A educação que transforma e colabora para o desenvolvimento sustentável

Artigo

A educação que transforma e colabora para o desenvolvimento sustentável


por Fernando Feitoza*


Nos últimos anos, muito tem se debatido sobre temas como sustentabilidade, desenvolvimento sustentável e economia verde, entre outros conceitos globais que surgem para apresentar à sociedade a importância da conservação dos recursos naturais, a reflexão sobre os atuais processos produtivos e a revisão de nossa cultura de consumo para que seja garantida a qualidade de vida das gerações atuais e futuras. Conceitos inovadores, muitas vezes complexos, e que dependem, necessariamente, da conscientização e do envolvimento de todos os setores da sociedade, com grande destaque para a participação popular.Uma pesquisa realizada pelo Instituto Vitae Civilis, em parceria com a Market Analysis, divulgada em outubro de 2011, apontou que apenas 11% da população brasileira já ouviu falar sobre a Rio+20, a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, o principal encontro mundial sobre o tema, que acontecerá em junho de 2012, no Rio de Janeiro. Imagine se a mesma pergunta fosse aplicada para outros eventos sediados pelo país, como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas, qual seria o resultado. Um exemplo claro de como a sustentabilidade ainda está distante do consciente coletivo, mesmo que presente no cotidiano de todos.Agora, como reverter esse quadro e tornar essas questões palpáveis à sociedade, mobilizando e integrando todos neste debate tão importante? Um caminho para isto, sem dúvida, é a educação. Ou, como chamamos na Fundação Espaço ECO, a Educação para a Sustentabilidade, termo que dá nome a um dos nossos eixos de atuação.Seria a educação capaz de mobilizar, engajar e conscientizar um indivíduo para ações em prol da sustentabilidade?Antes de responder a esta pergunta, vamos analisar um outro ponto. Há 20 anos, o Brasil sediou a Rio-92, a mesma Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável que terá uma nova edição em 2012. Na ocasião, dentre muitos conceitos debatidos e criados, e que se tornaram marcos, destacamos uma frase: "Pensar globalmente e agir localmente”. Ou seja, não adianta pensarmos a sustentabilidade em termos universais, se não analisarmos o que fazemos na nossa casa, rua, bairro e comunidade. E aqui voltamos à educação.A proposta da educação para a sustentabilidade é ser um instrumento de informação que estimule a mudança de comportamento por meio de vivências de cada ator envolvido. A socialização do conhecimento, considerando e respeitando as realidades locais, torna viável um processo de transformação dessas realidades, e, consequentemente, colaborará para a melhoria da qualidade de vida de toda a sociedade e para a promoção do desenvolvimento sustentável.Um exemplo dessa proposta é o projeto Parceiros da Transformação, que implantamos atualmente no município de Jacareí, interior de São Paulo, em parceria com a Prefeitura Municipal e a empresa Fíbria. O objetivo desse projeto é colaborar com o desenvolvimento local de quatro bairros da cidade e promover a criação de redes para que a população troque experiências e trabalhe de forma colaborativa em processos comunitários. Para isto, utilizamos metodologias variadas, que aliam a teoria à prática, focadas nas necessidades particulares de cada grupo e sempre com o propósito de despertar o olhar para a sustentabilidade.Neste projeto, temos como primeiro passo o envolvimento de diversos públicos, de escolas, comunidade, ambientes corporativos ou órgãos públicos, num diagnóstico participativo que busca identificar suas necessidades. Desta forma, não pré-definimos nenhuma ação antes do início dos trabalhos, incentivando que todos participem desse processo. A partir daí, damos início a oficinas, encontros e atividades de educação, entre outros.Em Jacareí, nas comunidades onde atuamos, já percebemos importantes transformações, como o caso do bairro Jardim Colônia, no qual os moradores preservam uma área verde de aproximadamente três hectares, outrora abandonada, tornando-se verdadeiros guardiões deste reduto de Mata Atlântica. Nos quatro bairros atendidos, o projeto já beneficiou mais de 22 mil pessoas, o que comprova a efetividade desse processo educativo.Pessoas organizadas em torno de um propósito podem promover grandes realizações, e, até, concretizar grandes sonhos, indo muito além de suas capacidades individuais. Nossa experiência com este modelo educativo aponta que o engajamento por meio do conhecimento compartilhado nos permite mobilizar coletivamente e enfrentar os desafios da sustentabilidade com mais eficácia. Neste sentido, acreditamos que a partir de transformações locais construiremos um futuro no qual o desenvolvimento sustentável se torne uma realidade de grande alcance. E a educação é o nosso primeiro passo.* Fernando Feitoza é gerente de Educação para a Sustentabilidade da Fundação Espaço ECO.

Ele pode significar liberdade, poder, segurança. Descobrir qual é a nossa relação e a dos alunos com o dinheiro pode nos ajudar a lidar melhor com ele Brasil

Quanto vale o dinheiro na sala de aula?

[caption id="attachment_49529" align="alignleft" width="300" caption="Ele pode significar liberdade, poder, segurança. Descobrir qual é a nossa relação e a dos alunos com o dinheiro pode nos ajudar a lidar melhor com ele."][/caption]Não podemos negligenciar que, culturalmente, um dos valores mais solidamente ancorados na consciência dos homens e que mais provoca paixões é o valor do dinheiro. As conquistas e possibilidades garantidas pelo dinheiro justificam, em grande medida, a sua busca. Na contrapartida, é necessário fazer uma avaliação mais aprofundada. Segundo Nietzsche, “não há valor que não seja uma possibilidade ou um modo de ser do homem”, isto é, o valor de algo está associado à força de motivação na busca do mesmo. Além disso, sofremos a influência do inconsciente – não percebida – daquilo que vivenciamos na infância. Considerando especificamente a questão financeira, sabemos que a forma como os pais lidam com o dinheiro, o nível de conforto, de aquisição, de privação e todos os sentimentos decorrentes dessa complexa relação, determinará como os filhos vão conquistar e gastar o dinheiro no futuro.Falar sobre dinheiro com os jovens e as crianças é uma oportunidade para incentivar um olhar crítico diante das escolhas, sobretudo, financeiras. Ajudá-los a analisar a motivação e o meio de conquista é um caminho que desenvolve o autoconhecimento e, por vezes, leva a uma mudança de atitude. Se o dinheiro surgiu como uma forma de pagamento em substituição ao escambo, e tem como função a equivalência (serve para trocar uma quantidade x de um produto/serviço por uma quantidade y de outro), ele também está ligado aos valores morais e éticos.A sociedade contemporânea aprecia e cultua a imagem, consequentemente, julgamos e somos julgados também pela aparência. Eticamente temos consciência de que as pessoas não deveriam ser medidas pelos bens que possuem, mas em muitos momentos emitimos julgamentos a partir da roupa, do carro, da casa, das joias, das viagens, enfim, dos símbolos que visualizamos nos outros. Felizmente a educação financeira tem conquistado espaço nos lares, nas empresas, criando um entendimento mais meticuloso sobre nossa relação com o dinheiro.A relação com o dinheiroEmbora o dinheiro seja universalmente aceito como um meio de troca, individualmente ele possui significados diferentes, dependendo da classe social, idade, cultura e valores intrínsecos. Todavia, podemos adotar quatro grandes categorias: o dinheiro pode representar liberdade, segurança, poder ou relacionamento.Quando o dinheiro representa liberdade para alguém, a forma de se relacionar com ele será pautada no desfrute imediato, porque o mais importante é fazer o que se quer, satisfazer-se urgentemente. Planejar, seguir regras, pensar no amanhã são quase impraticáveis. Como educar alguém com esse perfil? A motivação para o aprendizado deverá focar na ideia de liberdade financeira, isto é, mostrar que abrir mão de um pouco no presente (e poupar/investir) garantirá a liberdade de escolha também no futuro.Para quem tem uma relação de segurança com o dinheiro, os imprevistos causam muita angústia. Geralmente, são pessoas que evitam riscos, cumprem as normas, são metódicos. Educar financeiramente quem apresenta essa característica é mais fácil, porque planejar, poupar e esperar são práticas facilmente compreendidas e rapidamente adotadas.Para aqueles que representa poder, o dinheiro é uma garantia de controle e realização pessoal. Geralmente, é alguém que gosta de estar no comando, de ter status, reconhecimento e que é exigente consigo e com os outros. A educação financeira para quem tem esse perfil precisa ser desafiadora. Promover a competição e incentivar a superação de limites garantirá bons resultados.E, por último, o dinheiro pode significar uma fonte de relacionamento, ou seja, é utilizado para fortalecer o relacionamento com amigos, família e colegas. São pessoas compreensivas, amigáveis, que gostam de ser reconhecidas, geralmente presenteiam muito. A educação financeira deve focar a necessidade de poupar dinheiro e desenvolver a autoconfiança (a fim de evitar o presentear constante).A complexa relação com o dinheiro, além de ser influenciada pelos aspectos subjetivos citados, engloba pontos objetivos e práticos.Educação financeira na práticaA educação financeira tem por objetivo o desenvolvimento de conceitos e práticas sobre decisões econômicas: como e por que poupar, a importância de um planejamento de curto, médio e longo prazos, os primeiros passos para iniciar a independência financeira e noções básicas de economia. Estes temas podem ser trabalhados tanto em casa quanto em sala de aula, por meio da constante reflexão sobre o uso dos recursos financeiros. Tornar a análise das motivações diante das escolhas e suas consequências um hábito é um grande feito, uma vez que crianças e adolescentes são altamente influenciáveis pelos grupos de convivência, mídia e moda. É evidente que a adoção de um programa formal, um roteiro estabelecido para trabalhar a educação financeira como um tema transversal é necessário para aprimorar o ensino. Mas, para iniciar a sensibilização sobre o assunto, basta promover espaço para que os alunos respondam, pesquisem e avaliem sobre: qual é a importância do dinheiro?, qual é o papel do dinheiro no desenvolvimento da sociedade?, q que representa o dinheiro na minha vida?, por que é importante poupar?, o que é investir e quais são seus benefícios?Muito além de fornecer respostas tais como “poupar é uma escolha intertemporal”, “abre-se mão do usufruir hoje em favor do amanhã” ou “investir é fazer o dinheiro poupado crescer”, o espaço criado nas escolas e nos lares por intermédio das perguntas serão a garantia de que os jovens poderão avaliar os motivos e, principalmente, as consequências de suas decisões. Em outras palavras, a contribuição da educação financeira não está restrita às técnicas para administrar bem o dinheiro, pois ultrapassa esse campo e aporta na essência daquilo que direciona a vida de um sujeito. Afinal, somos o resultado de nossas escolhas.* Márcia Tolotti é psicanalista e consultora em programas de educação financeira.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Márcia Tolotti*
interna-2-ed-32 Universidades

