Prepare-se para um mundo de nove bilhões

Envolverde Rio + 20

Prepare-se para um mundo de nove bilhões


por Thalif Deen, da IPS


[caption id="attachment_56169" align="alignleft" width="300" caption="Os esforços para promover o desenvolvimento sustentável que não abordam a dinâmica das populações continuarão a fracassar. Foto: Fahim Siddiqi/IPS"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 21/6/2012 (IPS/TerraViva) Com a população mundial ameaçando explodir – dos sete bilhões atuais para mais de nove bilhões até meados do século –, o aumento acentuado de seres humanos não significa apenas cidades superlotadas, mas também uma demanda crescente por alimentos, água, energia e abrigo, prenunciando implicações devastadoras para um futuro sustentável. O século 21 é um período crítico para as pessoas e o planeta, com tendências demográficas e de consumo que impõem enormes desafios para um mundo finito, adverte um novo relatório divulgado na cúpula Rio+20, no dia 21, pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Apropriadamente intitulado Assuntos da População para o Desenvolvimento Sustentável, o relatório sublinha a importância da dinâmica populacional na agenda do desenvolvimento sustentável, algo “que foi perdido nas últimas décadas”. O relatório propõe políticas concretas centradas nas pessoas e baseadas em direitos para tratar de questões que o mundo enfrenta de uma forma ampla no Século 21. Em entrevista ao TerraViva, o diretor executivo do UNFPA, Babatunde Osotimehin, disse que melhorar o bem-estar da humanidade, agora e no futuro, exige, acima de tudo, uma mudança real e imediata para uma produção sustentável e um consumo equilibrado – a marca da economia verde. “Em todos os lugares, mas especialmente nas economias emergentes, milhões de pessoas estão se tornando consumidores mais ricos de bens e serviços, aumentando assim a pressão sobre os recursos naturais. Padrões sustentáveis de consumo, possibilitados em parte por tecnologias apropriadas, são, portanto, urgentes”, advertiu. Osotimehin observou que novas dinâmicas populacionais globais apresentam muitos desafios, mas também oferecem oportunidades para garantir um futuro sustentável. Mudanças demográficas, como a tendência de viver em cidades, podem reduzir a pressão sobre o meio ambiente reduzindo o consumo de recursos. “Desacelerar o crescimento da população pode ter um impacto positivo sobre a sustentabilidade ambiental no longo prazo. Isto também dará mais tempo para as nações se adaptarem às mudanças no ambiente. No entanto, isso só pode ocorrer se as mulheres tiverem o direito, o poder e os meios para decidir livremente quantos filhos ter e quando”, enfatizou. O relatório diz que mais de dois terços dos governos dos 48 países menos desenvolvidos (PMD) têm manifestado grandes preocupações com o crescimento populacional, alta fertilidade e rápida urbanização. Para inserir a agenda populacional novamente na discussão do desenvolvimento sustentável, há a necessidade de se reconhecer que a dinâmica de populações tem uma influência significativa sobre o desenvolvimento sustentável, que esforços para promover o desenvolvimento sustentável que não abordam a dinâmica populacional têm falhado e continuarão a fracassar, e que dinâmica populacional não é destino. Entretanto, a mudança é possível por meio de um conjunto de políticas que respeitem os direitos e liberdades humanas, e contribuam para a redução da fertilidade, nomeadamente o acesso aos cuidados de saúde sexual e reprodutiva, educação além do nível primário, e o empoderamento das mulheres. Osotimehin ressaltou que os governos também precisam integrar as tendências demográficas e projeções futuras em suas estratégias e políticas de desenvolvimento. “Os investimentos que são construídos sobre, e aproveitam, a evolução demográfica podem ajudar a transformar a população em um capital humano rico que pode impulsionar o desenvolvimento sustentável”, opinou. “Planejar para mudanças projetadas no tamanho da população em tendências como o envelhecimento, migração e urbanização é uma condição indispensável para estratégias sustentáveis de desenvolvimento rural, urbano e nacional, bem como os esforços significativos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, concluiu. * Publicado originalmente no site TerraViva.

