Caminhar ou pedalar até a escola melhora desempenho

Educação

Caminhar ou pedalar até a escola melhora desempenho


por Redação do Porvir*


[caption id="attachment_88611" align="aligncenter" width="500" caption="Foto: Mihalis / Fotolia"][/caption]   Nada de carro e ônibus. Um estudo divulgado recentemente, elaborado por pesquisadores da Universidade de Granada, Universidade Autónoma de Madrid e Universidade de Zaragoza, todas na Espanha, mostrou que os adolescentes que vão à pé para a escola (caminhando pelo menos 15 minutos por dia) apresentam melhor rendimento cognitivo em relação àqueles que utilizam ônibus ou carro. O estudo avaliou 1.700 jovens entre 13 e 18 anos (808 meninos e 892 meninas) de cinco cidades espanholas. Os autores concluíram que os alunos que caminham 15 minutos, em relação aqueles que não o fazem, melhoram o desempenho escolar porque o exercício, além de se tornar um hábito saudável e diário, estimula suas funções cognitivas. Isso contribui para que se tornem mais ativos no restante do dia e, consequentemente, em sala de aula. Na adolescência a plasticidade do cérebro é maior do que qualquer outro período da vida, por isso, é importante estimular atividades físicas nessa fase. “Os adolescentes que não praticam exercícios, como caminhar ou pedalar, acabam tendo menos estímulos, que são necessários para melhorar sua aprendizagem e desempenho acadêmico”, disseram os investigadores da pesquisa ao ABC.es. Para chegar a essa conclusão, os investigadores estudaram variáveis ​​relativas ao deslocamento dos jovens até a escola, como ir à pé, carro, ônibus, moto, entre outros, e quanto tempo gastavam. Além das variáveis ​​antropométricas – como o índice de massa corporal, o percentual de excesso de peso e obesidade. Avaliaram também as atividades extracurriculares realizadas pelos estudantes, assim como os dados socioeconômicos e o grau de escolaridade dos alunos e de suas famílias. Em seguida, para medir o desempenho cognitivo desses alunos, os pesquisadores usaram a versão de um teste espanhol que mede a proficiência na língua, a velocidade em realizar cálculos matemáticos e capacidade de raciocínio. De Bike A pouco mais de 2.500 km de distância da Espanha, outra pesquisa – a Danish Science Week – realizada em 2012 por pesquisadores da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, revelou que as crianças que vão à pé ou de bicicleta à escola se mostravam com mais concentração na realização de tarefas escolares. O estudo analisou cerca de 20 mil crianças, de cinco a 19 anos, e concluiu que ao caminhar ou pedalar ao local onde estudavam, as crianças apresentavam mais facilidade, em comparação àquelas que iam de automóvel, de montar um quebra-cabeça, por exemplo. Segundo os pesquisadores, as boas implicações da caminhada ou pedalada perduram nas crianças por até quatro horas depois do exercício físico. Ainda de acordo com a pesquisa aquelas que não vão de carro ou ônibus têm uma relação mais íntima com os arredores dos bairros onde vivem, já que os conhecem melhor as paisagens do que aqueles que pegam caronas com seus pais. Isso permite, por exemplo, que, ao longo dos anos, as crianças e os jovens não se tornem tão dependentes dos automóveis. * Com informações do ABC.es. ** Publicado originalmente no site O Porvir.

