Universidades públicas: meritocracia justa ou injusta?

Ensino Superior

Universidades públicas: meritocracia justa ou injusta?


por David Santos, Daniel Chignoli e Reinaldo João Oliveira*


A USP, maior universidade do Brasil e uma das cem melhores do mundo, completou 78 anos, com uma história de contradições junto ao povo brasileiro e, principalmente, negro e pobre. A USP insiste em ignorar que São Paulo é o Estado com a maior população negra do Brasil. Cabe perguntar: quem se alegra e comemora o aniversário dessa Universidade? Quem ganhou e ganha com ela? Longe do lugar-comum de que "o rigor da meritocracia” é fundamental para o bom desempenho da universidade, e isto impede que haja negros e pobres nos campi, é preciso ir além. Deve-se perguntar o que provocou a exclusão dos negros e pobres. Será que os dirigentes da USP já refletiram que existe a meritocracia justa e a injusta? Não seria este o instrumento perverso da exclusão? Todos sabem que há negros na comunidade da USP, mas são ignorados pelos demais, invisíveis à maioria dos alunos, professores e dirigentes. Os negros e pobres são os trabalhadores da Universidade, aqueles que movem as engrenagens das inúmeras atividades — da limpeza à burocracia. São homens e mulheres que trabalham sem qualquer esperança de um dia eles ou seus filhos usufruírem da Universidade, que é pública e paga por seus impostos. A USP é mantida pela arrecadação do ICMS – um imposto que incide sobre toda compra e venda, principalmente da passagem de ônibus, do arroz, do feijão, etc., e pago por todos nós, principalmente os pobres. Ora, se todos consomem, e há muito mais pobres do que ricos, é gritante que a USP –com sua estrutura visivelmente elitizada– é mantida por quem, no atual modelo de seleção, jamais conseguirá nela estudar. Em uma frase: é uma instituição mantida majoritariamente pelos pobres, e desfrutada em grande parte pelos ricos, que não devolvem quase nada ao saírem formados. Mais de 80% dos matriculados vêm de escolas particulares, quando, no Brasil, 88% dos que terminam o ensino médio saem de escolas públicas! Mesmo sem que tudo isso esteja explícito, não é de se admirar que o pobre povo pobre ignore a USP e a classifique como "reduto dos ricos”. A população apenas ignora, retribuindo a indiferença que recebeu nestes últimos 78 anos. Porém, o povo, por intermédio da Educafro e outras entidades de articulação comunitária, precisa se fortalecer e fazer mudar esta realidade. É inadmissível que, ao lado do maior campus da USP – a Cidade Universitária – exista uma enorme favela, que nasceu e se desenvolveu paralelamente à história do campus. É inaceitável saber que os moradores tenham como única forma de adentrar naquelas avenidas e alamedas arborizadas o crachá de funcionário terceirizado da faculdade – uma forma moderna de continuar escravizando os trabalhadores das camadas mais sofridas da sociedade. É chegada a hora de a universidade pública cumprir seu papel de instituição verdadeiramente democrática e capaz de proporcionar melhores oportunidades para todos os brasileiros que pagam por ela. A USP não pode ficar no falso dilema de que mudar as regras do seu vestibular é rebaixar o nível da instituição. Ir contra a política de cotas é ir na contramão da história, visto que os cotistas negros e brancos estão concluindo seus cursos com média acadêmica igual ou superior à dos não cotistas. Os 78 anos da USP é também uma triste celebração de quase oito décadas de descaso com o povo negro e pobre de São Paulo e do Brasil. Excluído dos melhores postos de trabalho do país, de maneira deliberada, por políticas que não respeitam a diversidade étnica na contratação, como a São Paulo Fashion Week, pensadas e mantidas por políticos, os quais, outrora sentaram nos bancos de escolas, que comungam das mesmas ideias ultrapassadas. Lutamos para que a atual Reitoria e o Conselho Universitário da Universidade de São Paulo defendam estes novos paradigmas. Na celebração dos 78 anos da USP trabalhemos para que ela reescreva sua história, de modo que todos possam participar como iguais, formados por uma instituição verdadeiramente pública. Sua qualidade pública não pode ser medida só pelas verbas que entram, mas também pelas pessoas que têm ingresso garantido, sem privilégios para os eurodescendentes "bem-nascidos”. Assim a USP poderá estar repetindo a prática das grandes universidades do mundo, como Harvard, que tem programas de matrículas contemplando a diversidade étnica e geopolítica. * Frei David Santos é diretor da Educafro, Daniel Chignoli é acadêmico de Direito e Reinaldo João Oliveira é mestre em Teologia. ** Publicado originalmente no site Adital.

2010-12-23_norma-iso-de-responsabilidade-social-e-lancada-em-versao-brasileira_gg Artigo

Os novos líderes já estão mudando a educação corporativa

Um dos atributos mais importantes de uma empresa que se comporte com responsabilidade social é a realização de práticas empresariais sustentáveis. Esta gestão precisa basear-se em pelo menos dois pilares: 1) inovação de processos, produtos e serviços; e 2) desenvolvimento de novas competências. As empresas estão cada vez mais conscientes de que é preciso não apenas fazer diferente, mas fazer bem feito, pois o atual modo de produção e consumo é insustentável. Outras competências e habilidades já estão sendo buscadas pela nova geração, que tende a ser a liderança do futuro. O que empresa e profissional têm em comum nesta transformação? É o que vamos comentar agora. Nova geração, novos comportamentos Já comentamos neste espaço uma pesquisa feita pela IBM no início do ano passado, com 3.600 estudantes em 40 países, a respeito do que pensam estes jovens que ocuparão os cargos executivos no futuro. Três características foram reconhecidas por eles como decisivas para a liderança do Século 21: pensamento global – ou seja, o líder precisará ser um cidadão do mundo e responsabilizar-se pelo “outro”; sustentabilidade – entendida como respeito aos limites do planeta e busca por equilíbrio entre as atividades humanas e o meio ambiente; e integridade – no sentido de que a vida pessoal também precisa estar em equilíbrio com a vida profissional. Tais jovens adquiriram esses valores enquanto consumidores “globais”, com acesso a produtos e serviços do mundo inteiro, muitas vezes com apenas alguns toques no teclado do computador. Aprenderam sobre sustentabilidade verificando informações nos rótulos, buscando confirmação de dados na internet e constatando que os negócios muitas vezes não se responsabilizam pelas ações de suas cadeias produtivas. Por isso, têm urgência em agir e “consertar as coisas”. O agir, no entanto, não é parecido com o que conhecemos. A ambição dessa juventude é fazer tudo diferente, e melhor. Por isto, iniciam-se na vida profissional com outros valores e objetivos. Mudanças à vista As demandas desses jovens têm encontrado eco nas mudanças que as universidades e as empresas já estão promovendo em seus currículos e em seus perfis profissionais. No âmbito da academia, os cursos buscam enfatizar a pluralidade do ambiente global e dos conceitos que envolvem a liderança executiva. Os indivíduos, as empresas, os Estados e o planeta precisam de soluções novas para questões ambientais e sociais prementes. Por isto, os líderes precisam ser mais abertos ao diálogo, pautados por valores como honestidade, transparência, visão de longo prazo e respeito a todas as formas de vida. Uma das iniciativas com foco nesses valores é a Liderança Globalmente Responsável (GRLI, da sigla em inglês), da qual participam escolas de negócio e empresas em programas educacionais com esse novo perfil. A GRLI nasceu em 2004, dentro da Fundação Europeia para o Desenvolvimento de Gestão (EFMD), com apoio do Pacto Global das Nações Unidas. Começou com sete empresas e 14 escolas e hoje já tem 72 participantes. Pelo Brasil, estão a Petrobras e a Fundação Dom Cabral (FDC). Essas escolas vêm mudando sua grade curricular e fazendo com que os profissionais delas saídos levem a nova visão de compreender problemas globais e lidar com culturas diferentes. Outras escolas que são referência, como o International Institute for Management Development (IMD), na Suíça, a Harvard Business School, nos Estados Unidos, e a Business School São Paulo (BSP), no Brasil, também já estão oferecendo cursos com foco no tripé globalização, sustentabilidade e integridade. Nas empresas Para reter talentos, as empresas não estão apenas oferecendo um leque atraente de benefícios e remuneração. Elas também estão tornando mais “participativa”, por assim dizer, a carreira do profissional, ao abrir a possibilidade de que o próprio funcionário defina os objetivos que quer atingir, visando a equilibrar as ambições profissionais com a vida pessoal. A partir dos anseios individuais é que as empresas mais avançadas em gestão responsável definem as estratégias coletivas de educação corporativa e dos planos de cargos e salários. A gestão dessas áreas tornou-se, assim, ainda mais estratégica para as empresas. Está cada vez mais alto o investimento a ser feito para atrair e reter o profissional mais jovem, ambicioso e altamente conectado. Caso ele se sinta entediado com as tarefas, ou incerto a respeito de sua carreira, não pensará duas vezes para buscar outro porto seguro. O desafio, para as empresas, é oferecer um mix de bom salário associado ao “prazer de estar aqui” e a novos desafios. Por isto, é possível prever uma reviravolta não só nos cursos acadêmicos, mas também na educação corporativa e na própria gestão. Os sistemas tradicionais de ensino e de retenção e reconhecimento de talentos nas empresas parecem estar com os dias contados. * Paulo Itacarambi é vice-presidente do Instituto Ethos. ** Publicado originalmente no site Instituto Ethos.


