Cristãos no inferno iraquiano

Inter Press Service - Reportagens

Cristãos no inferno iraquiano


por Karlos Zurutuza, da IPS


Bashiqa, Iraque, 22/5/2013 – Luis Shabi lembra com saudades dos seus nove anos de noviciado em Roma e uma viagem de automóvel por toda a Europa antes de voltar ao Iraque, em 1969. “Eram outros tempos”, suspira o arcebispo caldeu de Bagdá em um bunker no coração da capital iraquiana. Seu escritório fica no sótão da igreja de Santa Maria do Rosário, no leste da cidade. É um templo humilde, protegido por muros de concreto, arame farpado e soldados de guarda junto a um veículo blindado. “Sempre fomos um povo pacífico e trabalhador, com uma reputação de contribuir para a cultura iraquiana com numerosos escritores, poetas, filósofos”, afirmou o prelado cristão, vestido com uma batina imaculada e usando um barrete rosa. “Mas, desde 2003, os extremistas reforçam a imagem de que somos uma espécie de recém-chegados, algo como uma extensão do Ocidente no Oriente Médio”, acrescentou Shabi, passando diretamente do inglês para o italiano. O fato de haver alguns ministros cristãos durante o regime de Saddam Hussein (1979-2003) “só faz piorar as coisas”, ressaltou o arcebispo. “O que fez a Europa para nos ajudar? E Roma? Nem as autoridades civis nem as religiosas na Europa moveram um dedo por nós no pior momento de nossa história”, lamentou. Depois da dizimada comunidade mandea do Iraque – nove em cada dez membros dessa antiga religião do mundo mediterrâneo morreram ou fugiram desde 2003 –, a cristã foi a mais castigada na última década. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados afirma que aproximadamente metade da população cristã abandonou o país a partir de 2003, quando começou a ocupação norte-americana. Por outro lado, o Conselho Assírio da Europa diz que a própria Constituição iraquiana é uma das culpadas pela marginalização que sofrem as minorias. “O Islã é a religião do Estado e fundamento básico de sua legislação”, afirma o Artigo 2.1 da Magna Carta iraquiana de 2005. “Não somos árabes, mas semitas. Falamos arameu e estamos na Mesopotâmia desde os tempos de Hamurabi. Somos filhos de Abraão e Nabucodonosor, mas nosso futuro no Iraque não passa de amanhã”, argumentou o arcebispo Shabi, sob toneladas de pedra e concreto. A dez minutos a pé desse lugar, se ergue majestosa a espigada e vanguardista fachada da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Após passar por um labirinto de charcos, barro e cimento, agentes uniformizados com camuflagem cinza do Ministério do Interior cuidam do acesso ao templo. O prédio foi reformado no ano passado. Mas aqui ninguém esquece. “Eram cinco. Pularam os muros de concreto e entraram atirando na igreja gritando ‘Deus é grande’. Diziam pertencer ao Estado Islâmico do Iraque (um grupo vinculado à Al Qaeda). Foi no dia 31 de outubro de 2011. Estávamos em meio à missa.” O trágico episódio permanece na memória de Aysur Said, o atual pároco. Seu antecessor, padre Wasim Tabih, foi um dos 50 assassinados no pior ataque sofrido por esta comunidade desde 2003. “Alguns morreram pelos disparos, outros asfixiados. Vários foram fechados na sala que usamos para nos vestir. Não tem janela e o ar logo acabou”, contou Said à IPS. Depois do atentado, os cristãos do Iraque reclamaram uma região autônoma própria nas planícies da região de Nínive, no noroeste do país. Trata-se do lugar em que a Bíblia situa o Jardim do Éden, mas hoje também é zona de litígio entre curdos e árabes. A 350 quilômetros de Bagdá, Mosul é sua capital administrativa, palco desde dezembro de maciços protestos antigovernamentais. Bashiqa, a 30 quilômetros de Mosul, é uma das cidades que muitos  cristãos reclamam para seu projeto autonomista. Da igreja assíria ortodoxa de Mart Shmouni, o pároco Daniel toma distância dessa reclamação, recordando “a importância da unidade entre os iraquianos”. Porém, este religioso de 23 anos reconhece que não é fácil. “A nova autoridade de Bagdá não é capaz de nos proteger, por isso nosso povo continua fugindo em massa”, pontuou Daniel. “No entanto, nos últimos meses acolhemos muitas famílias chegadas da Síria, que pedem abrigo em nossos monastérios e igrejas. Muitas fugiram repentinadamente e chegam quase sem nada”, acrescentou sobre a guerra no país vizinho este jovem que presume ser o sacerdote mais jovem ordenado no Iraque. Apesar de sua proximidade com a instável Mosul, Bashiqa desfruta de uma relativa estabilidade, algo que o sacerdote atribui à presença de soldados curdos na região. “Para muitos, Bashiqa é uma parada no caminho em sua fuga para a Região Autônoma Curda, onde a segurança é completa”, indicou o pároco. Kirkuk, 230 quilômetros a noroeste de Bagdá, também se encontra em uma espécie de limbo legal entre a capital do país e o governo regional curdo. De Kirkuk, Imad Yokhana Yago, deputado pelo Movimento Democrático Assírio, denuncia o “genocídio pelas mãos de islâmicos” e a “fuga em massa” de seu povo, por isso defende um projeto na medida de sua minguante comunidade. “Temos medo de uma nova guerra pelas tensões entre curdos e árabes sunitas e xiitas”, afirmou à IPS. “Uma região autônoma cristã em Nínive protegeria nossa comunidade e faria as vezes de zona de amortização entre os grupos que se enfrentam”, destacou o parlamentar. Entretanto, é um projeto controvertido e há quem tema que essa região se converta em uma espécie de gueto ao se deslocar o povo cristão. Da direção do Movimento Cristão Assírio, Yousif Eisho discorda. “A repressão que estamos sofrendo não chega unicamente dos árabes do Iraque. Irã, Arábia Saudita, são muitos os agentes estrangeiros envolvidos na limpeza étnica de nosso povo”, afirmou este homem de profundos olhos azuis. “Este gueto acabará sendo uma realidade se a ingerência externa continuar sendo permitida”, ressaltou. Envolverde/IPS

O presidente do comitê da aldeia de Nguwo, Ibrahim Kachinga, na margem do Lago Malawi. Foto Mabvuto Banda/IPS Inter Press Service - Reportagens

