Cooperar para inovar

Envolverde Rio + 20

Cooperar para inovar


por Alice Marcondes, da Envolverde


[caption id="attachment_55987" align="alignleft" width="221" caption="Da esquerda para a direita: Victor Fernandes, da Natura, Fernando Von Zuben, da Tetra Pak, Neil Hawkins, da Dow Química e Fernando Sandroni, da Firjan, moderador da mesa."][/caption] Inovação tecnológica para a sustentabilidade é tema de seminário que reuniu lideranças empresariais no último dia 20. A inovação tecnológica para a sustentabilidade é, nas palavras de Victor Fernandes, diretor de Inovação da Natura, aquela que tem como objetivo principal “criar um mundo melhor”. Fernandes participou na tarde do dia 20 do Seminário Lideranças Empresariais, um evento que faz parte da programação paralela da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Em um debate sobre Tecnologias para a Sustentabilidade, onde estavam presentes também Neil Hawkins, vice-presidente de sustentabilidade da Dow Química, Aires Galhardo, diretor Florestal da Fibria, Jan-Willem Scheijgrond, diretor de Meio Ambiente da Philips e Fernando Von Zuben, diretor de desenvolvimento ambiental da Tetra Pak, o pensamento comum foi de que não se faz inovação sem cooperação. Citando o exemplo do avião movido a biocombustível, que fez um vôo demonstrativo na Conferência, Galhardo ilustrou o papel de cada um dos elos da cadeia para que as ideias saiam do papel. “Não bastava desenvolver o combustível se a fabricante do avião não adaptasse a máquina e nada disso funcionaria se o governo não incentivasse e se o consumidor não considerasse importante”. Destacando o impacto positivo que essas inovações podem ter na sociedade, o diretor da Philips, Jan-Willem, lembrou ainda a história de um fogão de baixo custo, desenvolvido por um engenheiro da empresa. “Não tínhamos expectativa, mas de repente haviam milhares desses fogões em lugares carentes da Índia. Uma pessoa na África também utilizou o desenho, adequando às necessidades da região.” O diretor da Tetra Pak contou a experiência da fabricante de embalagens com a criação da Rota da Reciclagem, um site onde as pessoas conseguem identificar locais para descartar resíduos recicláveis. “ Nós fizemos pesquisas e percebemos que o conumidor tinha dificuldade em saber onde levar os seu lixo reciclável. Tivemos a ideia de utilizar uma tecnologia que já existia, do Google Maps, e fazer algo que solucionasse esse problema. Colocamos uma equipe de engenheiros pensando nisso e surgiu o site”. Para Von Zuben, é preciso ter visão e adequar as ideias de maneira que se tornem mais sustentáveis “Muitas inovações estão na nossa frente, mas a gente não sabe como usar para a sustentabilidade”. A necessidade de investimento a longo prazo foi apontada por Von Zuben como um ponto crucial para a inovação tecnológica. “Iniciamos em 1996 o desenvolvimento de uma tecnologia para separar o plástico do alumínio em nossas embalagens que só começou a ser implantada em 2005”. Todas empresas presentes relataram experiências bem sucedidas no tema, porém, a falta de mão-de-obra capacitada em sustentabilidade foi destacada por Von Zuben e enfatizada pelos demais, como um grande impeditivo para mais avanços na área de inovação. “A sustentabilidae é movida por gente. É preciso gerar pessoas com conhecimento voltado para o tema. Esse é um ponto complicado”, relatou o diretor da Tetra Pak.

