Perspectivas para a Economia em 2012

Artigo

Perspectivas para a Economia em 2012


por Guilherme Costa Delgado*


Abordagens das tendências da produção, do emprego, da inflação, do comércio exterior, etc. costumam encabeçar os artigos prospectivos da mídia especializada. Farei esta análise de outra perspectiva, qual seja, a das prováveis causas do desempenho esperado para 2012, que, à primeira vista, parece um ano atípico. Analisando-se a economia brasileira para o futuro próximo (2012), parece-nos relevante atentar para três vetores-chave, no sentido de produção e repartição do excedente econômico: 1) o contexto atual e esperado de inserção externa e da produção de commodities da economia brasileira; 2) o nível e o perfil do investimento público programado; 3) o papel da política social de Estado, simultaneamente como vetor de demanda efetiva e de melhoria distributiva. Outra abordagem conjuntural, a exemplo da já clássica disputa entre o Banco Central (meta de inflação de 4,5% e estimativa de crescimento do PIB de 3,5%) e o Ministério da Fazenda, cuja meta de crescimento fica torno de 5% ao ano, terá que considerar necessariamente o arranjo de economia política (produção e repartição do excedente econômico), que ora pretendo destacar para a conjuntura econômica de 2012. Situação externa O ciclo de expansão da economia mundial puxado pelos asiáticos, que já dura mais de uma década, no qual o Brasil se inseriu explicitamente como provedor de commodities somente depois da grave crise cambial de 1999, dá sinais de esgotamento. Conquanto se discutam ainda as origens e causas dos fatores provocativos da situação de crise global (zona do euro, a economia norte-americana ou a própria economia chinesa), o certo é que, para o ano que vem, não se deve esperar o mesmo desempenho exportador em commodities. Este desempenho, que o país teve na última década e também em 2011, tem sido, em última instância, a fonte de solvência financeira externa (ingresso de capitais). Por sua vez, retraindo-se a expansão externa dos primários, pelas mesmas razões causais também se retrairá o ingresso de capitais externos. E como a situação da “conta corrente com o exterior” pioraria nessas circunstâncias, a solvência do seu déficit, persistente desde 2008, possivelmente se daria com a utilização de reservas cambiais. Em síntese, do ponto de vista externo, o saldo comercial e o investimento externo provavelmente não vão acudir a já histórica situação deficitária da “conta de serviços”, que em grande medida reflete a remuneração corrente do capital estrangeiro na economia brasileira. E tampouco se pode descartar a hipótese de saídas líquidas de capital em situações de crise externa. Investimento público e financiamento da política social Os compromissos em curso com a agenda do PAC-2012, concentrados num determinado perfil de infraestrutura (energia elétrica, petróleo, obras urbanas de infraestrutura para a Copa do Mundo), refletirão a maior parcela do investimento público, à qual possivelmente se adicionarão demandas de reequipamento do setor militar, sucessivamente adiado nos últimos 20 anos. Como todos esses setores apresentam defasagens acumuladas, o perfil do investimento público, que depende de financiamentos do orçamento da União (a menor parte), ou aquele financiado pelo orçamento das empresas estatais e das parcerias público-privadas, sofrerá o ônus da desaceleração externa, pelo efeito do encurtamento do investimento direto estrangeiro. A política social de Estado (previdência, saúde, assistência e educação principalmente) é um terceiro componente ultrarrelevante da política macroeconômica no contexto de crise da demanda efetiva (retração das exportações, do investimento externo e do investimento público), porque permite proteger ramos importantes da produção de bens-salário na economia. Concentrada como está nos benefícios monetários vinculados ao salário mínimo, ou nas remunerações de um a três salários mínimos (Regime Geral de Previdência Social), o fluxo de pagamentos de benefícios da seguridade social desempenha simultaneamente funções de demanda efetiva e de melhoria no perfil distributivo da renda. Infelizmente, tanto os investimentos em infraestrutura quanto as chamadas despesas de custeio corrente da política social correm riscos de redução, postergação, adiamento, etc., se prevalecerem os receituários ortodoxos de contenção dos gastos públicos. Mas, felizmente, não parece ser esta a orientação do Ministério da Fazenda, que, ao que tudo indica, usaria em 2012 a mesma política fiscal utilizada no final de 2008 e no ano de 2009 para defender-se da contaminação da crise externa. Por outro lado, se a crise externa se caracterizar como estrutural, profunda e duradoura, o receituário de curto prazo de proteção da demanda efetiva revelar-se-á insuficiente. Isto porque uma crise estrutural do sistema capitalista global provoca mudanças estruturais na produção e na demanda mundiais, nova divisão nas especializações regionais e uma grave tendência dos mercados à depressão econômica. Precisamos estar atentos para esta hipótese, não por apego ao catastrofismo, mas antes pelo contrário. Um plano B para enfrentar a crise externa, que não se restrinja a políticas macroeconômicas de curto prazo, precisaria desde logo ser objeto de conjecturas. Mudanças de inserção externa, de perfil do investimento em bens públicos e do conjunto da política social certamente ocorrerão de forma não planejada nos próximos anos. Deixadas ao acaso, estas mudanças correm o risco da regressão e do retrocesso. Em tais circunstâncias, é oportuno discutir os novos rumos da inserção externa, do atendimento a necessidades básicas da população e da construção de infraestrutura de bens públicos, de sorte a ensaiar um padrão de desenvolvimento humano que somente nas crises sistêmicas se pode cogitar seriamente. * Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.

'Que tal, em troca da nossa adesão à "sustentabilidade banqueira" ganharmos um desconto nas tarifas'. Foto: Dida Sampaio/AE Artigo

A sustentabilidade: eles e nós

[caption id="attachment_40185" align="alignleft" width="300" caption=""Que tal, em troca da nossa adesão à 'sustentabilidade banqueira' ganharmos um desconto nas tarifas?". Foto: Dida Sampaio/AE"][/caption] Os bancos, estas generosas instituições, sempre preocupadas com o bem-estar coletivo de seus clientes, estão engajados em nova e meritória campanha. Trata-se de um movimento em defesa da sustentabilidade, esta palavra nova que passou a frequentar nossas vidas para nos ensinar a viver melhor, aproveitando com sabedoria os recursos que a Mãe Natureza proporciona. E a defesa da sustentabilidade que os bancos pregam é defender a natureza, recebendo pilhas e baterias para dar um encaminhamento ecológico a elas, ou economizando papel. Ou seja, preservar nossas florestas, reduzir a massa de detritos que suja as ruas, economizar a energia gasta na produção, e por aí afora, numa infinidade de desdobramentos, todos positivos. Campanha mais meritória, impossível. Ser contra isto torna você um perdulário consumidor de recursos naturais, um egoísta insensível para com o futuro da humanidade, um pária, indigno de viver numa sociedade moderna. Porém, talvez valha a pena olhar por trás dessa bela fachada de boas intenções que agita a internet, aparece toda hora na televisão, gera entrevistas dos criadores da campanha e insere, independentemente do conjunto da obra, os bancos na lista das instituições socialmente responsáveis. O papel que eles nos pedem para economizar é aquele que, por norma do Banco Central ou lei federal, seja lá o que for, os bancos são obrigados a enviar regularmente (acho que por mês, embora não o façam) com o resultado da nossa movimentação financeira: cheques emitidos, contas pagas, serviços prestados, etc. Isso tem de vir em papel que, como sabemos, custa dinheiro. Sem contar o gasto com o pessoal encarregado de cuidar desse papel e de sua remessa até nós, além da tarifa do Correio. Multiplique por milhares (milhões) de clientes e veja quanto isso custa para os bancos. A economia que querem que façamos para eles é abrir mão dessa correspondência toda e aceitarmos receber nossa movimentação por via digital: e-mail, Facebook, Orkut, Twitter e o que mais estiver disponível nesse incrível mundo da comunicação de hoje. Para eles, o custo será quase zero, as florestas e o planeta agradecerão, viveremos numa sociedade melhor. Ótimo, mas benefícios institucionais, indiretos, à parte, o que é que nós, nosotros, ganhamos concretamente com isso? Tempo? Praticidade? Mais espaço nas gavetas e armários? Sim, tudo isso e pouca coisa, ou nada, mais. Eles, sabidamente devotados ao dinheiro, ganharão mais uma montanha dele, para nos emprestar com aqueles juros modestíssimos que conhecemos e com aquela generosidade que, por vezes, quase nos leva às lágrimas. Nós ganhamos, a consciência de ser bons cidadãos, amantes do planeta, etc. Ora, vamos falar sério! Que tal, em troca da nossa adesão à “sustentabilidade banqueira” ganharmos um desconto nas tarifas, uma reduçãozinha na taxa de juros, um premiozinho na nossa conta de poupança? Ou até, quem sabe, uma panela, um liquidificador, uma escarradeira, uma coleção dos pensamentos de Lenin sobre banqueiros, etc.? Gostam da ideia? Vamos ver se eles gostam. De minha parte, continuo com o papel, mesmo à custa de ser qualificado de predador insensível. E me recordo sempre de como banqueiro gosta de rezar o Pai Nosso pela metade, só a parte que diz: “Venha a nós o Vosso reino”… * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Edgard Catoira, da Carta Capital
foto_mat_32900 Governo

