAELLA SILVESTRINI and ELSA MENDOZA. Economic benefits of forest conservation: assessing the potential rents from Brazil nut concessions in Madre de Dios, Peru, to channel REDD+ investments. Environmental Conservation, Available on CJO 2012 doi:10.1017/S0376892911000671. Para comprar o artigo http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract. * Publicado originalmente no site Ipam.


por Julie Messias, do Ipam
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Código Florestal, a disputa entre a competitividade e a ganância

Ao pressionar por mudanças no Código Florestal brasileiro, o agronegócio, que vem demonstrando uma fantástica capacidade de inovar e crescer, se apequena em defesa de ilegalidades e ganância. O Código Florestal retorna à pauta da Câmara Federal esta semana, e novamente se enfrentam argumentos em defesa da “produtividade” do setor agropecuário em contrapartida à necessidade defendida por cientistas e ambientalistas de se proteger pedaços de biomas naturais em propriedades agrícolas, conhecidos como Áreas de Preservação Permanente (APP) e Áreas de Reserva Legal (ARL). No último ano, estes termos entraram no vocabulário dos brasileiros, que em sua maioria já sabem o que significa. No entanto, uma questão foi pouco tratada neste tempo todo de discussão. Com a manutenção do Código Florestal brasileiro de 1966, o agronegócio brasileiro perderá sua competitividade? Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária, o setor exportava US$ 20,6 bilhões em 2000, em 2008 chegou a US$ 69,4 bilhões em vendas ao exterior, e em 2011 pulou para US$ 94,59 bilhões em exportações. O resultado de 2011 foi quase 25% maior que o de 2010, quando o setor do agronegócio despachou pelos portos do país US$ 76,4 bilhões. Um estudo, realizado pela Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento) em 2006, projetava a transformação do agronegócio brasileiro em um dos mais fortes do mundo em dez anos. Hoje os números do setor mostram que o Brasil está atrás apenas dos Estados Unidos e da União Europeia em termos de produção e vendas, já ocupando posição de liderança em alguns produtos, como açúcar, café, carne bovina e frango, mas tem posição de destaque também em soja, milho e outras commodities agrícolas. Em termos de área disponível, o Brasil conta com mais de 200 milhões de hectares de áreas que não se enquadram em nenhum tipo de restrição para uso agrícola, podendo chegar a quase 300 milhões, segundo publicou em seu blog o economista José Roberto Mendonça de Barros, e apenas 64 milhões de hectares estão sendo utilizados para a produção de 190 milhões de toneladas de grãos. Todos esses números servem para mostrar apenas que o setor do agronegócio, que atualmente é controlado por um punhado de empresas, não tem nenhum problema em se manter competitivo diante do mercado internacional. Atualmente, segundo dados levantados pelo jornalista Aldem Bourscheit, do WWF, sete em cada dez quilos de soja produzida no Brasil são processados por apenas nove empresas, e destas, cinco são transnacionais: ADM (Estados Unidos), Cargill (Estados Unidos), Bunge (Holanda), Louis Dreyfus (França) e Grupo Noble (Cingapura). Outro ponto que deve ser destacado, e que vem sendo lembrado por especialistas ambientais e cientistas, é que o avanço do agronegócio sobre novas áreas resulta em mais demanda por infraestrutura, estradas e portos em regiões onde normalmente não seriam necessárias, principalmente porque não são demandas da população local. Um exemplo disso é o porto para o embarque de soja construído em Santarém, no Pará, cuja licença ambiental é até hoje objeto de dúvidas. O projeto que altera o Código Florestal, e que será apreciado pelos deputados federais, foi construído à revelia da opinião e participação dos principais centros de pesquisa científica do Brasil, como as universidades e a Associação Brasileira para o Progresso da Ciência, que teve seus estudos rechaçados pelo antigo relator do Código e atual ministro dos Esportes, Aldo Rebello. O ponto que mais desperta indignação é o perdão de crimes ambientais cometidos contra o atual Código Florestal, com a anistia a desmatadores. É sempre bom lembrar que não anistiar sonegadores e criminosos foi uma das promessas de campanha da presidenta Dilma, que mesmo se o Código Florestal for descaracterizado pelos deputados, mantém a prerrogativa de vetar os pontos mais devastadores para a liderança ambiental do Brasil no mundo, principalmente no ano em que o país será o anfitrião de governantes de todo o planeta para um diálogo de construção de uma economia verde e de combate às desigualdades sociais, a Rio+20. (Envolverde)


por Dal Marcondes, da Envolverde
Substituir o PIB como medida de riqueza dos países é uma das recomendações feitas por pesquisadores que receberam um dos mais importantes prêmios mundiais na área ambiental. PIB

Ações para compatibilizar desenvolvimento econômico com sustentabilidade ambiental

