Cientistas fazem balanço dos resultados da Rio+20

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Cientistas fazem balanço dos resultados da Rio+20


por Fábio de Castro, da Agência Fapesp


[caption id="attachment_63410" align="alignleft" width="200" caption="Conferência produziu forte mobilização da comunidade científica, mas texto final gerou frustração por cortar temas importantes, de acordo com participantes de workshop conjunto Biota-Bioen-Mudanças Climáticas: o futuro que não queremos. Foto: E.Cesar"][/caption] Agência Fapesp – A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) mobilizou a comunidade científica e foi palco de discussões que revelaram avanços sem precedentes no conhecimento sobre os limites do planeta – conceito indispensável para determinar uma agenda dedicada à sustentabilidade global. No entanto, nada disso se refletiu no documento final da Conferência, intitulado O Futuro que Queremos, que teve até mesmo o termo “ciência” cortado do único tópico onde aparecia com destaque, de acordo com cientistas reunidos no dia 23 de agosto no 2º Workshop Conjunto Biota-Bioen-Mudanças Climáticas: o Futuro que não Queremos – uma Reflexão sobre a Rio+20. O evento, realizado na sede da Fapesp, reuniu pesquisadores envolvidos com os três grandes programas da Fapesp sobre temas relacionados ao meio ambiente – biodiversidade (Biota-Fapesp), bioenergia (Bioen) e mudanças climáticas globais (PFPMCG) – com a finalidade de fazer uma avaliação crítica dos resultados da Rio+20, especialmente no que diz respeito às perspectivas de participação da comunidade científica nas discussões internacionais nos próximos anos. De acordo com Carlos Alfredo Joly, coordenador do Programa Biota-Fapesp, a comunidade científica brasileira e internacional se mobilizou intensamente durante a Rio+20 e chegou à Conferência preparada para fornecer subsídios capazes de influenciar a agenda de implementação do desenvolvimento sustentável. “Nada disso se refletiu na declaração final. Chegou-se a um documento genérico, que não determina metas e prazos e não estabelece uma agenda de transição para uma economia mais verde ou uma sustentabilidade maior da economia”, disse Joly à Agência Fapesp. A maior esperança dos cientistas para que a Conferência tivesse um resultado concreto, de acordo com Joly, era que o texto final reconhecesse, já em sua introdução, o conceito de limites planetários, proposto em 2009 por Johan Rockström, da Universidade de Estocolmo. A expectativa, porém, foi frustrada. “De 1992 até hoje, tivemos um grande avanço no conhecimento em relação aos limites planetários e o trabalho de Rockström já se tornou um clássico. Destacar isso no texto final poderia contribuir para uma mudança de paradigmas que definiria uma nova trajetória para o planeta. Mas isso não foi feito”, disse. Rockström, do Stockholm Resilience Centre Planetary, participou do workshop por meio de videoconferência, e apresentou palestra com o título Planetary Boundaries are Valuable for Policy. O fato do avanço do conhecimento científico não estar refletido no documento, entretanto, não deve ser usado como argumento para desestimular a comunidade científica que trabalha nessa área ambiental, segundo Joly. “Para nós que trabalhamos com a biodiversidade, a prioridade agora volta a ser a discussão sobre o veto às mudanças no Código Florestal, uma questão que ainda está em aberto”, disse. O tema da biodiversidade, segundo Joly, recebeu muito pouca atenção no documento final da Rio+20, embora seja uma das áreas em que os limites planetários de segurança já foram extrapolados. “Praticamente todas as referências a uma agenda para a biodiversidade foram cortadas do texto. O documento zero, que foi o ponto de partida para a declaração, tinha seis parágrafos sobre a biodiversidade nos oceanos, com metas e agenda, por exemplo. No texto final, são 19 parágrafos, mas nenhum deles estabelece metas ou agenda”, afirmou Joly. Conteúdo vago Paulo Artaxo, membro da coordenação do PFPMCG, destacou que as menções à questão das mudanças climáticas também foram quase nulas. “O texto final da Rio+20 tem 53 páginas, divididas em 283 tópicos. Desse total, apenas três tópicos mencionam a questão do clima. Para se ter uma ideia, há seis tópicos sobre igualdade de gênero e dez sobre lixo químico – que são temas importantes, mas não envolvem a mesma escala e urgência do problema do clima”, disse Além da escassez, o conteúdo das menções à questão do clima é muito vago, segundo Artaxo. “O texto se limita a afirmar que as mudanças climáticas estão entre os maiores desafios do nosso tempo e que o tema gera preocupação, por exemplo”, disse. Para o pesquisador, no entanto, seria ingenuidade acreditar que a Conferência poderia trazer soluções imediatas para a questão da sustentabilidade global. A oportunidade perdida na Conferência foi a de contribuir para acelerar as decisões necessárias. “O problema é enorme e envolve todo o sistema de produção que roda a economia e a política de todo o nosso planeta. Uma questão desse porte não pode ser resolvida em uma única reunião, ou mesmo em uma década. O equacionamento vai demorar pelo menos mais dez anos – o nosso problema é que não temos todo esse tempo”, disse. Para Artaxo, a Rio+20 evidenciou que o mundo se ressente da falta de governança para lidar com a questão do clima global. “Não temos entidades que possam implementar políticas globais com impacto importante na economia do planeta para enfrentar os desafios do clima. Se é difícil reduzir emissões de CO2, poderíamos tentar reduzir as emissões de metano e ozônio, por exemplo. Mas isto exige um sistema de governança que a Rio+20 mostrou claramente não existir”, afirmou. Fábio Feldman, do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas, apontou que a falta de liderança pode ter comprometido os resultados da Rio+20. Segundo ele, a Rio 92 (ou Eco-92), por exemplo, obteve mais sucesso porque na época o interlocutor brasileiro com os chefes de Estado foi o físico José Goldemberg. “Se perguntarmos aos diplomatas brasileiros, dirão que a Rio+20 foi um grande sucesso, porque para eles o importante era chegar a um documento final, mesmo que inócuo. O fato do professor Goldemberg não ser um diplomata foi um fator importante para o sucesso da Eco-92”, afirmou. Feldman afirmou que, apesar de tudo, fora da reunião de alto nível, a Rio+20 contou com iniciativas importantes, como a participação ativa do setor empresarial e a mobilização da comunidade científica para criar o programa Future of Earth. Alice Abreu, coordenadora da Iniciativa Rio+20 do Conselho Internacional para a Ciência (ICSU, na sigla em inglês), fez um balanço das atividades do Forum on Science, Technology and Innovation for Sustainable Development – o principal evento científico realizado em paralelo à conferência. “O evento teve mais de mil participantes, além de outros mil que acompanharam pela internet. Foram 11 sessões temáticas, onde 110 cientistas de 75 países discutiram temas centrais para o desenvolvimento sustentável. Houve ainda 24 eventos paralelos que congregaram cerca de cem palestrantes. Tivemos duas sessões de política científica e a sessão de encerramento foi um diálogo de alto nível entre representantes da ciência e da política”, contou. O fórum foi o palco do lançamento da Future Earth, uma iniciativa internacional de pesquisa interdisciplinar do sistema terrestre para a sustentabilidade global. “O objetivo é prover, nos próximos dez anos, o conhecimento necessário para que as sociedades possam enfrentar os riscos das mudanças ambientais e desenvolver transições adequadas para uma sustentabilidade global”, disse. Segundo Abreu, além da iniciativa concreta do programa Future Earth, o Fórum contou com debates entre os cientistas, que geraram recomendações importantes para a agenda mundial da sustentabilidade global. “Duas recomendações foram centrais: uma maior colaboração entre as ciências naturais e as ciências sociais – tema debatido em praticamente todas as sessões – e uma política científica mais integrada com outros atores, de forma a estabelecer um novo contrato entre ciência e sociedade”, afirmou. * Publicado originalmente no site Agência Fapesp.

Julia Marton-Lefèvre: “Um futuro sustentável não pode ser conseguido sem conservar a diversidade biológica”. Foto: Laurent Villerent Envolverde Rio + 20

