Mais recursos para a educação: nada a perder e muito a ganhar

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Mais recursos para a educação: nada a perder e muito a ganhar


por Otaviano Helene*


Atrasos escolares como os nossos, na forma de um pequeno índice de atendimento na educação infantil, grande quantidade de analfabetos e de adultos com poucos anos de estudo, evasão escolar muito alta ao longo do ensino básico e falta de profissionais qualificados, comprometem gravemente e de forma definitiva o futuro de um país. Para superar essa situação, precisamos elevar os investimentos diretos em educação pública. Mas será que aumentar esses investimentos pode comprometer outras atividades do país, em particular, as atividades econômicas?A resposta é não, por várias razões. Uma delas é que os investimentos em educação têm altas taxas de retorno, ou seja, se pagam em pouco tempo. Portanto, aumentar esses investimentos não apenas não compromete a economia como, ao contrário, contribui para dinamizá-la. Outra razão é que, apesar das nossas limitações econômicas, há margens para aumentar os investimentos, em especial em um período de crescimento da produção acima do crescimento populacional, como tem ocorrido nos últimos anos. Vamos ver essa segunda razão.O financiamento público da educação em outros paísesO gráfico mostra a média dos investimentos públicos em educação no período entre 1988 e 2010, como percentuais dos PIBs em diversos países (foram incluídos apenas países com mais de cinco milhões de habitantes e que apresentaram dados anuais para pelo menos metade do período analisado)(1). Como vemos, o Brasil ocupa uma posição intermediária, a qual não seria confortável nem mesmo para um país sem grandes contingentes de crianças e jovens e sem atrasos como os nossos. Se continuarmos nessa posição, continuaremos mantendo nossa atual situação educacional: precária e insuficiente até mesmo para garantir as condições necessárias para uma real e permanente soberania nacional.Embora haja algumas poucas exceções, os países que apresentam bons indicadores educacionais, ou que os têm melhorado significativamente, estão no grupo daqueles que fazem investimentos mais altos em educação. Também estão nesse grupo aqueles países que apresentam condições sociais melhores do que outros com as mesmas possibilidades econômicas. Cuba, Dinamarca e Suécia são os três que mais esforços investiram em educação naquele período. No conjunto com menores taxas de investimento em educação estão aqueles países que apresentam as piores situações, não apenas educacionais como sociais em geral: Camboja, Emirados Árabes Unidos(2) e República Dominicana são, entre aqueles cujos dados estão representados na figura, os três que menos investiram.Se ficarmos onde estamos, não vamos superar as barreiras que impedem o aumento da produção econômica, nem promover o desenvolvimento social, enfrentar as desigualdades de renda e recuperar, ainda que em parte, nossos atrasos. Se nos deslocarmos na direção à direita do gráfico, vamos nos aproximar de países totalmente dependentes e/ou que apresentam indicadores sociais terríveis. Não podem restar dúvidas da direção que devemos nos deslocar nesse gráfico.Existem fontes de recursosHá muitas possíveis fontes para viabilizar o aumento dos recursos destinados à educação pública. Comparando a arrecadação de impostos sobre propriedade no Brasil com a realidade tributária em outros países capitalistas, inclusive tributos sobre grandes fortunas(3), o Ipea(4) aponta a possibilidade de um aumento dos recursos públicos em até 2,7%. Como aqueles países capitalistas não iam tomar decisões que pudessem prejudicar suas economias, a pergunta óbvia é: por que não fazemos o mesmo?O mesmo documento do Ipea aponta que a não supressão de impostos e a redução das renúncias e dos subsídios poderiam gerar outros 3,7% do PIB. Além dessas possibilidades, cada 1% de redução na taxa básica de juros geraria mais 0,6% do PIB em recursos públicos para a União, os Estados e os municípios.Correções de alíquotas dos diversos impostos ou o enfrentamento da sonegação poderiam aumentar ainda mais as possibilidades de financiamento do setor público, colocando-nos em uma situação mais próxima daquela ocupada pelos países mais organizados. E todas essas correções não apenas não afetariam negativamente a economia do país, como, ao contrário, poderiam ter impactos sociais muito positivos.Mais e melhor educação cabem no PIBOutra maneira de verificar que é possível o aumento dos recursos para a educação pública é analisar a evolução recente da economia nacional. Ao longo dos últimos oito anos, o PIB brasileiro cresceu perto de 25% acima do crescimento populacional, ou seja, o crescimento foi suficiente para absorver o aumento da população e, além disso, aumentar da quarta parte o valor econômico da produção por pessoa. Se uma fração desse aumento da produção fosse destinada à educação, poderíamos atingir investimentos significativamente mais altos do que os atuais sem afetar negativamente outras atividades nacionais. Ao contrário, dependendo da forma que o aumento da produção per capita for transferido para a educação e outras áreas de interesse social, pode haver ganho nos dois lados: melhoram-se os níveis educacionais da população ao mesmo tempo em que se inibe um consumismo doentio e destrutivo.É necessário lembrar que, ao se transferir parte do aumento da produção econômica para a educação, não se estaria reduzindo ou se desfazendo dela: a indústria da construção civil seria aquecida mais intensamente na forma de reformas e construções de equipamentos escolares; o número de empregos formais também cresceria, com maior concentração na forma de trabalhadores em educação; a renda pessoal também cresceria, mas na forma de melhores remunerações para professores; haveria aumento da produção de veículos para atender à demanda gerada pelo setor educacional, incluindo aí seus trabalhadores. Da mesma forma, o aumento do consumo de eletricidade ou de equipamentos elétricos, eletrônicos e de informática também ocorreria, mas mais concentradamente pelos trabalhadores da educação e pelas instituições educacionais.Enfim, tendo em vista a realidade de outros países, considerando as possibilidades de transferências de recursos para o setor público e, ainda, a realidade da produção econômica, vemos que é totalmente viável aumentar os investimentos em educação pública, bem como em outros setores de interesse social. O que nos impede de fazer isso? Será por ignorância, ou há um propósito pouco nobre por trás de tais decisões?Notas(1) Unesco Institute for Statistics. Sítio consultado em abril/2012.(2) Os Emirados Árabes Unidos, apesar de terem uma renda per capita mais do que quatro vezes superior à brasileira, da ordem de US$ 48 mil pelo critério da paridade de poder de compra, têm taxas de analfabetismo quase exatamente iguais às nossas, apresentando talvez o maior desencontro entre as possibilidades econômicas e o padrão educacional.(3) Nos Estados Unidos, as grandes fortunas são taxadas no processo de herança. Quando John D. Rockefeller morreu, em 1937, 70% do patrimônio foi recolhido na forma de imposto sobre bens herdados (New York Times, 8/6/2010, Legacy for One Billionaire: Death, but No Taxes). Após algumas décadas de recuo, a alíquota máxima do imposto sobre grandes heranças naquele país foi reduzida a 35%, devendo subir para 55% em 2013. Veja, por exemplo, o verbete "estate tax in the United States" da Wikipedia.(4) Financiamento da Educação: necessidades e possibilidades, Comunicados Ipea nº 124, dezembro/2011, acessível por internet.* Otaviano Helene, professor no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.

