Financiamento coletivo aponta novo rumo para o mercado editorial

Literatura

Financiamento coletivo aponta novo rumo para o mercado editorial


por Redação As Boas Novas


Um grupo de mais de 25 autores está contando com a ajuda de internautas para que um livro saia do papel – ou melhor, vire papel.O “Clube da Leitura: Modo de Usar - Vol. II” poderá ser publicado graças às doações que vem recebendo no Movere.me, site que trabalha com financiamento colaborativo , ou crowdfunding. O conceito é novo e tem ajudado a tornar realidade projetos bacanas, que precisam de um empurrão – e dinheiro.A obra foi organizada por um grupo de cariocas amantes da literatura, que se reúnem em saraus na livraria Baratos da Ribeira, em Copacabana. Ela trará duzentos contos elaborados desde 2009 nesses encontros de autores amadores. É a segunda vez que o coletivo lança um livro, mas a primeira em que recorrem ao crowdfunding, e aprovam a inciativa.Maurício Gouveia, um dos membros do Clube, diz que o financiamento colaborativo tornou a publicação do livro bem mais fácil que a do primeiro volume, que saiu em 2007. Com apoio dos internautas, o investimento dos autores e ilustradores pôde ser menor, então, o livro irá mais rapidamente para as lojas.Outro diferencial desse segundo volume é ter a participação dos doadores na elaboração do conteúdo. Dependendo da quantia de dinheiro oferecida, eles podem ajudar na escolha dos melhores contos que serão impressos. Isto acontece porque uma das formas de incentivar as arrecadações no Movere-me é oferecer “recompensas”, que vão de livros e dvds a passeios com artistas e ingressos para shows.Maurício conta que buscava interatividade entre autores e leitores, e por isto teve a ideia de oferecer como recompensa pela participação. “Os autores têm sempre uma visão pouco distanciada da obra, porque, obviamente, têm apego a ela. Mas os leitores agregam uma visão de fora que legitima a publicação do livro ao decidir quais contos devem ou não fazer parte dele”, diz.Para ele, as redes sociais estão tendo um papel importante para que projetos como esse possam se tornar realidade. “Mesmo com a internet, os escritores continuam querendo ter seus livros impressos. As redes sociais existem para concretizar projetos no mundo real, e o Clube da Leitura está se beneficiando dessa ferramenta”.Mesmo com a meta alcançada, o livro ainda ficará até 2 de agosto no site aberto a doações.  Maurício prevê que com mais colaboradores, o livro terá uma tiragem maior do que as 500 cópias iniciais e poderá ser vendido além do Rio de Janeiro.* Publicado originalmente no site As Boas Novas.

Estudantes chilenos vestidos somente com cartazes de papel, onde está escrito 'A Universidade nos deixou sem nada', durante manifestação em Santiago. Mundo

A realidade da educação superior chilena

Paralisação estudantil contra uma educação em crise em um país do "primeiro mundo".[caption id="attachment_17730" align="alignright" width="300" caption="Estudantes chilenos vestidos somente com cartazes de papel, onde está escrito "A Universidade nos deixou sem nada", durante manifestação em Santiago."][media-credit name="Ivan Alvarado/Reuters" align="alignright" width="300"][/media-credit][/caption]Conversando com muitas pessoas, sempre que se fala no Chile, vem à mente um país desenvolvido, com crescimento, etc. Segundo alguns, no próximo período, o Chile deve ingressar no rol dos países considerados desenvolvidos. Porém, nos dias 26 de maio e 1° de junho, 40 mil estudantes, liderados pela Confederação de Federações de Estudantes do Chile (Confech), fizeram uma mobilização contra a mercantilização da educação. Ainda pautavam que a educação chilena vive uma crise. Bom, pensamos, tem boi na linha nessas informações. Vejamos.Em Santiago do Chile, há muitas universidades, 80% delas privadas. Até aí nenhuma grande diferença da realidade brasileira em que 75% das vagas do ensino superior são oferecidas na rede privada. A questão é que mesmo as universidades públicas chilenas são pagas. Esta realidade faz parte da política do governo Piñera para o financiamento da educação. Nesse sentido, ao invés de financiar as Universidades, o governo concede um financiamento diretamente ao estudante, e ele define onde aplicar. Na prática, isto corresponde à desresponsabilização do Estado com a educação e vê o ensino apenas como um serviço prestado. Além disso, o ensino privado não possui qualquer tipo de regulamentação e prevalecem as regras do mercado na educação. E não existem espaços de diálogo do governo com a comunidade acadêmica. Para conseguir falar com o ministro de Educação e apresentar suas opiniões, é preciso colocar milhares de pessoas nas ruas. Aí surge uma questão mais, a da democracia.De certa forma, no Brasil já faz parte do nosso cotidiano a produção de filmes sobre a ditadura militar. Assim, para que um filme sobre esse tema nos mobilize para vê-lo, há que tratar de algo novo, um tema até então não tratado ou de uma ótica ainda não vista. E isto é difícil. Estamos acostumados a ver nesses filmes cenas de policiais armados até os dentes reprimindo manifestantes nas ruas, com forte agressão física, prisão, etc. Ou as vemos em governos dirigidos por forças que se referenciam em uma ave com bico grande, ou ainda em alguns demos que ainda existem em algum canto por aí.Pois bem, essas cenas foram revividas pelos estudantes chilenos. Policiais fortemente armados hostilizando os manifestantes, spray de pimenta no ar, criaram um clima pesado nas manifestações. Quando se encerrou o ato, entrou em cena uma espécie de tanque com um canhão d'agua e um autofalante de onde saía uma voz estridente dizendo que os estudantes tinham que sair da rua. Ao demorarem a sair, começaram as chuvas de bombas de gás lacrimogênio e os jatos d'agua para cima dos manifestantes. Foi nesse momento que as pessoas mais se assustaram, o comércio fechou e o corre-corre começou. Quem ficou para trás ou enfrentou os policiais sofreu as consequências.As manifestações foram gravadas por um policial que identificou os manifestantes. Como se não bastasse tudo isso, no dia 1° de junho, os Carabineros do Chile entraram na Universidade de Santiago e reprimiram manifestantes que voltavam da marcha. O confronto fez com que os policiais saíssem da Universidade expulsos pelos estudantes. Uma vez fora dela, passaram a dar tiros com bala de borracha e lançar bombas de gás lacrimogênio para dentro da Universidade.Os estudantes chilenos, da Confech, seguem mobilizados com o apoio dos reitores, professores e funcionários das universidades. Está em curso uma paralisação sem prazo definido para acabar e muitas universidades foram tomadas pelos estudantes. Um país é desenvolvido quando aplica um modelo soberano de desenvolvimento que promova a integração regional. Esse país deve ver ainda as univerisdades, não apenas como centros de formação de profissionais, mas sim, como um instrumento de produção científica e tecnológica a serviço de um projeto de país. Para isso, não pode ser a lógica mercantil a mandar na educação.Esses foram marcos aprovados por estudantes, educadores, trabalhadores e autoridades na Conferência Regional de Educação Superior, em 2008, e na Conferência Mundial de Educação Superior, de 2009, e estão no centro da pauta de avanços do continente. Nesse sentido, um país com a história e o povo que tem o Chile não pode estar na contramão desse processo. Ainda, um modelo de desenvolvimento precisa conciliar desenvolvimento econômico e social e democracia. É fundamental o diálogo entre Estado e sociedade civil e a garantia da liberdade de organização e mobilização. Ou seja, a discussão é: de que tipo de desenvolvimento estamos falando?* Mateus Fiorentini é representante da União Nacional dos Estudantes (UNE) e no secretariado executivo da Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (Oclae).** Publicado originalmente no site Agência Carta Maior.


