O caminho para a Rio+20 está errado

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O caminho para a Rio+20 está errado


por Sérgio Abranches, do Ecopolítica


A agenda da Rio+20 está indo no caminho errado. Quer discutir o pilar econômico, dar prioridade à questão social e tentar conciliá-los com a sustentabilidade ambiental. Ora, o pilar fraco, hoje, é o ambiental. É no clima e na biodiversidade que temos tido as maiores perdas, em todo o mundo, não no crescimento econômico ou no desenvolvimento social. Não são poucas as vozes sensatas alertando para os danos de esvaziar o tema ambiental na Rio+20, de construir uma agenda alienada das evidências científicas, de querer revestir a visão convencional de crescimento econômico com uma capa social envolta por uma faixa ambiental decorativa. Mas, como Barbara Tuchman mostrou já faz algum tempo, os governos são capazes de liderar a marcha da insensatez, querendo persuadir os cidadãos de que estão no caminho certo. O desafio que temos pela frente e deveria ser intensamente discutido na Rio+20 é tão claro, que só muita falta de visão pode apequenar a Cúpula da Terra. Há crises econômicas? Há. Na grande maioria determinadas por má gestão macro e microeconômica, regulação fraca, visões de curtíssimo prazo do processo econômico. Há crises sociais? Há. Na grande maioria, hoje, causadas por má governança e pelo impacto de eventos climáticos e naturais extremos sobre as populações mais despossuídas. Como está acontecendo, agora, na região do Sahel. Há desigualdades? Há. Na sua grande maioria determinadas pela discriminação de gênero, etnias e persuasões religiosas. Hoje, no mundo mais pobre, o maior vetor de desigualdade é o rebaixamento social das mulheres, o analfabetismo feminino e o abuso de adultas, jovens e crianças. Há desigualdades sociais clássicas, em todos os países, mas as classes médias crescem em todos eles, principalmente nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes. A África, que até pouco tempo atrás era o continente esquecido, tem um grupo de mais de 20 países crescendo a taxas mais elevadas que as da Ásia. Mas é, na maioria dos casos, o mesmo crescimento predatório que marcou o crescimento econômico do Século 20. Se examinarmos o desenvolvimento no Século 20, em escala global, faremos uma constatação que beira a obviedade: houve ganhos econômicos, científicos e tecnológicos extraordinários. Houve ganhos sociais expressivos. Mas só houve perdas ambientais gigantescas. Os ganhos econômicos e sociais se fizeram com perdas ambientais Portanto, nessa tese dos “três pilares” – o econômico, o social e o ambiental –, com a qual se quer estruturar o processo de negociação e decisão da Rio+20, o único pilar que tem sinal negativo é o ambiental. É claro que precisamos ganhos sociais. Ainda não erradicamos a pobreza nem local, nem globalmente. Mas ela diminuiu consideravelmente. É preciso uma transformação estrutural das economias para que se inverta o sinal do processo ambiental. Não é apenas uma questão de “conciliar” ou “equilibrar” os pilares. É uma questão de reorientar o padrão econômico e o processo de desenvolvimento humano, para que ambos avancem promovendo ganhos ambientais. Trata-se de mudar o sinal de um dos termos da equação do desenvolvimento, ao mesmo tempo em que se procede à exponenciação do termo social. Significa colocar o pilar ambiental como o vetor principal do processo de desenvolvimento orientado para o máximo ganho social possível. Este é, também, o novo conceito de competitividade. Como Miriam Leitão mostrou em coluna recente, o maior especialista em competitividade, Michael Porter, em artigo recente escrito com Jan Rivkin para edição especial da Harvard Business Review, redefiniu o conceito, que antes identificava um processo de agressiva busca de vantagens, em um jogo de soma zero. Ou seja, as empresas se tornavam “saradas” (magras) e “más”, buscando conquistar doméstica e globalmente espaço cada vez maior na sua cadeia de produção e no mercado. Para tanto, desempregavam, terceirizavam e davam maior poder ao CFO, ao gestor financeiro. Agora, competitividade é vista como “a habilidade de as empresas competirem com sucesso na economia global, ao mesmo tempo em que criam as condições para um alto – e crescente – nível de vida para a média da população”. Neste conceito, Porter articula corretamente o econômico ao social, mas deixa inexplicavelmente de lado a sustentabilidade. Não haverá competitividade em cadeias não sustentáveis. Mas Porter sabe disso. É que ele inclui a questão ambiental no conjunto de “necessidades sociais” que a competitividade tem que satisfazer. Não gosto da solução, mas pelo menos o “social”, em Porter, absorve o “ambiental”, não o exclui. Em outro artigo, também na Harvard Business Review, escrito com Mark Kramer, ele diz que uma grande parte do problema está nas próprias empresas, prisioneiras de uma perspectiva ultrapassada e estreita de criação de valor, que “otimiza o desempenho financeiro de curto prazo”, desprezando as necessidades do consumidor e ignorando as influências mais amplas que determinam o sucesso de longo prazo. “De que outra maneira poderiam desconsiderar o bem-estar de seus clientes, o esgotamento dos recursos naturais, a viabilidade de fornecedores-chave ou as dificuldades econômicas das comunidades nas quais produzem e vendem?” As necessidades sociais, argumentam Porter e Kramer, são enormes: saúde, moradia de melhor qualidade, boa nutrição, auxílio para a velhice, segurança financeira, menor dano ambiental. E estão entre as maiores necessidades ainda não satisfeitas na economia global. Sem contribuir para a satisfação dessas necessidades “socioambientais”, não há produtividade ou competitividade duráveis. É o mesmo que dizer que não há mais possibilidade de ganhar mais competitividade e produtividade sem ganhos sociais e ambientais. E explicam por que: “a cadeia de valor de uma empresa afeta inevitavelmente – e é afetada – por várias questões sociais, como o uso de recursos naturais e água, saúde e segurança, condições de trabalho e tratamento igualitário no local de trabalho. Surgem oportunidades para gerar valor compartilhado porque os problemas sociais podem criar custos econômicos na cadeia de valor das empresas. Muitas dessas chamadas externalidades de fato infligem custos internos às empresas, mesmo na ausência de regulação ou taxação de recursos”. O mesmo pode ser dito dos governos que buscam ganhos macroeconômicos de curto prazo e não têm visão de longo prazo. Mas nem a produtividade, nem a competitividade, nem o crescimento podem ser sustentados a longo prazo, se não houver investimento significativo em sustentabilidade ambiental e no bem-estar durável da população. Sustentabilidade implica gestão responsável dos recursos naturais, redução drástica das emissões de gases-estufa, mudança do padrão energético, gestão integral de resíduos, mudanças estruturais nos padrões de produção, preservação integral do patrimônio natural remanescente, recuperação da cobertura vegetal e da qualidade dos mananciais, aquíferos e cursos de água. Bem-estar durável pressupõe melhoras significativas em educação, saúde e nutrição. O que se precisa não é uma adequação da tese dos três pilares à visão convencional de desenvolvimento econômico, como querem os formuladores da agenda da Rio+20. Trata-se de inverter a equação, buscando mudanças estruturais que gerem ganhos ambientais e sociais. Esse processo de geração de valor ambiental e social promove ganhos econômicos, de competitividade e produtividade, tanto para os países, como para as empresas. A nova teoria da competitividade abandona a visão da competição como soma zero e passa a ver a competitividade como um processo de ganhos recíprocos: quanto mais os países e as pessoas melhoram em educação, renda e sustentabilidade, maiores as oportunidades de trocas econômicas com vantagens para todos e maior prosperidade. Significa que a noção de competitividade está sendo reconciliada a visões de desenvolvimento sustentável e economia verde. Falta pôr em prática essa visão no macro e no micro. Não há outro caminho. O modelo convencional, mesmo melhorado, levará ao colapso econômico e social no médio para longo prazo, com perdas muito mais severas para os mais pobres, porque nos levará aos limites extremos do esgotamento dos recursos naturais e de mudança climática. Mas este não é um destino apocalíptico inexorável, porque temos escolha. Existe um modelo alternativo que permite realizar em simultâneo necessidades econômicas, sociais e ambientais. Viveremos a tragédia somente se escolhermos a tragédia. E escolher a tragédia é fazer o que estão fazendo nas negociações da agenda da Rio+20 e nas negociações sobre mudança climática. Meu comentário na CBN está aqui. * Publicado originalmente no site Ecopolítica.

