Falta interatividade

Entrevista

Falta interatividade


por Redação Carta Escola


[caption id="attachment_36995" align="alignleft" width="211" caption="Para sociólogo Marco Silva, redes pública e privada falham em não pensar a tecnologia dentro das práticas docentes. Foto: Marcelo Carnaval"][/caption] A notícia de que o Ministério da Educação vai distribuir tablets, computadores pessoais portáteis do tipo prancheta, reacendeu a discussão a respeito da invasão das novas tecnologias no ambiente educacional brasileiro. O objetivo do novo programa, que deve entrar em vigor em 2012, segundo o ministro Fernando Haddad, é universalizar o acesso dos alunos à tecnologia. Em paralelo aos esforços do MEC, persiste um abismo entre a chegada dos aparelhos às escolas e a sua efetiva utilização pelos docentes. Uma recente pesquisa, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil com 1.541 professores de 497 escolas de todas as regiões do país, revelou que 64% dos professores sentem que os alunos dominam melhor as ferramentas do que eles. Outros 24% afirmam que não sabem o suficiente para usar a máquina na aula. Sociólogo e doutor em Educação, o professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Marco Silva, 56 anos, discute com Carta na Escola a presença dos computadores e tablets nas escolas. Nesta entrevista, o autor do livro Sala de Aula Interativa critica políticas governamentais como o programa Um Computador por Aluno e questiona a inexistência de uma “injeção de ânimo financeiro” para o docente aprender a utilizar novas tecnologias. Silva também elenca outros entraves: a baixa velocidade da banda larga, a falta de formação efetiva dos docentes e a inexistência de um profissional capacitado para fazê-la. Carta na Escola: Levantamento do Comitê Gestor da Internet do Brasil revelou que os computadores estão em praticamente todas as escolas públicas brasileiras, com 90% deles conectados à internet. Entretanto, a mesma pesquisa revelou que o professor ainda não se sente preparado para utilizar a tecnologia em sala de aula. Quais são as razões desta contradição? Marco Silva: A resposta é muito simples. Há uma política de inclusão de computadores nas escolas, mas não há política de formação de professores para seu uso. Os programas de inclusão dos computadores das escolas do governo cometem esse grande erro. Nas particulares ocorre o mesmo. As pessoas acreditam que basta colocar o computador na escola para que ele imediatamente passe a interferir na mudança curricular. Não é suficiente colocar o computador num laboratório para que o professor possa incluí-lo em sua prática docente. O computador pode interferir profundamente no conceito de currículo, que está muito centrado no professor. Com o computador, a postura docente se tornará mais flexível, no sentido de os alunos ganharem mais participação e importância no processo docência-aprendizagem. Se o professor não tem uma formação adequada para o uso do computador, ele ficará alheio a essa possibilidade e o computador ficará, lamentavelmente, como já está, no laboratório, separado da prática docente. CE: Como se deu a implementação do programa Um Computador por Aluno? Os resultados foram condizentes com a expectativa do lançamento? MS: Não. Esse projeto nunca foi adiante. Ele aconteceu em um ou outro lugar. Primeiro, houve grande expectativa em relação ao computador custar R$ 500. As empresas que negociavam o computador nunca conseguiram efetivar esse valor. A segunda impossibilidade foi de que o computador chegou à escola, mas ela não sabia muito bem o que fazer com ele. Isso foi constatado em uma pesquisa na Uerj realizada pela professora Edneia Santos. Quando os computadores chegaram às escolas cariocas, uma das docentes disse: “O que eu vou fazer com essa caixa vazia?”. A professora imaginava que o computador chegaria como um livro ou apostila, cheio de conteúdo para ser aplicado e de informações para o aluno trabalhar. Na verdade, ela teria de incluir conteúdos diversos. Essa foi outra falha do governo: deveria oferecer o computador, formar o professor para seu uso integrado ao currículo escolar e, ao mesmo tempo, ensiná-lo a “encher” aquela máquina com conteúdos importantes. CE: O ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou que vai distribuir tablets em escolas públicas. Estes equipamentos vão ajudar no processo educacional ou são mais um produto tecnológico da moda, como foi o notebook? MS: O tablet é muito mais prático, barato e fácil de ser utilizado do que o computador. Ele rompe com o laboratório de informática, que fica separado da sala de aula, o que, às vezes, impede os professores de se deslocarem com uma turma de 40 alunos. A presença do tablet pode superar essas dificuldades. Mas continuo insistindo no mesmo problema inicial: não adianta chegar o tablet se permanecer o erro de não preparar o professor para usá-lo. CE: Quais os desafios para o professor formado no modelo em que ele era praticamente o único detentor do saber diante de alunos que dominam ferramentas de busca como o Google ou a Wikipedia? MS: O conceito de docência será o primeiro a ser questionado, uma vez que o computador, por distinção, é uma máquina interativa, ainda mais quando vinculado à web e às redes sociais. Ele é uma máquina de colaboração, uma máquina de autoria, uma máquina de inteligência coletiva. E o professor não está acostumado a trabalhar com essas posturas. O currículo é muito centrado em sua autoria: docente é o detentor do saber e transmite esse pacote de informação. Esta lógica está estruturada em concordância com a lógica dos meios (de comunicação) de massa, ou seja, a televisão, os impressos, o quadro-negro e até mesmo o PowerPoint. O computador tem uma lógica diferenciada, que supõe a autoria dos seus usuários. Isto tudo quebra ou questiona uma postura professoral tradicional. CE: Que tipo de planejamento e formação o professor pode buscar, enquanto espera por essa formação do governo? MS: É muito difícil o sujeito solitariamente correr atrás do prejuízo. É preciso que haja um projeto de formação continuada, bem estruturado, para que ocorra de fato. Porque, muitas vezes, o projeto se inicia, mas não continua. Para mudar mentalidades e práticas, não basta uma palestrazinha de fim de semana ou levar o professor uma vez por semana para o laboratório: é preciso adotar posturas interativas, colaborativas. O mais curioso dessa história é que os clássicos teóricos da educação, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Vigotski, todos já acionavam o professor para posturas democráticas, participativas, dialógicas. Estas posturas é que precisam ser desenvolvidas com o computador. É necessário mudar essa prática milenar de ensino unidirecional, pela qual o professor não pode ser responsabilizado. O livro, a tevê e o rádio são unidirecionais – o professor respirou essa lógica durante décadas, por isso a formação terá de ser profunda e significativa. Será preciso um engajamento continuado, com professores bem preparados, para formá-los, e não treiná-los. CE: Isto não onera ainda mais a carga horária do professor? MS: Com certeza. Você não consegue tirar o professor para a formação dentro do cotidiano sufocante em que ele está. O professor muitas vezes trabalha em três turnos porque com um só ele não sobrevive. Vive nos engarrafamentos, estressado, com muitos alunos por sala, então é preciso que haja um plus no seu contracheque, uma injeção de ânimo financeiro. Por outro lado, é preciso uma tabela de opções de horários para que ele possa, de fato, ter flexibilidade na carga horária e atue em sua formação no cotidiano. Esses encontros de formação também precisam ser na escola – não adianta convidar o professor para grandes deslocamentos.  CE: Que tipo de profissional pode realizar essa formação? MS: Esse formador raramente existe. Aqui você de fato vai bater com a cabeça em uma grande parede, porque não existem os formadores de formadores. O formador, em geral, não passa de um técnico de informática. Não basta chamar um rapazinho que entenda de tablets para fazer a formação. O grande desafio é articular o tablet e o computador com a mudança curricular e comunicacional em sala de aula. Os formadores são técnicos, não sabem discutir modificações curriculares, não sabem discutir teoria da comunicação, necessária para questionar a unidirecionalidade. Raros são aqueles formadores com capacidade para mexer com isso. CE: É preciso formar o formador? MS: É preciso formar o formador. O desafio é grande. Comprar o computador é fácil, o governo tem dinheiro para fazer isso. Mas é a parte mais simples do processo. O mais difícil é formar o formador e o formador formar o professor. E é exatamente aí que nada ou muito pouco se faz. Quando se faz, é malfeito. CE: A posse de equipamentos de alto valor agregado, como o próprio tablet, pode elevar a autoestima do aluno de escola pública? Isto pode ter efeito positivo no rendimento em sala de aula? MS: Sem dúvidas. O lamentável é que o aluno fica operando o tablet nos seus interesses, nas redes sociais, nos jogos online, nas suas curiosidades particulares. O desafio é motivá-lo para as coisas próprias do currículo escolar. CE: Não basta apenas entregar o tablet para o aluno. MS: Sim, se você entregar o tablet, para onde ele vai? Para o Facebook, para o Orkut e para os games. O aluno não tem outro atrativo agregado à máquina. É preciso também fazer educação com o tablet, não só diversão. CE: O novo Plano Nacional de Educação aposta na educação a distância para expandir matrículas, especialmente no ensino técnico e na pós-graduação. A baixa velocidade da banda larga no país pode ser um entrave à expansão efetiva da educação a distância? MS: Temos outro problema enorme. Primeiro, a nossa internet é muito cara, talvez a mais cara do mundo. Não é de hoje que se diz que as escolas têm banda larga, e é uma mentira, elas não têm. Quando há internet, ela é muito lenta, perto da conexão discada. Se no seu computador não tem internet, você experimenta um desânimo profundo – é “brochante”, como dizem meus alunos. É exatamente isso. O computador sem internet fica muito próximo de uma máquina de escrever. Não há motivação quando a banda larga não funciona, quando a conexão não funciona. Aqui nós temos outra falha enorme do governo brasileiro. Há uma espécie de promessa, a sociedade fica aguardando a efetivação disso tudo, que nunca acontece. É uma questão para ser resolvida ontem: internet funcionando com banda larga nas escolas. Mas a política pública não funciona, lamentavelmente. * Publicado originalmente na Carta Escola.