por Paulo Itacarambi*
imagem Futuro

Nova classe média será mão de obra mais qualificada para indústria, apontam Senai e FGV

Brasília – A chamada nova classe média (com renda familiar entre R$ 1,2 mil e R$ 5,3 mil) fornecerá força de trabalho mais qualificada para o desenvolvimento industrial nos próximos anos. A expectativa é alimentada por uma análise sobre a demanda por educação profissional divulgada hoje (8), em Brasília, pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV). De acordo com a avaliação, baseada nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – pesquisas mensais de emprego (PME), de 2002 a 2010, e Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/2007) –, são os jovens da classe média que alimentam a expansão de quase 77% no número de pessoas que declararam “frequentar” ou “ter frequentado” cursos de educação profissional (qualificação de 200 até 400 horas, ensino médio técnico ou curso superior de tecnólogo), entre 2004 e 2010. Em seis anos, o percentual de quem declarou formação em educação profissional passou de 14,03% para 24,81%, segundo aponta a análise. O maior contingente é de jovens, especialmente os adolescentes de 15 anos, que representam 10% do total de pessoas que frequentam ou frequentaram educação profissional. Entre as pessoas de 15 a 29 anos que declararam frequentar a educação profissional, o maior percentual é na classe C (8%), que também aponta a maior demanda por cursos profissionalizantes na área industrial. Para o economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV, a procura dos jovens da classe C pela educação profissional indica que a ascensão do estrato na última década terá sustentabilidade. “Não é sonho de uma noite verão”, afirma. Para ele, não é possível dizer que a mobilidade é movida meramente por aumento do acesso ao crédito e maior consumo desse segmento da população. “Há claro paralelo entre a ascensão da nova classe média (ou classe C) e a profusão de carteiras de trabalho e cursos profissionalizantes”, defende. Na opinião de Rafael Lucchesi, diretor de Educação e Tecnologia do Senai, o ingresso desses jovens deverá dar “lastro” ao crescimento do setor industrial nos próximos anos. A expectativa do executivo é que os onze principais setores industriais brasileiros totalizem US$ 648 bilhões de investimento entre 2011 e 2015. O Senai promete até 2014 ampliar sua rede de escolas técnicas e cursos profissionalizantes, de 2,4 milhões de matrículas para quatro milhões. Para isto, contará com empréstimo de R$ 1,5 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Apesar da boa perspectiva, a análise dos dados aponta que mais de três quartos da população nunca frequentou educação profissionalizante, quase 70% por falta de interesse. Além disso, a pesquisa verifica que 8% dos que iniciaram algum curso profissionalizante não concluíram. A maioria porque deixou de ter interesse pelo curso no qual estavam inscritos. Entre os que concluem, mais de 37% não conseguem trabalhar na área. Os cursos profissionalizantes no Brasil são oferecidos pela rede pública, pela rede privada, pelo Senai e por organizações não governamentais. Na avaliação de Marcelo Neri, a baixa procura por cursos profissionalizantes tem a ver com a falta de informação e a má qualidade das escolas brasileiras. “A baixa qualidade da educação básica no Brasil influencia a demanda pela educação profissional”, diz o economista, que assinala que a educação profissional resulta em um ganho médio de 15%. Rafael Lucchesi lembra que cerca de nove milhões de alunos estão matriculados no ensino médio no Brasil, mas apenas um milhão faz o ensino médico técnico (complementar) e apenas seis milhões ingressam no nível superior. “Poucos países têm uma distribuição tão ruim para a matriz do trabalho”, ressalta. * Edição: Lílian Beraldo. ** Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Gilberto Costa, da Agência Brasil
Viagem ao Roroimã. Foto:  Luiz Thomas Reis Literatura

Reflexões do resguardo

[caption id="attachment_42112" align="alignleft" width="300" caption="Fotograma do filme Viagem ao Roroimã, de Luiz Thomas Reis."][/caption] Em escritos de 1957, o crítico Paulo Emílio Sales Gomes já atentava para a necessidade de resguardar o patrimônio fílmico brasileiro. Para exemplificar sua discussão, citava registros da chamada Revolta da Chibata, “bastante filmado”. “O cinegrafista (Alberto) Botelho foi a bordo do navio para filmar a revolta, sobretudo João Cândido, o almirante negro (…); não existe mais um único metro de filme registrando esses acontecimentos.” As reflexões de Paulo Emílio, que exigia a participação do poder público para fortalecer as cinematecas, vinham em razão de um trágico incidente: um incêndio no arquivo da Cinemateca Brasileira, que ele mesmo ajudou a fundar na década anterior. Mais de meio século depois, a mesma instituição abriga iniciativas que vêm ao encontro de suas preocupações. Ali nasceu há cinco anos, por exemplo, a Jornada do Cinema Silencioso, que, além de exibir produções pioneiras, aglutina pesquisadores e pensadores da memória cinematográfica. É em consequência dessas atividades, em grande parte, que surge este alentado volume de estudos. Viagem ao Cinema Silencioso do Brasil principia com um balanço que contextualiza o panorama da preservação. Em Estratégias de Sobrevivência, Carlos Roberto de Souza, pesquisador da Cinemateca e organizador da Jornada, nos introduz a publicações e estimativas para concluir que “o total da produção silenciosa brasileira sobrevivente não atinge 10% dos filmes realizados”. O livro tende à análise pontual em suas quatro seções, esboçada de início no tema de gênero pela professora Luciana Corrêa de Araújo, sobre a influência da linguagem norte-americana nas primeiras fitas mudas locais. Compara David, O Caçula, de Henry King , 1921, a Tesouro Perdido, clássico do mineiro Humberto Mauro de seis anos depois, investigação ampliada a outros exemplares, como A Filha do Advogado (1926). Nesse método segue a organizadora ao recorrer ao legado de Cornélio Pires para explorar os conceitos de “travelogue”, gênero moldado nas viagens, e cavação, termo para documentários de encomenda, usado para propaganda e pelas famílias abastadas para se verem registradas. Sheila é uma biógrafa de Mauro, nome por natureza recorrente no estudo do pioneirismo no país, assim como é Silvino Santos. Samuel Paiva relaciona o primeiro à atividade na influente revista Cinearte (1926-1942), na qual se detém em função do cinema de viagem, enquanto Eduardo Morettin se lança sobre três documentários do luso-amazonense Santos. Viagem ao Cinema Silencioso do Brasil Org. Samuel Paiva e Sheila Schwarzman Azougue Editorial, 312 páginas, R$ 42,00 * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Orlando Margarido, da Carta Capital
Cadê o aluno que tava aqui? O governo lobo mau comeu! Artigo

Governo: “educação, para que mesmo?