Plenária da Cúpula dos Povos na tarde de ontem (21) Envolverde Rio + 20

Cúpula dos Povos apresenta Declaração Final a Ban Ki-moon

[caption id="attachment_55974" align="alignleft" width="250" caption="Plenária da Cúpula dos Povos na tarde de ontem (21)"][/caption] Secretário geral das Nações Unidas receberá o documento hoje no Riocentro. O Comitê Facilitador da Sociedade Civil na Rio+20 - Cúpula dos Povos - apresenta a Declaração Final.  O secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, irá recebê-lo das mãos dos ativistas socioambientais hoje (22), pela manhã, no Riocentro. Desde o dia 15, os povos representantes de todo o mundo, diz o documento, "vivenciaram  a construção das convergências e alternativas, conscientes de que somos sujeitos de uma outra relação entre humanos e humanas e entre a humanidade e a natureza, assumindo o desafio urgente de frear a nova fase de recomposição do capitalismo e de construir, novos paradigmas de sociedade". A Declaração manifesta a crítica aos "retrocessos significativos" sobre os direitos humanos causados pelas políticas vigentes. E, enfatiza que a responsabilidade pela crise global é também das corporações transnacionais que "avançam contra os direitos dos povos, a democracia e a natureza, sequestrando os bens comuns da humanidade para salvar o sistema econômico-financeiro". As alternativas de superação deste modelo incluem "a defesa dos espaços públicos nas cidades, com gestão democrática e participação popular, a economia cooperativa e solidária, a soberania alimentar, um novo paradigma de produção, distribuição e consumo, a mudança da matriz energética". Segundo os organizadores,  passaram pelo Aterro do Flamengo cerca de 30 mil pessoas e 15 mil foram os inscritos participantes das atividades realizadas. A seguir, confira o Declaração Final. ________________________________________________________________________ DECLARAÇÃO FINAL CÚPULA DOS POVOS NA RIO+20 POR JUSTIÇA SOCIAL E AMBIENTAL EM DEFESA DOS BENS COMUNS, CONTRA A MERCANTILIZAÇÃO DA VIDA Movimentos sociais e populares, sindicatos, povos e organizações da sociedade civil de todo o mundo presentes na Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, vivenciaram nos acampamentos, nas mobilizações massivas, nos debates, a construção das convergências e alternativas, conscientes de que somos sujeitos de uma outra relação entre humanos e humanas e entre a humanidade e a natureza, assumindo o desafio urgente de frear a nova fase de recomposição do capitalismo e de construir, através de nossas lutas, novos paradigmas de sociedade. A Cúpula dos Povos é o momento simbólico de um novo ciclo na trajetória de lutas globais que produz novas convergências entre movimentos de mulheres, indígenas, negros, juventudes, agricultores/as familiares e camponeses, trabalhadore/as, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, lutadores pelo direito a cidade, e religiões de todo o mundo. As assembléias, mobilizações e a grande Marcha dos Povos foram os momentos de expressão máxima destas convergências. As instituições financeiras multilaterais, as coalizões a serviço do sistema financeiro, como o G8/G20, a captura corporativa da ONU e a maioria dos governos demonstraram irresponsabilidade com o futuro da humanidade e do planeta e promoveram os interesses das corporações na conferência oficial. Em constraste a isso, a vitalidade e a força das mobilizações e dos debates na Cúpula dos Povos fortaleceram a nossa convicção de que só o povo organizado e mobilizado pode libertar o mundo do controle das corporações e do capital financeiro. Há vinte anos o Fórum Global, também realizado no Aterro do Flamengo, denunciou os riscos que a humanidade e a natureza corriam com a privatização e o neoliberalismo. Hoje afirmamos que, além de confirmar nossa análise, ocorreram retrocessos significativos em relação aos direitos humanos já reconhecidos. A Rio+20 repete o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global. À medida que essa crise se aprofunda, mais as corporações avançam contra os direitos dos povos, a democracia e a natureza, sequestrando os bens comuns da humanidade para salvar o sistema economico-financeiro. As múltiplas vozes e forças que convergem em torno da Cúpula dos Povos denunciam a verdadeira causa estrutural da crise global: o sistema capitalista associado ao patriarcado, ao racismo e à homofobia. As corporações transnacionais continuam cometendo seus crimes com a sistemática violação dos direitos dos povos e da natureza com total impunidade. Da mesma forma, avançam seus interesses através da militarização, da criminalização dos modos de vida dos povos e dos movimentos sociais promovendo a desterritorialização no campo e na cidade. Avança sobre os territórios e os ombros dos trabalhadores/as do sul e do norte. Existe uma dívida ambiental histórica que afeta majoritariamente os povos do sul do mundo que deve ser assumida pelos países altamente industrializados que causaram a atual crise do planeta. O capitalismo também leva à perda do controle social, democrático e comunitário sobre os recursos naturais e serviços estratégicos, que continuam sendo privatizados, convertendo direitos em mercadorias e limitando o acesso dos povos aos bens e serviços necessários à sobrevivencia. A atual fase financeira do capitalismo se expressa através da chamada economia verde e de velhos e novos mecanismos, tais como o aprofundamento do endividamento público-privado, o super-estímulo ao consumo, a apropriação e concentração das novas tecnologias, os mercados de carbono e biodiversidade, a grilagem e estrangeirização de terras e as parcerias público-privadas, entre outros. As alternativas estão em nossos povos, nossa história, nossos costumes, conhecimentos, práticas e sistemas produtivos, que devemos manter, revalorizar e ganhar escala como projeto contra-hegemônico e transformador. A defesa dos espaços públicos nas cidades, com gestão democrática e participação popular, a economia cooperativa e solidária, a soberania alimentar, um novo paradigma de produção, distribuição e consumo, a mudança da matriz energética,  são exemplos de alternativas reais frente ao atual sistema agro-urbano-industrial. A defesa dos bens comuns passa pela garantia de uma série de direitos humanos e da natureza, pela solidariedade e respeito às cosmovisões e crenças dos diferentes povos, como, por exemplo, a defesa do “Bem Viver” como forma de existir em harmonia com a natureza, o que pressupõe uma transição justa a ser construída com os trabalhadores/as e povos. A construção da transição justa supõe a liberdade de organização e o direito a contratação coletiva e políticas públicas que garantam formas de empregos decentes. Reafirmamos a urgência da distribuição de riqueza e da renda, do combate ao racismo e ao etnocídio, da garantia do direito a terra e território, do direito à cidade, ao meio ambiente e à água, à educação, a cultura, a liberdade de expressão e democratização dos meios de comunicação, e à saúde sexual e reprodutiva das mulheres. O fortalecimento de diversas economias locais e dos direitos territoriais garantem a construção comunitária de economias mais vibrantes. Estas economias locais proporcionam meios de vida sustentáveis locais, a solidariedade comunitária, componentes vitais da resiliência dos ecossistemas. A maior riqueza é a diversidade da natureza e sua diversidade cultural associada que estão intimamente relacionadas. Os povos querem determinar para que e para quem se destinam os bens comuns e energéticos, além de assumir o controle popular e democrático de sua produção. Um novo modelo enérgico está baseado em energias renováveis descentralizadas e que garanta energia para a população e não para corporações. A transformação social exige convergências de ações, articulações e agendas comuns a partir das resistências e proposições necessárias que estamos disputando em todos os cantos do planeta. A Cúpula dos Povos na Rio+20 nos encoraja para seguir em frente nas nossas lutas. Rio de Janeiro, 15 a 22 de junho de 2012. Comitê Facilitador da Sociedade Civil na Rio+20 - Cúpula dos Povos EcoAgência * Publicado originalmente no site da EcoAgência.


por Redação da EcoAgência
Presidenta Dilma Rousseff discursa na Rio+20 Envolverde Rio + 20

Rio+20 acaba hoje com balanço positivo para o Brasil, mas polêmico para movimentos sociais