e6 Legislação

Meia-entrada para estudante deve ter cota de 40%, prevê projeto

Relator do Estatuto da Juventude, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) flexibilizou o texto e propõe agora uma cota de 40% para desconto de meia-entrada de estudantes em eventos de natureza artístico-cultural. Assim, se a proposta for aprovada, 40% dos cerca de 300 mil ingressos da Copa de 2014 poderão ser vendidos com 50% de desconto. O projeto prevê ainda que essa reserva seja ampliada para 50% quando o evento for patrocinado pela Lei Rouanet, que institui políticas públicas para a cultura nacional. Para ter direito ao desconto, o estudante precisa apresentar uma carteirinha, que poderá ser concedida por entidades como a UNE (União Nacional dos Estudantes). Jovens assistidos pelo Bolsa Família também serão atendidos pela meia-entrada. Apresentado no dia 14 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o relatório deve ser votado na próxima semana e terá de passar por análise de outras duas comissões antes de ir ao plenário. O estatuto aprovado na Câmara garante a jovens entre 15 e 29 anos o direito de pagar meia-entrada. Agora, o plano é fazer a correção no Senado. Segundo Randolfe, a mudança atende aos estudantes e aos artistas. Ele diz que ainda não recebeu uma proposta oficial do governo. “Para tornar viável a meia-entrada, fizemos essas alterações.” Outra mudança no projeto prevê que jovens tenham desconto nas passagens intermunicipais e interestaduais, “independentemente da finalidade da viagem”. * Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Redação Portal Aprendiz
e2 Escolas

Projeto Juçara em ação em escola de São Luiz do Paraitinga

A palmeira juçara é um dos temas do projeto de educação ambiental da Escola Municipal de Ensino Fundamental Joaquim Ribeiro de Almeida, no bairro dos Caetanos, em São Luiz do Paraitinga. A polpa de juçara, que já faz parte da alimentação escolar dos 150 alunos, de 1º ao 9º ano, vem sendo apreciada cada vez mais pelos estudantes, que percebem também sua importância enquanto alimento rico em vitaminas, especialmente o ferro. Um dos ingredientes da merenda da escola, que tem ainda no Projeto Horta um trabalho fundamental para a saúde dos estudantes e também de suas famílias. A horta serviu para que os alunos integrassem diversos conhecimentos ao trabalho com a terra – como as medidas exatas dos canteiros, ou o reaproveitamento de garrafas pet que servem como invólucros para os nomes das equipes responsáveis.  Mais que isso, para que valorizem suas origens e a importância desses alimentos em suas dietas. A professora Flávia Soares Silva, responsável pelo projeto, afirma que hoje “os alunos têm orgulho da nossa horta, além de passarem a gostar de comer legumes e verduras, até então uma prática muito rara na comunidade”. E ainda, segundo a coordenadora, Patrícia de Melo, “hoje os pais compram os produtos da horta, muitas vezes mandam dinheiro pelos filhos com uma lista dos alimentos que desejam. E a escola já utiliza todos esses produtos na merenda dos nossos alunos”. A equipe do Projeto Juçara deverá fazer o plantio de mudas da palmeira no próximo ano, em uma área contígua ao pátio da escola, como parte das ações que envolvem professores e alunos, e que vai contribuir para o fortalecimento da divulgação do uso dos seus frutos para produção de sementes, mudas e polpa para uso na culinária. Hoje a utilização dos frutos já se constitui em uma alternativa econômica para as comunidades rurais e tradicionais que habitam áreas do Parque Estadual da Serra do Mar ou seu entorno. Outro foco do projeto está no plantio, visando à recuperação da espécie, ameaçada de extinção pelo corte ilegal de suas palmeiras para retirada do palmito. Este trabalho com as escolas de São Luiz do Paraitinga e também de Natividade da Serra é coordenado pela Akarui - Associação de Cultura, Meio Ambiente e Cidadania, em parceria com a Fundação Florestal, por intermédio do Núcleo Santa Virgínia do Parque Estadual da Serra do Mar. É uma das ações que integram o Projeto Juçara, executado pelo Ipema (Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica), com patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Ambiental. Para saber mais, veja www.projetojucara.org.br, www.akarui.org.br e www.ipemabrasil.org.br. * Publicado originalmente no blog do Projeto Juçara.  


por Redação Projeto Juçara
e7 Pesquisa

Criança que faz pré-escola aprende melhor matemática e reduz atraso escolar, diz estudo

São Paulo – A criança que faz pré-escola aprende melhor matemática e português e tem menor atraso escolar. Este é um dos resultados que constam do estudo Impactos da Pré-Escola no Brasil, conduzido por André Portela Souza, coordenador do Centro de Microeconomia Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV). No estudo, que teve como base dados da Prova Brasil e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), aplicados em 2005, Portela faz a estimativa de que a criança que é colocada na pré-escola apresenta, em média, redução no atraso escolar de 1,2 ano e aumento na proficiência de matemática de 0,47 desvio padrão, o que corresponderia, segundo ele, a três anos a mais de escolaridade. “É como se fosse quase cerca de um ano a mais de escolaridade no aprendizado: a criança que faz (a pré-escola) tem um ano a mais em termos de conteúdo quando chega à 4ª série”, disse Portela, durante apresentação de seu trabalho no dia 12, em São Paulo. Segundo ele, em 2005, havia cerca de dez milhões de crianças de quatro a seis anos de idade no Brasil. Dessas, 7,1 milhões frequentavam a pré-escola, o que corresponde a 72% do total. Nesse mesmo ano, o país destinava 5% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação. No entanto, a maior parte dos gastos era destinada para a educação superior. De acordo com ele, em 2005, o país destinava 120% de sua renda per capita para cada aluno do ensino superior e apenas 10% de sua renda per capita para cada aluno de pré-escola. “Investimentos educacionais na infância têm impactos duradouros”, diz o pesquisador. Um resumo do estudo sobre o impacto da pré-escola no Brasil pode ser lido no livro Aprendizagem Infantil – Uma Abordagem da Neurociência, Economia e Psicologia Cognitiva, coordenado por Aloísio Araújo e lançado pela Academia Brasileira de Ciências. Na apresentação da obra, Araújo postula que, “para corrigir as desigualdades educacionais e permitir um maior desenvolvimento econômico por meio da incorporação de um número maior de adolescentes em faixas mais elevadas de educação, é preciso fazer intervenções na fase mais precoce da criança”. Uma série de estudos internacionais e nacionais desenvolvidos na área da educação foram apresentados na manhã de do dia 12, na FGV, durante o workshop Impactos da Educação Infantil: O Que Nos Diz a Evidência Empírica. Em todos os estudos apresentados, a conclusão é pela importância de se investir na educação infantil. * Edição: Lana Cristina. ** Publicado originalmente no site da Agência Brasil.