Contra “mercado”, governo atrai 276 mil “minirrentistas” em dez anos

Essa é a clientela de pessoas comuns que compram título do governo sem passar por bancos e fundos. Como estrangeiro e fundo de pensão, pequeno investidor é aposta do Tesouro para ampliar base credora e quebrar parte da força do "mercado" na imposição do juro. Cidadãos têm 17% da dívida da Irlanda, cuja crise seria ainda pior sem eles. No Brasil, a fatia é irrisória: 0,4%. Brasília – O número de pequenos rentistas que ganham dinheiro fazendo empréstimos de baixo valor ao Estado brasileiro, por meio da compra de títulos da dívida pública diretamente do governo, sem intermediação do “mercado”, cresceu 28% no primeiro ano da presidenta Dilma Rousseff. Em 2011, 61 mil pessoas entraram no programa Tesouro Direto, pelo qual se negocia com o Tesouro Nacional via internet, sem precisar pagar pedágio a bancos e fundos de investimento que operam para terceiros. No fim do ano, 276 mil pessoas já tinham comprado título sem "atravessadores" desde o início desse tipo de operação, em janeiro de 2002. Em uma década, os pequenos investidores já emprestaram – para lucrar com juros depois - R$ 7,5 bilhões ao governo, sendo R$ 3,5 bilhões só em 2011. Considerando a quantidade de rentistas e de títulos que possuem, oberserva-se uma média de R$ 27 mil por aplicação. Ao se abrir a negociações diretas com pessoas comuns, o objetivo do governo, no longo prazo, é ampliar o leque de credores. Com isso, acha que conseguiria enfraquecer um pouco os grandes investidores do "mercado", bancos e fundos de investimento. Toda semana, o Tesouro vende títulos públicos em operações nas quais faz dívida nova para pagar dívida velha, e a clientela principal é de "grandes", com força para ditar o juro. O mesmo motivo – ampliar a base credora – levou o governo, em 2006, a acabar com a cobrança de imposto de renda sobre o lucro de estrangeiros que compram títulos públicos. Desde 2010, o governo também se esforça para atrair os fundos de pensão para o comércio de títulos. Todos – pessoas comuns, estrangeiros, futuros aposentados – estariam mais propensos a aceitar juros menores. “O Tesouro tem interesse em aumentar a base de investidores. Quanto maior a base, mais estável é a condição de financiamento do emissor (do título), e aí podemos ter um custo (juro) menor”, diz o gerente de Relacionamento Institucional da Secretaria do Tesouro Nacional, André Proite. Na Irlanda, onde o Tesouro também faz transações do tipo, cidadãos comuns controlam 17% da dívida, segundo Proite. Sem isso, ele acha que seria "razoável afirmar" que o país estaria ainda mais enrolado na crise da dívida pública, superior a 100% das riquezas nacionais (PIB). A Irlanda é um dos cinco países europeus cuja crise da dívida junto ao "mercado" sacudiu o mundo em 2011 e ainda se mostra uma ameaça em 2012. No Brasil, contudo, o peso dos pequenos rentistas na dívida ainda é baixíssimo, mesmo depois de uma década de Tesouro Direto, o que mostra o tamanho do desafio que o governo tem pela frente para diminuir a força do "mercado". A fatia deles no total da dívida negociada em títulos dentro do país (R$ 1,8 trilhão) é de 0,4%. Comparação: as instituições financeiras (bancos) são credoras de 30%; os fundos de investimento, de 26%; os fundos de pensão, de 15%; estrangeiros, de 11%. Para convencer o brasileiro comum a entrar no Tesouro Direto, o governo destaca como principal vantagem a possibilidade de lucrar com uma aplicação de baixo risco e que não é mordida por taxas de administração de intermediários. "O programa oferece a qualquer pessoa a oportunidade de ter o mesmo ganho que os bancos e grandes fundos de investimento", diz Proite. As taxas costumam ser de 2%, 3%. Segundo Proite, bancos e fundos podem ter esse apetite todo porque o juro pago pelo título público é tão elevado que o cliente fica satisfeito, mesmo assim, com o lucro final. "A indústria de fundos tem esta comodidade de poder cobrar altas taxas de administração. Mas, quando esta diferença de juros (do Brasil para o exterior) começar a cair, as pessoas vão começar a buscar mais rentabilidade", afirma. * Publicado originalmente no site Carta Maior.


por André Barrocal, da Carta Maior
Nova lei permite a criação de uma Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (Eireli) Legislação

Nova lei facilita abertura de negócios no Brasil

[caption id="attachment_40147" align="alignleft" width="270" caption="Nova lei permite a criação de uma Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (Eireli)."][/caption] Medida levará a ajustes importantes, mas não a uma revolução. Não é fácil abrir um negócio no Brasil. Aqui vai um pequeno exemplo. Até recentemente, se exigia pelo menos dois parceiros para formar uma empresa de responsabilidade limitada. Empresários individuais precisavam encontrar um “sócio de 1%” – um empregado, amigo ou parente disposto a emprestar seu nome no preenchimento dos contratos, ou uma empresa de fachada, criada apenas para deter uma parte minúscula do novo negócio. As coisas podem ter ficado um pouco mais fáceis agora. Uma nova lei, que supostamente entrou em vigor em 9 de janeiro, permite a criação de uma Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (Eireli). A única exigência é um capital inicial de R$ 62,2 mil. Isto é bastante significativo. Claro, pode não acontecer como o planejado. Em dezembro, o órgão federal que fiscaliza registros de negócios alertou seus advogados que rejeitassem empresas tentando registrar Eirelis, assim como estrangeiros sem direito de residência permanente. Nenhuma razão foi dada. Depois, os advogados foram informados que o objetivo da lei era permitir que empresários individuais brasileiros pudessem proteger seus bens pessoais contra processos judiciários e falência – e não facilitar a vida de grandes negócios ou de estrangeiros. Já que as restrições não têm base legal, desafios serão inevitáveis. Husam Abboud, da Establish Brazil, especialista em formação de empresas, considera métodos de ação direta “à brasileira”: simplesmente tentar registrar uma Eireli para uma firma ou um estrangeiro, e ver o que acontece. “Nós não vamos tentar só uma vez, mas várias,” ele diz animado. “No Brasil tudo depende de quem está no escritório no dia.” Alguns brasileiros mais apressados já formaram Eirelis. “Foi rápido e fácil, porque eu não tive que sair catando um parceiro”, diz Taise Litholdo, arquiteta. Tudo isso leva a ajustes importantes, mas não a uma revolução. Em 18 de janeiro, apenas 14 Eirelis haviam sido registradas na junta comercial de São Paulo, a maior do Brasil. “A verdade é que Eirelis não servem para a maioria dos pequenos negócios”, diz Abboud. Poucos vendedores de cachorro quente e cabeleireiros têm dinheiro sobrando o suficiente para cumprir a exigência de capital, ele explica. Desafios permanecem Mesmo se for permitido a estrangeiros formar Eirelis, entrar no Brasil vai continuar sendo um desafio. O maior obstáculo – encontrar um residente permanente disposto a deter poder de procuração para empresários estrangeiros – vai permanecer. A Establish Brazil e suas concorrentes podem fazer isso para clientes estrangeiros, mas só até que um gerente local tenha sido nomeado, ou um expatriado tenha chegado com um visto de negócios permanente. O problema é que agir para uma empresa estrangeira deixa os agentes vulneráveis às inconstâncias das autoridades fiscais brasileiras e tribunais de trabalho, que tendem a ignorar responsabilidade limitada e ir atrás dos empresários individuais. “Eles querem poder congelar a conta bancária de alguém se tiverem problemas”, explica Stephen O’Sullivan da Mattos Filho Advogados, um grande escritório de advocacia de São Paulo. “E se essas são as únicas pessoas no país, eles vão querer ir atrás dos gerentes, ou até dos advogados”. Naturalmente, a Mattos Filho só aceita desempenhar esse papel para clientes antigos e confiáveis. As Eirelis podem até vir a tornar o processo de se abrir um negócio no Brasil mais fácil. Mas só um pouquinho. * Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Redação do Opinião e Notícia
200112_paul-singer-economia-solidaria Economia Criativa