Um bebê e uma mãe indigénas de Chihuahua, México. Movimentos nativos propõem incluir o “bem viver” na concepção do desenvolvimento sustentável. Foto: Mauricio Ramos/IPS Envolverde Rio + 20

TERRAMÉRICA – Mais ecologia e menos economia na Rio+20

[caption id="attachment_47039" align="alignleft" width="200" caption="Um bebê e uma mãe indigénas de Chihuahua, México. Movimentos nativos propõem incluir o “bem viver” na concepção do desenvolvimento sustentável. Foto: Mauricio Ramos/IPS"][/caption] Ativistas pedem que os direitos indígenas e a igualdade de gênero devem ser plenamente incluídos no debate sobre o desenvolvimento sustentável da Rio+20. Rio de Janeiro, Brasil, 26 de março de 2012 (Terramérica).- Centenas de entidades não governamentais e movimentos sociais internacionais apostam em contrapor o êxito da Cúpula dos Povos ao fracasso da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que consideram previsível. Os dois encontros acontecerão em junho no Rio de Janeiro, cidade que há duas décadas foi sede da Segunda Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, considerada um momento de inflexão na arquitetura do direito ambiental internacional. A Rio+20 atrairá cerca de 50 mil pessoas que participarão de reuniões preparatórias e atividades paralelas durante boa parte de junho, e cerca de 120 chefes de Estado e de governo entre os dias 20 e 22 desse mês, segundo as previsões oficiais. A Cúpula dos Povos pela Justiça Social e Ambiental em Defesa dos Bens Comuns será realizada de 15 a 23, no Aterro do Flamengo, com aproximadamente dez mil participantes e como um espaço independente da conferência oficial. Representantes de 20 organizações sociais, sindicais, juvenis, femininas, indígenas, camponesas e afrodescendentes se reuniram na quarta semana de março no Rio de Janeiro para coordenar ações, afinar o discurso de insatisfação com a Rio+20 e fazer os últimos preparativos para a grande mobilização de junho. Um dos desafios é incluir os direitos dos povos nativos na concepção do desenvolvimento sustentável, disse ao Terramérica o ativista Sander Otten, do comitê técnico da Coordenadoria Andina de Organizações Indígenas (Caoi), que reúne grupos da Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. “Precisamos exigir o cumprimento de direitos que, na realidade, significam que os povos tenham a possibilidade de incidir em projetos que serão realizados dentro de seus territórios”, destacou. Durante os dias 17 e 18 de junho, um comitê global dos povos indígenas debaterá os dois fatores cruciais desse assunto: a presença e o impacto das indústrias extrativas e o consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas sobre medidas que afetem seus territórios, estabelecido no Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho. Sander admitiu que houve avanços em matéria de direitos indígenas nos últimos 20 anos, mas, “na maioria dos casos, vemos que os governos dos países andinos apostam na intensificação do modelo extrativista, da atividade mineira, petrolífera e das grandes monoculturas”, afirmou. As organizações indígenas dos Andes querem somar-se às discussões sobre economia verde – um dos pilares da Rio+20 – e propor alternativas a partir de sua cosmovisão, o “modelo do bem viver”, e uma gestão comunitária da economia respeitando a “Mão Terra”, acrescentou. “A contribuição dos indígenas será continuar promovendo o bem viver como alternativa para a humanidade e abrir o diálogo com outros modelos críticos da modernidade”, que segue em busca do crescimento econômico em lugar da “solidariedade e da reciprocidade”, ressaltou Sander. A Caoi aposta em um viés menos economicista para levar soluções reais à crise ambiental. Segundo o ativista, “o que vemos atualmente não é a implantação do modelo de economia verde nos países da América do Sul, mas justamente o contrário”. “Aprofunda-se o modelo extrativista que sob nenhuma forma pode ser considerado verde. A economia ‘marrom’ avança neste países”, criticou Sander, que defende uma reforma que tribute os combustíveis fósseis e coloque fim aos subsídios que esse setor recebe. “Também se deve incluir nos preços dos derivados dos hidrocarbonos os custos sociais e ambientais de sua exploração, até agora considerados externalidades”, propôs. Sandra Morán, da Aliança Política do Setor de Mulheres na Guatemala e integrante da Marcha Mundial das Mulheres, defendeu ao Terramérica que a igualdade de gênero deve ser articulada na formulação de propostas alternativas que promovam a qualidade de vida da população feminina. “Nós temos um papel fundamental na vida, estamos no centro e reproduzimos a vida. Temos que recuperar a contribuição que as mulheres sempre fazem e acabar com a divisão sexual do trabalho”, ressaltou. As feministas buscam coordenar ações com outros movimentos sociais para cristalizar “uma alternativa ao que vivemos, que é a extrema pobreza, a violência, a militarização, o controle e o autoritarismo”, acrescentou Sandra. A ativista não espera um êxito na Rio+20, pois nela serão assinadas decisões já tomadas, apontou. Em sua opinião, “não há possibilidade de incidir nisso”. Para ela, a fortaleza da Cúpula dos Povos está em “nos encontrarmos, potencializarmos propostas e gerar movimentos que emanam de nossas comunidades”. A desconfiança com a Rio+20 parece ter ganho parte dos legisladores brasileiros, que organizam uma iniciativa paralela em busca da atenção da mídia e da opinião pública. Trata-se da Rio Clima (Rio Climate Challenge), que pretende aprofundar o debate sobre a mudança climática entre os dias 14 e 17 de junho. “Vamos fazer uma grande simulação das negociações entre os países emissores de carbono e as entidades supranacionais para tentar chegar a um consenso, disse ao Terramérica o deputado Alfredo Sirkis, do Partido Verde, que preside a subcomissão especial Rio+20 na Câmara dos Deputados. O objetivo é manter uma discussão, sobre bases realistas, que permita reunir os elementos de um acordo internacional para manter a concentração de gases-estufa na atmosfera abaixo das 450 partes por milhão, tal como pede a ciência, para evitar uma mudança climática desastrosa. Para as negociações simuladas serão convidados facilitadores do grupo Brics (Brasil, Índia, China, África do Sul), da União Europeia, dos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão, Indonésia, Rússia, Liga Árabe e dos pequenos Estados insulares. * A autora é correspondente da IPS. LINKS Sociedade civil busca salvar a Rio+20 Sociedade civil deve assumir as rédeas da Rio+20 ONGs brasileiras criticam indefinição de proposta para a Rio+20 “Rio+20 deve dar um impulso sustentado” Rio+20, em inglês Construindo a Cúpula dos Povos, em português, espanhol, inglês e francês Coordenadoria Andina de Organizações Indígenas, em espanhol Aliança Política do Setor de Mulheres, em espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Fabíola Ortiz*
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Brasileiros desconhecem a Rio+20. Por quê?

A quatro meses da sua realização, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável ainda não é conhecida pelos brasileiros. Uma pesquisa realizada neste início de ano por uma parceria entre a empresa Market Analysis e a ONG Vitae Civilis mostrou que apenas 11,5% dos brasileiros têm alguma informação a respeito da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. A pesquisa foi realizada por telefone, em nove capitais, com 806 pessoas de 18 a 69 anos de idade, de várias regiões do Brasil. Dos entrevistados, 4% pertencem à classe A, 29% à B, 49% à C e 18% às classes D e E. Entre todos os entrevistados, apenas 4,4% ouviram “muito” sobre a Rio+20, enquanto 7,1% disseram ter ouvido “alguma coisa”. Dos 11,5% que conhecem a Rio+20, 73% se interessam pelos assuntos relacionados ao evento. Os mais mencionados foram desenvolvimento sustentável, economia verde, combate à violência, combate ao tráfico de drogas, Copa de 2014, erradicação da pobreza, meio ambiente (geral) e combate à poluição. O Rio de Janeiro, onde será realizada a Conferência, é a cidade do país em que a população tem mais conhecimento a respeito: 24%. Por que tão pouca gente está interessada na Rio+20? Na minha opinião, ainda não está claro para as pessoas e para as empresas os impactos que as decisões da Conferência terão sobre o cotidiano dos negócios e da vida. As discussões ocorridas até agora, entre os diversos eventos preparatórios da Rio+20, estão focadas nas negociações e não buscam esclarecer a sociedade sobre as mudanças que o evento poderá acarretar ao mercado e à vida das pessoas. A mídia também precisa participar desse esforço, provocando os órgãos e entidades envolvidos a dar esses esclarecimentos para, com isso, aumentar o interesse da população e, em consequência, a relevância da Conferência para faixas maiores de pessoas. Se a Rio+20 aprovar a orientação já estabelecida em seu “rascunho zero” oficial (documento que está orientando as discussões da Conferência), de “eliminar gradualmente subsídios que exerçam efeitos consideravelmente negativos sobre o meio ambiente”, as políticas econômicas dos países teriam de ser totalmente reformuladas. No caso brasileiro, por exemplo, o governo não poderia reduzir o IPI dos carros e da linha branca sem exigir contrapartidas que promovessem, por exemplo, a diminuição da “pegada de carbono” (total das emissões) na cadeia produtiva automotiva e de eletrodomésticos, veículos movidos a combustíveis menos poluentes e geladeiras que consumissem menos energia elétrica. Enfim, para reduzir determinado imposto ou estabelecer um novo, o governo brasileiro teria de levar em conta os critérios decididos na Rio+20, diferenciando produtos poluentes de não poluentes. E a indústria, para se beneficiar de isenções e outros incentivos fiscais, precisaria investir numa produção mais verde. O cidadão teria à disposição, por exemplo, carros menos poluentes e geladeiras mais eficientes em consumo de energia, a preços menores. Outro tema que mexe com as empresas e os cidadãos é a política de compras dos governos. Suponhamos que a Rio+20 aprove uma orientação para que os governos do mundo adotem medidas de apoio ao uso de energia solar. O governo brasileiro precisaria, por exemplo, nos programas habitacionais, priorizar a compra de chuveiros com células. Este fato animaria o crescimento de uma cadeia de valor voltada para a fabricação de componentes para chuveiros aquecidos por energia solar, um segmento que já existe e tem potencial para se desenvolver e gerar muitos empregos. Agora, se a Rio+20 resolvesse se apresentar como a saída para a crise financeira que afeta o mundo atualmente, então, poderíamos imaginar uma transformação geral nos negócios e no nosso modo de vida. A crise financeira é, na verdade, um dos aspectos mais cruéis da insustentabilidade do modelo de civilização que temos. Ela aumenta a cada nova onda e vai levando consigo a confiança no mercado e nas instituições democráticas, os valores que norteiam as relações sociais e os recursos materiais e naturais das sociedades e do planeta. Cada onda gera mais desigualdade e pobreza, deprecia outros patrimônios e superestima a acumulação financeira. É preciso superar esses impasses e nós, batalhadores do desenvolvimento sustentável, acreditamos que a maneira de fazê-lo é adotando um modelo que fortaleça o capital natural, o capital social e o investimento produtivo focado na erradicação da pobreza e no equilíbrio ambiental. Pesquisas da própria ONU e de empresas de auditoria já demonstraram que não se trata de utopia juntar crescimento econômico, justiça social e equilíbrio ambiental. O que falta para a Rio+20 ser conhecida pelos brasileiros é mostrar que seus temas têm a ver com a vida cotidiana dos cidadãos e com os negócios agregados aos hábitos de consumo das pessoas. Não é tão complicado, mas é preciso vontade política para fazê-lo. * Publicado originalmente no site Instituto Ethos.


