Relatório da Campanha Mundial da Educação ressalta discriminação de gênero na educação

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Relatório da Campanha Mundial da Educação ressalta discriminação de gênero na educação


por Natasha Pitts, da Adital


Nesta quarta-feira (29), a Campanha Mundial pela Educação (CME) apresentou ao Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres (Cedaw) o relatório inédito A Discriminação de Gênero na Educação: Violação dos direitos das mulheres e meninas. Baseado em dados, estudos de casos e em uma pesquisa mundial sobre a discriminação de gênero nas escolas, o documento mostra os desafios para se alcançar a igualdade entre homens e mulheres no acesso à educação.Um dos principais objetivos deste relatório é mostrar ao Cedaw a necessidade urgente de chamar atenção para a falta de oportunidades iguais para meninos e meninas quando o assunto é acesso ao ensino e conseguir superar este problema.Nos últimos anos, a quantidade de meninas e adolescentes matriculadas na escola aumentou. Contudo, o fato não é motivo de grandes comemorações, pois isto não garante que os gêneros têm as mesmas oportunidades educativas e muito menos que a discriminação foi superada. Ao mesmo tempo em que elas estão tendo mais acesso à escola, também têm maior probabilidade de deixar os estudos antes de completar a educação primária.Segundo informações de 2011 da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), 53% das pessoas em idade escolar que não estão matriculadas são do sexo feminino, o que significa que cerca de seis milhões de mulheres e meninas estão fora da escola. O relatório também revela que, na Bolívia, 30% das adultas não sabem ler ou escrever, contra 5% dos homens. A CME também mostra que 94% das meninas estão matriculadas em séries da educação primária, mas apenas 69% estão matriculadas na educação secundária.Não poder ir à escola não é o único problema enfrentado por mulheres e meninas. A Campanha Mundial pela Educação alerta para a reprodução dos estereótipos de gênero nos materiais de estudo, no currículo e no próprio ambiente escolar, assim como para a violência, os abusos e a exploração.As estudantes são as principais vítimas de violência sexual nas escolas. Equador, Colômbia e México publicaram estudos recentes em que denunciam a gravidade da situação. Na cidade colombiana de Bogotá, a violência sexual cresceu 138% de 2004 a 2008. A Promotoria do país recebeu 542 denúncias por maus-tratos e abusos sexuais cometidos em escolas públicas. Apenas 32 casos foram resolvidos.Na Cidade do México, de 2001 a 2010 foram realizadas 3.242 denúncias na Unidade para a Atenção de Maus-Tratos e Abuso Sexual Infantil (Uamasi), e 85,78% dos casos foram praticados por profissionais da escola (diretores, professores, administradores e empregados) e 15% são denúncias de abuso ou assédio sexual. No Equador, uma em cada quatro estudantes já sofreu abuso sexual. Os agressores são, na maioria das vezes, professores, companheiros de sala e vizinhos.As meninas são preteridas também quando o assunto é pagar por educação. O relatório apresentado ao Comitê aponta que, quando as famílias são obrigadas a escolher, preferem pagar para que os meninos estudem. "O dado sugere que ainda predomina a ideia de que é mais importante educar os homens e que as mulheres devem ficar em casa cuidando de seus irmãos e fazendo tarefas domésticas.”Falta de liberdade, discriminação de gênero mais intensa nas zonas rurais, discriminação contra adolescentes grávidas e casamentos precoces também são temas abordados no relatório e que merecem atenção para que se consiga eliminar as desigualdades de gênero na educação em todo o mundo.Várias informações do relatório sobre discriminação de gênero na educação foram coletadas pela CME por meio de uma pesquisa que já entrevistou 509 estudantes e 250 professores/as. Ainda é possível responder até maio. O questionário está no link http://www.campanaderechoeducacion.org/sam2011/entre-en-accion/.O relatório em inglês pode ser lido em http://campaignforeducation.org/docs/reports/GCE_INTERIM_Gender_Report.pdf* Publicado originalmente no site Adital.