Economia solidária como alternativa

A decisão do governo de erradicar a pobreza é mobilizadora para um amplo espectro do campo democrático e popular. Nesse sentido, a economia solidária permite que se supere a condição de miséria, evitando a transformação de miseráveis em trabalhadores que passarão a vivenciar a alienação e a exploração no trabalho. A economia solidária ganhou grande expressão e espaço social nas últimas décadas, dando azo a um vasto campo de experiências e iniciativas de produção e reprodução dos meios de vida estruturados na propriedade coletiva dos meios de produção, na autogestão, na solidariedade e no coletivismo. Esse desenvolvimento recente foi impulsionado pelas crises do capitalismo, vivenciadas de forma desigual e combinada, tanto no centro como na periferia do sistema, e que vêm afetando, com intensidade e ritmo diferenciados, o conjunto da classe trabalhadora, com o crescimento do desemprego, do trabalho precário, parcial, temporário, informal e de ataques aos direitos sociais e trabalhistas arduamente conquistados. Esse mundo do trabalho associado envolve desde grupos informais de costura ou artesanato até grandes fábricas recuperadas, passando também por cooperativas urbanas de serviços, cooperativas de agricultura familiar e de assentamentos da reforma agrária, organizações de finanças solidárias, redes e cadeias produtivas (mel, algodão, metalurgia, etc.), entre outros. Trata-se, fundamentalmente, de formas coletivas baseadas na cooperação ativa entre seus membros, com raízes históricas profundas em nossa formação social e histórica (1). Campo da economia solidária no Brasil A economia solidária é parte integrante da formação social brasileira, de seu imaginário coletivo, de sua cultura material e simbólica. Nos últimos cinco séculos, esteve sempre subordinada e subsumida aos ímpetos colonizadores e modernizantes, que perseguiram e tentaram eliminar as estruturas societárias dos povos originários e as novas formas coletivas e comunitárias existentes e que foram sendo reinventadas como forma de resistência, produção e reprodução dos meios de vida. Na perspectiva da história das lutas sociais no Brasil, entendemos que o campo da economia solidária é diverso e heterogêneo, resultado de um processo em curso de confluência de vários movimentos e experiências comunitaristas e autonomistas, como um vale para o qual acorrem vários afluentes até formar um único e caudaloso rio. Durante os anos 1990, as várias vertentes convergiram para a formulação de uma plataforma comum de luta por direitos e reconhecimento, da qual participaram ainda uma pluralidade de instituições, entidades públicas e organizações da sociedade civil, universidades e iniciativas de políticas públicas governamentais nas esferas municipais e estaduais. Esse movimento foi se fazendo na prática e encontrou no espaço dos primeiros fóruns sociais mundiais, em Porto Alegre, condições para seu fortalecimento e para a definição de suas prioridades. Com a eleição do presidente Lula, em 2002, esse movimento mobilizou-se em torno da criação de um espaço institucional para a economia solidária no novo governo (2). Frutos desse processo foram a criação, em junho de 2003, da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES) e da Rede de Gestores de Políticas Públicas de Economia Solidária, que constituem atualmente as principais organizações do campo da economia solidária, mobilizando as redes de empreendimentos, ONGs e gestores de políticas públicas. A Senaes e as políticas públicas A decisão de situar a Senaes no MTE significou imediatamente sua compreensão enquanto uma política de trabalho, voltada especialmente para o trabalho associado, coletivo e autogestionário. Tal resolução instalou no interior do Sistema Público de Emprego e das Políticas de Inspeção do Trabalho o debate sobre o direito ao trabalho associado, permitindo o início de um processo de elaboração e aplicação de políticas públicas de apoio e fomento às formas de trabalho que diferem do (e são antagônicas ao) trabalho assalariado, subordinado, do emprego com carteira assinada. Desde logo, portanto, foi afastada qualquer possibilidade de que o campo da economia solidária ficasse circunscrito às ações de corte assistencial, como medidas contingenciais resultantes da crise do sistema capitalista. Desde a 1ª Conferência Nacional de Economia Solidária (1ª Conaes, 2006), a economia solidária já era afirmada como estratégia de desenvolvimento, e suas políticas deveriam estar voltadas para o fortalecimento desse novo modo de produção, comercialização, consumo e crédito baseado na cooperação, na autogestão e na solidariedade. Essa concepção foi retomada na 2ª Conferência Nacional de Economia Solidária (2ª Conaes, 2010), quando se estabeleceu como um de seus desafios “projetar-se como paradigma e modelo de desenvolvimento que tem por fundamento um novo modo de produção, comercialização, finanças e consumo, que privilegia a autogestão, a cooperação, o desenvolvimento comunitário e humano, a justiça social, a igualdade de gênero, raça, etnia, acesso igualitário à informação, ao conhecimento e à segurança alimentar, preservação dos recursos naturais pelo manejo sustentável e responsabilidade com as gerações, presente e futuras, construindo uma nova forma de inclusão social com a participação de todos” (2ª Conaes, Brasília, jul. 2010, p.14). Nessa direção, a criação da Senaes possibilitou o fortalecimento de inúmeras iniciativas econômicas solidárias e o desocultamento de outras tantas até então pouco conhecidas (3). Estas ações e políticas desenvolvidas pela Senaes podem ser agrupadas, em linhas gerais, nos seguintes cinco grandes eixos. • Acesso ao conhecimento: envolve desde a criação e o desenvolvimento do Sistema de Informações em Economia Solidária (Sies), que realiza o Mapeamento da Economia Solidária no Brasil, as ações de formação e qualificação social e profissional, o apoio às Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs) e as iniciativas no campo da assessoria técnica aos empreendimentos econômicos solidários. Cabe destacar aqui o apoio conferido às Incubadoras Universitárias por meio do Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares, alcançando já mais de cem universidades públicas e institutos federais de educação tecnológica incluídos em ações no campo da economia solidária. • Acesso ao mercado: abrange os programas de feiras municipais, regionais, estaduais, nacionais e internacionais de economia solidária, o esforço para a criação de pontos fixos de comercialização dos produtos e serviços dos empreendimentos solidários e a regulamentação do Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário (SNCJS), instituído por Decreto presidencial em 2010. Pouco se conseguiu avançar, nesse aspecto, na abertura de espaços para a economia solidária nas compras governamentais, em que pesem as conquistas significativas dos agricultores familiares (com o PAA e o Pnae) e dos catadores de materiais recicláveis. • Acesso a capital: envolve o apoio ao denominado campo das finanças solidárias, que inclui as iniciativas de microcrédito solidário, os fundos rotativos solidários, os bancos comunitários e as moedas sociais. Destacam-se, nesse caso, os avanços obtidos no apoio aos Fundos Rotativos Solidários, em parceria com o BNB e a sociedade civil, especialmente no Nordeste brasileiro, e o apoio e fomento aos Bancos Comunitários, que passaram de uma única experiência existente em 2003 (Banco Palmas, no Ceará) para mais de sessenta experiências atualmente. • Marco legal: ponto crucial e de difícil resolução, uma vez que a fragilidade do