Grupos de base haitianos contra “atraente” lei de mineração

Ambiente

Grupos de base haitianos contra “atraente” lei de mineração


por Correspondentes da HGW


[caption id="attachment_95288" align="aligncenter" width="529"] Cidadãos reunidos perto da mina de Grand Bois para analisar os projetos de mineração. Foto: HGW/Lafontaine Orvild[/caption]   Porto Príncipe, Haiti, 5/8/2013 – Enquanto o governo do Haiti prepara uma “lei com incentivos que atrairão investidores” para o setor da mineração, organizações da sociedade civil se mobilizam e formam redes para defender os recursos naturais de seu país. Um terço do norte do Haiti já é objeto de pesquisas e exploração por parte de firmas estrangeiras, e cerca de 2.400 quilômetros quadrados já foram destinados a companhias haitianas que representam interesses norte-americanos e canadenses. Alguns estimam que a riqueza mineral do Haiti, principalmente, ouro, cobre e prata, pode chegar a US$ 20 bilhões. As concessões são dadas em negociações a portas fechadas, o que provoca mal-estar entre muitos haitianos, que temem que o governo esteja permitindo um saque sistemático dos recursos naturais. Mas a agência mineradora governamental disse à Haiti Grassroots Watch (HGW) que seu objetivo é conseguir que o país seja mais “atrativo” para potenciais investidores. “Precisamos de uma lei que seja atraente”, disse Ludner Remarais, diretor da Agência de Energia e Mineração (BME). “Uma lei que seduza os investidores”, destacou. A atual legislação é obsoleta, segundo ele. O Haiti vive uma “febre de ouro” há cerca de cinco anos, quando o preço desse e de outros minerais aumentou. No dia 20 de fevereiro, após uma investigação revelar que 15% do território haitiano estava licitado, o Senado adotou uma resolução demandando que cessassem todas as atividades de exploração e prospecção para permitir um debate nacional sobre os contratos. “Estamos respeitando escrupulosamente essa decisão”, informou Remarais, mas, acrescentou que a resolução não pode anular os direitos já concedidos. Organizações de camponeses e grupos defensores dos direitos humanos, da soberania alimentar e do meio ambiente temem os potenciais efeitos da indústria mineradora na qualidade da água e da terra. Estes grupos formaram o Coletivo Contra a Mineração, que ajuda outras associações locais com informação e campanhas de conscientização. No dia 5 de julho, mais de 200 agricultores da área vizinha à mina de Grand Bois, se reuniram em uma igreja local para discutir o futuro das operações de mineração. “Quando alguém fala sobre mineração, nossa história nos faz pensar em escravidão, na ocupação de nossas terras”, disse Willy Pierre, professor de ciências sociais em uma escola próxima. “Poderíamos perder nossos campos férteis. Nos expulsarão de nossa terra. Por que deveríamos partir?”, questionou. A mina de Grand Bois é rica em ouro e cobre, segundo os últimos estudos realizados pela empresa canadense Eurasian Minerals. A firma tem a concessão da BME por intermédio de sua subsidiária haitiana Société Minière Citadelle S.A. No encontro, muitos presentes disseram estar nervosos com os projetos. “O negócio da mineração deve ser uma lição para todos nós”, disse Jean Vilmé, agricultor da região de Bogé. “Não pereceremos apenas nós, que vivemos próximo à mina, mas todo o país será absorvido”, alertou. Há duas semanas, cerca de 50 organizações locais e nacionais se reuniram na localidade de Jean Rabel, no departamento Noroeste, que carece de ruas, serviço de água e instalações médicas. Os participantes assistiram e debateram um vídeo sobre mineração no Haiti e discutiram os passos a seguir. No começo deste mês, cerca de 60 representantes das associações que formam o Coletivo organizaram uma reunião de um dia em Montrouis, nordeste de Porto Príncipe. Nela discutiram formas de proteger a água subterrânea, a soberania alimentar, a agricultura, a biodiversidade, a saúde e a propriedade da terra. Clébért Duval, membro da associação de camponeses Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen (“pequenos produtores haitianos que trabalham unidos”, em creole), disse que um Estado que defende seu povo deve usar os recursos minerais para “mudar as condições das massas, dos agricultores, das pessoas vulneráveis. Isso daria um novo rosto ao país”. Porém, Duval disse que, “se o Estado é, na realidade, um predador que trabalha para as multinacionais e para o sistema capitalista que, como está em crise, monopoliza a riqueza dos países pobres, então sempre estimulará a mineração”. Duval acrescentou que “todo o dinheiro que deveria ir para as pessoas acaba nas companhias estrangeiras, exceto as migalhas que recebem os intermediários. As mineradoras ficarão com toda a riqueza, como aconteceu no passado”. Muitos rejeitam o argumento do governo de que a mineração é importante para a economia e o desenvolvimento do país. “Em 2012, algumas empresas fizeram prospecções”, disse Vernicia Phillus, da coordenadoria de mulheres da Tèt Kole, em Baie de Henne. “Levaram amostras de solo e rochas”, afirmou. “Nós, em Baie de Henne, estamos contra a mineração porque não obtivemos nenhum ganho. Terá um impacto prejudicial e destruirá nossas terras férteis e nossas árvores frutíferas, e secará nossos aquíferos”, enfatizou. Envolverde/IPS * A Haiti Grassroots Watch é uma associação entre a AlterPresse, a Sociedade de Animação e Comunicação Social (Saks), a Rede de Mulheres de Rádios Comunitárias (Refraka), rádios comunitárias e estudantes do Laboratório de Jornalismo da Universidade do Estado do Haiti.

O líder reformista Mir Hussein Mousavi está sob prisão domiciliar desde fevereiro de 2011. Foto: Hamed Saber/cc by 2.0 Inter Press Service - Reportagens