[caption id="attachment_42109" align="alignleft" width="300" caption="Cadê o aluno que estava aqui? O governo lobo mau comeu!"][/caption] Claudio Schamis relembra lista de promessas de Dilma e critica falta de resultados na educação. Fui consultar uma listinha de promessas feitas por Dilma. Ela data de 1º de novembro de 2010. Quando entro no quesito educação, o que vejo? Promessas. Ponto. E PT saudações. Beijos nas crianças. Uma das promessas era equipar as escolas com banda larga gratuita. Mas acredito eu que antes da banda, seja ela larga ou estreita, é preciso a escola e é preciso o professor de preferência com um salário digno da profissão. Outra promessa é, não, era, de dar prioridade à qualidade da educação. Enem que a Dilma tussa vou acreditar nisso. Quer mais uma? Construir seis mil creches e pré-escolas para nossas crianças. Ah, as crianças! Como já escrevi aqui nenhuma creche saiu do papel. E agora o novo ministro, Aloizio Mercadante, diz que meta de Dilma não pode ser cumprida. E o pior é que, segundo o ministro, o problema não é de dinheiro e sim da demora das prefeituras para executar as obras. Cadê a novidade? Cadê o governo federal exigindo e cobrando? Mais novidade? Hoje, quase quatro milhões estão fora da escola. Ou um Uruguai e mais um pouco. Desses a maioria estão no campo, em favelas e bairros muito pobres. Será então que essa seria a desculpa para tanta evasão. Não deveria. Se o homem chegou à Lua, nada deveria ser assim tão longe. Vem aí mais um capítulo da novela: Ficha Limpa e a chapa tá quente! O presidente do STF, Cezar Peluso, marcou para a próxima semana, finalmente, a votação da Lei da Ficha Limpa e se ela será válida para as eleições desse ano. Na verdade isso teria sido definido em dezembro, se não fosse o ministro José Antonio Dias Toffoli que pediu uns dias (fez um pedido de vista) a mais para pensar. Como se isso já não tivesse sido visto de todas as maneiras. Será que agora vai? Vai anotando. Mais uma tragédia. Até quando será assim? Depois da tragédia que ceifou vidas e derrubou três prédios no Rio de Janeiro, em São Paulo um prédio desaba e mata duas pessoas. E é bom que se acendam a luz amarela, a verde, a cinza, a vermelha. Todas elas para ver se iluminam bem os olhos de quem é (ir)responsável por (não) fazer as devidas verificações, para que fatos assim não sejam mais manchetes. E é bom que fiquem preocupados, pois se constatou erros de cálculo e problemas na construção do maior estádio do mundo, o Maracanã, para a Copa de 1950. E como se está construindo um novo estádio é bom que a fiscalização seja rigorosa e sem falhas. Se bem que como é algo para a Copa do Mundo, é possível que façam direito. Afinal será para inglês, francês, alemão, japonês, holandês verem. Ministra Eleonora Menicucci de Oliveira, boa sorte! Tomara que a nova ministra Eleonora, da Secretaria de Política para as Mulheres, que é uma socióloga, consiga realmente intensificar o combate à violência doméstica e de gênero. Infelizmente o grande público não fica sabendo da missa a metade do que temos por aí. De como o número de mulheres e crianças vítimas de violência doméstica é grande. Sabe-se de um caso aqui, outro acolá. Quando o caso dá sorte de sair num Jornal Nacional, ou é noticiado pelos jornais, as pessoas se chocam, ficam indignadas e depois a vida para elas segue seu fluxo. O número é cada vez mais assustador e as barbaridades que são feitas são cada vez mais aterrorizantes. O governo deve sim priorizar isso e dar mais apoio financeiro criando novos centros e aos centros já existentes, que atendem crianças vítimas de violência doméstica. E claro remunerar bem psicólogos que trabalham com sangue, suor, lágrimas, amor, crianças e um salário medíocre. Sem falar da violência contra as mulheres. Maria da Penha neles! Ministro e o Mal de Alzheimer Será que o novo ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, tem Mal de Alzheimer? Para que ele “esquecesse” de dizer para a Justiça Eleitoral que era dono de quatro empresas, duas delas inclusive com atuação na área da construção civil e incorporação de imóveis, atividades ligadas ao Ministério que ele já está comandando, que outra explicação teríamos? Apenas um malfeito de um ministro que acabou de entrar, ou uma pegadinha do Mallandro? Glu, glu, yeah, yeah!! * Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Claudio Schamis, do Opinião e Notícia
Foto: Flávio Aquistapace. Professores

“Se um professor pode ser substituído por uma máquina, é porque ele deve ser substituído”

Como o desenvolvimento emocional do sujeito contribui para sua autonomia e obtenção de conhecimento? Em sua palestra, no dia 7, no palco principal da Campus Party, o pesquisador e professor de tecnologia educacional, Sugata Mitra, deu uma aula sobre as competências do saber, a importância do reconhecimento emocional na aprendizagem, e as aplicações possíveis e ainda pouco testadas da informática no ambiente escolar. A primeira descoberta de sua pesquisa surgiu ao observar, ainda em 1999, como crianças, estudantes do ensino público, de uma comunidade pobre de Nova Délhi – Mitra é indiano – se comportavam mediante um computador instalado sugestivamente num buraco de uma parede, com acesso livre. A partir das demandas geradas pelo acesso à máquina, o pesquisador pôde verificar, entre idas e vindas, como ocorria, ao longo do tempo, a capacidade de autogestão do conhecimento, no qual as crianças não só aprendiam, mas também ensinavam umas às outras.“Quando uma criança aprende, ela ensina a mais nova. E juntas, elas aprendem mais coisas”, diz Mitra. Após a primeira iniciativa, Mitra começou a sistematizar seus estudos, replicando o experimento em diferentes favelas locais, entre 2001 e 2004. Como apoio teórico, passou a rever os ganhos e os limites da forma clássica de sala de aula, um tributo da antiguidade, em que os alunos pouco interagem entre si, enquanto o professor fala em frente à turma. Entre 2006 e 2010, Sugata chegou a uma nova síntese de sua pesquisa, ao convidar avós com tempo livre para participarem desses momentos com os netos – algo que ele designou como “nuvem de avós”. Enquanto os netos usavam as máquinas para pesquisar sobre algum desafio dado para ser completado, elas permaneciam por trás deles – uma mudança do local do educador no arranjo espacial da sala – motivando-os durante o processo, a cada nova etapa concluída. A taxa dos indicadores da pesquisa, que conferiam quão proveitoso estava sendo o processo para a aprendizagem, saltou de 30% para 50%. “Se funciona em Nova Délhi, onde as crianças crescem em meio a muitas precariedades, funciona em qualquer lugar”, constatou. De fato, ele obteve taxas semelhantes ao repetir a prática, agora em ambiente escolar, em países tão distintos como China, Uruguai, Chile, Inglaterra e Estados Unidos. Especificidades O pesquisador ressaltou, durante sua fala, quais seriam os componentes propícios a esta vivência. As crianças devem estar em grupos de amigos.“Sempre que aplico a prática, peço às crianças que se organizem por si mesmas, normalmente em grupo de quatro. É preciso garantir que não haverá uma guerra de egos entre elas.” É importante também que tenham até 12 anos de idade. “A partir dos 12 anos, elas começam a se sacanear.” As avós foram substituídas por uma pessoa jovem que tivesse vínculos efetivos com a comunidade – mas o papel era semelhante: estimular e mediar a busca pelo conhecimento. E os professores? Mitra afirma que existem os resistentes e os entusiastas. “São duas gerações diferentes. A mentalidade precisa mudar de baixo para cima. Se você fala para um pai que seu filho vai aprender sozinho, ele pergunta: ‘então, por que vou te pagar?’ Precisamos que as empresas de telecomunicações participem também: que deem a banda larga para os professores e assistam a transformação acontecer.” Os professores têm percebido que, com o computador em sala de aula, o trabalho não está ameaçado, o que muda é o enfoque. “O conhecimento está em toda parte. O Google dá respostas, não dá perguntas. A arte do professor é fazer questionamentos, e não ser um conduíte de informações. Este novo papel precisa ser ensinado aos professores”, ressalta. A primeira pergunta vinda da plateia é se a máquina substituirá o professor. Mitra foi enfático: “se um professor pode ser substituído por uma máquina, é porque ele deve ser substituído”. Meninas Sugata Mitra também ressaltou a importância da participação política da mulher na sociedade, ao defender que as mudanças sociais positivas acontecem sobretudo a partir da educação da população feminina. “Quando você muda uma menina abaixo dos 12 anos de idade, você muda uma geração inteira, porque uma garota não vai deixar que seus filhos tenham menos educação do que ela." Sugata Mitra é docente da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. * Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Flávio Aquistapace, do Portal Aprendiz
João Meirelles Filho. Foto: Divulgação Entrevista

