Ampliação de estrada atenta contra patrimônio cultural indiano

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Ampliação de estrada atenta contra patrimônio cultural indiano


por Sudeshna Chowdhury, da IPS


[caption id="attachment_95968" align="alignleft" width="200"] Turistas estrangeiros no templo de Virupaksha, em Hampi, na Índia. Foto: Zwegers Arian/CC BY 2.0[/caption] Nações Unidas, 13/8/2013 – A aldeia de Hampi, no Estado indiano de Karnataka, há tempos recebe turistas de todo o mundo, atraídos pelas ruínas do que foi a última capital do reino de Vijayanagar. Mas essa riqueza histórica agora corre perigo. O Grupo de Monumentos de Hampi foi declarado Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Contudo, um projeto para ampliar uma estrada, por parte do Departamento de Obras Públicas do Estado em Hambi, gera críticas dessa agência da ONU, de ativistas e especialistas de todo o mundo. A Autoridade de Manejo da Área de Patrimônio Mundial de Hampi, encarregada de proteger o local, pediu explicações ao Departamento de Obras Públicas, segundo a imprensa. Construída por um rei local em 1860, Dadapeer Chatra, a estrutura que servia como lugar de descanso para os visitantes, foi destruída com um trator por esse departamento para ampliar uma estrada. E embora fosse Patrimônio Mundial, a Unesco não foi informada antes de começarem as obras. Segundo as pautas operacionais para a implantação da Convenção do Patrimônio Mundial, o país tem que notificar a Unesco sobre qualquer projeto que deseja realizar e que possa ter impacto no destacado valor universal do sítio listado em questão, disse à IPS o presidente do Centro do Patrimônio Mundial nessa organização internacional, Kishore Rao. No caso de Hampi “a Unesco não concedeu nenhuma permissão”, e ficou sabendo da destruição do edifício pelos meios de comunicação, contou. Agora, esta agência da Organização das Nações Unidas (ONU) leva o assunto às autoridades indianas, solicitando detalhes do incidente e da ação que propõem adotar a respeito, acrescentou Rao. Não há sanções previstas para quem viola os parâmetros, já que o sistema do Patrimônio Mundial é de cooperação internacional, explicou à IPS. Quando as ameaças são muito sérias, ou não são implantadas as medidas recomendadas, o Comitê do Patrimônio Mundial agrega o sítio à Lista de Patrimônio Mundial em Perigo, a fim de atrair maior atenção internacional e mobilizar mais apoio”, detalhou. Entretanto, esse enfoque “certamente não tem efetividade”, opinou John Fritz, codiretor do Projeto de Pesquisa Vijayanagara. “É burocracia para a burocracia”, pontuou, acrescentando que a Unesco não apresentou nenhuma objeção quando, previamente, foram alteradas edificações consideradas patrimoniais em Hampi. Sobre as atuais obras de construção na área, Fritz disse à IPS que há falta de vontade e de esforço para proteger a história do lugar. “Poderiam ter ampliado a estrutura patrimonial e trabalhado de modo a evitar derrubá-la para ampliar a estrada”, acrescentou. Abha Narain Lamba, arquiteta indiana dedicada à conservação, acredita que, em uma área como Hampi, “ampliar uma estrada é bastante desnecessário”. Um projeto deste tipo em áreas históricas da vizinha cidade de Hyderabad já causou a perda para sempre de muitas fachadas históricas, destacou. “Pergunto o que pode conseguir a ampliação de uma estrada em Hampi, já que não é uma área metropolitana propensa a engarrafamentos”, apontou à IPS. Entretanto, Vikas Dilawari, arquiteto especialista em conservação da Índia, acredita que Hampi é apenas um exemplo. “Em nosso país não se concebe o conceito de investimento cultural, já que não se vê benefícios tangíveis imediatos”, explicou. O problema se agrava pela falta de apoio das autoridades e pelo fato de o governo central e os órgãos locais não chegarem a um consenso quanto a proteger os edifícios patrimoniais, acrescentou. Kathleen D. Morrison, diretora do Centro para o Idioma e a Área da Ásia Meridional na Universidade de Chicago, também concorda que há uma perturbadora falta de comunicação entre os departamentos e agências do governo na hora de manejar o patrimônio cultural da Índia. “Este incidente também deixa clara a necessidade de se dar melhor educação sobre o rico patrimônio cultural da Índia, do qual se deve ter orgulho”, ressaltou. Na Índia há alguns monumentos protegidos pelo governo central e outros pelas autoridades estaduais. No caso de Hampi, há várias partes envolvidas responsáveis pela tarefa. A Medição Arqueológica da Índia, feita pelo Ministério da Cultura, vela pelos que são protegidos pelo governo central em Hampi, enquanto o Departamento Estadual de Arqueologia se ocupa dos monumentos de sua própria lista, explicou Himanshu Prabha Ray, presidente da Autoridade Nacional de Monumentos. Em Hampi, onde os monumentos estão dispersos por uma área muito grande e pertencem a diferentes períodos históricos, também se constituiu uma autoridade local para sua proteção, e foi traçado um plano de manejo, detalhou. Embora o desenvolvimento sustentável e a preservação histórica continuem sendo um desafio atualmente, o problema relativo à proteção de sítios patrimoniais se torna mais complexo pela difundida crença entre os líderes de opinião de que o dinheiro gasto para isso drena recursos e que seria melhor utilizado em projetos de infraestrutura, segundo especialistas. No longo prazo, a apatia em relação a Hampi poderá dificultar as coisas para as outras 33 propriedades indianas que buscam obter o status de Patrimônio Mundial da Unesco, observou Dan Thomspon, da Global Heritage Network. Atualmente, há 44 sítios em todo o mundo que integram a Lista de Patrimônio Mundial em Perigo. Logo, Hampi deverá fazer parte dela. Envolverde/IPS

Manifestação diante do parlamento grego em protesto contra as medidas de austeridade. Foto: Apostolis Fotiadis/IPS Economia