Líderes opositores iranianos esperam que a liberdade chegue com Rouhani

[caption id="attachment_95285" align="alignleft" width="150"] O líder reformista Mir Hussein Mousavi está sob prisão domiciliar desde fevereiro de 2011. Foto: Hamed Saber/cc by 2.0[/caption] Washington, Estados Unidos, 5/8/2013 – Hassan Rouhani assumiu ontem como novo presidente do Irã, despertando esperanças de um avanço diplomático na crise nuclear e também na definição do destino de três figuras muito importantes da oposição. Não surpreenderia se Rouhani tentasse negociar o fim das sanções internacionais, que causam enorme dano à economia nacional. Contudo, há outra importante fonte de instabilidade para o regime iraniano, que se costuma esquecer no Ocidente, que são as profundas divisões causadas pelas eleições presidenciais de 2009 e a posterior prisão de três influentes líderes reformistas: Mehdi Karroubi e o casal Mir Hussein Mousavi e Zahra Rahnavard. A campanha de Rouhani se centrou não apenas em melhorar a situação econômica do país, mas também em atenuar o clima “securitizado” no país, e conseguir a libertação de Karroubi, Mousavi e Rahnavard, que segundo boatos que circulam em Teerã seria iminente. Do ponto de vista do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, a libertação condicional de Mousavi e Karroubi poderia começar por sanar as feridas internas no Irã. Porém, a libertação de um grupo rotulado como “sedicioso” pelo governo também poderia ser muito perigosa. Poderia se considerar que Khamenei admite um erro, o que poderia intensificar as batalhas entre facções dentro do sistema. A resolução da crise nuclear não depende só das relações entre Estados Unidos e Irã, mas também de outros fatores que incluem o destino de três prisioneiros iranianos. Em sua campanha, Rouhani apelou a três eleitorados diferentes: os conservadores governantes, os reformistas e o resto da cidadania. Político hábil e calculista, se acertou para ganhar as eleições sem alterar o equilíbrio político no Irã. Rouhani é partidário de um regime conservador, embora de um estilo diferente ao de seu predecessor, Mahmoud Ahmadinejad. Acredita no sistema de governo religioso do Irã, mas não em “exportar” a religião. Para ele, a República Islâmica deveria se fortalecer no âmbito interno antes de se lançar a aventuras no exterior. Javad Zarif, provável futuro ministro das Relações Exteriores, é bem ilustrativo neste sentido. Experiente diplomata, em 2002 ajudou os Estados Unidos a estabelecerem um governo pós-Talibã no Afeganistão. Provavelmente, tente reparar as relações do Irã com o resto do mundo, o que, talvez, inclua os Estados Unidos. A dedicação de Rouhani às reformas promovidas por Mousavi, Karroubi e Rahnavard é incerta. Ele gostaria de reduzir a repressão no país e tornar a população mais “próspera”. Mas, isto não se traduz na crença em reformas fundamentais. O mais provável é que Rouhani queira ver ressurgir o Irã anterior a 2009, no qual esquerda e conservadores da República Islâmica coexistiam e trabalhavam juntos para manter a teocracia revolucionária. Entretanto, os ultraconservadores dentro do sistema político do Irã se assustam com suas intenções. Embora o rotulem como um revolucionário de “princípios”, o alertaram a não incluir figuras “sediciosas” em seu governo. Isto pode incluir funcionários favoráveis ao ex-presidente Mohammad Khatami, pesadelo dos ultraconservadores. O jornal Kayhan, durante muito tempo considerado porta-voz dos conservadores do Irã, é particularmente duro com os reformistas e não tão sutil em suas advertências a Rouhani. Outros conservadores, como o chefe do Poder Judiciário, Sadegh Larijani, também advertiram que as “cobras” reformistas estão “levantando suas cabeças novamente”. Parece que o futuro gabinete ministerial incluirá principalmente tecnocratas e conservadores moderados. Reformistas influentes como Khatami provavelmente desempenharão um papel nos bastidores, assessorando o novo presidente. Mas, o que acontecerá com Mousavi, Rahnavard e Karroubi? O casal Mousavi-Rahnavard continua em prisão domiciliar. Informes vindos do Irã indicam que sua situação (quase não têm contato com o mundo exterior) lhes causa sérios problemas de saúde. Sobre Karroubi informa-se que está preso em uma casa do Ministério de Inteligência, e também que sofre de várias doenças. A morte de qualquer um deles poderia ser um duro golpe ao equilíbrio político no Irã, e à reputação de Rouhani. Ele prometeu obter sua libertação. Seu governo agirá de acordo? Rouhani não comanda o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica. É provável que ele, e seu chefe, Khamenei, desempenhem o papel mais importante na hora de determinar os destinos de Mousavi, Karroubi e Rahnavard. Até agora, o trio está detido sem julgamento. É interessante que o site Basirat, vinculado à Guarda Revolucionária, tenha declarado que “se a lei for seguida, um tribunal competente deve investigar os crimes destes indivíduos”. Esta é uma das poucas vezes em que o regime fala tão abertamente em julgar o trio reformista, já que temem que um julgamento dê a eles a oportunidade de desafiarem publicamente Khamenei. É possível que se esteja considerando julgar os três líderes da oposição? Então, em si mesmo, não seria admitir uma derrota, já que não poderia cimentar o caminho para um acordo entre os setores em pugna. Como Khamenei declarou reiteradamente, a unidade nacional é essencial para tratar com os inimigos externos do Irã. Conhecido por estender pontes no Irã, Rouhani pode, teoricamente, assentar as bases para a unidade nacional enquanto tenta negociar o programa nuclear. No entanto, a ponte na qual se encontra é pouco firme. Ele e seus partidários deverão fazer muitos esforços para guiar o regime para a estabilidade. Os avanços em matéria de negociações nucleares e o fim das sanções pode ajudar. As sanções mais recentes do Congresso dos Estados Unidos contra o Irã tornarão mais difícil o trabalho de Rouhani e darão poder aos ultraconservadores. E, qualquer medida interna ou externa que os ultraconservadores considerarem ameaçadora, poderá colocar em risco a presidência de Rouhani. Isto não só renovará as disputas dentro do próprio regime como também causará o colapso das negociações nucleares. Quanto às negociações, costuma-se dizer que são necessárias duas pessoas para dançar: Estados Unidos e Irã. Porém, na realidade, a dança de Rouhani tem muitos participantes, alguns mais interessados em si mesmos e mais traiçoeiros que outros. O gabinete que Rouhani designar será um importante indicador de suas intenções. E o destino de Karroubi, Mousavi e Rahnavard pode ser o mais importante de todos. Envolverde/IPS * Alireza Nader é analista de políticas internacionais na não governamental e apartidária Corporação Rand.


por Alireza Nader*
Angola Inter Press Service - Reportagens

Menos países mais pobres

[caption id="attachment_95279" align="aligncenter" width="529"] Menina carregando um bebê em Luanda. Angola deixará de integrar a lista de países menos adiantados em 2015. Foto: Louise Redvers/IPS[/caption]   Nações Unidas, 5/8/2013 – A quantidade de países menos adiantados (PMA) começa a diminuir lentamente. Botsuana, Cabo Verde e Maldivas se “graduaram” e passaram a ser considerados países em desenvolvimento. O número de PMA aumentava desde 1971, quando somavam 24. Hoje são 49. Se a situação econômica desses países continuar melhorando, pelo menos outros seis – Angola, Guiné Equatorial, Kiribati, Samoa, Tuvalu, Vanuatu – também poderão deixar o grupo dos mais pobres em 2015. No entanto, outros são reticentes e buscam adiar a mudança de status por causa dos benefícios que os PMA recebem, como tarifas preferenciais para exportações e maior assistência ao desenvolvimento. A lista de possíveis “graduados” coincide com a divulgação de um informe da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo o qual o fluxo de investimento estrangeiro direto para esses países aumentou 20% no último ano, atingindo a marca de US$ 26 bilhões. As nações que mais capital receberam foram Camboja, na Ásia, e cinco países da África: Libéria, Mauritânia, Moçambique, República Democrática do Congo (RDC) e Uganda, todos PMA. O informe sobre os Investimentos no Mundo, deste ano, elaborado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), com sede em Genebra, na Suíça, diz que o crescimento foi devido a importantes ganhos obtidos pelo Camboja, onde o fluxo de investimentos foi de 73%, bem como pela RDC (96%), Libéria (167%), Mauritânia (105%), Moçambique (96%) e Uganda (93%). Contudo, em 20 PMA diminuiu o investimento estrangeiro direto, particularmente em Angola, Burundi, Mali e Ilhas Salomão. Considerados os mais pobres dos pobres, os PMA se caracterizam por terem extrema pobreza e uma estrutura econômica frágil. A isso se somam dificuldades geofísicas, limitada capacidade de crescimento e desenvolvimento, e vulnerabilidade diante de golpes externos, segundo a Unctad. O último país a entrar na lista é o Sudão do Sul, que se converteu em membro 193 da ONU em julho de 2011. “Não está totalmente claro” se o aumento do investimento estrangeiro direto nos PMA é uma nova tendência ou um fenômeno pontual, disse à IPS Arjun Karki, coordenador internacional da LDC Watch, aliança global dedicada a questões de desenvolvimento nesses países. A redução do fluxo de capitais para os países ricos colocou os PMA no radar desses fundos, acrescentou. “Se observarmos a tendência, os PMA com uma grande riqueza, como RDC, Libéria, Mauritânia, Moçambique e Uganda, são os que estão recebendo fundos”, pontuou Karki. Ao que parece, os investimentos tendem a se concentrar no setor das indústrias extrativistas, acrescentou. “Do ponto de vista do desenvolvimento, não é uma tendência muito animadora, pois reforça a noção de um crescimento baseado na produção dos PMA, o que não é sustentável”, ressaltou. O Comitê da ONU de Políticas de Desenvolvimento costuma definir a “elegibilidade” dos países para lhes conferir o status de PMA em função de vários fatores, como população, renda e outros indicadores econômicos, mas a decisão final fica nas mãos das próprias nações implicadas. O Zimbábue, por exemplo, não quis unir-se ao grupo PMA apesar de ter as condições para isso. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que o aumento do investimento estrangeiro direto coincide com um “momento importante”, quando a comunidade internacional faz um esforço final para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em 2015. Um dos objetivos emblemáticos é erradicar a extrema pobreza e a fome, dois dos principais problemas dos PMA. Atualmente, a ONU trabalha para definir uma agenda de desenvolvimento para depois de 2015. Karki disse à IPS que o novo Programa de Ação de Istambul dirigido aos PMA, para a década 2011-2020, representa uma leve mudança em relação à ideia de um crescimento baseado em melhorar a capacidade produtiva desses países para conseguir uma transformação estrutural de sua economia. Deve-se aplaudir os investimentos estrangeiros diretos nos PMA se apontarem para os setores fabril e de serviços básicos e de infraestrutura, como saúde, água e saneamento, eletricidade e comunicações. O problema principal dos capitais irem para a indústria extrativista é que os benefícios não são distribuídos. As grandes multinacionais e as elites locais ficam com o dinheiro em prejuízo dos setores mais pobres, marginalizados e vulneráveis, observou Karki. A questão crucial da ampliação da brecha da desigualdade e da redistribuição dos recursos continua sendo um dos grandes desafios do desenvolvimento”, opinou o coordenador da LDC Watch, afirmando que “isto ficou patente em minha última visita a Libéria e Serra Leoa, dois PMA com muitos recursos, mas, infelizmente, com as populações mais pobres”, argumentou. “A triste ironia levou nossos colaboradores da sociedade civil a propor que os ricos permanecessem na terra porque de todo modo não podiam garantir às pessoas o direito a um desenvolvimento sustentável”, destacou Karki. O crescimento negativo, especialmente em Angola, Burundi e Mali, pode ser atribuído à sua instabilidade política, que não é atraente para a chegada de capitais. “Dito isto, é interessante assinalar que o investimento estrangeiro direto é importante tanto em regimes autoritários como onde há governos vulneráveis, como ocorre na África e Ásia”, afirmou. Outra razão para a redução do investimento estrangeiro direto é a evolução de alguns governos que promovem o desenvolvimento e tentam preservar os interesses nacionais e o direito dos povos frente à ameaça do puro lucro e dos saques. “Se isso for realmente correto, então os governos dos PMA estão no caminho certo para aliviar suas populações das causas estruturais da pobreza, das privações e das injustiças”, ressaltou Karki. A questão da soberania é fundamental em termos de se respeitar e se ajustar ao sistema de cada país. Do contrário, está provado que o investimento estrangeiro direto é a perdição do desenvolvimento sustentável, mais do que uma bênção, concluiu. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Em Níger, 75% das mulheres se casam antes de completarem 18 anos. Foto: Etrenard/CC BY 2.0 Inter Press Service - Reportagens

