Extraordinárias aulas de graça

Oportunidades

Extraordinárias aulas de graça


por Gilberto Dimenstein*


Alunos, pais e professores brasileiros já podem acessar gratuitamente aulas de matemática e ciências que são um sucesso nos Estados Unidos e se espalham pelo planeta. O idealizador desse projeto foi um dos personagens mais interessantes que conheci em minha passagem por Harvard. Chama-se Salman Khan, um daqueles gênios em ciências que preferiu jogar fora sua carreira bem-sucedida no mercado financeiro para ajudar a educar crianças, tornando atrativas as intricadas (e chatas) aulas de matemática. É de uma simplicidade extraordinária. Apenas uma mão na lousa e a locução do próprio Khan. O método fez sucesso e prosperou por que muita gente começou a acessar os vídeos. Um deles era Bill Gates, que usava o material para ajudar na lição de casa do filho. Daí surgiram os recursos para Salman se dedicar apenas a esse projeto. Estava ali uma possibilidade simples e barata de usar os recursos digitais para amenizar nossas carências educacionais. Considerei uma das minhas tarefas ajudar a popularizá-lo aqui no Brasil. O problema é que o material era apenas em inglês, dificultando o uso por brasileiros. A boa notícia é que esse material já começa a ser traduzido. Os primeiros vídeos, traduzidos pela Fundação Lemann, em parceria com a Intel, já estão ar. Se as escolas, pais e alunos usarem esse material vamos ter um ganho educacional. Quem é Salman Khan? Salman Khan ganhava a vida no mercado financeiro até pouco tempo. Para ajudar uma sobrinha com dificuldades nas lições de matemática, ele postou vídeos na internet. Mais simples impossível: apenas sua mão rabiscando uma lousa. Khan conseguiu transformar uma lição de casa familiar num projeto global porque teve a ajuda de outro ex-aluno de Harvard e inventor do futuro. Bill Gates, que estava usando aquelas aulas gratuitas para ensinar matemática a um filho, decidiu investir no projeto. Hoje a Khan Academy (www.khanacademy.org) é a maior sala de aula do mundo, com três milhões de alunos aprendendo ciências nas mais diversas línguas, inclusive em português. As aulas têm sido usadas tanto numa vila rural da Índia, como nos bairros abastados dos Estados Unidos e da Inglaterra. * * Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, comentarista da rádio CBN, e fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz. ** Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.

EDUCATIVO1 Entrevista

Educadores revelam os desafios de ensinar fora da sala de aula

A educação acontece em diferentes lugares. Inclusive diante das descobertas propiciadas por uma obra de arte. Só este ano, em São Paulo, a exposição que celebrou os 60 anos da Fundação Bienal, a mostra “Em nome dos artistas” atendeu, via setor educativo, 50 mil pessoas (segundo noticiado pela Folha de S.Paulo em 5 de dezembro de 2011) – o equivalente a mais da metade do público total do evento. Outras grandes exposições, como o Videobrasil, ocorrido em 2011 no Sesc Belém e em outros espaços, alcançou quase um terço do seu público total graças ao setor educativo (dados da própria instituição), muitos dos quais foram visitantes que vieram com suas escolas. Para conhecer os desafios profissionais da área, conversamos com as educadoras Carolina Velasquez, Cristina Walter e Valquíria Prates, todas atuantes no setor há pelo menos dez anos. Sem um levantamento de quantos são ou uma associação que atenda às demandas da categoria, os trabalhadores do setor sabem que lidar com educação não formal em São Paulo significa, involuntariamente, militar pela estruturação na área, provando a cada dia o valor da prática educativa desenvolvida em outros espaços além da sala de aula. Dos muitos museus e instituições culturais da cidade, são poucos os que contam com um corpo fixo de educadores, ou com um setor educativo. Num momento em que a pressa parece ser a chave-mestra dos entendimentos e da comunição vigente, tirar um tempo para si e contar também com interlocutores bem preparados e abertos para o diálogo em torno da produção de arte pode significar uma valorosa transformação nas convivências – e, onde tem transformação, tem trabalho. Abaixo, as entrevistadas contam que trabalho é esse, as peculiaridades e as principais dificuldades da profissão. Quais os principais campos de atuação para o educador não formal? Museus, centros culturais e ONGs, que também têm crescido bastante em participação no mercado. Como é o trabalho do educador para arte em museus? A cada novo trabalho temos um curso que nos provê do conteúdo da exposição em que se vai trabalhar. É uma atividade permeada por muito estudo, portanto. Um educador não pode deixar nunca de pesquisar, estudar, realizar textos. Daí posteriormente existe o contato com o público, que é diário. A atuação é voltada aos interesses singulares de cada visitante, a partir dos percursos possíveis de acordo com o que cada exposição está apresentando. Transita-se pelos assuntos das exposições a partir dos interesses identificados nos próprios visitantes. Para isso, buscam-se equipes multidisciplinares, já que a atividade também o é. O que acho complicado é o formato que a profissão tem aqui no Brasil, ou em São Paulo. Trabalha-se por projeto, e dificilmente existe uma equipe fixa num determinado museu, ou centro cultural. A instabilidade é difícil, principalmente para quem está começando. É uma dificuldade posta pelo próprio mercado. Que tipo de dificuldades enfrenta o trabalhador da área? A primeira delas é não ter registro na carteira. Se você fica dois ou três meses sem trabalhar, entre uma exposição e outra, é necessário fazer a contribuição do INSS por conta própria, por exemplo. Fora 13º, férias, ou seja, não há nenhuma segurança. E todo mundo quer ter o mínimo de estabilidade. Isto vem de uma política que barateia o custo para as instituições, e assim ela pode trabalhar com “n” pessoas diferentes. O que caracteriza o trabalho com a educação não formal? Na educação não formal existe uma liberdade de criação muito grande. É um grande espaço de experimentação aplicada de diversas metodologias. Por outro lado, existe uma dificuldade muito presente para sistematizar o desenvolvimento diário conquistado na profissão, quanto às relações estabelecidas com o público ao longo das últimas décadas. Existe uma certa falta de consciência do educador como um profissional atuante. Tanto por parte dos setores mais burocráticos das instituições quanto às vezes dos próprios educadores. O conhecimento, nesta profissão, tende a ser muito segmentado, o que dificulta a apreciação dos resultados e dos objetivos consolidados. Quem são os trabalhadores da área? Inicialmente eram estudantes universitários, não necessariamente de licenciatura, que procuravam ou um estágio, ou um meio de subsistência financeira, ou ainda uma maneira de enriquecer seu repertório a partir da formação proporcionada pelas instituições previamente às mostras de arte – o assim chamado “período de formação”. É um mercado que reúne estilos muito diversos de prática, conforme o posicionamento de cada instituição. Muitos dos profissionais acabam tendo de se desdobrar tanto entre suas atividades acadêmicas, quanto de produção do próprio trabalho de arte, bem como no atendimento às escolas e ao público espontâneo em atividades voltadas à educação não formal. Quais os maiores desafios para um educador da área? Como conciliar a realização financeira com o tempo do estudo e do trabalho. São necessidades pelas quais passam os educadores que escolheram viver da sua arte – atividade simultânea adotada por muitos que trabalham também com a educação não formal. O que vem primeiro: a sua autonomia e a constituição do seu próprio saber e de sua formação, ou as demandas instituicionais a que se está atrelado? Pode ser difícil alcançar um equilíbrio quando muitas vezes é preciso lidar inclusive com a simultaneidade de empregos, acumulando jornadas de trabalho, isso em meio aos complexos deslocamentos por uma cidade como São Paulo, por exemplo. Como é o dia a dia profissional de um educador não formal? O educador não formal precisa sempre aprender de novo, a partir do contato com coisas que se colocam no cotidiano, tanto quanto ao repertório, bem como da metodologia para o trabalho. É uma atividade em que, mais que nunca, a forma do que se está ensinando é tão importante quanto o que está sendo ensinado. São ações repensadas em sua duração e procedimentos no transcorrer do caminho. Tem a ver, portanto, com como convocar para a aprendizagem, tema recorrente na educação não formal. Quais as peculiaridades da prática educativa não formal? Na educação não formal, como a gente não necessariamente está no espaço de sempre, como é o caso de uma sala de aula, a gente precisa desenvolver também maneiras diferentes de abordagem. O espaço da sala de aula já carrega décadas de pensamento sobre isso; o da educação não formal, até por ser uma coisa recente, não. Quais os principais desafios para o trabalhador da área? Por se trabalhar com contratos de trabalho com duração determinada, existe uma insegurança profissional e muitas vezes até financeira. Você pode estar no mercado de educação não formal com carteira assinada, benefícios, etc., mas em geral, o que acontece é que o mercado brasileiro para a área é caracterizado como um serviço, algo transitório, o que não deixa as pessoas terem a sensação de estabilidade. Para muita gente, isto pode ser muito bacana: você está sempre mudando. Por outro lado, você não consegue ter um trabalho continuado, com o mesmo grupo de pessoas. Tanto com relação aos seus pares, quanto àqueles que são os educandos. É um grande desafio. E para a instituição que promove a educação não formal também. É uma herança do neoliberalismo exarcebado nos anos 1990, no qual o lugar da cultura, que é o campo de atuação da educação não formal, é entendido como uma prestação de serviço, com oscilações e fragilidades, dependente de variáveis orçamentárias que não têm sustentabilidade própria. Isto acaba refletindo nas relações de trabalho. Todo esse contexto redunda num desafio maior, que é o de como se colocar politicamente dentro das instituições e do seu próprio trabalho, ou seja, quais concessões fazer e quais não, ou porquê este ou aquele formato de trabalho, com abertura para tal e tal público? É um trabalho em que se trata, acima de tudo, de uma formação política, inclusive do prórpio educador. Acaba sendo um jeito de responder a quais narrativas de vida se quer para si, e é quando se tem a possibilidade de descobrir que pouca coisa não está ao alcance da gente mesmo mudar. * Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Flávio Aquistapace, do Aprendiz
educacao2 Mundo

