Professores nota AAA

Artigo

Professores nota AAA


por Christophe Hélou*


Ao final de seu mandato, Sarkozy terá suprimido 80 mil postos de trabalho na educação pública francesa. O chefe de Estado pretende impor uma ruptura na avaliação dos professores secundários com o objetivo de submeter os educadores aos chefes de estabelecimentos de ensino, seus "empregadores".É preciso um patrão nos estabelecimentos de ensino”, clamava o ministro da Educação francês, Luc Chatel, em 7 de dezembro de 2011 na rádio France Inter. Ele resumia assim o espírito das novas modalidades de avaliação dos professores, anunciadas um mês antes e que deverão entrar em vigor em setembro de 2012.Atualmente, os professores do ensino médio recebem duas notas: uma, administrativa, atribuída todo ano pelo diretor do estabelecimento em função de uma tabela nacional; a outra, pedagógica, estabelecida pelo inspetor da disciplina durante uma visita de classe, realizada a cada três a dez anos. A combinação das duas avaliações resulta em uma nota final que determina a progressão das carreiras e das remunerações. Para as evoluções mais lentas, o avanço depende exclusivamente do tempo de serviço: um nível a cada 3,5 anos, por exemplo, a partir do quinto nível (que engloba cerca de 50% dos professores).1 Para os mais rápidos, conhecidos por “grande seleção” (30% dos professores), a progressão se efetua no ritmo de um nível a cada 2,5 anos (sempre a partir do quinto nível).Hierarquia adicionalNesse sistema, inaugurado em 1950 e revisado em 1989, o ministro Luc Chatel deseja incluir duas modificações. A primeira faz a promoção das carreiras basear-se apenas no tempo de serviço, ou seja, traz uma forte desaceleração da progressão dos salários para a maioria dos professores: a medida significaria o mesmo que prolongar a carreira completa em seis anos (uma evolução que deveria refletir o alongamento das carreiras em consequência da reforma das regras das aposentadorias de 2010). A segunda emenda prevê a eliminação da nota pedagógica: a avaliação dependeria totalmente de uma entrevista trienal com o diretor do estabelecimento de ensino (o empregador direto), o qual poderia efetuar reduções no tempo de serviço de dois ou cinco meses em função dos méritos do “funcionário”.Alguns se surpreendem com os esforços do ministro Chatel para diminuir um pouco mais a remuneração dos professores, enquanto um relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado em outubro de 2010,2 salienta o baixo valor das remunerações: ela é em média 20% inferior à do conjunto dos países-membros da organização. Em 28 de fevereiro, Nicolas Sarkozy propôs aumentar o salário dos professores do ensino fundamental (do 5º ano ao 8º ano) em 25%, com a condição de que fizessem a partir de então 26 horas de “presença” em seus estabelecimentos, contra as 18 horas atuais, segundo o candidato da União por um Movimento Popular (UMP). Essa última cifra só corresponde, no entanto, às horas de aula e ignora o trabalho de preparação, correção, as reuniões obrigatórias (conselhos de classe, reunião de pais) ou informais etc. Segundo o Sindicato Nacional dos Professores do Segundo Grau (SNES), o tempo de trabalho real dos professores chega atualmente a 40 horas semanais.O governo havia em um primeiro momento anunciado um aumento da remuneração de início de carreira: generosos 200 euros a mais para alguns milhares de professores justificaria então, segundo ele, o corte de alguns milhares de euros para todos no conjunto da categoria.3 Nada melhor para dividir os funcionários.A evolução “administrativa” que as medidas anunciadas refletem prolonga o projeto geral da Nova Gestão Pública (NPM, sigla em francês), que visa regular a atividade dos funcionários públicos por meio de objetivos (aqui, o êxito dos alunos, por exemplo) e regras estatutárias.4 A NPM vem acompanhada ao mesmo tempo de uma autonomização crescente dos estabelecimentos – justificada por um discurso de “liberdade” – e de um acréscimo de supervisão, e portanto de hierarquia. Assim, satisfaz menos aos empregados submetidos a esse novo controle social que aos quadros dirigentes, em quem ele se apoia, sem que estes últimos percebam como eles próprios se encontram enredados por princípios pelos quais são responsáveis.“Bom” ou “belo” trabalho?Entretanto, avaliar um professor implica distinguir as normas do “belo trabalho” e do “bom trabalho”. A comunidade profissional avalia em geral a primeira tendo por base seus ideais profissionais e organizacionais; o reconhecimento por seus pares se revela fundamental. O bom trabalho se apoia em uma norma institucional, em uma concepção normativa formulada pelo empregador. Toda atividade se vê então continuamente dividida em sua avaliação entre o trabalho imposto, bem próximo ao bom trabalho, e o trabalho real, bem próximo ao belo trabalho.Querer sobrepor o trabalho imposto em relação ao trabalho real – a ambição final das lógicas administrativas – depende, portanto, de uma forma de taylorização, sentida como violenta pelos trabalhadores. Não é mais a própria atividade que é levada em conta, mas unicamente seus resultados, sua “renda visível”. A avaliação se dirige para o que não é objeto direto da atividade: os sinais tangíveis e aparentes da submissão aos objetivos definidos pela instituição.Assim, uma grade de entrevistas utilizada hoje na academia “piloto” de Dijon propõe avaliar a capacidade dos professores para “entregar documentos solicitados no momento desejado, aplicar as regras coletivas referentes às sanções e punições, respeitar a hierarquia, participar do conselho de administração ou do conselho pedagógico, preencher a agenda de classe”.Mais alunos, mais aprendizagens, conhecimentos e pedagogia: somente permanece a avaliação dos contornos da tarefa profissional. E como a avaliação acaba por comandar a atividade, só restará aos professores produzir as provas artificiais de sua excelência, que são geralmente sinais de sua submissão às injunções da autoridade.Notas(1) Os professores franceses são divididos em onze níveis até a categoria “fora de série”, e, em seguida, até sete novos níveis.(2) “Regards sur l’éducation 2011: les indicateurs de l’OCDE” [Olhar sobre a educação: os indicadores da OCDE], out. 2010.(3) Estima-se a perda entre 10 mil e 15 mil euros, considerando a desaceleração da carreira conduzida pela reforma.(4) Ler Laurent Bonelli e Willy Pelletier, “De l’Etat-providence à l’Etat manager” [Do Estado de bem-estar social ao Estado gerente], Le Monde Diplomatique, dez. 2009* Christophe Hélou é autor, com Françoise Lanthéaume, de La Souffrance des enseignant: Une sociologie pragmatique du travail enseignant (O mal estar dos professores: uma sociologia pragmática do trabalho docente), Presses Universitaires de France, Paris, 2008.** Publicado originalmente no site  Le Monde Diplomatique.

