Agricultura haitiana sob risco permanente

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Agricultura haitiana sob risco permanente


por Patricia Grogg, da IPS, enviada especial


[caption id="attachment_83652" align="alignleft" width="300" caption="A erosão dos solos no Haiti é evidente por todos os lados. Foto: Patricia Grogg/IPS"][/caption] Porto Príncipe, Haiti, 16/4/2013 – No Haiti, ao contrário de muitos outros países, um aguaceiro comum pode causar inundações devastadoras devido à falta de mecanismos naturais de contenção e absorção das chuvas. Este e outros eventos meteorológicos cada vez mais frequentes impõem desafios à segurança alimentar do país. Estes riscos de origem natural, pelos quais a mudança climática tem grande responsabilidade, figuram entre os desafios maiores no desenvolvimento de uma agricultura sustentável, admitiu Philippe Mathieu, ex-ministro da Agricultura e atual assessor do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU). O especialista considera necessário se antecipar e ajudar os camponeses a disporem de variedades mais resistentes e sistemas de produção resistentes à mudança climática, bem como para enfrentar problemas como secas e tempestades tropicais. “Também devemos trabalhar com a comunidade, capacitá-la para prevenir os problemas”, disse à IPS. Wilson Sanon, educador popular e funcionário da Plataforma Haitiana para a Defesa de um Desenvolvimento Alternativo, coincidiu com Mathieu neste ponto. “Para se adaptar à uma mudança climática, que pode agravar os problemas do setor agrícola, é necessário formar os produtores em boas práticas agroecológicas e realizar intercâmbios de experiências em níveis local, regional e internacional”, indicou à IPS. Entretanto, Sanon também considera que seu país exige formação de técnicos, reforma agrária, acesso a créditos em condições favoráveis e capacitação para os camponeses, centros de conservação e transporte de grãos e de outros produtos, mercado seguro e aumento de 30% a 35% nas tarifas aduaneiras para proteger a produção nacional da invasão de importados a preço baixo. “É preciso fortalecer as capacidades dos camponeses. É uma mescla: nas grandes áreas fiscais pode-se fazer agricultura intensiva, enquanto se incentiva os produtores de pequena escala a serem mais eficientes, combinando cultivos para consumo próprio e para vender ou exportar”, segundo Mathieu. Um informe da Oxfam América indica que o setor agrícola do Haiti retrocedeu 4% entre 2000 e 2010 devido à erosão do solo, aos investimentos insuficientes em matéria de irrigação e de insumos agrícolas, e pelo impacto crescente das mudanças climáticas. O corte indiscriminado de árvores realizado nos últimos 50 anos é causador direto da degradação de aproximadamente dois terços das terras cultiváveis. Não há floresta nem raízes nas montanhas, e quando chove a terra desliza. O governo espera elevar de 2% para 5% a massa florestal nos próximos três anos. Para enfrentar o desafio de desenvolver o setor agrícola em condições tão adversas, Mathieu considerou que o “mais importante” é levar adiante programas que incluam a preocupação ambiental, incluída a reconstrução dos solos e a atenção com a produtividade. “Não se produz o suficiente para o consumo do país”, alertou Mathieu. Segundo seus dados, 55% dos alimentos consumidos pela população local são importados, uma direta consequência da política de abertura de fronteiras e liberalização do mercado aplicada desde 1983 pelo então ditador Jean-Claude Duvalier (1971-1986). Vigente até hoje, essa política neoliberal se traduziu em uma queda na produção nacional e na renda da agricultura, segundo várias fontes ouvidas pela IPS. Para elevar a produção, Mathieu recomendou cultivos favoráveis para a época de menor perigo de tempestades e furacões, de junho a novembro, e a introdução de variantes de sementes e tecnologias nas pequenas propriedades que ajudem a mitigar os riscos, como irrigação por gotejamento e cultivo no inverno, entre outras. Em sua opinião, os maiores esforços devem se focar em produzir mais em todas as cadeias, começar com aquelas em que se aprecia um “certo nível de competitividade”, como, por exemplo, com tubérculos como mandioca e batata-doce, e depois integrar a produção em um sistema que ajude a proteger o meio ambiente, “principalmente” os sistemas agroflorestais. “Pelo meu ponto de vista, o primeiro a se fazer é aumentar o rendimento e, ao mesmo tempo, desenvolver uma agricultura que proteja o entorno. Assegurado isso, um desafio maior aponta para dar valor agregado aos produtos, cujo benefício deve chegar aos camponeses”, apontou Mathieu, resumidamente. O especialista diz que estão em marcha alguns esforços nesse sentido, com experiências que caminham bem, mas alerta que é preciso integrá-las em uma política estatal clara, que não existe. “O Ministério da Agricultura tem documentos sobre política agrícola, embora no terreno não haja nada concreto”, destacou. Mathieu também observou que é necessário aumentar na população a percepção do perigo que significa a mudança climática para um país extremamente vulnerável a eventos meteorológicos extremos e elevados níveis de pobreza. “As pessoas estão mal preparadas para enfrentar desastres que podem ser maiores no futuro”, alertou. Nesse sentido, considerou que a educação ambiental deve estar focada para a mudança climática e os desafios que impõe. “Quando as pessoas devem enfrentar tantos desafios para sobreviverem diariamente, é difícil falar-lhes de desafios que terão que enfrentar dentro de 50 anos, como o aumento do nível do mar. Alertar e se antecipar ao que virá cabe, então, à parte organizada da sociedade e também ao Estado”, ressaltou Mathieu. Envolverde/IPS

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Filhos de soldados herdam profissão forçada na RDC

Goma, República Democrática do Congo, 16/4/2013 – Os filhos de oficiais da polícia e do exército mortos na província congolense de Kivu do Norte são obrigados a seguir a profissão de seus pais para contribuir com o sustento familiar. Os jovens seguem o mesmo caminho de seus falecidos pais para não perderem o benefício, especialmente os serviços médicos e o alojamento nos barracões do exército. “Meu pai era policial quando morreu, e queriam nos expulsar da casa do acampamento, mas não tínhamos para onde ir. Tivemos que buscar uma forma de manter a família unida e decidi ser policiai para ajudar no sustento da casa”, contou Pistchen Kalala, que entrou na força aos 20 anos. “Do contrário, teríamos ficado sem casa e sem assistência médica”, acrescentou. O salário dos soldados congoleses, de aproximadamente US$ 80 mensais, é muito baixo, e pouquíssimos podem custear uma casa ainda que seja pequena. Após a morte de seu pai e posterior casamento de sua mãe com outro soldado, Dibwa Ntambwe, de 24 anos, uniu-se ao exército para que seus irmãos e suas irmãs continuassem gozando dos mesmos benefícios. Cerca de três quartos dos soldados congoleses são filhos de ex-oficiais, segundo Agustin Lukubashi, presidente da Associação para o Desenvolvimento Integrado de Filhos do Exército e da Polícia. O próprio Lukubashi é filho de um soldado falecido. Os dados que ele maneja se baseiam em informação dos departamentos de comunicação da polícia e do exército em Goma, capital da província de Kivu do Norte. “No geral, quando morre um militar, seus filhos recebem seu salário mensal, o que os incentiva a seguir a mesma profissão”, explicou Lukubashi à IPS. Havia uma política de que os filhos de soldados mortos continuassem recebendo o salário de seu pai até dois anos depois do falecimento. “Ter uma família militar significa levar uma vida militar em condições difíceis. Os filhos de oficiais do exército estão bem preparados para a vida” dentro da instituição, acrescentou. Às vezes, são as próprias viúvas que incentivam os filhos a entrarem para o exército ou a polícia aos 18 anos, para protegerem suas famílias. “Quando meu marido morreu, queriam nos tirar a casa onde vivíamos, porque, quando morre um soldado, costuma-se esquecer de sua família”, disse Sifa Nyota. “Para continuar com os benefícios decidimos que meu filho mais velho tomaria o lugar do pai”, contou à IPS. Organizações de direitos humanos nesta província consideram que isto viola os direitos dessas pessoas, pois muitos dos filhos de oficiais mortos não têm outra opção que não seja seguir os passos de seus pais. Elas afirmam que o Estado deve se encarregar da família do funcionário morto para que os filhos possam estudar e ter suas próprias carreiras. “A situação em que estão muitos jovens é inaceitável. O governo congolense tem que assumi-los e ter a responsabilidade de cobrir suas necessidades básicas e de segurança”, disse à IPS o presidente da Associação de Voluntários do Congo, Duffina Tabu. Flavien Ciza, integrante do grupo de coordenação provincial de organizações da sociedade civil, explicou à IPS que “as condições de vida precárias, a pobreza e o desemprego estão na origem desta situação”. Segundo um estudo sobre a pobreza na República Democrática do Congo (RDC), realizada em 2011, “70% das famílias vivem com menos de um dólar por dia”. “O governo congolense deve pensar na educação dos jovens e oferecer-lhes uma renda mínima para que tenham um futuro seguro”, destacou Ciza. “A situação atual também é prejudicial para o exército”, afirmou Tabu. “Este fenômeno enfraquece a força, pois envia homens sem experiência nem treinamento para o campo de batalha. Os jovens ficam por desespero ou por vingança, mais do que por convicção pessoal”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Passy Mubalama, da IPS
Aos jovens palestinos da Cidade Velha de Jerusalém é ensinada uma versão dos fatos históricos diferente da ensinada aos israelenses. Foto: Pierre Klochendler/IPS Inter Press Service - Reportagens