por Mateus Fiorentini*
1 Artigo

A educação e a prova dos nove

Ao contrário do que parece, não existe e nunca existiu no Brasil o propalado consenso sobre a importância da educação. O que impera é não só o dissenso, fustigado pelo obscurantismo, como uma disputa sobre o papel do sistema público, seu peso no orçamento do Estado e sua relação com o mercado da educação, um dos mais rentáveis do país.É curioso, mas dificilmente fruto de uma mera coincidência, que o fogo cruzado contra o ministro da Educação, Fernando Haddad, tenha se intensificado justamente quando o debate sobre o Plano Nacional de Educação e sobre o futuro de suas políticas no país deveria ser o mais relevante a ser travado neste momento.Apesar de inúmeros e significativos avanços nos últimos anos, estamos apenas caminhando em uma área na qual o país precisaria estar voando.O principal obstáculo decorre do fato de que a educação sofreu um profundo processo de fragmentação, confusão gerencial, subfinanciamento, desmonte de suas estruturas e desarticulação dos setores defensores do sistema público.A Constituição de 1988 promoveu uma positiva institucionalização da autonomia dos sistemas estaduais, municipais e da universidade. Promoveu a descentralização e a expansão da oferta de vagas, rumo à quase universalização do ensino fundamental.Todavia, sobretudo a partir dos anos 1990, o federalismo brasileiro passou por um processo de grave distorção. A falência econômica de muitos Estados, por conta de gestões irresponsáveis ao longo dos anos 1980, e suas políticas de terra arrasada (torrar recursos e deixar a casa destruída para governos seguintes) levaram a um contexto favorável ao ajuste fiscal rígido.Estados e Municípios foram obrigados a reduzir custos, e a educação foi um dos setores prioritários da operação-desmonte. Salários dos professores foram achatados e proliferaram os contratos temporários. Muitos se tornaram “concurseiros”, policiais, funcionários de bancos, analistas de carreiras vinculadas à gestão da máquina do Estado (tributação, orçamento, administração) e tudo o que, com salários bem mais elevados, demonstrava que a educação não era prioridade.Ao mesmo tempo, escolas desmoronavam sobre a cabeça de alunos e professores. O ensino técnico havia sido abandonado. O ensino médio, excluído do Fundef, foi deixado à míngua. A maioria dos governadores, na prática, abandonou por completo seu compromisso com a educação, preferindo redirecionar a missão essencial dos Estados às políticas de desenvolvimento econômico, com estímulo à guerra fiscal e obsessão por atrair empresas e empreendimentos que guardariam relação direta com o financimento de campanhas políticas.A educação chegou ao fundo do poço, e é por isto que ainda é tão difícil esperar que ela dê saltos. Cada tentativa tem o provável resultado de bater com a cabeça na parede.A fragmentação é tal que há diferenças muito pronunciadas de desempenho entre Estados vizinhos, em uma mesma região, e mesmo de escolas vizinhas, em um mesmo Município. A depender do governador, do prefeito, e até do diretor, a cada quatro anos tudo pode ser perdido, e a educação passar do vinho ao vinagre. Avanços de uma gestão podem ser revertidos pelas gestões seguintes.O governo Lula patrocinou grandes conquistas, sob o comando do ministro Haddad. Elevou o gasto com educação e transformou o Fundef em Fundeb, finalmente abrangendo o ensino médio. Lula também tomou a decisão crucial de suspender a Desvinculação das Receitas da União (a famigerada DRU), que diminuía o valor dos recursos a serem repassados para a educação. Desde 2003, foram construídos 214 centros de formação profissional e tecnológica, mais do que os 140 erigidos desde 1909. Há 14 novas universidades, além de mais de 30 novos campi ligados às universidades já existentes.O Judiciário brasileiro também deu uma contribuição importante, recentemente, derrotando cinco governadores que haviam pedido a decretação da inconstitucionalidade do piso salarial dos professores estabelecido nacionalmente.Reverteu-se a absurda situação anterior, na qual, em nome da “responsabilidade” fiscal, o governo federal se desincumbia de cumprir sua responsabilidade com a educação.O fato de o Brasil ocupar, segundo a Unesco, o 88º lugar, entre 127 países, e o 53º, entre 65 países pesquisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tem muito a ver com o fato de a educação ser, igualmente, não a primeira, mas a 53ª ou a 88ª prioridade de muitos governos estaduais e municipais.É fácil jogar toda a culpa, ou a maior parte dela, sobre o Ministério da Educação (MEC), e mais especificamente, sobre os ombros do ministro Fernando Haddad. Fácil, mas simplista.Certamente, o MEC cometeu vários erros. O Ministério não se empenhou por consolidar a coalizão de defesa do sistema público para além de suas reuniões com outros governos. Demorou muito para fazer a Conferência Nacional de Educação e está longe de ter uma boa relação com as organizações nacionais de professores. Não priorizou o tema da gestão democrática, verdadeira pedra de toque da autonomia do ensino, mas que precisa de parâmetros claros para que não seja mais um ingrediente de desagregação do sistema.Também não conseguiu estabelecer uma nova estratégia de relacionamento com Estados, Municípios e Distrito Federal. Hoje, a política do governo federal para a educação não é uma política de educação nacional. O que existe são diferentes políticas educacionais espalhadas pelo país, e o esforço do MEC no sentido de harmonizá-las por estratégias de apoio e cooperação.Mas os ataques que Haddad tem sofrido ultimamente vêm de quem nunca o aplaudiu, quando de seus acertos. A coalizão que mira no MEC quer acertar na testa destes avanços proporcionados em menos de uma década.Quem conhece um pouco da história da educação no Brasil sabe que inúmeras tentativas de transformá-la mais profundamente são estigmatizadas com pesadelos e fantasmas.Por exemplo, nos anos 1930, o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto, chamou para conduzir seu projeto de reforma do ensino ninguém menos do que o honorável Anísio Teixeira, velho batalhador da educação pública, laica e inovadora. Ambos criaram, como modelo, a Universidade do Distrito Federal. Em seus quadros estavam nomes que reinventaram as ideias sobre o Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda, Cândido Portinari, Heitor Villa Lobos, Cecília Meirelles, Álvaro Vieira Pinto, Josué de Castro, Gilberto Freyre e Mário de Andrade. Portanto, gente de todos os matizes.O que isso rendeu a Pedro Ernesto? A acusação, feita pelos conservadores, de abrigar comunistas, de ser um ateu, contrário ao ensino da palavra de Deus. Anísio Teixeira demitiu-se. O prefeito foi exonerado e preso, acusado de simpatia com comunistas. A UDF foi absorvida, no Estado Novo, pela Universidade do Brasil (atual UFRJ) e seus professores passaram a ser contratados com crivo sobre suas convicções ideológicas e religiosas, sob a lupa de Alceu Amoroso Lima e do Cardeal Leme.O projeto de Anísio Teixeira retornou revigorado, décadas depois, em Brasília, no projeto de Escola Parque, de tempo integral, e com Darcy Ribeiro, com a Universidade de Brasília. Nova ditadura, a de 1964, interrompeu o experimento.A educação no Brasil, sucessivamente golpeada pelo autoritarismo, em períodos democráticos é bloqueada quando pretende avançar. É por isto que ela se arrasta vagarosamente. A primeira Lei de Diretrizes e Bases só foi promulgada em 1961, sendo que estava prevista desde a Constituição de 1934 (na forma de um Plano Nacional de Educação). Foram 13 anos de tramitação, desde o envio de seu projeto, em 1948. A segunda LDB, estabelecida pela Constituição de 1988, só chegaria à sua redação final em 1996.A institucionalização das regras nacionais para a educação é sempre muito lenta. Isto nada tem a ver com democracia e tempo de debate. Pelo contrário. Esses projetos são deliberadamente entregues a uma tramitação modorrenta, com parlamentares que se esmeram por mantê-los em total monotonia, enquanto agridem a compreensão pública com polêmicas disparatadas. Atiram para todos os lados em questões pontuais, enquanto agem solenemente em prol do silêncio de cemitério, trilha sonora mais comum do debate sobre os rumos da educação.Enquanto esperamos que o MEC seja rápido para corrigir seus erros e evitar que eles se repitam (como no caso do 10-7=4), é preciso ter clareza dos grandes desafios que se tem pela frente. O importante já não é apenas superá-los, evitando retrocessos, mas fazê-lo ainda mais rapidamente. O atraso histórico amargado pelo sistema público de educação é de tal monta que mesmo alguns resultados exuberantes colecionados nos últimos anos deixam a sensação de uma vitória de Pirro para professores e estudantes.Mais do que dar continuidade ao que foi feito, seria hora de uma guinada.* Antonio Lassance é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor de Ciência Política. As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.** Publicado originalmente no site Agência Carta Maior.