c6 Artigo

Rio+20: A economia fóssil na pauta

De repente, a Rio+20, ontem (21 de junho)  se tornou palco de celebração dos combustíveis fósseis e saiu definitivamente do tom. Autoridades brasileiras irritadas com as críticas ao vazio do documento aprovado na véspera da conferência, insistiam nos exemplos que o Brasil pode dar de sustentabilidade. Na verdade, toda a política de desenvolvimento brasileira é baseada em indústrias convencionais, subsídios a combustíveis fósseis, incentivos ao consumo de produtos que estimulam o uso desses combustíveis. Isso ficou claro, ontem (21 de junho). Um experiente diplomata brasileiro me disse que a Rio+20 não podia ser uma reunião ambiental. Era importante que fosse sobre desenvolvimento sustentável, contemplando os três pilares – econômico, social e ambiental – porque era preciso fazer com que os ministros das finanças do mundo passassem a falar de desenvolvimento sustentável. Isso aconteceu ainda bem antes do início da Rio+20, numa conversa sobre as dificuldades do início das negociações em Nova York. Esse objetivo certamente não foi alcançado, pelo menos em relação ao ministro das finanças do Brasil, o titular da Fazenda, Guido Mantega. Em sua coletiva à imprensa, para relatar acordos bilaterais com a China, Mantega não apresentou um pacote de acordos pela sustentabilidade. Ao contrário, os dois pontos que ele escolheu para ressaltar, foram a produção de aviões executivos e investimentos na exploração de petróleo e gás. Guido Mantega falou cinco vezes na importância da indústria do petróleo no Brasil e na China e que Petrobrás e PetroChina são as duas maiores investidoras do mundo em petróleo e gás. Comemorou uma joint-venture para produzir mais de 600 aviões executivos da Embraer. Uma celebração da economia marrom, da economia fóssil, em pleno Rio+20, a conferência para promover a economia verde. O ministro Mantega furtou-se a comentar sobre o iminente aumento do preço da gasolina. Aumento que a presidente da Petrobrás, Graça Foster, anunciou como necessário desde que tomou posse em fevereiro. Perguntado duas vezes, disse desconhecer o assunto. Livrou-se com essa declaração difícil de acreditar de sair ainda mais do tom. O aumento sairá. Até ai, tudo bem. Está aí uma boa notícia para a economia verde. Aumento do preço dos combustíveis fósseis é bom para a economia verde: estimula a adoção de fontes renováveis e limpas; incentiva o investimento em novas tecnologias que reduzam o consumo de combustíveis fósseis ou o eliminem; estimula da demanda pelo carro elétrico e pelo carro híbrido. Pena que o governo brasileiro tem política contrária aos elétricos e híbridos. A nota em falso é que esse aumento será acompanhado do aumento do subsídio à gasolina. A CIDE, imposto que incide sobre combustíveis fósseis, será zerada. Com isso, ficará ainda mais difícil para os carros com motores flex rodarem a etanol. O subsídio tornará ainda mais difícil manter em pelo menos 30% a diferença a menor no preço do litro de álcool/etanol em relação ao litro da gasolina. Já não bastam a baixa produtividade de nossos canaviais, a competição entre o etanol e o açúcar, a falta de investimento na renovação dos canaviais, operando para derrubar nossa indústria de biocombustíveis. O Brasil aumentará os subsídios aos combustíveis fósseis ao final da Rio+20, durante a qual se fez um grande esforço para que o fim desses subsídios fosse decidido. Esta seria uma das mais concretas decisões que se poderia ter tomado na Rio+20. Salvaria a falta de ambição e substância do texto. Mas tornou-se uma das frustrações centrais da reunião. Outro que saiu do tom foi o presidente da Bolívia, Evo Morales, que comemorou ter quintuplicado a receita de petróleo com a estatização da indústria petroleira boliviana. A América do Sul foi salva por Rafael Corrêa, presidente do Equador, que não é conhecido pela moderação de suas atitudes. Ele defendeu no plenário da Rio+20 a iniciativa de Yasuní-ITT pela qual o  Equador se compromete a manter indefinidamente inexplorados 846 milhões de barris de petróleo das reservas amazônicas de Ishpingo, Tambococha e Tiputini (ITT), evitando a emissão de 407 milhões de toneladas de CO2.  Ele quer compensações por essa renúncia de receita petrolífera e tem toda razão. Difícil é explicar a renúncia fiscal do governo brasileiro que promove o uso e o desperdício de gasolina e diesel. Meu comentário sobre o tema na CBN está aqui. * Publicado originalmente no site Ecopolítica.


por Sérgio Abranches, do Ecopolítica
Ban Ki-Moon: esforço para eliminar a fome. Foto: Cortesia ONU Envolverde Rio + 20

Desafio da Fome Zero requer fim dos desperdícios

[caption id="attachment_56161" align="alignleft" width="300" caption="Ban Ki-Moon: esforço para eliminar a fome. Foto: Cortesia ONU"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 22/6/2012 (TerraViva) – O desafio de aliviar a fome de cerca de 900 milhões de pessoas em todo mundo é uma das prioridades das Nações Unidas. O secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon, convidou os participantes da Rio+20 a enfrentarem conjuntamente os cinco objetivos do programa Fome Zero: propiciar 100% de acesso a alimentação adequada em todo o mundo, eliminar a desnutrição entre crianças com até dois anos, tornar sustentáveis todos os sistemas alimentares, aumentar em 100% a produtividade e renda dos pequenos produtores e eliminar a perda e o desperdício de alimentos. Os chefes de Estado, empresários e representantes dos agricultores presentes no encontro promovido pela FAO, Biodiversidade Internacional, Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (IFAD, da sigla em inglês), Banco Mundial e Programa Mundial de Alimentos (WFP em inglês) no Riocentro repetiram uma palavra-chave: resiliência. O presidente de Niger, Mahamadou Issoufou, salientou a necessidade de não apenas superar as crises, mas de aprender com os erros e prevenir, com políticas de agricultura adequadas e apoio logístico, que outras crises aconteçam. Não basta receber doações, é preciso ensinar as pessoas o que fazer com elas, disse Issoufou. E citou o caso de mulheres que estão trabalhando em projetos de retenção para enfrentar os períodos entre a colheita e a seca. “Quando as mulheres têm renda, suas crianças comem”, observou. O país desenvolve um projeto se segurança alimentar com o objetivo de aumentar a produção de cereais e restaurar os ativos produtivos. A primeira fase do projeto tratou de recuperar os bens de produção e criar bancos de alimentos. A segunda etapa pretende ampliar a produção local, com a reabilitação de algumas áreas. Sua estratégia foi o Plano 3N (Nigerians nourish Niguerians, ou nigerianos alimentam nigerianos). Os participantes concordaram que o grande problema da fome não é tanto a falta de comida, como sua distribuição e a capacidade de armazenamento para evitar as perdas e os desperdícios, associando saúde e segurança nutricional com soberania alimentar. Neste contexto, Esther Penunia, secretária geral da Associação dos Fazendeiros Asiáticos, lembrou que as organizações de agricultores familiares são os pilares da mudança social e do desenvolvimento sustentável. Apesar de serem responsáveis por grande parte da produção mundial, enfrentam a pobreza. “É preciso que estejam organizados para exigir seu direito à água, à semente e à terra. Atuando de forma coletiva, eles têm mais poder de negociar com o mercado melhores preços e condições para continuarem produzindo”, resumiu. José Graziano da Silva, diretor geral da FAO e um dos responsáveis pelo projeto Fome Zero implantado no Brasil em 2003 e 2004, disse que o programa da entidade não é novo, mas a meta ousada pressupõe assumir conjuntamente um compromisso político, mobilizando a sociedade. * Publicado originalmente no site TerraViva.


por Clarinha Glock, da IPS
“A omissão dos direitos reprodutivos é um passo atrás em relação a acordos anteriores”, declarou Gro Harlem Brundtland. Foto: UN Photo/Mark Garten Envolverde Rio + 20