[caption id="attachment_55968" align="alignleft" width="280" caption="Presidenta Dilma Rousseff discursa na Rio+20"][/caption] Rio de Janeiro – A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, será encerrada hoje (22), por volta das 15h, com a divulgação do documento final, contendo 49 páginas, denominado O Futuro Que Queremos. O balanço dos dez dias de discussões divide opiniões. Autoridades brasileiras consideram um avanço a inclusão do desenvolvimento sustentável com erradicação da pobreza, enquanto movimentos sociais e alguns líderes estrangeiros condenam a falta de ousadia do texto. O tom de crítica deve predominar nesta sexta-feira, pois as organizações não governamentais (ONGs) que promoveram vários protestos durante a conferência prometem uma manifestação para hoje. Nela, será apresentado um balanço das discussões e recomendações apresentadas no texto final a ser aprovado pelos chefes de Estado e Governo. O chefe da delegação do Brasil na Rio+20, embaixador André Corrêa do Lago, reiterou que o saldo da conferência é positivo. “O principal saldo foi fazer com que o desenvolvimento sustentável se transforme em paradigma em todos seus aspectos - social, ambiental e econômico”, disse. Porém, para as ONGs, faltou ousadia por parte das autoridades na exigência de definições claras sobre responsabilidades específicas, repasses financeiros, discriminação de prazos para a adoção de medidas e a ampliação de poderes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). No Riocentro, local das discussões políticas, os protestos foram mais discretos do que os que dominaram as ruas do Rio de Janeiro. No entanto, houve uma exceção. Em frente ao Pavilhão 5, destinado às reuniões dos chefes de Estado e Governo, além dos ministros, o gaúcho Aristide Souza Maltoni Júnior fez uma manifestação solitária ontem em protesto ao que chamou de “metas pouco concretas” da Rio+20. O manifestante gritava palavras de ordem para chamar a atenção das autoridades. As discussões mostraram ainda que as divergências econômicas estão presentes também nos debates polítcos e ambientais. Os negociadores dos países desenvolvidos e em desenvolvimento entraram em vários conflitos, principalmente os que envolviam recursos. A União Africana (formada por 54 países) foi um dos blocos que mais reagiram às restrições impostas pelos países desenvolvidos. “Não há um grupo de negociadores que tenha admitido ganhar em tudo. O Brasil conduziu muito bem os temas divergentes. Depois, chegamos a um acordo e agora temos um caminho. Mas o documento ainda é muito grande”, disse o ministro do Desenvolvimento, Economia Florestal e Meio Ambiente do Congo, Henri Djombo. Paralelamente, os líderes políticos estrangeiros discursavam na sessão plenária e debatiam o conteúdo do documento final. O texto ratifica que os temas polêmicos e sem consenso ficarão para uma próxima cúpula. Os aspectos sociais são destacados, ressaltando o esforço conjunto para a erradicação da pobreza, a melhoria na qualidade de vida e o homem no centro das preocupações. O documento tem 49 páginas, menos uma em relação à versão anterior, sendo que inicialmente o texto chegou a ter 200 páginas. O documento está dividido em seis capítulos e 283 itens. Os capítulos mais relevantes são os que tratam de financiamentos e meios de implementação (relacionados às metas e compromissos que devem ser cumpridos). * Edição: Graça Adjuto ** Publicado originalmente no site da Agência Brasil.


por Renata Giraldi e Carolina Gonçalves, da Agência Brasil
“Há muito teatro para tentar demonstrar que o resultado tem êxito”, disse Naidoo. Foto: Amantha Perera/IPS Envolverde Rio + 20

Sociedade civil frustrada por “completo fracasso” da Rio+20

[caption id="attachment_55946" align="alignleft" width="232" caption="“Há muito teatro para tentar demonstrar que o resultado tem êxito”, disse Naidoo. Foto: Amantha Perera/IPS"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 22/6/2012 – O resultado da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, até agora é um fiasco para as organizações não governamentais, que rechaçaram o documento final negociado pelos governos. O diretor-geral do Greenpeace, Kumi Naidoo, qualificou de “completo fracasso” o resultado desse encontro, por sua falta de metas concretas e prazos. A organização Greenpeace foi uma das mais duras críticas das negociações nos últimos meses sobre a declaração final da Conferência. “Há muitas voltas e muito teatro para tentar demonstrar que o resultado é positivo”, disse Naidoo, ontem, um dia antes do encerramento oficial da cúpula. “Há pontos de referência específicos? Há recursos específicos (comprometidos)?”, questionou. “A realidade é que é um completo fracasso nesse sentido”, ressaltou. Naidoo afirmou que o fracasso da Conferência não deve ser atribuído plenamente ao Brasil, mas acrescentou que a nação organizadora deve aceitar parte da culpa por ter pressionado por um consenso sem importar sua consistência. “Muitos governos se queixaram da forte pressão que o Brasil exercia para obter um acordo a qualquer custo”, opinou, acrescentando que o resultado final é um documento com poucas ambições. Naidoo também criticou as nações ricas por defenderem apenas seus interesses. Alguns funcionários da Organização das Nações Unidas (ONU) que acompanharam de perto o processo reconheceram que houve pressão sobre os negociadores. Um deles declarou ao TerraViva que muitos países concordavam que a declaração não oferecia soluções para as crises mais graves que a humanidade enfrenta, mas que não podiam dizer isso publicamente. Naidoo destacou que a declaração, por carecer de objetivos específicos, não freará os problemas crescentes da mudança climática, a perda de biodiversidade e o desmatamento. “O mínimo aceitável são todas essas coisas fundamentais sobre o meio ambiente e o clima, que são problemas muito graves. Todos os sinais indicam que o tempo está se esgotando. No contexto de compromissos específicos com recursos apropriados, declaramos o resultado um fracasso épico”, enfatizou Naidoo. As ONGs presentes à Rio+20 se queixam de que foram consultadas sobre o documento final somente no último minuto, quando já não podiam incidir de maneira significativa sobre ele. Ao falar na cerimônia de abertura do segmento oficial da Conferência, no dia 20, quando se supunha que os chefes de Estado e de governo deveriam rubricar o documento apresentado pelo Brasil, o representante de uma organização afirmou: “O texto perdeu completamente contato com a realidade, e as ONGs presentes no Rio não o aprovam”. Este representante (identificado pela imprensa brasileira como Waek Hamidan, do Climate Action Network Europe) insistiu em que o texto é um fracasso por não abordar temas cruciais como a eliminação de subsídios aos combustíveis fósseis e para a energia nuclear, nem estabelecer passos concretos para frear a deterioração dos mares internacionais. O ativista também pediu que, se o texto permanecer como está agora, sejam eliminadas as menções à sociedade civil da introdução. As ONGs presentes no Rio de Janeiro expressaram profunda decepção pelo documento final, embora nem todas necessariamente estejam de acordo com a eliminação das menções à sociedade civil no documento. Barbara Stocking, diretora-executiva da Oxfam, disse ao TerraViva que sua organização aprova a eliminação da referência à sociedade civil no texto. “Basicamente, a sociedade civil não está de acordo com essa série de declarações”, afirmou. “Os aspectos básicos estão, mas não há nada ali realmente pelo qual a sociedade civil tenha lutado. Não houve um adequado processo para envolver a sociedade civil”, acrescentou. “O diálogo só começou às vésperas da atual seção de alto nível, e não houve meios para poder incidir, pois o texto já estava fechado”, ressaltou. Por sua vez, Sharon Burrow, secretária-geral da Confederação Sindical Internacional, teve uma postura diferente. “Apoio a ambição, mas meu desafio não é sermos eliminados do texto, mas esclarecer o que realmente significa codeterminação (participação nas decisões) para avançar”, esclareceu. “Nós, a sociedade civil, os sindicatos, representamos o povo assim como os políticos. Eles nos apresentaram um texto final pouco antes de começar a cúpula, e isso foi muito frustrante”, observou. Segundo Naiddo, “não se trata de uma palavra em particular no texto, mas do fato de que, se falam seriamente em tomar decisões compartilhadas, devem nos dizer como participaremos”. Envolverde/IPS