por Antonio Lassance*
1 Comportamento

O carimbo do bullying

A mãe de Letícia está preocupada com a filha. Várias vezes ela foi chamada para buscá-la na escola, porque a garota apresentava queixas de dor de cabeça. Além disso, as notas da menina, que sempre foram boas, decaíram. Percebeu também que a filha já não se interessa em participar das festas de aniversário dos colegas da escola.Questionada pela mãe, Letícia não relata o que está acontecendo. No entanto, Letícia está sendo alvo de bullying. Com sobrepeso, ela é ironizada por dois garotos de sua classe – a chamam de “baleia”. Letícia teve crises de choro na escola, após vários episódios de sátiras. O termo bullying tem sido citado por pais, professores, profissionais de comunicação e até mesmo entre as crianças. Mas, afinal, o que é bullying? Segundo a precursora do tema no país, a professora Cléo Fante, o bullying é um fenômeno tão antigo quanto o surgimento da escola. Desde que existe agrupamento de crianças, existe bullying. O termo inglês é traduzido como maltrato entre pares e designa a prática de atos agressivos de um ou mais autores contra uma pessoa que será um alvo.Atualmente, em razão de inúmeros casos de violência na escola apresentarem sinais de bullying, existe uma grande e talvez excessiva preocupação em relação ao tema. Por exemplo, a tragédia de Realengo traz indícios de que o agressor tenha sido alvo de bullying. O fenômeno bullying pode ter favorecido a sua reação vingativa em relação à escola? Sim, pode ter favorecido, mas não determinado. O que determinou a ação do autor foi a sua personalidade desequilibrada.Sem compreender essa situação, muitos pais e educadores entram em desespero e acreditam que tudo é bullying, confundindo o mesmo com as situações de conflitos interpessoais, fundamentais para o desenvolvimento psicológico da criança e do adolescente. Dia desses, uma professora relata que um garoto de sete anos chamava uma colega de classe de “gorda” e a mãe da criança, que chegava para buscá-la e ouvia o comentário, disse: “Olha! Isto é bullying! É crime”. A preocupação da professora com o imprevisto foi com o fato de que a garota havia provocado o colega anteriormente e a agressão foi isolada, o que não se configura bullying.Conflitos necessáriosÉ importante salientar que a maioria das ações agressivas na escola tem relação com os conflitos, e não com o bullying. Conflitos interpessoais são situações naturais de desacordo entre as pessoas e necessários ao desenvolvimento de crianças e adolescentes. É por meio dos conflitos que eles têm a chance de aprender a se colocar no lugar do outro e a falar o que pensam e sentem de forma respeitosa. Na visão construtivista, as crianças não nascem sabendo dialogar e trocar pontos de vista de forma harmônica. É natural que agridam ou permitam ser agredidas até que cheguem à conclusão de que existem formas mais evoluídas de resolver desentendimentos interpessoais. Portanto, os alunos batem, xingam, ironizam, acusam injustamente como forma de resolver muitos conflitos. Contudo, o outro envolvido no desacordo bate, xinga, ironiza, acusa injustamente como forma de defesa. Em outros termos, envolve uma relação de igualdade. Diferentemente do bullying, que envolve uma criança que se sente com pouco poder e fica sendo alvo de outra que se sente com muito poder, envolve uma relação de desigualdade.Apesar da maior frequência dos conflitos interpessoais na escola, quando comparados ao bullying, os danos para o segundo podem causar marcas quase irreversíveis na personalidade dos envolvidos. Por este fato, e por ser um fenômeno silencioso diante das figuras de autoridade, a comunidade escolar deve se mobilizar, já que o bullying não é brincadeira.As consequências são inúmeras para os personagens. Para o alvo de bullying, os problemas físicos decorrentes do estresse, isolamento, tristeza, ansiedade e dificuldades escolares são algumas das implicações imediatas. Futuramente, o alvo de bullying que não recebeu tratamento pode ser constantemente envolvido em situações cíclicas de maltrato. Tende a ser alvo de abuso no trabalho, nos relacionamentos amorosos e nas amizades. Depressão, suicídio e vingança são algumas alternativas para o alvo de bullying. Para o autor de bullying, a hostilidade e as atitudes desafiadoras em relação às figuras de autoridade são bastante comuns. As atitudes de humilhação tendem a ser cíclicas em outras relações como a família e o trabalho.Ainda que as conquências sejam preocupantes, alguns podem dizer que, em uma classe, uma criança é alvo de bullying ou às vezes nenhuma. Para que tamanho alarde? Nem todas as crianças que foram agredidas sairão metralhando criancinhas na fase adulta. Muitos vão superar, tormando-se pais de família e trabalhadores responsáveis. Será que a preocupação é excessiva e estamos transformando as exceções em regras?O papel dos alunos e da escolaNossa maior preocupação: a formação dos alunos. Autor, alvo e plateia de bullying mostram uma evidência que pode não estar muito explícita para as pessoas: sérios problemas na construção de valores como justiça e respeito mútuo. O autor tem dificuldade de respeitar o próximo. O alvo, de colocar o seu valor ao outro. E a plateia… a maioria dos alunos, que riem ou apenas assistem à humilhação e nada fazem diante do maltrato, apresenta dificuldade de se indignar com o desrespeito. Em outros termos, em uma situação que envolve um autor e um alvo, nós temos evidências de dezenas de alunos com problemas na formação moral.O que os educadores fazem quando sabem de um caso de bullying? Suspendem e advertem o autor e poupam o alvo. Nem se dão conta de que existe uma plateia. É preciso entender que o autor de bullying é alguém que também precisa de ajuda. Ele não é um criminoso. Os educadores precisam limitar a sua ação com respeito. Só assim ele entenderá a necessidade desse princípio. Existem ações diretas que podemos realizar quando surge o problema e ações indiretas. Entrevistas individuais com o autor e o alvo para realizar acordos entre as partes, encorajar o autor a reparar a sua ação, e as sanções por reciprocidade caso o autor rescinda a agressão são algumas estratégias diretas utilizadas quando o problema já ocorreu. Trabalho com assembleias escolares, discussão de conflitos hipotéticos e de dilemas morais e trabalho com sentimentos são procedimentos indiretos que a escola precisa adotar sistematicamente para favorecer a formação moral dos alunos.Esses últimos procedimentos não devem ser usados apenas para prevenir o bullying. Devem constar para que os alunos possam construir recursos cognitivos e afetivos mais evoluídos, visando a resolver os conflitos que todos enfrentarão. A escola muitas vezes fica preocupada apenas com o bullying. A preocupação deve ser maior: como formar pessoas que respeitam e se fazem respeitar, seja em situações de bullying, de conflitos ou de indisciplina e incivilidades. A preocupação, portanto, é necessária, mas não restrita ao bullying, e sim à formação moral dos alunos.* Vanessa Fagionatto Vicentin é doutora em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano e professora de pós-graduação da Unifran.** Publicado originalmente no suplemento Carta na Escola, no site da revista Carta Capital.


por Vanessa Fagionatto Vicentin*
1 Mundo

Campanha denuncia realidade educacional de mulheres e meninas em Ayacucho

No departamento peruano de Ayacucho, considerado o segundo com maior número de pobres extremos, quase a metade das meninas da porção amazônica não está matriculada na escola. Entre as mulheres, 40,1% das que residem na zona rural são analfabetas, enquanto para os homens a porcentagem fica em 13,1%.Outro dado alarmante é que uma a cada três crianças não vai à escola e duas em cada três estão atrasadas ou fora de faixa. Apenas 58,5% das crianças que têm de três a cinco anos estão estudando.Os dados constam em um informe elaborado pela Campanha Peruana pelo Direito a Educação (CPDE) 2011, sobre a situação da educação na região de Ayacucho, observando a questão de gênero. O documento mostra ainda que, no contexto nacional, os povos indígenas estão em desvantagem quando a questão é acesso e qualidade da educação.Com o lema "A educação de mulheres e meninas é um direito. Faz com que seja um fato!”, a campanha pretende apresentar propostas de como melhorar o quadro e também promover debates sobre o tema.A coordenadora nacional da CPDE 2011, Madeleine Zúñiga, explicou à mídia local que a intenção da campanha é fazer com que as pessoas se conscientizem de que há desigualdade de gênero na educação. Ela cita que as estatísticas, ao separar dados masculinos e femininos, deixam clara a diferença em áreas rurais, andinas e amazônicas, onde o acesso feminino à educação é menor."O analfabetismo de mulheres continua sendo alto no país, e é necessário realizar ações e desenvolver políticas para ampliar a cobertura da educação de meninas nestes contextos, garantindo a qualidade e a equidade no serviço educativo”, afirmou.A coordenadora da ONG Tarea Ayacucho, Nélida Céspedes, confirma a situação. Ela revelou que as diferenças não se encontram apenas entre homens e mulheres, mas também entre mulheres e meninas da zona rural e da zona urbana. Segundo Nélida, de 810 mil analfabetos, a maior parte é composta por mulheres camponeses e falantes do quechua.Nos marcos da CPDE 2011 e da Semana de Ação Mundial (SAM), houve um debate, em Ayacucho, no dia 10 de maio. O momento foi organizado pela Rede pela Qualidade Educativa de Ayacucho (Recea) e outras entidades. Na ocasião, mulheres deram testemunhos da dificuldade que tiveram no acesso à educação e, ao mesmo tempo, como esse direito, pelo qual lutaram, influenciou suas vidas.Surgida em 2003, a Campanha Peruana pelo Direito à Educação atua em doze regiões peruanas, dentre elas Ayacucho. Entre os princípios da CPDE, estão o reconhecimento da educação como direito humano fundamental, que deve ser garantido pelo Estado, e a afirmação de uma educação pública inclusiva e antidiscriminatória.* Publicado originalmente no site Adital.