greve Educação

Professor vagabundo que faz greve deveria ser demitido

[caption id="attachment_88606" align="alignleft" width="300" caption="Greve de professores em 2012. Foto: Divulgação/ Internet"][/caption] “Vagabundo que faz greve deveria ser demitido.” Algumas poucas vezes me dou o direito de atualizar e republicar certos textos deste blog. Hoje é o caso. Pois, ouvi no trem, uma senhora reclamando destemperadamente com uma amiga dos professores da rede municipal em São Paulo, que estão em greve desde o dia 03 – da mesma forma que doutos senhores espezinhavam a greve de professores das universidades federais, tomando cafezinho nos Jardins, tempos atrás. Pedem 17% de recomposição inflacionária dos últimos três anos. A prefeitura oferece 10,19% agora e mais 13,43% em 2014. Mas os sindicatos alertam que esses valores seriam relativos a outros acordos firmados em anos anteriores para incorporação de abonos. Contudo, mais do que discutir se o salário dos professores será suficiente para pagar uma esfiha ou um kibe no Habib’s, o que me interessa neste texto é a forma com a qual vemos suas reivindicações e as descolamos da melhoria da educação como um todo. Quando escrevi pela primeira vez sobre isso vivíamos a greves dos mestres das universidades federais. E, é claro, essa frase nunca vem sozinha: passeata que atrapalha o trânsito? Cacete neles! Protesto em praça pública? Cacete neles! Onde já se viu? Essas pessoas têm que saber seu lugar. Sindicatos não são perfeitos, longe disso. Assim como ocorre em outras instituições, possuem atores que resolvem voltar-se para os próprios umbigos e tornar a busca pelo poder e sua manutenção de privilégio mais importante que os objetivos para os quais foram eleitos. Ou seja, tá cheio de sindicalista pelego ou picareta, da mesma forma que empresário corrupto e sonegador. Contudo, graças à organização e pressão dos trabalhadores, importantes conquistas foram obtidas para civilizar minimamente as regras do jogo – não trabalhar até a exaustão, descansar de forma remunerada, ter salários (menos in)justos, garantir proteção contra a exploração infantil. Direitos estes que, mesmo incompletos, são chamados por alguns empregadores de “gargalos do crescimento”. É esquizofrênico reclamar que não há no Brasil quantidade suficiente de força de trabalho devidamente preparada para fazer frente às necessidades de inovação e produtividade e, ao mesmo tempo, chutar feito caixa de giz vazia as reivindicações de professores por melhores condições e remuneração. Como acham que o processo de formação ocorre? Por osmose? Cissipartição? Geração espontânea a partir dos argumentos fedidos desse povo? Incrível como muitos colegas, ao tratarem sobre greve de professores, chamam sempre as mesmas fontes de informação que dizem, sempre, as mesmas coisas: é hora de apertar os cintos, os grevistas só pensam neles, a economia não aguenta, bando de vagabundos, já para a senzala sem jantar, enfim. Não existe imparcialidade jornalística. Qualquer estudante de jornalismo aprende isso nas primeiras aulas. Quando você escolhe um entrevistado e não outro está fazendo uma opção, racional ou não, por isso a importância de ouvir a maior diversidade de fontes possível sobre determinado tema. Fazer uma análise ou uma crítica tomando partido não é o problema, desde que não se engane o leitor, fazendo-o acreditar que aquilo é a única intepretação possível da realidade. Infelizmente, muitos veículos ou jornalistas que se dizem imparciais, optam sistematicamente por determinadas fontes, sabendo como será a análise de determinado fato. Parece até que procuram o especialista para que legitime um ponto de vista. Ou têm preguiça de ir além e fugir da agenda da redação, refrescando suas matérias com análises diferentes. Ou alguém acha que é aleatório escolherem sistematicamente o professor José Pastore para analisar direitos trabalhistas? Apoio os professores. Apoio os metalúrgicos de fábricas de automóveis. Apoio os controladores de vôo. Apoio os cobradores e motoristas de ônibus. Apoio os bancários. Apoio os garis. Apoio os residentes médicos. Apoio o santo direito de se conscientizarem, reconhecerem-se nos problemas, dizer não e entrar em greve até que a sociedade pressione e os patrões escutem. Mesmo que a manifestação deles torne minha vida um absurdo. O Brasil está conseguindo universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não está vindo acompanhado de um aumento significativo na qualidade da educação. Mesmo que os dados para a evolução dos primeiros anos de estudo estejam além do que o governo esperava no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), grande parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos. Enquanto isso, o magistério no Brasil continua sendo tratado como profissão de segunda categoria. Uma educação de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo? Por fim, estou farto daquele papinho do self-made man cansativo de que os professores e os alunos podem conseguir vencer, com esforço individual, apesar de toda adversidade, “ser alguém na vida”. Aí surgem as histórias do tipo “Joãozinho comia biscoitos de esterco com insetos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (às vezes, contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional”. Passando uma mensagem “se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade e de um bom professor, você é um verme nojento que merece nosso desprezo”. Afe. Daí para tornar as instituições públicas de ensino e a figura do próprio professor cada vez mais acessórias é um passo. Educação é a saída, mas qual educação? Aquela defendida pelo pessoal do “Amigos do Joãozinho”? Educar por educar, passar dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, é o mesmo que mostrar a uma engrenagem o seu lugar na máquina e ponto final. Uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que podem colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode significar libertar ou enquadrar. Que tipo de educação estamos oferecendo? Que tipo de educação precisamos ter? Para essa tarefa, professores bem formados e remunerados são fundamentais. Em algumas sociedades, pessoas assim, que protestam, discutem, debatem, discordam, mudam são úteis para fazer um país crescer. Por aqui, são vistas com desconfiança e chamadas de mal-educadas e vagabundas. Ironia? Não, Brasil. Aproveitando o gancho, há algum tempo aves funestras passam voando por redacões de veículos de comunicação demitindo sem dó. Mudanças acontecem e a nova geração que, hoje, pega uma revista e, com dois dedinhos, tenta ampliar uma foto como uma tela sensível ou que não entende porque a TV da sala não responde aos seus toques terá um relação diferente com o papel que temos hoje. Jornais vão morrer no meio dessa transição. Outros migrarão para a internet. Veículos novos vão surgir, pensados para plataformas digitais, multimídias, interativas. Quem não se adaptar e não se planejar para essa virada, vai comer capim pela raiz mais cedo. Contudo, temos uma forte produção jornalística em formato de empresa tradicional e, durante muito tempo, ainda teremos. Talvez essa parte nunca mude, garantindo as coisas boas e ruins dessas estruturas. O fato é que isso está sustentado em uma relação capital/trabalho, ou melhor dizendo, patrão/empregado. Sim, colegas jornalistas, apesar de muitos de nós pensarem que não, nós somos operários da notícia. É difícil ouvir isso, mas é a realidade. De tempos em tempos, somos surpreendidos com notícias de demissões coletivas em veículos de comunicação. Motivos são vários: garantir a sobrevivência do veículo, aumentar a margem de lucro, gerar capacidade de investimento em outros produtos da empresa. Há ainda os casos em que um jornal fecha as portas e boa parte das pessoas simplesmente vai para a rua por má gestão e erros na condução da publicação. Razões podem existir para o encerramento das atividades de um veículo ou a diminuição de sua força de trabalho. Mas o que não entra pela minha cabeça é que isso seja encarado tão bovinamente por todos nós. E que algumas empresas que defendem a democracia e o diálogo como processo de construção de uma sociedade melhor, ignorem isso quando se trata delas próprias. É um negócio e pertence a alguém? Claro! Mas cresceu graças ao suor de trabalhadores, que deveriam ser consultados e chamados a compartilhar decisões. Quando demissões coletivas ou fechamentos de fábricas acontecem em linhas de montagem de veículos, metalúrgicos mobilizam o Pai, o Filho e o Espírito Santo, informam a população, além de cruzarem os braços até que uma solução seja encontrada para reverter o corte de vagas ou, pelo menos, criar compensações à altura. Professores vão para as ruas. Nós, não. Vemos colegas irem embora e não fazemos nada. Ou melhor, ficamos com medo de sermos os próximos e choramos sozinhos no banheiro. Isso não é texto novo. Como já disse, nós, jornalistas, muitas vezes não nos reconhecemos como classe trabalhadora. Devido às peculiaridades da profissão, desenvolvemos laços com o poder e convivemos em seus espaços sociais e culturais, seduzidos por ele ou enganados por nós mesmos. Só percebemos que essa situação não é real e que também somos operários, transformando fato em notícia, quando nossos serviços não são mais necessários em determinado lugar. Alguns colegas vão repetir: japa, mas essas mudanças são boas. Agora, os jornalistas vão poder trabalhar por conta própria e criar seus próprios veículos na internet. Como se um grupo de pessoas que, durante toda a vida, trabalhou em uma estrutura empresarial possa, de uma hora para outra, tornar-se um empreendedor de sucesso. Tendo família para sustentar, contas a pagar e sem a disposição de tentar do zero e dar com a cara no muro. Financiamento coletivo, patrocínio cruzado, enfim, há quem lide com isso de forma mais fácil. Mas lembrem-se que a maioria não foi programada para isso. Por isso, temos o chamado “Milagre da Multiplicacão dos Frilas”, que eram assalariados e tornaram-se “chefes de si mesmos”. Alguns são felizes por não terem férias remuneradas. Outros, não. Talvez o futuro seja um misto de tudo isso, emprego CLT, frilas, empreendedores individuais ou coletivos, pessoas produzindo conteúdo em redes, ONGs, enfim. Mas, hoje, o que me preocupa são os viventes e suas contas a pagar. O que estou pedindo? Jornalistas do mundo, uni-vos? Que tamancos sejam jogados nas prensas dos jornais? Nem… isso seria muito brega. Ou melhor, kitsch – tenho horror a kitch. O que gostaria de lembrar é que as coisas vão mudar cada vez mais rápido. E temos duas opções: encarar isso sozinhos ou juntos. Um bom exercício seria tentar entender e relatar as greves de professores como algo que faz parte das necessárias disputas sociais e econômicas e não tema para página policial. O próximo pode ser você, caro jornalista com salário de coxinha e emprego de palha. * Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. ** Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
Foto: Fyle / Fotolia.com Educação