Próximo a um ponto sem volta

[caption id="attachment_61944" align="alignleft" width="255" caption="Julia Marton-Lefèvre: “Um futuro sustentável não pode ser conseguido sem conservar a diversidade biológica”. Foto: Laurent Villerent"][/caption] Bulawayo, Zimbábue, 13/8/2012 – “Sabemos que a conservação funciona, mas precisamos de recursos muito maiores se queremos reverter a atual crise das extinções”, disse, da Suíça, a diretora-geral da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Julia Marton-Lefèvre. Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), realizada em junho, esta organização divulgou sua última atualização da Lista Vermelha de espécies ameaçadas. Segundo a relação, 19.817 das 63.837 espécies avaliadas estão ameaçadas de extinção. Os ecossistemas de água doce estão sob particular pressão devido ao aumento da população humana e à exploração dos recursos hídricos. Além disso, a pesca insustentável e a destruição de seu habitat, pela contaminação e construção de represas, ameaça os peixes de água doce. A IPS conversou com Marton-Lefèvre quando faltam poucos dias para o Congresso Mundial da UICN, que acontecerá entre 6 e 15 de setembro em Jeju, na Coreia do Sul. IPS: Um dos vários objetivos que a UICN se propôs em seu Plano Estratégico para a Diversidade Biológica 2011-2020 é que, ao fim desse prazo, se tenha conseguido evitar a extinção de espécies ameaçadas conhecidas, e que tenha melhorado seu estado de conservação. Caminha-se para o cumprimento desse plano? Julia Marton-Lefèvre: Lamentavelmente, no momento a resposta é não. Por isto, fizemos deste objetivo nossa principal prioridade na UICN. Isto não significa que não tenhamos exemplos inspiradores de sucesso em matéria de conservação. Por exemplo, por meio de nossa iniciativa Salvemos Nossas Espécies, a UICN e seus sócios já ajudaram a conservar cerca de cem espécies ameaçadas em 30 países. Sabemos que a conservação funciona, mas precisamos de recursos muito maiores se queremos reverter a atual crise das extinções. IPS: À luz do último informe da Lista Vermelha, divulgado em junho, que mostra uma grande quantidade de espécies ameaçadas de extinção, a senhora diria que chegamos a um ponto de inflexão? JML: De fato, a última atualização da Lista Vermelha da UICN apresenta um cenário sombrio: um em cada três corais, um em cada quatro mamíferos e dois em cada cinco anfíbios estão em risco de extinção. Além disso, um novo estudo divulgado nos últimos tempos concluiu que excedemos três de nove das chamadas “fronteiras planetárias”, que definem um “espaço operacional seguro” para a humanidade, o que inclui a perda de biodiversidade. Hoje estamos perigosamente perto de alcançar esses “pontos sem retorno”, mas é muito difícil prever de modo preciso quando se alcançará um ponto de inflexão até que realmente ocorra. Por exemplo, o colapso das reservas de bacalhau do Atlântico norte aconteceu na década de 1970, mas seus impactos são sentidos inclusive atualmente. IPS: O que precisa ser mudado? Nossos hábitos de consumo ou nossos esforços de conservação? JML: Sem dúvida, precisamos das duas coisas. Temos que fazer mais conservação – que é algo que funciona – e intensificá-la, e, ao mesmo tempo, precisamos combater nossos hábitos de produção e consumo para torná-los mais sustentáveis. A demanda por produtos baseados na natureza, para elaborar alimentos, remédios, roupa, apresenta-se como uma ameaça importante para muitas espécies que até agora não eram afetadas pela perda de habitat ou pela mudança climática. A natureza simplesmente não pode acompanhar nosso insaciável apetite por tudo, desde matérias-primas até animais vivos, e temos que mudar isso. IPS: Acredita que agora existe maior vontade política de frear a extinção de espécies do que, digamos, há 20 anos? JML: Há 20 anos, na Cúpula da Terra do Rio de Janeiro, os líderes mundiais assinaram o Convênio sobre a Diversidade Biológica. Atualmente, é um dos tratados mundiais mais amplamente ratificados. É difícil comparar o grau de compromisso da época com o de agora, mas há algo inquestionável: a vontade política que é necessária hoje é muito maior devido à magnitude do problema. IPS: Qual a influência do trabalho da UICN e de seus sócios? JML: Durante muitos anos, a resposta à pergunta central do impacto da ação mundial pela conservação foi tão anedótica quanto esquiva. Graças aos esforços da UICN, de sua Comissão de Sobrevivência de Espécies e de nossos mais de 1,2 mil membros em todo o mundo, agora temos evidências sólidas de que sem esforços de conservação dirigidos, a perda de biodiversidade tal como é medida pelo Índice da Lista Vermelha seria quase 20% pior. IPS: Quais desafios persistem? JML: O maior desafio agora é conseguir que todos entendam o que está em jogo: que a natureza não é um luxo, mas a própria base de nosso bem-estar neste planeta. também necessitamos fortalecer a vontade política para adotar as medidas necessárias. Como disse antes, a situação é bastante crítica, e nosso Congresso vai analisar vários destes desafios. Envolverde/IPS


por Busani Bafana, da IPS
Pescadores atracam seus barcos em uma estreita faixa de areia em Kollam, no Estado indiano de Kerala. Foto: Max Martin/IPS Ambiente

Ásia meridional com esperanças em fórmula da Rio+20

[caption id="attachment_61940" align="aligncenter" width="500" caption="Pescadores atracam seus barcos em uma estreita faixa de areia em Kollam, no Estado indiano de Kerala. Foto: Max Martin/IPS"][/caption]   Nova Délhi, Índia, 13/8/2012 – Comunidades localizadas em áreas de difícil acesso da Ásia meridional, que têm em comum um clima incerto e extremo, esperam que o interesse da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) na redução do risco de desastres tenha impacto positivo nas políticas nacionais. “Na Índia, o maior país da região, existe a esperança de que a declaração final da Rio+20, intitulada O Futuro que Queremos, se traduza em uma política nacional antes que seja tarde demais”, declarou à IPS o ex-integrante da Autoridade Nacional de Gestão de Desastres, Vinod Chandra Menon. Agora consultor de vários órgãos internacionais, Menon disse que a seca severa que assola a Ásia meridional, devido à fraca temporada de monções deste ano, deve levar os dirigentes políticos a “tomar o rumo da Rio+20” e reconhecer que as atividades humanas contribuem para a mudança climática. O documento da Rio+20, realizada em junho no Rio de Janeiro, favorece a integração dessas medidas com o planejamento e as políticas de desenvolvimento sustentável, com o fortalecimento de instituições e com uma melhoria em matéria de preparação, alertas, respostas e recuperação. “Há décadas há alertas sobre a extração imprudente da água subterrânea, porque não só diminui as reservas de forma drástica como prejudica o sensível ciclo de precipitação, condensação e recarga, com sérias consequências para a agricultura”, explicou Menon. “Não é um disparate afirmar que as dificuldades do setor agrícola, marcadas pelo suicídio de dezenas de milhares de agricultores, sejam consequência da incapacidade de traduzir o conhecimento relativo à mudança climática em políticas”, ressaltou o especialista. Segundo o analista em temas de emergência G. Padmanabhan, oficial encarregado da unidade de gestão de desastres do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em Nova Délhi, o valor da declaração da Rio+20 está no chamado por um “renovado sentido de urgência” e por “recursos adequados, oportunos e previsíveis”, para construir comunidades resistentes. “A Ásia meridional está exposta a uma variedade de riscos hidrometeorológicos e está entre as maiores prioridades da lista de medidas para reduzir riscos, especialmente no contexto da mudança climática”, acrescentou. O chamado para a redução do risco de desastres tem especial relevância para a Ásia meridional, ressaltou Padmanabhan, destacando também a importância de se integrar a redução de riscos de desastres com a adaptação ao aquecimento global. “Em lugar de apenas se concentrar na mitigação e em seus aspectos físicos, a Rio+20 convidou os países a construírem resiliência com um enfoque mais holístico”, afirmou à IPS. Este enfoque também conta com apoio específico. O Grupo Internacional de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), elaborou em 2011 o informe especial Gestão de riscos de eventos climáticos e desastres para avançar para a adaptação à mudança climática” (SREX). O documento diz que eventos climáticos extremos, e inclusive uma série de episódios não extremos, ameaçam a vida e o sustento das populações deixando as comunidades em situação vulnerável, expostas a riscos maiores. “Um clima mutável modifica a frequência, intensidade, distribuição espacial e duração de eventos climáticos, e pode derivar em episódios sem precedentes”, segundo um estudo feito este ano pela Aliança Clima e Desenvolvimento, no qual há um resumo do SREX desde um ponto de vista asiático. “Mesmo sem contar a mudança climática, o risco de desastres continuará aumentando em muitos países, pois mais recursos e pessoas vulneráveis estão expostos a extremos climáticos. Em termos absolutos, por exemplo, a Ásia tem mais de 90% da população mundial expostos a ciclones tropicais”, acrescenta o documento. O índice de risco climático (CRI) 2012, compilado pela organização Germanwatch, considera Bangladesh e Birmânia, junto com Honduras, os países “mais afetados” por um clima extremo entre 1991 e 2010. Em Bangladesh, 251 episódios nesses 20 anos deixaram uma média de 7,8 mil pessoas mortas por ano (5,51 em cada cem mil habitantes) e prejuízo de US$ 2,091 bilhões (na paridade de poder aquisitivo, PPA) em igual período. Mais de 80% das causas de morte ocorreram em 1991, quando 140 mil pessoas morreram devido a um ciclone. Na Birmânia, 33 episódios causaram a morte de 7,13 mil pessoas (14,06/cem mil) ao ano, e perda de US$ 659 milhões anuais (em PPA). O Paquistão esteve no topo da lista em 2010 pelas graves secas desse ano. Segundo o SREX, os desastres importantes afetam o desenvolvimento humano. Por exemplo, as áreas afetadas do Nepal registraram uma queda na matrícula no curso primário e um número maior de menores desnutridos. O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado da Montanha (Icimod), com sede em Katmandu, fez uma pesquisa em 2010 em 15 distritos de Butão, Índia e Nepal, dentro de um programa do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida). Segundo este estudo, as comunidades percebem uma redução nas precipitações anuais e no resultante aumento na intensidade de períodos de seca. As comunidades também notaram aumento na irregularidade e intensidade das precipitações, disse à IPS o coordenador do programa, Dhrupad Choudhury. Também registraram invernos mais quentes com queda de neve reduzida. O documento final da Rio+20 “oferece uma base para a ação”, disse à IPS o diretor-geral do Icimod, David Molden. “Nas montanhas vive apenas 12% da população mundial, e 40% depende delas de forma indireta para ter água, energia elétrica, madeira, biodiversidade, produtos específicos, recursos minerais, lazer e controle de inundações”, afirmou. O professor Saleemul Huq, do Instituto Internacional para a Mudança Climática e o Desenvolvimento, com sede em Daca, Bangladesh, explicou que “o resultado da Rio+20 em matéria de economia verde é uma promessa para Bangladesh, pois permite que o país acredite em seu próprio desenvolvimento verde”. Por sua vez, o professor J Srinivasan, presidente do Centro Divecha para a Mudança Climática, do Instituto de Ciências da Índia, afirmou que, quando as nações ricas ocidentais ficam excluídas de sua responsabilidade, todos os demais esforços enfraquecem. “O maior gargalo se verifica na postura reticente dos governantes em se conscientizarem de que o atual modelo de crescimento econômico é insustentável e se deve procurar uma forma mais sustentável”, concluiu Huq. Envolverde/IPS * Com a colaboração de Max Martin.


por Ranjit Devraj*
A Cúpula dos Povos levou 80 mil pessoas à Marcha dos Povos e mobilizou diariamente 30 mil pessoas durante a Rio + 20. Foto: Divulgação Artigo

A Rio+20 foi um tremendo sucesso! Você sabia?