As adolescentes que caminham para o altar em Níger

[caption id="attachment_95137" align="alignleft" width="300"] Em Níger, 75% das mulheres se casam antes de completarem 18 anos. Foto: Etrenard/CC BY 2.0[/caption] Niamey, Níger, 2/8/2013 – “Poder casar sua filha antes dos 19 anos é um orgulho”, disse El Hadji Suley Musa, de 60 anos, bancário aposentado de Níger. “Desse modo fica protegida da gravidez fora do casamento”, explicou. Há muitas pessoas neste país africano com 16 milhões de habitantes que pensam como ele. Por isso, não surpreende uma pesquisa de população e saúde realizada pelo Ministério da Saúde em 2012, mas só divulgada este mês, apresentar como resultado que 75% das entrevistadas tenham se casado aos 18 anos. Segundo este estudo, as adolescentes entre 15 e 19 anos são as mais vulneráveis. O informe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Estado Mundial da Infância 2011, situa Níger em primeiro lugar na lista de países com maior prevalência de casamentos precoces. Yahaya Issa, assessor do Ministério da Educação Nacional, disse à IPS que os pais que casam suas filhas jovens costumam apresentar motivos religiosos. “Para os muçulmanos, o casamento tem um lugar importante em suas vidas”, disse à IPS Aminatu Abdu, dona de casa de 53 anos e moradora em Niamey. Ela induziu suas duas filhas a se casarem aos 15 e 16 anos. “É inaceitável que nossas filhas muçulmanas não tenham um marido depois da puberdade”, afirmou. Porém, nem todos os muçulmanos pensam igual. “Há uma interpretação errada da religião. O Islã defende o bem-estar social. Por isso estou contra casar as filhas de forma prematura, pois tem consequências negativas para a saúde”, disse o religioso Malam Isa Dogo, à IPS. “Quem as casa pequenas, o faz por ignorância. O Islã é uma religião que está contra a falta de conhecimento”, acrescentou. Segundo Abdu Sani, que faz seu doutorado em antropologia na Universidade de Abdijan, as pessoas usam a religião com falso pretexto. O verdadeiro motivo é a ignorância e a pobreza, apontou. “Na maioria dos casos, as meninas são entregues em casamento a homens mais velhos com boa posição econômica ou elevado status social”, afirmou à IPS. O casamento precoce acaba em gravidez prematura, o que coloca em risco o futuro da jovem, pois muitas abandonam a escola. Segundo fontes médicas, 40% das adolescentes casadas ficam grávidas nos meses seguintes ao casamento. “A pressão sociocultural, especialmente o desejo de ter um filho antes do primeiro aniversário de casamento, costuma levar a jovem a provar sua fertilidade nos meses seguintes ao casamento”, explicou à IPS a socióloga Salisu Habu. Segundo estatísticas de 2011 do Ministério de Saúde Pública, as adolescentes representavam 19% das mulheres em idade reprodutiva e são responsáveis por 14% da taxa de fertilidade feminina em Níger. Além disso, “menos de 40% das jovens grávidas fazem exames pré-natal”, pontuou à IPS Hadjara Tinni, parteira em Niamey. Segundo Tinni, como as adolescentes engravidam antes da maturidade física, têm o dobro de possibilidades que as maiores de 20 anos de morrer durante o parto. Segundo a pesquisa do Ministério de Saúde Pública, a mortalidade materna no país é de 554 mulheres mortas para cada cem mil nascidos vivos, das mais altas do mundo. As adolescentes representam 13% das que morrem. “As sobreviventes costumam ficar com sequelas, com uma fístula obstétrica”, ressaltou Hasan Idrisa, também parteira em Niamey. Das 163 pacientes registradas em abril nos seis centros de saúde do país com este problema médico, 80% haviam casado antes de completarem 18 anos, informou a Secretaria de Saúde. “Temos que educar e manter as meninas na escola para acabar com esta situação”, enfatizou Hadiza Isufu, professora e integrante da Associação para a Defesa dos Direitos Humanos em Níger. Mas o projeto de lei apresentado em 2002, que estabelece que a idade mínima para mulheres se casarem é 18 anos, não tem aprovação das organizações religiosas. “A situação das adolescentes é de grande preocupação, mas, por desgraça, grande parte da população ignora o problema”, destacou Makibi Dandobi, ministro de População, no dia 22, Dia Mundial da População. Envolverde/IPS


por Souleymane Maâzou, da IPS
Plantação de arroz, no distrito de Miyakojimachi da cidade de Tamura, a cerca de 15 quilómetros da central de Fukushima. Foto: Divulgação/ Internet Inter Press Service - Reportagens