foto_dentro15239_1 Linguagem

Tecnologias digitais preservam línguas

[caption id="attachment_44127" align="alignleft" width="200" caption="Pesquisadores do projeto "Vozes Persistentes", da National Geographic Society, falam sobre "dicionários falantes" que poderão garantir a sobrevivência de línguas ameaçadas de extinção. Foto: Enduring Voices"][/caption]Agência Fapesp – Calcula-se que até o fim deste século, cerca de sete mil idiomas atualmente em uso no mundo poderão desaparecer definitivamente. Mas a tecnologia digital está sendo utilizada com grande eficácia para salvar diversas línguas ameaçadas de extinção.A importância cultural de preservar o máximo possível dessas línguas é indiscutível. Quanto mais línguas forem bem conhecidas, melhor se compreenderá como o processo de conhecimento humano opera e como ele se codifica em padrões linguísticos. E o êxito de alguns experimentos recentes traz otimismo para essa empreitada.Essa é a principal conclusão da apresentação feita durante a conferência anual da Associação Americana para o Desenvolvimento da Ciência (AAAS), realizada em fevereiro em Vancouver (Canadá), por cientistas responsáveis pelo projeto “Vozes Persistentes”, da National Geographic Society.Embora as tecnologias digitais possam ser vistas como ameaça à diversidade de idiomas no mundo – por usar o inglês como uma língua quase universal, entre outras razões –, para o linguista K. David Harrison, professor da Faculdade Swarthmore na Pensilvânia (Estados Unidos), o uso dessas técnicas é que tem permitido a construção de “dicionários falantes” que poderão garantir a sobrevivência de muitas línguas que de outro modo estariam fadadas ao completo desaparecimento.Harrison e colegas têm viajado a recantos remotos do planeta para localizar grupos pequenos que ainda falam fluentemente certos idiomas. Eles filmam, gravam e fotografam as pessoas e tentam fazer com que elas expliquem a sintaxe, a pronúncia e o significado das palavras utilizadas.Com isso, os pesquisadores são capazes de montar o que chamam de “dicionários falantes”, que poderão ser utilizados não apenas como registro desses idiomas, mas também como ferramenta didática para ensiná-los a crianças e jovens.Durante a reunião da AAAS, oito desses dicionários, com um total de 32 mil verbetes, foram mostrados ao público pela primeira vez. Um deles é da língua Chamacoco, falada por cerca de 1.200 indígenas no norte do Paraguai, que vivem basicamente de caça, pesca e coleta de frutos não plantados, sem praticamente acesso algum a tecnologias modernas.Outros “dicionários falantes” apresentados foram dos idiomas Matukar Panau (Nova Guiné), Remo, Sora e Ho (Índia), Tuvan (falada por populações nômades da Sibéria e da Mongólia) e Siletz-Dee-Ni (de uma pequena tribo no Oregon, Estados Unidos).Bud Lane III, integrante da tribo no Oregon, deu um depoimento por telefone em entrevista coletiva à imprensa em Vancouver sobre sua participação no projeto “Vozes Persistentes”. Ele disse que nunca esquecerá o dia, em 1980, em que alguns linguistas visitaram sua aldeia e disseram que a língua deles era “mórbida” e merecia acabar.Desde aquele dia, Lane dedicou grande parte do seu tempo a tentar preservar a Siletz-Dee-Ni e encontrou os parceiros perfeitos em Harrison e seus colegas.Lane contou que a língua começou a ser ameaçada quando, na metade do Século 19, aborígenes de diversas culturas, forçados pela expansão do mundo branco, tiveram de abandonar seus locais de origem e se concentrar em Oregon, onde estavam os Siletz.Para poderem se entender, todos passaram a se comunicar no jargão Chinook, que era mais disseminado do que as línguas nativas de todos os grupos. Com isso, mais a posterior adoção generalizada do inglês, os Siletz deixaram completamente de falar a sua língua, até que, cinco anos atrás, apenas Lane e mais uns poucos a praticavam.* Publicado originalmente no site Agência Fapesp.


por Carlos Eduardo Lins da Silva, da Agência Fapesp
infancia Infância

Família e Estado devem ser responsáveis por cuidar de crianças enquanto pais trabalham, diz pesquisa

Brasília – Para a sociedade brasileira, o cuidado das crianças enquanto os pais estão no trabalho é uma responsabilidade que precisa ser dividida entre o Estado (42%) e a família (47%). Um estudo feito pelo Instituto Patrícia Galvão, divulgado hoje (1º), avalia como a população brasileira percebe a importância das creches e a qualidade desses serviços.Em janeiro e fevereiro, mil pessoas com mais de 16 anos foram entrevistadas em 70 municípios do país. Na Região Sudeste, a maioria do entrevistados (57%) acredita que a responsabilidade pelo cuidado das crianças enquanto os pais estão no trabalho é de órgãos públicos. Nas regiões Sul e Nordeste, a maior parte considera a responsabilidade uma atribuição das mães ou da família, com 69% e 62%, respectivamente.A classe média ascendente, a chamada classe C, também responsabiliza mais o Estado do que a família pelo cuidado da criança, sobretudo as prefeituras. De acordo com o estudo, trata-se da principal classe usuária dos serviços das creches e, portanto, a que mais depende desse atendimento.De acordo com a pedagoga e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, Maria Campos, para as crianças menores de três anos existe o direito do atendimento em creche, mas isto não é uma obrigação nem da família nem do Estado. “A gente sabe que, dos quase seis mil municípios brasileiros, uma porcentagem alta não tem condições de responder a esse atendimento, pois não tem equipe, estrutura ou recursos.”A pesquisa também aponta que 32% das mulheres com crianças em casa, independentemente da classe social, apontam o número de vagas como o fator mais importante, seguido de horário de funcionamento (25%) e localização (21%).Quanto à avaliação dos serviços das creches, há uma mudança significativa de percepção, pois, embora a maioria das mulheres que trabalham tenha uma avaliação positiva, entre as sem filhos a tendência de avaliar positivamente o serviço é maior (57%) do que entre aquelas que têm filhos (47%).A avaliação das creches é mais positiva nos municípios do interior, onde 57% consideram o desempenho ótimo ou bom. Nas regiões metropolitanas, esse número cai para 44%, e nas capitais, para 39%. Tanto nas capitais quanto nas regiões metropolitanas, 30% dos entrevistados consideram as creches regulares e 17% e 19%, respectivamente, consideram-nas ruins ou péssimas.Segundo Maria Campos, o acesso às creches é muito problemático em alguns lugares. Para ela, aumentar o número de vagas sem qualidade pode ser perigoso. “Se vai aumentar a quantidade de vagas, que se respeitem as condições mínimas de qualidade. A resposta das famílias mostra que elas não têm muita informação sobre a qualidade das instituições. Estão um pouco iludidas.”A pesquisadora acredita que, mesmo com o dinheiro do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), muitas prefeituras não conseguem se organizar. “Elas não conseguem responder nem a 10% da demanda. Por isto, têm uma situação muito desigual. A gente sabe que a demanda sofre muito a influência da oferta. Onde não existe (creche), as famílias não chegam nem a procurar.”O Programa Nacional de Reestruturação e Aparelhagem da Rede Escolar Pública de Educação Infantil (Proinfância) tem como meta a construção de seis mil creches até 2014. Segundo o Ministério da Educação, foram firmados mais de 1,5 mil convênios no ano passado, no entanto, as creches ainda não estão prontas. Atualmente, menos de 20% das crianças até três anos estão matriculadas em creches, sejam elas públicas ou privadas.* Edição: Juliana Andrade.** Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Daniella Jinkings, da Agência Brasil
Filme mostra a realidade da Amazônia brasileira. Cultura

