“O que interessa não é Bergoglio e seu passado, mas Francisco e seu futuro”

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“O que interessa não é Bergoglio e seu passado, mas Francisco e seu futuro”


por Fabiana Frayssinet, da IPS


[caption id="attachment_80759" align="alignright" width="300" caption="Qual o interesse em agitar o passado do papa Francisco e não discutir a grave crise da Igreja?, questionou Leonardo Boff. Foto: Daniela Pastrana/IPS"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 19/3/2013 – O teólogo brasileiro Leonardo Boff, expoente de correntes progressistas da Igreja Católica latino-americana, não acredita nas denúncias que descrevem o papa Francisco como colaborador da última ditadura argentina. Em entrevista à IPS, Boff admite que se trata de um “tema polêmico”, com versões contraditórias. Contudo, ele prefere confiar nas declarações de notórios defensores dos direitos humanos da Argentina, que negaram qualquer vínculo de Jorge Bergoglio, o novo papa, com o regime militar que governou a Argentina entre 1976-1983. Boff, figura fundamental da Teologia da Libertação, olha com esperança para adiante e confia em que Francisco honre sua condição de jesuíta e seja “enérgico e radical” contra a epidemia de pedofilia e a corrupção que infestam a condução católica atualmente. IPS: Como interpreta a “descentralização” que implica a eleição de um papa latino-americano? LEONARDO BOFF: A Igreja central, isto é, o Vaticano e as Igrejas europeias, se sentia humilhada e envergonhada pelos escândalos criados dentro de seus próprios muros. Assim, elegeram alguém de fora, com outro ânimo e outro estilo de conduzir a Igreja. No Terceiro Mundo vivem 60% dos católicos. Já era hora de se ouvir melhor estas igrejas. Já não são igrejas-espelho da Europa, mas igrejas-fonte, com seu rosto e suas formas de organização, geralmente em redes de comunidades. Para mim, mais do que um nome, Francisco é um projeto de Igreja pobre, próxima do povo, evangélica, amante e protetora da natureza hoje devastada. São Francisco é um arquétipo deste tipo de Igreja. Com o papa Francisco se inaugura uma Igreja do terceiro milênio: longe dos palácios e em meio aos povos e às suas culturas. IPS: A que atribui a preferência por Bergoglio diante do cardeal brasileiro dom Odilo Scherer? LB: Scherer era o candidato do Vaticano, onde trabalhou e fez muitos amigos. Porém, defendeu publicamente a cúria e o Banco do Vaticano, criticado por todos, inclusive muitos cardeais. Isto desatou uma discussão pública que o queimou. Além do mais, não teria sido bom para a atual situação da Igreja. É conservador e autoritário. Teria sido um Bento 17. IPS: Na Argentina, a eleição de Bergoglio foi criticada por sua suposta cumplicidade no sequestro de dois sacerdotes jesuítas durante a ditadura. LB: Sei que, em geral, a Igreja argentina não foi profética em denunciar o terrorismo de Estado. Apesar disto, houve bispos como (Enrique) Angelleli, que morreu de maneira terrível, (Jorge) Novak, (Jaime) De Nevares e Jerónimo Podestá, entre outros, que claramente foram críticos. Com referência a Bergoglio, prefiro acreditar em Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, e na ex-integrante da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Graciela Fernández Meijide), que qualificam essa acusação de calúnia. Não encontraram nem uma vez o nome de Bergoglio em documentos ou denúncias. Pelo contrário, salvou muitas pessoas escondendo-as no Colégio Máximo de San Miguel. Além disso, vai contra seu caráter já conhecido, de homem forte e também terno, pobre e que continuamente denuncia as injustiças sociais existentes na Argentina e a necessidade de justiça e não de filantropia. Por fim, o que interessa não é Bergoglio e seu passado, mas Francisco e seu futuro. IPS: Por que o senhor passou por alto neste tema em suas declarações iniciais? LB: É um assunto polêmico e se deve conhecê-lo bem. As versões são contraditórias. Não falo de coisas sobre as quais não tenho clareza. E me pergunto: qual é o interesse de alguns grupos em levantar esta questão e não discutir a grave crise da Igreja e seu sentido diante da crise da humanidade. Talvez, isto eu concebo, poderia ter sido mais profético, como foram no Brasil o bispo Hélder Câmara e o cardeal Paulo Evaristo Arns. Mas aqui o Estado é laico e separado da Igreja. Na Argentina, o catolicismo é a religião do Estado, o que dificultou, mas não impediu, que houvesse resistência e denúncias de uma parte da Igreja. IPS: Omissão não é pecado? LB: A questão não é responder se é, ou não, pecado. Isto é assunto de religião. A questão é política, e para mim é de que lado está a pessoa: do lado dos pobres, dos que sofrem desigualdades perversas? Ou do statu quo que quer o crescimento ilimitado e uma cultura de consumo? Em 1990, havia 4% de pobres na Argentina. Agora são 33% (segundo dados não oficiais). Bergoglio ficou do lado dessas vítimas e vive cobrando justiça social. Se não entendemos isto, estamos nos desviando do ponto central. IPS: O senhor atribuiu a escolha do nome de Francisco “à desmoralização” de uma “Igreja em ruínas” por vários escândalos. Como deveria se expressar na prática esse nome? LB: Ele dá sinais de outro tipo de papado, sem símbolos de poder nem privilégios. Um papa que paga suas contas no hotel, que vai em um simples automóvel rezar na basílica de Santa María Maior e visita escondido seu amigo, o cardeal Jorge Mejía, que ficou doente em Roma... São gestos que o povo entende. Estou certo de que, com referência aos pedófilos e aos crimes financeiros, será mais jesuíta do que franciscano, enérgico e radical, porque tal como está a Igreja, não dá para continuar. IPS: O novo papa acredita ver a “mão do diabo” em questões como a despenalização do aborto e do casamento homossexual na Argentina e se choca com o governo por isso. Devemos antecipar um papa mais ou igualmente conservador nestes temas doutrinários? LB: Estes temas estão proibidos pelo Vaticano. Ninguém pode se afastar da postura oficial. Espero que Francisco, como papa, habilite uma longa discussão de todos estes temas, porque são parte da vida real do povo e da nova cultura que está nascendo, especialmente a questão do celibato e da moral sexual. Isto não significa que a Igreja renuncie às suas posturas de fundo, mas que se discuta dentro do campo democrático, e terá que respeitar o que for democraticamente decidido. O bom da democracia é que impede imposições de cima para baixo e permite que sejam ouvidas opiniões diversas, ainda que não sejam vitoriosas. Envolverde/IPS