[caption id="attachment_59883" align="alignleft" width="300" caption="A Cúpula dos Povos levou 80 mil pessoas à Marcha dos Povos e mobilizou diariamente 30 mil pessoas durante a Rio + 20. Foto: Divulgação"][/caption] A nova economia veio para ficar, as relações de SER do ser humano vão conduzir esse processo e a sustentabilidade vai ser a referência para o desenvolvimento. Nenhum outro evento foi tão impactante, em todos esses sentidos, como a Rio+20. O presente e o futuro socioeconômico, principalmente do Brasil, estavam ali de corpo e alma. Quem tiver qualquer relação com o mercado de trabalho ou educação precisa, urgentemente, beber dessa fonte. Mas se a Rio+20 foi tudo isso por que a maioria das pessoas não está sabendo disso? Rio de Janeiro, manhã do dia 23 de junho (sábado), um grande amigo me pergunta se vi a manchete do jornal O Globo, principal jornal do Rio. Naquele instante pensei no desafio que a editoria teria para escolher dentre as centenas de encontros maravilhosos do dia anterior ou um fechamento, com “chave de ouro” do maior e melhor evento sobre a humanidade dos últimos tempos e principalmente sobre o foco dos recursos humanos diante do desenvolvimento sustentável. Quando segurei a capa do jornal, entretanto, não consegui acreditar no que via: “Paraguai cassa presidente e pode ser expulso do Mercosul.” Aquilo não podia ser verdade! Fiquei com muita vergonha! Uma vergonha alheia, que dói! Como isso foi acontecer? Os responsáveis serão expulsos do jornal? Do Rio? Do Brasil? Ainda atônito, recebo o jornal do dia anterior, sexta 22, principal dia da Rio+20 e a manchete ... “Impeachment relâmpago pode cassar presidente do Paraguai”. Que mídia é essa? No dia seguinte voltei para casa e comecei a encontrar com pessoas que se surpreendiam quando lhes relatava alguns dos momentos extraordinários da Rio+20. Os comentários eram de que achavam que não tinha sido tão bom. Houve até alguns que chegaram a acreditar que foi um fracasso. Matrix? O episódio do jornal é bem simbólico para ilustrar o que está acontecendo. Não se deixe enganar: a Rio+20, como um todo, foi um tremendo sucesso. O que lamentavelmente não funcionou, mas já amplamente esperado, foi a direção da ONU e do governo brasileiro. O importante é que isso não representou mais do que 1% do que foi a Rio+20. A ONU vem sendo protagonista de inúmeros fracassos e negligências aos direitos humanos que fundou essa instituição. Vexames como os casos recorrentes de abusos das tropas de ocupação nos países “necessitados” ilustram a atual ineficácia da ONU. O governo brasileiro vem, sistematicamente, tomando decisões contrárias à sustentabilidade. Da vergonha que passamos com o Código Florestal (essa mancha ficará para sempre na História) à redução das Áreas Protegidas e do entorno dessas Unidades de Conservação deixam claras suas intenções. Por isso não deveria haver expectativas de que se produziria algo de útil. O resultado foi um retrocesso que nos leva para os anos anteriores a 1987 onde se firmou os objetivos no relatório de Brundtland (nosso futuro comum). O ato simbólico desse disparate foi a nossa presidente adiar a data do evento de 5 para 20 de junho. Foi em 5 de junho de 1972 que se fez a primeira conferência da ONU (Estocolmo) e partir daí essa data se transformou no dia mundial do meio ambiente e data das próximas conferências. A Eco 92 foi nessa data, a Rio+10 (Johanesburgo) também e a Rio+20 deveria ter sido. A razão da mudança, aparentemente, foi por causa do aniversário da coroação da Rainha Elizabeth... pode? Fica ou não fica clara a importância que o nosso governo deu a esse evento. Mesmo tentando desmobilizá-lo de todas as maneiras não conseguiu. A principal razão foi que os líderes: empresariais, economistas, da sociedade civil, do terceiro setor, educadores, cidadãos, artistas, das ONGs, ativistas e personalidades do mundo inteiro aderiram ao chamado da Nova Economia e fizeram centenas de encontros, palestras, workshops que resultaram no maior e melhor evento sobre Sociedade, Economia, Política, Negócios, Educação e Sustentabilidade do mundo. Esse foi o maior evento da ONU. O Rio de Janeiro ficou lotado de cidadãos do mundo todo e, pela primeira vez, não foi por causa do carnaval nem do futebol. Como é possível acreditar que... “não foi nada”? Fábrica de conteúdo Pessoalmente, nunca aprendi tanto em tão pouco tempo e terei ainda muitos meses pela frente para ver, ouvir, ler, conversar e absorver uma pequena parte do que foi a Rio+20. Para cada “preciosidade” que eu participava, havia pelo menos mais duas ou três que estava “perdendo”. Para participar de tudo que vivenciei naqueles dias, teria de viajar pelo mundo todo, por pelo menos uns dois anos. Só na Cúpula dos Povos, um dos principais espaços da Rio+20 havia centenas de palestras, encontros e workshops acontecendo simultaneamente. O Forte de Copacabana (Humanidade 2012) abrigou mais algumas dezenas de eventos e personalidades internacionais. Só o encontro dos prefeitos das Megacidades (C40) já gerou resultados imediatos (foi demais). O Parque dos Atletas reuniu outra centena de protagonistas mundiais com stands, palestras, mesas de trabalhos, workshops e encontros gerativos. A Arena da Barra participou com outras centenas de palestras, conversas, workshops e discussões. Foi uma verdadeira fabrica de conteúdo e inovações. Foi lá que acompanhei as discussões do Instituto Ethos, desdobramento da conferência na semana anterior. Imperdível para todos os empresários! O Instituto Ipê, entre muitas contribuições, apresentou o novo REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) do Earth Institut (Columbia University)... foi sensacional! No Hotel Windsor Barra teve o mais incrível encontro de empresários “Corporate Sustainability Forum” que deixou claro que sustentabilidade não é só para os grandes, mas para toda cadeia produtiva. Ou seja, afeta todo e qualquer negócio. Surpreendeu pelo número de participantes. O Rio Centro teve mais de 50.000 inscritos! Aconteceram centenas de sessões, diálogos, palestras, mesas de trabalho e workshops. Estava todo Mundo lá! Aquele vexame gerado pelo encontro dos chefes de estado e as reuniões preparatórias tiveram pouca importância frente a todo resto que ocorreu no Rio de Janeiro. Além de tudo isso teve também centenas de eventos paralelos, como o do Rotary Club, realizados pela cidade toda. Vi e ouvi pessoas absolutamente maravilhosas como Ignacy Sachs, Ricardo Young, Mario Mantovani, Aron Belinky, Oded Grajew, Don Melnick , Vandana Shiva, Marina Silva (https://vimeo.com/44634884), Neca Setubal, Valter Behr, Virgilio Viana, Leonardo Boff, Ricardo Carvalho, Jeffrey Sachs, Alexandra Reschke, Guilherme Leal, Eduardo Rombauer, Edgar Gouveia Junior e muitos, muitos outros! Portanto, apesar da mídia, acredite que a Nova Economia veio para ficar, as relações de SER do ser humano vão conduzir esse processo e a sustentabilidade vai ser a referência para o desenvolvimento. Entender claramente esses três princípios é uma questão de sobrevivência para quem tem um papel no mercado de trabalho. * Alan Dubner é conectado com mídias sociais, educação para sustentabilidade e pensamento sistêmico.