“Sonhar a viagem é viajar”

[caption id="attachment_42086" align="alignleft" width="225" caption="João Meirelles Filho. Foto: Divulgação"][/caption] Trazer à luz a Amazônia encarcerada nos livros antigos, nos porões dos museus, nos mapas dos depósitos oficiais é a tarefa que se colocou o pesquisador João Meirelles Filho. Nos últimos anos, este paulistano – que escolheu Belém como morada –, vasculhou os mais diversos arquivos, fontes e referências em busca daquilo que fora coletado, observado e documentado pelas sucessivas levas de viajantes que se aventuraram pelo interior da floresta desde o descobrimento. O resultado desse esforço de pesquisa rendeu a Meirelles uma visão privilegiada do que foram essas expedições e seus incríveis protagonistas e uma percepção aguda de como o país lida com um dos seus mais valiosos tesouros. Quanto a nós, leitores, o prêmio se constitui em dois preciosos livros. O primeiro, de 2009, cobre as grandes expedições do período de 1500 a 1930. O segundo, Expedições à Amazônia brasileira – Século 20, chega esta semana às livrarias pelas mãos da editora Metalivros, parceira desde o primeiro trabalho. O novo livro aborda 21 viagens de exploradores contemporâneos à Amazônia e completa um quadro imprescindível para que possamos compreender esse fascinante mistério amazônico. Meirelles revela nesta entrevista o que o move em sua pesquisa e como o Brasil pode se beneficiar desse conhecimento acumulado. Boa leitura! O que o instiga tanto a ponto de o fazer pesquisar durante tanto tempo o tema das expedições? A leitura (ou sua imagética, burlesca ou não) dos viajantes, textos instigantes e deliciosos, levaram-me a perceber que muito do que eles viram, ouviram e pensaram não era do conhecimento público. Alguma coisa reverberou à época, a passagem, por exemplo, de Octavie e Henri Coudreau, ou de Paul Le Cointe pelo Pará, hoje ilustres desconhecidos. Daí a vontade de organizar um pouco essa informação. E este querer levou-me a um trabalho metódico, quase enciclopédico – para o desespero da família – de arrolar, buscar similaridades, entocar opiniões sobre isto e aquilo. É um tema fascinante, infindável. Colecionei cerca de 700 verbetes que envolvem desde intelectuais de primeira grandeza mundial, como o padre Vieira ou Lévi-Strauss, a personagens mais intuitivos que são, igualmente, ícones mundiais, como Frans Krajcberg ou Villas Boas. Como é seu processo de criação e organização do volume extraordinário de dados e imagens com que você lida? O processo é um sem cessar de leituras, buscas de referências – a maioria ausentes na internet, pois são obras de pouco interesse –, no que se refere, por exemplo, à iconografia. Para o primeiro livro, lidei com cerca de 50 fontes (entre a Rússia e os arquivos de Belém) e, de 800 imagens selecionamos, Ronaldo Graça Couto, o editor, e eu, escolhemos 242. Nesta nova obra, consultamos algo como umas 20 mil imagens. Deveras, o Século 20 conta com a fotografia, o filme, etc. E foi maravilhoso contar, por exemplo, com Claudia Andujar, ela própria escolhendo as imagens que lhe apeteciam. Difícil é construir algo que seja interessante, que procure resumir experiências tão ricas. Como, por exemplo, contar a passagem dos Villas Boas pela Amazônia, ou seja, suas próprias vidas, em algumas breves páginas e ser interessante? É um exercício de filigranas, de colar verbetes na claraboia do tempo, de apurar e depurar, dando claridade a essas vidas, pois a maioria perambula, sonâmbula, na sombra dos tempos. Alguma delas exerce sobre você um fascínio especial ou todas o tocam de alguma maneira? Você poderia descrever melhor esse seu sentimento sobre essas viagens e os viajantes? Eu me identifico com personagens que são permanentemente curiosos e que buscam a razão de tudo. Meu interesse maior é pelos anotadores, como Curt Nimuendajú, o grande etnógrafo, ou a pesquisa incessante de Claudia Andujar sobre a luz, ou de Krajcberg, sobre a forma, ou mesmo a ingenuidade de Le Cointe ou dos Codreau. Creio que há um heroísmo na vida de Thiago de Mello, que alça as palavras mais altas que as copas das sumaumeiras e as torna capítulos de um novo tempo, ou de cientistas com “c” maiúsculo, que não têm ismos nem achaques, como Helmut Sick, o grande ornitólogo, e Adolphe Ducke, o entomólogo que veio para trabalhar com Goeldi. Entre as viagens realizadas até o Século 19 e as do Século 20, o que mudou substancialmente? As novas tecnologias permitem alcançar qualquer lugar em pouquíssimo tempo. Se no início do Século 20 a Comissão Brasileira Demarcadora de Limites, do Itamarati, exigia uma centena de homens e esforços hercúleos por meses a fio, hoje um simples helicóptero é capaz de, ao transportar quatro pessoas e sua parafernália eletrônica, fazer o mesmo trabalho em poucas horas. No entanto, as cachoeiras são as mesmas, as distâncias imensamente as mesmas e, quando se trata de vencer a pé, ou pelos rios, as dificuldades se assemelham e se acumulam, estaríamos hoje em desvantagem, acostumados que somos ao motor de popa, aos tênis superespecializados, aos repelentes, aos computadores, ao mundo da energia elétrica e tantas coisas por trás das quais nos escondemos. Daí que alguns aventureiros acham que estão fazendo algo único, no entanto, nos séculos anteriores este era o único meio de vida. A família Cousteau, neste sentido é bem interessante. Hoje tenho imensa admiração pelo trabalho do filho do capitão Cousteau, Jean Michel Cousteau, e sua fundação, Ocean Futures, pois ele sabe utilizar as modernas tecnologias em prol da formação de uma consciência socioambiental e, sem perder a ternura. O que essas viagens revelam ao homem contemporâneo? Que somos ignorantes da dimensão da região que tratamos tão mal. Somos displicentes, desatentos, e até mesmo, desonestos com os povos originais, pois não os respeitamos com o carinho e a sabedoria que merecem. Os planos cíclicos de investimentos, de rasgar fissuras no meio do nada assusta-me. O conhecimento da maioria das pessoas sobre a Amazônia é insuficiente, mesmo dos amazônidas, para provocar mudanças, para provocar ação. E vejo, triste, que é pífio o acesso à informação sobre a Amazônia, seus povos e sua natureza que as pessoas em geral têm. O resultado é claro: ignorar leva a desastres sobre desastres. São civilizações inteiras que trocamos por um pouquinho de carne bovina e carvão para o churrasco do fim de semana. A Amazônia reduzida à madeira que esquenta o forno das padarias para este pãozinho-nosso-de-cada-dia –, cada vez pior, aliás. Mas são estas gentes que souberam encontrar meios de viver neste ambiente e nos legam costumes, histórias e coisas tão presentes em nossas vidas que não lhes damos o devido valor (o cacau, a borracha, a farinha de mandioca ou os saberes de como pescar, coletar açaí, etc.). E os viajantes, a maioria deles, busca compreender este processo, e muitos cedem e passam a viver a Amazônia como seu presente. Qual dos viajantes mais o fascina? Com certeza Frans Krajcberg, primeiro porque ele terá um papel preponderante em minha vida, um ponto de inflexão, irreversível. Quando eu o acompanhei em duas viagens ao norte de Mato Grosso, em 1985 e 1986, era um ingênuo administrador, de uma família de pecuaristas e colonizadores, e ele me apresentou, com suas palavras-facão e com seu olhar-bomba a barbárie do que se chama a “frente de ocupação”. O impacto foi enorme, e repercute ainda hoje; está na raiz de minha dedicação à Amazônia, de escolher Belém para viver. Naquele momento, ele com 65 e eu com 25 anos. Hoje, aos 90 anos, tem novas lições a nos dar, como a necessidade de propor à ONU o Ano Mundial da Amazônia, uma vez que o Ano Mundial das Florestas, no ano de 2011 foi um completo fracasso. Como um homem, que chega aos 90, tem planos para os próximos anos? Isto é maravilhoso, uma lição indelével, uma provocação enorme que nos desconserta a todos! Se você comandasse hoje uma expedição à Amazônia, que foco você daria? Primeiro, eu valorizaria o lado cultural, porque o debate está extremamente focado na questão ambiental. Temos que devolver às comunidades da Amazônia o muito que estes viajantes levaram, e esta expedição seria a “devolutória”, termo que tanto empregamos quando trabalhamos com comunidades tradicionais. A Amazônia está encarcerada nos livros antigos, nos porões dos museus, nos mapas dos depósitos oficiais. Mas a Amazônia viva é a que importa, e o que estes viajantes registraram é importante que seja compartilhado por aqueles descendentes e verdadeiros herdeiros da Amazônia. Esta sabedoria lhes pertence, pertence a quem se preocupa com a Amazônia, sua gente. Quem você convidaria para embarcar nessa viagem? Eu levaria sábios de diversos saberes, desde a senhora da esquina que quer aprender a cozinhar, à erveira que quer saber que ervas dão lá do outro lado do rio, o fotógrafo talentoso e curioso e, claro, cercar-me-ia dos sábios por acumulação, que muito discutiram e leram, e aprenderam, e ouviram. A lista seria grande! Mas, primeiro, seguiria os passos de Mário Palmério, que montou a sua biblioteca-barco, citado no novo livro. Convidaria aqueles que querem mudar. Mudar seus modos de ver, de ser. O preparar a expedição é uma viagem em si. Sonhar a viagem é viajar, já propunha Xavier de Maistre, no final do Século 18. Levaria os dispostos a se doarem a esta causa maior que nos une – o respeito às comunidades tradicionais – aqueles que entendem que não se pode aceitar o que se passa na região de braços cruzados. É dever deixar uma Amazônia muito melhor para a próxima e para as sete próximas gerações. * Publicado originalmente no site Fórum Amazônia Sustentável.