A escritora de Moçambique Paulina  Chiziane. Foto: Elza fiúza/ABr Brasil

Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana

[caption id="attachment_50394" align="alignleft" width="300" caption="A escritora de Moçambique Paulina Chiziane. Foto: Elza fiúza/ABr"][/caption]Paulina Chiziane participou do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília.Temos medo do Brasil." Foi com um desabafo inesperado que a romancista moçambicana Paulina Chiziane chamou a atenção do público do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF). Ela se referia aos efeitos da presença, em Moçambique, de igrejas e templos brasileiros e de produtos culturais como as telenovelas que transmitem, na opinião dela, uma falsa imagem do país."Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo", criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país."De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal", sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país.A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora. "Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular", destacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir."Gosto muito dos poetas de meu país, mas nunca encontrei na literatura que os homens escrevem o perfil de uma mulher inteira. É sempre a boca, as pernas, um único aspecto. Nunca a sabedoria infinita que provém das mulheres", disse Paulina, lembrando que, até a colonização europeia, cabia às mulheres desempenhar a função narrativa e de transmitir o conhecimento."Antes do colonialismo, a arte e a literatura eram femininas. Cabia às mulheres contar as histórias e, assim, socializar as crianças. Com o sistema colonial e o emprego do sistema de educação imperial, os homens passam a aprender a escrever e a contar as histórias. Por isso mesmo, ainda hoje, em Moçambique, há poucas mulheres escritoras", disse Paulina."Mesmo independentes [a partir de 1975], passamos a escrever a partir da educação europeia que havíamos recebido, levando os estereótipos e preconceitos que nos foram transmitidos. A sabedoria africana propriamente dita, a que é conhecida pelas mulheres, continua excluída. Isso para não dizer que mais da metade da população moçambicana não fala português e poucos são os autores que escrevem em outras línguas moçambicanas", disse Paulina.Durante a bienal, foi relançado o livro Niketche, uma história de poligamia, de autoria da escritora moçambicana.* Publicado originalmente no site Agência Brasil e retirado do Brasil de Fato.


por Alex Rodrigues, da Agência Brasil
Iná Camargo. Foto: Cia do Latão Entrevista

“Intelectuais têm pavor de revolução”