Resgate do Lago Malawi

[caption id="attachment_87699" align="aligncenter" width="429" caption="O presidente do comitê da aldeia de Nguwo, Ibrahim Kachinga, na margem do Lago Malawi. Foto Mabvuto Banda/IPS"][/caption]   Lilongwe, Malawi, 22/5/2013 – Lloyd Phiri, um pescador do Lago Malawi, sabe que essas águas estão baixando. E comprova isso com suas capturas, que nos últimos anos caíram mais de 80%. Há anos, o normal era obter cerca de cinco mil pescados por dia, afirmou, mas agora, com sorte, chega a um quinto dessa quantidade. O habitual é capturar apenas 300 exemplares diários. “Isso afetou minha renda. Agora tenho problemas para pagar a escola dos meus filhos”, contou à IPS. O rápido declive das águas do Lago, causado pelo crescimento demográfico, pela mudança climática e pelo desmatamento, coloca em risco de extinção suas espécies de flora e fauna, segundo o Ministério de Meio Ambiente e Manejo da Mudança Climática. E entre a biodiversidade ameaçada estão os peixes dos quais Phiri depende para ganhar a vida. “Nas últimas três décadas foram elaborados alguns modelos de equilíbrio hídrico no Lago, e mostraram que os níveis de água caíram de 477 metros acima do nível do mar, na década de 1980, para 474,88 metros atualmente”, informou à IPS a secretária principal do Ministério, Yanira Mtupanyama, a respeito deste lago de 29.600 quilômetros quadrados que fica na fronteira entre Malawi, Moçambique e Tanzânia. “Isto é importante, porque os estudos mostram que os níveis da água no Lago continuarão diminuindo nos próximos anos, porque há sinais de que haverá menos chuvas e mais evaporação”, explicou. Estima-se que mil espécies de peixes dependem da água doce do terceiro maior lago da África para sobreviver e contribuir com 60% das necessidades de proteínas da população do país. As espécies mbuna e a famosa tilápia, conhecida localmente como chambo, estão à beira da extinção. Este último é o peixe mais popular de Malawi. Segundo o Departamento de Pesca, as reservas de peixes no lago diminuíram 90% nos últimos 20 anos. Isto gera uma enorme preocupação, já que cerca de 1,5 milhão de malawianos dependem do Lago para cobrir suas necessidades de alimento, transporte e outras, afirmam as autoridades. E provocam ainda mais preocupação os recentes informes do governo dizendo que a massa hídrica pode conter abundantes reservas de petróleo e gás. O ambientalista Raphael Mwenenguwe teme que, se forem extraídos estes combustíveis, haja uma perda ainda maior de biodiversidade. “As reservas pesqueiras diminuíram nas últimas duas décadas, passando de aproximadamente 30 mil para 20 mil toneladas ao ano, devido a uma queda no nível da água, à sobrepesca e ao rápido aumento demográfico. Mas isto poderá piorar se for descoberto petróleo no lago”, alertou Mwenenguwe à IPS. Williman Chadza, diretor-executivo do Centro para as Políticas e o Lobby Ambiental, uma organização não governamental que promove a ecologia, compartilha desses temores. “O petróleo é um recurso importantíssimo para um país como Malawi, que busca alternativas para obter ganhos para seu desenvolvimento socioeconômico. Mas sua descoberta poderá aprofundar a perda de biodiversidade e ter um impacto adverso sobre as fontes de água”, disse à IPS. A mineração também afeta o Lago. Uma mina de urânio em Karonga, localidade que fica próxima, é um exemplo. Há quatro anos é propriedade do gigante australiano Paladin, que também a opera, e é considerada uma ameaça em matéria de contaminação. “O urânio é um material altamente radioativo, e portanto ainda há a ameaça de que possa contaminar a água doce do Lago”, disse à IPS o ativista pelos direitos humanos Udule Mwakasungura. A necessidade de frear a perda de biodiversidade é particularmente importante no Malawi, onde a população depende dos recursos biológicos em maior grau do que a de outras partes do mundo. As 18 mil famílias da aldeia de pescadores de Nguwo, na baía de Senga, são um exemplo desta dependência. “Sabemos que as reservas pesqueiras se esgotam devido a práticas insustentáveis e ao não cumprimento de resoluções, e que cortar árvores de modo insustentável afeta, em última instância, a qualidade da água que bebemos”, afirmou o chefe da aldeia, Radson Mdalamkwanda. Ele contou à IPS que os pescadores locais trabalham com as autoridades distritais para tratar das ameaças e dos desafios que enfrenta a conservação do Lago, e acrescentou que quem não cumprir as normas será proibido de pescar no Malawi durante outubro e novembro, quando os peixes desovam. Nos últimos cinco anos, o comitê de desenvolvimento da aldeia participa de reuniões para educar os moradores sobre as regulamentações e a necessidade de proteger o Lago. “Além de proteger os peixes, também queremos proteger a água, para que seja seguro bebê-la. Fazemos isso conscientizando em reuniões como casamentos e funerais”, explicou à IPS o presidente do comitê da aldeia, Ibrahim Kachinga. Seus esforços também complementam as tentativas do governo do Malawi de enfrentar as ameaças e os desafios de conservar a flora e fauna do Lago. “Nos últimos anos vigorou uma proibição do uso de artefatos de pesca de alto rendimento no Lago, na época da desova”, disse Mtupanyama, acrescentando que em 2003 o governo lançou um plano estratégico de dez anos para restabelecer as existências pesqueiras do Lago. “Assim, nos últimos dez anos estivemos reabastecendo o lago de peixes, criando exemplares jovens fora dele e depois recolocando em suas águas. Não foi mal”, opinou Mtupanyama, mas não pôde determinar se isto aumentou de modo significativo as reservas de peixes do lago. Independente do que possa resultar desse projeto, o comitê de Nguwo entende que o futuro do Lago é importante. Por isso educa os que podem fazer algo a respeito: as futuras gerações da aldeia. “Com a ajuda do governo, também incentivamos os professores da pré-escola e do primário a educarem nossas crianças sobre como proteger o Lago”, ressaltou Kachinga. Envolverde/IPS


por Mabvuto Banda, da IPS
agri Inter Press Service - Reportagens

Agricultura cubana precisa de força jovem

[caption id="attachment_87695" align="aligncenter" width="500" caption="Mercedes Cepero (D) trabalha no laboratório de saúde vegetal da cooperativa Viveiro Alamar. Crédito: Patricia Grogg/IPS"][/caption]   Havana, Cuba, 22/5/2013 – Quando a cubana Gabriela Blanco conta que trabalha em uma horta orgânica e se prepara para estudar na universidade, só vê caras de espanto. Ela não sabe muito bem de onde veio sua vocação para a terra, mas está certa de que é o que quer. Em Cuba, onde a agricultura se caracteriza por rendimentos insuficientes, tampouco são muitos os jovens como Blanco – de porte pequeno e apenas 20 anos, que deixou dois anos da carreira de matemática para se testar no Viveiro Alamar, uma Unidade Básica de Produção Cooperativa de sucesso, em Havana. “Comecei a trabalhar aqui em setembro de 2012. Com três meses, me fizeram sócia da cooperativa, confirmei que realmente gosto e quero continuar aqui. O setor agrícola tem muitas possibilidades e inúmeros campos de pesquisa, uma experiência muito interessante e muito bonita”, disse Blanco à IPS. A vivência de Mercedes Cepero, de 18 anos, é semelhante, embora tenha chegado à cooperativa para fazer seu estágio como técnica de agronomia. “Já passei da fase de estudante e agora tenho que me preparar e aprender como trabalhadora”, detalhou Cepero à IPS. Ela também se prepara para os exames de ingresso na universidade, que acontecem este mês, porque quer ser engenheira agrônoma. Ao contrário de Blanco, ouviu sobre esta carreira quando estava no ensino secundário. “A partir dali comecei a me interessar”, contou Cepero. Para Blanco, o desinteresse da juventude pelas profissões agrícolas tem a ver, em parte, com a sociedade atual. “Muitas pessoas veem a agricultura como algo que não se estuda, que não tem ciência, bastando plantar e colher. Outras veem o trabalho no campo como algo de muito esforço e poucos benefícios”, pontuou. No Viveiro Alamar trabalham 20 jovens de 17 a 30 anos atualmente. No entanto, a maioria desiste quando encontra lugares mais de acordo com suas aspirações de renda e menor esforço. Cepero é mais dura ao julgar essa apatia pelos trabalhos agrícolas. Para ela, os jovens “são um pouco folgados e querem que tudo caía do céu”, declarou. Segundo dados do programa nacional de agricultura urbana e suburbana, há cerca de 70 mil jovens trabalhando no setor, ao qual pertence esta cooperativa, que fica na localidade costeira de Alamar, a 15 quilômetros do centro de Havana e cuja população é estimada entre 80 mil e cem mil habitantes. Pesquisadores do Centro de Estudos sobre a Juventude indicam que a população jovem prefere locais de trabalho em áreas da economia emergente, como empresas e corporações estrangeiras, e despreza ofertas de trabalho vinculadas a serviços comunitários, construção e agricultura. “Existe a visão de que a agricultura é como se fosse um castigo. Quem se comporta mal, vai arar a terra. O filho do agricultor não quer continuar a tarefa dos pais, mas ir para Havana ser médico”, afirmou Isis Salcines, que se autodefine como trabalhadora multiofício da cooperativa e está prestes a se formar agrônoma. Pouco depois de iniciar os estudos, Salcines decidiu criar um círculo de interesse em uma escola primária perto da cooperativa, que foi batizado de Chamacos Agroecológicos. Porém, antes fez duas pesquisas. Em uma perguntou: “O que quer ser quando crescer?”, e na outra: “Quando for grande quero ser...”, e entre as opções incluiu agricultor. Ninguém marcou esta alternativa para seu futuro. Salcines, filha do fundador e presidente da cooperativa, Miguel Ángel Salcines, traçou a meta de ensinar em encontros semanais o manejo agroecológico da cooperativa e a necessidade de se alimentar de uma maneira mais saudável. Ao terminar o primeiro curso, os “chamacos” (as crianças) não deixavam nem o talo dos vegetais que comiam em saborosas saladas, sabiam como se trabalha no campo e a importância da produção de alimentos, e também conheciam o manejo integrado de pragas e enfermidades. Em uma nova pesquisa realizada ao fim do primeiro curso, 15 de mais de 20 meninos e meninas marcaram agronomia entre possíveis carreiras a seguirem. “Esta experiência foi um estímulo. Mostrou-me a possibilidade de que, quando crescerem, muitos optem por este trabalho”, ponderou Salcines. Para Norma Romero, engenheira em saúde vegetal, a receita começa pela educação precoce, e continua com a oferta de garantias para que os jovens se sintam reconhecidos, estimulados e com vontade de permanecer no campo, acima das dificuldades. Bons salários, flexibilidade de horário para estudar, café da manhã e almoço gratuito, roupa e calçado adequados para estes trabalhos, entre outros benefícios, são fatores que incentivam, “porque na agricultura há barro, muito sol, pó, condições realmente duras. Para nós é vital que a pessoa chegue e fique, sobretudo os jovens”, ressaltou Romero. Como parte das mudanças do modelo econômico cubano, o Ministério da Educação ampliou em 2011 as especialidades de agronomia em níveis técnicos médios e ordenou fortalecer a orientação vocacional desde as primeiras séries primárias, de acordo com as características e necessidades de cada território. A agricultura absorve 20% do emprego total e sua contribuição direta para o produto interno bruto nacional é inferior a 5%, porque tem a menor produtividade do país. No ano passado, Cuba precisou gastar mais de US$ 1,633 bilhão com importação de alimentos. Envolverde/IPS


por Patricia Grogg, da IPS
Entre 2010 e 2011, a proporção geral de matrículas de meninas nas escolas de Níger aumentou de 29% para 63%, segundo o Ministério da Educação. Foto: Alessandro Vannucci/CC BY 2.0 Inter Press Service - Reportagens

