A China é uma potência desenvolvida ou um país em desenvolvimento?

Mundo

A China é uma potência desenvolvida ou um país em desenvolvimento?


por Martin Khor*


Genebra, Suíça, janeiro/2012 – A China ainda é um país em desenvolvimento ou se transformou em uma nação desenvolvida? Esta pergunta ganhou atualidade depois que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse ao presidente Hu Jintao que a China deve assumir maiores responsabilidades agora que se converteu em uma potência econômica. Obama quis dizer que a China deveria ser tratada como os Estados Unidos ou a Europa quanto às suas obrigações internacionais, como as adotadas para reduzir as emissões de gases-estufa, diminuir suas tarifas alfandegárias, renunciar a medidas protecionistas, proporcionar ajuda aos países pobres e deixar sua moeda flutuar livremente. Devido às pressões de Estados Unidos, Japão e Europa para que a China renuncie ao seu status atual e assuma as obrigações de uma nação desenvolvida, importantes negociações multilaterais estão em um beco sem saída. Eles também pretendem que outros países, como Brasil e Índia, façam o mesmo. Mas, a China é um país desenvolvido? A resposta depende dos critérios que forem usados. Em termos absolutos a China é uma grande economia. Seu produto interno bruto (PIB) é o segundo no mundo, superado apenas pelos Estados Unidos. Também é o maior emissor de gases-estufa, à frente inclusive dos Estados Unidos. Contudo, isto é principalmente porque, com 1,3 bilhão de habitantes, é o país mais populoso do planeta. Entretanto, apesar da imagem poderosa com que se apresenta nos meios de comunicação, a China é um comum país em desenvolvimento se forem examinados seus indicadores per capita. O status econômico dos países é definido pelas Nações Unidas, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial, e o critério principal que utilizam é a renda per capita. O FMI classifica a China como país em desenvolvimento com PIB per capita em 2010 de US$ 4.382 e o coloca em 91º lugar entre 184 nações do mundo. Seis países africanos (Guiné Equatorial, Gabão, Botsuana, Maurício, África do Sul e Namíbia) têm PIB per capita superiores ao da China. O PIB per capita chinês é menos de décimo do norte-americano, que chega a US$ 46.860. Luxemburgo encabeça a lista, com US$ 108.952. Banco Mundial classifica os países em quatro grupos: 1) os de baixa renda, com menos de US$ 1.005 dólares per capita; 2) os de renda média-baixa, entre US$ 1.006 e US$ 3.975; 3) os de renda média-alta, entre US$ 3.976 e US$ 12.275, e 4) os de renda alta, com mais de US$ 12.275. Segundo o Banco Mundial, o PIB per capita da China em 2006 era de US$ 2.050, em 2007 de US$ 2.490, em 2008 de US$ 3.050, em 2009 de US$ 3.650 e em 2010 de US$ 4.260. Depois, a China esteve nos últimos anos no nível de renda média-baixa até que, em 2010, passou à categoria de renda média-alta. Os economistas também usam a medida do “poder aquisitivo” per capita (GPP), que compara o diferente custo de vida nos países. Os habitantes de um país com custo de vida relativamente baixo podem desfrutar de um nível maior de vida do que o quantificado pelo produto nacional bruto (PNB) desse país. Segundo esse critério, em 2010 a China estava ainda mais abaixo na lista mundial, ocupando o posto 95 com US$ 7.544 de poder aquisitivo, abaixo de Equador e Bósnia Herzegovina. O Programa para o Desenvolvimento da ONU tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que mede a qualidade de vida em termos de renda, educação, expectativa de vida, etc. O IDH 2011 mostra a China na 101ª colocação entre 187 países, com índice de 0,687. E o que acontece na questão ambiental? Embora seja o principal emissor de gases-estufa, o nível de emissões per capita da China, de 5,5 toneladas de CO², coloca esse país em 84º lugar no mundo, enquanto os norte-americanos emitem 23,4 toneladas de CO². Assim, sendo 91º no mundo em PIB per capita, 101º em desenvolvimento humano e 84º em emissões de gás-estufa per capita, a China é um país em desenvolvimento de nível médio ou mesmo médio-baixo, atrás de todos os países desenvolvidos e também de muitas nações em desenvolvimento. A China compartilha outras características dos países em desenvolvimento. Mais de 600 milhões de seus 1,3 bilhão de habitantes vivem em zonas rurais e, em 2008, havia um amplo desequilíbrio, com uma renda por família urbana 3,3 vezes maior do que as das famílias rurais. Ao mesmo tempo, é inegável que há pontos altos na economia chinesa: seu grande PIB em termos absolutos, sua alta taxa de crescimento e suas reservas de divisas acima dos US$ 3 trilhões. No entanto, enquanto a China se converte em uma grande potência econômica, ainda é um país em desenvolvimento de nível médio, com os problemas socioeconômicos que tem a maioria das nações em desenvolvimento. E se a China é pressionada para assumir os deveres de um país desenvolvido e renunciar ao seu verdadeiro status de nação em desenvolvimento, o mesmo será exigido de muitos outros países que estão inclusive à frente da China. Assim, a luta da China para manter seu status de país em desenvolvimento é de interesse de outras nações em desenvolvimentos, porque elas poderão ser as próximas se os chineses perderem essa luta. (Envolverde/IPS) * Martin Khor é diretor-executivo do South Center, em Genebra.