Toxic Amazônia: filme mostra luta de extrativistas assassinados no Pará

[caption id="attachment_44109" align="alignleft" width="250" caption="Filme mostra a realidade da Amazônia brasileira."][/caption]Assim como a Irmã Dorothy Stang, o casal Zé Claudio e Maria representa um símbolo de resistência e defesa da floresta.Nessa terça-feira (28), Brasília recebeu o lançamento do filme Toxic Amazônia, que trata sobre a investigação do assassinato no Pará dos ambientalistas José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, ganhadores do prêmio Herói da Floresta concedido pela ONU em 2012. O documentário adentra sobre as questões que envolvem a questão extrativista na região.O evento foi realizado no Auditório Nereu Ramos (Anexo II da Câmara dos Deputados, Praça dos Três Poderes) durante o seminário "Código Florestal e a ciência: O que os nossos legisladores ainda precisam saber", com a presença de cientistas e pesquisadores discutindo os impactos negativos das mudanças no Código Florestal. A organização é do Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável e da Frente Parlamentar Ambientalista.No dia 24 de maio de 2011, mesmo dia em que deputados federais aprovaram, em Brasília, o Código Florestal – lei que coloca em risco as florestas e legaliza desmates – o casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo foi executado perto do assentamento em que viviam em Nova Ipixuna, no Estado do Pará.Um mês depois a Vice Media Inc., produtora do Toxic Amazônia, foi para Marabá, cidade natal do castanheiro Zé Cláudio, onde acompanhou a investigação do caso, seguiu os agentes do Ibama numa operação cinematográfica em que madeireiras ilegais foram fechadas, visitou um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), conheceu escravos foragidos e comprovou a violência que permeia a cidade, também chamada de Marabala (uma expressão que mistura as palavras Marabá e bala).Assim como a Irmã Dorothy Stang, o casal Zé Claudio e Maria representa um símbolo de resistência e defesa da floresta. Como ativistas, os assassinados chegaram a receber várias ameaças de morte e comunicar o fato às autoridades locais, sem que nada fosse feito para impedir as mortes.Para conhecer mais o trabalho: http://www.vice.com/pt_br/toxic/toxic-amazon-full-length.* Publicado originalmente no site Adital e retirado do EcoAgência.


por Redação da Adital
Editores apostam nas novas possibilidades que os e-books proporcionam. Tecnologia

E-books turbinados começam a ocupar espaço no mercado

[caption id="attachment_44106" align="alignleft" width="270" caption="Editores apostam nas novas possibilidades que os e-books proporcionam."][/caption]Inspiradas pelo sucesso dos tablets, editoras lançam versões multimídia de seus clássicos.É por trás da tela dura de e-books multimídia que cada vez mais os nossos livros serão encontrados em breve. Inspirados pelo sucesso comercial de tablets móveis, os editores estão agora experimentando o meio em voga. As vendas de tablets amigáveis a multimeios, smartphones e e-readers devem crescer até 1,1 bilhão até 2015 nos Estados Unidos. Hoje eles representam 450 milhões. Os puristas do impresso não precisam correr em pânico para as suas prateleiras cheias. A melhora dos multimeios vai afetar apenas uma pequena parcela de novos títulos.Os livros infantis foram os primeiros a receber esse tratamento cheio de recursos e adereços, mas a ficção adulta já provou ser de difícil vendagem. Poucos leitores têm se disposto a pagar mais pelos extras que acompanham as obras. Enquanto e-books comuns continuam a se manter graças às vendas dos impressos, uma experiência britânica, chamada Enhanced Editions (Edições Melhoradas), que consiste em adicionar vídeos dos autores e outros materiais aos romances que mais vendem, foi abandonada sem muito estardalhaço no ano passado. Ainda assim, para certos tipos de livros, como biografias, livros de culinária, clássicos literários e novas formas de ficação interativa, essas melhoras podem adicionar novas camadas, ricas e surpreendentes.A biografia de Malcom X, que será lançada pela Penguin em breve, por exemplo, traz filmagens de arquivo raras e um mapa interativo do Harlem. Clássicos atemporais também provaram ser bons candidatos a um pouco de brilho extra. Quebrando a linha fracassada de aplicativos turbinados que não conseguiram render lucros, uma edição multimídia de The Waste Land, de T.S. Elliot rapidamente conseguiu cobrir seus custos para a editora Faber & Faber.Os selos ligados a esses híbridos revelam a tensão nos seus corações. Eles não são exatamente livros, mas experiências narrativas “ampliadas”, “enriquecidas”, e até “interativas”. Especialmente com a literatura, muitos leitores se mantêm intrepidamente céticos a respeito das intromissões narrativas que quebram a criação. Com conhecimento deste equilíbrio delicado, os editores estão, contudo, ansiosos por testar as possibilidades criativas e comerciais de tais melhoras.* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Redação do Opinião e Notícia
lingua_brasileira Língua Portuguesa