E a universidade, já era?

paul graham está no negócio de financiar novos negócios inovadores de crescimento empreendedor há muito tempo, é "o" cara do Y combinator, um dos aceleradores de empresas mais famosos e mais bem-sucedidos do mundo. graham vê milhares de propostas para começar negócios inovadores por ano. e tem coisas que ele não vê de jeito nenhum. resultado? uma lista de negócios bilionários esperando quem faça, agora. o blog tratou do primeiro e do segundo itens da lista ("a próxima máquina de busca" e "o substituto do emeio") e este post é sobre o terceiro, que lá no texto de graham tem o simples e objetivo título "substituir as universidades". como assim?graham diz que as universidades não vão desaparecer de vez ou como um todo (como o livro de papel), mas já há – e haverá, cada vez mais – formas mais baratas e efetivas de gerar e adquirir conhecimento, o que ameaça o monopólio das universidades que poderíamos chamar de clássicas. é bom dizer que o modelo de universidade que conhecemos existe há quase um milênio em seu formato atual e boa parte de sua essência vem de mais de dois séculos, da academia de platão (fundada ali por 387AC). não que a maioria dos professores e alunos de hoje sejam pares para o próprio platão e aristóteles, mas nem à época da academia era esse o caso.em 1993, com mais de dois milênios de evolução da academia e antes da internet aparecer, peter drucker observava que: That knowledge has become the resource, rather than a resource, is what makes our society “post-capitalist". (que o conhecimento tenha se tornado "o" recurso, ao invés de "um" recurso, é o que torna nossa sociedade "pós-capitalista".) em março de 1997, drucker dizia que: It took more than 200 years (1440 to the late 1600s) for the printed book to create the modern school. It won’t take nearly that long for the big change.Already we are beginning to deliver more lectures and classes off campus via satellite or two-way video at a fraction of the cost. The college won’t survive as a residential institution. Today’s buildings are hopelessly unsuited and totally unneeded.High school graduates should work for at least five years before going on to college,… Then it will be more than a prolongation of adolescence.I never predict. I just look out the window and see what’s visible – but not yet seen, resumo disso? a escola e universidade atuais foram criadas pelo livro, em 200 anos; mas levará muito menos do que isso para que as TICs a desmontem. a universidade não vai sobreviver como instituição residencial (o que é muito comum nos estados unidos e reino unido), seus prédios são impróprios e desnecessários. e os formandos do ensino médio deveriam trabalhar pelo menos cinco anos antes de fazer a universidade e que… estas não são previsões… ele (drucker) só olha lá fora e vê o que é visível, mas ainda não visto (por todos).noutra declaração à forbes, em junho de 1997, aquele que é considerado o maior pensador do mundo dos negócios sela a sorte das universidades: "Universities won’t survive. The future is outside the traditional campus, outside the traditional classroom. Distance learning is coming on fast." (as universidades não vão sobreviver. o futuro é fora do campus, da sala de aula tradicionais. a educação à distância é o futuro.) e olha que isso era 1997, a internet era um bebê, o google só ia aparecer daí a um ano e o iphone em outros dez.de lá pra cá, o mundo mudou. mas a universidade, instituição conservadora (no mundo, não só aqui) sempre leva muito mais tempo para ser afetada por qualquer mudança, como se fosse atemporal. quer ver? os professores (aqui) são contratados para dar aula (não há concurso para pesquisador, mas para professor...), mas todos os incentivos da carreira são para fazer pesquisa ou, como diriam alguns, antes fossem, são mesmo é para publicar. resultado? o brasil progride célere no número de artigos publicados, sem que se note um impacto desta performance na economia.nas universidades estatais, onde estão a maioria dos centros de excelência, as regras de trabalho são baseadas em tempo de dedicação (sintaxe...) e não em contribuição efetiva à instituição (semântica) e levam os professores a cumprir regimes que os separam da economia e da sociedade. resultado? os engenheiros têm professores que nunca construíram um prédio, há muitos professores de programação que nunca fizeram um programa de porte e de administração que não fazem a menor ideia do que é rodar um carrinho de pipoca. e isto não ocorre por culpa dos professores, mas de um sistema arcaico que precisa ser mudado o mais rápido possível. estivesse no brasil, é provável que mudar a universidade não fosse o terceiro item da lista de graham, mas o primeiro.Um dos exemplos mais marcantes do status da inovação organizacional, de meios e métodos na universidade (e na escola em geral, e no mundo todo) é achar que a khan academy é revolucionária. não conhece? trata-se de uma coleção de vídeos, no youtube e com voz em off, explicando conceitos em um "quadro negro", com "giz colorido"… lembra disso? vá ver… pra crer.como druker – há década e meia – e muita gente, hoje, graham diz que a universidade como conhecemos já era. até aí, nada de novo. o problema é… o que vai substituí-la? na era do conhecimento, o que importa – nada mais óbvio – é informação e conhecimento sobre pessoas, coisas e instituições (e animais, plantas, ambiente... tudo).vamos viver nos fluxos de informação entre estas entidades e teremos que estudá-las, entendê-las, gerar e disseminar conhecimento sobre o mundo e continuar fazendo isso por muito tempo e de forma sustentada. se não é na universidade (que no brasil chegou bem atrasada e que, para muitos e em muitos lugares, ainda não chegou), onde é?… o que é?…o blog perguntou ao professor josé palazzo oliveira, titular do instituto de informática da UFRGS, o seguinte: qual a possibilidade deste substituto das universidades vir do brasil, de três pontos de vista: 1. científico, 2. técnico e 3. de empreendedorismo e investimento? e palazzo responde: As Universidades vão desaparecer? A pergunta parece revolucionária ou anarquista, mas realmente não é. Uma coisa que tem me preocupado ultimamente é o papel da Universidade na sociedade. Será que é preciso mudar ou substituir a Universidade no Brasil? Eu acredito que em alguns aspectos sim. Minha visão de Universidade é completamente diferente do utilitarismo atual. A Universidade (olhem o pronome “A”) deveria ser um lugar onde houvesse conhecimento Universal, mas atualmente nem conhecimento de boa qualidade existe: uma aluna de Letras achava que Vitor Hugo era o nome de uma bolsa, e depois de uma palestra do Pedro Bial sobre desvios de personalidade um ouvinte perguntou “mas quem era mesmo este Napoleão?”. Que horror!A visão utilitarista é que a Universidade deve formar mão de obra para o mercado e não conhecimento. A ideia que a Universidade tenha um reconhecimento por ser Universidade é uma mentira, o pior é a visão geral que alguém vai obter sucesso por ter um canudo comprado a baixo preço. O canudo é a forma bacharelesca de aceitar uma credencial inata à Universidade. Então acho que as Universidades que não sejam centros de pensamento, cultura, contestação devem desaparecer. Mas a solução não é fácil.Vejamos o assunto por três pontos de vista: i) científico, ii) técnico e iii) empreendedorismo e investimento.Do lado científico não acredito nesta possibilidade em curto prazo, pois não vejo disposição dos empresários brasileiros assumirem a real pesquisa. Aqui não vejo nenhuma IBM com vários prêmios Nobel (Harry Markowitz, J. Georg Bednorz e K. Alex Müller, Gerd K. Binnig e Heinrich Rohrer, Leo Esaki). Aqui temos empresários que ganharam minas de ferro do pai e ficam famosos. Há alternativa científica para substituir as Universidades? Não enquanto não tivermos empresas do porte e com a mentalidade de competidores mundiais em conhecimento, não em tonelagem de minério ou de grãos vendida! Precisamos de 20 mil toneladas de soja para comprar uma tonelada de chips! Deixem as Universidades pensarem e serem criativas ou, então, mudem as empresas brasileiras.A coisa muda de figura no segundo item: o técnico. O famoso utilitarismo quer que as Universidades produzam mão de obra, tecnologias prontas e produtos. Este não é o perfil das Universidades. Agora a mudança está sendo feita com os Institutos Federais de Ciência e Tecnologia com uma visão orientada para a tecnologia. Outra mudança que está sendo feita são as aventuras como o Porto Digital em Recife. Se uma Universidade vai tentar fazer produtos deixa de ser uma Universidade e se torna um polo tecnológico incompetente. Os critérios de seleção de quem vai trabalhar são diferentes para cada caso.No terceiro ponto é que deve rolar uma mudança radical. A Universidade deve incentivar seus alunos a serem inovadores. É preciso que criem conhecimento fora da Universidade e que este conhecimento possa ser reconhecido e formalizado na Universidade. Ações como o “Y Combinator” oferecendo pequenos valores para inúmeras startups é uma saída. Mas é preciso saber como reconhecer as competências adquiridas, só ter ganho dinheiro não é a métrica adequada para avaliar a inovação. Na Europa estão tentando dar pontos por atividades extrauniversidade, mas a fraude nos relatos dos alunos é enorme.Minha conclusão é: aceitemos que o Brasil terá apenas umas poucas Universidades Acadêmicas de qualidade, desistamos de Universidades (?) que concedem diplomas a R$ 99,99 por mês e tenhamos coragem de aceitar que diploma não serve para nada, talvez para pôr na parede. O que vale é a Competência Acadêmica com a produção associada para uns, as aptidões empresariais e inovadoras para outros, a capacidade de desenvolver produtos de alta tecnologia para outros mais.O mais difícil será aceitar que cada uma destas linhas tem o mesmo valor e descobrir maneiras de avaliar e certificar os conhecimentos e competências adquiridos na Universidade e fora dela.O modelo velho está morto mas o novo ainda não nasceu! isso mesmo, este é o chamado de graham: cadê a nova universidade? será recriada pelo estado, como bem público? e há condições e meios para tal? senão, é ou será um mercado multibilionário, com um negócio que você vai criar bem no centro dele?… pense. e, talvez, faça!(PS: as tirinhas do texto, e muitas outras de rodrigo chaves e cláudio patto, estão no link contratempos modernos. Vá ver.)* Silvio Meira é fundador do www.portodigital.org e cientista-chefe do www.cesar.org.br, escreve mensalmente para a Folha de S.Paulo.** Publicado originalmente no site EcoD.