ensino-superior Ensino Superior

O desafio da expansão do ensino superior

O último Censo da Educação Superior revelou que, de 2009 para 2010, o número de matrículas nos cursos de graduação no ensino superior brasileiro cresceu 7,1%, contabilizando crescimento de 110,1% na última década. Este crescimento se deu majoritariamente no setor particular do ensino superior. Hoje, 74% das matrículas nesse nível de ensino são de responsabilidade do setor privado, ou seja, 4.736.001 do total de 6.379.299.Nesse contexto, há de se destacar o crescimento na modalidade de ensino a distância, como resultado da necessidade de alinhar trabalho e flexibilidade de horário para estudar. Hoje esta modalidade já é responsável por 15% de todas as matrículas nos cursos de graduação. Outro interessante aspecto, extraído desse censo, foi a diversificação da oferta, mediante a expansão das matrículas nos cursos tecnológicos. Em 2001, esses cursos respondiam por 69.797 das matrículas no ensino superior; em 2010, o número pulou para 781.609, ou seja, um crescimento superior a mais de dez vezes em uma década.Apesar do crescimento significativo, o país ainda apresenta percentual relativamente baixo de jovens, na faixa etária de 18 a 24 anos, cursando o ensino superior: apenas 14,6%. Para se ter uma ideia, em alguns países da comunidade europeia este percentual chega a ser de mais de 50%. Por esta razão, uma das metas do novo Plano Nacional de Educação (PNE), que ainda tramita no Congresso Nacional, prevê uma expansão dos atuais 14,6% para 33% até 2021.É importante registrar que, com base no PNE 2001-2010, esse último percentual era o que seria esperado já para 2010. Em números absolutos, significa termos, em 2021, 13 milhões de estudantes matriculados em cursos de graduação. Para isto, o país, em termos de investimento no ensino superior, sairá dos atuais R$ 24,8 bilhões para R$ 49,6 bilhões. Isto significa dobrar os atuais investimentos dessa etapa da educação ao longo dos próximos dez anos.Esses investimentos devem não apenas dar conta da recente expansão do ensino superior público, em decorrência da interiorização das universidades federais nos Estados e da diversificação com a criação da rede de Institutos Federais Tecnológicos (Ifets), mas também da necessária expansão dos vitoriosos Programa Universidade para Todos (Prouni) e Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), aplicados ao ensino superior privado.Esses programas têm permitido que jovens de baixa renda possam realizar seus cursos de graduação e, assim, terem diploma de nível superior. Apesar de sua importância para a democratização do acesso ao ensino superior, eles ainda são tímidos quando comparados com a atual demanda. Por exemplo, o Fies este ano foi responsável por 254 mil novas matrículas, mas isto corresponde, por seu lado, a somente 5% do total de matrículas do ensino superior privado.Porém, o maior desafio para a tão necessária expansão do ensino superior não está no financiamento, mas no enfrentamento da qualidade da educação básica. Mesmo nos atuais 14,6% de jovens de 18 a 24 anos no ensino superior, há boa parcela que ingressa no terceiro grau com formação muito aquém da desejável. Isto se traduz principalmente nos cursos que exigem certo nível de aprendizado anterior em disciplinas como matemática, por exemplo.As reprovações, e consequentes abandonos, nos ciclos básicos das engenharias e das ciências exatas são elevadíssimos. Os dois primeiros anos têm sido fatais para grande parcela de jovens que ingressam nesses cursos, e logo no momento em que o Brasil mais precisa de profissionais como engenheiros, químicos, físicos e matemáticos. Hoje, o país forma pouco mais de 30 mil engenheiros por ano, quando se estima que a demanda seja de mais de 60 mil. A Coreia do Sul forma 80 mil; a Índia, 300 mil, e a China, mais de 400 mil ao ano.Para melhor compreender a falta desses profissionais no Brasil, para responder ao atual crescimento econômico, é preciso olhar o percentual de alunos com aprendizagem esperada em matemática no fim do ensino médio. Dos que terminam, sendo que metade dos jovens ficou pelo meio do caminho, 89% não aprenderam o que seria esperado nessa disciplina, especialmente alunos da rede pública de ensino. Isto tem efeito direto na aprendizagem de outras matérias, como física e química.O desafio da expansão do ensino superior, especialmente na área de exatas, passa, portanto, necessariamente, pela oferta de uma escola de boa qualidade para a juventude. Sem resolver os problemas de aprendizagem já na educação básica, dificilmente teremos uma formação no ensino superior de qualidade.* Mozart Neves Ramos é membro do Conselho de Governança do Todos Pela Educação e do Conselho Nacional de Educação, e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).** Publicado originalmente no Correio Braziliense e retirado do site Plurale.


por Mozart Neves Ramos*
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Sustentabilidade e educação

A sustentabilidade, um dos temas centrais da Rio+20, não acontece mecanicamente. Resulta de um processo de educação pela qual o ser humano redefine o feixe de relações que entretem com o Universo, com a Terra, com a natureza, com a sociedade e consigo mesmo, dentro dos critérios de equilíbrio ecológico, de respeito e amor à Terra e à comunidade de vida, de solidariedade para com as gerações futuras e da construção de uma democracia socioecológica sem fim.Estou convencido de que somente um processo generalizado de educação pode criar novas mentes e novos corações, como pedia a Carta da Terra, capazes de fazer a revolução paradigmática exigida pelo risco global sob o qual vivemos. Como repetia com frequência Paulo Freire: "a educação não muda o mundo mas muda as pessoas que vão mudar o mundo”. Agora todas as pessoas são urgidas a mudar. Não temos outra alternativa: ou mudamos, ou conheceremos a escuridão.Não cabe aqui abordar a educação em seus múltiplos aspectos tão bem formulados em 1996 pela Unesco: aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos; eu acrescentaria aprender a cuidar da Mãe Terra e de todos os seres.Mas este tipo de educação é ainda insuficiente. A situação mudada do mundo exige que tudo seja ecologizado, isto é, cada saber deve prestar a sua colaboração a fim de proteger a Terra, salvar a vida humana e o nosso projeto planetário. Portanto, o momento ecológico deve atravessar todos os saberes.A 20 de dezembro de 2002, a ONU aprovou uma resolução proclamando os anos de 2005-2014 a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. Neste documento são definidas 15 perspectivas estratégicas em vista de uma educação para sustentabilidade. Referiremos algumas.Perspectivas socioculturais que incluem: direitos humanos, paz e segurança; igualdade entre os sexos; diversidade cultural e compreensão intercultural; saúde; aids; governança global.Perspectivas ambientais que comportam: recursos naturais (água, energia, agricultura e biodiversidade); mudanças climáticas; desenvolvimento rural; urbanização sustentável; prevenção e mitigação de catástrofes.Perspectivas econômicas que visam: à redução da pobreza e da miséria; à responsabilidade e à prestação de contas das empresas.Como se depreende, o momento ecológico está presente em todas as disciplinas, caso contrário não se alcança uma sustentabilidade generalizada. Depois que irrompeu o paradigma ecológico, nos conscientizamos do fato de que todos somos ecodependentes. Participamos de uma comunidade de interesses com os demais seres vivos que conosco compartem a biosfera. O interesse comum básico é manter as condições para a continuidade da vida e da própria Terra, tida como Gaia. É o fim último da sustentabilidade.A partir de agora a educação deve impreterivelmente incluir as quatro grandes tendências da ecologia: a ambiental, a social, a mental e a integral ou profunda (aquela que discute nosso lugar na natureza). Mais e mais se impõe entre os educadores esta perspectiva: educar para o bem viver que é a arte de viver em harmonia com a natureza e propor-se repartir equitativamente com os demais seres humanos os recursos da cultura e do desenvolvimento sustentável.Precisamos estar conscientes de que não se trata apenas de introduzir corretivos ao sistema que criou a atual crise ecológica, mas de educar para sua transformação. Isto implica superar a visão reducionista e mecanicista ainda imperante e assumir a cultura da complexidade. Ela nos permite ver as interrelações do mundo vivo e as ecodependências do ser humano. Tal verificação exige tratar as questões ambientais de forma global e integrada. Deste tipo de educação se deriva a dimensão ética de responsabilidade e de cuidado pelo futuro comum da Terra e da humanidade. Faz descobrir o ser humano como o cuidador de nossa Casa Comum e o guardião de todos os seres. Queremos que a democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos) assuma as características socioecológicas, pois só assim será adequada à era ecozóica e responderá às demandas do novo paradigma. Ser humano, Terra e natureza se pertencem mutuamente. Por isso, é possível forjar um caminho de convivência pacífica. É o desafio da educação.* Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor, autor de Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito, Vozes, 2005.** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
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Estamos nos globalizando há milhares de anos