Mudanças estruturais

Numa língua não ocorrem mudanças isoladas. Ocorrem em cadeia. Além disso, obedecem a um processo, não são instantâneas. Uma forma pode ser antiga e não desaparecer totalmente.Vou dar dois exemplos de variação (continua na próxima coluna), ou de mudança em curso, que talvez não cheguem a se consumar totalmente. A apresentação está obviamente simplificada.Haver – ter – possuirEm tempos idos, o sentido de haver era claramente ‘possuir / ter’, como em tenho livros, tenho vícios. São exemplos do Houaiss: “os Albuquerque hão cabedal de escudos para muito mais”; “Os Noronhas houveram notícia de sua prisão”. Um texto de D. Duarte, do Século 15, começa assim: “E este rrey Leyr non ouue (houve) filhos, mas ouue (houve) três filhas muy fermosas e amauuas (amava-as) muito”). Com o tempo, o verbo perdeu esta acepção. Ultimamente, seu sentido mais típico era ‘existir’, como se aprende nas aulas de gramática (havia muita gente, há muita falta de vergonha).Até recentemente, o sentido de ter era "ser possuidor". As pessoas tinham carros, namorados, dúvidas, pernas, cabelos, medo. Não haviam mais. Tinham. Mas, aos poucos, ter passou a substituir o verbo haver no sentido de "existir". Quase só se diz “tinha gente lá em casa", "tem dias que a gente se sente…", "tinha uma pedra no meio do caminho", "não tem mais jogador genial”, etc. O verbo haver é, a rigor, arcaico; só ocorre em textos bastante formais, em provas de português e em hinos – sacros, nacionais ou de clubes de futebol ("hei de vencer, vencer, vencer"). Ainda se ouve, mas muito raramente. Soa artificial, antigo ou solene.O verbo possuir era empregado apenas em contextos relativamente formais. E não se empregava em contextos como possuir pais ou irmãos. Implicava basicamente posse alienável, isto é, que alguém podia não ter: terras, livros, namorados. Por isto, não se empregava em contextos como possuir mãos ou pés; em casos assim, empregava-se ter. Mas as coisas mudaram: como ter substituiu haver, possuir substituiu ter. Hoje, os livros possuem capítulos, as páginas possuem linhas, os meninos e meninas possuem avós, mães e cabelos lisos ou crespos. Antes, tinham!A escala “evolutiva” para expressar o sentido de posse é haver > ter > possuir. Antigamente, havia-se bens; depois, tinha-se; hoje, possui-se. Haver e ter ainda alternam, no sentido de "existir”; ter e possuir, no sentido de "ser possuidor". A tendência é que se fixem os segundos de cada dupla. Ninguém diz a bolsa dela possui de tudo. Ainda?* Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Sírio Possenti, da Carta Capital
20120223_manuel_1 Literatura

O trabalho é virtual, mas o mundo é real

Livro do professor e sociólogo Ricardo Antunes reúne ensaios sobre as transformações do mercado de trabalho.Numa passagem de O Capital, Karl Marx afirma que a manufatura separou o trabalhador dos meios de produção, assim como quem aparta o caracol da sua concha. Ocorre que tal molusco, lembra o autor, não consegue sobreviver sem sua proteção natural. A partir da imagem criada por Marx, o sociólogo Ricardo Antunes, professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, definiu o título do seu mais novo livro, O caracol e sua concha – ensaios sobre a nova morfologia do trabalho. A obra, esta semana pela editora Boitempo, dá continuidade às suas reflexões sobre o mundo do trabalho, registradas em outros dois livros: Adeus ao trabalho? (1995) e Os sentidos do trabalho (1999). Na mais recente produção, Antunes, considerado um dos mais destacados sociólogos marxistas da atualidade, analisa as transformações ocorridas nesse universo e as consequentes implicações nos planos social e político.Implicações políticas e sociais são analisadasO caracol e sua concha reúne 12 ensaios escritos por Ricardo Antunes entre os anos de 2000 e 2005, sendo um deles inédito, produzido para a apresentação da aula para a obtenção do título de professor titular no IFCH. "Todos esses trabalhos compõem um projeto financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), intitulado Para onde vai o trabalho?”, afirma o autor. No livro, o sociólogo aborda diversos temas relacionados à questão do trabalho no capitalismo contemporâneo. O primeiro deles diz respeito à crise da sociedade do trabalho. O docente da Unicamp discute as implicações da chamada sociedade do conhecimento e da informação no âmbito do trabalho.De acordo com ele, num cenário de competição global, as empresas não somente se apropriam da dimensão manual do trabalho, como nas épocas taylorista e fordista, mas também do seu caráter intelectual. "Atualmente, para qualquer corporação é fundamental esse tipo de apropriação, visto que o saber do trabalhador normalmente se traduz em maior produtividade e lucro”, afirma. Não por acaso, registra Ricardo Antunes em seu livro, a Toyota, uma das maiores fabricantes de veículos do mundo, utiliza um slogan que em português significa "Bons pensamentos significam bons produtos”. "Ou seja, é preciso fazer com que a classe trabalhadora pense e, dentro do universo estrito das empresas, produza maiores ganhos.”Uma consequência desse modelo, reforça o sociólogo, é naturalmente o aumento da produtividade e do lucro. Mas junto com este reflexo surge um outro, que é a precarização do trabalho. Isto ocorre, segundo Ricardo Antunes, em razão do que ele classifica de "informalização” do trabalho, aqui incluídas as alternativas cada vez mais utilizadas pelas corporações, como a terceirização e as contratações temporárias ou parciais, com a respectiva redução de direitos. "Este processo foi analisado recentemente por uma cientista social, Ursula Huws, que denominou a classe trabalhadora atual com o termo cybertariat, que significa ‘proletariado da era da cibernética’. Conforme o título de seu livro, trata-se do trabalho virtual realizado no mundo real. Hoje, a pessoa tem trabalho, mas amanhã pode não ter. Em razão da globalização, uma empresa instalada em Campinas pode ser transferida de um dia para o outro para as Filipinas, por exemplo. E o trabalhador poderá ser informado disso quando chegar para bater o ponto”, explica.Em O caracol e sua concha, o autor destaca que esse movimento não implica o fim do trabalho, como chegou a ser defendido por alguns segmentos, mas sim sua transformação. Hoje, o trabalho assumiu uma forma completamente diferente daquela de há 40 ou 50 anos. "Precisamos entender as formas contemporâneas da agregação do valor-trabalho. Atualmente, a mais-valia não é extraída apenas do plano material do trabalho, mas também do imaterial”. Valendo-se da imagem de um pêndulo, Ricardo Antunes defende em seu livro a tese segundo a qual o mundo do trabalho oscila entre a sua dimensão perene e a supérflua. É perene na medida em que uma parcela da população consegue se manter no mercado de trabalho, cumprindo jornadas cada vez maiores e realizando múltiplas atividades.Mas também é supérfluo, dado que cada vez mais pessoas vivem a condição do desemprego estrutural, aquele em que a vaga do trabalhador foi substituída por máquinas ou processos produtivos mais modernos, ou foram empurradas para a informalidade e a precariedade. "Este é o quadro que eu procuro mostrar no livro, ou seja, o mosaico de forma que configura a classe trabalhadora atual. Isto é muito diferente das teses que tiveram um certo impacto uma década e meia atrás, que diziam que o trabalho estava acabando. Não, o que existe é uma nova morfologia do trabalho”, insiste. Se o trabalho assumiu uma forma diversa da conhecida por nossos avós, provocando um novo recorte em relação à classe trabalhadora, é natural que essa transformação traga impactos para as esferas social e política.No livro, o professor do IFCH faz uma reflexão importante sobre os caminhos que a classe trabalhadora pode trilhar em busca de seus direitos e de uma sociedade menos destrutiva. Ele discute, por exemplo, a representatividade exercida pelos sindicatos e partidos políticos. No Brasil, entende Ricardo Antunes, este caminho mostra-se especialmente desafiador, por conta do escândalo envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT), agremiação que se apresentava como detentora da ética e defensora de uma sociedade mais humanizada. "Infelizmente, o PT não só abandonou o seu ideário socialista, como se mostrou capaz de aprofundar a corrupção política no país. Com a falência e a senilidade precoce do PT, criou-se um espaço político e ideológico que precisa ser preenchido”, analisa.De acordo com ele, com o fracasso dos partidos comunistas tradicionais e da social democracia no século passado, o Século 21 está exigindo uma resposta à seguinte pergunta: queremos continuar vivendo numa sociedade destrutiva ou vamos buscar modelos alternativos? "Penso que não podemos recuperar a experiência do século passado. Nem tampouco, no caso brasileiro, requentar o PT e o PSDB e seguir em frente. Creio que isto nos oferece o desafio de repensar e refundar a esquerda no país. Há quem diga que o socialismo morreu, mas eu discordo frontalmente dessa análise. Eu afirmo que o socialismo não morreu porque seu processo de transição não chegou a se consolidar. O Psol (Partido Socialismo e Liberdade) surge, então, como uma possibilidade para o exercício desse esforço. Alguns dirão que essa não é uma alternativa, outros estão participando dessa iniciativa política coletiva, pelas possibilidades que ela oferece. Penso que a refundação da esquerda é um empreendimento a ser feito. Resta discutir qual a melhor maneira de conduzi-lo.”O livro O caracol e sua concha - ensaios sobre a nova morfologia do trabalho tem 136 páginas e estará disponível nas livrarias brasileiras a partir da segunda quinzena de agosto. O preço de capa ainda não foi definido. Os interessados podem obter informações ou comprar exemplares diretamente da editora, por meio da home page www.boitempo.com. A apresentação do livro foi feita pelo professor Sedi Hirano, diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).* Fonte: Jornal da Unicamp.** Publicado originalmente no site Adital.