por Camila Queiroz, da Adital
1 Protesto

A desmoralização social da carreira docente

"Mais valem lágrimas de derrota do que a vergonha de não ter lutado" – Sabedoria popular brasileira.Qualquer avaliação honesta da situação das redes de ensino público estaduais e municipais revela que a educação contemporânea no Brasil, infelizmente, não é satisfatória. Mesmo procurando encarar a situação dramática com a máxima sobriedade, é incontornável verificar que o quadro é desolador. A escolaridade média da população com 15 anos ou mais permanece inferior a oito anos, e é de quatro entre os 20% mais pobres, porém, é superior a dez entre os 20% mais ricos (1). É verdade que em 1980 o Brasil era um país culturalmente primitivo que recém completava a transição histórica de uma sociedade rural. Mas, ainda assim, em trinta anos avançamos apenas três anos na escolaridade média.São muitos, felizmente, os indicadores disponíveis para aferir a realidade educacional. Reconhecer as dificuldades tais como elas são é um primeiro passo para poder ter um diagnóstico aproximado. A Unesco, por exemplo, realiza uma pesquisa que enfoca as habilidades dominadas pelos alunos de 15 anos, o que corresponde aos oitos anos do ensino fundamental (2). O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) é um projeto de avaliação comparada. As informações são oficiais porque são os governos que devem oferecer os dados. A pesquisa considera os países-membros da OCDE além da Argentina, Colômbia e Uruguai, entre outros, somando 57 países.Em uma avaliação realizada em 2006, considerando as áreas de Leitura, Matemática e Ciências, o Brasil apresentou desempenho muito abaixo da média (3). No caso de Ciências, o Brasil teve mais de 40% dos estudantes situados no nível mais baixo de desempenho. Em Matemática, a posição do Brasil foi muito desfavorável, equiparando-se à da Colômbia e sendo melhor apenas que a da Tunísia ou Quirguistão. Em leitura, 40% dos estudantes avaliados no Brasil, assim como na Indonésia, México e Tailândia, mostram níveis de letramento equivalentes aos alunos que se encontram no meio da educação primária nos países da OCDE. Ficamos entre os dez países com pior desempenho.As razões identificadas para esta crise são variadas. É verdade que problemas complexos têm muitas determinações. Entre os muitos processos que explicam a decadência do ensino público, um dos mais significativos, senão o mais devastador, foi a queda do salário médio docente a partir, sobretudo, dos anos 1980. Tão grande foi a queda do salário dos professores que, em 2008, como medida de emergência, foi criado um piso nacional. Os professores das escolas públicas passaram a ter a garantia de não ganhar abaixo de R$ 950,00, somados aí o vencimento básico (salário) e as gratificações e vantagens. Se considerarmos como referência o rendimento médio real dos trabalhadores, apurado em dezembro de 2010, o valor foi de R$ 1.515,10 (4). Em outras palavras, o piso nacional é inferior, apesar da exigência mínima de uma escolaridade que precisa ser o dobro da escolaridade média nacional.Já o salário médio nacional dos professores iniciantes na carreira com licenciatura plena e jornada de 40 horas semanais, incluindo as gratificações, antes dos descontos, foi R$ 1.777,66 nas redes estaduais de ensino no início de 2010, segundo o Ministério da Educação. Importante considerar que o ensino primário foi municipalizado e incontáveis prefeituras remuneram muito menos. O melhor salário foi o do Distrito Federal, R$ 3.227,87. O do Rio Grande do Sul foi o quinto pior, R$ 1.269,56 (5). Pior que o Rio Grande do Sul estão somente a Paraíba com R$ 1.243,09, o Rio Grande do Norte com R$ 1.157,33, Goiás com R$ 1.084,00, e o lanterninha Pernambuco com R$ 1.016,00. A pior média salarial do país corresponde, surpreendentemente, à região Sul: R$ 1.477,28. No Nordeste é de R$ 1.560,73. No Centro-Oeste, de R$ 2.235,59. No Norte, de R$ 2.109,68. No Sudeste, de R$ 1.697,41.A média nacional estabelece o salário docente das redes estaduais em três salários mínimos e meio para contrato de 40 horas. Trinta anos atrás, ainda era possível ingressar na carreira em alguns Estados com ordenado equivalente a dez salários mínimos. Se fizermos comparações com os salários docentes de países em estágio de desenvolvimento equivalente ao brasileiro, as conclusões serão igualmente escandalosas. Quando examinados os salários dos professores do ensino médio, em estudo da Unesco, sobre 31 países, há somente sete que pagam salários mais baixos do que o Brasil, em um total de 38 (6). Não deveria, portanto, surpreender ninguém que os professores se vejam obrigados a cumprir jornadas de trabalho esmagadoras, e que a overdose de trabalho comprometa o ensino e destrua a sua saúde.O que é a degradação social de uma categoria? Na história do capitalismo, várias categorias passaram em diferentes momentos por elevação da sua estatura profissional ou por destruição. Houve uma época no Brasil em que os "reis" da classe operária eram os ferramenteiros: nada tinha maior dignidade, porque eram aqueles que dominavam plenamente o trabalho no metal, conseguiam manipular as ferramentas mais complexas e consertar as máquinas. Séculos antes, na Europa, foram os marceneiros, os tapeceiros, e na maioria das sociedades os mineiros foram bem pagos. Houve períodos históricos na Inglaterra – porque a aristocracia era pomposa – em que os alfaiates foram excepcionalmente bem remunerados. Na França, segundo alguns historiadores, os cozinheiros. Houve fases do capitalismo em que a estatura do trabalho manual, associado a certas profissões, foi maior ou menor.A carreira docente mergulhou, nos últimos 25 anos, numa profunda ruína. Há, com razão, um ressentimento social mais do que justo entre os professores. A escola pública entrou em decadência e a profissão foi economicamente desmoralizada e socialmente desqualificada, inclusive, diante dos estudantes.Os professores foram desqualificados diante da sociedade. O sindicalismo dos professores, uma das categorias mais organizadas e combativas, foi construído como resistência a essa destruição das condições materiais de vida. Reduzidos às condições de penúria, os professores se sentem vexados. Esse processo foi uma das expressões da crise crônica do capitalismo. Depois do esgotamento da ditadura, simultaneamente à construção do regime democrático liberal, o capitalismo brasileiro parou de crescer, mergulhou numa longa estagnação. O Estado passou a ser, em primeiríssimo lugar, um instrumento para a acumulação de capital rentista. Isto significa que os serviços públicos foram completamente desqualificados.Dentro dos serviços públicos, contudo, há diferenças de grau. As proporções têm importância: a segurança pública está ameaçada e a justiça continua muito lenta e inacessível, mas o Estado não deixou de construir mais e mais presídios, nem os salários do judiciário se desvalorizaram como os da educação; a saúde pública está em crise, mas isso não impediu que programas importantes, e relativamente caros, como variadas campanhas de vacinação, ou até a distribuição do coquetel para os soropositivos de HIV, fossem preservados. Entre todos os serviços, o mais vulnerado foi a educação, porque a sua privatização foi devastadora. Isso levou os professores a procurarem mecanismos de luta individual e coletiva para sobreviverem.Há formas mais organizadas de resistência, como as greves, e formas mais atomizadas, como a abstenção ao trabalho. Não é um exagero dizer que o movimento sindical dos professores ensaiou quase todos os tipos de greves possíveis. Greves com e sem reposição de aulas. Greves de um dia e greves de duas, dez, quatorze, até vinte semanas. Greves com ocupação de prédios públicos. Greves com marchas.Conhecemos, também, muitas e variadas formas de resistência individual: a migração das capitais dos Estados para o interior onde a vida é mais barata; os cursos de administração escolar para concursos de diretor e supervisor; transferências para outras funções, como cargos em delegacias de ensino e bibliotecas. E, também, a ausência. Tivemos taxas de absenteísmo, de falta ao trabalho, em alguns anos, inverossímeis.Não obstante as desmoralizações individuais, o mais impressionante, se considerarmos o futuro da educação brasileira, é a valente resistência dos professores com suas lutas coletivas. Foram e permanecem uma inspiração para o povo brasileiro.Notas:(1) Os dados sobre desigualdades sociais em educação mostram, por exemplo, que, enquanto os 20% mais ricos da população estudam em média 10,3 anos, os 20% mais pobres têm média de 4,7 anos, com diferença superior a cinco anos e meio de estudo entre ricos e pobres. Os dados indicam que os avanços têm sido ínfimos. Por exemplo, a média de anos de estudo da população de 15 anos ou mais de idade se elevou apenas de 7 anos, em 2005, para 7,1 anos em 2006. Wegrzynovski, Ricardo, Ainda Vítima das Iniquidades em http://desafios2.ipea.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=3962. Consultado em 21/2/2011.(2) Informações sobre o Pisa podem ser procuradas em http://www.unesco.org/new/en/unesco/. Consultado em 21/2/2011.(3) O relatório citado organiza os dados de 2006, e estão disponíveis em http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001899/189923por.pdf. Consultado em 19/2/2011.(4) A pesquisa mensal do IBGE só é realizada em algumas regiões metropolitanas. Não há uma base de dados disponível para aferir o salário médio nacional. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabalhoerendimento/pme_nova/pme_201012pubCompleta.pdf. Consultado em 19/2/2011.(5) Uma pesquisa completa sobre os salários iniciais em todos os Estados pode ser encontrada no estudo disponível em http://www.apeoc.org.br/extra/pesquisa.salarial.apeoc.pdf.(6) http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/unesco.htm.* Valerio Arcary é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IF-SP) e doutor em História pela Universidade de São Paulo.** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Valerio Arcary*
1 Escolas

A pedagogia da travessia

A menina que me conduzia pela Escola da Ponte na minha primeira visita (veja aqui e aqui) me disse que na sua escola não havia professores dando aulas. Espantei-me. Nunca me havia passado pela cabeça que houvesse escolas em que professores não davam aulas. Pois as aulas não são o centro mesmo da atividade escolar? As aulas não são o método que as escolas usam para transmitir saberes? E os professores não são os portadores desses saberes? Todo mundo sabe que a missão de um professor é "dar a matéria"... As escolas existem para que as aulas aconteçam... E agora essa menininha me diz que, na sua escola, não havia professores dando aulas e ensinando saberes...E mais: naquela escola, as crianças não ficavam separadas em espaços diferenciados, de acordo com seu adiantamento: os miúdos ficavam misturados aos graúdos... Mas a separação dos alunos segundo os seus saberes não seria uma exigência da ordem e da eficácia?Disse ainda que não havia nem provas nem notas. Mas a avaliação... Como se pode avaliar o que foi aprendido se não há provas? Provas são instrumentos de avaliação!E também não havia as divisões no tempo do pensamento. Nas escolas normais, o pensamento é como na televisão: a intervalos regulares, muda-se o programa. Uma campainha toca: 45 minutos, todos pensam matemática. Transcorridos 45 minutos, a campainha toca de novo, os pensamentos da matemática são guardados e, no seu lugar, são colocados os pensamentos de história, até que a campainha toque de novo e os pensamentos de história sejam substituídos pelos pensamentos da biologia. Tudo em ordem perfeita, como soldados em parada, todos caminham juntos aprendendo as mesmas coisas no mesmo tempo, numa imitação das linhas de montagem. Que extraordinárias "máquinas de pensar" são os alunos, que mudam os pensamentos automaticamente ao comando de uma campainha!Perguntei, então, à menina: "E como é que vocês aprendem?". Ela não titubeou: "Formamos grupos de seis alunos em torno de um tema de interesse comum..."Percebi que, naquela escola, não havia nada que se assemelhasse às "grades curriculares". Grades... Somente um carcereiro desempregado poderia ter ideia tal. Grades. Não há opções, não há escolhas: um desconhecido colocou os saberes obrigatórios dentro de uma grade; conhecimentos "engradados"...Mas a menina me havia dito que tudo se iniciava com o desejo de aprender algo, curiosidade, que nem precisava estar em qualquer grade obrigatória. Esse desejo era a alma da aprendizagem, a provocação da inteligência. Continuou:"Convidamos um professor para ser nosso orientador..."Pode até acontecer que o professor nada saiba sobre esse "tema de interesse comum". Não importa. Os professores não sabem tudo. Não sabendo, pesquisam. E os alunos, ao ver o professor explorando os caminhos que o levam àquilo que ele não sabe, perceberão que o aprender não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia, como disse o educador Riobaldo.E fiquei a pensar em como seria essa coisa a que se poderia dar o nome de "pedagogia da travessia"...* Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Unicamp.** Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Rubem Alves*
1 Ciência e Tecnologia