[caption id="attachment_50389" align="alignleft" width="199" caption="Iná Camargo. Foto: Cia do Latão"][/caption]Para Iná Camargo, quando um mero intelectual diz que o projeto socialista está fora de pauta, ele está simplesmente expressando seu mais profundo desejo que nunca entre mesmo na pauta.A professora Iná Camargo Costa, nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, fala sobre arte e política em tempos de crise. Para ela, a arte convencional, uma das melhores expressões do fetichismo da mercadoria, em todas as suas modalidades, inclusive as chamadas vanguardas, é politicamente comprometida com os valores dominantes. A professora, que acompanhou de perto a luta dos grupos teatrais, principalmente de São Paulo, por políticas públicas para a cultura, afirma que não acha que o caminho da disputa pelos recursos públicos seja revolucionário. Para ela, o preço que os trabalhadores da cultura pagam pela opção reformista é a reprodução interna, tanto subjetiva quanto no plano da organização do trabalho, do que a vida no capitalismo tem de pior. Para Iná, na prática os artistas reproduzem todas as relações necessárias à manutenção do modo de produção capitalista e, reivindicando parte dos recursos públicos para a produção das suas obras e garantia da sobrevivência, demonstram estar completamente integrados ao sistema. “Todos pagam o preço da invisibilidade, inclusive política, a que estão condenados os que não se colocam como estratégia o confronto revolucionário com o monopólio dos meios de produção cultural”, afirma.Iná Camargo – que atualmente, atua como dramaturgista da Cia Ocamorana de teatro e que anunciou que por ocasião de seu sexagésimo aniversário faz sua despedida de eventos públicos “de qualquer natureza” – afirma que o problema, portanto, não é reiterar que “o projeto socialista está tão fora de pauta”, mas discutir por que as organizações políticas, tanto partidos quanto movimentos, não o colocam em pauta. E coloca um critério: quando um mero intelectual diz que o projeto socialista está fora de pauta, ele está simplesmente expressando seu mais profundo desejo que nunca entre mesmo na pauta, pois intelectuais têm pavor de revolução.Brasil de Fato – Em recentes participações em debates políticos, você tem reafirmado a presença histórica das linguagens artísticas nos processos políticos mais amplos, revolucionários e contrarrevolucionários. Quais os casos mais emblemáticos dessa relação entre arte e política?Iná Camargo Costa – Começando por colocar a questão em termos bem amplos, é preciso lembrar que as chamadas linguagens artísticas estão presentes o tempo todo em nossas vidas e sempre traduzem os valores da classe dominante. Basta prestar atenção ao modo de ser das nossas cidades, voltadas que são às necessidades do escoamento dos produtos da indústria automobilística: todos os sinais de trânsito exploram linguagens artísticas, desde as faixas de pedestres até as amplas avenidas, os parques, as pontes estaiadas etc. O discurso político, por mais convencional e conservador que seja, sempre tem ingredientes artísticos. A arte convencional, uma das melhores expressões do fetichismo da mercadoria, em todas as suas modalidades, inclusive as chamadas vanguardas, é politicamente comprometida com os valores dominantes. Nos debates de que participei ultimamente, a solicitação era tratar dos diferentes modos como artistas interessados no ponto de vista dos trabalhadores podem enfrentar esteticamente esses valores dominantes. Entendendo que o interesse era a luta de classes tal como se manifesta na trincheira da produção artística, achei que seria o caso de lembrar alguns episódios que a própria história da luta de classes já produziu, tanto no plano reformista quanto no revolucionário. Um critério político-dialético aqui é importante: até outubro de 1917 (revolução soviética), as manifestações reformistas podiam ser consideradas progressistas, mas depois da revolução elas adquirem um caráter contrarrevolucionário, de obstáculo claro ao avanço das funções e das próprias linguagens artísticas. Sem meias palavras: o mesmo critério que vale para a política vale para as artes.Sem perder mais tempo com a arte contrarrevolucionária que nos assedia durante 24 horas por dia, passemos ao interesse pela revolucionária. Neste caso é obrigatório tratar daquilo que foi feito nos anos que se seguiram à revolução soviética. Como meu maior interesse é teatro, as intervenções que andei fazendo acabaram se voltando para o teatro de agitprop, a manifestação mais revolucionária possível em matéria de arte, de acordo com o critério acima enunciado. Por isso vou me referir apenas às relações entre política e agitprop. Os artistas que se dedicaram a ele – e entre os mais conhecidos estão Maiakóvski, Meyerhold e Eisenstein, para ficar só no campo do teatro – já tinham uma posição política clara: Maiakóvski e Meyerhold eram militantes do partido bolchevique e Eisenstein integrou-se diretamente ao exército vermelho em 1918. Para eles, a função da arte revolucionária era participar da luta pela construção do poder soviético – o mais democrático já inventado pela humanidade – de todas as formas possíveis, desde fazendo a propaganda direta do ponto de vista revolucionário sobre as questões da ordem do dia, até inventando formas totalmente inéditas, como a do “processo de agitação” em que o público era diretamente treinado para participar dos sovietes com desenvoltura e conhecimento de causa. Sendo o agitprop, disparado, a minha forma preferida de arte, nem gosto muito de perder tempo com as outras.Simplificando bastante: as relações são antes dos artistas, do que das artes, com a política. Os que se decidem por um caminho revolucionário são livres para inventar as melhores maneiras de aproveitar todas as linguagens disponíveis. No mesmo processo, acabarão inventando suas formas próprias, ou inéditas, como foi o caso do teatro jornal, do processo de agitação, da peça dialética e assim por diante.No caso brasileiro, qual foi o papel da produção artística na disputa de hegemonia ao longo da história recente?Vamos combinar que eu não gosto muito de “disputa de hegemonia”, pois aqui no Brasil essa expressão assumiu desde os anos de 1970 uma conotação abertamente reformista, pela qual não tenho nenhuma simpatia. Isso no plano da política, porque no plano da arte ela pode ser tranquilamente absorvida pela expressão mais verdadeira, que é “disputa de mercado”.Dito isto, é preciso reconhecer que desde fins do século 20 há uma forte movimentação de jovens supérfluos (que não encontram emprego no mercado cultural) tentando desenvolver uma produção artística fora do mercado, tanto para criticá-lo quanto se esforçando para fazer alguma coisa que pode ser identificada como “disputa de hegemonia”. Se não há dúvida sobre o fato de que isto realmente é feito em termos de obras, isto é, no plano simbólico, já não se pode dizer o mesmo quanto à estratégia, pois esses trabalhos desenvolvidos à margem do mercado cultural não têm a mais remota condição de disputar absolutamente nada com ele em termos de alcance. Basta pensar no número de pessoas que um capítulo de novela atinge e o número de pessoas que um trabalho de teatro de grupo tem a possibilidade de alcançar. Não é por outra razão que a chamada “Cultura fora do eixo” põe em pânico tantos militantes do teatro de grupo. Eu diria que, no âmbito do mercado que realmente está sendo disputado, eles, pelo menos, não são hipócritas, jogam limpo. Já disseram que é de mercado que se trata e se habilitam a disputar o fundo público para essa finalidade, inclusive deixando claro que estão muito bem sintonizados com estes tempos de “empreendedorismo” que caracteriza a ação de todo mundo no campo cultural.Os que dizem disputar hegemonia precisam esclarecer melhor seus próprios objetivos, pois enquanto não o fazem estão perdendo de goleada para os militantes da “economia da cultura”.Há exemplos na atualidade que indicam uma reativação desse fazer artístico que assume sua vocação eminentemente política?Acho que os grupos teatrais, ou as brigadas, que se desenvolveram no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), claramente reativam a vocação eminentemente política do teatro, até porque foram criadas pela própria direção do movimento que desde o começo considerou necessária também a intervenção no âmbito cultural. Por haver esse processo no interior de um movimento político, os grupos teatrais que se aproximaram do MST – e isto no Brasil inteiro, a começar pelo Rio Grande do Sul – também desenvolveram essa vocação. Por outro lado, veteranos de outros episódios de politização mais ampla no país, como o União e Olho Vivo de São Paulo, entre outros, nunca perderam esse espírito. Mas todos pagam o preço da invisibilidade, inclusive política, a que estão condenados os que não se colocam como estratégia o confronto revolucionário com o monopólio dos meios de produção cultural.Quanto aos grupos teatrais mais jovens, que apareceram nas ondas criadas por movimentos como o “Arte contra a barbárie” e “Redemoinho”, por serem majoritariamente integrados por filhos da classe média, é possível observar neles o interesse por essa reativação de um fazer artístico politizado em graus variados. Nota-se isso sobretudo nos assuntos, nos temas abordados e na opção por formas diversas do teatro épico. Mas a condição de classe média pesa muito, todos oscilam tipicamente entre euforia e depressão e, sobretudo, muitos reagem mal a qualquer proposta de organização política mais efetiva. Por isso o Movimento dos Trabalhadores da Cultura está demorando tanto para decolar. Tem muita gente que ainda acha que artista não é trabalhador!Em que medida a organização interna dessa(s) categoria(s) se fortalece e/ou se fragiliza ao se deparar com as contradições da disputa por recursos públicos e a contribuição para a elaboração de um política cultural junto ao Estado?Essa questão tem pouco interesse para mim, pois não acho que o caminho da disputa pelos recursos públicos seja revolucionário. O preço que os trabalhadores da cultura pagam pela opção reformista é a reprodução interna, tanto subjetiva quanto no plano da organização do trabalho, do que a vida no capitalismo tem de pior: começando pelo consumo privilegiado (por ser sempre e necessariamente para poucos) de todos os bens produzidos pela classe trabalhadora – de alimentos a verbas públicas (a renda do Estado provém da mais-valia arrancada dos trabalhadores agrícolas, industriais e dos serviços, não é mesmo?) – e culminando com a reprodução entre eles mesmos da estrutura social mais geral, na qual quem tem mais pode mais, prevalece a hierarquia do saber, a administração das pessoas, o paternalismo mais odioso, inclusive reclamado pelos mais jovens e assim por diante. Isto é: na prática os artistas reproduzem todas as relações necessárias à manutenção do modo de produção capitalista e, reivindicando parte dos recursos públicos para a produção das suas obras e garantia da sobrevivência, demonstram estar completamente integrados ao sistema. Não dá para imaginar que daí saia alguma alternativa revolucionária. Por isso venho perguntando com insistência aos artistas: vocês acham possível se dar bem e ser feliz neste mundo, tal como ele está organizado, ou a sua felicidade pessoal e profissional depende de uma mudança total? É claro que “mudança total” é código para revolução...Do ponto de vista da disputa com a indústria cultural, há condições da produção artística alinhada com os interesses da classe trabalhadora confrontar o que está sendo imposto pela lógica do capitalismo? Quando um projeto socialista parece “tão fora de pauta” para a grande massa de trabalhadores não organizados, sem consciência de classe, etc.)Enquanto não aparecer um movimento ou partido que ponha essa questão na ordem do dia, por certo que não há condições subjetivas. Quanto às objetivas, elas estão dadas desde a própria revolução de outubro. Aliás, este ponto já foi tratado por revolucionários como Lenin e Trotsky e, no Brasil, foi desenvolvido artisticamente por Mário de Andrade numa ópera chamada Café. Nesta obra acontece uma revolução que culmina com a tomada revolucionária dos meios de comunicação. No caso, o rádio. O problema, portanto, não é reiterar que “o projeto socialista está tão fora de pauta”, mas discutir por que as organizações políticas, tanto partidos quanto movimentos, não o colocam em pauta. Em outras palavras, desmascarar as organizações políticas que, ao insistir no ponto, continuam empurrando com a barriga a ação reformista que é, repito, contrarrevolucionária.Um critério: quando um mero intelectual diz que o projeto socialista está fora de pauta, ele está simplesmente expressando seu mais profundo desejo que nunca entre mesmo na pauta, pois intelectuais têm pavor de revolução. Mas quando um dirigente partidário ou de movimento organizado diz a mesma coisa, ele está expressando o caráter reformista de sua própria organização, ou pelo menos da tendência que ele representa nessa organização. Um contraexemplo é o discurso do Gilmar Mauro no último congresso do MST.Como você resumiria então os desafios correntes para a ativação simbólica da luta de classes?Acho que já respondi a questão, mas especifiquemos um pouco mais. Não podemos ter a veleidade de achar que artistas sem qualquer vínculo com organizações revolucionárias propriamente ditas sejam capazes de avançar nessa ativação simbólica da luta de classes, para além do que já fazem em seus trabalhos, às vezes até sem consciência. Antes de mais nada, eles próprios precisam entender o que seja luta de classes pois, enquanto não o fizerem, nem ao menos saberão qual o seu lugar nessa luta. E nessa ignorância política tenderão sempre a reproduzir os valores dominantes. Para estes casos, recomendo sempre a leitura dos escritos políticos de Brecht, que nunca tergiversou sobre a questão. Ele diz com todas as palavras que o proletariado espera pelo menos três serviços dos intelectuais e, portanto, dos artistas: a) que desintegrem a ideologia burguesa (nos dois sentidos: cair fora e denunciar, criticar até reduzir a pó); b) que estudem, compreendam, expliquem e exponham artisticamente, sempre de maneira crítica, as forças que movem o mundo e c) que façam a teoria e a arte avançarem na direção dos seus interesses. Simplificando: ultrapassar o estágio em que os artistas se encontram, de completa ignorância política, é o principal obstáculo. Se este obstáculo for ultrapassado, os demais serão mais facilmente superados.* Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Jade Percassi, do Brasil de Fato
nhuga Literatura