por Manuel Alves Filho, do Jornal Unicamp
'Cheiro de lotus depois da chuva' (1975), do chinês Zhang Daqian. Foto: AFP Cultura

Artistas chineses destronam Picasso

[caption id="attachment_44054" align="alignleft" width="270" caption=""Cheiro de lotus depois da chuva" (1975), do chinês Zhang Daqian. Foto: AFP"][/caption]Prestigiados por bilionários chineses, Qi Baishi e Zhang Dagian são os novos reis de venda nos leilões de arte, mesmo sendo pouco conhecidos fora da Ásia.Já ouviu falar em Qi Baishi e Zhang Dagian? Se não, é melhor guardar estes nomes: os dois chineses, cujas obras dificilmente podem ser encontradas fora da Ásia, vão destronar Pablo Picasso como os artistas com maior valor de vendas acumuladas em 2011, segundo o ranking anual da empresa francesa Artprice, especialista em dados do mercado mundial da arte.Como artistas com tão pouco prestígio mundial podem ter roubado o lugar que o pintor espanhol ocupou 13 vezes nos últimos 14 anos? Na verdade, a virada tem até certa lógica, já que a China se tornou, ano passado, o principal país no mercado da arte.A supremacia chinesa, que tem mais de 40% das cifras dos negócios envolvendo obras de arte no mundo, se impõe graças à insistência dos novos bilionários locais em valorizar a arte de seus conterrâneos, assim como os Estados Unidos fizeram depois da Segunda Guerra. A China coloca hoje nada mais do que seis artistas entre os dez mais vendidos. Como explica o jornal francês Le Fígaro, apesar da globalização, o mercado da arte continua bastante localizado. “Das vendas nos leilões das obras de Zhang Daqian e de Qi Baishi, 99% foram feitas na Ásia. Ao contrário, 99% das de Andy Warhol e Pablo Picasso ocorreram no resto do mundo, incluindo Estados Unidos e Europa.* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Béatrice De Rochebouet, do Le Figaro
falarcomfilho Dicas

Elogio é bom e faz bem!

