As bicicletas da nossa infância

Cultura

As bicicletas da nossa infância


por Matheus Pichonelli, da Carta Capital


[caption id="attachment_34871" align="alignleft" width="300" caption="O Garoto da Bicicleta, Cyril Catoul, personagem de Thomas Doret, em filme de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Foto: Divulgação"][/caption] Graciliano Ramos escreveu certa vez que conheceu a justiça dos homens no dia em que o pai levantou da rede e não encontrou seu cinturão. Sem ninguém para colocar a culpa pelo sumiço, transformou o filho, que não sabia do destino da correia, em réu. Foi erguido pelo braço e açoitado com chicote, as costas fustigadas pela folha de couro. Segundos após o flagelo, o pai descobriu que o cinturão havia apenas se desprendido da fivela, e estava sã e salva na rede onde dormia. Mesmo assim, seguiu espumando, sem jamais demonstrar arrependimento pelo flagelo. “Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça”, descreve o autor alagoano em seu livro “Infância”. No caso de Cyril Catoul, personagem de Thomas Doret em O Garoto da Bicicleta, a justiça humana é também reconhecida muito cedo, graças à crueldade paterna. Trancado num internato, ele passa parte do filme tentando driblar os indícios de uma realidade tacanha: o pai fora homem suficiente para colocá-lo no mundo, mas não para criá-lo (ou para dizer que não podia nem queria criá-lo). Durante boa parte do filme, pouco sabemos sobre Guy Catoul (Jérémie Renier), a não ser pelos rastros de sua desistência. No internato, o menino espera sempre a primeira brecha para escapar e dar sequência, ele mesmo, à investigação sobre o paradeiro do pai. A revelação abrupta da verdade, a de que não é querido por quem mais quer por perto, é avassaladora. A história de Cyril Catoul faz lembrar que onze em cada dez crianças (ou adolescentes) já se perguntaram, alguma vez na vida, por que diabos têm de se sujeitar a eventuais desmandos (justos ou injustos) dos pais se nunca, em momento algum, pediram para nascer. Nessa idade, até o início da adolescência, a simples contrariedade da vontade leva qualquer infante a espernear, lançar-se ao chão, gastar a voz ou simular falta de ar… Mas algo parece implodir qualquer possibilidade de resposta diante da maior das injustiças, que é a rejeição justamente de quem nos trouxe ao mundo. No filme, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne conseguem colocar nos olhos de Cyril toda a impaciência, insegurança, confusão e revolta que esta implosão poderia provocar. O ator-mirim é um gigante. Como numa contrapartida, os diretores devolvem à criança a bicicleta que seu pai tentou vender para juntar dinheiro – e se livrar do último lastro que ainda o ligava ao filho. Pegue qualquer propaganda comercial pensada para o Dia dos Pais e não faltará uma imagem de criança sendo treinada, orientada, incentivada pelo pai a aprender a andar sozinha de bicicleta, talvez o momento da vida em que a relação pai e filho represente melhor a tensão do rompimento familiar. De um lado, o medo de cair; de outro, o de que alguém caia e se machuque; de um lado, a crença de que é possível se distanciar em segurança; do outro, a confiança de que não haverá queda – e que, caso haja, alguém maior estará de prontidão. É uma aflição dupla, mas em sintonia. Não se sabe onde estava Guy quando o filho aprendeu a andar de bicicleta – ofício que exige, de antemão, equilíbrio e confiança, como na vida. Não é por acaso. Como não é por acaso o fato de que algo sempre acontece quando Cyril interrompe sua caminhada a duas rodas e pisa no chão, deixando a bicicleta à própria sorte, do lado de fora dos estabelecimentos. No alto da sua confusão infantil, é como se admitisse ser capaz de se manter de pé apenas enquanto houvesse impulso, ainda que lhe faltasse o apoio original. Mas as regras escapam da sua compreensão, e de sua possibilidade de interferir no destino que lhe foi reservado por quem decretou sua sorte antes que pudesse crescer, aparecer, se impor. Porque para crescer, aparecer, se impor (e ter voz e vez) é preciso o mínimo de confiança de que alguém em algum momento estenderá a mão – alguém para se mostrar o desenho quando acabamos de rabiscar o papel, ou mostrar (ou esconder) o boletim no fim do bimestre, ou perguntar como as estrelas seguem no alto sem jamais se espatifar no chão. Em sua busca irracional pelo pai, a criança descobre desde cedo que – seja pelo chicote, seja indiferença – a justiça humana tem instrumentos próprios e que não somos convidados a manejá-los. Mas descobre também espasmos de solidariedade de quem acena com o mínimo de humanidade num caminho que é, por si, um rastro de desencontros. * Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.

1 Literatura

Projeto sobre literatura trabalha a autoestima de alunos do ensino fundamental em São Paulo

São Paulo – Um jeito lúdico de ensinar literatura está mudando para melhor a vida de muitos estudantes de escolas públicas na zona leste da cidade de São Paulo. A Academia Estudantil de Letras (AEL) é uma estratégia pedagógica que tem dado tão certo que começa a ser levada agora para cidades vizinhas e já atravessou a divisa do Estado. Inspirada na Academia Brasileira de Letras, a AEL foi criada, em 2005, na Escola Municipal Padre Antônio Vieira, no Jardim Nordeste, na região de Artur Alvim, bairro da zona leste da capital paulista, onde 18 escolas da rede municipal de ensino fundamental já contam com a metodologia. Nessas instituições, 85 estudantes fazem parte de 61 cadeiras literárias. Uma unidade da Academia já foi implantada, inclusive, no Rio Grande do Norte, disse a idealizadora do projeto, Maria Sueli Fonseca Gonçalves, atual assistente técnica de Educação da Diretoria Regional de Educação, órgão da prefeitura de São Paulo. Ela explicou que a ideia é despertar no aluno o interesse pela escola trabalhando a sua autoestima. “O que nós buscamos é um conceito de inclusão, de trabalhar a autoestima, mostrar o potencial de cada um. Já pudemos ver casos de alunos, que toda semana tínhamos de chamar os responsáveis por causa de seus atos de indisciplina, mudarem o seu comportamento”, disse. “Tentei criar uma maneira lúdica de incentivar em crianças e jovens o amor pela leitura. Na medida em que eles leem os livros, imitam personagens, refletem sobre as ações desses personagens e, com isso, estão pensando na própria vida”, explicou. Nas unidades, os alunos também são estimulados a conhecer a vida e a obra de autores que vão dos clássicos de séculos passados aos contemporâneos. As aulas ocorrem uma vez por semana e a maioria tem idade entre seis anos e 14 anos, mas são admitidos também estudantes mais velhos do curso Educação de Jovens e Adultos. A reportagem da Agência Brasil acompanhou uma das aulas conduzidas pela professora Ana Carolina D’Almeida e Silva, da Escola Municipal Padre Antônio Vieira, no dia em que o escritor apresentado aos alunos foi o poeta Manoel de Barros, que completou 95 anos de idade no dia 19. “Vejam como ele busca inspiração nos elementos do dia a dia”, explicou a professora para os alunos ao analisar uma das poesias do poeta que vive em Mato Grosso. Edição: Aécio Amado. * Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Marli Moreira, da Agência Brasil
Foto: Aline Scarso/Brasil de Fato USP