Foto: Divulgação/ Internet Ambiente

Gasotudo entre Paquistão e Irã carregado de energia e desafios

[caption id="attachment_80614" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Divulgação/ Internet"][/caption] Manila, Filipinas, 18/3/2013 – Após quase três décadas de negociações ininterruptas e dois anos de intensa oposição dos Estados Unidos, o demorado e controvertido gasoduto entre Paquistão e Irã foi inaugurado oficialmente e bem encaminhado para estar totalmente em operação dentro de 15 meses. Em uma demonstração das crescentes dificuldades energéticas do Paquistão, o presidente Asif Ali Zardari decidiu ignorar a forte oposição externa e visitar o Irã no dia 27 de fevereiro, para finalizar um acordo que poderia converter as relações entre os dois países em uma associação estratégica. Zardari e o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, inauguraram, no dia 11, o gasoduto, cujo custo de construção é de US$ 7,5 bilhões. Quando estiver totalmente concluído, o que está previsto para meados de 2015, o gasoduto de 1.881 quilômetros poderá transportar diariamente 21,5 milhões de metros cúbicos de gás natural. Sairá do condado de Asaluyeh, no sul do Irã, e percorrerá 1.100 quilômetros pela província paquistanesa do Balochistão e da vizinha Sindh, para se conectar à rede existente. O Irã tem quase terminadas as obras em seu território, mas o Paquistão teve que buscar fundos para completar sua parte do acordo. Após se reunir com autoridades iranianas em Teerã, Zardari pôde selar um acordo final para terminar as obras em território paquistanês, ao custo de US$ 1,5 bilhão. Pelo acordo, o Irã aportará US$ 500 milhões em forma de empréstimo brando. Um consórcio binacional formado pela companhia iraniana Tadbir Energy e a paquistanesa Interstate Gas Company estará à cargo da construção do gasoduto no Paquistão. Está previsto que as obras estejam totalmente terminadas em dezembro de 2014, segundo um acordo prévio de compra e venda de gás. “Os dois países têm relações consolidadas e de mútua confiança apesar dos esforços dos que tentem arruinar os vínculos entre Teerã e Islamabad, bem como impedir nossa cooperação”, declarou o presidente paquistanês após a assinatura do acordo na capital iraniana. “A construção deste projeto é muito benéfica para as duas partes e apoiamos o trabalho realizado até agora”, acrescentou. Por sua vez, Ahmadinejad disse que “Irã e Paquistão estarão juntos com uma perspectiva estratégica”. Acrescentou que o acordo é um golpe diplomático contra a crescente pressão externa para isolar Teerã por causa da questão nuclear. Antes da visita de Zardari, um comitê do gabinete paquistanês, integrado por personalidades dos ministérios de Finanças, Justiça e Petróleo, encabeçado pelo ministro das Finanças, aprovou investimento de US$ 1,5 bilhão. Nesse sentido, a visita de Zardari objetivou ajustar detalhes do acordo, em particular os termos da contribuição iraniana, a participação na construção e os preços do gás, pois a burocracia paquistanesa já estava totalmente a favor desta iniciativa. Porém, a viagem marcou um giro drástico na política externa de Islamabad, pois Zardari desafiou a pressão internacional e arriscou um afastamento irreversível de Washington, que promoveu de forma incansável uma via alternativa de fornecimento. Tratava-se de uma tubulação começando no Turcomenistão e que passava pelo Afeganistão, conhecido como gasoduto TAPI (Turcomenistão, Afeganistão, Paquistão e Índia). Antes da viagem de Zardari, a agora ex-secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, havia advertido o Paquistão em uma declaração feita no congresso dos Estados Unidos. “Iniciar a construção desse gasoduto, seja um projeto iraniano ou conjunto, violará nossas sanções contra o Irã”, afirmou. No entanto, do ponto de vista do Paquistão, o Ocidente não é sensível aos seus interesses nacionais. O Paquistão sofre uma crise de energia e cortes de energia já prejudicam a indústria e enfurecem as pessoas. As relações entre Islamabad e Washington se esfriaram e estão cheias de controvérsias, gerando eventuais golpes diplomáticos no marco da tensão bilateral causada pelos ataques de aviões não tripulados e operações contra o terrorismo em solo paquistanês. Em um momento de crise de segurança no Afeganistão, devido à redução da presença militar do Ocidente, apesar da pressão implacável do Taliban contra o frágil governo em Cabul, o gasoduto TAPI, promovido por Washington, está longe de ser uma alternativa viável e oportuna. O Irã é um fornecedor de energia a preços acessíveis e em tempo útil, o gasoduto vai ajudar a cobrir 20% da produção de eletricidade do Paquistão. O acordo é um subtexto de tendência do Irã de fazer pesar suas enormes reservas de hidrocarbonos para gradualmente atrair aliados dos Estados Unidos desesperados por energia, como a Turquia, o maior cliente de gás natural iraniano e um forte crítico das “segundas sanções” do Ocidente para parceiros do Irã. Paquistão e Irã, junto com a Turquia, foram membros fundadores da Organização de Cooperação Econômica, e por décadas exploraram várias maneiras de melhorar as relações bilaterais e a integração econômica regional. Inicialmente, o gasoduto estava programado para chegar na Índia, com o potencial de se estender até a China. Mas a combinação de problemas de segurança, a pressão externa e desacordos de preços reduziu o projeto aos dois vizinhos de fronteira. O gasoduto servirá de base para a criação de um corredor de energia transnacional, no qual o Irã ocupará um lugar central. Durante seu encontro, os dois governantes discutiram acordos de cooperação estratégica, especialmente sobre a insurgência e a instabilidade no Balochistão, uma grande ameaça para o gasoduto, bem como o futuro do Afeganistão. Devido às sanções impostas pelo Ocidente ao setor energético e financeiro do Irã, as conversações bilaterais também ofereceram uma base para a concretização de substanciais acordos de intercâmbio. O acordo final representa um novo capítulo nas relações entre Irã e Paquistão, pois pode resolver as dificuldades energéticas deste último, mas também destaca a limitada capacidade do Ocidente em isolar completamente o Irã, rico em recursos. Envolverde/IPS * Richard Heydarian é especialista em política e Oriente Médio.


por Richard Heydarian*
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Liberdade de expressão atacada na Palestina

Ramalá, Palestina, 18/3/2013 – Em uma medida extraordinária, um palestino foi condenado por um tribunal da Cisjordânia a um ano de prisão por publicar no Facebook uma imagem do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, vestindo o uniforme da equipe de futebol do Real Madrid e chutando uma bola. A condenação é um dos vários exemplos da perseguição que sofrem os meios de comunicação nos territórios palestinos.Anas Saad Awad, de 26 anos e morador na aldeia de Awarta, na Cisjordânia, foi condenado pelo tribunal da localidade próxima de Naplusa por “criticar o governo”. Ele não pôde se dirigir aos juízes porque a sentença foi dada quando estava em outra parte do tribunal. A advogada de Awad, Rima Al Sayed, disse que seu cliente foi acusado de modificar digitalmente uma imagem de Abbas que o mostrava vestido com a camisa do Real Madrid e com a legenda “um novo atacante”. Segundo Sayed, o tribunal palestino aplicou o artigo 195 do Código Penal da Jordânia, que pune as críticas ao rei jordaniano. O uso do direito jordaniano pelos juízes palestinos não é incomum. Além da Lei Básica estabelecida em 2002, a legislação palestina é um amálgama de normas egípcias e jordanianas e dos códigos remanescentes da era do Mandato Britânico. Contudo, com frequência, a aplicação da lei jordaniana pode ser usada contra os palestinos em disputas trabalhistas e crimes de “honra”, entre outros. “Meu filho só fez um comentário no Facebook”, disse o pai de Awad. “Não quis insultar o presidente. Peço a ele que intervenha pessoalmente para cancelar a decisão do tribunal”, acrescentou. A IPS não conseguiu falar diretamente com a família, considerando a probabilidade de as agências palestinas de inteligência estarem monitorando seus telefones, o que lhes criaria mais problemas. Awad já teve problemas com a inteligência palestina por criticar a ANP, sendo preso e depois solto sob fiança. “Isto não tem precedentes. É a primeira vez que se impõe esse castigo a um cidadão comum apenas por fazer um comentário sobre Abbas. O que colocou no Facebook não era nem grosseiro e nem crítico”, disse Riham Abu Aita, do Centro Palestino para o Desenvolvimento e a Liberdade de Imprensa. “No ano passado, dez jornalistas palestinos de Gaza e da Cisjordânia foram presos e interrogados por criticarem tanto o Movimento de Resistência Islâmica (Hamás) quanto a ANP. A liberdade de imprensa nos territórios palestinos começou mal 2013”, disse Aita à IPS. “O Hamás prendeu dezenas de jornalistas de Gaza e as forças israelenses de segurança cada vez apontam mais para os meios de comunicação palestinos e estrangeiros, porque tentam cobrir os crescentes protestos na Cisjordânia”, indicou. “No entanto, a ANP se tornou muito sensível nos últimos meses. Isto tem relação com a hipersensibilidade às críticas internacionais após ter obtido na Organização das Nações Unidas (ONU) o status de observador não membro, e também após a pressão que organizações palestinas e internacionais de direitos humanos exercem sobre ela”, afirmou Aita. Uma das estratégias da ANP para alcançar seu objetivo de um Estado palestino independente é se integrar ao Tribunal Penal Internacional, com maneira de pressionar Israel, que no trato que dispensa aos palestinos viola tratados de direitos humanos e infringe o direito internacional. O status da ANP na ONU é apenas de Estado observador não membro, mas mesmo assim pode ratificar cruciais tratados de direitos humanos, incluindo o Artigo 19 do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, que garante a liberdade de expressão. A ANP se comprometeu a defender os direitos humanos e ratificar várias convenções, mas não o fez em várias áreas. A organização Human Rights Watch afirmou que “é elogiável a direção palestina estudar os tratados; sua demora em ratificá-los inspira pouca confiança em seu compromisso de defender os direitos e as liberdades fundamentais”. “Outro assunto é o temor da ANP de ocorrer um levante popular na Cisjordânia após a Primavera Árabe que arrasou a região, ameaçando as ditaduras”, explicou Aita à IPS. “O governo de Abbas também gostaria de aparecer adotando uma postura mais moralista em relação ao Hamás, que nos últimos tempos foi criticado na imprensa por sua ofensiva contra a imprensa em Gaza”, acrescentou. Enquanto o aparato de segurança de Abbas consegue controlar, até certo ponto, os jornalistas e as diversas publicações na Cisjordânia, as redes sociais demonstram ser muito mais difíceis de controlar apesar da intensiva vigilância que sofrem. No ano passado as forças de segurança palestinas prenderam pelo menos três pessoas, em incidentes separados, acusadas de criticarem o governo nas redes sociais da internet. Um conferencista universitário palestino foi um dos detidos por insultar Abbas no Facebook. Ironicamente, embora a ANP incentive os palestinos a informarem sobre a corrupção, em abril de 2012 o blogueiro Jamal Abu Rihan foi preso por lançar uma campanha no Facebook pedindo o fim da corrupção. A agência de notícias Ma’na revelou evidências do bloqueio de oito sites críticos de Abbas, enquanto o colunista Jiahad Harb esteve dois meses preso acusado de difamação e calúnia, por apresentar dúvidas sobre favorecimentos dentro do escritório de Abbas. “Porém, os esforços da ANP para sufocar a crítica jornalística estão saindo mal”, pontuou Aita. “Quanto mais se ataca os jornalistas palestinos, mais partidários se voltam à liberdade de imprensa e mais determinados estão em apoiá-la”, enfatizou. Envolverde/IPS