Níger se esforça para educar as meninas

[caption id="attachment_87691" align="alignleft" width="300" caption="Entre 2010 e 2011, a proporção geral de matrículas de meninas nas escolas de Níger aumentou de 29% para 63%, segundo o Ministério da Educação. Foto: Alessandro Vannucci/CC BY 2.0"][/caption] Niamey, Níger, 22/5/2013 – Há uma década, menos de um terço das meninas de Níger em idade escolar frequentavam as aulas. Atualmente, embora persista uma significativa oposição cultural e religiosa, quase dois terços delas estão matriculadas em estabelecimentos de ensino. “Em 2003, tínhamos apenas 15 meninas na minha escola, de 150 estudantes. Agora temos 103 de um total de 175 alunos”, contou Ibrahim Sani, que durante 17 anos deu aula no povoado de Agadez, no norte deste país do ocidente africano. Esta história se repete em outras regiões do Níger. Salouhou Adou, professor em uma aldeia nos arredores de Tahoua, capital da região de mesmo nome, disse à IPS: “quando vim para Kollama, em 2003, havia apenas 29 meninas entre 113 alunos. Hoje, a quantidade delas triplicou, e são 87 em um total de 137 estudantes”. A proporção de matrículas femininas em Tahoua mais do que duplicou, passando de 21%, em 2001, para 45%, em 2011, segundo a direção regional de ensino primário. Entre 2001 e 2011, a proporção geral de matrículas de meninas nas escolas do país aumentou de 29% para 63%, segundo o Ministério da Educação. Esta drástica melhoria se deve aos esforços combinados de autoridades administrativas e tradicionais, professores, pais e sociedade civil, para conscientizar sobre a importância de educar as meninas. “Nossa intervenção conseguiu reduzir o desequilíbrio de gênero em termos de matrículas em nossa área”, disse Hadiza Moussa, professora em Téssaoua, sul do país, onde os dados oficiais também indicam aumento nas matrículas das meninas. Estas representaram 45% dos estudantes em 2012, contra apenas 21% em 2001. Casamentos e batizados são cerimônias que os ativistas usam com frequência para conscientizar sobre a educação feminina. Mas alguns cidadãos comuns o fazem por conta própria. “Fui de porta em porta para falar às famílias que eram contra a educação para suas filhas”, explicou à IPS o comerciante Maman Zakari, de 60 anos, na localidade de Maradi. “Eu fui contra meninas na escola. Mas pude entender a importância de serem educadas mediante campanhas de conscientização e programas de rádio”, admitiu. Ele matriculou duas de suas cinco filhas. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) também apoia vários incentivos. “Os professores de áreas rurais que participam destas campanhas recebem apoio material desta agência, além de seus salários”, disse à IPS Kadri Yacouba, diretor de escolas primárias em Maradi. “E as mulheres que enviam suas filhas à escola recebem dinheiro para iniciar pequenos negócios”, acrescentou. Apesar do aumento das matrículas femininas nas escolas, ainda há uma grande brecha entre meninos e meninas nesse sentido. Entre 2001 e 2011, as dos meninos aumentaram de 36% para 86%. Essa brecha se explica pelo fato de, nas áreas rurais, muitas famílias não enviarem suas filhas à escola devido a crenças sociais e culturais. “Há muitos pais que pensam que a escola é um fator desestabilizador para as meninas. Para eles, o destino de uma menina é ser boa esposa e boa mãe”, disse à IPS o inspetor escolar aposentado Aboubabcar Amadou. Tanto em áreas urbanas quanto rurais, os pais costumam tirar suas filhas da escola para forçá-las a casar. “Mesmo nas famílias onde elas frequentam as aulas, os pais estão mais interessados na educação dos varões. Ir buscar água, lavar a roupa e cozinhar ainda são tarefas que fazem a vida cotidiana das meninas menores”, disse Nana Hadiza, integrante de uma coalizão de organizações da sociedade civil que trabalha pelo acesso universal à educação. A campanha sofreu um revés em novembro de 2012, quando o projeto de lei que buscava manter as meninas nas escolas enfrentou a forte oposição de clérigos muçulmanos e associações de mulheres da mesma fé. Estes grupos pressionaram os legisladores para não aprovarem a lei e a devolverem para avaliação. O motivo foi o Artigo 14, pelo qual toda pessoa presente ao casamento de uma menina em idade escolar sem aprovação de um juiz seria passível de sofrer condenação entre seis meses e dois anos de prisão, além de multa entre US$ 1 mil e US$ 2 mil, ou as duas punições. De acordo com as associações muçulmanas, isto não é aceitável em um país como Níger, onde cerca de 99% da população é islâmica. “O Islã dá aos pais todos os direitos e a autoridade sobre seus filhos. Um pai não precisa de autorização do juiz para entregar sua filha em casamento”, argumentou Malam Abdou Garba, um pregador de Niamey. “É necessário modificar o projeto de lei para tirar tudo o que não esteja de acordo com o Islã. Estes artigos podem levar as jovens a se insubordinarem e desobedecerem os pais, e isso pode fazer com que muitos deles se neguem a matricular suas filhas nas escolas”, pontuou à IPS Mamane Sani, da Associação Nigeriana pela Defesa dos Direitos Humanos. Porém, Hadiza Saley, da campanha Podemos, um movimento de associações femininas em Níger que combate a violência e a discriminação contra as mulheres, pediu uma legislação de maior alcance. É necessário “incluir todas as meninas”, opinou. Envolverde/IPS