por Silvio Meira*
bligo-Ignorancia Brasil

Investimentos em educação pública computam despesas que nada têm a ver com educação

Há pelo menos duas razões pelas quais devemos conhecer os gastos com educação pública. Uma delas é devida às exigências legais, uma vez que a Constituição da República, as constituições estaduais, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e leis orgânicas municipais estabelecem valores mínimos para aqueles gastos. Outra razão é para que possamos saber se o quanto investimos é suficiente para garantir a educação que precisamos.E quanto o Brasil gasta, efetivamente, em educação pública? Embora a pergunta possa parecer impertinente, uma vez que há vários órgãos públicos que cuidam do assunto, ela é totalmente cabível e, infelizmente, tão necessária hoje como foi no passado.Segundo dados sistematizados e divulgados pelo Inep, os investimentos públicos totais em educação no Brasil, em 2010, foram da ordem de 5,8% do PIB(1). Esse percentual seria totalmente insuficiente para garantir uma educação minimamente aceitável, ainda que não tivéssemos enormes atrasos, na forma de altíssima evasão escolar, falta crônica de professores em várias áreas (física e química, especialmente), pequeníssimo atendimento na educação infantil, enormes contingentes de analfabetos ou, ainda, enormes contingentes de jovens que não concluíram os ensinos fundamental ou médio. Mas, além disso, será que investimos, realmente, 5,8% do PIB em educação pública?Não. A regulamentação do que pode ser considerado gasto com educação é bastante fluida, permitindo incluir, como sendo educacionais, várias despesas que nada têm a ver com educação. Além disso, como aquela regulamentação só tem efetividade quanto aos gastos mínimos constitucionais e legais, a inclusão de outras despesas como sendo educacionais, quando o objetivo é estimar o esforço nacional com educação, ocorre de forma ainda mais arbitrária do que permite a já tolerante legislação.Segundo nota de rodapé na tabela que apresenta aquele valor de 5,8% do PIB, vemos que ele inclui “estimativa para complemento da aposentadoria futura do pessoal ativo”, uma despesa que não corresponde à educação em nenhum sentido e sequer foi realizada, pois se trata de uma complementação futura. Embora não haja o detalhamento de quanto significa esse “complemento futuro”, estima-se que ele possa corresponder a cerca de 20% dos gastos com pessoal(2) e, portanto, a um valor próximo a 1% do PIB, fazendo com que aquele valor esteja abaixo dos 5% do PIB.Além disso, segundo a mesma nota de rodapé citada, estão “computados nos cálculos os recursos para bolsa de estudo, financiamento estudantil e a modalidade de aplicação: transferências correntes e de capital ao setor privado”. Ora, se as bolsas de estudo correspondem a programas de iniciação científica, mestrado, doutorado ou pós-doutorado, elas já são computadas entre os investimentos em Ciência e Tecnologia. Ao computá-las também como investimentos em educação, está se fazendo uma espécie de dupla contabilidade e inflando artificialmente os investimentos educacionais com investimentos feitos por órgãos voltados ao fomento do desenvolvimento científico e tecnológico. Caso as bolsas sejam uma referência ao Prouni ou a programas equivalentes mantidos por governos estaduais, então não correspondem a investimentos em educação pública.Quanto ao financiamento estudantil, caso se refira ao Fies (programa do MEC usado para financiar o ensino de graduação em instituições privadas), e às transferências ao setor privado citados na mesma nota, eles só estão incluídos naqueles 5,8% do PIB por um jogo de palavras que mistura “investimento público com educação”, título da tabela citada, com investimentos na “manutenção e desenvolvimento do ensino público”, como define a LDB.Esse jogo de palavras é muito grave, em especial neste momento em que o Congresso Nacional discute a proposta, apresentada pelo executivo federal, de um Plano Nacional de Educação (PNE), cuja redação inicial previa um crescimento do “investimento público em educação (e não investimento em educação pública) até atingir, no mínimo, o patamar de 7% do produto interno bruto do país”. Assim, além de nos preocuparmos com o valor totalmente insuficiente, precisamos atentar para o uso da expressão investimento público em educação em lugar de investimento em educação pública, o que pode significar apenas mais subsídios para as instituições privadas.Precisamos fazer as contas direitoA falta de transparência quanto aos gastos com educação pública e a maquiagem desses gastos são coisas constantes na história do país. Vejamos alguns outros poucos exemplos.Em períodos mais distantes, chegamos a ter dupla contabilidade: um mesmo recurso destinado à educação era contabilizado tanto pela esfera de governo que o repassou como por aquela que fez a despesa. Entre 2000 e 2003, despesas com o programa Bolsa Escola foram incluídas como sendo educacionais, embora, inegavelmente, essas despesas contribuam para as condições de vida das pessoas e, portanto, para a frequência à escola, elas não são despesas educacionais em nenhum sentido. Nos períodos de alta inflação, o pagamento do décimo terceiro salário inflava muito as despesas com educação, pois, embora seu valor real fosse igual ao de uma folha de pagamento do início do ano, como a contabilidade nacional é feita em moeda corrente, ele podia ser, nominalmente, muito grande. Despesas feitas no sistema educacional com recursos emprestados eram (ainda são?) frequentemente computados por secretarias de educação, de forma dupla: quando o valor emprestado era investido e quando o empréstimo era pago.Além dos exemplos acima de como as contas de educação podem ser maquiadas, há muitos outros: debitar de forma totalmente arbitrária nas contas de uma secretaria de educação despesas que nada têm a ver com ela como, por exemplo, o asfaltamento de uma rua onde há uma escola, fazer repasses arbitrários de recursos para organizações não governamentais, assinar revistas e outros periódicos sem nenhuma motivação realmente educacional para tal, ou incluir como despesas educacionais os salários de professores cedidos a órgãos não educacionais. Enfim, a lista seria muito longa.Portanto, são necessárias algumas providências para que possamos saber, com suficiente precisão, quanto efetivamente investimos em educação pública. Uma delas é definir de forma mais completa e detalhada o que é e o que não é gasto com educação pública, de preferência adotando critérios rigorosos, como, por exemplo, os recomendados pela Unesco. Outra providência é definir a forma de ratear os investimentos feitos em diferentes áreas quando uma mesma instituição executa outra atividade além da educacional, como ocorre, por exemplo, nas universidades públicas, que desenvolvem pesquisas científica e tecnológica e mantêm hospitais. Outra, ainda, é criarmos apenas um critério e uma contabilidade, diferentemente do que se fez até hoje, de tal forma que possamos acompanhar a evolução ao longo do tempo dos investimentos em educação pública.Além de lutarmos pelos 10% do PIB para a educação pública, precisamos ficar muito atentos para a definição do que pode ou não ser considerado gasto educacional e para denunciarmos, sempre que aparecer, a confusão entre gasto público com educação e gasto com educação pública, confusão esta feita até mesmo na atual proposta de PNE em debate no Congresso Nacional.Notas(1) Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Percentual do Investimento Total em Relação ao PIB por Nível de Ensino, http://portal.inep.gov.br/indicadores-financeiros-educacionais, consultada em abril/2012.(2) Veja matéria divulgada pelo Laboratório de Informática (ICHF), da Universidade Federal Fluminense, http://www.uff.br/ichf/labinfo/index.php?url=noticias, consultada em abril/2012.* Otaviano Helene, professor no Instituto de Física da USP, foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Otaviano Helene*
120416-CapãoB Cultura