por Elaine Patricia Cruz, da Agência Brasil
Kassab Educação

A amarga lição de Kassab

[caption id="attachment_36987" align="alignright" width="311" caption="Gilberto Kassab."][/caption] Pesquisa Datafolha revela a sensação do paulistano de que a cidade piorou –o que ajuda a entender a queda na avaliação do prefeito Gilberto Kassab, agora decidido a tentar recuperar o terreno perdido investindo em publicidade. Para mim, a cidade, em geral, não piorou. Houve avanços em uma série de aspectos como educação, segurança ou saúde. Mas a qualidade de vida é muito ruim, o que dificulta qualquer percepção de melhora, por mais que se faça. Diante de uma novidade positiva, logo somos engolfados pela tragédia urbana cotidiana do trânsito, do lixo, da falta de calçadas, dos assaltos. Escolas públicas e postos de saúde estão longe de um patamar civilizado. Quando falo em patamar civilizado, compare os serviços com um Poupatempo –um exemplo de civilidade. Mas só isso não explica o abalo na imagem de Kassab, que já teve excepcionais índices de aprovação no final de seu primeiro mandato. Foi recompensado por gestos como a lei da Cidade Limpa. A lição de Kassab é simples: para tentar garantir a simpatia dos paulistanos, o prefeito vai ter de dar sinais diários de que, desculpe o óbvio, está governando a cidade de São Paulo. Os projetos nacionais de Kassab, politicamente até bem-sucedidos, passaram a sensação de que ele não olhava com atenção a cidade de São Paulo. Suspeito de que a alta rejeição de José Serra, encaminhando-se para o patamar de Paulo Maluf ou Marta Suplicy, tem a ver com a percepção de que o ex-governador, se candidato a prefeito, não cuidaria da cidade, preocupado com um projeto nacional. * Uma boa notícia é o lançamento do mapa da participação, criado pela Rede Nossa São Paulo. Por este mapa digital, colaborativo, sabemos quais entidades na cidade promovem algum tipo de participação, facilitando que possa fazer a diferença em sua comunidade. É um exemplo do uso das tecnologias para uma cidade mais inteligente. O endereço: www.mapadaparticipacao.org.br. * Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, comentarista da rádio CBN, e fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz. ** Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Gilberto Dimenstein*
1 Direitos Autorais

