Derretimento do Ártico, entre o desastre e o lucro

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Derretimento do Ártico, entre o desastre e o lucro


por Stephen Leahy, da IPS


[caption id="attachment_87227" align="aligncenter" width="500" caption="Geleira Hubbard en Seward, no Alasca. Foto: Bigstock/IPS"][/caption]   Uxbridge, Canadá, 17/5/2013 – Muitos olhos se voltam para o Ártico, alguns com horror diante da veloz redução de um componente crucial do sistema que apoia a vida, outros antecipando com ansiedade os recursos sem explorar que dormem sob a neve e o gelo que se derrete. “Trabalhei no norte durante 21 anos, e a escala e velocidade da mudança que acontece ali é assustadora”, afirmou à IPS Douglas Clark, da Universidade de Saskatchewan, no Canadá. “Estas mudanças, tomadas em sua totalidade e refletidas em nosso informe, me impedem de dormir à noite”, destacou. Mudanças rápidas e inclusive abruptas ocorrem em múltiplas frentes do Ártico, segundo o Arctic Resilience Report (ARR – Informe de Resiliência do Ártico). E o que ocorre no Ártico não fica ali. “Este é o primeiro informe internacional a dizer ao mundo que aperte o cinto da segurança: estamos em uma montanha russa selvagem e não sabemos o que vira”, advertiu Clark. O ARR implicou esforço de dois anos de colaboração entre especialistas dos países nórdicos, mais Rússia, Canadá e Estados Unidos, e inclui perspectivas indígenas. Trata-se de uma sofisticada avaliação de como interagirão as mudanças no clima, os ecossistemas, a economia e a sociedade. O informe foi divulgado ontem na Reunião Ministerial do Conselho do Ártico, em Kiruna, na Suécia. “O que ocorre no Ártico tem profundas implicações para todas as partes do mundo”, afirmou Sarah Cornell, autora principal do estudo. O aquecimento global está derretendo a neve e o gelo, e também esquentando o Oceano Ártico e as terras que o rodeiam. As estações estão mudando, o permafrost está derretendo, há invasão de novas espécies e as autóctones se esforçam para sobreviver, os lagos estão desaparecendo e os rios são redirigidos pela paisagem que derrete, afirma o estudo. Alguns ecossistemas do Ártico passam por modificações catastróficas, alguns de grande escala e irreversíveis, acrescentou Cornell, do Centro de Resiliência de Estocolmo. Embora para muitos o Ártico esteja tão longe quanto a Lua, está intimamente interligado com o resto do mundo. O estado do tempo está pautado amplamente pelas regiões frias, ártica e antártica, equilibrado pelos trópicos quentes. Mas o Ártico está derretendo rapidamente. No último verão boreal, o gelo marinho se reduziu à metade do que era há menos de 30 anos, e continua em redução acelerada. “Isto tem e terá consequências espetaculares para o resto do mundo. Não sabemos quais serão todas elas”, afirmou Cornell. No Ártico vivem culturas e espécies que não são encontradas em nenhuma outra parte e tampouco podem ser levadas mais ao norte para escapar do aumento das temperaturas. Devem fazer um esforço real para sobreviver, alertou Tero Mustonen, presidente da Cooperativa Snowchange, uma rede de culturas indígenas de todo o mundo. “O Ártico sofre mudanças fundamentais. Os alces estão aparecendo pela primeira vez na tundra, junto com novos insetos, plantas e inclusive árvores”, afirmou à IPS, de sua casa no norte da Finlândia. Mustonen, coautor do ARR, trabalha com comunidades chukchi de pastores de renas do noroeste da Sibéria, que andam por essas terras afastadas há vários séculos. Como muitas comunidades indígenas que vivem na terra, possuem profunda ligação ecológica, cultural e espiritual com a paisagem. E essa paisagem está mudando tanto que às vezes não reconhecem seu próprio lar, observou. “Os chukchi não compartilham facilmente seus pensamentos. Mas os idosos têm uma mensagem clara e forte para transmitir ao mundo: a natureza já não confia nos seres humanos”, afirmou. Entretanto, as oito nações do Conselho do Ártico se centraram principalmente em futuras oportunidades de transporte marítimo, acesso a petróleo, gás e recursos minerais, e em geopolítica. Concederam a China, Japão, Índia, Coreia do Sul, Cingapura e Itália status de observadores, enquanto o Canadá bloqueou a candidatura da União Europeia. O Conselho é o principal fórum internacional sobre assuntos do norte, e nos próximos dois anos será liderado pelo Canadá que, afirmou, se centrará no desenvolvimento econômico. Nos últimos tempos este país tem provocado críticas por redirigir suas próprias pesquisas científicas para apoiar empresas e indústrias. Algumas estimativas dizem que a região pode ter 13% do petróleo ainda não descoberto no mundo, bem como 30% dos depósitos não descobertos de gás, e vastas quantidades de recursos minerais. As muito elogiadas pesquisas científicas do Conselho agora se centrarão em como desenvolver os recursos do norte para benefício dos habitantes dessa parte do mundo. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, representou seu país no Conselho, manifestando assim o renovado interesse na região por parte de Washington, que também divulgou sua nova Estratégia Nacional para a Região do Ártico. Embora reconheça os impactos profundos do aquecimento global sobre a região e a população originária, a Estratégia afirma que a região ajudará a cobrir as necessidades energéticas dos Estados Unidos no futuro. Na reunião, os membros adotaram um acordo sobre preparação para a contaminação marinha com petróleo. Algumas organizações indígenas e ambientalistas pediram uma moratória às perfurações em busca de petróleo no Ártico, devido às perigosas condições e às dificuldades que implicam os trabalhos de limpeza. Segundo o Greenpeace Internacional, esse acordo não oferece nenhum padrão mínimo, específico e prático, e tampouco contém disposições para as empresas serem responsabilizadas por todos os custos e danos causados. “Aqui aconteceram duas conferências: uma que alertou para os perigos da mudança climática e da rápida industrialização nesta frágil região, e outra, da qual participaram os ministros das Relações Exteriores, que praticamente não tomou medidas concretas para abordá-los”, afirmou Ruth Davis, assessora de políticas no Greenpeace Internacional. Os povos do Ártico não necessariamente se opõem ao desenvolvimento econômico, mas querem estar no controle do que ocorrer. Porém, as nações árticas e as comunidades locais estão em fases muito diferentes. Na Finlândia e Rússia, os povos originários não têm direitos oficiais sobre a terra ou a água, ao contrário de Canadá ou Alasca, explicou Mustonen. Para ele, “os direitos e as culturas dos povos indígenas nestas regiões devem ser levados a sério para integrar suas necessidades em qualquer forma de desenvolvimento. Envolverde/IPS 

As mídias sociais, que facilitaram a Primavera Árabe no Egito, agora desempenham um papel mais negativo. Foto: Khaled Moussa al-Omrani Inter Press Service - Reportagens