por Souleymane Maâzou, da IPS
Espanha Inter Press Service - Colunistas

Desmandos, nazismo e democracia

Madri, Espanha, maio/2013 – O desmando domina de forma crescente as atitudes e opiniões políticas na Espanha e, com frequência, como se fosse um gene nacional, aparece nos comportamentos sociais. Existem na Espanha motivos de sobra para a indignação e inclusive para a raiva, como é o caso dos investidores fraudados ou os despejados de suas moradias. Mas é necessário fazer um esforço para identificar as linhas vermelhas do protesto e da repressão, além das quais se adivinha a escalada irracional da violência. O debate sobre a legitimidade democrática ou não de certas formas de violência, que poderíamos chamar de suaves e sem derramamento de sangue, surgiu com força em razão dos escrachos. Trata-se de uma prática injusta e também perigosa, como alertou o ex-primeiro-ministro Felipe González. Por isso assistimos a uma escalada entre os que pretendem demonstrar a legitimidade democrática dos assédios a políticos do governante Partido Popular (PP) e os que buscam desqualificá-los com argumentos preocupantemente antidemocráticos. Concordo com os que alertam que o singular dos desmandos é que, ao acontecer diante das casas (e das famílias) de representantes de um partido concreto, exercem uma pressão injusta e de forte poder intimidatório. Que os filhos dos apontados tenham de ouvir os gritos que qualificam seus pais de assassinos ou criminosos não pode ser uma ação política amparada pela liberdade de expressão. Aqueles que justificam os escrachos alegam que são os políticos, ao não resolverem o problema social dos despejos, que não deixam outra alternativa para que se façam ouvir. Afirmam que escrachar é a reação raivosa de um setor diante da incapacidade mostrada pelos representantes do povo para legislar conforme a vontade dos cidadãos. Exposto o problema e a necessidade de resolvê-lo, o que faz o governo? Ignora o parecer majoritário das pesquisas e a rejeição de muitos juízes e magistrados, e converte em papel molhado quase um milhão e meio de assinaturas da Iniciativa Legal Popular (ILP) pedindo que seja aceita a dação em pagamento retroativo das moradias, a paralisação dos despejos e a aprovação do aluguel social. É certo o sentimento de impotência e desespero dos que são forçados a abandonar suas casas (115 por dia). Certa também é a parte de responsabilidade que nessas situações corresponde aos bancos que concederam hipotecas com cláusulas abusivas e avaliações infladas. A dação em pagamento deveria ser consubstancial à natureza jurídica do contrato hipotecário, pois é o próprio bem hipotecado a garantia do crédito. Se o banco, por meio de uma avaliação própria ou afim, deu ao imóvel um valor superior ao real, é seu erro (ou engano) e seu problema. E se envolve como garantia outros bens e patrimônios, então está desvirtuando a natureza do contrato hipotecário, a meu ver de uma maneira injusta e para obter mais lucro. Teríamos todos economizado o fator bolha imobiliária desta pavorosa crise se a dação em pagamento fosse preceptiva e obrigatória. Teria impedido os desmandos de construtores e bancos. Não menos certa, além de explicável, é a impotência ao ver como uma ação tão cívica e democrática como a ILP, assinada por 1.402.854 cidadãos, é menosprezada e ignorada pelo grupo parlamentar que tem a maioria absoluta. A insensibilidade dos partidos, antes dos socialistas e agora do PP e de seu governo, é óbvio que está na gênese do problema, como apontou recentemente a sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia ao considerar que o regime hipotecário espanhol é abusivo e injusto. Tudo isso faz prever a continuidade do conflito na rua e na sede do parlamento. Reconhecido e aceito tudo isso, que explica o apoio amplamente majoritário da sociedade espanhola ao que considera justa causa dos despejados, o escracho continua sendo exagero ilegítimo que não tem nem pode pretender o amparo da lei. Porém, neste assunto há algo preocupante: a reação do partido do governo ao qualificar os atos de escracho como “nazis”. E os excessos sempre são mais censuráveis quando protagonizados a partir do poder. No dia 13, María Dolores de Cospedal, presidente da comunidade autônoma de Castilla-La Mancha, rotulou os escrachos de “nazismo puro”. Também de modo imprudente afirmou que essa prática “recorda a Espanha dos anos 1930”. Outros dirigentes populares se somaram à (des)qualificação. Esperanza Aguirre, presidente da comunidade autônoma de Madri, afirmou que aqueles contrários ao despejo são “energúmenos... seguidores das juventudes hitlerianas ou das patrulhas castristas em Cuba”. Outros os chamaram de “imitadores da bandidagem dos seguidores da ETA no País Basco”. Como apontaram alguns comentaristas, a reiterada utilização do termo “nazismo”, por parte de membros do PP contra os ativistas da Plataforma dos Afetados pela Hipoteca, é perigosa porque banaliza o que realmente significa o nazismo. Equipará-los com os nazistas e os colaboradores da ETA não é apenas um excesso inaceitável, mas também um insulto às vítimas do nazismo e da ETA. E aos 59% dos espanhóis que, por aceitarem os escrachos, teriam de ser considerados nazistas ou “etarras”. Que não seja equiparável à ETA e aos nazistas não converte em democrática esta forma de ação. Contudo, como se pode colocar no mesmo nível o que constitui uma infração administrativa, ou talvez uma falta de coação, e o extermínio de 11 milhões de pessoas? Um partido democrático, e mais, no exercício do poder, não pode recorrer a tal desqualificação dos que discordam dele, sem provocar um arrepio. Envolverde/IPS * Guillermo Medina é jornalista e ex-parlamentar espanhol.


por Guillermo Medina*
Um alegre desfile encerrou em Ciego de Ávila a VI Jornada Cubana Contra a Homofobia. Foto: Jorge Luis Baños /IPS Inter Press Service - Reportagens

Pequenos passos em favor dos direitos sexuais em Cuba

[caption id="attachment_87554" align="aligncenter" width="500" caption="Um alegre desfile encerrou em Ciego de Ávila a VI Jornada Cubana Contra a Homofobia. Foto: Jorge Luis Baños /IPS"][/caption]   Ciego de Ávila, Cuba, 21/5/2013 – Os grupos de lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexuais (LGBTI) de Cuba obtêm avanços em temas como a mudança de nome de pessoas transgênero não operadas e mantêm sua luta pelo direito à união legal. Pela primeira vez, desde 1997, uma transexual feminina que não se submeteu à cirurgia de adequação genital obteve este ano um documento de identificação com o nome de sua escolha e uma foto refletindo sua identidade de gênero, contou à IPS o advogado Manuel Vázquez, do estatal Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex). “Vamos continuar apoiando mudanças de nome e pretendemos que este tipo de trâmite seja comum”, acrescentou o responsável pela área jurídica do Cenesex, um serviço de assessoria legal que identifica a família e o local de trabalho como os espaços onde mais são violados os direitos das pessoas que não são heterossexuais. Até agora, mulheres e homens transexuais tinham que se apresentar nos Escritórios da Carteira de Identidade, vinculados à polícia, fotografias onde sua imagem correspondesse com a aparência tradicional que se espera do sexo marcado em seus documentos. Assim, um transgênero feminino deveria aparecer como um homem na foto. Somente em 1997 o Cenesex conseguiu implementar alguns acordos entre os ministérios do Interior e da Justiça para trocar os nomes e as fotos da carteira de identidade de 13 pessoas trans não operadas, sem que fossem modificados outros documentos do Registro Civil, como a data de nascimento. Por sua vez, as pessoas beneficiadas por uma cirurgia de adequação genital, realizada gratuita e sistematicamente no país desde 2008, podem modificar suas carteiras de identidade por via judicial. Em Cuba foram feitas 19 cirurgias desse tipo, duas delas em transexuais masculinos, segundo o Cenesex. “Agora, qualquer pessoa trans não operada tem liberdade para iniciar este tipo de processo (mudança de nome) e ganhar graças a este antecedente”, destacou Vázquez. Adela Hernández, a única deputada transgênero da Assembleia Municipal do Poder Popular (instância local do parlamento unicameral cubano), revelou à IPS que já começou os trâmites para modificar sua carteira de identidade, durante ss atividades da VI Jornada Cubana Contra a Homofobia, que acontece ao longo deste mês. Esta enfermeira do município de Caibarién, na província de Villa Clara, teve que se registrar para a candidatura nas eleições realizadas em outubro e novembro de 2012 com o nome de José Agustín Hernández e com uma foto onde aparece muito diferente da mulher que ganhou a maioria dos votos de sua circunscrição. Hernández é uma das convidadas especiais da atual edição de um programa de atividades educacionais, culturais e, também pela primeira vez, esportivas, que anualmente, desde 2008, o Cenesex realiza por ocasião do Dia Internacional Contra a Homofobia e a Transfobia, em 17 de maio. Nesta ocasião as atividades centrais se desenvolveram entre 14 e 17 deste mês na cidade de Ciego de Ávila, 434 quilômetros a leste de Havana. No encerramento, um enorme e festivo desfile cruzou a central rua Libertad, onde se via as bandeiras multicoloridas do movimento LGBTI e a de Cuba. Mariela, uma mãe de 36 anos, se aproximou com seu bebê de nove meses para ver a manifestação. “Não participei da jornada, mas não sou contra”, contou à IPS. “Estas atividades fazem com que a família conheça sobre diversidade sexual, se respeite mais e as crianças e os jovens se desenvolvam melhor”, acrescentou. Entretanto, outras pessoas ainda se opõem à campanha pelo respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero, que durante todo o ano o Cenesex desenvolve, com seu momento culminante em maio, cujo programa este ano está dedicado às famílias. A diretora desse organismo, Mariela Castro Espín, afirmou que “o mais difícil é mudar a mentalidade das pessoas”, em um país ainda muito machista e homofóbico. Na verdade, até a década de 1990, Cuba punia “a ostentação pública da homossexualidade”. Por isso os grupos LGBTI e o Cenesex intensificam desde 2012 seu ativismo em favor do reconhecimento dos direitos sexuais como direitos humanos neste país, que ainda não tem uma lei específica que condene a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. O parlamento continua sem examinar o projeto do novo Código de Família, promovido desde 2008 pela não governamental Federação de Mulheres Cubanas e por outras instituições. Este projeto busca atualizar o Código vigente desde 1975, para que, entre outros aspectos, se reconheça a união legal entre pessoas do mesmo sexo. Na América Latina, apenas Argentina e Uruguai permitem o casamento homossexual, além do Distrito Federal do México, sede da capital do país, e três Estados mexicanos. No Brasil vigora a união civil, com quase os mesmos direitos que o matrimônio, e, no dia 14, o Conselho Nacional de Justiça determinou aos cartórios que realizem o casamento de casais homossexuais. Vázquez considera necessária a aprovação da união legal e apoia a proposta de criar em Cuba uma lei ou decreto-lei de identidade de gênero, defendida por vários juristas e ativistas. Enquanto isso acontece, este advogado de 26 anos traça como estratégia capacitar mais juristas sobre como aproveitar a legislação cubana atual em casos de vulneração de direitos de pessoas LGBTI. “As pessoas também precisam ser corajosas e denunciar esses crime”, acrescentou Vázquez, ao informar sobre a realização, na cidade de Santiago de Cuba, do primeiro painel deste tipo para profissionais da justiça. Além disso, o Cenesex pretende replicar em outros territórios os serviços de assessoria jurídica. “Não existe uma lei sobre os direitos dos homossexuais. Fala-se de forma muito geral”, lamentou Raquel Fernández, da Rede de Lésbicas Atenea, de Ciego de Ávila. A violência intrafamiliar e o pouco acesso a moradia ou emprego devido à homofobia figuram entre as limitações que as lésbicas mais sofrem, enfatizou Raquel à IPS. Envolverde/IPS


por Ivet González, da IPS
Soldado afegão protege o palácio do rei Amanulá Kan (1919-1929), danificado na guerra civil. Foto: Giuliana Sgrena/IPS Inter Press Service - Reportagens