Salva-vidas afunda ainda mais a Grécia

[caption id="attachment_95965" align="aligncenter" width="529"] Manifestação diante do parlamento grego em protesto contra as medidas de austeridade. Foto: Apostolis Fotiadis/IPS[/caption]   Atenas, Grécia, 13/8/2013 – A Grécia continua desmantelando seu setor público em uma desesperada tentativa de convencer a Troika, formada por Banco Central europeu, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comissão Europeia, a lhe dar um novo resgate em outubro. A Troika quer que o governo grego demita quatro mil funcionários públicos e suspenda outros 12.500 até o final de setembro. Mais 12.500 postos de trabalho serão eliminados até o final deste ano. O primeiro-ministro, Antonis Samaras, ordenou aos seus ministros que desmantelem rapidamente toda estrutura pública que considerem ineficiente, e que apresentem listas com os nomes das pessoas que serão demitidas ou enviadas ao seguro-desemprego, que tem duração de oito meses, durante os quais o funcionário recebe 75% do salário. Concluído esse prazo, é demitido, se não houver um novo posto para ocupar. O surpreendente fechamento da televisão pública, em junho, foi o primeiro passo nessa direção, e deixou dois mil trabalhadores na rua. O governo também fechou escolas técnicas que ofereciam cursos de curta duração a famílias de baixa renda, e enviou cerca de dois mil professores ao seguro-desemprego, bem como dois mil seguranças escolares e 3.500 policiais municipais. Themistocles Kotsyfakis, que dava aula em uma escola técnica sobre fabricação de equipamento médico, também acabou no seguro-desemprego. “Isto não é uma reforma. Não há estudo sobre o fundamento destas medidas, e não foi feito nenhum tipo de avaliação para decidir quem vai e quem fica”, disse à IPS. “Muitos de nós serão demitidos. Ninguém tem o futuro garantido. O seguro-desemprego é um passo para o desemprego”, lamentou. Enquanto o governo se esforça para alcançar a cota acordada, o ministro da Saúde, Spyridwn Georgiadis, decidiu fechar seis hospitais na região metropolitana de Atenas, por considerá-los ineficazes. Isto deixará cerca de 1.250 médicos sem emprego. Xaralampos Farantos, cirurgião do Hospital Geral de Patisia, no centro da capital, está na lista. O médico afirmou à IPS que a ineficácia dos hospitais é culpa do próprio governo. “Todos esses hospitais estão sem pessoal médico adequado há muito tempo, devido a acordos anteriores com a Troika que afetaram o setor público”, contou Farantos à IPS. “Os hospitais tiveram que suspender os serviços de emergência porque os pacientes se recusaram a pagar as novas taxas de admissão”, impostas pelas medidas de austeridade, afirmou. “Então, o fato de ter se reduzido o número de atendimentos foi visto como uma prova de nossa ineficácia, e por isso nos incluiu na lista. Foi um método desonesto”, ressaltou. O governo também estuda o fechamento ou a privatização de três companhias militares e de uma empresa pública produtora de níquel. Isto ajudaria a acrescentar dois mil demitidos à cota. Entretanto, o sacrifício em massa de funcionários públicos ocorre em meio a advertências de que o plano de ajuste não vai funcionar. O FMI admitiu erros de cálculo sobre o custo das reformas e de sua capacidade para recuperar a economia. O FMI reconheceu, em maio, que havia violado três de quatro de suas diretrizes fundamentais ao unir-se ao pacote de resgate liderado pela União Europeia (UE), e revelou que as medidas foram desenhadas, na realidade, para salvar o euro e não para ajudar Atenas. O atual pacote de resgate para a Grécia terminará na primavera boreal de 2014. Então, este país afundará no desassossego, com um desemprego acima dos 30%. A economia terá sofrido contração superior a 27% desde o começo da crise. Enquanto isso, o futuro grego divide o Ocidente. O FMI e os Estados Unidos são partidários de políticas de desenvolvimento e de geração de empregos, possivelmente incluindo um grande perdão da dívida, mas a União Europeia, liderada pela Alemanha, exige mais austeridade. O ministro alemão das finanças, Wolfgang Schauble, nega que o programa de austeridade esteja fracassando e, em uma visita a Atenas no mês passado, anunciou um novo plano de medidas para 2014. Crescem os temores de que o Estado grego imploda sob a carga da austeridade, e analistas sugerem que Berlim e a UE teriam um plano B, pelo qual algumas funções básicas do Estado grego ficariam a cargo de seus credores internacionais. O analista político Giannis Kiboyropoulos disse à IPS que o primeiro óbvio sinal desse cenário surgiu no final de julho em um informe do alemão Instituo Kielo para a Economia Mundial. “Tecnocratas alemães, após mencionarem o óbvio perigo do colapso das reformas na Grécia, propuseram a criação de um comitê independente de dívida que cuidaria da administração pública, do mercado de trabalho, das privatizações, do transporte, da energia, do mercado varejista e das políticas empresariais”, pontuou Kiboyropoulos. Por sua vez, “os representantes da Troika na Grécia advertiram que estenderiam seu controle sobre as instituições responsáveis pelas privatizações e pela recapitalização dos bancos. Não se deve considerar isto uma simples coincidência”, enfatizou Kiboyropoulos. Envolverde/IPS


por Apostolis Fotiadis, da IPS
No Sri Lanka se redescobre antigas reservas para usá-las no combate à mudança climática. Foto: Amantha Perera/IPS Inter Press Service - Reportagens

Sri Lanka recorre e métodos ancestrais contra a mudança climática

[caption id="attachment_95961" align="aligncenter" width="529"] No Sri Lanka se redescobre antigas reservas para usá-las no combate à mudança climática. Foto: Amantha Perera/IPS[/caption]   Colombo, Sri Lanka, 13/8/2013 – A vida pode ser dura para uma viúva com filhos pequenos nas zonas agrárias pobres do Sri Lanka. As famílias de áreas afastadas como Anuradhapura, na Província Norte-Central, a duras penas ganham a vida cultivando arroz ou verduras, limpando ao mesmo tempo a vegetação de uma mata, procedimento conhecido como jena. Se matam realizando as duas tarefas sob o Sol abrasador, mas trabalhar na jena pode colocar à prova a resistência física, inclusive de quem está em melhor forma. Quando morreu o marido de Seelawathie, há alguns anos, ela não teve outra opção a não ser se dedicar a esta modalidade agrícola, se quisesse alimentar seus cinco filhos e a si mesma. Rapidamente se deu conta de que não estava à altura da tarefa. Então, seu pai lhe deu quatro terrenos para plantar arroz de forma tradicional. O problema do arroz é que exige grandes quantidades de água para se obter uma boa colheita, enquanto os cultivos mediante a jena podem sobreviver a secas prolongadas. Felizmente para Seelawathie, uma antiga reserva de água perto de sua aldeia de Kandawe, na Província Norte-Central, demonstrou ser útil. Seu marido cultivava pelo processo jena, assim a água da reserva pouco importava. Porém, quando Seelawathie começou a trabalhar nas terras de arroz, a água irrigada desde a reserva se tornou crucial. Essas reservas foram cavadas e criadas por antigos reis cingaleses. A maioria foi feita apenas para fornecer água para as aldeias que as rodeavam, embora também existam várias grandes. Tiveram um papel vital na economia agrária antes que esta fosse alterada pela introdução de cultivos comerciais por parte dos primeiros colonizadores europeus, a partir de 1500. Originalmente, os aldeões usavam as reservas para armazenar água da chuva, a fim de usá-la durante a temporada seca para os cultivos, especialmente o arroz. “Foi um presente de Deus para mim”, contou Seelawathie. O tanque de água permitiu que ela continuasse cultivando arroz porque estava disponível o ano todo. Milhares dessas reservas centenárias estão espalhadas pelas áreas secas mas ricas em agricultura no país, principalmente nas províncias Norte, Norte-Central, Nordeste, Oriental e Sul. Pesquisadores dizem que atualmente elas podem ser ferramentas efetivas contra os variáveis padrões de chuvas causados pela mudança climática. Uma pesquisa do Instituto Internacional de Manejo da Água (IWMI), com sede em Colombo, Sir Lanka, concluiu que estas reservas podem ser usadas não só para guardar água para a temporada seca, mas também para desviar o excedente durante as inundações. Nishadi Eriyagama, engenheira de recursos hídricos no IWMI que trabalha nas reservas, disse à IPS que estes tanques, se forem mantidos adequadamente, podem se converter na principal fonte de água para aldeões como Seelawathie, ao mesmo tempo em que protege os cultivos, suas propriedades e suas vidas em casos de inundações. Nos últimos anos, inundações e secas devastaram por igual os cultivos de arroz do Sri Lanka. No começo de 2011 a maior parte da colheita foi perdida por culpa das inundações. No ano passado, uma seca de dez meses reduziu entre 6% e 10% a colheita. Não são apenas as perdas nacionais de colheita que crescem. A maioria das vítimas das inundações e das secas procede da zona seca açoitada pela pobreza, e duramente ganham a vida com a agricultura. Uma colheita perdida pode ser um golpe importante; duas perdidas em pouco tempo podem ser uma catástrofe. O rastro de indigência deixado pelos eventos meteorológicos extremos foi prolongado nos últimos dois anos. A Cruz Vermelha do Sri Lanka estima que 1,3 milhão de pessoas foram afetadas pela seca. Em janeiro deste ano, o governo e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) realizaram um levantamento em dez dos 18 distritos afetados por seca e inundação. Dos 557 mil entrevistados, 75% sofriam severa insegurança alimentar ou estavam à beira dela. Mais de 172 mil pessoas, ou 31% do total a sofriam em grau severo. E aproximadamente três quartos dos afetados pelas inundações disseram que foram gravemente afetados pela seca. Até voltar a chover. “Uma avaliação dos impactos registrados em razão dos desastres naturais durante os últimos oito anos indica uma tendência de maior frequência dos eventos”, afirmou a Organização das Nações Unidas (ONU) em seu último Boletim Humanitário sobre o Sri Lanka. Nos dois últimos anos, mais de 2,6 milhões de pessoas foram afetadas por desastres naturais, afirmou a ONU, o que equivale a mais de 10% de uma população de pouco mais de 20 milhões de habitantes. O impacto pode estar aumentando, mas não a assistência do exterior para aliviá-lo. Em janeiro deste ano, o PMA teve que suspender um programa destinado a ajudar as 172 mil pessoas que se estima sofrem severa insegurança alimentar porque não tinha fundos suficientes. “Vemos que o tempo mutável tem alguns impactos drásticos e precisamos chegar rápido a soluções geradas localmente”, ressaltou à IPS L. P. Rupasena, subdiretor de pesquisas no Instituto Héctor Kobbekaduwa de Investigação e Formação Agrária em Colombo. Rupasena concorda com os pesquisadores do IWMI no sentido de que, para cumprir o desafio apresentado pelos variáveis padrões climáticos, países como o Sri Lanka têm de buscar soluções em seu interior. “Não há tempo para esperar que as soluções cheguem de outra parte; temos que trabalhar nelas imediatamente”, destacou. Esses programas da sociedade civil podem implicar reviver tradições ancestrais deixadas de lado, como as antigas reservas. Ninguém sabe exatamente quantas existem, mas sua importância para a agricultura foi substituída pela ênfase nas grandes redes de irrigação, especialmente desde o final da década de 1970. Eriyagama informou à IPS que alguns dos tanques foram abandonados. Na última década, houve esforços esporádicos para repará-los, mas, segundo a pesquisadora, o que se precisa é de um esforço concertado para recuperar a importância que tiveram no passado. Envolverde/IPS