O lado escuro das redes sociais no Egito

[caption id="attachment_87221" align="aligncenter" width="524" caption="As mídias sociais, que facilitaram a Primavera Árabe no Egito, agora desempenham um papel mais negativo. Foto: Khaled Moussa al-Omrani"][/caption]   Cairo, Egito, 17/5/2013 – Mais de dois anos depois de terem desempenhado um papel fundamental na Primavera Árabe do Egito, as redes sociais passaram a ter um papel menos positivo, servindo de plataforma para a incitação, propagação de boatos e total desinformação. Durante a revolta popular de 18 dias, ocorrida neste país no começo de 2011, as redes sociais, especialmente Twitter e Facebook, facilitaram a organização de grandes manifestações, com seu epicentro na famosa praça Tahrir, e funcionaram como plataforma para articular demandas políticas. “As mesmas redes sociais que os ativistas utilizaram para derrubar Hosni Mubarak agora servem para conseguir objetivos políticos de curto prazo, manipular a opinião pública e até incitar a violência”, disse à IPS o especialista Adel Abdel-Saddiq, do Centro Al-Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos, com sede no Cairo. “Estes novos meios foram essenciais para mobilizar centenas de manifestantes em diversos lugares simultaneamente”, disse à IPS o analista político Ammar Ali Hassan. “E também permitem que os usuários obtenham informação e notícias de fontes que não sejam os canais governamentais oficiais”, acrescentou. As redes sociais também passaram a ser um espaço para comunicados oficiais. O Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), por exemplo, continua publicando comentários e declarações oficiais no Facebook. Este órgão governou o país desde a saída de Mubarak até a posse do presidente Mohammad Morsi, em 30 de junho de 2012. “Após a revolta, a classe politicamente ativa adotou o Facebook como seu meio de comunicação preferido”, contou Abdel-Saddiq, destacando que “o então governante CSFA se deu conta disso e começou a se comunicar com o público por esse meio, que foi decisivo para a queda do regime” de Mubarak, que estava no governo desde 1981. “Agora as redes sociais desempenham um papel mais destrutivo, são utilizadas frequentemente para provocar ira e ódio, e espalhar boatos não confirmados”, segundo Abdel-Saddiq. “Desde a revolução vemos que são usadas para incitar os manifestantes contra a polícia, a oposição laica contra os grupos islâmicos, muçulmanos contra cristãos, e vice-versa”, observou. “Usuários anônimos publicaram comentários, que resultaram ser falsos, dizendo que as forças de segurança disparavam contra manifestantes desarmados ou que muçulmanos atacavam cristãos”, detalhou. “Uma vez feito isso, fica fácil, com apoio novamente das redes sociais, incidir em uma grande quantidade de manifestantes furiosos, que se encontram em lugares específicos para criar um terreno fértil de enfrentamentos violentos”, pontuou Abdel-Saddiq. Este fenômeno ocorreu novamente após a revolta popular, quando as paixões sectárias se avivaram, em razão de choques entre  muçulmanos e cristãos, por trás dos quais muitos observadores veem a mão invisível de um terceiro. “O público logo viu que as denúncias falsas nas redes sociais começaram a ser usadas por certos grupos, tanto forças revolucionárias, rivais políticos, quanto agências estrangeiras de inteligência, para desestabilizar o Egito pós-revolucionário”, ressaltou Abdel-Saddiq. No final de 2011 surgiu um grupo anônimo que se definia como “comitê para a promoção da virtude e prevenção do vício no Egito”. A página fez temer pelo surgimento de uma “polícia moral”, semelhante à da Arábia Saudita, e tinha o logotipo do grupo salafista Al-Nur (Partido da Luz). Esta organização de extrema direita religiosa se apressou em negar seu vínculo com o grupo do Facebook, cujos criadores permanecem anônimos até hoje. “Um dos inconvenientes das redes sociais é que grupos anônimos podem criar contas ou sites na internet falsos, e assim divulgar comunicados em nome de grupos ou figuras políticas”, opinou Hassan. Segundo especialistas, plataformas para compartilhar vídeos, como o Youtube, também começaram a ter um papel menos positivo do que tiveram durante a revolta. “Os vídeos publicados deram um ímpeto adicional à revolta, o que permitiu a manifestantes de outras partes do país saberem o que acontecia. Atualmente, são usados cada vez mais para incitar e subverter”, explicou Abdel-Saddiq. Este especialista citou vários incidentes com fotos e vídeos provocadores nas redes sociais, que, após incentivarem reações de ira, resultaram ser falsos ou muito exagerados. Em muitos casos, “eram mais velhos do que se dizia e representavam acontecimentos sem nenhuma relação”, acrescentou. Segundo Abdel-Saddiq, um exemplo é o vídeo que apareceu em 2011 mostrando um policial jogando o corpo de um manifestante de boca para baixo sobre um monte de lixo. Depois de gerar uma onda de indignação contra a polícia e de os grandes canais de televisão divulgarem, soube-se que o incidente nem mesmo havia acontecido no Egito. No começo de abril deste ano circulou outro vídeo mostrando um grupo de homens muçulmanos agredindo sexualmente uma mulher copta no Alto Egito, sul do país. O vídeo, divulgado no contexto das tensões sectárias no Cairo e em Alexandria, motivou uma onda de mal-estar popular. Depois soube-se que era de 2009 e tinha a ver com uma vingança tribal, não com conflitos sectários. “Essa foi uma clara tentativa de um grupo anônimo de incitar a violência entre cristãos e muçulmanos do Egito”, apontou Hassan. “Incidentes desse tipo ocorreram tão perto do período pós-revolucionário que a maioria dos usuários das redes sociais questionam a fonte e a data de produção dos vídeos que circulam na internet”, acrescentou Hassan. Abdel-Saddiq atribuiu a situação atual à falta de controle legal sobre as plataformas de meios sociais no Egito, onde “as leis contra injúria e difamação só se aplicam aos meios tradicionais de comunicação, como televisão, rádio e imprensa, mas não à internet”. Ele espera que, após as próximas eleições parlamentares, no final deste ano, se crie uma lei para regular os meios sociais. “Até então, continuaremos vendo como essas novas formas de liberdade de expressão, às quais muitos egípcios ainda não estão acostumados, são usadas de maneira irresponsável e sem limites”, afirmou. Envolverde/IPS


por Adam Morrow e Khaled Moussa al-Omrani, da IPS
Diane Wilson faz greve de fome diante da Casa Branca em protesto contra a prisão de Guantânamo. Foto: Ted Majdosz Inter Press Service - Reportagens

Guantânamo diante da Casa Branca

[caption id="attachment_87213" align="alignleft" width="300" caption="Diane Wilson faz greve de fome diante da Casa Branca em protesto contra a prisão de Guantânamo. Foto: Ted Majdosz"][/caption] Nações Unidas, 17/5/2013 – Há 19 dias Diane Wilson, uma pescadora de 65 anos do Estado do Texas, tomou a decisão de realizar uma greve de fome diante da Casa Branca. Vestida com um traje alaranjado igual ao usado pelos prisioneiros em Guantânamo, ela exige há mais de duas semanas o fechamento da prisão nessa base militar, onde estão detidos suspeitos de terrorismo. O presidente Barack Obama é alvo de fortes críticas por não cumprir sua promessa de fechar a prisão. Embora o mandatário argumente que a medida está bloqueada pelo Congresso, ativistas afirmam que ao menos se poderia iniciar o processo de transferência dos presos que foram absolvidos de toda acusação. A prisão de Guantânamo começou a funcionar em 2002. Segundo informações, pelo menos cem dos seus 166 presos realizam greve de fome, alguns sendo alimentados à força. Organizações defensoras dos direitos humanos condenaram esta prática, que consideram uma forma de tortura. Não é a primeira vez que se faz uma greve de fome em Guantânamo. A primeira foi em 2005, e dela participaram cerca de 200 prisioneiros. IPS: O que procura com este protesto? Diane Wilson: A prisão deve ser fechada. É o que quero. Estou em greve de fome em solidariedade com esses presos de Guantânamo, que simplesmente querem justiça. Todos sabem que o presidente Obama pode fechar Guantânamo agora mesmo. Pode fazer isso. Já deveria ter feito. IPS: Considerando que é uma mulher de 65 anos, o que fará se seu corpo simplesmente não resistir apenas consumindo água, um pouco de sal e um tablete de potássio? DW: Cada vez que esses pensamentos passam pela minha cabeça, penso nos homens em Guantânamo. Eu posso deitar em uma cama macia à noite, posso conversar com outras pessoas e não ficar em uma cela fria. Não sou humilhada nem torturada, e se eles podem fazer eu também posso. Além disso, não é a primeira vez que jejuo por vários dias. A vez que fiquei mais tempo foi por 45 dias, quando protestei para impedir que a companhia de energia Valero explorasse as areias de alcatrão em Houston, no Texas. Era um pouco mais jovem, e a idade está pesando. Mas estou apenas começando. Basicamente, sou otimista, e realmente acredito que as pessoas podem fazer diferença. De certa forma me rendi ao jejum, e manterei enquanto puder. Não me preocupo com a possibilidade de o corpo não aguentar. Tudo que tenho de fazer é pensar naqueles homens em Guantânamo. Sei que podemos fechar essa prisão, e se for preciso estou disposta a percorrer esse caminho. IPS: Por que escolheu a Casa Branca para protestar? DW: Protesto diretamente diante da Casa Branca. É um lugar estratégico. Há alguns dias me prendi nas grades. Uso um traje alaranjado e tenho correntes ao redor das pernas e do pescoço. Também uso um capuz negro. Esta é minha forma de representar Guantânamo diante da administração de Obama. Sou uma constante lembrança das condições em que vivem os prisioneiros de Guantânamo. Para conseguir uma mudança, é preciso protestar diante de seus narizes. IPS: Como as pessoas reagem quando a veem? DW: Algumas sabem que faço um protesto. Outras apenas param para ver. Às vezes, passam e dizem que estão do meu lado. Eu diria que quase 90% das pessoas com as quais falo concordam com minha causa. Muitas crianças que vêm conhecer a Casa Branca se mostram curiosos. Há muitos estrangeiros, que sempre se mostram curiosos e conversam comigo. Também há muitos senadores que chegam e me dizem que faço um bom trabalho. Alguns até me dão a mão e dizem para seguir em frente. IPS: Qual sua inspiração? DW: Me inspiro muito em Gandhi. É meu homem. IPS: Como se define? Como uma militante política, ambientalista ou simplesmente uma pescadora? DW: Quando me perguntam, digo que sou uma pescadora. Represento a quarta geração de uma família de criadores de camarão. Não fiz nada politicamente até completar 40 anos. Acordei tarde. Creio que há muitos problemas com os diferentes movimentos (da sociedade civil). Há o ambiental, o indígena e o dos direitos humanos, e todos tendem a estar em campos separados. Mas existe uma ligação entre todos. Acredito que, por ser pescadora e ter vivido em uma baía, não tenho senso de fronteiras, e por isso surgiu meu ativismo. IPS: Qual foi a reação dos seus familiares? DW: Geralmente, não digo a eles o que estou fazendo, deixo que saibam. Meus parentes são em sua maioria do (opositor) Partido Republicano, e amam George W. Bush (presidente entre 2001 e 2009). Não gostam que eu faça este tipo de coisa. IPS: Você é autora do livro An Unreasonabel Woman (Uma Mulher Insensata). Considera-se alguém com quem não é possível conversar? DW: Não, apenas estou pedindo pelas vidas destes homens. Envolverde/IPS