por Amantha Perera e Claudia Ciobanu, da IPS
Secretário-geral Ban Ki-moon bate o martelo para marcar a abertura oficial da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Foto: UN Photo/Mark Garten Envolverde Rio + 20

Pegada humana supera os limites da Terra

[caption id="attachment_55939" align="alignleft" width="350" caption="Secretário-geral Ban Ki-moon bate o martelo para marcar a abertura oficial da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Foto: UN Photo/Mark Garten"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 20/6/2012 (Terra Viva) O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, apresentou um cenário assustador para o futuro não muito distante a mais de cem líderes mundiais presentes na abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, no Rio de Janeiro no dia 20. Ele destacou três tendências perigosas: muita disputa política, graves problemas econômicos e ampliação das desigualdades sociais. Ban colocou a Rio +20 em um contexto sombrio ao observar que 20 anos atrás, durante a Cúpula da Terra de 1992, havia 5,5 bilhões de pessoas no mundo. “Agora, são mais de sete bilhões. E até 2030, precisaremos de 50% mais alimentos, 45% mais energia e 30% mais de água, apenas para continuar a viver como fazemos hoje”, Sem sombra de dúvida, advertiu, “entramos numa nova era… Até mesmo uma nova época geológica, onde a atividade humana está alterando fundamentalmente a dinâmica da Terra”. Nossa presença global ultrapassou os limites do nosso planeta, ressaltou. No dia 19, os delegados de 191 países aprovaram um plano para o desenvolvimento sustentável, intitulado O Futuro que Queremos, que deverá ser aprovado pelos líderes mundiais no dia 22. Contudo, a pergunta permanece: como é que este modelo será dotado de recursos e de uma estrutura institucional? Numa coletiva para a imprensa no início do dia, Ban admitiu que teria preferido um plano de ação mais ambicioso para o futuro. “Eu sei que alguns Estados-membros tinham esperança de ter um documento final mais ousado e ambicioso. Eu também espero que tenhamos um documento final mais ambicioso”, declarou. “Mas vocês também devem entender que as negociações têm sido muito, muito difíceis, e muito lentas, por causa de todos os interesses e ideias conflitantes”, ponderou Ban, acrescentando que “alguns apresentaram (muitas) ações audaciosas e de grande alcance, enquanto alguns países também tinham os seus próprios pontos de vista e interesses. Então vocês devem entender que este é o resultado de um processo muito longo e delicado de negociação. ” Dirigindo-se aos líderes mundiais, Ban disse: “vamos acompanhar a Rio +20, com compromisso e ação. Agora é a hora de agir”. E enfatizou que “não vamos pedir aos nossos filhos e netos para convocar uma Rio+40 ou Rio+60. Agora é a hora de ficar acima de estreitos interesses nacionais, e olhar além dos interesses deste ou daquele grupo. É hora de agir com uma visão mais ampla e de longo prazo. Aqui, na Rio +20, podemos assumir o controle do futuro que queremos”. Envolverde/IPS * Publicado originalmente no site TerraViva.


por Thalif Deen, da IPS
Crianças refugiadas no leste da África. Foto: Acnur Envolverde Rio + 20