A universidade e a polícia que não queremos

Em meio a ocupações de prédios públicos, protestos, violência policial e distorções midiáticas, os debates sobre o convênio entre a USP e a Polícia Militar acabam esvaziados e deixam de lado aspectos estruturais essenciais. [caption id="attachment_34863" align="alignleft" width="300" caption="Manifestação dos estudantes da USP contra o convênio da universidade com a Polícia Militar - centro de São Paulo - 11/11/ 2011. Foto: Aline Scarso/Brasil de Fato"][/caption] No dia 8 de novembro, a Polícia Militar (PM) entrou no campus Butantã da Universidade de São Paulo (USP) com o objetivo de cumprir o mandado de reintegração de posse do prédio da Reitoria que havia sido invadido por um grupo de estudantes, os quais protestavam contra a presença da PM no campus. A abordagem policial a três estudantes com um cigarro de maconha alguns dias antes foi mero estopim para os protestos e, infelizmente, acabou por ocasionar julgamentos rasos que tomaram como representativa de todo o movimento estudantil a ação de alguns grupos; ou que consideraram que os questionamentos à PM seriam fruto de um anseio pelo livre consumo de drogas dentro do campus. No entanto, muito antes da onda de protestos que tem sido noticiada, estudantes, funcionários e professores já questionavam se o convênio entre USP e PM, firmado em setembro após a morte de um estudante dentro do campus, seria a real e mais efetiva solução para os problemas de segurança da USP. E mais, muito antes de tudo isso ser notícia e da triste morte do aluno, já se queixavam sobre o tratamento dado à questão da segurança na USP e no Brasil. No caso da Universidade, reivindicavam um aumento do efetivo da Guarda Universitária, melhor iluminação, maior circulação de ônibus noturnos e, dentre outras ações, maior utilização dos ermos espaços do campus pela comunidade. Mas, em meio a numerosas e distorcidas notícias, em uma sociedade permanentemente tensionada, os debates sobre o convênio entre a USP e a PM se esvaziaram; e questionamentos relativos à estrutura de ambas as instituições foram sobrepostos por insuficientes e estigmatizadas análises circunstanciais. [caption id="attachment_34864" align="alignright" width="300" caption="Foto: Aline Scarso/Brasil de Fato"][/caption] Além dos "ideológicos" Concomitantemente à ação de reintegração de posse do prédio da Reitoria, no começo de novembro, o efetivo da PM cercou todos os oito blocos do Conjunto Residencial da USP (Crusp), localizado próximo à Reitoria, mas sem nenhuma ligação ao objetivo do mandado. A ação foi notícia em alguns meios de comunicação, mas não teve a mesma publicidade que outros eventos relativos ao tema(1). Além de impedir, com esse cerco, que moradores saíssem para suas atividades acadêmicas e profissionais, a polícia disparava balas de borracha em direção ao chão quando alguém se aproximava do perímetro estabelecido. Mais do que isso, bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas nos andares térreos – os quais são residência prioritária para moradores com filhos – em quantidade suficiente para que a fumaça ascendesse aos pisos superiores. Atesta-se o quão problemáticos são o preparo e a prática dessa polícia que acabou por violar direitos fundamentais dos moradores do Crusp, cerceando sua liberdade de ir e vir, e atentando contra a saúde dos mesmos ao lançar tantas bombas de gás lacrimogêneo. Optaram por se valer de balas de borracha quando dentro da Universidade. Fora da USP, no entanto, num bairro pobre ou favela, não podemos estar certos que apenas ostentariam o pesado armamento que dispõem. E não podemos mesmo. Relatórios da Ouvidoria da própria Polícia de São Paulo apontam que mais de uma pessoa foi morta por dia em São Paulo por um policial militar entre 2005 e 2009, o que corresponde a um número de mortes 6,3% superior às cometidas por todas as polícias dos Estados Unidos juntas(2). As estatísticas são inúmeras e só atestam que a estrutura e a cultura organizacional da PM – as quais remontam ao regime militar – sustentam e cultivam ações violentas por parte de seus agentes, que, mal remunerados, são treinados para desumanizarem a si mesmos e àqueles com quem interagem em suas missões. O questionamento, dentro e fora da USP, à instituição e à atuação da Polícia Militar não se restringe e nem se restringirá, portanto, aos “ideológicos” – como tem afirmado o reitor da USP, João Grandino Rodas(3). O compromisso real com os direitos humanos é imperativo e, no caso dos agentes de Estado, é fundamental. Na imprensa e na Universidade muito se discute e se estuda sobre o tema. Nos cursos de direito e relações internacionais, especialmente, esta pauta é recorrente. Quando há alguma violação em um país distante, não há grandes dificuldades para fazer uma crítica a qualquer abuso de autoridade. Por que, então, é tão difícil fazer uma crítica semelhante quando essas violações ocorrem no quintal de nossas salas de aula? Por que os grandes meios de comunicação e dirigentes da Universidade omitem ou relativizam os acontecimentos? A despeito das reflexões até aqui desenvolvidas e tantas outras questões relevantes, pouco se fala sobre a atuação da PM. O argumento central na defesa do convênio entre esta e a USP é o de que não se pode tratar a Cidade Universitária como algo que está fora da cidade de São Paulo. Este argumento é compartilhado pelo governo do Estado de São Paulo e a própria Reitoria; afinal, a USP faz parte do território paulistano, paulista e brasileiro. Mesmo sendo uma autarquia, a Universidade e seus estudantes não estão “acima da lei” – como pontua o governador Geraldo Alckmin(4). Autonomia seletiva Se a Cidade Universitária está sujeita a todas as leis municipais, estaduais e nacionais e deve ser tratada como qualquer outra parte do território, por que ela se fecha – material e intelectualmente – ao resto da sociedade? A mesma Reitoria, que agora afirma a não soberania da USP, teve o poder, há alguns anos, de vetar a construção de duas estações do metrô, que no projeto inicial da Linha 4-Amarela estariam em localidades de interesse público, como em proximidade ao Hospital Universitário localizado no interior do campus Butantã da USP. A USP virou uma terra de autonomia seletiva. Na hora em que convém a determinados interesses, há sim bastante autonomia para afastar a “gente diferenciada” que viria de metrô para dentro dos muros da Universidade. Mas na hora em que não interessa, a autonomia some e “o campus é parte da cidade”. O discurso da segurança serve ora para defender o segregacionismo, ora para defender a integração, mesmo em casos que evidentemente contrariam o interesse público e a função social da Universidade. Seria realmente desejável que os que defendem a integração da Cidade Universitária por meio do convênio com a PM fizessem-no em tudo mais. Isto porque o campus da USP não deixará de ser uma “ilha” por causa de um convênio com a polícia. Deixará de sê-lo no dia em que não for hostil aos que não possuem carteirinha de identificação de aluno, funcionário ou professor. Deixará de sê-lo quando o Jardim São Remo, comunidade pobre localizada ao lado da USP, deixar de ser visto como antro de criminalidade ou fonte de mão de obra para os serviços terceirizados da Universidade, e seus moradores passarem a ter seu direito sobre aquele espaço reconhecido, assim como qualquer outro cidadão, e possam interagir com a universidade de maneira franca e ser, inclusive, parte da USP. Afinal, o sentido da autonomia é justamente possibilitar que a Universidade se afirme enquanto bem público de maneira independente às intempéries estatais. A USP deixará de ser uma “ilha”, acima de tudo, quando o conhecimento lá produzido não atender apenas às demandas do capital privado – o que é legítimo, mas de modo algum suficiente. O papel da Universidade deve superar o ensino e a pesquisa, uma exigência estatutária da própria USP, que se sustentaria sobre o tripé ensino, pesquisa e extensão. Sendo esta última sustentáculo compreendido como o diálogo horizontal entre o conhecimento universitário e o restante da sociedade e seus saberes, é no mínimo contraditório impedir intercâmbios físicos e intelectuais, ainda mais com comunidades tão próximas como a já mencionada São Remo. Mais do que uma questão de espaço e jurisdição, está em debate, portanto, o caráter público da USP. É preciso desvincular as discussões recentes de casos pontuais e associá-las a algo muito maior. No limite, as principais discussões não devem ser o convênio entre USP e PM em si, mas a maneira como este se deu e como são tomadas todas as decisões relevantes da política universitária, dentre as quais este convênio é só mais uma; e a maneira como a PM se estrutura e atua em todo o país. “Estruturas non gratas” Recentemente, a Congregação da Faculdade de Direito da USP declarou o reitor João Grandino Rodas “persona non grata”, em face dos problemas incontestáveis de suas gestões enquanto diretor da Faculdade de Direito e agora como reitor. Este é, sem dúvida, um passo importante, mas é fundamental entendermos que o reitor, que está sob investigação do Ministério Público, encontrou na estrutura da própria Universidade as possibilidades para assim atuar. Mais do que uma “persona non grata”, há na USP toda uma “estrutura non grata”. Ao contrário do que afirma a Reitoria, o convênio USP-PM não foi decidido por uma “ampla maioria”, simplesmente porque nenhuma decisão importante na USP é tomada de maneira democrática. Novamente reina a autonomia seletiva: a Universidade não está acima da lei quando se trata de polícia, mas segue desrespeitando determinações de leis federais, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no que tange aos seus processos deliberativos. Não à toa, a Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social da capital instaurou, neste ano, um processo para apurar irregularidades na eleição da Reitoria e na disposição dos assentos dos docentes em órgãos colegiados constituintes do colégio eleitoral. Para se ter uma ideia, a eleição para reitor na USP, em sua etapa mais ampla (ou menos restritiva), possui um colégio eleitoral que corresponde a menos de 2% da comunidade universitária, que elege uma lista com oito candidatos. Na etapa seguinte, dessa vez com cerca de apenas 0,3% da comunidade da USP, esta lista é reduzida a três nomes, que são encaminhados ao governador do Estado de São Paulo, o qual escolhe entre eles o novo reitor. Fica a pergunta: onde estão a autonomia e a democracia nesse processo? As instituições USP e PM parecem precisar de “aulas de democracia”. É curioso que o governador do Estado de São Paulo tenha recomendado tais aulas somente aos estudantes da universidade(5). Não é à toa que, juntamente ao questionamento à Polícia Militar, está entre as pautas do movimento estudantil a demanda por mais democracia na estrutura da própria Universidade. Isto porque a estrutura decisória na qual o convênio de segurança foi firmado já é em si problemática. O acordo foi aprovado pelo Conselho Gestor do Campus da Capital, órgão ainda mais restrito do que o Conselho Universitário – principal órgão deliberativo da USP e pelo qual o convênio nunca passou – e cuja representatividade de alunos, funcionários e até mesmo dos professores que não ocupem cargos burocráticos de destaque é ínfima. Além disso, debater a estrutura decisória da USP se mostra fundamental em outras questões, como no caso dos processos administrativos contra os estudantes, que pelo regimento disciplinar de 1972(6) são instituídos e usados como forma de repressão e controle político. Advêm do mesmo problemático engenho institucional as iniciativas que ilham o ensino e a pesquisa desenvolvidos dentro da USP, na qual os cursos pagos e os convênios com grandes empresas são as únicas formas de diálogo com a sociedade. Será que nenhum dos tantos núcleos de pesquisa e extensão da USP(7) – ou mesmo estudantes, professores e funcionários –, que direta ou indiretamente debatem a questão da segurança, criminalidade e organização do espaço, não produziram nenhum material útil à problemática do convênio? Ou será que sequer foram considerados na aprovação do mesmo? Não fosse seu aparato institucional-burocrático tão antidemocrático e arcaico, a USP talvez estivesse mais permeável à sociedade como um todo e a si mesma; e quem sabe se configuraria, inclusive, como espaço de proposição de novas práticas para o factual problema da segurança. Enquanto a “maior Universidade da América Latina” apresentar dispositivos regimentais do período da ditadura militar e estiver isolada da sociedade física e intelectualmente, e a Polícia Militar paulista ostentar em seu brasão uma estrela referente à Revolução de Março de 1964(8), o debate não poderá se restringir a elementos conjunturais. Não se trata de três estudantes e um cigarro de maconha. Não se trata de um movimento de ideológicos. Tampouco esta é uma questão nova. Se agora o tema está em todos os jornais, caberia aproveitar a oportunidade para ampliar o debate, pois segurança, isto é consenso, todos queremos. É chegado o momento de reconhecer que ambas, USP e PM, apresentam “estruturas non gratas” que devem ser debatidas e, no mínimo, modificadas. Certamente, não é essa a Universidade e nem essa a polícia que queremos. Notas (1) Recomendamos o relato de um estudante e morador do Crusp, intitulado Tratamento Especial. Disponível aqui. (2) Em cinco anos, PM de São Paulo mata mais que todas as polícias dos EUA juntas. Disponível aqui. (3) Só os "ideológicos" serão contra PM no campus, diz reitor da USP. Disponível aqui. (4) Ninguém está acima da lei, diz Alckmin sobre conflito na USP. Disponível aqui. (5) Para Alckmin, estudantes precisam de "aula de democracia". Disponível aqui. (6) O reitor à época era Gama e Silva, ministro da Justiça do regime militar que anunciou o AI-5. (7) Destacamos, por exemplo, o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) e o Núcleo de Consciência Negra (NCN), que possuem, dentre tantos outros, grande acúmulo sobre o tema. (8) O brasão da Polícia Militar paulista possui 18 estrelas representativas dos marcos históricos da corporação, que englobam eventos como a campanha militar a Canudos e o referido golpe de 1964, dentre outros. * Leonardo Calderoni e Pedro Charbel são estudantes de Relações Internacionais da USP. ** Publicado originalmnete no site Le Monde Diplomatique Brasil.