Literatura infantil estimula criatividade e tolerância, diz escritora de livros para crianças

Por cerca de cinco minutos, uma cantiga infantil tomou conta neste sábado (14) da Esplanada dos Ministérios. Acompanhando a música do violão, pais e crianças cantarolavam as façanhas de Jacaré Bilé, livro que conta a história de um jacaré com fama de dorminhoco que acorda só depois que o sol se põe.Assim terminou a apresentação da jornalista e escritora Alessandra Roscoe na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília. Por meio de músicas, rimas e representações, ela fez o público brincar de imaginar à medida que prosseguia com o que considera uma missão: estimular o interesse pela leitura desde a infância.“Uma criança que lê desde pequena se torna um adulto mais aberto, capaz de enxergar o outro com olhar mais democrático, reconhecendo e respeitando as experiências alheias”, diz Alessandra. Segundo ela, a literatura não apenas estimula a criatividade como permite exercer a imaginação ao extremo. “A gente precisa de fantasia para aguentar o tranco do mundo real”, acredita.Com 12 livros escritos mais duas participações em coletâneas, Alessandra busca inspiração na convivência com os filhos para as histórias. Para atrair a atenção da criançada, vale apelar para todos os sentidos, mas sem perder de vista o conteúdo. “Ilustrações, cantigas, poesia, o livro infantil precisa ter algo a mais, mas sem deixar de contar uma história envolvente e, antes de tudo, estimular a leitura por prazer”, explica.Para Alessandra, é importante estimular a leitura desde cedo, de preferência desde a barriga da mãe. Ela participa de grupos de leitura com gestantes, com bebês e com crianças pequenas. Os pais que aderiram ao método aprovam a experiência.A professora universitária Silmara Carvalho, 45 anos, lê para o filho Júlio Afonso, de 6 anos, desde a gestação. “É importante para o jovem viver o imaginário, inventar e acrescentar. Quem lê desde cedo entra na universidade com bagagem cultural”, diz Silmara. Ela tem um filho de 18 anos que, segundo ela, também foi criado em meio aos livros e, até hoje, cultiva o hábito da leitura.A fisioterapeuta Viviane Leoncy, 37 anos, também estimula o gosto pelos livros na filha de 7 anos. Para ela, a literatura na infância ajuda a formar adultos versáteis e inovadores. “Quem desenvolve a criatividade desde pequeno consegue estar no meio de uma sinuca e saber como vai se virar depois que cresce”, declara. Segundo ela, um dos programas favoritos da filha é ir a livrarias nos fins de semana.* Publicado originalmente no site Agência Brasil e retirado do Mercado Ético.

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Como surgiu a bandeira dos 10% do PIB para a educação pública