Refugiados por catástrofes climáticas

[caption id="attachment_55936" align="alignright" width="300" caption="Crianças refugiadas no leste da África. Foto: Acnur"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 21/6/2012 (TerraViva) – O êxodo de populações da Somália para o Quênia ou Etiópia de finais de 2010 e ao longo de 2011 aponta para a discussão de uma nova preocupação mundial: os refugiados climáticos que se veem obrigados a deslocar-se para países vizinhos após serem atingidos por extremos do clima. Este deslocamento em massa em alguns países africanos, em especial do leste do continente, é ocasionado por longos períodos de seca somado aos conflitos armados que existem na região. Este tema tem sido motivo de preocupação para o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que aproveitou a Conferência Rio+20 para lançar, nesta quinta-feira, dia 21 de junho, o relatório “Mudanças climáticas, vulnerabilidade e mobilidade humana”. O estudo se baseia no relato de 150 refugiados do Leste da África e avalia as tendências globais para o deslocamento forçado e suas relações com mudanças climáticas e desastres naturais. O relatório foi realizado pelo ACNUR em parceria com o Instituto para Meio Ambiente e Segurança Humana da Universidade das Nações Unidas com o apoio da London School of Economics e a Universidade de Bonn, na Alemanha. Segundo o reitor da Universidade da ONU, Konrad Osterwalder, “o relatório dá destaque à importância para a necessidade de compreender as experiências reais de pessoas vulneráveis que sofrem com os estresses ambientais”. O alto comissário para Refugiados, Antonio Guterres, reconheceu que o relatório vem a confirmar relatos de refugiados que sofrem com extremos climáticos há alguns anos. “Os refugiados fazem de tudo para continuar vivendo em suas casas e em suas terras, mas quando as suas colheitas já não rendem, seus estoques de alimentos e cultivos já não garantem a subsistência, eles não tem outra alternativa que não se mudar”, afirmou Guterres. Desde os anos 1950 que chove cada vez menos no leste da África. Crédito: Acnur “Estou convencido que as mudanças no clima irão piorar ainda mais as crises de deslocamentos no mundo. É muito importante que o mundo ajude a reagir e a dar respostas a estes desafios”, anunciou em Guterres. De acordo com o porta-voz do ACNUR no Brasil, Luiz Fernando Godinho, ainda não há uma definição técnica sobre o termo ‘refugiado climático’, mas admite que, de fato, cada vez mais pessoas se deslocam no mundo em decorrência de fenômenos associados ao clima. E à medida que avançam os impactos ambientais, o número de deslocados só tende a piorar. “O ACNUR fez um apelo na Rio+20 para que estejamos atentos para a existência de refugiados que se deslocam por força de mudanças extremas do clima. Não há por parte da comunidade internacional um conjunto de medidas e convenções para dar garantias a essas pessoas que se movem por desastres naturais”, disse Godinho à IPS. Existem no mundo 15 milhões de refugiados, dos quais 10 milhões estão sob o mandato das Nações Unidas. No entanto, não é possível saber quantos destes foram deslocados por força de catástrofes naturais. Apenas a Somália, o terceiro maior país em número de refugiados tem hoje 1.1 milhão de refugiados, três vezes mais que em 2004. O país sofre com conflitos armados, mas também com crises associadas à seca e à fome. (TerraViva) * Publicado originalmente no site TerraViva.


por Fabíola Ortiz, da IPS
Amazônia precisa de metas de desenvolvimento sustentável. Envolverde Rio + 20

Países amazônicos querem metas de desenvolvimento sustentável

[caption id="attachment_55933" align="alignleft" width="397" caption="Amazônia precisa de metas de desenvolvimento sustentável."][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 21/6/2012 (TerraViva) – Apesar de a versão final da declaração da Rio+20 não incluir metas definidas para o desenvolvimento sustentável, as chamadas SDGs em inglês (Sustainable Development Goals), os países amazônicos se lançaram à missão de sair da Conferência das Nações Unidas no Rio de Janeiro com a definição de metas de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, como o desmatamento zero para 2020. O coordenador da Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF, Claudio Maretti, disse à IPS que a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) tem o desafio de acordar entre os oito países amazônicos – Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela – uma substituição às Metas do Milênio que expiram em 2015 sob o risco de a Amazônia viver um colapso ecológico. “O grande alerta da Amazônia está associado à utilização das riquezas de forma sustentável para evitar que entre em colapso. Para 2020, é possível termos desmatamento zero para que a Amazônia possa continuar a ser provedora de serviços para a humanidade. Ainda dá tempo”, afirmou Claudio Maretti. Se mantida a tendência atual de desmatamento e incêndios florestais, a Amazônia terá cerca de um terço a menos de vegetação em 2030, segundo a WWF. Esse quadro pode ser ainda mais aprofundado em 50 anos, quando o maior bioma do planeta chegará, em 2080, com menos de 10% da floresta original, segundo projeções da Perspectiva Mundial sobre Diversidade Biológica (Global Biodiversity Outlook). A Amazônia possui a maior floresta tropical úmida, representa 6% da superfície terrestre e ocupa 40% do território da América Latina e Caribe. Lá vivem 38,7 milhões de habitantes, além de 40 povos indígenas que falam quase 90 línguas diferentes. Segundo garantiu a vice-ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Adriana Soto, após a Rio+20, aagenda conjunta de trabalho entre os países amazônicos será aprofundada. “Trabalhamos com os países amazônicos no marco da OTCA onde todos aprendemos as experiências vividas em cada país e como manejar a pressão de expansão agropecuária na região e os problemas de mineração ilegal, uma dos maiores ameaças que temos no território colombiano”, disse à IPS Soto. Segundo a representante do ministério colombiano, os principais fatores de desmatamento na Amazônia colombiana, são os incêndios florestais, o corte ilegal de madeira, a criação de gado e a mineração ilegal que é “similar em complexidade” ao narcotráfico que atua na região. “No caso colombiano, boa parte da mineração ilegal financia grupos à margem da lei. Temos uma declaração dos povos amazônicos e é possível que tenhamos modelos de gestão que estamos organizando, como uso dos produtos das florestas para que seus habitantes tenham uma alternativa diferente a estes motores de desflorestação”, ressaltou Adriana Soto. A Consolidação Amazônica (COAMA), iniciativa colombiana que há 20 anos defende a gestão dos territórios amazônicos pelos povos indígenas defende o estabelecimento próprio de objetivos para a região amazônica de acordo com às especificidades das culturas e em respeito  aos conhecimento tradicionais dos povos da floresta. O antropólogo Martin Von Hildebrand da Fundação Gaia Amazonas, integrante da COAMA, defende a formulação de metas consensuadas com as populações indígenas. “Defendemos o combate à fome, maior igualdade de gênero, acesso à educação e à saúde, mas as metas devem ser definidas escutando os próprios povos indígenas”, afirmou Von Hildebrand. (TerraViva) * Publicado originalmente no site TerraViva.