Não existe alternativa: a globalização começou com o primeiro homem. O primeiro homem (se é que alguma vez existiu “um primeiro” homem) era já a humanidade inteira. Mia Couto - Pensatempos, Textos de Opinião, Editorial Ndjira, Moçambique, 2005, p. 155.1 Há dois milhões de anos começava um fenômeno que hoje chamamos de globalização. Por essa época, surgiram as primeiras espécies de primatas. Entre elas, figuravam aquelas que, mais tarde, há cerca de 200 mil anos, dariam origem à espécie homo. E esses antepassados tão longínquos, que surgiram na África Oriental, ocupariam todo o planeta. É a espécie com a maior capacidade de adaptação. Há seres humanos nos polos, nos desertos e naqueles espaços que mais caracterizam a humanidade: as cidades.2 Mia Couto, o escritor e biólogo moçambicano, nos ajuda a refletir sobre essa questão:A capacidade de produzir diversidade genética foi, sim, a característica humana que mais e melhor nos permitiu sobreviver. O sermos suficientemente diferentes entre nós mesmos (e as diferenças de uma para outra geração) ofereceu à evolução um leque de escolhas genéricas e produziu respostas adaptativas suficientemente diversas para que a vida pudesse sempre escolher. Demos esta liberdade à vida. Mia Couto - Idem, p. 155.2 Desde sempre, os humanoides e humanos cumpriram sua sina, ou seu atavismo, ou seu instinto, ou, talvez mais apropriado, um complexo desígnio que une natureza e cultura. Por isto mesmo, em vez da expressão “natureza humana”, mais vale utilizar “condição humana”, que reúne natureza e cultura para se referir à humanidade. E a humanidade sempre caminhou no sentido da conquista de novos espaços e novos conhecimentos – vamos dizer, na direção da globalização, apesar de o termo ser muito recente para se referir a este fenômeno sempre em gestação e hoje dado à luz, consolidado.3 Muito mais tarde, nos primórdios históricos, os grandes conquistadores e as grandes nações, quando empreendiam movimentos de expansão e dominação, estavam não só procurando obter riquezas, mas, também, ampliar sua influência cultural e política. Assim, economia, política, transporte, comunicação, ciência, tecnologia e costumes formam a base dos movimentos globalizantes.4 São inúmeros os exemplos que temos desde o surgimento da escrita, a partir de 4.000 a.C. É interessante perceber que todos os movimentos de expansão e dominação desenvolvidos por conquistadores e/ou nações tiveram como características a presença das variáveis economia, política, cultura, comunicação, ciência e tecnologia. Aos povos conquistados, deveria ser sugerida, em alguns casos, ou imposta, em outros, também uma nova forma de vida.5 Entre os registros mais antigos, encontramos Ciro, o grande, da Pérsia, 600-529 a.C., que dominou 5,41 milhões de quilômetros quadrados; ou Alexandre, o grande, da Macedônia, 356-323 a.C., que conquistou 5,66 milhões quilômetros quadrados, sendo responsável pela difusão do pensamento grego no Mediterrâneo e, consequentemente, para o mundo ocidental.6 Os romanos vieram em seguida, consolidando ideias e ideais. Entre 27 a.C. e 476 d.C., mais especificamente em 117 d.C., eles dominaram 6,5 milhões de quilômetros quadrados ao redor do Mediterrâneo, chegando até a Inglaterra atual.7 A Inglaterra, aliás, possuiu o maior império de todos os tempos, sendo responsável não só por arrebanhar riqueza, mas também pela difusão do idioma inglês no planeta. De 1583 a 1997, o império britânico exerceu profunda influência em todo o mundo sendo que, em 1920, tinha sob sua bandeira cerca de 33,7 milhões de quilômetros quadrados.8 Antes do império britânico, há que se lembrar do fenômeno mongol, que conquistou 33 milhões de quilômetros quadrados entre 1270 e 1309, com destaque para o período de Genghis Khan (1162-1227).9 Havia outra característica nesses antigos movimentos de globalização: a predação, a rapina, extorsão. Um triste exemplo é o do império espanhol, que prosperou sobre 20 milhões de quilômetros quadrados, de 1740 a 1790, que sobreviveu de 1492 a 1898, e destruiu as civilizações inca, maia e asteca em busca de ouro e prata.10 Apesar de perceber indícios globalizantes em todos os movimentos expansionistas, antes de esse fenômeno se desenhar como na metade do Século 20 e se consolidar neste início de milênio, os Séculos 14 a 18, com as grandes navegações (que precisaram de muita ciência e tecnologia), a tipografia de Gutenberg e as informações (comunicação) vindas de outras partes do mundo registraram o primeiro arremedo de uma verdadeira globalização.11 Mas é hoje que a globalização nos envolve com toda sua intensidade. E ela está sustentada em quatro bases: capitalismo; ciência e tecnologia, sobretudo digital; transportes; e informação e comunicação.12 Nada melhor do que procurar fontes adequadas para definições. A primeira é o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, edição de 2001: Globalização1. Ato ou efeito de globalizar.2. Processo pelo qual a vida social e cultural nos diversos países do mundo é cada vez mais afetada por influências internacionais em razão de injunções políticas e econômicas.2.1. Intercâmbio econômico e cultural entre diversos países, devido à informatização, ao desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte, à ação neocolonialista de empresas transnacionais e à pressão política no sentido da abdicação de medidas protecionistas.2.2. Espécie de mercado financeiro mundial criado a partir da união dos mercados de diferentes países e da quebra das fronteiras entre esses mercados.2.3. Integração cada vez maior das empresas transnacionais, num contexto mundial de livre comércio e de diminuição da presença do Estado, em que empresas podem operar simultaneamente em muitos países diferentes e explorar em vantagem própria as variações nas condições locais. 13 Vejamos agora o que nos diz o Dicionário da Globalização:A globalização, processo considerado inelutável, em marcha em direção à «sociedade aberta» ou à «Grande Sociedade», segundo preferimos a expressão de Popper ou a de Hayek, tende – o que não se trata mais de uma descoberta – a invadir todos os espaços da vida social, econômica e política. Primeiramente, são os modelos de produção que se modificam. Observamos um deslocamento da atividade econômica, que facilita as transferências de uma parte das operações de trabalho de um país ao outro, contribuindo para a emergência de uma nova divisão internacional do trabalho. Os mercados de capitais desenvolvem-se, vinculados transversalmente às nações. Um fluxo livre de investimentos se produz sem levar em conta as fronteiras nacionais. Estas últimas revelam-se impotentes para represar os fluxos transnacionais de informação, para permitir a contenção dos riscos, para assegurar um controle absolutamente eficaz, mesmo por meio do direito.Dicionário da Globalização; Org.: André-Jean Arnaud e Eliane Botelho Junqueira; <http://www.reds.msh-paris.fr/heberges/gedim/dico-globalisation.pdf>. Acesso em: 26 mar. 2012, 11:00.14 É nesse processo que estamos inseridos. E não há como retroceder. Começamos a experimentar uma nova sociedade na qual tudo deve acontecer imediatamente e à nossa vista. No plano da comunicação global isto já acontece. Mas as mudanças comportamentais estão longe de acompanhar as mudanças tecnológicas. Muito menos em um mundo que criou realidades tão diferentes.15 A partir de uma origem comum, construímos uma incrível diversidade de formas de vida, de pensamento, de sobrevivência. Cabe agora, a nós, harmonizar aquilo que o pensador francês Émile Durkheim chama de “contemporaneidade do não coetâneo”, ou seja, diferentes realidades humanas convivendo ao mesmo tempo no mesmo espaço planetário.16 Nosso grande desafio é aceitar e respeitar a diferença e conviver com ela. O mundo globalizado ainda nos reserva grandes surpresas. Ele ainda é hostil, na sua voracidade capitalista, desenvolvendo práticas que remetem às antigas potências conquistadoras. Uma delas é o trabalho quase escravo. Outra é a destruição dos recursos naturais. E há ainda o uso da força para debelar protestos e impedir contestações.17 Precisamos conhecer muito bem esse fenômeno que se foi estruturando desde os primeiros seres humanos, que já atingiu todo o planeta, mas que ainda favorece apenas a uma pequena parcela da humanidade. É bem verdade que ele vem acompanhado de uma importante palavra: sustentabilidade. As palavras sustentabilidade e globalização praticamente nasceram juntas, em meados do século passado. E é a sustentabilidade – com seu conceito de sobrevivência das gerações atuais e futuras – que pode corrigir muitos defeitos da globalização. Não todos.18 Sustentabilidade é uma palavra da moda. Globalização é o fenômeno atual. A humanidade poderá se beneficiar melhor do progresso da ciência e da tecnologia se seguirmos à risca os preceitos do desenvolvimento sustentável, expostos no Relatório Brundtland:Sustentável é o “[...] desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades; significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais”.19 Ao mesmo tempo, precisamos estudar e acompanhar cuidadosamente esse fenômeno, a globalização, que chega com tanta força e promete se instalar para sempre. Certamente, algumas palavras precisam se incorporar à sustentabilidade: solidariedade, convivência harmônica, tolerância, respeito, honestidade, para que a mesma humanidade que conquistamos não nos leve a uma multiplicação de ações nefastas como costuma acontecer em países africanos, no Oriente Médio, e já aconteceu mais intensamente em regiões da Europa e dos Estados Unidos.20 Precisamos de uma globalização que defenda, explicite e propague o bem e o reconhecimento e o respeito pelo outro. Este talvez seja o maior dos desafios da contemporaneidade para que possamos desenhar e aspirar a um futuro desejável.* Fernando Rios é jornalista, publicitário, antropólogo, designer gráfico, consultor em comunicação organizacional integrada, poeta e artista plástico (fernando_rios@terra.com.br).