[caption id="attachment_44448" align="alignleft" width="250" caption="Substituir o PIB como medida de riqueza dos países é uma das recomendações feitas por pesquisadores que receberam um dos mais importantes prêmios mundiais na área ambiental. Fonte: Wikipedia"][/caption] Um grupo de especialistas mundiais em meio ambiente publicou um documento reunindo um conjunto de recomendações para os líderes governamentais sobre ações necessárias e urgentes para compatibilizar desenvolvimento econômico com a sustentabilidade ambiental e social do planeta. Intitulado Desafios ambientais e desenvolvimento: o imperativo para agir, o documento foi elaborado por 20 cientistas laureados com o Blue Planet Prize. Concedido pela fundação japonesa Asahi Glass Foundation desde 1992 – por ocasião da realização no Rio de Janeiro da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, mais conhecida como Eco-92 –, o prêmio é considerado o “Nobel do Meio Ambiente”, dado que a máxima distinção científica concedida pela Fundação Nobel não premia essa área de pesquisa. Entre as personalidades laureadas com o prêmio, cujo nome é inspirado na máxima “a Terra é azul”, cunhada pelo cosmonauta russo Yuri Gagarin (1934-1968) após viajar pelo espaço, em 1961, está Gro Harlem Brundtland. A diplomata presidiu, no início da década de 1980, quando era primeira-ministra da Noruega, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e coordenou a realização do documento nomeado Nosso futuro comum, publicado em 1987 e mais conhecido como Relatório Brundtland, que popularizou a expressão “desenvolvimento sustentável”. O prêmio também foi concedido em 2008 a José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), que era secretário do Meio Ambiente do Brasil durante a Eco-92. Algumas das recomendações dos cientistas no documento são eliminar os subsídios em setores como os de energia, transporte e agricultura, que, na opinião dos autores, criam custos ambientais e sociais, e substituir o Produto Interno Bruto (PIB) como medida de riqueza dos países. Na avaliação dos autores do artigo, o índice é incapaz de mensurar outros indicadores importantes do desenvolvimento econômico e social de um país, como seu capital social, humano e natural, e como esses dados se cruzam. Por isso, poderia ser substituído por outras métricas, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). “O PIB só mede transações econômicas, que não é a única medida para se avaliar o progresso de um país. Há países como Cuba, que tem um desempenho econômico muito ruim e PIB e renda per capita baixos, mas cujo sistema educacional e de saúde são excelentes”, disse Goldemberg à Agência Fapesp. Outras recomendações dos cientistas são conservar e valorizar a biodiversidade e os serviços do ecossistema e criar mercados que possam formar as bases de economias “verdes”, e investir na criação e compartilhamento do conhecimento, por meio da pesquisa e desenvolvimento, que, na opinião dos autores, permitirão que os governos e a sociedade, em geral, “possam compreender e caminhar em direção a um futuro sustentável”. “Em síntese, a mensagem do documento é que não se pode seguir uma trajetória de desenvolvimento cujo único parâmetro seja o crescimento econômico”, avaliou Goldemberg. “Isto é muito comum no Brasil, por exemplo, onde os economistas dizem que a economia do país deve crescer 5% ao ano, mas se nesse processo a floresta amazônica for destruída, para muitos deles está tudo bem, porque o PIB está aumentando e gerando atividade econômica. Porém, se por um lado é gerado valor econômico, o país perde sua biodiversidade e futuro”, ponderou. O documento foi apresentado em 20 de fevereiro aos ministros de mais de 80 países que participaram da 12ª Reunião Especial do Conselho de Administração do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e do Fórum Global de Ministros do Meio Ambiente, em Nairóbi, no Quênia. O cientista inglês Bob Watson, que coordenou a redação do documento e o apresentou em Nairóbi, presidiu o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e atualmente é o principal conselheiro científico do Reino Unido para questões ambientais. Alerta para a Rio+20 De acordo com Goldemberg, um dos objetivos do documento é que a Rio+20, que será realizada no Rio de Janeiro de 20 a 22 de junho, resulte em resoluções concretas como as que emergiram na Eco-92, em que foi aprovada a Convenção do Clima. “Os preparativos da conferência estão dando a impressão de que ela será mais um evento de natureza retórica, o que será muito ruim. Ainda não há nenhuma proposta de assinatura de uma nova convenção ou de protocolos”, afirmou. Goldemberg participará em 6 de março da abertura do evento preparativo para a Rio+20 “Biota-Bioen-Climate Change Joint Workshop: Science and Policy for a Greener Economy in the context of Rio+20”, que a Fapesp realizará nos dias 6 e 7 de março no Espaço Apas, em São Paulo. Em sua palestra, na abertura do evento, Goldemberg abordará o papel da biomassa no contexto do desenvolvimento tecnológico e apresentará alguns pontos do documento. O artigo Environment and development challenges: the imperative to act, de Golbemberg e outros, pode ser lido em qualenergia.it/sites/default/files/articolo-doc/Blue-Planet-Synthesis-Paper-for-UNEP.pdf. * Publicado originalmente na Agência Fapesp.


por Elton Alisson, da Agência Fapesp
Apesar dos incentivos fiscais, iPhone4 brasileiro custará o mesmo que importado. Foto: Reprodução/Internet Economês

O custo da isenção no país dos impostos

[caption id="attachment_44439" align="alignleft" width="270" caption="Apesar dos incentivos fiscais, iPhone4 brasileiro custará o mesmo que o importado. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] Praticamos e consumimos bens a preços recheados de cobiça – tanto governamental quanto empresarial. Está para nascer quem vai entender certos acordos firmados entre o governo e empresas de tecnologia que buscam abrir fileiras no país. Em nome da empregabilidade de alguns projetos, cria-se todo o tipo de isenções – jamais concedidos, por exemplo, a empreendedores bem intencionados. Com incentivos fiscais para fabricar o iPhone 4 da Apple em Jundiaí, a Foxconn anunciou que vai precificar seu carro-chefe 100% nacional nos padrões praticados via importação. Em outras palavras: apesar de todo o “mole” dado pelo governo, o iPhone 4 de 8GB custará o mesmo que o produto importado – em torno de R$ 1,8 mil. Está certo que o preço ao consumidor depende de uma planilha de custos do empresário. Em nome de 1.300 empregos, o produto foi enquadrado no Processo Produtivo Básico (PPB), da Lei de Informática, um benefício que reduz o IPI de 15% para 3%. Hipnotizadas pela ideia de transferência de tecnologia, nossas autoridades não interferem nos preços a serem praticados pelo novo entrante que traz ao país investimentos da ordem de US$ 12 bilhões e mais 4% que faturar – aplicado em pesquisa e desenvolvimento. O próprio secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Virgílio Almeida, entende que o valor ainda é alto porque a produção do iPhone está começando agora, mas aposta na queda dos preços nos próximos meses. Não se sabe sobre a cessão do terreno da planta da Apple em Jundiaí, mas sabe-se que o governo do Rio de Janeiro ofereceu à Foxconn uma área de mais de dois milhões de metros quadrados para a instalação de fábrica idêntica em Campo Grande, bairro de vocação industrial na zona oeste da capital. É certo que a Foxconn ainda terá um caminhão de impostos para pagar – igualzinho a mim e a você. Os impostos estaduais de São Paulo, por exemplo, atingem 46,7% do preço do produto no país que mais cobra impostos em todo o mundo. Fruto do desejo de milhões de usuários brasileiros – o que aumenta seu “potencial hype” –, o iPhone 4 obedece ainda à velha e moderna lei de mercado: quanto menor a oferta e maior for a procura, mais o produto se valoriza e seu preço vai às nuvens – diferente dos Estados Unidos onde já é considerado “popular”. O valor agregado da cobiça Ocorre que lá, no país da concorrência, sucumbe quem não tem os melhores preços, os melhores serviços ou soluções. Não somente iPhones custam mais aqui do que lá, mas também roupas, carrinhos de bebê e, acredite, até mesmo consultas médicas. Nas terras de Barack Obama, um Toyota Corolla não custa mais de US$ 18 mil. Vai ver o preço por aqui… Para ouvir a palavra de um médico brasileiro de primeira linha esperam-se alguns meses pela consulta que, invariavelmente custa mais de R$ 1 mil – dependendo de sua especialidade. A mesma consulta com especialistas norte-americanos custa um quarto do valor e paga-se a viagem com o restante – e um pouco mais – com a vantagem de fazer turismo por alguns dias. Como se vê, praticamos e consumimos bens a preços recheados de cobiça – tanto governamental quanto empresarial. Talvez um dia tenhamos valores mais justos que não considerem fatores tão fúteis como modismos e urgência de consumismo – mesmo que seja impossível derrubar a boa e velha lei da oferta e da procura. * Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Claudio Carneiro, do Opinião e Notícia
Cerca de 130 empresas brasileiras iniciaram oferta pública de ações de 2004 até hoje. Empresas