Honduras resgata a educação pública

Tegucigalpa, Honduras, 27/1/2012 – Honduras estreará em fevereiro uma nova Lei Fundamental da Educação, que substitui a que está em vigor há quase meio século e pretende devolver a confiança no ensino público, melhorar sua qualidade e garantir a governabilidade em seu sistema. Com ela busca-se modificar uma situação onde as greves e reclamações trabalhistas do setor, a falta de infraestrutura e outros problemas causam o recorrente descumprimento dos 200 dias letivos mínimos nos cursos primário e secundário. Agora, o ano letivo não poderá terminar se esses dias não forem completados. A lei, com 91 artigos e promovida como “revolucionária” pelo governo e parlamento, foi aprovada no dia 17 por 87 dos 128 deputados, com a oposição dos principais colegiados dos docentes, que neste país cumprem também funções sindicais e que na reta final abandonaram a mesa negociadora que por dois anos tentou o consenso. A lei aumenta de seis para nove anos a educação básica obrigatória que o Estado deve proporcionar de forma gratuita, estabelece o inglês como matéria fundamental ao longo das grades curriculares do primário e secundário, garante internet nos centros públicos e normatiza que o acesso universal ao ensino é um direito. Também fixa o direito que têm os sete grupos indígenas do país de serem educados em sua língua materna, para preservar a cultura dos sobreviventes do milenar povo pech e da comunidade garífuna. Além disso, o magistério passará a ser uma carreira universitária e os futuros professores terão de ter o terceiro grau. Esta reforma se completará em 2018, quando terminará o prazo para que as 13 escolas de magistério atuais modifiquem seus currículos. Honduras é um dos países latino-americanos que tem as piores notas em matéria de educação nos exames de órgãos internacionais e o analfabetismo atinge mais de 20% de seus 8,4 milhões de habitantes, dos quais 3,4 milhões são menores de 18 anos, segundo dados oficiais. Juan Orlando Hernández, presidente do unicameral Congresso legislativo, esclareceu à IPS que “buscamos iniciar uma revolução educacional que nos tire do atraso em que se mantém a educação pública e esperamos, no médio prazo, devolver a confiança nela”. Também lamentou que os dirigentes dos principais sindicatos, que aglutinam entre 52 mil e 60 mil docentes, se afastassem do consenso no final. “Demos a eles tempo suficiente, nunca apresentaram contrapropostas e não podíamos continuar no puxa-puxa. As decisões tinham que ser tomadas”, argumentou. Contudo, os professores pensam de modo diferente. Afirmam que a nova lei é “demagógica”, não há bases para ser aplicada, busca privatizar a educação pública e cria um virtual bilinguismo para o qual é preciso antes capacitar os professores. Por isso, anunciam mobilizações quando começar o ano escolar, na segunda semana de fevereiro. O dirigente sindical Edgardo Casaña disse à IPS que “essa lei atende às políticas neoliberais que buscam privatizar a educação pública, querem enganar com a internet nas escolas e outras ferramentas, que são boas mas que têm o propósito político de desmobilizar o magistério”. Julio Navarro, sociólogo e ex-dirigente de classe, declarou à IPS que “leu a lei, participou de alguns encontros de socialização e pode garantir que nela não há a tal privatização, o que ocorre é que temos um magistério defasado no avanço educacional e muito ideologizado”. Para Navarro, a nova lei fortalece o sistema da educação pública, inclui a prestação de contas “a ponto de se poder saber com quantos professores o país realmente conta, um dado que em pleno Século 21 continua sendo inexato. A lei também pretende melhorar a qualidade do ensino e que a sociedade volte a confiar em suas escolas públicas”. O parlamento informou que foram destinados US$ 840 milhões para iniciar a execução da lei. Em Honduras a educação primária dura seis anos (dos sete aos 12) e a secundária outros seis (dos 13 aos 18), que neste caso se dividem em dois ciclos de três anos, um comum e outro diversificado. Agora, o primário e o primeiro ciclo secundário serão obrigatórios e o Estado deverá garantir esse direito. A população escolar pública é de 2,3 milhões de estudantes, segundo dados oficiais. Um informe da Universidade Nacional Autônoma de Honduras (Unah, pública) dá evidências da deterioração da qualidade do ensino. Há cinco anos, a Unah aplica uma prova de aptidão acadêmica para admissão de estudantes, segundo padrões internacionais. O informe indica dificuldades dos estudantes que fazem as provas em áreas como matemática e linguagem. Em 2011, não foram bem 29.031 dos 43.926 inscritos no exame. A média obtida pelos aspirantes aprovados procedentes de escolas públicas foi de 843 pontos, perto da pontuação mínima da prova, que vai de 800 a 1.100. As carreiras mais procuradas ou exigentes requerem pontuações maiores. Navarro afirma que esta deterioração se deve a problemas próprios dos conflitos no magistério relacionados, em sua maioria, a greves por atraso no pagamento, reparos administrativos por cobrar salários sem trabalhar, existência de vagas fantasmas e politização, entre outros. No ano passado, o país teve uma média de apenas 140 dias de aulas, contra os 200 mínimos estabelecidos, e os professores não cumpriram a promessa de repor os dias perdidos, sem que o governo os obrigasse a isso. Rutilia Calderón, vice-reitora acadêmica da Unah, afirma que esse problema alimenta a insuficiência com que os estudantes chegam à universidade. “Há uma espécie de ingovernabilidade na educação que deve ser resolvida, se o desejo é aplicar a nova lei”, destacou à IPS. Armando Euceda, ex-vice-ministro da Educação, considera que a lei terá êxito “se o Estado for capaz de aplicá-la, controlar o caos educacional e reduzir a desigualdade entre o urbano e o rural. Dos 1.100 centros secundários de ensino público, 800 estão nas zonas urbanas, e o mesmo ocorre com as escolas primárias. Junto com menos centros, na área rural há outro problema. “Um professor atende seis séries e isto deve ser mudado. Tudo isso influi na baixa qualidade”, acrescentou. No entanto, a reforma não chega a tempo para que Honduras cumpra o segundo objetivo de desenvolvimento do milênio, com o qual o país se comprometeu, como os demais membros da Organização das Nações Unidas (ONU), de ter ensino primário universal até 2015. O informe da Unah diz que, “apesar de a qualidade da educação ser colocada na agenda pública, os êxitos nesta área não foram verdadeiramente significativos até agora, por isso não se espera conseguir a universalização do ensino primário”, e assegura que, para enfrentar este desafio, é imprescindível “melhorar a governabilidade no sistema educacional”. Este ano se começará a ver se a nova lei contribui para isso. (Envolverde/IPS)  