Em defesa da obra

A primeira coisa que me vem à cabeça quando falam das novas relações entre público e privado é a ideia de autoria. Provavelmente, por vício de escritor – e de escritor anacrônico. Há alguns anos, a revista The New Yorker publicou uma longa reportagem sobre a disputa entre os herdeiros de James Joyce e uma pesquisadora da Universidade Stanford, na Califórnia, pelos direitos de publicação da correspondência do escritor. O artigo pintava um quadro favorável à pesquisadora, apresentada como vítima dos herdeiros de Joyce, que proibiam o acesso à sua correspondência íntima. E a transformava em símbolo da necessidade de uma legislação mais democrática, condizente com as exigências estabelecidas pelo uso da internet. A reportagem estava em sintonia com os princípios do Creative Commons e de outras propostas alternativas ao tradicional, restritivo e cada vez mais insustentável copyright, o direito autoral. O Creative Commons foi concebido como um desdobramento natural do mundo informatizado. Nele, cada vez mais se consolida o consenso em torno da visibilidade absoluta e do acesso irrestrito às informações e às obras, como valor democrático básico, em conformidade com o que prega o WikiLeaks na esfera da política. A utilidade do Facebook e do Twitter, como ferramentas para burlar a censura e organizar movimentos pró-democracia em ditaduras como Irã, China e, mais recentemente, nos países árabes do Mediterrâneo, é um forte argumento a favor desse consenso. A reportagem deplorava que uma obra de interesse público (cartas que revelariam a vida privada do escritor) estivesse nas mãos de herdeiros estúpidos que, por pudor ou ganância, dispunham de seus direitos hereditários contra o bom senso, a livre circulação da informação e, em consequência, o progresso da humanidade. O Creative Commons seria, então, uma forma de libertar as obras do controle dos autores e de defender o público. E também restringiria o direito despótico de herdeiros sobre obras com as quais eles não têm, necessariamente, algo a ver. Google não informa sobre o Google Não haveria nada errado nesse ajuste de contas, até porque o Creative Commons permite ao autor decidir o quanto deseja ceder dos seus direitos. Não há nada de errado em defender o bem comum e o progresso de todos contra as restrições impostas pela propriedade privada e o privilégio de poucos. Mas quem é que falou em propriedade privada? É aí que começam os problemas e contradições. O Creative Commons – assim como o “licenciamento global”, que propõe ao internauta pagar uma taxa proporcional à quantidade de downloads que fizer – busca adaptar o direito autoral a uma situação de fato e irreversível. Essas iniciativas buscam alternativas a esse direito, condenado à morte pela nova economia da informação. Mas, a despeito das boas intenções, elas só se propõem a agir no lado mais frágil do direito de propriedade, aquele que diz respeito ao trabalho intelectual individual e, sobretudo, ao trabalho intelectual circunscrito às artes e à cultura. Por quê? Porque é apenas o direito de propriedade intelectual individual que cria obstáculos à “nova” relação de propriedade. Nenhuma empresa abrirá mão de suas patentes científicas ou industriais em nome da visibilidade, do bem comum ou do direito à informação. A começar pelas próprias corporações de mídia eletrônica – elas estão interessadas, isto sim, na adoção de um modelo flexível de licenciamento e difusão de conteúdo. O Google, por exemplo, não pretende tornar disponível a usuários e competidores o saber por trás de seus serviços – e não é por acaso que mantém sigilo desse saber, a ponto de nenhuma informação sobre a empresa aparecer no próprio Google, que em princípio deveria ter acesso a tudo. Ninguém, a começar pelos fundadores do Creative Commons, pensa em pôr em questão o direito de herança e de propriedade sobre bens materiais e corporativos. Direito à expressão e à opinião A propriedade intelectual é um instrumento recente do capitalismo: o direito de autor só foi internacionalmente reconhecido e oficializado no final do Século 19, a partir da Convenção de Berna. No capitalismo tardio informatizado, entretanto, ela se tornou um problema e uma contradição para as corporações cujo trunfo é a circulação de conteúdo intelectual, não sua produção. Para elas, é fundamental que o trabalho intelectual seja barato ou gratuito. E, para isso, é preciso que ele seja indiferenciado, que o seu valor seja medido unicamente de modo quantitativo, cumulativo – e não qualitativo ou subjetivo. É imprescindível que o valor seja determinado pela regra, e não pela exceção. A exceção fica ainda mais desautorizada e desprestigiada – e parece ainda mais antidemocrática e elitista – quando já não há lugar para o direito autoral individualizado. Não é fortuito que associações de roteiristas de cinema tenham passado a reivindicar o reconhecimento de seus membros como autores literários – e a defender uma mudança na lei dos direitos autorais que a torne mais abrangente. Com isso, eles reiteram o princípio de indiferenciação que tanto interessa aos grandes conglomerados da internet. Roteiristas trabalham com normas e regras. Há regras para ser um bom roteirista, e elas atendem sobretudo ao modelo do cinema industrial. Não existe bom roteirista para filme experimental, por exemplo. O bom roteirista é o que domina a excelência de uma série de normas dramáticas e narrativas. A exceção, nas artes, é imponderável e intransmissível. E está necessariamente ligada a um ideal de individualidade, de subjetividade e de autoria individual. A norma faz parte do domínio da indiferenciação, onde todos se equivalem, podem dançar com pequenas variações, mas conforme a mesma música, determinada por uma série de regras e diretrizes. Sem querer, ao reivindicar o mesmo reconhecimento dos autores literários, os roteiristas endossam a vocação do mercado, sob a égide da internet, e a tendência crescente de associar valores subjetivos e qualitativos de exceção ao autoritarismo. O único valor possível e democrático passa a ser o do direito à expressão e à opinião, em nome de uma igualdade sem hierarquias, capaz de tornar equivalente tudo o que se escreve, desde um blog, um roteiro de cinema, até um romance de Joyce. Prestígio e valor de acessos Numa entrevista recente ao New York Times, apresentado como modelo de escritor para os novos tempos, por saber se servir da gratuidade da internet para vender ainda mais livros, Paulo Coelho declarou que Borges foi a sua maior influência. E o entrevistador não o contestou. Seja porque não tinha condições críticas para tanto, seja porque isso não interessava ao objetivo da entrevista. Banidos os critérios da subjetividade, já não há como distinguir entre um texto de Joyce e um Paulo Coelho ou um apócrifo, por mais incoerente que seja a impostura aos olhos de um leitor educado. A única medida de prestígio passa a ser o número de acessos ou de leitores. Até aí, trata-se de um velho princípio de mercado. A única diferença é que, ao suplantar todo e qualquer valor subjetivo, o mercado agora permite a Paulo Coelho dizer que é herdeiro de Borges sem causar espécie. A consequência é simples: enquanto tudo for percebido como equivalente, não haverá necessidade de pagar (mais) pela diferença. E se o alcance da diferença é sempre restrito, seu valor, pela lógica do mercado, só pode ser insignificante. O valor da diferença é substituído pelo da quantidade. Hoje, temos acesso a tudo, mas sabemos cada vez menos distinguir uma coisa de outra. E é essa substituição, basicamente, que distingue a escola da internet. E a crítica da opinião. E o que faz da educação um paradoxo dentro dessa nova economia. A escola é o lugar da transmissão e da regra, mas nela somos forçados a aprender o que não sabemos e mesmo o que não queremos, e só essa obrigação é capaz de alargar o nosso conhecimento. O aprendizado depende de esforço. Já na internet, procuramos o que já conhecemos, ou o que tem algo a ver com o que já conhecemos. O interesse das novas corporações é capitalizar esse prazer, não contradizê-lo. Em princípio infinita, a amplitude do campo de conhecimento na internet, pelo próprio modo da busca, passa a ser repetitiva e limitada, homogeneizante. A ausência de hierarquias culturais e subjetivas faz parte do próprio princípio de busca na internet. E é revelador que a grande invenção, imediatamente patenteada pelo Google, tenha sido um algoritmo que permitiu estabelecer uma nova regra de ordenação nos sites de busca, uma nova hierarquia, baseada no cruzamento dos sites e páginas individuais mais acessados, num sistema que se autorreproduz, associando prestígio e valor ao número de links e acessos. Arbitrariedade subjetiva Anselm Jappe, um jovem crítico marxista (é difícil pensar hoje numa definição mais anacrônica), mostrou num livro recente, Crédit à Mort, como certa esquerda, na sua luta contra o elitismo, quis “abolir as hierarquias onde elas podem ter um sentido”. Por exemplo, as hierarquias “da inteligência, do gosto, da sensibilidade, do talento”. Só a existência de uma escala de valores subjetivos pode negar e contestar “a hierarquia do poder e do dinheiro, que impera quando negamos toda hierarquia cultural”. O narcisismo é o contrário da diferenciação e da exceção. “Não ajudar alguém a desenvolver sua capacidade de diferenciação significa condená-lo a um infantilismo perpétuo”, escreve Jappe. “A virtualização do mundo é também um estímulo aos desejos infantis todo-poderosos.” Não é à toa que essa crítica nos soe tão anacrônica. Ela insiste na diferença entre crítica e opinião. E no mundo da internet, a crítica é cada vez mais desvalorizada como autoritária e coercitiva, porque impõe valores, em parte subjetivos, que não são necessariamente os da maioria. A crítica contradiz o mundo do Eu, o mundo da opinião. Ela pressupõe uma hierarquia subjetiva, um sujeito de autoridade, que supostamente sabe mais que os outros, enquanto a opinião passa a representar a igualdade do que é comum e imediatamente acessível a todos. A opinião é o juízo ao alcance de todos, baseado no gosto e na experiência de cada um, sem hierarquias nem coerções. E, se há um consenso em torno da democracia em todas as esferas sociais, não haveria por que não pensar que a arte também deve ser democrática. É sintomático, nesse sentido, que a avaliação da literatura, ao contestar a imposição arbitrária de um cânone, tenha passado da análise da dimensão subjetiva das obras para o interesse pela experiência (histórica e biográfica) objetivamente mensurável