Empresas fazem abertura de capital para crescer e investir

[caption id="attachment_44434" align="alignleft" width="230" caption="Cerca de 130 empresas brasileiras iniciaram oferta pública de ações de 2004 até hoje."][/caption] A oferta pública inicial de ações (também conhecido como IPO, na sigla em inglês) é um processo utilizado pelas empresas para captar recursos para a expansão de suas atividades, ter um referencial de seu valor, profissionalizar a gestão da companhia ou mesmo como uma alternativa para a sucessão, no caso de uma empresa familiar. Na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP um estudo pesquisou as companhias brasileiras que abriram seu capital na bolsa de valores entre os anos de 2004 e 2010, período marcado pelo maior número de IPOs da história recente do país. “Os resultados indicam que as empresas que abriram o capital foram aquelas que vinham investindo significativamente no seu crescimento e/ou aquelas que vinham aumentando o seu endividamento e encontraram na abertura de capital uma alternativa para adequar a sua estrutura de capital (diminuir a relação de dívida versus capital próprio)”, conta o administrador Bruno Cals de Oliveira, responsável pelo estudo de mestrado Fatores determinantes para abertura de capital de empresas brasileiras, orientado pelo professor Roy Martelanc. A pesquisa de Cals mostrou que as empresas encontraram na abertura de capital uma boa opção para continuar investindo e crescendo. “Além disso, as empresas que iniciaram a negociação de suas ações apresentaram maior nível de rentabilidade, aproveitando uma janela de oportunidade do mercado para fazer sua IPO”, conta ele. Cerca de 130 companhias brasileiras abriram seu capital entre 2004 e 2011 – 64 delas o fizeram durante o ano de 2007, estabelecendo um recorde. Conjuntura econômica Cals conta que o contexto financeiro da época também ajudou nesse processo: “Se os setores da economia não estão crescendo, as empresas não precisariam de recursos para expandir. Se elas não precisam de recursos, do ponto de vista financeiro, não seria necessário a IPO”. Ele ainda acrescenta que a taxa de juros é um fator muito importante para a confiança dos investidores, propensos a comprar ações de organizações em IPO. “Quando a taxa de juros está alta, os investidores preferem ter uma renda fixa de 20% ao ano a buscar uma rentabilidade maior, mas com um risco maior. À medida que as taxas de juros vão caindo (atualmente estão em torno de 10,5% ao ano), os investidores podem optar por correr um maior risco com vistas a maior rentabilidade”, diz ele. O pesquisador ainda explica que o aumento no número de aberturas de capital também foi facilitado graças à criação de regras mais rígidas para a entrada de empresas na bolsa de valores, em dezembro de 2000. “Foram criadas regras além daquelas exigidas pela legislação vigente (Lei das Sociedades Anônimas – Lei 6.404/76) que aumentavam a transparência das empresas e, consequentemente, a confiança que o investidor, principalmente internacional, poderia ter ao aplicar seu dinheiro em ações no Brasil.” Sudeste De acordo com o estudo, as empresas localizadas na região Sudeste são as mais propensas à abertura de capital, devido a um possível fator cultural. “A concentração econômica nesta região faz com que empresários de outras regiões possam ter uma resistência à abertura de capital, seja pela distância do grande polo financeiro, seja pela menor convivência no ambiente do mercado de capitais”, explica o administrador. Outro dado interessante é que o tamanho das empresas não foi significante para que as empresas da amostra estudada abrissem capital ou não. “O Brasil tem vivenciado IPOs de empresas ainda pequenas, pré-operacionais, e também o fato de ainda existirem inúmeras empresas grandes que optaram por não iniciar negociação de suas ações em bolsa de valores”, diz Cals. Método e limite Por intermédio de dados fornecidos pela Fundação Instituto de Pesquisa Contábeis, Atuariais e Financeira (Fipecafi), entidade ligada à FEA, Cals analisou os dados pela regressão logística com dados agrupados e a regressão logística com dados em painel. Este tipo de análise permite calcular quais variáveis impactam positivamente ou negativamente outras variáveis. “Avaliamos o impacto de diversas variáveis (tamanho, nível de investimento, estrutura de capital, localização geográfica, entre outras) na probabilidade de abertura de capital de empresas brasileiras”, explica o pesquisador. “Essa é uma pesquisa que foi limitada ao período compreendido entre os anos de 2004 e 2010. Ela não serve como previsão do que pode acontecer, uma vez que a realidade futura das empresas pode mudar de acordo com os avanços e as mudanças da economia brasileira." * Publicado originalmente no site Agência USP.


por Bruno Capelas, da Agência USP
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Países ameaçam Europa com guerra comercial aérea