por Alan Dubner*
Amazonia Artigo

Rio+20 e a economia de 2020

[caption id="attachment_59072" align="alignleft" width="300" caption="Amazônia. Foto: Galeria de Andre Deak/Flickr"][/caption] Em 1973 um filme alertou para os ricos da degradação ambiental em 2020. Soylent Green, dirigido por Richard Fleisher e estrelado por Charlton Heston e Edward G. Robinson, mostrou uma megalópole com 40 milhões de pessoas em um mundo degradado e sem condições de produzir alimentos para todos. Oceanos mortos e fazendas protegidas como caixas fortes completam o cenário da trama policial para desvendar o assassinato de um alto executivo da empresa Soylent, que fabrica biscoitos com os quais as pessoas se alimentam. A trama se desenvolve ao redor do biscoito verde (Soylent Green), que dá título ao filme, mas que em português foi traduzido para “O Mundo de 2020”. Esse biscoito, de proteínas, deveria ser fabricado de algas marinhas, mas os oceanos estão morrendo e não tem mais capacidade de alimentar a humanidade... O cenário é de fato catastrofista. Na época de seu lançamento, com 16 anos, comecei a pensar no que seria a mundo de 2020, principalmente porque o personagem de Edward G. Robinson, que morre no filme em uma cena memorável de eutanásia (e que de fato o ator morre duas semanas depois de terminar as filmagens), teria nascido no mesmo ano que eu, em 1956. Portanto, aquele poderia ser um olhar ao meu próprio futuro. Esse talvez tenha sido o principal incentivo para que me dedicasse, em minhas atividades profissionais, ao jornalismo econômico, às questões ambientais e ao desenvolvimento de um olhar sobre as possibilidades do futuro. Quase 40 anos depois de ter assistido Soylent Green em uma sala de cinema na av. Paulista, em São Paulo, passei um mês no Rio de Janeiro assistindo a apresentações, diálogos, debates e todo tipo de atividades na Conferência das Nações unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Por mais que se diga que essa conferência rendeu poucos frutos, ninguém em sã consciência pode negar a importância das mais de 3 mil reuniões da sociedade civil e da academia, além, é claro, das reuniões de governo, para a construção de uma base de consciência para as transformações na economia global nos próximos anos. O Mundo de 2020 ainda não chegou e há instrumentos disponíveis para que nunca chegue. O cenário de degradação ambiental irreversível e de insensatez capaz de alimentar as massas com proteína humana é tão inaceitável sob o ponto de vista ético que governos, empresas e sociedade civil devem seguir dialogando em busca de soluções. A economia de 2020 deve ser capaz de alimentar cerca de 8 bilhões de pessoas em todo o planeta e estar preparada para abrigar mais um ou dois bilhões ainda neste século. O Mundo pós Rio+20 Existe uma certa “ressaca” de discussões, investimentos e projetos ambientais e de sustentabilidade neste pós-Rio+20. Empresas, governos e sociedade civil pagaram alto para garantir suas presenças e suas vozes nos milhares de fóruns, salas e manifestações que sacudiram o rio de Janeiro. Os próprios cariocas, anfitriões do evento, olham em perspectiva com um certo ar blasé, como quem abriu as portas aos convidados, mas não participou da festa. Por todo lado se fortalece a tendência do derrotismo de argumento fácil, de que nada aconteceu de importante, que nada se decidiu de relevante e de que tudo não passou de um gigantesco palco para um dramalhão protagonizado por toda a humanidade. Essas bobagens estão por trás de manchetes de jornais e revistas escritas por pessoas que não querem se dar ao trabalho de analisar os fatos. Os fatos mostram avanços e perspectivas de continuidade nos trabalhos que não podem ser ignorados. As maiores cidades do mundo, reunidas no C40, se comprometeram a investir em uma economia de baixo carbono e em mobilidade mais sustentável para seus habitantes; Até 2014 o mundo terá uma outra métrica de desenvolvimento que deverá ser expressa nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que vão substituir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio; empresas por todos os países estão buscando melhorar suas performances em sustentabilidade e as bolsas de valores, como a BM&FBovespa, estão cobrando de seus associados que façam relatórios de sustentabilidade; pela primeira vez os Oceanos estiveram no centro de uma conferência deste porte e a biodiversidade ganhou um destaque inédito nos debates sobre desenvolvimento. No entanto, apregoar o fracasso e seguir fazendo como sempre é muito mais fácil. No Brasil os debates sobre o modelo elétrico, a exploração e uso do pré-sal, a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos e os modelos urbanos estão na pauta da mídia, das empresas, dos movimentos sociais e do governo. A grande dilema para a transformação do modelo econômico não é porque faltam alternativas, mas sim porque a resiliência do atual modelo é muito forte. É mais fácil dizer e até mesmo acreditar que não há alternativa, do que arregaçar as mangas e trabalhar em diversos caminhos que estão ai propostos para empresas e governos. A Economia da 2020 A Economia de 2020 não será fácil de se compreender e soluções únicas não servem mais a todos. O poder local deve ganhar não apenas força, mas competência para gerir questões relacionadas ao desenvolvimento local e à criação de cadeias de valor capazes de identificar a aproveitar potencialidades únicas. Grandes empresas devem abandonar a atitude imperial diante de seus fornecedores,  empregados e clientes e passarão a compreender seu papel enquanto gestoras de redes de relacionamento capazes de criar valor em todas as suas pontas através de modelos de negócios muito mais livres e transparentes. O mundo do século XXI é tão diferente do modo de vida do século XX, como aquele foi de seu antecessor, o século XIX. Mas estas diferenças somente são percebidas em perspectiva. Por exemplo, um cidadão em 1912 pouca diferença veria entre seu modo de vida naquele momento e o que havia vinte anos antes, em 1892. Então vejamos:  em 1912 a indústria do petróleo se firmou como uma das principais atividades econômicas do século XX, assim como a indústria automobilística, que lançou as bases de uma das mais impactantes transformações da economia mundial. O petróleo praticamente arrancou a humanidade de rincões da idade média e a lançou na era espacial. Em 1912 essa revolução não era perceptível no cotidiano das pessoas. Em 1892 qualquer um que pensasse em abandonar a criação de cavalos para charretes para investir em motores a combustão seria classificado como imprudente. Entre 1992 e 2012 dois saltos tecnológicos foram dados pela humanidade, o primeiro no campo das comunicações, com a entrada em cena da internet, da telefonia celular e de suas ramificações por cabo, wireless e satélites. A segunda, acoplada à primeira, assim como os automóveis e o petróleo também se desenvolveram de forma simbiótica, é a indústria da informática, com seus computadores cada vez mais potentes e portáteis. Capacidade de computação, de armazenamento e de processamento de dados aliado à interconectividade universal são as sementes de uma economia mais inteligente no século XXI. Uma que ainda está em gestação. A aqueles que acham que o tempo entre 2012 e 2020 é curto demais para grandes mudanças, vale lembrar que em 1912 o mundo vivia a chamada Belle Époque , com sua aristocracia boêmia e seus sonhos românticos. Em 1914 o mundo entrou na 1ª Guerra Mundial, que até 1918 deixou 19 milhões de mortos e um novo mapa geopolítico na Europa.  As décadas seguintes  foram  absolutamente imprevisíveis sob o ponto de vista civilizatório, mas revolucionárias sob a ótica do desenvolvimento tecnológico. A 1ª Guerra Mundial marcou o fim dos impérios do século XIX, como a Alemanha do Kaiser, o Império Austro-húngaro e o império Turco-Otomano.  O Império Britânico ainda levou alguns anos definhando. A crise financeira deste início de século XXI pode estar marcando o início de uma nova geopolítica global, com o fim da hegemonia dos herdeiros da 2ª Guerra Mundial e o início de uma economia menos focada no lucro financeiro de bancos e mais alicerçada na produção de bens e serviços essenciais para oferecer qualidade de vida a 9 bilhões de pessoas. As atuais economias emergentes estão mais focadas na produção de commodities minerais e agrícolas e na oferta de produtos industrializados e serviços do que em uma roda viva financeira. As tecnologias emergentes nesse início de século fazem apostar em uma economia baseada no valor do conhecimento, da ciência e no entretenimento, em detrimento à economia da especulação financeira do final do século XX. Marcar o ano de 2020 no horizonte pode dar um excelente ponto de inflexão para um planejamento de onde queremos ir e, quando chegarmos lá, avaliarmos a trajetória e os resultados. Em uma comparação com os carros, os modelos de 1912 eram toscos, pouco mais do que carroças com motores, enquanto em 1920 havia veículos que superavam os 100 quilômetros por hora e já começavam a sofisticar em confortos. Podemos não saber exatamente como será a economia de 2020, mas de uma coisa já se tem certeza, ela não pode imitar a arte em devastação ambiental, promiscuidade social e ignomínia econômica.(Envolverde) * Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde, passou por diversas redações da grande mídia paulista, como Agência Estado, Gazeta Mercantil, Revistas Isto É e Exame. Desde 1998 dedica-se a cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, educação, desenvolvimento sustentável e responsabilidade socioambiental empresarial.


por Dal Marcondes*
futuro Debate

Mudança pela participação: a Rio+20 nos colocou como atores da nossa própria história

Diálogo multissetorial, compromissos voluntários e transformação pela educação para o consumo são os principais legados da Conferência. A agenda do consumo consciente foi central durante a Rio+20. O Akatu participou de vários debates e atividades, tanto em espaços oficiais quanto em fóruns paralelos de discussão proporcionados pela Conferência, compondo o grupo de organizações que levou o tema ao maior espaço de diálogo sobre o desenvolvimento sustentável da história. A Conferência, da qual resultou o documento O Futuro que Queremos, apresentado ao final das negociações, e que recebeu muitas críticas – muitas delas com fundamento –, cumpriu o papel de indutora do debate e da mobilização em torno do tema da sustentabilidade, criando a oportunidade de compromissos os mais variados por diversos agentes da sociedade civil e que são um ponto de partida dos mais importantes para o futuro que queremos construir. Assim, a materialização do documento O Futuro que Queremos não se dá pela sua publicação. O que se percebeu durante a Conferência foi uma intensa mobilização de todos os setores assumindo compromissos concretos para colocar em prática o desenvolvimento sustentável. As empresas, por exemplo, já se apresentam de forma a voluntariamente promover algumas mudanças em suas cadeias produtivas para que se tornem mais sustentáveis. Isso é ótima notícia, mas não é suficiente. A radicalidade necessária nessa mudança só será impulsionada pela transformação do modelo de consumo. E é do comportamento das pessoas que trata esse debate. Ao fazer escolhas de consumo, pode-se construir um novo modelo de civilização, que coloque a vida das pessoas como foco de atenção e realização, focando no bem-estar derivado dos bens e serviços disponíveis em lugar do consumo como um fim em si mesmo. Vivemos hoje em uma sociedade em que o consumo está subordinando a vida, muito mais do que a vida está subordinando o consumo. Inverter esses fatores é o grande desafio da sociedade humana. Se queremos um novo modelo de civilização, precisamos primordialmente educar crianças e jovens. Consumo é uma questão cultural. A formação dos hábitos, que conformam a cultura, se dá na infância. Esta é a fase em que se estabelecem os valores e, em função disso, é nesse período que se aprende o que será importante ou não ao longo da vida. Nesse sentido, a educação para o consumo consciente e para a sustentabilidade é o meio mais poderoso para se alcançar o desenvolvimento sustentável. Essa questão foi ressaltada como imprescindível para a transformação em todos os espaços em que o Akatu esteve presente, por chefes de Estado, CEOs de empresas, presidentes de organizações não governamentais, representantes das Nações Unidas. O desenvolvimento sustentável não é nota de rodapé na nossa história. Ainda precisa ser disseminado, aprendido, ganhar escala. Há gerações a serem educadas sobre a urgência dessa questão que é determinante para a sobrevivência da espécie humana. Essa urgência implica uma nova forma de educar que valorize a transdisciplinaridade: requer entendimento de ciência, problemas sociais, conhecimento sobre a organização das sociedades, sobre a motivação que alimenta a vida das pessoas. O Akatu trabalha há 11 anos, por meio de projetos de educação e campanhas de comunicação, para que pessoas usem o poder transformador dos seus atos de consumo consciente como instrumento de construção da sustentabilidade da vida no planeta. Na Rio+20 enxergamos possibilidades de aliança a serem feitas entre setor privado, público e sociedade civil organizada de forma a expandir o alcance da missão do Akatu para que ganhe escala e velocidade necessárias. O diálogo multissetorial fomentado pelo espaço da Rio+20 e chancelado pelos mais de 700 compromissos voluntários assinados sinaliza o novo modelo de civilização que já estamos construindo. Estamos todos no mesmo barco. Podemos e devemos – cada um de nós – contribuir para essa transformação. * Helio Mattar é presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente. ** Publicado originalmente no site Akatu.