charge Sociedade

Novos profetas anunciando a velha lógica do capital

A crise poderá acelerar o movimento das classes sociais, externando suas contradições inconciliáveis e possibilitando uma nova correlação de forças. O elemento do movimento da transformação é indissociável do processo histórico. Portanto, nenhuma situação política e econômica é eterna e imutável. Ao que tudo indica, o ano de 2012 confirmará essa máxima filosófica. Quem tem nos garantido isso não são os filósofos acadêmicos, mas sim Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, dois importantes chefes de Estado que comandam, respectivamente, o governo alemão e o governo francês. A frieza de Angela Merkel ao afirmar que “2012 será sem dúvida pior que 2011” e o tom de conformismo de Nicolas Sarkozy quando assegurou que “2012 será o ano de todos os riscos” deixam claro que a crise econômica mundial se aprofundará no presente ano. Como todos sabemos, a situação da economia dos Estados Unidos e da Europa não é nada promissora. Some-se a isto a tendência de queda no crescimento da economia chinesa. O impacto desse cenário nas economias periféricas ainda é motivo de polêmica, mas o fato é que a estagnação e mesmo a recessão econômica em muitas economias centrais do capitalismo afetarão o comércio mundial de gêneros agrícolas e de minérios, do qual dependem muitos países. Preocupação para os capitalistas com a ameaça da queda de suas taxas de lucros para patamares insustentáveis. Mas a crise também é motivo de preocupação para a classe trabalhadora, diante da possibilidade real de queda na sua qualidade de vida. No entanto, um cenário como este tem outro aspecto fundamental: o da oportunidade de apresentar novos projetos políticos. A crise poderá acelerar o movimento das classes sociais, externando suas contradições inconciliáveis e possibilitando uma nova correlação de forças. No caso do Brasil, podemos afirmar que, se a crise econômica se aprofundar, existe a possibilidade concreta do surgimento de elementos objetivos e subjetivos que proporcionam o movimento real da classe trabalhadora, abrindo oportunidade para a emergência de uma força social de massas que tenha a capacidade de mudar a correlação de forças e apresentar um projeto popular para o Brasil. Esse cenário é possível pelos seguintes motivos. Primeiro, os anos de neodesenvolvimentismo dos governos Lula e Dilma formaram uma jovem classe trabalhadora dispersa e sem projeto político, mas que já começa a retomar a tradição da luta sindical que proporcionou ganhos salariais. Segundo, a geração de empregos nos anos de neodesenvolvimentismo diminuiu o tamanho do exército industrial de reserva, gerando pressão salarial e contribuindo para a retomada das lutas, inicialmente meramente econômicas. Terceiro, numa situação como essa, dificilmente a classe trabalhadora aceitará perder as conquistas salariais e as políticas públicas. Quarto, o neodesenvolvimentismo, que concilia o investimento produtivo com o capital financeiro, não é uma alternativa popular. A crise econômica colocará o governo Dilma diante de alguns desafios. Para manter as conquistas do governo Lula, a presidenta terá que acelerar e aprofundar as mudanças na política econômica, diminuindo o espaço do capital financeiro na economia nacional. Além disso, o que realmente poderia garantir renda e emprego num momento de crise profunda seria um conjunto de reformas nacionais, democráticas e populares que dependem mais de um amplo movimento de massas do que de um governo de composição que concilia interesses de classes. Vale lembrar que o aprofundamento da crise também possibilitará o surgimento de uma alternativa pela direita. Isto pode ocorrer se nos depararmos com o encontro de duas situações. O caráter conciliador do neodesenvolvimentismo conservador – que não pauta as reformas estruturais na sociedade, não educa politicamente as massas, não forma uma base social de massas com um projeto político claro e não gera massa crítica na sociedade – abre espaço para o crescimento da direita em determinadas situações. Além disso, se as forças populares não conseguirem viabilizar uma alternativa democrática, nacional e popular à crise do capitalismo mundial, aumentam, ainda mais, as possibilidades de triunfo da direita. Para as forças populares, acumular forças incidindo nas contradições reais que a luta política nos apresenta é fundamental para viabilizar uma alternativa popular à crise econômica. Por isso, avançar no nível de organização popular, dialogando com uma nova correlação de forças em formação na América Latina, é o caminho para podermos consolidar uma força social de massas que apresente um projeto popular que dialogue com o nível de consciência da classe trabalhadora e que resolva seus problemas básicos. A história demonstra que uma proposta como essa tem a capacidade de politizar e polarizar as classes sociais, causando um impasse político na sociedade em que o projeto popular passa a ser uma alternativa de poder para a classe trabalhadora. Que as lutas sociais em 2012 acumulem para a construção de um projeto popular. * Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Redação Brasil de Fato
trofeuapex Comércio Exterior

Reforço da inserção primário-exportadora é a resposta do Brasil à crise financeira

Começa um debate ideológico subliminar sobre os rumos da economia brasileira face à crise externa. O cerne deste debate, de que nos dá conta uma recente entrevista (jornal O Estado de S. Paulo, 8/1/2012, pag. B4) do diretor do Instituto Casa das Garças, Edmar Bacha, é a economia dos recursos naturais. Em primeiro lugar, vamos contextualizar, para discernir com maior clareza o que está em jogo. Pela especialização externa a que se dedicou na última década, a economia brasileira disputa uma fatia crescente de uma renda extraordinária que se poderia obter com exploração de recursos naturais – terras, jazidas, reservas de água doce e campos petroleiros. As dotações (não produzidas) desses recursos naturais passaram a significar uma fonte importante de rendimento econômico aos seus proprietários – a clássica renda fundiária, que virou novo/velho filão da acumulação de capital, não apenas no setor primário da economia, mas também no conjunto do sistema econômico. O fenômeno visível e revelador dessa renda em ascensão é o forte movimento de alta dos preços das terras rurais, jazidas minerais, campos de petróleo e bem assim, por outras vias, a opção por investimentos hidroelétricos. Os preços desses ativos (recursos naturais) são puxados pelo boom das commodities agrícolas e minerais internacionais dos últimos doze anos, como também pela política financeira e fundiária do Estado brasileiro. Segundo uma visão econômica clássica do comércio internacional (David Ricardo, 1817), essa renda fundiária extraordinária refletiria uma “vantagem comparativa natural” que o Brasil obteria em suas relações com as economias industriais maduras, e também em relação às economias de países superpopulosos (China, Índia e Japão), relativamente aos estoques de recursos naturais para abastecer seu crescimento econômico. Esse filão de vantagens comparativas naturais, que na teoria clássica está umbilicalmente ligado à disputa pela renda fundiária, seria para alguns economistas a pedra angular da nova inserção brasileira na divisão internacional do trabalho. Os mais exagerados adeptos das “vantagens comparativas” já nos veem como sócios proprietários de um novo mundo que se gesta com centro econômico na Ásia. Os mais prudentes assinalam que há outras coisas a fazer, além da especialização primária. Por outro lado, como essa especialização primária no comércio internacional se dá com paralela e evidente perda de participação da maioria dos ramos manufatureiros, e como em geral a economia dos serviços pouco exporta, recai todo o peso do ajuste das transações externas sobre o setor primário. É aqui que está o nó da questão. A suposta pedra angular revela-se uma pedra de tropeço. Isto porque a especialização primária no formato em que está se estruturando impele o sistema de acumulação de capital a uma voraz superexploração de recursos naturais e/ou internacionalização de direitos de propriedade, como via necessária de ajustamento aos déficits crescentes – primeiro nas transações mercantis externas (conta-corrente) e depois no próprio movimento de capitais. Em linguagem mais simples e direta: superexploração de recursos naturais significa perda irreversível de recursos de patrimônios intergeracionais naturais, que, sob o nome genérico de terra, significam biodiversidade, solos, florestas nativas, rios, patrimônios genéticos, aquíferos, saúde ambiental, etc., todos convertidos em commodities produzidas a custos sociais elevadíssimos e socializados, enquanto os benefícios econômicos ficam restritos aos proprietários da riqueza. Finalmente, o ajuste à crise financeira externa pelo aprofundamento da inserção primário-exportadora e pela maior internacionalização dos ativos do setor primário, incluindo o pré-sal, tese em circulação em certos círculos ultraconservadores, converter-se-ia em médio prazo em uma gigantesca dilapidação de recursos não renováveis. Agravaria também a concentração fundiária, sem criar perspectiva séria de desenvolvimento para o país. É hora de pensar o Brasil a sério! * Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania. ”