por Sudeshna Chowdhury, da IPS
Rinoceronte Inter Press Service - Reportagens

Os chifres de rinoceronte valem seu peso em ouro no Vietnã

[caption id="attachment_87201" align="alignleft" width="300" caption="Um rinoceronte branco em um santuário da província sul-africana de Limpopo. Foto: Jennifer McKellar/IPS"][/caption] Bangcoc, Tailândia, 17/5/2013 – À primeira vista, o cartaz parece ser a típica publicidade de um safári: um grande rinoceronte em um terreno aberto e escarpado. Mas olhando mais de perto se vê algo estranho. Um monte de mãos humanas substituem os dois chifres que distinguem este animal africano de seus pares da Índia e de Java. Uma mensagem acima de sua cabeça diz: “Os chifres de rinoceronte são feitos dos mesmos elementos que as unhas humanas. Ainda quer um?”. Produzidos em conjunto pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e pela também ambientalista organização Traffic, estes cartazes aparecerão em breve em lugares públicos em importantes cidades vietnamitas, entre elas Hanói, a capital, e Ho Chi Minh. Prédios de escritórios e de apartamentos e também aeroportos servirão de cenário para a campanha, que busca acabar com o ilegal comércio internacional de chifres de rinocerontes, que colocam estes animais à beira da extinção. Os especialistas afirmam que não há lugar melhor do que esta nação do sudeste asiático, com 87 milhões de habitantes, para levar a outros países esta dura mensagem. Organizações internacionais que controlam o comércio ilegal de biodiversidade acusam há tempos o Vietnã pelo drástico aumento da demanda de chifres de rinocerontes africanos. Cerca de 290 dos 20 mil rinocerontes que restam na África do Sul foram mortos para retirada dos chifres desde o começo deste ano, segundo conservacionistas preocupados por tal prática voltar a atingir a cifra recorde de 668 rinocerontes mortos por caçadores ilegais em 2012. “Estamos em meio a uma crise de caça ilegal de rinocerontes”, disse à IPS o veterinário britânico Mark Jones, diretor da Humane Society International, com sede em Londres. Nos últimos tempos, o Vietnã se converteu no principal mercado para os chifres destes animais, destacou. O aumento da demanda esteve pautado por uma crença popular que se aprofundou nos últimos cinco anos, de que os chifres de rinocerontes têm propriedades medicinais especiais, que incluem a capacidade de curar câncer, ressacas e atuar como afrodisíaco. Naomi Doak, coordenadora do Programa do Grande Mekong na organização Traffic, disse que o desenho do cartaz da nova campanha foi criado depois que especialistas se deram contra de que “uma grande proporção do público vietnamita” não está consciente de que os chifres de rinoceronte, uma massa de cabelo aglutinado, são compostos por queratina, a mesma substância básica que forma as unhas das pessoas. Doak espera que trazer à luz este fato faça as pessoas “pensarem duas vezes antes de consumirem chifres de rinoceronte”. De todo modo, levar para casa esta mensagem será uma tarefa “prolongada e difícil”, admitiu a ativista à IPS. “Por haver poucas sanções e consequências, as pessoas não se preocupam realmente com os impactos que tem o consumo desses chifres, seja nos animais ou nas pessoas”, ressaltou. Para compreender a que as organizações ambientalistas se opõem, basta percorrer a famosa parte antiga de Hanói, um colorido emaranhado de 36 ruas onde há séculos se venda de artesanato e produtos locais. Aqui, comércios especializados em medicina tradicional chinesa atraem dezenas de clientes que buscam remédios feitos com partes de animais selvagens, o que inclui chifre de rinoceronte. Em seu documentário mais recente, Bad Medicine - Illegal Trade in Rhinoceros Horns (Má Medicina: o Comércio Ilegal de Chifres de Rinocerontes), o cineasta e conservacionista Karl Ammann traça as rotas dos traficantes ilegais, desde os cenários naturais africanos até as ruas do Vietnã, onde esses elementos “também são um símbolo de status”, afirmou. Isto explica porque o ouro, antes presente favorito entre a classe em expansão de cidadãos ricos neste país, foi destronado pelos chifres de rinoceronte, que atualmente chegam a custar US$ 65 mil o quilo. Isto é “mais do que ouro, grama por grama”, explicou o veterinário Jones. Embora o peso dos chifres varie, apenas um pode ser vendido por até US$ 150 mil. A previsão é de que a pressão sobre o Vietnã para que reduza a demanda de chifres ilegais de rinoceronte aumentará, após as resoluções aprovadas na reunião realizada entre 3 e 14 de março nesta cidade, pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (Cites). Apesar da linguagem dura empregada no encontro, do qual participaram 178 países-membros, não se conseguiu impor sanções ao Vietnã. O governo desse país nega insistentemente as acusações de ser um mercado importante neste comércio mundial. Frequentemente aponta o dedo acusador para seu poderoso vizinho do norte, a China, que também está sob observação por estimular o comércio ilegal de biodiversidade, particularmente de partes de tigres. Mas os ativistas têm provas, e não pensam em ficar calados. Do Quang Tung, vice-diretor do capítulo vietnamita da Cites e que presidiu a delegação de seu país a Bangcoc, disse no final de março a um jornal de seu país: “Desde 2004 até agora, foram presos 13 indivíduos envolvidos no tráfico de rinocerontes, com um total de 150 quilos de chifres destes animais. Dois destes casos ocorreram no começo de 2013”. “No comércio ilegal de chifres de rinoceronte participam grupos criminosos altamente organizados, de grande mobilidade e com bom financiamento, integrado principalmente por cidadãos asiáticos radicados na África”, revelou no começo deste ano um informe divulgado pela Traffic e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). “Estas redes recrutam pseudocaçadores, entre os quais cidadãos vietnamitas, prostitutas tailandesas e caçadores da República Checa e Polônia, para obter chifres de rinocerontes na África do Sul”, afirma o estudo. “A pseudocaça diminuiu significativamente devido à decisão de abril de 2012, de impedir que cidadãos vietnamitas obtenham licença de caça e mudanças nas leis sul-africanas”, acrescenta o informe. Outro motivo de vergonha para o Vietnã foram os escândalos envolvendo seus diplomatas na missão sul-africana, que foram acusados de contrabando de chifre de rinoceronte em 2006 e 2008. Quando confrontado sobre estes incidentes na reunião da Cites em Bangcoc, um funcionário do governo afirmou que esses diplomatas foram “punidos” por suas ações. Há grande esperança de que a campanha com os cartazes cumpra o papel de educar o público e acabar com o comércio. Mas frear a crescente demanda exigirá mais do que duas organizações de defesa dos direitos dos animais. Nguyen Thuy Quynh, do WWF Vietnã, disse à IPS: “Buscamos apoio e cooperação de muitas empresas, celebridades, universidades, organizações internacionais e meios de comunicação de massa, todos os que têm voz importante na hora de chegar à comunidade e nela influir”. Envolverde/IPS


por Marwaan Macan-Markar, da IPS
A região de Ténéré é formada por vastas planícies desérticas que se estendem desde o nordeste de Níger até o oeste do Chade. Foto: Photomatt28/CC BY 2.0 Inter Press Service - Reportagens