Pesadelo radioativo persiste para agricultores de Fukushima

[caption id="attachment_95132" align="alignleft" width="300"] Plantação de arroz, no distrito de Miyakojimachi da cidade de Tamura, a cerca de 15 quilómetros da central de Fukushima. Foto: Divulgação/ Internet[/caption] Tóquio, Japão, 2/8/2013 – As vidas de Yoshihiro Watanabe e sua mulher Mutsuko, produtores de fungos e arroz na localidade de Fukushima, mudaram drasticamente desde o colapso da central nuclear de Dai Ichi, após o terremoto e tsunami de 11 de março de 2011. “Perigosos níveis de radiação dos deteriorados reatores nucleares nos obrigaram a deixar de cultivar fungos e reduziram em quase 80% nossa renda”, contou Watanabe à IPS. Sua família também tem extremo cuidado em proteger sua saúde, escolhendo apenas alimentos “seguros”, o que implica “um estilo de vida que dá nos nervos”, acrescentou o produtor. Os alimentos expostos à radiação aumentam os riscos de se contrair câncer. Pelos limites impostos pelo governo japonês, os produtos alimentares que registrarem contaminação superior a cem becquereles por quilo não podem ser vendidos. O estabelecimento de Watabane, criado há 200 anos, está em Dateshi Ryozenmachi, pequeno povoado agrícola a 55 quilômetros de onde funcionava a central nuclear de Fukushima. Este ano, a oficial Área de Evacuação Deliberada diminuiu para um raio de 40 quilômetros ao redor dos reatores danificados, embora tenham sido constatados riscos radioativos em áreas que ficam a até cem quilômetros de distância. Watanabe entende que seu futuro é incerto. “O acidente nuclear foi um duro golpe na agricultura de Fukushima, contaminando longos trechos de terras e assustando os consumidores japoneses que rejeitam nossos produtos”, explicou. Fukushima tinha a terceira maior quantidade de agricultores do Japão, que produzem uma ampla variedade de frutas, verduras e alimentos processados. O maior obstáculo que enfrentam os agricultores é a falta de um padrão claro em matéria de risco de radiação que todos aceitem, apontou. A variedade de fungos que ele cultiva em um terreno montanhoso da área continua apresentando níveis entre 700 e mil becquereles por quilo. Isto é até dez vezes o valor permitido. Foram criadas novas organizações integradas por residentes e cientistas comprometidos com a situação para promover os controles dos alimentos, em uma tentativa de fazer voltar à normalidade as vidas dos agricultores afetados em Fukushima, que agora dependem de compensações do governo. Manabu Kanno, que lidera a organização Reabilitando um País Bonito da Radiação, disse à IPS que a entidade lançou um serviço de inspeção pouco depois do acidente nuclear, apoiado por um fundo governamental. O grupo aspira proteger a muito prejudicada agricultura local. Atualmente, atende mais de 90 mil famílias agrícolas que pagam uma cota nominal para que inspecione seus produtos e declare que são seguros para os consumidores. “Os pecuaristas são os mais afetados, já que o leite apresenta altos níveis de radiação. Porém, mais de dois anos depois do acidente, há algum sinal de esperança, porque a radiação está baixando”, disse Kanno. Agora, os agricultores se dedicam a novos cultivos, como os pepinos, e optam por vendas diretas aos clientes em lugar de vender aos supermercados, onde os produtos são rotulados como “de Fukushima”, gerando rejeição. Alguns produtores também reiniciaram o cultivo de arroz este ano. Há muito em jogo. Mais de 150 mil pessoas que residiam dentro das áreas perigosas perto do reator continuam vivendo como “refugiados nucleares” em outras cidades para evitar a radiação. O Ministério do Meio Ambiente realiza um programa de descontaminação que inclui a remoção da camada superficial do solo em terras afetadas. A previsão é que este plano consuma pelo menos mais cinco anos. A desconfiança dos consumidores é alta, especialmente entre as famílias com filhos pequenos, os mais vulneráveis à exposição radioativa. Mizuho Nakayama, diretora da organização Protejam as Crianças da Radiação, disse à IPS que “o acidente de Fukushima alterou drasticamente a noção de segurança alimentar, particularmente para as mães que querem proteger seus filhos da agricultura contaminada”. Nakayama, mãe de um menino de quatro anos, disse que as atuais medidas de radiação divulgadas pelo governo confundem os pais. Sua entidade controla os dados oficiais em termos do risco para as crianças. “Nossos padrões de compra de alimentos mudaram. A prioridade é a segurança e nossa própria avaliação”, o que implica se afastar de modo importante da atitude de acreditar “que o governo nos protege”, afirmou. “Pela primeira vez nos demos conta de que não podemos confiar nos limites de radiação do governo”, ressaltou. Os agricultores não são os únicos ainda afetados. Na semana passada, pescadores de Fukushima protestaram contra a Companhia de Energia Elétrica de Tóquio (Tepco), dona do reator danificado, para que acabe com o vazamento de água radioativa no Oceano Pacífico. Envolverde/IPS


por Suvendrini Kakuchi, da IPS
O biocarvão ajuda a fertilizar o solo e melhora sua qualidade de reter a água. Foto: Rob Goodier/E4C/cc by 2.0 Inter Press Service - Reportagens