por Leonardo Calderoni e Pedro Charbel*
1 Língua Portuguesa

Sobre erros de grafia

Quase todos acham que cometer erros de grafia é o fim do mundo, um sinal de ignorância. Mas não são erros mais graves do que outros (os contábeis, principalmente). Além disso, em geral, esses erros são excelentes pistas para aprender sobre a língua e sobre o sistema de escrita. Primeiro, o sistema de escrita: a chamada escrita alfabética não é nem fonética (um símbolo para cada som) nem fonológica (um símbolo para cada fonema). Em uma escrita fonética, “tio” teria tantas grafia quantas fossem as pronúncias [(t) ou (tch) no começo, (o) ou (u) no final, fora os sons intermediários]. Uma escrita fonológica implicaria que escrevêssemos /caza/ (ou /kaza/) em vez de “casa” e /sinema/ em vez de “cinema”. A escrita fonética de “final” seria (final) ou (finau) ou (finaw), conforme a pronúncia, mas a fonêmica seria sempre /final/ (como prova o “l” em “finalidade”). E como escreveríamos “peixe”? Foneticamente, (pexe) ou (peixe) ou (peyxe) – estou sem um bom símbolo para o som que escrevemos com “x” ou “ch”. Fonemicamente? Hoje, /peixe/. No futuro, quem sabe seja /pexe/. Crianças aprendendo a escrever, adultos com pouca escolaridade ou prática, e cronistas anteriores às leis ortográficas fazem, todos, o mesmo tipo de escolhas. Digamos, para simplificar, que cometem os mesmos tipos de “erros”. Empregam grafias diversas e juntam palavras que os mais experientes (ou os mais recentes) separam. Analistas apressados podem chegar a diagnósticos severos (por exemplo, de dislexia) em relação a esses escreventes. Mas, de fato, trata-se apenas de: a) instabilidade do sistema ortográfico (casa/caza; borracha/borraxa); b) de grafias baseadas na pronúncia, que é variável (menino/mininu), em hipercorreção (se “peixe”, por que não “badeija”; se “menino”, porque não “menistro”; se “final”, porque não “degral”?). Para um aprendiz, convenhamos, não é nenhum desastre. Um aluno que comete estes erros, evidentemente comete erros. Afinal, a grafia correta está definida em lei! Mas seus erros não são devidos à falta atenção ou a algum tipo de déficit cognitivo. Podem, ao contrário, ser resultado de hipóteses inteligentes, embora erradas, e de generalizações que não deveriam fazer, mas que, na fase de aprendizagem em que estão, são comuns e demonstram independência intelectual e inventividade. Em um texto famoso de Mattoso Câmara sobre o assunto, uma análise chama particular atenção. O linguista encontrou diversas grafias para a palavra “silvou” (no ditado de “a serpente silvou”). Elas são devidas especialmente à instabilidade do “l” em sua relação com “u” em final de sílaba e de “u” em sua relação com “o” em posição átona: silvou, silvol, siuvou, siovol, etc. A pronúncia é sempre a mesma, é importante observar. O caso mais interessante é silivou. Diz Mattoso Câmara que o acréscimo de “i” depois de “l” é uma manobra do aluno (de 12 anos!!!) para manter o “l”. Sua explicação: como, já que o “l” flutua em final de sílaba [é pronunciado (l) ou (u)], mas é fixo no começo, ao colocar uma vogal depois dele, o aluno garante que o “l” esteja em começo de sílaba e, assim, não se vocalize (não se “confunda”) com “u”. Que diferença poder ler uma análise de quem conhece o assunto!!! * Sírio Possenti é professor associado no Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-Unicamp), onde coordena o Centro de Pesquisa Fórmulas e Estereótipos: Teoria e Análise (FEsTA), estuda corpora humorístico, jornalístico e publicitário (especialmente as pequenas frases). Publicou Discurso, Estilo e Subjetividade, Os Humores da Língua, Por Que (Não) Ensinar Gramática na Escola, Os Limites do Discurso: Questões para Analistas do Discurso, Língua na Mídia, Malcomportadas Línguas, Humor, Língua e Discurso (Contexto). Traduziu, entre outros trabalhos de Dominique Maingueneau, Gênese dos Discursos. ** Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Sírio Possenti*
1 Ciência e Tecnologia