Se você costuma elogiar as atitudes positivas de seus filhos, parabéns! Você está no caminho certo. É isto mesmo! As crianças aprendem muito mais por meio de elogios.Um grupo de pesquisadores, por exemplo, colocou dois grupos de crianças para executar uma tarefa de complexidade média, onde todos conseguiriam fazer. Durante a atividade, um grupo foi elogiado pela sua inteligência e outro pelo esforço, ou seja, pela capacidade de tentar e pela persistência. Novamente foi proposta outra atividade, de complexidade semelhante à primeira, e as crianças do grupo que foi elogiado pela inteligência não quiseram fazer a nova atividade, ou seja, não quiseram correr o risco de falhar e não serem mais elogiadas pelos adultos. Já no grupo das crianças que foram reforçadas por sua tentativa e persistência, todas quiseram fazer a nova atividade, afinal, ganhariam o elogio dos adultos se conseguissem ou não realizar a tarefa. Seriam elogiadas pela tentativa.Então, os elogios devem ser em relação às atitudes e comportamentos da criança, como: “Parabéns, meu filho! Você tentou, tentou e conseguiu!”, “Nossa, como você é organizado! Seus brinquedos estão todos guardados!”, “Como você é gentil ajudando o seu irmãozinho!”. Este tipo de elogio, além de reforçar o comportamento adequado da criança, mostra o que os pais esperam dela. Quando a criança entende o que é esperado dela, a chance de executar determinados comportamentos aumenta. Muitos pais, infelizmente, focam a sua educação em dizer o que a criança não deve fazer, mas esquecem de falar o que é para ser feito e de elogiar quando eles acertam.Se os pais focarem a sua atenção nos comportamentos inadequados dos filhos, apenas falando sobre o que eles estavam fazendo de errado, a tendência é que os filhos continuem com os comportamentos inadequados, a fim de ter atenção dos genitores. Lembre-se que atenção negativa ou positiva, continua sendo atenção da mesma maneira.Dessa forma, é melhor os pais concentrarem sua atenção naquilo que querem de melhor para os filhos. Quanto mais a educação for baseada no aspecto positivo, mais resultados surgirão. A criança é muito suscetível ao elogio, pois com ele, sente-se adequada e mais amada pelos pais. Tudo que as crianças querem (e nós adultos também) é sentir que são amadas e aceitas.Portanto, quando forem educar os filhos, corrijam as atitudes e não a criança. Não diga que seu filho é errado, porque na verdade, a atitude é que é inadequada. Opte por explicar o que deve ser feito e o porquê deve ser feito daquela maneira e elogie a criança, inclusive, pela tentativa de mudança. Elogie mais ainda quando ela alcançar o resultado esperado.* Jéssica Fogaça é psicóloga comportamental, especializada em Clínica Analítico-Comportamental Infantil pelo Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento. Possui aprimoramento em Intervenção em Dificuldades de Aprendizagem Acadêmica e curso de formação em Terapia Analítico-Comportamental Infantil. É autora do capítulo "Imagem Corporal" do livro Oficinas de Sexualidade para Adolescentes Sob Enfoque Comportamental e do capítulo "A Fase dos Porquês" do Manual Sexualidade Também é Coisa de Criança. Site: www.estimuloconsultoria.com.br.


por Jéssica Fogaça
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Salário de professor

Estava me deslocando de carro com o rádio ligado em um programa de notícias locais. O entrevistado era o secretário municipal de Educação. A cada pergunta feita pelo experiente jornalista – que de poder entende tudo, vinha uma resposta redondinha.A impressão que os ouvintes tinham, e também o próprio entrevistador, era de que a educação básica em Cuiabá estava entre as melhores do mundo. Não se faz educação de qualidade sem professores qualificados e motivados. Com alunos em espaços físicos inadequados, sem bibliotecas, laboratórios, áreas de lazer e alunos em tempo integral.Para exercer a função de professor é necessário possuir curso superior e enfrentar um concurso público. Após ouvir maravilhas sobre esta educação pública desconhecida pela população de Cuiabá – não se esquecendo de que os filhos dos ricos e políticos frequentam escolas particulares –, veio a pergunta que todos os ouvintes gostariam de escutar: "quanto ganha um professor de ensino básico na rede pública municipal?”.A resposta não foi tão rápida como aquelas em que o secretário afirmou que não tínhamos crianças fora da escola, que o número de creches estava sendo aumentado e que a educação infantil caminhava para a sua universalização. Após uns segundos, o secretário respondeu: "dentre as capitais brasileiras, Cuiabá é a segunda que melhor remunera os seus professores".Diante desta afirmação, o jornalista, e, claro, os ouvintes, quiseram saber o valor desses salários. "Em meio período (20 horas), o professor ganha cerca de R$ 1.360. Em dois turnos (40 horas), o dobro”, respondeu o secretário. Estava encerrada a entrevista.Tenho uma faxineira que nem sei se tem instrução primária. Chegou à minha casa indicada por amigos por seus méritos pessoais. Trabalha seis horas por semana, com direito a auxílio transporte, café da manhã, lanche, almoço e banho no final do expediente.Não lava ou passa roupas, não cozinha, apenas faz a manutenção semanal do meu apartamento. Pago com satisfação R$ 85,00 por visita. Em um rápido cálculo verifiquei que, trabalhando cinco dias por semana, seu salário líquido era superior ao de um professor da segunda capital do Brasil a melhor pagar seus educadores.Os nossos administradores públicos têm a infeliz mania de tapar o Sol com a peneira. Se compararmos o salário que o mercado de trabalho oferece a outras categorias profissionais, veremos que o Brasil remunera muito mal seus professores. E o pior: parece que nossos dirigentes não têm consciência disto, ou têm?No mínimo, eles deveriam reconhecer a nossa real situação educacional, qual seja: de baixíssima qualidade. Pesquisas recentes demonstram que é a estupidez de alguns países que os impede de investirem pesadamente na formação e profissionalização dos seus mestres e na educação das suas crianças.Diante dessa visão caolha com relação à educação – e providencial para a sobrevivência de alguns grupos políticos – estaremos eternamente condenados a ser exportadores de alimentos e matéria-prima para os países que priorizaram a educação.A boa educação passa, necessariamente, pelo bom professor.Como somos um país rico, o projeto de lei mais importante que tramita no Congresso Nacional é aquele em que se dará o título de Heróis Nacionais aos jogadores titulares, e aos reservas, dos campeonatos mundiais de futebol de 1958, de 1962 e de 1970.O texto prevê ainda um prêmio de R$ 100 mil para cada jogador titular e reserva, e um auxílio especial para a aposentadoria de heróis, como Pelé, Zagalo, Tostão, Rivelino, Leão e tantos outros atletas que tanto fizeram por eles, digo, pelo Brasil. Ser professor no Brasil é uma opção de vida quase sacerdotal. Heróis são os da mídia, como a Luiza, que voltou do Canadá.* Gabriel Novis Neves é médico e ex-reitor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).** Fonte: Diário de Cuiabá (MT).*** Publicado originalmente no site Adital.