por Helio Mattar*
Ricardo Abramovay. Ambiente

A questão dos limites e da desigualdade ficou fora da Rio+20

"Passar de quatro milhões para 6,3 milhões de automóveis produzidos anualmente, investir US$ 700 bilhões em combustíveis fósseis e outros US$ 250 bilhões em estradas, isto vai fazer certamente com que a economia brasileira cresça. Mas, será que é a melhor forma de responder às necessidades mais importantes de sua população?", pergunta o professor da USP, Ricardo Abramovay. “O conteúdo do documento final da Rio+20 é especialmente preocupante, pois reflete a resistência governamental em reconhecer que não é possível manter universalmente o pé no acelerador do crescimento econômico (ainda que sob ares verdejantes) sem comprometer ainda mais a capacidade de os ecossistemas prestarem os serviços dos quais todos dependemos”, admite Ricardo Abramovay em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, “o exemplo mais emblemático está no item referente à crise alimentar. O documento reconhece, com razão, a existência inadmissível da fome e a necessidade urgente de suprimi-la. Reconhece ainda que há recursos para isso. Mas em nenhum momento o documento diz que o sobrepeso e a obesidade, hoje, atingem mais gente do que a própria fome. Não o faz porque isso exigiria recolocar o grande desafio do sistema alimentar mundial, que não é simplesmente o de produzir mais alimentos, e sim vincular as políticas agrícolas às reais necessidades da saúde pública”, conta. Ricardo Abramovay é professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), pesquisador do CNPq e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ele é autor de Muito Além da Economia Verde (São Paulo: Planeta Sustentável/Abril, 2012). Confira a entrevista. [caption id="attachment_58654" align="alignright" width="358" caption="Ricardo Abramovay."][/caption] IHU On-Line – Numa frase, o que foi a Rio+20, em sua opinião? Ricardo Abramovay – Uma importante mobilização social, com diálogos significativos entre atores diversos, mas incapaz de fazer com que os governos atenuem a defesa dos interesses constituídos nos quais se apoiam e que explicam o uso predatório que se faz hoje dos recursos ecossistêmicos. IHU On-Line – Como avalia o papel desempenhado pelo Brasil na Rio+20, enquanto liderança global, a partir das suas expectativas? Ricardo Abramovay – O Brasil reafirmou trunfos reais (referentes à sua matriz energética e ao declínio do desmatamento), mas não soube transformar estas conquistas em base para exercer uma real liderança em direção ao desenvolvimento sustentável. A solução para o documento final (cortar os pontos que estavam entre parênteses, ou seja, eliminar qualquer polêmica) mostra a imensa dificuldade em que se encontra a governança global contemporânea. IHU On-Line – Manteve-se no evento a ideia de que temas ambientais são formas usadas para impor barreiras comerciais não tarifárias? Ricardo Abramovay – Sim e este é um dos aspectos em que o Brasil poderia ter exercido liderança global de forma construtiva. É verdade que, da mesma forma que em outros países da América Latina e da África, as exportações de commodities têm um peso fundamental (e crescente) na economia brasileira. Se a opção é por não renunciar às oportunidades que estes produtos representam (o que é discutível, claro), então, no mínimo, seria fundamental uma firme declaração no sentido de que o sistema econômico mundial, hoje, não paga os custos ambientais desta exploração. Tais custos devem ser calculados e incorporados ao sistema de preços ou traduzidos em restrições, ali onde esta incorporação não for possível. Várias organizações empresariais já estão reivindicando isso. O estudo apresentado pela KPMG no final de 2011 mostra que, de cada dólar produzido na economia global, 41 centavos correspondem a custos ambientais não pagos, considerando apenas três fatores: mudanças climáticas, água e lixo. Várias organizações empresariais já perceberam que esta pode ser uma vantagem concorrencial, mas não é uma vantagem competitiva benéfica para os países que detêm estes recursos. O Instituto Ethos fez uma firme declaração nesse sentido. No encontro que ocorreu no âmbito do Humanidade 2012, no Forte de Copacabana, organizado pela Fiesp e pela Firjan, Ana Toni, do Greenpeace, conclamou o setor privado brasileiro a apoiar a ideia de desmatamento zero e não houve nenhuma manifestação de que isso seria um absurdo ou de que isso travaria o crescimento do país por parte dos empresários ali presentes. Ou seja, nivelar o comércio internacional por cima (associando-o a cláusulas socioambientais que impeçam trabalho escravo, infantil e a degradação dos ecossistemas) é vantajoso sob o ângulo competitivo. O suposto temor de que o meio ambiente seja usado como barreira não tarifária exprime o peso dos interesses ligados ao que há de mais atrasado em setores e em países dependentes de exportações que se apoiam na exploração predatória de recursos ecossistêmicos. IHU On-Line – Em que medida os grandes problemas socioambientais do Século 21 (e suas possíveis soluções) foram contemplados nas discussões da Rio+20? Ricardo Abramovay – Os dois maiores problemas socioambientais contemporâneos estão ausentes do documento final, embora estejam nos documentos que diversas agências das Nações Unidas (e não só o Pnuma), que prepararam desde 2011, em estudos das grandes consultorias globais (além do já citado da KPMG, a McKinsey e a PwC também produziram estudos importantes) e em pesquisas feitas por grandes ONGs globais (WWF, Greenpeace, Global Footprint Network, por exemplo). O primeiro refere-se aos limites. É chocante que as palavras limites e fronteiras sequer apareçam no documento final da Rio+20. Ou seja, o ponto de partida de qualquer reflexão consistente sobre o mundo contemporâneo, o fato óbvio de que há fronteiras ecossistêmicas que já foram ultrapassadas, o que ameaça a vida social, simplesmente não está no texto. E, no entanto, o setor privado, as Nações Unidas e as grandes ONGs globais convergem no reconhecimento do perigo que o desrespeito a estes limites representa para as sociedades humanas. É compreensível que Ban-Ki Moon tenha expressado sua decepção (voltando atrás, logo após): não poderia ser maior o contraste entre o documento final e o texto que os experts convocados por ele produziram, no início de 2012, para a Rio+20. Não se trata apenas de linguagem, que é muito mais fria, é verdade, num texto a ser assinado por quase 200 países do que num trabalho de um grupo de consultores: trata-se de conteúdo. E o conteúdo do documento final é especialmente preocupante, pois reflete a resistência governamental em reconhecer que não é possível manter universalmente o pé no acelerador do crescimento econômico (ainda que sob ares verdejantes) sem comprometer ainda mais a capacidade de os ecossistemas prestarem os serviços dos quais todos dependemos. O segundo problema socioambiental solenemente ignorado no documento é a desigualdade. É verdade que o termo “equitativo” aparece no documento muitas vezes e que há, ao menos, sete manifestações para que se reduzam as desigualdades. Mas tudo se passa como se a redução da desigualdade consistisse apenas em promover a emancipação social dos que se encontram na base da pirâmide, sem que, em nenhum momento, se faça menção ao poder sobre o uso dos recursos daqueles que, em todo o mundo e não só nos países desenvolvidos, respondem pela maior parte da pressão sobre os ecossistemas. O desafio da nossa geração não é apenas o fato de que hoje emitimos sete toneladas de gases de efeito estufa per capita (num total de quase 50 gigatoneladas, globalmente) e que temos que baixar este total para duas toneladas em 2050 (num total de 20 gigatoneladas, quando o mundo tiver entre nove e dez bilhões de habitantes). O desafio é que, hoje, o consumo norte-americano, em média, corresponde à emissão de 20 toneladas per capita e o do indiano a menos de duas. Por mais que a inovação tecnológica avance (e tem que avançar muito, é claro), com este nível de desigualdade, ela, por si só, não dá conta do recado. IHU On-Line – O debate sobre a redução do consumo e do crescimento, para além das inovações tecnológicas, foi contemplado na Conferência? Ricardo Abramovay – Não. O exemplo mais emblemático está no item referente à crise alimentar. O documento reconhece, com razão, a existência inadmissível da fome e a necessidade urgente de suprimi-la. Reconhece ainda que há recursos para isso. Mas em nenhum momento o documento diz que o sobrepeso e a obesidade, hoje, atingem mais gente do que a própria fome. Não o faz porque isso exigiria recolocar o grande desafio do sistema alimentar mundial, que não é simplesmente o de produzir mais alimentos, e sim vincular as políticas agrícolas às reais necessidades da saúde pública. O outro exemplo é o dos transportes e das cidades sustentáveis. Apesar do reconhecimento da importância de se fortalecerem os transportes coletivos, não há qualquer sinalização no sentido daquilo que o próprio bisneto de Henry Ford já reconheceu: é insustentável a expectativa de que a base da mobilidade contemporânea seja o automóvel individual. Por mais que se mude o combustível e mesmo com o automóvel elétrico, o uso de ferro, plástico, vidro e borracha, para produzir anualmente 70 milhões de carros, como ocorre hoje, é incompatível com algo que possa se assemelhar ao título do documento, “o futuro que queremos”. IHU On-Line – Quais foram os grandes atores, os protagonistas da Rio+20? Ricardo Abramovay – Empresas, organizações empresariais e, ao mesmo tempo, organizações não governamentais globais em diálogo com empresas, que acabaram propiciando a formulação de um amplo conjunto de propostas. Na verdade, existe uma aproximação entre estes campos sociais que, em 1992, praticamente não tinham diálogo. Mas há duas ressalvas importantes. Em primeiro lugar, neste diálogo nenhuma das partes se descaracteriza: as empresas continuam tendo como objetivo central seus ganhos privados e as ONGs continuam sendo veículos de mobilização social. Mas há um enriquecimento mútuo, uma abertura a horizontes novos nestes contatos e, por aí, chances de mudanças sociais cujo alcance não está dado de antemão. A segunda ressalva é que não se trata de propor a supressão ou o amesquinhamento do papel dos governos. Pelo contrário, por mais que haja empresas voltadas a novas formas de produção e até de consumo, são os governos que constituem os legítimos representantes da sociedade e cabe a eles a orientação estratégica deste processo. Nosso grande problema é que a ótica e o tempo dos governos parece ser ainda mais curto e mais limitado dos que os de muitas empresas, o que dificulta uma governança global voltada ao desenvolvimento sustentável. IHU On-Line – E a rediscussão sobre o PIB? Foi contemplada? De que forma? Ricardo Abramovay – Este é um dos pontos mais frustrantes do documento. O texto usa de forma recorrente uma expressão obscura (crescimento econômico equitativo) e a única menção à rica discussão sobre o PIB, objeto do relatório Stiglitz, de um relatório de pesquisadores da economia ecológica, produzido para a ONU, de trabalhos do Banco Mundial e da OCDE, é, no parágrafo 38: “reconhecemos a necessidade de medidas mais amplas de progresso que complementem o produto interno bruto”. Em primeiro lugar, estes complementos já existem e vão desde o IDH às centenas de indicadores globais, nacionais e locais de bem-estar produzidos por organizações privadas, governamentais e até associativas. Mas, sobretudo, a questão não é só de medida: a questão é saber se o crescimento econômico (agora supostamente equitativo e verde) corresponde ao futuro que queremos. Por exemplo, passar de quatro milhões para 6,3 milhões de automóveis produzidos anualmente, investir US$ 700 bilhões em combustíveis fósseis e outros US$ 250 bilhões em estradas, isso vai fazer certamente com que a economia brasileira cresça. Mas será que é a melhor forma de responder às necessidades mais importantes de sua população? É enganosa a ideia de que é preciso complementar o PIB: ele é uma medida errada a respeito do que é riqueza e a respeito da capacidade de a riqueza propiciar prosperidade. Isso foi completamente escamoteado do texto. IHU On-Line – Quais poderiam ser citados como os principais objetivos para o chamado “desenvolvimento sustentável”? Eles estiveram em pauta durante a Conferência? Ricardo Abramovay – Os parágrafos 245 a 251 referem-se a esse ponto. É positivo que sejam mencionados objetivos de desenvolvimento sustentável que devem ser “voltados à ação, concisos, fáceis de comunicar, limitados em número, globais e aplicáveis universalmente para todos os países, levando em conta realidades nacionais diferentes...”. Será formado um grupo de trinta especialistas que, em consulta com a sociedade civil e as Nações Unidas, devem apresentar um relatório para a próxima Assembleia Geral, propondo o que podem ser estes objetivos, com validade a partir de 2015. Se um documento destes conseguir estabelecer limites e horizontes de inovação para o uso do espaço carbono, da água, dos oceanos e do solo a partir de 2015, será um ganho muito considerável. * Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
c11 Envolverde Rio + 20