Jogar estimula a criatividade e a convivência

Todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já ficou preso em alguma etapa ou fase durante um jogo. Seja em um videogame, no campo de futebol, no tabuleiro, os desafios que o ato de jogar impõe obriga os jogadores a pensar estratégias para vencer seus adversários. “No jogo, por mais experiente que o jogador seja, há sempre uma parte imprevisível. A criatividade, nesse sentido, é a capacidade de reagir em relação ao novo com uma resposta original e inédita”, diz o pesquisador e professor Lino de Macedo, que foi um dos palestrantes da Educar Educador. Para Macedo, é exatamente nessa busca pela criatividade que o jogo pode ser uma grande ajuda no processo de aprendizagem. “Existe o jogo com objetivo didático, que são aqueles feitos para trabalhar certo conteúdo, como tabuadas, gramática e tem o jogo que busca desenvolver o aprendizado por meio do raciocínio e da convivência”, explica. Essa convivência, segundo ele, é importante porque os jogadores sempre estão em posição de igualdade, lidando com questões éticas e democráticas, em que é preciso respeitar as regras, mas sem perder o espírito competitivo que, por sua vez, pede por uma ampliação do campo de observação. “No jogo, eu quero ganhar de você, mas tenho que prestar bastante atenção no que você faz. Preciso estar muito atento no seu esquema de jogo”. [caption id="attachment_88619" align="aligncenter" width="501" caption="Foto: Fyle / Fotolia.com"][/caption]   O pesquisador destaca, ainda, outros lados positivos da inserção dos jogos no currículo da escola: não precisa necessariamente de tecnologia, já que pode ser realizado em tabuleiro, com dinâmicas de grupo ou na quadra e a possibilidade de ser trabalhado com estudantes de todas as idades. “A criança tem certas obrigações como dormir, comer, ir para a escola, ir ao banheiro. Mas como ela passa o tempo livre? Jogando”, afirma. Mais do que uma maneira de se divertir, o jogo prepara os jovens para as situações-limite que vão chegando com o passar do tempo, como o vestibular, o mercado de trabalho e todas as concorrências que estão ao redor dessas etapas. Para que os jogos funcionem bem e tragam todos esses benefícios, um dos pontos mais importantes é a inserção do professor, que precisa ter uma experiência de jogador para conseguir conquistar o apoio dos alunos para a atividade. “Se o próprio professor não gostar do jogo, não tiver experiência, fica difícil. Como vai ensinar o gosto da leitura para os alunos se ele não desfruta dele?”, diz. Entretanto, ressalta, “na hora da partida em classe é como se ele fosse um técnico, um instrutor que ensina as estratégias e mobiliza os alunos para fazer desse ou daquele jeito”. O olhar atento do educador durante o jogo é importante, principalmente, por dois aspectos: na hora de fazer uma curadoria de qual material é o mais interessante para ser aplicado em sala de aula e para direcionar a jogabilidade, fazendo com que aqueles alunos que não sejam tão bons, não se sintam desmotivados pelo erro, mas encontrem um incentivo para o desenvolvimento. “O erro significa que eu poderia ter feito melhor, que não antecipei uma surpresa. O erro é criativo também, a gente aprende com ele, por isso, o professor deve guiar o aluno para jogar no nível correto de sua experiência”, afirma. * Publicado originalmente no site O Porvir. 


por Vinícius Boprê, do Porvir
Objetivo é contribuir para a transparência de informações públicas usando os recursos das tecnologias digitais. Educação