Literaturas da periferia: o desafio da estética

Como cultura ressignificou, em dez anos, os subúrbios. Por que movimento precisa mostrar que sua importância vai muito além do social.Desde a década de 1990, quando o Movimento Hip Hop consolidou-se na periferia de São Paulo e na maioria das cidades da Região Metropolitana, surgiu uma cultura com características próprias. Sua expressão traduz este espaço social suburbano, com toda a complexidade de suas comunidades. Uma cultura que afirma positivamente uma região ainda hoje estigmatizada pelo quadro de pobreza e violência. Uma arte que vem ressignificando o próprio conceito de periferia, a partir de uma nova noção de pertencimento. Ela identifica artistas portadores de uma estética original. Seus contornos podem ser observados especialmente na produção literária que se expandiu, nos últimos dez anos, por toda a periferia paulistana. Ao observar a literatura que surge daí, percebe-se de forma nítida a busca de um desenvolvimento estético para as criações.Essa atenção com os aspectos estéticos, tão evidente na literatura, é fundamental e necessária. A cultura da periferia goza de um reconhecimento que se apoia principalmente na dimensão ética. É valorizada como resistência, dadas as condições adversas que assolam os bairros mais afastados do centro. Isto confere uma visibilidade importante, mas confina a produção artística no campo unicamente ideológico, retirando-lhe a possibilidade de ser apreciada também por sua qualidade artística.Abordar a literatura com rigoroso foco na produção estética permitirá identificar alguns parâmetros de análise necessários para entender uma cultura emergente, em um contexto social de pobreza, conflitos e disputas. O estudo de livros publicados por autores da periferia, em comparação com uma linhagem de autores reconhecidos, pertencentes às tradições literárias das quais a literatura periférica é tributária, será o caminho que percorrerei por meio dos textos que publicarei nesta coluna.Os livros aqui observados não serão tratados como objetos desvinculados da realidade e sim como produto de práticas culturais. Porém, as criações literárias estarão no centro da reflexão, até para não correr o risco de a prática cultural da qual são originárias diluir sua importância como produto artístico.O literatura periférica na tradição do hip hopA visão sobre periferia que prevaleceu até a década de 1990 caracterizava-a como área urbana homogênea, marcada por alta densidade populacional, baixa renda, elevados índices de violência e precariedade urbana. Este olhar criou um estigma, resultado de segregação não apenas geográfica, econômica e social – mas também cultural. Nas bordas da metrópole reside o abandono. Em um lugar onde os serviços básicos como saneamento, saúde, educação, moradia e transporte são escassos, equipamentos e políticas culturais eram (e ainda são em muitas regiões) praticamente inexistentes.Porém, foi no campo da cultura que surgiu, na última década do Século 20, uma afirmação positiva da condição periférica. O Movimento Hip Hop que despontou na década de 1980, tendo o centro da cidade como ponto de encontro, se espraiou na década seguinte para as áreas suburbanas, de onde boa parte de seus adeptos era oriunda(1). Invocava, nas letras de rap, uma afirmação de pertencimento à periferia que veio ressignificar o sentido da expressão, até então marcadamente pejorativa. A partir do hip hop, uma forte cena cultural surgiu nos extremos da metrópole.Inspirados no rap, que é ritmo e poesia (rythm and poetry), surgiram poetas e poetisas que transpuseram para a escrita a palavra rimada e cantada dos MC’s. Sem perder a força da oralidade, motivadora dos saraus que se proliferam por toda a periferia, passaram a publicar seus poemas em fanzines, abrindo caminho para a narrativa ficcional que inaugurou a literatura da periferia. O marco fundador desta produção literária – ainda que não seja a obra pioneira – foi o livro Capão Pecado, do escritor Ferréz, publicado em 2000(2).Ferréz e o surgimento de uma literatura das periferiasResultado de vários fatores, porém tendo o hip hop como manancial, a cena cultural, que hoje exibe uma grande diversidade de linguagens artísticas, começa a se formar em 2000. Emblematicamente, é o começo de década, de um novo século e um novo milênio. Os Racionais MC’s haviam alcançado a consagração e viviam do êxito avassalador do CD Sobrevivendo no Inferno, lançado em 1997. Coerentes com sua postura arredia à mídia, venderam mais de um milhão de discos sem aparecer na TV, nem fazer qualquer tipo de promoção que não fosse seus shows. O mito estava consolidado e o Capão Redondo (na foto), reduto de Mano Brown virou uma espécie de símbolo maior de uma identidade periférica. O orgulho de se afirmar morador daquele bairro da zona sul de São Paulo passou a ter enorme valor simbólico. Marcou uma geração de artistas e ativistas culturais que surgiram neste distrito com mais de 200 mil habitantes e, em seguida, em toda a periferia sul e demais quebradas da cidade.Um jovem de vinte e poucos anos, morador do Capão Redondo, foi afetado profundamente por este sentimento de orgulho periférico. Reginaldo Ferreira da Silva, conhecido como Ferréz (junção de Virgulino Ferreira e Zumbi) já havia publicado um livro de poesias em 1997, ano do lançamento do clássico CD dos Racionas MC’s. O aspirante a poeta abandonou sua veia lírica e dedicou-se à narrativa de ficção em prosa. Escreveu e lançou em 2000 o romance Capão Pecado. Editado pela hoje inativa Labortexto Editorial, a obra, com “orelha” de Mano Brown, teve grande repercussão(3) e abriu espaço para outros autores, ditos marginais naquela Editora(4).Ferréz, àquela altura, já se dedicava ao comércio de roupas. Havia criado a 1daSul, grife de moda e acessórios, cujos produtos tiveram grande aceitação, expandindo-se rapidamente pela capital, Grande São Paulo e outros Estados. O escritor abriu lojas no Capão Redondo e em Santo Amaro, ampliou os negócios, mostrou-se um empresário de visão e grande capacidade de gestão. Seu empreendimento, embora com fins lucrativos, segue preceitos de comércio justo e economia solidária. Parte de seus ganhos são revertidos em projetos sociais na comunidade onde mora e investimentos culturais como o Selo Povo(5).Dado seu sucesso literário e empresarial, Ferréz tornou-se uma referência na periferia de São Paulo. Passou a dar palestras e participar de diversos eventos. Tornou-se colunista da revista Caros Amigos. Esta condição permitiu-lhe publicar três volumes da edição especial Caros Amigos: Literatura Marginal no começo da década. Venderam cerca de 50 mil exemplares, lançando dezenas de escritores e escritoras das periferias de São Paulo e de várias partes do Brasil(6). Em 2005, Ferréz lançou a coletânea Literatura Marginal – Talentos da Escrita Periférica, pela Editora Agir. Mais um passo para o fortalecimento da cena literária da periferia.Por essas razões, considero Ferréz, a partir da publicação de Capão Pecado, fundador de um movimento literário na periferia de São Paulo. Um marco político e estético: sua escrita exerce importante influência em diversos autores que, a partir da segunda metade da primeira década do século, fizeram surgir inequivocamente uma cena cultural na periferia paulistana.A estética no centro do debateA efervescência da cultura produzida se dá principalmente depois de 2005. Esta nova etapa passa a impor ao movimento outras exigências. Não se trata mais, apenas, de afirmar a condição periférica pela exclusão social a que estão submetidos seus protagonistas e pela precariedade dos meios que lhe são acessíveis para seu desenvolvimento cultural. Daí para frente o que será observado (pela mídia e pela universidade, espaços maiores de legitimação, embora não únicos) é a produção artística que emerge dessa cultura suburbana. Se não for assim, a arte produzida na periferia ficará relegada a um fenômeno de grande impacto social, porém pouca repercussão estética. Para Heloísa Buarque de Hollanda, “o que está agora em jogo é a construção da legitimidade e da visibilidade do intelectual e do artista da periferia”(7). A coluna Literaturas Periféricas buscará evidenciar a estética – ou estéticas – que surgem dessa arte. Terá foco na produção literária, observando-a num contexto mais amplo das linguagens artísticas desenvolvidas na periferia.Tomando por base as premissas de Raymond Willams sobre a cultura comum, Maria Elisa Cevasco argumenta que, “a questão é dar condições para que todos sejam produtores de cultura, não apenas consumidores de uma versão escolhida por uma minoria”(8). Sendo assim, a ampla produção cultural que se vê na periferia, notadamente na literatura, revela: parte de escritores oriundos das classes trabalhadoras pobres residentes nessas regiões apropriou-se dos meios para produzir um tipo de arte historicamente dominada pela elite ligada às classes dominantes.Entender os mecanismos dessa apropriação e o processo criativo da elaboração de textos literários dará condições para perceber uma estética original, portadora de sentidos que subvertem os padrões estabelecidos dos cânones. Uma estética que é ruptura, mas que se alimenta de uma tradição literária, reconhecida e marcadamente classista. Refiro-me a uma corrente literária que vem de Carolina Maria de Jesus e Solano Trindade nos anos 1950 e 1960, passa por João Antonio e Plínio Marcos, também dos anos 1960, e se estende pela década seguinte, chegando aos anos 1990 com Paulo Lins(9).A importância estética da literaturaDe todas as expressões presentes na cultura periférica, é nas letras que um padrão estético está mais desenvolvido. Isto pode ser verificado pela vasta produção literária existente(10). De tão significativa, a literatura feita na periferia, mais do que qualquer outra linguagem, apresenta ramificações. São designadas como: periférica, marginal, dissidente, literarua, literatura hip hop, poesia das ruas. O que explica tais nomenclaturas, acredito, são concepções e visões estéticas sobre a arte da palavra escrita. Uma estética que tem as ruas como inspiração.Como vimos, essa produção literária, com toda a sua originalidade, filia-se a uma linhagem de autores que marcaram a recente literatura urbana brasileira, especialmente a paulistana(11). A inserção da literatura periférica nessa tradição dá-se pela obra do escritor Ferréz que, com seus dois primeiros livros, Capão Pecado (2000) e Manual Prático do Ódio (2003), já alcança reconhecimento como romancista. O êxito literário de Ferréz, somado a suas iniciativas de promoção de novos autores por meio de várias coletâneas e um selo editorial, conferem-lhe uma condição de maior influência entre escritores que surgiram depois na periferia de São Paulo. Formou-se assim uma corrente literária nova, porém tributária da tradição iniciada por Carolina de Jesus e Solano Trindade. Contribui assim, a um só tempo, para sua própria afirmação e para a valorização dessa linhagem de escritores no panorama da literatura brasileira.Por uma estética da periferiaÉ necessário que os artistas da periferia disputem e se apropriem do conceito de estética para afirmarem a qualidade artística de seus trabalhos. Caso contrário, ficarão restritos à afirmação pela condição social, um argumento que tem um poderoso sentido político, porém é limitado em termos artísticos. Chega um momento que se esgota, quando deixa de ser novidade. Este esgotamento está próximo.Só o desenvolvimento estético permite à produção artística extrapolar o contexto social da periferia, atingindo um universo mais amplo. Isto aconteceu com Ferréz na literatura e, mais recentemente, com o poeta Sergio Vaz. No momento, são os únicos autores nessa condição. Mas, na música, Racionais, Rappin Hood, Emicida, Criolo e o Quinteto em Branco e Preto já demonstraram que é possível transpor essa barreira.De qualquer forma, já é possível falar de uma estética própria da periferia, expressa na produção artística em todas as linguagens: do teatro às artes visuais, passando pela música, dança, cinema e literatura. Uma estética que evidencia a origem de classe de seus autores e um sentido libertário presente nas cores, tons, letras, imagens, melodias, dramaturgias e todo o universo de criação artística existente. Mas, para alcançar o reconhecimento artístico, é necessário que esta arte seja submetida à crítica.Não estão em discussão os propósitos políticos do movimento, tão bem expostos nos manifestos da Semana de Arte Moderna da Periferia(12). A questão é analisar que arte está sendo produzida a partir desses propósitos. O bordão de Alessandro Buzo, que diz: “Pensavam que não sabíamos ler e agora estamos escrevendo livros”, já não dá conta da cena atual. É hora de discutir a qualidade literária desses escritos.Notas(1) Ver documentário em vídeo Nos Tempos da São Bento, de Guilherme Botelho, São Paulo, VAI, 2010.(2) O poeta Sergio Vaz publicou, entre 1986 e 1999, três livros: Subindo a ladeira mora a noite, A margem do vento e Pensamentos vadios, todos independentes. Ver: Vaz, Sergio. Cooperifa: Antropofagia periférica, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro, 2008. O próprio Ferréz, publicou em 1997 seu primeiro livro, uma obra de poesia chamada Fortaleza da Desilusão.(3) Sobre a trajetória do escritor Ferréz, ver Nascimento, Erica Peçanha do, Vozes Marginais na Literatura, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro, 2009, dissertação de mestrado em antropologia que faz um dos mais importantes estudos sobre a produção literária na periferia de São Paulo.(4) Além de Capão Pecado, foram publicados pela Labortexto, entre 2000 e 2002, Diário de um detento: o livro, de Jocenir; Sobrevivente André Du Rap (do Massacre do Carandiru), de Andre Du Rap, e Quatrocentos contra um: uma história do comando vermelho, de Willam da Silva Lima, entre outros títulos. A editora, porém, interrompeu suas atividades depois de uma rescisão de contrato litigiosa com Ferréz, que veio reeditar seu Capão Pecado em 2005 pela Editora Objetiva, após o lançamento, pela mesma editora, do seu segundo e também bem-sucedido romance, Manual Prático do Ódio.(5) Selo editorial criado em parceria com a ONG Ação Educativa e o Centro Cultural da Espanha. Publicou três livros entre novembro de 2009 e abril de 2011: Cronista de Um Tempo Ruim, de Ferréz; Amazônia em Chama, de Catia Cernov e Sob o Azul do Céu, de Marcos Teles.(6) Nascimento, Erica Peçanha do, Idem, ibidem.(7) Buarque de Hollanda, Heloisa. Escolhas, uma autobiografia intelectual, Lingua Geral/Carpe Diem, Rio de Janeiro, 2009.(8) Cevasco, Maria Elisa. Dez Lições sobre Estudos Culturais, Boitempo Editorial, São Paulo, 2003.(9) Esses autores são os mais citados pelos escritores das periferias, seja nos saraus, seja nas obras publicadas.(10) Erica Peçanha, em sua tese de doutorado, É Tudo Nosso – Produção Cultural na Periferia, defendida em março de 2012, levantou 72 títulos. Consegui reunir, em minha coleção particular, tenho mais de 80.(11) Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977), Solano Trindade (1908 – 1974), João Antonio (1937 – 1996), Plínio Marcos (1935 – 1999) e o contemporâneo Paulo Lins (1958).(12) Refiro-me especialmente ao Manifesto da Antropofagia Periférica, de Sergio Vaz.* Antonio Eleilson Leite é historiador, programador cultural e coordenador do Programa de Cultura da ONG Ação Educativa.** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Antonio Eleilson Leite*
Hamilton Werneck Entrevista

