Os professores não usam black-tie: sobre a greve do magistério de Minas

Professores

Os professores não usam black-tie: sobre a greve do magistério de Minas


por Luiz Felipe Martins Candido*


Os professores se queixam, com razão, da falta de diálogo por parte do governo. Reivindicam o cumprimento, pelo governo estadual, do piso salarial nacional previsto pela lei 11.738/08 e reconhecido como constitucional pelo STF.A greve dos professores da rede estadual de ensino de Minas Gerais já ultrapassou a marca dos cem dias. Ao contrário do que vem sendo dito em vários meios de comunicação, a adesão é grande, maciça, e as assembleias da categoria têm contado com uma participação ampla, tanto dos profissionais da educação quanto de outros setores da sociedade: sindicatos, movimentos sociais, movimento estudantil, ou mesmo indivíduos que reconhecem valor à causa.Aconteceu no dia 21 de setembro de 2011, na Praça da Assembleia, no bairro Santo Agostinho, Belo Horizonte, como parte dos acontecimentos da greve, uma concentração e assembleia para discussão de pautas do movimento dos professores do Estado de Minas Gerais. Na assembleia foi votada a manutenção da greve por período indeterminado, até que as pautas reivindicativas sejam discutidas e negociadas, ou seja, até que o governo aceite dialogar e algum acordo seja possível. É a greve dos profissionais da educação mais longa dos últimos dez anos.Os professores se queixam, com razão, da falta de diálogo por parte do governo, que se recusa a negociar uma solução. O que eles reivindicam: o cumprimento, pelo governo estadual, do piso salarial nacional previsto pela lei 11.738/08 e reconhecido como constitucional pelo Supremo Tribunal Federal, órgão máximo do poder judiciário, responsável pela defesa dos direitos e deveres previstos na constituição brasileira. O piso salarial teve sua constitucionalidade reconhecida em acórdão publicado no dia 21. Além disso, o movimento reivindica outros direitos para a categoria, como a reconstrução do plano de carreira e a revogação da lei do subsídio.Com a publicação do acórdão pelo STF, o movimento dos professores ganhou força em sua argumentação. Essa publicação torna ainda mais latente o descompromisso do governo com a classe professoral. O que se exige, para além de salários justos e dignos para um profissional de reconhecida importância – e em consonância com isso – é o cumprimento da lei. Depois de tentativas sucessivas de criminalização do movimento grevista na tentativa de deslegitimá-lo (prática comum, levada a cabo por meio de mentiras, em relação a todo movimento que se levanta em defesa de alguma causa e contra algum poder estabelecido), de apelos à população na grande mídia, na tentativa de colocar a população contra os professores, depois de tudo isso, quem está à margem da lei é o próprio Estado.Os últimos ataques mais significativos sofridos pelo movimento foram a decisão do desembargador Roney Oliveira, no dia 16 de setembro, determinando a suspensão do movimento grevista com o retorno imediato dos professores e com previsão de pesadas multas, e a dura repressão policial a uma manifestação na Praça da Liberdade, em ocasião da inauguração do relógio que fará a contagem regressiva dos mil dias até a Copa do Mundo de 2014.A decisão do desembargador baseou-se na ideia de que o movimento vem sendo abusivo em sua duração e por isso tem prejudicado os estudantes, os quais, muitos deles, dependeriam, segundo a sensibilidade incomum e a linguagem pomposa do desembargador, da alimentação escolar. O sindicato, de sua parte, rebate dizendo que a própria duração estendida da greve se deve ao fato de o Estado se recusar a negociar e o próprio Tribunal de Justiça ter se omitido em atender ao pedido do sindicato de mediação das negociações, pedido feito em princípios do mês de julho.Já o uso de força policial contra uma manifestação pacífica, não teve qualquer justificativa, por cínica que fosse. Diante da festividade, custeada com dinheiro dos contribuintes, para o lançamento do tal relógio, os manifestantes (que, aliás, não eram apenas professores, mas diversas entidades da sociedade) foram impedidos de se aproximar. Afinal, a festa era para convidados selecionados, e os professores não usavam black-tie. Então, para esses, bombas, cassetetes e tiros de borracha.Assista no YouTube a um vídeo da repressão.[youtube width="640" height="360"]http://www.youtube.com/watch?v=6XTZvlNAC8s&feature=player_embedded[/youtube]Esta situação chama a atenção por vários motivos, mas que talvez possam ser reunidos em um só: o descaso com a educação. É triste pensar na forma como a educação vem sendo tratada no Brasil. Primeiro, privilégio de uma pequena elite. Depois, apesar das boas intenções e de uma tentativa de universalização, o máximo que se conseguiu foi uma ampliação do acesso, mas sem qualidade. Educação é processo de formação do ser humano, um processo amplo, do qual a formação escolar é uma parte importante. O professor é uma parte fundamental desse processo, ele é o responsável por “transmitir” o conhecimento produzido a duras penas e conservado ao longo dos séculos pela humanidade, ele é o responsável por fazer com que isso chegue ao estudante, por guiá-lo, por orientá-lo, como alguém que já passou por esse processo, que já trilhou esse caminho. Como é possível alguém que não possui motivação, com a “cabeça cheia” das menores preocupações materiais, inseguro quanto ao futuro e mesmo ao presente, poder desempenhar bem seu papel? A resposta é simples: não é possível. Então, é preciso compreender esse movimento em Minas Gerais em seu sentido mais amplo: é um movimento que busca mais do que salários e planos de carreira, é um movimento que luta pela valorização de algo valioso. Valorizar o professor, possibilitar a este uma vida digna, é valorizar sua função, sua atividade e, por conseguinte, o próprio conhecimento.É preciso que a sociedade se dê conta disso, de que não se trata de um probleminha qualquer, mas diz respeito à própria vida que levamos, à maneira como levamos nossas vidas. Se julgamos o conhecimento um bem importante para a formação de uma pessoa, para a constituição de uma pessoa enquanto sujeito, e para o exercício pleno da cidadania, não podemos menosprezar a importância de um movimento como o que vem acontecendo. Não é possível que haja sociedade democrática sem uma educação de qualidade, e é isto também o que está em questão. Valorizar a educação é valorizar o exercício pleno da democracia, o que não se tem visto por aqui.Talvez mais um motivo, indissociável deste: ao lado do descaso com a educação, a maneira, o critério do Estado para selecionar a forma como aloca os recursos públicos. Afinal, os compromissos de campanha precisam ser “honrados”, e a Copa do Mundo, evento maior da poderosa indústria do espetáculo, trará grandes investimentos estrangeiros, grandes oportunidades para os negócios. Mas que fique claro, para um grupo seleto de privilegiados e que, quer gostemos ou não, não seremos nós.Tudo isso nos faz lembrar, a título de uma triste constatação, o dito de Marx e Engels de mais de 150 anos atrás: “O governo do estado moderno é apenas um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia”. Bom, assim tem sido, prova disso é a atuação do próprio Ministério Público, órgão responsável pela defesa dos chamados “direitos difusos”, da ordem constitucional, portanto, da educação também. A decisão do desembargador, referida acima, baseou-se numa denúncia do Ministério Público. Ora, parece-nos um desrespeito à lógica e à inteligência, além de uma falha moral daqueles que estão em posição de tomar as decisões, deixar de exigir do Estado o cumprimento da lei que garante o piso salarial e o plano de carreira (o que resolveria imediatamente o problema), fazendo valer uma decisão do órgão máximo do judiciário nacional, fazendo prevalecer portando o Estado Democrático de Direito e, em vez disso, tentar minar um movimento legítimo e garantido também pela Constituição, tornando-o ilegal. Prova de que estamos longe ainda, na prática, de uma democracia real, que atenda aos anseios de todos. Na verdade, a democracia é algo a ser conquistado diariamente, na luta, nas lutas, ela não vem e não virá dos gabinetes dos engravatados.Na peça Eles não Usam Black-Tie, de 1958, de autoria de Gianfrancesco Guarnieri, e depois levada para o cinema em 1981 com o mesmo título e sob a direção de Leon Hirszman, vemos o dilema do personagem Tião que, ao saber da gravidez de sua namorada Maria, faz planos, sonha em construir uma vida para o casal. Ao mesmo tempo em que se preocupa, se entusiasma com a ideia de ser “pai de família”. Nesse ínterim, os operários da fábrica em que Tião trabalha discutem a possibilidade de uma greve. Tião hesita, precisa pensar no futuro, e acaba furando a greve. O filme coloca questões interessantes, faz pensar em todas as dificuldades que se enfrenta ao aderir a uma greve. Evidentemente, são contextos diferentes, mas há questões perenes. A mulher grávida de Tião pode representar qualquer outra responsabilidade. Pode ser as contas atrasadas. Pode ser um familiar doente. Dívidas. São coisas diferentes, mas que, nesse caso, parece-nos, podem quase se equivaler, são responsabilidades importantes e coisas caras às pessoas. Sabemos que os professores, todos eles têm suas vidas, suas famílias, suas contas a pagar. É isso que torna esse movimento mais digno de respeito e admiração: a justeza da causa e o esforço em levá-la adiante.Essa greve tem sido um exemplo, um bonito exemplo de luta pela efetivação de direitos, de luta por reconhecimento de algo que é justo. É uma luta por justiça. É uma coisa que os movimentos sociais sabem há muito tempo, e que as pessoas descobrem a cada vez que são afetadas em seus direitos: direitos só se efetivam, só se conquistam, à custa de muita luta. Não é possível esperar pela boa vontade de governos ou quem quer que seja. Além de frágeis, precários, sujeitos a retrocessos, os direitos são históricos, são apropriados, são produto de disputas. É isso que se tem visto: pessoas reivindicando para si direitos que, mesmo do ponto de vista do próprio jogo institucional, já foram reconhecidos e que lhes têm sido negados. Como vimos dizendo, é uma questão de justiça, e quando se trata disso, não se pode fazer concessões. Diz respeito a todos e a cada um. Se se faz uma concessão aqui, já não se pode exigir mais nada adiante, qual seria o parâmetro? Desejamos força e sorte ao movimento (porque coragem não tem faltado). Se os professores ganham essa, todos ganhamos. Se eles perdem, todos saímos perdendo.* Publicado originalmente no NINJA: Núcleo de Investigações em Justiça Ambiental e retirado do site da Revista Fórum.