Plataforma criada por hackers avalia gestão democrática nas escolas

[caption id="attachment_88626" align="aligncenter" width="530" caption="Objetivo é contribuir para a transparência de informações públicas usando os recursos das tecnologias digitais."][/caption]   Com o objetivo de contribuir para a transparência de informações públicas usando as tecnologias digitais, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em parceria com a Fundação Lemann, realizou no mês de abril o 1º Hackaton Dados da Educação Básica, uma maratona de 36 horas que envolveu oito equipes de programadores, hackers, desenvolvedores, inventores e pesquisadores. A partir de dados extraídos das avaliações do Inep, os grupos criaram plataformas de acesso capazes de transformar índices em informações acessíveis. A convocação foi realizada por meio de edital público. Uma vez avaliados, os aplicativos mais interessantes receberam recursos para serem implementados. A equipe campeã, formada pelos desenvolvedores Vítor Baptista, Adriano Bonat Alves e Pedro Guimarães, além de Luís Serrão, da ONG Ação Educativa, e Fernanda Campagnucci, editora do site Observatório da Educação, desenvolveu o aplicativo “Escola que Queremos”. Organizados a partir de cinco dimensões, os dados abrangem todo território nacional e podem ser consultados à luz de quinze indicadores. É possível verificar, por instituição, a situação do ambiente físico escolar, os insumos e condições de funcionamento, a formação e condições de trabalho dos profissionais e a gestão participativa e democrática do ensino. Gestão participativa e democrática A educação plena só pode se desenvolver num ambiente democrático, onde diferentes saberes são usados para a construção coletiva de um projeto pedagógico, com a participação dos estudantes, familiares e funcionários. Foi a partir dessa ideia que o aplicativo “A Escola que Queremos” incorporou a gestão democrática como uma das dimensões inerentes à qualidade da educação. A ferramenta permite que a escola seja avaliada em relação ao seu Conselho Escolar, Conselho de Classe, Projeto Pedagógico e Apoio da Comunidade. De acordo com Fernanda, “ainda existem poucos dados para avaliar como isso está sendo gerido nas escolas. É importante frisar que, além de ser uma demanda, a gestão democrática está também contemplada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação”. Ela aponta ainda a necessidade de tornar os conselhos gestores públicos de educação acessíveis à participação popular. “Muitas vezes os critérios de nomeação para os conselhos, realizada pelo poder executivo, não são claros. A educação melhora quando as pessoas passam a controlar ou a participar da gestão.” Passo a passo O internauta encontra também na plataforma um passo a passo, no botão “Entre em Ação!”, explicando o que é possível fazer, a quais instâncias recorrer e como mobilizar-se ao localizar dados insatisfatórios na sua própria escola. A proposta é que, com acesso a mais indicadores, o conceito de qualidade seja ampliado e o debate sobre os rumos da educação se torne mais aprofundado. Segundo o Inep, ao dar visibilidade a esses dados, até então restritos a especialistas que dominam os softwares estatísticos, ampliam-se os meios de controle social sobre as políticas públicas educacionais. “Quanto mais pessoas tiverem acesso aos dados das avaliações educacionais, mais subsídios teremos para elevar a discussão social sobre a qualidade na educação. A ideia, portanto, é tornar essas informações acessíveis”, ressalta a assessoria de imprensa do Inep, sinalizando que outras iniciativas de abertura de dados fazem parte dos planos para o futuro. * Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Flávio Aquistapace, do Portal Aprendiz
matematica Educação

Matemática não é missão impossível

Felipe Baroni é professor em Carmo da Cachoeira e, para ensinar a seus alunos, se propôs um desafio difícil: mudar a cara da Matemática. A disciplina mais temida por grande parte dos alunos é amada pelo professor e, procurando formas diferentes de levá-la à sala de aula, ele criou o projeto ‘Jornal da Matemática’. O projeto, que já está em sua 7ª edição, começou em 2006 no município de São Bento Abade, quando Felipe dava aula na Escola Estadual Professora Alda de Moura Carvalho. Esse é o primeiro ano em Carmo da Cachoeira e, agora que dá aula na Escola Estadual Pedro Mestre, é lá que o projeto será desenvolvido com a participação dos alunos do 6º ao 9º ano. [caption id="attachment_88695" align="aligncenter" width="500" caption="Alunos da Escola Estadual Pedro Mestre entrevistam o prefeito de Carmo da Cachoeira sobre o uso da Matemática na administração da cidade. Foto: Arquivo Escola"][/caption]   Ao longo do ano, o professor usa o dia a dia dos alunos e o conteúdo de outras disciplinas nas suas aulas e os estudantes produzem reportagens com o que aprendem. “É tudo bem lúdico, para chamar a atenção. No fim do ano, apresentamos um programa no formato de um jornal de TV com o que foi feito”, explica Felipe. O tema que o professor escolheu para desenvolver as atividades esse ano foi “Matemática não é Missão Impossível”. Com ele, Felipe mostra que aprender a disciplina é bem mais fácil que muitas aventuras de heróis de filmes de ação. Rafael Viola Azevedo cursa o 9º ano do ensino fundamental na escola e é um dos mais de 400 alunos que estão experimentando essa nova forma de estudar a Matemática. Ele está gostando das atividades desenvolvidas em sala de aula. “É muito bom porque ele ensina de um jeito novo e as provas também são diferentes. Fica mais fácil e divertido aprender”, conta o aluno. Transdisciplinaridade e contextualização Apesar de ser o foco, o Jornal não envolve só a Matemática. A transdisciplinaridade é uma constante no projeto do professor. “Se a gente fala de ano bissexto, o professor de geografia participa. Temos também “A Matemática do Corpo Humano”, que é feito com a professora de Ciências”, exemplifica Felipe Baroni. Eva Aparecida Gustavo, que ensina Ciências na escola, está gostando da experiência. “Está dentro da matéria e é uma forma diferente de trabalhar o conteúdo. Assim os estudantes ficam mais interessados”, afirma a professora. Segundo ela, os alunos pesquisam sobre determinado sistema do corpo humano e constroem gráficos e tabelas. Eva exemplifica: “eles podem pesquisar quantos litros de sangue o coração bombeia por hora ou quanto mede a pele. Os resultados são apresentados tanto na aula de Ciências quanto na de Matemática”. [caption id="attachment_88694" align="aligncenter" width="500" caption="A voz do personagem Zé Continha é do aluno Francisco Alexandre. O professor Felipe Baroni faz a gravação e edita os vídeos. Foto: Arquivo Escola"][/caption]   O conteúdo dado em sala de aula é contextualizado com o que acontece fora dela. Uma das reportagens que serão produzidas para a edição do jornal desse ano se chamará Os Números de Carmo da Cachoeira. “Os alunos coletam dados do IBGE e da Prefeitura – como o número de homens e mulheres da cidade, ou de diabéticos e hipertensos – e eu monto problemas e exercícios com esses números”, conta o professor. Na geometria, a arquitetura da cidade, como a igreja que fica perto da escola, é usada para a elaboração de exercícios que ensinam na sala de aula sem se afastar do mundo onde os estudantes estão inseridos. E Felipe não para por aí. O professor criou o personagem ‘Zé Continha’, que está sempre nas provas e atividades preparadas para os alunos. O menino deve enfrentar inimigos que atrapalham muito quem quer estudar, como o Senhor Desmotivação, a Dona Indisciplina ou o Monstro da Reprovação. Tudo para motivar cada vez mais os alunos. Multiplicação O projeto começou com o professor Felipe, mas saiu de sua sala de aula. Em 2010, ele foi convidado a dar uma capacitação sobre o projeto em Varginha. A prefeitura da cidade gostou tanto que levou o Jornal da Escola para 14 escolas da rede municipal. “Ao longo do ano, enquanto eu realizava o projeto com os alunos de São Bento Abade, o mesmo trabalho era feito, simultaneamente, por 31 professores e oito mil alunos de Varginha”, conta o professor. [caption id="attachment_88696" align="aligncenter" width="500" caption="Zé Continha é o herói dos alunos que participam do projeto. Ele deve combater inimigos, como a Dona Indisciplina. Foto: Arquivo Escola"][/caption]   Em Elói Mendes, a professora de Matemática da Escola Estadual Targino Nogueira, Rute Rosendo, também levou o projeto para seus alunos. A diretora da escola, Regina Reis, acha que o resultado foi positivo. “Os alunos participaram muito e gostaram do trabalho. Ao fazer o jornal de TV, eles puderam aprender mais sobre estatísticas e gráficos, por exemplo”. Na escola, 800 alunos do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º do Ensino Médio fizeram parte do projeto. * Publicado originalmente no Blog Educação.