por Jaime Gesisky, do Fórum Amazônia Sustentável
Em troca do abatimento em suas penas, os detentos terão que ler Sociedade

Governo quer transformar presos em devoradores de livros

[caption id="attachment_42095" align="alignleft" width="270" caption="Em troca do abatimento em suas penas, os detentos terão que ler. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] Leitura dos livros da série Crepúsculo, saga de vampiros e lobisomens, vai valer a detentos alguns dias a menos na prisão. O governo federal pretende implementar, ainda no primeiro semestre deste ano, um programa de redução de pena nas quatro penitenciárias federais do Brasil, no qual o cálculo dos dias a menos atrás das grades é baseado no número de livros que um preso lê e na qualidade da resenha que o detento apresentar sobre as obras. Entre os títulos que serão disponibilizados para os presos estão desde obras clássicas da literatura universal, como Crime e Castigo, de Fiodor Dostoiévski, até livros mais, digamos, “modernos”, como a série Crepúsculo, saga de vampiros e lobisomens que é best-seller nas livrarias e sucesso de bilheteria nos cinemas. Em troca do abatimento em suas penas, os detentos das penitenciárias brasileiras de segurança máxima poderão ler ainda livros como O Código Da Vinci, 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer e De Malas Prontas, de Danuza Leão. O programa, orçado em R$ 34,17 mil, será implementado nas penitenciárias federais de Porto Velho, em Rondônia, de Mossoró, no Rio Grande do Norte, de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, e de Catanduvas, no Paraná. Duas dessas penitenciárias já concedem o benefício da redução de pena para presos-leitores: Catanduvas e Campo Grande. Cinco dias de liberdade por uma boa resenha Em Catanduvas, o detento abate quatro dias da sua pena se conseguir ler um livro e apresentar uma resenha sobre a obra em até 12 dias. Caso a resenha seja considerada boa por uma comissão avaliadora, ganha um dia adicional. Na penitenciária de Campo Grande, o cálculo é de três dias de redução de pena para cada livro lido e resenhado no prazo de 20 dias. A avaliação é feita por um juiz federal. Esta não é a primeira tentativa do governo federal de transformar os presos do país em ávidos leitores. Em junho de 2010, começou a vigorar nas quatro penitenciárias federais o programa Pontos de Leitura, uma parceria da Unesco com os Ministérios da Justiça, da Educação e do Desenvolvimento Agrário, com um catálogo de 650 títulos à disposição dos apenados. Um dos presos mais famosos do país, o traficante de drogas Fernandinho Beira-Mar, já passou pelas penitenciárias de Catanduvas e Campo Grande, e relatos dos agentes penitenciários dão conta de que ele é um leitor voraz. Fernandinho Beira-Mar, o leitor O traficante já teria lido best-sellers modernos, como O Caçador de Pipas, e antigos, como A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Quando chegou a Mossoró, onde está preso atualmente, Fernandinho Beira-Mar tratou de se inscrever no projeto Filosofarte, desenvolvido em parceria entre a penitenciária e a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, mediante o qual, para cada livro comprovadamente lido, o preso ganhava três dias de redução de pena. Ganhava, porque o programa foi encerrado em dezembro. Quando começar o outro programa, o do governo federal, Beira-Mar poderá voltar à rotina de bagagem literária maior, pena menor. Entretanto, por mais que devore livros dos mais variados tipos, ele não conseguirá sair da cadeia por meio da literatura. Uma regra do programa prevê que um preso só poderá abater 48 dias de sua pena anualmente. Condenado a nada menos do que 120 anos de cadeia, Beira-Mar, que tem 44 anos de idade e está preso há dez, conseguiria reduzir sua pena em apenas dois anos e meio se, por exemplo, lesse sem parar pelas próximas duas décadas. O que ele pode comemorar é sua média de cinco livros lidos por semana, enquanto a média de leitura dos brasileiros em geral é de 1,3 livro por ano. * Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Hugo Souza, do Opinião e Notícia
professora Professores