por Fernando Rios*
ortografia Língua Portuguesa

Notas sobre ortografia

Nesta e nas próximas colunas, vou falar um pouco sobre ortografia. Começo com um fato que ilustra diversas questões. No livro As palavras (autobiografia que cobre apenas a infância do autor), Sartre narra um fato que a maioria dos leitores esquece, mas que chamou minha atenção.“Meu avô decidira matricular-me no Liceu Montaigne. Certa manhã, conduziu-me à casa do diretor e lhe gabou os meus méritos; meu único defeito era ser adiantado demais para a minha idade. O diretor aceitou tudo: puseram-me no terceiro ano primário e cheguei a acreditar que ia me dar com as crianças de minha idade. Mas não: após o primeiro ditado, meu avô foi convocado às pressas pela diretoria; voltou enfurecido, tirou de sua pasta um maldito papel coberto de garranchos, de manchas e jogou-o sobre a mesa: era a cópia que eu entregara. Haviam-lhe chamado a atenção para a ortografia – “le lapen çovache ême le ten” – e tentaram explicar-lhe que o meu lugar era no primeiro ano. Diante do “lapen çovache”, minha mãe caiu na gargalhada; meu avô a interrompeu com um olhar terrível. Começou por me acusar de má vontade e por me ralhar pela primeira vez em minha vida, depois declarou que me haviam menosprezado; na manhã seguinte, retirou-me do liceu e se indispôs com o diretor”.Aos leitores que eventualmente não tenham percebido exatamente a questão, explico: a grafia oficial da frase francesa do ditado é “Le lapin sauvage aime le thym”. A pronúncia é mais ou menos "le lapã sovag éme lö tã".Sartre, como qualquer garoto de sua idade e escolaridade – embora já tivesse lido muito – escreveu aquela frase mais ou menos com base na pronúncia corrente. O diretor quis rebaixá-lo por causa dessa “incompetência”. Uma decisão que é muito familiar: costuma-se avaliar a capacidade de escrever pelo domínio das regras ortográficas. Esquece-se (ou não se sabe) que, para uma criança, as irregularidades do sistema, por um lado, e as relações da escrita com as diversas pronúncias não são nada óbvias.A mãe de Sartre achou graça nas inovações ortográficas de seu filhinho. Nenhuma novidade também nessa reação (ela não era do ramo). Mas o avô tirou Sartre da escola que o rebaixaria por não saber ortografia e o colocou em outra. Sua decisão pode ter sido tomada apenas por se tratar do neto, que ele tinha em alta conta. Mas também pode ser devida ao fato de ele se dar conta da diferença que existe entre saber ortografia e saber escrever.Não estou defendendo o “erro” nem dizendo que a correção ortográfica não tem valor. Apenas digo que a questão é mais complexa.Explico na próxima coluna.* Sírio Possenti é professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Sírio Possenti*
Foto: Emily Perry + Fotografia Significascrivereconlaluce + Vanessa Siqueira Artigo