por Gabriel Novis Neves*
120222-Darcy5b Brasil

A obra em que Darcy Ribeiro desafia o Brasil

Documentário expõe ideias de antropólogo que divergiu do eurocentrismo e enxergou possível contribuição do país às civilizações contemporâneas. Poderemos realizá-la?No ano de 1995, o professor Darcy Ribeiro conseguiu concluir e publicar a obra que mais desejava mostrar ao mundo, o livro O Povo Brasileiro: a Formação e o Sentido do Brasil.Na verdade, Darcy passou a maior parte de sua vida almejando escrevê-lo. Por duas vezes na sua conturbada vida de antropólogo, indigenista, filósofo, educador, escritor e político, tentou concluí-lo, sendo sempre afastado do epílogo pelas batalhas em que sempre se envolveu. Só o fez quando sentiu que tinha pela frente um inimigo que não podia vencer – a morte, que o rondava desde muito, mas que sempre adiava sua cartada final, pois ele a convencia de que ainda não era hora. Parece que houve um acordo final, nesse jogo de xadrez bergmaniano. Tomou a forma de uma pequena trégua. Após escapar do CTI de um hospital, de onde quase ninguém acreditava que saísse vivo, Darcy encontrou forças do fundo do seu ser, exilou-se em Maricá e legou à posteridade essa obra – talvez a mais magistral de todas, da robusta lista de criações originais que fez sobre o nosso Brasil.Em 2005, um documentário em linguagem televisiva procurou popularizar as ideias contidas no livro. Produzido pela Fundação Darcy Ribeiro, TV Cultura e GNT, dirigido por Isa Ferraz e materializado (em 2 DVDs), sugere estabelecer contato com o Brasil fantástico de Darcy e com o que significamos, segundo ele, como participantes da grande história universal.Darcy parte de uma pergunta que o atormentou por toda a vida. Por que, a despeito de todas as condições favoráveis, o Brasil ainda não deu certo? Para superarmos o que nos amarrava, ele acreditava, era imperioso saber quem somos, qual a gênese da nossa formação e no que ela resultou. Nesse sentido, a ideia de lançar o conteúdo do livro em linguagem televisiva foi perfeita.Sabemos que a sociedade contemporânea é da televisão. Ela está presente em todos os lugares e influencia fortemente o comportamento do cidadão no seu dia a dia. Acompanha-o quando acorda; nos ônibus e carros com que se desloca ao trabalho; nos restaurantes onde come e na sala de espera de seu médico ou dentista; no celular e na internet; em casa, à noite, dividindo tempo precioso com a família. Ao empregá-la, as classes dominantes procuram manter os cidadãos amorfos, sem uma concepção de mundo própria. Na disputa pelo poder de Estado, ela constrói vitórias e derrotas eleitorais. Tornou-se um clássico, por exemplo, a manipulação promovida pelo Jornal Nacional nas eleições presidenciais de 1989, após o debate entre Collor e Lula, distorcendo a imagem do último a ponto de evitar sua provável vitória nas urnas.Mas o uso apropriado de veículos como a TV também pode produzir resultados excepcionais, difundindo vastamente certas ideias, como já nos dizia Rossellini, com seu cinema pedagógico. Mostrar ao brasileiro a sua cara, por intermédio de um documentário baseado na obra de Darcy Ribeiro, é a estratégia mais correta para despertar as ideias contidas em seu livro, libertando-as do campo meramente acadêmico, em que poucos vão entendê-las, e lançando-as à população. Muito de acordo, aliás, com as concepções do próprio autor.Embora doutor honoris causa pela Sorbonne, plenamente reconhecido em grandes universidades, criador, ele próprio da Universidade de Brasília, ministro da Educação no governo João Goulart e autor de livros ediados em vários idiomas, Darcy não foi uma unanimidade (se é que isto existe realmente) na academia. Sua história de “fazedor” desenvolve-se plenamente no campo, na ação da prática de vida-vivida, segundo o axioma marxista de que “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras, mas o que importa é transformá-lo” (Karl Marx, Teses sobre Feuerbach). Por suas atitudes, colecionou muitos seguidores, mas também muitos opositores.Darcy faz parte da galeria de grandes intelectuais que pensaram o Brasil e desenvolveram, no pós-II Guerra Mundial, teses para nossa consolidação como uma das grandes nações do mundo. O grupo inclui Florestan Fernandes e a chamada Escola Paulista de Sociologia, intelectuais oriundos dos partidos de esquerda – comunistas, socialistas, e outros –, economistas da escola cepalina, que influenciaram governos como os de Vargas, Juscelino, Jânio e João Goulart.Profundo conhecedor do interior do Brasil, principalmente pela estreita ligação com o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), do Marechal Rondon, e com os indigenistas da época, como os irmãos Villas Boas, Darcy destacou-se pelos seus valiosos estudos sobre etnias indígenas brasileiras. Passou a ter dimensão nacional quando se aproximou do professor Anízio Teixeira e dos educadores da Nova Escola, incorporando aos seus estudos a questão educacional no Brasil.Suas formulações teóricas sempre estiveram ligadas a uma prática política com um conteúdo ideológico definido: ele partia da concepção de que na raiz de um pensamento existem sempre interesses de classes, que determinam a sua essência. Darcy escolheu um lado, e este foi sempre o dos despossuídos, tendo grande capacidade de se colocar na posição do outro e de fazer do interesse do outro o seu problema.Por suas ideias e ações políticas – exerceu, por exemplo, importante influência no governo João Goulart –, granjeou muitos