Cúpula sobre planejamento familiar renova esperanças

Paris, França, 11/7/2012 – A cúpula sobre planejamento familiar que acontece hoje em Londres tratará de comprometer mais recursos dos governos para salvaguardar os direitos reprodutivos das mulheres, segundo o diretor executivo do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), o nigeriano Babatunde Osotimehin. Segundo informou à IPS, a reunião pretende dar maior visibilidade ao tema e mobilizar vontades políticas e recursos adicionais para oferecer métodos de planejamento familiar a mais 120 milhões de mulheres até 2020. “Creio que o impulso mundial que criará será bom para que mulheres e adolescentes possam exercer seu direito de planejar suas vidas”, disse Osotimehin à IPS por telefone. “Já era hora”, acrescentou. O UNFPA uniu-e ao governo da Grã-Bretanha e à Fundação Bill e Melinda Gates, junto com outros sócios, para organizar a cúpula e trabalhar para essa finalidade, informou Osotimehin. Na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) o grupo de mulheres expressou sua desilusão com o documento final. “Estamos indignados pelo fato de os governos não terem reconhecido os direitos reprodutivos como um aspecto central da igualdade de gênero e do desenvolvimento sustentável no documento final”, diz um comunicado do grupo que reuniu cerca de 200 organizações de mulheres da sociedade civil. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 222 milhões de mulheres no Sul em desenvolvimento desejariam contar com métodos de planejamento familiar, mas não podem ter acesso a eles por várias razões, entre as quais questões culturais e falta de recursos humanos e econômicos. O UNFPA estima que ainda são necessários US$ 4,1 bilhões por ano para cobrir as necessidades de métodos anticoncepcionais modernos nos países em desenvolvimento. Osotimehin disse que a organização pede urgência aos doadores e aos países-membros da ONU para contribuírem no sentido de se alcançar essa quantia. “Identificamos 69 países com as maiores necessidades, e esperamos que a cúpula possa arrecadar os fundos necessários para eles”, destacou. O UNFPA disse que gasta 25% de seus fundos com programas destinados a “ajudar os governos a comprar métodos de planejamento familiar e melhorar seus serviços reordenando suas prioridades”. A agência prevê aumentar este gasto para 40%. Para concentrar maior atenção, a reunião de Londres coincide com o Dia Mundial da População, que será destinado a conscientizar sobre como administrar um mundo com sete bilhões de pessoas, uma cifra que, se for mantida a tendência atual, se prevê que aumentará pra nove bilhões em 2050. “A cúpula chamará a atenção para o fato de que a taxa de crescimento populacional não é inevitável, e isto é extremamente importante”, disse Neil Datta, secretário do Fórum Parlamentar Europeu sobre População e Desenvolvimento, uma rede política com sede em Bruxelas que participará do encontro. “O que acontece em termos de crescimento populacional está em grande parte influenciado ou determinado por nossas próprias ações. E estas, também relacionadas com o consumo, têm um impacto sobre o futuro de nosso planeta”, afirmou Datta à IPS. “Nossa tarefa, enquanto rede parlamentar, será garantirmos que haja vontade política para apoiar o financiamento de planejamento familiar nos próximos anos”, pontuou. Um dos objetivos declarados da Fundação Gates é ajudar as pessoas a se “livrarem da assistência”, e o maior acesso a métodos de controle da natalidade é uma forma de conseguir isso, segundo Melinda Gates, mulher de Bill Gates, fundador da Microsoft. “Se as mulheres têm acesso a métodos anticoncepcionais, podem salvar sua própria vida, porque sabemos que diminuirão as mortes durante o parto e também crianças serão salvas”, ressaltou Melinda Gates em uma conferência sobre desenvolvimento realizada em Paris no começo deste ano. O objetivo da ajuda é que os países sejam capazes de oferecer os serviços e os produtos corretos para seu povo, afirmou Melinda naquela ocasião. “Isto é o que leva à sustentabilidade, e é quando uma sociedade pode seguir adiante por si só”, acrescentou. Osotimehin afirmou que alguns países mostraram que as práticas culturais e religiosas não são desculpas para negar às mulheres acesso a métodos de planejamento familiar. “Quero dizer que as estratégias de maior sucesso já vistas aconteceram no que pareciam ser países muito religiosos”, enfatizou, mencionando o Brasil, um país de grande tradição católica, e o Irã, de fé islâmica, como duas nações com programas de planejamento familiar progressistas. “Trata-se do contexto, de trabalhar com os atores no terreno e com as comunidades para que entendam que o planejamento familiar é uma força liberadora que potencializa as mulheres a tomarem decisões em suas vidas, que também ajuda a diminuir as mortes maternas”, observou Osotimehin. “Não creio que alguma comunidade no mundo possa estar contra isso”, acrescentou. Além de mobilizar a comunidade, são importantes as reformas legais e os incentivos econômicos para “retificar a discriminação social e a injustiça econômica” contra mulheres e meninas, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), com sede em Paris. Em seu último Índice de Instituições Sociais e Gênero, a entidade diz que “a autonomia reprodutiva das mulheres é limitada”, pois nos países emergentes e em desenvolvimento uma em cada cinco não tem acesso a serviços de planejamento familiar. Envolverde/IPS


por A. D. McKenzie, da IPS
Entrada da Baía da Guanabara, de aparência deslumbrante, vista da ponte que une Rio de Janeiro a Niterói. Foto: Mario Osava/IPS Ambiente