Autoeducação, liberdade e polêmica

[caption id="attachment_51468" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Emily Perry + Fotografia Significascrivereconlaluce + Vanessa Siqueira"][/caption]Na concepção do filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), criador da pedagogia Waldorf, toda educação é autoeducação. Aos professores e educadores, cabe o papel de criar um ambiente propício para que a criança se desenvolva, guiada por seu próprio interior. “A pedagogia Waldorf quer formar adultos livres, que possam achar seu caminho por iniciativa própria”, explica Valdemar W. Setzer, professor titular (aposentado, mas ainda ativo) do Departamento de Ciência da Computação da USP.O processo educacional acompanha as etapas do próprio desenvolvimento do ser humano: como as faixas etárias são acompanhadas de determinadas características, é com base nelas que o ensino é pensado. “Até seis anos e meio ou sete anos, por exemplo, o mais importante é ter um ambiente sadio para brincar, que incentive a imaginação. Este ambiente deve proporcionar impulsos sadios para uma criança de até aquela idade aprender por imitação, pois essa é a ferramenta educacional mais importante. Dos sete aos 14 anos, é importante ter um ambiente escolar artístico, amoroso e caloroso, em todas as matérias”, diz Setzer. Segundo o professor, uma atitude essencial de um educador Waldorf é o profundo amor altruísta devotado a cada um de seus alunos, “algo que provavelmente não é ensinado em nenhum curso de licenciatura ou pedagogia”, afirma.Idealmente, um mesmo professor ensina as disciplinas principais a uma turma, durante todos os anos do Ensino Fundamental. Esta é uma maneira de ele acompanhar o desenvolvimento dos alunos por anos e de evoluir com eles. A proposta é coerente com o método de avaliação das escolas Waldorf, que não atribui nota aos alunos no sentido tradicional nem força repetições de ano. A avaliação é subjetiva e os boletins mostram qualitativamente as falhas e sucessos do aluno em cada matéria, sugerindo o que pode ser feito para melhorar.“A avaliação em uma escola deve ser permanente e não só feita durante uma prova. É pelo conhecimento de cada aluno que um professor pode dar um ensino individual mesmo em uma classe com muitos estudantes. Algumas escolas Waldorf dão provas no Ensino Médio, para preparar o aluno para enfrentá-las quando terminarem a escola. É muito importante reconhecer que uma prova não mede absolutamente nada, pois o conhecimento, a maturidade, o esforço e o interesse não são mensuráveis. A única coisa que uma prova mostra é a capacidade de o aluno responder as questões da mesma naquele momento”, defende o professor da USP.Alfabetização e uso de eletrônicosOutro diferencial da pedagogia Waldorf é que não é exigido da criança um pensamento abstrato, intelectual, muito cedo. Por isso, as crianças aprendem a ler apenas a partir dos sete anos. Setzer esclarece que Steiner constatou que antes dos seis anos e meio ou sete anos a criança está dedicando suas forças interiores ao desenvolvimento físico, à coordenação motora e aprendendo a controlar as manifestações de sua vontade. “Assim, ele disse que nessa fase não se deve solicitar a memória abstrata da criança, por exemplo, fazendo-a aprender a ler, pois as letras são hoje em dia símbolos puramente abstratos. Esse aprendizado prejudica o desenvolvimento sadio da base que a criança deve construir para ter uma vida posterior sadia, tanto física como psicologicamente”. O professor acrescenta que a alfabetização é feita de maneira lenta, lúdica e imaginativa e leva três anos para se completar: no primeiro ano são aprendidas letras de forma, no segundo as letras de imprensa e só no terceiro as letras cursivas.Seguindo a mesma linha, Setzer afirma que, como o computador força um pensamento lógico-simbólico, ele também não deve ser usado antes do Ensino Médio. “O computador é uma máquina matemática e sempre força um raciocínio matemático e uma linguagem formal nos seus usuários. Antes da puberdade, parece-me que é prejudicial à criança ser forçada a pensar e se expressar dessa maneira, pois tanto o pensar como o falar não são bem delimitados e precisos”. O estudioso enumera quatro competências que o usuário da máquina deve ter para usá-la de maneira adequada: muito conhecimento e discernimento para reconhecer o que é bom e o que é mau, o que é belo e o que é feio, e o que é verdadeiro e o que é falso; muita autoconsciência para analisar como os aparelhos estão sendo usados, por exemplo, é necessário saber se estão sendo usados por períodos longos demais, se outras coisas importantes não estão sendo feitas em função disso, se a própria maturidade é adequada para o que se faz com os aparelhos e, finalmente, é preciso ter muito autocontrole para haver domínio sobre si próprio e não ser dominado pelas máquinas.“Ora, muitos adultos não têm essas capacidades, às vezes, não se controlam e viciam no uso do computador e da internet. O que esperar de uma criança ou adolescente que justamente estão desenvolvendo essas capacidades? Se já as tiverem, são crianças ou adolescentes degenerados, pois comportam-se como adultos em miniatura, tendo perdido pelo menos parte de sua necessária infância ou juventude”, conclui.Expansão e perseguiçãoA pedagogia Waldorf, introduzida por Steiner, em 1919, em Stuttgart, Alemanha, se expandiu pelo mundo todo, inclusive no Brasil, e hoje conta com mais de mil escolas espalhadas pelo globo, mas seus métodos alternativos chegaram a incomodar governos durante a Segunda Guerra Mundial, por incentivarem a liberdade individual. “Elas foram fechadas pelo nazismo e muitos de seus professores foram presos. Elas foram proibidas na União Soviética, onde era também proibida a entrada dos livros de Steiner. Nessa última, houve ainda um outro fator: como a base da pedagogia Waldorf é a antroposofia, que é uma cosmovisão espiritualista, isto ia contra o materialismo dialético propugnado pelo comunismo”, conta Setzer.A antroposofia, que vem do grego “conhecimento do ser humano”, foi fundada também por Rudolf Steiner no Século 20 e pode ser caracterizada, segundo Valdemar Setzer, como um método de conhecimento da natureza do ser humano e do universo, que amplia o conhecimento obtido pelo método científico convencional e suas aplicações. Por “cosmovisão espiritualista”, entende-se que ela não é materialista no sentido de achar que o ser humano e o universo são constituídos exclusivamente de matéria e energia físicas. “A antroposofia admite a existência de membros não físicos no ser humano e, com isso, consegue explicar vários fenômenos como a vida e a morte, os estados de vigília e de sono, o destino (carma), o livre arbítrio, a consciência, etc.”, diz.As aplicações práticas são possíveis em todas as atividades humanas, sendo as mais famosas a pedagogia Waldorf, a medicina antroposófica e a agricultura biodinâmica. Setzer reforça que “ela se dirige à compreensão de qualquer pessoa, e não à crença”, que “ela propõe um caminho de desenvolvimento interior e dá importância fundamental à preservação e incentivo da liberdade individual”.* Publicado originalmente no site EcoD.


por Manoella Oliveira, da Tato
internet domicilio Artigo

Virada Educacional

Na sexta-feira passada (4/5), tive um encontro educacional inesquecível em São Paulo com um grupo de jovens. Na pequena sala, lotada, eu ouvi a história de excepcionais ex-alunos, muitos deles campeões em olimpíadas de conhecimentos. A maioria formada no ITA, alguns com passagens pelas melhores universidades norte-americanas. Contavam por que decidiram deixar seus empregos promissores em estabelecidas empresas para se dedicar a uma tarefa naquela sala apertada, quase claustrofóbica: ganhar dinheiro e, ao mesmo tempo, melhorar a educação no Brasil.Eles estão inventando um projeto digital, batizado de Geekie, em que o aluno possa aprender no seu próprio passo, recuperando os conhecimentos que, muitas vezes, nunca tiveram. É como se cada um tivesse um professor particular (veja mais detalhes aqui).O projeto ainda está em fase de testes, desenvolvido inteiramente no Brasil, mas acompanhando a necessidade de fazer com que os alunos saibam usar melhor o computador – o que ainda está para ser provado no mundo inteiro. Nada substitui o bom professor, mas quanto mais ele deixar de transmitir conteúdo e ser um gestor de curiosidades, melhor.A Virada Educacional brasileira vai ocorrer (se ocorrer) de diversos jeitos. Um deles é quando os melhores alunos colocarem suas vidas (e seus bolsos) para produzirem bons alunos.* Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, comentarista da rádio CBN, e fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz.** Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Gilberto Dimenstein*
Heliópolis abriga uma escola inovadora. Foto: Divulgação Brasil