Educação nas mídias locais: desvalorização dos professores

A educação é uma área que desperta muitos interesses – e não me refiro ao interesse dos pais por verem seus filhos e filhas escolarizados(as). Na grande mídia, não se poupa matérias nem reportagens para se difundir os interesses de grandes grupos que também atuam no setor educacional. A visão de educação por eles difundida é extremamente utilitarista e equivocada e, mesmo sendo hegemônica, não se trata da única. Felizmente, ideias que dificilmente teriam espaço nessa grande mídia dispõem da internet para a difusão de peças como a entrevista, realizada com Miguel Sanches Neto, pelo Jornal da Manhã. O entrevistado, além de professor universitário na Universidade Estadual de Ponta Grossa, nos últimos anos vem firmando um nome respeitável na literatura brasileira. Para Sanches Neto, nunca se deu importância à educação como no momento em que estamos vivendo. O que não significa em nosso país ela ser prioridade, ao contrário de atividades que definem a personalidade do brasileiro como “ir ao bar, jogar futebol, carnaval”. Um elemento essencial, na visão do autor, é a valorização do professor. “A condição do professor no Brasil é quase uma condição de pária social. Toda vez que você fala em professor, você fala de um indivíduo sofrido, das más condições de trabalho, de baixos salários, de atraso de salário, do desrespeito que ele sofre na sala de aula. Quando um grupo de alunos desrespeita um professor na sala de aula, não é que os alunos não sejam educados, não é que eles não gostem do professor; os alunos refletem o olhar que a comunidade tem do professor. (...) Estão dizendo (...) o que a sociedade pensa sobre ele.” Uma saga literária A afirmação de Sanches Neto é correta; a profissão não tem valor em nossa sociedade. Outro elemento que chama atenção na entrevista “é que a escola tem que ser um lugar mais atraente. Vivemos a era do entretenimento, seja nos jogos eletrônicos, seja na televisão, e tudo isto tem um poder muito grande para fisgar a atenção dos jovens. Enquanto isso, a escola funciona no velho modelo, como um depósito de alunos entediados. No geral, é um lugar materialmente precário, feio, que não tem nenhum outro atrativo a não ser aquela pessoa que vai lá passar o conteúdo”. Nem sempre os alunos são apenas entediados; por vezes também são violentos tornando os professores vítimas de maus tratos físicos. Sanches Neto também toca numa questão triste ao afirmar que “boa parte dos professores de literatura não é leitor”. Infelizmente, é verdade e não vale apenas para a literatura. Incentivado pelo entrevistador, o escritor prossegue até dizer que o que vai afirmar é polêmico: “eu acredito que para ser professor de literatura você não precisa ser formado em Letras. Precisa, antes de tudo, ser leitor. Aliás, não precisa ter nenhuma formação universitária. A principal ferramenta didática para formar um leitor literário – aquele que lê romance, crônica, poesia – é o entusiasmo pela leitura. Não é uma ferramenta técnica, é sangue correndo nas veias em um outro ritmo, é o desejo incontido de comunicar um prazer conquistado. E qualquer ser humano, qualquer profissional, qualquer pessoa alfabetizada que leia, e que tenha esta chama literária, pode ser um grande incentivador da leitura, um grande formador de leitores”. Certamente, a declaração acima pode desagradar muitos professores de Letras, inclusive colegas do entrevistado, tendo em vista que se trata também de um professor acadêmico. Mas não deixa de fazer algum sentido, muito embora seja uma punhalada naquilo que talvez seja uma das únicas coisas que os professores pensam possuir: o seu saber, ou fazer aquilo para que foi treinado. A afirmação do autor, neste sentido, põe em evidência a encruzilhada em que os professores se encontram: profissionais desvalorizados, cujas práticas são desacreditadas mesmo por aqueles que os defendem. Enfim, sujeitos dignos de uma saga literária. * José Alexandre da Silva é professor de história e mestrando em educação, de Ponta Grossa, Paraná. ** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.


por José Alexandre da Silva*
01 Entrevista

“Fechamento de escolas é atentado às comunidades rurais”