A economia verde é uma enganação, afirmam ativistas

[caption id="attachment_56147" align="alignleft" width="228" caption="“A omissão dos direitos reprodutivos é um passo atrás em relação a acordos anteriores”, declarou Gro Harlem Brundtland. Foto: UN Photo/Mark Garten"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 25/6/2012 (TerraViva) – A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, terminou com ganhadores e perdedores, mas principalmente com perdedores. A Organização das Nações Unidas (ONU) e o Brasil, junto com as grandes empresas, deram um giro positivo no resultado da Conferência, realizada 20 anos depois da Cúpula da Terra. Seu resultado foi um novo documento histórico que mudará o mundo, segundo afirmaram. No entanto, a maioria dos representantes da sociedade civil e feministas expressaram sua desilusão e indignação pelo texto final, intitulado O Futuro que Queremos, aprovado no dia 22 pelos líderes mundiais. A comparação com a Agenda 21, aprovada em 1992, foi inevitável. Anita Nayar, da organização Alternativas de Desenvolvimento com Mulheres para uma Nova Era (Dawn), com sede em Manila, disse à IPS que no acordo histórico adotado em 1992 houve cerca de 170 referências às questões de gênero em um capítulo inteiro sobre as mulheres. No documento O Futuro que Queremos há apenas umas 50, e estas foram atenuadas e usadas como elementos de negociação por parte dos Estados, ressaltou. “Tampouco é um simples assunto de menções a temas de gênero, pois alguns Estados exibem claramente uma falta de vontade de acordar ações concretas e uma debilidade geral de compromissos internacionalmente acordados sobre a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres”, acrescentou Nayar. Segundo a ativista, enquanto, em geral, os direitos humanos são afirmados no contexto da saúde sexual e reprodutiva, a omissão específica dos direitos reprodutivos é flagrante. Igualmente crítica foi Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra da Noruega e presidente da comissão que leva seu nome e que há 25 anos centrou a atenção mundial no conceito de desenvolvimento sustentável. “A declaração da Rio+20 não faz o suficiente para colocar a humanidade em um caminho sustentável, décadas depois de se ter acordado que isto é essencial, tanto para as pessoas como para o planeta. Entendo a frustração causada pela Conferência”, disse em um comunicado. Brundtland, que integra o grupo chamado The Elders (Os Anciãos), disse que “já não podemos presumir que nossas ações coletivas não gerarão pontos de inflexão, já que os umbrais ambientais foram violados, correndo o risco de danos irreversíveis, tanto para os ecossistemas como para as comunidades humanas. Estes são fatos, mas se perderam no documento final. Também é lamentável a omissão dos direitos reprodutivos, que é um passo atrás em relação a acordos anteriores. Entretanto, com este texto imperfeito temos que avançar. Não há alternativa”. As reações de organizações da sociedade civil foram majoritariamente negativas. Anil Naidoo, do Conselho de Canadenses (a maior organização de cidadãos do Canadá) se manifestou contra o conceito de economia verde promovido na Rio+20. “Não havia visto tanta falta de cobertura verde desde o último Dia de São Patrício. O documento nem se aproxima do futuro que realmente queremos, e isso porque foi escrito considerando os interesses de uma minoria”, ressaltou. Noelene Nabulivou, da Fiji Women’s Action for Change (Ação das Mulheres de Fiji pela Mudança), declarou à IPS que, “como ativista do Pacífico, vejo claramente os impactos catastróficos da mudança climática, a perda de biodiversidade e o aumento do nível do mar. A Rio+20 não faz justiça ao imediatismo e à severidade deste problema mundial”. A uruguaia Nicole Bidegain, do Escritório de Gênero e Educação do Conselho Internacional para a Educação de Pessoas Adultas (Icae), afirmou que “a economia verde simplesmente reforça o atual modelo de desenvolvimento, baseado na produção e no consumo excessivos. São promovidos os mesmos mecanismos financeiros que causaram múltiplas crises desde 2008”, sem levar em conta os impactos negativos sobre os direitos e o sustento das mulheres. Segundo Bidegain, o setor privado é priorizado sobre o público como fonte de financiamento. “Isto é irônico, já que o setor privado está envolvido na maximização do lucro de curto prazo, não nos investimentos de longo prazo necessários para a transição para um desenvolvimento sustentável, genuíno, centrado nas pessoas”, afirmou. Monica Novillo, da boliviana Coordenadoria da Mulher, disse que veio “à Rio+20 com grandes expectativas de que os governos agregassem a histórica resolução sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos para jovens e adolescentes, adotada na 45ª Comissão de População e Desenvolvimento”. O Brasil teve um papel crucial na criação deste resultado, “por isso eu esperava que defendesse fortemente estes direitos fundamentais na Rio+20, contra uma minoria de governos conservadores”, afirmou. Embora na Rio+20 tenham sido reafirmadas as agendas do Cairo e de Pequim sobre população e mulheres, é hora de estes acordos serem plenamente implantados, enfatizou. Gita Sen, da Dawn, lamentou que a cúpula praticamente tenha enterrado os direitos reprodutivos. “Neste documento fica muito claro que há uma contínua guerra contra os direitos humanos das mulheres, lançada pelo Vaticano junto com alguns governos muito conservadores”, afirmou à IPS. Envolverde/IPS