Oásis de sal em Níger ameaçado pelas dunas

[caption id="attachment_87059" align="aligncenter" width="529" caption="A região de Ténéré é formada por vastas planícies desérticas que se estendem desde o nordeste de Níger até o oeste do Chade. Foto: Photomatt28/CC BY 2.0"][/caption]   Bilma, Níger, 16/5/2013 – A localidade de Bilma, em um oásis de Ténéré, região desértica do norte de Níger, dependeu durante séculos da exploração das salinas. Mas o avanço da areia e a queda dos preços do sal ameaçam sua subsistência. “Se não protegermos este local, a extração de sal desaparecerá debaixo da areia”, disse à IPS o diretor de meio ambiente de Bilma, Abdoulaye Soumana, enquanto contemplava a salina de Kalala. Ténéré é uma região no sul do Deserto do Saara formada por vastas planícies desérticas, que se estendem do nordeste de Níger até o oeste do Chade. Segundo Soumana, um especialista ambiental, debaixo da areia existe uma camada de argila que, por sua vez, cobre grandes quantidades de sal. “Algumas salinas estão submersas, e as autoridades locais ainda não entenderam o grau da ameaça. Só se preocupam com o dinheiro”, alertou. O prefeito de Bilma, Abba Marouma Elhadj Laouel disse que a localidade tem seis mil habitantes, todos participando da extração de sal e que muitos trabalham nas minas por anos. “O sal representa a principal forma de sustento para a população de Bilma. Mesmo sendo difícil vender, cada família tem um poço para extrair sal”, disse à IPS o presidente da cooperativa de mineiros de Kalala, Boulama Laouel. Um estudo, realizado em 2011 por Soumana, concluiu que os mineiros de sal de Bilma ganhavam cerca de US$ 800 ao ano, enquanto seus colegas da localidade de Siguidine, ao norte, obtinham mais de US$ 1.800 anuais. A mineira Fadji Boulama, de 35 anos, não conhece outra forma de vida. “A extração de sal é uma atividade aqui, em Bilma. Meus avós eram mineiros, meus pais assumiram o negócio e depois o passaram para mim. É nossa principal fonte de sustento”, contou à IPS. “Meu marido emigrou para a Líbia, por isso meus filhos, de nove, 12 e 14 anos, me ajudam quando não estão na escola. As vendas de sal cobrem todos os dias as despesas da casa”, acrescentou. Na região são extraídos dois tipos de sal: o de cozinha e o que é usado para alimentação animal. Bilma produz por ano 12 mil toneladas do primeiro e 20.700 do segundo. “O sal de Bilma contém muitos nutrientes minerais cruciais para o saudável crescimento dos animais e a qualidade de sua carne”, explicou à IPS o veterinário Oumarou Issaka, de Niamey, a capital do país. Os habitantes do lugar se queixam de não poderem vender seu produto a preços razoáveis por falta de estradas para levá-lo desta região isolada. Yagana Arifa, que extrai sal de um poço perto de Boulama, disse à IPS que “este trabalho nos dá o suficiente para comer e cobrir nossas despesas, mas sem uma estrada é difícil obter bom preço”. E acrescentou que “nossos principais clientes são mercadores que chegam em caravanas. Pagam US$ 0,10 por um bloco de sal de dois quilos, que revendem a US$ 1 em Agadez (principal cidade do norte) ou a mais de US$ 1,20 no sul”. Salifou Laouel, prefeito da municipalidade rural de Fachi, 240 quilômetros a oeste de Bilma, confirmou que os produtores locais enfrentam problemas semelhantes. “Somos obrigados a vender a preço muito baixo por estarmos isolados. Os caminhões comuns não podem cruzar o deserto para levar nosso produto a mercados mais rentáveis no sul”, disse à IPS. “Há uma grande demanda de sal para alimento animal. Em Fachi produzimos 450 toneladas ao ano, o que nos permite ganhar US$ 138 mil”, pontuou. Denise Brown, representante do Programa Mundial de Alimentos, da Organização das Nações Unidas (ONU), disse que a agência apoiará os mineiros comprando seu sal de cozinha para usar em seus programas de alimentação em escolas. “Estamos avaliando como poderemos comprar uma quantidade fixa de seu produto, desde que cumpram os requisitos de conteúdo idôneo estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde”, enfatizou à IPS. Envolverde/IPS


por Ousseini Issa, da IPS
Mulheres querem que o governo do México busque seus familiares desaparecidos. Foto: Diana Cariboni/IPS Inter Press Service - Reportagens