dos autores. Tampouco é casual que essa passagem se faça acompanhar por uma atenção crescente a obras de não ficção, ou baseadas em “histórias reais”. Contra a arbitrariedade subjetiva do cânone ocidental, o espírito democrático do multiculturalismo teve de privilegiar na obra a expressão de uma experiência mensurável e extraliterária (de classe, gênero, raça, origem etc.), reduzindo a produção de subjetividade à representação e expressão da experiência do autor. Bienal do vazio Esse novo paradigma acaba gerando desdobramentos perversos, forjando imposturas, oportunismos e contradições nos quais o interesse final das corporações é defendido pelos próprios indivíduos, críticos e consumidores, sempre em nome da democracia e de um suposto bem-estar comum. A obra de arte é reduzida a um serviço à comunidade e à humanidade, conforme a imagem do trabalho voluntário das ONGs e da própria rede de informação. Se os serviços prestados pelo Google são gratuitos, com que direito a obra de arte ou literária exige ser remunerada? A comodidade dos serviços prestados pelo Google lhe garante um paradigma divino e incontestável, sobretudo entre os jovens que desconhecem – mas podem imaginar, como fantasma – os horrores de um mundo sem o Google. Pode soar como piada, mas o mandamento oficial do Google é Don’t Be Evil (Não Seja Mau). Google e democracia passam a ser sinônimos. E assim, para o bem da humanidade, assumindo o papel de entidade suprema e legisladora, a empresa se sente no direito de digitalizar e oferecer gratuitamente tudo o que estiver publicado no mundo, sem a autorização dos autores, que, sem terem sido avisados de nada, devem tomar a iniciativa de se manifestar a tempo no caso de não concordar com a publicação gratuita de seus próprios livros. Cabe lembrar que o projeto só não foi levado a cabo por interferência do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que entrou em cena para frear as ambições da empresa. Faz sentido que, nesse mesmo mundo, a ideia do fim do artista, do término do gênio criador individual e da arte como provocação subjetiva e idiossincrática, em nome de uma criatividade generalizada e socializante, também seja promovida por uma parte influente da crítica, sob pretextos políticos e sociais. Se alegam que o artista individual, autor de uma obra de exceção, é um aspecto anacrônico e reacionário do romantismo, é porque de certo modo isso também serve a uma necessidade de sobrevivência da crítica, que precisa se sobrepor ao seu objeto de estudo, negando-lhe autonomia. É o que justifica a passagem do foco do artista para o curador, e o curador reivindicar o papel de coautor de exposições. Em certos casos, o curador pode até substituir os artistas, como na 28ª Bienal de São Paulo, que ficou conhecida como Bienal do Vazio. Entretanto, vai ficando claro que é menos o autor e mais a obra que precisa morrer. Por quê? Desejo íntimo dos consumidores Reciclada para os tempos atuais, a ideia da morte do autor, que em Foucault e Barthes se inseria num contexto totalmente diverso, revela uma disputa entre a crítica e o seu objeto. Isso ocorre num momento em que a própria crítica torna-se prescindível pelo mesmo princípio de desautorização das exceções e das hierarquias, em nome de uma “opiniocracia”. A necessidade de estabelecer valores coletivos e generalizados, reduzindo a arte, é a palavra de ordem, aparentemente libertária, de festivais como o Burning Man, em Nevada, nos Estados Unidos. O Burning Man é regido por uma série de mandamentos retóricos, como “autoexpressão, esforço comum, participação, ‘desmercantilização’, doação, inclusão” e outros princípios morais e cívicos. E é especialmente emblemático que as obras criadas no festival acabem sendo queimadas num auto de fé, como manifestação ao mesmo tempo ambientalista (para não abandonar resíduos no deserto) e simbólica, contrária à mercantilização da arte. Também o consumidor de cultura, cujo narcisismo é alimentado pelo Facebook e Twitter (que o incitam a se expor o tempo inteiro, exercendo não apenas seu direito de participar da vida pública, mas também mimetizar celebridades), pode terminar combatendo toda hierarquia e exceção. Ao se privilegiar as obras, se pressupõe que nem todos podem ser autores, e que nem todas as autorias são iguais. E nada mais natural, depois de tanto esforço de marketing a celebrar a figura do autor, que a obra tenha passado a ocupar um lugar secundário e insignificante. A exemplo da lógica perversa da cultura da celebridade, que, ao se reproduzir indiscriminadamente cria sempre mais anonimato, a autoria também passou a ser vista como sinônimo de visibilidade, uma forma privilegiada de estar e aparecer no mundo, em detrimento das obras. E são as grandes corporações da internet que acabam colhendo os frutos dessa estratégia, são elas que nos proporcionam afinal o sonho de sermos célebres autores de nós mesmos. São elas que nos vendem a miragem de transformar cada detalhe da nossa vida privada em evento público. Por uma razão muito simples: o lucro dessas novas empresas depende unicamente do conhecimento dos desejos íntimos dos consumidores. A ideia de propriedade Num texto esclarecedor sobre a “Política da Literatura”, Jacques Rancière lembrou que “a constituição da vida privada, que é em si mesma suficientemente satisfatória para que as pessoas renunciem à vida pública”, coincidiu com a noção da arte feita para o indivíduo, pelo indivíduo, o autor. Rancière mostra como a ideia do autor como gênio criador individual, ideia contemporânea ao advento dos direitos autorais e do individualismo da revolução burguesa, acabou associada a uma concepção da arte que foi ultrapassada já por Flaubert e Mallarmé. No entanto, num pequeno texto (“Autor morto ou artista vivo demais?”) publicado na Folha de S.Paulo ainda em 2003, Rancière explicou que, ao contrário do que se convencionou chamar de culto do autor, a noção de gênio é bem mais complexa e está originalmente ligada ao conceito da obra como expressão de uma força anônima. O gênio não é apenas a representação de uma individualidade – uma força anônima o atravessa e termina por se expressar. A sentença de morte do autor, contudo, repetida há trinta anos por filósofos e críticos, nunca impediu nenhum artista de reivindicar seus direitos; deve, portanto, ser reavaliada à luz da informática. O que aconteceu desde então? Segundo Rancière, o que sobrou do autor no mundo contemporâneo é justamente a ideia de propriedade. Mas essa propriedade já não pode se referir à obra, seja porque já não se acredita em originalidade, seja porque a obra é resultado da combinação de elementos de outras obras preexistentes, como no caso dos DJs, seja porque a obra se tornou conceito, como no caso das artes plásticas. O destino da exceção A ideia de obra mudou. O artista passou a ser proprietário da ideia, assim como o inventor detém a patente do seu invento. E é natural que, em reação a essa propriedade, que pode incorporar tudo o que está ao redor, o que já existe no mundo, venha se contrapor um direito de imagem (daquilo que é usado como elemento para compor a obra – como os sujeitos fotografados, no caso da fotografia). E a autoria acaba, assim, correndo o risco de ser confinada à negociação entre proprietários de ideias e proprietários de imagem. Rancière mostra – e é aí que as coisas ficam mais interessantes, no que diz respeito à literatura – que a autobiografia vem resolver esse impasse, fazendo as duas propriedades coincidirem: “Hoje, o autor por excelência é supostamente aquele que explora o que já lhe pertence, a sua própria imagem.” A propriedade migrou da obra para a biografia, para a vida do artista. Só resta ser autor da sua vida privada e expressá-la como obra. O autor hoje é o que explora a sua própria imagem. Os blogs e páginas pessoais na internet são a expressão generalizada e vulgarizada desse fenômeno. Se a obra foi reduzida à vida e à visibilidade do autor, é compreensível que já não possa haver herdeiros de um autor morto. Também é compreensível que a obra, já não sendo exceção, tampouco exista, uma vez que foi igualada à vida, ao que é comum a todos. Ao autor só resta tornar-se cada vez mais público. Não é um acidente que não exista autocrítica na internet, a não ser como disfarce de mais autopromoção. É essa a lógica que, encobrindo os interesses corporativos, justifica o fim dos direitos autorais individuais, segundo valores subjetivos da obra, em nome de uma medida baseada em critérios quantitativos de mercado. Como tudo o que existe agora também deve existir na internet, o que não é acessado simplesmente inexiste. É o destino da exceção. Sem lugar para a transgressão O mais terrível é que, expondo a vida privada como obra pública, e cuja eventual remuneração só pode ser feita com base em dados de acesso e seguidores que se identificam com essa vida e com essa opinião, ao autor cabe negociar o que seriam seus direitos intelectuais segundo a lógica de uma empresa de mídia. É assim que o chamado “valor social” (a capacidade que os indivíduos têm de influenciar uns aos outros através de suas opiniões em blogs, Twitters e páginas pessoais em sites de relacionamento) começa a despertar interesse no mercado virtual. Porque, a partir do momento em que a obra é reduzida à expressão da vida privada e ao marketing do autor, ela também passa a ser veículo potencial de publicidade e encontra no chamado merchandising uma remuneração possível. Mais de 95% do lucro do Google vem da publicidade. Toda a estratégia da empresa depende do conhecimento, do acesso e da comercialização dos desejos, dos gostos e dos interesses dos usuários. Toda a economia da informação gratuita precisa que a vida privada seja exposta como pública, formando um mapa mundial dos desejos e do gosto, para que haja lucro. Mais do que o autor, era a obra que precisava morrer como exceção, como produção de subjetividade, exercício de imaginação e transgressão, para renascer como veículo e instrumento de mercantilização da opinião e do gosto, para que todos nós nos tornássemos autores de nós mesmos, e o privado pudesse afinal não apenas ser lido, mas vendido como público. Se a exceção passa a ser sinônimo de injustiça e antidemocracia, a transgressão é reduzida a crime. Mas podemos ficar sossegados porque onde tudo é público não há lugar para transgressão. * Bernardo Carvalho é escritor e jornalista, autor de Magnólia (2003) e O filho da mãe (2009), ambos pela Companhia das Letras. ** Publicado originalmente na revista Piauí e retirado do site Observatório da Imprensa.