No Afeganistão acredita-se em paz após saída de tropa estrangeira

[caption id="attachment_87551" align="aligncenter" width="500" caption="Soldado afegão protege o palácio do rei Amanulá Kan (1919-1929), danificado na guerra civil. Foto: Giuliana Sgrena/IPS"][/caption]   Cabul, Afeganistão, 21/5/2013 – Os Estados Unidos e seus aliados temem que estoure uma guerra civil no Afeganistão após a saída, em 2014, da força de intervenção. Entretanto, especialistas locais afirmam que a situação atual não é igual à de 1988, quando os soviéticos deixaram o país, nem como em 1992, quando os mujahidines tomaram o poder. O secretário de Defesa da Grã-Bretanha, Philip Hammond, qualificou, em abril, de “incerto” o futuro do Afeganistão, em entrevista à Rádio 4, da rede de rádio e televisão britânica BBC. Hammond se baseava em uma advertência do Comitê de Defesa do Parlamento britânico sobre a possibilidade de estourar uma guerra civil neste país nos próximos anos. Porém, analistas locais não compartilham dessa visão negativa. O coronel da reserva Mohammad Sarwar Niazai afirmou que a situação é diferente da existente no começo dos anos 1990. Na época, a força militar da antiga União Soviética se retirou do Afeganistão deixando o governo comunista de Mohammad Najibulá sem apoio e com sete partidos jihadistas, armados e ajudados pelos Estados Unidos, com possibilidade de assumirem o poder. Desta vez, “ninguém poderá tirar o governo à força”, disse Niazai à IPS, lembrando que os Estados Unidos e seus sócios na Força Internacional de Assistência para a Segurança (Isaf) prometeram apoiar o presidente afegão Hamid Karzai e o seu governo. Em uma reunião realizada no dia 25 de março, em Washington, o comandante-geral da Isaf, na reserva, John Allen, declarou que os Estados Unidos e seus aliados manteriam uma presença no Afeganistão suficiente para apoiar as forças afegãs, após a retirada dos efetivos internacionais no final do próximo ano. Por sua vez, o chefe regional da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão, Shamasullah Ahmadzai, alertou que as forças armadas de seu país, com 336 mil efetivos, apesar de estarem muito motivadas necessitam das armas prometidas pelos aliados ocidentais durante as conversações sobre sua retirada. Interesses estratégicos Enquanto a mídia internacional fala de um conflito “iminente” ou “inevitável”, especialistas locais afirmam que os países ocidentais com interesse em manter uma presença militar no Afeganistão evocam o fantasma da guerra civil para justificar sua contínua presença. “Seu objetivo é instalar o medo no Afeganistão”, afirmou Ghulam Jailani Zwak, diretor do Centro de Assessoramento e Análise, em entrevista à IPS. Zwak acrescentou que as previsões sobre a instalação do caos depois de 2014 são infundadas. “Nos últimos 11 anos, o Afeganistão criou uma sociedade civil operativa e um parlamento forte que provou ser capaz de fazer frente ao Poder Executivo”, ressaltou, se referindo ao fato de, no final de 2012, a assembleia legislativa ter citado 11 ministros ou levado adiante julgamentos políticos. Abdul Ghafoor Lewal, diretor do Centro de Estudos Regionais, considera que a ameaça de uma guerra civil é um complô deliberado do Ocidente para manter uma presença militar, especialmente na base aérea da cidade de Bagram, uma das maiores dos Estados Unidos no Afeganistão, que fica na província de Parwan. As potências ocidentais querem que os afegãos pensem que os soldados estrangeiros são o “melhor para sua segurança”, disse à IPS. O governo deve ser “inteligente, prudente e se proteger das maquinações do Ocidente”, pontuou. O general Rahmatullah Raufi, ex-comandante do corpo do exército da província de Paktia e antigo governador da província de Kandahar, rechaçou as ameaças de guerra e afirmou que a população afegã está mais unida agora do que há 11 anos. Um claro exemplo disto foi a terceira conferência ministerial do Processo de Istambul, realizada em Almaty, a maior cidade do Cazaquistão, no dia 26 de abril. Concebida para promover a cooperação no chamado “coração da Ásia”, principalmente Afeganistão e seus vizinhos, a reunião se concentrou sobre uma diversidade de assuntos sociais, desde educação, passando pela gestão de desastres, até o fortalecimento da economia neste país assediado pela guerra. A independente Rede de Analistas do Afeganistão apontou que a participação do governo afegão deixou claro que considera a iniciativa regional fundamental para garantir o futuro do país depois de 2014. O chanceler afegão, Zalmai Rassul, que encabeçou a delegação nacional, disse que seu país está “decidido a reclamar seu devido lugar” como centro econômico que conecta Ásia meridional, Ásia central, Eurásia e Oriente Médio. Além disso, segundo especialistas como Habibullah Kalakani, ex-comandante jihadista que lutou contra os soviéticos, a sociedade civil do Afeganistão já não se deixa mais “ser levada” pelos interesses estrangeiros. Meios independentes e organizações como a Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão, cuja presidente Sima Samar recebeu o Prêmio Nobel Alternativo no ano passado, são amplamente respeitados e ganharam o reconhecimento internacional por seu esforço na construção de uma cultura de paz. Kalakani também destacou o maior número de jovens com formação e capacitação para ajudar na transição democrática. Segundo o Instituto de Educação Internacional, quatro mil estudantes apresentaram pedido para ingressar na universidade em 2004, 40 mil o fizeram no ano seguinte e 52 mil em 2006. Contudo, em 2012, a quantidade disparou para mais de 120 mil. As mulheres ocupam 25% das vagas nas universidades públicas, número que aumenta a cada ano. Além disso, apareceram 52 centros privados de formação superior. O porta-voz do Ministério da Defesa, Siamal Herawi, concordou que 2014 será um “ano de mudanças” e insistiu em afirmar que há boas razões para acreditar que estas “serão positivas, não negativas”, enfatizou à IPS, acrescentando que desta vez “mãos afegãs” ajudarão a construir o país. Envolverde/IPS * Lal Aqa Shirin escreve para o Killid, um grupo independente de meios de comunicação afegãos associado com a IPS.


por Lal Aqa Sherin*
Vista do santuário de al-Qatrawani, uma parada no caminho sufi na aldeia de Atara, na Cisjordânia. Foto: Jillian Kestler-D’Amours/IPS Inter Press Service - Reportagens