A defesa de 10% do PIB para a educação pública é hoje uma bandeira hasteada por muitos militantes e entidades comprometidas com uma educação democrática, igualitária e republicana, que garanta a todos plenos direitos de cidadania e, ao país, a formação da força de trabalho de que precisa. Mas, de onde saiu esse valor, 10%? Será que precisamos, realmente, disso para construir uma educação como a descrita acima? Como dez por cento pode parecer cabalístico ou apenas um valor “redondo”, adequado para fazer campanhas públicas, é bom rever sua origem que, de fato, é técnica, baseada em estimativas rigorosas e correspondendo a um valor tipicamente encontrado nos países que superaram seus atrasos educacionais.Proposta da sociedade brasileira para um Plano Nacional de Educação: berço dos 10% do PIBApós o fim do período ditatorial, muitas entidades representativas da sociedade civil (sociedades científicas, sindicatos, associações estudantis e de trabalhadores da educação, associações de dirigentes da educação pública, órgão ligados a confissões religiosas, entidades representativas de movimentos sociais organizados, entre várias outras) passaram a se articular, em um fórum nacional, na defesa da educação pública. Essa articulação permitiu a criação de espaços de estudo e discussão, viabilizou a realização de campanhas públicas e levou à elaboração de projetos educacionais (1). Um desses projetos foi o Plano Nacional de Educação, preparado pela comissão organizadora de II Congresso Nacional de Educação, realizado em 1997, conhecido a partir de então como o PNE – Proposta da Sociedade Brasileira (PNE-PSB).Essa proposta de PNE foi apresentada como projeto de lei ao Congresso Nacional em 1998 e a ele foi, logo a seguir, apensado o projeto apresentado pelo executivo federal (2). O PNE-PSB continha detalhes das necessidades de financiamento, o que inexistia no projeto governamental, inclusive mostrando a necessidade de recursos crescente ao longo de alguns anos e atingindo cerca de 10% do PIB ao final de sua vigência.Não cabe aqui descrever detalhadamente os cálculos feitos naquele PNE-PSB (3), mas apenas um breve resumo da metodologia adotada. Isso será suficiente para mostrar as bases que levaram à estimativa dos 10% do PIB. Na época, final da década de 1990, tínhamos um determinado padrão quantitativo e qualitativo de atendimento da população nos diferentes níveis e modalidades educacionais. O objetivo era atingir, em dez anos, um novo patamar condizente com as necessidades e possibilidades do país. A tabela apresenta de forma bastante resumida algumas das metas que se esperava atingir após o período de dez anos.(Além delas, que servem apenas como exemplos, havia metas para a educação especial, para a educação de jovens e adultos e para a pós-graduação, objetivos a serem respeitados e atingidos no que diz respeito aos povos indígenas, detalhamentos de como as metas deveriam respeitar as diferenças regionais do país, como se daria a autonomia escolar, metas relativas ao analfabetismo e à formação de professores, entre várias outras).Evidentemente, as metas estavam acopladas umas às outras, afinal, como expandir o ensino médio, por exemplo, sem formarmos professores para tal? Ou como universalizar o acesso a ele sem superarmos o problema da evasão no ensino fundamental? Ou, ainda, como expandirmos o ensino de graduação sem ampliarmos a pós-graduação? Assim, foi necessário um trabalho de sistematização para estabelecer a consistência entre as velocidades de atingimento das várias metas.Resolvida essa parte do problema, restava estimar os custos. Isso foi feito usando-se vários referenciais, entre eles, a realidade orçamentária na época e os investimentos médios por estudante nos vários países, esses últimos medidos não em dólares ou outra moeda qualquer, mas, sim, em relação à renda per capita nacional. Afinal, a renda per capita reflete tanto os custos das várias atividades como as possibilidades econômicas reais de cada país. Os investimentos anuais médios por pessoa na educação infantil e nos ensinos médio e fundamental foram estimados então em 25% a 30% da renda per capita e, no superior, em 60%. Bastava, portanto, combinar esses percentuais com o número de crianças e jovens a serem atendidos pelo setor público e chegaríamos a uma boa estimativa dos investimentos necessários para viabilizar a educação de que precisamos. O resultado mostrou que precisaríamos de recursos crescentes, que chegariam a cerca de 10% do PIB.Outra forma que nos leva ao mesmo resultado seria estimar os recursos necessários para: zerar a diferença entre o salário de professores da educação básica do setor público e o dos demais profissionais com nível superior (esse aumento da remuneração permitiria tanto melhorar a qualidade de vida dos profissionais como reduzir a carga horária de trabalho, exigindo, portanto, um maior número de professores para atender ao mesmo número de jovens e crianças); aumentar o número de professores para incorporar aqueles que se evadem (ou são expulsos, é melhor dizer) do sistema educacional; aumentar as taxas de atendimento nos ensinos médio e superior; alfabetizar os enormes contingentes populacionais que temos; aumentar o número de horas de permanência dos estudantes nas escolas; fazer investimentos de capital para incorporar mais pessoas no sistema educacional (construir e reformar escolas, e equipá-las com bibliotecas, laboratórios e outros recursos para uma escola de qualidade). Se optarmos por essa maneira de fazer as contas, incluindo a necessidade de educação de jovens e adultos, da educação especial e de todos os outros aspectos, chegaremos, por outro caminho, à mesma estimativa de 10% do PIB.O quê vai ficar de fora?A previsão do PNE-PSB era passarmos de um gasto abaixo dos 4 % do PIB estimado àquela época para perto dos 7% já no início do Plano, crescendo anualmente até cerca de 10% do PIB em dez anos. Embora a projeção fosse para um período de dez anos, após superarmos os aspectos mais graves do nosso atraso escolar e que exigem gastos transitórios (analfabetismo adulto, falta de professores e altas taxas de repetência, por exemplo), poderíamos, depois daquele prazo, reduzir os investimentos.Mas, infelizmente, o Congresso Nacional acabou por aprovar um PNE que, embora incluísse várias das metas e propósitos do PNE-PSB, reduziu a previsão de investimentos a apenas 7 % do PIB e mesmo esse valor foi vetado pela presidência da Republica. Assim, chegamos a uma situação que lembra a esquizofrenia, com duas realidades opostas e incompatíveis: havia metas a serem cumpridas, mas não os necessários recursos para tal. Esse é, evidentemente, um problema sem solução. A consequência, obviamente, é que as metas simplesmente não seriam cumpridas, como de fato não o foram. Em relação a algumas delas, até mesmo nos afastamos ainda mais do planejado, como são os casos das taxas de conclusão dos ensinos fundamental e médio.O veto aos parcos 7% do PIB e suas consequências não podem ser esquecidos. Sem recursos suficientes jamais construiremos um sistema educacional que dignifique o país e as pessoas. Os 10% estimados não foram “tirados da cartola”; foram o resultado de cálculos com base em dados da realidade. Além disso, esse valor está bem de acordo com o que foi, ou é, aplicado nos diversos países que superaram ou estão superando os atrasos educacionais. Portanto, como corolário desses fatos, menos do que isso é insuficiente para superar nossos problemas.Por não termos aplicado os necessários 10% do PIB (atualmente, os investimentos estão na casa dos 5% do PIB), não cumprimos as metas e deixamos de fora, excluídos do sistema educacional, enormes contingentes de jovens e crianças. E os números são fantasticamente altos: por exemplo, perto de um milhão de pessoas abandona o sistema escolar antes do final do ensino fundamental a cada ano; por causa da falta de recursos, dez milhões de pessoas deixaram de concluir o ensino fundamental durante a vigência do PNE. Grande parte dos que não são expulsos do sistema educacional freqüenta escolas desmotivadoras, tem professores (quando têm, pois há aulas vagas em profusão neste país) sobrecarregados e sem condições de dar a devida atenção aos estudantes e, consequentemente, deixa a escola com enormes deficiências. Se as metas do PNE anterior, esgotado no início de 2011, tivessem sido cumpridas, nossas realidades sociais, econômicas e culturais seriam bem diferentes das atuais.Como será o próximo PNE, ora em (atrasadíssima) discussão no Congresso Nacional? Se continuarmos a restringir os recursos, devemos deixar explícito o que e quem vamos “deixar de fora”. Vamos continuar remunerando muito mal os educadores? Vamos continuar tolerando a evasão escolar nas taxas atuais?Vamos continuar com graves deficiências na formação de quadros profissionais para o país? Vamos continuar usando o sistema educacional como um fator de marginalização das pessoas e de concentração de renda? Vamos continuar tendo inúmeras escolas precaríssimas? Vamos continuar sonegando a muitos o direito de plena cidadania? Ou vamos fazer um pouco (ou muito) de cada uma dessas coisas?De onde sairão os recursos?Uma pergunta frequentemente feita por aqueles que não apostam em uma educação democrática é: “de onde sairão os recursos”? Uma resposta óbvia para isso é “do mesmo lugar que saíram os recursos dos países que superaram seus atrasos educacionais”: impostos e contribuições sociais. Mas quem faz aquela pergunta é, normalmente, aquele mesmo que repete o falso discurso que o Estado, no Brasil, é superdimensionado e suga recursos da sociedade, uma afirmação de quem desconhece, porque quer desconhecer, a realidade orçamentária de outros países e, por interesse próprio ou apenas por repetir o que ouve, acaba por defender uma política de Estado mínimo - mínimo esse abaixo daquele que é praticado até mesmo nos países mais liberais. Entretanto, como aquela pergunta é recorrente, assim como é recorrente a falsa afirmação de que há recursos públicos e o que falta é uma boa gestão, é necessário responder, o que será feito em um próximo artigo.Notas1) Uma revisão histórica dessa articulação (e das lutas a que ela deu origem e força) pode ser encontrada no artigo Revendo o Plano Nacional de Educação: proposta da sociedade brasileira, Educação e Sociedade, vol. 31, no. 112, 2010, de autoria de Maria da Graça Nóbrega Bollman.2) O artigo PNE: Plano Nacional de Educação ou Carta de Intenção?, Educação e Sociedade, vol. 23, no. 80, 2002, de Ivan Valente e Roberto Romano, relata as várias etapas pela qual passaram as duas propostas de Plano Nacional de Educação.3) O PNE da sociedade brasileira pode ser encontrado em vários sítios da internet, como, por exemplo, http://www.adusp.org.br/files/PNE/pnebra.pdf (consultada em abril/2012). Nele, aparecem o diagnóstico da realidade educacional de então, as metas a serem atingidas e os recursos necessários para tal.* Otaviano Helene, professor no Instituto de Física da USP, foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Otaviano Helene*
"A leitura não é um processo natural". Brasil