por Thelma Mejía, da IPS
picha Escolas

Estudantes trocam a pichação pelo grafite em escola de Goiás

O muro pichado do Colégio Estadual Professor José dos Reis Mendes, na periferia de Trindade, município goiano de 104 mil habitantes, a 18 quilômetros de Goiânia, virou espaço para a grafitação – grafitagem, na linguagem dos adeptos. O projeto de arte criado em 2011 deu tão certo que a direção da escola pensa em ampliá-lo para o ano letivo de 2012. A ideia é que o muro interno da instituição seja aproveitado como espaço de expressão artística dos 700 alunos do ensino fundamental e médio. “O prédio da nossa escola é antigo e estava sujo”, conta a diretora, Wannessa Cardoso Silva. “Como os alunos pichavam o muro que cerca o quarteirão, aproveitamos a criatividade deles porque os mesmos alunos que picham também sabem desenhar.” Carlos Henrique de Castro Mendes, 15 anos, participava da turma dos pichadores. “Era legal pichar; tinha adrenalina”, diz o estudante do primeiro ano. Ele costumava assinar as pichações sob o apelido de Caos. “E quanto mais alto e difícil, mais a gente ficava famoso.” O projeto de arte, do Muralismo ao Grafite, fez Carlos Henrique refletir. No muro, ele desenhou a prisão de um pichador por um policial. “Isso quase aconteceu comigo”, revela. Hoje, ele e outros colegas pedem para grafitar em muros pela cidade. “É muito melhor; o grafite é um jeito de expressar”, diz o jovem, que aprendeu, com o projeto, um pouco sobre a história dessa arte. Coordenadora do projeto, a professora de história Maria Aparecida Pereira Laura pesquisou sobre o movimento artístico. “O primeiro grafiteiro famoso foi o norte-americano Jean Michel Basquiat, um jovem negro, usuário de drogas”, explica. Basquiat deixava mensagens poéticas nas paredes dos prédios abandonados de Manhattan, em Nova York. “Foi um movimento artístico de ruptura, de contracultura, que se destacou no processo de independência das Américas, principalmente do México”, continua a professora. “O muro era usado como espaço para a manifestação popular.” Orgulho – Satisfeita com o resultado do projeto de artes, a diretora adianta que o novo visual do colégio ganhou elogios da comunidade e até fez aumentar o pedido de vagas para novos alunos. “O clima é outro na nossa escola depois desse trabalho do grafite” assegura Wannessa. “Os alunos mudaram o comportamento, chamam os pais para visitar a escola e ver o muro pintado, estão mais interessados nos estudos e se conscientizaram de que a escola é um espaço público, que também pertence a eles.” Para dar continuidade ao projeto, a diretora propõe que se pinte também o muro interno. Ela pretende envolver, agora, os professores de biologia. “Todas as ruas do bairro têm nomes de flores, como gardênia e amor-perfeito, e plantas, como vitória-régia; por que não pintá-las pela escola, com os nomes científicos?”, sugere. A professora Maria Aparecida, que coordenou o projeto, pensa em algo ainda maior. Em suas pesquisas, ela descobriu como a cultura de rua é valorizada por escolas públicas da Argentina. A partir daí, pensa em aproveitar o laboratório de informática para conectar os estudantes. “Os alunos vão poder aprender sobre arte, a falar espanhol e também a fazer uso da informática.” Origem – A palavra grafite tem origem na língua italiana (graffiti, plural de graffito). O nome era utilizado, desde o império romano, para as inscrições feitas em paredes. Atualmente, o grafite é traduzido como inscrição caligrafada ou desenho pintado sobre um suporte não convencional, como os muros das cidades. Por isso mesmo, por muito tempo, foi visto como contravenção. Agora, é considerado expressão artística urbana. Ou seja, o artista usa espaços públicos para criar. Grafite não é pichação, embora muitos grafiteiros respeitáveis, como Os Gêmeos – os paulistas Otávio e Gustavo Pandolfo –, admitam ter começado como pichadores. A prática do grafite espalhou-se a partir do movimento de contracultura de maio de 1968, quando os muros de Paris eram o suporte para inscrições de caráter poético-político. No século atual, o grafite é arte exposta até em museus. * Publicado originalmente no site Portal do Professor.


por Rovênia Amorim, do Portal do Professor
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Sonhos em azul