por Guilherme C. Delgado*
minimo Brasil

O Brasil e o “modelo Carnaval” de gestão

País é o novo destino das escolas de administração ao redor do mundo. O Brasil se tornará uma nova fonte de inspiração para as escolas de administração do Ocidente? Nos últimos 15 anos, elas podem ter olhado para o Oriente, com novas escolas do ramo surgindo em países de rápido crescimento como a China e Cingapura, o que levou a um enorme fluxo de intercâmbios de alunos e professores entre os campi dos dois lados do planeta. Mas um número cada vez maior de escolas de administração agora volta seus olhos para o sul, onde o Brasil é o maior destaque. A Darden School of Business da Universidade de Virgínia, recentemente introduziu um período no Brasil como parte do currículo de seu MBA Executivo Global. Estudantes irão até São Paulo e Rio de Janeiro, onde assistirão aulas por duas semanas, visitando empresas locais e aprendendo sobre o ambiente do mundo dos negócios da região. E a Beadie School of Business, da Simon Fraser University, no Canadá, juntou forças com a Escola de Negócios da Fundação Instituto de Administração, em São Paulo, com a mexicana Itam, e com a Vanderbilt University, de Nashville, para desenvolver um “Programa de MBA Executivo para as Américas”. A enorme atividade no ramo não é exatamente uma surpresa. No fim do ano passado, o Brasil superou o Reino Unido, tornando-se a sexta maior economia do mundo, de acordo com o Centre for Economics and Business Research. Ainda assim, apesar do recente sucesso do país e sua riqueza em recursos naturais, a história da economia brasileira na segunda metade do Século 20 deixa a desejar. Uma velha piada diz que o Brasil é o país do futuro, e sempre será. Além da instabilidade política, analistas citam décadas de erros no controle corporativo e uma escassez de estratégias para manutenção do crescimento. Brasil: futuro promissor? Mas o país é o destino de muitas multinacionais procurando um espaço na América Latina. O Brasil conta com um sofisticado setor de tecnologia, e petróleo, plantações e refinarias suficientes para garantir sua autossuficiência. Além disso, o Brasil foi escolhido para sediar os dois maiores eventos esportivos do planeta nos próximos quatro anos: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Some a isso uma classe média crescente, e a economia deve ter um futuro promissor. Conseguirão as escolas de administração estrangeiras influenciar os executivos do país, dada a tendência histórica do Brasil de ser um país autocentrado e resistente a ideias externas? Para que o país siga crescendo, os gestores precisam mudar suas mentes, diz Peter Rodriguez, decano sênior da Darden School of Business. E, segundo ele, isto já está acontecendo, com a economia do país se afastando de empresas familiares, rumo a companhias comandadas de maneira mais profissional. A linhagem sanguínea, as conexões sociais e a sorte desempenham papéis cada vez menores na ascensão profissional. Empresas locais também estão ansiosas para usar a educação administrativa para aprender com os recentes fracassos dos países ricos, diz Cesar Beltran, diretor da Escola de Administração do Iese. “Nessa era de crescimento rápido, eles não querem ignorar o cenário a longo prazo em troca de ganhos em curto prazo”. Beltran também acredita que cada vez mais empresas brasileiras querem que seus gestores pensem de maneira global. Marina Heck, do programa OneMBA da Escola de Administração da Fundação Getulio Vargas (FGV), encara esse processo como parte de uma tendência maior na qual um número crescente de empresas investe mais em seus talentos de gestão. No Brasil também há uma guerra por talento. Como consequência, 90% dos alunos inscritos no OneMBA são financiados por suas empresas. E, enquanto nos países ricos o número de pessoas buscando um MBA caiu nos últimos dois anos, no mesmo período, as inscrições para o programa da FGV dobraram. Para estudantes que vêm de fora do país, o Brasil oferece lições que se diferenciam daquelas que possam ser aprendidas em outros países do Brics, como a Índia e a China. Os estudantes da Darden, por exemplo, recebem a oportunidade de estudar o Carnaval carioca e entender como um grande evento internacional pode surgir das favelas empobrecidas. Embora a maior reunião popular do planeta possa parecer com uma festa espontânea, ela também é resultado de meses de treinamento intenso, coreografias meticulosas, e gestão pessoal em escala maciça. O “Samba Management”, uma combinação do divertido e do formal, pode ser um modelo para o futuro. * Publicado originalmente no site The Economist e retirado do Opinião e Notícia.