por Paulo Itacarambi, do Instituto Ethos
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Recomeçam as negociações para Rio+20

As negociações sobre o documento final da Rio+20 foram retomadas hoje, com países apresentando muitas novas propostas que direcionarão como o mundo dará prosseguimento à agenda do desenvolvimento sustentável. Países submeteram comentários adicionais desde a rodada inicial de negociações para o documento final da Rio+20 em janeiro. O “rascunho zero” do documento final, intitulado “O Futuro que Queremos”, é baseado em mais de 6.000 páginas de submissões dos Estados-Membros da ONU, grupos da sociedade civil, empresas e outros. Esta rodada de negociações continua até 27 de março e espera-se aprimorar o documento. Além das propostas dos países, o Painel de Alto Nível sobre Sustentabilidade Global do Secretário-Geral das Nações Unidas, fez 56 recomendações para avançar na sustentabilidade, incluindo uma recomendação no sentido de uma “nova economia política”, que mudaria a forma como o mundo mede o progresso econômico para incluir questões sociais e ambientais. “A razão pela qual estamos reunidos aqui é porque na Rio+20 devemos concordar com soluções para os grandes desafios globais pelo bem de todos, com um olhar para as próximas gerações”, disse o Secretário-Geral da Rio+20, Sha Zukang. “A Rio+20 pode ser o momento no qual determinaremos o futuro que queremos. Peço a todos que percebam as oportunidades oferecidas na Rio+20 e as aproveitarem agora.” Mais de cem presidentes e primeiros-ministros, juntamente com milhares de CEOs, parlamentares, prefeitos, funcionários da ONU, líderes de ONGs, acadêmicos, artistas renomados e representantes de muitos outros grupos se reunirão na Rio+20 – a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – que acontecerá de 20 a 22 de junho. Cerca de 50 mil pessoas são esperadas para participar da Conferência, e outras milhares esperadas no Rio de Janeiro para a preparação e para o momento da Conferência. As negociações para a Rio+20 levarão as principais decisões de líderes governamentais e outros que definirão a agenda global para redução da pobreza, avanço da igualdade social e garantia da proteção ambiental. A Rio+20 oferece a oportunidade de avançar com soluções urgentes para os desafios globais, como a falta de acesso a energia e água, desemprego, as crescentes desigualdades, lacunas tecnológicas, rápida urbanização, insegurança alimentar, pesca predatória e oceanos poluídos, e para impulsionar as inovações científicas e financeiras, responsabilidade corporativa e mercados econômicos. Ajudar países e comunidades a avançar para uma economia verde enquanto aceleram esforços para erradicar a pobreza e promover o desenvolvimento sustentável será a chave das discussões na Rio+20. Países também vão considerar medidas para melhorar a efetividade das instituições globais que apoiam o desenvolvimento sustentável – desenvolvimento que simultaneamente promove prosperidade, melhora a qualidade de vida e protege o meio ambiente. Um processo para lançar um conjunto de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável tem sido uma prioridade nas negociações preliminares. Os objetivos propostos, que precisariam de finalização futura, agiriam como uma série de padrões para os países seguirem e alcançarem resultados direcionados para avançar no desenvolvimento sustentável num período de tempo específico. “Para um futuro sustentável, precisamos de ações robustas e transformadoras em todos os níveis e estes passos na negociação para a Rio+20 são vitais para garantir que tenhamos resultados e compromissos na Rio+20 para o benefício de todos e do nosso planeta”, disse Sha. As negociações são divididas numa rodada de negociações “informais”, de 19 a 23 de março, e reuniões intersessionais, em 26 e 27 de março. Além das negociações-chave, o período também oferece a oportunidade para uma ampla série de eventos paralelos organizados por diferentes grupos para apresentar tópicos relacionados à Rio+20. Os próximos passos para concluir o documento final da Rio+20 ocorrerão durante uma sessão de negociação que acontecerá em Nova York de 23 de abril a 4 de maio, com a última rodada no Rio, de 13 a 15 de junho. Para mais informações sobre a sessão e a Rio+20, visite www.uncsd2012.org. * Publicado originalmente no site da ONU Brasil e retirado do Mercado Ético.


por Redação ONU Brasil
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O que o milênio nos reserva a partir da Conferência Rio+20

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, acontece em junho próximo no cenário já consagrado do Rio de Janeiro para negociações intergovernamentais que fazem história. São 20 anos passados da Conferência do Rio, conhecida como Rio92, ou Cúpula da Terra, entre tantos outros nomes sonoros que procuraram fazer lembrar o magnífico momento vivido pela cidade e pelo mundo, quando o primor organizacional culminou com decisões cruciais para o futuro da humanidade. Evoluiu o mundo em 20 anos: o Brasil firmou sua vocação como uma das grandes economias do planeta, apesar dos desequilíbrios sociais e regionais de sua sociedade; a comunidade internacional sofreu transformações importantes e por vezes com resultados contrastantes no período, quando o crescimento da economia mundial conviveu com a agudização da pobreza e do flagelo da fome; o processo acelerado de expansão do comércio internacional e a mundialização das finanças esbarraram, em momentos distintos e muito recentes, em crises de grandes instituições bancárias e empresas tradicionais nos Estados Unidos, reduzindo o ímpeto da ainda grande economia central e a importância de sua moeda; criou-se a moeda europeia, o euro, como a promessa talvez alternativa ao dólar, mas que nesse mesmo tempo enfrenta o risco de colapso, diante dos desequilíbrios orçamentários e fiscais das economias europeias consorciadas; economicamente aflora a China, segunda economia mundial, com desígnios próprios e métodos agressivos de crescimento capitalista em sociedade coletivista; o crescimento das Nações Unidas, em número de Estados-membros e temáticas tratadas, produziu grandes conferências internacionais, mas seu processo de democratização confronta-se com o predomínio político de uma elite de antanho, num Conselho de Segurança vinculado aos resultados da Segunda Grande Guerra, onde cinco membros permanentes tampouco são ainda idealmente iguais. O mundo mudou, mas como o de Maysa de saudosa memória, não caiu. É exuberante a demonstração de vitalidade do ser humano que encontra razões, entre sete bilhões, para pensar no futuro e continuar a batalha para obter sua sobrevivência digna. É esta capacidade visionária que nos aquieta a angústia de viver. A Rio+20 é uma dessas oportunidades que não se pode perder. Nela, nem se trata de afirmar solenemente, numa declaração final, princípios novos para balizar a vida no planeta. Eles existem e, alguns centrais, datam de 1992. Estão na Declaração do Rio, ds qual vale recordar alguns traços a que atribuo maior significado: • A centralidade do ser humano no processo de desenvolvimento sustentável e seu direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com a natureza (Princípio 1); • A tarefa inadiável da erradicação da pobreza como requisito essencial para o desenvolvimento sustentável (Princípio 5); • A reforma dos perversos sistemas de produção e consumo não sustentáveis (Princípio 8) como requisito, assinalo eu, para garantir séculos saudáveis a um planeta em busca também da sustentabilidade demográfica; • O apoio decisivo de todas as partes a esforços de criação de capacidades endógenas, com a ampliação do saber pelo intercâmbio, sem limitações, de conhecimentos científicos e tecnológicos, pela transferência de tecnologias instrumentais na promoção do desenvolvimento sustentável. A inovação joga nesse ponto papel decisivo (Princípio 9); • A promoção de um sistema econômico internacional mais aberto, favorável ao desenvolvimento sustentável universal (Princípio 12). Por sua vez, a Declaração do Milênio das Nações Unidas busca sintetizar, em oito princípios, os desafios que a humanidade enfrenta no limiar do ano 2000. É documento histórico para o novo século. Aprovada pela Cúpula do Milênio – realizada de 6 a 8 de setembro de 2000, em Nova York – reflete as preocupações de 147 chefes de Estado e de governo e de 191 países, que participaram da maior reunião desde sempre de dirigentes mundiais. Sem prejuízo do conteúdo de todo o texto, dele recolhi, como o fiz também na leitura da Declaração do Rio, de 1992, valores que considero pertinentes e centrais nas deliberações da Rio+20: • Homens e mulheres têm o direito de viver com dignidade, livres da fome, do medo da violência, da opressão e da injustiça (liberdade); • Nenhum indivíduo ou nação deve ser privado da possibilidade de beneficiar-se do desenvolvimento (igualdade); • É necessário prudência na gestão de todas as espécies e recursos naturais, de acordo com os princípios do desenvolvimento sustentável, para assegurar a nossos descendentes as riquezas da natureza. Para isto, é preciso alterar os atuais padrões insustentáveis de produção e consumo, no interesse do nosso bem-estar futuro e no das futuras gerações (respeito pela natureza); • A responsabilidade pela gestão do desenvolvimento econômico e social no mundo e por enfrentar as ameaças à paz e à segurança internacionais deve ser partilhada por todos os Estados do mundo e ser exercida multilateralmente (responsabilidade comum). Será apenas natural que o documento final que resultar da Conferência Rio+20 recorde ambas as declarações, mas será excepcionalmente bem recebido que exija o cumprimento de tais princípios e valores por medidas concretas em instituições internacionais, governos em todos os níveis, de todos e de cada cidadão do planeta. O tema que dá nome à Conferência é o desenvolvimento sustentável e, dele, chefes de Estado e de governo presentes deverão tratar. O conceito foi inicialmente estabelecido entre Estados em 1992, embora venha enunciado no Relatório Brundtland, de 1987, intitulado “Nosso Futuro Comum”. Naquele momento histórico, a questão do meio ambiente era posta diante de responsáveis pela condução dos negócios mundiais como um imperativo presente a ilustrar a consciência de que o modelo de desenvolvimento até então adotado não havia internalizado os custos do desgaste dos bens da natureza utilizados como insumos à produção; por sua vez indutora do consumo sem freio por sociedades que detinham os meios de buscar, adquirir e consumir, em diferentes estágios de seu ciclo de vida, esses mesmos bens. A ideia de sustentabilidade aplicada como qualificativo do substantivo desenvolvimento veio inovar conceitualmente o processo de desenvolvimento, tornando-o todo inclusivo. É bem por isto que, passados 20 anos da primeira conferência, a Rio+20 não é uma conferência sobre meio ambiente, mas um foro de discussões da problemática permanente do desenvolvimento. Trata-se de torná-lo holisticamente sustentável em benefício desta e de futuras gerações. O que a comunidade internacional deverá buscará, reunida no Rio em junho, será definir medidas concretas que devam ser tomadas, imediatamente e no futuro próximo, para adequar todas as ações humanas, de maneira interdependente, em todos os tempos e quadrantes, a um novo modelo que nos garanta como seres humanos (e a nossos descendentes) atingir dignamente o quarto milênio neste mesmo planeta. * Publicado originalmente no site Eco21.