por Fabíola Ortiz, da IPS
Marcos Terena e Gilberto Carvalho: reconhecimento dos direitos indígenas. Foto: Clarinha Glock Envolverde Rio + 20

Indígenas querem cultura como pilar da sustentabilidade

Rio de Janeiro, Brasil, 22/6/2012 (TerraViva) – Uma comitiva de 25 indígenas do Brasil, Filipinas, Estados Unidos, Guatemala, Argentina e México chamou a atenção dos participantes da Rio+20. Com suas músicas e gritos, pinturas e roupas típicas, eles se reuniram perto das bandeiras símbolos do evento, no Riocentro, para entregar a Declaração da Kari-Oca 2 aos representantes do Brasil e das Nações Unidas. Outros 400 indígenas não puderam entrar – ficaram retidos na barreira de soldados, a poucos metros da entrada do principal pavilhão. A aldeia instalada em Jacarepaguá reuniu cerca de 600 indígenas de quase todo o mundo que analisaram a situação dos povos desde a Rio 92. [caption id="attachment_55930" align="aligncenter" width="500" caption="Marcos Terena e Gilberto Carvalho: reconhecimento dos direitos indígenas. Foto: Clarinha Glock"][/caption] “Estamos conscientes da história de massacre dos povos indígenas no Brasil e sabemos de nossa dívida com os índios”, falou o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, que recebeu o documento em nome da presidenta Dilma Rousseff. Carvalho acompanhou parte da caminhada. “Não há como não se comprometer. Deus e a Mãe Terra abençoe todos vocês”, falou, pouco antes de entrar no Riocentro para a cerimônia de entrega da Declaração a Nikhil Seth, diretor para Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Foi um encontro amigável, de boas intenções, em que as denúncias de violações dos direitos dos indígenas, presente durante todos os dias da Rio+20 nas discussões da Kari-Oca e da Cúpula dos Povos, foi apresentada na Declaração e através de depoimentos emocionados como o de Tom Goldtooth, em nome dos povos Navajo e Dakota, dos Estados Unidos: “Este documento representa o espírito de nossos ancestrais, dos que não estão aqui porque não puderam vir, e das gerações futuras”, anunciou Goldtooth. Berenice Sanches Nahua, do México, reiterou que a economia verde não pode ser encarada como uma solução, se é a causa do problema, e o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) é o coração da economia verde. “Na prática, esperamos que o governo brasileiro estabeleça uma política de participação indígena, porque mostramos essa capacidade aqui”, disse o líder brasileiro Marcos Terena a Terraviva, pouco antes de encontrar o representante da ONU. Em seu discurso, Terena ressaltou que a Declaração tem recomendações simples. “Convidamos toda a sociedade civil a proteger e a promover os nossos direitos… em harmonia com a Natureza, solidariedade, coletividade, e valores, como cuidar e compartilhar. Se a ONU quer criar um mundo justo, precisa ouvir a voz indígena sobre equilíbrio e sustentabilidade. Nesse sentido, nossa recomendação para a Rio 20 é a inclusão da cultura como quarto pilar do desenvolvimento sustentável”, afirmou Terena. E finalizou com um pedido: três minutos para falar na Conferência. “Acreditamos que em três minutos podemos ajudar a fazer uma nova Nações Unidas”. Em nome do Secretário Geral das Nações Unidas, Nikhil Seth disse que a ONU vai fazer todo o possível para encorajar os governos a respeitarem e honrarem a cultura e as tradições, a terra e a espiritualidade dos povos indígenas. Segundo Seth, o documento final reconhece explicitamente os direitos dos indígenas e a ONU vai fazer “todo o possível para respeitar e honrar os resultados da Rio+20”. Seth prometeu repassar ao secretariado o pedido de Terena para falar na plenária. Ao final, o líder espiritual que abriu a Kari-Oca há uma semana fez uma reza simbólica e Terena convidou para o encerramento do fogo sagrado marcado para as 13h do dia 22, data de encerramento da Conferência.  (TerraViva) * Publicado originalmente no site TerraViva.