por Thalif Den, da IPS
Manifestação contra a construção de Belo Monte. Ambiente

Belo Monte, referência internacional do movimento contra barragens

[caption id="attachment_56146" align="alignright" width="300" caption="Manifestação contra a construção de Belo Monte."][/caption] Rio de Janeiro, 22 junho (TerraViva) – O moçambicano Jeremias Vunjanhe conseguiu, na caótica Cúpula dos Povos, encontrar os ativistas do Movimento Xingu Vivo que denunciavam a criminalização dos seus ativistas pela policia de Altamira, no interior do Pará. Vunjanhe tornou-se conhecido no encontro da sociedade civil da conferencia Rio+20, ao ser deportado no dia 12 de junho, quando desembarcava no aeroporto internacional de Guarulhos. Barrado pela Policia Federal, teve seu passaporte retido e devolvido “três horas depois já dentro do avião” de regresso a Moçambique, contou a TerraViva. O carimbo no seu passaporte diz que foi “Impedido” de entrar no país porque “consta no SINPI”, siglas de Sistema Nacional de Procurados e Impedidos, apesar de ter um visto de entrada concedido pelo consulado brasileiro em Maputo. A solidariedade de 80 organizações e negociações com a chancelaria brasileira permitiram que viesse ao Brasil com novo visto. Recebido com festas no Aeroporto do Galeão dia 18, participou dos últimos quatro dias da Cúpula dos Povos, onde trouxe denuncias sobre violências da brasileira Vale contra os desalojados por suas atividades mineiras em Moçambique. Membro da ONG Justiça Ambiental, denunciou também a ameaça que representa a hidrelétrica de Mphanda Nkuwa, que a Camargo Correia, uma das grandes empreiteiras brasileiras, construirá no Rio Zambeze, em sociedade com duas empresas locais, com investimentos previstos de 2,4 bilhões de dólares. Daí seu interesse em estabelecer uma troca de informações e experiências com o Xingu Vivo, também procurado por Güven Eken, diretor-executivo da ONG Doga Denergi, da Turquia. Represas atingem povos em todo o mundo, “a solução tem que ser global”, disse Eken, pregando “união para defender os rios”. Enquanto Belo Monte ameaça a Amazônia, a hidrelétrica Ilisu, no Rio Tigre, ameaça a Mesopotâmia, berço da civilização, salientou. O encontro foi convocado pelo Movimento Xingu Vivo para Sempre (MXVPS) para informar sobre os interrogatórios a que a Delegacia de Altamira está submetendo participantes da manifestação do dia 16, no âmbito do Xingu+23, uma serie de atos de protesto contra Belo Monte na própria região, durante a semana passada. No dia 16 manifestantes cavaram uma vala numa das ensacadeiras, para deixar escorrer a água, num gesto simbólico em favor do livre fluxo do Rio Xingu. Após o ato, alguns índios invadiram escritórios da Norte Energia, consórcio que constrói a usina, danificando equipamentos e instalações. Estão tentando criminalizar a resistência ao “monstro Belo Monte”, quando os culpados pela violência são o próprio Governo Federal, o Poder Judiciário e o consórcio construtor, que violam a legislação, impondo uma licença de implantação da hidrelétrica, sem que as condicionantes estabelecidas com base nos estudos de impacto ambiental tenham sido cumpridas, protestou Antonia Melo, líder do Movimento. Só os atingidos são criminalizados, enquanto se privatiza um bem público como o rio, a Norte Energia, “maior latifundiária da região”, tem propriedades legalizadas em três municípios e os pequenos agricultores nunca recebem seus títulos de propriedade, são desalojados sem indenização, enfatizou Ana Laíde Barbosa, do Conselho Indigenista Missionário de Altamira. O governo e as empresas implantaram um clima de “terror jurídico” na região para “imobilizar a luta” conta Belo Monte e “calar ativistas”, opinou o advogado Sergio Martins, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, que presta assistência aos ativistas. A repercussão dos fatos envolvendo Belo Monte, com personalidades conhecidas em todo o mundo aderindo ao movimento contra a hidrelétrica, tornou esse empreendimento uma referencia internacional dos atingidos por barragens. (TerraViva) * Publicado originalmente no site TerraViva.


por Mario Osava, da IPS
Comunidade índigena na Rio+20 Envolverde Rio + 20

Desenvolvimento sustentável marginaliza indígenas

Rio de Janeiro, Brasil, 25/6/2012 (TerraViva) – O ativista queniano pelos direitos aborígines Peter Kitelo se dirigia à maior cúpula internacional sobre meio ambiente da década, no Rio de Janeiro, quando um aviso governamental chamou sua atenção. A publicidade convocava investidores internacionais a colocarem dinheiro no “desenvolvimento das florestas”. Kitelo viu nisso um perigo. O ativista, que participou da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, encerrada no dia 22, viu claramente a ameaça de outro ataque à subsistência das comunidades indígenas. “O desenvolvimento sustentável não está realmente sustentando meu povo”, declarou Kitelo ao TerraViva no Rio de Janeiro. Acrescentou que as comunidades florestais, como a sua e de outras de países da África oriental, como Uganda e Tanzânia, são discriminadas pelos governos centrais e pelos políticos, que decidem sobre o futuro de suas terras nativas. “Estamos sendo marginalizados. Ninguém fala dos direitos de nossas comunidades”, denunciou. Quando são traçados planos para o desenvolvimento das terras, são publicados anúncios em jornais e outros meios de comunicação, aos quais as tribos nativas dificilmente têm acesso. Só quando os planos alcançam sua fase final, os funcionários do governo realizam reuniões nas aldeias, mas isto é mais um esforço para cumprir os requisitos dos doadores, não uma genuína tentativa de dar participação às comunidades, disse Kitelo. “Então, antes de sabermos, nossa terra já não é nossa”, acrescentou. [caption id="attachment_56140" align="alignleft" width="248" caption="Comunidade índigena na Rio+20"][/caption] Kitelo criticou o desenvolvimento florestal com fins turísticos, impulsionado como uma forma de preservar as florestas, mas que, na verdade, impede que seus habitantes sejam seus gerentes. “Todo o conceito de conservação de florestas impede a interação humana, e isso é o que meu povo fez por gerações”, afirmou. A experiência do Quênia não é a única. Em todo o mundo as comunidades indígenas se queixam se serem marginalizadas no processo de tomada de decisões sobre sua própria terra. Laura George, da Associação de Povos Ameríndios da Guiana, contou ao TerraViva que, quando em seu país foram introduzidas novas leis sobre terras, em junho de 2009, os povos aborígines não foram consultados. Funcionários governamentais que participaram da Rio+20 realizaram um encontro paralelo no qual asseguraram que as populações indígenas são consultadas. “Quando os informei de que não é assim, não ficaram muito contentes, mas é a verdade”, disse Laura ao TerraViva. Este tipo de marginalização pode fazer comunidades indígenas perderem por completo seu tradicional estilo de vida. “Enquanto no encontro oficial da Rio+20 os delegados falavam sobre desenvolvimento sustentável, em meu país, o Peru, a pressão cresce dia a dia com políticas do governo nacional que buscam abrir os territórios florestais remotos a firmas multinacionais por meio de projetos de infraestrutura viária”, advertiu Roberto Guimarães Vásquez, líder do povo indígena Shipibo, na Amazônia peruana. Ativistas afirmaram, inclusive, que na Rio+20 grupos indígenas sofreram discriminação, já que a logística do encontro os impedia de estarem juntos. “Um grupo ficava a 40 quilômetros de distância do outro. Como formar uma frente comum?”, disse Laura. De todo modo, conferências com a do Rio de Janeiro oferecem, pelo menos, vias para que os grupos indígenas transmitam suas preocupações a audiências mais amplas e influentes. Laura e Kitelo disseram ao TerraViva que, se os governos continuarem ignorando suas preocupações, vão apelar a organizações internacionais. “Esse pode ser nosso último recurso”, afirmou Laura. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Devido à obesidade, os norte-americanos representam quase um terço do peso da população mundial. Foto: Don Hankins/CC By 2.0 Envolverde Rio + 20