México reinventa o desaparecimento forçado

[caption id="attachment_87052" align="aligncenter" width="540" caption="Mulheres querem que o governo do México busque seus familiares desaparecidos. Foto: Diana Cariboni/IPS"][/caption]   Cidade do México, México, 16/5/2013 – O desaparecimento forçado de pessoas não necessariamente significa a morte imediata das vítimas. No México também é um meio de alimentar mercados de exploração e escravidão. Este país retrocedeu “à barbárie dos gladiadores romanos”, disse à IPS o advogado Juan López, assessor legal das Forças Unidas por Nossos Desaparecidos no México (Fuundec-Fundem), um grupo que nasceu para apoiar as famílias que buscam seus entes queridos no Estado de Coahuila e que por necessidade adquiriu presença nacional. No cenário mexicano, pautado pelo crime organizado e pela militarização da segurança pública, os desaparecimentos de pessoas não seguem o padrão de décadas passadas, neste e em outros países da América Latina marcados por ditaduras, repressão ilegal de opositores e conflitos armados. Hoje pode “ser o filho do vizinho”, observou López. Uma parte não definida destas vítimas cai em um “negócio alternativo” que deixa “grandes lucros: uma força de trabalho pela qual não se paga, pois está escravizada”, acrescentou. Aí entrariam o recrutamento forçado de adolescentes e crianças para preencherem as hostes de assassinos, trabalhar na produção de drogas ou outras tarefas exigidas pelas máfias ou para o tráfico de órgãos. “Há informes confirmados” de ônibus detidos por grupos armados que “levam todos os homens jovens”, contou López. O perfil das vítimas também mudou, segundo a análise de casos denunciados. Primeiro, os desaparecidos são homens entre 30 e 45 anos, depois a faixa etária cai para 20 a 25 anos e 17 a 19. Hoje também se sequestra adolescentes, enquanto a proporção de mulheres cresceu a ponto de já ser metade dos novos desaparecimentos, destacou. Atualmente floresce no México o tráfico trabalhista e sexual, o terceiro negócio ilegal mais lucrativo no mundo depois do tráfico de drogas e de armas. O Estado de Tlaxcala é epicentro de redes que captam mulheres em mais de 20 distritos e, inclusive, em zonas fronteiriças, e as exploram em cidades deste país e dos Estados Unidos. A Organização Internacional para as Migrações afirma que 80% das pessoas traficadas no México são mulheres e meninas. Este país é o segundo, depois da Tailândia, em quantidade de vítimas de tráfico enviadas para os Estados Unidos. Estas pessoas, “levantadas” nas ruas, nos povoados e nas comunidades, passam a engrossar “um mercado humano”, e é possível que muitas “estejam vivas”, segundo López. Nos seis anos do mandato do presidente Felipe Calderón (2006-2012), desapareceram 26.121 pessoas, segundo a base de dados que o atual governo de Enrique Peña Nieto divulgou no final de fevereiro. Ninguém sabe o que aconteceu com elas. A lista omite casos muito conhecidos, segundo comprovaram as famílias, e informação pouca, ou nenhuma, obtida na maioria dos casos pelos próprios familiares. Os relatos assustam: jovens que são obrigados a lutar entre si, até a morte de um deles, ou esquartejar viva uma mulher, como ato de iniciação e alienação do recrutado. Grupos de homens forçados a treinamento no qual sobrevivem apenas os mais aptos. Mulheres enganadas, escravizadas e dominadas por meio de ameaças contra seus filhos. Brenda Rangel, de 35 anos, integrante da Fundem, busca seu irmão Héctor, que tinha 28 anos quando policiais municipais o detiveram, em novembro de 2009, junto com outros dois homens em Monclova, Coahuila. “Mas não os colocaram à disposição de nenhuma autoridade”, contou Brenda à IPS. Ela soube do ocorrido porque seu irmão conseguiu lhe telefonar de um celular. “A polícia o entregou a alguma organização ilegal”. No dia seguinte, eu estava em Monclova e movi céu e terra para encontrá-lo. “Meu irmão está vivo”, afirmou. Brenda foi uma das oradoras mais eloquentes na marcha organizada pelas mães de desaparecidos de todo o país, no dia 10, no centro da capital, para cobrar do governo mobilização de recursos para encontrá-los. “Não há dinheiro para buscar os desaparecidos do povo”, afirmou com voz potente e pungente. As mães, vestidas de branco, percorreram vários quarteirões até o monumento do Anjo da Independência, gritando palavras de ordem como “Filha, ouça, sua mãe está te procurando”. Lourdes Valdivia, de 43 anos, não sabe de seu marido José Diego Cordero, de 47, nem de seu filho Juan Diego, de 22 anos, desde dezembro de 2010, quando foram à caça com oito amigos e parentes. Em uma barreira perto de Joaquín Amaro, município do Estado de Zacatecas, foram detidos por policiais municipais. Com o pretexto de examinarem suas autorizações de caça, foram presos na delegacia de polícia, contou Lourdes, chorando. Graças a um menor que deixaram ir embora e a um adulto que fugiu, ela soube que “foram retirados à noite e entregues a um grupo, supostamente Los Zetas”, uma das gangues mafiosas que operam no México. Também há os que desaparecem por um sequestro extorsivo, por ter presenciado um crime ou por ficar preso em fogo cruzado. O engenheiro de sistemas Juan Ricardo Rodríguez se reuniu com sua noiva em setembro de 2011 em um hotel de Zacatecas, onde ele trabalhava, para acertarem os planos do casamento. Quando iam embora, presenciaram um comando armado levando três homens. O casal tentou se afastar do lugar, mas também foi capturado. Policiais federais, que falaram com os homens armados, observaram toda a cena, disse à IPS a mãe de Rodríguez, Virginia Barajas, que reconstruiu os fatos graças a testemunhas. Existem versões de centenas de pessoas trancadas em depósitos, casas de segurança de algum grupo ilegal ou locais isolados em áreas rurais. Para outras fontes, o mais provável é que os desaparecidos estejam mortos, como indicam as descobertas de valas comuns. Contudo, há famílias que receberam restos mortais que não eram de seus membros desaparecidos. A família sempre alimenta a esperança, disse o jurista Santiago Corcuera, que entre 2004 e 2010 integrou o Grupo de Trabalho sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Corcuera também distingue vários padrões de desaparecimento. Quando os responsáveis são integrantes de alguma força pública, o mais provável é que a vítima acabe morta. Mas há “conivência, por exemplo, com a exploração sexual de mulheres e crianças”, ou com outro tipo de exploração de caráter trabalhista, “de apoio ao narcotráfico” e para engrossar as filas da bandidagem. Na opinião de Corcuera, a lei de vítimas adotada pelo governo de Peña Nieto é “uma luz”, porque cria mecanismos de reparação. Mas faltam protocolos de busca, que deveriam estar coordenados entre os diferentes Estados e com outros países da região, ressaltou. López foi além: “O Estado não busca, não investiga. E se opõe a que as famílias investiguem”. Segundo a organização Human Rights Watch, em muitos casos, os agentes públicos “disseram às famílias que o avanço das investigações dependia completamente dos esforços que estas realizassem”. Envolverde/IPS


por Diana Cariboni, da IPS
General Ashfaq Parvez, chefe das Forças Armadas do Paquistão, e o general Stanley A. McChrystal, ex-comandante chefe da Força Internacional de Assistência para a Segurança e do contingente dos Estados Unidos no Afeganistão. Foto: Exército dos Estados Unidos Inter Press Service - Reportagens

Nos Estados Unidos se sugere ampliar relação militar com o Paquistão

[caption id="attachment_87049" align="aligncenter" width="525" caption="General Ashfaq Parvez, chefe das Forças Armadas do Paquistão, e o general Stanley A. McChrystal, ex-comandante chefe da Força Internacional de Assistência para a Segurança e do contingente dos Estados Unidos no Afeganistão. Foto: Exército dos Estados Unidos"][/caption]   Washington, Estados Unidos, 16/5/2013 – Analistas dos Estados Unidos entendem que este país deve redefinir sua relação de longa data com as Forças Armadas do Paquistão, após as eleições do dia 11, que registraram uma histórica grande participação. Os especialistas em política externa coincidem em afirmar que o resultado da votação representa uma importante consolidação da democracia no Paquistão, pois foi a primeira vez na história desse país que um governo civil passará o poder a outro. “Os Estados Unidos estão ao lado de todos os paquistaneses que dão as boas-vindas a essa passagem histórica, transparente e em paz do poder civil, um importante êxito no processo democrático do Paquistão”, afirmou no dia 12 o presidente Barack Obama. “Ao realizarem campanhas competitivas, exercerem livremente seu direito democrático e perseverarem apesar da intimidação de extremistas violentos, reafirmam seu compromisso com um governo democrático, fundamental para obter a paz e a prosperidade para todos os paquistaneses nos próximos anos”, acrescentou Obama. Na verdade, o já duas vezes primeiro-ministro, Nawaz Sharif (1990-1993/1997-1999), da Liga Muçulmana do Paquistão-N, conseguiu a maioria dos votos e poderá formar um novo governo. Este registrou uma vitória esmagadora que surpreendeu experientes observadores desse país. Contudo, talvez o mais surpreendente tenha sido a participação eleitoral, quase 60% dos eleitores aptos a votar, a maior proporção registrada nas últimas quatro décadas. Washington “deve estar contente por uma eleição, em que a insurgência paquistanesa exortou a população a não votar e fez duras ameaças contra quem votasse, que conseguiu a maior participação neste país desde 1970”, disse em entrevista à IPS Andrew Wilder, diretor do programa Paquistão do Instituto de Paz dos Estados Unidos, um grupo de estudo semigovernamental. Segundo Wilder, “representa um forte apoio o fato de a maioria dos paquistaneses ter rechaçado a convocação do Talibã, e é outro passo importante para a consolidação da democracia. Os militares ainda são uma força importante na política nacional, mas é um pouco menos poderoso hoje do que há uma semana”. Wilder prevê uma relativa continuidade nas relações dos Estados Unidos com o Paquistão. Os últimos dois anos foram especialmente escabrosos, com momentos de máxima tensão, mas as relações se mantiveram fortes por necessidade, em especial devido ao papel que esse país tem para Washington em seu esforço para estabilizar o Afeganistão, com vistas à retirada de suas forças no próximo ano. Um governo democrático que entrega o poder a outro governo democrático “marca uma nova fase na luta democrática do Paquistão e demonstra a necessidade de os Estados Unidos avaliarem sua política em relação a esse país”, afirmou Ishrat Salim, pesquisador do Centro de Estudos do Paquistão, do Instituto do Oriente Médio, com sede nessa cidade. “Washington soube encontrar um sócio disposto no quartel-general das Forças Armadas do Paquistão, que ajudou a perseguir seus objetivos estratégicos e táticos na região”, ressaltou. Desde o nascimento do Paquistão, em 1974, suas Forças Armadas detiveram por várias vezes o governo. Inclusive, o próprio Sharif sofreu um golpe de Estado em 1999. Na verdade, os militares sempre mantiveram um enorme poder nos bastidores, o que lhes permitiu funcionar como uma ligação central com os Estados Unidos. Washington é o maior apoio financeiro do Paquistão, enquanto este país é o segundo beneficiário da ajuda estrangeiro norte-americana, que na década passada chegou a US$ 20 bilhões. Em 2009, os Estados Unidos aprovaram US$ 7,5 bilhões em assistência com fins civis para um período de cinco anos, embora o apoio ao setor militar continuasse sendo muito significativo. No orçamento de ajuda ao Paquistão solicitado por Obama para o presente ano fiscal, cerca de 58% estão dirigidos à “assistência à segurança”, segundo um informe do Serviço de Investigação do Congresso, de outubro de 2012. As eleições paquistanesas sugerem que é preciso voltar a pensar nessa proporção. “Há muito tempo os Estados Unidos dependem de uma relação unidimensional com os militares paquistaneses. Agora precisamos nos concentrar em uma ampliação de nosso vínculo com os dirigentes políticos e o povo”, disse à IPS o pesquisador Dan Twining, do centro de estudo e fundação German Marshall Fund of the United States, com sede em Washington. “Os Estados Unidos querem fortalecer o governo civil, e a principal tarefa de Sharif é o desenvolvimento econômico, além de atender os problemas de governança que assolaram o governo anterior”, afirmou. Twining reconheceu que a questão militar continuará ocupando um lugar central na política relacionada ao Paquistão, e que, ainda que esse país continue sofrendo o fortalecimento da insurgência, a raiz do problema não necessariamente tem a ver com a segurança. “Não são problemas militares, mas relacionados com energia, infraestrutura ou fornecimento de água”, pontuou. “Mesmo se aceitarmos que os militares manterão o controle da política externa, uma análise de longo prazo sugere que os problemas mais importantes do Paquistão estão no âmbito civil”, argumentou Twining. As dificuldades “exigem boa governança para manter a economia em funcionamento e gerar emprego, questões que as Forças Armadas não atenderão e, simplesmente, não podem fazê-lo”, ressaltou. Naturalmente, o Paquistão continua com problemas importantes em matéria de segurança, já que os dias anteriores às eleições foram muito sangrentos. O próprio Sharif reconheceu que não basta uma estratégia militar para conseguir a paz. Uma semana antes da votação, vários grupos islâmicos anunciaram que poriam fim aos ataques contra o partido de Sharif, que se mostrou aberto a iniciar negociações com o ramo paquistanês do Talibã. “É interessante notar que, enquanto Sharif se mostrava aberto ao diálogo, o chefe do exército do Paquistão, general Ashfaq Parvez Kayani, dizia que a luta contra os extremistas não era por causa dos Estados Unidos, mas porque aqueles queriam derrubar o governo”, destacou Twining. “Esse é um problema central no Paquistão e terão que lidar com isso”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Carey L. Biron, da IPS
A Grande Barreira de Corais é o lar de mais de 1.500 espécies de peixes. Foto: Mauricio Ramos/IPS Inter Press Service - Reportagens