por Clarinha Glock*
c1 Envolverde Rio + 20

TerraViva, a testemunha inconveniente

A Cúpula da Terra de 1992 foi um dos grandes momentos de otimismo coletivo. Maurice Strong, do Canadá, que fundou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), conseguiu avançar em três frentes simultâneas. Em primeiro lugar, como de rigor, foi convocar os chefes de Estado. Em segundo, algo inédito, foi conseguir a participação das grandes empresas, com a criação do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, porque sem um compromisso do setor privado, teria sido mais difícil chegar a um acordo global sobre o clima. Mas o terceiro foi o mais revolucionário: pela primeira vez, uma conferência das Nações Unidas ia abrir as suas portas para a sociedade civil. Até o Rio, apenas organizações não governamentais internacionais que tinham status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social (cerca de 800 na época) podiam participar. Mais de três mil representantes da sociedade civil, muitos nos níveis local e nacional, estiveram presentes na Cúpula da Terra. Obviamente, a reação de muitos governos foi negativa, e eles conseguiram fazer as ONGs se reunirem em seu próprio fórum paralelo e simultâneo, enquanto apenas alguns representantes participaram da assembléia de delegados. Desde então, esse tem sido o espaço definido para a sociedade civil. A IPS tem feito a cobertura de questões ambientais desde que foi fundada, em 1964, e possui um alto grau de credibilidade. Eu era diretor-geral na época, e eu fui falar com Strong para ajudá-lo a ver que duas reuniões simultâneas realizadas a 40 quilômetros de distância uma da outra certamente não representavam o que ele desejava. Eu, então, apresentei a ele a ideia de que a IPS poderia produzir um jornal diário sobre a Conferência e que, distribuído em ambos os encontros, poderia servir como uma ferramenta de comunicação e participação. Mas eu queria ter certeza de que a IPS poderia cobrir a conferência e distribuir o jornal. Strong apoiou a ideia, mas me avisou que, se qualquer país protestasse, apenas o secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali, poderia salvar-me de ser expulso, já que somente os estados-membros podem fazer circular material impresso durante uma conferência. Boutros-Ghali, um mestre da diplomacia e de frases enigmáticas, não me deu uma garantia definitiva. Mas eu entendi que ele era a favor da iniciativa, desde que não fizéssemos nada que fosse condenável. Durante a conferência, ele ignorou os protestos de vários países contra a presença de um participante não governamental. Foi assim que o TerraViva saiu pela primeira vez, com uma edição em espanhol de 20 a 56 páginas (compreensível para falantes de português), e uma edição em inglês com 12 a 14 páginas. Foi como montar um jornal real, e para o IPS foi uma experiência nova e criativa, que deu à luz um grupo de profissionais de alto nível. Desde 1992, o TerraViva foi produzido nas conferências da ONU e outros eventos importantes, que acabaram por incluir encontros da sociedade civil como o Fórum Social Mundial. O TerraViva tem desempenhado um papel sem precedentes no reforço da democracia e transparência nas reuniões intergovernamentais. Diplomatas agem sob instruções de seus governos, e quando eles têm diferenças com outros diplomatas, essas diferenças não se confundem com questões pessoais fora da reunião. Mas quando o TerraViva informou que algum delegado teve uma atitude que a sociedade civil não aceitou, os participantes do fórum das ONGs procuraram o delegado em questão e discutiram com ele ou ela, mesmo no quarto de hotel dele ou dela. Os diplomatas tiveram assim que pagar um preço pessoal anteriormente desconhecido, e foram obrigados a informar os seus governos quando uma determinada posição não teve o apoio da sociedade civil. Infelizmente, temos provas muito abundantes de que os governos nem sempre ouvem as vozes de seus eleitores. No front climático, após 20 anos de voltas e reviravoltas, estamos retornando ao Rio com grandes expectativas. Mas perdemos um tempo precioso, durante o qual a deterioração do planeta acelerou e se tornou mais evidente. Ao mesmo tempo, o público tornou-se mais ecologicamente consciente do que nunca. Se a Rio+20 não produzir resultados significativos e concretos, a falta de democracia no sistema político ficará evidente. E o TerraViva, mais uma vez, está aqui para gerar a participação e conscientização – pilares fundamentais da democracia. * Roberto Savio é presidente emérito da IPS, e foi editor do TerraViva produzido na Cúpula da Terra de 1992. ** Publicado originalmente no site TerraViva.


por Roberto Savio*
Cerca de 3 mil pessoas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fazem passeata por ruas do centro do Rio em defesa da agricultura camponesa no país, durante a Rio+20. Foto: Marcello Casal Envolverde Rio + 20

Rio+20: A ruptura entre o querer e o Poder

[caption id="attachment_55914" align="alignleft" width="400" caption="Cerca de 3 mil pessoas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fazem passeata por ruas do centro do Rio em defesa da agricultura camponesa no país, durante a Rio+20. Foto: Marcello Casal"][/caption] Nas manifestações pelas ruas do Rio de Janeiro e no colorido da Cúpula dos Povos as pessoas e as organizações da sociedade civil gritaram, desenharam e sonharam palavras de ordem contra quase tudo. Enquanto isso, no RioCentro sucederam-se enfadonhos discursos de chefes de Estado que, por horas, ocuparam a tribuna para ler textos que pereciam ter sido escritos pelo mesmo ghost writer. O colorido das ruas substituído pelo monocromático das gravatas em discursos acanhados, como a explicar porque não tinham a coragem de sonhar com um amanhã menos cinzento. A Rio+20 vai entrar para a história como um vazio de coragem e o abandono das utopias. A ruptura entre as palavras de ordem das ruas e a ordem das palavras no documento final da conferência. No entanto, não é um fim de linha, nem para a ONU nem para a sociedade civil. O próprio secretário geral, Ban Ki-Moon considerou o documento acordado entre os países como tímido e as organizações sociais sabem que há muito trabalho a fazer. Até 2014 devem ser definidos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que precisam ser mais corajosos do que esse documento “sem conflitos” assinado no Rio de Janeiro. No entanto, é sempre bom lembrar que os documento da Rio+20 representa apenas o piso, o mínimo que se pode fazer, mas não o máximo. O recado das ruas também foi confuso, sem nenhuma objetividade e, de forma generalizada, contra tudo e contra todos. É importante que se tenha em mente que cada governo individualmente, cada organização e cada pessoa pode avançar, ir além, trabalhar pelas utopias que sempre são as sementes de grandes realizações da humanidade. A Rio+20 pode ser vista como um exemplo a não ser seguido. A ONU criada após a 2ª Guerra Mundial pode não ser mais o modelo de cooperação internacional que o século XXI necessita. Mas é o único modelo de multilateralismo que o planeta tem, portanto, é preciso apostar em sua capacidade de se renovar. Nos próximos anos outras conferências vão desafiar a capacidade da humanidade em resolver problemas comuns e não se deve desistir de buscar uma voz comum em harmonia com os desejos das sociedades. O documento final da Rio+20 é uma afronta à capacidade humana de sonhar, mas é uma ode à necessidade de se caminhar unido. O esforço diplomático para redigir um documento para ser assinado por quase duas centenas de países é louvável, porque os interesses são os mais díspares possíveis, contemplando desde a falida aristocracia europeia aos novos-ricos dos BRICS, passando por Saint Kitts, uma ilhota do Caribe que é o menor país das Américas. Mas a diplomacia adotou a técnica de retirar os pontos conflitantes, aparar as arestas, tirar as cores fortes, de forma que, no final, pouco restou do sonho de uma grande conferência sobre desenvolvimento sustentável. (Envolverde) * Dal Marcondes é jornalista especializado em jornalismo econômico, diretor e editor responsável da Envolverde – Revista Digital e presidente do Instituto Envolverde.