por Lígia Souza, do Blog Educação
Enem2013 Educação

Quase 90% dos alunos que vão concluir ensino médio se inscreveram no Enem

Brasília - Quase 90% dos estudantes concluintes do ensino médio se inscreveram no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A previsão de concluintes em 2013 chega a 1,8 milhão de alunos. Desses, 1,6 milhão fez a inscrição no exame.“Estamos próximos da universalização do Enem no ensino médio e isso é muito positivo”, disse o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. O ministro disse que o ensino médio é o período escolar de maior preocupação para o governo. Os índices que medem o conhecimento dos estudantes praticamente estabilizaram, sendo suficientes apenas para cumprir a meta. Ainda existem nesta fase, segundo Mercadante, 970 mil jovens fora das escolas. "Mas o Enem mostra que é possível avançar, tem que se avançar no Brasil", disse. A quantidade de inscrições no Enem aumentou em todas as categorias. Em números gerais, foram 7.834.024 inscritos, 26% a mais que em 2012. Desses, apenas 395 mil pagaram a taxa de R$ 35. Ainda faltam pagar pouco mais de 2 milhões de candidatos. Os demais são isentos - são concluintes do ensino médio em escolas públicas ou têm renda mensal per capita inferior a um salário mínimo e meio. O pagamento da taxa de inscrição pode ser feito em qualquer agência do Banco do Brasil até amanhã (29). [caption id="attachment_88681" align="alignright" width="300" caption="Ministro Aloizio Mercadante"][/caption] Mercadante atribui o crescimento de inscritos ao aumento das adesões das instituições públicas de ensino superior aos programas federais e ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que possibilita o ingresso de estudantes nas universidades com a nota no Enem. No ano passado, eram 101 instituições; este ano, mais 18 aderiram ao Sisu, totalizando 119. De acordo com o balanço divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), as mulheres são maioria dos inscritos, somam 4,5 milhões, enquanto os homens, 3,3 milhões. O número de grávidas inscritas aumentou em relação ao ano passado, passou de 1,2 mil, em 2012, para 7,8 mil. O número de inscritos que necessitam de atendimento especial, que inclui autistas, disléxicos e pessoas com alguma deficiência física aumentou de 26,8 mil, em 2012, para 34,4 mil, em 2013. Cresceu também a quantidade de candidatos indígenas - totalizando 50,8 mil. No ano passado, foram 40,2 mil. Por região, o Sudeste tem a maior porcentagem de inscritos, com 36% do total, seguida pelo Nordeste, com 32% - que representou um aumento de 1% em relação a 2012. A região com a menor porcentagem é o Centro-Oeste, com 9% dos inscritos. Os estados com o maior número de inscritos são São Paulo (1.238.441), Minas Gerais (870.782) e Bahia (576.851). O Amapá teve o maior crescimento percentual (56,36%). O Enem será aplicado nos dias 26 e 27 de outubro em todos os estados e no Distrito Federal. A nota do Enem pode ser usada para classificação no Sisu e também para concorrer a vagas em instituições privadas de ensino, por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni). Uma boa avaliação no Enem é também requisito para obter bolsa no Programa Ciência sem Fronteiras e para receber o benefício do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Os estudantes maiores de 18 anos que ainda não obtiveram a certificação do ensino médio podem fazê-lo por meio do Enem. Ainda segundo o balanço, 849 mil solicitaram a certificação. No ano passado, foram 708,5 mil. * Edição: Carolina Pimentel. ** Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Mariana Tokarnia, da Agência Brasil
Grupo atua no espaço público de São Paulo e discute problemas da metrópole. Foto: Patrícia Leal Educação