Assédio industrial ameaça Grande Barreira de Corais

[caption id="attachment_87041" align="aligncenter" width="500" caption="A Grande Barreira de Corais é o lar de mais de 1.500 espécies de peixes. Foto: Mauricio Ramos/IPS"][/caption]   Sidney, Austrália, 16/5/2013 – A mineração, o desenvolvimento portuário e a perda de qualidade da água em toda a costa nordeste da Austrália colocam em risco o futuro da Grande Barreira de Corais, importante centro de atração turística declarado Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura (Unesco). A falta de “um compromisso firme e claro” tanto dos governos federal australiano quanto do Estado de Queensland para limitar o desenvolvimento de infraestrutura perto do arrecife “representa um perigo potencial para o excepcional valor universal” do lugar. Isto consta de um informe de avaliação feito em conjunto pela Unesco e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A Grande Barreira de Corais inclui uma área de 348 mil quilômetros quadrados, cerca de 2.500 arrecifes individuais e mais de 900 ilhas. É o lar de colônias reprodutoras de aves, tartarugas marinhas, golfinhos de barbatanas chatas australianos e de baleias jubarte. O auge dos recursos minerais da Austrália, impulsionado pela crescente demanda de carvão dos mercados asiáticos, está atraindo milhares de milhões dólares em investimentos corporativos. Especialistas avaliam o possível impacto ambiental de aproximadamente 43 projetos industriais neste gigantesco ecossistema. “O governo australiano, que espera aprovar várias grandes propostas de desenvolvimento nas próximas semanas e meses, corre um grande risco, porque poderia obrigar o Comitê do Patrimônio Mundial a colocar a Grande Barreira em sua lista da vergonha”, disse à IPS o porta-voz do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), Richard Leck. Ele se referia à lista de Patrimônio da Humanidade em perigo, elaborada pelo Comitê. Desde 2011, Unesco e UICN expressam grande preocupação pelo cuidado com essa área. “Claramente, a Austrália ignora as recomendações. O governo federal continua aprovando novos projetos de desenvolvimento sem um compromisso de longo prazo na restrição da industrialização. O governo de Queensland também debilitou algumas das leis que protegem os arrecifes do desenvolvimento e do desmonte de terras”, advertiu Leck à IPS. O WWF estima que a limpeza de milhares de hectares de vegetação ao longo dos rios que levam ao arrecife e o lançamento dos restos da dragagem nas águas costeiras terão significativo impacto no sítio protegido, que contém 400 tipos diferentes de corais, 1.500 espécies de peixes, quatro mil tipos de moluscos, cerca de 240 espécies de aves e várias classes de esponjas do mar, anêmonas, gusanos marinhos e crustáceos. As águas do arrecife também fornecem alimentos a espécies ameaçadas e abriga uma das maiores populações de dugongos. “O desenvolvimento de infraestrutura portuária e o crescente movimento de navios requerem a dragagem de milhões de toneladas de terra do leito marinho, incluindo ervas que servem de alimento a tartarugas, dugongos e outras formas de vida”, alertou a diretora da Campanha pela Grande Barreira de Corais da Sociedades Australiana de Conservação Marinha, Felicity Wishart. “Isto pode prejudicar ou destruir mangues vitais, zonas de reprodução de peixes e outros habitat costeiros”, explicou à IPS. Ambientalistas também temem que o aumento do movimento de embarcações agrave o risco de vazamento de petróleo. Aproximadamente quatro mil navios passam pela Grande Barreira de Corais a cada ano, e espera-se que esse número aumente para seis mil até 2020. Para proteger a parte mais saudável e antiga do arrecife das ameaças humanas, especialmente da criação de portos e de projetos de mineração, a The Wilderness Society deseja que também seja considerada Patrimônio da Humanidade a Península do Cabo York, localizada no extremo norte de Queensland. “Isto bloquearia o projeto de desenvolvimento mineiro em Wongai da Balkanu Corporation, que abriria novas áreas para o desenvolvimento, e o de exploração da mina de bauxita no sul de Embley, da empresa Rio Tinto”, disse à IPS a ativista dessa organização, Gavan McFadzean. Projeções do Escritório de Recursos e Economia Energética da Austrália indicam que as exportações de carvão deste país praticamente duplicarão em pouco mais de uma década. A Austrália já é o maior exportador mundial desse produto. Nos últimos dez anos, os embarques australianos de carvão cresceram mais de 50%, dos quais 88% se dirigiram a grandes economias asiáticas como Japão, China, Coreia do Sul, Índia e Taiwan. Georgina Woods, do Greenpeace, resumiu a situação com a seguinte pergunta: “Sacrificaremos a Grande Barreira de Corais e aceitaremos a perigosa mudança climática como o custo inevitável de apoiar uma única indústria?”. Uma pesquisa do Greenpeace estima que a exploração de carvão na Austrália seja a segunda maior indústria de combustíveis fósseis das 14 que estão levando o planeta para além dos limites internacionalmente acordados de aquecimento climático. Os arrecifes de corais do mundo têm poucas probabilidades de sobrevivência se as temperaturas globais aumentarem 1,5 grau. “Agora mesmo, caminhamos firme para um aquecimento de quatro graus”, afirmou Woods à IPS. O diretor-executivo do australiano Instituto do Clima, John Connor, explicou à IPS que a mudança climática ameaça a Grande Barreira de Corais, tanto pela acidificação do oceano quanto pelas crescentes tempestades. Porém, destacou que o governo da Austrália deu importantes passos para reduzir suas emissões de gases-estufa, adotando importantes leis sobre as liberações de carbono. Envolverde/IPS


por Neena Bhandan, da IPS
Uma estudante supervisiona as garrafas onde é cultivada a milagrosa alga. Foto: Pierre Klochendler/IPS Inter Press Service - Reportagens