Livros para a guerra e para a paz

[caption id="attachment_83643" align="alignleft" width="300" caption="Aos jovens palestinos da Cidade Velha de Jerusalém é ensinada uma versão dos fatos históricos diferente da ensinada aos israelenses. Foto: Pierre Klochendler/IPS"][/caption] Jerusalém, Israel, 16/4/2013 – No Orfanato Islâmico Dar el-Eitam, uma escola secundária apoiada por um “waqf” (fundo religioso muçulmano) e localizado na amuralhada Cidade Velha de Jerusalém, estudantes palestinos do décimo-segundo grau preparam seu exame de história. Na parede há dois retratos de “mártires” mortos durante a Segunda Intifada (2000-2005). Por outro lado, em Tel Aviv, alunos israelenses do sexto grau da aldeia comunitária de Eshkol, na fronteira com Gaza, percorrem o Hall da Independência, um santuário nacional onde, no dia 14 de maio de 1948, o primeiro-ministro David Ben-Gurión leu a declaração de nascimento do Estado de Israel. “A Organização das Nações Unidas (ONU) votou o Plano de Divisão (da antiga Palestina), mas como os árabes não o aceitaram, não se concretizou e, no dia seguinte, estourou a Guerra da Independência”, diz a guia israelense Lili Ben-Yehuda às crianças. Na escola islâmica de Jerusalém, o professor de história Iyad el-Malki relata aos estudantes: “Os judeus queriam dois Estados, o palestino e o israelense. por acaso não tomaram a Cisjordânia 20 anos depois, em 1967, e se assentaram em nossas terras?”, pergunta de maneira retórica. No dia 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral da ONU votou a favor de acabar com o mandato britânico na Palestina, e pela divisão do território em dois Estados independentes: um judeu e outro árabe. Para os israelenses, a votação habilitou a criação de seu Estado, seis meses depois. Para os palestinos significou a “nakba”, ou “catástrofe”, porque passaram de ser maioria em seu território para uma minoria no que se converteria em Israel. Observando como são dadas as duas aulas – uma para israelenses, outra para palestinos – em um momento elementar de sua história comum, demonstra-se que “os fatos históricos, embora não sejam falsos ou inventados, são apresentados seletivamente para reforçar a narrativa nacional de cada comunidade”, diz um estudo sobre os livros de texto dos dois povos. Intitulada Vítimas de Nossas Próprias Narrativas? Retrato do “Outro” nos Livros Escolares Israelenses e Palestinos, a pesquisa conclui que “as duas partes estão fechadas em suas próprias narrativas nacionais herdadas do conflito”. E “cada parte classifica negativamente a outra”, disse à IPS Sami Adwan, professor-adjunto de educação na Universidade de Belém, e coautor do estudo. “E nenhuma das duas inclui informação sobre cultura, religião e vida cotidiana da outra”, acrescentou. Nos acordos de Oslo (1993), as duas partes concordaram em “reconhecer seus direitos legítimos e políticos mútuos” e a negociar uma solução de dois Estados para seu conflito. Mas, quase 20 anos depois, o reconhecimento recíproco não está no mapa, literalmente, e muito menos uma solução de dois Estados. E continuará não constando do mapa enquanto os livros de texto, que “têm um papel crucial na educação das crianças e em forjar sua ideologia como adultos”, segundo Adwan, não reconhecerem a existência do “outro”. Ao analisar mais de três mil textos de 94 livros palestinos e 74 israelenses, em um período de três anos (2009-2012), o estudo identificou mapas nos quais há claras evidências de tentativas de cada parte de apagar as fronteiras e, portanto, as reclamações históricas. “Nos dois lados, as crianças crescem com a representação de que a área que se estende entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo é realmente sua pátria”, disse à IPS Daniel Bar-Tal, professor de pesquisa em desenvolvimento infantil e educação na Universidade de Tel Aviv e coautor do informe. E, enquanto os livros escolares “descrevem de modo consistente a outra comunidade como agindo para destruir ou dominar sua própria comunidade, mostram suas próprias ações como pacíficas e atuando em autodefesa”, afirma o estudo. Os sistemas educacionais dos dois lados são diferentes. O israelense, que existe desde 1948, é heterogêneo, e está integrado por escolas estatais seculares e religiosas, além de escolas ultraortodoxas independentes. Todas usam diferentes livros de texto. Criado no começo da década de 2000, o sistema palestino é mais homogêneo, e todos seus estudantes usam os mesmo livros. Para Adwan, esses textos refletem a realidade que experimentam os dois povos. “Os israelenses veem os palestinos esperando a oportunidade para atacá-los. Ainda sob ocupação, os palestinos veem que estão tirando sua terra”, afirmou. O estudo também comparou os ensinos referentes à glorificação do martírio e do autossacrifício. As crianças palestinas que cursam a sexta série podem ler em um livro de idioma: “Morte antes da submissão, avante!”, o que críticos israelenses consideram uma exaltação de passados atentados suicidas. Por outro lado, os israelenses do segundo grau aprendem a história de Joseph Trumpeldor, um pioneiro do sionismo cujas últimas palavras ao defender um assentamento judeu dos atacantes árabes foram: “É bom morrer pelo nosso país”. Durante o processo que levou aos acordos de Oslo, no qual israelenses e palestinos foram se aproximando cautelosamente, Bar-Tal cuidou de preparar os livros de textos estatais para uma nova era de paz. Para ele, “o propósito das narrativas nacionais é, primeiro, mobilizar as pessoas, prepará-las para lutar pela causa. Mas também podem ser usadas para preparar as pessoas para a paz”. Na década de 1990, Israel começou a aceitar o assunto dos refugiados palestinos. Pela primeira vez, os livros escolares reconheceram que os palestinos não haviam escolhido fugir durante a Guerra da Independência, mas que, em muitos casos, foram obrigados a fazer isso. Em 2007, Yuli Tamir, uma liberal ministra da Educação, introduziu o termo “nakba”, que se refere ao êxodo forçado dos palestinos, nos livros de texto israelenses em idioma árabe, destinados aos alunos israelenses de origem palestina. Dois anos depois, essa palavra foi eliminada. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu justificou a decisão dizendo que o termo era “propaganda contra Israel”. Neste contexto, o ensino parece ter profundas implicações para a construção da paz. Ao que parece, os livros de texto criados por adultos ainda não estão comprometidos com a tarefa de preparar as crianças para uma ética de amizade. Envolverde/IPS


por Pierre Klochendler, da IPS
Néstor Osorio: “Os jovens estão, e sempre estiveram, na origem das maiores inovações”. Ambiente