por Flávio Miragaia Perri, da Eco21
IMG_Conferência-Rio-+-20-será-umas-das-prioridades-da-ONU Artigo

O que esperar da Rio+20. Um convite à reflexão.

Algo de muito maléfico está a rondar as articulações em torno da Rio+20. Em nome do desenvolvimento sustentável, os países centrais, os mesmos responsáveis pela crise mundial sem precedentes, pretendem consolidar o predomínio do mercado sobre todos os seres vivos e coisas. Não é a primeira vez que a retórica do discurso consegue encobrir projetos de poder nefastos da burguesia capitalista. Aqui mesmo no Brasil, nos anos de 1970, juntou-se a religiosidade do povo com o avanço do capital internacional, dando forma ao "milagre econômico” – a farsa do boom da economia responsável –, encobrindo o aumento espetacular da dívida externa. Se isso o senso comum não percebia, menos ainda os outros acontecimentos que se sucederam. Enquanto o povo cantava "todos juntos vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a seleção” (era o ano da Copa do Mundo no México – o Brasil foi campeão), lutadores e lutadoras contra um regime odioso, gritavam e morriam nos porões da ditadura. Qualquer semelhança com os dias atuais, não é mera coincidência: Copa, público, privado, desenvolvimento sustentável, economia verde. Novos jargões para velhos interesses, junto com os artifícios do discurso ufanista dificultam, à primeira vista, uma compreensão substantiva do que ainda está encoberto: relações de exploração reais, internas e externas, que agridem nossa consciência. Tão importante quanto a economia verde como diretriz estratégica de intervenção e subtração dos bens da natureza por parte do bloco que está no poder, a Rio+20 foi preparada para consolidar a hegemonia do capital imperialista, tendo a dívida externa como instrumento importante para uma rearrumação do poder global e das diferentes categorias de subalternidade. Os vampiros da crise – os bancos multilaterais, em especial o Banco Mundial (BM), a par dos fundos criados e incentivados por este –, têm aportado, além de mais recursos, tecnologia do conhecimento, com o fim de garantir que o crescimento econômico planejado a partir dali não sofra mudanças de rota. As grandes corporações, também estimuladas por esse pensamento, buscam lugares aonde lhes sejam oferecidas as melhores condições para a obtenção de mais lucros. Cresce o campo da responsabilidade social e ambiental empresarial e do empreendedorismo, instrumentos que têm contribuído para destituir as pessoas de seus direitos e para abafar a influência dos movimentos sociais na gestão de políticas públicas e no controle social. Cresce também a participação de grupos e de ONGs nos projetos e fundos das instituições financeiras. O BM, por exemplo, aumentou de 6% para 50% a participação de ONGs em seus projetos relativos à questão climática. Isto significa uma absorção cada vez maior das demandas das organizações da sociedade civil, ajustando-as à sua estratégia de liberalização da economia, rumo ao mercado verde. O caminho do verde já está decidido; não vamos nos iludir. O próprio secretário-geral da Rio+20 já alerta aos países desenvolvidos (aqueles que não vivenciam a crise financeira), que terão de "se empenhar muito mais”. Na verdade, a economia verde é tratada por esses países como se fora uma ajuda humanitária, a qual dependerá do acolhimento irrecusável dos países "em dificuldades”, que não poderão "atrasar” a sua efetivação. Esta, não virá para discutir processos, mas, sim, para cobrar resultados. Tremo ao escutar daquele secretário que "o desenvolvimento sustentável é o futuro que queremos”. Futuro sombrio para muitos povos, basta ver a tinta carregada de "econoverde” que escorre entre os dedos dos produtores intelectuais das grandes catástrofes. É incrível, mas, o que aconteceu no início da década de 1990 com algumas organizações do sindicalismo na relação com o Estado brasileiro (participação consentida, subalternidade na relação e "gosto” pela acumulação de riqueza) volta com toda força, é claro, com novas formas de captura (são convênios, contratos, projetos a fundo perdido, apoio ao empreendedorismo, diálogo direto, sem mediações, valorização do indivíduo...). O Estado, aliado com a mídia, tenta neutralizar com os mais variados artifícios as poucas chamas da insatisfação popular, aquelas que "correm por fora” daqueles movimentos que, mesmo com a força que conseguiram acumular historicamente, não são capazes de acreditar que é possível quebrar a lógica desumana do modelo de relações sociais, ambientais e de produção e consumo. Em verdade, o desenvolvimento sustentável, nessa perspectiva, precisa do verde para se sustentar, mas precisa também de um comando com a eficiência na medida, onde todos os vetores do conhecimento estejam vinculados a um poder central e centros estratégicos de poder a partir de uma geopolítica afinada, a seu serviço. Não é só o futuro da economia que interessa decidir, daí a relativa importância do Fórum de Davos, nesse contexto. Na Rio+20 vai ser decidido – e com o aval de muitas organizações da sociedade civil – o modo de operar da economia e da política, combinando as forças de uma e de outra. Vai-se decidir qual desenho de governo global será capaz de dinamizar as forças de mercado indefinidamente e sem contestações. Qual sistema de proteção jurídico-institucional deverá ser impulsionado nos Estados nacionais para garantir esse governo global. As questões que se colocam como desafio para quem ainda se indigna são: O que está sendo proposto para a Cúpula dos Povos (iniciativa dos movimentos sociais mundiais, paralela à Conferência oficial) dá conta da necessidade urgente de se construir coletivamente saídas para a situação em que nos encontramos? Dá conta de nos contrapormos à "economia verde inclusiva”, como quer a Comissão brasileira na Conferência? Dá conta de mostrar a nossa indignação? O que está sendo proposto para a Cúpula dos Povos é, de fato, a agenda aonde se instaura o conflito? Absolutamente convicta de que estamos todas seguindo para mais uma versão de um Fórum Social Mundial qualquer, reproduzindo-se os mesmos equívocos da construção e operacionalização destes, quiçá com uma carta final já pronta, com o mesmo blá, blá, blá..., o convite que faço é para subvertermos essa ordem dada como a correta e inquestionável. Cúpula dos Povos só tem sentido se, de fato, for construída desde o local, pelas pessoas que sentem diretamente os processos que vão, a passos largos, retirando-lhes os sentidos que organizam suas existências. Ninguém melhor para dizer como era e como deveria ser o desenvolvimento de uma cidade do que as pessoas que respiram o metano e outros metais tóxicos produzidos pelas siderúrgicas, termoelétricas e refinarias; quem bebe a água podre que vem dos rios poluídos pela falta de saneamento básico; quem não mais pesca porque os peixes estão mortos ou escassos em função da construção de mega-hidrelétricas; quem corre todo dia o risco de ser vítima de um trânsito caótico, porque mobilidade urbana é menos prioritária do que um mega-aquário; quem se sente acuado, removido e despejado pelos latifúndios improdutivos e por grandes empreendimentos de infraestrutura nas cidades. São esses os sujeitos sem-cúpula, que precisam ser escutados. * Magnólia Azevedo Said é advogada e diretora do Esplar - Centro de Pesquisa e Assessoria. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Magnólia Azevedo Said*
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Economia verde inclusiva. A proposta do Brasil para a Rio+20. Entrevista especial com Fernando Lyrio