Ilustração de Cezánne. Desenvolvimento

Educação para a sustentabilidade

[caption id="attachment_29468" align="alignleft" width="264" caption="Ilustração de Cezánne."][/caption]Estou há tempos para escrever novamente para Plurale. Desde que voltei de viagem, pego e largo o texto por motivos variados. Não dá para elencar todos, mas creio que o principal tem a ver com um conteúdo que faça sentido para mim, para a editora e para vocês. Sei quantas informações sem sentido recebemos em casa, e também, algumas com sentido que nem esticamos mais a vinda do sono para ler à noite – quietos na cama ou na poltrona predileta. O tempo. Tempo para aprender, para ler com calma para aprimorar relações, para mudar de trabalho, para trocar de lugar. Atualmente leio três coisas em cada tempo. Uma ficção boba juvenil para retomar o inglês, um Sandor Marai – húngaro que escreve um dos bons livros que me foram dados.Recomendo o título De Verdade, bem interessante e denso para refletirmos sobre quem somos e para onde vamos com nossas certezas. E leio também com afinco os textos sobre sustentabilidade e os fuxicos de internet – enviados por amigas queridas ou conhecidos que sabem que hoje eu sou senhora de mim, liberta e menos prisioneira do tempo. E posso pensar em decodificar com calma o que me proponho a escrever e realizar ainda!O frio do Rio é ótimo companheiro para as manhãs e tardes de chá e leitura, arrumações em casa, coisas e coisas sem fim para dar novo destino: um uso melhor para quem necessita ou a dolorosa – mas deliciosa – sensação de um local limpo e harmônico na relação coisa-espaço.Consigo, com algum custo, dar coisas quase novas, pois sei que não vou precisar, e chega este complexo tempo de desapegar. Desapegar-me de filhos que seguem seus caminhos e sabem que fazem parte de um ambiente de conforto e consideração incondicional em uma das várias casas onde eles foram criados, despegar-me de coisa perdida, desapegar-me do delirante vício do poder, desapegar-me de verdades estabelecidas... Desapegar-me (“de verdade”, como Marai), ou seja, “desconectar-me” de gente e situações que não acrescentem. Pode parecer terrível, mas sinto enorme cansaço com o pacto da mediocridade que sou obrigada a conviver por vez ou outra.E quando me sinto assim, morna e medíocre nas minhas posturas, rapidamente ou nem tanto, uma onda de renovação ou de reposicionamento surge, no fundo de minhas antigas e novas possibilidades de fazer acontecer.Tão difícil desapegar-me de coisas e tão fácil desapegar-me de pessoas ou desapegar-me do cuidado com a vida. Consegui com muito custo reverter este desenho. Coisificamos tudo, damos suma importância à aparência e como os outros nos julgam, e colocamos os contatos no plano de coisa a menos. E o tal algo mais de Cézanne – realizado em vida do pintor –, onde as coisas do/no mundo eram vistas como sentido e cor da natureza e do homem em sua busca de humanidade e universalidade, somadas com a cortesia. E mesmo o homem da natureza como o denominava é apenas um elemento vital na ocupação, da vida evidente ou aparente.Onde as coisas objetivas para o mundo, observadas e avaliadas sob a perspectiva humana, tornavam-se sujeitos de si mesmas e a conversa – entre ele e a coisa e entre ele e natureza das coisas e do ambiente – passava a ter um sentido de pertencimento no mesmo mundo por criado e o mundo antes de nossa presença. Aprecio esta maneira de ver as coisas que nos são gratas e cuidadas como “personna de si mesmas”, dar um pouco de anima (alma) para estas coisas. Quem sabe se fizéssemos isto com o ambiente natural e criado não coisificaríamos, e estes dois ambientes integrados atuariam como sujeitos no mundo.Isso incluiria quem realmente colocar no ambiente amizade, qual troca sobre este mesmo mundo você faria a cada dia, como valorizar as luzes e cores da manhã no bule de café, as frutas ao acordar e as dobras de uma toalha branca. Viver este despertar para a luz e para a cor – diferentes a cada momento. Isso era algo que perseguia Cézanne, e penso muito sobre tudo isto e me sinto instigada para ver onde estas questões podem me tornar uma personna melhor para o ambiente.Como se a cada dia as coisas que eu tivesse à volta despertassem com o homem racional e sensível ao mesmo momento. O homem com forma, cor e cheiro totalmente inserido e parte de seu ambiente. Este texto todo para dizer que gosto em Cézanne e outros artistas ligados ao pertencimento ao ambiente. Este pertencer tão complexo quando falamos do sujeito e do ambiente que ele precisa aprender a conviver. A memória das coisas e dos momentos constrói as relações aonde vou tecendo o pano de retalhos da mesa matinal e da vida: a cortesia e a permanência do contato. No processo de coisificação que estamos passando, cada sujeito dá o valor e a intensidade de contato, conforme a utilidade e, assim, caminha nesta “coisa-humanidade e na humanidade-coisa”.Acumulamos muito, e nem sempre antes de comprar algo novo, limpamos as gavetas. Creio que é assim com o pensamento e reflexões em casa sozinha sobre o que realmente é possível realizar neste espaço de acúmulos e de baixas avaliações sobre como refletimos para mudança de atitudes.Espero que você possa – de quando em vez ou com qualidade – parar e ler com cuidado e delicadeza o que lhe interesse. E caso este texto traga um pequeno algo mais: o olhar dos opostos e da intensidade na profusão de diversidade que o cerca. Que você possa enviar o seu algo mais para o outro. Como a curva de Moebius(1), onde tanto se deve olhar e viver na parte interna como na parte externa da fita – ver uma mesma questão por todos os seus lados de possibilidades e assim descobrirmos, que a cada leitura, a cada troca de impressões, a cada retorno (estamos sempre no eterno retorno e nunca será idêntico) a realização do outro. Podemos ser o algo mais aprimorado e não coisificado.Podemos duvidar possuir ou manifestar opiniões divergentes em relação a qualquer um, mas sabemos que existe um direito inalienável de ver a coisa ou o sujeito por meio de outra referência – outro ponto do observador. Desta forma, eu, aqui, também esclareço que não tenho nada contra qualquer pessoa que decida ou deixe a vida externa decidir por ela. Que encontra significado ter um processo de crescimento no mundo sem tantas considerações. Este estado, para mim, não funciona, pois sou absolutamente comprometida e responsável com as minhas escolhas de fazer ou de inércia.Atualmente, tenho visto muitas pessoas que privilegiam a vida pela superfície das questões... É obvio que não se pode passar o dia em profundas elucubrações sobre tudo. Seria exaustivo. Eu ainda fecho com alguns queridos sábios, que se você for tomar um simples banho, que seja real na sua escolha e simples na forma, para que durante o pequeno tempo que você deveria ficar lá na economia de água e sabão, você possa refletir sobre si sobre o famoso Dasein (ser aí neste mundo e fruto de todos os mundos passados vivenciados).Você pensa sobre o valor do sujeito e o valor da coisa que artificialmente valoriza ou você qualifica o sujeito. Na fase inicial da vida em que estamos ligados ao lugar confortável do materno é aí que as “formas de afetos” começam a ser processadas em nosso local do sensível no cérebro, e estas conexões perduram por toda vida quando iniciadas e estimuladas.Pode ser por falta deste laço e por não termos mais as relações de afeto atualizadas a todo dia que perdemos a capacidade de ponderar entre o afeto e o racional, entre o desejo e o interesse, entre necessidade compartilhada e egoísta. É nesta escada do desenvolvimento que teremos habilidade para lidar com o que discordamos no mundo externo ao mundo materno e chegaremos por meio do processo educacional, da disciplina e do limite ao mundo da cortesia. A cortesia está para mim no último degrau; trocamos a emoção com nossas mães de forma egoísta para sobrevivência, elas e os pais ensinam ou deveriam ensinar formas de sermos gentis em família, de conceder e com a escola formal e as relações de amizade e trabalho do mundo em volta, desenvolvemos a cortesia. E você neste momento para de ler e reflete: o que isto tem a ver com a sustentabilidade do título?Pode ser que se não conseguimos fazer a conexão é exatamente neste ponto que perdemos ou não apreendemos a cortesia. Pois a cortesia é ensinada sutilmente no dia a dia em casa e depois na escola. Pode ser também que nesta fase estejamos construindo um ser que não terá habilidade para relativizar, para mudar quando escuta com atenção e dedicação algo que o outro lhe traz. Isto pode ser boa oportunidade para si, para os dois e para a sociedade do entorno. Nesta fase, muito pequenos e inconscientes da realidade e do ambiente que nos vai moldar, traçamos o famoso caminho individual dentro do processo civilizatório das conexões humanas. Ah! E isto sim tem tudo a ver com sustentabilidade das relações, do ambiente natural ou criado por mim e pelo outro.Acredito que o processo de envolvimento dos indivíduos com o ambiente – crianças, adolescentes e adultos – tem a mesma correspondência com o grau de desenvolvimento da cortesia que você dedica a si mesmo (cuidado com sua mente e com seu corpo) e a cortesia que trocamos entre pessoas tão diferentes e por vezes aquelas que não concordamos com o modo de ver e se perceber no mundo.Por fim, percebo que como não desenvolvemos bem a cortesia em um local que: • O coletivo vale pouco; • A sociedade brasileira é ainda deficitária em alguns processos de trocas; • A integridade e o caráter têm várias possibilidades; • A pessoa é assertiva na apropriação de um bem público como uma coisa privada; • A coisificação do sujeito para a vida se deu em função da ausência dos afetos e cuidados familiares; • A escola, o aprendizado e o conhecimento não fazem parte da construção do sujeito moral do Dasein – o ser aí no mundo dedicado a construir e manter o seu local melhor para si e para quem vier.O que isto tem a ver com sustentabilidade? Tem bastante por mais que você no momento não consiga ou não possa fazer as conexões assim como Cézanne – ele passava boa parte do seu tempo realmente pensando em como mudar de atitude em tela e partia para uma viagem de riscos nesta mudança de atitude. Qualquer mudança vai exigir algum tempo de engajamento prévio, para que se possa mudar efetivamente e encarar a sustentabilidade fragmentada ou em nosso cotidiano.Normalmente somos confortados ou atuamos no que chamo de uma sustentabilidade fashion: a do espetáculo, colocada em local confortável da fala e do não comprometimento pela ação: rechaçada a conversas informais e descontraídas do chopp de sexta-feira, após o trabalho exaustivo e, por vezes, repetitivo. A tal da sustentabilidade possível em vida – vai acontecer no seu ou no meu cotidiano, se primeiro verificarmos nossa conexão com a cortesia para o outro e para outros espaços que não somente o conhecido e/ou aqueles que temos interesse em sempre ganhar algo. Se verificarmos também se esta nossa cortesia nos pode levar a uma postura de aceitação da diferença – a diversidade de jeitos e culturas. Algo que não é necessariamente no primeiro momento aquele chamado do algo mais de Cézanne – que faz de você um ser melhor quando pensa em quanto arriscou para uma mudança.Porém, já um algo que mexe com você para a cortesia sempre presente em suas ações e nas relações com as pessoas. (O que deveria ser normal e não evidenciada no espaço que você troca, habita, trabalha e impacta). Porque não impactar pela cortesia e pela possível e concreta atitude na e para sustentabilidade que você possa incorporar de forma permanente?No próximo texto vou abordar mais a sustentabilidade dos contatos duradouros e/ou de fidelidade – que estão intimamente conectados com a agenda pessoal da sustentabilidade possível. Tempo e confiança são as palavras-chave!Nota (1) Curva de Moebius – esta curva nasceu da matemática e foi levada para o mundo da psyqué, onde a vida, na verdade, tem um lado o de fora mescla com o de dentro. E não existe o lado do bem para uns e lado do mal. Possuímos e agimos sempre esta polaridade que nos faz ver a vida de maneira diversa: o olhar por dentro de si e olhar por fora de si – para analisar com mais isenção, e que de certa forma estamos fadados a circular neste eterno retorno, mas nunca de mesma forma, pois a cada volta (do dia, das passagens, dos ritos, etc.) existe a influência do outro e do meio.* Vania Velloso é arquiteta, com especialização em Filosofia e Gestão Ambiental, artista e cozinheira.** Publicado originalmente no site da revista Plurale.