Inovação para um desenvolvimento sustentável

[caption id="attachment_83471" align="alignleft" width="300" caption="Néstor Osorio: “Os jovens estão, e sempre estiveram, na origem das maiores inovações”."][/caption] Genebra, Suíça, 15/4/2013 – A inovação, como fruto da ciência e da tecnologia, desempenhará um papel primordial nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que se espera entrarão em vigor em 2015, afirmou Néstor Osorio, presidente do Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas (ONU). A Assembleia Geral da ONU receberá em sua próxima sessão, a partir de setembro, o primeiro rascunho dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que está sendo elaborado com contribuições de Estados, cientistas e organizações sociais. Da preparação do projeto participa também um órgão estratégico das Nações Unidas que é o seu Conselho Econômico e Social (Ecosoc), que discutirá a questão em sua avaliação ministerial anual, a ser realizada em julho em Genebra. Os ODS substituirão, se forem aprovados, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), estabelecidos em 2000 em Nova York e com prazo de cumprimento até 2015. Tomando como referência os indicadores de 1990, os governos se comprometeram a reduzir a indigência e a fome, a mortalidade infantil e materna, combater enfermidades como a tuberculose e outras, universalizar o ensino, promover a igualdade de sexos e o empoderamento da mulher, garantir a sustentabilidade do meio ambiente e fomentar uma aliança mundial para o desenvolvimento. Osorio, representante permanente da Colômbia nas Nações Unidas, explicou alguns aspectos em exame na entrevista concedida à IPS durante uma visita a Genebra na semana passada. IPS: O senhor entende que a inovação deve ser um dos objetivos para este milênio? NÉSTOR OSORIO: Creio que é parte transversal de muitos dos objetivos que entrarão em um período complementar a partir de 2015. Estamos falando dos ODS, isto é, como fazer algo além dos ODM e integrar países industrializados e em desenvolvimento no cumprimento permanente e irreversível de metas fundamentais para a sustentabilidade integral. IPS: Em outras palavras... NO: Estamos falando de conservação de águas, de cidades mais visíveis, da segurança alimentar, da infraestrutura e do controle da emissão de gases contaminantes. É preciso descarbonizar o planeta. E tudo isto faz parte da inovação. IPS: Quais seriam os atores desta tarefa? NO: Quem pode participar de uma forma muito eficiente, como temos visto, é a juventude. Os jovens estão e sempre estiveram na origem das maiores inovações. Microsoft, Facebook e outras, foram criadas, inovadas, por rapazes de 20 a 25 anos. Então aqui há um vínculo muito importante: como a inovação e a conexão e preparação de trabalhos do futuro seguem juntas. E se estamos falando de igualdade de gênero, estamos falando do mesmo, ou seja, é um tema transversal em geral. IPS: Como os países em desenvolvimento poderiam fomentar a inovação? NO: Creio que com um compromisso fundamental dos governos, que se traduza em destinações orçamentárias. Também é fundamental a associação entre governo e setor privado em todo este processo. Vou citar um exemplo do que fizemos na Colômbia: a política do presidente Juan Manuel Santos era a de destinar – foi aprovada uma lei nesse sentido – uma porção do lucro do petróleo e da mineração ao Instituto de Ciências e Tecnologia. IPS: E com relação ao setor privado? NO: A empresa vai descobrindo quais as suas necessidades e como tem que se adaptar às exigências da sustentabilidade. Não pode haver investimento em projetos que utilizem grande quantidade de água, porque é um desperdício. As companhias precisam se adaptar às exigências que o mundo vai apresentando. IPS: E quanto ao Estado? NO: O setor público deve ter consciência da importância que a ciência, a tecnologia, a cultura e o que vem atrás em termos de inovação pode significar para todo o desenvolvimento da sociedade. Para melhorar sua infraestrutura, suas cidades, seu transporte, para fazer com que o homem e a mulher tenham maior bem-estar. Por isso é muito importante que se traduza em instrumentos jurídicos, em destinações orçamentárias e em planos de governo. IPS: O que se pode esperar das sessões do Ecosoc em julho próximo? NO: O debate no Segmento de Alto Nível, como se denomina, será a culminação da reunião ministerial. Assim, ciência, tecnologia e cultura são os temas do ano para o Ecosoc. Além disso, se tratará da questão financeira. A situação econômica do mundo industrializado é muito séria porque tem consequências, o que chamo de “dano colateral”, pois ao diminuir a renda e as condições econômicas desses países há menos dinheiro para o financiamento do desenvolvimento e menor propensão à transferência de tecnologia. Espero que das sessões de julho saiam algumas recomendações políticas muito concretas. IPS: Qual é o clima que antecede o encontro? NO: Acabo de passar duas semanas na Tanzânia com todos os ministros africanos e vejo com surpresa que há uma consciência e um interesse real em dar à ciência e à tecnologia um lugar predominante nas prioridades dos governos. IPS: Tem um panorama da inovação nos países em desenvolvimento? NO: No setor agrícola se fez grandes avanços para aumentar a produtividade e lutar contra pestes e pragas. Isto já é comum no café, cacau e nos cereais. A pesquisa na Índia para aumentar a produtividade de grãos e garantir a segurança alimentar tem sido extraordinária. No Brasil, as novas tecnologias de cultivo de café, com plantações de cem hectares com irrigação e fertilização permanente, multiplicaram por 30 ou 40 vezes a produtividade. IPS: E quanto a inovações com efeitos ambientais? NO: Também, sobretudo em diferentes áreas da agricultura, com melhoramento de condições rurais. Por exemplo, uma inovação concreta é aproveitar uma pequena queda de água para produzir energia. Vi como são idealizadas pequenas turbinas que conseguem utilizar uma queda d’água de apenas um metro para iluminar a casa de um camponês. Não é astronáutica nem a ciência do Cern (a organização europeia de pesquisa nuclear), mas coisas simples. Trata-se de idealizar máquinas que não desperdicem água. Por exemplo, na Colômbia foi desenvolvida uma tiradora de polpa de café que pega o fruto central e o trata com o uso de uma quantidade mínima de água, que depois é reciclada e não contaminante. Envolverde/IPS  


por Gustavo Capdevila, da IPS
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O luxo constrói inundações devastadoras na Argentina