por Redação The Economist
capitalismo Artigo

Manobras ideológicas

Reverenciado jornal de negócios e economia, o Financial Times dedicou-se a especular os destinos do capitalismo depois da crise que sacudiu o planeta. Publicada ao longo da semana, a série Capitalism in Crisis reúne artigos e comentários de empresários, banqueiros, políticos e economistas. O jornal discorda dos que pretendem abolir a palavra capitalismo de seu dicionário. Não aceita a parolagem de ideólogos e fanzocas que executam contorcionismos conceituais para evitar a conexão entre a crise e o capitalismo. Para esta turma, imagino, a derrota do socialismo tornou inútil o conceito que designava o sistema triunfante. Trata-se de um estranho jogo de oposições em que a morte do adversário confere nova identidade ao sobrevivente. No baile de máscaras dos conservadores, o capitalismo é identificado com a propensão humana natural para a troca e para a obtenção de vantagens materiais. São impulsos inatos do homem que a sociedade não pode sufocar. Não há alternativa, diria a senhora Thatcher. Os adversários e detratores do capitalismo brotam como cogumelos no terreno adubado pela crise e pela impotência das lideranças democráticas. Nesses arraiais, a plasticidade desse modo de produção é surrupiada pela ideia de que afinal ele é sempre o mesmo e seu destino inexorável será a derrocada final, afirmada e reafirmada pelas velhas teorias do colapso. Os críticos à esquerda imaginam estar prestando homenagem à boa tradição de seu pensamento, cedendo passo a supostos automatismos e inevitabilidades que estariam implícitos na dinâmica do capitalismo. Essas concepções ossificadas – à direita e à esquerda – deixam de examinar o capitalismo como uma forma histórica de relações econômicas, sociais e políticas que se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação. Sob o véu do determinismo, essas manobras ideológicas escondem as incertezas embutidas no jogo entre a crise da estrutura socioeconômica e as conjunturas marcadas pela intensificação da luta política. As manifestações dos ocupantes revelam que o mal-estar se dissemina pelo mundo desenvolvido. Naturalmente, o desconforto dos que deploram a desigualdade escandalosa e protestam contra a prepotência da finança não é causado apenas pela figuração das privações que o futuro lhes promete. É preciso dizer mais. No capitalismo da falta de alternativas proclamado pela senhora Thatcher, as relações entre o político e o econômico foram ordenadas de modo a remover quaisquer obstáculos à expansão da grande empresa e do capital financeiro internacionalizado. O processo de mundialização da concorrência desencadeou uma nova onda de centralização de capitais e estimulou a dispersão espacial das funções produtivas e a terceirização das funções acessórias ao processo produtivo. Este movimento foi acompanhado por uma intensa “apropriação” das decisões e informações pelo “cérebro” da finança. Os mercados de capitais tornaram-se, ao mesmo tempo, mais poderosos na formação das decisões e, contrariamente ao que se esperava, menos “eficientes” na definição dos critérios de avaliação do risco. A nova finança e sua lógica se notabilizaram por sua capacidade de impor vetos às políticas macroeconômicas. A despeito do desemprego e da desigualdade escandalosa, as ações compensatórias dos governos sofrem fortes resistências das casamatas conservadoras. A globalização, ao tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos grupos privilegiados, desarticulou a velha base tributária das políticas keynesianas, erigida sobre a prevalência dos impostos diretos sobre a renda e a riqueza. A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do individualismo, que se opõe a qualquer interferência no processo de diferenciação da riqueza, da renda e do consumo efetuado por meio do mercado capitalista. Os programas de redistribuição de renda, reparação de desequilíbrios regionais e assistência a grupos marginalizados têm encontrado forte resistência dentro das sociedades. Mais um ardil da razão: o novo individualismo construiu sua base social na grande classe que emergiu da longa prosperidade e das políticas igualitárias que predominaram na era keynesiana. Agora em escombros, as classes médias, sobretudo nos Estados Unidos, ziguezagueiam entre os fetiches do individualismo e as realidades do declíno social e econômico. A individualização do fracasso já não consegue ocultar o destino comum reservado aos derrotados pela desordem do sistema social. O reconhecimento da crise como um fenômeno social é inevitável. E este reconhecimento torna-se mais disseminado quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio à teimosa celebração do sucesso de alguns indivíduos. * Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de Carta Capital. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Luiz Gonzaga Belluzzo*
gasto-publico Governo