O mundo virou um bairro

Em diferentes listas sobre as pessoas mais inovadoras do mundo, aparece o engenheiro Salman Khan, que há pouco tempo ganhava a vida no mercado financeiro até que, por acaso, descobriu um talento. Para ajudar uma sobrinha com dificuldades nas lições de matemática, ele postou vídeos na internet. Mais simples impossível: apenas sua mão rabiscando uma lousa. A experiência familiar se espalhou: hoje é a maior sala de aula do mundo, com três milhões de alunos aprendendo ciências nas mais diversas línguas, inclusive em português. Um software ajuda o aluno a aprender no seu próprio ritmo. Para completar: tudo de graça. As aulas são usadas tanto numa vila rural da Índia como nos bairros abastados dos Estados Unidos e da Inglaterra. Estive, na semana passada, com Salman Khan, ex-aluno de Harvard, um jovem ainda com traços de adolescente, que reuniu um grupo de educadores para explicar seus planos. Contava, com entusiasmo juvenil, sem nenhum esnobismo acadêmico, como estava ajudando a fazer do mundo uma sala de aula. Inventores do futuro como ele me submeteram, neste ano, a uma terapia intensiva de humildade, na qual temos de aprender a conviver com a nossa insignificância, por melhores que nos consideremos. O encontro coincidiu com a semana de encerramento do meu primeiro ano em Harvard, onde vim desenvolver um projeto de jornalismo comunitário. Continuo nessa incubadora de projetos sociais no próximo ano, mas a maior parte do tempo em São Paulo, também em colaboração com o Media Lab (MIT). Foi nesse encontro com Salman que defini o que vivi por aqui: uma terapia intensiva de humildade. Ele conseguiu transformar uma lição de casa familiar num projeto global porque teve a ajuda de outro ex-aluno de Harvard e inventor do futuro. Bill Gates, que estava usando aquelas aulas gratuitas para ensinar matemática a um filho, decidiu investir no projeto. As pessoas associam Bill Gates à criação de produtos de informática, mas isso é pouco em comparação com o que ele vem fazendo ao estimular inovadores como Khan. Em sua fundação, Gates está gastando bilhões para desenvolver soluções contra a pobreza, especialmente vacinas. Uma das vacinas que ele ajudou a desenvolver conseguiu reduzir pela metade a morte de crianças com malária na África. A terapia de humildade intensiva não se restringe ao campus de Harvard, mas estende-se à cidade de Cambridge, onde está o MIT. Nessa pequena cidade, está a maior concentração de ganhadores do Prêmio Nobel por metro quadrado. Comendo uma pizza, você pode estar ao lado do cientista que criou o sal de reidratação oral, responsável por salvar milhões de vidas, ou do médico que descobriu que se pode ser um fumante passivo. Talvez esteja lá Tim Berners-Lee, também morador de Cambridge, o inventor da combinação de três letras que mudou nosso cotidiano: www. Pode-se encontrar numa festa ou num parque o idealizador do projeto Genoma ou aquele que é considerado o pai da inteligência artificial. Talvez também o inventor do e-mail. Neste ano em que estou aqui, vi nascer um centro de pesquisas cuja tarefa era encontrar melhores tratamentos para o câncer (ou a sua cura). Juntaram no mesmo prédio médicos e engenheiros. Num centro de pesquisas biológicas, conseguiram rejuvenescer um rato e ali se cultiva a hipótese teórica da imortalidade. Pode-se duvidar da imortalidade, mas o tal ratinho está lá. Acompanhei a articulação, comandada por Harvard, de uma biblioteca universal, com todo o conhecimento relevante produzido pela humanidade – tudo gratuito. Nesse ambiente, em que o cotidiano é feito de inventores do futuro, inconformados com as limitações do presente, não dá para saber se aquele ou aquela jovem num banco de jardim, lendo um livro, será um futuro presidente dos Estados Unidos ou do Chile, a primeira mulher a dirigir um país africano, um ganhador do Prêmio Nobel da Paz ou o inventor de uma Microsoft ou de um Facebook. Ou ainda se, como Salman, filho de imigrantes de Bangladesh, vai fazer do mundo uma sala de aula. PS – Muita gente, vinda de muitos lugares, passa por aqui, seja estudando, seja gerando conexões planetárias. Senti, muitas vezes, que o mundo, de tão próximo, parecia um bairro. Como este espaço é limitado para compartilhar meu aprendizado, preparei um pequeno e-book, com base nos meus textos deste ano, intitulado “O Ano em que o Mundo Virou um Bairro”. Está disponível na internet (www.catracalivre.com.br). * Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, comentarista da rádio CBN, e fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz. ** Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Gilberto Dimenstein*
1 Brasil