por Amantha Perera, da IPS
valores Economia

Cadeias de valor mundiais e desenvolvimento

Genebra, Suíça, agosto/2013 – O discurso atual sobre cadeias de valor mundiais por parte dos principais proponentes e também da secretaria da Organização Mundial do Comércio (OMC) é que os países em desenvolvimento deveriam liberalizar bens e serviços e concluir um acordo de facilitação comercial. Alguns também sugerem que se deveria eliminar toda restrição às exportações, por exemplo retirar alguns impostos sobre matérias-primas. Segundo esse discurso, essas estratégias ajudariam o mundo em desenvolvimento a se integrar mais profundamente às cadeias de valor mundiais, já que poderiam importar a preços menores e, portanto, exportar de maneira mais competitiva. Entretanto, olhando de perto, o panorama não é tão simples. As cadeias de valor mundiais não são um conceito novo. São parte do comércio desde a colonização, quando os países em desenvolvimento eram os provedores de matérias-primas para o mundo industrializado para que fossem usadas de vários modos, incluída a produção de mercadorias sofisticadas. É verdade que atualmente estas cadeias de valor estão se expandindo, simplesmente devido à proliferação por todo o planeta das corporações transnacionais, a maioria delas com sede em países ricos. Também há algumas originárias de nações em desenvolvimento, que usam fornecimentos de todo o mundo para realizar suas várias funções. Porém, os países em desenvolvimento se colocam de um modo diferente nas cadeias de valor mundiais. Alguns têm parte nas seções de alto valor agregado, mas não a maioria. Nem todos os atores podem se beneficiar equitativamente de sua participação nestas cadeias de valor. Tudo depende de como um país se alinha em termos de capacidades tecnológicas, da profundidade de suas capacidades manufatureiras, de quanto são desenvolvidos seus setores de serviços, o tamanho de suas empresas, sua perícia em matéria gerencial e sua capacidade de atender os padrões dos mercados internacionais, para citar uns poucos critérios. Devido a estas e outras limitações, os países em desenvolvimento podem abrir-se e integrar-se mais, mas a qualidade de sua integração pode não ser realmente benéfica. Como diz Rashmi Banga em seu estudo Measuring Value in Global Value Chains (Medindo o Valor das Cadeias de Valor Mundiais), apresentado em maio, os países podem estar vinculados, mas isso não necessariamente significa que obterão lucro. Nestas cadeias, hoje o valor é capturado na fase conceitual e de projeto, onde ter a tecnologia é importante, assim como nas vendas finais e no mercado. Porém, a maioria dos países em desenvolvimento não se situa neste ponto. Geralmente estes Estados estão no setor de menor valor manufatureiro da cadeia de valor e, mesmo assim, isto ocorre com alguns, não com todos. A mera liberalização não modernizará as capacidades de fornecimento tecnológico ou de serviços. Um acordo de facilitação comercial, acelerando a entrada de importações por meio de uma variedade de procedimentos aduaneiros, alguns dos quais são muito caros e administrativamente intensivos, tampouco será a fórmula mágica para catapultar os países em desenvolvimento para a competitividade em escala mundial. Em resumo, não há atalhos. Em todo caso, a pergunta central para o Sul não tem a ver com entrar nestas cadeias a qualquer custo. A pergunta real é como pode aprofundar suas capacidades de produção, a fim de poder conseguir uma maior parte do valor agregado. Para consegui-lo, deve-se seguir o caminho do desenvolvimento da indústria, da agricultura e dos serviços. Necessitamos uma transformação estrutural na indústria se queremos que nossas capacidades de manufatura possam ir além de serem linhas de montagem, maiores capacidades de produção em uma variedade de setores de serviços e um setor agropecuário mais dinâmico, especialmente em países com grandes populações rurais. Não se pode passar por cima do setor agrícola se uma grande parte da população participa dele e dele depende como fonte de emprego. Com ocorre nos postos na manufatura, é preciso dar à população preços e salários justos. Isto é crucial para criar poder aquisitivo interno e para alimentar a demanda interna e, assim, a demanda de crescimento das indústrias locais. Não se comprometer com uma transformação estrutural e com o aprofundamento das capacidades de produção pode significar que os países fiquem presos no fornecimento de matérias-primas e como sítios para tarefas de manufatura de escasso valor agregado. Muito frequentemente os mercados interno ou regional oferecem aos países em desenvolvimento melhores oportunidades do que as cadeias de valor mundiais, em termos de obter uma parte maior do valor agregado. As políticas comerciais devem ser usadas estrategicamente para apoiar o desenvolvimento industrial dos setores mais importantes, e deveria focar-se de modo dinâmico, mudando com o tempo, enquanto algumas indústrias amadurecem e outras se desenvolvem. Nesse contexto, a liberalização geral não ajudará. Concluindo, as cadeias de valor mundiais, como observou o embaixador da África do Sul junto à OMC, Faisal Ismail, não fornecem um contexto para ajudar os países pobres a se desenvolverem além de suas atuais vantagens comparativas. A última análise da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) de dados do comércio de mercadorias com valor agregado também mostra que mais exportações não significam mais exportações com valor agregado. O discurso das cadeias de valor mundiais vem do desejo de aliviar mais as operações, o movimento e o acesso das corporações transnacionais nos mercados mundiais, com perigos reais para as empresas e as indústrias dos países em desenvolvimento. A prioridade para os países em desenvolvimento é criar suas capacidades de produção. Para isso, é preciso o uso flexível e dinâmico dos instrumentos de políticas comerciais (tarifas alfandegárias, regulações governamentais) que apoiam a industrialização, o desenvolvimento agrícola e dos serviços, complementados com normas comerciais mais justas. Envolverde/IPS *  Aileen Kwa é coordenadora do Programa de Comércio e Desenvolvimento do South Centre.


por Aileen Kwa*
Sem diálogo não há solução, afirmam os trabalhadores espanhóis diante da barreira fronteiriça com Gibraltar. Foto: Alberto Pradilla/IPS Inter Press Service - Reportagens