Grupo de 23 países que se opõem à decisão da União Europeia de cobrar uma “taxa de emissões de carbono” de toda aeronave que pouse em solo europeu ou decole dele se reuniu em Moscou e aprovou um conjunto de medidas retaliatórias, escalando as ameaças de darem início à primeira guerra comercial do carbono. Para Valery Okulov, vice-ministra de Transportes da Rússia e presidente da estatal Aeroflot, o objetivo é adiar a entrada em vigor ou o cancelamento da inclusão da aviação no Sistema de Comércio de Emissões (ETS) da União Europeia (UE). O documento final, cuja cópia foi também obtida pelo blog Business Green, lista oito contramedidas que os signatários poderiam adotar para enfrentar os planos da UE de efetivamente impor uma taxa sobre voos que entrem ou saiam da Europa. Entre os países que assinaram o documento estão Rússia, Estados Unidos, China, Brasil e Índia. Mas a decisão final foi que cada país está livre para definir a melhor combinação de medidas retaliatórias, tendo em vista as condições específicas de suas rotas com a Europa. Os opositores dizem que a taxa é unilateral e extraterritorial, ferindo a legislação internacional, e ameaçam entrar com uma reclamação formal junto à Icao, Organização Internacional de Aviação Civil. A Europa argumenta que a medida é legal, pois só vale em território europeu e que se está criando um enorme problema em torno de uma medida necessária e de pequeno impacto econômico, com grandes benefícios ambientais futuros, porque levará à busca de alternativas para reduzir as emissões da aviação. Segundo dados divulgados em fevereiro por autoridades europeias, a taxa aumentaria, por exemplo, em 1,34 euro (perto de R$ 3) o custo por passageiro de um voo de Londres para Nova York, e 0,76 euro (em torno R$ 1,71) a passagem de Londres a Moscou. Um operador do mercado de carbono, concorda, dizendo que está se fazendo uma enorme gritaria por causa de valores extremamente pequenos. A taxa corresponde a 15% das emissões totais, a cota correspondente aos 85% restantes é concedida gratuitamente. A Comissária Europeia para Ação sobre o Clima, Connie Hedegaard disse ao The Economic Times que a legalidade da medida ficou estabelecida quando as empresas aéreas do Estados Unidos entraram com reclamação contra ela nas Cortes de Justiça da Europa, cuja decisão foi que o ETS não viola nenhuma lei ou tratado internacional existente. Ela também minimizou a importância da reunião, dizendo que esta oposição não é tão forte quanto aparenta ser. “Foram convidados a Moscou 160 países, mas apenas vinte e tantos compareceram. Eu gostaria de perguntar aos ministros em Moscou, se não gostam do sistema europeu, então nos digam qual vocês gostam”. No Twitter, @CHedegaardEU, tuitou: @CHedegaardEU Unfortunately, our question for Moscow meeting participants remains unanswered: what’s your concrete, constructive alternative? @CHedegaardEU Infelizmente, nossa pergunta para os participantes do encontro em Moscou permanece sem resposta: qual a sua alternativa concreta e construtiva? Segundo o The New York Times, o governo Obama apoia regras globais para as emissões de gases estufa da aviação internacional, mas se opõe à medida europeia por causa de possíveis violações a tratados existentes de aviação e porque poderia atrasar o esforço por um acordo mais abrangente e global nas Nações Unidas. Essa ameaça de guerra comercial aérea já estava na pauta desde o ano passado, quando a União Europeia oficializou a medida e definiu o cronograma para sua implementação. Estava previsto que, a partir de 1º de janeiro, o ETS incluiria as empresas aéreas, que deveriam comprar créditos para compensar as emissões de carbono de todos os voos que comecem ou terminem em aeroportos europeus, o que define uma taxa efetiva sobre as emissões desses voos. Também já estava claro que a União Europeia não voltaria atrás. Em Durban, no final do ano, durante a reunião da Convenção do Clima, ouvi a Comissária Connie Hedegaard e Arthur Runge-Metzger, negociador-chefe da UE, dizerem que já previam algumas retaliações de parceiros descontentes. A mais previsível é que alguns voos deixassem de fazer escala em aeroportos europeus. Mas as perdas de eventuais retaliações, a maioria previsível, segundo eles, seriam compensadas pelos ganhos derivados da observância das metas europeias de emissões. Eles argumentaram, também, que a medida era legal, legítima e irreversível e que existia uma alternativa melhor: a aprovação de uma medida mais abrangente, aplicável globalmente, que poderia ser gerenciada pela Icao. A plataforma de Durban, aprovada ao final da COP17, em dezembro, prevê a finalização das negociações para acordos de redução de emissões tanto da aviação civil, quanto da navegação marítima. Mas estas negociações, até agora, permanecem paralisadas por impasses que vêm de anos. Os dois negociadores europeus argumentavam que a decisão da UE era soberana, dentro de seu plano de redução de emissões de gases estufa, o qual é mais avançado que o dos demais países. Esta decisão teria, também, o efeito adicional, disseram, de aumentar a pressão e o incentivo para que se alcance solução global eficaz para as emissões da aviação, que são muito altas, ao contrário do que teme o governo dos Estados Unidos. * Publicado originalmente no site Ecopolítica.