Alunos analfabetos

No primeiro semestre deste ano, aplicou-se a Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) em turmas de alunos que concluíram o 3º ano do ensino fundamental, em todas as capitais do país. Uma iniciativa do movimento Todos pela Educação com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). O resultado é alarmante. Constatou-se que 43,9% dos alunos são deficientes em leitura e 46,6% em escrita. Ou seja, são semialfabetizados. Não captam o significado do que leem e redigem uma simples carta com graves erros de sintaxe e concordância. Quanto à leitura, quase metade (48,6%) dos alunos da rede pública correspondeu ao resultado esperado. Na rede de escolas particulares, o desempenho foi bem melhor: 79%. No item escrita, tiveram bom resultado apenas 43,9% dos alunos da rede pública. Na rede particular, 86,2% dos alunos se saíram bem em redação. Os índices demonstram que, no Brasil, a desigualdade social se alia à desigualdade educacional. Alunos da rede pública, oriundos, na maioria, de famílias de baixa renda, não trazem de berço o hábito da leitura. Seus pais possuem baixa escolaridade e o livro não é considerado um bem essencial a ser adquirido, como ocorre em famílias de renda mais elevada. De qualquer modo, é preocupante o fato de alunos, tanto da rede pública quanto da particular, não atingirem 100% de alfabetização ao concluir o 3º ano do ensino fundamental. O que demonstra falta de método de alfabetização, embora esta seja a nação que gerou Paulo Freire. Uma criança que, aos oito anos, tem dificuldade de leitura e escrita, sente-se incapaz de lidar com os textos de outras disciplinas escolares, o que prejudicará seu aprendizado. Uma alfabetização incompleta constitui um incentivo ao abandono da escola ou a uma escolaridade medíocre. É hora de se perguntar se a progressão automática, isto é, fazer o aluno passar de ano sem provar estar em condições, é uma pedagogia recomendável. Com certeza, no futuro, o adulto com insuficiente escolaridade não merecerá aprovação automática em empregos que exigem concurso e qualificação. Priscila Cruz, do Todos pela Educação, frisa a importância da educação infantil (creches, jardim da infância, etc.) para dar à criança uma boa alfabetização. Para que se desperte na criança a facilidade de síntese cognitiva, é importante que ela comece a ouvir histórias ainda no ventre materno. O Brasil é um país às avessas. A Constituição de 1988 cometeu o erro de incumbir a União do ensino superior, o Estado do ensino médio, e o Município do ensino fundamental. Ora, uma nação se faz com educação. E a base reside no ensino fundamental. Dele devia cuidar o MEC. Nenhum governo implementou, ainda, a revolução educacional sonhada por Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire e tantos outros educadores. Como acreditar que apenas quatro horas de permanência na escola são suficientes para uma boa educação? Por que os alunos não permanecem de seis a oito horas por dia na escola, como ocorre em tantos países? No Brasil, 10% da população adulta é considerada analfabeta. No Chile, 3,4%. Na Argentina, 2,8%. No Uruguai, 2%. Em Cuba e na Bolívia, 0%. Outros fatores que contribuem para a semialfabetização são o desinteresse dos pais pelo desempenho escolar do filho e o longo tempo que este dedica à TV e a navegar aleatoriamente na internet. Nessa era imagética, há o sério risco de se multiplicar o número de analfabetos funcionais ou de alfabetizados iletrados, aqueles que sabem ler, mas não interpretar um texto, e muito menos evitar erros primários na escrita. O governo deve à nação uma eficiente campanha nacional de alfabetização, inclusive entre alunos dos 3º e 4º anos. Para isso, há que ter método. Há vários. Quem se interessar por um realmente eficiente, basta indagar do deputado Tiririca como ele se alfabetizou em dois meses, a tempo de obter seu diploma na Justiça Eleitoral. * Frei Betto é escritor, autor de Sinfonia Universal – a Cosmovisão de Teilhard de Chardin (Vozes), entre outros livros. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Frei Betto*
1 Ciência e Tecnologia

A USP e o Itaquerão

Um dos projetos mais interessantes para o futuro da cidade de São Paulo está no papel há muito tempo. É um parque tecnológico, ao lado da USP, juntando universidade, centros de pesquisa e empresas. Imaginem o número de inovações (e empregos) que poderiam ser geradas, aproveitando o fato de que a USP é considerada a melhor universidade da América Latina e forma anualmente centenas de doutores. Todas as grandes cidades do mundo têm a preocupação de estimular a inovação, gerando empregos que foram perdidos para sempre com a debandada da indústria. Já existem cidades brasileiras que investem nesse foco. O Rio está criando, por exemplo, um parque tecnológico apenas para desenvolver inovações em torno do petróleo. A cidade de Nova York abriu uma concorrência para entregar um terreno a uma grande universidade que estimule a inovação e gere empregos. A principal candidata é Stanford, uma das responsáveis por nada menos que o Vale do Silício, na Califórnia, o centro da mais criativo de tecnologia da informação. Não dá para entender (exceto pela lerdeza dos poderes públicos, no caso o governo estadual, responsável pelo parque tecnológico) por que um projeto tão relevante não sai do papel. Daí se vê como funciona a agenda do poder. O Itaquerão (apenas um estádio de futebol) recebe muito mais atenção e apoio do que um parque tecnológico que poderia ajudar a moldar uma cidade e desenvolver o Brasil. Bastaria um pouco, um pouco só, da velocidade do Itaquerão, envolvendo governos estadual e municipal e empresários, para que esse parque de invenções funcionasse rapidamente. É uma aula de agilidade. O projeto do parque tecnológico ao lado da USP até avançou: não está só papel, já tem a pedra fundamental. Espero estar errado, mas a minha sensação é de que a Copa do Mundo pode até ajudar os políticos e alegrar a população, mas vai dar muito mais prejuízos do que benefícios. * Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo, comentarista da rádio CBN, e fundador da Associação Cidade Escola Aprendiz. ** Publicado originalmente no Portal Aprendiz.