Os jovens indígenas e a inclusão digital

A web é encarada pela juventude indígena como “janela para o mundo”, com uso bastante focado e de interação fluida. O domínio das ferramentas tecnológicas é uma forma de inclusão em uma sociedade que não os vê", constata o professor de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, José Francisco Sarmento.Assim como os jovens brancos, os indígenas compartilham da sensação de “pertencimento” em relação às novas tecnologias como a internet, por exemplo. Em sua opinião, “as comunidades devem se preparar para discutir o que querem dos espaços virtuais, como podem aproveitar de maneira melhor do que fez e faz a nossa sociedade”, afirma José Francisco Sarmento, professor da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em entrevista concedida, por email, à IHU On-Line.Ele conta que “poucas aldeias têm acesso à internet nas escolas, e existem famílias e grupos que vivem na beira da estrada esperando o momento de retomada de suas terras. Imagino, então, que não podemos dizer que a inclusão digital seja uma realidade, mas podemos dizer que existem focos digitais em algumas comunidades”. Algo que chama sua atenção é a diferença entre o foco no uso da internet pelos jovens indígenas e os da cidade: “a capacidade de se concentrar até atingir um objetivo. Posso dar como exemplo as oficinas de edição, em que o aprendizado ocorre de maneira mais rápida, desde a manutenção de equipamentos até o acesso às mídias sociais. É impressionante como essa interação se dá de maneira fluida”.Em sua opinião, a forma como os indígenas se relacionam com a web, por exemplo, é mais focada, como “uma janela para o mundo”, ao passo que os brancos compreendem-na de forma mais recreativa, quase como sinônimo de rede social. “Já o jovem indígena vê essa possibilidade de manipulação e domínio como uma ferramenta que possa incluí-lo em uma sociedade que não o vê”.José Francisco Sarmento é professor da UCDB, é graduado em Desenho Industrial e Comunicação Visual pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), onde cursou mestrado em design, defendendo a dissertação Um Estudo do Grafismo das Cestarias dos M byá Guarani de Paraty-Mirim. É doutorando em Educação pela UCDB, sob a orientação do Prof. Dr. Antônio Brand.Confira a entrevista.IHU On-Line - Como caracteriza os jovens indígenas hoje? Eles também sentem necessidade de interagir com as novas tecnologias, acessar a internet, por exemplo?José Francisco Sarmento - Penso que essa sensação de “pertencimento” é uma característica da juventude de um modo geral, independente de sua etnia, grupo cultural, social ou nacionalidade. A juventude tem esse movimento natural de “pertencimento” e essa inquietude, essa curiosidade normalmente só se ameniza na maturidade, quando as descobertas de um modo geral se consolidam. Logo, voltando à sua pergunta, sim: os jovens indígenas têm essa curiosidade e já sentem essa necessidade de interação com os novos recursos midiáticos, quando lhe são dadas oportunidades.IHU On-Line - O que muda nas comunidades indígenas e no perfil dos jovens a partir do acesso à rede? Como as diferentes gerações interagem e se relacionam a partir deste fenômeno?José Francisco Sarmento - Acredito e tenho percebido que nas comunidades onde desenvolvemos projetos com este foco, em especial na nação Kaiowá, a relação está próxima das comunidades urbanas. A mudança está na percepção do acesso à informação. E digo percepção, porque a internet permite se ter uma informação rapidamente, mas nem sempre com um conteúdo bom, completo. Para se ter uma ideia dessa problemática informacional cibernética, o maior ou o mais popular “buscador” de informações, o Google, possui apenas 10% das informações disponíveis na rede. Logo, esse jovem, conectado com este universo, imagina que tem todas as informações do mundo e na verdade não as tem. As comunidades devem se preparar para discutir o que querem desses espaços virtuais, como podem aproveitar de maneira melhor do que fez e faz a nossa sociedade. Tenho ouvido relatos maduros a esse respeito entre professores indígenas. Em relação à interação das diferentes gerações, tenho percebido que há um distanciamento dialógico a respeito desses assuntos, pois o que se tem observado é que esses acessos de um modo geral acontecem na maioria das vezes no ambiente escolar.IHU On-Line - O acesso à internet e às tecnologias já é uma realidade entre os jovens indígenas? A partir de que momento as novas tecnologias passaram a fazer parte do cotidiano destes jovens?José Francisco Sarmento - Sinceramente, não tenho dados concretos para lhe afirmar esta proposição. Eu, pela experiência nesses projetos em nosso Estado (Mato Grosso do Sul), como observador e como agente, tenho visto que não podemos afirmar que seja uma realidade. Poucas aldeias têm acesso à internet nas escolas, e existem famílias e grupos que vivem à beira da estrada esperando o momento de retomada de suas terras. Imagino, então, que não podemos dizer que a inclusão digital seja uma realidade, mas podemos dizer que existem focos digitais em algumas comunidades. A escola, em meu entender, tem um papel fundamental na inserção dessas novas tecnologias nas aldeias. Para isso, as escolas têm que ter uma estrutura que comporte esses equipamentos, o que na maioria das vezes não acontece. Acho que, com a chegada de projetos relacionados à inclusão digital, como os pontos de cultura digitais, a proximidade com esses recursos tecnológicos digitais se fizeram mais presentes.IHU On-Line - Que relação os jovens das comunidades indígenas mantêm com as novas tecnologias? Como se deu essa relação e como define o interesse deles pelas novas tecnologias?José Francisco Sarmento - Um ponto que sempre me chamou a atenção, e é impossível não comparar com os jovens da cidade, foi o foco, a capacidade de se concentrar até atingir um objetivo. Posso dar como exemplo as oficinas de edição, em que o aprendizado ocorre de maneira mais rápida, desde a manutenção de equipamentos até o acesso às mídias sociais. É impressionante como essa interação se dá de maneira fluida. Acho que a curiosidade e concentração unidas resultaram neste processo rápido de aprendizagem, que contribui  muito nos processos educacionais dessas ferramentas digitais. Sempre nos surpreendemos com a velocidade desses jovens indígenas no controle e manipulação dessas ferramentas. Eu particularmente, insisto, falo de nossa experiência com os Kaiowá. Nunca vi essa relação se não pelo viés da fluidez.IHU On-Line - O contato com a internet é uma realidade entre os jovens brasileiros. Como a relação internet/juventude se dá nas comunidades indígenas? Qual o sentido da tecnologia para essa juventude?José Francisco Sarmento - Na verdade, não vejo diferença na relação. Como falei anteriormente, jovem é sempre jovem. O que me chama a atenção é o olhar e os fins. Parece-me que nas cidades essa relação se tornou mais recreativa, fútil mesmo. Hoje, o jovem acha que internet é rede social. Tenho percebido que, para os jovens indígenas, a web é uma janela para o mundo, não excluindo as redes sociais. Hoje, essa tecnologia tem um sentido que acho que perdemos. Acredito que nossa facilidade de acesso a essas ferramentas banalizou essa relação. Já o jovem indígena vê essa possibilidade de manipulação e domínio como uma ferramenta que possa incluí-lo em uma sociedade que não o vê. Podemos fazer uma reflexão sobre esse assunto quando pensamos na mídia de um modo geral, na qual o índio ainda é retratado como atrasado, arcaico, preguiçoso. E só é notícia quando sequestra agentes da Funai, ocorrem suicídios, brigas por retomada de terra (que a mídia trata como invasão) e, claro, no dia do índio. A internet possibilita a eles criar canais, onde eles são os protagonistas, são agentes. Eles podem colocar na rede, e com um alcance grande, o que eles realmente são, nem pior, nem melhor, apenas diferentes. Acho que esse processo de relação midiática autônoma pode levá-los a conquistas importantes em nossa sociedade. Podemos citar como exemplo os vídeos que estão sendo postados na internet, em canais criados por jovens indígenas.IHU On-Line - Como vê a busca da população indígena brasileira pela inclusão digital?José Francisco Sarmento - Não posso sinceramente responder pela população indígena brasileira. A percepção que tenho dentro da realidade no Estado em que moro e alguns outros que conheço, é a de que existe realmente um grande desejo de se inserir nesse processo. Porém, falta um projeto sério estatal que possibilite este acesso. Este caminho não pode ficar nas mãos apenas de organismos não governamentais. Tem que ser um projeto de governo.IHU On-Line - Quais são as características culturais dos jovens indígenas nos contextos urbanos?José Francisco Sarmento - Minha resposta à sua pergunta parte muito do meu olhar de professor em uma instituição privada que tem um número considerável de alunos indígenas. Pois bem, quando falamos de manifestações culturais, representação cultural, etc., temos que atentar para dois fatores importantes. Um importante nome nos estudos interculturais, Milton Bennett, em seu artigo Intercultural Communication: A Current Perspective, de 1993, caracterizou dois tipos de cultura: a cultura objetiva e a cultura subjetiva. Cultura objetiva, segundo este autor, consiste nas manifestações produzidas pela sociedade, como literatura, música, ciência, arte, língua, enquanto estrutura, entre outras. Por outro lado, a cultura subjetiva pode ser encontrada em manifestações abstratas, como valores, crenças e no uso da língua.A linguagem é um fenômeno que diz ao mundo quem nós somos e a cultura é atravessada pela linguagem – e nós também. Esse jovem tem outra língua como primeira (que não é obviamente a nossa), estuda em uma escola indígena (que ainda busca uma identidade, um caminho próprio, mas que, com certeza, é diferente da nossa) e cresce em um ritmo e dinâmica diferente da cidade. Ele chega à universidade, em que os alunos estão acostumados com as novas tecnologias de educação, com o ritmo frenético urbano, com a competitividade, com a exclusão e que não sabem lidar com o diferente. Esse jovem, mesmo “travestido” de jovem urbano, apresenta de alguma forma, ou em algum momento, suas características culturais – objetiva ou subjetiva.IHU On-Line - Como tradição e tecnologia se entrelaçam na cultura indígena?José Francisco Sarmento - Eu e um ex-aluno indígena do curso de design, da etnia terena e que tem se aventurado no universo do cinema com belos resultados estéticos, Gilmar Galache, estamos à frente de um evento que teve a sua primeira versão no ano passado, chamado Fórum de Discussão Sobre Inclusão Digital nas Aldeias (Fida). Este encontro, que já está caminhando para a segunda edição, tem como objetivo proporcionar uma reflexão junto às populações indígenas, em especial aos atores que de alguma forma estão envolvidos com essas dinâmicas digitais nas aldeias (pessoas que já realizaram filmes e/ou estão inseridas nas redes sociais e professores interessados neste processo de inclusão digital). Enfim, pessoas que possuem uma vivência e senso crítico a respeito deste tema nas mais diversas etnias. Reunimos-nos na aldeia Teykue, no Município de Caarapó, interior do Mato Grosso do Sul, e durante o encontro tivemos depoimentos surpreendentes de como os usos dessas tecnologias podem caminhar e contribuir para a “divulgação” entre os jovens dos vários processos tradicionais. A afirmação da oralidade como instrumento fundamental para o conhecimento de histórias relacionadas aos seus povos, pode receber uma contribuição dessas ferramentas, como, por exemplo, animação de mitos, registro fílmico de anciões contando suas histórias, registro de áudio de rezas para que as crianças possam ouvir em casa, etc. Estes exemplos são muito importantes para fazermos uma desmitificação da assimilação dessas tecnologias na cultura indígena. É interessante perceber a preocupação com o uso dessas ferramentas para fins educacionais e de registros históricos.Ferramentas midiáticasAinda a respeito do Fida, ocorreu-me a lembrança de questões pontuais que foram discutidas, como a necessidade de projetos nesta área que atendam realmente às necessidades dos indígenas e que seja possível eles participarem efetivamente. Ou seja, projetos que levem em conta a falta de prática na formulação dos projetos, que é extremamente burocrática para se poder participar de editais nas áreas, ficando esses projetos apenas nas mãos de organizações não governamentais, que na sua grande maioria executam os projetos na área do audiovisual e não deixam equipamentos para as produções futuras, nem fazem um aprimoramento contínuo. Outra questão é o uso dessas tecnologias como ferramentas midiáticas que podem exercer um papel fundamental junto a estes povos que não têm voz na mídia, que é o de mostrar a realidade das aldeias, as injustiças cometidas por quem detém o poder e, claro, de dar visibilidade à sua cultura, criando assim um verdadeiro canal de informação das populações indígenas. Acredito que por meio dessas redes teremos, muito brevemente, uma possibilidade maior de ver expostos esses temas que permeiam a realidade dos povos indígenas no Brasil.* Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação IHU On-Line
Tânia Maria Braga Garcia. Entrevista