A obesidade é tão ruim quanto a superpopulação

[caption id="attachment_56125" align="alignleft" width="150" caption="Devido à obesidade, os norte-americanos representam quase um terço do peso da população mundial. Foto: Don Hankins/CC By 2.0"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 25/6/2012 (TerraViva) – O consumo excessivo e a obesidade, sobretudo nos países industrializados, ameaçam não apenas a saúde das pessoas, mas também a própria sustentabilidade da Terra, alerta um estudo apresentado na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. A pesquisa, elaborada pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM), intitulada O Peso das Nações: uma Estimativa da Biomassa Humana Adulta, confirma que a população dos Estados Unidos é a que apresenta maior sobrepeso do planeta. De fato, para que a população mundial tenha o mesmo índice de biomassa entre pessoas da mesma idade que os Estados Unidos, deveria aumentar em 58 milhões de toneladas, equivalente a 935 milhões de pessoas. O aumento da biomassa mundial por obesidade eleva as exigências de energia em 261 quilocalorias ao dia por adulto, o que equivale aos requisitos de 473 milhões de adultos. O estudo, apresentado no dia 22, dia de encerramento da Rio+20, alerta que a energia necessária para manter a biomassa criada pela obesidade agrava os problemas ecológicos causados pelo aumento populacional. Os pesquisadores calcularam a energia alimentar necessária para sustentar a biomassa usando fórmula e dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Ian Roberts, professor de epidemiologia e saúde pública da LSHTM e autor do estudo, alertou que a obesidade é uma ameaça tão grande para o meio ambiente quanto a superpopulação. “As pessoas tendem a pensar que a maior ameaça para o meio ambiente é a crescente população nos países em desenvolvimento. Mas esta medição da biomassa é mais relevante”, ressaltou Roberts. “Ao considerar quantas pessoas podem sustentar o mundo, a pergunta não é quantas bocas há para alimentar, mas quanta carne há para alimentar”, acrescentou. O estudo estima a média de biomassa mundial em 62 quilos. Os norte-americanos e canadenses em conjunto pesam, em média, 80,7 quilos, e os europeus 70,1 quilos, em média. A pesquisa também indica que, apesar de constituírem apenas 5% da população mundial, os Estados Unidos respondem por quase um terço do peso mundial devido à obesidade. Por outro lado, a Ásia é lar de 61% da população mundial, mas só representa 13% do peso dos habitantes do planeta. “A crescente biomassa terá importantes consequências para as exigências mundiais de recursos, incluindo a demanda por alimentos e a pegada ecológica de nossas espécies”, observou Roberts. Segundo o estudo, a tendência mundial ao aumento da biomassa terá sérias implicações nos recursos. O aumento do índice de biomassa sobrecarregaria as fontes de energia do planeta de forma equivalente à que fariam 473 milhões de pessoas. A maior demanda por comida disparará os preços dos alimentos. Devido ao maior poder de compra dos países industrializados, que também têm maior média de biomassa, os piores efeitos do aumento de preços recairiam sobre os pobres do mundo. O informe lamenta que o conceito de biomassa raramente seja aplicado à espécie humana, embora “as implicações ecológicas da crescente biomassa sejam significativas e devam ser levadas em conta na hora de avaliar as futuras tendências e o planejamento dos futuros desafios de recursos”. Roberts afirmou que “tratar a gordura da população poderia ser fundamental para a segurança alimentar mundial e a sustentabilidade ecológica”. O cientista disse que atualmente as pessoas não necessariamente comem mais do que há 50 anos. O principal problema é que “não movimentamos nossos corpos, mas estamos biologicamente programados para comer”, indicou. Para combater esta tendência à imobilidade sugeriu que os urbanistas concebam as cidades de maneira a torná-las fáceis para se andar a pé ou de bicicleta. “Todos concordam que o aumento populacional ameaça a sustentabilidade ambiental. Nosso estudo mostra que a gordura da população também é uma grande ameaça. A menos que atendamos tanto o aumento da população quanto da gordura, nossas chances são escassas”, opinou Roberts. Envolverde/IPS


por Julio Godoy, da IPS
O agrorreflorestamento ajuda a recuperar as nascentes de água. Crédito: Cortesia Acicafoc Ambiente