Trabalhadores espanhóis vítimas de disputa entre Madri e Gibraltar

[caption id="attachment_95881" align="aligncenter" width="529"] Sem diálogo não há solução, afirmam os trabalhadores espanhóis diante da barreira fronteiriça com Gibraltar. Foto: Alberto Pradilla/IPS[/caption]   La Línea de la Concepción, Espanha, 12/8/2013 – “A situação chegou ao limite. A Espanha está a um passo do levante civil e o governo busca desviar a atenção”, aumentando os controles na fronteira com o rochedo para provocar tensão entre as partes, acusou Manuel Márquez, delegado da Associação Sociocultural de Trabalhadores Espanhóis em Gibraltar (Astecg). Márquez deu esta declaração junto a vários companheiros que protestavam diante do controle que a Guarda Civil e outro ramo policial mantêm na fronteira entre La Línea de la Concepción, pequena localidade do extremo sul da Espanha, e Gibraltar, o território autônomo em poder da Grã-Bretanha, de apenas 6,8 quilômetros quadrados. A Espanha historicamente reivindica sua soberania sobre este lugar, conquistado pelos britânicos no começo do século 18, embora seus habitantes tenham demonstrado em reiteradas ocasiões sua vontade de continuar dependendo de Londres. As tensões cresceram na área nos últimos dias, depois que o governo do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, do direitista Partido Popular, aumentou o controle na fronteira, provocando longas filas de até sete horas para cruzá-la. A situação é complexa. Por um lado está a questão da soberania reclamada por Madri, e por outro a difícil convivência entre espanhóis e “llanitos”, como são chamados por seus vizinhos os habitantes de Gibraltar, situado em uma minúscula saliência de terra voltada para o mar e cuja maior parte do território é ocupado por um rochedo. Neste complexo contexto muitos se perguntam pelo motivo da escalada neste momento. Embora o governo da Espanha tenha dito que a origem do problema é o conflito pesqueiro, que começou no final de julho, quando Gibraltar lançou blocos de concreto no mar para criar um arrecife, existe a sensação generalizada na área, especialmente entre os sindicalistas, de que Rajoy usa esta crise para desviar a atenção do escândalo de corrupção que o afeta e da crise econômica do país. No entanto, os mais prejudicados são, precisamente, todos aqueles cuja subsistência depende de cruzar a fronteira diariamente para irem de casa ao trabalho. “Isto não serve para nada. La Línea e Gibraltar sempre tiveram boa relação. É o governo que deveria solucionar o problema”, queixou-se José Antonio García, que, quando conversou com a IPS, estava há mais de uma hora e meia esperando em seu carro para atravessar a fronteira e abastecer o veículo. É que em Gibraltar os preços são menores do que na Espanha porque o território não paga impostos, o que o leva a ser classificado como paraíso fiscal, já que também existe um regime especial para os bancos. “Estou desempregado, tenho seis netos e preciso dar comida a eles. Esperarei o que precisar, porque com um pacote de tabaco faço o dia (de venda)”, explicou à IPS um homem com mais de 70 anos, que pediu para não ser identificado. O contrabando de tabaco é um dos negócios ilegais mais lucrativos. Um pacote com dez maços de cigarros, que habitualmente pode custar 40 euros na Espanha, em Gibraltar custa a metade. Por essa razão a lei de aduanas só permite cruzar a fronteira na região com um pacote por dia, embora os grupos de pessoas sentadas junto à fronteira, deixando o tempo passar, evidenciem que o fluxo de cigarros é constante. Desde que Madri decidiu aumentar os controles, tanto para entrar quanto para sair de Gibraltar, o colapso é total na fronteira. Começou há uma semana e provocou o registro de intermitentes aglomerações de até sete horas. Estas são agravadas por temperaturas que em certas horas do dia podem chegar aos 40 graus. “Pensava passar o final de semana com minha família, mas, após receber a notícia, fui, com vários companheiros, ajudar os que estavam esperando”, contou Márquez à IPS. Fontes do governo autônomo de Gibraltar confirmaram à IPS que chegaram a entregar 11 mil garrafas de água para as pessoas enfrentarem o calor, o que não evitou que muitas, especialmente idosos, tivessem de ser atendidos em hospitais próximos. Esta crise afeta mais os trabalhadores espanhóis que passam diariamente para o território britânico. “Este é um país de ideologia fascista, onde o patriotismo dá votos. Por isso, nenhum partido quer solucionar o problema”, ressaltou Márquez, que trabalhou toda sua vida no estaleiro de Gibraltar. Na mesma linha, Miguel Ángel Zoilo, usando seu uniforme de vigilante, insiste na tese da “cortina de fumaça”, afirmando que “isto é uma cortina com as cores patrióticas, mas que provoca divisão”. Depois, Zoilo foi a pé até a fronteira. Nesse momento não havia fila, assim evitava as possíveis aglomerações. Não se pode esquecer que pelo menos sete mil moradores de La Línea de la Concepción entram diariamente em Gibraltar para trabalhar na construção ou em serviços. Um bálsamo para uma população de 64 mil habitantes em que pelo menos 11 mil estão desempregados. Assim, os salários procedentes de Gibraltar são básicos para sua subsistência. Nestas circunstâncias, os habitantes de Gibraltar não entendem a posição de Madri. “É idiota. Estão prejudicando seus próprios cidadãos”, disse a residente Occa Harris, que ressaltou que o rochedo “nunca” passará à soberania espanhola. Em uma conversa não é difícil distinguir um “llanito”, que se entrega por uma linguagem particular que mescla castelhano e inglês. A teoria da manobra de distração chega inclusive até os corpos policiais. “Desviam a atenção, mas isto tem que ter uma solução política”, disse à IPS o secretário de organização da província de Cádiz do Sindicato Unificado de Polícia (SUP), José González. O SUP se concentrou no dia 7 diante da fronteira para denunciar as pressões sofridas desde o Rochedo de Gibraltar, onde se chegou a publicar uma página na internet com fotos dos agentes que trabalham na passagem de fronteira. Por outro lado, os pescadores são, provavelmente, um dos poucos setores que cerraram fileiras com o governo espanhol. Leoncio Fernández, da Confraria de La Línea de la Concepción, argumentou sobre seu apoio às decisões de Madri e exortou Gibraltar a retirar os blocos de concreto. Claro que reconhecendo que, no máximo, apenas uma dezena de barcos pode chegar a trabalhar em águas de Gibraltar, que a Espanha reclama como suas. Londres, porém, anunciou o envio de um navio de guerra à área. Novos passos em uma escalada cujas principais vítimas são os que, como Márquez, reivindicam uma mesa na qual os principais atores sentem e dialoguem. Envolverde/IPS  


por Alberto Pradilla, da IPS
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, em grande confrontação com Washington. Foto: Imaginary Museum Projects: News Tableaus/cc by 2.0 Inter Press Service - Reportagens

Preocupa que tensão entre Rússia e Estados Unidos afete negociação nuclear

[caption id="attachment_95876" align="aligncenter" width="529"] O presidente da Rússia, Vladimir Putin, em grande confrontação com Washington. Foto: Imaginary Museum Projects: News Tableaus/cc by 2.0[/caption]   Nações Unidas, 12/8/2013 – O asilo temporário outorgado pela Rússia a Edward Snowden, o ex-contratado de inteligência que revelou segredos dos Estados Unidos, coloca em risco as relações entre dois dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), com consequências negativas em conversações mundiais cruciais. Entre elas, menciona-se especialmente o impacto sobre assuntos sensíveis como a guerra civil na Síria, o programa nuclear do Irã e a célebre redução dos arsenais atômicos. Na verdade, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, decidiu, no dia 6, adiar a reunião prevista para o começo de setembro em Moscou com seu colega russo, Vladimir Putin. A Rússia, além da China, já vetaram quatro resoluções do Conselho de Segurança da ONU, propostas pelos Estados Unidos e por outros países ocidentais, contra o regime sírio de Bashar al Assad. Assim, as possibilidades de impor mais sanções contra Damasco agora parecem mais remotas do que antes. “As tensas relações entre Washington e Moscou diminuirão a já reduzida ação do Conselho de Segurança”, alertou um diplomata asiático que pediu para não ser identificado. Além disso, a conferência de Genebra sobre a Síria parece ser outra vítima desta situação. Esta tensão também coincide com a realização da primeira reunião de alto nível da Assembleia Geral da ONU sobre desarmamento nuclear, prevista para 26 de setembro. Em discurso pronunciado em junho na Porta de Brandeburgo, em Berlim, na Alemanha, Obama pediu uma redução drástica das armas atômicas, o que faria parte da agenda para a cúpula nuclear de 2016. Tilman A. Ruff, um dos presidentes do International Steering Group e membro da junta australiana da Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares, disse à IPS que a questão entre as duas máximas potências mundiais sobre o asilo a Snowden poderia ser usado por Washington como pretexto para não avançar em questões de desarmamento. “Por isso, os 184 Estados membros da ONU que não possuem armas nucleares deveriam deixar de ser reféns dos nove que as possuem”, afirmou Ruff, também professor associado do Instituto Nossal para Saúde Global, da Universidade de Melbourne, na Austrália. “Deveriam assumir o comando e começar as negociações para conseguir um tratado que as proíba, dessa forma preparando o caminho para sua erradicação”, ressaltou. Além de China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia, que são os membros permanentes do Conselho de Segurança com poder de veto, também possuem armas nucleares Índia, Israel, Paquistão e, possivelmente, Coreia do Norte. No entanto, Rebecca Johnson, diretora-executiva do Acronym Institute for Disarmament Diplomacy, não é tão pessimista. “Não será um regresso à Guerra Fria. Os Estados Unidos e a Rússia têm em jogo muitos interesses em comum para jogá-los abismo abaixo pelo asilo que Moscou concedeu a Snowden”, afirmou. Putin encarcerou, por 11 anos, o analista nuclear Igor Sutyagin e está tão interessado quanto os Estados Unidos em evitar a exposição de práticas e erros de segurança e inteligência. “Embora os dois países mantenham uma disputa pública por Snowden, seus principais interesses bilaterais serão manter certo tipo de relação capaz de reduzir seus arsenais”, opinou Rebecca. Cada vez mais governos se mostram preocupados com as consequências humanitárias das armas nucleares, e as duas potências desejarão dar uma forte demonstração de solidariedade entre os membros do Conselho de Segurança na reunião de alto nível da ONU, com a esperança de conter os pedidos para proibir este tipo e armamento. Ruff disse à IPS que as armas nucleares representam um perigo mortal sem igual para qualquer pessoa, sem importar seu lugar de residência. Com 16.200 armas nucleares, cerca de 94% das 17.270 que há no mundo, Estados Unidos e Rússia têm a responsabilidade de eliminar esta ameaça existencial. “Contudo, ambos desenvolvem novas armas nucleares e juntos gastam mais de US$ 75 bilhões por ano para modernizar seus arsenais, um claro sinal de que pretendem mantê-las de forma indefinida”, pontuou Ruff, que também é assessor médico da Cruz Vermelha da Austrália. Erradicar armamento atômico é a prioridade global mais urgente e não deve ser deixada de lado por outros assuntos, destacou. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Foto: Reprodução Inter Press Service - Reportagens