por Mel Frykberg, da IPS
A polícia afegã não está preparada para manter a segurança no país. Foto: Giuliana Sgrena/IPS Inter Press Service - Reportagens

Estados Unidos abandonarão um Afeganistão quebradiço

[caption id="attachment_80593" align="alignleft" width="290" caption="A polícia afegã não está preparada para manter a segurança no país. Foto: Giuliana Sgrena/IPS"][/caption] Washington, Estados Unidos, 18/3/2013 – A retirada das forças norte-americanas do Afeganistão, que começou este ano e pela previsão deverá terminar em 2014, e a redução da ajuda deixarão o sistema político deste país da Ásia central sem legitimidade nem estabilidade, segundo especialistas, imprensa e diversos estudos. Apesar de receber dezenas de milhares de milhões de dólares de Washington, o governo afegão não conseguiu manter eficazmente projetos de desenvolvimento de infraestrutura, nem programas de capacitação e equipamento para a polícia e as forças de segurança, afirmam analistas. Grande parte disto se deve à corrupção dos empreiteiros norte-americanos, aos frouxos controles de Washington e Cabul e à debilidade inata do governo de Hamid Karzai, acrescentam os analistas. “Como se pagará tudo isso?”, pergunta Andrew Wilder, especialista afegão no Instituto para a Paz, dos Estados Unidos. “Esta é a questão crucial. Como se poderá pagar a polícia e os programas de infraestrutura quando os recursos fiscais diminuirão no próximo ano?”, insistiu. Para Vanda Felbab-Brown, especialista em Afeganistão na Brookings Institution, com sede em Washington, a ajuda norte-americana que inundou as províncias afegãs de Helmand e Kandahar, distorceu as economias locais e fez disparar a “competição pela pilhagem”, em lugar de trazer desenvolvimento sustentável. Se os Estados Unidos fecharem a torneira, acontecerá uma “devastadora restrição econômica no país, que poderá desestabilizá-lo politicamente”, alertou. As notícias sobre casos de corrupção de empreiteiros privados agravaram a preocupação. Em mais de uma dezena de informes trimestrais enviados ao Congresso dos Estados Unidos, 40% dos US$ 56 bilhões destinados a projetos civis no Afeganistão não puderam ser justificados pelo escritório do Inspetor Geral Especial para a Reconstrução Afegã (Sigar). A corrupção tanto de empreiteiros afegãos como norte-americanos consome grande parte da ajuda ao Afeganistão, segundo estudos, funcionários e analistas. Por outro lado, a polícia afegã não está preparada para enfrentar a responsabilidade de dar segurança. O contrato para treinar a polícia afegã custou aos contribuintes norte-americanos mais de US$ 9 bilhões, mas teve resultados mais do que decepcionantes, disse no Congresso a senadora Claire McCaskill, do governante Partido Democrata. No total, os Estados Unidos gastaram mais de US$ 29 bilhões nas forças de segurança afegãs, um terço desse valor com a polícia. O problema mais agudo está no fato de o governo afegão carecer de estruturas adequadas para supervisionar a reconstrução. Uma auditoria do Sigar de 2011 indica que o Ministério de Assuntos do Interior do Afeganistão é incapaz de determinar exatamente o número de funcionários policiais e não pode garantir para onde foi o dinheiro destinado aos salários. O informe indica ainda que há “empregados fantasmas”, que simplesmente não vão trabalhar ou que recebem cheques sob diferentes nomes. A auditoria também aponta que há importantes dúvidas sobre a capacidade do governo para manter mais de 800 instalações destinadas ao exército e à polícia, que estão sendo construídas com US$ 11,4 bilhões doados pelos Estados Unidos. Por exemplo, quando em 2012 inspetores visitaram uma instalação policial construída com US$ 7,3 milhões na província de Kunduz, e na qual deveriam ser abrigados 173 funcionários, foram encontradas apenas 12 pessoas. Outras instalações estavam fechadas, a polícia não tinha as chaves e ninguém sabia ao certo a destinação dos edifícios. Em fevereiro, auditores do Sigar revelaram que a polícia afegã não tinha meios para manter os 30 mil veículos que os Estados Unidos doaram para essa força em oito províncias. O Sigar informou que US$ 63 milhões destinados a reparos de veículos policiais foram malversados entre abril de 2011 e setembro de 2012. Segundo notícias da imprensa confirmadas por entrevistas, policiais afegãos usavam veículos fornecidos pelos Estados Unidos para uso pessoal. A auditoria encontrou deficiências nos inventários de peças de veículos e também descobriu que a Agência para a Administração de Contratos de Defesa nem sempre fez supervisões mensais às instalações, entre outras numerosas falhas. Enquanto isso, conforme a presença norte-americana diminui a segurança se deteriora. Uma das equipes de inspeção foi notificada de que uma localidade no norte do país estava além da “bolha” de segurança e que, portanto, “era inseguro visitá-la”. O inspetor-geral, John Sopko, disse em novembro no Stimson Center, uma organização de estudos de Washington, que a falta de segurança impediu que fossem examinadas 38 instalações, num total de US$ 72 milhões. “Estamos nos dando conta de que nem sempre podemos ter a proteção que precisamos para realizar nosso trabalho”, afirmou, ainda que Cabul se encontre dentro da “bolha”. E acrescentou que “sem uma adequada segurança a reconstrução será suspensa ou continuará sem a supervisão necessária”. Por outro lado, milhares de milhões de dólares terminaram em contas de políticos afegãos que viajaram ao exterior e nunca regressaram, dissera à IPS ex-funcionários de inteligência norte-americanos. Envolverde/IPS


por Richard Sale, da IPS
O agora papa Francisco, fotografado em 2008 em Buenos Aires. Foto: 3.0 CC BY-SA Inter Press Service - Reportagens