movimento repercute na baixa capacidade de mobilização na esfera política e legislativa. Houve um retrocesso, logo no começo do governo, com relação à lei de falências, o que dificultou o avanço no campo das fábricas recuperadas. O projeto de lei das cooperativas de trabalho tramitou aos solavancos no Congresso Nacional e agora está parado na Câmara para votação final. Sua aprovação, além de abrir um canal institucionalizado de acesso ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (por meio do Pronacoop), poderia significar o arrefecimento das medidas restritivas que sofrem as cooperativas autênticas de trabalho, confundidas pela Justiça do Trabalho com cooperativas fraudulentas. Há que se avançar ainda na Lei Geral do Cooperativismo, dados seu anacronismo e caducidade, e na Lei Geral da Economia Solidária, talvez um dos grandes desafios da atual gestão. • Relações internacionais: desde o início, a Senaes foi convidada para dialogar com representações de inúmeros países para apresentar as experiências desenvolvidas no Brasil, estabelecer cooperações internacionais e participar de fóruns de articulações em outros países e continentes. Neste aspecto, verificaram-se avanços graças à articulação da Senaes no contexto da integração regional, com destaque para os espaços institucionais do Mercosul − especialmente por meio da Reunião Especializada de Cooperativas do Mercosul (RECM), do qual passou a participar a partir de 2007. São exemplos de países que solicitaram a participação da Senaes em eventos e espaços de cooperação: Venezuela, Equador, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, México, Cuba, Áustria, Bélgica, Espanha, França, Portugal, Timor Leste, Alemanha, Senegal, Moçambique, Angola, entre outros. Além das ações gestadas e aplicadas diretamente pela Senaes, em parceria com a sociedade civil e governos estaduais e municipais, as políticas de economia solidária no governo federal encontraram ressonância na estratégia de inúmeros outros ministérios e órgãos públicos da esfera federal, somando-se importantes espaços no âmbito das políticas públicas sociais de trabalho, geração de renda, inclusão produtiva, segurança alimentar, saúde mental, cultura, habitação, turismo, meio ambiente, etc., o que configurou uma importante conquista do movimento da economia solidária no Brasil e dos movimentos sociais que possuem orientação emancipatória, para além do capital e da sociedade contemporânea. Economia solidária e combate à pobreza A decisão do governo brasileiro de erradicar a pobreza extrema é profundamente mobilizadora para um amplo espectro do campo democrático e popular no Brasil. Trata-se de uma tarefa difícil, pois significa mudar efetivamente a vida de milhões de pessoas, possibilitando o acesso regular aos bens e serviços necessários para uma vida digna, como moradia adequada, alimentação suficiente, vestuário e bens culturais e simbólicos. Tal objetivo pode ser buscado por meio dos instrumentos que esta sociedade nos oferece mais imediatamente, porque lhe são próprios e condicionam a vida de milhões de pessoas que estão já nela incluídos de alguma maneira, isto é, pela (re)inserção no mercado de trabalho. Nesse caso, para reintegrar uma dezena e meia de milhões de miseráveis ao mundo da produção de mercadorias, sejam estas bens ou serviços quaisquer, os instrumentos são, desde logo, bastante conhecidos: qualificação social e profissional, rápida o suficiente para o atendimento das demandas conjunturais dos setores dinâmicos (principalmente construção civil e infraestrutura), ou combinação desta com oferta de microcrédito (e uma boa dose de autoajuda) para tentar transformar miseráveis em empreendedores de sucesso. Pode ser prudente sugerirmos desde logo que essa estratégia é tão óbvia quanto ineficaz. E isto, sobretudo, porque não leva em conta o que essas pessoas miseráveis querem para si, ou o que pretendem ser quando em condições de deixar a situação de miseráveis. Além disso, desconsidera por completo que o que as mantinha vivas em situação de pobreza extrema não eram suas capacidades individuais, deterioradas como restaram pela corrosão social, mas precisamente os laços de solidariedade recíproca mantidos com aqueles que partilhavam idêntica condição. Daí o limite do conceito de “inclusão produtiva”, que, por ser processada por meio da individualização dos serviços, não pode permitir, nem é seu objetivo, que as estratégias emancipatórias escapem da armadilha centrada no indivíduo ou na família. A nosso ver, é possível apostar em outro caminho, outra estratégia, se se quer efetividade no enfrentamento à miséria e promoção da inclusão cidadã dos que desde sempre figuraram como paisagem em nosso contexto passado de exclusão. E, para isso, para o desafio imenso que representa olhar de frente para o futuro do país com um pé em nosso rastro de desigualdade, não é necessário inventarmos mecanismos novos, fórmulas mirabolantes, conceitos ou categorias específicas. Esses instrumentos já existem, estão aí no ar, pois vêm sendo testados em várias experiências dos movimentos sociais, em gestões municipais, estaduais e, recentemente, em inúmeras ações e políticas que se projetaram sob a perspectiva da economia solidária. As formas coletivas e autogestionárias que caracterizam o campo da economia solidária permitem que se supere positivamente a condição social de miséria, evitando-se assim a transformação de miseráveis em trabalhadores que passarão a vivenciar a alienação e a exploração no trabalho. A ultrapassagem dessa condição requer a auto-organização do trabalho pelos próprios trabalhadores, impulsionados pelas políticas públicas voltadas para esses territórios, a fim de que experimentem situações de cooperação produtiva que lhes permitam desenvolver suas capacidades e competências, mobilizando conhecimentos dos quais podem lançar mão também nos tempos livres. O resultado seria a objetivação do trabalho em um produto reconhecível como sendo o sentido e a finalidade de sua própria atividade, isto é, que seja um produto socialmente útil, e não mera riqueza a ser apropriada pelos proprietários dos meios de produção. Inscrita desde o início na formação social brasileira, a economia solidária reafirma a centralidade do trabalho neste início de novo milênio, demonstrando a viabilidade de um projeto político democrático fundado no trabalho associado, coletivo e autogestionário, como condição para qualquer alternativa civilizatória. Notas (1) Uma abordagem histórica da economia solidária pode ser encontrada em Paul Singer, Uma utopia militante: repensando o socialismo, Vozes, Petrópolis, 1998. (2) Nessa época, um documento materializou essa articulação, publicado no âmbito do Fórum Social Mundial e intitulado Economia popular solidária: alternativa concreta de radicalização da democracia, desenvolvimento humano, solidário e sustentável, Anteag; Cáritas; CUT/ADS; Fase; Ibase; Pacs; Sedai/RS, Porto Alegre, 2002. (3) Ver a esse respeito: Leandro Morais e Adriano Borges (orgs.), Novos paradigmas de produção e consumo: experiências inovadoras, Instituto Pólis, São Paulo, 2010. * Maurício Sardá é doutor em Sociologia Política pela UFSC e professor do curso de Gestão Pública da UFPB. Participa da Coordenação da Incubadora de Empreendimentos Solidários – Incuibes/Prac/UFPB. Atuou na Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes/MTE), no Departamento de Estudos e Divulgação, entre 2006 e 2010. ** Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique Brasil.


por Maurício Sardá*
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Em economia somos todos responsáveis pelo que acontece