por Vânia Velloso*
José Carlos Bom Meihy, pioneiro da técnica, diz que o Brasil desempenha papel de destaque nesta linha de estudos. A Gianni Carta. Foto: Yuri Bittar/Unifesp Entrevista

A vez da história oral

[caption id="attachment_29471" align="alignleft" width="300" caption="José Carlos Bom Meihy, pioneiro da técnica, diz que o Brasil desempenha papel de destaque nesta linha de estudos. Foto: Yuri Bittar/Unifesp"][/caption]“A história oral conquistou definitivamente seu espaço”, acredita José Carlos Bom Meihy, um dos pioneiros no uso da técnica para reconstruir o passado. Professor titular aposentado do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Núcleo de Estudos em História Oral, da mesma universidade, Meihy acredita que ela tenha se tornado um elo entre a academia e a vida fora dos muros escolares. Segundo o pesquisador, o Brasil assumiu mundialmente “um papel de destaque” neste tipo de estudo. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à CartaCapital.CartaCapital: Qual a situação da história oral no Brasil?José Carlos Sebe Bom Meihy: Não seria errado dizer que assumimos mundo afora papel de destaque tanto em termos numéricos quanto na discussão teórica e produção de resultados publicados. Autores como o italiano Alessandro Portelli e o norte-americano Ronald Grele costumam repetir que o Brasil é uma caixa de ressonância dos avanços de estudos feitos sobre história oral no mundo. Aqui se reverberam tendências amplas. A ABHO, fundada em 1994, é um laboratório aglutinador de investidas que revelam a popularidade da prática que, aliás, extrapola o âmbito das universidades.CC: Pode-se falar da existência de uma história oral brasileira?JCSBM: A história oral floresce apenas em espaços democráticos. Durante a ditadura, entrevistas livres padeciam de limites, pois eram aproximadas dos “depoimentos”, com implicações severas. Foi apenas a partir dos anos 1980 que pesquisadores de países da América Latina ampliaram seu trabalho com entrevistas. Uma das linhas inaugurais da nossa história oral foi justamente com tipos sociais enjeitados pelo regime anterior. Assim, os primeiros trabalhos sobre história oral entre nós nasceram fora do país, versando sobre a “memória dos exilados”. A busca de compensação do “tempo perdido” sugeriu uma série de traduções que serviram para fomentar diálogos. Estudos sobre mestiçagem, presença indígena, a problemática específica da mulher brasileira e, principalmente, o resultado de processos migratórios em nossa cultura obrigaram a uma relativização dos padrões externos, ainda que muitos insistam em arremedos criticáveis. Não há como negar uma história oral feita no Brasil, mas ela tem mais a ver com a configuração de matrizes latino-americanas do que norte-americana ou europeia. Procedeu-se a uma descolonização dos modelos externos.CC: Como definir história oral e qual sua relação com a escrita?JCSBM: A história oral realiza-se num ciclo que parte da existência de um projeto, passa pela definição do grupo a ser entrevistado e depois de efetuada a gravação tem de ser vertida para o código escrito. É fundamental assumir a existência de dois códigos diferentes: a fala e a escrita. Mesmo projetos que se esgotam na recolha de gravações orais para se constituírem em “bancos de histórias” devem ter correspondentes escritos. O trabalho de transcrição leva em conta que entrevista é mais do que diálogo. Todo o gestual, lágrimas e silêncios fazem parte da performance.CC: O autor da história oral é o entrevistado ou quem publica?JCSBM: É um trabalho feito em colaboração. Duas partes se completam na produção de resultados que geram um documento. O trabalho começa com o narrador estimulado a contar. O ouvinte, além de animar a conversa, deve ser o “tradutor” da fala. Por sua vez, o texto só tem sentido se for autorizado para publicação e uso. Há, portanto, fases de controle: quem fala, quem transcreve, a autorização, que pode ser total ou parcial, mas é sempre negociada, e a publicação. Juridicamente, o responsável pelo projeto é o autor, pois se responsabiliza e se beneficia com o produto final.CC: O que diferencia a entrevista na história oral daquelas praticadas por jornalistas, antropólogos e sociólogos?JCSBM: Não é válido supor que gravações de entrevistas sejam invenção nova, mas os modos de produção e o destinatário divergem. Deve-se levar em conta que a entrevista jornalística tem como objetivo o esclarecimento público de algum evento. O que se busca é a combinação do caráter informativo com o testemunho. A história oral difere por se preocupar com a narrativa em seus aspectos subjetivos. As narrativas de história oral implicam desvios, inexatidões, variações, deformações. Isso tudo faz parte dos efeitos da oralidade que é expressão da memória advinda de encontros no “tempo presente”. De fato, é exatamente a variação que interessa, pois, verbalmente expressa, a memória é sempre seletiva, dinâmica e suscetível. A prática da entrevista em história oral herdou muito da entrevista antropológica, mas, no caso dessa, a participação do entrevistador é mais dominante do que no caso dos oralistas. Os oralistas devotam cuidados interpessoais no estabelecimento do texto. Os sociólogos que se valem das entrevistas, por sua vez, sentem-se mais à vontade para fracionar o uso do discurso.CC: Como tratar questões de desvios, invenções, alteração da verdade, mentira, silêncio em história oral? Ou seja, existe confiabilidade nas entrevistas?JCSBM: A exposição dessas variações é o patrimônio maior possibilitado pela história oral. Notar “desvios”, propositais ou não, implica dar passagem para o imaginário e para a vocação utópica das narrativas. Da mesma forma, os silêncios, interrupções, fazem com que a narrativa ganhe sentido em sua significação subjetiva. Além do trabalho de “tradução” do oral para o escrito, que deve incorporar essas situações, advoga-se a qualidade do texto que deve levar em conta o receptor. Com isso critica-se o ipsis litteris, ou a transcrição dita fiel. Há critérios na produção do texto e, sobretudo, para a legitimação, ou autorização dada pelo colaborador. Essa autorização é vital para qualificar a identidade do narrador com sua expressão.CC: Qual o futuro da história oral?JCSBM: A história oral conquistou definitivamente seu espaço. Seja na academia, seja no âmbito da história pública, dos meios empresariais ou familiares, há lugar para trabalhos que registram e assim propõem sentido às experiências. Na universidade, reino privilegiado dos documentos escritos, a história oral demorou a se impor. Contudo, a institucionalização do trabalho com entrevistas é um fato irreversível. Por outro lado, benefício decorrente, a história oral se impôs também como elo entre o trabalho acadêmico e a vida fora dos muros escolares. Em direção contrária, também é justo apontar o reconhecimento crescente que os trabalhos comunitários têm feito, valendo-se dos ensinamentos e práticas acadêmicas* Gianni Carta é editor do site de CartaCapital. É jornalista e cientista político formado pela Universidade da Califórnia e mestre em relações internacionais pela Universidade de Boston. Foi correspondente da CartaCapital na Europa durante 17 anos. Em seus mais de 20 anos no exterior, também foi correspondente da Isto É, Diário do Grande ABC, repórter especial da BBC World Service, da rede de tevê norte-americana CBS e do semanário GQ (Europa). Contribuiu para, entre outros, The Guardian e Radio Five Live. Seu último livro é Às Margens do Sena (com Reali Jr., Ediouro, 2007).** Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Gianni Carta*, da Carta Capital
Geraldo Alckmin. Legislação

Alckmin vai jogar crianças na rua?