Novas tecnologias não anulam a importância das bibliotecas físicas

[caption id="attachment_50365" align="alignleft" width="232" caption=""A leitura não é um processo natural"."][/caption]“A biblioteca Google cumpre um papel significativo ao escanear e divulgar as obras raras. Mas as novas tecnologias não anulam a importância e o papel das bibliotecas físicas, enquanto centros não apenas de conservação, mas também de difusão da leitura”, defende Nelson Schapochnik, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em história da leitura durante palestra no Sesc Belenzinho, em São Paulo, na última quinta (22/3).Ipad, celular, netbook, note, kindle, papel-jornal, revistas, poemas em cds e até livros. Conservar os conteúdos feitos para diferentes suportes de comunicação traz desafios inéditos a respeito da manutenção de coleções no presente e no futuro. “As bibliotecas vão se tornar cada vez mais um lugar de estudos e menos um lugar de leitura pelo mero prazer”, pondera Schapochnik.Um dos aspectos ressaltados por ele são as novas formas de exclusão social que surgem mesmo com o advento das mídias digitais. “Existem os Pontos de Cultura, que facilitam o acesso ao acervo digital. Mas quem é que lê Ulisses, do James Joyce, na tela de um computador? O romance narra 24 horas na vida de uma pessoa, mas são 800 páginas, afinal”.Em sua palestra, Schapochnik lembrou que o homem, ao longo da sua trajetória, conviveu com diferentes jeitos de ler e atribuir sentido ao que se lia. “A leitura não é um processo natural ou universal, que ocorre do mesmo jeito, mas antes uma prática cultural e que, portanto, deve ser compreendida de acordo com as suas variações ao longo do tempo e nos diferentes lugares em que acontece”.Sobre o modo predominante como se lê hoje, o pesquisador acredita que a revolução da informática propicia uma percepção mais veloz do tempo, o que tem repercutido na qualidade da leitura. “De uma leitura sistemática passou-se a ler no intervalo entre uma coisa e outra, como quando fecha o farol, ou no ônibus do trabalho para casa”, afirmou.De acordo com ele, outros tipos de leitura continuarão a ser desenvolvidos. “Não se lê mais de cabo a rabo, mas saltando, como nas páginas que se abre na janela de um computador. Para isso já existe até um verbo específico: surfar. Continuamos atualizando e criando novas maneiras de ler”, afirma.Para Schapochnik, formatos diversos convivem com práticas de leitura concomitantes. “A história material do livro influencia o tipo de leitura que se faz. As características físicas são decisivas no modo com que se lê. Pra cada tipo de leitor existe uma edição correspondente a sua expectativa. Diz-me que edição tu lês e te direi que leitor tu és”, conclui.* Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Flávio Aquistapace, do Portal Aprendiz
gramatica Língua Portuguesa

Não se fala sem gramática

Talvez o preconceito linguístico mais óbvio seja uma afirmação corrente sobre a fala de algum grupo (jovem e/ou pouco escolarizado): eles falam de qualquer jeito (pretendo falar muito desse tema!). Trata-se de preconceito no sentido etimológico: um “pré-conceito”, ou seja, um conceito emitido antes da análise dos fatos.As pessoas têm, evidentemente, direito a seu gosto (musical, linguístico, culinário etc.). Assim, é legítimo que cada pessoa tenha sua preferência por sotaques (gostar mais de ouvir nordestinos do que de ouvir gaúchos ou mineiros, ou vice-versa) e por construções sintáticas (gostar mais de construções com cujo do que de construções que o contornam etc.).Mas seria bom que ninguém pensasse simplesmente que seu gosto é o “certo”, porque esta posição, em geral, além de erro técnico, é prova de pouca cultura. Não é legítimo, do ponto de vista cultural, “falar mal” sem fundamento, desprezar sem analisar. Dou um exemplo radical, o emprego de “menas”.A forma funciona como marca de pouca cultura. Além disso, foi associada a Lula, que a empregou em campanhas presidenciais. E foi critério para o julgamento de sua capacidade política. Muita gente teve ocasião de declarar que se tratava simplesmente de um erro, ou que “menas não existe”. Acontece que existe e só é erro em sentido não técnico, social.A flexão está, por exemplo, registrada no dicionário Houaiss (que a analisa em termos duros): “no Brasil, na linguagem coloquial desescolarizada, ocorre a forma deturpada menas (pron. indef.), em concordância de gênero com o subst. que se segue (menas confiança comigo, hein?)”.Destaco a análise gramatical de Houaiss: menos concorda com o substantivo que a segue. Ou seja: ninguém diz, por exemplo, *menas dinheiro, *menas meninos, *menas gols. Só se ouvem expressões como menas maracutaia, menas comida, menas roupa etc. Em suma, sempre que a forma ocorre, cumpre-se rigorosamente a regra de concordância nominal.A ciência, frequentemente, se debruça sobre casos selecionados. Não trata de tudo, mas de fatos exemplares. Eles comprovam, de certa forma, que as teses gerais são verdadeiras, ou, pelo menos, aceitáveis. Menas prova que os incultos também falam segundo regras rigorosas. A concordância mostra isso.O caso menas, um dos mais marcados socialmente, deveria servir para que todos os preconceitos relativos à fala popular (desescolarizada) fossem combatidos. Pode-se continuar a não gostar da forma. O que não se pode – porque indica incapacidade de análise – é dizer que se trata de um erro. E que ele mostra que se fala de qualquer jeito.* Sírio Possenti é professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Sírio Possenti*
Projeto-Colcha-de-Retalhos Artigo