A possibilidade de uma transformação da sociedade deve integrar a consciência, a cultura e a natureza, assim como a arte, a moral e a ciência, de forma a proporcionar à sociedade valores pessoais, sabedoria coletiva e conhecimento técnico. Esta é a opinião do polêmico pensador e criador da Psicologia Integral, Ken Wilber, autor do livro Uma breve história do universo: de Buda a Freud. Como afirmou o psiquiatra e ensaísta Humberto Mariotti ao Página22, graças a adventos como a internet, indivíduos em rede foram capazes de demonstrar que o mundo não é apenas linear, mas sistêmico, interdependente e coparticipativo. Mas tudo isso é pouco levado em conta quando se fala de educação básica no Brasil, sobretudo a pública – ainda muito pautada pelo pensamento linear, cartesiano, compartimentado, que acaba por estimular o individualismo ao desconsiderar a relação das partes com o todo. Sem abrir mão da linearidade, pois esta também tem sua função e importância, e nem do pensamento sistêmico, a Teoria da Complexidade – área de expertise do professor Mariotti, diretor da São Paulo Business School –, veio a combinar as duas vertentes de maneira integradora. Tanto a complexidade como a transdisciplinaridade, que se encontram no limiar do que há de mais avançado em termos de educação, infelizmente são temas que ainda engatinham no Brasil. Uma linha um pouco mais conhecida é a da interdisciplinaridade, que prevê a transferência de métodos de uma disciplina para outra. “Esta maneira de pensar e fazer a educação permitiria ampliar e construir novos referenciais e valores, que poderiam ajudar os alunos a recuperar o seu papel de agente de transformação no mundo a partir de sua própria realidade”, diz Arlete Zanetti Soares, educadora do Ensino Fundamental e Médio do município de São Paulo e pesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Interdisciplinaridade (Gepi) da PUC-SP (1). Mesmo a interdisciplinaridade foi introduzida no ensino básico de maneira tímida em algumas escolas privadas de referência, e ainda nem chegou à rede pública, espaço em que a educação tem a oportunidade de ser democratizada. Assim, a questão que surge é: como avançar nesses campos mais transformadores se a educação no Brasil ainda tropeça nos passos mais elementares? O cenário que se apresenta em território nacional é desalentador quando comparado a nações que viveram momentos conturbados de forte crise econômica e guerra civil, mas que, em poucas décadas, conseguiram transformar a realidade social com uma forte artilharia de investimentos em educação, caso da Coreia do Sul (2) no início dos anos 1990. É verdade que o acesso ao ensino fundamental no Brasil foi praticamente universalizado, mas o gap na qualidade persiste. Dados do IBGE mostram que 98% das crianças entre sete e 14 anos frequentavam a escola em 2009. Também foi considerável o aumento na taxa de matrículas dos jovens entre 15 e 17 anos: de 64% em 1995, para 85% em 2009. Apesar disso, o desempenho escolar dos alunos de 15 anos de idade garantiu ao Brasil o 53º lugar no ranking geral do Programme for International Student Assessment 2009 (Pisa) (3), em um total de 65 países. Pela avaliação, o Brasil ficou 19 pontos atrás do México, 26 do Uruguai e 38 do Chile. Narcotização da aprendizagem Até pouco tempo atrás, a falta de escolas, o alto índice de evasão das crianças e a carência de verbas eram os principais problemas da educação brasileira, como sustenta o artigo Os desafios da educação no Brasil, de Simon Schwartzman, especialista em educação e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade. Segundo ele, foram precisos muitos anos para convencer políticos e a opinião pública de que, na verdade, é a má qualidade das escolas e a repetência que representam o grande obstáculo no ensino do país. “A pouca cobertura (financeira) e as altas taxas de abandono no ensino médio fazem com que poucos (alunos) cheguem ao ensino superior”, escreve ele. “E, embora o país gaste mais de 5% do PIB com educação, o que o coloca no mesmo nível da Espanha, da Itália e do Japão, este montante está enviesado para o ensino superior.” Em consequência de o professor receber uma formação universitária descompassada das realidades, contextos e situações que serão demandadas nas escolas, o aluno se torna despreparado para enfrentar a complexidade atual da sociedade. “Isto leva a certa narcotização da aprendizagem, impedindo-o de associar informações e ir mais além na reflexão”, diz Cláudio Picollo, vice-líder do Gepi, e coordenador do Projeto Institucional e Interinstitucional Pensar e Fazer Arte. Para rever as notas Embora recentes, há no Brasil algumas experiências de reforma educacional. Em 2008, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo implantou o Programa de Qualidade na Escola, pelo qual foram criadas metas de desempenho para cada escola estadual até 2030. “Outra inovação importante foi a implantação de um sistema de bônus de desempenho para diretores, professores e funcionários, associado ao cumprimento das metas”, pontua o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas, Fernando Veloso. Cientes de que qualidade no ensino é também uma questão de gestão educacional que envolve pais, diretores e professores, algumas escolas da rede pública optaram por se associar a entidades especializadas em educação, como forma de tentar corrigir o fluxo dos alunos e promover a melhoria da administração escolar. O Instituto Ayrton Senna (IAS) foi apontado como referência no apoio ao ensino público fundamental por alguns especialistas, entre eles o próprio Veloso, em seu artigo Evolução recente e propostas para a melhoria da educação no Brasil, publicado no livro Brasil: a nova agenda social (LTC Editora, 2011). “Ao auxiliar as redes públicas de ensino, estimulamos discussões que pretendem acabar com a visão simplista de que o aluno não aprende porque não tem interesse”, afirma a coordenadora da área de Educação Formal do IAS, Inês Kisil Miskalo. “Se isto acontece, é porque ele sofre de algum problema, que pode ser desde a incapacidade de ler, fome, problemas familiares, até a falta de entendimento sobre a utilidade da informação oferecida pelo professor. Por essa razão, incentivamos o professor a ser um direcionador de conhecimento, e não apenas um detentor de informações”, diz Inês. Outro exemplo de iniciativa que tem dado resultados positivos, influenciando políticas públicas Brasil afora, é o apoio institucional oferecido pelo Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE Brasil) (4) às escolas públicas do ensino médio. O destaque de sua atuação, que contribuiu para repercutir as ações da entidade por todo o país, foi a reforma realizada na Escola de Referência em Ensino Médio Ginásio Pernambucano, no Recife, a primeira instituição de ensino integral da região, trazendo resultados surpreendentes. De acordo com o presidente da instituição, Marcos Magalhães, a plataforma básica desta metodologia é a gestão educacional, que está atrelada a um modelo pedagógico sustentado por três pilares: formação acadêmica de excelência, o que inclui quatro meses de aula de reforço em português e matemática para os novatos, como forma de suprir as deficiências do ensino fundamental (em geral, os alunos chegam ao ensino médio, segundo Magalhães, com uma lacuna de quatro anos de “não aprendizagem”), ensino de valores com base na elaboração de um projeto de vida, e aproximação dos estudantes com profissionais das mais diferentes áreas de atuação, com o intuito de apresentar a realidade e abordar a demanda do mercado de trabalho. Segundo Magalhães, o protagonismo juvenil é incentivado a partir de projetos de valorização do patrimônio escolar, transmissão de conhecimentos por meio do jornal da escola, entre outros, idealizados pelos próprios estudantes. A metodologia tem dado tão certo que cerca de 50% dos alunos são aprovados nos vestibulares das melhores faculdades públicas e privadas do país, conforme o presidente da entidade. “Este índice não chega a 10% em outras escolas públicas”, revela. O sucesso da empreitada fez com que o governo adotasse o sistema integral no ensino médio em 153 escolas de Pernambuco. Outros Estados também aderiram à ideia, como Ceará, Sergipe, Piauí e Rio de Janeiro. E, em 2012, São Paulo deve implementar a metodologia de modo piloto em 20 escolas do Estado. Estratégias do governo Apesar do cenário preocupante, o fato de a educação estar no topo das discussões políticas no Brasil sinaliza uma tentativa, ainda que tímida e muito aquém das necessidades do país, de recuperar o tempo perdido. De acordo com a secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda, as avaliações do sistema público de ensino permitem realizar um diagnóstico minucioso da educação, a partir do qual é possível criar um plano de ação nos municípios e cobrá-los de acordo com metas e prazos. Outras medidas estão sendo levadas em consideração pelo governo federal, entre elas a análise de boas práticas de ensino – com possibilidade de replicá-las em outras localidades – e a necessidade de capacitação do professor. A educação de qualidade, evidentemente, é o fator primordial para que mudanças profundas, em especial no que se refere à desigualdade social, sejam alcançadas. Os prejuízos do descaso que acometeu o setor por tanto tempo já deixaram marcas indeléveis na sociedade. O caminho é longo e o Brasil tem pressa. Notas (1) Grupo de Estudo e Pesquisa em Interdisciplinaridade, ou Gepi, congrega professores e alunos do curso de pós-graduação em Educação da PUC-SP, bem como pesquisadores de instituições nacionais e internacionais, no intuito de desenvolver pesquisas mais inovadoras sobre a educação brasileira. (2) A Coreia do Sul é considerada, até hoje, o país com o melhor ensino básico do planeta. Entre as medidas adotadas, premiou os melhores alunos com bolsas e aulas extras para desenvolverem seus talentos, incentivou os pais a se tornarem assíduos participantes nos estudos dos filhos e investiu na qualificação dos professores. (3) O Pisa é uma rede mundial de avaliação de desempenho escolar, coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com o objetivo a melhorar as políticas e resultados educacionais. (4) Entidade privada, sem fins lucrativos, que trabalha pela promoção da melhoria da qualidade da educação pública. * Publicado originalmente no Página 22 e retirado do site Mercado Ético.


por Juliana Tavares, para o Página 22
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Educação, cultura e desenvolvimento