Buenos Aires, Argentina, 15/4/2013 – Os bairros fechados no Delta do Paraná, que cresceram descontroladamente nos últimos anos com o lema de oferecer melhor qualidade de vida, estão obstruindo o ecossistema e o escoamento de águas que amortizam as inundações em uma vasta zona próxima à capital argentina. O problema ganhou maior relevância depois das trágicas inundações ocorridas no começo deste mês na cidade de Buenos Aires e, sobretudo, em La Plata, capital da vizinha província de mesmo nome, onde chuvas torrenciais provocaram a morte de quase 60 pessoas. O boom imobiliário, a falta de infraestrutura de escoamento para conter precipitações, cada vez mais frequentes e intensas, e a ausência de planos de contingência diante do desastre estão no centro do debate na Argentina. O Delta do Paraná é um imenso mangue de 17.500 quilômetros quadrados no trecho final do rio de mesmo nome, que após percorrer quase cinco mil quilômetros desemboca no Rio da Prata através de múltiplos braços. A construção tradicional nas ilhas deste delta são casas altas sobre palafitas com molhes de madeira, rodeadas por juncos, que convivem harmoniosamente em um ecossistema preparado para receber periodicamente grandes excedentes de água. Trata-se de um sistema de alta biodiversidade que também oferece múltiplos serviços. Entre os mais destacados está o fornecimento de água e a capacidade de regular as cheias, que se tornam mais frequentes e intensas devido à mudança climática provocada pelo aquecimento do planeta. Nos últimos tempos, em suas planícies de inundação foram construídas 229 urbanizações de diversos tamanhos, a maioria com casas luxuosas, campos de golfe e tênis, locais de compras, escolas e centros de equitação. Urbanistas explicaram que cerca de 90% destes projetos se estenderam sobre planícies continentais, que deveriam absorver os transbordamentos de rios e riachos, e 10% em ilhas que foram preenchidas artificialmente para sustentar os complexos habitacionais. O diretor da Fundação Humedales (mangues), Daniel Blanco, disse à IPS que “o avanço foi muito agressivo”. Agora a região está em risco de perder sua capacidade natural de absorver água, justamente quando as tempestades são mais intensas. Especialistas dessa organização não governamental afirmam, que, sob o falso argumento de que são terras improdutivas, os projetos imobiliários avançaram com preenchimento, drenagem e desvio de cursos de água, afetando as funções naturais do mangue. “Busca-se converter o lugar em um sistema terrestre”, criticam os autores de Bens e Serviços Ecossistêmicos dos Mangues do Delta do Paraná, uma pesquisa que alerta para o risco de inundação em áreas vizinhas. O trabalho, realizado por Patricia Kandus, Natalia Morandeira e Facundo Schivo, da Fundação para a Conservação e o Uso Sustentável dos Mangues, diz que este tipo de sistema não impede as inundações, mas torna as cheias mais lentas, retém o excedente da correnteza, o filtra e libera aos poucos, graças à sua cobertura vegetal que funciona como uma esponja. As advertências de ambientalistas e moradores sobre estes temas, somadas ao impacto muito severo que estão tendo as chuvas na cidade de Buenos Aires e em sua área metropolitana, conseguiram deter projetos de investimento e avançar na regulamentação de novas construções em ilhas. Um dos projetos paralisados foi Colony Park, que prometia uma “ilha privada de segurança e tranquilidade” em 300 hectares do Delta do Tigre, o trecho final destes mangues, no nordeste da província de Buenos Aires. A ideia era construir mil casas “de luxo”, segundo a promoção. Devido à polêmica gerada pelo projeto e pela demanda judicial por parte de moradores, o município de Tigre, com assistência técnica de organizações ambientalistas, elaborou em 2012 uma normativa mais rígida para autorizar a construção nas ilhas localizadas nesse distrito. Reconhecendo a fragilidade do mangue, a nova regulamentação exige que se construa sobre palafitas, proíbe a alteração da cota natural, que se costumava elevar mediante acúmulo de sedimentos, e o preenchimento artificial das ilhas. Normalmente as ilhas do delta têm um relevo de bacia, com uma depressão no centro que contribui para reter a água excedente. Mas estes buracos eram tapados para elevar o terreno e repelir a inundação. Também na zona de Campana, outro município da província de Buenos Aires, a Associação de Moradores do Mangue conseguiu o adiamento de uma urbanização junto ao Rio Luján, tributário do mesmo Delta, que prometia casas para 40 mil pessoas. Alejandro Fernández, membro da associação, disse à IPS que os moradores locais se reuniram para resistir ao avanço desse projeto em uma área onde os bairros fechados já cresceram muito e provocam inundação de áreas vizinhas. No final de outubro, um forte temporal aumentou em quase cinco metros o nível do Rio Paraná e causou uma inundação severa não apenas nas áreas ribeirinhas, como também na área urbana de Luján. A água chegou até a basílica, atração turística internacional. “Em todo o trecho do Rio Luján foram permitidos estes negócios sobre planícies de inundação que alteram o transbordamento natural do curso. Se forem tapadas com concreto em uma área onde praticamente não há por onde a água escorrer, o assunto fica muito sério”, alertou. “Depois, quando inunda, os dirigentes políticos levam as mãos à cabeça, mas são eles que assinam as autorizações para estes projetos imobiliários sem fazer um verdadeiro planejamento urbano”, alertou Fernández. Envolverde/IPS


por Marcela Valente, da IPS
A oposição sul-africana questionou o governo por sua intenção de enviar tropas à RDC. Foto: GovernmentZA/CC by 2.0 Inter Press Service - Reportagens