Orçamento 2012

Novamente previsão é de gastos seis vezes maiores com o pagamento da dívida pública do que com saúde e educação juntos. Antes de os parlamentares entrarem em recesso, no final de 2011, foi aprovada a Lei Orçamentária Anual (LOA) para 2012. É na LOA que são previstas as receitas e as despesas que o governo federal pretende realizar durante o ano. Para 2012, o quadro de previsões de gastos nas mais diversas áreas pouco mudou em relação ao que foi previsto para o ano passado. A maior quantidade dos recursos continua tendo o mesmo destino: os pagamentos da dívida pública. Na LOA 2012, 47,19% dos recursos do orçamento geral da união irão para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública, enquanto a saúde ficará com 3,98% e a educação com 3,18%. Os cálculos são do Movimento pela Auditoria Cidadã da Dívida, que monitora cotidianamente os gastos do governo. Do orçamento executado em 2011, 45% dos recursos também foram para os credores internacionais, enquanto para a saúde foram destinados 4,07%, um pouco mais do que o previsto para 2012. Já para a educação, foram investidos 2,99% dos recursos, uma porcentagem um pouco menor do que a previsão deste ano. Apesar da pressão, o texto final da LOA 2012 aprovado pelo Congresso não incluiu aumento de salário para os aposentados e servidores públicos. EsTa opção quase resultou na não aprovação da lei no último dia do prazo final para votá-la devido à pressão exercida por esses setores. "As aposentadorias no valor de um salário mínimo receberão um aumento real, equivalente aos 7,53% aplicados ao salário mínimo. Apesar de o governo festejar este aumento, cabe ressaltar que, desta forma, o governo Dilma acumulará, em seus dois primeiros anos, um aumento real médio anual de 3,4%, inferior até mesmo à média de FHC. Continuando-se nesta média anual, serão necessários 37 anos para se chegar aos R$ 2.349,26 exigidos pelo Artigo 7º, IV da Constituição, que garante um salário que assegure 'moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social', calcula o movimento pela Auditoria Cidadã da Dívida, em sua página eletrônica. Poucas conquistas nas campanhas por mais recursos para saúde e educação Enquanto em 2012 estão previstos aproximadamente R$ 655 bilhões para o pagamento da dívida, todo o orçamento da seguridade social previsto é de R$ 535 bilhões. O ano de 2011 foi de reivindicação por mais recursos para a saúde e a educação, o que não se concretizou na previsão orçamentária. Nos meses que antecederam à 14ª Conferência Nacional de Saúde, movimentos de trabalhadores e outras entidades em defesa do SUS pressionaram pela regulamentação da Emenda Constitucional 29, de forma a que fosse fixado o repasse obrigatório de 10% da receita corrente bruta da União para a saúde. Regulamentada a Emenda 29, os percentuais destinados à saúde continuam os mesmos para estados e municípios e a União permanece desobrigada a investir recursos mínimos. O custo total da saúde presente na LOA em 2012 será de cerca de R$ 91 bilhões. Na mensagem enviada ao Congresso com a previsão de gastos para 2012, o governo federal aponta alguns desafios para este ano, entre eles, a segunda parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) no qual também constam ações de saúde. "No setor saúde, está prevista a construção de mais de duas mil Unidades Básicas de Saúde, além da reforma e a ampliação das que compõem a estrutura física básica de atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), e de 191 novas Unidades de Pronto Atendimento 24h, cujas estruturas são de complexidade intermediária entre as UBS e as portas de urgências hospitalares, sendo que o conjunto destas iniciativas compõe uma rede organizada de atenção às urgências médicas", prevê o Executivo, embora os recursos previstos para saúde dentro do PAC façam parte dos mesmos R$ 91 bilhões dedicados ao setor na LOA. Na educação, a campanha foi para que o Plano Nacional de Educação (PNE) que vigorará de 2011 a 2020 determine que 10% do Produto Interno Bruto (PIB) seja destinado a essa área. O Plano ainda não foi votado, mas o relatório apresentado pelo deputado Angelo Vanhoni (PT-PR), no final do ano passado, fixa o percentual de investimento do PIB em 8%. O PIB brasileiro fechou 2011 em R$ 1,05 trilhão. Fazendo as contas, é possível chegar aos seguintes resultados: caso seja aprovado no PNE o investimento de 10% do PIB para a educação, a área passará a receber R$ 105 bilhões, levando-se em conta o PIB do final de 2011. Com os 8% proposto pelo relator, o investimento passa a ser de R$ 84 bilhões, R$ 10 bilhões a mais do que prevê a LOA 2012 – R$ 74 bilhões. Traduzindo esses valores, destinando-se 10% do PIB para a educação, seria possível construir 21 mil escolas a um custo de R$ 5 milhões cada uma, que é o valor empregado pelo MEC nas novas escolas de educação profissional inauguradas em 2009. Com os 8% até então sinalizados pelo relator, seriam construídas 16.800 escolas, 4.200 a menos. Pagamento da dívida A previsão é de que, em 2012, a União terá, no total, aproximadamente R$ 2,2 trilhões para gastar. Em 2011, este valor foi de R$ 2,07 trilhões, e em 2010, de R$ 1,8 trilhão. Nos dois últimos anos, o montante destinado ao pagamento da dívida pública (interna e externa) consumiu quase metade de todo o orçamento. E para 2012, a previsão se repete. O economista do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), Marcos Arruda, comenta em artigo de janeiro deste ano os mecanismos perversos de endividamento dos países, que podem levá-los, inclusive o Brasil, a graves crises, a exemplo do que já ocorre na Europa. "A grande bolha atual do mundo das finanças globalizadas se chama endividamento. A França, os Estados Unidos e o Brasil também têm dívidas públicas gigantescas e, cedo ou tarde, estão arriscados a afundar também. Reconheçamos: existe uma situação generalizada de insolvência. Só uma nova arquitetura financeira, a serviço de outro paradigma de desenvolvimento, é capaz de atingir e superar as raízes da crise", assegura. O Brasil gasta muitos bilhões anualmente com o pagamento da dívida, mas ela não acaba. O economista explica por que isso ocorre. "O dinheiro, criado para fazer circular a riqueza, hoje a concentra por meio do macabro mecanismo dos juros compostos. Os juros, que não representam riqueza real, vão sendo incluídos como (valor) principal ao longo de tempo, elevando de forma exponencial o total da dívida. A perita alemã M. Kennedy dá um exemplo convincente: um centavo emprestado a 4% de juros compostos ao ano no ano zero, chegaria ao ano de 1750 valendo uma esfera de ouro com o peso da Terra. Em 1990, valeria 8.190 esferas de ouro". Em três anos, poucas mudanças na garantia de direitos sociais e consolidação de áreas estratégicas De acordo com a LOA, outras áreas como saneamento, habitação, energia, segurança pública e cultura receberão menos de 1% do orçamento em 2012. O balanço da execução do orçamento de 2011 dá conta de que nessas mesmas áreas também foi empregado menos de 1% do orçamento. Há algumas diferenças entre a execução do orçamento de 2011 e a previsão para 2012, com um pouco mais de recursos, por exemplo, para a agricultura, transporte, desporto e lazer. A previdência social, ao contrário, recebeu 22,01% dos recursos em 2011, enquanto a previsão orçamentária deste ano destina à área 18,22%. A porcentagem destinada ao trabalho, incluindo geração de emprego, também foi maior em 2011 (2,29%) do que a prevista para 2012 (1,97%). As alterações são pequenas também em relação à execução orçamentária de 2010. A LOA 2012 ainda precisa ser sancionada pela presidente Dilma, que pode vetar em todo ou em parte o texto final. * Raquel Júnia é da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). ** Publicado originalmente no site Fundação Oswaldo Cruz.  