"...pois o tal ‘desenvolvimento’ atingido ainda aparta 80% da humanidade das condições mínimas de vida na Cultura da Paz, com justiça ambiental e social” Carta aberta de educadores e educadoras por um mundo justo e feliz,  2ª Jornada Internacional de Educação Ambiental Rio+20 na transição para sociedades sustentáveis "Desenvolvimento não é só crescimento econômico. É também social, ambiental, cultural.” Márcio Pochmann, abertura da 2ª Conferência do Desenvolvimento, novembro de 2011 "A educação é estratégica para as próximas gerações, em especial quando novos atores entram em cena no Brasil” Márcio Pochmann, Ciclo de Debates do Fórum Direitos e Cidadania, julho de 2011 "A educação está hoje permeada pela ideia de ascensão social. Só a cultura pode quebrar essa ideia.” Marilena Chauí, Ciclo de Debates do Fórum Direitos e Cidadania, setembro de 2011 A partir das frases e citações acima, abri minha participação na Mesa de Encerramento da 2ª Conferência do Desenvolvimento, promovida pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), com o título Educação, Cultura e Desenvolvimento, coordenada por Juana Nunes Pereira, diretora de Projetos do Ministério da Cultura (Minc), promotor da Mesa, com participação do presidente do Ipea, Márcio Pochmann, da secretária Nacional da Juventude, Severine de Macedo, do professor José Jorge da UnB e de Leandro da Costa Fialho, coordenador-geral de Ações Educacionais Complementares do Ministério da Educação (MEC). O Brasil está à beira de se tornar a quinta economia do mundo, em meio à crise econômica dos países ricos ditos desenvolvidos, da ascensão dos Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Ineditamente, a instabilidade à direita sacode a Europa e a estabilidade à esquerda acontece na América do Sul. A Mesa promovida pelo Ministério da Cultura não poderia ser mais oportuna. A crise do projeto neoliberal de desenvolvimento traz sofrimento para os pobres e trabalhadores, mas também coloca em xeque o modelo econômico implantado a partir da queda do Muro de Berlim e do socialismo real. O mercado não salvou os povos nem levou ao fim da história. Ao contrário, destruiu sociedades, levou ao desemprego, trouxe concentração de renda brutal, fez do mercado financeiro o centro da economia, implantou valores como o individualismo cego e sem fronteiras, o lucro como última fronteira do sentido de viver. Para que solidariedade, partilha, fazer coletivo, justiça social? Para que simplicidade, respeito à natureza, vida comunitária, bem viver? Este mundo e seus valores estão ruindo. Mas o que colocar no lugar? Que tipo de economia? Quais relações sociais? Qual o papel da educação e da cultura num novo projeto de desenvolvimento? Qual a nova utopia, qual o horizonte, como tão bem diz Eduardo Galeano, a guiar e orientar corações e mentes? As respostas estão surgindo aqui e ali. Certamente não estão na rotina de fazer o mesmo ou na educação tradicional. Como disse Leandro da Costa Fialho, do MEC, podem estar na integração entre a educação formal e a educação popular, por exemplo. "A educação popular, antes de se tornar lei, é uma prática social presente nos diversos movimentos da sociedade. Antes de se tornar direito adquirido, a educação popular é uma prática social e cultural. O papel da educação popular na transformação significa a criação de uma nova ordem. Ela não é, portanto, um assunto exclusivamente político e econômico. Implica também uma dimensão ética e cultural. A educação popular reconhece a vida cotidiana e a experiência como espaços de construção da nova hegemonia ou nova maioria. A educação popular valoriza a cultura popular como fonte de identidade e força de um projeto nacional popular.” [Texto para debate "Educação popular como política pública”, da Rede de Educação Cidadã (Recid), www.recid.org.br] Segundo Álvaro Garcia Linera, vice-presidente da Bolívia e considerado por muitos o mais importante latino-americano contemporâneo, "a reivindicação da educação como direito coletivo é fundamental. É um fato universal. Não é sindical ou reivindicatório. Os jovens chilenos que lutam pela educação, que o fazem também na Europa, estão lutando por um novo universo, por um novo entendimento do que é patrimônio de todos para serem humanos, para serem cidadãos, independentemente do território ou da condição econômica”. (Não haverá nunca mais uma Bolívia sem índios, www.cartamaior.com.br) A resposta pode estar na promoção de "valores e aspirações da sociedade em um olhar sistêmico que traga ao centro dos debates as dimensões humana, espiritual e cultural como base para a mudança de comportamento”, como diz o documento "Um Acordo para o Desenvolvimento Sustentável e a Conferência Rio+20”, recém-lançado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e Entidades Signatárias, "Contribuições para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20”, www.cdes.gov.br. Diz mais o documento: "A educação é eixo prioritário e estruturante do desenvolvimento, vetor para libertar os potenciais de criatividade, inovação e de produção e, especialmente, elemento viabilizador da construção cultural para um novo padrão de convivência com o meio ambiente”. E propõe: "Incentivar a mobilização das redes sociais para o processo de mudança de cultura e de valores na transição para o novo padrão de produção e consumo e a economia verde inclusiva. Promover a participação da sociedade civil na governança do desenvolvimento, por meio do fortalecimento das organizações da sociedade, redes sociais e associações de diversos tipos; e da implantação e fortalecimento de mecanismos participativos e de escuta, como conselhos, audiências públicas, mesas de diálogo, ouvidorias, entre outros, em todas as esferas nacionais e multilaterais”. Ou, talvez, como propõe a Carta Aberta de Educadores e Educadoras por um Mundo Justo e Feliz: "Precisamos aprender e exercitar outras formas de fazer políticas públicas a partir das comunidades, e exigir políticas estatais comprometidas com a qualidade de vida dos povos. Para tanto, faz-se urgente fortalecer os processos educadores comprometidos com a emancipação humana e a participação política na construção de sociedades sustentáveis, onde cada comunidade humana sinta-se comprometida, incluída e ativa no compartilhamento da abundância das riquezas e da vida no nosso planeta: aprendizagem transformadora, alfabetização ecológica, educação popular ambiental, ecopedagogia, educação Gaia, educ-ação socioambiental. Mais que nunca apelamos por uma educação capaz de despertar admiração e respeito pela complexidade da sustentação da vida, tendo como utopia a construção de sociedades sustentáveis por meio da ética do cuidar, e de proteger a bio e a sociodiversidade”. (www.tratadoeducacaoambiental.net) O caminho está aberto. Mãos à obra. * Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Selvino Heck*
ultimas_formacao_professores_rurais Governo

MEC prepara projeto para reestruturar educação no campo

Brasília – O novo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, deverá apresentar nas próximas semanas seu primeiro programa. O Pronacampo, preparado ainda durante a gestão de Fernando Haddad, pretende combater um dos gargalos da educação: dar mais atenção à educação rural, uma modalidade de ensino que abriga quase 6,5 milhões de estudantes, mas tem as piores escolas, professores e indicadores. Pelo menos mil municípios, com índices de pobreza aguda, receberão um grupo de ações para reverter o abandono. O projeto, que foi apresentado à presidente Dilma Rousseff durante as reuniões ministeriais da semana passada, inclui desde a construção de novas escolas até a formação dos professores. A lista dos municípios que serão beneficiados ainda não está fechada, mas se concentrará nas regiões Norte e Nordeste. O Pronacampo começa pela construção ou reforma das escolas. Os recursos já estariam garantidos no orçamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e seriam repassados às prefeituras da mesma forma que hoje chega o dinheiro do Programa de Aceleração do Crescimento: em uma conta separada que só pode ser movimentada para pagamentos daquela obra específica. A licitação para a contratação das empresas que farão as escolas deverá ser centralizada. O próprio FNDE já fez o projeto do que deverão ser as escolas. Salas de aula, ginásio de esportes, refeitório, salas administrativas, uma área para hortas e outras atividades rurais e até mesmo dormitórios, para alunos e professores, estão previstos. Apesar de incluir também a compra de transporte escolar, o Pronacampo prevê a possibilidade de transformar algumas escolas em um semi-internato. Contraste. As imagens quase idílicas usadas nos projetos, com vaquinhas holandesas e crianças loiras, estão distantes da realidade das escolas rurais. A maioria das 80 mil unidades está muito abaixo de um padrão mínimo de qualidade. Muitas não têm água ou luz, a maioria não tem laboratório, biblioteca ou espaço de lazer. Há casos, segundo relatório do FNDE, de escolas com teto de folhas de coqueiro. Cálculo preliminar do MEC mostra que 78 mil professores das zonas rurais têm apenas o ensino médio. O programa pretende levar formação para esses docentes. A intenção é criar pequenos núcleos da Universidade Aberta do Brasil, sistema de ensino a distância do governo federal. * Publicado originalmente no site Portal do Aprendiz.


por Lisandra Paraguassu, do Estado de S. Paulo
escola-do-futuro Escolas

Soluções criativas para as escolas brasileiras

O Portal Aprendiz apresenta ideias inspiradoras para a construção de centros educacionais no Brasil. Três experiências espalhadas pelo mundo fornecem dicas de como as cidades podem incorporar soluções criativas na hora de desenvolver ou reformar escolas. Escola sem muros Na Suécia um novo conceito de escola passou a existir, conhecida como “escola sem muros”, e a Vittra School Telefonplan foi aberta oficialmente em dezembro do ano passado.Todos os ambientes são abertos, não existem salas de aulas. Escola sustentável Construída em uma área de 325 metros quadrados no pequeno vilarejo rural de Rudrapur, no norte de Bangladesh, graças à parceria entre a ONG Dopshikha e os arquitetos Anna Heringer e Eike Roswa, a Meti School (Modern Education as Training Institute) pretende auxiliar crianças a desenvolver seu potencial criativo. A escola é predominantemente sustentável no conteúdo e na forma. Mais de 400 toneladas de barro e bambu foram utilizadas para valorizar os recursos abundantes na região, e que, em princípio, impactam menos ao meio ambiente. Ao minimizar a quantidade de tijolos, concreto e aço, utilizados só para a fundação, o custo da produção chegou a ter uma economia de 50%. Escola do futuro O Distrito Escolar de Filadélfia e a Microsoft uniram forças, em 2003, para planejar, construir e desenvolver uma escola para 750 alunos que poderia servir de modelo para o Século 21. As instalações são um modelo de arquitetura contemporânea, com telhado “verde”, corredores cheios de luz e salas de aula com equipamentos de alta tecnologia. A visão é de uma escola sem livros ou documentos e que incorpora o tema “Contínua, pertinente e adaptável”. Cada aluno recebe um laptop para fazer anotações, trabalhos e exames. Os estudantes são escolhidos por sorteio nas escolas públicas. A maioria vem de famílias de baixa renda, sem computadores em casa e precisam lidar com laptops todos os dias. A primeira turma se formou em 2010. * Com informações do Catraca Livre e Terra. ** Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Redação Portal Aprendiz
95478 Analfabetismo