inimigos. Por isto, foi obrigado ao exílio, após o golpe de Estado de 1964.Mas jamais deixou de produzir. Em 1968, lançou O Processo Civilizatório, em que se atreve a uma revisão crítica dos esquemas conceituais propostos pelos estudos clássicos de antropologia. Esboça uma nova visão acerca do desenvolvimento humano que gera forte impacto, haja vista não estar enquadrada nos esquemas teóricos tradicionais.Darcy se queixa: “… nos faltava uma teoria geral, cuja luz nos tornasse explicáveis em seus próprios termos, fundada em nossa experiência histórica. As teorizações oriundas de outros contextos eram todas elas eurocêntricas demais e, por isso mesmo, impotentes para nos fazer inteligíveis. Nosso passado, não tendo sido o alheio, nosso presente não era necessariamente o passado deles, nem nosso futuro um futuro comum. (…) O processo civilizatório é minha voz nesse debate. Ouvida, quero crer, porque foi traduzida para as línguas de nosso círculo ocidental, editada e reeditada muitas vezes, é objeto de debates internacionais nos Estados Unidos e na Alemanha. A ousadia de escrever um livro tão ambicioso me custou algum despeito dos enfermos de sentimentos de inferioridade, que não admitem a um intelectual brasileiro o direito de entrar nesses debates, tratando de matérias tão complexas. Sofreu restrições, também, dos comunistas, porque não era um livro marxista, e dos acadêmicos da direita, porque era um livro marxista. Isto não fez dano, porque ele acabou sendo editado e mais lido do que qualquer outro livro recente sobre o mesmo tema” (Darcy Ribeiro, in O Povo Brasileiro).Seguindo a esteira de grandes pensadores da sociedade brasileira, desde a Semana de Arte Moderna de 1922, Darcy nos via na construção de uma civilização original: tropical, mestiça e humanista. Dos índios, segundo ele, herdamos a capacidade e o talento para o convívio; dos negros, a espiritualidade e a ação sobre o invisível e o não dito; dos europeus a tecnologia e racionalidade. Estaríamos prontos, pois, para ser uma das civilizações do mundo. Seríamos o novo, capaz, na medida em que tomássemos conhecimento de nós mesmos, de contribuir para o avanço histórico da humanidade.“Nessa confluência, que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais dispares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo, num novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo, ainda, porque é um novo modelo de estruturação societária, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros.” (Darcy Ribeiro, in O Povo Brasileiro).O documentário desenvolve as teses darcinianas seguindo o roteiro do livro. Ao longo de sete capítulos, ele nos fala sobre nossas matrizes: tupi, lusa e afro. Aborda o encontro dessas matrizes e a estruturação do modo de vida, costumes e tradições: cabocla, caipira, crioula, sertaneja, e sulina. Por fim, discute os caminhos para o Brasil atual, ressaltando principalmente nossas homogeneidades (tais como a língua, comportamentos, etc.), e ao mesmo tempo, nossas diversidades. Mais do que uma junção de etnias formando uma outra, e única (a brasileira), o Brasil é um povo-nação, ajustado a um território próprio para nele, juntos, viver o seu destino. Suas gentes teriam se amalgamado, a princípio, pelo peculiar instituto do cunhadismo, originário da cultura indígena. Formaram um ser, “um ninguém” – o brasileiro primitivo, que teve de procurar o sentido de sua existência como ser diverso das culturas matrizes.Para Darcy Ribeiro, formamos a maior presença neolatina no mundo, uma Nova Roma. Melhor do que a anterior, porque radicalmente lavada em sangue índio e negro. Esta singularidade nos condena a nos inventarmos a nós mesmos. Também nos desafia a construir uma nova sociedade, inspirada nas nossas gêneses, despontando no cenário mundial com nossas próprias particularidadesDarcy acreditava que o Brasil estava diante de uma encruzilhada, a partir da reordenação do mundo globalizado, provocada pela terceira revolução industrial. Impaciente, via que poderíamos perder esta oportunidade, a exemplo do que aconteceu no Século 19 – quando não nos industrializamos e permanecemos como exportadores de matérias-primas. Vem daí sua insistência na pauta prioritária da educação como mola motriz do nosso desenvolvimento, em uma época na qual dominar o conhecimento tornou-se o elemento decisivo no processo de emancipação de um povo.Utópico no melhor da sua essência – movido por aquela utopia de que nos fala Karl Mannheim que é a incongruência perante a realidade –, Darcy é uma das figuras mais fascinantes do Século 20. Viveu plenamente suas utopias, não se importando se elas não se realizavam. Sua contribuição ao Brasil, até hoje pouco compreendida, pode nos dotar de uma proposta original. Abre caminho para participar de fato do novo cenário internacional. Exige que venham à tona do fundo de nossas humanidades, e num quadro de declínio de civilizações, novas formas de viver. Pacíficas, alegres e sábias, capazes de recompor a aliança do ser humano com a natureza e a criatividade. Darcy achava que, por nossa peculiar formação, nós seriamos seus arautos.* Arlindenor Pedro é professor de história e especialista em projetos educacionais. Anistiado por sua oposição ao regime militar, dedica-se na atualidade à produção de flores tropicais na região de Agulhas Negras. Blog: http://arlindenor.wordpress.com.** Publicado originalmente no site Outras Palavras. 


por Arlindenor Pedro*

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