Entrevista com o educador Hamilton Werneck

[caption id="attachment_49615" align="alignleft" width="208" caption="Hamilton Werneck."][/caption]Para ampliar as políticas públicas da área de cultura nas escolas brasileiras, foi assinado, no dia 8 de dezembro de 2011, pelos ministros Ana de Hollanda e Fernando Haddad, o Acordo de Cooperação Técnica Interministerial. O documento prevê a implementação de ações dos Programas Mais Cultura e Livro Aberto nas escolas públicas, e contará com um orçamento de aproximadamente R$ 80 milhões. Projetos como os Pontos de Cultura, Pontos de Memória (Museus), Bibliotecas, Agentes de Leitura, Cine Mais Cultura e espaços culturais vão compor o leque de ações previstas dentro do acordo a serem implementados a partir deste ano. Diante disso, fiz uma entrevista com Hamilton Werneck, que possui vasta experiência de magistério nas classes rurais, em escolas municipais e estaduais, e ensino superior. Ela foi publicada hoje na página JM na Educação (Jornal da Manhã). Confira abaixo.Talita Moretto: Podemos acreditar que esta é uma movimentação sincera para que a educação seja levada com mais seriedade no país?Hamilton Werneck: Não me deixo contaminar por ideias que venham tentar provar a falta de sinceridade neste acordo. O tamanho do Brasil é muito grande e, me parece, uma verba de oitenta milhões para esse fim ainda é muito restrita. Louva-se uma ação interministerial buscando "mais educação" porque as finalidades dos Ministérios implicados têm as suas semelhanças. O país carece ainda de bibliotecas públicas. Cada escola tem seu acervo, no entanto, visitando muitas escolas pelo interior do Brasil, constatamos que muitos livros estão velhos, faltando partes importantes o que acaba desestimulando a leitura entre os alunos. A leitura é a base da boa escrita. Criança que não lê, mal escreve, não expande o vocabulário e, tomando-se como base a afirmativa da professora Marisa Lajolo da Universidade de Campinas, e ex-secretária de educação de Atibaia-SP, "o léxico não se desenvolve somente porque as crianças estão por muitas horas na internet”. Portanto, a leitura é a base que falta. Sendo escolhidos livros que encantem as crianças, a leitura será procurada. Há casos especiais de pré-adolescentes que são capazes de ler clássicos da nossa e de outras literaturas, mas trata-se de uma raridade. Murilo Bazzo Carvalho, de Araguaína-TO, é um assíduo leitor. Talvez esta seja uma das causas dele ter escrito seu primeiro romance, A Janela, ainda com 12 anos, mesma idade em que José Saramago escreveu seu primeiro livro. Tão interessante o romance que a Secretaria de Estado de Educação do Tocantins selecionou-o para ser adquirido para as escolas estaduais.TM: Este acordo pretende incentivar a cultura e a leitura nas escolas públicas. Você acredita que esta ação sairá efetivamente do papel, atendendo de forma adequada as escolas que precisam desses projetos?Werneck: Claro que atende. As escolas estão sedentas desses materiais. Há escola que, independente de acordos interministeriais, estão incentivando a leitura entre professores e alunos, possuem biblioteca atualizada e conseguem os livros por meio de doações dos próprios autores, um exemplo disso é a Escola Municipal Itaú de Minas, localizada no município do mesmo nome. Provavelmente, a leitura tenha um papel relevante nos resultados do Enem desta escola, que atinge 6,2. Não tenho dúvidas que os livros levados às escolas serão usados com maior facilidade que os computadores porque a preparação dos professores está mais adequada ao uso de livros. No entanto, há que se avaliar a necessidade da direção da escola preocupar-se com o uso desses materiais. As ações governamentais e os programas federais são bons, mas dependem da "ponta do sistema" onde está a escola, o professor e o aluno.TM: De acordo com sua experiência em escolas públicas, esses projetos vão beneficiar o público mais afastado dos grandes centros culturais, e também dos centros urbanos (escolas rurais), contribuindo para ampliar o conhecimento de mundo desses jovens?Werneck: Seria ótimo que as escolas rurais pudessem receber tantos livros quanto as unidades escolares urbanas. O perigo é atender, prioritariamente, as escolas urbanas em detrimento das rurais. É importante que o gestor público entenda que, hoje, a região rural não é mais considerada uma área de atraso. Tudo mudou: o agronegócio é rico e dinâmico; a empresa rural é administrada de outra forma; as máquinas agrícolas exigem de seus operadores uma formação diversificada e com aprimoramento em uso de informática. A maioria dessas máquinas é dotada de GPS. Portanto, estamos diante de uma região do país onde os recursos e ferramentas exigem um profissional mais capacitado e que se beneficiará muito com a leitura. A ideia é excelente e sua implantação não pode deixar de incluir as áreas rurais, onde as escolas têm responsabilidades semelhantes às urbanas, em se tratando de preparação do capital humano.TM: Quais outras ações o governo poderia implementar para melhorar a educação dos jovens, e como você resume o quadro educacional brasileiro em 2012?Werneck: As ações do governo estão bem traçadas no Plano Nacional de Educação (PNE) entre 2010 e 2020. A preocupação com uma educação de qualidade, que é preceito constitucional, a obrigatoriedade do ensino médio a partir de 2016, a implantação gradativa do tempo integral. Há boas ideias e há entraves. Por exemplo: o PNE ainda não foi votado pelo Congresso Nacional e ainda deve ir, depois, à sansão presidencial. Um aspecto positivo é que as cinco metas do programa Todos pela Educação estão contemplados no PNE, porém estamos com mais de um ano de atraso, e há problemas além do atraso. As crianças brasileiras só conseguem ser alfabetizadas, no primeiro ano num percentual de 50%. Nada mudou, portanto, desde os anos 1950, quando a reprovação entre a primeira e segunda série era de 50%. Portanto, podemos afirmar que a bisneta tem a cara da bisavó dela! Este atraso, hoje, é gerador de outros atrasos porque os estados e municípios terão dois anos para fazer as suas respectivas adaptações. Se o PNE não for votado em 2012 por conta de ser um ano eleitoral, e este calendário de votação passar para 2013, somente teremos condição de implantação do PNE, em sentido pleno, a partir de 2015, o que significa que perderíamos a metade do tempo só com debates e articulações político-pedagógicas. Creio que o governo federal não precisa ter maiores preocupações quanto às verbas para a educação. Os 8% defendidos nas emendas são suficientes, sobretudo se considerarmos o aumento gradativo do PIB brasileiro. Ajudará na educação dos jovens brasileiros o resgate do papel do educador como pessoa imprescindível na estrutura promotora do desenvolvimento do país. Isto envolve condições de trabalho, formação continuada e salário digno.* Talita Moretto é jornalista especialista em Tecnologias na Aprendizagem, coordenadora do Programa Jornal e Educação, atuando na interface mídia e educação desde 2008.** Publicado originalmente no site Adital.