por Raquel Júnia*
Fila para atendimento em posto do SUS de Pernambués Brasil

Brasil: a hora dos serviços públicos

Presidente do Ipea lança estudo que revela: economia pode ultrapassar França e Alemanha em breve – mas faltam políticas para assegurar vida digna para a maioria. “O Estado brasileiro não tem um padrão de funcionamento, devemos fazer um destaque à sua insuficiência e, de certa maneira, à ineficiência de políticas públicas em determinados aspectos”. A posição é de Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), exposta durante apresentação do estudo A presença do Estado no Brasil, nesta terça-feira (10), na capital paulista. Longe de criticar a presença e a intervenção do Estado, o que o estudo sugere é um desafio de ações mais efetivas no combate a desigualdades e ao subdesenvolvimento que persiste no país, apesar do avanço econômico. Em novembro e dezembro de 2011, diferentes institutos privados internacionais divulgaram estudos apontando que o Brasil passou o Reino Unido como sexto maior Produto Interno Bruto (PIB) – a soma das riquezas produzidas durante um ano por um país – do mundo. A crise do país europeu e o crescimento brasileiro apesar das instabilidades externas provocaram o cenário favorável, mas não significam que as mazelas sociais foram superadas. Pela projeção do Ipea, até o final da década, o país deve passar também a França, na quinta posição, e a Alemanha, atualmente quarta colocada. Apesar disso, o Brasil ainda convive com situações de subdesenvolvimento. Pochmann afirma que esta questão não está superada por haver ainda uma parcela grande da população em situação de miséria. De acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16,2 milhões de brasileiros viviam em famílias com renda mensal menor que R$ 70 por pessoa. “É importante observar a trajetória ascendente do Brasil dentro de um contexto em que o Estado, certamente, continuará sendo muito importante, não apenas no enfrentamento das mazelas que nos acompanham, mas no contexto internacional, de uma economia global e uma sociedade do conhecimento”, destacou o presidente do Ipea. Desigualdade regional Para Pochmann, existem políticas voltadas a compensar desigualdades regionais, favorecendo áreas pobres ou desprovidas de recursos adequados. Outras mostram o contrário: locais mais ricos recebem mais verbas. “Não estou defendendo um Estado só para pobres. O que destaco é aquele padrão de Estado em que se oferece para determinadas regiões que são mais ricas, porque isso não pode ser universalizado e homogeneizado”, pontua o presidente do Ipea. Um dos grandes destaques do estudo são as políticas de assistência social, como o Bolsa Família. Do total de repasses do programa, 51,1% dos recursos vão para o Nordeste, ainda que a população da região represente 28% do total de habitantes do país. Ao mesmo tempo, o Sudeste, que possui 42,2% dos brasileiros, recebe 24,7% do orçamento anual do projeto. A distribuição dos recursos do governo federal, segundo Pochmann, não é homogênea porque atende às necessidades locais com o objetivo de reequilibrar as diferenças regionais. “Nesse exemplo, o Estado coloca mais recursos na proporção inversa ao tamanho da população porque ali existem mais pobres”, afirmou. O mesmo tipo de mecanismo verifica-se em benefícios previdenciários, que têm ajudado a reduzir as desigualdades regionais. Mas esse tipo de ação, segundo o economista, não substitui investimentos em áreas como saúde e educação em regiões menos assistidas. A educação é um dos setores em que a disparidade se manifesta entre unidades da federação. O Distrito Federal, por exemplo, tem 68% dos jovens matriculados no ensino médio da rede pública. Na outra ponta da lista, o índice mais baixo de matrículas está em Rondônia, onde apenas 31,6% da população de 15 a 17 anos possui frequência escolar durante o ano letivo. Também há diferenças no nível de qualificação dos professores pelo Brasil. Segundo Pochmann, enquanto no Norte 51% dos professores de ensino fundamental têm formação superior, no Sul este percentual é de 82%. Na saúde, os resultados sinalizam uma distância representativa entre o número de médicos por habitantes nas diferentes regiões do Brasil. Enquanto nas regiões Sul e Sudeste há 3,7 médicos por mil habitantes, na região Norte o número cai para 1,9 médico por mil habitantes. Esse tipo de situação é grave porque tende a reforçar e a preservar as desigualdades, em vez de combatê-las. * Publicado originalmente no site Brasil de Fato e retirado do Outras Palavras.


por Marco Antonio L, do Brasil de Fato
meio-ambiente-16 Artigo

Um ano realmente novo ou seguiremos na mesma batida da irracionalidade?

Começo de ano é propício para a realização de reflexões, avaliações e promessas de todos os gêneros. As chamadas resoluções de ano novo servem para o estabelecimento de compromissos diversos, como por exemplo mudanças de atitudes em relação aos outros e a si mesmo. Se depender da nossa vontade, seremos mais tolerantes, generosos, cultos, saudáveis e responsáveis, neste ano que se inicia, do que fomos em todos os anos anteriores de nossas vidas. Certamente muitos dos nossos sinceros desejos não serão capazes de resistir ao primeiro mês, tragados pela dinâmica de nosso cotidiano. De qualquer modo, a passagem de ano possui esse efeito positivo. Não custa nada parar um momento para, quem sabe, redirecionar diversos aspectos de nossa vida. Bom seria que fizéssemos também uma boa análise, mais abrangente mesmo, em dimensões globais sobre a irracional e destrutiva maneira pela qual estamos consumindo o planeta. E, isso não é maneira de dizer, literalmente estamos sugando os recursos planetários e, o pior, não necessariamente para dar melhores condições de vida para todos os seres humanos. Até podemos afirmar: muito pelo contrário! O que temos feito é consumir mais rápido e descartar também em ritmo cada vez mais veloz. Um bom exemplo são os celulares. Em 2007, os brasileiros trocavam seus aparelhos, em média, a cada dois anos. Atualmente essa troca já está sendo feita em um ano e quatro meses. Este é apenas um caso entre muitos de produtos, antes chamados de duráveis, que têm se transformado ao longo dos anos em verdadeiras commodities. O relatório O Estado do Mundo, publicado ainda no ano passado pelo World Watch Institute e com versão em português divulgada pelo Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, já havia constatado essa preocupante situação. Só para se ter ideia das conclusões alcançadas pelo estudo, hoje são extraídos 50% mais recursos naturais do que há 30 anos. São cerca de 60 bilhões de toneladas anuais retiradas do planeta sem a devida reposição. Entre 1950 e 2005, aponta o relatório, a produção de petróleo cresceu oito vezes, a de metais seis, o consumo de gás natural 14, de carvão seis vezes, e de cobre, 25 vezes. Números assustadores, certo? Pois, vejam que podem ser ainda mais alarmantes: só a produção de plástico cresceu nesse período de pouco mais de 50 anos, 41 vezes! Como disse antes, se ao menos toda essa voracidade tivesse o nobre objetivo de melhorar a vida de todos os habitantes do planeta... Vá lá! Mas não é isso que O Estado do Mundo constatou. Segundo o documento, a fatia dos 16% mais ricos do mundo é diretamente responsável pelo consumo de 78% dos recursos disponíveis. Enquanto os outros 84% consomem 22%! Entre as diversas e difíceis promessas de ano novo, poderia constar uma que, no meu entender, teria boas chances de sucesso, bastando apenas uma pequena reflexão do consumidor: estou consumindo o que realmente preciso? Tenho exagerado nas minhas compras e desperdiçado demais? Quem sabe se, ao pensar nisso, a gente conclua que alguns exageros poderão ser evitados daqui para frente. Uma sociedade mais consciente poderá contribuir em muito para frear o consumo irracional e desenfreado. Para finalizar, mais alguns números insanos que vão ajudar na sua reflexão. Em 2008, nós habitantes do planeta adquirimos 68 milhões de veículos, 85 milhões de geladeiras, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de celulares. Você imagina que esses números sofreram alguma redução nos anos seguintes? Um feliz 2012 mais sustentável! * Reinaldo Canto é jornalista, consultor e palestrante. Foi diretor de Comunicação do Greenpeace e coordenador de Comunicação do Instituto Akatu. É colunista da revista Carta Capital, colaborador da Envolverde e professor de Gestão Ambiental na Fappes. ** Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Reinaldo Canto*
120104-Oligarquia2-e1325691414870 Brasil