TERRAMÉRICA – Agricultura inteligente contra a vulnerabilidade

Os cultivos silvícolas combinados com agricultura e pecuária recuperam tradições e incorporam conhecimentos científicos novos. [caption id="attachment_56074" align="alignleft" width="340" caption="O agrorreflorestamento ajuda a recuperar as nascentes de água. Foto: Cortesia Acicafoc"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 22 de junho de 2012 (Terramérica).- O agrorreflorestamento surge como uma ferramenta de adaptação e mitigação de mudanças climáticas na América Central, região onde o aquecimento global poderia gerar perdas de 19% do produto interno bruto. “A única alternativa que nos resta é o agrorreflorestamento para adaptar e mitigar as mudanças climáticas”, disse ao Terramérica o diretor-executivo da Associação Coordenadora Indígena e Camponesa de Agrorreflorestamento Comunitário Centro-Americano (Acicafoc), Alberto Chinchilla. Um encontro paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, realizada entre 20 e 22 deste mês, no Rio de Janeiro, discutiu o conceito desta agricultura climaticamente inteligente, que pode ajudar a reduzir a vulnerabilidade do istmo. Na reunião estiveram presentes ministros, cientistas, técnicos e agricultores. Um sistema agroflorestal incorpora árvores aos trabalhos agrícolas e agropecuários. Sua prática, acompanhada de pesquisa científica, permite encontrar métodos e tecnologias amigáveis com o meio ambiente, explicou Chincilla. Por exemplo, as árvores permitem recuperar nascentes de água, protegem os cultivos com sua sombra, conservando mais a umidade e mantendo mais frescas as terras de pastagem, o que reduz o estresse de calor do gado. Também podem ser recuperadas espécies nativas ou em extinção e melhorar a segurança alimentar das comunidades. “O agrorreflorestamento é vincular a agricultura, a produção de alimentos a as árvores. Não podemos seguir com políticas agrícolas com o Ministério da Agricultura separado do Ministério do Meio Ambiente. Temos que harmonizar essas políticas, e que as árvores sejam parte da agricultura”, acrescentou Chincilla. Os efeitos da mudança climática são as principais ameaças que sofre a região, formada por sete países com uma população de 43 milhões de habitantes, quase a metade deles pobres. A superfície da região tem apenas 27,5% de áreas protegidas. No entanto, possui uma grande biodiversidade, segundo Rigoberto Cuéllar, titular da Secretaria de Recursos Naturais e Meio Ambiente de Honduras. Cuéllar apoia a implantação do sistema agroflorestal em seu país. “A mudança climática é um dos aspectos que limitam o desenvolvimento sustentável da região. Estamos apoiando fortemente o agrorreflorestamento e o impulso às atividades produtivas. É preciso definir políticas claras para cruzar ações coordenadas nos países”, destacou. O PIB centro-americano cresce 5% ao ano, mas estima-se que a região perdeu 1,7 pontos do PIB nas duas últimas décadas, devido aos desastres climáticos. Segundo Chincilla, a prática agroflorestal avançou na última década na região. Os países centro-americanos podem se converter em vanguarda por uma série de projetos promovidos pelo agrorreflorestamento e pela segurança alimentar. O Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola e o Fundo Japonês, por intermédio do Banco Mundial, estão destinando recursos para reforçar sistemas agroflorestais em cultivos de cacau, café, silvopastoris e de reflorestamento. Nos próximos quatro anos serão investidos US$ 10 milhões em agrorreflorestamento comunitário mediante projetos de sócios da Acicafoc. Os beneficiários são membros de comunidades indígenas e camponesas. O desafio é aliar o conhecimento tradicional com o científico, apontou Chinchilla, acrescentando que a Acicafoc está organizando, junto ao Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino (Catie), um programa de capacitação para reforçar os conhecimentos tradicional e o acadêmico em matéria de sistemas agroflorestais tropicais. A guatemalteca Associação de Desenvolvimento Produtivo e de Serviços Tikonel é um exemplo de trabalho local com produtos agroflorestais. Seu diretor-executivo, Francisco Xanté Lobos, explicou que a Tikonel atua com 16 comunidades rurais, a maioria maias k’iche’, que cultivam espécies de pinheiro e cipreste, em plantações que conseguiram certificados de selo verde. Também produzem café, macadâmia e cacau, combinados com espécies de madeiras. “Após 20 anos, vimos que fizemos muitas coisas no desenvolvimento sustentável. Queremos pedir aos governos que apostem mais no desenvolvimento integral para que contribuam para uma melhor qualidade de vida”, afirmou Xanté Lobos ao Terramérica. A Costa Rica é um exemplo de esforço nacional de reflorestamento e pagamento por serviços ambientais. Segundo o ministro do Meio Ambiente, René Castro, a cobertura florestal desse país chegou a ser de apenas 21% do território nacional em 1987, mas em 2010 cerca de 52% estavam recuperados. “Este ano alcançaremos 4,8 milhões de árvores, uma por habitante. Isto faz parte de um esforço nacional, por meio de um imposto sobre combustíveis”, seguindo a ideia de que “quem contamina paga”, mediante o instrumento de pagamento por serviços ambientais, explicou Castro em sua apresentação. Um programa adicional na Costa Rica está focado no reflorestamento com árvores nativas e em perigo de extinção. “É dado prêmio de 50% do pagamento ao pecuarista ou agricultor que plantar espécies ameaçadas. É um instrumento simples que demonstra que é possível recuperar”, afirmou. * A autora é correspondente da IPS. LINKS Banco Mundial: A América Latina tem antídoto verde à mão Receita indígena para a Rio+20: Deixem tudo na Mãe Terra
 O futuro reclama um ombudsman na Rio+20 Sociedade civil está no trem da Rio+20 TerraViva, o diário independente da Rio+20, em espanhol, inglês e português Rio+20: Como será o futuro do planeta - Cobertura especial da IPS, em espanhol Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em inglês e português Rio+20, o futuro que queremos, em inglês, francês, espanhol e outros idioma Cúpula dos Povos, em português, inglês, francês, espanhol Associação Coordenadora Indígena e Camponesa de Agrorreflorestamento Comunitário Centro-Americano, em espanhol e inglês Secretaria de Recursos Naturais e Ambiente de Honduras, em espanhol Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino, em espanhol Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, em inglês Tikonel, em espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Fabíola Ortiz*
Crédito: Claudius/IPS Artigo