Alunos analfabetos

No primeiro semestre de 2011, aplicou-se a Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) em turmas de alunos que concluíram o 3º ano do ensino fundamental, em todas as capitais do país. Uma iniciativa do movimento Todos pela Educação com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). O resultado é alarmante. Constatou-se que 43,9% dos alunos são deficientes em leitura e 46,6% em escrita. Ou seja, são semialfabetizados. Não captam o significado do que leem e redigem uma simples carta com graves erros de sintaxe e concordância. Quanto à leitura, quase metade (48,6%) dos alunos da rede pública correspondeu ao resultado esperado. Na rede de escolas particulares, o desempenho foi bem melhor: 79%. No item escrita tiveram bom resultado apenas 43,9% dos alunos da rede pública. Na rede particular, 86,2% dos alunos se saíram bem em redação. Os índices demonstram que, no Brasil, a desigualdade social se alia à desigualdade educacional. Alunos da rede pública, oriundos, na maioria, de famílias de baixa renda, não trazem de berço o hábito da leitura. Seus pais possuem baixa escolaridade e o livro não é considerado um bem essencial a ser adquirido, como ocorre em famílias de renda mais elevada. De qualquer modo, é preocupante o fato de alunos, tanto da rede pública quanto da particular, não atingirem 100% de alfabetização ao concluir o 3º ano do ensino fundamental. O que demonstra falta de método de alfabetização, embora esta seja a nação que gerou Paulo Freire. Uma criança que, aos oito anos, tem dificuldade de leitura e escrita, sente-se incapaz de lidar com os textos de outras disciplinas escolares, o que prejudicará seu aprendizado. Uma alfabetização incompleta constitui um incentivo ao abandono da escola ou a uma escolaridade medíocre. É hora de se perguntar se a progressão automática, isto é, fazer o aluno passar de ano sem provar estar em condições, é uma pedagogia recomendável. Com certeza, no futuro, o adulto com insuficiente escolaridade não merecerá aprovação automática em empregos que exigem concurso e qualificação. Priscila Cruz, do Todos pela Educação, frisa a importância da educação infantil (creches, jardim da infância, etc.) para dar à criança uma boa alfabetização. Para que se desperte na criança a facilidade de síntese cognitiva, é importante que ela comece a ouvir histórias ainda no ventre materno. O Brasil é um país às avessas. A Constituição de 1988 cometeu o erro de incumbir a União do ensino superior, os Estados do ensino médio, e o Município do ensino fundamental. Ora, uma nação se faz com educação. E a base reside no ensino fundamental. Dele devia cuidar o MEC. Nenhum governo implementou, ainda, a revolução educacional sonhada por Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire e tantos outros educadores. Como acreditar que apenas quatro horas de permanência na escola são suficientes para uma boa educação? Por que os alunos não permanecem de seis a oito horas por dia na escola, como ocorre em tantos países? No Brasil, 10% da população adulta é considerada analfabeta. No Chile, 3,4%. Na Argentina, 2,8%. No Uruguai, 2%. Em Cuba e na Bolívia, 0%. Outros fatores que contribuem para a semialfabetização são o desinteresse dos pais pelo desempenho escolar do filho e o longo tempo que este dedica à TV e a navegar aleatoriamente na internet. Nesta era imagética, há o sério risco de se multiplicar o número de analfabetos funcionais ou de alfabetizados iletrados, aqueles que sabem ler, mas não interpretar o texto, e muito menos evitar erros primários na escrita. O governo deve à nação uma eficiente campanha nacional de alfabetização, inclusive entre alunos dos 3º e 4º anos. Para isto, há que ter método. Há vários. Quem se interessar por um realmente eficiente, basta indagar ao deputado Tiririca como ele se alfabetizou em dois meses, a tempo de obter seu diploma na Justiça Eleitoral. * Frei Betto é escritor, autor de Alfabetto – autobiografia escolar (Ática), entre outros – http://www.freibetto.org – twitter:@freibetto. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Frei Betto*
LIVRO DIDÁTICO Artigo

A importância do livro para a educação e o desenvolvimento

No final de 2011, quando as agências internacionais noticiaram que a economia brasileira já era a sexta do mundo, ultrapassando a da Inglaterra, num primeiro momento houve euforia. A seguir, analistas nacionais e internacionais ponderaram que ainda falta muito para o país chegar ao nível de qualidade de vida e infraestrutura existentes nas nações mais desenvolvidas. Ao lado de fatores como renda per capita muito mais baixa e problemas com transportes, saneamento (como mostram as recentes inundações, que se repetem todos os anos), um especial se destacou: a educação. Hoje, no Brasil, um dos aspectos que ainda retardam o crescimento é a falta de mão de obra especializada e um ensino de alta qualidade. Ora, todos sabemos que só por meio do aprendizado conquistamos a verdadeira plenitude, que alia a qualidade de vida profissional e pessoal e nos completa como cidadãos. Felizmente, nos últimos anos, notícias como a de que o brasileiro comprou mais livros em 2010 – segundo dados da CâmaraBrasileira do Livro (CBL), ou que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) fechou, em agosto passado, negociação para a compra de 162,4 milhões de livros didáticos a serem utilizados por alunos da rede pública neste ano de 2012 – mostram que os brasileiros estão atentos a esse aspecto. Karine Pansa, presidente da CBL, declarou recentemente que “é gratificante observar que o preço do livro no Brasil vem mantendo uma tendência de queda. Isto estimula o crescimento do número de leitores e desenha um futuro com mais educação, cultura e efetivo desenvolvimento”. A indústria gráfica brasileira está atenta e preparada para essa demanda da sociedade. Sabemos que um dos itens importantes de um país educado é o hábito da leitura. Nesse sentido, o livro impresso, a despeito das mídias digitais, continua sendo o mais importante, completo e abrangente meio para a difusão de conhecimento com conteúdo didático, científico e literatura, contribuição para um país mais competitivo e com melhores condições de conseguir o verdadeiro progresso. Tal condição é referendada em matéria no jornal New York Times de 20 de novembro de 2011, contendo a opinião de famílias e especialistas sobre as vantagens dos livros impressos. O jornal ouviu vários pais que, embora usem em sua vida diária os tablets, fazem questão que seus filhos pequenos sejam cercados por livros impressos, para que possam virar as páginas e ter a mesma experiência física com que eles mesmos aprenderam formas e cores. Junlo Yokota, professor e diretor do centro de ensino por meio de livros infantis da National Louis University, em Chicago, afirma que a forma e o tamanho do livro são muitas vezes parte da experiência de leitura. Páginas mais amplas podem ser usadas para transmitir paisagens amplas, ou um formato mais alto pode ser escolhido para histórias sobre arranha-céus, por exemplo. O jornal termina a matéria com o que acreditamos seja um dos maiores elogios ao livro impresso como indutor de educação. Mateus Thomson, de 38 anos, executivo de um site de mídia social, acredita que seu filho de cinco anos vai aprender a ler mais rápido no papel impresso: “os sinos e assobios de um iPad se tornam mais uma distração. Quando vamos para a cama, ele sabe que é a hora da leitura. Se pegar o iPad, ele vai querer jogar um jogo. Desta forma, a concentração pela leitura sai pela janela”. Melhor explicado, impossível. * Dieter Brandt é presidente da Heidelberg América do Sul.


por Dieter Brandt*
Para sociólogo, breve todo planeta estará conectado; Google e Facebook não são ameaça. Grande desafio é manter liberdade na rede. Entrevista