Buraco d’Oráculo completa 15 anos de arte e luta nas ruas

[caption id="attachment_88704" align="alignleft" width="300" caption="Grupo atua no espaço público de São Paulo e discute problemas da metrópole. Foto: Patrícia Leal"][/caption] Em 2013, o grupo de teatro Buraco d’Oráculo completa 15 anos de atuação nas ruas de São Paulo. Nos espaços da cidade e nos problemas de homens e mulheres urbanos, a trupe – que já nasceu do lado de fora de edifícios teatrais – tem seu eixo central de trabalho e de crítica. A história do Buraco d’Oráculo começa em 1998, quando três de seus fundadores participaram de uma oficina de teatro de rua com o ator e diretor João Carlos Andreazza. “Participamos do Núcleo de Teatro de Rua da Oficina Amácio Mazarropi. A partir dessa experiência, o trabalho com teatro de rua tornou-se nosso foco”, lembra o ator e diretor Adailton Alves. A definição da rua como espaço de trabalho teve íntima relação com a própria origem dos artistas. “Morávamos em lugares em que não havia nada em matéria de equipamentos públicos culturais”, explica Alves. Logo que se formou, o grupo buscou fazer apresentações em bairros da zona leste de São Paulo – algumas das regiões visitadas, situadas nos extremos do bairro do Itaim Paulista, ainda estavam em formação naquela época. “Começamos a fazer nossos trabalhos em nosso próprio chão. Talvez não tivéssemos embasamento político, naquela época, para ter uma real percepção do que estávamos fazendo, mas algo nos trazia para cá”, conta outro fundador do grupo, Edson Paulo. A instalação definitiva na região de São Miguel Paulista ocorreu em 2002, por meio do contato com militantes das artes que atuavam na região há décadas. Esses ativistas eram remanescentes do Movimento Popular de Arte (MPA), que desde o fim dos anos 1970 estimulou a agitação cultural em espaços do bairro, principalmente na praça Padre Aleixo Monteiro Mafra. A primeira ação sistemática do Buraco d’Oráculo na região deu-se por meio do projeto Se Essa Rua Fosse Minha, que reunia sete grupos de teatro de rua. “A ideia era criar um corredor cultural nos bairros: cada grupo teria uma programação em uma região e, em um momento seguinte, os grupos circulariam entre elas”, explica Adailton Alves. O projeto teve vida curta, mas foi o estopim para a organização dos grupos de teatro de rua. “Somos do teatro de rua!” Naqueles anos, havia uma efervescência no movimento teatral na cidade de São Paulo. A articulação política dos grupos em frentes como o movimento Arte Contra a Barbárie resultou na aprovação do Programa Municipal de Fomento ao Teatro, em 2002. “Defendíamos aquela luta, mas o teatro de rua não era bem visto sequer pela própria categoria teatral. Naquele momento, foi importante riscar o chão no sentido de dizer: ‘somos do teatro de rua!’”, afirma Alves. A partir daí, o Buraco d’Oráculo começou a travar contato com mais a mais coletivos, reunidos em diferentes iniciativas que foram se constituindo, como as Overdoses de Teatro de Rua. “Todos os grupos que estavam nessa ebulição do teatro de rua resolveram fazer apresentações ininterruptas, das 10h às 18h, no boulevard da Av. São João. Na época não havia Virada Cultural, mas já fazíamos isso – e os públicos eram gigantescos”, recorda Edson Paulo. Em pouco tempo, a articulação tornou-se mais ampla, abrangendo grupos de outras regiões do país. Em 2007, surgia a Rede Brasileira de Teatro de Rua, em Salvador. “Inicialmente, foi criado um espaço virtual de discussão. Em 2008, a Rede passa a ter encontros regulares, duas vezes por ano”, explica Alves. O fortalecimento político obtido com essa articulação permitiu que o teatro de rua se afirmasse junto ao poder público e à própria categoria teatral. “Hoje em dia dialogamos dentro do campo do teatro como um todo”, aponta Alves. Um dos focos principais da Rede é a discussão de políticas públicas para o teatro. Embora conquistas importantes tenham sido logradas – como o prêmio Artes Cênicas na Rua, discutido entre a Rede e o Ministério da Cultura –, nos últimos anos houve uma série de retrocesso no campo federal, conforme avalia o grupo. “Por não termos mais nada a perder, colocamos nossas demandas sem rodeios, o que desagrada a muita gente. Desde o Congresso Nacional de Teatro de 2011, o governo não nos recebe mais”, aponta Alves. Enquanto reivindicações históricas do teatro de grupo, como o Prêmio Teatro Brasileiro, encontraram diversos obstáculos, o governo investiu fortemente em programas como o Vale- Cultura – benefício de R$ 50 destinado a trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos para o consumo de bens e serviços culturais. “O Vale-Cultura não beneficia nem o teatro de rua nem o trabalhador brasileiro, pois privilegia a indústria cultural de massas”, define Adailton Alves. Processos de trabalho Enquanto fortalecia o embate político, o Buraco d’Oráculo mantinha suas ações localizadas, dando continuidade à constituição de um circuito próprio em São Miguel Paulista e região. Em 2002, o grupo realizou uma primeira mostra de teatro com grupos parceiros. Com a itinerância crescente pela zona leste, o coletivo passou a trabalhar cada vez mais em bairros desprovidos de qualquer tipo de estrutura que pudesse abrigar uma peça teatral concebida para palco tradicional. “Por isso, em 2006 fizemos a primeira edição da mostra contando apenas com teatro de rua”, lembra Edson Paulo. Em 2005, o Buraco d’Oráculo obteve recursos públicos para desenvolver o projeto Circular Cohabs. Em cada conjunto habitacional, a trupe trabalhava por um mês: no primeiro final de semana apresentava um espetáculo, que nos encontros seguintes era discutido e servia de insumos para uma oficina teatral. “Com esse formato de trabalho, circulamos inicialmente por seis Cohabs”, conta Paulo. No ano seguinte, o projeto foi expandido, com o oferecimento de oficinas com seis meses de duração, abordando circo, expressão corporal, interpretação, figurinos e adereços. “Pulamos para 18 Cohabs, atingindo mais de 30 mil pessoas”, contabiliza Adailton Alves. O trabalho artístico do grupo tem como eixos centrais, desde o início, a própria perspectiva da rua, a linguagem farsesca e a cultura popular. Tais elementos consolidaram-se como horizonte de trabalho da trupe no espetáculo O Cuscuz Fedegoso, de 2002, permanecendo centrais em peças seguintes, como A Farsa do Bom Enganador e ComiCidade. A vivência muito próxima do público das periferias acabou por influir na produção do Buraco d’Oráculo. “Fazendo nossas apresentações, sempre ouvimos muitas histórias. À certa altura, passamos a nos questionar sobre isso e decidimos, então, fazer um espetáculo que nascesse daqueles relatos, em vez de trazer uma peça pronta para o público assistir”, explica a atriz Lu Coelho. Essa foi a gênese de Ser TÃO Ser – narrativas da outra margem. O grupo colheu mais de 80 horas de depoimentos em vídeo de moradores de seis comunidades em São Miguel Paulista e Cidade Tiradentes. Eram histórias sobre migrações, perda de vínculos sociais e afetivos e luta por moradia na cidade grande (veja quadro com a introdução da peça). A partir dos relatos, a trupe decidiu privilegiar três eixos temáticos principais: uma ocupação de terreno urbano, uma favela e um conjunto habitacional, refletindo sobre as conseqüências políticas de cada contexto. “Na ocupação e na favela há um aspecto da solidariedade importante. O conjunto habitacional, marcado pela intervenção do Estado, por um lado traz melhoras do ponto de vista da urbanização – mas por outro desorganiza o coletivo, fazendo os movimentos terem menos força”, compara Adailton. A percepção nasceu de um dos depoimentos, em que uma líder de movimento de bairro aponta que “hoje está difícil tirar as pessoas de dentro das casas.” O espetáculo transformou a perspectiva estética do grupo, que passou a privilegiar a narrativa de modo até então não explorado e também a incluir diretamente nas peças dados da realidade, como relatos e documentos – procedimento típico do teatro documentário. “Ser TÃO Ser também nos aproximou de movimentos sociais, como o MST e o MTST, de forma mais organizada e sistemática. É uma peça que está à disposição da luta, onde ela for necessária”, define Lu Coelho. A perspectiva aberta com Ser TÃO Ser tem sido desenvolvida com a pesquisa das condições de trabalho dos habitantes das periferias. A intenção é tratar de temas como a precarização e o desemprego em uma Ópera do Trabalho. Paralelamente,o Buraco d’Oráculo levará aos sertões cearense, baiano e pernambucano sua última produção, como parte do projeto Ser TÃO Ser pelos nossos sertões, contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz. Introdução de Ser Tão Ser “Boa noite senhoras, e senhores! O que irão aqui ver e ouvir não se passa no tempo presente, mas no tempo passado, escrito por nossa gente. Ouvimos as histórias do povo – vocês, nós –, todas contadas em volta de uma mesa de café, num fim de tarde qualquer. As personagens que aqui aparecem são habitantes de um sertão que fica à margem da cidade, pois foi lá o único lugar que encontraram que podiam pagar. Desse passado, não tão distante, muita coisa ainda permanece. Nas comunidades por onde passamos, as pessoas abriram as portas de suas casas e seus corações. Pois então vos peço: abram espaço para o teatro que aqui vamos apresentar! E começaremos pela chegada desse povo, pois como diz o poeta, um passo à frente e você já não está no mesmo lugar.” * Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Eduardo Campos Lima*
Grupos são escolhidos por afinidades e não por séries. Escola inova em individualização do ensino. Foto: SXC Educação