Primeiros assassinatos ambientais depois da Rio+20

[caption id="attachment_57859" align="alignleft" width="300" caption="Entrada da Baía da Guanabara, de aparência deslumbrante, vista da ponte que une Rio de Janeiro a Niterói. Foto: Mario Osava/IPS"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 9/7/2012 – Longe dos pavilhões que abrigaram a conferência ambiental mais ambiciosa das duas últimas décadas, a Rio+20, uma aldeia de pescadores da região metropolitana do Rio de Janeiro mostrou que o preço de denunciar crimes ecológicos pode ser uma execução extrajudicial. A aldeia localizada na praia de Mauá, município de Magé, 84 quilômetros ao norte do Rio de Janeiro, não teve tempo de avaliar os resultados da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), realizada entre 20 e 22 de junho. Precisamente no dia 22, quando os chefes de Estado assinavam um documento questionado por sua indefinição em temas cruciais como a proteção dos oceanos, dois pescadores e ativistas ambientais que lutavam por essa causa, Almir Nogueira e João Luiz Telles não voltaram para casa. O corpo de Nogueira foi encontrado dois dias depois, submerso e amarrado ao seu barco, diante de uma praia próxima. O de Telles apareceu em 25 de junho, com mãos e pés amarrados em posição fetal, na costa de outro município próximo. Ambos tinham sinais de terem sido mortos por afogamento. “Se são homens do mar, vão morrer no mar. Este é o recado que estão enviando”, disse entre soluços Alexandre Anderson, presidente da Associação de Homens e Mulheres do Mar (Ahomar), em um ato de repúdio, no dia 29, para cobrar das autoridades uma investigação imediata. As vítimas eram membros dessa organização de dois mil pescadores artesanais que lutam contra a contaminação do mar, seu habitat e fonte de sustento de várias gerações, na Baía de Guanabara. A Ahomar denuncia os impactos socioambientais de grandes indústrias. Desde 2007, protesta contra as obras do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro, um dos maiores investimentos da Petrobras e do Programa de Aceleração do Crescimento, do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e de sua sucessora, Dilma Rousseff. A Ahomar afirma que as obras executadas pelas empresas GDK e Oceânica, contratadas pela Petrobras, reduziram a pesca em 80%, entre outros danos para a saúde humana, fauna e flora. Os pescadores sofrem ameaças e assassinatos desde que, em 2009, ocuparam com seus barcos as obras dos gasodutos submarinos e terrestres de gás natural e liquefeito e gás liquefeito de petróleo. As ameaças se intensificaram no final de 2011, quando voltaram a se mobilizar contra a decisão do Instituto Estatal de Meio Ambiente, de retomar uma proposta, descartada durante o processo de licença ambiental, de transformar um dos afluentes da baía, o Rio Guaxindiba, em uma hidrovia para transporte de equipamentos. O posto policial perto da sede da Ahomar foi desativado. Beneficiado por um programa de proteção dos defensores dos direitos humanos, Anderson tem escolta policial permanente, mas mesmo assim sofre ameaças e atentados. “Queremos preservar esse ambiente porque somos parte dele. Os pescadores são parte da Baía de Guanabara. Mas não queremos morrer respirando sua água”, afirmou Anderson. Em 2009, o tesoureiro da Ahomar, Paulo Souza, foi atacado diante de sua família e morto com cinco tiros na cabeça, como denunciou na época uma reportagem da IPS. No ano seguinte, outro fundador da organização, Márcio Amaro, foi assassinado em sua casa, na frente da mãe e da esposa. Nenhum destes crimes foi esclarecido. “É lamentável que consigamos reunir toda esta imprensa diante de mais dois cadáveres, que este seja o requisito para chamar a atenção para um problema que se arrasta há tanto tempo”, ressaltou no ato de repúdio o deputado do Partido Socialismo e Liberdade, Marcelo Freixo, presidente da comissão de direitos humanos da Assembleia do Rio de Janeiro. “Espero que na próxima vez que nos reunirmos aqui não seja pela morte de Alexandre”, afirmou indignado. Pouco depois do ato, Anderson foi novamente intimidado diante de sua casa. Desde então, não é possível comunicar-se com ele por telefone. “Já não estamos falando de insegurança, mas de pessoas que morreram em razão de sua militância, por sua legítima resistência em defesa da Baía de Guanabara”, declarou à IPS a ativista Sandra Carvalho, da organização Justiça Global. Os denunciantes pedem que as mortes, “com claros sinais de execução”, sejam investigadas pela polícia e pela justiça federal. “Peço que as autoridades investiguem muito, porque já conseguiram o que queriam. Tiraram de sua casa os homens do mar”, destacou Anderson. Depois das mortes, as embarcações não voltaram para a água. Ninguém se atreve a aventurar-se no mar, que antes era “refúgio” dos pescadores quando “algo ruim acontecia na casa ou na praia. Hoje só temos o caminho do cemitério”, lamentou. Organizações de direitos humanos não duvidam que estes sejam “crimes políticos”. Freixo disse à IPS que as empresas responsáveis pelas obras às vezes apelam para firmas de segurança que se valem de “intimidações, ameaças e até mortes”. Entretanto, o deputado e atual candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, acredita que não se trata de “mortes encomendadas” pela Petrobras. Porém, enfatizou, nem por isso a empresa “pode fingir que não tem nenhuma relação com o caso. O investimento é da Petrobras e a responsabilidade sobre quem contrata é dela”, opinou. Na Ahomar, todos sabem quem são os assassinos, contou Anderson. “São pessoas que ganham muito dinheiro com este processo de industrialização da Baía de Guanabara, com trabalhos de segurança, transporte hidroviário e terrestre. Que estão dentro do governo estadual e municipal e inclusive na segurança pública”, denunciou. Em Magé, como em outros municípios da região metropolitana do Rio de Janeiro, atuam grupos dessa natureza conhecidos como “milícias”, integrados por agentes de segurança do Estado, ativos ou aposentados, com apoio de setores políticos locais, como demonstrou uma investigação parlamentar encabeçada por Freixo. Inclusive, o deputado tem escolta policial porque recebeu ameaças em razão de suas denúncias contra essas organizações mafiosas. Diante do pedido de uma resposta por parte da Petrobras, a empresa enviou um comunicado onde diz desconhecer as mortes e repudiar qualquer ameaça aos pescadores. Também destaca que o processo de licenciamento ambiental no Brasil considera todos os impactos ecológicos e as comunidades. Além disso, “um rigoroso estudo de impactos antecede a licença dos empreendimentos e o órgão licenciador estabelece medidas compensatórias e fiscaliza sua realização”, diz o comunicado. A Petrobras é uma “empresa social e ambientalmente responsável que exige de seus fornecedores a mesma postura”, ressalta a nota. A próxima assembleia de pescadores discutirá se desiste da luta ou, ao contrário, adota medidas como interceptar a passagem de navios. A luta da Ahomar é uma batalha “dos pescadores artesanais contra o capital petroleiro”, segundo a presidente da comissão de direitos humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio de Janeiro, Margarida Pressburger. Anderson a define de outra maneira: não é Davi contra Golias, mas “contra o próprio diabo”. Envolverde/IPS    


por Fabiana Frayssinet, da IPS
O fracasso do ambientalismo como ideologia parece inevitável. Foto: Reprodução/Internet. Artigo