Castells debate os dilemas da internet

[caption id="attachment_39806" align="alignleft" width="300" caption="Para sociólogo, breve todo planeta estará conectado; Google e Facebook não são ameaça. Grande desafio é manter liberdade na rede."][/caption] Nos Estados Unidos, o Congresso examina leis (Sopa e Pipa) que podem impedir a troca de conteúdos em rede – e, se adotadas, atingirão internautas em muitos países. Na China, a campanha anunciada pelo presidente Hu Jintao para “promover a identidade cultural” do país inclui endurecer a censura sobre certos conteúdos que circulam pela rede. Mas em todo o mundo, ela continua a ligar seres humanos sem intermediações de governos ou empresas – e, em casos cada vez mais numerosos, a viabilizar mobilizações que derrubam ditaduras e desafiam o poder econômico. Qual o futuro da internet, em meio a tendências tão contraditórias? No início de janeiro, o sociólogo Manuel Castells concedeu ao programa Europa Abierta, da rádio e TV pública espanhola, uma entrevista de enorme importância para o debate destes temas. Conhecido por obras que estabeleceram novos conceitos (como a trilogia A Era da Informação) e, mais recentemente, por sua aposta na possibilidade de manter a internet como espaço de uma “cultura de liberdade”, Castells sustentou quatro pontos de vista essenciais. Está surgindo uma era de “autocomunicação de massas”: Em suas análises anteriores, e nas de outros autores, já se falava numa “era de comunicação compartilhada”, que substituiria a de “comunicação de massas”. Castells acrescenta, agora, um outro dado. Além de dispensar o conteúdo dos grandes meios, estabelecendo trocas de conteúdos em pequenos grupos, os cidadãos estão se tornando capazes de falar às massas. As redes sociais permitem multiplicar mesmos mensagens transmitidas por pequenos grupos, quando estes são capazes de sensibilizar as sociedades. É o que ocorreu, por exemplo, nas revoluções tunisiana e egípcia. As grandes empresas com base na internet são aliadas, na luta pela liberdade – mas precisam ser reguladas: Google, Facebook e outros têm grande poder de influência sobre a rede. Porém, seu próprio modelo de negócio as leva a se oporem a medidas autoritárias de controle. Aprenderam a surfar na rede; precisam multiplicar a circulação de conteúdos, de todos os tipos, para ampliar sua receita. Ainda assim, Castells defende a criação de conselhos que regulem a internet em favor do interesse público. São eles que podem assegurar, por exemplo, a neutralidade da rede, impedindo que certos usuários tenham privilégios sobre os demais. A ideia de uma “internet elitista” não resiste aos fatos: 1,7 bilhão de pessoas estão conectadas – um quarto da população total do planeta. Nunca um meio de comunicação teve alcance tão maciço. Mas este número vai se ampliar novamente em breve, graças às tecnologias que levam a internet aos celulares, ou seja, a 4,7 bilhões de seres humanos. Nada está garantido: No momento, mesmo os controles estabelecidos pelos governos sobre a rede (como a censura a certas palavras-chaves, na China) são frágeis. No entanto, a horizontalidade radical da internet é lógica intrínseca da autoridade – que é controlar informações. A única garantia para manter a rede livre é a permanente mobilização dos cidadãos. A entrevista completa vem a seguir e seu áudio completo, em castelhano, pode ser escutado aqui. Num mundo que mudou muito, em pouco tempo, os meios de comunicação de massa estão se transformando ainda mais rapidamente. Qual sentido de suas transformações? Os meios de comunicação tornaram-se ao mesmo tempo globais e locais. Com a transmissão digital, podem-se recombinar meios diferentes. O que antes era uma comunicação muito local e em que havia poucos canais e poucas formas de difusão de mensagens, transformou-se numa enorme constelação que está em todo o mundo. Mas a grande transformação foi produzida nos últimos dez ou doze anos, quando começou a se difundir a comunicação horizontal. Ou seja, não mais aquela que vai de um a muitos – e sim a que vai de muitos a muitos. Com cada um emitindo e selecionando suas próprias mensagens a partir da internet. Isso abriu as fronteiras. Qualquer pessoa pode organizar seu próprio canal e suas próprias redes de comunicação. Portanto, estamos em um sistema de comunicação duplo, em que os meios de comunicação de massa já não reinam sozinhos. Surgiu o que chamamos de a “autocomunicação de massa” – a comunicação que nós mesmos selecionamos, mas que tem o potencial de chegar às massas, ou àquele grupo de pessoas que definimos em nossas redes. Em Comunicação e Poder, um de seus livros mais inspiradores, você difunde a utopia de um mundo melhor graças à livre comunicação entre as pessoas. Porém, percebemos, os ataques que têm sido lançados à liberdade na rede. Por isso, pergunto: nada parece ser tão simples, não é? As coisas não são nada simples – mas não é difícil compreender a equação. Quem tem o poder, organiza a rede – seja poder econômico, midiático, político, qualquer um. E quem tem poder deseja mantê-lo, pois é a forma de assegurar que seus próprios interesses e valores estejam melhor servidos que os dos demais, na organização da sociedade. Por isso mesmo, quem tem poder rejeita as mudanças que ameaçam seu domínio. Conservar o poder requer manter o máximo controle possível sobre a informação, e assegurar, sobretudo, que os canais de comunicação sejam verticais. Nesta lógica, alguns poucos devem controlar a comunicação dirigindo-se aos muitos que não a temos. Bem… Isto é o que está mudando fundamentalmente! Mas dizemos que não é tão fácil porque, ainda que a internet e as redes móveis permitam uma multiplicidade e uma horizontalidade da comunicação, as grandes empresas também possuem os mesmos canais. E os governos possuem uma certa capacidade – não decisiva, por sorte – de controlar e intimidar a livre circulação de ideias na internet e nos meios de comunicação móveis. Ou seja, a princípio a tecnologia permite uma abertura do mundo da comunicação, mas poderes econômicos, políticos e midiáticos seguem tentando controlá-la. O resultado de tudo isto varia segundo os momentos e os países, e depende sempre da capacidade que as pessoas têm de mobilizar-se para defender seu direito à liberdade. Poderia ser mera ilusão de ótica a sensação de que nossa capacidade de influência, e liberdade para nos informar, são agora muito maiores? Creio que é uma ótima pergunta, mas não – claramente, não. Temos inúmeros estudos mostrando que as pessoas têm muitíssimo mais capacidade de intervir no espaço da comunicação, a partir da internet, que em qualquer outro momento na história. Tanto é assim que, falando concretamente, as grandes empresas de comunicação do mundo também usam as redes sociais As barreiras de entrada no mundo da comunicação da internet diminuíram muito. A tecnologia está ao alcance de qualquer estudante formado. E o capital necessário para criar um canal no Youtube, por exemplo, é relativamente pequeno. Portanto, há centenas e centenas e centenas de alternativas, e algumas são mais sofisticadas que outros. E se o Youtube pratica a censura, ou se o Facebook controla o que se diz ou não se diz, as pessoas simplesmente mudam-se para outra rede social e abandonam o que havia. É o que aconteceu com a primeira grande rede social de comunicação. Em sua época, a AOL.com era o grande invento, a grande tecnologia. Quando a AOL tentou cortar a liberdade de expressão, simplesmente as pessoas abandonaram-na e ela praticamente acabou, em termos de rede. Então, de certo modo, para vender o que querem em termos de publicidade, em termos de obter dados sobre as pessoas, as empresas de internet têm de aceitar a liberdade de expressão. Porque é isto que as pessoas buscam: expressar-se, organizar-se e relacionar-se livremente. O mesmo com os governos. Os governos odeiam a internet. Porque é um desafio básico ao que sempre foi o fundamento de seu poder: o controle da comunicação e da informação. Os governos dizem: internet sim, mas para o que me servir. Sempre usam os mesmos pretextos: a pornografia infantil, o terrorismo – como se fossem fundamentalmente problemas da rede. Ora, são problema da sociedade. E os terroristas usam a internet, mais para propaganda, não para se organizar. É o que fazemos todos. Todos utilizamos a internet para tudo: para o bem e para o mal. E os governos odeiam que algo escape a seu controle. Mas não pode haver “um pouquinho” de internet. A rede existe ou não existe: por ela se transmite todo tipo de informações. Pode-se tentar controlar, como por exemplo na China, com meios muito potentes. Mas, mesmo assim, não conseguem realmente controlar aquilo que as pessoas creem. Como os governos fazem o controle da internet? Por análise de conteúdo, com robôs, estes sistemas automáticos que buscam palavras-chave. Para escapar do controle, uma estratégia é não dizer nenhuma das palavras-chaves que um robô pode interpretar: democracia, Tian An Men, Tibete, Taiwan, pornografia, etc… Se nenhuma palavra de uma lista for usada, se não se comete nenhuma imprudência nesse sentido, os robôs não são capazes de controlar. Existem outros sistemas mais manuais de intimidar o webmaster, a pessoa que maneja cada site, mas isto é muito mais artesanal e muito menos eficaz. Ou seja, o que os governos fazem para controlar a internet é o que sempre fez a polícia: manter uma lista de suspeitos habituais e buscar controlar os correios eletrônicos e os websites destes suspeitos. Mas há uma mudança a mais: o email deixou de ser a forma de comunicação mais importante, e mesmo mais comum, na internet. Desde julho de 2009, o número de usuários das redes sociais de comunicação, tipo Facebook e outros, é muito maior