Críticas e suspeitas por envio de tropas sul-africanas à RDC

[caption id="attachment_83474" align="alignleft" width="300" caption="A oposição sul-africana questionou o governo por sua intenção de enviar tropas à RDC. Foto: GovernmentZA/CC by 2.0"][/caption] Johannesburgo, África do Sul, 15/4/2013 – Kholekile Dlamini ficou arrasada com a morte de seu filho, Xolani Dlamini, soldado da Força de Defesa Nacional da África do Sul que tombou na República Centro-Africana. Como muitos sul-africanos, ela nem mesmo sabia do envio de tropas a essa nação. Xolani, de 27 anos, morreu pelas mãos da aliança rebelde centro-africana Séléka, que deu um golpe de Estado no dia 24 de março. Os confrontos deixaram 13 soldados sul-africanos mortos, 27 feridos e um desaparecido. Entre lágrimas, sua mãe disse à IPS que membros de sua família “estão entristecidos e impactados” pela morte de “Rifleman” (homem do rifle), como o chamavam carinhosamente. Desde que anunciou a retirada de todas suas forças da República Centro-Africana no dia 9, o governo da África do Sul mantém um forte hermetismo sobre as razões que o levaram a enviar soldados para evitar que o presidente François Bozizé fosse derrubado pelos rebeldes de Séléka. Enquanto o público continua sem saber detalhes da missão nesse país, foi anunciado que Pretória também prevê enviar em breve tropas para a República Democrática do Congo (RDC). A oposição sul-africana questionou a decisão e exigiu que o presidente Jacob Zuma informe ao parlamento detalhes sobre o novo envio. O professor Shadrack Gutto, especialista em direito constitucional da Universidade da África do Sul, afirmou que os rebeldes da RDC vão tirar proveito do que ainda está fresco na mente de todos (em referência ao ocorrido na República Centro-Africana). A África do Sul decidiu enviar tropas depois que uma resolução de março, do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), pediu a intervenção na RDC. A ofensiva tem o propósito de neutralizar os insurgentes, incluindo o grupo M23, que operam no leste desse país. “O presidente Zuma deve ser claro sobre este assunto. Está obrigado a dizer ao público as razões do envio de forças à República Centro-Africana, e não se esconder atrás do argumento de proteger os interesses nacionais”, enfatizou Gutto. O porta-voz da Presidência sul-africana, Mac Maharaj, disse à IPS que o parlamento fora informado oportunamente da operação na República Centro-Africana, e garantiu que em cada envio de tropas o presidente seguiu o estabelecido na Constituição. Já o porta-voz das Forças de Defesa Nacional da África do Sul, Xolani Mabanga, confirmou à IPS que mais soldados deste país serão enviados à RDC no final deste mês, sem informar quantos. O M23 alertou que haverá represálias se for atacado pelas forças da África do Sul. Contudo, Mabanga respondeu que as forças sul-africanas não serão “dissuadidas de cumprirem suas obrigações internacionais” e assegurou que estarão “sempre prontas para executar qualquer tarefa que lhes for confiada”. Partidos de oposição acusaram o governo Zuma de intervir em países vizinhos simplesmente para proteger seus interesses mineiros. Durante cinco anos, um número não preciso de soldados sul-africanos deu assistência ao frágil governo da República Centro-Africana. A administração de Zuma argumentou que isso é parte de um acordo bilateral com esse país, assinado em 2007 e renovado em 2012. David Zunmenu, especialista em temas da República Centro-Africana no Instituto para Estudos de Segurança, disse à IPS que muitos analistas consideram que esse argumento está “fora da realidade” e que a verdadeira razão dos envios de tropas são os interesses mineiros. “É difícil verificar a exatidão dessas observações. O contexto no qual aconteceu o envio foi problemático”, observou. “Bozizé foi atacado por uma coalizão de grupos rebeldes, e ainda que sócios regionais como Chade, Gabão e Camarões tenham agido rapidamente para deter o movimento e forçado uma negociação, o presidente perdeu a confiança nos mecanismos regionais”, pontuou Zunmenu. “Sua iniciativa de chamar a África do Sul (para se defender dos rebeldes) não foi bem avaliada. Na verdade, com a presença da África do Sul, pensou que já não estava vulnerável, tornou-se arrogante e desprezou o acordo de paz”, acrescentou. O Séléka lançou sua ofensiva contra o regime de Bozizé em dezembro do ano passado, que deteve temporariamente após assinar o Acordo de Livreville em janeiro. Apesar das críticas, Zunmenu acredita que a África do Sul ainda tem um papel a desempenhar nas missões de manutenção de paz no continente. Mas alertou que o país deve esperar um mandato internacional da ONU antes de enviar tropas, destacando que sempre deve operar no contexto dos acordos regionais. Quanto à República Centro-Africana, Zunmenu disse que esse país tem a oportunidade de fixar um novo rumo que rompa com seu passado golpista e iniciar uma etapa de governos eleitos democraticamente. No dia 4, a Comunidade Econômica de Estados da África Central se negou a reconhecer o líder rebelde centro-africano, Michel Djotodia, que se autoproclamou presidente e prometeu restaurar a ordem constitucional. Envolverde/IPS


por Stanley Karombo, da IPS
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Tratado de armas pode demorar anos para ser legalmente vinculante

Nações Unidas, 15/4/2013 – Quando no dia 2 a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou por esmagadora maioria a favor de um Tratado Internacional sobre Comércio de Armas, uma pergunta ficou sem resposta: quanto tempo levará para se conseguir as 50 ratificações necessárias para que seja legalmente vinculante? O tratado impõe a regulamentação de exportações, importações, transbordos e intermediação. Seu alcance são as armas convencionais, como tanques de guerra, veículos de combate blindados, sistemas de artilharia de grande calibre, aviões e helicópteros de combate, navios de guerra, mísseis e foguetes, além de armas pequenas e leves. Também obriga seus Estados parte – aqueles que o ratificarem – a informar sobre suas transferências de armas e a avaliar se esses embarques acabarão em mãos de violadores dos direitos humanos ou do direito internacional humanitário. “É difícil dizer quando este tratado entrará em vigor”, disse à IPS o embaixador Palitha Kohona, ex-diretor da Seção de Tratados da ONU. Kahterine Prizeman, coordenadora internacional do programa sobre desarmamento na organização Ação Global para Prevenir a Guerra (GAPW), se mostrou mais otimista e disse à IPS que, em termos de ratificação e entrada em vigor, chegar às 50 ratificações é um objetivo bastante viável nos próximos anos, apesar das lutas políticas inerentes a este tipo de processo nos governos nacionais. É muito provável que se consiga em menos de cinco anos, previu. Aprovado por 154 votos a favor (embora desde então Angola tenha mudado sua “abstenção” para um “sim”, aumentando-os para 155) contra três (Irã, Síria e Coreia do Norte), o tratado estará disponível para assinatura a partir de 2 de junho. Mas sua ratificação por cada um dos Estados-membros poderá ser um processo longo. Não surpreende que as 23 abstenções incluam alguns dos principais exportadores e fabricantes de armas do mundo, como China, Rússia e Índia, e importantes compradores como Egito, Arábia Saudita, Indonésia, Kuwait, Catar e Barein. Kohona disse que países importantes, entre eles China, Rússia e Índia, expressaram sérias reservas com relação ao texto aprovado. Outros, talvez tenham que superar dificuldades internas, observou. “O Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares, adotado em setembro de 1996 em votação na Assembleia Geral, depois de não obter consenso na Comissão sobre Desarmamento, ainda não atende as condições necessárias para entrar em vigor”, 17 anos depois de sua adoção, apontou Kohona, também representante permanente do Sri Lanka na ONU, e que se absteve de votar. Ao ser consultado se a aprovação pela Assembleia Geral é apenas uma obrigação política e moral por parte dos Estados-membros, e sem nenhuma força legal, Kohona disse que, segundo a Lei de Tratados, um tratado em processo de ratificação cria certas obrigações limitadas para os Estados signatários. “A adoção, por si só, não as cria”, explicou. Prizeman disse que, considerando o amplo e firme apoio ao Tratado em toda África, América Latina e no Caribe, bem como na União Europeia, é provável que 50 Estados o ratifiquem nos próximos anos. A maioria dos Estados, refletindo os 155 votos a favor, expressa um apoio relativamente categórico ao tratado, e inclusive exige disposições mais fortes do que as contidas no texto, recordou. Na semana passada, uma coalizão de aproximadamente 50 senadores dos Estados Unidos disseram se opor à ratificação, em meio a uma campanha contra o Tratado liderada pela poderosa Associação Nacional do Rifle. “A chave para a implantação é a transparência e a pressão dos pares”, disse à IPS a diretora-geral de Direito Internacional e Política na Anistia Internacional, Widney Brown. A ativista destacou que os elementos importantes da implantação são que todas as exportações de armas deverão ser informadas à Secretaria, e que a informação será compartilhada com outros Estados. “Se um Estado pensa que outro não está cumprindo os termos do Tratado, haverá um mecanismo de disputa para abordar o assunto. E a pressão dos pares será forte”, destacou. Além disso, embora a China, atualmente sexta na lista de exportadores de armas, não ratifique o texto, “veremos o que vimos durante as negociações”, ou seja, que os Estados africanos pressionarão fortemente a China para que o apoie. Já a Rússia, acrescentou Brown, é mais problemática, particularmente enquanto tenta recuperar o lugar que perdeu no mercado. Segundo Brown, a Índia não teve um papel útil nas negociações, mas, como outras potências emergentes, quer ser vista como um ator importante no cenário internacional, e pode ser vulnerável a pressões para aderir ao Tratado, embora não o ratifique. Os Estados Unidos “votaram a favor, embora seja improvável que o ratifiquem, mas penso que veremos um cumprimento significativo”, ressaltou. O complicado serão as decisões relativas aos aliados de Washington no Golfo, como Barein, acrescentou Brown. Os Estados que apoiam o Tratado Internacional sobre Comércio de Armas se mostraram dispostos a baixar os requisitos para sua entrada em vigor, para que o documento não se torne vítima de um limbo perpétuo enquanto espera ser implantado, como ocorre com o Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Nicolás Maduro e Henrique Capriles se preparam para a hora da verdade. Foto: Comandos de campanha dos candidatos Inter Press Service - Reportagens