Autonomia da escola por projetos pedagógicos comunitários

[caption id="attachment_51458" align="alignleft" width="400" caption="Heliópolis abriga uma escola inovadora. Foto: Divulgação"][/caption]No dia 19, durante o I Salão Internacional do Livro de Suzano, o público conheceu um pouco da experiência do Bairro Educador de Heliópolis, compartilhada por sua gestora Arlete Persoli e pelo diretor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos Salles, Bras Rodrigues Nogueira. Antes de contar a sua história, é bom que se diga que Suzano, cidade da grande São Paulo que só tem uma livraria, organizou um salão internacional do livro porque a Secretaria da Educação está com um claro propósito de envolver os bairros e a cidade no processo educativo das crianças de lá. Para visitar o salão, as crianças receberam vales-livros, que eram gastos como queriam, tendo assim mais uma oportunidade educativa.Daí a importância de conhecer a experiência de Heliópolis. Esta comunidade, localizada no distrito de Sacomã, sudeste da cidade de São Paulo, é uma área bastante densa, com 125 mil habitantes. Fazendo divisa com São Caetano, a região, que começou a ser ocupada nos anos 1970, foi fortemente influenciada pelos movimentos sociais dos anos 1980, aprendendo a se mobilizar e organizar para reivindicar e conquistar seus direitos. Já foi considerada a maior favela do Brasil, mas passou por um processo de urbanização e hoje tem estatuto de bairro. A maior parte dos domicílios tem abastecimento de água, acesso a rede de esgoto e a rede elétrica, as ruas são pavimentadas, mas a maioria das famílias ainda está na linha da pobreza, vivendo com até dois salários mínimos.E este processo de luta e conquistas teve na escola uma importante parceira. Desde que assumiu a direção, em 1995, Bras articulou-se com as lideranças locais para transformar a Campos Salles em um centro de luta pela efetivação dos direitos das pessoas. Com esta clara missão em mente e o vínculo cada vez mais forte com a comunidade local, Bras foi aos poucos constituindo um grupo de professores aliados, do conjunto daqueles que, por concurso, tinham direito à vaga no corpo docente da instituição, mas não se comprometiam nem com os estudantes nem com a comunidade. O grupo de professores aliados, aos poucos, tornou-se uma equipe, e esta equipe, em conjunto com os estudantes, pais e lideranças, formulou um projeto político pedagógico de uma escola efetivamente educadora.Uma escola educadora não é um pleonasmo. Infelizmente, a grande maioria das escolas hoje não educa, no máximo dão aulas, o que não é suficiente – e às vezes é mesmo contrário – para garantir o pleno desenvolvimento humano. Mas, na Campos Salles não é assim. Aquela escola é de fato uma instituição educadora. Com 1.120 estudantes, ali não há aulas. Nem salas de aula.Em um ambiente que valoriza a convivência democrática, a estrutura é de amplos salões, com mesas onde grupos de estudantes trabalham juntos, com base em roteiros de pesquisas escolhidos por eles. Quando precisam de ajuda, podem recorrer aos três professores que estão no espaço no momento. Os professores trabalham em parceria, rompendo com a estrutura do isolamento da sala de aula que caracteriza as escolas que não educam. Hoje a escola estuda a organização necessária para se tornar uma república de estudantes, com as crianças participando da sua gestão.Para chegar a esta configuração foi necessário percorrer um longo caminho, que teve como ponto de inflexão uma tragédia ocorrida em 1999. Naquele ano, uma aluna de 16 anos foi assassinada a poucos metros da escola, quando voltava para casa. No lugar de se fechar, render-se ao medo, a escola, em parceria com as lideranças locais, fez a primeira Caminhada pela Paz, ato de demonstração de força e união da comunidade que se tornaria, a partir de então, evento anual, reunindo milhares de pessoas, entre adultos, crianças e jovens. A Caminhada começa e termina na Campos Salles, depois de percorrer 4,5 quilômetros, o raio do bairro-educador.No final dos anos 1990, Heliópolis era dominada pelo toque de recolher imposto pelo crime organizado e muitos acreditavam que o mais prudente seria se render à ordem de fechamento da escola no período noturno e todas as outras vezes em que o tráfico assim mandasse. A pressão era tanta que certa vez até o diretor ficou temeroso. Foi neste momento que um grupo de pré-adolescentes atuou como a liderança necessária, estimulando que a escola se mantivesse como um espaço da comunidade e não do crime.A Caminhada pela Paz contribuiu para a consolidação da União de Núcleos, Associações de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco, a Unas. E a Unas contribuiu para a consolidação da proposta político pedagógica da Campos Salles e a conquista do bairro-educador. O movimento organizado por mais espaços e tempos de educar, conquistou ali, no entorno da Campos Salles, da escola municipal de educação infantil Antonio Francisco Lisboa e da sede da Unas, onde funciona a rádio comunitária, três centros de educação infantil, uma escola técnica com cursos escolhidos pela comunidade, um centro cultural com cinema e uma orquestra. Para escapar da lógica burocrática e fragmentada da administração pública, a comunidade exigiu o controle sobre a gestão daquela estrutura e foi assim que Arlete Persoli tornou-se a responsável pelo bairro-educador.Seu projeto foi construído e conquistado ao longo de 17 anos por uma equipe de educadores comprometidos, estudantes corajosos e uma comunidade organizada. Mas o pilar desta estrutura, o projeto político pedagógico da escola pública, está sempre em risco pela estrutura estatal, que centraliza os concursos para diretores e professores, dando aos concursados o direito de escolher a escola onde vão atuar e tirando da comunidade o direito de escolher suas equipes gestora e docente. Se por qualquer motivo Bras precisar deixar a Campos Salles, aquela comunidade deveria poder eleger para liderar a escola alguém comprometido com o projeto construído ao longo de tantos anos. A autonomia da escola precisa estar na pauta dos movimentos sociais pela ampliação dos tempos e espaços de educar, por bairros e cidades educadoras.* Helena Singer é socióloga com pós-doutorado em Educação e diretora pedagógica da Associação Cidade Escola Aprendiz.** Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Helena Singer*
consumismo4[1] Artigo