por Bernardo Carvalho*
1 Legislação

Ausência de meta intermediária de investimento pode complicar cumprimento do PNE

Após sucessivos adiamentos, o relatório do Plano Nacional de Educação (PNE) foi apresentado nesta terça-feira (6/12), na Câmara dos Deputados. A ausência de metas intermediárias para alcançar o investimento de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação – porcentagem prevista pelo documento – e a falta de diretrizes para reponsabilizar entes federados pelo cumprimento das metas podem complicar o real avanço da área nos próximos dez anos. Em recentes conversas com movimentos ligados à educação, a presidenta Dilma Rousseff foi enfática em assumir que até 2014, 7% do PIB seria destinado à área. No entanto, esse valor intermediário para atingir a meta do PNE (de 8%) não consta no relatório, que foi protocolado nesta segunda-feira (5/12), pelo relator da Comissão Especial que analisou o PNE, deputado Angelo Vanhoni (PT-PR). “(As metas intermedárias) deveriam vir asseguradas, porque precisamos saber se as políticas estão sendo bem-sucedidas. Não adianta ter apenas a meta para 2020. Não podemos chegar no fim e perceber que não foi possível atingir a meta”, avalia o membro do Movimento Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos. Outro ponto no relatório questionado pelos movimentos sociais é que não há clara divisão das responsabilidades entre municípios, Estados e União para cumprir as metas. O plano determina aumento de recursos para a educação, mas nenhum dos entes federados é citado para assumir a conta. “Vanhoni se esforçou para não tocar no orçamento da União. As redes municipais e estaduais não têm capacidade de recursos”, pontua o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara. “Hoje, de cada R$ 1 colocado na educação, apenas R$ 0,20 saem do governo federal, apesar dele ter maior poder de investimento. Sem responsabilização, fica parecendo que o plano não tem viabilidade.” “(A responsabilização) já não estava prevista no texto original enviado para a Comissão, apesar de hoje em dia estarem discutindo uma Lei de Responsabilidade Educacional (em outra Comissão Especial instalada na Câmara desde o fim de outubro). Deveria estar contemplado já no PNE”, completa Ramos. Ele ainda ressalta a importância do deputado Vanhoni ter mantido o PNE dividido em 20 metas, priorizando o foco em cada área, mas lembra que não está contida a previsão de gastos específicos para cada uma das metas. O relator Vanhoni se comprometeu a acrescentar uma planilha de custos, demonstrando que o projeto poderá ser financiado com 8% do PIB. Muito debatida, a porcentagem não é consenso. Movimentos sociais reiteram a necessidade de 10%. “Desse jeito, o Brasil vai melhorar, mas os passos são lentos. O governo só conseguirá cumprir o que está previsto na Constituição de 1988 em 2050. É justo com as gerações atuais ter que esperar tanto?”, questiona Daniel Cara. Ele também apontou incoerência interna do plano. Para ele, o relator buscou contemplar todas as partes envolvidas, gerando contradições. “Busca agradar o setor privado, absorvendo questões como expectativa de aprendizagem, fortalecendo metrificações e parâmetros, que não têm sentido pedagógico. O texto original já era falho nesse sentido, sem expressar qual é a concepção de educação que está sendo adotada.” Cara avalia que o relator Vanhoni alterou muitas metas do texto original do projeto, incorporando a maioria das três mil emendas propostas pela sociedade civil, porém de forma parcial. “Incorporou propostas que não conversam entre si”, acredita Cara. No entanto, ele comemora um ponto positivo: a adoção do Custo Aluno Qualidade Inicial (CAQi), que tem como objetivo não apenas ampliar o investimento por aluno, mas realizar isso com qualidade. A ideia é caminhar rumo ao patamar de financiamento da educação de países desenvolvidos. Mozart admitiu que o relatório do PNE poderia ser mais ousado, mas diz que da forma como foi apresentado tem mais garantia de efetivação. “Se for executado, principalmente para resgatar a figura do professor, será uma grande vitória da sociedade brasileira. Mas o plano só vai sair do papel se ela se mobilizar.” Aprovação O calendário de trabalho está apertado para que o PNE seja aprovado ainda em 2011. Poderá não haver tempo hábil para votar o documento antes do início do recesso parlamentar, marcado para 22 de dezembro. A partir de hoje, tem início o prazo de cinco sessões para que os parlamentares apresentem novas emendas ao texto. Os deputados já sinalizaram que será feito um pedido de vista, com o objetivo de obter tempo para analisar melhor o relatório. “O que não pode é aprovar o plano de qualquer jeito. Há necessidade de um debate qualificado”, aponta Cara. Há possibilidade de o novo PNE durar até 2021 ou 2022, por conta da data em que vai começar a valer. O antigo terminou em dezembro de 2010 e no momento não há nenhum plano em vigor. * Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Desirèe Luíse, do Portal Aprendiz
Revista Viração é apresentada como exemplo de projeto educomunicacional. Comunicação

Educomunicação ainda não é valorizada para combater evasão no ensino médio

[caption id="attachment_36254" align="alignright" width="260" caption="Painel durante encontro discute a educomunicação na última década."][/caption] Apesar do avanço, na última década, do uso de linguagens de comunicação na educação, a chamada educomunicação ainda não é valorizada pela maioria das escolas e secretarias de ensino no país. A conclusão é de um debate do III Encontro Brasileiro de Educomunicação, realizado na Universidade de São Paulo (USP), na última semana. “Na educação formal é mais difícil a educomunicação estar presente. Já a não formal é mais flexível para abarcá-la. Gostaria que escolas e secretarias sentissem que ela é muito importante para combater a evasão. A entrada do aluno na escola é quase universalizada, mas a saída é o problema”, analisou o secretário-executivo da Rede Comunicação, Educação e Participação na Escola e na Comunidade (CEP), Alexandre Sayad. Mais de quatro mil escolas do Mais Educação  – programa do governo federal de educação integral – escolheram o “trabalho de jovem com mídia” na hora de compor seus currículos optativos, no contraturno das aulas. “O número é pequeno para o tamanho da rede toda. Por outro lado, é um terço de todas as escolas que fazem parte desse programa. Ou seja, existe uma demanda por isso”, completa. Sayad destacou que a falta de senso de pertencimento do jovem com a escola faz ele desistir de estudar. Cerca de 40% abandonam as salas por desinteresse, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Sem sentirem-se acolhidos, por que ele vai ficar sentado numa cadeira com o mundo todo lá fora?”, questionou Sayad. [caption id="attachment_36255" align="alignleft" width="260" caption="Segundo Sayad, a educomunicação pode ressignificar a escola, tornando-a mais atrativa."][/caption] De acordo com o secretário da Rede CEP, a educomunicação pode ressignificar a escola, tornando-a mais adequada para o estudante. “Educomunicação diz respeito a apenas uma coisa: escuta. O que importa é a expressão do jovem e a relação dele com o educador.” O Games for Change foi citado como exemplo de um projeto educomunicativo, já que jovens desenvolvem joguinhos com caráter social, caracterizando um processo pedagógico por meio da comunicação. O Festival Games for Change 2011 acontece de 8 a 11 de dezembro, em São Paulo (SP). “A presença das tecnologias traz desafios para a comunicação. Esta ganhou hoje centralidade como meio, mas também como fim”, disse o diretor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), Wilton de Souza. “A criança chega na escola já com muitas horas de comunicação. Ela tem um Facebook, por exemplo. Temos que alimentar a educação nessas condições.” A proposta da educomunicação, além de alfabetizar com linguagens da comunicação, está baseada em valores de cidadania, acredita a professora de Licenciatura em Educomunicação da ECA/USP, Roseli Fígaro. “Quando se fala em expressão do jovem é o mesmo que concretizar valores democráticos”, afirmou. [caption id="attachment_36256" align="alignright" width="260" caption="Revista Viração é apresentada como exemplo de projeto educomunicacional."][/caption] A jovem participante da Revista Viração – periódico produzido por adolescentes, caracterizado como um projeto de educomunicação –, Taluane Teodoro, conta ser outra pessoa hoje, depois que entrou para a equipe de produção da revista. “Adquiri massa crítica. Posso ver a comunicação de outra forma agora”. Pelo computador, todo o mês, jovens de 22 estados definem pautas, chamadas de capa, títulos de matérias e editorial. “O que fazemos não é dar voz ao jovem, porque ele já tem isso, mas sim espaço, que é aquilo que está faltando. Eles fazem a gestão da Revista Viração com a gente”, conta a jornalista do periódico, Lilian Romão. Sayad concorda que faltam canais para expressão. “O que a educomunicação faz é abrir uma escuta. Se não estimularmos esse canal, não há meios de acontecer espontaneamente”, conclui. * Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Desirèe Luíse, do Portal Aprendiz
Maria da Conceição Tavares. Entrevista