Brasil: a curiosa conversa da oligarquia financeira

Afirma-se que é preciso cortar serviços públicos agora, para (mais tarde…) reduzir os juros. Veja o que está por trás deste argumento. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, saiu de férias (3/1), por quinze dias, segundo informou a repórter Luciana Otoni, no Valor. A motivação do jornal, cujo público inclui executivos financeiros, não é, claro, o merecido descanso do ministro. A viagem de Mantega – substituído interinamente pelo secretário-executivo do ministério, Nelson Barbosa – indica que deverá ficar para fevereiro a decisão do governo sobre um possível corte no Orçamento da União para 2012. Ao contrário do que fez o Estadão, no domingo, o Valor reconhece que a decisão não está tomada. Portanto, talvez haja tempo para promover o que a oligarquia financeira (para conhecê-la, leia Patrick Viveret) mais teme: um debate sem mistificações sobre o tema. Nos últimos anos, cresceu muito, entre a sociedade, o desconforto em relação ao pagamento dos juros da dívida pública – por meio dos quais o Estado transfere maciçamente recursos, do conjunto da população para uma ínfima minoria de grandes aplicadores endinheirados. O eventual corte no Orçamento visa, como sempre, a abrir espaço para manter ou ampliar esta transferência. Mas, com o tempo, tornou-se impossível defender o movimento a seco. Por isso, surgiu um argumento curioso: ao reduzir as despesas com serviços públicos e direitos sociais agora, o Estado estaria abrindo espaço (este é o termo-chave) para reduzir o pagamento de juros… Mais tarde. A própria lógica do raciocínio é exótica. Todos compreendemos que, para realizar um novo gasto é necessário, às vezes, cortar outro, já existente ou programado (“adio uma viagem de férias para arrumar a casa”). Mas por que a redução de uma despesa perdulária dependeria da eliminação anterior de outra? Seria como se um jogador compulsivo dissesse: “vou cortar as despesas de educação da família agora para poder, daqui a seis meses, deixar o cassino”. Ou, no caso de um glutão voraz: “em 2012, não como mais frutas. Assim, abro espaço para esquecer a mesa de doces em 2013”. Na prática, a incongruência torna-se ainda mais clara. Em fevereiro de 2011, poucas semanas depois de tomar posse, a presidente Dilma decretou um corte equivalente a R$ 50 bilhões, nos serviços públicos. Isso não evitou que, ao longo do ano, o pagamento de juros batesse todos os recordes anteriores: R$ 216,1 bilhões até novembro. Em onze meses, a sociedade transferiu para a oligarquia financeira doze vezes mais recursos que os destinados à Bolsa Família, ou sete vezes o valor a ser investido na Copa do Mundo ao longo de quatro anos. Se valores tão vultosos estão envolvidos, e vivemos numa democracia, seria natural que governo, Congresso, e em especial a mídia, estimulassem um amplo debate sobre o tema. Estranhamente, os mesmos jornais que fazem imenso alarde em torno de somas irrisórias (alguém se esqueceu do “escândalo da tapioca”?), emudecem por completo diante de rios de dinheiro. Haverá aí algo de cumplicidade? Será a isso que Ignacio Ramonet se refere, quando diz temer as democraduras – alianças entre os poderes econômico, midiático e eventualmente o militar? Da velha mídia, seria difícil esperar outro comportamento. Mas, ao menos em palavras, a presidente Dilma tem condenado o caminho desastroso seguido por governos que, diante da crise, atacam direitos e serviços. Oxalá o ministro Mantega, revigorado pelas férias e livre das pressões cotidianas, encontre inspiração para pensar a respeito. E não seria mau se os movimentos sociais, cujas reivindicações têm tanto a ver com um novo padrão de serviços públicos, entrassem no debate. * Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Antonio Martins
caixa-verde-pao-de-acucar-foto Economia Verde

Um supermercado não consumista é possível?