Estudantes na luta contra a desnutrição

[caption id="attachment_86965" align="alignleft" width="300" caption="Uma estudante supervisiona as garrafas onde é cultivada a milagrosa alga. Foto: Pierre Klochendler/IPS"][/caption] Tel Aviv, Israel, 15/5/2013 – No Colegio Gymnasia Herzliya, nesta cidade israelense, 20 estudantes da nona e décima séries desenvolvem formas simples, baratas e rápidas de resolver o problema da desnutrição. Sob orientação do diretor da escola e do professor de biologia, estes adolescentes cultivam a alga azul esverdeada espirulina, que contém uma ampla gama de vitaminas, minerais e nutrientes. Miri Wolozhinski, de 14 anos, disse que sua participação na experiência responde a um desejo de ajudar “aqueles que necessitam”. Ela e sua companheira de classe Anouk Savir-Carmon denunciaram “o absurdo que é ainda existirem crianças famintas no século 21”. Segundo um informe da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em outubro do ano passado, cerca de 870 milhões de pessoas, ou uma em cada oito no planeta, sofreram desnutrição crônica entre 2010 e 2012. Os estudantes do Gymnasia Herzliya estão convencidos de que podem ajudar a mudar esta situação. Após terem estudado várias das propriedades da alga, Savir-Carmon explicou à IPS que “entre 60% e 70% de sua massa é proteína. O restante contém carboidrato, antioxidantes, incluindo gorduras ômega-3, vitaminas, minerais. Resumindo, tudo o que é necessário para a nutrição”. Um estudo de 2008 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), baseado em um experimento realizado no México, conclui que o consumo diário de dez gramas de espirulina em pó é suficiente para combater a desnutrição infantil. O estudo destaca que as crianças severamente desnutridas, admitidas em uma clínica de saúde de uma aldeia do Togo, se recuperaram poucas semanas após ingerirem doses diárias de dez a 16 gramas desse suplemento alimentar, misturado com milho, água e especiarias. Estima-se que esta alga, conhecida na comunidade científica como cianofícea, existe em água salgada e em alguns lagos de água doce há mais de três bilhões de anos. É considerada uma “proteína completa”, pois contém os nove aminoácidos essenciais para a sobrevivência dos seres humanos. A espirulina, popularmente chamada de “supercomida”, faz sombra a todos os demais alimentos, como feijões, frutas, verduras e produtos lácteos. A alga cresce naturalmente em lagos tropicais da África central e oriental, mas como suplemento nutricional é vendida na forma de pó e comprimidos em negócios específicos e a preço alto. Convencidos de que esses custos são consequência de métodos inadequados de cultivo, que exigem equipamentos caros, os estudantes do Gymnasia Herzliya estão decididos a encontrar formas mais baratas de cultivá-la. Começaram cultivando uma amostra obtida da fazenda de algas Adamá, no deserto do Neguev, com químicos como bicarbonato de sódio, nitrato de potássio, cloreto de sódio, fosfato e sulfato de magnésio. Tudo isto permitiu “um cultivo ótimo”, explicou Fea Hadar, da nona série. Usando a internet como aliada, os estudantes aprenderam tudo o que puderam sobre taxonomia, estrutura, benefícios nutricionais e condições de crescimento da alga. No começo, cada aluno cuidava de uma garrafa de plástico reciclada contendo uma mostra de cultivo. Como qualquer outra planta, a espirulina precisa de gás carbônico para a fotossíntese, e eles tinham apenas que “sacudir a solução a cada duas horas”, explicou Savir-Carmon. Há quatro meses o especialista em algas Boris Zlotnikov, que os assessora, desenhou um sistema mais eficiente, organizando as garrafas em uma plataforma de madeira e ligando-as a um sistema elétrico de bombas, tubulações e finos tubos, que sopra ar na solução e movimenta as algas constantemente. “Agora crescem bem rápido”, destacou Elad Dvash, da décima série. Na semana passada, quando a solução adquiriu uma densa cor esmeralda, os estudantes comemoraram sua primeira colheita, secando a biomassa ao ar livre. “Com 650 litros de algas cultivadas produzimos o equivalente a 65 quilos de matéria seca”, explicou Dvash. Os estudantes também guardaram algumas algas para cultivá-las com métodos mais tradicionais, sem usar eletricidade. “Agora estamos elaborando um protocolo para o cultivo da espirulina em tanques e garrafas, em diferentes condições climáticas e econômicas, com ou sem eletricidade, instrumentos ou recursos”, detalhou à IPS Ori Shemor, de 15 anos. “Ainda temos que realizar vários experimentos que levem em consideração luz, temperatura e variações da umidade”, ressaltou. O projeto já está tendo repercussão. Pesquisadores do Centro de Biotecnologia em Algas da Universidade Bar-Ilan se ofereceram para ajudar os estudantes a criarem um modelo que aumente a concentração de proteínas da alga. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) ofereceu ajuda aos jovens para divulgar seu protocolo por meio de seu Projeto de Escolas Associadas, uma rede mundial que conecta quase dez mil instituições de ensino em mais de 180 países. Envolverde/IPS


por Pierre Klochendler, da IPS
Crianças aprendem a sobreviver em um acampamento de refugiados no norte do Líbano. Foto: Zak Brophy/IPS Inter Press Service - Reportagens