Oportuna rebelião do catolicismo argentino

[caption id="attachment_80588" align="alignleft" width="209" caption="O agora papa Francisco, fotografado em 2008 em Buenos Aires. Foto: 3.0 CC BY-SA"][/caption] Buenos Aires, Argentina, 18/3/2013 – O cardeal argentino Jorge Bergoglio foi eleito papa num momento em que a Igreja Católica de seu país enfrenta uma rebelião de laicos e religiosos que rechaçam o papel da hierarquia eclesiástica durante a última ditadura (1976-1983) e a falta de gestos que reparem omissões e cumplicidades do passado. As acusações contra Bergoglio por sua suposta vinculação com o regime, que deram a volta ao mundo ao ser conhecida sua escolha como novo pontífice, no dia 13, são apenas a ponta do iceberg de uma discussão que leva décadas sem chegar a uma conclusão e que está vindo à luz devido aos processos judiciais contra os repressores. Grupos como Padres em Opção pelos Pobres, Cristãos para o Terceiro Milênio ou Coletivo Teologia da Libertação, fazem ouvir julgamentos cada vez mais irados contra a insuficiente autocrítica da Conferência Episcopal Argentina (CEA), que há poucos meses divulgou um pedido de perdão e prometeu investigar a fundo. “É bom que se abra o debate, que comecemos a esclarecer o que aconteceu para que a verdade saia à luz. Seria muito saudável”, disse à IPS a pesquisadora Claudia Touris, da Universidade de Buenos Aires e coordenadora do Relig-Ar – Grupo de Trabalho em Religião e Sociedade na Argentina Contemporânea. A discussão que divide os católicos começou em razão de um documento divulgado em novembro pela CEA, no qual os prelados pedem perdão “a quem tenhamos fraudado ou não acompanhado como deveríamos” durante a ditadura. Também prometem “um estudo mais completo” para conhecer a verdade. O texto, divulgado como Carta ao Povo de Deus, com o título A fé em Jesus Cristo nos move rumo à verdade, à justiça e à paz, condena os crimes do “terrorismo de Estado”, mas os equipara com “a violência guerrilheira”, uma interpretação rechaçada pelos opositores do regime ditatorial. Os Cristãos para o Terceiro Milênio consideraram o texto “insatisfatório”, pois nega a conivência que existiu entre alguns prelados e a ditadura. Segundo seus signatários, todos laicos (católicos que não são membros do clero) deveriam “exigir” informação sobre os que foram capelães militares e “fazer cessar situações escandalosas que confundem e enfraquecem o Povo Peregrino”. Por sua vez, os Padres em Opção pelos Pobres disseram que ficaram “escandalizados por tantas atitudes contrárias ao Evangelho”, e porque o padre Christian Von Wernich, condenado pela justiça por violações dos direitos humanos, “não foi expulso do magistério”, e o ex-ditador Jorge Rafael Videla, culpado de múltiplos crimes de lesa humanidade e sem manifestar arrependimento, continua recebendo a comunhão. À véspera da escolha de Bergoglio como papa, este grupo de sacerdotes que vivem e trabalham em bairros pobres, protestou também porque, em razão de seus questionamentos ao documento da CEA, a cúria episcopal adotou represálias contra um dos religiosos descontentes. O bispo Francisco Polti, da província de Santiago del Estero, separou de sua paróquia o padre Roberto Burell, um dos signatários. “Não vamos dizer a vocês ‘estimados’ porque não estimamos os covardes”, começa que esse grupo de sacerdotes enviou ao episcopado, na qual fazem vigorosas críticas e alertam os prelados que quando deixarem de ser bispos “apenas terão o lamento dos poderosos, porque pobres, camponeses e indígenas vão comemorar”. Esse era o ambiente que se vivia entre os católicos da Argentina quando o conclave vaticano elegeu Bergoglio como novo papa. Segundo Claudia Touris, o documento da CEA foi tíbio para muitos católicos, embora se constituindo um chamado bastante novo aos que tiveram informação sobre desaparecimentos forçados ou apropriações de crianças, dois crimes habituais cometidos pela ditadura contra opositores. “É preciso ver se isto tem continuidade e se aprofundar”, ressaltou. Em sua opinião, não existiu uma posição unânime da Igreja frente aquele regime, e por isso houve coincidência ideológica de alguns bispos com os militares, que contribuíam para “varrer uma suposta infiltração comunista”, e também religiosos e laicos comprometidos com os perseguidos. No primeiro grupo, Touris mencionou prelados já falecidos, como o cardeal Raúl Primatesta, o vigário castrense Victorio Bonamín e os arcebispos Adolfo Tortolo e Antonio Plaza, apontados, e em alguns casos denunciados, por terem sido vistos em centros clandestinos de detenção. Porém, a pesquisadora recordou que houve bispos junto aos perseguidos, como Jaime de Nevares, Jorge Novak ou Miguel Hesayne, e também dezenas de sacerdotes, freiras, seminaristas e laicos que foram sequestrados, assassinados, se exilaram ou permanecem desaparecidos. Dois bispos são considerados mártires por se oporem à ditadura. O primeiro é Enrique Angelelli, da diocese da província de La Rioja, morto em 1976 em um suposto acidente automobilístico que se suspeita ter sido um assassinato. O outro é Carlos Ponce de León, bispo da localidade de San Nicolás, em Buenos Aires, também morto em um suspeito acidente em 1977. Bergoblio era nessa época provincial da Companhia de Jesus. Dois sacerdotes dessa ordem, que trabalhavam em bairros pobres, foram sequestrados. O agora papa Francisco é apontado por alguns como responsável por entregá-los, porém, outros asseguram que, pelo contrário, sua influência os resgatou. Touris recordou que o superior da ordem dos jesuítas era o espanhol Pedro Arrupe, que exortava os padres a assumirem um compromisso político e social, e em razão disso os jesuítas foram a ordem mais perseguida, torturada e com desaparecidos na América Latina e no Caribe na década de 1970. Na Argentina, sob a liderança de Bergoglio, a ordem teve uma posição mais tradicional, segundo a pesquisadora. Bergoglio na época exortava os sacerdotes mais comprometidos a abandonarem sua tarefa social como forma de evitar a repressão, segundo ele mesmo declarou em sua defesa. O ativista pelos direitos humanos Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz de 1980 e um católico ativo, afirmou após a eleição de Francisco que “a Igreja Católica não teve atitudes homogêneas” diante do regime e que houve “indiscutíveis cumplicidades de boa parte da hierarquia eclesiástica”. Entretanto, assegurou que Bergoglio “não foi cúmplice da ditadura”. “Creio que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis, afirmou o dirigente humanitário em um comunicado de sua organização, o Serviço de Paz e Justiça na Argentina. Envolverde/IPS


por Marcela Valente, da IPS
A abordagem de desenvolvimento humano olha para as oportunidades e capacidades das pessoas.Foto: Kenia Ribeiro/CNM/PNUD Brasil. Inter Press Service - Reportagens

“O Sul se desenvolve a um ritmo e escala sem precedentes”