[caption id="attachment_29474" align="alignleft" width="300" caption="Geraldo Alckmin."][/caption]A resposta a essa pergunta é: há um grande risco.Como noticia a Folha, o governador Alckmin quer aumentar o risco do aluno que não aprende repetir o ano, fazendo mais uma prova na sétima série. Mas não é mesmo o que tem que ser? O aluno não aprende, não passa.Isso para mim é ignorância, da qual a maior vítima é o aluno.Uma ignorância repetida demagogicamente nas campanhas eleitorais, defendida pelo PT e, agora, aceita pelo PSDB, para agradar pais e professores. Significa que estão mais de olho nas urnas do que nos alunos.A maior parte do problema de aprendizagem não é do aluno. Ele é vítima de classes superlotadas, currículo desinteressante, professores desmotivados e despreparados. Na maioria das vezes, o aluno vem de famílias desestruturadas e com baixo repertório cultural. Não recebe assistência médica ou psicológica.Para piorar, são poucos os sistemas de recuperação para quem não consegue aprender. É algo que deveria ser feito todos os dias para evitar uma bola de neve.A classe fica, portanto, um inferno; os professores têm razão de reclamar, afinal muitos alunos não conseguem acompanhar as aulas. Nem sabem ler direito.Mas o caminho mais fácil vira punir a vítima, com aplausos dos pais e professores, em meio a alguns educadores ignorantes e atrasados.O resultado é visto em pesquisas: repetência afeta ainda mais a autoestima e aumenta a evasão escolar, colocando crianças e adolescentes mais próximos da rua. É um problema a menos em sala de aula. Um problema a mais para a sociedade.* Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, comentarista da rádio CBN, e fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz.** Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Gilberto Dimenstein*
1 Escolas

As crianças fazem as leis

A menina me havia advertido: para entender a sua escola eu teria de me esquecer de tudo o que eu sabia sobre as outras escolas… Lembrei-me da pedagogia de Ricardo Reis: “…tendo as crianças por nossas mestras…”. E ali estava eu, um velho, aprendendo de uma criança!Quis aprender um pouco mais. Perguntei: “Vocês não têm problemas de disciplina? Não há, entre vocês, os valentões que há em todas as escolas, que agridem, ofendem, ameaçam e amedrontam?”“Ah”, ela me respondeu. “Temos sim. Mas para esses casos temos o tribunal…”“Tribunal?”, perguntei curioso. Mais uma coisa que eu nunca vira em escolas!Ela então me explicou: “As leis de nossa escola foram estabelecidas por nós mesmos, alunos. Temos então de zelar para que essas leis sejam cumpridas. A responsabilidade com o cumprimento das leis é nossa e não dos professores e do diretor. Somos nós, e não eles, que temos de tomar as providências para que a vida da escola não seja perturbada. Quando um aluno se torna um problema ele é levado a um tribunal –tribunal mesmo, com juiz, advogado de defesa, advogado de acusação– e é julgado. E a comunidade de alunos toma a decisão cabível”.Voltei à Escola da Ponte um ano depois e fui informado de que o tribunal deixara de existir. A razão? Um aluno terrível fora levado a julgamento. O juiz –não me lembro se menina ou menino– nomeou o advogado de acusação, e o réu nomeou seu próprio advogado. No dia marcado, reunidos os alunos, o advogado de acusação proferiu a sua peça, tudo de mau que aquele menino havia feito. O diretor, que apenas assistia à sessão, relatou-me sua impressão: “O réu estava perdido. A peça acusatória era arrasadora…”Chegou a vez do advogado da defesa que ficou mudo e não conseguiu falar. A presidência do tribunal nomeou então um advogado ad hoc, uma menina que teve de improvisar. E essa foi sua linha de argumentação:“Vocês são todos religiosos, vão ao catecismo e aprendem as coisas da igreja. Vocês aprenderam que quando alguém está em dificuldades é preciso ajudá-lo. Todos vocês sabiam que o nosso colega estava em dificuldades. Precisava ser ajudado. Eu gostaria de saber o que foi que vocês, que aqui estão assentados como júri para proferir a sentença, fizeram para ajudar nosso colega…” Seguiu-se um silêncio profundo. Ninguém disse nada.A menina continuou: “Então vocês, que nada fizeram para ajudar esse colega, agora comparecem a esse julgamento com pedras na mão, prontos a apedrejá-lo?”Com essa pergunta, o tribunal se dissolveu porque perceberam que todos, inclusive o juiz e o advogado de acusação, eram culpados. Como é que estão resolvendo agora o problema da indisciplina e da violência?Criaram um novo sistema, inspirado numa história da escritora Sophia Mello de Breyner Andressen que conta de uma fada –acho que o seu nome era Oriana– que vivia para ajudar crianças em dificuldades. Como funciona? É simples. Quando um aluno começa a apresentar comportamento agressivo forma-se um pequeno grupo de “fadas Orianas” para impedir que a agressão e a violência aconteçam. Pelo que me foi relatado, as fadas Orianas têm tido resultados muito bons. Quem sabe coisa parecida poderia funcionar com os bullies que infernizam a vida dos mais fracos nas escolas…Veja o início da história aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.* Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).** Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Rubem Alves*
1 Legislação

Ampliação do ano letivo em dez dias aumenta aprendizado do aluno em até 44%, segundo estudo

Brasília – O aumento de dez dias no ano letivo pode elevar o aprendizado do aluno em até 44% no período de um ano. É o que aponta estudo do secretário executivo da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Ricardo Paes de Barros. O trabalho levou o Ministério da Educação (MEC) a discutir a possibilidade de ampliar a carga horária mínima das redes de ensino, que hoje tem 800 horas distribuídas em 200 dias.Segundo Paes de Barros, a medida é importante para combater a desigualdade e tem efeito especial entre os alunos de baixa renda que não podem pagar reforço escolar ou contar com a ajuda dos pais, com baixa escolaridade, para aprender todo o conteúdo. “Ter férias muito prolongadas pode não ser a melhor ideia para um país que precisa acelerar seu desempenho em educação na velocidade em que o Brasil precisa.”A ideia de aumentar a permanência do aluno na escola foi apresentada pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, na semana passada. Entretanto, o governo ainda não definiu como será feita a mudança – se por meio da ampliação da carga horária diária ou do número de dias letivos. O assunto está sendo discutido com os secretários estaduais e municipais de Educação.De acordo com Paes de Barros, não há estudos que comprovem cientificamente que o aumento do número de horas diárias tenha eficácia no aprendizado. Em termos de custos, ele ressaltou que pode ser mais vantajoso aumentar o número de dias, já que não é necessário ampliar ou melhorar a infraestrutura das escolas já existentes. Ele citou exemplos de países como Japão, Coreia do Sul e Israel, que têm anos letivos de 243 dias, 220 dias e 216 dias, respectivamente.Segundo Haddad, o governo trabalha com a ampliação máxima de 20 dias letivos no ano. Isso, acrescentou, não terá impacto na carreira do professor, que tem 30 dias de férias por ano, além de 15 dias de recesso. Mas não está descartada a possibilidade de, ao mesmo tempo, aumentar o número de horas por dia e de dias letivos por ano.“A qualidade da educação não vai vir por inércia, ela exige esforço. Acho que está mais do que na hora de rever a questão do número de horas por ano que a criança fica exposta ao professor. O que esse estudo mostra é que o impacto do aumento dos dias por ano é forte” defendeu o ministro.Edição: João Carlos Rodrigues.* Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Amanda Cieglinski, da Agência Brasil
1 Sociedade

Análise de diretor da Capes aponta disparidade entre riqueza de municípios e desempenho das redes de ensino