por Dal Marcondes*, da Envolverde
Lâmpadas movidas a energia solar para a África. Foto: Cortesia da Cereso Envolverde Rio + 20

Na África, os renováveis iluminam a escuridão

Rio de Janeiro, Brasil, 20/6/2012 (TerraViva) Cúpulas gigantes como a Rio+20 podem facilmente degenerar em papo-furado e cenário para discursos inúteis. No entanto, esses eventos também funcionam como vitrines de pequenos projetos que já melhoram a vida cotidiana das pessoas em algum lugar do nosso planeta azul. Este é o caso de vários projetos que usam fontes renováveis de energia no leste da África, que estão permitindo que as pessoas em pequenas comunidades substituam os insalubres lampiões de parafina, evitando acidentes e permitindo o abandono de métodos ineficientes e demorados para recarregar seus telefones celulares. [caption id="attachment_55800" align="alignleft" width="300" caption="Lâmpadas movidas a energia solar para a África. Foto: Cortesia da Cereso"][/caption] Em Uganda e no Quênia, uma pessoa tem estado profundamente envolvida com essa questão – um engenheiro de sistemas brasileiro, que migrou para a África oriental há 15 anos, apenas para perceber que o que ele tinha aprendido em casa era inútil do outro lado do mundo. “Eu logo percebi que teria de adaptar o meu conhecimento para as condições locais, se eu quisesse ser útil ali, e o que as pessoas precisavam não era uma logística eficiente, mas energia renovável”, disse ao TerraViva Izael Pereira da Silva, vice-chanceler para assuntos acadêmicos da Universidade de Strathmore em Nairóbi, no Quênia. Além de suas responsabilidades acadêmicas, Pereira da Silva é um agente de desenvolvimento criativo, que fez a introdução e expansão de fontes de energia renováveis na África oriental, o trabalho de sua vida. Agora, ele voltou ao seu país natal para participar da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, e mostrar que a África não precisa ser o continente “escuro”. “Quando você voa sobre a África à noite, você não vê pontos de luz”, contou. “Há alguns pontos brilhantes, na África do Sul. Mas na maior parte, o continente está às escuras. Isto pode ser alterado facilmente, com a geração de enormes quantidades de energia elétrica utilizando apenas fontes de energia renováveis, com emissões de carbono zero ou muito baixas”, destacou Pereira da Silva. Ele explicou que o Rio Congo sozinho tem a capacidade de gerar cerca de 150 mil gigawatts, usando várias pequenas centrais hidrelétricas, evitando assim as represas gigantes altamente ineficientes da terrível era Mobutu Sese-Seko. Tal capacidade seria suficiente para fornecer eletricidade para todo o continente. “No entanto, os países africanos devem interligar e atualizar suas redes nacionais, para diversificar suas fontes de energia, usando a energia hidrelétrica, sol, vento e bioenergia”, opinou o engenheiro. “Dessa forma, o continente não seria dependente de uma fonte, para eliminar o risco de falhas em grande escala”, apontou. O engenheiro brasileiro disse que, “em 15 anos na África, eu quase nunca vi um dia inteiro sem sol. O continente deve usar essa fonte – a tecnologia de energia solar está madura, tanto na forma solar-térmica como fotovoltaica”. Pereira da Silva mencionou o projeto Desertec, que visa a instalar grandes usinas térmicas a energia solar nos países do Magrebe e do norte da África, para atender todas as demandas de energia elétrica regionais, e ainda exportar uma parte substancial para a Europa. “Essas plantas também podem ser instaladas em toda a África. Parques de turbinas de vento também”, observou. Entretanto, antes de sonhar com um futuro brilhante para todo o continente africano, o brasileiro começou em pequena escala. “As pessoas em Uganda e no Quênia usam lampiões de querosene e parafina para iluminar suas casas, quando poderiam usar lâmpadas movidas a energia solar”, sugeriu o engenheiro. Esses lampiões são de fato insalubres, ineficientes e extremamente caros. Segundo a Organização Mundial de Saúde, ocorrem mais de 300 mil mortes a cada ano por causa de queimaduras causadas por esses lampiões. Milhões morrem de câncer e outras doenças causadas pela fumaça emitida pelos lampiões. Além disso, as pessoas pobres gastam cerca de US$ 17 bilhões em querosene e parafina a cada ano para iluminar suas casas com lampiões. Para substituir os lampiões, nós distribuímos para algumas comunidades em Uganda pequenos painéis solares, de dois watts de capacidade. Eles são o suficiente para iluminar uma casa por cinco horas, e ainda têm capacidade suficiente para carregar um telefone celular”, explicou Pereira da Silva. Sem esses painéis solares, os usuários teriam de se deslocar até a próxima vila, conectar seus telefones celulares na rede elétrica local, e esperar horas até que os dispositivos fossem recarregados. Pereira da Silva também ajudou a conceber fornos solares, para cozinhar. “Nós também distribuímos 500 mil lâmpadas econômicas, para poupar eletricidade e reduzir as falhas da rede. As lâmpadas custaram US$ 1,6 milhão e permitiram uma economia de 30 gigawatts. Em 28 horas, o investimento foi pago pela economia de energia”, declarou. Para que esses projetos sejam bem-sucedidos, é necessário envolver as autoridades governamentais, o setor privado e entidades de pesquisa, tais como faculdades de engenharia, e as comunidades locais. “O tripé formado por Estado, empresas e universidades ajuda a iluminar a vida das pessoas comuns”, ressaltou. Envolverde/IPS * Publicado originalmente no site TerraViva.


por Julio Godoy, da IPS

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