Caminhadas conectam os palestinos com seu passado

[caption id="attachment_87548" align="aligncenter" width="500" caption="Vista do santuário de al-Qatrawani, uma parada no caminho sufi na aldeia de Atara, na Cisjordânia. Foto: Jillian Kestler-D’Amours/IPS"][/caption]   Deir Ghassaneh, Palestina, 21/5/2013 – Entre as árvores emerge uma cúpula de cor terracota, localizada sobre uma antiga casa de pedra, usada há séculos para orações. Ao longe se vê os verdes vales e as colinas do centro da Cisjordânia. Este santuário, conhecido como Al-Khawass, fica a 540 metros de altitude, na aldeia palestina de Deir Ghassaneh. É uma das várias paradas ao longo do caminho sufi, que começa no vale abaixo e faz visitantes e moradores do lugar voltarem aos tempos em que o sufismo, uma forma mística do Islã, estava generalizado na área. “Quero que os estrangeiros conheçam a cultura palestina, nossa cultura. E quero que os palestinos sejam tenazes nisto. Este é o lar de vocês. Orgulhem-se da terra, da pátria”, disse Rafat Jamil, diretor de trajetos e guia da Associação Rozana. Com sede em Birzeit, perto de Ramalá, esta entidade trabalha para restaurar edifícios históricos palestinos, bem como para fortalecer o patrimônio cultural palestino. A organização também criou três rotas sufis no centro e no norte da Cisjordânia. Os participantes destas excursões de um dia veem cerca de cinco santuários ao longo desses caminhos e apreciam a paisagem do lugar. Indicadores pintados com as cores da bandeira palestina (vermelho, verde e branco) e localizados a cada 30/40 metros avisam aos turistas que estão no caminho certo. A Cisjordânia tem aproximadamente 600 santuários sufis, entre eles alguns com 800 anos, segundo Jamil. Muitos foram construídos quando o Sultanato Mameluco e o Império Otomano governavam a antiga Palestina. “Há uma luta em torno da história. Para os israelenses nada é palestino, somente judeu e israelense. A ideia é que as pessoas conversem sobre a história da Palestina e que queiram ver santuários e casas antigas, dos períodos romano e otomano”, explicou Jamil à IPS. “Os israelenses afirmam que toda cultura daqui é deles”, acrescentou, ressaltando que, no entanto, quando os turistas se aproximam “veem algo mais”. O turismo alternativo na Palestina não é um fenômeno novo. Dezenas de organizações lideram rotas na Cisjordânia e em Jerusalém, que incluem viagens “políticas” durante o dia, estadias em casas de famílias palestinas, colheita de azeitona e festivais de arte e patrimônio cultural. Mas a gradual expansão e o desenvolvimento das rotas para caminhadas nos territórios ocupados é algo que os palestinos esperam que atraia tanto turistas quanto apoio internacional. “Queremos trazer turistas para áreas onde nunca estiveram, e gerar um bom impacto econômico na comunidade”, disse Michel Awad, diretor-executivo e cofundador do Centro Siraj, uma operadora de turismo sem fins lucrativos com sede em Beit Sahour, perto de Belém. Se mais pessoas passassem mais tempo nos territórios palestinos, “partiriam com uma compreensão real da causa palestina e se tornariam promotores da justiça em seus países”, acrescentou. O Centro Siraj organiza trajetos a pé ou de bicicleta, bem como excursões políticas para visitantes internacionais por toda a Cisjordânia. Estas incluem a chamada Rota da Natividade, que serpenteia de Nazaré a Belém, e que, acredita-se, segue a viagem feita por José e Maria antes do nascimento de Jesus, ou os caminhos do patriarca Abraão, que incluem 170 quilômetros desde Naplusa até Hebrón. Awad contou à IPS que os operadores turísticos israelenses manejam a maioria dos percursos de peregrinos religiosos – todo um negócio na Terra Santa –, embora estes invadam áreas palestinas. Frequentemente, os turistas visitam locais sagrados em Belém e voltam à noite para hotéis administrados por israelenses em Jerusalém, por exemplo. Desta forma, o turismo baseado na comunidade é uma alternativa a estes itinerários religiosos e fortalece os palestinos. Israel não pode competir, porque estes trajetos implicam muito mais que uma caminhada, detalhou Awad. “Trata-se de conhecer a comunidade e as famílias. É totalmente diferente”, ressaltou. Os conselhos de aldeias e povoados palestinos fornecem insumos e orientação para as caminhadas do Centro Siraj, e com regularidade as famílias recebem participantes para almoços ou pernoite em suas casas. As famílias que preparam essas refeições durante as excursões semanais, por exemplo, recebem 40 shekels (US$ 10) para cada convidado. “Nosso objetivo é criar na Palestina um novo turismo baseado em experiências que permitam aos viajantes viver a hospitalidade palestina e conhecer muitas paisagens. Queremos criar um novo tipo de turismo que esteja em contato com as comunidades locais e que gere benefícios diretos para as áreas rurais”, pontuou Awad. Entre janeiro e junho de 2012, foram realizadas cerca de 3,5 milhões de visitas a locais turísticos nos territórios palestinos ocupados, segundo o Escritório Central Palestino de Estatísticas, a maioria na região de Belém. No entanto, realizar excursões na Palestina vai além de gerar turismo. “Nos encanta a paisagem: as pedras, as árvores, tudo. É um sopro de ar fresco, literalmente”, disse Bassam Al Mohor, fotógrafo e membro do grupo excursionista Shat-ha, com sede em Ramalá. Toda sexta-feira essa entidade organiza passeios por diferentes áreas da Cisjordânia, e ocasionalmente a lugares dentro de Israel, da Jordânia ou de outros países. Os trajetos não são complicados, são gratuitos e geralmente duram desde as primeiras horas da manhã até o começo da tarde. A organização tende a se centrar em palestinos da área, embora os visitantes internacionais sejam bem-vindos, já que busca conectar os palestinos urbanos com os rurais, fortalecendo os vínculos entre o povo e sua pátria. “A paisagem na Cisjordânia está diminuindo, desaparecendo, morrendo lentamente. E isso se deve principalmente à ocupação. Se nos aproximamos das colônias israelenses corremos o risco de sermos atacados. É realmente triste ver que caminhos, pelos quais fazíamos lindas caminhadas, repentinamente ficaram fora de nossos limites”, disse Mohor. “Porém, quando se caminha e se vê antigas casas de pedra ou varandas ou povoados antigos, a primeira coisa que chama a atenção é esse patrimônio. Não sabíamos que a natureza pode ser assim. É possível se perder nisto”, acrescentou Mohor. Envolverde/IPS


por Jillian Kestler-D’Amours, da IPS
Guardas tubu de segurança vigiam um campo de petróleo no sul da Líbia. Foto: Rebecca Murray/IPS Inter Press Service - Reportagens

Precária paz no estratégico sul da Líbia

[caption id="attachment_87544" align="aligncenter" width="500" caption="Guardas tubu de segurança vigiam um campo de petróleo no sul da Líbia. Foto: Rebecca Murray/IPS"][/caption]   Ubari, Líbia, 21/5/2013 – Kaltum Saleh, de 18 anos e pertencente à etnia tubu, contou que durante décadas o regime de Muammar Gadafi (1969-2011) discriminou seu povo que vive no indômito sul da Líbia. Saleh está feliz por terminar o curso secundário, no povoado de Ubari, no Deserto do Saara, perto da fronteira com a Argélia. A discriminação estava institucionalizada, pois este povo não estava registrado segundo a lei de cidadania de 1954. A campanha de “arabização” lançada por Gadafi para eliminar as culturas e línguas indígenas também trouxe consigo a discriminação dos tubus, muitos dos quais ficaram sem documentos de identidade. Com isto foram privados de assistência médica, educação e trabalho, além de muitas vezes serem obrigados a aceitar empregos com salário baixo ou se dedicar ao contrabando. Com a revolta de 2011 contra o regime de Gadafi, os tubu não demoraram para se unir e ajudar a derrubá-lo, na esperança de concretizar seu sonho: gozar de plenos direitos como cidadãos. Mais de dois anos depois, Saleh conta com orgulho que seu pai, que foi um guarda de segurança, agora dirige um hospital. Ela mesma espera se tornar advogada especializada em direitos humanos e defender seu povo. “A revolução foi boa para nossa autoestima. Agora me sinto uma cidadã da Líbia”, afirmou, otimista. Mas a revolução não chegou com todos os benefícios esperados pelos tubus. Carecem de suficiente representação no governo, estão em conflito com tribos árabes vizinhas, em parte pelos recursos em um contexto de poder difuso, e ainda há líbios que os consideram “estrangeiros”. Em sua luta pela igualdade de direitos, os tubus da Líbia se posicionam como guardiões naturais e valiosos da vasta fronteira do sul do país. Os tubus vivem em Ubari, Sebha e Murzuq, no sudoeste, e pelo Saara, quase mil quilômetros até o oásis de Kufra, em direção leste. O deserto, sem nenhum caminho, tem água subterrânea abundante – que é desviada para atender 90% da população da Líbia que vive na zona costeira –, bem como petróleo e minerais preciosos. A região também é abrigo para o contrabando. Saem armas, gasolina subsidiada e alimentos e entram migrantes e drogas. No começo da revolta de 2011, Gadafi prometeu documentos em ordem para os tubus e os tuaregues líbios, bem como mais direitos, em troca de seu apoio. Os tuaregues apostaram no regime vigente e ficaram do lado perdedor, enquanto os tubus tomaram as armas de Gadafi e, graças à sua experiência no deserto, se puseram contra ele. “Nossos antepassados vieram para cá há centenas de anos. Quando pegamos a areia, mesmo à noite à luz da Lua, sabemos onde estamos”, explicou Ibrahim Abu Baker, um arqueólogo tubu de Ubari. Os tubus foram proclamados, por seu papel revolucionário, guardiões dos poços de petróleo e da fronteira sul do Líbano. Contudo, com dois representantes entre os 200 membros do atual Congresso Geral Nacional, sua luta pela igualdade de direitos apenas começa. Em 2012, houve fortes enfrentamentos entre grupos tubus e árabes nas cidades de Sebha e Kufra, pelo poder e controle dos recursos, além das rotas de contrabando. Os combates deixaram centenas de feridos e mortos, infraestrutura destruída e maior animosidade entre as etnias vizinhas. Um muro enorme e uma faixa larga rodeiam Kufra, construída e controlada pela etnia árabe zwei, que divide a cidade com a minoria tubu, vigora um tenso cessar-fogo que não se pode chamar de paz. Em Sebah a situação é um pouco melhor. Os anciãos forjaram em abril um acordo de reconciliação entre os tubus e a tribo árabe awlad suleiman. “Os tubus querem encerrar o capítulo para obter cidadania, saúde e educação”, contou Mohammad Sidi, um dos responsáveis pelas negociações. Ubari, cerca de cem quilômetros a oeste de Sebha, é o último de uma série de oásis férteis rodeados por dunas antes da fronteira com a Argélia. Dominado pelos seminômades tuaregues líbios, esta área desolada floresceu como destino turístico até a revolução de 2011. Esta cidade é conhecida como parada das supostas rotas de contrabando para o sul, com destino a Mali, bem como por seus lucrativos campos de petróleo. Foi em Ubari que Saif al-Islã Gadafi, filho de Muammar, foi detido quando tentava fugir do país após a queda de Trípoli, a capital líbia. Os tubus, junto com milícias árabes e tuaregues, mantêm uma preocupante presença no lugar, legitimada e paga no contexto das brigadas da Força Escudo da Líbia, do Ministério da Defesa, e pelas companhias de segurança petroleiras. No momento são a guarda fronteiriça. Enquanto os tubus patrulham livremente a fronteira sul, de Níger ao Egito, os tuaregues controlam o extremo sudeste e a fronteira com a Argélia para o norte, até a cidade de Gadamés. O conflito em Mali, o ataque terrorista contra o campo de petróleo de Amenas, no sudeste da Argélia, o atentado contra a embaixada da França em Trípoli, e boatos de islâmicos traficando armas e combatentes para o sul aumentaram as tensões na comunidade líbia. “Os líbios estavam muito preocupados quando começou a intervenção francesa no Mali”, disse à IPS um diplomata de um país ocidental que pediu para não ter o nome revelado. “Sua principal preocupação era que os islâmicos, varridos pelos aviões franceses, se refugiassem no espaço sem governo do sul da Líbia. Se preocupavam pelo movimento de grupos extremistas na região”, acrescentou a fonte. Preocupados por esta situação, a União Europeia, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha começaram a oferecer “assessoria” na consolidação da guarda fronteiriça. “Uma solução de longo prazo para a segurança na fronteira provavelmente incluirá os tubus e os tuaregues, pois conhecem a região e vivem nela”, disse o diplomata. O caótico centro de Ubari está cheio de imigrantes, a maioria de Mali e Níger, que se reúnem à beira dos caminhos com a esperança de encontrar trabalho. Por sua vez, os tuaregues e os tubus, totalmente cobertos com sua roupa típica que os protege do pó, fazem soar as buzinas de suas caminhonetes Toyota. Envolverde/IPS