Venezuela elege presidente sob a onipresente sombra de Chávez

[caption id="attachment_83340" align="aligncenter" width="500" caption="Nicolás Maduro e Henrique Capriles se preparam para a hora da verdade. Foto: Comandos de campanha dos candidatos"][/caption]   Caracas, Venezuela, 12/4/2013 – Os eleitores venezuelanos voltarão às urnas no dia 14, para eleger o sucessor do falecido presidente Hugo Chávez. A opção está entre seu herdeiro político e favorito nas pesquisas, o esquerdista Nicolás Maduro, e o líder de uma oposição com força renovada, o centrista Henrique Capriles. Nestas eleições que abrirão a era pós-Chávez, os 18,8 milhões de venezuelanos aptos a votar deverão escolher entre dar continuidade ao projeto identificado como “socialismo do século 21”, que agora Maduro lidera, ou apoiar a fórmula que Capriles anuncia como “progresso” econômico e social. Neste cenário, a campanha eleitoral foi dominada pela figura de Chávez e a poderosa onda emotiva causada pelo sua morte em 5 de março, 21 meses após ter diagnosticado câncer no abdômen. Maduro foi chanceler entre 2006 e 2012, vice-presidente desde outubro passado e, em março, quando Chávez viajou a Cuba para tratamento, assumiu a Presidência. O candidato do governante Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) “não teve tempo para construir imagem e liderança próprias, se mesclou ao legado, e seu estilo é uma espécie de cópia do que tinha seu líder desaparecido”, disse à IPS a especialista em comunicação política Mariana Bacalao. O analista Manuel Malaver, de tendência opositora, afirmou: “a contenda ocorre entre um governo muito poderoso com um péssimo candidato e uma oposição fraca com um excelente candidato. Creio que se a campanha fosse mais longa, Capriles poderia perfeitamente ganhar de Maduro, mas o curto tempo favorece muito este último”. O especialista político Nicmer Evans, afinado com o governo, disse que “há três atores na cena política: Maduro, Capriles e também Chávez, que de maneira transversal continua sendo o candidato principal nestas eleições, pois o que se debate é se aceita-se, ou não, o que propôs ao país”. Chávez venceu as eleições de outubro para um novo mandato presidencial até 2019, com quase 8,2 milhões de votos, equivalentes a 55% dos votos emitidos. Seu principal competidor, o mesmo Capriles, candidato da coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD), obteve 6,6 milhões de votos, ou 44,3% do total. A Constituição do país determina que em caso de falecimento do presidente nos primeiros quatro anos de mandato a população deve ser convocada para, em 30 dias, eleger seu substituto. Essa obrigação deixou apenas dez dias aos candidatos para uma campanha de norte a sul e leste a oeste neste país de 916 mil quilômetros quadrados, 24 Estados, 333 municípios e 30 milhões de habitantes. Tanto Maduro quanto Capriles se deslocaram em velocidade de um extremo a outro do país, visitando até três cidades em um só dia, para galvanizar, em primeiro lugar e sobretudo, o eleitorado fiel que se manifesta em um contexto de polarização. Os candidatos atraem concentrações iguais ou maiores do que as da campanha de 2012, o que faz prever que ocorra novamente uma alta participação dos eleitores, embora especialistas indiquem que não se chegará aos 81% registrados em outubro, um recorde neste país onde o voto não é obrigatório. “Se Capriles aumentar um pouco sua votação e parte do eleitorado chavista se abstiver (estudos indicam que um em cada quatro não quer Maduro), a opção para a oposição é muito real”, disse a correspondentes estrangeiros, ao iniciar a campanha, o seu coordenador, Carlos Ocariz. Todas as pesquisas conhecidas até o último fim de semana, com estudos feitos em março, indicam que Maduro obtém a maior quantidade de adesões, em um faixa entre sete e 18 pontos percentuais de diferença para Capriles. “Nenhum de nossos cenários contempla uma possível vitória de Capriles” afirmaram à IPS os pesquisadores Germán Campos da Consultores 30.11, e Jesse Chacón, da GIS XXI. Cerca de 57% dos entrevistados pela Consultores 30.11 disseram que votariam em Maduro, enquanto a pesquisa da GIS XXI conclui que pode se repetir o resultado de outubro, de 55% a 44%. As empresas de pesquisa mais tradicionais, como a IVAD e a Datanálise, também mostraram, após seus estudos de março, uma cômoda vantagem de Maduro, mas, como outros, descartaram informar sobre novas consultas uma vez iniciada a campanha. A lei eleitoral proíbe divulgar pesquisas na semana que antecede as eleições. Horas antes de entrar em vigor essa proibição, as firmas Datincorp e Datamatica observaram um avanço de Capriles, com tendência a um cruzamento da linha ascendente ao seu favor com a descendente do candidato oficialista, segundo seus responsáveis. A brecha Maduro-Capriles registrada por alguns institutos tradicionais caiu para a metade cinco dias antes das eleições, segundo dados aos quais a IPS teve acesso. Os dois candidatos, pela curta campanha, se comportaram com grande contundência diante do rival, acentuando a aguda polarização que marca a política na Venezuela desde que Chávez ganhou pela primeira vez a Presidência, em 1998. “Caprichinho, burguesinho”, diz Maduro sobre seu rival. “Mentira fresca”, responde o adversário, em meio à troca de ofensas, críticas ao arbitral Conselho Eleitoral e apelos à população para permanecer alerta para supostas armadilhas e supostos planos de desconhecer os resultados por parte do perdedor. Maduro, de 50 anos, ex-motorista de ônibus e casado com a também dirigente do PSUV Cilia Flores, caçoa da solteirice de Capriles, de 40 anos, enquanto este último ri das falhas do outro em geografia venezuelana e de sua afirmação de que uma manhã sentiu a presença de Chávez graças a um pequeno pássaro. “É lamentável a linguagem que os dois principais candidatos à Presidência estão usando. Apostando na polarização que tanto dano causa”, lamentou Marino Alvarado, da organização humanitária Provea. “Em um país sacudido pela violência por todos os cantos, temos uma direção política que não dá o bom exemplo. Uma linguagem que em nada contribui para a concórdia e a solução pacífica dos conflitos”, afirmou à IPS. “Oxalá a vitória de quem triunfar seja clara, não por uma diferença mínima, para benefício da tranquilidade do país”, disse o analista Jesús Seguías, da Datincorp. Por seu lado, Chacón afirmou que “se a diferença for muito grande, o governo de Maduro poderá ter um começo mais cômodo, porque tem o desafio de ser mais eficiente ou o povo começará a cobrança”, enquanto na oposição haveria uma reacomodação. Para Malaver, “se o resultado for apertado, apesar de ganhar o oficialismo, permanecerá o estado de confronto, como se esta eleição fosse um primeiro round à espera de um definitivo, pois a parte do país que não aceitou a política de concentração de poder, militarista e o estadismo de Chávez menos ainda aceitará isso de Maduro. Envolverde/IPS


por Humberto Márquez, da IPS
Foto: Louai Beshara/AFP Inter Press Service - Reportagens