Brasília – Estudo realizado pelo diretor de Educação a Distância da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), João Carlos Teatini de Souza Clímaco, aponta que os municípios ricos (em tese, com mais recursos para investir em educação) têm redes de ensino público com baixo desempenho. Em documento de circulação interna no Ministério da Educação (MEC), Teatini comparou o Produto Interno Bruto por habitante (PIB per capita) das 159 maiores cidades brasileiras (de mais de 150 mil moradores) com o desempenho dos estudantes medido pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2005, 2007 e 2009. “O que a gente registra é uma disparidade enorme em municípios muito ricos, com PIB per capita muito elevado, que, no entanto, tem um desempenho de suas escolas e de seus alunos sofrível”, disse comparando inclusive com municípios menores e com municípios mais pobres. “Alguns municípios muito ricos estão investindo em times de futebol, em clubes na liga de vôlei ou basquete e, no entanto, a educação permanece com índices muito baixos. O município rico deveria investir muito mais em educação”, assinalou o diretor. Para Teatini, há um problema de cultura política: “o prefeito se notabiliza por asfaltar ruas, por construir viadutos”, comentou. Segundo ele, a disparidade ocorre inclusive entre os municípios beneficiados com a atual distribuição de royalties do petróleo, como é o caso de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, o terceiro município mais rico em PIB per capita do país, mas cuja nota dos anos iniciais do ensino fundamental no último Ideb foi 3,2 – abaixo da média nacional de 4,6. De acordo com o site da prefeitura de Campos, a Secretaria de Educação do município está realizando esta semana encontro com os diretores das escolas e das creches “para a mobilização em defesa dos royalties”. A conta da prefeitura é que o município possa perder 80% dos seus recursos (R$ 1,4 bilhão anual) com a mudança na atual distribuição. Para o presidente da Capes, Jorge Guimarães, a discussão sobre o uso dos royalties do petróleo extraído da camada pré-sal tem que observar o gasto com educação. “Nós estamos nessa briga do pré-sal. Se nós distribuirmos o dinheiro para prefeitura despreparada, vão fazer calçada de mármore”, alertou. O ministro da Educação, Fernando Haddad, disse à Agência Brasil que “a melhor maneira de investir os royalties é em educação”. Além de apontar para o baixo investimento em educação por parte de municípios ricos, o diretor de educação a distância da Capes reclama que muitos professores não conseguem estudar em cursos oferecidos pelo MEC para conclusão da licenciatura obrigatória, porque não conseguem transporte nem liberação para frequentar cursos. “Há municípios onde a maior dificuldade é o prefeito liberar parte da carga horária dos professores contratando substitutos e dando apoio em transportes para o deslocamento.” Edição: Lílian Beraldo. * Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Gilberto Costa, da Agência Brasil
Frei Gilvander ao lado da Beatriz Cerqueira, diretora sindical. Foto: Thais Ferraira Protesto

Somos todos professores

Movimentos sociais, estudantil e sindicatos de outras categorias apoiam a greve dos trabalhadores da educação.[caption id="attachment_29487" align="alignleft" width="300" caption="Frei Gilvander ao lado de Beatriz Cerqueira, diretora sindical. Foto: Thais Ferraira"][/caption]Cerca de quarenta entidades estão articuladas no apoio à greve dos professores, que conta com manifestações de solidariedade de intelectuais como Leonardo Boff, Frei Betto, Fernando Moraes e Luís Fernando Veríssimo.Soniamara Maranho, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), conta que setores da classe trabalhadora perceberam a importância da greve, principalmente depois que o Estado tentou fragmentar, cooptar e criminalizar a categoria.“Essa é uma categoria maciça e importante, são pessoas para quem entregamos nossos filhos. Se eles fossem derrotados, seria uma derrota para nós também dos movimentos sociais e sindicais. Queremos fazer da greve um fato político estadual e nacional, construir unidade, fortalecer o movimento”, afirma.Segundo ela, a participação de outros setores no apoio às assembleias e atos dos trabalhadores da educação levou força e animou os grevistas. Renan de Carvalho dos Santos, do Levante Popular da Juventude, também participa da articulação junto a sindicatos, movimento estudantil e movimentos sociais. Sua organização ajuda no processo de agitação e propaganda. “Assim a gente atrai a juventude que muitas vezes não está acostumada a participar de mobilização”, conta. “A gente entende que essa briga dos professores é central para toda a sociedade. Mesmo o jovem que está sendo prejudicado pela greve, enxerga que é uma coisa maior, que ele tem que abrir mão do seu umbigo. A pauta da educação beneficia a todos”, completa.Rede privadaNilton de Souza, professor de matemática, milita no Sindicato dos Professores de Minas Gerais (Sinpro-MG), que representa os docentes da rede privada, que também apoia a greve. Ele afirma que na rede particular há muitos problemas, como a superexploração e a exigência excessiva. “O professor é submetido a um ritmo de trabalho muito desgastado, que provoca muito estresse. A educação é um drama em todos os níveis. Dentro de pouco tempo ninguém vai mais se dispor a dar aula”, diz.Perguntado se os alunos vão ficar prejudicados pelo tempo sem aula, ele afirma: “a luta da educação diz respeito a todo mundo. É preciso que os alunos e os pais saibam e tenham uma análise dessa situação, quem está causando os problemas e porque está acontecendo essa greve prolongada”. Sandra Xavier, de 16 anos, concorda: “nós precisamos é de uma boa educação e não essa vergonha que eles dizem ser educação. Minha escola não está em greve, mas me vejo no direito e no dever de apoiar meus colegas estudantes e professores”.Laíson José dos Santos vendia pipoca para os grevistas. Ele tem um filho de oito anos, e acha ruim a criança ficar sem aulas. “Mas estou do lado dos professores. Eles não ganham direito para cuidar dos filhos da gente, é um absurdo.”Paulo Henrique, da diretoria do Sind-UTE afirma que a unidade conquistada com outras categorias e movimentos é um ganho permanente. “Queremos continuar com essa força de organização solidária em outros movimentos da luta dos trabalhadores, dos movimentos sociais, que ultrapassa a categoria dos educadores”, pontua.* De Belo Horizonte (MG).** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Joana Tavares*, para o Brasil de Fato
O escritor é celebrado na cadeia feminina do Recife. “Tenho a vaidade de ser professor”, diz. Por Celso Calheiros. Foto:Daniela Nader Cultura

A melhor aula de Suassuna

[caption id="attachment_29490" align="alignleft" width="300" caption="O escritor é celebrado na cadeia feminina do Recife. “Tenho a vaidade de ser professor”, diz. Foto: Daniela Nader"][/caption] Aos 84 anos, Ariano Suassuna reflete: “Tenho a vaidade de ser professor”. O autor de romances, peças e poesias aclamados pelo público e pela crítica mantém atualmente uma rotina especial como secretário do governo de Pernambuco. Estabeleceu a missão de levar suas aulas-espetáculo por todo o Estado. O mestre conta que, das 128 apresentações em 67 municípios, por teatros, auditórios, favelas, praças e ginásios, a que mais gostou foi a do Presídio Feminino do Bom Pastor, no Recife. Gostou tanto que voltou na última terça-feira de agosto. Nesses espetáculos, Suassuna atua como um professor sentado na mesa no canto do palco, de onde faz as introduções a cada apresentação de música e dança. Todas as cinco aulas que idealizou tratam de um tema que defende com generosidade: a cultura brasileira. Em 2008, foi convidado pela direção do presídio a apresentar Nau, com seu roteiro repleto de danças africanas, indígenas e portuguesas, coreografias que ajudam a compreender a origem das nossas manifestações. A recepção das detentas foi tão gratificante, lembra o escritor, que, quando finalizou a sua nova aula, Chamada ao Piano, pediu para voltar ao presídio feminino. “Mesmo correndo o risco de parecer oferecido.” Suassuna é muito querido, isso sim. Entre as presas é uma celebridade, um ídolo com torcida familiarizada. Ao chegar no horário combinado no Bom Pastor, foi recebido com palmas, gritos, beijos nos bebês de colo presentes na unidade prisional. Uma festa com a participação de praticamente todas as 625 detentas, no pátio central. “Gostei muito quando estive aqui, em 2008”, inicia. “Para mim, foi a melhor aula que dei.” Em seguida, arranca algumas gargalhadas ao explicar, com versos de poeta popular, o seu temor em retornar àquele público. Nunca vi homem valente, que não fosse ferreiro/ Homem de fala mansa, que não fosse traiçoeiro/ O segundo prato, com o gosto do primeiro. Em Chamada ao Piano, ele anuncia gravações de composições feitas por pianistas pernambucanos no fim do Século 19 e primeira metade do 20. “Não existe música velha ou nova. O que existe é música boa e música ruim.” Uma valsa de Euclides Fonseca abre o espetáculo, todo coreografado por Maria Paula Costa Rego, que também dança na companhia de quatro bailarinos formados em grupos populares. A cada música, uma nova coreografia no palco que Suassuna chama de circo. “Tinha vontade de ser palhaço na infância e, quando fui convidado para ser secretário, pedi ao governador para montar esse circo e apresentar meu espetáculo por aí.” O segundo número apresentado é um tango brasileiro. “Em nada parecido com o tango argentino. O nosso tango é a origem do choro.” Na sequência, o público ouve e vê uma quadrilha, um maxixe, um maracatu, uma marcha carnavalesca e, ponto alto da apresentação, o Choro Número 5, de Capiba. A leveza e a graça do bailarino Gilson Santana, o mestre Meia-Noite, arrancaram gritos, aplausos e assobios em cena aberta em três momentos. Antes de sair do palco, o escritor assistiu a uma apresentação das detentas. As alunas da Escola Olga Benário (que funciona no presídio) leram poesias dedicadas a Suassuna e são acarinhadas pelo homenageado, um cavalheiro que beija a mão das damas. O autor e sua plateia preferida têm uma relação que escapa às explicações apressadas. A visita a presídios, entre eles o próprio Bom Pastor, faz parte da infância de Suassuna. Começou em 1930, quando o primo legítimo de sua mãe, João Dantas, ficou preso na Casa de Detenção do Recife depois de matar João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, então presidente da Paraíba, em 26 de julho daquele ano. O futuro escritor, então com três anos, afirma lembrar-se dessa passagem. O crime de Dantas foi passional, mas entrou para a história do Brasil. João Pessoa morreu por ter dado publicidade a cartas íntimas, trocadas entre Dantas e sua namorada, Anayde Beiris. As cartas foram obtidas pela polícia, que invadiu o escritório de Dantas e arrombou seu cofre. João Pessoa era candidato a vice-presidente da República e, sobretudo, adversário político dos Suassuna. Sua morte foi usada como estopim da Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Dantas foi preso. Anayde Beiris foi para o Instituto Bom Pastor (onde hoje funciona o presídio feminino) e também recebeu a visita do pequeno Suassuna. No dia 6 de outubro, Dantas é degolado em sua cela. No dia 22, Anayde Beiris, então com 25 anos, tira sua própria vida com veneno. A sequência de tragédias a envolver a família Suassuna não para por aí. O deputado federal João Suassuna, pai de Ariano, foi morto em outubro daquele ano, na capital da República, baleado nas costas, na tradição covarde dos crimes de encomenda. Parte em vingança pela morte de João Pessoa, parte por causa da violência que marcou a revolução. No bolso de João Suassuna, uma carta endereçada à sua mulher pedia para que nenhum dos seus nove filhos vingasse sua morte. O Bom Pastor funciona como unidade de triagem, na qual as mulheres aguardam julgamento. A maioria (57%) responde por tráfico de drogas. São jovens entre 22 e 35 anos, de acordo com os dados da Secretaria de Ressocialização. Iara Pradines, 50 anos, está presa há quatro anos por posse de pasta-base de cocaína. O que ela acha da visita de Suassuna? “As mulheres aqui vivem uma fase difícil de suas vidas. Todas nós sabemos que erramos, mas quem não precisa de apoio para sair do fundo do poço? Ariano nos dá atenção, nos oferece conforto. Aqui, o que mais ouvimos é que não temos solução. Algumas vezes, até a família nos abandona. Ele vem aqui nos mostrar que não estamos excluídas.” * De Recife. ** Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Celso Calheiros*, para a Carta Capital
Florestan Fernandes. Cultura