por Rebecca Murray, da IPS
Foto: Reprodução/ http://www.klimanaturali.org/ Inter Press Service - Reportagens

Inundações conspiram contra agricultura em Trinidad e Tobago

[caption id="attachment_87389" align="aligncenter" width="540" caption="Foto: Reprodução/ http://www.klimanaturali.org/"][/caption]   Porto Espanha, Trinidad e Tobago, 20/5/2013 – A temporada de chuvas na região do Caribe começa oficialmente em junho, simultaneamente com a de furacões. Contudo, nos últimos tempos, fortes precipitações marcaram um início precoce, transbordando rios, inundando ruas e arruinando plantações. “Com o aquecimento global pode-se esperar qualquer coisa nestes dias”, disse à IPS o presidente da Associação de Agricultores de Trinidad e Tobago, Shiraz Jan. Segundo Jan, a situação se complicou ainda mais pelo fato de durante a temporada seca muitas pessoas destruírem cursos hídricos, prejudicando terras que os produtores usavam para plantar. “Isto é basicamente o que ocorre em todo o país”, afirmou, alertando os consumidores para que se preparem para um aumento no preço dos alimentos, já que os agricultores veem, indefesos, como as inundações destroem suas plantações. Dhano Soojo, presidente da Sociedade Agrícola de Trinidad e Tobago, contou à IPS que “os canais de água não recebem manutenção”. Ele exige a criação de um grupo interagências que inclua o governo para elaborar soluções para o problema. O governo, que no passado teve de compensar os agricultores com milhões de dólares por cultivos perdidos em inundações, afirmou que realizará uma avaliação da situação e que “a oportuna apresentação das reclamações garantirá um rápido desembolso” do dinheiro destinado ao alívio do problema. Devant Maharaj, ministro de Produção Alimentar, declarou que, tão logo sejam feitas as reclamações junto às autoridades competentes, será elaborado um esquema de pagamentos, embora Jan tenha observado que, em algumas áreas, as perdas dos agricultores chegaram a 100%. Porém, os funcionários encarregados de enfrentar desastres culpam pelas inundações o fato de construtores desmatarem as ladeiras dos morros, e o desmatamento e queimadas que os agricultores praticam para limpar a terra antes de cultivá-la. Os morros têm um ciclo natural pelo qual se reabastecem durante a temporada seca, disse Stephen Ramroop, diretor de Manejo e Preparação para Desastres, em um discurso que fez durante reunião do Grupo Intergovernamental de Coordenação para o Sistema de Alerta de Tsunamis e Outros Riscos Costeiros para o Caribe, realizada este mês em Porto Espanha. Por causa deste ciclo natural, não se pode frear todos os incêndios, explicou, acrescentando que não se deve permitir que os moradores construam suas casas ilegalmente e de modo a ficarem em perigo. Ramroop também citou na reunião um reconhecimento aéreo feito sobre as ladeiras dos morros do país. “O que vimos foi que muita água estava caindo sobre as estradas porque as pessoas colocavam pedras e areia nas drenagens, obstruindo cursos hídricos e causando inundações”, afirmou, lembrando que nos últimos meses as autoridades limparam vários desses canais apenas para que a situação não se repetisse. “Não podemos continuar limpando drenagens bloqueadas pelas pessoas”, ressaltou. O governo de coalizão da Associação Popular disse que adotará uma posição dura contra quem constrói estruturas e não cumpre os vários códigos existentes a respeito. Esses “maus construtores” não terão opção a não ser aderir aos padrões quando se desenvolver e implantar a Estratégia Espacial Nacional, afirmou Bhoendradatt Tewarie, ministro de Planejamento e Desenvolvimento Sustentável.“Quando assumi o cargo não quis nenhum tipo de implementação severa porque a situação não estava clara e as regras tampouco, e era tudo muito arbitrário”, afirmou. Agora, uma vez colocadas em prática as estratégias nacional e regional, “seremos muito rígidos em relação às novas construções e aos padrões que seguirão. Não estou brincando”, enfatizou Tewarie à IPS. Segundo o ministro, já há 12 novos funcionários dedicados a fazer cumprir as regras e outros fazem cursos para “alinhar” a aplicação das normas com “a nova estratégia de desenvolvimento espacial e as novas estratégias regional e comunitária de construção”, e que, se os empreiteiros se comportarem “como cidadãos que não se importam com nada”, serão tomadas medidas drásticas. O governo busca introduzir um projeto de planejamento e desenvolvimento que se centre nas grandes construções, como os projetos assumidos pelo Estado ou por construtores privados. Se for aprovado, também estenderá aprovações a organismos governamentais locais para projetos de moradia nas comunidades. Entretanto, mesmo enquanto as autoridades lidam com as causas das inundações, uma empresa local de comércio e distribuição declarou que pode fornecer a tecnologia para os agricultores produzirem mais alimentos de melhor qualidade ao longo do ano. A companhia afirmou ter unido esforços com a norte-americana Atlas Manufacturing para instalar estufas baratas a pedido dos agricultores que já utilizaram estas tecnologias. “Os produtores nos contaram os problemas que tinham. Queriam que instalássemos uma estufa adequada ao clima”, disse Fareed Rahaman, diretor-técnico do Departamento Agrícola e Industrial da empresa local M&D. “A estufa trará muitíssimas oportunidades e benefícios para os agricultores”, ressaltou à IPS. Em um exercício de demonstração, Rahaman afirmou que um único agricultor pode produzir 454 quilos de tomates por semana a partir de mil plantas, já que a produção de estufa supera de modo significativo a de exteriores. “Na temporada chuvosa, os preços dos cultivos tendem a subir. Para se manter os preços razoáveis ao longo do ano, é preciso fazer discretamente”, acrescentou, destacando que na temporada chuvosa diminuem os nutrientes do solo e aumenta a erosão, fatores que conspiram contra os agricultores e diminuem a produção geral. Envolverde/IPS


por Peter Richards, da IPS
O tráfico transforma as pessoas em mercadoria. Foto: Anistia Internacional Inter Press Service - Reportagens