por Gilberto Dimenstein*
1 Mídia

A USP, a Tropa de Choque da Polícia e a Tropa de Choque da Mídia

Mais uma vez, a USP, a maior e mais famosa universidade do país, se vê às voltas com a polícia. Verdadeira operação de guerra, com Tropa de Choque, cavalaria, bombas, estilhaços, sobrevoo de helicópteros. Mais de 400 homens para retirar cerca de 70 estudantes que tinham ocupado a reitoria, em uma manifestação de protesto contra a presença da PM no campus da universidade. O que de fato aconteceu por estes dias? Para responder a esta pergunta, é preciso primeiro externar, sem complacência, o quão estarrecedor é perceber o teor predominante da informação à qual a população de todo o país tem tido acesso. O que a maioria saberá sobre os acontecimentos, e que poderá ser introjetado pela memória coletiva, é a versão gravada e ventilada pelos grandes veículos de comunicação. A Folha e o coro em uníssono Nem é preciso gastar tempo com semanários a la Veja e assemelhadas, cujo sensacionalismo associado a um raciocínio tacanho e primário já está por demais manjado e desmascarado por todos que pensam em jornalismo com um mínimo de respeito e seriedade. Basta olhar para a Folha de S.Paulo, afinal, o órgão de mídia impressa mais lido no país, como faz sempre questão de anunciar em suas páginas, gabando-se com frequência de tal façanha e de sua pretensa isenção e progressismo. Editorial da sexta-feira, 4 de novembro, antes portanto da ação da PM na reitoria, é notório em sua visão monocórdia a defender, quase exaltar, a presença da PM no campus.  Os estudantes que ocuparam a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) são tidos como “grupelhos situados na mais extrema franja da esquerda”. O citado editorial, este mesmo que utiliza as expressões “grupelhos” e “extrema franja da esquerda”, critica ainda um tal “excesso de susceptibilidade ideológica” por parte daqueles que ainda associariam a presença da PM no campus com traumas advindos da ditadura. Com este vocabulário, é o caso de questionar de quem seria realmente o tal excesso de susceptibilidade ideológica. Conclui finalmente o editorial que “quem agride a democracia, o ensino e a pesquisa na USP é a paranoica minoria que invadiu a reitoria, no intuito de provocar um confronto que só atende às suas pueris fantasias de contestação”. São muitos, além de bastante reconhecidos, os intelectuais e estudiosos que poderiam contribuir para enriquecer este olhar enviesado sobre a realidade uspiana. Estivessem os editorialistas realmente preocupados com o princípio da isenção que tanto pregam, estariam com os ouvidos mais atentos para as diversas facetas que conformam a complexa situação hoje vivida pela universidade. E não para por aí o diário dos Frias. Na segunda feira, dia 7 de novembro, uma tropa de choque jornalística antecedeu a tropa de choque da PM que atuaria na USP na madrugada de terça. Para ficar em alguns casos mais exemplares, o colunista Vinícius Mota carrega no verbo ao questionar “grupelhos semialfabetizados e violentos que impõem a sua agenda sem encontrar resistência à altura” na FFLCH, desqualificando sem piedade o desempenho da faculdade nos dias de hoje. Acusa-a de se deixar encantar “por um bordão do passado, mera forma sem conteúdo, quando clama pela saída da PM do campus”. No entanto, são as próprias linhas traçadas por Mota, com sua virulência patente, que causam uma certa confusão temporal: estariam mesmo sendo escritas na atual e tão aclamada “democracia”? Outro colunista que, neste mesmo dia, 7 de novembro, escreve sobre os episódios uspianos é o colaborador semanal das segundas-feiras, o filósofo Luiz Felipe Pondé. Entrar em algum tipo de discussão mais pormenorizada e edificante sobre o episódio que se desenrolou na USP esteve bem longe do espectro de preocupação do filósofo. Os “baderneiros” – como foram cunhados os estudantes da FFLCH – são nada mais do que parte daquilo que o filósofo toma como um “partido mundial de jovens”, abraçados pela “mídia ideológica, cansada do marasmo desde maio de 1968 (aquela ‘revolução francesa’ dos estudantes entediados que acabou numa noite gostosa de queijos e vinhos)”. Last but not least, a Folha não se fez de rogada após consumada a invasão policial na madrugada de terça-feira, 8 de novembro. Até algum tempo atrás, provavelmente estaria mais antenada em cravar uma no ferro e outra na ferradura, em função das cenas truculentas protagonizadas pela polícia de São Paulo, que foram mostradas para todo o país. Entretanto, manchetes e matérias da quarta-feira, 9 de novembro, não evidenciaram a menor preocupação com uma cobertura que tivesse o mínimo de isenção. Desde a capa do diário, até as páginas internas, os estudantes foram exaustivamente chamados de invasores, baderneiros e pichadores, com imagens selecionadas a dedo de forma a corroborar esta visão. Não é, ademais, gratuito que o caderno a fazer a cobertura dos episódios tenha sido o de Cotidiano. Esse caderno, que no passado já foi denominado de Cidades, há tempos vem se tornando um espaço de discussões gerais, rasteiras e apelativas, sem se aprofundar no tratamento da cidade a partir de um enfoque urbanístico e social mais elaborado. A “grande” emissora de TV E se estamos no âmbito dos grandes veículos, tome-se ainda a exploração dos fatos aqui narrados pela mídia televisiva de maior porte no país. A Rede Globo de Televisão, em uma de suas apresentações mais imediatas após a ocupação da reitoria (o Bom Dia Brasil de 8 de novembro), teve desempenho emblemático. Não se absteve de explorar as fortes imagens dos policiais que cercaram a USP, afinal, um prato cheio para a audiência. Quem se ateve à observação destas imagens, com a concomitante narração dos fatos pelos repórteres que os acompanhavam in loco, não teria dúvidas de que se estava diante de um cenário de dura repressão policial. Mais ao final da reportagem, porém, viria a fala que não quer calar – aquela que, no intuito de parecer ocupar um lugar inadvertido, é a que realmente ecoa o pensamento da emissora global. A jornalista Renata Vasconcelos, uma das locutoras da reportagem juntamente com Chico Pinheiro, soltou finalmente as trivialidades que não mais surpreendem aqueles mais antenados com as entrelinhas da mídia corporativa. A jornalista enfatizou, indignada, que a reitoria teria sido invadida “por causa de três estudantes que foram detidos porque estavam de posse de maconha”. E encerrou a reportagem com sutil torcida para que, se comprovado o vandalismo, os alunos sejam responsabilizados! Fatos e versões fora do páreo “Acreditar que alunos de uma das faculdades mais importantes do país se mobilizaram numa ação que ganhou tamanha proporção por desejarem usufruir do direito ainda ILEGAL de fazer uso de MACONHA dentro do campus me parecia inconcebível.” Assim se expressou uma aluna em um grupo de discussão de uma das muitas redes sociais que estão contribuindo para a visibilidade de uma versão que não encontra a mais mínima guarida nos veículos de maior circulação. “Antigamente, o melhor aliado das manifestações sociais era a imprensa, agora é a internet, tudo tem que ir parar no You Tube”, avalia um outro aluno diante dos episódios. Um estudante, talvez com a forte sensação de impotência decorrente da impossibilidade de ter voz, chegou até mesmo a fazer uma autoentrevista e a divulgá-la pela rede, desbancando com muita sensatez os sensos comuns que estão imperando. Dentre as perguntas que redigiu, uma se referia à presença da PM no campus, um dos pontos mais polêmicos na discussão em pauta. À afirmativa de que a PM deveria sim estar presente no campus, como meio fundamental na manutenção da ordem, o estudante avalia que “PM não traz segurança nem fora do campus. Se PM é segurança, para que empresas de segurança privadas, fazendo ronda em bairros chiques? Para que seguranças particulares, cercas, alarmes, grades, carros blindados? Isso tudo em áreas policiadas. Além disso, a PM de São Paulo mata mais que todas as polícias dos Estados Unidos juntas. Muitas áreas têm menos problemas com segurança, mas são sempre bem iluminadas e cheias de gente – este é o ponto. Alunos e professores já manifestaram soluções alternativas, como iluminação maciça e eficiente de todo o campus. O rapaz que morreu na FEA resistiu a um assalto e foi, sim, assassinado no campus. Mas, nota importantíssima: havia PM trabalhando dentro da USP naquele dia. De nada adiantou. Levar a PM em ações ostensivas por conta de furtos e roubos não faz sentido, ainda mais podendo evitá-los com uma guarda universitária concursada, com plano de carreira, treinada, em grande número, com ala feminina treinada para lidar com casos de abuso sexual e estupro”. O estudante conclui sua resposta narrando que “a ação da PM está afinada com as ações políticas do reitor João Rodas em seu processo de privatização da Universidade. Não é lenda, não é mania de perseguição, não é inventado. Lutamos contra algo real aqui. Propostas de fechamento de cursos que não dão lucro, abertura de cursos pagos usando a infraestrutura e os docentes da USP, tudo isso faz parte da privatização gradual – que também se manifesta nas terceirizações (que, aliás, no caso da guarda universitária, colabora com os sumiços de celulares, laptops, etc.)”. Quem se dá ao trabalho de “navegar” por aí, e fugir, por pouco que seja, do noticiário do mainstream, vai perceber de fato uma profusão de visões profundamente dissonantes daquela que é bombardeada incessantemente pela mídia corporativa. São dezenas de estudantes, professores e intelectuais que, notoriamente ignorados nos noticiários de maior visibilidade, há anos avaliam temas essenciais afeitos à política universitária. Com o sentido de reorganizar a universidade como campo efetivo de participação e decisão política, estes estudiosos vêm ressaltando que a direção e gestão dos processos decisórios na USP têm se mostrado incapazes de representar os segmentos diversos que compõem a universidade, e de lidar com a profusão de conflitos e movimentos sociais e políticos que emergem em seu seio. E isso não é de hoje. Conselho universitário, associações e distintos fóruns de discussão foram sendo esvaziados nos últimos anos, com o estreitamento e a centralização das instâncias de decisão. O governo do Estado, por sua vez, dominado há mais de 20 anos pelo tucanato, jamais demonstrou sequer entender o que seja o conceito de autonomia universitária. Por que a resposta policial se tornou a forma natural de reação? É a pergunta que já se fazia a filósofa Marilena Chauí em ato contra a presença da PM na USP, em 16 de junho de 2009, no anfiteatro da Geografia, na FFLCH, com presença de Antônio Cândido e de Maria Victoria Benevides. A resposta a esta pergunta está diretamente associada à falta de fóruns de discussão e debate, que faz com que, a cada manifestação de oposição, exigência e reivindicação, a única reação que se conheça seja aquela que “vem de cima”. A prisão dos mais de 70 alunos que ocuparam a reitoria em ato de manifestação política – prisão que se deu em moldes bem distintos daqueles apregoados pelos veículos de comunicação dominantes, segundo relato de dezenas de estudantes – é um ataque frontal à liberdade nesta que se chama democracia representativa. Novamente, “governo do Estado e reitoria entraram no jogo da radicalização, da violência e do acirramento do conflito, sem esforço de construção de uma estratégia política menos tosca, que efetivamente expressasse a vontade das maiorias, que não foram consultadas”, destaca a urbanista e professora da USP Raquel Rolnik em seu blog no dia 10 de novembro. Tempos sombrios Uma Comissão da Verdade que de verdadeira tem quase nada. Um deputado carioca que precisa sair do país para proteger sua vida, após bulir com os interesses de poderosos milicianos do Rio. Tropa de Choque da Polícia Militar na USP, prontamente seguida pela Tropa de Choque Midiática. Tempos sombrios estes que vivemos, em plena primavera nos Trópicos! Com a palavra final, um estudante “Quinta-feira (dia 10 de novembro, no centro de São Paulo), éramos mais de cinco mil demonstrando que não é uma minoria que se indigna na USP. Mas onde estavam as câmeras e agentes da TV que NÃO filmaram tudo ali? A grande mídia ordena o pensamento assim como o governador ordena à polícia invasões de favelas, massacres do Carandiru e invasões policiais no campus da USP. Disciplinam sua mente, brutalizam e ganham muito dinheiro e poder com isso...”. * Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Valéria Nader, do Correio da Cidadania
Favela da Rocinha. Desenvolvimento