[caption id="attachment_80458" align="alignleft" width="246" caption="“Nunca na história as condições de vida e as perspectivas de tantas pessoas mudaram de forma tão dramática e rápida”, ressaltou Malik. Foto: Cortesia PNUD"][/caption] Nações Unidas, 15/3/2013 – As 132 nações em desenvolvimento emergem a um ritmo “sem precedentes em sua velocidade e escala”, indica o último Informe sobre Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado ontem. E “nunca na história as condições de vida e as perspectivas de tantas pessoas mudaram de forma tão dramática e rápida”, disse Khalid Malik, autor principal do estudo, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). “Sem dúvida alguma, as três maiores economias do Sul – China, Índia e Brasil –, são as forças motoras deste fenômeno, devido tanto ao seu enorme tamanho como pela velocidade de seu processo geral em desenvolvimento humano”, apontou Malik, diretor do Escritório do IDH, em entrevista à IPS. Até 2020, a produção econômica combinada dessas três nações emergentes ultrapassará as de Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Itália juntos, diz o estudo de 203 paginas. E “grande parte desta expansão é impulsionada por novas associações comerciais e tecnológicas com o próprio Sul”, segundo o IDH. Os cinco primeiros lugares no Índice de Desenvolvimento Humano, com 187 países, estão ocupados por nações do Norte: Noruega, Austrália, Estados Unidos, Holanda e Alemanha. No fim da lista estão Estados do Sul: Burkina Faso, Chade, Moçambique, República Democrática do Congo e Níger. Porém, Malik destacou que o IDH 2013 identifica mais de 40 países em desenvolvimento, em todos os continentes, que melhoram seu desempenho em desenvolvimento humano, um progresso que se acelera particularmente desde 2000. O estudo indica que o Sul “se desenvolve a um ritmo sem precedentes na história humana, com centenas de milhões de pessoas saindo da pobreza e outros milhares de milhões destinados a se integrarem a uma nova classe média mundial”. IPS: O sul inclui países como México, Coreia do Sul e Chile, mas, como justifica sua categorização quando o México deixou o grupo dos 77 países em desenvolvimento para unir-se ao mundo industrial em 1994, a Coreia do Sul o fez em 1996 e o Chile em 2010? Khalide Malik: Os termos Sul e Norte são usados no informe para distinguir entre as nações industrializadas já historicamente estabelecidas como tais (as desta última categoria) e as economias emergentes mais recentes. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), considerada o clube dos ricos, também inclui México, Coreia do Sul, Chile e Turquia, todos países que integram o Sul em seu sentido amplo. As origens geográficas e as conotações dos termos são, naturalmente, inexatas. Austrália e Nova Zelândia são considerados países do Norte. [caption id="attachment_80463" align="alignright" width="330" caption="A abordagem de desenvolvimento humano olha para as oportunidades e capacidades das pessoas. Foto: Kenia Ribeiro/CNM/PNUD Brasil."][/caption] IPS: O IDH coloca como referência do progresso do Sul temas de governança, como democracia multipartidária, direitos humanos e transparência. Como justifica, então, que a China, considerada pelo Ocidente um regime não democrático e sem liberdade de imprensa, surja como a segunda economia mundial? Não deveria ser a democracia multipartidária uma parte integral do processo econômico no Sul? KM: O informe de 2013 identifica mais de 40 países em desenvolvimento, incluindo a China, que fizeram destacados avanços em desenvolvimento humano nas últimas décadas, progresso que foi acelerado nos últimos dez anos. Esses países representam uma variedade de histórias nacionais e sistemas políticos em evolução. A maioria deles, embora nem todos, seria caracterizada hoje como democracia multipartidária. O informe defende fortemente a favor de dar às pessoas maior voz e mais oportunidades para uma participação significativa na vida civil, o que tem sido por muito tempo a filosofia do desenvolvimento humano. O informe diz que a melhoria nos padrões de vida e nos níveis de educação deriva em maiores expectativas e mais demandas para os governos em termos de responsabilidade e efetiva prestação dos serviços sociais. O fato de que alguns “Estados desenvolvimentistas” (que promovem sua industrialização e desenvolvimento autônomo) não foram democracias em diferentes fases de sua evolução fomentou a ideia equivocada de que a maioria dos mais efetivos Estados desenvolvimentistas são tipicamente autocráticos. Mas a evidência da suposta relação entre autoritarismo e desenvolvimento é escassa. Países democráticos como Estados Unidos e Japão, depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tiveram grande êxito como Estados desenvolvimentistas. Desde a década de 1950, os países escandinavos atuaram também como Estados desenvolvimentistas, onde a legitimidade política deriva dos serviços sociais e do pleno emprego, e não de um crescimento rápido. No Brasil, México, Chile, e em outros países da América Latina, o progresso do desenvolvimento humano se acelerou desde a consolidação dos governos civis democraticamente eleitos nas últimas duas décadas. A cultura política chinesa está evoluindo rapidamente, enquanto os padrões de vida melhoram, com uma sociedade cada vez mais informada e que cada vez exige mais prestação de contas do governo. A Índia, uma das principais forças do Sul emergente, é a maior democracia representativa do mundo por mais de seis décadas. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
A refinaria cubana de Cienfuegos, reativada com apoio da cooperação venezuelana. Foto: Jorge Luis Baños /IPS Inter Press Service - Reportagens

América Latina não teme perder cooperação energética da Venezuela

[caption id="attachment_80453" align="aligncenter" width="430" caption="A refinaria cubana de Cienfuegos, reativada com apoio da cooperação venezuelana. Foto: Jorge Luis Baños /IPS"][/caption]   Santiago, Chile, 15/3/2013 – A Venezuela manterá firme as políticas de integração energética regional impulsionadas pelo ex-presidente Hugo Chávez, no caso de seu sucessor ser o agora presidente interino, Nicolás Maduro, afirmaram especialistas em relações regionais à IPS. Isto apesar das crescentes dificuldades econômicas internas, que podem colocar o país em uma posição complexa para manter compromissos de cooperação externa. “Pode ser que a Venezuela diminua sua ajuda a outros países para enfrentar seus problemas internos, mas não em troca de perder sua influência e seu protagonismo regional e internacional”, disse à IPS o especialista em Ciências Políticas da Universidade Diego Portales, Sébastien Dubé. Ele acrescentou não ter dúvidas de que caso Maduro triunfe, como se prevê, nas eleições presidenciais de 14 de abril, e que existirá uma continuidade na política externa venezuelana e, em particular, na cooperação energética externa. O rival de Maduro é o governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, derrotado por Chávez nas eleições de 7 de outubro. Os analistas acreditam que, salvo surpresas, a emoção do eleitorado chavista pela morte de seu líder, no dia 5, impulsionaria a vitória do atual ocupante do cargo em eleições tão próximas. “Maduro vai querer manter a influência geopolítica que o protagonismo de Chávez deu à Venezuela”, afirmou Dubé ao recordar que foi seu chanceler de 2006 até janeiro, explicando que “a ideologia do governo Venezuela diz que, se o projeto político implica continuar com déficit fiscal, assim será”. A integração regional energética foi um dos projetos nos quais foi dada maior ênfase por Hugo Chávez, que governou a potência petroleira que é seu pais desde 1999 até sua morte. Por meio da política de integração e cooperação energética que impulsionou a estatal Petróleos da Venezuela (PDVSA), Chávez pretendeu uma distribuição da energia para o desenvolvimento das nações com mais dificuldades para pagar a conta de energia. Um dos exemplos mais visíveis é a aliança energética Petrocaribe, uma iniciativa vigente desde 2005 da qual participam 18 países, mediante a qual a Venezuela fornece até 185 mil barris (de 159 litros) diários de petróleo. O acordo estabelece financiamento de até 50% da conta do petróleo, com até 25 anos de prazo, um ano de carência e taxa de 2% ao ano. Este programa estendeu, em países e benefícios, o Pacto de San José, pelo qual, desde 1984, México e Venezuela forneciam conjuntamente petróleo em condições preferenciais a 11 nações centro-americanas e caribenhas. Para o economista Manuel Riesco, do Centro de Estudos Nacionais de Desenvolvimento Alternativo (Cenda), Chávez, “como bom militar e discípulo privilegiado de Símon Bolívar, deu a devida importância a um elemento crucial da estratégia desenvolvimentista estatal latino-americana: a integração regional”. “A integração é inquestionável para a América Latina, para compensar em parte a enorme atração gravitacional que exerce nosso gigantesco vizinho do norte (Estados Unidos), que constantemente atrai nossos países individualmente para sua órbita”, destacou Riesco. Também é indispensável para “criar condições para competir em boas condições no mercado mundial do século 21, formado por gigantescos Estados-mercados de centenas de milhões de habitantes”, acrescentou. Desde a década anterior, a Venezuela promoveu adicionalmente acordos especiais de cooperação energética com Argentina, Uruguai, Equador, Colômbia, Peru e Brasil. Com este último foi acordada a construção da empresa mista Refinaria Abreu e Lima, a cargo de PDVSA e Petrobras. Graças aos altos preços petroleiros, a Venezuela “pôde ser um alívio para os países da América Latina que tinham acesso preferencial ao seu petróleo, mas é preciso ver se esta política é sustentável no tempo”, advertiu o economista Alfonso Dingemans, doutor em Estudos Americanos do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Santiago. Somente o tempo dirá se as circunstâncias políticas e econômicas da Venezuela permitem “que se institucionalize algo que até o momento foi sustentado apenas pelo carisma e pela liderança de Chávez”, pontuou Dingemans à IPS. “Duvido que Maduro tenha a mesma capacidade política para continuar desenvolvendo este programa bolivariano (de cooperação energética) e que o povo venezuelano aceite todos os custos que isto significa. Em algum momento os custos serão insustentáveis”, ressaltou Dingemans. No entanto, segundo Dubé, para um provável governo de Maduro, “romper com seus compromissos seria um sinal de fracasso, o que tentará evitar a todo custo. A estratégia é que os preços do petróleo podem voltar a subir” acima dos US$ 100, com aumento da demanda mundial, o que facilitaria à Venezuela manter intatos acordos que “são importantes para manter seus vínculos e sua influência sobre os países que se beneficiam de sua ajuda”, observou. Mas Dubé reconheceu que o sucessor de Chávez também enfrentará internamente uma realidade de maiores dificuldades, por demandas de sua própria população, em um contexto econômico com variados problemas represados, como o alto índice de inflação, os impactos da desvalorização monetária de fevereiro ou a queda do poder aquisitivo. “O cenário da Venezuela é complexo” e isso pode acarretar dificuldades aos países beneficiários de sua cooperação, apontou Dubé. “Nenhum outro país da (Alba) Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América tem capacidade energética ou financeira para dar o apoio que a Venezuela lhes dá agora”, acrescentou. A Alba, atualmente com oito membros plenos, foi promovida por Caracas em 2004 e tem sua ênfase na luta contra a exclusão social na projeção da chamada revolução do século 21. Um de seus membros, Cuba, poderia ser especialmente afetada por uma mudança de estratégia na política de integração da Venezuela. Atualmente recebe pelo menos 53 mil barris diários de petróleo, em condições especiais, dentro de uma série de acordos bilaterais de cooperação. “A ajuda que o governo de Chávez dá a Cuba é muito importante para a economia cubana. O perigo é que, se esse apoio desaparecer ou diminuir, essa economia fique novamente ressentida”, opinou Dingemans. Riesco ressaltou que os acordos energéticos estabelecidos por Chávez não representam subsídios unilaterais da Venezuela a outros países. “Por exemplo, os favoráveis mas razoáveis preços de longo prazo no abastecimento de petróleo para Cuba são compensados, em parte, pelo significativo valor da contribuição dos médicos cubanos que trabalham na Venezuela”, detalhou. Dubé, no entanto, concorda que a cooperação entre Caracas e Havana é recíproca, e que os dois países se necessitarão no futuro. “Politicamente, Maduro precisa do apoio estratégico, político e ideológico dos irmãos Castro (Fidel e Raúl) para manter sua influência continental”, afirmou Dubé. Mas, a seu ver, uma eventual vitória de Capriles poderia causar “uma mudança radical na política externa venezuelana, com um realinhamento com os Estados Unidos e países de economia liberal, e o fim dos subsídios a Cuba e aos países da Alba”. Riesco prevê que as políticas de integração construídas por Chávez continuarão de uma ou de outra forma, “porque obedecem aos interesses estratégicos mais profundos da região e também da Venezuela”. Envolverde/IPS