Direitos femininos serão eixo de reunião do UNFPA em Montevidéu

[caption id="attachment_95871" align="alignleft" width="150"] Jovem grávida argentina reflete sobre os riscos e as dificuldades da maternidade. Foto: Carolina Camps/IPS[/caption] Nações Unidas, 12/8/2013 – Quando o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) realizar, de hoje até o dia 15, em Montevidéu, no Uruguai, a Primeira Reunião da Conferência Regional sobre População e Desenvolvimento da América Latina e do Caribe, avaliará os êxitos e fracassos de uma ampla gama de temas vinculados ao gênero. Entre eles saúde reprodutiva, violência sexual, direitos femininos, mortalidade materna e avanço do HIV/aids, todos vinculados à América Latina e ao Caribe. E a pergunta que faz a maioria dos delegados é como foi o desempenho da região na implantação do histórico Programa de Ação adotado na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada em 1994, na cidade do Cairo, no Egito. A questão parece ainda mais relevante considerando que uma reunião de alto nível da Assembleia Geral está prevista para 2014 para avaliar os êxitos e as deficiências da conferência de 1994. María José Alcalá, diretora do grupo de tarefas da secretaria de alto nível para a conferência, insiste que a comunidade internacional deve somar-se aos compromissos assumidos no Cairo. Alcalá disse à IPS que a reunião da capital egípcia foi histórica, ao colocar os direitos reprodutivos das mulheres no centro do desenvolvimento sustentável. “Sua implantação gerou benefícios tremendos a indivíduos, famílias, economias e países, embora em toda a região haja milhões que não os cumprem”, afirmou Alcalá. Contudo, na conferência de Montevidéu “também devemos ir além dos acordos feitos há 20 anos, para que a promessa do Cairo e os direitos sexuais e reprodutivos para todos e todas sejam uma realidade independente de quem você seja ou de onde procede”, ressaltou. No discurso que fez na cerimônia de 30 anos dos Prêmios de População do UNFPA, na semana passada, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, destacou o fato de “a população não ser uma questão de números”, e que “tudo é sobre pessoas, sobre as opções que tomam e as que são capazes de tomar”. Também afirmou que “devemos empoderar os indivíduos. Devemos proteger sua liberdade, capacidade e direito de tomar decisões informadas. Isto permitirá às pessoas cumprirem seu potencial. E isso fará avançar sociedades inteiras”. O diretor-executivo do UNFPA, Babatunde Osotimehin, concorda com o ponto de vista de Ban quanto ao desenvolvimento só ser sustentável se for equitativo e servir a todos. “Não poderia estar mais de acordo com ele. O UNFPA continua enfatizando que as pessoas e o princípio da igualdade devem ser mantidos no centro do desenvolvimento sustentável”, afirmou. Osotimehin pontuou que isto significa reconhecer a necessidade de investir nas mulheres e nos jovens e promover os direitos humanos. “Significa aumentar a igualdade para construir um mundo de oportunidades para todos”, ressaltou. Para Alcalá, entre os temas a serem debatidos em Montevidéu uma prioridade importante serão os direitos humanos fundamentais. “Os governos da região latino-americana têm de assumir fortes compromissos para promover a igualdade de gênero, os direitos de mulheres e meninas, o empoderamento dos jovens e a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos”, destacou. Estes são direitos básicos para tomar decisões sobre a própria vida privada, livres de toda forma de discriminação, coerção ou violência. “Eles incluem decidir se deve ter filhos, quando, como e quantos; se deve se casar e com quem; decisões sobre o corpo, a sexualidade e a saúde da mulher; e ter informação e serviços para fazê-lo”, observou Alcalá. Entretanto, para muitas mulheres e adolescentes na América Latina e no Caribe – e para muitos jovens e comunidades que vivem na pobreza – desfrutar desses direitos ainda está longe de ser uma realidade, acrescentou. Enquanto a ONU embarca em sua segunda agenda de desenvolvimento posterior a 2015, descrita como a sucessora lógica de seus Objetivos de Desenvolvimento do Milênio com prazo vencendo nesse ano, espera-se que a população e a saúde reprodutiva sejam parte integral dessas novas prioridades, que estejam incluídos nos propostos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A conferência de Montevidéu incluirá um debate geral sobre experiências nacionais relativas à população e ao desenvolvimento, perspectivas para o período posterior a 2014 e o papel dos adolescentes e dos jovens. Um assunto fundamental é criar mais atenção política e obter mais investimentos para jovens e adolescentes, enfatizou Alcalá à IPS. Destacou também que as adolescentes da América Latina e do Caribe têm a segunda maior prevalência de gravidez do mundo, depois da África subsaariana. Cerca de 20% de todos os nascimentos na região são de mães entre dez e 19 anos. As mulheres jovens do Caribe também têm 2,5 vezes mais probabilidades de se infectarem com o vírus HIV, causador da aids, do que os homens jovens, acrescentou Alcalá. Esta especialista disse que seu grupo de trabalho pede o acesso universal a uma educação sexual exaustiva para todos e todas jovens, dentro e fora da escola. Os países da região já estão dando passos concretos nessa direção, e esta deve ser uma prioridade de qualquer agenda com senso comum para o século 21, acrescentou. Alcalá afirmou que, para ela, é necessário fazer mais para intensificar a prevenção da violência contra mulheres e meninas e levar os responsáveis à justiça. Aproximadamente 36% das mulheres da América Latina e do Caribe experimentam violência sexual ou física em suas vidas, e, apesar de vários países aumentarem seus esforços, a impunidade para estes crimes continua sendo gritante. Os governos que se reunirão em Montevidéu também deverão abordar o fim dos abortos inseguros, já que são grandes causadores de mortes de mulheres e adolescentes, destacou Alcalá. A região tem a maior proporção de abortos inseguros do mundo: 4,2 milhões por ano. “Devemos frear o temor que paira sobre as mulheres, e o cruel encarceramento e castigo de mulheres e meninas que buscam cuidados para salvarem suas vidas após passarem por um aborto inseguro”, ressaltou. “É preciso recordar que, mesmo onde é ilegal na região como em todo o mundo, as mulheres e os casais ricos encontrarão uma maneira de obter um procedimento seguro, e são as mulheres e as meninas pobres que serão forçadas a colocar em risco suas vidas quando não tiverem outro recurso a não ser praticar um aborto inseguro”, enfatizou Alcalá. Este é um assunto fundamental de igualdade social, opinou. “Assim, temos uma opção: continuar parados enquanto mulheres e meninas correm riscos e perdem suas vidas, ou permitir às mulheres e às adolescentes o direito básico de tomar decisões sobre seu próprio corpo, saúde e vida”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
O presidente do Fida, Kanayo Nwanze, entrevistado pela IPS ao término de sua visita ao Peru e à Colômbia, entre os dias 2 e 8 deste mês. Foto: Juan Manuel Barrero/IPS Inter Press Service - Reportagens