Florestan Fernandes, um intelectual do povo

Conheça a trajetória do sociólogo que não limitou seu conhecimento e sua militância aos muros da universidade.[caption id="attachment_29493" align="alignleft" width="300" caption="Florestan Fernandes."][/caption]No dia 10 de agosto, completaram-se 15 anos da morte do sociólogo Florestan Fernandes. Obviedade dizer que se trata de um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve, mas é preciso ressaltar que, além da sua rica produção, ele não a confinou aos muros da universidade. Como lembra Barbara Freitag, professora titular do departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), no artigo “Florestan Fernandes: revisitado”, ele conseguiu encarnar o sentido da palavra “intelectual” utilizado por Jürgen Habermas, como aquele que “se caracteriza, entre outras coisas, pelo fato de que abre mão de qualquer dimensão elitista, e de que fala, no espaço público, não como um intelectual de partido, ou como um conselheiro do rei, mas somente em seu próprio nome, como cidadão, naturalmente com o objetivo de convencer os outros”.Homem crítico e conectado com as grandes questões do seu tempo, o sociólogo paulista teve contato muito cedo com a realidade brasileira. Começou a trabalhar aos seis anos como engraxate e passou por diversas outras ocupações para auxiliar no sustento próprio e da família. Filho de uma migrante portuguesa que prestava serviços domésticos, seu nome de batismo foi inspirado no personagem principal da ópera Fidélio, única escrita por Beethoven. Mas ganhou da patroa de sua mãe – também sua madrinha –, Hermínia Bresser de Lima, a alcunha de “Vicente”, pois a origem estrangeira do nome do futuro intelectual incomodava a matriarca da aristocrática família. Este, além de outros atos que denunciavam a perspectiva senhorial e autoritária da elite brasileira, fariam parte das reflexões de Florestan mais tarde.Com uma infância e adolescência ocupadas com o trabalho, o estudo ficou em segundo plano e aos nove anos abandonou as salas de aula, voltando apenas aos 17, quando fez o madureza, uma espécie de curso supletivo. Aos 21, entrou no vestibular para a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e, no começo de 1941, iniciou o curso de graduação em Ciências Sociais. No entanto, teria muitas dificuldades nesse ingresso na vida acadêmica, confessadas no livro A Sociologia no Brasil (Editora Petrópolis), que ajudariam a formar o perfil e atuação do intelectual.“A cultura dos meus mestres estrangeiros me intimidava. Eu pensava que jamais conseguiria igualá-los. O padrão era demasiado alto para nossas potencialidades provincianas – para o que o ambiente poderia suportar – e especialmente para mim, com a minha precária bagagem intelectual e as dificuldades materiais com que me defrontava, as quais roubavam grande parte do meu tempo e das minhas energias do que gostaria de fazer. Contudo, como me propunha a ser um professor de nível médio, as frustrações e os obstáculos não interferiam no meu rendimento possível. O desafio era trabalhado psicologicamente e, na verdade, reduzido à sua expressão mais simples: as exigências diretas das aulas, das provas e dos trabalhos de aproveitamento. Com isso, empobrecia o meu horizonte intelectual e humano. No entanto, não poderia sobrepujar-me e resolver os meus problemas concretos sem essa redução simplificadora, que se corrigiu por si própria, na medida em que progredi como estudante e adquiri uma nova estatura psicológica. Em suma, o Vicente que eu fora estava finalmente morrendo e nascia em seu lugar, de forma assustadora para mim, o Florestan que eu iria ser.”A questão do negroFreitag sugere uma divisão da obra de Florestan em três fases. A primeira se situa entre 1941 e 1968, antes da sua aposentadoria compulsória decretada pelo regime militar. No período, escreveu obras como Organização Social dos Tupinambás (1949) e A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá (1952), Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica (1959) e A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1965). Esta última, resultado de sua tese de cátedra em Sociologia na USP, é significativa por dar uma nova direção ao estudo da situação racial no Brasil, contrapondo-se a muitas proposições apresentadas, por exemplo, em Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre.O livro trata da abolição e de como ela foi incompleta, partindo da análise do que ocorreu na cidade de São Paulo. Apesar da libertação, o Estado brasileiro não garantiu uma igualdade de fato entre os negros recém-libertos e os brancos, estabelecida apenas no plano jurídico. Para o autor, era preciso observar a herança escravista, evidenciando o preconceito racial como um dos aspectos de um processo que marca as relações sociais no Brasil, ligadas ao desenvolvimento do capitalismo no país.A reinterpretação de Florestan a respeito dessa questão remete a um traço marcante da sua trajetória, que é a análise da sociedade a partir da ótica da exclusão. "Os negros são os testemunhos vivos da persistência de um colonialismo destrutivo, disfarçado com habilidade e soterrado por uma opressão inacreditável. O mesmo ocorre com o indígena, com os párias da terra e com os trabalhadores semilivres das cidades", explica a socióloga Heloísa Fernandes, filha de Florestan.Sua preocupação com as relações raciais, no entanto, aparece antes de A Integração do Negro na Sociedade de Classes. No início dos anos 1950, a Unesco realizava uma pesquisa no Brasil querendo desvendar como o país se constituía em um contraponto positivo à segregação racial existente nos Estados Unidos já que aqui, supostamente, a convivência entre negros e brancos era mais harmoniosa, mesmo levando-se em conta o recente passado escravista. Apesar dos recursos escassos, principalmente diante do tamanho do estudo, Roger Bastide convenceu seu colega de USP a aceitar a empreitada.Conforme relatado por Haroldo Ceravolo Sereza, autor de Florestan – A Inteligência Militante (Boitempo Editorial), “o resultado do trabalho apontou numa direção oposta à tese da Unesco. Embora o preconceito de cor tivesse, em São Paulo, de fato, contornos diferentes do preconceito nos Estados Unidos, a pesquisa revelou que ele existia, guardava profundas raízes com a escravidão e, o que é muito significativo, também com o seu fim”.As reações aos resultados da pesquisa foram narradas pelo próprio sociólogo no Seminário de Cultura Brasileira, realizado em São Paulo, em 1984, cuja exposição está em Florestan Fernandes – Leituras e Legados (Global Editora). “De imediato, fomos considerados ‘tendenciosos’ e responsáveis pela ‘deformação da verdade’ em vários níveis da sociedade circundante. Houve mesmo uma ocorrência típica. O diretor de uma escola de sociologia que afirmou publicamente que Bastide e eu estávamos introduzindo ‘o problema’ no Brasil! A comunidade negra, por sua vez, exagerou a importância da nossa contribuição. Estava maravilhada com o fato de termos rompido aquele isolamento psicossocial e histórico, feito dele uma arma da razão e da crítica. Principalmente, ficaram encantados com o fato de suas lutas terem encontrado resposta e confirmação. Parecia-lhes que a sociologia lhes abria uma ‘ponte de justiça’, acenando com a perspectiva de que aquilo que não se convertera em história poderia vir a sê-lo no futuro próximo.”A revolução burguesa que não houveEm abril de 1969, um acontecimento traumático afetou a trajetória de Florestan. Ele perdeu sua cátedra de Sociologia na USP, sendo aposentado compulsoriamente pelo regime militar, em razão do Ato Institucional nº 5. Aquilo, segundo suas próprias palavras, foi “um processo de desabamento de sua relação com o mundo intelectual”. A ditadura havia lhe tirado sua razão de ser e, impedido de dar aulas no Brasil, aceitou um convite da Universidade de Toronto para lecionar e rumou, sem sua família, para o Canadá.  “Florestan não podia mais aparecer em público, escrever para jornais, manifestar sua oposição à ditadura que governava mediante odiosos ‘atos institucionais’. Reagiu de duas formas ‘radicais’ a essa limitação: aceitou uma cátedra no Canadá e passou a usar os conceitos marxistas, falando em ‘luta de classes’ e ‘revolução’, processos sociais a serem alimentados para superar a ditadura imposta no Brasil”, analisa Freitag.O período de exílio durou até 1971, mas mesmo de volta, sua clausura prosseguiu, como ele mesmo relatou. “Fui para Toronto e fiquei lá pensando que podia lutar ali contra a ditadura. Depois, descobri que lá não se luta contra a ditadura. Os que nos ouviam eram pessoas que eu não precisava convencer (...). O esforço lá, ia na direção de fortalecer a ditadura. Por isso é que pensei: eu volto para o Brasil e lá eu vou poder lutar. Vim para cá e não pude lutar coisa alguma, porque realmente de 1973 em diante vivi dentro de um isolamento tremendo. Até 1975 eu tinha o que fazer dentro da produção anterior. Podia viver, assim, o isolamento de maneira equilibrada. Mas, depois, não. Depois eu resvalei. E a radicalização pela qual eu passei engendrou o desequilíbrio, que tive de enfrentar como pessoa. Não vá pensar que um intelectual, um sociólogo, está livre das contingências que afetam todos os seres humanos. E na medida em que eu estava isolado eu vi amigos e companheiros que sequer se lembravam de mim, eu fiquei prisioneiro da família. (...) Dei alguns cursos no Sedes e um cursinho sobre a teoria do autoritarismo, uma coisa intermediária. De repente, me vejo diante de um curso e da necessidade de engolir a condição de professor, que eu não queria engolir de novo. Realmente o que eu queria era exatamente voltar a uma atividade militante e só militante. Daí essa tensão, essa frustração.”Florestan, como disse certa vez, viajou como “sociólogo e socialista” e retornou “socialista e sociólogo”. E é nesse período que publica uma de suas obras cruciais, A Revolução Burguesa no Brasil, que havia começado a escrever, com base em anotações de aulas, em 1966. O objetivo, de acordo com a nota explicativa do autor, era dar uma “resposta intelectual à situação política que se criara com o regime instaurado em 31 de março de 1964”. Incompleto devido à sua aposentadoria, ele retomou o trabalho, redigindo a terceira parte do livro no segundo semestre de 1973.