População síria aterrorizada com ataques contra hospitais

[caption id="attachment_86961" align="aligncenter" width="540" caption="Crianças aprendem a sobreviver em um acampamento de refugiados no norte do Líbano. Foto: Zak Brophy/IPS"][/caption]   Washington, Estados Unidos, 15/5/2013 – Organizações de ajuda norte-americanas alertam para os ataques deliberados contra o sistema de saúde da Síria que, entre outras coisas, dificultam a atenção com a crise humanitária causada pela guerra civil nesse país do Oriente Médio. Em uma reunião com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, ressaltou a centralidade da crise sanitária que se registra na Síria e também a necessidade de “atender lesões por traumatismos, ajudar na recuperação de vítimas de torturas e conseguir que as famílias tenham água potável”. A ajuda sanitária enfrenta obstáculos significativos, pois foi desmantelado, em grande parte, o sistema de saúde pública sírio. “A sistematização de ataques na Síria, certamente contribuiu para isso”, explicou Stephen Cornish, diretor-executivo da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Canadá, durante um painel sobre o tema realizado em Washington. Essa situação “provocou a mudança de pessoal médico, destruiu um grande número de hospitais e interrompeu o serviço de saúde pública de forma significativa”, ressaltou. O não governamental Centro de Documentação de Violações, com sede em Damasco, garante que há 469 trabalhadores da saúde presos na Síria. Tom Bollyky, do Conselho de Relações Estrangeiras, um grupo de estudo com sede em Washington, estima que cerca de 30 mil médicos abandonaram esse país, e opinou que esse tipo de ataque é a manifestação de uma tendência perturbadora mais geral, que cada vez mais tem os centros de saúde como alvos de ataques em zonas de conflito. Em um informe de março, a Comissão Internacional Independente de Investigação sobre a República Árabe da Síria acusa o regime de Assad e a oposição de apontarem de forma estratégica contra as instalações médicas e o pessoal sanitário. Bollyky disse à IPS que “atacar pessoal médico é uma forma de aterrorizar a população e de privá-la do apoio humanitário que necessitam”. Bollyky também citou outras ocorrências no Oriente Médio e na Ásia, especialmente os ataques coordenados pelo movimento islâmico Talibã contra o pessoal voluntário que realiza a vacinação contra a poliomielite no Afeganistão e no Paquistão. No dia 13, o Talibã anunciou que punha fim aos seus vários anos de sabotagem contra a campanha de vacinação nesses dois países. Este tipo de ação está especificamente proibida nas convenções de Genebra, pelas quais é obrigatória a proteção de hospitais e pessoal sanitário do fogo hostil. “O pessoal médico está totalmente protegido pelo direito internacional. Não há circunstâncias em que seja certo atacar instalações ou trabalhadores da saúde e, naturalmente, isso ocorre nos dois lados”,  Bollyky. Os ataques contra o sistema de saúde da Síria, além de deixarem os feridos em combate sem os necessários cuidados de urgência, também exacerbaram uma crise de saúde gerada pelas más condições de vida nos acampamentos de refugiados fora do país. Há um milhão de refugiados sírios, e a Organização das Nações Unidas alertou que esse número poderá chegar a 1,5 milhão de pessoas até o final deste ano. E esta quantidade é pouca, comparada com os mais de 4,2 milhões de refugiados dentro do país. Além dos ataques, os centros de assistência muitas vezes são utilizados com fins militares. Zahir Sahlul, da Sociedade Médica Norte-Americana Síria, contou, em uma conferência, no dia 10, sobre o saque dos dois principais hospitais de Aleppo, um oftalmológico e outro infantil, que agora funcionam como base de operações para batalhões militares. “Além disso, não há sistema de encanamento. Há falta de higiene porque não tem energia elétrica e às vezes nem água, e existe escassez de óleo combustível. Isto fez ressurgir epidemias que não existiam antes”, acrescentou. Doenças crônicas que eram relativamente fáceis de tratar antes do conflito, como diabete ou pressão alta, causam mais mortes, o que Cornish chamou de “vítimas silenciosas”. Estes pacientes não podem ser enviados para o exterior por não serem casos de emergência, e não recebem tratamento na Síria porque as instalações e o pessoal necessários já não existem. “Há pessoas com câncer que tiveram de interromper a quimioterapia e só o que podem receber são medicamentos paliativos”, detalhou Cornish. “Pouco a pouco, dia a dia, morrem”, acrescentou. Os trabalhadores da saúde estão cada vez menos preparados para atender esses problemas, pois suas capacidades vão se debilitando devido às suspeitas sobre sua lealdade. “Na Síria, um médico que atende pacientes do outro lado coloca a própria vida em risco”, pontuou Sahlul. Enquanto organizações humanitárias tentam encontrar soluções para os desafios da assistência médica, numerosos observadores concordam que se deve apelar à comunidade internacional para que redobre os esforços e pressione os dois lados para que acabem com os ataques contra hospitais e o pessoal médico, e tenham mais respeito pelos padrões humanitários internacionais. A organização não governamental Geneva Call, dedicada a envolver atores não estatais em questões de direito humanitário, produziu vários vídeos curtos para promover o respeito aos padrões internacionais. Um deles tem o título de Respeito e proteção de objetos e pessoal médico. Para Bollyky seria um avanço na direção correta tratar as violações do direito humanitário com maior seriedade no Tribunal Penal Internacional e reconhecer a responsabilidade da comunidade internacional em combatê-las. “Houve uma explosão desse tipo de ataque, não havendo condenações contra as pessoas que estão por trás deles. O sistema legal internacional não é conhecido precisamente por sua rapidez, mas seria uma forma de condenação real”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Katelyn Fossett, da IPS
Roberto Carvalho de Azevêdo assumirá em 1º de setembro a direção da OMC. Foto: OMC - CC BY-SA 2.0 Inter Press Service - Reportagens

OMC consagra um latino-americano em prol de mudar o rumo

[caption id="attachment_86940" align="aligncenter" width="500" caption="Roberto Carvalho de Azevêdo assumirá em 1º de setembro a direção da OMC. Foto: OMC - CC BY-SA 2.0"][/caption]   Genebra, Suíça, 15/5/2013 – O brasileiro Roberto Carvalho de Azevêdo, formalmente nomeado ontem novo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), chegou a essa posição com o amplo apoio do mundo em desenvolvimento, superando na fase final o mexicano Herminio Blanco, preferido pelos países industrializados. O resultado do processo de seleção deixa claro que boa parte dos membros da OMC, em sua maioria países em desenvolvimento, está descontente com o statu quo que Blanco representava, disse à IPS a coordenadora da rede Nosso Mundo Não Está à Venda (OWINFS), Deborah James. A ativista e especialista em comércio da OWINFS, rede de dezenas de organizações e institutos de estudo em todo o mundo, afirmou que “a insatisfação dos governos do Sul se relaciona com a prorrogação do atual modelo fracassado de globalização corporativa, baseado na liberalização e desregulamentação”. E acrescentou que “a OMC consolida globalmente esse modelo sem considerar os efeitos negativos dessas políticas nos operários, camponeses e meio ambiente”. A designação de Azevêdo é considerada um sopro de ar fresco para o rarefeito clima em que adormece, há pelo menos uma década, a OMC, conduzida nos últimos oito anos pelo francês Pascal Lamy. Em sua declaração perante o Conselho Geral da organização, que consagrou Azevêdo para um período de quatro anos a partir de 1º de setembro, a delegação da África do Sul afirmou que sua nomeação é comemorada como uma tríplice vitória, pela diversidade, pelo consenso e pelo multilateralismo. Os sul-africanos também pediram que a direção da OMC reflita a diversidade de seus 159 membros e represente todas as regiões. “Hoje conseguimos que a América Latina esteja representada pela primeira vez na direção da OMC”, afirmaram. “Em breve será a vez da África contribuir com a riqueza de seus dirigentes para esta instituição”, acrescentaram os representantes de Pretória. A OMC e seu antecessor, o Acordo Geral de Tarifas Alfandegárias e Comércio (GATT), sempre foram dirigidos por representantes de nações industrializadas, exceto no período 2002-2005, quando a organização esteve a cargo do tailandês Supachai Panitchpakdi. James disse que agora caberá a Azevêdo responder às necessidades evidentes que a sociedade civil, por meio da OWINFS, está mostrando. Assim se referiu à transformação do sistema existente para garantir que possa dar aos países o suficiente espaço político para perseguir um programa positivo rumo ao desenvolvimento e à geração de emprego. Dessa forma, prosseguiu, “as regras comerciais poderão facilitar, em lugar de entorpecer, os esforços mundiais para garantir uma verdadeira segurança alimentar, o desenvolvimento econômico sustentável, o acesso global à saúde e aos medicamentos e a estabilidade financeira”. A organizações não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) pediu que Azevêdo dê prioridade ao acesso a medicamentos. Rohit Malpani, diretor de política e análise dessa instituição, afirmou que a designação do brasileiro “coincide com a reclamação do grupo dos Países Menos Avançados (PMA) de continuarem livres da aplicação dos Acordos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio” (Adpic). Os PMA querem que essa exceção seja aplicada enquanto persistir sua condição de menor desenvolvimento. Malpani estimou que a prorrogação desse benefício permitirá aos PMA evitar os efeitos de práticas monopolistas sobre medicamentos, diagnósticos e aparelhos médicos. Esta e outras reclamações do grupo figuram junto a questões de agricultura e facilitação de comércio, entre os prováveis temas da conferência ministerial da OMC marcada para Bali, na Indonésia, entre 3 e 6 de dezembro. Azevêdo evita comentários precisos sobre a marcha da OMC devido à sua condição de mero diretor-geral designado, que irá até 1º de setembro. Mas, em um reconhecimento das dificuldades que enfrentam as negociações de um acordo ministerial em Bali, o diplomata brasileiro disse que, se não houver êxito, a marcha será muito mais árdua. Também afirmou que é preciso mover a OMC “de sua atual paralisia para uma organização que novamente seja valiosa e obtenha resultados negociados que o mundo deseja e espera”. No entanto, as diferenças entre os negociadores não são a única ameaça à conferência ministerial de dezembro. A Coalizão de Camponeses Asiática (APC) anunciou que pretende demonstrar sua enérgica resistência à OMC durante a reunião em Bali. A organização realizará ações contra a OMC em Bangladesh, Filipinas, Indonésia, Paquistão, Sri Lanka, Nepal e Índia, disse o subsecretário-geral da APC, Rahmat Ajiguna. Os acordos de agricultura da OMC causam deslocamentos maciços, destruição da indústria local e a crescente apropriação de terras e recursos, segundo a ACP. Envolverde/IPS


por Gustavo Capdevila, da IPS

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