A economia (enquanto ciência e atividade produtiva) "somente será viável se for humana, para o homem e pelo homem”. Esta frase, interessante pela abrangência social, é atribuída ao papa João Paulo II (Karol Voitjila, 1920-2005). Para iniciarmos essa conversa, um fato importante precisa, antecipadamente, ser ressaltado: uma economia com uma face mais humana e social, centrada em análises de questões sociais, tem sido constantemente "sufocada" em nome de modelos macroeconômicos distorcidos, típicos da economia convencional que são dirigidos em favor dos ganhos cada vez maiores na escala especulativa, atendendo, assim, uma minoria de privilegiados. Esses modelos econômicos, em geral, têm sido desenhados para atingir objetivos no curto prazo, quase sempre apontando para a necessidade de se fazer com que a produção cresça, como se o crescimento econômico significasse, automaticamente, progresso humano. Cabe reiterar, nesse pormenor, que a busca por uma maior produção não assegura, por consequência, que todos dela participarão ou que, na essência, todos terão uma fatia disponível para abocanhar esse "bolo” que representa o crescimento econômico. Isso, por si só, nos permite afirmar que crescimento não rima com desenvolvimento; e que, por definição mais ampla e significativa, crescer não permite se desenvolver como mera contrapartida. Desenvolvimento econômico (melhoria da qualidade de vida) passa por uma abordagem bem mais ampla, envolvendo, no bojo, substancial elevação no padrão de vida dos mais necessitados. Esta melhoria na vida das pessoas significa, antes de tudo, ter capacidade e acesso aos bens e serviços que se deseja. Isto é o princípio que realça a afirmação que desenvolvimento conduz à liberdade, como apregoa com propriedade o Nobel, Amartya Sen. Dessa constatação parte uma provocação e um chamado a quem se interessa e luta por construir uma economia mais humana e menos tecnicista, mais social e menos mecânica, em seu sentido capitalista-espoliador. A provocação é simplista: é necessário enveredar esforços no sentido de lançar-se um olhar renovador sobre a economia para, a partir disso, entender e propor alternativas a esse mundo-econômico repleto de injustiças e distorções, repleto de fome e de miséria, quer seja na África, na América do Sul ou em partes da Ásia. O objetivo disso tudo, em termos de melhorar a penetração da ciência econômica em nossas vidas, é apenas um: criar modelos econômicos que permitam condicionar uma substancial melhora na vida de milhões de pessoas que hoje conformam os elevados índices de exclusão social. Este é, certamente, um dos grandes e mais instigantes desafios que o economista moderno deve enfrentar no afã de ajudar a edificar um mundo melhor e mais seguro. Para tanto, uma ruptura com a tradicional teoria econômica precisa acontecer, até mesmo porque a teoria tradicional insiste em propor um ensino pautado no individualismo, e não no coletivismo. Mudar o eixo central da economia Nesse sentido, essa ruptura passa por definir alguns novos objetivos na escala dos valores e conceitos econômicos: o primeiro deles é que o eixo central da economia tem que ser mudado. A base da economia tradicional não pode ser estritamente o mercado e, o objeto, a mercadoria como temos presenciado; mas, antes, o indivíduo com suas necessidades básicas e peculiares precisa ser colocado em primeiro plano. Lembremos, contudo, que a economia é feita pelos homens e para os homens, no intuito específico de qualificar a vida daqueles que vivem em precárias condições e que, por isso, muitas vezes são levados a morrer precocemente. Que a ciência econômica, "carregada” por todos aqueles que vislumbram a necessidade de mudar os atuais modelos macroeconômicos pautados na busca excessiva do lucro fácil para um que seja capaz de construir um mundo melhor, seja posta, urgentemente, na direção da igualdade entre os homens. As diversas crises pelas quais a economia e a sociedade, por não raras vezes, são (e têm sido) acometidas (vejamos o caso atual de alguns países europeus) servem para acender a chama da renovação e da urgente mudança, até mesmo porque é inaceitável conviver pacificamente com imposição de certas "ordens” ditadas pelos abonados mandantes da ordem econômico-financeiro-política estabelecida. Amartya Sen, a esse respeito, certa vez disse que "é difícil entender como uma ordem mundial compassiva pode incluir tanta gente atormentada pela miséria extrema, pela fome persistente e por vidas miseráveis e sem esperança, e por que a cada ano milhões de crianças inocentes têm de morrer por falta de alimentos, assistência médica ou social”. Talvez seja por isso que certas situações nos causam tanto incômodo. Vejamos, por exemplo, que os dentes afiados da financeirização internacional que movimentam, em termos especulativos, US$ 3 trilhões por dia, nos dilaceram a carótida e nos tornam ínfimos e raquíticos perante a força do grande capital. Bocas esfaimadas Disso resulta uma constatação de que é simplesmente insano, patológico, mesmo quando se percebe essas verdades sabendo serem também verdadeiros os números que retratam as desigualdades no mundo atual em que, a cada ano, milhões de pessoas – pobres, miseráveis e indigentes – padecem pela dor física da fome. Nos dias que correm nesse Século 21, quase 900 milhões de pessoas – crianças, jovens, idosos, homens e mulheres comuns –, vão dormir de barriga vazia; não pela opção estética do corpo magro e perfeito, mas por terem as bocas esfaimadas; porque os famigerados sistemas econômicos que "manipulam” mercados ao doce sabor do lucro e que pelos mercados são "manipulados” em favor dos rápidos retornos financeiros assim determinam tal ordem ignominiosa. Isso nos leva a outra reflexão para finalizarmos esse assunto. Em se tratando de economia, não tenhamos dúvidas: as ações econômicas possuem diversas dimensões e impactos múltiplos que afetam substancialmente a qualidade de vida das pessoas, às vezes de maneira positiva, outras vezes, de forma negativa. Em outras palavras, em economia somos todos responsáveis pelo que acontece. * Marcus Eduardo de Oliveira é economista brasileiro, especialista em política internacional. Articulista do site O Economista, do Portal EcoDebate e da Agência Zwela de Notícias (Angola). Autor dos livros Conversando sobre Economia, Pensando como um Economista e Provocações Econômicas (no prelo). Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Marcus Eduardo de Oliveira*
Foto: Nauro Júnior / Agencia RBS Crise

Da tragédia ao dano econômico

[caption id="attachment_40112" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Nauro Júnior/Agência RBS"][/caption] Seca no Sul e chuva no Sudeste foram temas centrais do noticiário no começo do ano, com mais um desfile de tragédias e a costumeira comprovação do descaso e da inépcia das autoridades – desta vez com o detalhe escabroso do uso político das verbas do Ministério da Integração. As editorias de economia demoraram a entrar na cobertura, mas acabaram forçadas a se envolver no assunto, quando o próprio governo divulgou com reservas a nova estimativa de safra e a Vale anunciou problemas na produção de minério de ferro. O governo apresentou a nova previsão de safra de grãos e oleaginosas no dia 10/1. O levantamento, encerrado em dezembro, estava provavelmente desatualizado, por causa da longa estiagem nos Estados do Sul, principalmente no Rio Grande. Ao comentar os números, o diretor de Comercialização e Abastecimento do Ministério da Agricultura, Edilson Guimarães, chamou a atenção para perdas prováveis nas lavouras de milho, soja, arroz e feijão – principalmente milho. Carlos Bestetti, gerente de levantamento de safras da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), acrescentou um detalhe sinistro: os efeitos da seca ainda continuariam por algum tempo, talvez por três meses, e as perdas poderiam superar qualquer estimativa atual. Todos os grandes jornais noticiaram, até com destaque, mas só O Estado de S. Paulo publicou chamada na primeira página de quarta-feira, dia 11. O assunto era da maior importância, tanto por causa dos preços internos quanto pelo peso da agropecuária no comércio exterior. Em 2011, o agronegócio faturou US$ 94,6 bilhões com a exportação, e o superávit comercial do setor chegou a US$ 77,5 bilhões. Faltou realçar esse detalhe, só explorado com algum destaque pelo Valor, na edição de quarta-feira. Na mesma edição, o Valor destacou na primeira página as dificuldades de produção de minério nas áreas atingidas pelas chuvas, e nisso se adiantou aos outros jornais. A maior parte só apresentou o assunto dois dias mais tarde, quando a Vale já havia divulgado uma informação oficial sobre os efeitos da chuva na atividade em Minas Gerais. Até aqui, a imprensa parece ter cumprido a tarefa de coletar e transmitir informações. Pelo menos até sexta-feira (13/1), no entanto, ninguém tinha publicado um bom – e até óbvio – material consolidado sobre os prováveis efeitos econômicos da combinação da estiagem com a chuvarada. Presente para as ONGs Outra boa história com implicações econômicas e políticas, um novo e caro presente às organizações “sem fins lucrativos”, só foi explorada pelo Estado de S. Paulo. A notícia foi manchete na quarta-feira (11/1): “Congresso ignora escândalo e dá mais R$ 1 bi para as ONGs”. Por meio de emendas à proposta orçamentária, parlamentares acrescentaram quase R$ 1 bi (R$ 967,3 milhões) às verbas destinadas àquelas entidades, elevando o total para R$ 3,4 bilhões. Bandalheiras em convênios com ONGs comprometeram a maioria dos ministros demitidos em 2011 pela presidente Dilma Rousseff, mas senadores e deputados parecem ter esquecido ou menosprezado esses dados. Convênios com organizações “sem fins lucrativos” têm sido, por muitos anos, uma forma frequente de assalto ao Tesouro. Desde outubro, a Presidência da República vem tentando, por meio de decretos, impor maior disciplina a esses contratos. No caso das emendas ao orçamento, a maior parte da imprensa perdeu uma chance de dar uma boa sequência a esse tema. Países rebaixados A semana terminou com um grande evento no exterior, o rebaixamento de nove dos 17 países da zona do euro pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s, incluída a segunda maior economia da união monetária, a França. A principal função dos jornais, nesse caso, seria explicar por que essas notas são importantes e as consequências mais amplas do rebaixamento para o bloco e para o mercado financeiro. Além de afetar os nove países, a redução da nota pode afetar um dos mecanismos mais importantes de combate à crise, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, dificultando suas operações de captação de recursos. Todos os grandes jornais cumpriram de alguma forma essa tarefa e O Estado de S. Paulo foi especialmente bem-sucedido, com uma exposição clara do assunto. Para terminar, a repetição de um lembrete: o imposto sobre transações financeiras defendido por alguns governos europeus não tem nenhuma semelhança com a CPMF, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. Alguns jornalistas têm insistido nessa comparação. Para entender o erro, basta lembrar um detalhe: a CPMF sempre foi um tributo sobre transferências financeiras, isto é, sobre pagamentos baseados na movimentação de contas bancárias. Por isso mesmo foi apelidado de “imposto do cheque”. O fato gerador era a transferência do dinheiro, não a transação financeira. A CPMF era cobrada, por exemplo, quando se pagava um quilo de batatas com cheque ou com um cartão de débito. A taxa em discussão na Europa é análoga ao IOF, Imposto sobre Operações Financeiras, algo muito diferente do extinto “imposto do cheque”. * Rolf Kuntz é jornalista. ** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.