Dados do censo escolar do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), do Ministério da Educação (MEC), registram que 37.776 estabelecimentos de ensino rurais foram fechados nos últimos dez anos em todo o país. Para o professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Salomão Hage, a garantia constitucional do direito à educação foi substituída pela lógica da relação custo-benefício pelo poder público. "As políticas públicas educacionais, há certo tempo, são orientadas pela relação custo-benefício, na perspectiva neoliberal. Os gestores públicos hoje são desafiados a apresentar cada vez mais resultados com cada vez menos financiamento”, afirma. Hage acredita que esta é uma mágica difícil de materializar. "Como você pode atender mais, oferecer melhor qualidade, contemplar a diversidade em um país em histórica situação de negação de direito, se o orçamento e o investimento cada vez diminuem mais?”, questiona. Para ele, a associação de desenvolvimento ao meio urbano é usada para justificar o fechamento das escolas no meio rural. "O próprio poder público olha para esse processo de territorialização das populações do campo e rotula de disperso. Se está disperso, no sentido de estarem distribuídas ao longo do território, e se pode reuni-las, gastará menos de acordo com suas referências de qualidade. Assim começa o desenvolvimento das políticas de nucleação que, às vezes, não são de nucleação, mas de polarização”, critica. Essa política desrespeita o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que indica que os educandos devem ser atendidos nas suas próprias comunidades. "As diretrizes operacionais para a educação básica no campo fortalecem essa ideia da necessidade de a escola atender as crianças e os adolescentes, prioritariamente, na sua comunidade”, sustenta. Leia entrevista feita pela Página do MST com Salomão Hage, coordenador do grupo que estuda educação no campo na Amazônia, e que integra a coordenação do Fórum Paraense de Educação no Campo. Como você avalia o fechamento de escolas por Estados e municípios? As políticas públicas educacionais, há certo tempo, vêm sendo orientadas pela relação custo-benefício, por conta da perspectiva neoliberal. Os gestores públicos hoje são desafiados a apresentar cada vez mais resultados com cada vez menos financiamento. Isto é uma mágica difícil de se materializar. Como você pode atender mais, oferecer melhor qualidade, contemplar a diversidade, em um país em histórica situação de negação de direito, se o orçamento e o investimento cada vez diminuem mais? O resultado tem sido a aplicação de políticas educacionais que caminham no contraponto das demandas que os movimentos sociais do campo e da cidade, dos educadores, das universidades colocam como referência para a educação. Como essa relação custo-benefício afeta as escolas do meio rural? O Estatuto da Criança e do Adolescente indica que as crianças devem ser atendidas nas suas próprias comunidades. As diretrizes operacionais e complementares para a educação básica no campo fortalecem essa ideia da necessidade de a escola atender as crianças e os adolescentes, prioritariamente, na sua comunidade. Isto significa o acesso pela comunidade aos conhecimentos historicamente produzidos e, em grande parte, as escolas são o único equipamento público existente. Por isto, representam a presença do Estado naquela localidade. Onde a escola está presente, há uma movimentação da infância, da adolescência. A escola é espaço de reunião, de atividades culturais da comunidade, de discussão coletiva. Qual o impacto da falta de escolas para crianças do meio rural, que vão estudar nas cidades? As comunidades rurais em geral, estão distribuídas territorialmente de acordo com as demandas e as necessidades que as populações têm de sobrevivência, de trabalho, de relação que se estabelece com a terra, com a água, e elas estão presentes há séculos. Há um processo de desenvolvimento sustentável a partir do processo de territorialização e desenvolvimento destas localidades. Na medida em que o gestor é demandado para o atendimento – e não é um atendimento qualquer –, a gestão pública cria alternativas pautadas por essa questão de custo-benefício, que vai em sentido contrário às demandas e necessidades do processo de territorialização desenvolvido. O princípio também é inspirado por uma perspectiva "urbanocêntrica". Esse "desenvolvimento” é pautado na perspectiva do campo para a cidade, causando um processo de expulsão do campo, na ideia de que se eu concentro as pessoas posso atender mais, utilizando menos recursos. Uma coisa é atender 300 escolas distribuídas por todo o campo brasileiro, outra coisa é atender 20 escolas com as pessoas concentradas onde você não teria gastos com transporte, deslocamento e um conjunto de outras demandas para atender. Como o Estado age nessa situação? O próprio poder público olha para esse processo de territorialização das populações do campo e rotula de disperso. Se está disperso, no sentido de estarem distribuídas ao longo do território, e se pode reuni-las, gastará menos de acordo com suas referências de qualidade. Assim começa o desenvolvimento das políticas de nucleação que, às vezes, não é de nucleação, mas de polarização. Quando se aumenta o transporte escolar, você fecha escolas em comunidades mais distantes e reúne em comunidades rurais maiores ou traz para a sede do município. É essa perspectiva quantitativa da relação custo-benefício, a partir da perspectiva urbanocêntrica, que é aplicada pela gestão pública. Há ainda uma aceitação da sociedade, porque conseguem demonstrar que, por meio da oferta do transporte escolar, atendem toda a demanda e em todos os níveis. Isto acontece porque há uma compreensão de que a cidade é o lugar do desenvolvimento, que consolida como natural esse movimento das pessoas se deslocarem do campo para a cidade. O fechamento das escolas do campo pelo poder público segue esses princípios? O fechamento das escolas é um atentado às comunidades rurais com o discurso de melhoria, ampliação e aumento da escolaridade. Só que não há lugar para todo mundo viver na cidade, no lado urbano. A população que vive nas cidades não vive essas promessas do desenvolvimento que a perspectiva urbanocêntrica apresenta. Quem vive bem na cidade? Quem vive no centro e quem tem um emprego significativo? A grande maioria vive muito mal na cidade, vive pior que as pessoas que vivem no campo. Nos últimos anos, foram fechadas mais de 30 mil escolas. Se a gente não abrir o olho, este número aumenta. Esta é uma luta que precisa unir todos os setores. Estamos na luta pelo Plano Nacional de Educação. O que nos une são as referências de qualidade da educação, a necessidade de um financiamento suficiente, a valorização e a formação dos profissionais de educação. Há uma luta pelos 10% do Produto Interno Bruto para a educação que cobra uma condição para desenvolver as escolas do campo e da cidade. No entanto, há demandas especificas do campo: apenas 30% das crianças são atendidas em nível de educação infantil no campo, segundo números do MEC. Com a emenda constitucional 59, conseguimos que até 2016 o ensino será obrigatório dos quatro aos 17 anos. Como vamos atender as crianças menores, cujas mães trabalham no campo? Se a lógica é investir em transporte e deslocamento, como vamos fazer com as crianças de zero a cinco anos? O discurso de que estão dispersas é uma forma pejorativa de tratar a territorialização das populações do campo, que se organizam de acordo com suas necessidades e com as relações que estabelecem com a floresta, com a terra, com a água. Não se pode simplesmente olhar para isso e dizer que é disperso. Qual a sua avaliação das políticas públicas para a educação do campo, em nível nacional, nos últimos dez anos? Desde o final da década de 1990, mais especificamente com a realização das conferências nacionais de educação no campo, com a criação e o fortalecimento de uma articulação nacional, que combina a participação dos movimentos sociais, universidades e setores do poder público voltados para a questão da agricultura familiar e da Reforma Agrária, a gente tem dado passos significativos no sentido de pensar o campo brasileiro a partir da sua diversidade, demandas e necessidades, dentro da disputa política por outro projeto de sociedade. O que avançou nesse processo? O fortalecimento desse movimento foi capaz de fazer com que o MEC criasse, dentro da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade e Inclusão (Secadi), uma coordenação de educação no campo. A partir dela, foram criados alguns programas – como o Projovem Campo, o Saberes da Terra, o Procampo licenciatura plena e mesmo o Escola Ativa (que não teve uma discussão mais sistemática com o conjunto dos movimentos) – que começaram a provocar um certo movimento dentro da formação do educador, no âmbito da formação da prática educativa em todos os níveis de faixa etária. Além desses, houve avanços no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), que foi criado da discussão entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Incra. Há um protagonismo desse movimento que se desenvolveu de modo a mostrar que os sujeitos do campo também são sujeitos de direito e as políticas públicas precisam atender as suas necessidades. Vivemos um momento de fortalecimento dessa consciência da necessidade do atendimento e da necessidade de demarcar as especificidades dos sujeitos do campo. Com isso, consolida-se a ideia de que o campo tem como contribuir com esse projeto de desenvolvimento. E que, sem o campo, o desenvolvimento pode não resultar em uma proposta significativa. Qual a reação à maior participação dos movimentos sociais? Esse processo de protagonismo tem despertado um desconforto naqueles que têm um projeto diferenciado para o campo e para a sociedade brasileira. Enquanto os movimentos fortalecem os modos de produção familiar no campo e as lutas camponesas pela Reforma Agrária, o agronegócio também está em franca expansão com um significativo financiamento, que entra em contradição com esse avanço que o movimento social vem desenvolvendo. Insatisfação essa que, historicamente, foi construída na representação social que os povos do campo seriam atrasados e a agricultura familiar um projeto de fome, que não tem como contribuir para o desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o projeto do modo de produção familiar se apresenta como uma alternativa viável para o desenvolvimento com base na sustentabilidade, na economia solidária e nos princípios de educação crítica e transformadora. Essas disputas de hegemonias começam a fluir e os ataques vêm da mídia, das grandes corporações e, essencialmente, de instituições que, embora públicas, são direcionadas pela perspectiva privatista, patrimonialista. Quanto mais avança, maior a reação desses setores? É isso que a gente tem vivido de forma mais intensa nos governos Lula e Dilma. No governo Lula, conseguimos avançar mais no diálogo entre os movimentos sociais, as universidades e o setor público, no sentido de apresentar editais, os programas, de formular legislações que pudessem reconhecer esse outro projeto, essa outra intencionalidade. Projetos promovidos durante o governo Lula foram se ampliando, até que, com as reações, começaram a sofrer e ter a continuidade comprometida. Embora o Pronera estivesse assegurado com o decreto, virou política pública. Outros programas, com o próprio Procampo, estão ameaçados de serem substituídos pelo Pronacampo. Esse novo programa está sendo construído sem o diálogo com os movimentos sociais e com as universidades. E no que a educação contribui para essa disputa de modelo de sociedade? A educação conseguiu estimular a relação de movimentos sociais, universidades, setores do poder público mais alinhados com esse outro projeto de sociedade e de educação, na relação direta entre educação e trabalho, educação e desenvolvimento, na formulação de outro projeto de sociedade. Na medida em que isso se consolida e se apresenta como uma proposta viável, que atende às necessidades da maioria, os blocos hegemônicos – que se orientam por outra perspectiva, por uma sociedade excludente, elitista e discriminatória – reagem em todos os sentidos para deslegitimar esse projeto. Esses resultados são suficientes? Essa situação de negação de direitos, não só para o campo, mas também para a população que mora nas periferias das grandes cidades, para as classes populares da sociedade brasileira, é histórica. Tem pelo menos cinco séculos de existência. Não seriam dez, 12 ou 20 anos de protagonismo e tentativa de redimensionar o atendimento educacional que seriam suficientes para superar os níveis de pobreza da sociedade, que em sua grande maioria está no campo. A precarização do campo data desde o inicio do Brasil enquanto nação, mas esse protagonismo tem se fortalecido com essa nova articulação. Mas há reação com a criminalização dos movimentos sociais, que são acusados de receber dinheiro dos órgãos públicos para fortalecer suas organizações. E no que essa falta de diálogo e participação dos movimentos sociais na construção de novas políticas para a educação pode significar? A falta de diálogo pode significar a não continuidade dos programas desenvolvidos como resultado dessa articulação entre os movimentos sociais e o poder público. Poderá significar um afastamento maior do MEC, da Secadi e da própria coordenação de educação no campo. Na medida em que se constrói novos programas e novas diretrizes sem a interlocução com os movimentos sociais e as universidades, esse afastamento tende a se fortalecer. Pode se configurar num programa que não atenda às necessidades e demandas. * Publicado originalmente no site Página do MST retirado do site Adital.