por Talita Moretto*
1152 Língua Portuguesa

Mais sobre sílabas

Na coluna anterior, mencionei um fenômeno ligado às sílabas. Nesta, apresento mais dois. O primeiro diz respeito a um caso de variação. Como se descobre (viajando, ouvindo rádio ou vendo TV), um traço de pronúncia saliente em algumas regiões é o que se chama popularmente de “chiado”, associado aos cariocas, mas que ocorre também em outras regiões. O fato é simples: os fonemas /s/ e /z/ são pronunciados [x] e [j] em final de sílaba. As pronúncias [dexte] e [dejde] (deste e desde) ilustram o fenômeno (observe-se que [x] ocorre diante de consoante surda e [j] diante de sonora).É bom dar-se conta de que o fenômeno ocorre neste contexto restrito, para que não imaginemos que os cariocas dizem [xapato], etc.Outro fenômeno interessante e produtivo ocorre quando as sílabas terminam em consoantes obstruintes: f p b t d k g. São exemplos afta, apto, abduzir, atmosfera, adjetivo, sexo e Magda, pronunciadas frequentemente áfita, ápito, abiduzir, adijetivo, atimosfera, séquisso e máguida. Como se pode observar, as sílabas se reorganizam de forma a eliminar as que são “estranhas” à língua: em vez das sílabas af, ap, ab, etc. (que, a rigor, não existem em português!), passa-se às sílabas a-fi, a-pi, a-bi, etc., bem mais comuns.A pronúncia normal, corrente, não excessivamente “cuidada” ou baseada na escrita, é claramente marcada por este fenômeno. Não adianta achar bom ou ruim que haja fatos como estes. São fatos. Temos que aprender a lidar com eles, especialmente na aquisição da escrita.A maior prova de que se trata de regras da língua são as palavras estrangeiras que apresentam certas características e que se adaptam ao português quando adotadas.Futebol, por exemplo, deriva de foot ball. A primeira sílaba, [fut], termina com t, uma das oclusivas acima comentadas. O que aconteceu com a palavra? Em futebol ocorreu a mesma inserção de vogal (fut > fu-te) que ocorre nas palavras nativas no mesmo contexto. É a mesma regra.Há uma pequena variação na pronúncia desta vogal: às vezes, e, outras, i. A escrita adota sempre um e (esnobe, futebol). Mas a pronúncia é variável. Especialmente se o fenômeno ocorrer numa sílaba átona.Se as palavras fossem escritas como são pronunciadas, haveria variações em muitos casos, como “adevogado / adivogado”, “futebol / futibol”, mas não em outros casos, como “séquisso” (nunca *séquesso).Esta palavra merece um comentário à parte. Nos exercícios de divisão de sílabas que se fazem na escola, ou na escrita manual, quando a palavra precisa ser separada no final da linha, a divisão é se-xo. Mas observe-se que, quando esta palavra (e outras semelhantes, como taxi) é falada, as sílabas são outras: ou sek-so ou sé-ki-so (tak-si ou tá-ki-si). Ninguém fala *se-kso ou *tak-si.Estes fenômenos podem gerar erros ortográficos. Seria bom saber analisar os fatos para dar-nos conta das causas dos erros e para que não digamos sempre e só que os alunos não se esforçam. Até porque este é um caso em que, quando maior o esforço de grafar como se fala (como se aprende), maior a probabilidade de erros.* Sírio Possenti é professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Sírio Possenti*
Atividades culturais auxiliam na manutenção da cultura indígena. Brasil

Dia do Índio: “A escola nos ajuda a manter nossos costumes”

[caption id="attachment_49632" align="alignleft" width="260" caption="Atividades culturais auxiliam na manutenção da cultura indígena."][/caption]“Sou professor, mas antes de qualquer coisa tenho uma cultura guardada comigo e tenho que passar para o meu filho.” Donisete Machado da Silva, ou Awá Aridju – em tupi-guarani –, dá aulas para jovens e adultos na aldeia Renascer, localizada em Caraguatatuba.A preocupação de manter costumes e difundir a tradição para as gerações futuras permeia o pensamento do professor e também pai que, embora reconheça a importância da alfabetização em português, não abre mão de transmitir ao pequeno a arte que herdou de seu pai. “Se ele aprender, sei que nossa cultura não vai morrer, porque ele vai passá-la para frente."A 400 quilômetros dali, em Sete Barras, interior do Estado, músicas e danças típicas embalam os quase 40 alunos da Escola Estadual Indígena Peguao-Ty. Todas as quartas-feiras, os alunos saem da sala de aula para aprenderem mais sobre a importância da preservação da história e das tradições guarani.O evento, que recebe o nome de Dia da Cultura, é um dos meios utilizados pela comunidade e pelos próprios educadores para garantirem que os pequenos, ainda em formação, carreguem consigo um pouco dos costumes que há anos perpassam gerações.De um lado, meninos vestidos como legítimos índios dão as mãos e cantam o coro de uma tradicional canção da tribo. Do outro, as meninas respondem cantando e dançando a outra parte da música, instrumentada por um violão e um típico tambor indígena.“Eles cantam, dançam e recebem conselhos dos mais velhos. Nós precisamos lembrar nossa cultura, o que Deus deu para nós. Esta é a melhor forma”, conta o cacique Luiz Eusébio.Na escolaUma das maneiras de fortalecer costumes e tradições dentro da escola é levar para a sala de aula educadores da própria comunidade. Todos os professores e funcionários da unidade são índios, conforme determinação de lei estadual. “Acho importante ver professores índios trabalhando com os alunos. Até mesmo para conservar a tradição e a língua, porque aqui nós ensinamos tanto o português como o guarani”, conta o professor bilíngue e morador da aldeia, Celso Aquiles, ou Verá Miri – em guarani.* Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Redação da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo
Agenciabrasil14042012 EZF_3164 Literatura

Literatura infantil estimula criatividade e tolerância, diz escritora de livros para crianças