Biocarvão pode fazer retroceder o relógio climático

[caption id="attachment_95128" align="aligncenter" width="529"] O biocarvão ajuda a fertilizar o solo e melhora sua qualidade de reter a água. Foto: Rob Goodier/E4C/cc by 2.0[/caption]   Washington, Estados Unidos, 2/8/2013 – Enquanto políticos em todo o mundo se perguntam como reduzir as futuras emissões contaminantes, alguns cientistas e ambientalistas se centram em definir maneiras seguras e eficientes de reduzir o dióxido de carbono que já está na atmosfera. O biocarvão, ou “biochar”, é uma delas. Trata-se de uma antiga prática de fertilização que implica fabricar carvão a partir dos cultivos do ano anterior, e misturá-lo no solo para nutrir a terra para o ano seguinte. O biochar impede que chegue à atmosfera o dióxido de carbono emitido pelas plantas quando morrem e se decompõem naturalmente. Em maio, uma estação científica norte-americana anunciou que, pela primeira vez, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono haviam ultrapassado as 400 partes por milhão (ppm). Os especialistas climáticos alertam há anos que níveis superiores a 350 ppm podem gerar um “ponto de inflexão” que acelere o derretimento dos gelos polares, elevando as temperaturas mundiais e os eventos meteorológicos extremos. “É necessária uma mudança de modelo em nosso enfoque para o clima, para mudar realmente a forma como olhamos o que significa uma solução. A maior parte do debate se centra não só no setor energético, mas também nas emissões atuais”, apontou Mark Hertsgaard, um jornalista que nas últimas décadas se dedicou a assuntos climáticos, perante uma audiência em Washington. “As emissões em curso, as atuais e as futuras, acrescentam cerca de dois ppm de dióxido de carbono à atmosfera por ano, mas o que pauta o problema são as 400 ppm que já estão na atmosfera. Embora atualmente toda a discussão seja sobre essas duas ppm, também temos que levar a sério as 400 ppm e ver como extrair dióxido de carbono da atmosfera”, acrescentou Hertsgaard. O jornalista indicou um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo o qual na década anterior a 2010 houve uma quantidade sem precedentes de “eventos meteorológicos extremos”. Mesmo se repentinamente se detivessem todas as novas emissões, os cientistas sugerem que as temperaturas mundiais continuarão aumentando durante pelo menos outras três décadas. Contudo, segundo uma quantidade cada vez maior de pesquisadores do solo, cientistas climáticos e outros, o biocarvão pode oferecer uma oportunidade de reduzir esses níveis mundiais pré-existentes de dióxido de carbono. Por meio da fotossíntese, todas as plantas absorvem naturalmente o dióxido de carbono do ar como parte integral de seu próprio ciclo vital. Em circunstâncias normais, esse carbono volta a ser liberado na atmosfera quando a planta morre e se decompõe, mas a ideia que há por trás do biocarvão é consolidar esse carbono de uma forma sólida que possa ser colocado debaixo da terra e, assim, fora da atmosfera, pelo menos por algum tempo. A parte central do processo implica queimar a planta – talvez cultivos que morreram, ou árvores que fizerem o mesmo por causa de uma infestação, ou algo plantado especificamente para este fim – em um fogo baixo em oxigênio, e convertê-la em carvão. O biocarvão resultante pode ser usado como um fertilizante de alta potência, oferecendo benefícios tanto para os agricultores como para a luta contra a mudança climática. Segundo estimativas de Johannes Lehmann, pesquisador em ciências agrícolas da Universidade de Cornell, o mundo poderá compensar plenamente suas emissões anuais de gases-estufa se o biochar for adicionado a cerca de 10% das áreas agrícolas existentes. Em todo caso, essa é a ideia. No momento, inclusive para os que consideram este método relativamente sólido, o potencial de aumentar a uma escala significativa o uso de biocarvão no mundo ainda está longe de ser atingido. “Persistem muitas perguntas, mas o fundamental aqui é que precisamos ampliar nosso olhar para fazer com que a agricultura esteja no centro do debate sobre a mudança climática”, opinou Hertsgaard. “Na teoria, o biocarvão pode ser um meio de fazer retroceder o relógio do clima. Sem dúvida, a agricultura pode ser uma parte crucial da solução para que o problema dê marcha à ré”, ressaltou. Até agora, o financiamento e o apoio político para o biocarvão estão sumidos, apesar de haver claro interesse governamental nos Estados Unidos e na União Europeia. O Departamento de Agricultura norte-americano talvez tenha mostrado o maior interesse institucional até o momento, financiando uma série regular de pequenos subsídios para que prossiga a pesquisa sobre o biocarvão, particularmente em universidades. Embora no Congresso dos Estados Unidos se tenha feito tentativas para garantir o financiamento em importante legislação agrícola, isso ainda não aconteceu. A Organização das Nações Unidas (ONU), o Banco Mundial e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) também promovem e estudam uma série de projetos, mas alguns observadores sugerem que a maioria dos doadores ainda adota um enfoque de esperar e ver. Atualmente, há várias dezenas de projetos-piloto e de pequena escala que avançam em países em desenvolvimento, principalmente na Índia. Na verdade, embora o debate internacional sobre o clima ofereça um potencial tentador, mas ainda remoto para o biocarvão, as necessidades de segurança alimentar dos países pobres constituem a oportunidade mais tangível para este enfoque. Está disponível uma série de projetos simples e baratos para criar biocarvão, a maioria dos quais criados a partir de recipientes de 208 litros. “Os habitantes de países em desenvolvimento costumam estar limitados pela pobreza de seus solos, que são ácidos ou pobres em nutrientes, e é ali onde a adição de biocarvão tende a mostrar o maior aumento nos índices de crescimento”, revelou Thayer Tomlinson, diretora de comunicações na Iniciativa Internacional do Biochar (IBI), uma organização com sede nos Estados Unidos, em conversa com a IPS. “Parte da importância disto é que as comunidades possam usar resíduos agrícolas em lugar de lenha, e converter isso em produtos úteis. Estes benefícios significativos para o solo podem ser proporcionados sem cortar florestas, sem depender tanto dos fertilizantes comerciais e usando apenas produtos que de outro modo poderiam ser descartados”, detalhou Tomlinson. A IBI existe desde 2007 e, segundo Tomlinson, nesse tempo o interesse no biocarvão aumentou notoriamente, a partir da indústria, dos empresários, dos especialistas em desenvolvimento e outros. “Observando as referências bibliográficas ao biocarvão, se vê que houve grande aumento ano a ano”, destacou. Embora esse tema tenda a incluir vários grupos de interesses, claramente há um interesse comercial cada vez maior, enfatizou. Enquanto isso, a indústria trabalha para padronizar os produtos deste pujante setor. No ano passado, a IBI apresentou padrões iniciais para definir o biocarvão, e há dois meses divulgou um novo programa de certificação para produtores da América do Norte. Em abril, a organização apresentou um protocolo de “compensação de carbono” junto a reguladores dos Estados Unidos, para quantificar quanto carbono há no biocarvão e as emissões que seu uso acarretaria. Agora o documento está aberto a comentários públicos. Envolverde/IPS


por Carey L. Biron, da IPS
Analistas se perguntam se as mudanças na Igreja Católica declaradas pelo papa Francisco são sólidas. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS Inter Press Service - Reportagens

Revolução ou gatopardismo no Vaticano?