por Rolf Kuntz*
banqueiro Artigo

Economia: suor ou sangue

Em 1922, Fernando Pessoa escreveu O Banqueiro Anarquista, do qual destaco: “As injustiças da natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenções – estas, por que não evitá-las?”. Recomendo lerem o pequeno tesouro. Em 1971, o presidente Richard Nixon liquidou o acordo de Bretton Woods, acabando com a conversibilidade do dólar em ouro. Na ocasião, o economista James Tobin sugeriu um novo sistema e a taxação das transações financeiras internacionais para evitar o que hoje se assiste. Em 1981, Tobin recebeu o prêmio Nobel de Economia. Em 1997, a fumaça é sentida e volta a ser cogitada a implementação da taxa Tobin. O lobby do “clube”, altamente infiltrado nos governos, impede. Hoje os movimentos de rua, da CSI (Central Sindical Internacional, maior associação sindical de nosso planeta) e algumas lideranças políticas, como Sarkozy e Merkel, trabalham para a imediata aprovação da taxa Tobin. Há muito que o sistema financeiro, especulativo e predador, faz fumaça. Hoje é incêndio, já grande, muito grande, alastrando-se para fora do controle dos bancos, dos bancos centrais, dos governos. As toalhas molhadas, as dezenas de novas regulamentações diárias, não são mais suficientes para apagar o fogo. O mundo, especialmente Estados Unidos e Europa, começa a sofrer queimaduras sérias. Leis como a Dodd-Frank, aprovada nos Estados Unidos, passaram a premiar todo aquele que denunciar fraudes do sistema financeiro com até 30% dos prêmios obtidos pelas agências de fiscalização, pelo fisco ou outras entidades. Uma nova era nasce. A era da transparência, do cidadão fiscal, de uma nova democracia, real e mais direta, vai redefinir valores, garantias e direitos fundamentais e naturais do cidadão. Acreditamos que a ética passará a ser ensinada nas escolas, junto com o escrever, o ler, o contar, o desenhar. O sigilo, o secreto, os paraísos fiscais, as sociedades secretas, não mais serão admissíveis na nova democracia. Há muito é sabido que dinheiro não tem pátria e que banqueiro não tem coração. Chegou o momento da grande decisão: tratar os bancos como qualquer outra empresa ou estatizá-los? Governar é pedir ao povo o suor do trabalho e nunca o sangue do trabalhador, especialmente quando for para alimentar vampiros. Suor, sim. Sangue, não. * Valdemiro A. M. Gomes – valdemiro@interconect.com.br.


por Valdemiro A. M. Gomes*
green-comp Tecnologia

Investimento global em tecnologia verde cresceu em 2011 apesar da crise

Os investimentos globais em tecnologias limpas, as fusões e aquisições, cresceram de forma expressiva em 2011, apesar da crise. A maior parte desse crescimento foi sustentada pelos investimentos nos Estados Unidos, particularmente na Califórnia. Na Europa e em Israel, eles caíram. Todos os tipos de investimento em tecnologia limpa cresceram em 2010, totalizando US$ 9 bilhões, muito perto do recorde alcançado em 2008, que foi de US$ 9,5 bilhões. Foi um aumento global de 13% sobre 2010. Também aumentaram muito as operações de fusões e aquisições no setor de tecnologias limpas, chegando a 391 operações e expressivo valor de US$ 41,2 bilhões. Número recorde, 153% acima do que foi observado em 2010. Os investimentos de risco (venture capital) em novas tecnologias também continuaram em 2011, sinalizando dinamismo na área de pesquisa e desenvolvimento e de preparação de novos produtos e novas tecnologias para entrada em mercado. O investimento em tecnologias limpas foi mais forte e consistente nos Estados Unidos. Ele cresceu 31%, em 2011, subindo de US$ 5,2 bilhões em 2010, para US$ 6,8 bilhões, representando 76% do total dos investimentos globais analisados pela empresa de pesquisa e consultoria Cleantech Group. Dentro dos Estados Unidos, a California é o polo mais dinâmico de tecnologias limpas, recebendo US$ 3,7 bilhões dos investimentos, 54% do total local, um crescimento de 25%. Europa e Israel representaram 14% dos investimentos em tecnologia verde em 2011 e a Ásia-Pacífico, 10%. Os investimentos em tecnologia verde caíram 30% na Europa e em Israel por causa da crise. Alcançaram US$ 1,3 bilhão em 2011, contra US$ 1,8 bilhão em 2010. As operações em fusões e aquisições diminuíram em 33%. Na Ásia, as empresas continuaram investindo, mas com alguma desaceleração. Os IPOs – chamadas de capital em bolsa – na região, por exemplo, levantaram US$ 9,6 bilhões, volume 41% inferior ao de 2010, que chegou a US$ 16,4 bilhões. A China concentrou 55% dessas operações no mercado asiático em 2011. O setor de energia solar foi o que recebeu globalmente a maior parcela de investimentos, da ordem de US$ 1,8 bilhão, seguido pelo de eficiência energética, com US$ 1,5 bilhão, e transportes, US$ 1,1 bilhão. * Publicado originalmente no site Ecopolítica.


por Sérgio Abranches, do Ecopolítica
Cada vez mais o Brasil se firma como mero fornecedor de matéria prima. Foto: Unica/Divulgação Brasil