“Quando a corda da desigualdade se rompe, você tem uma crise política”

[caption id="attachment_95867" align="aligncenter" width="529"] O presidente do Fida, Kanayo Nwanze, entrevistado pela IPS ao término de sua visita ao Peru e à Colômbia, entre os dias 2 e 8 deste mês. Foto: Juan Manuel Barrero/IPS[/caption]   Bogotá, Colômbia, 12/8/2013 – “Não há desenvolvimento sem paz. Deve-se entender que para um país ter desenvolvimento deve existir um processo interno de paz”. O nigeriano Kanayo Nwanze, presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), é categórico com relação à Colômbia: “Devemos criar uma plataforma de confiança” nas comunidades rurais abandonadas. O Fida é a única agência da Organização das Nações Unidas (ONU) criada para prestar apoio financeiro a camponeses e pequenos produtores. Trabalha com os governos, mas em iniciativas delineadas de baixo para cima. A população organizada propõe seus próprios projetos de vida e compete para que estes sejam atendidos e consigam financiamento, no caso da Colômbia, por intermédio do Ministério da Agricultura. O dinheiro é administrado pelas próprias comunidades. Mais de 1.700 projetos de grupos rurais colombianos conseguiram apoio deste modo, embora o programa do Fida Oportunidades Rurais, que tornou isso possível, esteja por terminar, após um ciclo iniciado em 2007. Agora, o Fida lança na Colômbia um novo programa com o Ministério da Agricultura, que atuará em áreas de guerra definidas pelo governo com um conceito polêmico que inclui questões de segurança e de desenvolvimento: as zonas de “consolidação territorial”. “Os pequenos e médios negócios em áreas rurais são uma fonte de estabilidade social para os países”, ressaltou Nwanze em entrevista à IPS, em Bogotá, ao concluir sua visita a dois países andinos sul-americanos, Peru e Colômbia, iniciada no dia 2. Nwanze, experiente cientista especializado em desenvolvimento agrícola, se reuniu com os presidentes dos dois países, o peruano Ollanta Humala e seu colega colombiano, Juan Manuel Santos, e também visitou e conversou com camponeses em comunidades rurais. IPS: O Fida tem ampla experiência em trabalhos em zonas de conflito para promover o desenvolvimento e ajudar a garantir a paz. Como pode ser aplicada na Colômbia? KANAYO NWANZE: Em muitos lugares da África e Ásia, e a Índia é um exemplo muito bom, descobrimos que, se existe capacidade de organizar as populações rurais, homens, mulheres e crianças, e lhes dar oportunidades de obter um emprego que permita que ganhem a vida, é menos provável que os jovens, em particular, se sintam atraídos pela retórica do extremismo. Acabamos de lançar um novo programa, o Projeto de Construção de Capacidades Rurais: Confiança e Oportunidade (TOP), que leva a iniciativa anterior a uma dimensão diferente e muito maior. Acreditamos que contribuirá de modo significativo para trazer esperança, desenvolvimento econômico e inclusão social a zonas rurais. E esperamos que leve paz e desenvolvimento à Colômbia. IPS: A maioria dos lugares onde se desenvolverá este projeto é de áreas de guerra. Quais dificuldades isto pode causar? KN: Posso falar de nossas experiências em outros lugares. Um bom exemplo é o nordeste da Índia, onde executamos projetos de desenvolvimento e manejo comunitário de recursos naturais. O impacto inicial não foi só nesses aspectos, mas gerou tantos benefícios econômicos que os jovens, que antes estavam envolvidos no extremismo, passaram a ter emprego, o que reduziu o alcance da insurgência. O Fida é uma instituição única. Além de ser uma agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), o que lhe dá legitimidade mundial e confiança de populações e governos, tem a capacidade de organizar os povos rurais para que adquiram uma plataforma própria e estrutural de governança para operar. É necessário um mecanismo para construir confiança entre as populações em zonas de guerra e os governos. E é isso que o Fida faz de modo fantástico. Confiamos nas comunidades e elas confiam em nós, nos veem como seus amigos. Os governos com os quais trabalhamos, como o da Colômbia, veem que somos apolíticos, que nossos interesses são em favor da população e por uma política de diálogo nacional. Os problemas que as pessoas costumam enfrentar nessas comunidades é a forma como lhes é apresentada uma ideia ou um conceito: é preciso evitar cair de paraquedas e dizer-lhes o que devem fazer. O Fida não é uma instituição vertical, mas de baixo para cima. Caminha junto às comunidades. Elas devem ser parte do projeto, apropriar-se dele. Comprometem-se com ele quando o sentem próprio e querem que tenha sucesso. Se alguém cai de paraquedas é rejeitado. Não há nenhuma outra instituição que eu conheça que vá às áreas mais remotas e inacessíveis dos países. O Fida vai. IPS: O projeto TOP se harmoniza com as políticas colombianas ou se alinha com elas? KN: É preciso entender que o Fida só trabalha com os governos e não define o que estes devem fazer. Também trabalha com outros sócios e populações rurais para determinar o programa que querem. Agora, a maior prioridade do presidente Santos é a paz e o desenvolvimento inclusivo. Então, o que fazemos? Dizemos: de acordo. Destinamos US$ 25 milhões. Esta soma não é nada para a Colômbia. Mas o que trazemos é conhecimento e experiência sobre como trabalhar com populações rurais. De modo que somos um facilitador. Portanto, nossos programas se definem segundo a estratégia e as prioridades dos governos junto aos seus povos. Nossos programas não são políticos. No entanto, seus resultados podem ter um impacto político, porque trazem estabilidade política e confiança na comunidade, o que é o embasamento da paz. Na América Latina, no Brasil, Peru ou Guatemala, ou em diferentes países da África ou da Ásia, quando se vai às comunidades, se vê o compromisso e o entusiasmo que têm pelo simples fato de estarem realizando atividades que dignificam e geram dinheiro. Você pensa que desejarão pegar em armas contra o governo? Não. E isso é fundamental. IPS: Que impressão leva de sua viagem por Peru e Colômbia? KN: Fiquei assombrado com o que vi nos dois países. No Peru, pelo compromisso do presidente com a agricultura e o desenvolvimento rural. Também me impressionou a ênfase dada nos dois países para a construção da paz mediante investimentos em desenvolvimento. A menos que tenhamos comunidades rurais fortes, não poderemos conseguir o desenvolvimento sustentável em nenhum país, pois sempre existe essa brecha entre os que têm e os que não têm. Quando essa brecha chega a certo ponto, é como uma corda que arrebenta. E, quando arrebenta, se tem uma crise política. Envolverde/IPS


por Constanza Vieira, da IPS
Foto: Reprodução/ Internet Inter Press Service - Reportagens