“Materiais didáticos são mediadores entre professor, alunos e o conhecimento.”

Para a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Tânia Braga Garcia, além dos livros tradicionais, existem outros materiais didáticos produzidos em diferentes suportes e com diferentes funções, cujos resultados no ensino e aprendizagem ainda precisam ser avaliados. Nesse sentido, o Núcleo de Pesquisa em Publicações Didáticas da UFPR, por ela coordenado, tem desenvolvido atividades de pesquisa e de formação de professores com o objetivo de discutir e compreender a presença de materiais didáticos na aula, especialmente os livros didáticos.[caption id="attachment_16864" align="alignright" width="331" caption="Tânia Maria Braga Garcia."][media-credit name="Nílson Garcia" align="alignright" width="331"][/media-credit][/caption]Em sua opinião, embora alguns materiais possam ser usados em diferentes disciplinas, cada conteúdo necessita de um tipo específico de material, que possa contribuir, de modo efetivo, para o estabelecimento de algumas condições favoráveis ao ensino e à aprendizagem. Bolsista do CNPq, atualmente desenvolve a pesquisa Professores, Manuais Didáticos e a Produção do Conhecimento nas Aulas.Tânia Braga Garcia é editora da Revista In(ve)stigar: Temas de Pesquisa em Pós-Graduação e também membro integrante da diretoria da International Association for Research on Textbooks and International Media (Iartem). Graduada em filosofia e em pedagogia pela Universidade Federal do Paraná, tem mestrado e doutorado em educação pela Universidade de São Paulo.Jornal do Professor – Qual é a importância dos materiais didáticos para a aprendizagem?Tânia Braga Garcia – Como artefatos incorporados ao trabalho escolar, os materiais didáticos contribuem para estabelecer algumas das condições em que o ensino e a aprendizagem se realizam e, neste sentido, eles têm uma grande importância e podem cumprir funções específicas, dependendo de suas características e das formas pelas quais eles participam da produção das aulas. Pode-se dizer, de forma geral, que eles se constituem em uma das mediações entre professor, alunos e o conhecimento a ser ensinado e aprendido. Se forem assim entendidos, não é difícil compreender que um dos elementos fundamentais da relação que estabelecemos com eles está na intencionalidade que guia a escolha e a utilização dos materiais didáticos, em diferentes situações e com diferentes finalidades.Segundo entendo, a produção de conhecimentos sobre os materiais didáticos, que havia perdido espaço na pesquisa educacional, ganhou centralidade nos últimos anos, em grande parte pela abertura de um vastíssimo campo de produção de materiais escritos para os cursos de educação a distância e de materiais para uso em computadores. Mas ainda temos pouca literatura que discute o tema no campo da Didática Geral. Para além dos livros didáticos, que já têm uma tradição centenária na cultura escolar brasileira, há um conjunto de materiais produzidos em diferentes suportes, com diferentes funções, cujos resultados no ensino e aprendizagem precisam ser ainda avaliados pelos professores pesquisadores. Neste sentido, o Núcleo de Pesquisa em Publicações Didáticas da UFPR tem desenvolvido atividades de pesquisa e de formação de professores, com o objetivo de discutir e compreender a presença de materiais didáticos na aula, com especial destaque aos livros didáticos.JP – Em sua opinião, alguns materiais didáticos apresentam melhores resultados em uma disciplina do que em outra?TBG – A questão central é entender quais são os objetivos que pretendemos atingir ao escolher um ou outro material – e aqui destaco que os recursos didáticos estão incluídos nessa definição que estamos usando, mais ampla, seguindo algumas classificações elaboradas por espanhóis estudiosos do tema, como Artur Parcerisa Aran. Neste sentido, penso que muitas vezes tratamos os materiais como artefatos que poderiam ser usados para qualquer conteúdo ou disciplina, mas isso talvez seja verdadeiro apenas em um pequeno número de situações. Como eles são mediadores, cada conteúdo a ser ensinado e aprendido necessita um tipo específico de material, que possa efetivamente contribuir para estabelecer algumas condições favoráveis para o ensino e a aprendizagem. Há materiais que podem ser – e são – usados em diferentes disciplinas, como os filmes, por exemplo, mas a forma como o professor organiza o trabalho deve privilegiar a especificidade do conhecimento que deseja ensinar, por exemplo o conhecimento artístico ou o histórico, para lembrar duas disciplinas nas quais o uso desse material é altamente indicado.JP – Qual é a importância do livro como material didático?TBG – Como disse, há mais de um século os livros escolares ou didáticos, também chamados de manuais, fazem parte da cultura escolar no país. Apesar da diversidade de formas nas quais eles se apresentam, têm características comuns, uma vez que, em tese, contêm os conteúdos que devem ser ensinados e também indicam caminhos pelos quais isso poderia acontecer, tanto por meio de sua estruturação didático-metodológica quanto pelas atividades propostas. No caso do Brasil, há um relativo consenso em torno da ideia de que em determinadas situações muitos alunos têm nos livros a única fonte de conteúdos, além das exposições feitas pelos professores. Assim, os livros podem ser materiais de leitura e de consulta, podem gerar debates e atividades, e podem ainda fornecer informações sobre as quais os professores e alunos trabalham para reelaborar o conhecimento em questão. Segundo mostram algumas pesquisas – que ainda são poucas, tanto no Brasil como em outros países –, ao mesmo tempo em que alguns professores informam não usar os livros, preferindo preparar seus próprios materiais ou fazer seus alunos copiarem do quadro, outros professores dizem que usam os livros para estudar o conteúdo, suprindo lacunas na sua formação, e outros ainda afirmam que os livros são guias para a organização das aulas, orientando temas e atividades que o professor seleciona de acordo com as orientações da escola ou com seu planejamento individual. De qualquer forma, essa diversidade de usos revela a importância que os livros continuam tendo em nossa cultura escolar, embora pouco se tenha estudado ainda sobre a presença desse material nas aulas, sobre o uso que fazem dele alunos e professores.JP – O Brasil tem programas de livros didáticos e há uma preocupação em ofertar obras de maior apoio pedagógico. O que deve constar num bom livro de apoio pedagógico a professores?TBG – O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) determina muitos elementos relacionados à presença dos livros nas escolas. Acredito que há, de fato, uma preocupação em oferecer bons livros e orientações aos professores. Em minha avaliação, os livros que têm sido entregues às escolas públicas ganharam maior qualidade ao longo das duas últimas décadas, em muitos aspectos – basta pensar que anos atrás eram impressos em papel jornal, em preto e branco, e que a quantidade de erros, equívocos e estereótipos presentes era muito maior do que acontece hoje. Mas os livros também acabaram sendo, de certa forma, homogeneizados e isto é uma questão que ainda precisa ser debatida. Quanto às orientações aos professores, considero positivo o fato de que, ao constituir-se como uma exigência, trouxe para o debate certos temas que às vezes são pouco questionados na vida cotidiana das escolas, tais como formas e procedimentos de avaliação dos alunos, ou a utilização de determinados materiais didáticos que os autores sugerem, fazendo com que a discussão didática ganhasse espaço. No entanto, é preciso destacar, entre outras questões que dizem respeito às relações que os professores estabelecem com os livros que escolhem e utilizam, que ainda sabemos pouco sobre o quanto das orientações os professores leem, se as sugestões são adequadas e, portanto, o quanto contribuem para a organização de suas aulas. Portanto, mais do que dizer o que deve ser incluído nas orientações, penso que é tempo de conhecer o que os professores pensam sobre elas e avaliar os efeitos de sua presença obrigatória nos manuais.JP – Os professores do ensino básico estão preparados para a escolha e utilização de materiais didáticos? Em caso negativo, o que pode ser feito para reverter essa situação?TBG – Escolher e utilizar um material são ações que dependem da capacidade de “olhar profundamente” o conteúdo a ser ensinado, compreendendo os melhores caminhos e os melhores recursos para percorrê-los em situações específicas. Nesse sentido, não creio que possamos falar em professores que estão preparados e outros que não estão. Se a pretensão é dar às crianças e jovens uma escolarização que responda às exigências da vida contemporânea, é preciso reconhecer necessidades como a discussão coletiva no interior das escolas e a formação continuada para aperfeiçoamento dos professores em conteúdos e metodologias. Mas, para além disso, deve-se definir e buscar as condições objetivas de trabalho que possibilitariam ao professor uma atitude permanente de análise de suas aulas, das necessidades para o aprendizado de seus alunos e – por decorrência – a análise dos materiais didáticos que podem dar maior contribuição em cada tema ou conteúdo, em cada etapa de escolaridade e em cada disciplina específica. Em determinadas situações, a produção de materiais pelos professores é a melhor forma de atender a especificidades de determinado conteúdo – como fazemos em um projeto denominado Recriando Histórias, que coordeno juntamente com a Dra. Maria Auxiliadora Schmidt, na UFPR. Neste projeto, contribuímos com a formação continuada de professores das séries iniciais para ensinar história, e uma das ações propostas é a produção colaborativa de um livro cujos conteúdos são captados na experiência dos sujeitos da localidade, por meio de documentos que estão guardados pelas pessoas da comunidade escolar. Ao participar da produção desse material didático, o professor é desafiado a conhecer conteúdos e métodos da história e, portanto, pode também se tornar um avaliador mais crítico em relação a outros materiais. Esse processo de formação é longo, e se diferencia acentuadamente da ideia de “capacitação” – frequentemente indicada como solução quando se constata que os professores têm dificuldades para escolher ou usar um material didático, ou mesmo para aprender uma nova forma de ensinar. A questão é complexa e supõe processos de formação inicial e de formação continuada pautados em outros modelos, nos quais a natureza e as condições do trabalho do professor, pela sua relação com o conhecimento, sejam entendidas para além da mera reprodução de práticas.JP – O que a senhora pensa a respeito da utilização, no ensino, de elementos como poesia, teatro, cinema e história em quadrinhos? E de que forma eles podem ser usados?TBG – Creio que a resposta anterior indica que todos eles podem ser utilizados, mas não há uma forma única que se aplique a qualquer situação. Em cada disciplina, os quadrinhos e a música podem servir para o desenvolvimento de certas competências gerais, mas também para o aprendizado de outras específicas, próprias do pensamento e da cognição de cada ciência que a escola deve ensinar. Apenas para exemplificar essas possibilidades, referencio algumas dissertações defendidas na Linha de Cultura, Escola e Ensino do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná. Uma delas estudou a presença da música caipira em aulas de história (Chaves, 2006), mostrando que, mesmo sem apreciar este gênero, os jovens de ensino médio são capazes de compreender suas características, trabalhar com as canções e reconhecê-las como parte da cultura brasileira. Outra pesquisa examinou as relações entre os quadrinhos e o conhecimento histórico dos alunos (Fronza, 2007), mostrando as possibilidades e limites para o uso dessa linguagem no caso do ensino de história, e também apontando os efeitos da intervenção do professor, especialmente ao confrontar os quadrinhos com outras fontes. A terceira pesquisa procurou verificar que relações ocorrem entre jovens alunos de periferia urbana com determinados conteúdos da história a partir de um rap (Rosário, 2009), apontando como esse gênero musical, que é significativo no contexto da cultura de alguns jovens, pode contribuir para o estabelecimento de uma relação empática com o conhecimento histórico. Com esses exemplos, portanto, quero reafirmar dois pontos: a especificidade no uso dos materiais didáticos em cada disciplina escolar e a necessidade de ampliar as pesquisas sobre as formas e os efeitos da presença de diferentes materiais nas aulas.JP – Os recursos tecnológicos estão cada vez mais presentes e disponíveis nas escolas. Como eles podem ser usados pelos professores?TBG – As possibilidades são as mais diversas e, nesse tema, muitas pesquisas têm sido desenvolvidas. Os novos recursos vão chegando, com diferentes ritmos, às escolas de crianças e jovens, mas às escolas de adultos também. Em alguns casos, eles já estão absolutamente incorporados ao cotidiano escolar, embora continuem demandando debates e estudos específicos. Cito aqui, para exemplificar trabalhos sobre esse tema, uma dissertação que examinou o uso de hipermídia no ensino de física para a construção de aprendizagens significativas (Artuso, 2006), a partir de pesquisa de campo na qual sites foram usados para o desenvolvimento de aulas sobre gravitação universal para alunos do ensino médio. Outra pesquisa analisou a presença das ferramentas de desenho digitais na construção do conhecimento dos alunos em cursos de arquitetura e urbanismo (Ferraro, 2008), colocando em debate, a partir dos resultados, as dificuldades apontadas por eles, especialmente ligadas aos programas propriamente ditos, os quais não permitem um uso intuitivo para a elaboração e desenvolvimentos das formas – uma necessidade da disciplina de projetos. De forma semelhante a qualquer outro material didático, os recursos tecnológicos constituem-se como uma mediação entre professores, alunos e um conhecimento específico e, portanto, seu uso requer escolhas, definições, adequações que se inserem no conjunto complexo das condições nas quais se produz o ensino e a aprendizagem.JP - A senhora afirmaria que o uso do material é fundamental?TBG – Gostaria apenas de reafirmar minha posição em relação ao fato de que os resultados do uso de um material didático dependem da intencionalidade que orienta seu uso e das formas pelas quais ele é incorporado nas aulas. A questão, portanto, é inserir o debate deste tema no conjunto mais amplo de condições que definem os espaços onde ocorre o ensino, seja a escola, seja a sala de aula. E também evidenciar o papel fundamental dos professores como sujeitos responsáveis pelo planejamento e desenvolvimento das aulas e, portanto, pela escolha dos materiais mais adequados em cada situação.* Publicado originalmente no Jornal do Professor/MEC.