Brasil na contramão do combate ao tráfico de pessoas

[caption id="attachment_87385" align="aligncenter" width="500" caption="O tráfico transforma as pessoas em mercadoria. Foto: Anistia Internacional"][/caption]   Rio de Janeiro, Brasil, 20/5/2013 – O Brasil contradiz a legislação internacional no combate ao tráfico de pessoas, porque a mantém invisível e impune. Isto incentiva este crime praticado com fins sexuais, trabalho forçado, adoção ilegal e transplante de órgãos, afirmam especialistas. As leis no país punem mais severamente o narcotráfico do que os casos em que o tráfico de gente é considerado crime. A venda de drogas, por exemplo, tem penas de prisão entre cinco e 15 anos, em regime fechado, enquanto o tráfico para fins de exploração sexual é punido com um máximo de oito anos em regime semiaberto. “O tráfico de pessoas ainda é um crime invisível. O que ocorre atualmente é uma autêntica impunidade”, disse à IPS o juiz Rinaldo Aparecido Barros, membro do Grupo de Trabalho contra o Tráfico do Conselho Nacional de Justiça. O Brasil registra, em média, por ano, mil casos de pessoas captadas para serem enviadas ao exterior, segundo o Ministério Público, que promoveu no Rio de Janeiro uma audiência pública, no dia 17, sobre “Tráfico de pessoas: prevenção, repressão, atenção com as vítimas e associações”. Seu objetivo foi reunir e trocar informação sobre o combate a esse crime, articular ações conjuntas para prevenir e reprimir o crime, e se concentrou no aspecto do país como emissor de vítimas de tráfico para o exterior. O Brasil também é receptor do tráfico humano, e, além disso, há brasileiras e brasileiros captados para exploração dentro de suas fronteiras. Os três mil brasileiros e brasileiras levados ao exterior no último triênio foram submetidos em sua maioria a exploração sexual e trabalho escravo. “É um número significativo. Um grande número de pessoas é privado de sua dignidade. Os milhares de casos registrados a cada ano não representam o total, pois não sabemos quantos fugiram ao nosso controle”, disse a subprocuradora-geral brasileira, Raquel Elias Ferreira Dodge. O sub-registro impede, de fato, conhecer o alcance real de vítimas enviadas ao exterior pelas máfias do tráfico humano, segundo os participantes do encontro. “Temos que trabalhar de forma mais eficaz para que estes crimes sejam condenados e sem indevidas dilações. O crime de tráfico humano fere a dignidade humana”, afirmou Dodge, integrante do Conselho Superior do Ministério Público Federal. Dodge acrescentou que “a mão de obra escrava nega a personalidade do indivíduo e converte a vítima em uma mercadoria, que pode ser objeto de contrabando e tráfico”. Entretanto, o que torna mais difícil o combate ao tráfico de pessoas é o fato de no Brasil só existir o crime quando há exploração sexual ou trabalho escravo, disse à IPS o delegado da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Erick Blatt. “Descobrir o crime é muito difícil, somente diante da denúncia se pode iniciar uma investigação, sem que seja certo que o crime será provado”, pontuou Blatt, também representante da Interpol (Polícia Internacional) no Estado do Rio de Janeiro. “Em geral, as pessoas vão ao lugar de sua exploração voluntariamente, a maioria sem saber que terá seu passaporte retido”, afirmou. A Organização Internacional para as Migrações define o tráfico humano como “a captação, o transporte, o traslado, a acolhida ou a recepção de pessoas, recorrendo à ameaça ou ao uso da força ou outras formas de coação”. Como coações cita “o rapto, a fraude, o engodo, o abuso de poder, ou uma situação de vulnerabilidade ou concessão ou recepção de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra, com fins de exploração”. O código penal brasileiro só contempla, no Artigo 231, o crime de exploração sexual, e no Artigo 149 o de submeter a condição de escravidão. Ambos são punidos com penas leves, muito inferiores a crimes que não comercializam seres humanos e sua dignidade. A Convenção das Nações Unidas Contra o Crime Organizado Transnacional, assinada em 2000 e que o Brasil ratificou em 2003, tipifica especificamente os crimes de tráfico de pessoas e propõe castigos amplos, algo que o país ainda não colocou em suas leis. “Estamos na contramão do direito internacional. No Brasil o tema é tratado de maneira inadequada. É um crime contra a humanidade e atenta contra a dignidade humana”, queixou-se Barros. O juiz afirma que os instrumentos mais adequados para combater o tráfico de pessoas são as medidas que permitem o bloqueio dos ativos de suas máfias, para dessa forma atacar seu lado econômico. O tráfico humano está em mãos de complexas redes de organizações criminais transnacionais que, no Brasil, captam mulheres geralmente pobres, sem perspectiva de ter uma vida melhor, disse à IPS a advogada Michelle Gueraldi, do Projeto Trama, que reúne organizações não governamentais dedicadas ao combate a esse crime. Quando emigram, elas o fazem voluntariamente, em ocasiões movidas pelo desejo de melhorar de vida, e acabam exploradas na Espanha, nos Estados Unidos, em Portugal e países do Caribe, entre outros lugares, explicou. Por sua vez, Blatt acrescentou que o Brasil é receptor de mulheres vítimas do tráfico humano procedentes do leste europeu, especialmente Hungria e Polônia. “Este crime é uma violação dos direitos humanos. Trabalhamos na prevenção e proteção de suas vítimas. Também recebemos denúncias de casos em que notamos que a maioria dos recrutadores é de pessoas conhecidas e de confiança das vítimas”, detalhou Gueraldi. Brasília estabeleceu, em fevereiro, o II Plano de Combate Contra o Tráfico de Pessoas, mas o desafio é levar à prática as políticas estabelecidas, informou a advogada. Por seu lado, Blatt reconheceu que fazer um acompanhamento das vítimas do tráfico humano em sua mobilização internacional é complexo para as policiais locais e a Interpol. “Se no Brasil é lento o sistema de comunicação entre a polícia e os procuradores, imaginem o que é a comunicação das polícias em nível internacional”, pontuou. O tráfico de pessoas é um negócio extremamente lucrativo. Apenas na Europa, gera anualmente cerca de US$ 3,2 bilhões, segundo foi informado no encontro do Rio de Janeiro. O Escritório das Nações Unidas Contra a Droga e o Crime indica que ao menos 2,5 milhões de pessoas são vítimas de tráfico humano no mundo. Uma pesquisa deste organismo mostra que 58% dessas vítimas são objeto de exploração sexual e 36% de trabalho escravo. Envolverde/IPS


por Fabíola Ortiz, da IPS

Página 1 de 20712345...102030...Última »
Para enviar sua dica ou opinião, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Dica/Opinião

agenda

dica de
sustentabilidade

anterior | próxima
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

imagem do dia

|
Para enviar sua imagem, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Arquivo

Observações

 
Imagem do dia

Novo guia sobre aves da Mata Atlântica é lançado no Brasil. O material apresenta 100 espécies de pássaros. Foto: Haroldo Palo Jr

Imagem do dia

Filhote de panda brinca com a mãe em centro de reprodução na China. Instituição de pesquisa de Chengdu tenta salvar espécie da extinção.

Imagem do dia

Falta de lixo em Oslo, Noruega, pode comprometer geração de eletricidade. Pouca produção de resíduos de outros países pode afetar usinas.

Imagem do dia

Derretimento de geleiras não-polares causa 30% da elevação do mar. Dado foi apresentado em estudo na revista ‘Science’.

Imagem do dia

Austrália quer proibir fertilização do oceano com sulfato de ferro. Método reduziria acidificação e combateria efeitos da mudança do clima.

sobras_comida-300x202

Já pensou em vender ou comprar sobras de comida através da internet? Esta é a ideia da plataforma virtual Shareyourmeal, uma forma interativa de combater o desperdício de alimentos. Saiba mais aqui.

Imagem do dia

CET de São Paulo abres inscrições para o curso “Pedalar com Segurança”. Saiba mais.

vazamento

Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.

Imagem do dia

Unesco critica Austrália por riscos ambientais na Grande Barreira de Coral

imagem do dia

Estudo calcula benefícios de árvores urbanas dos Estados Unidos. Parques absorvem carbono emitido e poupam US$ 1,5 bilhão por ano.