Por cerca de cinco minutos, uma cantiga infantil tomou conta hoje (14) da Esplanada dos Ministérios. Acompanhando a música do violão, pais e crianças cantarolavam as façanhas de Jacaré Bilé, livro que conta a história de um jacaré com fama de dorminhoco que acorda só depois que o Sol se põe.Assim terminou a apresentação da jornalista e escritora Alessandra Roscoe na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília. Por meio de músicas, rimas e representações, ela fez o público brincar de imaginar, à medida que prosseguia com o que considera uma missão: estimular o interesse pela leitura desde a infância.“Uma criança que lê desde pequena se torna um adulto mais aberto, capaz de enxergar o outro com olhar mais democrático, reconhecendo e respeitando as experiências alheias”, diz Alessandra. Segundo ela, a literatura não apenas estimula a criatividade como permite exercer a imaginação ao extremo. “A gente precisa de fantasia para aguentar o tranco do mundo real”, acredita.Com 12 livros escritos mais duas participações em coletâneas, Alessandra busca inspiração na convivência com os filhos para as histórias. Para atrair a atenção da criançada, vale apelar para todos os sentidos, mas sem perder de vista o conteúdo. “Ilustrações, cantigas, poesia, o livro infantil precisa ter algo a mais, mas sem deixar de contar uma história envolvente e, antes de tudo, estimular a leitura por prazer”, explica.Para Alessandra, é importante estimular a leitura desde cedo, de preferência desde a barriga da mãe. Ela participa de grupos de leitura com gestantes, com bebês e com crianças pequenas. Os pais que aderiram ao método aprovam a experiência.A professora universitária Silmara Carvalho, 45 anos, lê para o filho Júlio Afonso, de seis anos, desde a gestação. “É importante para o jovem viver o imaginário, inventar e acrescentar. Quem lê desde cedo entra na universidade com bagagem cultural”, diz Silmara. Ela tem um filho de 18 anos que, segundo ela, também foi criado em meio aos livros e, até hoje, cultiva o hábito da leitura.A fisioterapeuta Viviane Leoncy, 37 anos, também estimula o gosto pelos livros na filha de sete anos. Para ela, a literatura na infância ajuda a formar adultos versáteis e inovadores. “Quem desenvolve a criatividade desde pequeno consegue estar no meio de uma sinuca e saber como vai se virar depois que cresce”, declara. Segundo ela, um dos programas favoritos da filha é ir a livrarias nos fins de semana.* Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Wellton Máximo, da Agência Brasil
Ilustração: Daneil Kondo Artigo

Da educação mercadoria à certificação vazia

[caption id="attachment_48893" align="alignleft" width="108" caption="Ilustração: Daneil Kondo"][/caption]Enquanto não houver uma mudança radical, o próprio sentido de educação estará comprometido, posto que seu fim mais elementar não é atingido: em vez de promover a emancipação humana, produz lucro para o capital que só enxerga as camadas sociais C, D e E quando estas se apresentam como potencial mercado consumidor.O ensino superior, público e privado, no Brasil passou por grandes transformações nas últimas décadas. Essas mudanças – travestidas de democratização, por favorecerem o acesso – visaram atender a uma proposta de privatização e barateamento da educação.O Ministério da Educação (MEC) alardeia números, sobretudo para organismos internacionais – que obrigam o país a se enquadrar em padrões estipulados por eles na competição do mercado de consumo, trabalho e pesquisa –, que demonstram o crescimento do acesso ao ensino superior, ainda que distantes daqueles objetivados pelo Plano Nacional de Educação (PNE) (o acesso é de apenas 13,8% dos jovens, entre 18 e 24 anos). Porém, esse suposto processo de inclusão tem facilitado, para além do aceitável, um crescimento vertiginoso das instituições de ensino superior (IES) privadas, com desdobramentos que passam pela precarização do trabalho docente e pela formação duvidosa que essas empresas têm oferecido aos alunos por ela formados.A predominância de objetivos economicistas em detrimento dos pedagógicos nas IES privadas permitiu um fenômeno relativamente novo no Brasil: a formação de conglomerados educacionais, grandes empresas, de capital aberto e com forte participação de grupos estrangeiros em seu quadro de acionistas. A autorização para funcionamento dessa espécie de oligopólio do setor educacional tem intensificado a visão mercantil da educação superior no Brasil. Os exemplos mais representativos desse modelo de organização empresarial na educação ficam por conta dos grupos educacionais Kroton-Pitágoras, Estácio de Sá, SEB (Sistema Educacional Brasileiro) e Anhanguera Educacional. Esta última, com a recente aquisição da Uniban, passou a ser o maior grupo educacional do país, atendendo aproximadamente 400 mil alunos em campi espalhados por diversos estados brasileiros. Além disso, manteve sua projeção de crescimento de atingir 1 milhão de estudantes em cinco anos, segundo matéria do Valor Econômico de 17 de novembro de 2011.A alteração no padrão de financiamento das IES privadas promoveu uma mudança significativa no modelo de gestão: o papel que antes era predominantemente exercido por mantenedoras, de caráter familiar ou religioso, hoje passou a ser de responsabilidade de bancos ou fundos de investimentos que contratam executivos como seus representantes, padronizam procedimentos de relações de trabalho nos departamentos de recursos humanos e prestam contas ao fundo de ações. Decorre daí um perfil de gestão alinhavado com a lógica empresarial, sob responsabilidade de executivos, e muito distante dos objetivos educacionais que sempre foram sustentados por professores e pesquisadores.Abandono do EstadoTomado pela óptica do lucro, o setor educacional privado tem se valido, oportunamente, do abandono do Estado na oferta de vagas públicas para a formação superior. Dessa forma, as IES privadas, cuja existência deveria ter um caráter complementar, acabaram predominando e se consolidando em grupos que formulam e ditam as regras de seu interesse para a (des)regulamentação do setor, regras essas beneficiadas pelas chamadas políticas de parcerias público-privadas, as quais são alicerçadas sobre o princípio da transferência de dinheiro público para a iniciativa privada com a finalidade de que esta última cumpra o papel que o Estado se nega a exercer. No caso do ensino superior, essas transferências se dão predominantemente por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni) e do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), além dos programas de benefícios de isenção fiscal oferecidos pelo BNDES. Nesse ponto, o discurso falacioso do Estado e o do setor privado convergem: trata-se de iniciativas e proposições que manifestam concretamente a preocupação com a formação do brasileiro e com o desenvolvimento do país!De modo geral, a consolidação da mercantilização da educação e a formação de oligopólios educacionais têm ocorrido com base na incorporação de princípios e fundamentos do setor empresarial, ou seja, na otimização dos recursos. Como afirma Marilena Chauí (2001), “a Universidade está estruturada segundo o modelo organizacional da grande empresa, isto é, tem o rendimento como fim, a burocracia como meio e as leis do mercado como condição”. Essa fórmula – clássica do neoliberalismo – consiste na diminuição das despesas para o consequente aumento dos lucros. Assim, com vistas a assegurar um perfil rentável − à empresa, é claro −, torna-se necessária a precarização das relações de trabalho: redução de salários, perda de direitos, ameaças e cobranças pelo desempenho da instituição nas avaliações externas promovidas pelo MEC são alguns traços da rotina de professores das IES privadas.Ao mesmo tempo, concorre para intensificar os contornos dramáticos desse quadro a expansão da modalidade EaD (educação a distância), que em 2010 fechou o ano com 973 mil alunos matriculados, o que corresponde a 30% de todos os universitários em instituições privadas. Nesse caso, a educação mediada pela tecnologia, que deveria servir para aproximar os extremos sociais, acaba por aprofundá-los. Contudo, para os empresários, o aliciamento desse recurso é tomado como mais uma vantagem mercadológica capitalista, sobretudo por potencializar sua capacidade de lucro.Na outra ponta, os salários praticados nas IES privadas são – via de regra – aviltantes, o que obriga muitos profissionais a lecionar em várias instituições, seja para compor a renda, seja para se prevenir das demissões, muitas vezes arbitrárias. Nesse contexto, os professores se veem impedidos de desempenhar tarefas diretamente ligadas à sua função (e ao ensino superior, ou seja, ensino, pesquisa e extensão), absorvidos que estão por uma jornada de trabalho extenuante. No entanto, paralelamente a isso, ocorre um processo silencioso de captura da subjetividade dos docentes com objetivo de estabelecer uma competição interna, cuja face mais alarmante é a perda da autonomia. Como toda competição tem exigências, impõe-se que esses profissionais – para terem condição de competir – sejam aguerridos, “pró-ativos”, competentes e indiferentes às questões coletivas, o que os leva a um distanciamento de seus sindicatos e associações e permite, muitas vezes, que sejam – deliberadamente – vistos como mão de obra manipulável pelos patrões.Precarização e intimidaçãoSe de um lado temos a perda da autonomia dos professores como uma ameaça à própria noção de função docente, de outro notamos que, por parte dos empresários da educação, a oferta de uma formação aligeirada tem exigido profissionais cada vez menos críticos e progressivamente mais alienados da prática educativa. Não é raro o relato de professores do ensino superior que têm seus conteúdos – planos e ementas de cursos –, bem como suas avaliações, elaborados por um terceiro que nunca sequer esteve em uma sala de aula. Essa tentativa, por parte dos patrões, de padronizar a prática pedagógica para garantir um rendimento mínimo nas avaliações externas evidencia de maneira cabal seu propósito de controle absoluto sobre a mercadoria que vendem.Dessa forma, a reação e a resistência a essa prática de mercantilização da educação impõem grandes desafios. No estado de São Paulo, que acompanhamos mais de perto, tem sido cada vez mais difícil o enfrentamento com os patrões do ensino superior nas campanhas salariais organizadas por nossa federação, a Fepesp (Federação dos Profissionais de Educação do Estado de São Paulo), pois há um evidente conflito nas pautas apresentadas para negociação. Do lado de lá, a ofensiva é para subtrair direitos historicamente conquistados e que, vistos com a luneta do capital, representam entraves normativos à expansão dos lucros. Em razão disso, questões como plano de carreira, regulamentação da EaD e aumento real são deliberadamente ignoradas pelos patrões, que, por sua vez, promovem lobbiesjunto ao Poder Legislativo, a fim de que as regras do setor continuem a beneficiá-los.Entretanto, a predominância de valores empresariais na organização das IES e a falta de regulamentação efetiva por parte do MEC têm imposto uma permanente ameaça, ainda que velada, que é o desemprego. Assim, os professores insatisfeitos com salários e condições de trabalho incorporam a responsabilidade incutida pelo patrão, de que o mercado funciona assim: os insatisfeitos que se mudem. A aceitação dessa ideia leva a um comportamento defensivo, porque nos faz crer que nada pode ser feito e, por isso mesmo, qualquer iniciativa coletiva deve ser vista como prejuízo ao próprio trabalhador.Há também que se ressaltar a necessidade urgente de que o debate sobre a educação seja tomado como fundamento para um crescimento qualitativo e efetivo do Brasil, sobretudo para a população que ainda anseia conhecer na prática a longo prazo esse crescimento. Para validarmos o princípio democrático do direito à educação, sem, contudo, ignorar que o mercado do ensino privado não arrefecerá a curto prazo, precisamos assegurar o investimento de 10% do PIB na educação pública – que estimamos universal e de qualidade –, a fim de que ela seja o referencial para o setor privado, e não o contrário.Enquanto não houver uma mudança radical nesse quadro, o próprio sentido de educação estará comprometido, posto que seu fim mais elementar não é atingido: em vez de promover a emancipação humana, produz lucro para o capital que só enxerga as camadas sociais C, D e E quando estas se apresentam como potencial mercado consumidor.A forte presença do controle corporativo em um setor essencial como a educação provoca sérias fissuras na malha social, na medida em que os desdobramentos da transferência tácita da responsabilidade do Estado para a iniciativa privada têm autorizado o funcionamento de fábricas de diplomas com certificação vazia, para uma população que, embriagada pela democratização do acesso, ainda não se sabe enganada.* Andrea Harada Souza é Professora de literatura, presidente do Sinpro Guarulhos e membro da coordenação estadal da CSP-Conlutas.** Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique.