TERRAMÉRICA – Além da Rio+20: Juntos por um futuro sustentável

Não se pode chamar de sustentável o desenvolvimento enquanto quase uma em cada sete pessoas é vítima da desnutrição no mundo, afirma o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva. [caption id="attachment_56078" align="alignleft" width="360" caption="Foto: Claudius/IPS"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 22 junho de 2012 (Terramérica).- As declarações finais da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano de 1972 e a Eco 92 puseram o ser humano no centro do desenvolvimento sustentável. No entanto, até hoje, mais de 900 milhões de pessoas ainda passam fome. Populações pobres pelo mundo afora, especialmente nas áreas rurais, são as mais atingidas pelas crises alimentar, climática, financeira, econômica, social e energética que o mundo enfrenta hoje. Não podemos falar em desenvolvimento sustentável enquanto aproximadamente uma em cada sete pessoas – crianças, mulheres e homens – ficam para trás, vítimas de desnutrição. Seria uma contradição. A fome e a pobreza extremas também excluem a possibilidade de um verdadeiro desenvolvimento sustentável porque os miseráveis precisam usar os recursos naturais disponíveis para conseguir comida. Para eles, suprir suas necessidades básicas é o princípio primordial de cada dia – planejar para o futuro é um luxo que eles não têm. Paradoxalmente, mais de 70% das pessoas que passam fome no mundo dependem diretamente da agricultura, caça e pesca para sobreviver. Portanto, suas escolhas diárias ajudam a determinar como os recursos naturais do mundo são administrados. Não podemos esperar que o agricultor pobre não corte uma árvore se esta é sua única fonte de energia; não podemos pedir para o pescador artesanal deixar de pescar durante o período do defeso se esta é a única maneira de alimentar sua família. A fome coloca em movimento um ciclo vicioso que reduz a produtividade, aprofunda a pobreza, desacelera o desenvolvimento econômico, promove a degradação dos recursos e a violência. A fome e a disputa por recursos naturais são fatores de conflitos que, mesmo quando são internos, têm impactos que frequentemente ultrapassam as fronteiras dos países. Então, há também uma ligação direta entre a segurança alimentar e segurança nacional e regional. A busca por segurança alimentar pode ser o fio condutor que ligar os diferentes desafios que o mundo enfrenta e ajudar a construir um futuro mais sustentável. Na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, temos uma oportunidade de ouro para explorar a convergência entre as agendas da segurança alimentar e a sustentabilidade para assegurar que isso aconteça. Ambas requerem mudanças para modelos de produção e consumo mais sustentáveis. Para alimentar uma população mundial que superará a marca de nove bilhões de pessoas em 2050, a FAO prevê a necessidade de aumentar a produção agrícola em pelo menos 60%. Para isso, precisamos produzir mais alimentos ao mesmo tempo em que conservamos o meio ambiente. Contudo, mesmo com práticas mais sustentáveis, a pressão sobre nossos recursos naturais será extrema. Então, também temos que mudar a maneira que nos alimentamos, adotando dietas mais saudáveis e reduzindo o desperdício e perda de alimentos: todo ano, entre a colheita e o consumo, jogamos fora 1,3 bilhão de toneladas de alimentos. Entretanto, mesmo se aumentarmos a produção agrícola em 60% até 2050, o mundo ainda terá 300 milhões de pessoas com fome daqui a quatro décadas porque, como as centenas de milhões de subnutridos hoje, eles continuarão sem os meios para ter acesso à comida que necessitam. Para eles, a segurança alimentar não é um problema de produção insuficiente, é uma questão de acesso inadequado. Para tirar esses milhões de pessoas da insegurança alimentar, precisamos investir na criação de melhores empregos, pagar melhores salários, dar-lhes maior acesso a ativos produtivos – especialmente terra e água – e distribuir renda de forma mais justa e equitativa. Precisamos trazê-los para dentro da sociedade, complementando o apoio aos pequenos agricultores com oportunidades de geração de renda, com o fortalecimento das redes de proteção social, mutirões de trabalho e programas de transferência de renda, que contribuam para o fortalecimento de circuitos locais de produção e consumo para dinamizar as economias locais. A transição para um futuro sustentável também exige mudanças fundamentais no sistema de governança de alimentos e agricultura e uma partilha equitativa dos custos de transição e benefícios. No passado, os mais pobres pagaram uma parcela maior dos custos de transição e receberam uma cota menor de benefícios. Este é um desequilíbrio inaceitável, que precisa mudar. Erradicar a fome e melhorar a nutrição humana, criando sistemas sustentáveis de produção e consumo de alimentos, e construir uma governança mais inclusiva e eficaz dos sistemas agrícolas e alimentares são cruciais para alcançar um mundo sustentável. Na Rio+20, estamos numa encruzilhada. De um lado está o caminho para a degradação ambiental e o sofrimento humano; do outro está o futuro que todos queremos. A Rio+20 oferece uma oportunidade histórica que não podemos dar ao luxo de perder. Nós sabemos como acabar com a fome e gerenciar os recursos do planeta de uma forma mais sustentável. Mas precisamos de uma vontade política mais forte para fazê-lo. Devemos olhar para Rio +20 como o início de um caminho e não como o ponto de chegada. E essa é uma caminhada que não podemos fazer sozinhos. Como a luta contra a fome, o desenvolvimento sustentável é uma meta com a qual cada um de nós deve contribuir – cidadãos, empresas, governos, movimentos sociais, ONGs e organismos regionais e internacionais. Juntos, trabalhando a partir do nível local para o nível global, podemos construir o futuro que queremos. E esse futuro precisa começar hoje. * José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por José Graziano da Silva*
Jovens oferecem "abraços grátis" da Cúpula dos Povos. Crédito: Alice Marcondes Envolverde Rio + 20