[caption id="attachment_95123" align="aligncenter" width="529"] Analistas se perguntam se as mudanças na Igreja Católica declaradas pelo papa Francisco são sólidas. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS[/caption]   Rio de Janeiro, Brasil, 2/8/2013 – “Negociamos bem: o papa é argentino e Deus é brasileiro”, brincou Francisco quando jornalistas lhe perguntaram sobre como é ser tão amado neste país, onde reuniu milhões de pessoas, tendo em conta a histórica rivalidade futebolística entre os dois povos. No entanto, analistas religiosos se perguntam até onde a Igreja Católica está disposta a “negociar”, como instituição, em temas tabus para sua tradição, como a ordenação sacerdotal de mulheres, a integração dos divorciados e a rejeição aos homossexuais. O cardeal argentino Jorge Bergoglio, hoje papa Francisco, teve especial cuidado de deixar esses assuntos fora do protocolo da Jornada Mundial da Juventude, motivo de sua visita ao Brasil, entre 22 e 28 de julho. Em resposta aos jornalistas durante seu voo de retorno ao Vaticano, respondeu em entrelinhas o que agora muitos leem como uma “revolução” do “papa que chegou da terra de nascimento de Che (Ernesto) Guevara”, ou, no mínimo, o início de uma abertura da Igreja Católica. “Se uma pessoa é gay e busca o senhor com boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O catolicismo ensina que não se deve discriminar, mas acolher”, acrescentou ao condenar, no entanto, o “lobby gay” que, como outros grupos de pressão, não são “coisa boa”. O escritor e teólogo dominicano Frei Betto disse, em entrevista à IPS, que se trata de um chefe da Igreja Católica disposto a fazer concessões, um homem de diálogo e não de disciplina. “Já não temos um papa conservador como os que o antecederam”, opinou. No entanto, são concessões e não revoluções, segundo o sociólogo Luiz Alberto Gomes de Souza, diretor do Programa de Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes. Ele não vê na figura do papa a de um “rebelde” que chegou ao Vaticano para mudar a doutrina. “Eu diria que o papa não mudou a doutrina tradicional sobre uma série de temas, mas que, ao evitar uma condenação, de certo modo emitiu um silêncio que é libertador. Ou seja, um silêncio que permite que se comece a discutir estes temas”, pontuou Souza à IPS. O bispo de Roma, como Francisco prefere ser chamado nesta nova postura de humildade papal, fechou uma porta para outros assuntos como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo, aos quais se opôs ferreamente como cardeal na Argentina. A Igreja já se expressou perfeitamente sobre isso. Não havia necessidade de retornar ao assunto, respondeu aos jornalistas. Contudo, Souza entende que o papa teria aberto outra porta: a de um novo “clima” propício ao debate em questões “congeladas” nas paróquias, como celibato obrigatório de sacerdotes, moral sexual, castidade dos jovens, condenação aos métodos anticoncepcionais e diversidade sexual. “As pessoas (da Igreja) tinham medo de discutir esses assuntos. Agora, de certo modo, ele os descongelou”, apontou o sociólogo. “Ele não fechará o debate dentro da Igreja sobre os temas de teologia moral que estão congelados desde o século 16, e que os teólogos não podem abordar sem correr o risco de censura ou sanção”, afirmou Frei Betto. O papa não se referiu a esses temas “congelados”, mas a outros quentes abordados pelos jornalistas no avião, como divórcio e participação das mulheres dentro da Igreja. “Creio que chegou o tempo da misericórdia. Quando se reunir o grupo de oito cardeais, nos primeiros dias de outubro, discutiremos como seguir adiante na pastoral do matrimônio”, respondeu o papa ao se referir à demanda de católicos divorciados, que não podem realizar uma segunda união pelos ritos católicos. Deste modo, deixou também aberto o tema da ampliação do conceito de “nulidades” do matrimônio. Além disso, abriu uma porta para as mulheres. “Deve-se seguir adiante, não se pode entender uma Igreja sem mulheres ativas nela. Não temos ainda uma teologia da mulher. É preciso fazê-la”, acrescentou Francisco. Porém, para que não haja confusão, o papa esclareceu que, “quanto às ordenações das mulheres, a Igreja diz não. João Paulo II se pronunciou com uma formulação definitiva. Essa porta está fechada”, enfatizou. Dentro de um novo clima de “alegria” e otimismo, e não de “quem parece em constante luto”, como disse em sua homilia em Aparecida, o papa preferiu destacar o “positivo”, como ressaltou aos jornalistas ao regressar a Roma. Paulo Carneiro de Andrade, da Pontifícia Universidade Católica, define esse novo ambiente eclesiástico “otimista” não como uma “mudança doutrinária, mas na relação pastoral”. Um clima necessário em meio a uma Igreja Católica que perde terreno diante de grupos evangélicos mais festivos em seus cultos e com pastores mais perto de seus seguidores. O que mudou, segundo Carneiro de Andrade, foi “o contexto pastoral no qual agora se fala”. Como Souza, este teólogo destaca que não há “inovação” em temas como a integração dos homossexuais na sociedade e na condenação à homofobia. Tampouco no dos divorciados, que já foi discutido na era de seu predecessor, Bento 16. “Surpreende porque antes o tom era negativo, de condenação, de desconfiança do mundo moderno. Este papa mostra uma visão mais positiva e construtiva da fé cristã. Por isso o que diz ganha outra dimensão”, afirmou Carneiro de Andrade à IPS. Uma nova dimensão cuidadosamente tecida na escolha do perfil do novo papa. É “um papa necessário, que foi eleito devido à renúncia de Bento 16, que admitiu não poder tomar conta dos problemas que a Igreja enfrenta”, destacou Frei Betto. Na entrevista à TV Globo, “Francisco deixou claro que houve uma articulação dos cardeais reunidos para o conclave, e que a decisão foi a de que o papa a ser eleito deveria ser alguém capaz de transformar a Igreja”, acrescentou. Carneiro de Andrade coincide quanto ao colégio cardinalício “querer uma pastoral que tivesse essa relação e um evangelizador com um modelo mais propositivo, mais otimista sobre o futuro”. O constante sorriso e o toque de humor deixados pelo papa Francisco no Rio de Janeiro mostram esse caminho. O qual, ante o rosto sempre adusto e sério de Bento 16, não deixa de ser uma revolução. “Em sua visita ao Brasil, o papa se mostrou aberto, inclusive em temas que, até agora, eram proibidos na Igreja Católica, como a homossexualidade e o papel da mulher”, recordou Frei Betto. “Foi muito importante o que disse na viagem de volta sobre os gays e a necessidade de uma teologia da mulher, o que, espero, seja o primeiro passo para que no futuro se permita a ordenação sacerdotal feminina. E, certamente, ele terá que reverter a proibição de que os divorciados tenham acesso aos sacramentos”, acrescentou. “Podemos entender que ele não fechará o debate na Igreja sobre os temas da teologia moral”, mas também se deve considerar que, “na Igreja, tudo caminha devagar. Não é fácil mover um elefante que pesa dois mil anos de tradição”, observou Frei Betto. Envolverde/IPS


por Fabiana Frayssinet, da IPS
Uma multidão se reuniu para o funeral do líder de oposição Mohammad Brahimi em Túnis. Foto: Louise Sherwood/IPS Inter Press Service - Reportagens

Tunísia fixa o cronômetro para sua Constituição

[caption id="attachment_94965" align="aligncenter" width="529"] Uma multidão se reuniu para o funeral do líder de oposição Mohammad Brahimi em Túnis. Foto: Louise Sherwood/IPS[/caption]   Túnis, Tunísia, 1/8/2013 – Quando as divisões políticas ameaçam desestabilizar a transição democrática da Tunísia, o primeiro-ministro, Ali Larayedh, divulgou os planos para terminar a redação da nova Constituição e realizar eleições. Contudo, nem todos estão convencidos de que isso será respeitado. Em discurso na televisão, feito no dia 29 de julho, Larayedh pediu calma para resolver a atual crise política, afirmando: “a dissolulção da Assembleia Nacional Constituinte e do governo não ajudará em nada. Há oportunistas que tentam se aproveitar da situação. O diálogo não deveria estar nas ruas nem ocorrer por meio da violência, mas na mesa discutindo estratégias e planos”. Seu discurso foi uma demonstração de força depois da onda de protestos que sacudiram o país, decorrentes do assassinato do líder da oposição Mohammad Brahmi, no dia 25 de julho, segundo crime desse tipo em cinco meses. A surpresa inicial virou protestos contra o governo com gritos como “Dégage” (fora, em francês), um dos slogans utilizados durante a revolta popular de 2011, que pôs fim ao regime de Zine el Abidine Ben Ali, que estava no poder desde 1987. A oposição está descontente com o processo de transição do governo. Era prevista que a Constituição fosse redigida em um ano para depois a realização de eleições, mas já se passaram quase dois e o processo continua. As autoridades insistem que demora fazer corretamente, mas os críticos afirmam que os governantes estão se aferrando ao poder. O primeiro-ministro anunciou agora que a Constituição estará pronta no final deste mês e que as leis eleitorais ficarão prontas para 23 de outubro, quando o atual governo completa dois anos. Também informou que as eleições serão em 17 de dezembro, terceiro aniversário da imolação do vendedor ambulante Mohammad Buazizi (1984-2011), que desatou a revolta popular na Tunísia, dando início à Primavera Árabe. “É impossível cumprir esses prazos”, disse às IPS Amine Ghali, diretor de programa do Kawakibi Democracy Transition Centre, uma organização internacional com sede em Túnis. “Para redigir as leis eleitorais e organizar eleições são necessários entre seis e oito meses. Talvez a Constituição possa ficar pronta até o final de agosto, mas só se houver uma discussão genuína para melhorar o rascunho atual, considerando suas muitas falhas”, ressaltou. Os manifestantes também estão descontentes porque não se faz o suficiente para deter os grupos islâmicos extremistas, nem para garantir as fronteiras. O país afundou uma vez mais na dor no dia 29, ao se saber de um ataque terrorista que deixou nove soldados mortos, com seus corpos mutilados, na fronteira com a Argélia. Após o funeral de Brahmi no dia 27, houve confrontos entre manifestantes a favor e contra o governo, na praça em frente à Assembleia Nacional Constituinte, na capital. A polícia os dispersou com gás lacrimogêneo. Também houve protestos em outras partes do país. Reem Selmi foi com seu marido e sua filha de 12 anos a uma manifestação a favor do primeiro-ministro no dia 28, e opinou que “as pessoas querem que o governo resolva os problemas na hora, mas não é possível”. Segundo ela, o governo liderado pelo partido islâmico moderado Ennahda vai no caminho certo. “Mas este governo deixa que todo mundo leve a vida que quer, com Ben Ali não tínhamos liberdade para praticar nossa religião, e agora podemos. Somos muçulmanos e queremos o Islã. O Islã não significa terrorismo”, acrescentou Selmi. Entretanto, é um perigo real as divisões políticas se aprofundarem, precisamente, por motivos religiosos. “Queria que Ben Ali saísse porque não deixava os muçulmanos usarem barba nem as mulheres usarem niqab, mas agora creio que sei o motivo”, disse à IPS Maher Gatri, em uma manifestação contra o governo. “Atualmente pode-se ver uma pessoa e dizer de que partido é só por sua roupa ou aparência. Somos todos tunisianos e muçulmanos, mas agora estamos separados em dois grupos. É muito triste”, lamentou. “Me dá medo quando estou perto dos partidários do governo. Sou muçulmana, mas agora temo minha própria religião”, acrescentou. O governo também tem problemas com a integração da Assembleia Constituinte porque vários membros deixaram o plenário nos últimos dias. “Saíram 59 dos 217 membros, mas queremos que voltem”, declarou à IPS Osama al Saghir, um dos integrantes do partido Ennahda que participa da Constituinte. “Se chegarmos a uma solução, poderemos acabar a redação da Constituição a tempo. Mas, se decidirem não voltar, terão que renunciar e será preciso substituí-los”, afirmou. Para piorar, há boatos de que o próprio governo, uma coalizão de três partidos, o laico e progressista Congresso para a República, o social-democrata Ettakatol e o majoritário Ennahda, poderia estar se fragmentando. Bannur Mohammad, porta-voz do Ettakatol, disse à rádio Jawhara FM: “Se o Ennahda e o Congresso para a República se negarem a dissolver o governo, o Ettakatol se retirará da troika”. No entanto, Saghir disse que não é o caso. “Seguimos trabalhando com Mustafa Ben Jaafar, secretário-geral do Ettakatol e presidente da Assembleia Constituinte”. As imagens que a TV mostra da violência instalada no Egito são um duro alerta para os tunisianos sobre o que pode ocorrer quando se segue por esse caminho. Em um artigo intitulado Tunísia não é Egito, Francis Ghilès, pesquisador do Centro Barcelona de Assuntos Exteriores (Cidob), aponta três diferenças fundamentais entre a situação de um e outro país. O exército da Tunísia não tem um papel político importante, a situação econômica e o desemprego não estão tão mal neste país, e a sociedade civil é ativa e vigorosa. O desejo de todos é que tenha razão. Envolverde/IPS