por Marianela Jarroud, da IPS
nuclear Inter Press Service - Reportagens

Fukushima e os negócios nucleares

Uxbridge, Canadá, 15/3/2013 – Dois anos depois do desastre ocorrido na central nuclear de Daiichi, em Fukushima, o Japão enfrenta custos entre US$ 100 bilhões e US$ 250 bilhões com limpeza e compensações, além de ter milhares de refugiados e os impactos generalizados da radiação. A indústria nuclear e seus fornecedores ganharam milhares de milhões com a construção e operação dos seis reatores de Fukushima, no entanto são o governo japonês e seus cidadãos que estão paralisados pelas caras consequências do acidente. “As vidas das pessoas ficaram destruídas, e estaremos pagando bilhões de ienes dos contribuintes em razão do desastre em Fukushima”, disse Hisayo Takada, ativista em assuntos de energia do capítulo japonês do Greenpeace. “A indústria nuclear, mais que a Tepco (Companhia Elétrica de Tóquio), não paga nada, já que está especialmente protegida pela lei”, pontuou Takada à IPS. No dia 11 de março de 2011, o Japão sofreu um terremoto de nove graus que causou o tsunami que danificou a central nuclear. Três de seus reatores colapsaram e o quarto ficou danificado. O acidente foi qualificado de nível máximo (sete) pela escala da Agência Internacional de Energia Atômica, igual ao ocorrido na central ucraniana de Chernobil, em 1986. Um ano depois do desastre japonês, a Tepco passou para as mãos do governo, porque não podia enfrentar os custos que implicava o controle dos reatores danificados. Em junho passado, a empresa recebeu quase US$ 50 bilhões do governo. Os seis reatores foram projetados pela norte-americana General Electric (GE). Esta empresa também forneceu os reatores atuais para as unidades um, dois e seis, enquanto as firmas japonesas Toshiba e Hitachi forneceram as unidades três e cinco, e a quatro, respectivamente. Estas empresas, bem como outros fornecedores, estão isentas de responsabilidades ou custos segundo as leis japonesas. Muitas delas, incluídas GE, Toshiba e Hitachi, na verdade estão ganhando dinheiro a partir do desastre, ao participar das operações de descontaminação e desmantelamento, afirma um documento do Greenpeace Internacional. “A indústria nuclear e os governos projetaram um sistema de responsabilidade nuclear que protege a indústria e obriga a população a pagar a conta por seus erros e desastres”, diz o informe Fukushima Fallout. “Se a energia nuclear é tão segura como a indústria sempre afirma, então por que insistem com os limites para a responsabilidade e com as isenções?”, questionou Shawn-Patrick Stensil, analista de temas nucleares do Greenpeace Canadá. Os proprietários e operadores de usinas nucleares em muitos países têm um teto de responsabilidade sobre quanto serão obrigados a pagar em caso de acidente. No Canadá este teto é de apenas US$ 75 milhões. Na Grã-Bretanha, de US$ 220 milhões. Nos Estados Unidos, cada dono de reator coloca US$ 100 milhões em um fundo de seguro para todo risco. No total, esse fundo é de aproximadamente US$ 10 bilhões. “Os fornecedores são indenizados mesmo sendo negligentes”, explicou Stensil à IPS. É preciso que os operadores nucleares japoneses aportem US$ 1,5 bilhão de seguro, muito longe dos US$ 100 bilhões e US$ 250 bilhões estimados como necessários para cobrir os custos em Fukushima. Fornecedores como a GE estão explicitamente isentos de toda responsabilidade, embora defeitos em seus equipamentos contribuam para o desastre. “As leis do Canadá e do Japão estão projetadas para proteger as companhias nucleares, não as pessoas que vivem perto de seus reatores”, apontou Stensil. Os níveis de radiação nas proximidades dos reatores de Fukushima ainda são altos, muito para os seres humanos que trabalham na área. A Organização Mundial da Saúde alertou que um terço dos trabalhadores correm maiores riscos de terem câncer. Nem os robôs utilizados, nem as câmeras de longa distância podem revelar o estado do combustível nuclear danificado. Este ainda está quente e exige enormes quantidades de água para esfriar, mas a usina está ficando sem espaço de armazenamento para a água radioativa. A gerência da Tepco reconheceu que a remoção dos 11 mil elementos de combustível radioativo não começará antes de 2021. O desmantelamento de toda a central consumirá pelo menos 40 anos. “Alertamos que as usinas nucleares do Japão podem ser submetidas a terremotos muito mais fortes e tsunamis muito maiores do que foram projetadas para suportar”, disse Philip White, do não governamental Centro Cidadão para a Informação Nuclear, com sede em Tóquio. “Surpreendentemente, este risco de colapso causado por um tsunami era anunciado desde 2008, em documentos emitidos pela Organização de Segurança da Energia Nuclear do Japão, mas os donos das centrais efetivamente ignoraram esta contingência”, informou Alexander Likhotal, presidente da Green Cross International. “O que causou semelhante desastre foi a falha humana de não adotar medidas adequadas em matéria de segurança contra ameaças naturais conhecidas e altamente possíveis”, destacou Likhotal em um comunicado. Os terremotos são comuns no Japão, onde nos últimos dois anos foram registrados quase 2.500 sismos. Depois de Fukushima, foram fechados os 50 reatores nucleares do país, que forneciam 30% de toda a eletricidade. Apenas dois voltaram a operar. Nos meses posteriores ao desastre, o governo japonês lançou um ambicioso plano de energia renovável e eliminou a nuclear. Até agora foram habilitados cerca de 3,6 gigawatts de energia solar, eólica e geotérmica. O objetivo é chegar a 35% de fontes renováveis até 2030. Porém, com a recente eleição do conservador primeiro-ministro Shinzo Abe, o governo volta a estar a favor da energia nuclear. Os operadores das centrais atômicas, que prometem melhorar a segurança, teriam permitido o reinício das operações. “Não creio que seja lógico fazer isto desta maneira”, opinou Takada, do Greenpeace. Envolverde/IPS


por Stpehen Leahy, da IPS
agua2 Educação

“A água é um recurso para a cooperação”