Pré-Sal deve financiar fundo de educação, defende economista

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, a economista Maria da Conceição Tavares defende que o dinheiro do petróleo das reservas do pré-sal seja investido num fundo destinado à Educação e Saúde, mas desde que o governo federal seja o gestor dessas políticas. Ela propõe ainda uma revisão do generoso municipalismo instituído pela Constituição de 1988. "Veja o que os municípios que ganharam royalties fizeram com o dinheiro. Nada", afirma. [caption id="attachment_36274" align="alignleft" width="300" caption="Maria da Conceição Tavares."][/caption] A economista Maria da Conceição Tavares tem 81 anos e adquiriu o direito de falar tudo o que pensa. E está longe de fazer isso com moderação. Na última segunda, em seminário promovido pelas fundações Perseu Abramo, do PT, Leonel Brizola, do PDT, Maurício Grabois, do PCdoB e João Mangabeira, do PSB, ela estava na primeira mesa, debatendo a crise mundial e os caminhos para o Brasil nesse momento histórico conturbado, que atingiu em cheio os países mais ricos. Com um pequeno intervalo para o almoço, foi para a primeira fila da plateia, com direito a intervir quando achava necessário nas exposições dos que a sucederam - muitos deles, seus ex-alunos na Unicamp, como Ricardo Carneiro e Marcio Pochmann. Não é incomum, todavia, que esteja dialogando com ex-alunos, corrigindo-os ou emitindo juízos de valor sobre eles. A presidenda Dilma Rousseff também passou pelos bancos da Unicamp. "Foi uma aluna brilhante", comentou no intervalo do evento, em uma entrevista exclusiva à Carta Maior. Conceição, de origem portuguesa mas brasileiríssima, traz de Portugal o sotaque, ao qual incorporou a informalidade brasileira. Nesse arranjo linguístico, moldou uma linguagem dramática, onde os palavrões são imprescindíveis para fazer o interlocutor entender a gravidade do que está falando. Foi no estilo Conceição que falou à Carta Maior, sem evitar qualquer tipo de controvérsia. "Deus me livre do Pré-Sal", disse, no seminário. E depois explicou: os países exportadores de petróleo acharam que estavam deitados em "berço esplêndido" e não fizeram mais nada. Como na Venezuela. "O homem que está lá [Hugo Chávez] fez um pouco de política social, mas nenhuma política de desenvolvimento econômico". Defende que o dinheiro do petróleo seja investido num fundo destinado à Educação e Saúde, mas desde que o governo federal seja o gestor dessas políticas. Aliás, ela propõe uma revisão do generoso municipalismo instituído pela Constituição de 1988, uma vitória das esquerdas que brigaram pelo fortalecimento de outras instâncias federativas por acharem que esse era um antídoto à tradição antidemocrática do Estado brasileiro. "Veja o que os municípios que ganharam royalties fizeram com o dinheiro. Nada." Petista desde sempre, a economista afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi bom nas políticas sociais que empreendeu em seu mandato, na política de relações exteriores e exerceu o poder dentro de uma fortet noção de soberania, mas não foi nada bom na economia. No começo, diz ela, Lula não tinha outra alernativa a não ser fazer uma política econômica ortodoxa. Mas depois "deu muita confiança para o Palocci e para aquele presidente do Banco Central". Dilma ganha nessa, porque tem uma equipe melhor e sabe o que está fazendo. Conceição também faz menção especial às "mulheres do Planejamento" -- não apenas à ministra Deise Hoffman, mas a subsecretárias que, na sua visão, são "mulhres duras". Abaixo, a íntegra da entrevista da economista à Carta Maior. Carta Maior: Na sua exposição, a senhora disse que `Deus me livre do Pré-Sal'. Por que o Pré-Sal pode ser tão ruim? Maria da Conceição Tavares: País exportador de petróleo é um desastre total. Nenhum país que fez isso deu certo. Os países exportadores de petróleo se deram mal completamente. Veja México, Rússia e Venezuela. O petróleo é uma commmoditie muito instável, muito sujeita a especulações no mercado futuro. E como é muito lucrativo, o país reinveste e não faz mais nada, senão petróleo. Veja, por exemplo, a Venezuela. O homem que está lá [Hugo Chávez] há tantos anos, o que ele fez? Um pouco de política social, mas nenhuma política de desenvolvimento econômico. E a Rússia, tem o quê? Tem petróleo e armas -- e isso não é muito legal. Não estou dizendo que não se exporte petróleo, mas que não se fique nadando na riqueza petrolífera e que não deite em cima dela. Não acho que é um berço esplêndido. Não se pode deixar o petróleo contaminar as expectativas. O pessoal começa só a pensar em petróleo e não faz mais nada. CM: Não achar que é a loteria, né? Conceição: Todos os países que têm petróleo acharam que ganharam a loteria. CM: Como se faz para prevenir isso? Conceição: Primeiro, não exportando apenas o petróleo bruto. Tem que fazer a cadeia toda: petroquímica, fertilizantes etc. E, ao mesmo tempo, fazer um fundo federal de petróleo para dar conta pelo menos da Educação e Saúde -- e talvez Ciência e Tecnologia. Mas não se pode polvilhar o fundo. Não adianta ficar picando o fundo porque isso não resolve nada. CM: A briga federativa em torno do Pré-Sal, então, não é boa. Conceição: Não, não é boa, simplesmente porque espatifa os recursos. CM: Os Estados impõem dificuldades a uma política nacional de desenvolvimento? Conceição: Impõem, mas não podem impor. A Petrobras é uma empresa estatal, federal, e o governo federal não pode topar e permitir que cada um faça o que lhe dá na telha. Não dá para disputar os recursos todos. Isso não vai adiantar nada. O que a gente faz com o dinheiro dos royalties aqui [no Rio]? Nada. O que as prefeituras com recursos do petróleo fizeram? Nada. Jogam fora os recursos em gastos correntes e ninguém sabe no quê. Não deram prioridade à Educação ou à Saúde. Espatifar o fundo não pode. O fundo é federal, e os Estados e Municípios não dão conta de fazer nada. É preciso que se faça políticas federais de Educação e Saúde, agora mais orientadas estrategicamente. Senão não resolvemos essa brecha maldita que temos aí. CM: Os Estados e os municípios fracassaram como agentes de políticas de Educação e Saúde? Conceição: Fracassaram. Os caras não pagam nada. Essa é uma ideia que veio erradamente, de que a descentralização melhorava a democracia. A esquerda tinha aquela ideia maluca de que um governo federal forte era coisa da ditadura, e quis desmontá-lo. E daí a descentralização.Mas a realidade é que o município não consegue gastar nem o que devria gastar nessas políticas. O estado em que se encontra nossa Saúde é uma vergonha. É uma vergonha o Estado em que estão nossos hospitais. Os Estados pegaram os hospitais federais e teve que voltar a ajudá-los, serão seria um descalabro. Tem que dar uma ajeitada na governabilidade, na gestão, na orientação estratégica do SUS e da Eucação. Essa ideia de que o ensino fundamental e o secundário não dizem respeito ao governo federal é uma besteira. Os Estados e municípios sequer pagam nem aos professores, e a primeira política para melhorar a educação é pagar bem osprofessores. Treiná-los e pagá-los bem. CM: O governo federal desempenharia melhor essa função? Conceição: Mas é evidente. Os programas estaduais e municipais de saúde não prestam para nada. É fundamental que a Saúde não seja estadualizada ou municipalizada. Pelo menos os hospitais de referência e as redes integradas de Saúde não podem depender dos prefeitos. CM: E a política de desenvolvimento e industrialização, como se faz? Conceição: Tem que fazer um monte de coisas. Tem que fazer Ciência e Tecnologia, tem que fazer o PAC, que é o programa de infraestrutura, mas com encomendas do setor público para integrar as cadeias. Tem que forçar a barra em cima das multinacionais automobilísticas, de eletroeletricos, fármacos e química fina para que aumentem o coeficiente de nacionalização, que está muito baixo. E tem que olhar um pouco esse câmbio, que está muito ruim. Mas tem que olhar o câmbio com cuidado. Não se pode simplesmente fazer uma maxidesvalorização, pois isso seria provocar um choque inflacionário. Isso tem que ser progressivo: você baixa os juros e o câmbio vai subindo. CM: Existe um piso para os juros? É possível reduzir muito os juros com a poupança indexada? Conceição: Pode baixar os juros o tanto que você quiser. O juro não é para a poupança, mas para a especulação e para o rentismo. A poupança é para os pobres. Não é possível manter uma taxa de juros tão disparatada quanto a nossa.Assim é impraticável. Uma maneira de combater o défici público é baixar os juros. Praticamente todo o déficit do Brasil é com juros. Nós temos superávit primário. O déficit nominal é todo resultante de juros. Tem que baixar. Estamos numa situação de ampla liquidez mundial e com taxas de juros mundiais praticamente a zero. CM: Que chances o Brasil tem de sair melhor dessa crise mundial? Conceição: Boas. Essa crise tem uma coisa ruim, talvez seja mais pesada porque é mais prolongada. Mas temos um mercado interno grande em crescimento, o governo está fazendo uma política correta de salário mínimo, porque ela tem puxado os de baixo. As chamadas novas classes médias resultam do fato de que o grosso das remunerações dos salários no país estão em torno do mínimo. No governo Lula, houve um aumento de 60% no mínimo, o que resultou num aumento cavalar do poder de compra. O poder aquisitivo do salário mínimo tem que ser mantido. Não me venham com essa história de que a Previdência vai ter problemas, porque isso é bobagem. A Previdência vai ter problemas quando terminar a folga demográfica, o que vai acontecer só daqui a 10, 18 anos. Esse é um problema da distribuição de renda que é muito importante para o desenvolvimento. CM: E a balança comercial? Conceição: Tem que forçar a barra das multinacionais. Elas estão abindo e importando. Claro que também tem o câmbio, que precisa ser mexido, mas isso não basta. Como eles estão mal, em crise, querem exportar para cima da gente. Daí começa uma invasão de importados que pode piorar o mercado. O cenário externo, desse ponto de vista, pode piorar a situação externa. A gente tem que ficar atento. E tem que estimular o investimento privado na cadeia produtiva porque o investimento público está indo bem. CM: O período que o país está vivendo tem paralelo em nossa história? Conceição: Não tem nada parecido com isso, pois passamos anos e anos, antes disso, em hiperinflação. CM: Qual a avaliação que a senhora faz do governo Dilma? Conceição: O Lula, no começo de seu governo, dadas as condições do país, foi de fato obrigado a fazer uma política econômica ortodoxa, mas depois ele deu uma confiança muito grande para o Palocci e aquele cara do Banco Central, que era um conservador de marca maior. Aí ele fez mal. Lula é muito bom para a política social, para a política externa, na ideia de soberania, mas essa coisa de economia ele não dá muita bola. A Dilma tem uma boa equipe econômica, inclusive as mulheres do Planejamento - aquelas mulheres são duras pra burro. Elas é que estão tocando a braços o PAC. Tem uma quantidade de mulheres duras nas subsecretrias que eu vou falar. CM: Na economia, então, Dilma está ganhando? Conceição: Existe mais capacidade gerencial no Ministério do Planejamento e maior preocupação em fazer uma macroeconomia mais favorável ao crescimento, mais preocupação com o planejamento a longo prazo, e mais preocupação em fazer uma política econômica mais favorável ao crescimento. Essa é a diferença. O resto não tem diferença nenhuma. CM: A impressão que dá é que tem uma equipe econômica mais coesa, não é? Conceição: É, pois é. CM: No governo Lula você tinha a política econômica de um lado e a política monetária de outro, é isso? Conceição: É isso. Porque a presidenta é uma economista e uma gerentona. Nós temos uma presidente que é do ramo, e isso ajuda para burro. Eu sei porque ela foi minha aluna, ela é um brilho, ela é brilhantíssima. Além de ser firmona. Eu estou otimista, claro, frente à desgraça mundial. Eu posso estar nadando de braçada não estando, não é? Este ano, podemos chegar a 3% de crescimento, no ano que vem também não deve dar muito, mas você encaminhando os eixos estruturais do desenvolvimento, você tem condições de enfrentar bem a crise e ficar mais autônoma. E depois tem todos os recursos naturais, a possibilidade de fazer energia limpa etc. * Publicado originalmente no site Agência Carta Maior.