Colcha de vida, de luta e de sonhos

Não é fácil tecer uma rede. Precisa paciência, cuidado. Precisa espera, olhar atento. Ainda mais se esta rede não for de pesca e sim um outro tipo de rede. Uma rede com ‘R’ maiúsculo, como a Rede de Educação Cidadã (RECID), uma Rede que lida com pessoas, lideranças sociais, militantes populares, educadoras e educadoras, e que acaba de realizar o seu 11º Encontro Nacional na Chácara do CIMI em Luziânia.O Encontro Nacional, com presença e participação de educadores e educadoras vindos de todos os estados brasileiros e representação de movimentos sociais, fez uma análise da conjuntura brasileira, latino-americana e mundial. "Vivemos um período de extrema efervescência política, econômica e social, em meio a uma crise econômica global do capitalismo. No início do século XXI, a chama das lutas populares toma as ruas e praças das grandes cidades, sob novas formas, com gritos de ordem antiglobalização e pela democratização. Não é só mais ‘proibido proibir’. O sentimento do ‘nada a perder e nem esperar’, somado às questões ambientais, move a sociedade contemporânea, especialmente os jovens, e fortalece as lutas e mobilizações".Neste contexto contraditório, perguntam os participantes do Encontro: "Qual papel devem desempenhar os educadores populares da Rede de Educação Cidadã para fortalecer um Projeto Popular para o Brasil?” Responde o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, na sua passagem pelo Encontro: "Eu acompanho a história da RECID desde que o Frei Betto criou com vocês o TALHER, quando eu estava na Chefia de Gabinete do Presidente Lula e agora, no governo Dilma, na Secretaria Geral da Presidência. Se eu pudesse definir o trabalho de vocês, me permitam retomar uma figura do Evangelho, o fermento na massa, do fermento silencioso, sem aparecer nada, quase se confundindo com a massa, mas fazendo-se massa. Quando cresce o pão, o fermento desaparece, mas no silêncio daquela massa vai levedando, fazendo com que a massa cresça. Assim eu enxergo o trabalho de vocês. E insisto. Vocês têm uma enorme responsabilidade, que é manter viva essa chama, essa teimosia da afirmação de que de fato, não na retórica, não na poesia, mas na prática é possível construir uma nova sociedade, uma nova relação, um novo homem, uma nova mulher, um novo jovem e assim por diante. Dentro daquilo que a gente chama de um projeto de fato sustentável para o Brasil, para a América Latina”.O 11º Encontro da RECID definiu cinco desafios estratégicos de 2012 a 2014:1. Fortalecer as lutas contra os impactos do modelo neodesenvolvimentista, a partir do Projeto Popular para o Brasil.2. Fortalecer as lutas contra o processo de exclusão sócio-territorial nos centros urbanos.3. Fortalecer as organizações e lutas contra todas as opressões e discriminações, com especial destaque às que atingem a juventude e as mulheres.4. Radicalização da democracia. 5. Fortalecimento de ações que acumulem para o Projeto Popular para o Brasil.Durante o Encontro, no silêncio das madrugadas da Chácara do CIMI, foi tecida uma grande colcha, juntando as pequenas colchas que cada um dos participantes trouxe de seu Estado, cheias de desenhos, pinturas, palavras, versos e mensagens. Escrevi esta poesia, declamada na mística final:Uma colcha pode ser/abrigo nas noites de frio./Esquenta pés e mãos,/ recolhe os amores escondidos do vento./ Uma colcha é a tenda das crianças/que precisam dormir/quando a noite desce/ e o silencio se faz aconchegante.Uma colcha é tantas coisas. / Mas quando viaja milhares de quilômetros,/ quando cruza rios, riachos, florestas,/ atravessa cercas e aramados,/ sobrevoa latifúndios;/ quando a colcha junta-se a tantas outras colchas,/ cada uma vinda de uma comunidade,/ de um quilombo,/de uma aldeia,/de uma vila ou bairro,/ Cada uma prenhe de lutas,/tecida com sonhos,/acarinhada de mensagens/e palavras de vida,/essa colcha torna-se uma colcha gigante.Esta colcha não é mais qualquer colcha, / não são mais apenas retalhos/ou pedaços de colcha juntados, colados a lado a lado./ Esta colcha acumula/caminhos feitos de dores,/ às vezes espinhos e agulhas que feriram os dedos,/outras vezes balas que atravessaram a pelo,/ o corpo, até mataram.Esta colcha, mais que tudo,/está cozida de compromissos,/encharcada de unidade./É cansaço reunido na praça de alegria./Nela cabem encontros feitos de esperança,/como o décimo primeiro nacional,/oficinas de sonhos debaixo de árvores,/nas barrancas dos rios,/Na beira das estradas,/no calor dos assentamentos e acampamentos,/no aconchego das escolas de formação,/ das igrejas e salões de comunidade.Uma colcha assim, freireanamente tecida, / traz cheiros de mudança,/rastros de profundas transformações/na vida de cada uma, cada um,/nas teias opressoras da sociedade.A colcha cheia de aromas e flores,/nomes e histórias de quem a costurou,/costura, costurará,/ celebra a fraternidade, /sintetiza o trabalho comum e solidário,/festeja o cuidado,/canta a liberdade,/de irmãs e irmãos,/companheiros e companheiras.A colcha diz, grita, proclama:/Viva a Rede de Educação Cidadã!/ Viva os pobres, os trabalhadores e trabalhadoras,/os quilombolas, os indígenas, negros e negras,/os jovens, as mulheres, educadoras e educadores,/a gente oprimida deste país,/estes rostos de sonho e de fé/que protagonizam a história/ e não se deixam derrubar pelos poderosos da ocasião.A colcha anuncia:/Viva o Brasil popular de todas e todos,/iguais, diferentes,/ninguém mais que ninguém,/todas e todos abraçados a todas e todos,/lutadoras e lutadores do Brasil,/da América Latina e do planeta terra”.Como disse o ministro Gilberto Carvalho no Encontro: "É fundamental o cuidar no sentido humano, o cuidar das pessoas, o cuidado do afeto do crescimento da integralidade do ser humano e o cuidar da natureza. Essa relação em que você pode, sim, crescer, pode, sim, fazer infraestrutura, pode fazer estrada, pode fazer energia elétrica, mas pode fazê-lo preservando, respeitando a natureza, salvando o futuro das próximas gerações. Vocês sabem melhor do que eu que temos um projeto que vai muito além de um governo. O nosso projeto de construção de uma nova sociedade não pode ficar limitado ao projeto de um governo. Ele tem que exigir a utopia. É exatamente a perseguição constante de um ideal, de um sonho”.Uma colcha de muitos pedaços, vindos de todos os cantos e esquinas do Brasil e da América Latina, feita por muitas mãos: uma colcha de vida, de lutas, de sonhos.* Selvino Heck é Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República.** Publicado originalmente no site Adital.


por Selvino Heck*
conversa-com-filha-477x250 Comportamento

Educação sexual deve ser iniciada ainda na infância

Falar de sexo com os filhos é fundamental para se construir uma relação saudável.É inegável que o nascimento de um bebê revoluciona por completo a vida dos novos pais. O senso de proteção torna-se ainda mais aguçado, o amor incondicional revela uma nova faceta até então desconhecida, e o sentimento de que uma nova vida depende totalmente dos pais pode ser impressionante e assustador ao mesmo tempo. No entanto, à medida que os filhos crescem e começam a dar os próprios passos, surgem algumas situações embaraçosas que, inevitavelmente, precisam ser abordadas.Temida pela maioria dos pais, a pergunta “de onde vêm os bebês”, inegavelmente será indagada e os adultos não devem fugir dela, segundo a psicóloga clínica Miriam Barros. “Satisfazer a curiosidade da criança é fundamental. A resposta deve ser dada com clareza, em poucas palavras, porém, não é recomendado dar explicações complexas. Neste caso, o simples é o ideal”, diz.Embora a educação sexual ainda seja tabu para muitas famílias, é essencial que o assunto seja colocado à tona ainda durante os primeiros anos de vida. Não existe uma idade correta para se iniciar o tema, mas com a convivência diária com os colegas de escola, a criança pode ouvir sobre sexo e não compreender do que se trata, decidindo buscar a resposta com os pais. A velha história da cegonha de que o bebê é fruto do amor dos pais ou de que o bebê cresce na barriga e ganha vida, ainda são os argumentos mais utilizados e, muitas vezes, podem confundir e aumentar ainda mais a curiosidade do filho.Comum nessas situações, a psicóloga revela que as perguntas podem ter início durante a exibição de uma série de TV ou uma novela, momento propício para as primeiras conversas. “Se a criança ainda não fez nenhum questionamento, os pais podem abrir espaço para o assunto assistindo um programa adolescente junto com eles, por exemplo”, salienta. Uma das dicas mais importantes é respeitar o limite das crianças e se colocar à disposição para responder não apenas sobre relações sexuais, mas também sobre uma paquera, o primeiro beijo e como funciona um namoro.Mantenha a calmaO nervosismo demonstrado pelos pais pode ser observado pela criança que poderá sentir-se insegura para conversar sobre o tema futuramente. Para evitar essas e outras situações de saia justa, a Dra. Miriam Barros dá algumas dicas:Vá com calma nas respostas e responda somente aquilo que a criança pergunta; Não force a barra se o filho não quiser falar sobre sexo, espere ele questionar; Não fuja das perguntas que eles fazem, mas sempre responda com franqueza; Construa desde a infância uma relação baseada na confiança e na verdade.* Publicado originalmente no site Saúde em Pauta.