“Escrito em um período de maturidade intelectual, praticamente todas as reflexões anteriores dele estão condensadas nessa obra”, comenta Lidiane Soares Rodrigues, doutoranda em História na USP. “Hoje, ele tende a ser lido pelo enfoque das relações internacionais, porque é o tema mais candente, e se discute muito atualmente a política externa, mas quando foi escrito a questão eram as possibilidades de formação da sociedade moderna na periferia do capitalismo e as formas de inserção do Brasil no cenário internacional como um país independente, autônomo, capaz de tomar decisões em benefício próprio”, completa. Falava-se, na prática, da constituição de uma sociedade moderna, aberta à ascensão social pelo mérito e na qual são concedidas condições minimamente equivalentes de acesso aos bens sociais.Mas esse modelo de sociedade, na visão de Florestan, não prosperou no Brasil. “Isso não se realizou porque nossa burguesia é conservadora e nossos padrões de sociabilidade também são extremamente conservadores”, explica Lidiane. Aqui, criaram-se as condições para que se desenvolvesse um “capitalismo dependente”, que seria, segundo Rachel Aguiar Estevam do Carmo, mestranda pela Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, fruto da “chamada dupla articulação, que seria o entrosamento econômico de maneira desigual e dependente entre os países que possuem maior desenvolvimento em detrimento dos países que possuem relações sociais ainda estamentais”.Na verdade, a revolução burguesa clássica não havia sido realizada no Brasil e traços sociais do passado, representados, por exemplo, pelas relações senhoriais, conviviam dentro de uma nova ordem econômica competitiva. Os novos atores econômicos não precisaram brigar com os antigos, mas os absorveram, passando a adotar também parte de seus métodos de dominação não capitalista.Para Florestan, a revolução que não havia sido feita pela burguesia nacional – e sem a qual não seria possível superar as mazelas sociais – teria que ser feita pelos trabalhadores. Mas não era algo simples. “Por isso que depois, nos anos 1980, ele vai gostar de se denominar como leninista, pois acredita que, no caso da periferia do capitalismo, revolução burguesa e socialista se confundem. Caberia ao sujeito proletário garantir ambas, seria na prática uma sobretarefa. A burguesia não fez sua tarefa histórica e restava ao proletariado fazer as duas”, explica Lidiane.“Quem leu a obra mais complexa de Florestan, A Revolução Burguesa no Brasil, não pode deixar de dar razão aos diagnósticos feitos pelo autor, denunciando os ‘obstáculos’ e ‘resistências’ criados pelas  classes detentoras do poder, via de regra brancos, para concretizar uma sociedade democrática justa, igualitária e desenvolvida”, reflete Barbara Freitag, em entrevista concedida por e-mail, questionando em seguida: “Será que a nação brasileira, integrando índios, negros e brancos, somente se realizaria por intermédio de uma verdadeira revolução socialista?”.O “político-revolucionário” e o PTEm 1975, Florestan passa por uma cirurgia de próstata e, ao receber uma transfusão de sangue, contrai o vírus da hepatite C, responsável por um processo contínuo de piora da sua saúde. Ao mesmo tempo adota uma postura mais publicista que já se acentuava desde sua cassação, em uma fase de sua produção chamada por Freitag de “político-revolucionário”. Nesse período, que duraria até 1986, quando se elege deputado federal constituinte pelo PT, ele “não somente muda de referencial teórico e conceitual, apoiando-se no materialismo histórico de Marx e Lenin, como se torna menos “científico” e mais polêmico, político e revolucionário.Fernandes percebera, na própria carne, que o indivíduo, mesmo altamente dotado e consciente para fazer o diagnóstico correto do seu tempo, não tem poder de transformação da sociedade como indivíduo isolado. Seu potencial de transformação da realidade global depende de conjunturas e tendências internacionais, nas quais o indivíduo singular submerge, sem poder de intervenção ou transformação”, analisa Freitag no artigo Florestan Fernandes: Revisitado.“Certamente, essa ruptura epistemológica não se deu da noite para o dia, como foi sua aposentadoria compulsória em decorrência do AI-5 de 1968. Já no Florestan reformista se encontrava o embrião do Florestan revolucionário. Mas talvez esse último não se desenvolvesse de forma tão radical e consistente em direção ao socialismo se a conjuntura política tivesse sido outra, ou melhor, se tivesse continuado o pacto populista-desenvolvimentista”, pondera a socióloga.Nesse sentido, Heloísa Fernandes explica que seu pai nunca foi um sociólogo dogmático. “Ele manteve a ideia de que a sociologia clássica, que ele denominava sociologia da ordem, detinha e expressava potencialidades criadoras, vinculadas à história e à inquietação intelectual, diferentemente da nova sociologia da ordem, aquela da fase monopolista do capitalismo, que perde a dimensão histórica e que ele denomina de ‘sociologia de defesa ativa da ordem’; quando o sociólogo tende a se tornar mero ‘paladino da ordem’, que ele concebe como um ‘problema técnico` e não mais histórico. Ela cita um trecho de A Natureza Sociológica para expressar essa visão. “Os computadores não invadiram, pois, apenas os ‘meios de conhecimento’ da sociologia. Eles impregnaram a imaginação sociológica, levando-a a praticar uma ‘redução cibernética da realidade’. Em consequência, a ordem deixa de ser um fato histórico (...)”.Assim, segundo Heloísa, para Florestan, a sociologia clássica, inclusive a da ordem, elabora teorias que permitem a construção, descrição e interpretação da realidade social. Suas categorias estão impregnadas de historicidade e o sociólogo a elas recorre como suas “caixas de ferramentas”. “Ele nunca defendeu a ideia de que os métodos de investigação e interpretação devessem ser escolhidos por critérios políticos. São os problemas investigados que determinam os instrumentos de investigação”, aponta. “Aliás, eu mesma defendi na minha apresentação Florestan Fernandes: um Sociólogo Socialista ao livro Dominación y Desigualdad: el Dilema Social Latinoamericano que: ‘Graças a este extraordinário conceito de ordem social, o sociólogo se manteve atento à exclusão da maioria da plena cidadania e o socialista não submergiu numa narrativa teleológica das classes sociais. Sua perspectiva sociológica manteve o foco nos condenados da terra, e estes estão aquém da classe operária, ou para além dos muros da ordem social competitiva, continuam ali, de onde ele próprio emergiu’.”Em maio de 1986, uma nova mudança na trajetória de Florestan. Após uma reunião com Lula, Eduardo Suplicy e José Dirceu, o sociólogo aceita o convite para ingressar no Partido dos Trabalhadores. Em entrevista descrita por Ceravolo Sereza, concedida ao jornal Convergência Socialista, que representava à época a esquerda trotskista do partido, ele justifica a escolha pela agremiação. “Havia poucas alternativas... eu poderia ter entrado no PT antes, se o PT tivesse antes se definido em termos de posições socialistas mais esquerdistas.” Eleito parlamentar com 50.024 votos, a quarta melhor votação petista em São Paulo – atrás de Lula, Plínio de Arruda Sampaio e Luiz Gushiken –, apesar de manter sua postura socialista, disse em uma entrevista em fevereiro de 1987, ao Jornal do Brasil, que era possível fazer composições com outros partidos em alguns pontos. “No que diz respeito à defesa da natureza como riqueza social para o Brasil, por exemplo, eu, que pertenço à extrema esquerda do PT, falo da mesma forma que Fábio Feldmann, eleito pelo PMDB.”Na Assembleia Constituinte, ocupou a subcomissão de Educação, Cultura e Esportes, tendo apresentado um total de 96 emendas, 34 das quais foram integradas ao texto final, dentre elas a que garante a autonomia das universidades. Em seu segundo mandato, em 1993, apesar de o PT ter decidido não participar da revisão constitucional, Florestan apresentou uma proposta de emenda para incluir políticas afirmativas de inclusão da população negra à Constituição, uma forma, segundo disse à época, de “corrigir uma injustiça que desgraça as pessoas e as comunidades negras”. Mas um acordo entre líderes partidários fez com que a emenda não entrasse na pauta de votação, e parte do que o sociólogo vislumbrava no texto só sairia do papel mais de uma década depois.No parlamento, sua principal preocupação foi a educação. Isso o leva a um embate, em seu segundo mandato, com o senador e antropólogo Darcy Ribeiro (PDT), durante as discussões para a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). “O papel dele nos embates que culminaram com a elaboração da LDB foi fundamental”, avalia Kátia Lima, doutora em Educação e professora da Universidade Federal Fluminense. “Os debates realizados no parlamento e nas atividades organizadas pelo Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública, importante polo aglutinador dos movimentos sociais, sindicais e estudantis, em defesa da educação pública e gratuita, culminam na versão elaborada pelo senador Cid Sabóia. Estes debates adquirem novos rumos com a apresentação, em 1992, de um substituto para o projeto de LDB elaborado por Darcy Ribeiro. O senador, ignorando o trâmite democrático do projeto de Cid Sabóia, ocorrido na Câmara e no Senado, formulou, com a assessoria de membros do Ministério da Educação, outro projeto”, relata. “Todo este processo foi vivido intensamente por Florestan, acusado, injustamente por Darcy de abandonar os trabalhadores, que estudavam à noite em péssimas escolas, à própria sorte. Este embate entre os dois constitui, na minha avaliação, a expressão do embate histórico entre projetos antagônicos de educação e de sociabilidade: o projeto em torno da luta pela educação pública e gratuita, por um lado, e a ‘liberdade de ensino’, por outro, defendida pelo setor privado leigo e confessional.”O descanso do lutadorJá no fim do segundo mandato, a saúde de Florestan estava debilitada e o fato de ter conhecido o Legislativo “por dentro” o desanimou de tentar mais uma eleição. “Ele estava desiludido com a luta política e conheceu uma face do poder que até então não conhecia. Pediram para ele se candidatar novamente e ele veio falar comigo, dizendo que nunca havia tirado férias, que precisava descansar, mas tinha medo de ser taxado de ‘traidor’. Ele não acreditava mais nas possibilidades do Congresso Nacional, mas mesmo assim sua postura ética era tão forte que ele ainda hesitava”, relembra Heloísa Fernandes.Assim, seguiu lutando contra os efeitos da hepatite e continuou participando do debate público por meio de artigos publicados na Folha de S.Paulo. No dia 10 de agosto de 1995, após menos de uma semana de um transplante de fígado fracassado, Florestan faleceu, deixando, além da vasta obra que o situa como um dos maiores sociólogos e pensadores políticos da história do Brasil, também um exemplo de militância, de alguém que sempre privilegiou a perspectiva dos excluídos em um meio acadêmico que muitas vezes dá as costas a eles. E hoje, sua ausência ainda é sentida no âmbito das discussões públicas. “Ele era sempre o ‘chato’, quando todo mundo estava muito satisfeito, chegava e ponderava que não era por aí. No debate político essa figura é muito importante, sem alguém assim, descambamos para a direita ou para o conformismo de uma maneira mais fácil”, analisa Lidiane Rodrigues.A filha Heloisa conta como a morte do pai a fez se afastar da universidade e de que forma a força de sua presença a fez retornar. “Quando meu pai estava doente, queria ficar mais próxima dele, mas tinha muitas atividades acadêmicas. O fato de não poder conviver com ele nessa fase me deixou com um ódio profundo da universidade. Quando me aposentei fiquei totalmente afastada, fazia tecelagem, cheguei a importar livros... Não queria falar do meu pai, ficava péssima e não participava de homenagens, solenidades, eventos”, relembra.“Na inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes, meu irmão estava viajando e ele pediu para eu ir. Minha mãe ficou uma hora no telefone tentando me convencer e neguei. Depois pensei que ela ia acabar indo, então voltei atrás. Estava irritada, ainda mais porque o evento ia ser no dia do meu aniversário. Naquela noite, sonhei que acordava com um barulho forte fora de casa. Levantava, olhava pela fresta da janela e via vários trabalhadores em um caminhão, com meu pai entre eles. Então ele descia e falava para mim: ‘Levanta, hoje é dia de festa’”, conta, emocionada. “Aquele dia foi o fim do meu luto.”*Matéria publicada na edição 89 da Revista Fórum,  de agosto de 2010 e retirada do site da revista.