Sem turma, sem série, escola do Rio inova em modelo educacional

[caption id="attachment_88678" align="aligncenter" width="545" caption="Grupos são escolhidos por afinidades e não por séries. Escola inova em individualização do ensino. Foto: SXC"][/caption]   No lugar da série, uma "família". No lugar de lista de disciplinas, um playlist contendo assuntos que são pontos de dificuldades e afinidades dos alunos. Desde o início do ano, o Rio de Janeiro experimenta um novo tipo de escola. Sem séries ou salas de aulas com carteiras em filas, 180 crianças e jovens da Rocinha estudam no Ginásio Experimental de Novas Tecnologias (Gente), da Escola Municipal André Urani, com relata o Porvir. Estudantes do 7º ao 9º ano do ensino fundamental, nível dois, trabalham divididos em seis grupos como membros das chamadas “famílias”. Antes de agrupar as famílias, os seis grupos foram alinhados após um diagnóstico de habilidades realizado no início do ano letivo, relatou o site Hypeness. Cada aluno tem um itinerário de aprendizado pessoal, que já consta das competências que precisam ser desenvolvidas e apreendidas. O método educativo pode ser a videoaula, leitura, atividades individuais ou em grupo, e é o estudante quem decide de que maneira aprender os assuntos. Como suporte tecnológico, eles têm acesso a tablets e netbooks. Avaliações Para testar os conhecimentos adquiridos pelos alunos, é feito um teste de habilidades, aquele no início do ano; são somadas as atividades feitas em grupos e aferidas as competências adquiridas, sejam pessoal, relacional, cognitiva ou produtiva. A escola funciona em período integral. Com ajuda de um tutor, escolhem o que estudar e se juntam em grupos de estudos, conforme escolham. Pode ser estudo de língua estrangeira, robótica, esportes, artes e desenvolvimento de blogs. Professor facilitador Para o professor, sai de cena o disseminador ou reprodutor de conhecimento e entra o facilitador, que precisa saber motivar os estudantes e estimular a busca pelo conhecimento. No Gente, o professor é considerado um mentor. A proposta de ensino foi idealizada pela Secretaria Municipal de Educação (SME) do Rio de Janeiro e surgiu a partir de estudos feitos em escolas internacionais de caráter inovador, voltados para o futuro. A ideia é que, até 2014, mais cinco ginásios semelhantes sejam construídos no Rio de Janeiro. * Com informações do Porvir e do Hypeness. ** Publicado originalmente no site EcoD. 