A falta de visão de futuro do Brasil

[caption id="attachment_39429" align="alignleft" width="300" caption="Cada vez mais o Brasil se firma como mero fornecedor de matéria-prima. Foto: Unica/Divulgação"][/caption] Alguns analistas julgam que se superestima o papel do câmbio na economia de um país. Algum tempo atrás, um deles escreveu um livro sobre o milagre britânico do Século 18, que acabou transformando o país em uma potência imperial. Destacou aspectos ligados à legislação, à inventividade do inglês, aos investimentos em ensino, que permitiram ao país comandar a primeira revolução industrial. Todos esses aspectos são importantes para o desenvolvimento do país. Mas a chama que incendiou o imaginário do país abriu espaço para o florescimento de manufaturas sem fim e, depois, criou o clima adequado para as demais reformas, foi o câmbio desvalorizado, barateando os produtos ingleses em relação aos concorrentes. Depois, uma estratégia comercial que consistia em comprar matéria-prima dos países emergentes e vender produtos acabados. Em seu histórico A era das revoluções, o historiador inglês Eric Hobsbawn anota que “qualquer que tenha sido a razão do avanço britânico, ele não se deveu à superioridade científica e tecnológica”. A França era superior na matemática e na física, enquanto na Inglaterra eram vistas como ciências suspeitas. Os franceses desenvolveram inventos mais originais, como o tear de Jacquard, em 1804, e tinham melhores navios. As escolas inglesas eram uma piada e as duas únicas universidades inglesas intelectualmente nulas, compensadas apenas pelas escolas do interior e pelas universidades da Escócia calvinista. Por temor social, não era encorajada a educação dos mais pobres e a alfabetização em massa só ocorreria em princípio do Século 19, com a revolução industrial já em curso – pressionando por mão de obra mais especializada. As invenções técnicas, que comandaram a revolução industrial, eram bastante modestas: a lançadeira, o tear e a fiadeira automática, ao alcance dos carpinteiros, moleiros e serralheiros. A grande invenção inglesa do Século 18, a máquina a vapor rotativa de James Watt (de 1784), só ganhou estabilidade e utilização ampla a partir de 1820. Com exceção da indústria química, as demais inovações industriais – na expressão de Hobsbawn – “se fizeram por si” – isto é, foram desenvolvidas no dia a dia, sem grandes investimentos tecnológicos. Um dos grandes avanços britânicos foi no campo, eliminando o antigo sistema de propriedades herdadas por empresários com espírito comercial, que passaram a articular cadeias produtivas – arrendando terras para camponeses sem terra ou pequenos agricultores e direcionando as atividades agrícolas para o mercado. E as manufaturas tinham se espalhado pelo interior não dominado pelo feudalismo. Com isso, a agricultura cumpriu suas três funções em uma era de industrialização acelerada: aumentar a produção e a produtividade para alimentar uma população cada vez menos agrícola; fornecer mão de obra para as novas atividades industriais, por intermédio do êxodo rural; e garantir capital que foi aplicado em setores mais modernos da economia. Paralelamente, o país investia na construção de uma frotra mercante e de estradas e infraestrutura adequada. Até então a atividade empresarial mais lucrativa era a de comerciante, comprando mais barato e vendendo mais caro. A revolução industrial muda este paradigma e passa a deixar a melhor parte do bolo para o industrial. Mercado mundial Política cambial, acordos comerciais, domínio dos mares, abriram um mercado sem precedentes para seus industriais. Por meio de inovações simples e baratas, os industriais conseguiam taxas de retorno extraordinárias. No início, lã para abastecer o mundo. Quando o algodão substituiu a lã, compra de algodão dos países emergentes – basicamente Estados Unidos e América do Sul – e venda de tecidos para eles. América Latina como comprador Entre 1750 e 1760, as exportações inglesas de tecidos de algodão aumentaram dez vezes, sempre com apoio agressivo do governo nacional. E aí, toca enfiar produtos na América Latina – como a China está fazendo hoje em dia. Por volta de 1840, o continente consumia quase metade do consumo europeu de tecidos de algodão ingleses. Indústrias eram criadas e, da noite para o dia, tornavam-se gigantes. Puxando o resto Com o mercado internacional à disposição, a indústria do algodão lubrificou todos os demais setores relevantes da Inglaterra, máquinas, inovações químicas, setor elétrico, frota mercante, etc. Ou seja, primeiro criou-se o mercado, depois o mercado abriu um mundo inédito de possibilidades para os empreendedores que, com pouco capital e pouca inovação, tinham condições de saltos expressivos. Não é muito diferente do que ocorre na China. Salto chinês Tempos atrás viajei com um importador brasileiro de lâmpadas led. Ele importava de um pequeno fabricante chinês, que adquiria os insumos da Alemanha, processava e vendia mais barato. Depois, o industrial resolveu comprar máquinas para fabricar ele próprio os insumos. Em dois anos, tinha 35 mil metros quadrados de instalações. Guardadas as proporções de época, apenas repetia o fenômeno da Inglaterra do Século 18. Brasil na contramão No caso do Brasil, o desabrochar do mercado interno criou as primeiras condições para o salto da indústria. Mas o câmbio está matando o deslanche. Cada vez mais, o crescimento do mercado interno está sendo apropriado pela manufatura chinesa; e cada vez mais o Brasil se firma como mero fornecedor de matéria-prima. Chega uma hora que nem o mercado interno garantirá mais o crescimento da economia. Falta de visão Essa falta de visão sobre o salto futuro é disseminada no país. No governo federal, lançam-se planos ditos de desenvolvimento sem concatenação com a política macroeconômica. No Estadão de ontem, José Serra criticou o governo federal. Mas, em plena crise de 2008, aumentou os impostos paulistas, recusou-se a receber industriais e não desenvolveu um programa sequer de inovação para o Estado. * Luis Nassif é jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif – lnassif2011@bol.com.br. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luis Nassif*
papel-de-parede-com-natureza-1 Envolverde Rio + 20