[caption id="attachment_80438" align="alignleft" width="300" caption="“A água atua como elemento unificador”, disse Bokova. Foto: UN Photo/Mark Garten"][/caption] Nações Unidas, 15/3/2013 – O que têm a ver educação, ciência e cultura com os recursos mais escassos e finitos do planeta? Muito, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), que designou a Unesco como agência líder para promover 2013 como Ano Internacional da Cooperação na Esfera da água. Consultada pela IPS se a água é mais uma área de potenciais conflitos do que de coopeação, a diretora-geral da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), Irina Bokova, afirmou: “A água atua como elemento unificador”. Bokova destacou que a história demonstra que as disputas pela água são resolvidas inclusive entre os inimigos mais acirrados, e mesmo que o conflito possa envolver outros temas. “Alguns dos inimigos mais intransigentes do mundo negociaram acordos pela água ou estão em processo de fazê-lo”, destacou esta ex-chanceler búlgara que estudou nas universidades de Maryland e Harvard, nos Estados Unidos. “Em geral, se diz que a água pode ser uma fonte de conflito. Mas na Unesco somos guiados pela ideia oposta. Queremos ver a água como um tremendo recurso para a cooperação, para o intercâmbio e o trabalho conjunto entre os Estados e as sociedades”, ressaltou Bokova, primeira mulher a liderar a Unesco, e espera-se que inicie um segundo mandato de quatro anos a partir de outubro. A Organização das Nações Unidas (ONU) indicou que o Ano Internacional da Cooperação na Esfera da Água destacará iniciativas de sucesso em colaboração neste campo, além de enfatizar “temas importantes sobre educação, diplomacia, administração transfronteiriça, cooperação financeira, marco legal nacional e internacional e vínculos com as Metas do Milênio”. Segundo Bokova, “Precisamos de uma nova visão que coincida com a igualdade social, a proteção ambiental e o desenvolvimento econômico sustentável”. IPS: Quais são atualmente as áreas específicas de cooperação entre os países em matéria de água? Irina Bokova: O Comitê do Mekong funciona desde 1957, e trocou informação durante toda a Guerra do Vietnã. Foram realizadas reuniões secretas entre Israel e Jordânia desde as fracassadas negociações de Johnston entre 1953 e 1955, ainda quando esses países estavam em guerra. A Comissão do Rio Indo sobreviveu a duas guerras entre Índia e Paquistão, e os dez países banhados pelo Nilo agora participam de negociações para cooperarem na exploração de sua bacia. Há numerosos exemplos nos quais recursos hídricos transfronteiriços são fonte de cooperação em lugar de conflito. Entre 1820 e 2007 foram assinados aproximadamente 450 acordos sobre águas internacionais. IPS: São viáveis os esforços da ONU para fomentar a cooperação na esfera da água em um contexto de conflitos por esse recurso, como os existentes entre Índia e Paquistão e Israel com Jordânia e Palestina? IB: O papel da ONU é oferecer uma plataforma para o diálogo e a comunicação por meio das ferramentas que estão disponíveis. Cada agência facilita a cooperação a partir de um ângulo específico de intervenção. A Unesco, por exemplo, utiliza a educação e a ciência como meios para intervir em uma situação na qual é preciso estabelecer ou fortalecer a cooperação. Dois programas únicos proporcionam aos Estados-membros informação científica necessária para todo tema de administração da água em qualquer nível, seja local, nacional, regional ou internacional. O Programa Hidrológico Internacional é o único plano científico cooperativo intergovernamental que procura ajudar os Estados-membros a administrarem seus recursos de água e atenderem as necessidades de seus povos por meio da ciência e da educação. Em segundo lugar há o Programa Mundial de Avaliação dos Recursos Hídricos, que proporciona informação valiosa e avaliações regulares dos recursos de água no planeta, sem a qual os que tomam as decisões não poderiam avançar em sua tarefa. IPS: Algum exemplo concreto? IB: O programa Do Conflito Potencial Para a Cooperação Potencial, da Unesco, facilita o diálogo interdisciplinar e em vários níveis para fomentar a paz, a cooperação e o desenvolvimento, fortalecendo capacidades para administrar recursos hídricos transfronteiriços. Por exemplo, pesquisas no Lago Titicaca envolveram atores tanto da Bolívia quanto do Peru, e foi preparado um documento conjunto detalhando o estado do conflito e da cooperação nesse corpo de água transfronteiriço. Em 1992, esses dois países criaram a Autoridade Binacional Autônoma do Lago Titicaca, reconhecendo a importância da administração conjunta. Outro exemplo: os países árabes cooperam na administração de recursos hídricos compartilhados por meio de vários fóruns intergovernamentais. Um deles é o Conselho Ministerial Árabe para a Água, que adotou a Estratégia para a Segurança da Água na Região Árabe, procurando enfrentar os desafios e as futuras necessidades do desenvolvimento sustentável entre 2010 e 2030. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
paz Inter Press Service - Reportagens

Rumo à paz, rebeldes curdos liberam reféns turcos

Doha, Catar, 14/3/2013 (IPS/Al Jazeera) – Rebeldes curdos libertaram oito reféns turcos em resposta a um chamado para troca de presos feito pelo dirigente Abdalá Ocalan, que está preso. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) libertou ontem vários efetivos e um funcionário, dentro de um processo de paz com o governo da Turquia, que tem a esperança de conseguir um cessar-fogo em agosto próximo. Os reféns foram soltos no Iraque e chegaram à Turquia na tarde de ontem. Ocalan teria iniciado conversações secretas com as autoridades turcas para acabar com o conflito que dura 29 anos, em um processo que desemboque em um acordo em outubro. O trato para libertar os reféns foi considerado um gesto de boa vontade da proposta apresentada por Ocalan, informou, da cidade turca de Antakya, o jornalista da rede de televisão árabe Al Jazeera, Omar al Saleh. “Isto nos leva a um passo mais importante, que pode ocorrer na próxima semana, segundo Ocalan, como um anúncio de cessar-fogo do PKK”, informou Saleh. Os reféns se reuniram com suas famílias em Zakho, um distrito do Curdistão iraquiano, região autônoma no norte desse país, e entraram na Turquia a partir do distrito de Jabur. Saleh acrescentou que Ocalan planeja que a declaração de cessar-fogo ocorra nos próximos meses, em meados de agosto. “Depois o PKK chamaria seus combatentes a abandonarem o território turco, se retirar e depor as armas”, destacou. A Turquia ainda não informou o que ofereceu em troca, mas se especula sobre mudanças na Constituição, como o reconhecimento da existência do povo curdo, uma das principais demandas dessa comunidade. As pessoas libertadas foram identificadas como Zihni Koc, Abdullah Sopceler, Kemal Ekinci, Nadir Ozgen, Kenan Erenoglu, Resat Cacan, Ramazan Basaran e Hadi Gizli. A quantidade total de reféns sob custódia do PKK é alvo de disputa. A imprensa turca falem números que variam de dez a 20 pessoas. Os reféns foram sequestrados em diferentes datas no sul e sudeste do país, em cidades como Diyarbakir, Van, Mus, Bingol e Sirnak. A libertação estava prevista para o dia 12, mas atrasou por “questões técnicas”, segundo o Partido pela Paz e a Democracia (BDP), simpatizante do povo curdo. O porta-voz do partido, Cemal Coskun, disse à agência de notícias Firat que a delegação encabeçada por esse partido se dirigira à cidade iraquiana de Arbil para a libertação. “Esperamos que os poderes que desejam a paz e a democracia considerem o gesto e acelerem os passos para a paz”, declarou à agência. Também viajaram à cidade iraquiana representantes do Ministério do Interior e de duas organizações não governamentais. As duas partes concordaram em que o fato deve ser interpretado como uma medida para gerar confiança, dentro dos novos esforços para acabar com o conflito. A libertação dos reféns ocorreu após uma chamada feita em fevereiro pelo líder curdo Ocalan, da prisão turca onde se encontra. Também teria dito que as duas partes têm prisioneiros e que espera que se reencontrem com seus familiares. Besir Atalay, vice-primeiro-ministro turco, disse que a iniciativa deveria ser considerada como um gesto de boa vontade no processo atual. Mas descartou a possibilidade de que o governo tenha feito concessões secretas pela libertação. “Há um grande apoio da população, expectativa e esperanças”, disse Atalay à agência de notícias estatal Anatolia. As conversações de paz entre Ocalan e o governo turco recomeçaram no final do ano passado, com o objetivo de pôr fim a quase três décadas de violência, que causaram 45 mil mortes, desde que o PKK pegou em armas em 1984. Ocalan está preso há 14 anos por traição. Se prevê que chame o proscrito PKK a acatar um cessar-fogo temporário, cujo início está previsto para o dia 21, quando se comemora o ano novo curdo. Envolverde/IPS * Artigo publicado sob acordo com a Al Jazeera.