por Andrea Harada Souza*
diversidade cultral Cultura

A serviço do pluralismo cultural

O melhor antídoto para o “choque das civilizações” é a aceitação do pluralismo cultural, em favor do qual as grandes vertentes linguísticas – arabofonia, francofonia, hispanofonia, lusofonia – devem desempenhar papel decisivo. A convenção da Unesco de 2005 é um primeiro passo nesse sentido.A guerra sempre representa uma derrota do pensamento. Se quisermos organizar as relações entre as diferentes sociedades e culturas por meio de estratégias que fujam da lógica dos conflitos de civilização, com o intuito de construir a paz, nada é mais urgente do que dimensionar a realidade atual. Quanto mais o político e o econômico se reduzem à regulação burocrática por meio de normas abstratas e de processos afastados dos cidadãos, maior a necessidade fundamental de se construir uma sociedade mais participativa e solidária. A busca de sentido é mais intensa e as construções identitárias se tornam mais importantes. As questões de identidade e de cultura e os interesses que elas envolvem estão no cerne da dinâmica mundial. Cabe ao político assumir esta dimensão, introduzindo as questões geoculturais na governança global, equiparando-as em importância com as questões geopolíticas e geoeconômicas.A globalização não provoca apenas um aumento da circulação de mercadorias. Ela transforma a maneira com a qual nós representamos o mundo, as suas possibilidades, as fronteiras, o espaço, o tempo: ela estrutura as imaginações. Este é um processo ambivalente. Não há dúvida de que ele abre possibilidades inéditas de interações enriquecedoras entre as culturas, tornando-as mais presentes umas para as outras; ele também pode acentuar os riscos relacionados a intercâmbios que estariam desequilibrados de maneira estrutural. A esse respeito, a recente evolução dos meios de comunicação globais, que constituem o principal vetor da globalização dos fluxos culturais, comporta duas consequências de alcance considerável.Em primeiro lugar, com os meios de comunicação, a lógica industrial que tende a se impor à cultura leva a um privilégio da rentabilidade, reduzindo a esfera cultural a um mercado aberto pela liberalização àqueles que já dispõem dos meios para explorá-lo. Os cinco ou seis grandes grupos de mídia que se constituíram no decorrer dos últimos anos detêm um poder determinante sobre grande parte do que se produz e é distribuído pelo mundo afora. Esta evolução causa preocupação nas sociedades cujas culturas não têm os meios para estarem presentes, não como objetos de curiosidade passageira, mas sim como atores dinâmicos nos circuitos de produção e de distribuição da esfera midiática globalizada. E que com isso se consideram desprovidas do fundamento e de um instrumento fundamental do seu desenvolvimento no contexto atual.A industrialização da cultura comporta uma segunda consequência. Por meio das indústrias da informação e do entretenimento se desenvolvem, entre as sociedades e as culturas, interações cujo impacto tende a ser muito mais amplo que aquele das relações de vizinhança. Uma única indagação é suficiente para ilustrar o alcance desse fenômeno inédito na história da humanidade: de onde vêm hoje os heróis, os valores, os sonhos, a visão do mundo dos jovens: do contexto sociocultural local ou do modelo consumista veiculado pelas forças mercantis dos meios de comunicação globais? Vale questionar a coesão social das sociedades nas quais a imaginação dos jovens se constrói dentro do sonho de um modo de vida consumista que o planeta não poderia bancar sem explodir.Toda sociedade dá valor à sua segurança física. Ela também quer que a sua cultura seja efetivamente conhecida e reconhecida pelas outras, atuando em pé de igualdade no plano da dignidade e, quando possível, no plano dos meios dos quais ela dispõe. A ameaça não é apenas a do darwinismo cultural, temido pelas sociedades cujas telas de cinema e de TV difundem menos de 10% de produções locais; ela pode manifestar-se também e inclusive nas sociedades desenvolvidas, através da espiral da ignorância do Outro, que alimenta o medo do qual se nutre o instinto de guerra. A segurança cultural não pode mais ser garantida trancando-se dentro de um espaço nacional, mesmo se a nação continua representando o lar central, próprio para “construir uma sociedade mais participativa e solidária”. Ela deve estar fundamentada no princípio de sociedades abertas, dentro de um quadro de interações capaz de garantir para as relações entre as sociedades e as culturas as condições aceitáveis de reciprocidade. As questões culturais não podem ser reduzidas ao seu aspecto industrial ou econômico; daqui para a frente, elas possuem uma dimensão global e estratégica que o político deve abordar como tal.A cultura não é um “dado” da natureza, nem uma espécie de entidade coisificada que poderíamos proteger colocando-a numa embalagem fechada a vácuo; ela é o produto do espírito humano, de escolhas individuais e coletivas constantes. Ela se constrói constantemente na interação que diferencia, e ao mesmo tempo cria as condições do diálogo com os outros. O resultado das interações não é predeterminado: ele pode ser positivo, mas também pode tornar-se conflitante. Cabe ao político atualizar constantemente o quadro dessas interações.Este projeto político é o do pluralismo cultural. Sem ignorar o equilíbrio entre forças, que nunca é excluído das relações humanas, ele tem o objetivo de discipliná-las e ordená-las, definindo as condições de interações equilibradas entre as sociedades e as culturas, levando em conta, entre outros, o papel e a importância dos meios de comunicação globais. Trata-se de defender a abertura dominada, o direito de poder, dentro do respeito por valores fundamentais submetidos ao pensamento crítico e dentro do respeito pelos outros; de exercer suas escolhas individuais e coletivas dentro de condições de autonomia suficientes, sem obrigações nem dependência externa, inclusive no que diz respeito à produção e ao intercâmbio das suas diversas formas de expressão cultural.Nenhuma cultura pode petrificar-se ou fechar-se sem desaparecer. Mas nenhuma interação pode ser positiva e satisfatória se ocorrer dentro de condições de desigualdade excessivamente acentuadas, ou sob o controle dos mais poderosos. O pluralismo cultural é incompatível com uma visão de mundo no qual alguns se considerariam como os únicos detentores de uma modernidade supostamente universal. Nem todos os países possuem petróleo, mas toda sociedade tem uma cultura: em matéria de cultura, a abertura é indissociável de uma reciprocidade mínima efetiva.Neste projeto político do pluralismo cultural, as vertentes linguístico-culturais (francofonia, hispanofonia, lusofonia, arabofonia) têm um papel decisivo como protagonistas efetivas no mundo político. O pluralismo cultural passa, entre outros, pelo direito de os Estados adotarem suas políticas culturais nacionais independentemente da liberalização dos intercâmbios econômicos, conforme foi sacramentado pela convenção sobre a proteção e a promoção da diversidade das expressões culturais, adotada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 2005.Contudo, já que na escala global as interações entre as sociedades e as culturas não dizem respeito apenas aos Estados, o pluralismo cultural não pode ser garantido apenas pela regulamentação. Os exemplos do meio ambiente e das línguas demonstram que os tratados e as políticas nacionais não bastam para solucionar os problemas mundiais. Contra a perspectiva temível dos choques de civilizações é preciso defender aquela de uma globalização controlada, na qual o pluralismo cultural, assumido politicamente, constituirá um dos fundamentos de um mundo multipolar e interdependente.* Abdou Diouf é Ex-presidente do Senegal, secretário-geral da Organização Internacional da Francofonia (OIF).** Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique.


por Abdou Diouf*

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