"A Rio+20 poderá conferir impulso político não só à Convenção sobre Mudança do Clima, mas também a diversos outros acordos multilaterais que padecem de reconhecido déficit de implementação”, assinala assessor extraordinário do Ministério do Meio Ambiente para a Rio+20. A três meses de sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, o Brasil enxerga o evento como “uma oportunidade única para a mobilização dos recursos políticos necessários para desenhar uma saída eficaz e duradoura para a atual crise internacional, em que se leve em consideração a complexidade de seus aspectos econômicos, sociais e ambientais”, declara Fernando Lyrio à IHU On-Line. No que se refere ao âmbito local, o assessor extraordinário do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para a Rio+20 assinala que o país “espera que a Conferência incorpore definitivamente a erradicação da pobreza como elemento indispensável à concretização do desenvolvimento sustentável, e a plena consideração do conceito de desenvolvimento sustentável, propriamente dito, na tomada de decisão dos diversos atores”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Lyrio destaca que os documentos adotados a partir da Rio 92 propiciaram avanços na discussão internacional sobre o desenvolvimento sustentável. Entretanto, enfatiza, “ainda há expressivas lacunas na implementação de alguns desses compromissos, resultado da falta de vontade política e da ausência de meios adequados para a implementação dos compromissos acordados em 1992”. Um dos principais temas a ser discutido na Conferência, o conceito de economia verde tem causado divergências entre os participantes, pois nem todos os ambientalistas e atores da sociedade civil enxergam, na chamada economia verde, a possibilidade de reduzir os riscos ambientais e tampouco melhorar o bem-estar da humanidade. De acordo com Lyrio, o Brasil tem adotado a “expressão ‘economia verde inclusiva’, no sentido de oferecer a compreensão de um processo que contempla as três dimensões da sustentabilidade”. E sugere: “os países deverão traçar suas próprias estratégias para uma economia verde, que respeitem suas peculiaridades, prioridades, perspectivas e necessidades, numa premissa de que não há receitas únicas para isso”. Fernando Lyrio é assessor extraordinário do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para a Rio+20. Confira a entrevista. IHU On-Line – Qual a importância da contribuição das organizações não governamentais para o sucesso da Rio+20? Fernando Lyrio – O papel das organizações não governamentais na Rio+20 e, de maneira mais genérica, das organizações da sociedade civil nos processos multilaterais, tem sido reconhecido pelo governo brasileiro e foi explicitamente citado no documento que o país submeteu às Nações Unidas com suas visões e perspectivas sobre a Conferência. Naquele documento, o Brasil reconhece que o setor não governamental detém expertise própria que o qualifica para influenciar esse processo. Nesse contexto, seria desejável que a Rio+20 apresentasse resultado que, respeitando os princípios do sistema multilateral e da soberania dos países, promova conexões efetivas e criativas entre o mundo não governamental e os processos decisórios multilaterais, aperfeiçoando o processo decisório multilateral, hoje essencialmente baseado em decisões intergovernamentais. As formas encontradas até o momento para viabilizar a participação e a presença do mundo não governamental nos processos multilaterais têm sido tímidas ou meramente legitimadoras de processos nos quais, a rigor, esta presença não tem qualquer efetividade. Um dos grandes resultados da Rio+20 poderá ser a modificação desse quadro, reconhecendo as demandas, aspirações e propostas de atores – indivíduos e organizações – que não apenas são influenciados, mas também influenciam profundamente as formas como a comunidade internacional se organiza e age. IHU On-Line – O que precisa ser feito para que a Rio+20 ganhe a adequada visibilidade perante o público? Fernando Lyrio – Uma adequada visibilidade da Conferência perante o público requer esforço conjunto dos setores governamental e não governamental no sentido de mobilizar a comunidade internacional para os temas associados ao desenvolvimento sustentável. Este esforço de mobilização deverá incluir todos os meios de comunicação da imprensa internacional e nacional, a fim de traduzir os temas da agenda da Rio+20 no dia a dia do cidadão comum, tornando a ideia de desenvolvimento sustentável mais próxima de temas importantes como geração de empregos, inovação tecnológica, ciência, inclusão social e conservação dos recursos naturais. IHU On-Line – Como os grupos da sociedade civil podem atuar no sentido de garantir que a Conferência não ficará desvinculada das preocupações diárias da população? Fernando Lyrio – A maioria dos temas da Conferência está direta ou indiretamente vinculada às preocupações diárias da população. Neste sentido, uma atuação importante da sociedade civil na Conferência seria a de compreender e disseminar, para os respectivos grupos de interesse, o nexo entre as suas preocupações e os temas da Rio+20, os meios de integração entre esses temas e as formas como eles estão interligados. Para isto, o processo oficial assegura diversos mecanismos para a participação da sociedade civil durante e anteriormente à Rio+20. Da mesma forma, as entidades representativas da sociedade civil deverão assegurar a existência de canais de comunicação entre as demandas da sociedade e as proposições e encaminhamentos da Conferência. IHU On-Line – Quais são as principais preocupações diárias da população em relação ao clima? Fernando Lyrio – Inicialmente é importante ressaltar que a Rio+20 não será uma reunião sobre mudança do clima e, sim, sobre desenvolvimento sustentável. O tema mudança do clima já possui o seu próprio foro multilateral de discussão e negociação, que é a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Isto posto, a Rio+20 contempla em sua agenda inúmeros temas associados à questão da mudança do clima, como energia, água, uso do solo, produção e consumo sustentáveis, segurança alimentar, etc. As preocupações diárias que mais afligem as populações em relação ao clima referem-se aos impactos naturais já sentidos, especialmente em países de baixa renda que, em função de fragilidades de infraestrutura, limitações na capacidade de amparo econômico e social, e por serem fortemente dependentes de atividades econômicas ligadas ao uso dos recursos naturais, sofrem mais com os seus efeitos. IHU On-Line – O que você destaca do progresso alcançado até agora desde a Conferência do Clima de 1992 e quais os objetivos traçados na época que ainda não foram cumpridos? Fernando Lyrio – A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Rio 92, constituiu um grande ponto de inflexão que consagrou a ideia de desenvolvimento sustentável, nos meios diplomático, político, técnico, acadêmico, empresarial, entre outros. Desde então, a conexão entre as diversas dimensões do desenvolvimento sustentável ficou mais evidente, e a suposta contradição entre desenvolvimento econômico e conservação ambiental e inclusão social foi colocada em xeque. Vários dos documentos adotados na Rio 92, como a Agenda 21, a Declaração do Rio sobre Ambiente e Desenvolvimento, a Declaração de Princípios sobre Florestas, as convenções sobre Biodiversidade e Mudança do Clima propiciaram avanços significativos na discussão internacional sobre estes temas, e vários países – como o Brasil – chegaram a progredir significativamente na implementação desses compromissos. Contudo, ainda há expressivas lacunas na implementação de alguns desses compromissos, resultado da falta de vontade política e da ausência de meios adequados para a implementação dos compromissos acordados em 1992. Várias dessas lacunas são apontadas no documento “Rascunho Zero”, que constitui a base para as negociações do documento final da Rio+20. Nesse sentido, espera-se que essa Conferência possa cumprir o seu mandato, que inclui uma avaliação dos progressos e das lacunas de implementação nos compromissos internacionais nos últimos 20 anos. IHU On-Line – Qual deve ser o papel dos governos e das corporações para que os compromissos assumidos nas conferências do clima se traduzam efetivamente em ações? Fernando Lyrio – A Rio+20 não será um encontro para tratar de mudança do clima, cujas negociações possuem foro próprio: a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Contudo, a Rio+20 poderá conferir impulso político não só à Convenção sobre Mudança do Clima, mas também a diversos outros acordos multilaterais que padecem de reconhecido déficit de implementação, ao tratar do papel de governos e corporações na implementação dos compromissos assumidos. Os debates em torno da Rio+20 reconhecem a importância de que os esforços dos Estados nacionais sejam acompanhados da participação de todos os atores da sociedade civil. Assim, tem-se buscado criar canais de diálogo dos governos com o setor privado, igualmente com cientistas, acadêmicos, trabalhadores, ONGs, movimentos sociais, jovens, povos indígenas e comunidades tradicionais. Trata-se de fortalecer a vontade política dos governos, a partir das visões, expectativas e demandas da sociedade civil internacional. IHU On-Line – Qual o real sentido da expressão economia verde? Fernando Lyrio – O conceito de economia verde tem sido objeto de discussões e ao Brasil importa que todos os países se sintam confortáveis com esse debate. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), principal autoridade global sobre meio ambiente da ONU, define economia verde como “uma economia que resulta em melhoria do bem-estar da humanidade e igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente riscos ambientais e escassez ecológica”. O Brasil tem utilizado a expressão “economia verde inclusiva”, no sentido de oferecer a compreensão de um processo que contempla as três dimensões da sustentabilidade. Importa, ainda, assegurar a ideia de que economia verde não constitua alternativa ao consagrado conceito de desenvolvimento sustentável, mas sim uma ferramenta para a sua implementação. Para isto, os países deverão traçar suas próprias estratégias para uma economia verde, que respeitem suas peculiaridades, prioridades, perspectivas e necessidades, numa premissa de que não há receitas únicas para isso. IHU On-Line – Como avalia a estrutura das Nações Unidas para viabilizar o desenvolvimento sustentável no mundo? Fernando Lyrio – Há consenso de que essa estrutura é fragmentada e ineficiente e não é por outro motivo que a arquitetura institucional das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável é um dos temas principais da Rio+20. Não obstante a multiplicidade de instituições e instrumentos criados para a promoção do desenvolvimento sustentável, os desafios da sustentabilidade ainda não foram superados. Observo dois problemas fundamentais: a sobreposição e redundância de ações e a dificuldade de acesso a recursos, os quais não são estáveis e previsíveis. Estas deficiências acabam por comprometer os esforços para o estabelecimento de programas com resultados eficientes e duradouros. Nesse contexto, é necessário discutir uma nova moldura institucional. É preciso estabelecer mecanismos de coordenação e fomentar parcerias entre as diversas agências e instituições da ONU, a fim de gerar sinergias. Além disso, deve-se assegurar que a interlocução com a sociedade civil em âmbito internacional seja inclusiva e contemple mecanismos efetivos para que o processo decisório possa ser influenciado. IHU On-Line – Que paralelos podem ser traçados entre o Encontro em Durban, o Protocolo de Kyoto e as expectativas em relação à Rio+20? Fernando Lyrio – Devemos ser cautelosos ao traçar paralelos entre as negociações sobre o clima e a Conferência Rio+20. Embora haja forte relação entre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, trata-se de dois processos bastante diferentes. A Conferência de Durban insere-se nas discussões sobre o futuro do Protocolo de Kyoto, dentro de um processo negociador já bastante antigo. A Rio+20 não tratará especificamente de mudança do clima, mas dos desafios globais para o desenvolvimento sustentável, constituindo encontro de natureza essencialmente política, quando chefes de Estado oferecerão à comunidade internacional suas visões sobre os modelos de desenvolvimento global. IHU On-Line – Qual o papel do Brasil na Rio+20 e o que o país pode esperar dela? Fernando Lyrio – O Brasil participa da Rio+20 com múltiplos papéis. Na condição de anfitrião da Conferência, há de assegurar as perfeitas condições para participação dos milhares de visitantes esperados no Rio de Janeiro em junho, representando todos os setores governamentais e não governamentais de países de todo o mundo. Nessa mesma condição, o Brasil preside a Conferência e, embora se trate de um processo sob a governança das Nações Unidas, o Brasil tem importante papel político de buscar resultados que correspondam aos grandes desafios globais do desenvolvimento. Sua condição de país emergente o qualifica para buscar resultados que aproximem países desenvolvidos e em desenvolvimento, mitigando a perversa clivagem Norte-Sul, que tem se revelado pouco produtiva para os processos internacionais, e fortalecendo o sistema multilateral como o foro adequado para o tratamento dos problemas globais. O Brasil enxerga a Rio+20 como uma oportunidade única para a mobilização dos recursos políticos necessários para desenhar uma saída eficaz e duradoura para a atual crise internacional, em que se leve em consideração a complexidade de seus aspectos econômicos, sociais e ambientais. O Brasil espera que a Conferência incorpore definitivamente a erradicação da pobreza como elemento indispensável à concretização do desenvolvimento sustentável e a plena consideração do conceito de desenvolvimento sustentável, propriamente dito, na tomada de decisão dos diversos atores. * Publicado originalmente no site IHU Online.