por Glauco Faria, para a Revista Fórum
1 Brasil

Violência contra educadores e contra a educação em Minas

É hora de parar de olhar para o dedo e prestar atenção para onde a greve dos professores aponta."Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” (Bertold Brecht)A greve dos professores da rede estadual de Minas Gerais, como uma ocupação de propriedade que não cumpre a função social, revelou uma grande ferida: um problema social que com certeza não existiria se o povo mineiro tivesse recebido, historicamente falando, uma educação pública de qualidade.Uma professora, cujo nome fictício é Maria (é melhor não citar o nome para evitar retaliação), escreveu-me dizendo:“Tenho estado em sala de aula há 24 anos, desde 1987. Fui parar numa sala de aula da rede estadual de educação de Minas Gerais por amor à profissão e por incentivo salarial, pois quando comecei a lecionar, em 1987, o nosso salário base (vencimento básico) correspondia a três salários mínimos (hoje, R$ 1.635,00) para quem lecionava de 5ª a 8ª séries, e cinco salários mínimos (hoje, R$ 2.725,00) para quem lecionava para o ensino médio. Tinha perspectiva de carreira profissional. Com o tempo, vi a nossa situação piorando ano a ano, suportável durante algum tempo, mas há nove anos sinto-me no fundo do poço. Sou mãe e tenho dificuldades para manter as despesas da casa. Moro de aluguel, não consigo viajar em férias há uns seis anos, dependo de um Plano de Saúde que não funciona  (IPSEMG), gasto dinheiro com antidepressivos para conseguir trabalhar dois horários em condições que não carecem de serem descritas aqui. Sei que existem outras(os) professoras(res) em situações piores e me firmo nisso para não cair no desespero diante das consequências dessa nossa luta que é justíssima.”Esta é a realidade da maioria esmagadora das(os) professoras(res) em Minas. É isto que sustenta a mais longa greve de Minas. Não é a direção do SindUTE e alguns deputados, como alegam os que não ouvem os clamores ensurdecedores de milhares de professoras(res), como o descrito acima.É insensatez o governador Antonio Anastasia, o Ministério Público e o Tribunal de Justiça de Minas pensarem que vão resolver um grave problema social como o suscitado pela greve dos professores com repressão, com canetada judicial mandando voltar para a sala de aula, com propagandas mentirosas nas TVs (em horário nobre), jornais e rádios. Injustiça como a que estamos vendo com os trabalhadores e com a própria educação em Minas não pode ser jogada para debaixo do tapete.Aos que se vangloriam com a decisão do desembargador Roney Oliveira, do TJMG, “mandando” os professores voltarem para as salas de aula sem o atendimento das suas reivindicações, recordo o que disse Jean Jacques Rousseau: “As leis são sempre úteis aos que têm posses e nocivas aos que nada têm.”A questão levantada pelos professores de Minas, em greve há 103 dias, é um grave problema social que se resolverá somente com política séria, que passa necessariamente pelo respeito à Lei Federal 11.738/08, que prescreve Piso Salarial Nacional – vencimento básico, sem artifício de subsídio – de R$ 1.187,00, segundo o MEC e R$ 1.591,00, segundo a CNTE.É uma injustiça que clama aos céus, o governo de Minas (PSDB e DEM) pagar como vencimento básico somente R$ 369,00 para professores de nível médio por 24 horas; somente R$ 550,00 (quase um salário-mínimo) para professor(a) que tem um curso universitário e só agora, pressionado, prometer pagar apenas R$ 712,00 (a partir de janeiro de 2012) para todos os níveis, inclusive para educador(a) com mestrado e doutorado. Insistir em política de subsídio é continuar tratando a educação como mercadoria e matar a conta-gotas a categoria dos professores já tão esfolada. Será que vão querer, em breve, privatizar também a educação de 1º e 2º graus?Um provérbio chinês diz: “Quando alguém aponta, os sábios olham para onde o dedo aponta e os idiotas olham para o dedo”. As(os) educadoras(res) de Minas estão apontando para a necessidade e justeza de construirmos em Minas um sistema educacional público de qualidade. Isto é cultivar o infinito potencial de humanidade com o qual todo ser humano chega à nossa única casa comum: o planeta Terra. Mas, tristemente, muitos só veem o dedo dos professores: os estudantes de hoje sem aula. E os milhões de estudantes que de agora em diante poderão ser alijados do direito a uma educação pública e de qualidade?Às(aos) professoras(res) que não estão participando da greve e a todas as pessoas que não estão ajudando na luta justa dos professores de Minas, em greve, quero recordar o que nos ensinou Bertold Brecht.“Primeiro levaram os negros. Mas não me importei com isso. Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários. Mas não me importei com isso. Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis. Mas não me importei com isso, porque eu não era miserável. Depois agarraram uns desempregados. Mas como tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.” Afinal, a colheita sendo boa ou ruim, entre todas(os) será dividida.Dispõe o Artigo 205 da Constituição de 1988 que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.Como a educação, nos termos da Constituição Federal, deve ser promovida e incentivada visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, não pode um(a) professor(a), conforme o relato acima, calar-se diante de tanta injustiça do Estado no trato com a educação. Educa-se com o testemunho, com a ação. Professor(a) que está na rua, exerce e ensina cidadania, reivindica a efetivação de direito social, fundamental. Luta por um novo sistema educacional que passa pela valorização justa de cada profissional da educação.Ao fazer greve, os professores não estão sendo violentos, mas estão lutando pela superação de uma violência que os atinge cotidianamente. Violentos estão sendo o governo, o poder judiciário e o capitalismo que impõem um peso tremendo nas costas das(os) educadoras(res) e não reconhece o imprescindível papel que elas(es) cumprem neste país.* Gilvander Moreira é frei e padre carmelita, mestre em Exegese Bíblica e Ciências Bíblicas, professor de Teologia Bíblica, assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Via Campesina - e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br.** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Frei Gilvander Moreira*

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