por Louise Sherwood, da IPS
Bandeira do Quirguistão. Foto: Divulgação/ Internet Inter Press Service - Reportagens

Ilusões e receios diante de investimentos chineses no Quirguistão

  [caption id="attachment_94962" align="alignleft" width="333"] Bandeira do Quirguistão. Foto: Divulgação/ Internet[/caption] Bisqueque, Quirguistão, 1/8/2013 – Diante das vacilações do Ocidente na hora de investir no Quirguistão, o governo deste país apela cada vez mais para a China quando tenta atrair capitais para o desenvolvimento de sua infraestrutura. Pequim professa desejos de ajudar este país sem condições. Porém, como dizem alguns especialistas, há temores de que essa ajuda afete a soberania do Quirguistão. A incerteza no setor de mineração continua dissuadindo companhias ocidentais, sobretudo depois que o governo local mudou os termos dos investimentos estrangeiros na mina de ouro de Kumtor. O Índice de Estados Falidos 2013, elaborado pelo Fundo pela Paz, inclui o Quirguistão entre as nações em nível de “alerta”, deixando-o no 48º posto entre os 178 países estudados. Só o Uzbequistão, em 44º lugar, foi considerado mais instável entre as ex-repúblicas soviéticas da Ásia central. A desconfiança ocidental ficou evidente na conferência sobre investimentos realizada em Bisqueque, a capital do país, entre os dias 10 e 11 de julho. No encontro, o governo quirguistanês fez um chamado para conseguir apoio para projetos de desenvolvimento de infraestrutura no valor de US$ 5 bilhões. Em um comunicado conjunto, 40 agências de ajuda estrangeiras e organizações multilaterais asseguraram estar dispostas a fornecer quase US$ 2 bilhões para ajudar a atribulada economia do país nos próximos quatro anos. Mas também recordaram ao governo do Quirguistão a importância de consolidar “instituições eficientes” e de reduzir os gastos do Estado. A China não enviou uma delegação à conferência. Contudo, no dia 15 de julho seu chanceler, Wang Yi, visitou Bisqueque e elogiou as relações bilaterais. Os investimentos chineses no Quirguistão, agora em mais de US$ 1,7 bilhão, sempre estarão livres de “condições adicionais” e se realizarão com base em uma “associação igualitária”, declarou Wang a jornalistas locais. A aparente disposição chinesa de não condicionar a ajuda dá esperanças a alguns quirguistaneses. Outros suspeitam que o gigante asiático é mais um usurário do que um amigo, e temem que possa estar em risco a soberania do país se ficar com dívidas com Pequim. “A China pode oferecer ao Quirguistão mais investimento do que todos os outros doadores juntos”, disse Valentin Bogatyrev, coordenador do Perspective, centro de estudos com sede em Bisqueque. O analista destacou vários fatores que facilitam a cooperação entre os dois países: ambos gozam de fortes relações bilaterais, são membros da Organização de Cooperação de Xangai e têm proximidade geográfica. Porém, Bogatyrev reconheceu que os investimentos chineses gerarão “uma dependência política e econômica maior” de Bisqueque em relação a Pequim, o que poderia supor riscos. Primeiramente, as autoridades do Quirguistão poderiam ter de enfrentar protestos internos contra a chegada “incontrolável” de operários chineses para trabalhar em projetos de infraestrutura. Funcionários do governo e organizações da sociedade civil acabam de constatar que mais de 970 chineses trabalham ilegalmente na construção de uma refinaria de petróleo na localidade de Kara-Balta. O interesse da China em seu pequeno vizinho da Ásia central deve ser visto principalmente do ponto de vista do desejo de Pequim em estabilizar a conflituosa província adjacente de Xinjiang, observou Li Lifan, professor e pesquisador associado da Academia de Ciências Sociais de Xangai. Em entrevista à EurasiaNet.org, Li expressou dúvidas sobre a capacidade do governo quirguistanês, já com um orçamento anual apertado, para compensar a ajuda chinesa. O analista sugeriu que uma possibilidade poderia ser adotar acordos de intercâmbio, outorgando concessões de mineração ou facilitando a compra de produtos agrícolas nacionais. Entretanto, esses acordos também devem cuidar para não causar mal-estar na população do Quirguistão, onde a riqueza mineral é modesta e zelosamente guardada, acrescentou Li. Firmas chinesas neste país já sofrem ondas de violência de residentes e duras críticas da imprensa. Por exemplo, alguns meios reprovam a concessão de Ishtamberdy, depósito de ouro no sul do país, por ter sido entregue em termos muito baratos à China. Em 2011, o ex-primeiro-ministro Omurbek Babanov foi duramente criticado por ter sugerido que as concessões mineiras eram uma forma de pagar a Pequim um trecho da polêmica ferrovia que liga a China ao Uzbequistão através do Quirguistão. No dia 15 de julho, a agência de notícias local Kloop.kg informou que o Escritório do Promotor do Estado do Quirguistão disputou um acordo alcançado entre o Ministério do Interior e a Beijing Construction Engineering Group International (BCEG). Essa empresa chinesa previa instalar câmeras e cobrar multas por excesso de velocidade nas estradas que ligam a capital à cidade de Osh. Por fim, chegou-se a um acordo pelo qual a BCEG só poderá cobrar multas até recuperar seu investimento nas câmeras. “Cobrar multas é competência exclusiva dos órgãos estatais”, disse a promotoria em uma declaração, acrescentando que recomendava ao governo anular o contrato. Enquanto o Ocidente continuar cauteloso sobre o Quirguistão – onde, segundo o próprio ministro da Economia, Temir Sariyev, anualmente se perde US$ 700 milhões do orçamento devido à corrupção –, Bisqueque parece não ter outra opção a não ser aumentar sua dependência em relação à China. Envolverde/IPS * Artigo publicado originalmente na EurasiaNet.org.