Uma economia democrática para o desenvolvimento sustentável

À medida que se aproxima a Rio+20 e em que amadurecem os debates sobre suas possíveis conclusões, fica mais clara a grande polêmica em torno da dimensão econômica, em sua relação com as demais dimensões em pauta, e, finalmente, com o próprio desenvolvimento sustentável, enquanto estratégia ampla para se evitar o evidente desastre a que nos leva o modelo atual. A Rio+20 – sendo um evento/processo complexo e multifacetado, onde se entrelaçam agendas e atividades de inúmeros atores, sem necessariamente uma conexão explícita entre si – é passível de vários enfoques e análises, conforme a perspectiva de quem a analisa, e do foco de sua atenção. Neste artigo, parto de uma rápida comparação entre diferentes perspectivas sobre um mesmo tema – a economia – o qual, em seguida, procuro analisar em detalhe. O objetivo é contribuir para uma compreensão mais clara sobre o que está em pauta, propiciando assim uma base para ações mais efetivas visando ao máximo proveito da Rio+20 enquanto oportunidade para avançarmos na construção de uma sociedade socialmente justa, economicamente viável e ambientalmente sustentável. Os direitos no centro da agenda Colocar os direitos no centro da agenda é um aspecto-chave na perspectiva inicial de muitos que, como nós, engajam-se nos processos sociopolíticos movidos pela convicção ética de que todos os seres vivos – e especialmente os seres humanos – têm direito a uma existência plena, saudável e feliz. Um desdobramento natural dessa perspectiva é buscar o reconhecimento explícito desses direitos nos debates em curso e nos compromissos deles resultantes. Se queremos – por exemplo – que os direitos à educação, à alimentação, à moradia , à saúde e à participação sociopolítica sejam garantidos e levados em conta nas decisões tomadas e nas políticas formuladas, é preciso mencioná-los de modo direto e claro. Isso foi, por exemplo, o que aconteceu em várias das conferências do ciclo social da ONU, em que direitos humanos de várias gerações, reconhecidos genericamente em vários instrumentos, foram detalhados e convertidos em recomendações concretas, propostas afirmativas e diretrizes políticas. Vendo por essa perspectiva, o debate preparatório para a Rio+20 pode ser um tanto desapontador, na medida em que pouco trata desses temas e, quando trata, geralmente o faz sob a forma de referências genéricas ou menções esparsas. A afirmação de direitos certamente não é a tônica dos debates na Rio+20, cuja pauta explícita se foca em dois temas centrais: a “economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza” e o “quadro institucional para o desenvolvimento sustentável” ou, simplesmente, “governança global”. Evidentemente, declarações genéricas reiterando compromissos antigos combinadas com propostas “simples e diretas” sobre aspectos práticos podem facilmente desandar para encaminhamentos que, ao fim e ao cabo, levam a caminhos bem diferentes dos declarados. Este, por exemplo, é o risco mais evidente das propostas relativas à utilização de instrumentos econômicos, como a criação de mercados, mas sem a necessária contrapartida em termos de controle social e outras medidas que garantam a saudável gestão dos mesmos, e o uso socialmente apropriado da riqueza gerada. Mas é importante considerar, no entanto, que a simples reafirmação dos direitos – mesmo que explícita, detalhada e tangíveis na forma de propostas de ação concretas – pouco ou nada adiantaria, visto que estaria apenas repetindo o que já ocorreu nas duas últimas décadas, com resultados efetivos muito aquém do necessário e desejado. Nesse sentido, a abordagem mais pragmática da Rio+20 pode ter seu lado positivo, na medida em que encontre meios mais concretos e efetivos para cumprimento dos compromissos e objetivos assumidos e reiterados. Cabe então àqueles que desejam manter os direitos no centro da agenda encontrar maneiras para ir além da reafirmação de princípios e compromissos, explicitando e enfatizando suas demandas, mas combinando-as com propostas concretas e relacionadas aos objetivos da Conferência. Há risco de que a Rio+20 se desvirtue, convertendo-se num evento de consolidação da agenda para predomínio da economia sobre a política e a ética. Mas ela é também uma oportunidade para que essa tendência seja revertida, e que sejam acordados os fundamentos de uma economia para o desenvolvimento sustentável, ou seja, um arranjo institucional e político que coloque as forças econômicas a serviço da sociedade, e não o contrário. A atual crise no sistema financeiro e na Europa, as movimentações por cidadania em todo o mundo e a eloquência dos problemas socioambientais demonstram que não se trata de uma questão de preferências ideológicas ou de teorias idealistas: a humanidade enfrenta o desafio concreto de viabilizar-se, e a Rio+20 apresenta-se como momento oportuno para isso. É preciso aproveitá-lo, de todas as formas. A pauta da Rio+20 e o desafio central da economia verde(1) Um grande consenso acerca da economia verde (EV) é que não será possível construir uma sociedade social e ambientalmente sustentável sem que ocorram profundas mudanças nos sistemas econômicos, que precisam modificar tanto seu objetivo último (colocando a melhoria das condições globais de vida e bem-estar no lugar do mero crescimento no fluxo de bens e serviços), quanto sua noção de custos (que precisa incorporar de modo mais completo o valor dos insumos utilizados no processo produtivo e os impactos de sua utilização). A discussão sobre EV, assim, incorpora disputas estruturais que há muito dividem a humanidade, tanto em termos geopolíticos, econômicos e comerciais, quanto ideológicos, éticos e filosóficos. É evidente que tais disputas não se resolverão no curtíssimo prazo que a emergência socioambiental global e a presente combinação de crises do sistema hegemônico nos coloca. Não se trata apenas de uma disputa política ou acadêmica, mas da reconfiguração das aspirações e da visão de mundo que há muitas gerações condicionam bilhões de pessoas em todo o planeta, nas bases do consumismo da acumulação e da desigualdade. Outras formas de viver em sociedade existem ou são idealizadas, mas sua adoção ampla passa necessariamente por um processo de transição relativamente longo, e para o qual enormes forças sociais e institucionais precisam se mobilizadas. Assim, vemos que o desafio central da EV é utilizar o poder da “linguagem econômica” para dar centralidade e força às propostas de sustentabilidade com justiça social e ambiental enquanto, ao mesmo tempo, evitem-se os riscos e “efeitos colaterais” da apropriação indevida ou distorcida dessas propostas pelo sistema hegemônico. Partindo desse desafio central, e visando ao propósito imediato de acelerar a transição rumo à EV, propomos tomar os vários questionamentos envolvendo a EV não como obstáculos, mas sim como alertas a serem considerados na análise das propostas e estratégias em pauta, minimizando os riscos de que a urgência na ação leve ao agravamento de problemas que se deseja evitar. Reconhecemos que esta é uma abordagem limitada, porém a consideramos, neste momento, essencial para evitar a paralisia, ainda mais perigosa. Democracia econômica e desenvolvimento sustentável Concluindo, enfatizamos nosso entendimento de que a Rio+20 é – sem dúvida – uma oportunidade única para discussão do papel que o sistema econômico deve ter na construção de uma sociedade justa e sustentável. Em seu livro Democracia Econômica – Alternativas de Gestão Social (Ed. Vozes, 2008), o professor Ladislau Dowbor esmiuça as principais tendências hoje observadas sobre o papel da economia nessa construção, apontando importantes lacunas não cobertas pela teoria e prática econômicas em curso, e indicando possibilidades para superação desse desafio. Em síntese, diz ele que “a democracia propriamente econômica se manifesta: (a) na qualidade da inserção no processo produtivo; (b) no acesso equilibrado aos resultados do esforço (social de construção de riqueza); e (c) no acesso à informação que assegure o direito às opções”. Cada um desses três eixos traz embutida uma perspectiva ética e democrática, e desdobra-se em propostas concretas para que o sistema econômico trabalhe a favor da construção de uma sociedade global como desejamos. É um exemplo prático e inspirador de como fundamentos éticos podem ser convertidos em propostas concretas para mudança do sistema econômico. E demonstra como esta não é uma preocupação de poucos idealistas mas, cada vez mais, a convicção de pensadores que enfocam com seriedade e isenção os desafios que enfrentamos. Nunca a concentração de renda e o poder econômico foram tão grandes, em termos globais. É forçoso reconhecer que o capital financeiro declaradamente especulativo ou pseudoprodutivo domina o cenário não só econômico, como também político, exercendo grande influência nos governos dos Estados-Nacionais, e da própria ONU. Mas, por outro lado, nunca a sociedade civil global dispôs de tanta capacidade de conexão e potencial para mobilização. A força da opinião pública, nas redes sociais e nas ruas – e também nos corredores do poder –, é um fato real e incontestável. Não mudaremos a realidade da noite para o dia, mas podemos, sim, fazer grande diferença, garantindo que as instituções deixem de servir apenas a uma minoria e, progressivamente, apoiem o fortalecimento de um sistema mais aberto, transparente, democrático e sustentável. A Rio+20 é uma excelente ocasião para isso. Nota (1) Utilizamos o termo Economia Verde (EV) – sem qualquer outro adjetivo – para nos referirmos ao conjunto de propostas voltadas ao desenvolvimento sustentável ou, mais especificamente, à transformação da economia global para padrões socialmente justos e ambientalmente sustentáveis, num marco ético e democrático. Para mais informações sobre este posicionamento, acesse http://www.economiaverde.org.br ou http://www.greeneconomy.org.br. * Aron Belinky é coordenador de Processos Internacionais do Vitae Civilis. Texto publicado originalmente no Boletim Rio+20 n.3, janeiro 2012, da Heinrich Böll Stiftung. ** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Aron Belinky*

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Novo guia sobre aves da Mata Atlântica é lançado no Brasil. O material apresenta 100 espécies de pássaros. Foto: Haroldo Palo Jr

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Filhote de panda brinca com a mãe em centro de reprodução na China. Instituição de pesquisa de Chengdu tenta salvar espécie da extinção.

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Falta de lixo em Oslo, Noruega, pode comprometer geração de eletricidade. Pouca produção de resíduos de outros países pode afetar usinas.

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Derretimento de geleiras não-polares causa 30% da elevação do mar. Dado foi apresentado em estudo na revista ‘Science’.

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Austrália quer proibir fertilização do oceano com sulfato de ferro. Método reduziria acidificação e combateria efeitos da mudança do clima.

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Já pensou em vender ou comprar sobras de comida através da internet? Esta é a ideia da plataforma virtual Shareyourmeal, uma forma interativa de combater o desperdício de alimentos. Saiba mais aqui.

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CET de São Paulo abres inscrições para o curso “Pedalar com Segurança”. Saiba mais.

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Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.