por Sérgio Abranches, do Ecopolítica
foto_mat_33836 Artigo

Na era da hipocrisia: um novo mundo, um novo capitalismo

O maior ideólogo e articulista do Financial Times, porta-voz do mercado financeiro, escreveu um longo artigo indicando as sete lições para corrigir o capitalismo, que ele considera a "ideia mais brilhante da humanidade": em síntese, corrigir as práticas irregulares, fazer os ricos pagarem os impostos, distribuir a tributação não para os perdedores, faz questão de registrar, mas para os "filhos dos perdedores". E termina com um apelo: "esforcemo-nos para torná-lo melhor". Quem sabe, com um pouquinho maior de esforço, não acabamos logo de enterrá-lo. Essa é uma viagem sobre as conversas, debates, fóruns que ocorreram no início do ano trágico de 5126, o último ano do calendário maia. Quando dois outros calendários de povos antigos – chineses e judeus – apontam para uma coincidência histórica, o número 3. O ano do dragão 4710, na soma dos números indica 12. O ano de 5772, dos judeus, a soma é 21. Os dois resultam em 3, o número da superfície, como definiu Pitágoras de Samos (cerca de 580/578-497/496 a.C.), o homem que traduziu o funcionamento do planeta em números. Será o ano em que o capitalismo vai tremer nas bases? Aliás, só não começou, porque o Banco Central Europeu deu um presente de Natal aos 523 bancos do velho continente, a 1% de juros ao ano, com três de prazo para pagamento. A dose foi reforçada no apagar das luzes de fevereiro, com mais 530 bilhões de euros, nas mesmas condições. Uma medida com objetivo de evitar uma quebradeira maior que a do Lehman Brothers, em 2008. Portanto, essa é a viagem na era de impostura, da falsidade, das falsas devoções, a era da hipocrisia, a nossa própria era capitalista. O "Super Mário", como os articulistas do mercado financeiro apelidaram o italiano Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, nos anos 2002-2005 ocupou uma diretoria do Goldman Sachs. Foi ele o responsável pela muralha de dinheiro que impediu a falência do sistema bancário europeu. O Goldman, por sua vez, está em recessão e teve que cortar o salário do chefe, LLoyd Blankfein pela metade – US$ 7 milhões. Enquanto isso, no mundo emergente, o Brasil começa a preparação da Rio+20, conferência da ONU que pretende reunir 50 mil pessoas e 150 chefes de Estado, na visão dos diplomatas que coordenam a organização. O orçamento do evento foi aprovado pelo Congresso Nacional no final de 2011: são R$ 430 milhões, sendo R$ 230 milhões para segurança, R$ 190 milhões para logística, R$ 30 milhões para aluguel de espaços, como o Riocentro. Onde se concentrarão as discussões. Na Cidade do Rock, os estandes das empresas sustentáveis – bancos, mineradoras, petrolíferas, montadoras, varejistas. No Aterro do Flamengo, o "Território do Futuro", onde os representantes da sociedade civil encaminharão suas propostas. Passaram 40 anos, o futuro virou presente "Uma Terra Só", foi o lema da primeira conferência da ONU, em Estocolmo, na Suécia, em 1972. Resumia a preocupação com o futuro do planeta e as alternativas para resolver a situação. No mesmo ano, um grupo de empresários, cientistas e técnicos, lançavam os "Limites do Crescimento", pelo Clube de Roma, anunciando o desastre se os métodos de crescimento econômico não mudassem em cem anos. Como todo documento europeu, tinha uma preocupação com o crescimento da população, diga-se, dos pobres, e da possibilidade de não haver matéria-prima suficiente para todos. "Nosso Futuro Comum", foi um outro documento da ONU, liderado por uma dirigente da Dinamarca, na Comissão Brundtland. Em 1997, na Rio+5, quando as entidades da sociedade civil colocaram um "mentirômetro" na porta do hotel no Rio, onde o evento acontecia, o lema tratava do "Futuro que Queremos". Um novo mundo de paz, crescimento justo, fim da miséria, uso de energia limpa, uma economia de baixo carbono. Em 2011, a ONU anunciou que dos 24 serviços ambientais que recebemos gratuitamente do planeta, 60% estão degradados. O Programa do Meio Ambiente da ONU (Pnuma), anunciou que precisamos de US$ 1,3 trilhão, para promover a economia de baixo carbono em dez setores principais, como indústria, transporte, energia e agricultura. Amnésia à beira mar Aproveitei a onda de calor de Porto Alegre, conhecida atualmente por Forno Alegre, a maior seca em 60 anos, mais a onda de frio na Europa do leste, e repassei os documentos aprovados e anunciados com suas metas estabelecidas, nos últimos anos. Principalmente, na Eco 92, considerada a maior conferência do gênero, ao reunir 120 chefes de Estado, quatro mil ONGs e 15 mil pessoas, no mesmo Rio de Janeiro. Os burocratas que organizam anualmente esses eventos têm uma preferência clara por cidades à beira mar, como Cáncun, onde realizaram a conferência climática de 2010, ou Durban, na África do Sul, no ano passado. Evento que enterrou o Protocolo de Kyoto, desde o anúncio da negativa de participação da Rússia, Canadá e Japão, na próxima etapa. Kyoto foi aprovado no Japão com a presença de 170 chefes de Estado, em 1997. Só entrou em vigor em 2005, quando a Rússia resolveu aderir, dando assim a percentagem final – mais de 50% das emissões de gases estufa –, necessária para a implantação. Porém, a amnésia é um dos ingredientes nos eventos dessa natureza. Agenda 21: 800 páginas, 40 capítulos Eu não li as 800 páginas de documentos aprovados na Eco 92, na chamada Agenda 21, com quatro seções e 40 capítulos. Li um resumo de 160 páginas do professor José Carlos Barbieri, da Escola de Administração, da Fundação Getulio Vargas. O documento foi chamado de "Guia da Humanidade". E realmente era. A primeira seção abordava as dimensões sociais do desenvolvimento sustentável, a cooperação internacional, padrão de consumo, população, saúde. Tem sete capítulos. A seção II tem 14 capítulos, envolve as dimensões ambientais, a atmosfera, os oceanos, os ecossistemas frágeis, a biodiversidade. A seção III engloba os grupos sociais envolvidos, mulheres, jovens, índios, trabalhadores, empresários, ONGs. E a seção IV refere-se aos meios para implantar os programas e as atividades recomendadas nas seções anteriores, incluindo recursos financeiros, transferência de tecnologia, educação. Diz o professor Barbieri: "cada capítulo apresenta, via de regra, uma introdução ao problema e as áreas de programas de ação com objetivos, atividades e meios de implementação, com as estimativas de recursos financeiros necessários". Os países ricos, que ainda são os mesmos, se comprometeram a doar 0,7% do PIB, na época o volume da economia mundial estava em torno de US$ 16 trilhões, o que dava uma verba de US$ 112 bilhões ao ano. Mas as estimativas da Agenda 21 apontavam que seriam necessários em torno de US$ 607 bilhões por ano, durante o período 1993-2000, para a implantação das atividades recomendadas, em vários de seus capítulos. Reiventar a civilização industrial Mais uma citação do professor Barbieri: "muito do que foi tratado na Agenda 21 e em outros documentos aprovados na CNUMAD (a conferência de desenvolvimento sustentável) não saiu do papel. Muitos chefes de governo apoiaram propostas e acordos internacionais contrários a suas convicções e compromissos partidários, face às pressões exercidas pela exposição dos temas na mídia internacional e à vigilância ruidosa de muitas ONGs, mas pouco fizeram para ratificá-los e implantá-los em seus países". Maurice Strong, ex-dirigente do Banco Mundial, foi o presidente do Conselho da Terra, em 1997: "precisamos reinventar a civilização industrial", anunciava ao público, "que produziu riscos para a sobrevivência da espécie humana... A mais bem-sucedida, mas sem controle. Nosso futuro está em nossas mãos, podemos gerar uma era de boas notícias para a família humana". Mikail Gorbachev, um líder ainda respeitado dizia: "a civilização chegou ao seu fim, exauriu suas possibilidades. Temos que chegar a um consenso sobre novos valores". Ainda em 1992, 140 ganhadores do Prêmio Nobel, lançaram um documento onde afirmavam: "com as tecnologias atuais em 30, 40 anos acontecerão mudanças irreversíveis na biosfera. Até 2015, no ritmo atual, podem desaparecer entre 1% e 11% das espécies nas florestas tropicais, com taxas de desmatamento acima de 15 milhões de hectares ano, ou 150 mil quilômetros quadrados (km2)". Na Amazônia, se desmatou mais de 20 mil km2 por ano, nesta época. As espécies sumiram, e grande parte das florestas também. Vieram os anos do neoliberalismo, da globalização do sistema financeiro, das privatizações do mundo em desenvolvimento, a era Bush, duas invasões de países, com mais de US$ 2 trilhões em gastos na guerra ao terror. A economia gera US$ 45 trilhões de riquezas, um bilhão de pessoas passam fome, dois bilhões não tem água, dois terços dos norte-americanos estão acima do peso. Indústria de embalagem fatura uns US$ 739 bilhões Mais de um bilhão de carros, com cinco novas montadoras se instalando no Brasil, o quarto mercado mundial de veículos. Os Estados Unidos comemoram o renascimento das montadoras nativas (GM e Chrysler, sob comando da Fiat). Em 2012, a meta é vender 13,9 milhões de carros, quando vendiam 17 milhões em 2007. Não vão alcançar a China, com seus 18 milhões. Qual será a meta da indústria mundial de veículos: dois bilhões de carros. Quem sabe três bilhões? Como será São Paulo com 12 milhões de carros, o dobro da frota atual? Vejamos as estratégias definidas pela Agenda 21: "Estimular o uso mais eficiente de energia e recursos, reduzir os resíduos ao mínimo, estimulando a reciclagem, redução do desperdício na embalagem de produtos e a introdução de novos produtos ambientalmente saudáveis. Estabelecer políticas de preços que incorporem os custos ambientais. Reforço aos valores que apoiam o consumo responsável, por meio da educação, de programas de esclarecimento público, publicidade de produtos ambientalmente saudáveis". A indústria de embalagens no planeta vai faturar US$ 739 bilhões até 2014, 60% com embalagens para consumo, uma parte, em embalagens de papel, onde o consumo cresce mais, junto com papel higiênico. A Stora Enso, com 85 fábricas no mundo, que no Brasil participa da Veracel, na Bahia, está transferindo sua sede mundial, na área de negócio de biomateriais, para um escritório no Itaim Bibi, capital paulista. No volume de US$ 447 bilhões gastos em publicidade no mundo, talvez, uma mínima percentagem seja destinada aos produtos "saudáveis". Um novo chamariz Hipocrisia ainda é um termo muito polido e educado como retrato das condições atuais do planeta. Por exemplo: o Pnuma, com sede em Nairóbi, no Quênia, responsável pelos programas de meio ambiente da ONU, tem um orçamento em torno de US$ 100 milhões, e 80 países, dos 193 da entidade, participam. As verbas são doadas por contribuições do Japão e do Reino Unido. Não tem o poder da Organização Mundial de Saúde para definir leis e regulamentações sobre qualquer assunto ligado à sua área. Então, qual a nova ideia para atrair os chefes de Estado ao Rio de Janeiro: a criação da agência internacional do meio ambiente. Ideia que nem o Brasil, o anfitrião, concorda. Mas dá, vamos dizer, um novo chamariz ao evento. O tema da Rio+20 é "desenvolvimento sustentável no contexto da erradicação da pobreza". O debate, entre os diplomatas brasileiros e europeus, principalmente, é sobre a orientação das discussões. Mais para o lado ambiental, como querem os europeus, ou para a "economia verde", como defendem os brasileiros. Muitos debates estão acontecendo pelo país. Entidades como a Confederação Nacional da Indústria, a Confederação Nacional da Agricultura, o Instituto Ethos, onde participam grandes empresas, a Associação Brasileira de Agronegócio. Esta última realizou um debate no Macksoud Plaza, em São Paulo com o título "Despertar para a Rio+20", onde o ex-ministro da Agricultura, além de agricultor e dirigente da Fiesp, Roberto Rodrigues, opinou que "tem muito medo dessas reuniões gigantes se transformarem em uma imensa masturbação intelectual". O presidente da Abag, Luiz Carlos Carvalho, disse que o tema do encontro não é o meio ambiente, mas a sustentabilidade. Crédito para reserva legal com eucalipto Já a presidente da Associação Nacional da Indústria de Papel e Celulose, Elizabeth Carvalhães, defendeu a recuperação das áreas degradadas e a concessão de crédito para os produtores, além de um Código Florestal moderno. Reserva legal para eles é plantio de eucalipto, é a monocultura industrial, que insistem em chamar de floresta. Tem mais: ainda pretendem colocar as "florestas" como sumidouro de carbono, porque sugam um bilhão de toneladas de CO2. Se fosse descrever o esquema industrial com seus aditivos químicos, o principal deles o cloro, usado no branqueamento da celulose e do papel, com seus derivados como a dioxina, ia faltar espaço. O Instituto Ethos definiu nove diretrizes e três metas para a Rio+20: economia verde, redução das desigualdades e combate à corrupção. As diretrizes são todas cópias da Agenda 21. Aliás, esta é a questão. Talvez fosse muito mais sustentável distribuir aos participantes uma cópia das 800 páginas, já definidas e não implantadas, 20 anos atrás. Programados para quebrar Mas a vida segue. E a economia também. O capitalismo reinante ainda é o da obsolescência programada, conforme o caderno especial do jornal Valor Econômico, publicado no final de janeiro. Obsoleto, que está em desuso, saiu da moda, ou como deve ser aplicado o termo atualmente, programado para quebrar. É assim que funciona a indústria do Século 21. O período para troca de geladeira e lavadora de roupas era de dez anos. Agora é de 5,6 anos. Em 2009, foram lançados 163 modelos de televisores de tela plana. Em 2011, foram 256. A oferta dos tipos de celulares: de 116 para 175. De computadores de mesa, de 476 para 835. Em 2005, a LG tinha quatro modelos de fornos de micro-ondas, hoje, são 120. A outra coreana, a Samsung tinha dez passou para 200. A explicação da indústria é a seguinte: a taxa da obsolescência encurta à medida que a inovação tecnológica acelerou e o processo de produção ficou mais barato. O cálculo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) é que o lixo cresce a um ritmo maior do que a população, 6,9% em 2010. No Brasil a produção de lixo alcança 60 milhões de toneladas ano, sendo 60% destinado a aterros sanitários e 40% aos lixões. 