por Maria Inês Nassif, da Carta Maior
Os investimentos do Sudeste são o dobro do Nordeste. Foto: Fotos Gov/BA Governo

Gasto de prefeituras por aluno é desigual entre regiões apesar do crescimento do investimento municipal na área

[caption id="attachment_36251" align="alignleft" width="300" caption="Os investimentos do Sudeste são o dobro do Nordeste. Foto: Fotos Gov/BA"][/caption] Brasília – Entre 2009 e 2010, os gastos municipais com educação cresceram 10,7%, chegando a um investimento total de R$ 80,92 bilhões. Os dados foram divulgados pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP) e incluem, na conta, repasses da União e dos estados aplicados na área, pelas prefeituras. O aumento dos recursos é consideravelmente superior ao verificado em 2009, quando a crise econômica impactou negativamente na arrecadação fiscal. Naquele ano, os investimentos na área cresceram apenas 2,8%. Por determinação constitucional, os municípios são obrigados a aplicar pelo menos 25% da arrecadação de impostos e transferências em educação. O aumento nos investimentos, combinado a uma diminuição da população em idade escolar e, consequentemente da matrícula nas redes municipais, fez crescer o gasto médio anual por aluno – que, em 2010, chegou a R$ 3.411,31 ao ano. No ano anterior, esse valor tinha sido R$ 3.005,27, o que significa um crescimento de 13,5%. Apesar do aumento, há grandes desigualdades regionais nos gastos por matrícula. Um aluno de uma escola pública do Sudeste, por exemplo, recebe o dobro de investimento municipal do que um estudante do Nordeste: R$ 4.722,46 contra R$ 2.309,60, respectivamente. No Norte, o gasto por aluno é R$ 2.381,75 anuais, no Centro-Oeste R$ 3.622,28 e no Sul R$ 4.185,25. Para Maria do Carmo Lara, prefeita de Betim (MG) e vice-presidente para Assuntos de Educação da FNP, as diferenças salariais dos professores de cada região têm grande impacto nessa conta. Isso porque, em geral, os professores do Sudeste ganham mais do que os do Norte ou Nordeste. “Também tem a questão do investimento em educação de tempo integral. No Sudeste, tem muito mais escolas que já oferecem essa modalidade e o impacto nos investimentos é grande”, explica. A FNP defende uma maior participação da União nos gastos com educação, especialmente nos estados que têm menor arrecadação. A maior parte dos municípios (42,3%) gasta em média de R$ 3 mil a R$ 5 mil por aluno ao ano. Cerca de 28% investem de R$ 2 mil a R$ 3 mil, 17,6% de R$ 5 mil a R$ 10 mil e 1,4% gastam mais de R$ 10 mil. Uma em cada dez prefeituras investe menos do que R$ 2 mil por aluno anualmente. A prefeita de Betim avalia que os gastos em educação cresceram não apenas porque há um aumento na arrecadação e, consequentemente, no percentual de recursos aplicados. Para Maria do Carmo, o fato é que as prefeituras estão mais interessadas em investir na área e “vários” municípios já aplicam mais do que os 25% da arrecadação obrigatórios pela Constituição. “Hoje, você tem as avaliações e o Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, indicador que mede a qualidade do ensino], que ajudam as escolas e os municípios a estarem mais bem colocados em relação a outros. Isso faz com que os municípios se organizem para melhorar a rede. O investimento em formação de professores aumentou muito”, diz Maria do Carmo. Analisando o total dos investimentos, o levantamento mostra que houve crescimento das despesas com educação em todas as regiões. O Norte e o Nordeste registraram crescimento acima da média nacional em 2010: 15,3% e 11,8%, respectivamente. No Sul, o aumento dos investimentos foi 8%, no Centro-Oeste, 9,6% e no Sudeste, 10,4%. Os municípios da Região Sudeste respondem por um terço das matrículas municipais e por 46,7% do total de recursos aplicados pelas prefeituras em educação. O Nordeste responde por 26,1% dos investimentos, o Sul por 13,5%, o Norte por 7,9% e o Centro-Oeste por 5,8%. Edição: Lana Cristina * Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Amanda Cieglinski, da Agência Brasil

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Filhote de panda brinca com a mãe em centro de reprodução na China. Instituição de pesquisa de Chengdu tenta salvar espécie da extinção.

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Falta de lixo em Oslo, Noruega, pode comprometer geração de eletricidade. Pouca produção de resíduos de outros países pode afetar usinas.

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Derretimento de geleiras não-polares causa 30% da elevação do mar. Dado foi apresentado em estudo na revista ‘Science’.

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Austrália quer proibir fertilização do oceano com sulfato de ferro. Método reduziria acidificação e combateria efeitos da mudança do clima.

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Já pensou em vender ou comprar sobras de comida através da internet? Esta é a ideia da plataforma virtual Shareyourmeal, uma forma interativa de combater o desperdício de alimentos. Saiba mais aqui.

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CET de São Paulo abres inscrições para o curso “Pedalar com Segurança”. Saiba mais.

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Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.

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Unesco critica Austrália por riscos ambientais na Grande Barreira de Coral

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Estudo calcula benefícios de árvores urbanas dos Estados Unidos. Parques absorvem carbono emitido e poupam US$ 1,5 bilhão por ano.