Governo da Síria bombardeia objetivos civis, segundo HRW

[caption id="attachment_83335" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Louai Beshara/AFP"][/caption] Doha, Catar, 12/4/2013 – Padarias e hospitais são bombardeados na Síria, entre outros objetivos civis, denunciou ontem a organização Human Rights Watch (HRW), que acusou o regime de Bashar Al Assad de cometer crimes de guerra. “Os indivíduos que cometem graves violações das leis da guerra, deliberadamente ou por negligência, são responsáveis por crimes de guerra”, declarou a HRW no documento Death From the Skies (Morte Vinda dos Céus). “Os bombardeios do governo sírio que matam civis parecem ser parte de ataques sistemáticos e propagados contra a população civil”, afirmou a HRW. Esta organização, com sede em Nova York, baseou suas conclusões em investigações em áreas rebeldes de três províncias sírias açoitadas pela guerra. O grupo documentou ataques aéreos contra quatro padarias e dois hospitais, entre outros objetivos civis. O hospital de Dar al-Shifa, na cidade de Aleppo, norte do país, foi bombardeada pelo menos em quatro oportunidades. “Aldeia após aldeia encontramos uma população civil aterrorizada pela força aérea de seu próprio país”, contou Ole Solvang, investigador de emergências da HRW. “Esses ataques aéreos ilegais mataram e feriram muitos civis, causando destruição, medo e deslocamentos”, ressaltou. Citando testemunhos de uma rede de ativistas, a HRW disse que “os bombardeios aéreos mataram mais de 4.300 civis em toda a Síria desde julho de 2012”. O informe detalha o uso de bombas de grande capacidade explosiva, que às vezes destruíam completamente várias casas em um único ataque. Um morador da localidade de Azaz (norte) disse à HRW que pelo menos 12 membros de sua família morreram quando sua casa foi bombardeada no dia 15 de agosto do ano passado. “Enterrei meus 12 familiares, incluindo meu pai, minha mãe e minha irmã. Também a mulher do meu irmão”, disse o homem que se identificou como Ahamed. O corpo de “Walid, meu irmão, ficou em pedaços. No começo não o reconhecemos. Também enterramos seus filhos. O mais novo tinha 40 dias de vida”, acrescentou. Um dos explosivos utilizados nos ataques contra Azaz foi uma poderosa bomba de fragmentação “com capacidade para causar vítimas em um raio de 155 metros”, segundo a HRW. As forças de Assad também usaram mísseis balísticos e armas incendiárias, afirmou a organização. “É importante destacar que esses ataques continuam. No domingo, dia 7, um bombardeio aéreo sobre a cidade de Aleppo matou 17 civis. Na semana passada, uma bomba de fragmentação acabou com a vida de outras 11 pessoas”, detalhou Solvang à agência de notícias AFP. A HRW exortou a comunidade internacional a intervir para acabar com as violações dos direitos humanos na Síria. “Pedimos aos governos e às companhias que suspendam imediatamente o fornecimento de armas, munições e material bélico em geral para a Síria, diante da evidência convincente de que o governo comete crimes contra a humanidade”, afirmou a organização. Solvang explicou que os vetos de China e Rússia no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) até agora bloqueiam todas as ações internacionais contra Damasco. Contudo, afirmou que isso não deve impedir que os governos preocupados com a crise “acelerem seus próprios esforços para obrigar o regime sírio a pôr fim a essas violações”. No mês passado, o governo de Assad disse rejeitar “categoricamente” a decisão do Conselho de Direitos Humanos da ONU de prolongar sua investigação sobre a Síria, e acusou esse órgão de estar “viciado e desequilibrado”. Envolverde/IPS * Publicado sob acordo com a Al Jazeera.


por Correspondentes da IPS/Al Jazeera
Okinawa, no Japão. Foto: http://priyamada.wordpress.com/ Inter Press Service - Reportagens

Ilha japonesa militarizada busca se renovar

Ginowan, Japão, 12/4/2013 – A ilha japonesa de Okinawa é conhecida por abrigar a maior parte dos 50 mil soldados que os Estados Unidos mantêm estacionados no Japão. Porém, diante da crise com a Coreia do Norte, dirigentes locais se esforçam para promover uma imagem comercial deste lugar. “Okinawa, com seu entorno cultural e natural únicos quer ampliar sua indústria turística e se converter em um centro asiático de educação e entretenimento”, disse Shigenobu Asato, presidente do Escritório de Convenção e Turismo durante sua apresentação no Festival de Cinema desta ilha, que terminou em 30 de março. “O slogan de Okinawa agora é “seja inovador”, acrescentou, em referência aos esforços oficiais para promover o investimento no setor do entretenimento e da atividade empresarial nesta ilha, a maior das 60 que formam a prefeitura de mesmo nome. Pelos termos do Tratado de Segurança e Cooperação Mútua entre Estados Unidos e Japão, Okinawa é a sede de dois terços das bases norte-americanas neste país e há tempos desempenha um papel crucial em matéria de segurança no Oceano Pacífico. Para Washington, o arquipélago que se estende até quase Taiwan é o lugar perfeito para observar, e conter, a presença naval da China na região. A ilha foi palco do único enfrentamento direto na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) entre Estados Unidos e Japão, que terminou com a derrota japonesa. Washington devolveu o controle do lugar ao Japão em 1972, mas manteve bases em 18% do território, uma situação que desagrada a imensa maioria da população local. As bases militares norte-americanas mantêm arrendamento de grandes porções de terra, a maioria no centro e sul de Okinawa, onde vivem 80% dos 1,5 milhão de habitantes. [caption id="attachment_83330" align="aligncenter" width="500" caption="Okinawa, no Japão. Foto: http://priyamada.wordpress.com/"][/caption]   A renda, que representa pouco menos de 6% da renda bruta da região, se destina a ajudar os fazendeiros locais e permite que as áreas onde estão situados os acampamentos recebam grandes subsídios. Em 2012, os subsídios do governo central chegaram a US$ 2 bilhões, e estima-se que este ano subirão para US$ 3,1 bilhões. A presença militar norte-americana ajudou a atribulada economia insular. A renda média por habitante de Okinawa é de US$ 20 mil ao ano, a menor do Japão. As bases não oferecem apenas uma renda, mas criaram um mercado para o entretenimento com bares, restaurantes e serviços de táxi para o pessoal. Mas as consequências sociais e políticas são altas. O acordo de cooperação em matéria de segurança deu impunidade aos militares norte-americanos. Os crimes violentos, que incluem violações de mulheres por parte do pessoal militar, além da deterioração e contaminação do meio ambiente, empurraram muitos moradores para os braços do movimento contra as bases. Com o aumento da oposição desde novembro, as autoridades locais se esforçam bastante para desatrelar a economia de Okinawa da presença das bases militares. Ginowan, sede de várias dependências militares, como a controvertida base aérea de Futenma, é um dos lugares onde são necessárias urgentes formas alternativas de desenvolvimento e renda. Mas os desejos dos moradores de se livrarem das bases militares enfrentam um ambiente político hostil. Além das ameaças da Coreia do Norte, o governo conservador do primeiro-ministro Shinzo Abe deve lidar com difíceis disputas territoriais e pelos direitos de pesca com China e Coreia do Sul. “Fazer a paz com a população de Okinawa se tornou um desafio interno crucial para Abe”, disse Tetsuo Kawakami, professor de relações internacionais da Universidade de Takushoku. “Okinawa tem sido um assunto delicado para muitos primeiros-ministros do Japão, e nenhum conseguiu progressos”, afirmou Kawakami à IPS. Para o professor, o atual primeiro-ministro tem interesse especial em ganhar o apoio da população de Okinawa, por seu interesse em reformar a Constituição de “paz” do Japão, que “renunciou à guerra como um direito soberano da nação e à ameaça ou ao uso da força como forma de resolver disputas internacionais”, conforme consta do artigo 9. Abe afirma que é crucial reformar esse artigo para garantir ao Japão certa proteção e incorporar disposições sobre autodefesa diante do aumento das tensões na Ásia Pacífico. O último informe anual sobre diplomacia, divulgado na semana passada pela chancelaria, destaca a necessidade de fortalecer a Aliança de Segurança Estados Unidos-Japão para conter as “ameaças” contra o território, o mar e o espaço aéreo do Japão, bem como contra a população. O informe aponta enfrentamentos territoriais com a China pelas Ilhas Senkaku, no mar da China Oriental, reivindicadas pelos dois países. Conhecidas na China como Diayu, a cadeia de ilhotas e penhascos desabitados pode conter grandes depósitos de gás natural. O território está sob jurisdição japonesa há muito tempo, mas a Coreia do Sul, que as denominou Dokdo, e Taiwan, onde são identificadas como Ilhas Tiaoyutai, também reclamam o arquipélago. Nesse contexto, o governo central anunciou na semana passada sua decisão de estabelecer um cronograma para devolver ao governo municipal o terreno alugado pelo exército norte-americano, perto da base aérea de Kadena, em Okinawa. O acordo alcançado em 2012 se baseia na condição de os efetivos norte-americanos serem trasladados para o estrangeiro. Abe tratou de acelerar o processo com Washington, com a intenção de Okinawa aceitar mudar a base aérea de Futenma da cidade densamente povoada de Ginowa para Nago, um pitoresco centro turístico costeiro. Miko Higa, diretor do Instituto de Pesquisa para a Paz e a Segurança, disse à IPS que a proposta do governo é bem-vinda, mas terá oposição se for vinculada ao conceito de reassentamento. “A questão essencial da segurança do Japão gera confiança em Okinawa. O processo será longo, e não deve estar vinculado aos planos de defesa de Abe que objetivam fortalecer as relações militares com os Estados Unidos, o que será uma pesada carga para esta ilha”, alertou. Envolverde/IPS