50 bilhões de aparelhos conectados A quebra programada de produtos foi uma estratégia da indústria lançada após a Segunda Guerra Mundial. Faltavam consumidores, então, o negócio era fazer os mesmos comprarem novamente, novos produtos. Vamos dar uma reforçada com os números dos produtos eletrônicos adorados pelos modernos consumidores das metrópoles, das cidades pequenas, vilarejos. Em 2012, serão vendidos 103 milhões de tablets, a última maravilha da era digital. As vendas de PCs, computadores de mesa, deverá crescer 4,5%, para cerca de 370 milhões de unidades. E a Intel lançou na feira de Las Vegas, a maior de eletrônicos, o ultrabook (registrou o nome), para concorrer com smartphones e tablets – é um laptop mais fino, mais rápido, mais sensual, mais... Serão vendidos, segundo a empresa de pesquisa Gartner INC., 657 milhões de smartphones em 2012. Já existem 800 milhões ativos. Computadores são 1,5 bilhão e logo chegaremos aos dois bilhões. Segundo a multinacional de equipamento Ericsson, existem sete bilhões de dispositivos conectados no mundo, isso inclui, telefones, computadores, eletrodomésticos, carros, lâmpadas, sapato, vou sugerir – vaso sanitário. Em 2020, serão 50 bilhões. A seu modo, informa a empresa, "cada um desses itens precisará de componentes que permitam a eles se conectarem a redes, exibir informações ou até mesmo processar alguns dados". Blackberry virou Crackberry A Intel domina 80% de chips para computadores no mundo, e teve receita de US$ 43 bilhões, em 2010. O aparelho da Rim, empresa canadense, conhecido por Blackberry ganhou um apelido no mercado de executivos, logo ele, que era o brinquedinho favorito dos executivos abonados: "crackberry". Recentemente a Volkswagen, que pretende ultrapassar a Toyota na produção de carros no mercado global, produzindo mais de oito milhões de unidades, lançou um comunicado, depois de acordo com os sindicatos, onde os funcionários só podem receber telefonemas de trabalho ou email, 30 minutos antes e 30 minutos após o expediente. O presidente executivo da Volks, Martin Winterkorn parabenizou os trabalhadores ao completarem 38 turnos extras e por terem produzido 50 mil veículos adicionais, no final de 2011. Emergentes aquecidos representam 67% do crescimento da economia mundial, segundo o Goldman Sachs, e somarão 59% de todo o PIB global em 2030. Seus cidadãos botaram o pé na estrada, entupiram aeroportos e baixaram em Nova York com toda a força; a cidade recebeu 50 milhões de turistas, 655 mil brasileiros, que só estão atrás de ingleses e franceses, em gastos. Os brasileiros vão às compras no exterior, gastaram US$ 21 bilhões, enquanto os estrangeiros não gastaram US$ 7 bilhões nas belezas tupiniquins. Contando o juro das prestações e dos cartões de crédito gastos internamente, a montanha cresce muito. Segundo o professor Yoshiaki Nakano, da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas, os brasileiros pagam por ano R$ 130 bilhões em juros. O cara compra um veículo, paga dois, uma máquina de lavar, também, uma televisão de tela plana, também. Uma falha tão grave no mercado É por isso que dois economistas de mercado, fãs de carteirinha, como assinalou Eduardo Giannetti da Fonseca, professor do Insper, e André Lara Resende, um dos criadores do Real, abriram o verbo. Primeiro Giannetti, em entrevista ao Valor: "Eu, que sou fã da economia de preços e de mercado, hoje, percebo que ela padece de uma cegueira absurda, que é o modelo como usamos os recursos ambientais. O sistema de preços é completamente omisso em relação ao custo ambiental de nossas escolhas de produção e consumo. Não sinaliza a gravidade de que estamos fazendo com o espaço biológico de que nossa vida depende". Outro trecho: "O sistema de preços vai ter de mudar. Ele padece de uma falha tão ou mais grave no longo prazo do que o planejamento central. Nunca imaginei que diria isso na vida. É muito sério e está em tudo. Nunca se imaginou que o sistema de preços e a economia competitiva de mercado, capaz de gerar riqueza, tivesse uma falha tão grave". Giannetti cita um exemplo sobre o aparelho de ar-condicionado nos Estados Unidos. Em 1960, 80% dos condomínios não tinham ar-condicionado, o equipamento era caro e o custo de energia elevado. Hoje, 84% dos condomínios têm o aparelho. Entre 1993 e 2005, a eficiência energética do ar-condicionado aumentou 20%, enquanto o consumo médio por aparelho aumentou 35%. Ficou tão barato que os donos deixam o aparelho ligado. "A China, entre 1997 e 2007, triplicou o número de aparelhos. Vai crescer dez vezes o uso de ar-condicionado entre 2005 e 2030. Com o compressor cada vez mais barato e a eficiência maior, o consumo de energia vai aumentar. Esta conta não fecha. Tecnologia não é a resposta." Economia mundial será obrigada a parar de crescer No final de 2011, a China fechou uma outra conta: 690 milhões de cidadãos do país estão morando em cidades, contra 656 milhões que continuam no campo. Em 1979, 81% dos chineses moravam na zona rural. No mundo, dos sete bilhões, 51% moram na zona urbana. André Lara Resende escreveu um longo artigo para o Valor, "Os novos limites do possível", onde trata do mesmo tema, um pouco mais profundamente. Citando o ex-ativista do Greenpeace, agora professor de sustentabilidade da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Paul Gilding, que lançou recentemente um livro sobre o destino do modelo econômico atual. Lara Resende destacou a tese do professor inglês: "A economia mundial será obrigada a parar de crescer. Como não houve uma transição antecipada, como não nos preparamos para uma economia estacionária, seremos obrigados a enfrentar uma parada brusca, profundamente traumática. O momento da tomada de consciência do fim do crescimento e da necessidade de uma profunda reorganização da economia não está longe. Questão de, no máximo, mais uma década. Diante da falha do sistema de preços e da incapacidade de tomarmos medidas preventivas, chegamos ao limite sistêmico. As múltiplas dimensões desse limite estão todas interligadas. Ao romper-se uma delas o processo se acelera e aumenta a probabilidade de que outros também venham a ser rompidos". Para completar o raciocínio, segue Lara Resende: "Atingimos o limite físico do planeta. Para evitar uma catástrofe de grandes proporções seremos obrigados a tomar medidas de emergência, extremamente duras, com o estabelecimento de cotas. Seremos obrigados a reconhecer o que, apesar das evidências, nos recusamos a ver: não há como viabilizar sete bilhões de pessoas, com o padrão de consumo e as aspirações do mundo contemporâneo, nos limites físicos da Terra. O crescimento baseado na expansão do consumo de bens materiais está no seu capítulo final. A