por Correspondentes da IPS
solar Inter Press Service - Reportagens

Indígenas chilenas instalam energia solar no deserto de Atacama

[caption id="attachment_80309" align="aligncenter" width="500" caption="As cinco indígenas chilenas antes de viajarem para a Índia. Foto: Cortesia Serviço Nacional da Mulher"][/caption]   Santiago, Chile, 14/3/2013 – Três povoados indígenas do altiplano do Chile acabam de receber equipamentos de energia solar. As destinatárias são cinco moradoras que cruzaram o planeta e as barreiras idiomáticas para aprender na Índia técnicas fotovoltaicas que agora aplicam em suas aldeias. As atacamenhas Luisa e Liliana Terán, primas da comunidade Caspana, as quechuas Elena Achú e Elvira Urrelo, de Ollagüe, e a aymara Nicolasa Yufla, de Toconce, têm o desafio de instalar esses equipamentos e revelar seus mistérios aos habitantes dos três povoados, com pouco menos de mil pessoas. Nessas localidades, a mais de três mil metros de altitude e quase no limite com a Bolívia, não há eletricidade e a água escasseia. “Temos luz por gerador apenas duas horas e meia por dia à noite”, contou à IPS por telefone a artesã em pintura rupestre Luisa Terán. No ano passado, as cinco viajaram para a aldeia indiana de Tilonia, no Estado de Rajastã, onde fica a sede do Barefoot College (Universidade Descalça). Ali, durante seis meses treinaram para instalar painéis solares, fabricar lâmpadas e fazer manutenção. “Recebemos a informação de que procuravam mulheres entre 35 e 40 anos para se capacitarem na Índia. No começo me interessei, mas quando soube que eram seis meses, duvidei. Era muito tempo longe da família”, contou Terán. Incentivada por sua irmã, que cuidou de suas duas filhas, e de sua mãe, decidiu fazer a viagem, mas saiu de seu povoado sem contar a mais ninguém. Agora, teme ter esquecido o que aprendeu, após seis meses sem aplicar seus conhecimentos. “Sabia o que enfrentaria, mas demorei três meses para me adaptar, principalmente à comida e ao imenso calor que fazia”, afirmou. As cinco partiram em 15 de março de 2012, por meio de uma iniciativa organizada pelo Barefoot College, o chileno Serviço Nacional da Mulher (Sermam), a Secretaria Regional Ministerial de Energia e a empresa italiana Enel Green Power, que doou o equipamento. Cada kit solar que chegou este mês às comunidades consta de um painel de 12 watts, uma bateria de 12 watts, uma lâmpada LED de quatro amperes e uma caixa de controle de oito amperes. O Barefoot College, criado em 1972, trabalha com comunidades rurais vulneráveis e inacessíveis, e em particular com as mulheres. Até o momento, 700 mulheres de 49 países da Ásia, África e América Latina fizeram o curso para se converterem em “engenheiras solares descalças”. Isto as faz responsáveis por instalar, reparar e dar manutenção às unidades fotovoltaicas em suas aldeias, por um período mínimo de cinco anos, e montar uma oficina eletrônica rural, onde guardar os componentes necessários e que funcione como uma minicentral elétrica com potência de 320 watts/hora. Graças a esta e outras iniciativas solares do Barefoot, 450 mil pessoas tiveram acesso à eletricidade em diferentes regiões, o que representa redução nas emissões de dióxido de carbono, procedentes da queima de combustível e lenha, de 13 toneladas por dia. Na América Latina o objetivo do projeto é levar energia a mil residências. No Chile, “é muito importante as comunidades conhecerem o potencial que temos no desenvolvimento de energias renováveis e, particularmente, em projetos de energia solar”, disse à IPS o secretário regional ministerial de Energia para a Macro Zona Norte, Carlos Arenas. Essa região possui um vasto potencial, especialmente no deserto de Atacama, que concentra a maior radiação do planeta, de entre sete e 7,5 quilowatts/hora por metro quadrado, segundo estudos da Universidade do Chile. Se ali forem instalados painéis fotovoltaicos cobrindo uma área de 400 quilômetros quadrados, será possível abastecer o consumo elétrico nacional. mas a grande demanda do norte corresponde à indústria da mineração, que absorve 90% da geração, enquanto a porcentagem restante destina-se a usos residenciais, comerciais e públicos. “Nosso sistema está se desenvolvendo e em muitos povoados se obtém eletricidade por geradores à base de combustíveis fósseis, como o diesel, e em alguns casos estamos complementando com fontes renováveis, particularmente a eólica e a solar”, afirmou Arenas. Por isso “demos apoio à iniciativa, uma experiência muito enriquecedora para as próprias pessoas que vivem em localidades tão afastadas e têm um fornecimento descontínuo e, em alguns casos, com altos custos”, destacou. Quando as chilenas chegaram à Índia, descobriram que a instrução era em inglês. Tiveram muita dificuldade para entender, contou Terán, mas finalmente conseguiram se comunicar por sinais, gestos e desenhos. Também encontraram um entorno radicalmente diferente do de suas aldeias. “Havia muitos bichos, lagartos e outros animais. Dormíamos em colchonetes, em camas de madeira muito dura. Além disso, a pobreza era tremenda”, observou. No grupo havia cinco indígenas do Peru “que estavam tristes, chorando”, disse Terán. Mas agora essas mães e avós peruanas já fazem funcionar a energia solar na aldeia de Japopunco, a 4.800 metros de altitude, onde também cada uma recebeu seu equipamento, acrescentou. “São mulheres com habilidades, que moram em lugares muito afastados, por isso a experiência pessoal foi incrível”, disse à IPS a diretora do Departamento de Mulher e Trabalho do Sermam, Paola Diez. Sua instituição e a Corporação Nacional de Desenvolvimento Indígena implantam um plano para capacitar as mulheres indígenas de todo o país em matéria de empreendimentos sustentáveis, superando a subsistência. A iniciativa objetiva a inserção profissional feminina, que no Chile é de 47,7% e que o governo busca elevar a 50%. Terán já pode aplicar seus conhecimentos em Caspana. “A ideia é começar entregando luz às nossas casas e, talvez mais adiante, possamos instalar um refrigerador, como todas e todos queremos”, afirmou. Também “desejamos oferecer nossa experiência, mas precisamos de ajuda para começar a fabricar lâmpadas solares e vendê-las. Além disso, as pessoas querem que as capacitemos para fazerem a instalação em suas casas”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Marianela Jarroud, da IPS

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Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

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Observações

 
A pesca contribui com pelo menos US$ 10 bilhões a cada ano para as economias da África, especialmente as de Angola e Namíbia. Foto: Patrick Burnett/IPS

FAO: Priorizar o desenvolvimento sustentável da pesca e aquicultura é necessário para melhorar os níveis de segurança alimentar da América Latina e do Caribe.

Parque eólico em Tianjin, na China, que é o maior fabricante mundial de turbinas eólicas e painéis solares. Foto: Mithc Moxley/IPS

China chega a 92 GW em capacidade eólica instalada. Foto: Parque eólico em Tianjin/ Mithc Moxley/IPS

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Aumento de CO2 na água altera comportamento dos peixes, diz estudo. Saiba mais aqui.

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Avião solar tentará dar a volta ao mundo sendo abastecido apenas por energia fotovoltaica. Saiba mais aqui.

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Belo Horizonte entre as 10 cidades mais verdes na América Latina e no Caribe. Saiba mais aqui.

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Criança na entrada de sua casa destruída em Holms, na Síria. Secretário-geral da ONU volta a pedir fim da violência. Saiba mais aqui. Foto: PMA//Abeer Etefa

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Indígenas de oito comunidades do Nordeste produzirão livros digitais. Saiba mais aqui.

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Em bairro suíço, moradores plantam o próprio alimento e compartilham com os vizinhos. Saiba mais aqui.

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Agências da ONU debatem metas de desenvolvimento pós-2015. Saiba mais aqui.

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Transporte seguro e limpo é vital para saúde e desenvolvimento, alerta relatório do Banco Mundial. Saiba mais aqui