O fim do ambientalismo internacional

[caption id="attachment_57826" align="alignleft" width="341" caption="O fracasso do ambientalismo como ideologia parece inevitável. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] A maior conferência das Nações Unidas em todos os tempos, com mais de 50 mil participantes de 188 países, foi um fiasco. Para a maioria dos ideólogos ambientalistas, a única questão da conferência Rio+20 é se ela foi uma “piada” ou um “fracasso”. A executiva-chefe da Oxfam, Barbara Stocking, preferiu chamar de “piada” (hoax, em inglês). “Fracasso” foi o termo utilizado pelo porta-voz do Greenpeace, Kumi Naidoo. Em resposta aos resultados da conferência do Rio, mais de mil ambientalistas e grupos de esquerda assinaram uma petição entitulada O Futuro Que Não Queremos. O título é uma brincadeira com o título do documento final, O Futuro Que Queremos, acordado entre os diplomatas no encerrar da conferência. Kumi Naidoo, do Greenpeace, prometeu que agora os ambientalistas insatisfeitos se engajariam em atos de desobediência civil para buscar o mundo que desejam. Desde a Eco-92, o mundo passou por um grande desenvolvimento. Em 1992, 46% da população mundial vivia em pobreza absoluta (com renda equivalente a menos de US$ 1,25 por dia). Hoje, o índice está em 27%. Além disso, a expectativa média de vida cresceu em três anos e meio. Na Rio+20, ambientalistas e líderes de países pobres esperavam conseguir ajuda dos países ricos e receber centenas de bilhões anualmente em assistência oficial para o desenvolvimento. No entanto, a maior parte do desenvolvimento real conseguido nas últimas duas décadas não foi resultado da assistência oficial para o desenvolvimento (ou seja, do dinheiro dos contribuintes) dos países ricos para os países pobres. Na realidade, alguns pesquisadores descobriram que a assistência para o desenvolvimento, em geral, retarda o crescimento econômico e “tem impacto insignificante ou significantemente negativo na renda per capita”. Por quê? Porque em boa parte das vezes os recursos são roubados por cleptocratas que administram muitos desses países, e o resto é “investido” em projetos que não são rentáveis. Então, o que trouxe tantas melhorias aos pobres dos países em desenvolvimento desde a Eco-92? “Lembremos que nos anos 1960, a assistência oficial para o desenvolvimento correspondia a 70% do fluxo de capitais para os países em desenvolvimento. Hoje, corresponde a apenas 13%, mas, ao mesmo tempo, os recursos para o desenvolvimento cresceram”, explicou Hilary Clinton, secretária de Estado dos Estados Unidos, na Rio+20. “E o que seria isso? Bem, acho que vocês sabem. Embora tenhamos continuado a prover assistência, os investimentos do setor privado, utilizando recursos direcionados e políticas inteligentes, catalisaram um crescimento mais equilibrado, inclusivo e sustentável”. Ou seja: o caminho para o desenvolvimento é o comércio, não as ajudas. Socialismo ecológico versus capitalismo selvagem Depois de uma semana ouvindo objetivos e esperanças dos ambientalistas, uma ideia particularmente intrigante surgiu. Evidentemente, muitos participantes da Cúpula dos Povos, organizada por 200 grupos ativistas paralelamente à conferência oficial, acreditam que propriedade privada é roubo. Na versão original do marxismo, o capitalismo entraria em colapso após o acúmulo de suas contradições. Em sua atualização verde, o capitalismo entrará em colapso após o acúmulo da poluição. Para muitos dos mais engajados, a solução para os problemas ambientais é um tipo de socialismo ecológico, no qual a natureza não é “privatizada” ou “mercantilizada”. Olhando ao redor do mundo, parece que várias políticas ambientais estão deterioradas. Desde 1992, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) afirma que a biodiversidade caiu em 12%, 740 milhões de acres de florestas primárias foram cortadas e 85% de todas das reservas de peixes dos oceanos estão superexploradas, esgotadas, se recuperando, ou foram completamente extintas. Mas será que as calamidades ambientais são o resultado do capitalismo voraz? Não exatamente. O mesmo relatório aponta que 80% das florestas do mundo, as que abrigam o grosso da biodiversidade, pertencem aos governos. Na maior parte do planeta, as áreas que pertencem ao governo, na prática, não pertencem a ninguém. Essencialmente, são esses os aspectos da natureza pelos quais os ambientalistas estão se agitando. O fato é que aquilo que a maioria das pessoas chamaria de “problema ambiental” ocorre em propriedades públicas, com livre acesso. Um rio está poluído? Mas não tem dono e ninguém está preparado para protegê-lo. A floresta está sendo desmatada? O problema é o mesmo. Estão pescando todos os peixes de uma mesma área? Sim. Falta água? Também. Empiricamente, defender a expansão ou a reimposição de espaços públicos em relação a recursos ambientais é equivalente a defender a sua lenta destruição. Em geral, países com direitos de propriedade fortes veem melhoras no meio ambiente, por exemplo, quedas na poluição do ar e da água, número estável de estoque pesqueiro e expansão das florestas. Isto acontece porque os donos protegem os seus recursos já que, caso contrário, sofrerão diretamente os custos e consequências. Um segundo efeito indireto é que os países com direitos de propriedade fortes são mais prósperos e podem cobrir os cursos das regulamentações ambientais, mesmo as menos eficientes. Olhando para trás, o fracasso do ambientalismo como ideologia parece inevitável, já que ele interpretou erroneamente muitos dos problemas para os quais afirmava ter a solução. No fechamento da Rio+20,  o ambientalismo atingiu seu ponto de maré alta e agora esvazia como força política internacional. Será interessante ver em qual direção correrão agora aqueles que acalentam permanentemente um animus contrário ao capitalismo democrático. * Ronald Bailey é escritor e colunista da revista Reason. ** Pubicado originalmente no site OrdemLivre e retirado do site Opinião e Notícia.


por Ronald Bailey*
'A UE é a única a inventar a maneira de se unir mantendo o respeito às diferenças e que tem aprendido a superar seus egoísmos nacionais. Cabe a ela tomar a palavra', escreve Calame. Artigo

Rio+20: Falência da diplomacia, fraqueza da democracia

[caption id="attachment_57815" align="alignright" width="200" caption=""A UE é a única a inventar a maneira de se unir mantendo o respeito às diferenças e que tem aprendido a superar seus egoísmos nacionais. Cabe a ela tomar a palavra", escreve Calame."][/caption] Deixamos o Rio de Janeiro com o terrível mal-estar de um planeta ferido. Foram mobilizadas dezenas de milhares de pessoas e quase uma centena de chefes de Estado para adotar um texto de 50 páginas do tipo “pegar ou largar”, que balbucia engajamentos já assumidos há muito tempo, porém não mantidos! Em todos os sentidos do termo, a missa foi rezada. Mas está fora de questão assumir nossas interdependências! Não pode haver direito de fiscalização de um Estado pelo outro! Cada um é dono de seu próprio nariz! E a participação da sociedade civil? Depois de meses tentando, sem sucesso, inserir propostas no texto oficial, o stakeholder forum, que representa diversos atores atuantes na ONU, denunciou publicamente o baile de máscaras. A União Europeia, pressionada a aceitar o texto apresentado pelo ministro brasileiro das Relações Exteriores, se rendeu após disparar alguns tiros ao ar por orgulho. Rendeu-se, sim, mas atenção: permaneceu unida! Consenso. Todos estavam de acordo. Os especialistas em negociação internacional introduziram no texto alguns avanços: algumas palavras suplementares sobre a governança integrada dos oceanos, um fórum de atores que se transformará em um fórum de alto nível, algumas promessas vagas sobre o reforço do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), o engajamento para elaborar objetivos relacionados ao desenvolvimento. O negociador brasileiro compartilhou a seguinte confidência comovente: nós recuamos menos do que temíamos recuar! Ou seja, não se trata mais de um engajamento para a grande transição. Estamos em uma Batalha de Verdun. A declaração multiplica os chamados às coletividades territoriais. Excelente! Mas, neste contexto, foi mais uma constatação de falência: os Estados, incapazes de conduzir uma mudança urgente, devolvem a chave da cidade planetária. A Rio+20 foi a comprovação da falência de uma ordem mundial intergovernamental reduzida à diplomacia: a presidenta brasileira orientou seu ministro das Relações Exteriores a conduzir as negociações com outros ministros das Relações Exteriores. Não eram ministros de assuntos mundiais ou de assuntos comuns planetários! Somos “nós” enfrentando o “resto do mundo”. O planeta não é uma questão a ser discutida, mas um campo de batalha de vontades de poder. Será, então, que os “interesses nacionais” existem de fato em essência ou não seriam eles construídos em função desta instituição chamada Estado nação? Seriam eles diferentes em relação a todos os outros? Evidentemente não. A própria maneira de organizar o diálogo internacional predetermina o resultado. Não existe, em nível mundial, nenhum organismo encarregado de “falar do interesse geral” como é o caso da Comissão Europeia, que fala pela Europa. O projeto de declaração foi apenas o fruto de uma síntese de propostas nacionais. Resultado: a produção de uma reafirmação, página após página, da soberania nacional e um catálogo de boas intenções, cuja prática dependerá de engajamentos voluntários. Outro modo de negociação, por exemplo, por meio de uma assembleia mundial de cidadãos a representar diferentes forças sociais e encarregada de elaborar propostas sujeitas à deliberação dos Estados, traria um resultado muito diferente. A contradição entre o nível de nossas interdependências e o modo de gestão baseado no mercado se tornou explosiva. Em vinte anos, os equilíbrios dos quais nossa sobrevivência depende não pararam de se degradar. Nossa governança mundial se tornou o mais grave de todos os riscos para a sobrevivência da humanidade. Ocorreu no Rio de Janeiro uma Munique ecológica mundial: os chefes de Estado retornaram às suas casas, aliviados pelo consenso encontrado. Mas quantos ainda terão que resmungar “que imbecis”, como fez Daladier ao voltar do Acordo de Munique feito com Hitler, quando foi aclamado pelo povo, diante do resultado obtido?(1) E agora? Será preciso tomar iniciativas que desagradam. Avançar com aqueles que quiserem avançar. Abandonar a ideia de que um comércio mundial livre e sem condicionantes sociais e ambientais vai garantir a paz. Se alguma paz houver, será como aquela de Munique, uma paz que prepara a futura guerra. Comecemos por admitir que todos os atores, sejam públicos ou privados, devem prestar contas para a comunidade mundial do impacto de seus atos, uma vez que este impacto ultrapassa as fronteiras nacionais, e construamos, sobre esse princípio, um direito internacional. Coloquemos em prática um comércio internacional baseado em cadeias de produção e consumo sustentáveis e iniciemos um debate internacional sobre um novo modelo de economia. A União Europeia, apresentada atualmente como o corpo doente da globalização, é a única que vem inventando a maneira de se unir mantendo o respeito às diferenças e que tem aprendido a superar de modo pacífico seus egoísmos nacionais. Cabe a ela tomar a palavra e, feita a reflexão, recusar uma Munique ecológica mundial. E a França se orgulhará de desempenhar um papel de protagonista neste processo. 1 (N. do T.) Édouar Daladier, primeiro-ministro francês durante o início da Segunda Guerra Mundial, foi pressionado pela Inglaterra a assinar o Acordo de Munique, que permitia a Hitler anexar a Tchecoslováquia. Daladier, contrário ao acordo por saber das pretensões expansionistas de Hitler, acabou cedendo a contragosto. Ao voltar para a França, esperava uma recepção hostil, por uma decisão que ele próprio julgava errada. Ao contrário, foi aclamado pelos franceses, levando-o a resmungar para o diplomata Alexis Léger, que estava ao seu lado, “que imbecis”, referindo-se aos que o aplaudiam. * Pierre Calame é presidente da Fundação Charles Mayer para o Progresso do Homem, com sede na França. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Pierre Calame*

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