por Mayrá Lima, da Página do MST
linguistics Língua Portuguesa

Linguistas versus gramáticos: o jeito certo de escrever

Os estereótipos são que os gramáticos defendem o português correto, formal, e que os linguistas defendem todas as variantes. Minha impressão pessoal é que o predicado “defensor” até pode ser aplicado ao gramático, mas é incorretamente aplicado ao linguista. As principais diferenças entre os dois grupos, ou entre os dois grupos de teorias (sem esgotá-las), considerados diversos critérios, são apresentados a seguir. Quanto ao corpus – Os gramáticos se baseiam em corpora escritos; dizem que seu corpus é literário, mas esta é mais uma jogada do que um fundamento; os “exemplos” poderiam vir dos jornais ou das revistas semanais. Haveria “erros”? Mais ou menos tantos quantos se encontram na literatura, convertidos em exceções. Os linguistas privilegiam os dados orais, o que não quer dizer que sempre gravaram falas; muitos seguiram seu ouvido ou sua avaliação pessoal; a querela da gramaticalidade é o melhor exemplo. Lidam mais com fonemas do que com letras; levam em conta construções que não se encontram tipicamente em textos escritos. Ou seja: linguistas e gramáticos divergem sobre o que é – ou o que pertence a – uma língua. Apelando para uma analogia, é como se alguns biólogos incluíssem e outros excluíssem os animais “nojentos”. Quanto a teorias e métodos – Para os gramáticos, a autoridade dos escritores é um critério para aceitar construções (e até exceções). Para os linguistas, o critério para aceitar construções são os dados; se um fato ocorre sistematicamente, pertence à língua e deve ser descrito pela gramática. Pronúncias como “paiaço” e “muié”; concordâncias como “tu vai” e “os menino”, regências como “assistir o jogo” e “obedecer as regras”, etc. são exemplos de pontos de discordância. Quanto à explicitude e coerência das análises – Gramáticas mais exemplificam do que analisam; são menos coerentes. Por exemplo, uma definição de sujeito pode não se aplicar a muitas construções sem que isto seja visto como um problema. As gramáticas não se preocupam em indicar o sujeito de uma interrogativa ou de uma imperativa depois de defini-lo como “o termo sobre o qual se declara” alguma coisa; ou em dizer que “a casa” é sujeito em “A casa tem três quartos” depois de definir sujeito como o que pratica ou sofre uma ação. Quanto às controvérsias – Gramáticos, eventualmente, discordam entre si, mas raramente se lê em uma gramática a crítica explícita de outra. Entre os linguistas, ao contrário, há verdadeiras polêmicas, ora devidas à preferência por uma ou outra teoria (formalistas e funcionalistas, por exemplo), ora devidas à preferência por uma ou por outra análise do mesmo fato (por exemplo, sobre a chamada “passiva sintética”). Quanto aos erros – Gramáticos consideram erros as variantes não “formais” ou não “padrões”; linguistas, não. Um bom exemplo é o caso da colocação dos pronomes. Ainda há gramáticas que consideram erradas construções como “me dá um dinheiro”. Haveria uma regra segundo a qual não se pode começar oração com pronome oblíquo. Algumas, como a de Cunha e Cintra, “aceitam” a colocação de pronomes à brasileira, mas em capítulo à parte, como se pedissem desculpas ao leitor (apesar disso, todos os exames que incluem questões gramaticais seguem as regras portuguesas; a culpa, claro, não é dos gramáticos). Linguistas consideram erros apenas construções que não são comuns em nenhuma comunidade de falantes. Numa frase como “tomei dois caipirrinhas”, um linguista detectará dois erros: um de concordância (duas) e a presença de um “r” que não deveria ocorrer (isto é, que um falante nativo do português não pronunciaria nessa palavra). E explica o fato como interferência de uma língua em outra: falantes que aprendem uma segunda língua cometem frequentemente erros desse tipo – muitos estudantes brasileiros de inglês dizem (tchitcher) em vez de (thitcher), porque seu dialeto transforma o “t” diante de “i” em “tch”, e transferem essa regra para o inglês, etc. Ainda quanto aos erros – Gramáticos consideram erros sociais como se fossem estruturais. Por exemplo: a variação de “l” com “r” em palavras como “flamengo/framengo” (tal “troca” nunca ocorre em começo de sílaba!!!) é parte de um processo histórico que derivou, entre outros casos, em “praia” ou “prata” (compare com “plaga” e com o espanhol “plata”). Tais pronúncias são explicáveis e previsíveis estruturalmente (e um linguista não tem dor de ouvido ao ouvi-las). Elas são socialmente estigmatizadas (em geral, caracterizam a fala popular ou rural). É um erro comparável a um de etiqueta ou de moda. Dizer que é um erro (em língua) equivale a dizer que uma saia curta é um erro no campo da moda (ou em moralidade!). É uma avaliação social, não linguística; às vezes, alguém diz que o som “fra” é horrível, mas ninguém o acha horrível em “fraco” ou em “fraque”. No entanto, trata-se do mesmo som, e no mesmo contexto... Algumas comparações – A diferença entre linguistas e gramáticos é análoga à diferença entre antropólogos e missionários (um quer conhecer, outro quer converter) ou entre botânicos e paisagistas (um estuda as plantas, outro seleciona as “elegantes” – um bom caso de ideologias em confronto). Uma terceira comparação: no campo da moda, há os estudiosos das roupas (na história) e os que emitem juízos – em programas de TV – sobre o que é elegante ou cafona. Observe-se que há programas de TV e colunas de jornal deste último tipo também sobre língua... Uma nota final – Muito frequentemente, os defensores das gramáticas não as conhecem; só conhecem os manuais de redação e as listas de erros e fazem de conta que os dois tipos de obra são iguais. Os manuais de redação obedecem a políticas de escrita; de fato, a políticas de edição. Não substituem gramáticas, cuja função é explicar uma língua – e, eventualmente, ajudar a situá-la no espaço ideológico da nacionalidade, como um trunfo espacial. Ia esquecendo: os gramáticos são mais conhecidos (pelo menos, é o que se pensa); linguistas ainda provocam perguntas do tipo “o que você faz?” ou “quantas línguas você fala?”, um pouco como os que estudam gens ou neutrinos. * Sírio Possenti é professor do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas. ** Publicado originalmente no Ciência Hoje On-Line e retirado do site Observatório da Imprensa.


por Sírio Possenti*

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