Educação e crescimento da produção de bens e serviços

A educação escolar formal é um instrumento de promoção de vários aspectos da atividade humana. No campo da saúde, o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) tem apontado, insistentemente, os benefícios que um bom ensino fundamental pode ter para a saúde infantil e materna, incluindo entre suas principais tarefas a luta por uma melhor escolarização para as meninas.A relação entre a educação e o desenvolvimento psicológico da criança é ponto central de muitas linhas de estudo em psicologia; é impossível o desenvolvimento científico e tecnológico sem que haja um desenvolvimento educacional; a relação entre educação e democracia é tema de muitos debates e artigos científicos especializados. E não há como superar em definitivo as desigualdades (de renda, regionais e de possibilidades de inserção social) sem, entre outras coisas, termos um sistema educacional igualitário e democrático.Enfim, a educação é fundamental para o desenvolvimento social qualquer que seja o aspecto pelo qual ele é considerado. Como uma espécie de corolário desse fato, um mau sistema educacional tem consequências negativas na saúde de uma população, nas possibilidades de desenvolvimento e integração social das pessoas, no desenvolvimento, absorção e disseminação do conhecimento científico, na construção da democracia e na superação das desigualdades.Por essas razões, a destinação de uma parte do esforço de um país para a educação de sua população, ainda que ela tenha um custo econômico, já seria plenamente justificada. Mas isto não é tudo.Além de fundamental para toda e qualquer forma de desenvolvimento, a educação é uma atividade que apresenta um alto retorno econômico. Este retorno econômico tem sido estimado de várias formas diferentes, usando diferentes perspectivas econômicas e, também, diferentes técnicas de análise. Há duas maneiras complementares de se analisar as consequências econômicas da educação: uma é a perspectiva individual e, outra, a nacional.A perspectiva individual é analisada observando-se a relação direta entre a renda de uma pessoa e seu nível educacional. Analisando dados levantados pelo IBGE em diversos censos e programas de amostragem domiciliar, cada ano adicional de escolarização leva a um aumento médio da renda pessoal da ordem de 10% a 20% (com alguma dependência da época e do nível escolar considerado). Embora mais intensa nos países de economia mais liberal, essa relação direta entre renda pessoal e escolarização é encontrada em todos os países capitalistas e mesmo em países socialistas, embora, neste caso, menos intensa do que se observa nos países com economia de mercado. Esta relação é relevante quando consideramos o efeito da desigualdade escolar na desigualdade da renda das pessoas e das diferentes regiões do país. Subescolarizar uma criança é um ato que tem consequências em toda sua vida futura e na de seus filhos e dependentes.Sob a perspectiva nacional, um trabalho do Ipea(1), de 2011, compara os impactos de diferentes ações no crescimento da economia e demonstra que, a cada R$ 1,00 investido em educação pública, há um aumento de R$ 1,85 no PIB. Ou seja, além de todas as vantagens sociais, os investimentos em educação mais que se pagam. Esta observação no documento do Ipea quanto ao caso brasileiro é verificada em todos os países: as taxas de retorno econômico dos investimentos em educação são altíssimas, até mais altas do que investimentos diretos no setor produtivo.O efeito da educação sobre o PIB indica que quase 40% da diferença de renda per capita entre o Brasil e os Estados Unidos, e pode ser explicada pela diferença de escolarização da população dos dois países(2). Em outras palavras, caso tivéssemos o mesmo nível educacional daquele país, mesmo que as demais condições de produção de bens e serviços permanecessem inalteradas, nossa renda per capita seria perto de duas vezes e meia maior do que é hoje.Um dos autores do artigo citado na nota 2(3) mostrou que a diferença entre a renda per capita brasileira e a argentina, que é cerca de 50% superior à nossa, é devida basicamente à diferença educacional, uma vez que todas as demais condições relacionadas à produção econômica são, em termos per capita, iguais nos dois países.Ainda outro exemplo: cerca da décima parte do crescimento real da renda per capita dos Estados Unidos ao longo do Século 20 pode ser atribuída à melhora na educação de sua população(4).Não há dúvidas sobre as vantagens sociais dos investimentos em educação e, também, de que ela é um instrumento importante para propiciar o aumento da produção de bens e serviços. E melhor: esse investimento se paga em pouco tempo. O outro lado dessa moeda é o fato de que nosso atraso educacional não apenas é um gravíssimo entrave para o aumento da produção econômica como um dos fatores a agravarem nosso desenvolvimento cultural, político e social.Economizar em educação é uma péssima ideia, mesmo do ponto de vista estritamente econômico.Notas(1) Comunicados do Ipea nº 75, Gastos com a Política Social: alavanca para o crescimento com distribuição de renda, 3 de fevereiro de 2011, acessível pela internet.(2) Educação e Crescimento: O que a Evidência Empírica e Teórica Mostra?, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Samuel de Abreu Pessôa, Revista Economia, maio/agosto 2010, pág. 265, acessível por internet.(3) Avaliação do nacional-desenvolvimentismo com ênfase no atraso educacional, Samuel de Abreu Pessôa, acessível em www.sebh.ecn.br/seminario_7/sebh7_artigo_samuel.pdf, consultado em maio de 2012.(4) III The Legacy of U.S. Educational Leadership: Notes on Distribution and Economic Growth in the Twentieth Century, Claudia Goldin and Lawrence F. Katz, http://www.economics.harvard.edu/faculty/katz/files/legacyaea.pdf, consultado em maio de 2012.* Otaviano Helene, professor no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Otaviano Helene*
Universalização não garantiu qualidade ao ensino brasileiro. Artigo