por Redação do EcoD
cultura Educação

Educar a partir das culturas

O Brasil é um país pluriétnico e de grande diversidade cultural. Conforme o censo do IBGE, o censo de 2010, o número de brasileiros que se definem como negros, mulatos ou pardos superou a população que se considera branca. Entretanto, quando se fala em educação, em geral, no Brasil, ela ainda é pensada a partir dos parâmetros europeus e não considera as culturas afrodescendentes e indígenas como fonte que possa enriquecer a educação e trazer sabedoria de vida para todos. Até hoje, a maioria dos livros de história do mundo tem como olhar e perspectiva a cultura e interesse dos colonizadores. Durante séculos, nas escolas do Brasil, se ensinava à juventude os nomes de cidades, rios e acidentes geográficos da Europa, mas não havia o menor interesse em fazer os jovens conhecerem algo da África e mesmo da América Latina. Até pouco tempo, qualquer estudante de ensino médio sabia onde fica Paris e Londres, mas podia não saber onde se situa Abidjan que é muito mais próxima tanto geograficamente, como culturalmente do nordeste brasileiro. Menos ainda conheciam Kinshasa na República Democrática do Congo e Cotonou no atual Benin. Entretanto, dessas regiões e cidades vieram muitos de nossos ancestrais ou avós dos avós de nossos vizinhos, amigos e parentes. Sem falar no conhecimento dos países irmãos da América Latina. Neste ano, estamos celebrando o aniversário de dez anos em que o presidente da República oficializou a lei 10.639 de janeiro de 2003. Ela trata da inclusão do estudo da história da África e da cultura afro-brasileira no currículo escolar. A lei 11.645 de março de 2008 inclui o estudo das culturas indígenas e assim veio completar esse processo. Assim, agora temos uma legislação que nos chama a corrigir uma inversão educacional comum em nossa formação. Não podemos continuar a tratar como próximas culturas que sempre se colocaram distantes e se comportaram até agora como diametralmente opostas a nossas, enquanto vemos como estranhos povos e culturas com os quais dividimos experiências de uma história comum e de grande afinidade cultural e humana. Nossos filhos e netos merecem que transformemos isso. Por outro lado, sabemos que não é a lei que pode mudar a realidade. É preciso uma transformação cultural mais profunda. Apesar dessas leis e da criação de vários centros de estudos africanos e indígenas em todo o Brasil, a educação escolar ainda não absorveu essa proposta pedagógica. Em artigo recente o Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser) mostra que menos da metade das escolas públicas de todo o país aplicam verdadeiramente a lei. Esse número é ainda menor nas escolas particulares. A pesquisa revelou também que o preconceito contra as religiões de matriz africana é o principal entrave para a abordagem de temas ligados à cultura afro-brasileira. Em todo o Brasil o preconceito se soma ao desconhecimento e impede até mesmo a simples discussão e aprofundamento do assunto. Valorizar as culturas afrodescendentes e indígenas é uma divida moral com comunidades e grupos que sempre foram marginalizados e culturas que, por muito tempo, foram consideradas inferiores e até condenadas como primitivas ou selvagens. No caso das Igrejas, é bom recordar uma palavra de Tertuliano, cristão do século III: "Para quem é cristão, nada do que é humano pode ser estranho”. Muitos crentes associam os cultos afrodescendentes à condenação da Bíblia aos antigos deuses das religiões cananeia, egípcia e babilônica. Não é uma associação justa. A Bíblia rejeitou deuses estrangeiros, cujos cultos serviam de legitimação para impérios opressores, enquanto aceitou e incorporou ao culto javista cultos a divindades locais como o Deus da montanha (El Shaddai), o Deus dos exércitos (El Shabbaot), o Deus da aliança (El Berith) e outros. Jesus apontou a incompatibilidade entre Deus e o dinheiro tido como deus, mas aos discípulos que rejeitavam os samaritanos considerados pelos judeus rígidos como sendo hereges ou idolatras, Jesus afirmou amargamente: "Vocês não sabem que espírito são animados!” (Lc 9, 56). Quem discrimina pessoas e grupos, principalmente por sua forma de crer e adorar a Deus, não conhece o espírito de Jesus. * Publicado originalmente no site Adital.


por Marcelo Barros, do Adital
Yvonne Bezerra de Mello. Foto: arquivo pessoal Educação

Unesco testa método de educadora brasileira em escolas do Rio

[caption id="attachment_88104" align="alignleft" width="300" caption="Yvonne Bezerra de Mello. Foto: arquivo pessoal"][/caption] Yvonne Bezerra de Mello, doutora em Educação pela Sorbonne, desenvolveu proposta para "desbloquear" aspectos que impedem facilidade no ensino para alunos e professores. A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, está apostando num método alternativo de ensino para melhorar a qualidade do aprendizado em pelo menos 15 escolas do Rio de Janeiro. O método Uerê-Mello, criado pela educadora Yvonne Bezerra de Mello, está sendo aplicado há vários anos em trabalhos educativos com crianças carentes. Escola Modelo Já testado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, o método foi incorporado a um projeto maior agora coordenado pela Unesco, como contou à Rádio ONU, do Rio, Yvonne Bezerra de Mello. "Eu tenho este ano 15 escolas. A minha missão é em um ano melhorar a cognição e o desenvolvimento das crianças e das escolas como um todo. Eu escrevi uma pedagogia de ensino, chamada pedagogia Uerê-Mello, que tem um sucesso de 90% do desbloqueio de crianças e de qualificação de professores, e foi por isso que o governo do Rio de Janeiro me chamou há quatro anos. Eu tenho esta escola modelo, no Rio de Janeiro, com 430 alunos, onde eu posso provar que, independentemente de onde essas crianças estejam, elas podem aprender se tiverem o método certo, e o método certo não é a escola tradicional." Oralidade Segundo Yvonne Bezerra de Mello, a escola tradicional ainda está baseada "numa pedagogia antiga, mais voltada para repetição e cópia do que desenvolvimento da oralidade, por exemplo." A partir do trabalho com a Unesco, ela pretende chamar a atenção para a importância da formação de alunos como seres que interagem com a sociedade e que se preparam para lidar com os desafios do presente e do futuro. Yvonne Bezerra de Mello alertou sobre o que ela chamou de "uso em excesso da internet e de mídias sociais", que levam ao isolamento das crianças. Após terminar o doutorado em educação, na França, Yvonne Bezerra de Mello voltou ao Brasil para se dedicar à recuperação de meninos e meninas de ruas além de levar oportunidades de ensino e formação a crianças carentes. * Publicado originalmente no site Rádio ONU.


por Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU

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