por Suvendrini Kakuchi, da IPS
Mullume (E), ex-criança soldado da República Democrática do Congo, sente incerteza sobre o futuro. Foto: Einberger/argum/EED/IPS Inter Press Service - Reportagens

A infância perdida em um Kalashnikov

[caption id="attachment_83326" align="aligncenter" width="529" caption="Mullume (E), ex-criança soldado da República Democrática do Congo, sente incerteza sobre o futuro. Foto: Einberger/argum/EED/IPS"][/caption]   Bangui, República Centro-Africana, 12/4/2013 – Youssouf, de 13 anos, encarna todos os males que atingiram a República Centro-Africana nos últimos anos. No dia 24 de março, participou da tomada desta capital como combatente da coalizão rebelde Séléka. “Ontem mesmo fui suficientemente mais velho para lutar e matar. Mas hoje tenho que esperar até completar 18 anos para me alistar no exército”, afirmou. Sob a sombra de uma mangueira na base militar de Bangui, onde é mantido em segredo junto com outros três meninos-soldado, Youssouf respira fundo. Sente-se traído pelos rebeldes da Séléka (“união, na língua sano) que marcharam sobre a capital para colocar no poder o seu líder, Michel Djotodia. Agora a Séléka precisa ganhar credibilidade internacional, mas seus líderes sabem que a presença de crianças-soldado em suas fileiras prejudica sua imagem. Este assunto veio à luz depois que efetivos sul-africanos que defendiam o palácio presidencial e seu ocupante, o derrubado presidente François Bozizé, informaram estar traumatizados ao descobrirem que os rebeldes que combateram e mataram eram majoritariamente “meninos”. Para mantê-los fora da vista do público, a Séléka colocou muitas crianças-soldado com famílias do norte da República Centro-Africana, de onde procede a maioria dos rebeldes, como Youssouf. Mas ele permaneceu no acampamento. O próprio Djotodia o deixou ali no dia seguinte à captura de Bangui, quando encontrou o adolescente fazendo guarda em um posto de controle da Séléka. “Quero ser soldado, lutar é a única coisa que sei fazer”, afirmou. A boina do exército que usa é quase tão vermelha quanto seus olhos. “Isso é por causa do tabaco branco”, confessa. Essa é uma droga, mistura de maconha da Índia com farinha de mandioca. “Com isto ninguém nunca tem medo”, garantiu. A vida de Youssouf é uma convergência dos males que durante vários anos consumiu a República Centro-Africana. Sua existência foi sacudida pela primeira vez em abril de 2011. “Durante vários dias a milícia ugandesa do Exército de Resistência do Senhor (LRA) saqueou e sequestrou pessoas na zona de Birao (República Centro-Africana), onde eu vivia”, lembrou o jovem. “Embora fosse perigoso, fui com minha mãe para os campos. Mas os homens do LRA nos encontraram. Violentaram minha mãe na minha frente e depois a mataram”, conta Youssouf. O grupo armado o obrigou a carregar suas munições. Em seguida o converteu em uma máquina de matar. “Me ensinaram a usar armas como Kalashnikovs (AK), granadas lançadas por foguetes, lançadores... Tornei-me um homem como eles”, acrescentou. Pouco depois, ele e outros meninos-soldados, que constituem 90% das forças do LRA, conheceram Joseph Kony, o líder da milícia, que tem uma ordem de prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional. “A primeira vez foi em agosto de 2011, perto de Zémio (na República Centro-Africana, fronteira com a República Democrática do Congo). Ele é muito alto, com barba e sempre usa um chapéu”, contou o rapaz. “Ele nos falou rapidamente. Voltei a vê-lo pouco depois disso, durante o ataque contra Djéma, um povoado próximo. Kony alinhou sete aldeões e ordenou aos meninos que os matassem. Eu gritei ‘sim senhor’, e matei dois. Foi assim que pude permanecer vivo”, afirmou Youssouf. Seu corpo magro treme com os soluços. “O LRA mata os meninos que estão doentes ou são muito lentos. Uma noite, fugi”, recordou. Após caminhar durante três dias foi resgatado perto de Rafaï, ao sul limítrofe com a República Democrática do Congo, por soldados norte-americanos envolvidos em uma nova caça a Kony, em 2012. Youssouf foi colocado sob cuidados da Cruz Vermelha Internacional, que o levou à sua casa em Birao, como parte de um programa para reunir as crianças-soldado com suas famílias. Mas não lhe restava nenhum parente no lugar. O jovem se empregou para levar recados de aliados de Djotodia, o ex-diplomata que voltara do exílio em Benim para liderar a União de Forças Democráticas pela Unidade, um dos principais grupos rebeldes na coalizão Séléka que se formou depois. “Eu queria me alistar com eles. Mas Djotodia disse que não queria crianças-soldado. Ofereceu-me deixar segui-los para ajudar na cozinha e na limpeza”, explicou. No entanto, começando pelo ataque contra a localidade de Ndéle, no começo de dezembro de 2012, as boas intenções do líder se desfizeram no ar. “O coronel apenas me mandou entrar no veículo número seis, soube que estava sendo levado para combater. Os veículos de um a dez eram os de ataque, os seguintes eram para logística. O sargento me deu uma arma e me disse para ser um homem”, recordou Youssouf. “Continuei a viagem até Bangui naquele carro, usando meu rifle AK, povoado após povoado. Quantas pessoas matei? Não sei. A guerra é a guerra. Isso é tudo. Quanto a mim, deixei de ser um menino há muito tempo. Agora, minha única esperança é ser treinado como um soldado de verdade”, afirmou. Envolverde/IPS * Com a colaboração de Sandra Titi-Fontaine, do Infosud Genebra. ** Publicado sob acordo com o InfoSud.


por Maurice Garbiro, da IPS/InfoSud

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