Rocinha tem escolaridade média de 5,1 anos

[caption id="attachment_33981" align="alignleft" width="300" caption="Favela da Rocinha."][/caption] Rio de Janeiro - A Favela da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, tem indicadores sociais que revelam que seus moradores contam com condições trabalhistas superiores às das demais comunidades carentes da cidade. Por outro lado, a escolaridade média da Rocinha é a mais baixa de todas as regiões administrativas do Rio, com 5,1 anos de estudo. A média da cidade é 8,4 anos. No Complexo do Alemão fica em 5,4 anos e na Cidade de Deus, na zona oeste, em 6,4 anos. Segundo um novo cruzamento de dados desenvolvido pelo economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Censo das Favelas de 2010, do governo do Estado, e outros levantamentos da própria FGV, a principal carência de quem vive no local é a de serviços públicos. “Vários dados sobre acesso a serviços públicos mostram que a Rocinha é uma comunidade particularmente precária no que diz respeito à presença do Estado em todas as suas dimensões. Se por um lado vemos boas oportunidades de trabalho e de renda, por outro, as taxas de acesso a serviços como recolhimento de lixo, calçamento de ruas, escoamento de esgoto, entre outros, são muito baixas”, disse à Agência Brasil. Ele destacou que o cruzamento de dados permite observar que 23,7% dos moradores consideram boa ou ótima as oportunidades de trabalho que encontram no mercado. A taxa é bem superior à de moradores do Complexo do Alemão, na zona norte, outra comunidade pacificada do Rio, que é de 5,2%; e à da comunidade de Manguinhos, também na zona norte, onde o índice foi 4,7%. Os dados também revelam, segundo Neri, que 27% dos moradores da Rocinha consideram que o recolhimento do lixo é bom ou muito bom na comunidade. No Alemão essa proporção chega a 58% e em Manguinhos, a 49%. A percepção da população sobre o serviço de escoamento de esgoto também é melhor no Complexo do Alemão, onde 53% o classificaram como bom ou muito bom. Na Rocinha essa avaliação foi mencionada por apenas 33% dos moradores. O pesquisador acredita que os bons resultados relativos às oportunidades de emprego, quando comparados aos de outras favelas cariocas, podem ser explicados pela proximidade com bairros da zona sul. “Muitos moradores da Rocinha trabalham nos bairros onde há circulação de recursos. São as empregadas domésticas, os garçons e porteiros da zona sul”, enfatizou. Neri destacou, no entanto, que a localização da favela também evidencia a enorme desigualdade social existente na região. “A Rocinha é o grande símbolo da desigualdade carioca. Lá, ela é visível a olho nu porque a favela se estabelece em uma área onde há riqueza”, ressaltou. Para ele, a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) pode gerar uma “revolução” na qualidade de vida local, porque abre caminho para que o Estado cumpra seu papel em áreas onde antes não era possível. “A estratégia das UPPs é ventilar a área, eliminar locais onde a população e o Estado não podiam circular. Com essa possibilidade, a partir de agora, é preciso que o Poder Público entre com força para mudar essa realidade.” Edição: Rivadavia Severo. * Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Thais Leitão, da Agência Brasil
1 Reflexão

Você não me quer como aluno da USP

Um grande amigo pediu minha opinião sobre os acontecimentos recentes na USP. Agora longe de São Paulo, quis saber como alguém da USP, e além disso da FEA, vê toda essa situação. Realmente de longe fica difícil entender. Temos de passar por uma cortina de fumaça criada pelos mais diversos meios de comunicação, é bem verdade. No entanto, não posso me colocar em uma posição de esclarecimento dos fatos, por si só. Já existem relatos suficientes para isso, de alunos que estavam nas assembléias ou no momento da invasão. Já existem também diversas análises interessantes sobre o que aconteceu. Estou somente na posição de falar como um aluno da USP, que ao mesmo tempo é da FEA, ou seja, um monstro formado por ambiguidades. Sou aluno da FEA. Trabalho durante o dia, 10, 12, até 14 horas por dia. Estudo à noite. Ou melhor, vou às aulas quando posso. Como trabalhador, pago meus impostos. Como somente vou à USP para assistir às aulas e nunca depredei o chamado patrimônio público, sou um bom beneficiário dos cidadãos que com seus impostos pagam por minha educação. Não sou "vagabundo", não fumo maconha no campus. Mas você não me quer como aluno da USP. Fazendo o que eu faço atualmente, estou simplesmente colocando seu precioso dinheiro no bolso. Com o conhecimento que adquiro nas salas de aula, faço uso somente em meu benefício, pois consigo um emprego melhor, um bônus melhor no final do ano, mais lucro para meu empregador. Mas ainda assim muitos acham que me querem como aluno da USP. Como alunos da USP, aqueles que participaram e participam das assembleias, aqueles que invadiram e invadem reitorias, estão, permitam-me, fazendo o que se espera de um aluno da USP. A Universidade é o lugar onde se questiona, onde se reflete sobre nossos problemas, onde se ensina e onde se aprende. A Universidade é o lugar para indignar-se, para pensar em um mundo melhor. Utópico? É este o papel da Universidade: proteger o pensamento crítico que vai mudar o mundo. O que os vagabundos fizeram foi justamente trazer a atenção para diversos problemas que enfrentamos atualmente. Com a escolha unilateral do atual reitor, temos o fantasma da ingerência. Com as ações friamente calculadas do atual reitor, que desqualifica os protestos dos estudantes manipulando (ou seria compactuando?) a mídia, trazendo a atenção para a camiseta de marca, para a depredação (que, sabemos todos, não existiu), temos o fantasma da perseguição, da tentativa de tornar-nos todos dormentes. Com os gritos de "vagabundo" e "maconheiro", mergulhamos no abismo do debate raso sobre as drogas em nossa sociedade. Com os gritos de "mimado" e "playboy", nos perdemos na escuridão que é o debate da segurança pública. Quem você quer como aluno da USP são justamente eles, e não eu. São aqueles que gozando de sua juventude, são revolucionários, sabem que seu papel é pensar em maneiras de mudarmos para melhor, e não aqueles que veem a universidade como um instrumento de formação de técnicos, que mais tarde, como arquitetos, não se perguntarão quantas casas faltam em nossos países, como bem disse Allende. São aqueles que defendem uma universidade livre para pensar, mas também que defendem uma sociedade livre para pensar, que da mesma maneira que não querem uma polícia que persegue estudantes, não querem uma polícia que persegue membros de uma comunidade no morro. Mas, e a invasão? Sou a favor. Apesar de ter ocorrido daquela maneira, após decisão de assembleia contra a invasão (pelo menos o que li foi que foi aprovada mais tarde, depois de uma redução drástica de quorum), aqueles alunos tiveram a coragem de se exporem e expor a situação crítica na qual nossa universidade (e a sociedade) se encontra. A coragem daqueles alunos (que não são ingênuos como muitos disseram e sabiam que seriam presos e humilhados) permitiu que meu grande amigo, admirador de Allende e Mário Quintana, pudesse discutir a universidade, a polícia e a sociedade com colegas, familiares, estudantes e trabalhadores, que de outra maneira estariam tão distantes da USP. Não desejem estudantes dormentes. Desejem estudantes sonhadores. Em tempo: os alunos da FEA, e da USP, querem segurança, o que não quer dizer que querem a Polícia Militar no campus. Os alunos possuem propostas claras e objetivas para a solução da segurança: mais iluminação (você sabia que é a política de segurança pública mais eficiente? bairros com lâmpadas amarelas são mais seguros que bairros com iluminação branca); abertura da universidade para circulação de pessoas, ou seja, maior integração à cidade (o que significa que não nos vemos como um oásis no meio da cidade); policiamento por uma guarda universitária equipada e composta por mais mulheres (queremos, sim, um policiamento independente e que possa prezar pela segurança das pessoas sem ser um instrumento de coerção, coação, repressão). Todas são medidas comprovadamente eficazes. Cabe ainda apontar, que o assassinato de nosso colega da FEA não foi a causa da PM no campus. Como? Ora, a presença da Polícia Militar já estava ocorrendo de forma mais intensiva no campus antes do ocorrido. Não se pode dizer que o número de incidentes diminuiu com a PM (a USP possui estatísticas de ocorrências: veja aqui ). A PM no campus é, sim, consequência deste ocorrido, pois foi usada para criar um embate entre bons e maus: maus são os estudantes, que querem fazer o que bem entendem no campus sem policiamento; bons são o reitor, o governador, que passaram por autoridades preocupadas com a segurança dos estudantes, "a favor da PM", dividindo o movimento estudantil e colocando a população contra os estudantes. * Cleber Pelizzon é economista, formado na Faculdade de Economia Administração e Contabilidade (FEA) da USP. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Cleber Pelizzon*
O espaço físico deve permitir a exploração de novas atividades e novos desafios. Infância