Reflexões sobre o educar para sociedades sustentáveis

[caption id="attachment_50847" align="alignleft" width="260" caption="Universalização não garantiu qualidade ao ensino brasileiro."][/caption]As mudanças propostas pela ONU nas últimas décadas podem ser consideradas verdadeiras revoluções no modo de pensar e agir da sociedade, e não é à toa que muitas delas, apesar de hoje serem consideradas urgentes, demorarão a se concretizar.Em todos os documentos oficiais – em especial a partir do final da década de 1960 –, a educação tem recebido papel de destaque, como uma das principais forças de transformação rumo à construção da chamada “sociedade sustentável”. Apesar disso, as mudanças nessa área têm sido poucas, tímidas e insuficientes.Da mesma forma que criar modelos alternativos de economia tem sido um dos grandes desafios na busca por um mundo melhor e mais equitativo, a concepção e instalação de novos modelos de educação parecem possuir o mesmo nível de complexidade.Apesar de lentas, a educação tem passado por mudanças significativas de escopo e metodologias, partindo de uma visão elitista e utilitarista – em especial nos Séculos 17 e 18 – para uma contemporânea mais abrangente, na qual o acesso universal à educação visa a garantir a redução das desigualdades, o desenvolvimento sustentável, a paz e a democracia; proposta conhecida como “educação para todos (EPT)”(1).As metas da Unesco nesse documento são vitais e, apesar de o Brasil já possuir a esmagadora maioria dos jovens matriculados no Ensino Fundamental I e II, não houve o mesmo progresso com relação à qualidade do ensino. A qualidade não acompanhou a quantidade. Sendo assim, hoje temos nossos jovens na escola recebendo um ensino deficitário, o que é comprovado todos os anos pelos principais índices oficiais.O Relatório de Monitoramento de Educação para Todos de 2010(2), mostra que o índice de repetência no Ensino Fundamental brasileiro (18,7%) é o mais elevado na América Latina e fica muito acima da média mundial (2,9%). Além disso, 13,8% dos brasileiros largam os estudos já no primeiro ano no ensino básico.Em um curso que recentemente tive o privilégio de participar na UMAPAZ, Angélica Berenice de Almeida, uma das professoras e organizadoras, afirmou que “todos temos a tendência de repetir os modelos com os quais fomos educados”. Considerando que a maioria das pessoas tem recebido uma formação de baixíssima qualidade, que futuros educadores podemos esperar para formar nossos filhos e netos em direção a uma sociedade mais sustentável?Novos olharesTenho tido contato nos últimos anos com diferentes professores de diferentes disciplinas, em especial em São Paulo e na Amazônia mato-grossense. As queixas sobre nosso sistema de ensino atual são recorrentes e têm geralmente relação com a estrutura da escola, salários, e grau de interesse dos alunos, que reflete claramente a desconexão entre a escola e o mundo real. Tais queixas, entretanto, raramente geram mobilização ou ação e a consequência disto é a perpetuação de um sistema ineficiente, desumano e impessoal.Para além dos problemas estruturais e financeiros, é urgente a necessidade de se repensar o currículo do ensino básico, criando-se estratégias efetivas de ensino e preparando nossos educadores para que trabalhem de forma integrada e articulada, valorizando a complexidade encontrada no mundo real.A nova versão do zero draft para a Rio+20 (The future we want)(3) destaca em um de seus artigos (101), relacionado à educação, exatamente isso: We agree to promote education for sustainable development beyond the end of the United Nations Decade of Education for Sustainable Development in 2014, to educate a new generation of students in the values, key disciplines and holistic, cross-disciplinary approaches essential to promoting sustainable development. Vale lembrar que essas mudanças (que não são poucas ou simples) dependem tanto de vontade política quanto da vontade dos professores e da comunidade onde vivem.Apesar de todas as incertezas e resistências, sou otimista, e acredito que estamos, sim, passando por um período de reavaliação rumo às mudanças necessárias na educação para sociedades sustentáveis. Poder viver e participar ativamente desse momento de reflexão e reconstrução é um privilégio e um dever de todos nós. Um dos bons exemplos disso é a forma democrática e dialógica com que as decisões para o novo Plano Decenal de Educação do Estado de Minhas Gerais (PDEEMG)(4) têm sido tomadas. Aconselho a leitura da apresentação.Educar para decidir melhorNo dia 14 de abril, durante o lançamento de um livro sobre educação e comunicação na escola, ouvi Gilberto Dimenstein afirmar que “uma coisa que todos fazemos durante toda a vida é tomar decisões”.Decisões (conscientes), grosso modo, são tomadas pela mobilização de diferentes habilidades (como observação, comparação, análise, dedução, etc.) em conjunto com a seleção de diferentes informações e experiências. Acredito que a escola seja o primeiro e um dos principais ambientes formais onde tais processos deveriam ser desenvolvidos e aprimorados para a vida.Como será que a escola tem contribuído para que as pessoas tomem decisões melhores, mais conscientes e pautadas no bem-estar comum e do planeta, característica vital em uma sociedade sustentável?Para essa reflexão em específico, sugiro a leitura do livro Nudge: o empurrão para a escolha certa(5), que coloca um contraponto interessante ao poder da educação.Para finalizar, gostaria de compartilhar uma frase, que ouvi recentemente no I Fórum de Educação para a Sustentabilidade, dita pelo professor Ladislaw Dowbor, que na minha opinião resume de forma primorosa o papel contemporâneo da educação: “A educação deve ser uma forma de introdução ao mundo em constante transformação”.Notas (1) http://unesdoc.unesco.org/images/0008/000862/086291por.pdf.(2) http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001899/189923por.pdf.(3) http://rebal21.ning.com/profiles/blogs/nova-versao-do-documento-zero-draft-para-a-rio-20.(4) http://www.almg.gov.br/opencms/export/sites/default/acompanhe/eventos/hotsites/planoEducacao/docs/joao_filocre.ppt.(5) Thaler, R. H. & Sunstein, C. R. Nudge: o empurrão para a escolha certa. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.* Edson Grandisoli é pós-graduado em Ecologia pela Universidade de São Paulo, coordenador pedagógico da Escola da Amazônia e consultor em Educação para a Sustentabilidade.** Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Edson Grandisoli*
160539 Universidades

Como acabar com as “fábricas de desistentes”?

O diplomata e escritor Joaquim Nabuco, no Século 19, avisava que a escravidão penetraria, silenciosa, por muito tempo na sociedade brasileira e acabaria como uma “característica nacional”. Dito e feito.No entanto, a discussão sobre o sistema de cotas raciais ou sociais nas universidades públicas oculta uma situação bem mais profunda e complexa no cenário da educação brasileira.Sendo ou não constitucional, as ações afirmativas nunca foram unanimidade na opinião pública; isso desde os anos 1960 no governo Kennedy, nos Estados Unidos. O motivo é claríssimo a todos os lados que compõem o fervor dos debates: um sistema de cotas parte do direito de igualdade de acesso e tem o objetivo de corrigir provisoriamente uma distorção histórica (a falta desse acesso); uma realidade que levou anos para se consolidar – como previu Nabuco. É uma política que se almeja provisória.Olhando com mais atenção, quem é o negro pobre que chega à universidade hoje?É literalmente um sobrevivente. Alguém que persistiu e resistiu a todas as tentativas de o arrancarem à força do sistema formal de ensino – antes da universidade.Acredito e insisto que é nele, no ensino básico, bem antes da universidade, que reside a chave para a cadeia problemática para todo o acesso e manutenção da qualidade da educação nacional.Parafraseando o educador norte-americano Geoffrey Canada, continuamos mantendo uma vergonhosa “fábrica de desistentes” em nossa educação pública. Os números estão na casa dos 30%, 40%. A universalização do ensino vira uma pífia lorota partidária perto dessa realidade.Não há uma pesquisa que não aponte o desinteresse do estudante como fator preponderante da evasão, seguido da necessidade de trabalhar. O crescimento do Brasil acompanhado de distribuição de renda, em médio prazo, resolve a última.Mas se as políticas públicas não atentarem para a educação artificial, irreal, feita “de isopor”, que o currículo proporciona aos seus estudantes, não há crescimento econômico que solucione esses índices.Neste momento, no Brasil, que me desculpem os economistas, o que menos importa é a universidade. Um ensino básico com capacidade de reter o jovem pode, por si só, formar seres humanos autônomos capazes de girar a economia, a política e a cultura do Brasil. E de fazer com que negros, pobres e mulheres cheguem aos milhões à universidade sem a necessidade de cotas.A maneira com que as políticas públicas se constroem acaba por impedir que o Estado multiplique as centenas de excelentes práticas educativas desenvolvidas por ONGs, comunidades, escolas e universidades. Há limitação em convênios, burocracia em excesso e vontade política em escassez para mudar.Construir uma escola interessante que retenha o estudante não é perfume, mas necessidade de sobrevivência urgente.Esse é daqueles problemas que se não dermos a devida atenção, seremos dragados por ele em curtíssimo prazo. E não haverá universidade ou cota que dê jeito nisso.* Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Alexandre Sayad, do Portal Aprendiz

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Ande a pé. Isso evita a queima de combustível e o lançamento de gás carbônico na atmosfera e, consequentemente, diminui o efeito estufa.
Reduza. Reutilize. Recicle. Três ‘Rs’ indispensáveis para preservar o meio ambiente e contribuir com o desenvolvimento sustentável em todo o mundo.
Aproveite o sol como fonte de energia limpa. Instale painéis fotovoltáicos em sua residência ou empresa.
Na hora de comprar, escolha produtos com rótulos ecológicos e com menos embalagem, assim você estará escolhendo poluir menos o planeta.
Utilize lâmpadas de baixo consumo, elas economizam até 80% de energia e duram bem mais.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

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Os três componentes principais da biomassa da cana-de-açúcar são a celulose, a hemicelulose e a lignina. Foto:EcoD

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O Zoológico Skazka, na Ucrânia, exibe imagem de filhotes de tigresa albina ‘Tigrylia’, que nasceram no complexo. Um dos bichinhos puxou a mãe e também é um raro tigre albino.

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Frases a laser são projetadas nos prédios gêmios da Câmara dos Deputados, em Brasília. Foto: Divulgação

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Marta Azevedo, a primeira mulher no cargo de presidenta da Funai. Foto: José Cruz/ABr