por Redação do IHU Online
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Em ano de Rio+20, o verde lava mais branco

Historinha útil em ano de Rio+20. Liguei para uma empresa a fim de perguntar quais as razões dela não ter uma política para prevenir, em sua cadeia produtiva, os impactos ambientais causados por sua demanda por matéria-prima. Não vou dizer o nome da companhia, poderia ser qualquer uma. Aliás, pode ser qualquer uma. Mas, tal qual I-Juca Pirama, esta é brava, é forte, é filha das selvas, nas selvas cresceu. - Claro que temos uma política! No ano passado, construímos X creches, Y escolas e Z centros técnicos para o design de camisetas para a promoção da vida de ursos pandas que comem bambu, pois apesar de não serem brasileiros natos, estão em risco de extinção e, por isso, merecem toda a nossa atenção, como você pode ver por esse belo vídeo institucional feito por um famoso cineasta e que está em nosso canal no You Tube. Ou coisa do gênero. Quando comentei que a pessoa estava enumerando casos de investimento social privado (para não dizer de greenwashing – porque, como todos sabemos, o verde lava mais branco) e não de políticas de responsabilidade social, houve algo como um “hein?” do outro lado da linha. Sabe? Investir em projetos e programas é importante, mas analisar, prever e evitar ou mitigar os impactos causados pela própria existência de um empreendimento é muito mais importante. Forneci alguns exemplos, como fugir de cadeias produtivas danosas, instaurar processos que respeitem as terras de populações tradicionais, controlar o uso desvairado de agrotóxicos e dar transparência ao mercado sobre os relacionamentos institucionais. Então, o céu se abriu e aconteceu um daqueles momentos de sinceridade extrema, daqueles de ano bissexto: - Ah, mas se as coisas fossem do jeito que você está sugerindo, a empresa perderia competitividade. Dei-me por satisfeito com a resposta, oferecendo com um longo silêncio (pois sou um boca mole) minha sincera anuência à avaliação. Essa foi bem melhor que a afirmação de outra empresa, nesta feliz segunda-feira, de que não adotava políticas duras em sua cadeia produtiva porque isso geraria desemprego. E, por isso, preferia um trabalho lento (e, pela minha constatação, inexistente) para tentar melhorar a qualidade dos fornecedores. De certa forma, o combate ao tráfico de drogas também gera desemprego. Com o agravante que o tráfico não demite quando tem pequenas quedas de lucro, como a empresa em questão. E a opção de se responsabilizar, de verdade, e não apenas com projetinhos-migalhas, pelos processos que você desencadeia com sua demanda por matéria-prima? E ajudar a gerar empregos decentes em atividades lícitas para inserir o pessoal que trabalhava em processos duvidosos em sua cadeia de valor? Se o sujeito usa de concorrência desleal e faz dumping social e ambiental, ele tem que responder por isso. Não apenas pelo impacto, mas por levar setores inteiros de nossa economia a responderem pela má-fé de alguns no comércio exterior. O engraçado é o corporativismo burro salvar esse pessoal da danação. Ei, otários, eles estão passando a perna em vocês que trabalham duro para seguir a lei! Tempos atrás, em um debate envolvendo parlamentares, defendi ações mais firmes para garantir que as mercadorias brasileiras vendidas para o exterior não fossem produzidas com danos ambientais ou maus tratos aos trabalhadores, levando o causador do problema à bancarrota se necessário fosse. Fui chamado de “comunista”. Rá! Na verdade, isso é capitalismo na veia. Garantir informação correta para que investidores e compradores possam tomar uma decisão embasada na hora de comprar, considerando custos e riscos. Sem isso, a economia sofre – para deleite de alguns. Alguns chamam de comunismo. Eu chamo de gerenciamento de riscos. E se não fosse assim, não haveria tanta empresa trazendo essa questão de cadeias produtivas e de responsabilidade empresarial para o seu core business. E entrando em contato com uma organização, como a Repórter Brasil, da qual participo, não para perguntar o que fazer, mas buscar informação para embasar suas ações. Estas sabem que verificar onde estão os buracos pelo caminho é a saída mais fácil para evitar acidentes e ir mais rápido. É economia, não é caridade. Ninguém faz isso pelo pobre do escravo, o coitado do índio ou o maltratado peixe-bagre-caolho-de-moicano-púrpura-do-alto-rio-Madeira. Fazem porque sabem que é a diferença entre ganhar e perder dinheiro, seja pela ação de agentes públicos que resolvem seguir a lei, sejam pelos interesseiros bloqueios comerciais da Europa e Estados Unidos. E é bom que seja assim. A missão de uma empresa é ganhar dinheiro, e da parte da sociedade civil é garantir que isso não aconteça se passar ao largo da dignidade humana. Nesse jogo, todos sabem seu papel. Mas há empresas que fazem de conta que não é com elas. Não vou dizer que elas não se darão bem no final e que tudo o que estou falando vá por água abaixo. Por hoje, contudo, dou um conselho aos colegas que fazem a assessoria de algumas empresas que, vira e mexe, são envolvidas em problemas: continuem sendo sinceros. Isto ajuda. * Publicado originalmente no site Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto
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Rio+20 deverá ter foco em economia verde inclusiva