eventual parada súbita da economia chinesa seria a pá de cal na esperança de uma saída harmoniosa para o impasse em que a economia mundial se encontra". Resumindo: o crescimento pode não ser mais a opção de saída para a crise. Lara Resende ainda alerta que não está se discutindo nem uma abordagem nova sobre o tema: "o mecanismo psicológico de autoengano, da negação dos fatos, segue inabalável". Livrar o capitalismo do lado sombrio Não se pode chamar nem Gannetti nem Resende, que já trabalhou como banqueiro, de ecologistas ou ambientalistas. É por estas e outras que o debate sobre o rumo do capitalismo entrou em vários fóruns. Em Davos, a elite econômica chegou pessimista, mas se animou com os 489 bilhões de euros do BCE, "uma inundação de liquidez", como comentaram. O executivo chefe da empresa de consumo Unilevar, concorrente da P&G, com faturamento de 46 bilhões de euros, Paul Polman, disse que o capitalismo e o livre mercado devem ser mais sensíveis a questões sociais: "é inaceitável que 200 milhões de pessoas estejam desempregadas". A revista Time e a BBC, de Londres, animaram acirrados debates sobre a fórmula de "corrigir o capitalismo". David Rubenstein, um dos fundadores do Carlyle Goup, um dos maiores administradores de fundos do planeta, que embolsou US$ 400 milhões em salários e bônus, junto com dois de seus sócios no final do ano passado, estava preocupado: "O capitalismo é o melhor sistema para o mundo, é preciso melhorar as leis e regulamentações para que o sistema seja justo. Temos que investir em inovação e educação". Angel Gurria, secretário-geral da OCDE, organização que reúne os países ricos, disse que "precisamos livrar o capitalismo do seu lado mais sombrio". Qual deles? Na Europa o índice de desemprego da Espanha é de 22,9%, sendo que entre as pessoas com até 25 anos, 48,7% estão desempregadas. Na Grécia, o índice é de 19,2%, na Irlanda de 14,5%. Enfim, a média europeia é de 10,4%. Novo capitalismo: conectado e transgênico José Manuel Barroso, presidente da Comissão Europeia, declarou: "não podemos aceitar que 25% dos jovens da Europa estejam desempregados". Mas o melhor da festa em Davos, o requintado retiro dos abastados nos Alpes suíços, estava destinado aos representantes norte-americanos. A deputada democrata Nita Lowey, de Nova York foi incisiva: "Os Estados Unidos estão determinados a manter sua força militar e ser o poder predominante no Século 21". E o republicano (senador) Bob Corker completou: "Os norte-americanos não estão psicologicamente preparados para ter um papel secundário nos assuntos globais". Como o dono da bola num jogo de futebol, norte-americanos e europeus estão dizendo o seguinte: a bola é minha, só eu ganho. Sem concorrência. Senão, acaba o jogo. No caso do maior aparato militar do planeta, isto pode ter um significado tenebroso. Chegamos ao novo capitalismo. Depois da quebradeira ou das explosões dos ricos. Como funcionará o novo sistema? Conectado, logicamente. E também transgênico, conforme a previsão da indústria química, que também é a dona das empresas de sementes. Elas plantam 160 milhões de hectares, 30 milhões no Brasil, que é o país que mais investe em transgênicos do mundo em desenvolvimento, onde os índices não param de crescer. A indústria já tem quase 40% do mercado de sementes, que gira US$ 37 bilhões – o dado de 2011 é US$ 13 bilhões. Ela vende uma semente transgênica e um veneno definido, só a planta é imune. Mark, do Facebook: a minha ação vale 10 Vai ser conectado porque são as empresas que mais crescem. O lucro da Apple foi de US$ 25 bilhões no ano passado. O Google tem US$ 40 bilhões em caixa. O Facebook, do jovem Mark Zuckerberg, vai lançar ações na bolsa e pretende captar US$ 5 bilhões. A empresa faturou US$ 3,7 bilhões, mas a especulação diz que vale US$ 100 bilhões. O Goldman Sachs, na dúvida, investiu US$ 1 bilhão antes de começar a corrida. O mesmo fez o príncipe Alwaleed Bin Talal, saudita, sobrinho do rei Abdulah, que investiu US$ 300 milhões no Twitter. Zuckerberg, como novo capitalista, frugal, de jeans, camiseta e tênis, continua com práticas antigas, usadas pelo usineiro Rubens Ometto, quando registrou a Cosan Limited, nas Ilhas Bermudas: as ações dele valiam dez vezes mais do que as vendidas em bolsa. Dessa forma, com 10% do capital, ele tinha o controle da empresa. Não é que o rapaz fez a mesma coisa. E ainda vai ser o presidente executivo e do conselho de administração, medida que não passaria nas regras do novo mercado da Bovespa. A diferença com Ometto é o tamanho do salário – o usineiro ganha R$ 13 milhões como presidente do conselho da Raízes (Cosan mais Schell), e Zuckerberg apenas US$ 1,49 milhão por ano. Se os preços forem internalizados, ou seja, cobrados os custos reais, envolvendo poluição, destruição de ecossistemas, tratamento dos empregados ou colaboradores, como queiram, a Apple vai fechar as portas. Numa pesquisa interna recente, constatou-se que 62% dos fornecedores têm algum tipo de prática ilegal, principalmente no quesito relações com trabalhadores. Na era digital, escravos montam aparelhos Não é por menos. Quase 50% do mercado de produtos eletrônicos terceirizados inclui iPhone, iPad, da Apple, Xbox360, da Microsoft, e outros tipos de consoles de jogos são fabricados pela Foxconn, de Taiwan. A empresa é controlada por Terry Gou, de 61 anos, recém-casado pela segunda vez, com uma bailarina 20 anos mais moça. Em agosto do ano passado, Gou deu uma festa no maior complexo industrial da corporação em Shenzen, na China. Se misturou à multidão de trabalhadores que dançavam break, dança de rua norte-americana. Depois anunciou que no futuro suas fábricas terão um milhão de robôs nas linhas de montagem. A Foxconn tem um milhão de empregados, alguns se suicidaram em 2011 (l4 ou l8, conforme a fonte). Ele mandou instalar redes de arame para cercar os edifícios-dormitórios, onde até 300 mil pessoas vivem. Um trabalhador da Foxconn, que faturou US$ 80 bilhões em 2011, trabalha 12 horas por dia de segunda à sábado, e ganha pouco mais de US$ 200 por mês. Sem a mão de obra escrava da China, o capitalismo acaba no outro dia. O maior ideólogo e articulista do Financial Times, porta-voz do mercado financeiro, também entrou na defesa do capitalismo. Escreve um longo artigo indicando as sete lições para corrigir o capitalismo, que ele considera a ideia mais brilhante da humanidade: em síntese, corrigir as práticas irregulares, fazer os ricos pagarem os impostos, distribuir a tributação não para os perdedores, faz questão de registrar, mas para os filhos dos perdedores – o problema já é genético. E termina com um apelo: "esforcemo-nos para torná-lo melhor". Quem sabe com um pouquinho mais de esforço, não acabamos logo de enterrá-lo. Esqueci de acrescentar a data, completa dos maias : 21 de 12 de 2012, na soma 11. Número da ruptura ou o início de novos tempos. * Najar Tubino é jornalista. ** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Najar Tubino*

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