Dívida espanhola com indígenas americanos está longe de ser paga

[caption id="attachment_95756" align="alignleft" width="399"] Foto: Reprodução/ Internet[/caption] Madri, Espanha, 9/8/2013 – A cooperação espanhola com as comunidades originárias da América ainda é muito fraca, apesar de alguns esforços pontuais e da ação da sociedade civil, advertiu a economista Laura Barba, diretora da organização não governamental. Watu, na véspera do Dia Internacional dos Povos Indígenas. “Há pouca sensibilidade para considerar os indígenas como sujeitos com direitos e não como personagens exóticos”, embora a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid) tenha avançado um pouco em seus planos de ajuda nos dois últimos anos, disse a responsável da Watu (“seres humanos”, em língua swahili), com sede em Madri. Este avanço, que no momento se dirige especificamente aos indígenas da América Latina, se deve em particular a Carlos Aragón Gil de la Serna, diretor da Aecid e seu representante no Fundo Indígena, o órgão multilateral de cooperação especializado na promoção e no desenvolvimento e reconhecimento dos direitos aborígines, criado em 1992 no contexto da Comunidade Ibero-Americana. Barba disse à IPS que hoje, 9 de agosto, é um bom dia para se incentivar a defesa dos direitos fundamentais de todo ser humano sem distinção de raça, credo, ideologia ou condição econômica e social. Sobre isso, a ativista deu como exemplo de promoção destes direitos as jornadas de mulheres indígenas organizadas em abril pela Aecid, em cujo contexto Jeannette Paillán, jornalista mapuche e diretora geral da Coordenadoria Latino-Americana de Cinema e Comunicação dos Povos Indígenas afirmou que “o objetivo de sua ação é aproximar o público espanhol da problemática das comunidades aborígines da América”. “Por isso queremos mostrar filmes que abordem aspectos como a violação de nossos territórios ou as dificuldades para manter viva nossa cultura e herança”, destacou Paillán. A organização Cultura Indígena Principado de Astúrias joga um forte papel nessa linha desde sua criação, em 2003, a partir de um grupo de jovens ativistas que haviam compartilhado várias semanas em comunidades maias da Guatemala, onde puderam conhecer a fundo a situação de extrema pobreza em que viviam. Seus objetivos são basicamente favorecer o acesso à educação e à saúde dessas populações. A Aecid também conseguiu que Madri aprovasse a Estratégia da Cooperação Espanhola com os Povos Indígenas, baseando-se nas normas da União Europeia e da Segunda Década Internacional dos Povos Indígenas do Mundo, decidida em 2005 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e cujo objetivo é atender as reclamações das comunidades originárias e reconhecer seus direitos. As demandas se resumem em respeitar as identidades dos povos e seus próprios processos de desenvolvimento social, econômico, político e cultural. A este respeito, a Estratégia definiu as prioridades da cooperação espanhola na matéria e estabeleceu como se deve identificar, desenhar e implantar atividades de cooperação respeitosas com os direitos e as identidades indígenas. Em particular, ser conscientes das vulnerabilidades das comunidades pela marginalização sofrida durante séculos, que inclui a perda de suas terras ancestrais. Para essas atividades, a Aecid conta com o Plano Diretor da Cooperação Espanhola para 2013-2016 para a América Latina, norte da África, Oriente Médio e África subsaariana. Para sustentar essa estratégia, é mantido o Programa Indígena, que coordena e articula as ações de cooperação espanholas especialmente na América Latina. A estratégia de cooperação se vê, por exemplo, no desenvolvimento do Programa Regional sobre Direitos da Infância e da Adolescência Indígena, que desde 2006 é executado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 17 países latino-americanos. Também são executados programas no contexto do Fundo Espanha-Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, com ações no Brasil para promover a segurança alimentar e a nutrição de meninos e meninas indígenas, e na Nicarágua, Costa Rica e no Equador, por meio da geração de políticas interculturais e de respeito à diversidade cultural e contra as desigualdades. Outras ações cofinanciadas pela Aecid são o Programa Integral de Desenvolvimento em Comunidades Indígenas, que a entidade Mãos Unidas realiza no Equador, e o convênio “Exercício pleno de direitos humanos e redução da pobreza nas populações indígenas e camponesas” em El Salvador, Guatemala e Nicarágua, com possibilidade de se estender a outros países da área, a cargo da organização não governamental espanhola Iepala. O Dia Internacional dos Povos Indígenas foi estabelecido pela Assembleia Geral da ONU em 23 de dezembro de 1994, quando se decidiu que seria celebrado todo dia 9 de agosto durante a Primeira Década Internacional das Populações Indígenas do Mundo. Essa decisão foi reiterada em 2004 com o lema “uma década para a ação e a dignidade”. O tema central da comemoração de hoje é “Povos indígenas construindo alianças: Em honra aos tratados, acordos e outros documentos construtivos”, com a esperança de conseguir que os Estados reconheçam e apoiem os direitos dos aborígines. A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, pediu urgência aos Estados no sentido de intensificarem seus esforços para que sejam respeitados os tratados que protegem os povos indígenas. Envolverde/IPS


por Tito Drago, da IPS
O camponês Omar Caicedo mostra ao presidente do Fida, Kanayo Nwanze, os frutos de sua terra, a megabiodiversa costa pacífica da Colômbia. Foto: Juan Manuel Barrero/IPS Inter Press Service - Reportagens

Quando a cultura também é desenvolvimento

[caption id="attachment_95753" align="aligncenter" width="529"] O camponês Omar Caicedo mostra ao presidente do Fida, Kanayo Nwanze, os frutos de sua terra, a megabiodiversa costa pacífica da Colômbia. Foto: Juan Manuel Barrero/IPS[/caption]   Bogotá, Colômbia, 9/8/2013 – “Fui caçador. Matei muitos animais”, reconheceu Rosalino Ortiz, representante da Mashiramo, uma organização camponesa para o monitoramento da biodiversidade do Maciço Colombiano, onde a Cordilheira dos Andes se ramifica, no departamento de Huila, sul do país. Depois dos painéis de “sensibilização” do programa Oportunidades Rurais do Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural, financiado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), “a pessoa muda essa mentalidade. E projetei um negócio com meus companheiros”, 24 sócios no total. Agora, Ortiz fala de turismo ecológico. E reconhece que “há mais dinheiro”. Capacitado pelo programa, já é tecnólogo e pretende ser engenheiro florestal, “para dar capacitação à organização”. “É um dos melhores programas. Nos entregam o dinheiro direto na conta. Confiam na gente, nas comunidades de base”, contou Cielo Báez, da Associação de Produtores Agroecológicos da Bacia do Rio Anaime (Apacra), um setor do também montanhoso município de Cajamarca, no departamento de Tolima, centro do país. “Nós decidimos o que realmente precisamos, por isso o sucesso do programa. Às vezes, muitos o fazem do escritório” e decidem, sem consultar as comunidades, quais ferramentas enviar-lhes, elementos que depois “são arrumados”, acrescentou Báez. As famílias desta associação, que se alternam para trabalhar coletivamente nas fazendas dos associados, tal com contaram à IPS em Anaime, em setembro de 2012, já não se preocupam em receber um empréstimo de US$ 15 mil porque “temos acompanhamento de contador e auditor”, afirmou. “O Fida, por meio do Oportunidades Rurais, permite que nossas famílias tenham melhor qualidade de vida, porque se trabalha de maneira integral, então nos fortalecemos integralmente”, destacou Báez à IPS. “Com eles, nos capacitamos. Somos 15 famílias com mais ou menos dois jovens em cada uma: uns 30 jovens que já têm acesso à educação. Agora são camponeses, mas com estudo. E envolvemos toda a família: velhos, crianças”, detalhou. A chave para obter o apoio do Oportunidades Rurais-Fida é a palavra “negócio”. Por isso o programa conseguiu que produtores dispersos se associassem nos mais diversos pontos do país. Andrés Silva, diretor do Oportunidades Rurais, conversou com estes dois camponeses na frente de Kanayo Nwanze, presidente do Fida, que chegou à Colômbia após visitar no Peru as iniciativas apoiadas por esta agência da Organização das Nações Unidas (ONU), criada para dar suporte a projetos de vida e desenvolvimento dos mais pobres do setor rural do mundo. “Esta é a banana, este o cacau, este o feijão, e temos o tamarindo”, indicava a Nwanze o camponês Omar Caicedo da Cooperativa Agropecuária de Usuários Camponeses do Patía, no departamento do Cauca. Nwanze, natural da Nigéria, especialista em ciências agrícolas e entomologista, conhecia a maioria dos frutos. Até que Caicedo lhe mostrou o “hacepuede”, um fruto exótico. É doce, pode-se comer ou beber seu suco. Também é medicinal. Deixa no sereno e bebe em jejum. Serve para as amebas”, explicou. O presidente do Fida disse que, “há alguns anos, em minha campanha para que governos e comunidade do desenvolvimento reconhecessem que a pequena agricultura era um negócio e devia ser atraente para os jovens”, não sabia que “tudo isso já se fazia na Colômbia”. Nwanze se mostrou “muito impressionado ao ver gente jovem trabalhando em agricultura e atividades relacionadas com um negócio que gera renda”. A IPS encontrou outros projetos comunitários apoiados pelo Oportunidades Rurais-Fida, como o Ecopollo, das chefes de família da Associação Municipal de Mulheres Camponesas de Lebrija (Ammucale), no departamento de Santander. Graças aos seus galpões com 1.800 aves, que vendem em mercados e lojas próximas ou aos vizinhos, algumas inclusive já podem mandar seus filhos para a universidade. Elas ressaltam que educam seus filhos no amor ao campo e que o estudo universitário serve para os jovens retornarem a Lebrija mais capacitados. Há, também, a Corporação de Recuperação Comunitária do Tecido no município de Charalá, também em Santander, onde 70 famílias formaram uma cadeia produtiva que começa com o cultivo de algodão orgânico e termina no Museu do Lenço, uma grande casa de esquina do povoado, passando por técnicas ancestrais de fiação, tingimento e tecelagem do extinto povo guane dessa região, famoso por seus tecidos. O Oportunidades Rurais-Fida começou em 2007 e acaba formalmente este ano, após ter financiado mais de 1.700 iniciativas. Agora, deve se reinventar. “Não se investirá nas mesmas famílias”, confirmou seu diretor Silva à IPS. Espera-se que estas associações que se converteram em pequenas empresas do campo transmitam a mais grupos familiares suas boas práticas e possam, também, mostrar seus próprios erros, para que a experiência se multiplique. Um dos objetivos centrais é desestimular a migração para as cidades e dar alternativas rurais. Na verdade, os camponeses de Mashiramo estão se preparando para serem uma rede local que articule outras organizações, “sermos nós os empresários e poder compartilhar nossos conhecimentos”, explicou Ortiz. O que fica é conhecimento organizado para que possa ser replicado. Mas, aprendizagem não apenas para e entre as comunidades. Também ficam para o Ministério e para o Fida as teses do programa: “temos que apoiar as pessoas, buscar o conhecimento, propor encontrar esses tesouros que há nas culturas locais, propiciar que o talento local se replique além das famílias”, em todo o município, ressaltou Silva. Envolverde/IPS