Agência Fapesp – A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que será realizada no Brasil em junho, não terá o caráter legislativo da Eco92, cujo legado transformou para sempre a perspectiva mundial sobre o tema do meio ambiente. No entanto, a Rio+20 poderá alcançar um impacto planetário de magnitude semelhante ao da Eco92, contanto que consiga superar o desafio de integrar de forma equânime os três pilares do desenvolvimento sustentável: as dimensões ambiental, econômica e social. A defesa dessa integração é o cerne da posição brasileira na Conferência, de acordo com o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, subsecretário-geral de Meio Ambiente, Energia e Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que participou nesta terça-feira (6/3) do Biota-Bioen-Climate Change Joint Workshop: Science & policy for a greener economy in the context of Rio+20. Machado é o secretário executivo da comissão brasileira para a Rio+20. Planejado para que a comunidade científica possa discutir os temas da Rio+20, o evento foi realizado conjuntamente pelo Programa Biota-Fapesp, pelo Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) e pelo Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG). “A Rio+20 é uma conferência sobre desenvolvimento sustentável e não apenas um debate sobre meio ambiente. A intenção da presidência da Conferência é que as dimensões ambiental, social e econômica tenham o mesmo peso no debate. O governo brasileiro, por sua vez, entende que, se os desafios do Século 21 não forem vistos de maneira integrada, jamais conseguiremos atingir níveis de sustentabilidade”, disse Machado. De acordo com o embaixador, o mundo atravessa uma época de crise internacional e os atuais modelos de desenvolvimento demonstram uma erosão em sua capacidade de dar respostas aos novos desafios. “Os modelos atuais produzem crises em todos os pilares do desenvolvimento sustentável: a crise climática, a perda acelerada da biodiversidade, a degradação social e a crise energética demonstram isto. Estamos fazendo algo errado”, disse. Na época da Eco92, segundo Machado, os países desenvolvidos acreditavam que haviam resolvido suas questões econômicas e sociais e dirigiam o foco das discussões para os temas exclusivamente ambientais. Enquanto isso, os países em desenvolvimento tinham o foco no desenvolvimento econômico apoiado no contexto da sustentabilidade. “Vinte anos depois, o mundo virou de cabeça para baixo: os países desenvolvidos estão lidando com uma profunda crise econômica e social, enquanto países como o Brasil são líderes na área em tecnologias verdes, em investimentos em energia limpa e avançaram na inclusão social”, disse. Nesse novo contexto, segundo Machado, a Rio+20 não tem mais uma agenda que olha o econômico, o ambiental e o social separadamente. Por isto, a comissão brasileira da Conferência tem utilizado o termo “economia verde inclusiva”, a fim de remeter ao trinômio “crescimento”, “inclusão social” e “proteção da natureza”. “A decisão política do Século 21 é a de integrar essas três dimensões. Este é um desafio para todos os países e para a Rio+20. Se conseguirmos esta integração, finalmente poderemos, depois de duas décadas, realizar as promessas da Eco92”, afirmou Machado. Na abertura do evento, o presidente da Fapesp, Celso Lafer, destacou o protagonismo do Brasil e a importância central da ciência no contexto da Rio+20. Segundo ele, o Brasil é uma grande potência no tema do meio ambiente e nenhum dos grandes problemas dessa agenda pode ser encaminhado sem ativa participação brasileira. “A liderança brasileira tem legitimidade internacional. É preciso ressaltar também a relevância do conhecimento no processo da Rio+20. A Conferência envolve problemas de natureza complexa para os quais uma adensada pesquisa fornece indicações imprescindíveis”, disse Lafer. “Este workshop proposto pela Fapesp, com participação dos pesquisadores que vêm alargando o horizonte do conhecimento sobre mudanças climáticas, bioenergia e biodiversidade, contribuirá para a preparação das negociações, integrando nosso discurso”, disse. Questão energética Durante o evento, a palestra A produção de bioenergia no contexto da Rio+20 foi apresentada pelo físico José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), que era secretário do Meio Ambiente do Brasil durante a Eco92. De acordo com Goldemberg, o documento preparado pelo secretariado da ONU com contribuições dos países participantes da Rio+20, incluindo o Brasil, contém 128 parágrafos, sendo que dois deles são dedicados ao problema da energia. Um dos principais objetivos estabelecidos pelo documento é o acesso básico universal a um mínimo de energia moderna, até 2030, com o dobro da eficiência energética atual. “O significado dessas considerações é muito profundo, se observarmos os dados de que dispomos. Atualmente, mais de 80% da energia consumida no mundo provém de fontes fósseis: petróleo (34,6%), gás (22,1%) e carvão (28,4%). As energias renováveis correspondem a 12,9% do total”, afirmou Goldemberg. A extrema dependência do petróleo impõe uma limitação física insustentável: o esgotamento das reservas. Por maiores que sejam as reservas descobertas no pré-sal brasileiro, segundo Goldemberg, elas são uma contribuição modesta para as fontes de energia de petróleo do mundo. “Além da limitação física, o petróleo tem um grave problema de acesso, já que as fontes estão distribuídas de forma errática no mundo. Em seguida, temos o problema mais grave que é o impacto ambiental das emissões de gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global. Os combustíveis fósseis são responsáveis por boa parte da prosperidade e conforto que a humanidade conseguiu, mas lamentavelmente esta situação não pode durar”, disse. Parte significativa do consumo de combustíveis fósseis, segundo Goldemberg, é proveniente do transporte individual. E a tendência é que o número de carros aumente expressivamente nos próximos anos, alavancando o consumo de gasolina. Entre 1980 e 2010, a demanda mundial por gasolina subiu de 0,8 trilhão de litros por ano para quase 1,3 trilhão de litros. São 30 milhões de barris diários, correspondendo a um terço do consumo mundial de petróleo. Esta situação não vai melhorar. Nos Estados Unidos há quase 800 automóveis por mil pessoas. Outros países industrializados têm 500 automóveis por mil habitantes – que é aproximadamente a escala na cidade de São Paulo. Os países menos desenvolvidos estão seguindo esta trajetória. A previsão é que, em 2050, em vez dos atuais 750 milhões de automóveis, tenhamos 2,25 bilhões”, disse. Para reduzir a magnitude do problema, segundo Goldemberg, é preciso que o mundo busque um modelo semelhante ao brasileiro: expandir a matriz hidrelétrica onde for possível e investir em outros componentes renováveis. Um dos caminhos do desenvolvimento sustentável na área de energia, de acordo com ele, é a substituição da gasolina por um combustível produzido a partir de biomassa. “O único combustível que vem fazendo isso de maneira eficiente e em escala comercial até agora é o etanol de cana-de-açúcar. Se conseguirmos desenvolver o etanol de segunda geração, poderemos aumentar a produção sem aumentar a área plantada. Para isto é preciso investir em pesquisa. No contexto da Rio+20, acredito que a contribuição do etanol de cana-de-açúcar originário de países tropicais deverá ser uma das cartas importantes na discussão”, disse. Clima, bioenergia e biodiversidade Durante o evento, o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, fez uma apresentação sobre os programas Biota-Fapesp, Bioen e PFPMCG. De acordo com ele, o Biota tem como objetivo não apenas caracterizar a biodiversidade do Estado de São Paulo, como definir mecanismos para sua conservação e uso sustentável. “O Biota-Fapesp já teve 915 projetos de pesquisa e bolsas aprovados. Foram cerca de R$ 100 milhões investidos em 12 anos. Em 2011, o programa cresceu muito, com renovado interesse da comunidade científica paulista, e o valor concedido, apenas naquele ano, foi de R$ 22 milhões. Um dos impactos importantes do programa, além de fazer ciência de boa qualidade, foi que ele gerou vários decretos, leis e resoluções sobre conservação da biodiversidade”, afirmou. Na área de bioenergia, segundo ele, a Fapesp teve uma primeira iniciativa em 1999, com a criação do projeto Sucest, que avaliou o transcriptoma da cana-de-açúcar. O Bioen foi criado em 2008. “O programa Bioen envolve 314 cientistas, sendo 229 de São Paulo, 33 de outros Estados e 52 de outros países. Os recursos investidos já se aproximam de R$ 100 milhões, em 55 projetos. O programa tem inúmeras colaborações com empresas, que cofinanciam pesquisas”, disse Brito Cruz. O PFPMCG também agrega colaborações internacionais de instituições como o Natural Environment Research Council (Nerc), do Reino Unido, um dos organismos que compõem os Research Councils UK – que mantêm acordo com a Fapesp desde setembro de 2009 –, Agence Nationale de La Recherche (ANR), da França, e Interamerican Institute for Global Change Research (IAI), organização intergovernamental apoiada por nove países nas Américas. * Publicado originalmente no site Agência Fapesp.


por Fábio de Castro, da Agência Fapesp
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As pedras no caminho da Rio+20