Os povos da Cúpula

Uma verdadeira festa de cores, sons e harmonia recebe os visitantes na Cúpula dos Povos. Um passeio pelo lugar é uma lição de tolerância e sustentabilidade. [caption id="attachment_56043" align="alignleft" width="285" caption="Um dos portais de entrada da Cúpula dos Povos. Crédito: Alice Marcondes"][/caption] Um olhar desavisado para o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, pode causar a sensação que o local foi tomado por uma imensa feira de artesanatos. Circulam pelas dezenas de barraquinhas de lona branca, muitos índios, artistas e representantes das mais diversas etnias e culturas. Porém, as pessoas que ali estão, esperam vender muito mais do que objetos e artefatos, elas querem que o mundo compre suas ideias. O Aterro é o palco, de 15 a 23 de junho, da Cúpula dos Povos, uma atividade paralela à Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. O evento tem como temas principais a luta por justiça social e ambiental, contra a mercantilização da vida e em defesa dos bens comuns. Assim como aconteceu na Rio 92, a Cúpula do Povos é o espaço onde a sociedade civil pode se manifestar. Grupos com as mais diversas reivindicações, que vão da inclusão social ao fomento da agroecologia, dão ao local uma atmosfera de militância. Muitas faixas expressam ideologias e protestos e palavras de ordem são ditas ao microfone todo o tempo. A área conta também com espaços para o que eles chamam de Atividades Autogestionadas, que são palestras e debates promovidos pelas mais de 50 redes de organizações e coletivos nacionais e internacionais que estão no evento. Um passeio pelo local é uma festa de cores, músicas e natureza. Um grupo de jovens vestidos de palhaço e pintados a caráter distribuem “abraços grátis”. Para que não aconteçam mal entendidos, as plaquinhas estão também em inglês e a maioria dos transeuntes não perde a oportunidade do carinho descontraído. Outra palhaça bastante animada faz um teatro de rua sobre educação ambiental, enquanto alguns cicloativistas distribuem panfletos contando como saíram de diversos Estados do país e vieram sobre duas rodas para a Rio+20. “Saí de Alagoas e demorei 28 dias para chegar aqui. Seis patrocinadores e rifas ajudaram no financiamento da nossa viagem. Nós queríamos provar que a bicicleta é realmente um meio de transporte, tanto que trouxe a gente de Maceió para participar da Conferência”, contou Lucival de Oliveira Lima, um dos participantes do grupo. [caption id="attachment_56044" align="alignright" width="300" caption="Faixas com dizeres de protesto estão por todos os cantos na Cúpula dos Povos. Crédito: Alice Marcondes"][/caption] Manifestações contrárias à Usina Hidrelétrica de Belo Monte estão por toda a parte. O apoio ao movimento dos catadores e à causa indígena também são assuntos bastante lembrados. “Sou catadora de rua e luto contra a incineração, que se acontecer vai tirar o meu sustento. Vim aqui passar a minha mensagem porque aqui é a Cúpula dos Povos, que é o lugar dos povos que são excluídos”, desabafou Isodélia Santos, de 54 anos, que veio de Salvador, na Bahia, para participar do evento. E como não poderia faltar em um ambiente de tanta tolerância, militantes pedem a criminalização da homofobia e distribuem camisinhas para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. “Hoje o Brasil é o país que mais assassina gays, lésbicas e travestis. Chegamos a 210 mortos só em 2012. Exigimos que o Congresso Nacional respeite a nossa população, que é mais de 10% dos brasileiros. Não queremos mais ser violentados”, exclamou Carlos Alves, 45 anos, que é carioca e aproveitou o evento para levantar a bandeira da causa. Se quiser levar uma lembrança do lugar, o visitante pode escolher entre a feira de economia solidária, os artesanatos indígenas tradicionais e obras de arte. Se a grana estiver curta, é só ir até a feira de trocas, se desfazer de algo que não usa mais e sair com um objeto mais útil. Na hora da fome, uma praça de alimentação com produtos orgânicos e comida vegetariana à disposição. Caso o visitante fique sem bateria no celular, pode pedalar por alguns minutos em bicicletas instaladas em quiosques, que geram energia para fazer a recarga. [caption id="attachment_56045" align="alignleft" width="225" caption="Jovens oferecem "abraços grátis" da Cúpula dos Povos. Crédito: Alice Marcondes"][/caption] Muitos exemplos de modos de vida mais sustentáveis podem ser vistos na Cúpula dos Povos, mas o principal deles é a sustentabilidade das relações. Militantes do movimento pela legalização da maconha convivem em plena harmonia com as organizações religiosas e todos dançam juntos ao som da música Hare Krishna. “Estávamos receosos de que houvesse hostilidade por parte dos religiosos, mas a convivência com a juventude cristã e outros grupos está bem tranquila”, comentou Lucas Liche, de 25 anos, integrante do movimento Marcha da Maconha Brasil. Os povos da Cúpula dão uma verdadeira lição de igualdade e de que a união é a única maneira de se chegar a um objetivo comum, que é o bem-estar do planeta. Porém, os governantes reunidos no Riocentro provavelmente não absorveram a mensagem, já que, a quilômetros de distância, ficou difícil que as vozes fossem ouvidas. Veja aqui a galeria de fotos da Cúpula dos Povos.


por Alice Marcondes, da Envolverde
53 Envolverde Rio + 20

Galeria de imagens – Cúpula dos Povos

Confira algumas imagens da Cúpula dos Povos, evento paralelo da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. O local é um espaço de manifestação da sociedade civil, onde estão presentes mais de 50 entidades nacionais e internacionais com as mais diversas reivindicações: Diversos portais marcam a entrada no território, que além de feiras de artesanatos e economia solidária, tem também espaços para debates. Há no local um espaço onde o visitante pode comprar objetos e comidas feitas sob os parâmetros da economia solidária. Abaixo alguns exemplos como as bolsas feitas de anéis de lata de alumínio e o artesanato com folhas. Em um dos stands do local, onde está instalado um grupo que pede proteção aos muriquis, um macaco que é o maior primata das Américas, dois rapazes fazem uma encenação com o gestual do animal. Faixas com dizeres de protesto estão expostas por todos os cantos da Cúpula dos Povos. Aliada à elas é frequente que alguém grite palavras de ordem. Outra maneira escolhida para chamar a atenção dos visitantes são as manifestações artísticas, que em forma de música, fotos ou artesanato estão presentes por todos os cantos. Alguns objetos estão à venda, outros apenas expostos. Artistas de rua com as mais diversas intervenções marcaram presença no local. O homem vestido de estátua viva dava flores de papel feitas na hora a quem depositasse uma moeda em sua caixinha. Outro senho fazia sua boneca marionete sambar. Um grupo de jovens vestidos de palhaços distribuíam "abraços grátis", enquanto uma moça vestida de vaca dava uma entrevista falando da importância da proteção aos animais. Como era de se esperar, os índios estão presentes por toda a parte na Cúpula dos Povos. Alguns vestido de maneira mais tradicional, outros com um ar de mistura cultural. Um grupo de escoteiros canta em coro sua música que fala de fraternidade. A alegria da música hare krishna contagia um grupo de pessoas que dançam animadamente convidando todos os que passam a participar. * As fotos são da jornalista da Envolverde Alice Marcondes.


por Alice Marcondes, da Envolverde

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