por Redação Jornal do Professor/MEC
1 Ciência e Tecnologia

Dez coisas que aprendi sobre Escola 2.0

O texto abaixo formará o livro 50 coisas que aprendi sobre o mundo 2.0. Colaborações são bem-vindas e os que ajudarem na revisão, melhoria do texto serão citados nele. Ver também outros posts para o e-book.1 – Existem mudanças na sociedade na forma de se informar, conhecer e comunicar e isso, inapelavelmente, tem forte impacto na forma de ensinar e aprender a inalcançável realidade;2 – A principal modificação no conhecimento é que ele está deixando de ser mais consolidado (sólido/individual) baseado numa mídia do papel impresso (lenta) para um mais dinâmico (líquido/coletivo) baseado numa mídia digital (rápida) para atender as novas demandas de produção e consumo de uma sociedade superpovoada, que impacta em todos os setores, inclusive na escola. (A Wikipédia é um bom exemplo de representação do conhecimento líquido/coletivo);3 – O modelo atual da escola, se já era questionado no passado, agora se torna ainda mais obsoleto, pois é lento, ineficaz, pouco inteligente e pouco motivador, não formando o cidadão/cidadão para os novos desafios num mundo cada vez mais complexo e dinâmico. Estamos, assim, iniciando de forma coletiva a passagem das escolas baseadas em um modelo fechado de conhecimento (que não se modifica com os encontros) para outra em que o conhecimento é aberto (se altera a cada interação);4 – De uma escola, na qual existe algo a “ser aprendido” em uma base de conhecimento definida por “doutores”, na qual o aluno tem muito pouco a contribuir, na qual só o professor “sabe”, para uma nova Escola 2.0, na qual o professor passa muito mais a ser um coordenador de dúvidas, apresenta até onde problematizou questões e incentiva fortemente o debate entre os alunos;5 – Tal escola alternativa esteve presente na mente de vários educadores (como Paulo Freire), mas agora se tornarão sistêmicas, incentivadas por quem está no poder, pois o mundo tem que ser mais ágil, em função do tamanho da nova população e suas consequências, movida agora por uma mídia mais dinâmica, e, portanto, leva a escola junto (além das outras instituições da sociedade). Assim, se o modelo da escola atual é filha do livro impresso, o da nova será a do ambiente digital em rede;6 – A mudança de postura do professor implica uma nova relação deste com o seu ego, que deixa de se apegar a conceitos estabelecidos e passa a combater o desconhecido, procurando reduzir o surgimento dos egos em sala de aula. Trabalha-se com argumentos e não com adjetivos. O inimigo passa a ser a ignorância de todos diante do desconhecido inatingível, no qual todos são alunos e professores e procuram coletivamente a forma mais eficaz de vencer os impasses;7 – Os alunos precisam utilizar todas as ferramentas colaborativas online quando não estão juntos presencialmente e, quando estão presencialmente, algo cada vez mais difícil, caro, que demanda tempo, espaço, devem evitar, ao máximo, o uso de equipamentos eletrônicos e serem estimulados fortemente a conversar e a trocar, a não ser que o tema seja algo em que estes sejam extremamente necessários;8 – Assim, procura-se na nova escola permitir que o cidadão/cidadã do novo século não mais lide com a informação de forma decorada (utilizando a memória), mas consiga construir cenários, compreender a lógica para lidar com uma informação abundante, mas pobre de significado (utilizando a criatividade) . Isso implica um amadurecimento afetivo de todos os cidadãos/cidadãs para lidar de forma mais efetiva com uma liberdade informacional cada vez maior;9 – Neste cenário, o ensino de história e filosofia devem ganhar forte ênfase, pois são as disciplinas humanas que ajudam a superar crises de conhecimento desse tipo e incentivam a descolar o ser humano da sua realidade mais presente e atual, permitindo que veja os conceitos e a realidade “mais de fora”;10 – A ideia de separação dos alunos por turmas, séries, idades, espaço físico, cidades, estados, países, idiomas tende a ficar cada vez mais obsoleta, bem como a separação do espaço entre sala de aula e casa mais invisível. Por fim, estamos, por necessidade de lidar com o complexo, em um aprendizado muito mais coletivo do que individual.Que dizes?* Carlos Nepomuceno é jornalista, escritor, pesquisador, consultor empresarial e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Senac e Facha. Pode ser encontrado no Twitter @cnepomuceno.** Publicado originalmente no blog Nepôsts – Rascunhos compartilhados e retirado do site Plurale.