“Um bilhão de pessoas estão na miséria plena. É a tragédia da civilização”. A frase é do professor e economista Ladislau Dowbor, dita nesta terça-feira (14/2) em palestra na reunião do Comitê Paulista para a Rio+20. Segundo ele, o grau de desigualdade no mundo está atingindo limites insuportáveis. “É o saco cheio planetário.” Mas, para o professor Dowbor, a extrema desigualdade não está acontecendo por falta de recursos do planeta. A produção atual de grãos, diz ele, abasteceria com 800 gramas diárias cada habitante da Terra. Apesar disso, morrem de fome 10 a 11 milhões de crianças por ano. “Se a gente dividir o PIB mundial, que contabiliza US$ 60 trilhões, pelas sete bilhões de pessoas, teríamos uma renda per capita de mais de US$ 8 mil.” Com tanto esfomeado no mundo, esse dinheiro está na mão de quem? Para o professor Dowbor, está nas mãos das organizações econômicas globais. O gráfico do desempenho da economia nos últimos trinta anos, segundo o professor Dowbor, tem quatro grandes linhas: a dos salários, que permaneceu estável, a da produtividade, que cresceu a 30 graus, mais ou menos, a dos lucros, que empinou pelo menos 60 graus, e a dos lucros financeiros, que disparou na vertical. O professor Dowbor cita um exemplo de lucro do mercado financeiro: “Vocês viram o lucro do Itaú em 2011? Superou o orçamento do programa bolsa família”. Em seguida, dá uma aula de como o dinheiro se multiplica na ciranda financeira internacional com um exemplo cristalino: o Lehman Brothers tinha uma alavancagem de 36 para 1, isto é, para cada dólar que ele tinha, ele emprestou 36. O pior é que os governos são os intermediários dessa tragédia. “Vou explicar para vocês rapidamente o que está acontecendo na Europa, agora. O Banco Central Europeu repassou dinheiro para os bancos a 1% de juros, para que eles não quebrassem, e agora os bancos estão emprestando esse dinheiro para a Espanha a 6%. Grande negócio”, observa Dowbor. Citando dados do estudo Rede do poder das corporações mundiais, realizado pelo Instituto ETH, da Suíça, o professor alerta para a questão da governança mundial. Atualmente, 737 grupos econômicos controlam 80% do PIB global. O núcleo desse poder está nas mãos de 147 grupos, com 40% de toda riqueza produzida. E um agravante: 75% desses 147 concentram seus recursos no mercado financeiro. Outro ponto de estrangulamento para a sustentabilidade do planeta, de acordo com o economista da PUC, é a questão da democratização do conhecimento. Para dar uma ideia do peso da tecnologia na economia atual, ele estima que pelo menos 95% do preço de um celular de última geração corresponde ao valor do conhecimento. A mão de obra e o material empregados ficam com os 5% restantes. Para a sustentabilidade, esta é uma questão vital, diz ele. Em sua opinião, é preciso que as tecnologias limpas sejam livres de patentes, ou não será possível chegar a uma economia verde, como querem os organizadores da Rio+20. Por fim, as crises econômica e ambiental globais, na opinião de Ladislau Dowbor, exigirão o fortalecimento do poder local. Uma coisa que já vem acontecendo em muitas cidades do mundo. Na Espanha, algumas já voltaram a utilizar as pesetas, o antigo dinheiro nacional, no comércio local, como forma de fugir da crise do euro. A prática tende a se expandir e já se calcula que pelo menos 1,7 bilhão de euros pode voltar a circular em pesetas, no país. Para o professor, há fortes bases políticas para o fortalecimento dos governos locais, abrindo um espaço colaborativo na sociedade. Ele acredita que cada vez mais será necessário que as comunidades decidam sobre a forma como serão geridos os recursos naturais locais. Passa por aí a solução de dilemas como o de Belo Monte, ou como o desmatamento da Amazônia, que é provocado pelo tripé da exploração madeireira, agrícola e pecuária, controlado por grandes grupos econômicos mundiais. Para a perspectiva da Rio+20, uma conferência que estabelece como foco a sustentabilidade ambiental e a inclusão social, a palestra de Dowbor representa o caminho das pedras. Seu raciocínio leva à conclusão de que será preciso: (1) promover a distribuição de riquezas; (2) estabelecer uma nova governança global; (3) regular o mercado financeiro; (4) democratizar o conhecimento; e (5) fortalecer o poder local, para que a nossa civilização se salve de uma catástrofe. Um detalhe: o professor Dowbor não é um grande otimista quando fala das perspectivas dos acordos globais capitaneados pela ONU. Para ele, a partir do fortalecimento do poder local, é mais fácil chegar a um acordo direto entre nações, ou grupos de nações, do que esperar um consenso global. A partir desta ótica, o que esperar da Rio+20? * Celso Dobes Bacarji é jornalista e atua na área ambiental. ** Publicado originalmente no site Carbono Brasil.


por Celso Dobes Bacarji*
Foto: Claudius/IPS Envolverde Rio + 20

TERRAMÉRICA – De olho no Rio de Janeiro

[caption id="attachment_40830" align="alignleft" width="292" caption="Foto: Claudius/IPS"][/caption] A Conferência do Rio+20 será a oportunidade para chegar a acordos que evitem passar o limite, sem volta, do uso sustentável dos recursos naturais. Washington, Estados Unidos, 30 de janeiro de 2012 (Terramérica).- Após as negociações de dezembro sobre mudança climática em Durban, na África do Sul, há espaço para seguir avançando no curto e médio prazos. Agora, a atenção da América Latina e do mundo está voltada para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho, no Rio de Janeiro. Em Durban os delegados de 194 países assentaram as bases para desenvolver um compromisso global para 2015, com validade jurídica em 2020. Durban também deu origem a acordos substanciais em outras duas áreas críticas para o progresso na luta contra a mudança climática: um novo período de compromisso de execução do Protocolo de Kyoto e passos específicos para a formação do Fundo Verde do Clima. Naquela ocasião houve maior atenção para as medidas combinadas de mitigação e adaptação à mudança climática na agricultura, bem como progresso nas discussões técnicas sobre programas de proteção de florestas no contexto do clima. A comunidade internacional também reconheceu na África do Sul a urgente necessidade de fazer mais para reduzir as emissões de gases-estufa, manter o aumento da temperatura média abaixo dos dois graus e ajudar os países em desenvolvimento a adaptarem-se aos efeitos inevitáveis da mudança climática. Em junho, no Rio de Janeiro, será analisada a proteção do meio ambiente como parte do processo de desenvolvimento. Esta cúpula acontecerá duas décadas depois que, em uma reunião semelhante, os países se comprometeram com o conceito de desenvolvimento sustentável como a única maneira para construir uma humanidade mais justa e viável. Isto inclui as dimensões relacionadas com saúde, moradia, contaminação do ar, gestão dos mares, florestas e montanhas, desertificação, gestão dos recursos hídricos e saneamento, e a gestão de resíduos. O mundo aproxima-se de maneira perigosa do limite do uso de recursos naturais de maneira sustentável e podemos chegar a um ponto a partir do qual não haja retorno. Estes temas têm impacto na qualidade de vida e na luta que ainda se deve travar contra a pobreza e a desigualdade, sobretudo na América Latina e no Caribe. Apesar de a América Latina produzir energia de maneira relativamente limpa na maioria de seus países, e proporcionalmente contribuir substancialmente menos do que outras regiões para a mudança climática, é uma das zonas mais afetadas por suas consequências. Nesse sentido, vários países da região demonstraram, com o exemplo próprio, grande liderança para ser parte da solução global que deve levar o mundo para um caminho de desenvolvimento com baixa emissão de carbono. O Brasil já se comprometeu por si só com alguns ambiciosos objetivos voluntários para reduzir suas emissões em 39% até 2020. Outros países latino-americanos também assumiram promessas voluntárias, entre eles, Chile, Colômbia, Costa Rica e México. Em nível mundial, 90 países registraram seus planos de mitigação até 2020 com a Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, 78 dos quais em vias de desenvolvimento. Segundo o estudo do Banco Mundial “Desenvolvimento com menos carbono: respostas latino-americanas ao desafio da mudança climática”, a América Latina produz apenas 6% das emissões mundiais de gases-estufa no setor energético, e 13% se forem considerados o desmatamento e a agricultura. Entretanto, se prevê que esta situação mude nos próximos 25 anos na medida em que se expandam os setores de transporte e indústria. Por exemplo, mantidas as tendências atuais, projeta-se que as emissões de dióxido de carbono (CO²), derivadas do consumo de energia, aumentarão na região, até 2030, em 33% por pessoa, superior à média mundial de 24%. Estas tendências representam um desafio para a América Latina, em sua busca por um desenvolvimento sustentável de crescimento mais verde e equitativo. Muitas das medidas que podem ser consideradas no caminho para o crescimento econômico verde têm importantes benefícios ambientais e sociais locais. Maior eficiência energética frequentemente economiza dinheiro; menor desmatamento e melhor manejo dos recursos florestais têm benefícios sociais e ambientais; melhor transporte público pode reduzir o congestionamento e a contaminação local, e ter um efeito benéfico para a saúde, a produtividade e a qualidade de vida. A próxima década trará grandes oportunidades para a sinergia entre sustentabilidade ambiental e econômica. Por exemplo, os países em desenvolvimento podem adotar uma atitude “verde” em seus novos investimentos em infraestrutura e, ainda, podem desenvolver a agricultura e outros recursos naturais para melhorar os meios de subsistência, gerar empregos e reduzir a pobreza. O acordo de Durban representa um passo adiante, mas estão previstas duras negociações nos próximos anos para alcançar um acordo global. Contudo, deve-se avançar na execução de programas com benefícios locais e globais, projetos que demonstrem a melhor maneira de se adaptar às mudanças climáticas do futuro e aos desastres climáticos de hoje, e nas inovações tanto tecnológicas quanto institucionais que permitem um crescimento verde e inclusivo. * Ede Ijjasz-Vásquez é diretor de desenvolvimento sustentável para América Latina e Caribe do Banco Mundial. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Ede Ijjasz-Vásquez*

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