Brinquedo incentiva criatividade e comunicação nas crianças

[caption id="attachment_34100" align="alignleft" width="230" caption="Os brinquedos se tornam elementos que tornam a criança mais sociável."][/caption] Crianças que têm contato com brinquedos e jogos educativos se desenvolvem melhor. A constatação é de um estudo de caso realizado no Instituto de Psicologia (IP) da USP pela professora e psicóloga Paula de Souza Birchal. “O incentivo à exploração lúdica é enriquecedor para diversos aspectos da formação, como a criatividade e a comunicação. Não fazê-lo é privar a criança de um crescimento realmente completo”, afirma a pesquisadora. Nas creches, na maioria das vezes as professoras se assumem como responsáveis pela saúde física das crianças, mas isso não é o suficiente. Paula acredita que possibilitar o senso lúdico durante a formação é essencial para que se alcance o desenvolvimento integral dos pequenos. A pesquisa envolveu crianças de duas creches comunitárias de Belo Horizonte (MG) e mostrou os benefícios da exploração lúdica, tanto na relação entre bebês, quanto na relação entre funcionários e bebês. “Quando o bebê aperta, morde, senta, joga, enfim, explora o brinquedo, desencadeia nele o prazer de estar com aquele objeto. Essas novas sensações e experiências são fundamentais para seu desenvolvimento”, descreve Paula. As creches comunitárias investigadas têm uma logística particular de funcionamento: a prefeitura é responsável pela folha de pagamento dos funcionários, já as outras despesas são geridas pela comunidade local. No caso de Belo Horizonte, esses lugares são bastante comuns em comunidades de mulheres ou vilas, geralmente em regiões da periferia. Montagem do kit [caption id="attachment_34101" align="alignright" width="230" caption="Interação com brinquedo desencadeia o prazer de estar com o objeto."][/caption] Para sua pesquisa, Paula selecionou um conjunto de brinquedos para oferecer às crianças e promover a exploração lúdica. “Montamos um kit com quatro bolas de tamanhos e cores diversos, caixa de encaixe, chocalho, livro de banho (de plástico, para ser usado por bebês durante o banho) e potes de empilhar”. Os kits eram colocados no centro de uma sala do berçário, com os brinquedos misturados, de modo a permitir que a criança escolhesse aquilo lhe interessasse. “Havia um kit para cada criança, mas eles ficavam juntos, não havia uma distribuição individual. Uma criança poderia pegar mais de um brinquedo, por exemplo”. O fato de eles estarem misturados permite que elas expressem suas preferências. A energia dessas experiências é canalizada internamente e manifestada ao mundo externo em forma de dor, prazer, sentimentos agradáveis e desagradáveis, como também os primeiros sentimentos de sucesso e fracasso. “Na exploração dos brinquedos, elas podem compartilhar objetos e se socializar. Pode haver disputa, este também é um sentimento saudável e necessário na construção dos sujeitos”, explica Paula. O contato com os brinquedos Com a ajuda de suas alunas colaboradoras, Paula desenvolveu um método de análise que se baseava na filmagem do contato das crianças com os brinquedos. O plano piloto era inserir o kit no ambiente de berçário e estudar as reações das crianças diante daqueles novos objetos e verificar se a ludicidade era significativa nas condutas afetivas delas. A captura de imagens ia desde o momento em que a criança se via diante do brinquedo, passando pelos primeiros contatos, até o momento em que ela o abandonava e seguia para outra atividade. [caption id="attachment_34102" align="alignleft" width="230" caption="O espaço físico deve permitir a exploração de novas atividades e novos desafios."][/caption] Foram feitas dez observações, cinco em cada uma das creches comunitárias escolhidas. “Foi difícil encontrar creches que aceitassem bebês de 0 a 2 anos. Hoje, seria mais fácil porque há maior cobrança em relação ao cumprimento das leis que envolvem esta questão, mas na época em que fizemos a coleta dos dados, entre 2007 e 2008, não era comum estabelecimentos que aceitassem crianças tão novas”, conta. O material filmado permitiu a reflexão sobre uma série de pontos. As cenas que se repetiram foram agrupadas e depois analisadas. A partir disso, Paula criou um mapeamento das condutas afetivas das crianças. Ficou clara a necessidade de um esforço para que as crianças consigam se desenvolver mais e melhor. Os brinquedos são uma grande oportunidade para isso porque favorecem a expressividade. “Depois de entrar em contato com as imagens, vi o quanto privamos as crianças desse significativo desenvolvimento. A exploração lúdica abre um novo universo para todas elas.” A carência de pessoal também se mostrou evidente. “As professoras cuidam das crianças fisicamente, mas é preciso um maior preparo no sentido de trabalhar seu senso lúdico”. O espaço físico deve ser repensado de modo a permitir que as crianças explorem novas atividades e estabeleçam novos desafios. A tese de doutorado Exploração Llúdica e Afetividade em Crianças de Creche foi defendida em 2011 e orientada pelo professor Lino de Macedo, do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP. * Publicado originalmente no site Agência USP.


por Paloma Rodrigues, da Agência USP

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