que o de email. Ou o Twitter… Twitter também… Mas ele não é o maior. E está estancado, de certo modo, porque não permite uma interação suficientemente rica, como em outras redes sociais. E sobretudo porque o bom do Twitter era que se podia (e segue sendo assim) interagir facilmente pelo celular. Mas agora entramos na época do iPhone e outros dispositivos móveis que podem entrar diretamente na internet. Pode-se estar no Facebook sem nenhum problema e é uma grande vantagem das redes sociais com maior amplitude de banda. Mas o controle de informação que os governos tinham não será transferido para o Google, por exemplo? É ele que seleciona o que se encontra e estabelece preferência de alguns sites sobre outros. Estaremos oferecendo a uma empresa privada o poder que tiramos do governo e das urnas? Bem, os governos legitimados pelas urnas possuem muitos condicionamentos e existem apenas em uma parte do mundo. O Google tem enorme poder, sobretudo tecnológico, e pode ser um veículo de controle. Mas, na batalha que vivemos no momento, ele é mais um aliado que um inimigo. Os que realmente estão tentando controlar – e os que podem controlar mais – são as empresas proprietárias dos canais de comunicação, por meio dos quais flui a rede. Porque, neste caso, o tipo de censura é muito mais direto: cortam seu acesso, a menos que haja uma intervenção judicial. Podem cortá-lo, restringi-lo, diferenciá-lo da maneira que quiserem. Por isto, é tão importante a batalha pela neutralidade da rede. Nos Estados Unidos isso é decisivo. O governo Bush caminhava para entregar as redes às grandes empresas de telecomunicação, com seus critérios. Obama fez uma campanha muito grande para preservar a neutralidade da rede, e delegou isto ao novo presidente da comissão geral de comunicações, que está tentando mantê-la. O Google tem poder, naturalmente, à medida que é uma máquina de busca que utiliza seus próprios critérios. Dizem que os algoritmos são aleatórios, mas na realidade não é assim: eles utilizam seus próprios critérios e condicionam o que buscamos e o que não buscamos. Mas o que não podem fazer é controlar o acesso, controlar a comunicação, porque quanto mais tráfego, conteúdo e atividade na internet, melhor para eles. Eles vivem de incrementar a comunicação livre na internet, e não de limitar aquilo que ela nos entrega. Google é um negócio, não uma ideologia. Quanto mais internet e mais comunicação, mais negócios para o Google. De qualquer maneira, como você disse, é absolutamente necessária uma regulação séria, em benefício do interesse público. Uma regulação de toda a comunicação, e em particular da internet. Por exemplo, na Catalunha, temos o Conselho Audiovisual, que tem uma atividade bastante séria e em função do interesse público. Estes conselhos reguladores às vezes são especialmente politizados, mas é fundamental que regulem em função do interesse público, não em função dos interesses do governo. Os meios de comunicação passaram a transmitir fatos como o funeral de Michael Jackson via Facebook. Todos compartilhavam o que viam e compartilhavam seus sentimentos diretamente. Estaríamos vivendo uma globalização dos sentimentos, maior do que a já ocorrida até agora? Sim, efetivamente. Este é um exemplo excelente. De forma menos interativa (porque não havia Facebook), ocorreu no funeral de Lady Di, como um momento de comunhão geral do lamento de milhões de pessoas no mundo. Mas eu diria que mais importante que esse exemplo é a ideia da articulação dos meios de comunicação de massa tradicionais com os novos meios de comunicação pela internet. Ou seja, estamos em um processo de convergência tecnológica e também convergência comunicativa. Vemos dois mundos diferentes: o mundo da comunicação de massas e o mundo da autocomunicação de massas, mas hoje em dia eles estão interagindo. Qualquer canal de televisão sabe que tem que contar com a interação dos meios de comunicação pela internet. Está surgindo um híbrido. Mas atenção: como a internet não é controlável, para que os meios de comunicação de massa realmente interajam com a comunicação que chega à rede, será preciso que diminuam o nível de controle em relação ao que eles próprios difundem. Isso seria uma revolução, que ainda não chegou aos meios de comunicação. O mesmo posso dizer em relação ao governos e políticos. Para que possam fazer uso eficiente da internet, precisam aceitar a autonomia dos cidadãos. Essa foi a genialidade de Obama e é difícil, pois quase nenhum político aceita liberar o sentimento dos cidadãos para que eles próprios se organizem. E mesmo Obama, desde que chegou à Casa Branca, limitou bastante o que os cidadãos podem e não podem fazer na internet. Esse é o tema: a internet é um meio de comunicação livre. Qualquer tipo de articulação com a internet – seja política, midiática ou cultural – implica renunciar a boa parte do controle vertical que os meios de comunicação exercem. Este, sim, é um processo de transformação que está acontecendo e que podemos ver no exemplo do funeral de Michael Jackson. Quem não está na internet já não existe? Na política, se alguém não está em comunicação – seja pelos meios de comunicação, ou pela internet –, não existe. As pessoas existem distantes da internet, é claro, mas limitam muito as possibilidades de relação e de informação. Os estudos mostram que, quanto mais se está na internet, mais possibilidades de relações, mais amigos, mais atividade, mais informação social e política, mais informação cultural. O internauta é um ser ativo, a ideia de que a rede afasta as pessoas do mundo é refutada pela experiência empírica. Mas eu diria que essa pergunta está começando a ficar um pouco velha. É como perguntar se existimos sem eletricidade. Sim, é claro que as pessoas podem viver felizes sem ela: em momentos na floresta, contemplando o correr do rio, lendo um livro… Por outro lado, a eletricidade é a base da civilização industrial que construímos. Temos hoje 1,7 bilhão de usuários de internet no mundo (em 1996, havia aproximadamente 40 milhões…). Uma barreira para o desenvolvimento da rede era a falta de plataformas móveis: em 2012, a comunicação interpessoal já não se dá principalmente por meio de linhas fixas, mas a partir de dispositivos móveis, como os celulares. Pois bem: o número de linhas móveis passou de 16 milhões, em 1991, para 4,7 bilhões. O planeta está praticamente conectado – inclusive os países pobres. Esta plataforma puxará uma nova etapa de expansão e desenvolvimento da internet. Significa que a rede tem, hoje, o mesmo significado que a eletricidade representou para o desenvolvimento da sociedade industrial. A pergunta, portanto, perde sentido. Não vivemos na internet, mas com ela. É uma parte essencial da nossa vida, além de uma cultura de liberdade. Se existem pessoas que não querem a internet – gente de mais idade, por exemplo, que identificamos em algumas de nossas pesquisas –, elas têm todo o direito de sustentar essa opinião. Deveríamos assegurar, por exemplo, que os serviços públicos não sejam distribuídos apenas pela rede, pois as pessoas sempre precisam ter o direito de optar por outras tecnologias. Mas insisto, é o mesmo que poder optar por não ter eletricidade. Internet, celulares, redes sociais são elementos que mudam as formas de nos relacionarmos, e também abrem um mundo novo de oportunidades, numa hora de crise. É hora de sondar as oportunidades de ocupação e negócio por meio da rede? Certamente. O que não se sustentará é o modelo de capitalismo financeiro global que tínhamos. O núcleo deste sistema derreteu. Todo o crescimento econômico dependia de uma demanda atrelada a crédito fácil, crédito com capital inventado a partir de manipulações matemáticas dos mercados financeiros. Isto acabou, e surge um reflexo de contração total da economia, que os governos tentam reparar para logo dizer “voltamos ao que era antes, ao mesmo tipo de economia”. Muitos economistas, em todo o mundo – e eu estou entre eles –, não acreditam ser possível ou viável voltar ao mesmo modelo. Não significa dizer que o capitalismo acabou, mas sim este tipo de capitalismo especulativo financeiro. A saída, dentro dos marcos da economia de mercado, não passa pelo estímulo da demanda, nem por contraí-la ainda mais – e sim por estimular um novo tipo de oferta, a produção de mais por menos. Consumir menos, com uma economia menor e mais dinâmica, com mais tempo livre, de modo que o motor da produção não seja a demanda, mas a inovação, a capacidade de produzir coisas novas. Aqui temos a internet e mais amplamente todo o mundo da cultura e da produção digital. Este é o elemento principal, sobretudo se ligado a novas formas de mercado e à aplicação das novas tecnologias informáticas ao mundo da biogenética, da investigação biomédica. Acredito que aqui está, hoje, a oportunidade de criar pequenas empresas, empreendimentos com muitos empresários jovens potenciais que têm conhecimentos, sabem e podem encontrar nichos de mercado. O problema é que, na Espanha e em toda a Europa, as instituições financeiras não aceitam trabalhar com a ideia do risco. Relacionam-se com os empreendedores com a ideia de que capital de risco é capital para o banco – e risco para o empreendedor… Creio que há uma possibilidade aberta. Se conseguíssemos superar a cultura burocrática do governo e a cultura de controle bancário – especulam com nosso dinheiro, mas não arriscam o deles – será possível começar uma economia com bases mais sãs que as que vimos cair. * Entrevista a Sergio Martin, Rádio Europa Aberta. Tradução: Daniela Frabasile e Gabriela Leite Martins. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Sergio Martin, da Rádio Europa Aberta

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