Roupa simples, cabelo curto e óculos de haste grossa. A britânica Kate Bull sabe que não preenche o estereótipo de uma CEO –nomeclatura moderna para o presidente de uma empresa. “Não preciso de terninho”, diverte-se a executiva, enquanto reabastece seu carro elétrico nos fundos do estabelecimento. Kate divide seus dias entre planilhas, pallets com caixas de alimentos, caminhões de entrega e voluntários. Muitos voluntários. Ela é a CEO do The People’s Supermarket, ou Supermercado do Povo, uma minirrevolução silenciosa de modelo de negócios, que até o momento conta com uma loja em Holborn, no coração de Londres, embora já tenha inspirado outras iniciativas mundo afora. Na inauguração da empreitada, dia 1º de junho de 2010, funcionava assim: o cliente tinha de pagar 25 libras (cerca de R$ 75) por ano para se associar ao supermercado. Se trabalhasse quatro horas por mês na loja, varrendo o chão, tirando o lixo, fazendo pão ou operando o caixa, ganharia 10% de desconto em todas as compras. Em 24 horas, a loja tinha cem associados. Hoje, 18 meses depois, são 1.100. E a sorridente Kate está particularmente feliz porque, há menos de uma semana, conseguiu dar um passo importante para o desenvolvimento do negócio: em vez de 10%, os membros passaram a receber 20% de desconto. Com essa tesourada, os preços da maioria dos produtos ficam abaixo das principais redes varejistas da Grã-Bretanha, como Tesco, Asda e Sainsbury’s. O mercado trabalha com transparência, pagando em dia os 24 funcionários fixos e não obtém lucros. A inspiração veio do modelo do Park Slope Food Cooperative, de Nova York, que opera com conceitos semelhantes. O investimento inicial na loja britânica foi de 175 mil libras, ou R$ 535 mil. O faturamento de 2011 é de 1 milhão de libras, ou US$ 2,9 milhões – um crescimento de 60% em relação ao ano passado. Com esse conceito e esses números, The People’s Supermarket é um ímã de holofotes. No dia 11 de fevereiro de 2011, a loja recebeu a visita do premiê britânico David Cameron, cujo sonho, dizia na época da eleição, era construir uma Big Society, ou “Grande Sociedade” – o conservador vem estimulando o voluntariado para suprir os cortes com a política de austeridade. O encontro com Cameron durou cerca de uma hora. Kate sorri quando pergunto se conseguiu algum apoio do governo. “Verbalmente, apenas verbalmente”, diz. Segundo a última auditoria da loja, o Social Return on Investment, ou Retorno Social por Investimento, do projeto tem proporção de 5 libras para uma. Ou seja, cada libra esterlina investida em um associado ou voluntário é revertida em 5 libras para a comunidade em ganhos sociais. Economia social A camiseta amarela do voluntário Jacob Pover, designer de 23 anos, leva a estampa do The People’s Supermarket. Ele opera o caixa, pesa frutas, varre, o que vier, isso num sábado à tarde. Tudo porque sente que é parte de uma comunidade criativa e atuante, dentro de uma sociedade de relações interpessoais vazias. ”Todos contribuem de alguma forma e se sentem em casa”, diz o designer Jacob Pover. “Já trabalhei em um café desses de rede que os clientes não olhavam na minha cara, não sabiam meu nome. Aqui a diferença é enorme. Sou cumprimentado na rua por advogados que trabalham na região. Eles sabem quem eu sou, que faço parte do mercado que eles compram”, conta Pover, um dos funcionários fixos da loja. Segundo ele, o reconhecimento pelo trabalho é o que estimula o voluntariado. “Gente que não tinha experiência, que surtou por problemas pessoais ou profissionais, e até pessoas que sofreram algum tipo de abuso, fazem parte do grupo. Todas contribuem de alguma forma e se sentem em casa”, afirma. O clima é de pressão zero. Voluntários podem até agendar suas quatro horas de trabalho pela internet, mas nem sempre funciona assim. “O importante é aparecer para dar um oi que seja”, brinca Pover, que agora quer aplicar seus conhecimentos em design para valorizar os produtos da loja. Naquele sábado, o garoto dividia expediente com John Batho, 34 anos, o gerente da “Cozinha do Povo”, que ocupa uma pequena área no canto do supermercado. Ele é um dos que aparecem com frequência para ajudar. Ex-jornalista de negócios, estressado e infeliz, optou pelo seu maior prazer: o de cozinhar. Batho não precisou de experiência em restaurante para trabalhar na loja. Bastou querer aprender. Ele recebeu treinamento do chef midiático Arthur Potts-Dawson, um dos idealizadores do projeto – e, por que não citar?, sobrinho de Mick Jagger. A batalha do ex-jornalista é contra o desperdício, uma das bandeiras do The People’s Supermarket. “Reaproveitamos frutas e legumes que poderiam ser jogados fora. Fazemos tortas, bolos e pratos de salada”, ressalta, após uma fornada de mince pies, as tradicionais tortinhas inglesas de Natal. Aliás, ao contrário das redes varejistas, o mercado abre no dia 25 de dezembro porque alguns voluntários querem. “Tudo fecha em Londres no Natal. Mas nós estaremos abertos. Achamos que as pessoas têm direito de comprar uma cerveja ou um doce no dia. Podem vir beber com a gente”, avisa Jacob Pover. O futuro é fracionar Na geladeira da loja, as cervejas são locais, produzidas por microcervejarias no leste de Londres. Foi decisão de assembleia: queremos cervejas locais. Mas The People’s Supermarket não vende cigarros. Foi também decisão de assembleia: não venderemos cigarros porque, do outro lado da rua, tem um hospital. Os médicos louvaram a decisão. Enquanto a assembleia de voluntários dá as cartas nas prateleiras, a CEO Kate Bull espera implantar no futuro o fracionamento de produtos, partindo cada vez mais para a venda a granel. “Em vez de um saco de açúcar, vamos vender uma xícara. Não queremos que você compre demais, como as cadeias fazem, com promoções de três pelo preço de um. Queremos que você compre o suficiente”, conta, mirando uma possível expansão da loja. Por enquanto, The People’s Supermarket continua no mesmo endereço, entre lojas de grife: Lamb’s Conduit Street, Holborn, centro de Londres. Se a ideia do fracionamento colar como diferencial das grandes redes, Kate prevê bastante trabalho pela frente. “Leva tempo, mas temos de ser fortes e ambiciosos”, define. * Publicado originalmente no Opera Mundi e retirado do site Mercado Ético.


por Roberto Almeida, do Opera Mundi
pib_verde_2.1 Economia Verde

Analistas do HSBC apontam riscos para a economia verde em 2012

As incertezas políticas e as disputas comerciais são os grandes obstáculos para o crescimento da economia de baixo carbono em 2012, acreditam analistas do HSBC. “O desenvolvimento da economia limpa global passa pelos resultados das eleições nos Estados Unidos, França, Japão e Rússia”, afirma uma nota divulgada nesta segunda-feira (9) pela instituição financeira. Os analistas entendem que as decisões firmadas na Conferência do Clima de Durban (COP17) dependem de como os futuros líderes dessas potências encararão as mudanças climáticas. Apesar de destacar o perigo das eleições norte-americanas resultarem em um congresso ainda mais conservador, o HSBC acredita que o pleito francês é mais relevante para as empresas de tecnologias limpas. “A oposição ao presidente Sarkozy, que consiste de partidos socialistas e verdes, está propondo cortes ambiciosos no consumo da energia nuclear, pedindo inclusive o fechamento de 24 dos 58 reatores do país. Isto pode representar uma grande vitória para as fontes renováveis”, afirma a nota. Entre as disputas comerciais que podem frear o crescimento da economia verde estão a polêmica entrada do setor da aviação no mercado de carbono europeu e a briga entre empresas de energia solar norte-americanas e chinesas. “Estas batalhas são importantes por si mesmas, mas, além disso, devem definir o tom para a COP18 no Catar, em novembro”, explicam os analistas. Outro ponto importante de 2012, de acordo com o HSBC, será a Rio+20, em junho, que pode “providenciar maneiras criativas para os investimentos em preservação ajudarem a recuperação econômica mundial”. * Publicado originalmente no site Instituto Carbono Brasil.


por Fabiano Ávila

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