por Redação do Saúde em Pauta
Assange-O Mundo do Futuro Mídia

Os novos órfãos da informação

Estamos saindo de um modelo para ingressar noutro, que ainda é uma grande incógnita, em meio a uma cacofonia informativa inédita na história contemporânea.Um programa de televisão chamado O Mundo do Futuro,disponivel na internet, é uma metáfora do universo informativo que o futuro nos reserva. O programa é conduzido por um engenheiro australiano em prisão domiciliar na Inglaterra, acusado de publicar segredos do governo norte-americano; numa emissora localizada em lugar não identificado na Rússia; e que na sua primeira edição teve como entrevistado um líder palestino que vive na clandestinidade no Líbano, acusado por Israel de ser um cérebro do terrorismo árabe.Impossível ser mais heterodoxo em matéria de informação jornalística. Quase todos os parâmetros tradicionais foram quebrados na mais recente iniciativa do engenheiro Julian Assange, criador do controvertido site Wikileaks. que está fora do ar porque suas contas bancárias foram bloqueadas pela justiça.A primeira coisa que chama a atenção é a queda dos referenciais entre legalidade e ilegalidade. Na Inglaterra, Assange pode ser condenado a 10 anos de cadeia, mas na Rússia ele conta com a simpatia governamental. Ele é um programador de computadores mas age como se fosse jornalista. Ele grava programas desde sua casa para uma emissora que transmite pela internet e ninguém sabe onde fica. E, para terminar, conversa durante quase uma hora com Hassan Nasrallah, líder da organização Hezbollah, que vive em algum lugar do Líbano.A entrevista, em si, não contém nenhuma revelação espetacular, mas impressiona pelo fato de que quase tudo nela foge aos parâmetros que marcam a nossa cultura informativa. A sensação que se tem é de que estamos num terreno desconhecido, sem referências conhecidas para avaliar credibilidade e veracidade. Tudo é fluído e não está vinculado a estruturas materiais como endereços físicos e garantias legais.Fica a ideia de que teremos que descobrir por conta própria o que é verossímil ou não, o que é relevante e o que não é, se devemos crer ou descrer do que nos é apresentado. Em última análise, é uma espécie de orfandade informativa, em que estamos entregues à própria sorte em meio à avalancha noticiosa gerada pela digitalização e pela computação.O programa O Mundo do Futuro não é um caso isolado. Há centenas de vídeos similares na internet. O que ele nos mostra é que o fenômeno da informação desprovida de referenciais tradicionais está em expansão e não vai tardar muito para que se torne majoritário. Estamos saindo de um modelo para ingressar noutro, que ainda é uma grande incógnita, em meio a uma cacofonia informativa inédita na história contemporânea.Com tantas dúvidas, uma certeza começa a ganhar corpo. Nós teremos que aumentar o número de horas dedicadas à avaliação das informações que recebemos. Vai dar mais trabalho separar o joio do trigo em matéria de noticiário, mas também não há dúvida de que isto nos tornará muito mais preparados para lidar com a avalancha noticiosa. Não há escapatória, porque a alternativa seria nos transformar em párias ou ermitões informativos, uma hipótese que pode ser viável para alguns indivíduos, mas jamais poderá ser uma panacéia para a sociedade.* Publicado originalmente no site Revista Fórum.


por Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa
escola Escolas

Fechar, não; (re)abrir escolas, sim

Sou filho de agricultor e tenho orgulho disso. Os dois irmãos mais novos, Elma e Marino, mais mamãe Lúcia trabalham na roça e tenho orgulho disso. Quem mora em Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, e nas comunidades do interior, segue plantando e produzindo, e eu tenho orgulho disso. São essas pessoas dedicadas, trabalhadoras, homens e mulheres, que garantem na nossa mesa 70% dos alimentos que comemos, todos os dias, o ano inteiro. Tenho orgulho de ter estado oito anos no governo Lula, mais um no governo Dilma e poder ter participado da elaboração e estado presente no lançamento do Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo), pela presidenta Dilma.O Programa é ambicioso. Disse o ministro da Educação, Aloísio Mercadante, em entrevista ao jornal Valor Econômico: "O Pronacampo é fundamental para resolver uma dívida histórica do país. Só 18,4% dos alunos do campo estão na escola. Vamos levar carretas às escolas, com óculos e exames. O equivalente a 11 mil escolas, ou 15% do total, não têm luz, não têm água, 94% não têm banda larga e 90% não têm internet. Primeira providência: todo o material didático será do universo rural, queremos criar uma bibliografia que estimule a permanência no campo. Outro problema é o transporte. A partir deste ano vamos distribuir oito mil ônibus e duas mil lanchas (no Norte) para facilitar o transporte de alunos, distribuir 180 mil bicicletas e capacetes para os alunos e criar escolas com alojamento para professores e alunos. Fizemos uma parceria com a Embrapa para saber qual é o tipo de estrutura em cada região para desenhar o ensino profissionalizante. Temos que estudar as cadeias produtivas para isso”.Disse a presidenta Dilma no seu programa semanal de rádio: "Quase 30 milhões de brasileiros vivem no campo. São agricultores familiares, pequenos, médios e grandes produtores, que fazem do Brasil um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. E também fazem do agricultor familiar um dos maiores produtores de alimentos para as brasileiras e brasileiros. Nós queremos que esses agricultores e suas famílias tenham a oportunidade de estudar sem precisar deixar o campo. Uma das nossas ações será oferecer material didático com conteúdo diferenciado para as escolas rurais. A partir do ano que vem, os temas dos livros didáticos dessas escolas estarão relacionados com a realidade das pessoas que vivem no campo e também das comunidades quilombolas, valorizando os saberes da terra e o conhecimento de quem vive na área rural”.A realidade de quem vive no campo é difícil. A educação reflete estas dificuldades. Diz a presidenta Dilma: "Nós hoje temos 342 mil professores na zona rural, mas apenas pouco mais da metade desses professores tem curso superior. Com o Pronacampo, nossa meta é formar 145 mil professores até o ano de 2014. E cinco mil escolas do campo terão educação em tempo integral já neste ano de 2012. Vamos também construir escolas que contarão, inclusive, com alojamento para estudantes e professores, para que possamos receber aqueles que moram muito longe da escola. Assim é possível implantar as chamadas Escolas de Alternância, onde o estudante vai intercalar períodos de aula, que podem ser de uma semana ou um mês, e depois outro período em casa, com a família.O Brasil é a sexta economia mundial, em vias de se tornar a quinta. Por isso, e por causa dos 30 milhões que plantam, produzem e põem os alimentos na nossa mesa, é preciso dar-lhes condições e qualidade de vida. Para isso, disse a presidenta Dilma, "a educação tem um papel estratégico, transformador, e ela precisa ser garantida a todos os brasileiros, sem exceção. O Pronacampo faz parte do esforço de garantir oportunidades para que, sobretudo, as novas gerações possam estudar, se desenvolver e transformar este país em uma grande nação”.O Pronacampo foi discutido com todos os movimentos sociais do campo – Contag, Via Campesina, Fetraf. E vai dialogar diretamente com o Brasil Sem Miséria, nas regiões mais pobres do Brasil. A educação, todos sabemos e sabem todos no governo federal, é uma das principais formas de combater a fome, a miséria e a exclusão social, de fortalecer sujeitos de direitos e garantir o protagonismo popular na construção de um país com justiça, igualdade econômica e social e democracia.Fechar escolas não. Abrir e reabrir, sim. Para poder dizer, como disse a presidenta Dilma no lançamento do Programa: "Este é um daqueles momentos em que a gente tem orgulho de ser presidente da República, mas não é um orgulho qualquer. É porque a mim me gratifica poder como presidenta aplicar, implementar um programa que vai levar, sobretudo à população jovem deste país, um outro destino, a possibilidade de outros sonhos”.* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria-Geral da Presidência da República.** Publicado originalmente no site Adital.


por Selvino Heck*

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Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

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Os três componentes principais da biomassa da cana-de-açúcar são a celulose, a hemicelulose e a lignina. Foto:EcoD

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O Zoológico Skazka, na Ucrânia, exibe imagem de filhotes de tigresa albina ‘Tigrylia’, que nasceram no complexo. Um dos bichinhos puxou a mãe e também é um raro tigre albino.

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Frases a laser são projetadas nos prédios gêmios da Câmara dos Deputados, em Brasília. Foto: Divulgação

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Marta Azevedo, a primeira mulher no cargo de presidenta da Funai. Foto: José Cruz/ABr