por Constanza Vieira, da IPS
Abudi, de 12 anos, passa seus dias vendendo flores diante dos bares de Beirute. Seus pais ficaram em sua cidade natal, Alepo, na Síria. Foto: Sam Tarling/IPS Inter Press Service - Reportagens

Aumenta o trabalho infantil no Líbano

[caption id="attachment_95750" align="aligncenter" width="529"] Abudi, de 12 anos, passa seus dias vendendo flores diante dos bares de Beirute. Seus pais ficaram em sua cidade natal, Alepo, na Síria. Foto: Sam Tarling/IPS[/caption]   Beirute, Líbano, 9/8/2013 – Cada vez mais meninos e meninas se integram ao mercado de trabalho no Líbano, país que se racha sob a pressão do conflito na vizinha Síria e de uma economia vacilante em meio a um vazio político. Além das disputas sectárias que o caracterizam, este país está sem primeiro-ministro desde março. Os legisladores não chegaram a um acordo sobre uma lei para realizar as eleições previstas para junho. O Líbano também está dividido entre os que são a favor do regime de Bashar al Assad, na Síria, e os que apoiam a oposição. Não há estatísticas precisas sobre emprego infantil, mas o Ministério do Trabalho elevou sua estimativa de cem mil menores no mercado de trabalho em 2006 para 180 mil atualmente. O número verdadeiro é “significativamente maior” devido às extraordinárias circunstâncias dos últimos dois anos, disse à IPS a diretora da unidade de trabalho infantil do Ministério, Nazha Shallita. Este país tem 4,2 milhões de habitantes. “Enquanto o Líbano se esforça para lidar com o enorme fluxo de refugiados sírios, além do declínio de sua economia e da deterioração da segurança, para não mencionar a falta de governo, vemos que cada vez mais crianças são obrigadas a trabalhar”, apontou Hayat Osseiran, consultora no Líbano da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Programa Internacional para a Erradicação do Trabalho Infantil, em entrevista à IPS. Todas as noites pode-se ver menores no centro de Beirute vagando entre os que se divertem vendendo colares de rosas ou gardênias, até a madrugada. O aumento do número de crianças na rua vendendo de tudo, de flores a quadros, talvez seja o mais visível e comum do trabalho infantil, mas não passa da ponta do iceberg, observou Osseiran. “É duro, não gosto, mas tenho que fazer isso por minha família”, disse Jihad, de 11 anos, carregando um monte de rosas de plástico para oferecer do lado de fora dos bares de Beirute. “Se minha mãe, meu pai e meu irmão pudessem vir, eu poderia voltar à escola, mas ficaram em Alepo (cidade síria) e não podem vir”, contou. Uma multidão de meninos e meninas trabalhadores inundam as ruas do Líbano há cerca de dois anos, quando a encarniçada guerra civil na Síria expulsou dezenas de milhares de famílias pobres e despossuídas. Mas o problema existe desde antes do conflito no país vizinho, e costuma ter um cenário mais sinistro do que o de menores pobres perambulando pela rua para ajudar suas famílias. “Muitas das crianças não vendem só flores, sendo que bandos de delinquentes os obrigam a trabalhar vendendo muitas coisas e os organizando”, disse Khaled Merheb, advogado e defensor dos direitos da infância, em entrevista à IPS. “Chegam de ônibus, que ao final da jornada noturna regressa e os leva”, afirmou. As Forças de Segurança Interna são responsáveis por evitar a exploração de menores na rua, mas reconhecem que não é muito o que podem fazer sem um mecanismo adequado para tirá-los da situação. Há um centro específico para alojar os que conseguem recuperar, mas praticamente não oferece serviços de reabilitação, tem carência crônica de fundos e é incapaz de manter os menores se um familiar pede sua liberação, mesmo se há suspeitas de exploração. As forças de segurança não têm o número de adultos que exploram menores, mas reconhece que há grupos de criminosos organizando o trabalho. Meninos e meninas costumam se queixar dos maus tratos por parte dos oficiais, pontuou Merheb. Quase todos os casos contra os adultos que fazem menores trabalhar não “chegam à justiça”, acrescentou. Além das crianças que estão na rua, dezenas de milhares de adolescentes abandonam os estudos e não há oferta de trabalho nem empregos de verão logo ali, na esquina. O trabalho infantil costuma deixar os menores expostos a abusos físicos, sexuais e psicológicos, os impede de continuar estudando e coloca em risco sua saúde, segurança e moral. Os menores trabalham em fábricas, bordéis, escritórios, plantação de tabaco e lixões. O Líbano assinou numerosos tratados internacionais sobre o trabalho infantil e tomou algumas medidas para mudar a legislação e as políticas nacionais para cumprir suas obrigações. A mais relevante foi em 1996, quando foi elevada a idade mínima para trabalhar de nove para 14 anos para projetos industriais e atividades que exigem esforço físico ou são prejudiciais à saúde. A lei vigora, mas quase não há fiscalização. O Ministério do Trabalho tem uma equipe de 70 inspetores em todo o país. Um projeto-piloto da organização não governamental holandesa War Child descobriu que 19 dos inspetores nem mesmo conheciam a unidade especial do Ministério dedicada ao assunto. Em uma esquina de um assentamento precário de Beirute, adolescentes entre 12 e 15 anos deixaram a escola e fazem diversos trabalhos, como embalar veneno de rato. Costumam trabalhar seis dias por semana, entre oito e 12 horas diárias por US$ 60 semanais. “Pensava que esse trabalho seria melhor do que ir à escola, mas estava errado. A escola é melhor do que trabalhar. Lamento tanto ter deixado de estudar, mas agora é muito tarde”, disse Haydar, um dos adolescentes. A enorme deserção escolar, especialmente em áreas marginalizadas é um grande problema. Uma lei aprovada em 1998 estabelece a educação gratuita e obrigatória até os 12 anos, mas nunca foi colocada em prática. “A educação não é nem gratuita nem obrigatória em muitas regiões”, disse à IPS Lala Arabia, diretora-executiva e coordenadora de proteção da organização Insan, que trabalha com menores de rua. “Muitas vezes dizem às famílias que não há lugares suficientes. Como será obrigatório? Os estrangeiros são os que mais sofrem”, enfatizou Arabia. O frágil e fraturado Estado libanês descuidou muito das zonas pobres do país. Atualmente, com a deterioração da situação política e da segurança e em meio à crise de refugiados sírios, cada vez mais meninos e meninas escapam do sistema. Envolverde/IPS


por Zak Brophy, da IPS

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“Açougue vegetariano” que cria alternativas à carne faz sucesso na Holanda. Saiba mais aqui.

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Modelo de banheiro público transforma urina em fertilizante. Saiba como aqui.

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Obra de arte que chama atenção para o consumo responsável está exposta no Parque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo, durante a Virada Sustentável 2014.





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