por Carlos Nepomuceno*
José Fernandes de Lima. Entrevista

O novo Ensino Médio

Foi pensando nas grandes mudanças tecnológicas e na velocidade com que a informação se propaga nos dias de hoje que o Conselho Nacional de Educação (Conae) promoveu debates que culminam agora nas mudanças das diretrizes nacionais para o Ensino Médio brasileiro. Dois pontos se destacam entre as mudanças. Primeiro, o incentivo à pesquisa por parte dos estudantes, que passam a precisar mais dos professores para ajudá-los a procurar o conhecimento em vez de simplesmente ouvir o conteúdo deles. Segundo, a maior autonomia das escolas ao formatar a grade curricular, tanto na forma do conteúdo quanto no tempo de formação do Ensino Médio – por exemplo, os estudantes noturnos podem se formar em quatro anos em vez de três.[caption id="attachment_16852" align="alignright" width="300" caption="José Fernandes de Lima."][/caption]Para entender as novas sugestões, Carta na Escola entrevistou José Fernandes de Lima, relator da proposta das novas diretrizes e membro do Conae desde 2008. Alagoano de Maceió, José Fernandes teve trajetória na área de Exatas, formando-se em Física na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e, posteriormente, concluindo seu mestrado e doutorado nesta área na Universidade de São Paulo (USP). Foi chefe do departamento de Física da Universidade Federal do Sergipe (UFSE), diretor de programas da Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes) e secretário de Educação de Sergipe entre 2007 e 2010 na primeira gestão do governador Marcelo Déda (PT).Nesta entrevista, José Fernandes de Lima ressalta que o foco do projeto é criar uma identidade para o Ensino Médio e corrige a interpretação, veiculada por parte da imprensa, de que teremos uma divisão por áreas, como ocorria antigamente. “A escola precisa contemplar as quatro dimensões do ensino: o trabalho, a ciência, a tecnologia e a cultura. Os mais antigos lembram-se de quando tínhamos o colegial dividido (entre Clássico e Científico), e isso gerou uma confusão de que teríamos um Ensino Médio temático com essas áreas. Não haverá divisão. Pelo contrário, o Ensino Médio tem de contemplar todas elas”, diz.Carta na Escola: O Ensino Médio é, atualmente, a etapa da educação brasileira com piores índices de qualidade. Qual é exatamente o problema com ele?José Fernandes de Lima: Não concordo exatamente com essa afirmação. Pode até haver problemas nos índices atuais, mas, se compararmos com o passado, veremos que o Ensino Médio evoluiu bastante. O Brasil, historicamente, trabalhou com uma educação excludente. Até o começo da década de 1990, tínhamos menos de qutro milhões de alunos nessa etapa da educação. Agora já temos mais de oito milhões, e ainda temos números difíceis, com 15% da população de 15 a 17 anos que não está conseguindo entrar nas escolas desse nível. Só 50% dos matriculados estão na idade correta. Isto não significa que este quadro é pior do que era antes, porque, antigamente, nem tínhamos as pessoas na escola. Avançamos muito nos últimos 20 anos no que tange a inclusão, e isto torna mais claro o ponto de vista do sucesso ou falta dele entre os alunos. Então, houve evolução.CE: E quais são os focos das novas diretrizes para o Ensino Médio?JFL: Pensamos que o currículo deva contemplar quatro dimensões: o trabalho, a ciência, a tecnologia e a cultura. Na medida em que esses pilares forem realmente debatidos nas escolas, teremos um Ensino Médio mais próximo dos estudantes e diminuiremos a evasão, aumentaremos o entusiasmo e a qualidade. Algumas pessoas confundiram que as quatro dimensões seriam uma volta ao colegial antigo (dividido entre Clássico e Científico). Mas não é nada disso, é um Ensino Médio só.CE: Então não teremos essa divisão entre quatro tipos de Ensino Médio? Houve quem interpretasse assim, inclusive na imprensa…JFL: É verdade, mas não estamos propondo que o aluno tenha quatro alternâncias de escolha. É o contrário: o Ensino Médio tem de contemplar todas as quatro dimensões. Só assim ele vai atender aos interesses das pessoas. Antigamente, o Brasil já tinha essa divisão no colegial, mas viu-se depois que não dava certo. Quem entendeu desse jeito é porque estava lembrando de como era. Não queremos nem mesmo a divisão entre o ensino técnico e de vestibular. Mas a parte de formação para profissionais no ensino técnico terá diretrizes próprias.CE: Qual é o objetivo do Conselho Nacional de Educação ao propor autonomia escolar para montar projetos pedagógicos?JFL: O objetivo é bem mais amplo do que simplesmente discutir a questão de ampliação e flexibilização da grade curricular. O que movimentou o CNE para atualizar as diretrizes nacionais curriculares do Ensino Médio foi o fato de vivermos num mundo de grandes transformações tecnológicas e de grande quantidade de conhecimento gerado por meio das comunicações e tecnologias de informação. Isto leva a escola a se repensar. Significa que ela está deixando de ser a única fonte geradora de conhecimento e, como tal, tem de se estruturar para atender aos jovens. E, se isto é verdade para a educação de um modo geral, é muito mais verdade para o Ensino Médio, porque é a fase em que as pessoas estão tomando decisões para o futuro. Então, a escola tem de atender ao projeto de vida do estudante. Praticamente, todos os países hoje estão repensando a estratégia educacional baseando-se nisso, embora aqui estejamos traçando um caminho próprio.CE: Já que falamos em ensino técnico, o MEC apresentou agora o Pronatec, em que pretende aumentar consideravelmente o número de formandos no Ensino Médio técnico em médio prazo. Onde entra o ensino técnico nessa nova proposta?JFL: Essas diretrizes vão tratar especificamente dessa área, e não estou por dentro. Vou aguardar as reuniões do Conselho sobre o tema. Aí, sim, entenderemos todo o conjunto.CE: E o que esse novo Ensino Médio deve corresponder?JFL: Primeiro, ele tem de ser universal. Segundo, existe a forte concepção de que a boa escola é a que se volta para a formação do cidadão e que prepara o estudante para o mundo do trabalho – e, com isso, estamos automaticamente dizendo também que não deve mais prevalecer a divisão da escola entre a preparação para o vestibular e para o trabalho. Ele tem de ter essas características mistas, uma nova identidade. E para a escola ter identidade, ela precisa ter flexibilidade para atender às demandas regionais. Ao mesmo tempo em que precisa se preparar para o uso da tecnologia, precisamos que ela não abra mão dos valores, do comportamento ético, da sustentabilidade e da promoção dos direitos humanos.CE: Já existe dificuldade de fiscalização da qualidade das escolas no país. Não seria mais difícil fiscalizá-las a partir do momento em que elas tenham mais liberdade de mexer no currículo?JFL: Isto é bem importante. Democraticamente, essas diretrizes devem nortear as especificidades das escolas para que atendam às características de sua região. Só que temos as avaliações nacionais, investimentos nacionais em material didático e os investimentos em professores. Então, uma vez definida a identidade da escola, teremos um sistema de avaliação que interpretará se a estratégia de cada escola está dentro dos limites exigidos. Veja, existem as áreas do conhecimento exigidos por lei: Linguagem, Ciências da Natureza, Matemática, etc. A liberdade das escolas está no comportamento em sala de aula, mas tudo isto deve seguir dentro dela.CE: E como será o tratamento com a escola que não consegue se desenvolver?JFL: Entendemos que a fiscalização da escola não deva ser usada para premiar ou para punir, mas apenas para acompanhar suas estratégias, e que, quando necessário, façamos a correção de rumo. Se não vai bem, façamos novos investimentos, chamamos o sistema para a discussão e para tratar novos planos para ela.CE: A mudança nas diretrizes também dá importância ao incentivo à pesquisa, confere?JFL: A pesquisa deve ser um princípio pedagógico, o que mudaria a forma rígida de se trabalhar em sala de aula. As pessoas associam o termo “pesquisa” à existência de grandes laboratórios. O que temos de incentivar é o comportamento de pesquisa em sala de aula. Em vez de dar o assunto pronto aos alunos, queremos que o professor promova a procura desse conhecimento por parte do aluno, que ele pesquise e descubra, que trabalhe em grupo, que aprenda a aprender.CE: No projeto que o senhor apresenta, quais as especificidades para o Ensino Médio noturno?JFL: Neste ponto é importante providenciar formas de organização que permitam que os alunos desse período, que normalmente trabalham o dia todo, tenham todo acesso ao ensino e o concluam. Então há flexibilização de carga horária, mas isto também funciona para o período diurno. Quem estuda de manhã pode usar a alternativa de ampliação de carga horária à tarde. Já os estudantes noturnos podem se formar em quatro anos em vez de três, por exemplo, ou então em três anos e meio. Também incentivamos o ensino a distância – se o conteúdo estiver disponível por meio da internet, por exemplo, então que isso seja mais uma opção de aprendizagem.CE: E em que pé está a aprovação das mudanças? Quando entrariam em vigor?JFL: O documento já foi aprovado na Câmara de Educação Básica do Conae. Passou agora por uma revisão técnica e foi encaminhado para o Ministério da Educação (MEC), que deverá homologar. Na sequência deverá publicar essa diretriz no Diário Oficial, chegando ao conhecimento de conselhos estaduais e municipais e de escolas. Este documento é fruto de um grande debate que começou em 2010 e foi discutido com representantes de professores, de estudantes, secretários de Estado, especialistas e do MEC. Conta com apoio considerável.* Publicado originalmente no suplemento Carta na Escola, no site da revista Carta Capital.


por Fernando Vives, da Carta Capital

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