por Chris Rickleto*
Da esquerda para a direita: Abed Khatout, da banda árabe-israelense Jalas, e Koby Farhi, da banda israelense Orphaned Land, com outros músicos em Tel Aviv antes da excursão que farão juntos pela Europa. Foto: Pierre Klochendler/IPS Inter Press Service - Reportagens

O heavy metal une árabes e judeus

[caption id="attachment_94957" align="aligncenter" width="529"] Da esquerda para a direita: Abed Khatout, da banda árabe-israelense Jalas, e Koby Farhi, da banda israelense Orphaned Land, com outros músicos em Tel Aviv antes da excursão que farão juntos pela Europa. Foto: Pierre Klochendler/IPS[/caption]   Tel Aviv, Israel, 1/8/2013 – Duas bandas de heavy metal israelenses, uma integrada por árabes, a Jalas (“suficiente”, em árabe), e outra por judeus, a Orphaned Land (“terra órfã”), dividiram esta semana o palco no Club Hangar 13, no renovado porto de Tel Aviv, e logo iniciarão uma excursão europeia de 18 apresentações. Embora a colaboração artística seja em si mesmo um sucesso, porque é bastante raro bandas judias e árabes tocarem juntas, os dois grupos preferem se concentrar em fazer música e não em ressaltar suas respectivas identidades em conflito. O líder da banda árabe, Abed Jathout, é de Acre, no norte de Israel. O baixista procurou baixar as expectativas durante um ensaio. “Somos companheiros metaleiros antes de tudo. É a música que nos une”, afirmou. Na verdade, a única “desconexão” que sentem é com os palestinos que afirmam que este tipo de colaboração musical, apresentada como projetos de coexistência, na realidade apoiam a ocupação israelense da Cisjordânia e Jerusalém oriental. “Cultivar a irmandade e compartilhar o palco são formas de mostrar que o rock está acima da política”, ressaltou Koby Farhi, vocalista e líder da banda judia. A Orphaned Land tem uma mescla de ritmo new age. Suas letras se referem a uma paz profética entre as religiões. A banda se apresentou na Turquia e se orgulha de ser “popular no mundo árabe”. Existe uma confusão entre a identidade turca e a árabe, que é comum em Israel devido à cultura islâmica compartilhada pelos dois povos. Os músicos da Jalas são israelenses de origem palestina, embora se considerem simplesmente palestinos. “Íamos tocar no Egito em novembro, mas uma semana antes o show foi cancelado. Bom, temos passaporte israelense”, explicou Jathout. Durante sua apresentação tocaram uma boa versão de Alf Leila wa Leila (Mil e Uma Noites, em árabe), um sucesso da lendária cantora egípcia Umm Kalzum (1898-1975). As duas bandas procuram defender a ideia de que a música não tem fronteiras e está acima das nacionalidades. Contudo, no mundo da política, a realidade é mais complexa. Um em cada cinco israelenses é de origem árabe-palestina. A maioria destes, na verdade, se consideram palestinos ou “palestinos israelenses”. A maioria dos judeus os considera “árabes israelenses”, e os de direita os rotulam de “quinta coluna”, isto é, simpatizantes do inimigo. Por sua vez, a maioria dos palestinos os chama “árabes de 1948”, porque permaneceram no Estado judeu quando este foi criado naquele ano. Quando Israel lutou sua guerra de independência em 1948 e 1949, centenas de milhares de palestinos fugiram e se converteram em refugiados. Muitos que ficaram passaram a ser refugiados internos, no que se reconheceu com “Nakba” (catástrofe, em árabe). Farhi faz todo o possível para destacar o espírito de companheirismo. “É a segunda noite que tocamos juntos, Orphaned Land e Jalas, como israelenses e árabes”, afirmou. Por sua vez, Jathout reconheceu: “odiamos que todo o mundo espere que cantemos sobre a ocupação apenas por sermos palestinos”. Entretanto, os habitantes da Cisjordânia e de Jerusalém oriental seguramente não concordam com a atitude das bandas. Desde a segunda Intifada (levante palestino de 2000 a 2005) mantêm um boicote cultural contra Israel em protesto à ocupação. De todo modo, as severas restrições impostas na Cisjordânia com os postos de controle, os caminhos especiais para a população dos assentamentos, as barreiras e os muros de separação tampouco propiciam um intercâmbio cultural. As limitações de movimento são aliviadas durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã. As pessoas de idade residentes na Cisjordânia recebem permissão para rezar na Al-Haram ash-Sharif (Esplanada das Mesquitas), lugar sagrado para o Islã, localizado na amuralhada Cidade Velha de Jerusalém. O alívio das restrições se deve, provavelmente, à existência de conversações de paz em andamento. Além do problema central das fronteiras entre Israel e o futuro Estado palestino, a identidade nacional é um grande obstáculo nas negociações. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, insiste que os palestinos reconheçam seu país como “Estado judeu”. Mas o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, é contra porque a denominação ignora a significativa minoria palestina que vive em território israelense. Desde que o Hamás (Movimento de Resistência Islâmica) assumiu pela força o controle da Faixa de Gaza e Israel impôs um duro bloqueio em 2007, numerosos artistas palestinos estão proibidos de entrar em território israelense, inclusive o cantor Mohammad Asaf, de Gaza, que venceu o concurso de talentos Arab Idol este ano. A União Europeia anunciou que a partir de 2014 os 28 Estados membros que assinarem acordos de financiamento e cooperação com entidades de Israel estarão obrigados a estabelecer uma diferença entre as que estão em território israelense, propriamente dito, e as que ficam nas colônias judias de Jerusalém oriental e Cisjordânia. Para a maioria dos judeus israelenses, as 200 mil pessoas que vivem nos bairros judeus de Jerusalém oriental não são colonos, simplesmente “residentes” desta cidade e, naturalmente, israelenses. Além disso, os 400 mil colonos que vivem na Cisjordânia se consideram simplesmente israelenses. Para a União Europeia e todos os países que não reconhecem a legitimidade da ocupação, os israelenses que residem nos territórios palestinos definem sua identidade por imposição e não por reconhecimento. “Sou totalmente contra os boicotes”, disse Farhi. “O propósito da arte é a harmonia e a coexistência, precisamente em lugares onde não existe”, afirmou. Orphaned Land e Jalas têm um sonho modesto: “compartilhar um ônibus” durante sua viagem pela Europa. Envolverde/IPS


por Pierre Klochendler, da IPS
Choças para escravos criadas por colonialistas holandeses em Bonaire, perto das minas de sal. Foto: V.C.Vulto/GNU license Inter Press Service - Reportagens

O Caribe debate reclamação à Europa por escravidão

[caption id="attachment_94952" align="aligncenter" width="529"] Choças para escravos criadas por colonialistas holandeses em Bonaire, perto das minas de sal. Foto: V.C.Vulto/GNU license[/caption]   Puerto Espanha, Trinidad e Tobago, 1/8/2013 – À véspera das celebrações pelo Dia da Emancipação, os Estados do Caribe discutem novamente a possibilidade de reclamar da Europa reparações pela escravidão. O primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves, que publicamente prometeu “não dar trégua” a esse assunto, disse à IPS: “Do meu ponto de vista, temos um caso muito sólido para levar perante um tribunal adequado”. Na semana passada, ao falar em Cuba por ocasião do 60º aniversário do assalto ao Quartel Moncada, Gonsalves insistiu em exigir dos antigos impérios coloniais europeus reparações pelo genocídio dos indígenas e pela escravidão de africanos. “A principal razão do subdesenvolvimento no Caribe e na América Latina é o legado do genocídio nativo e da escravidão africana”, afirmou. Na cúpula da Comunidade do Caribe (Caricom) em Puerto Espanha, no começo de julho, Gonsalves apresentou aos líderes da região três documentos com informação histórica e legal avalizando a reclamação de reparação, incluindo um elaborado pela professora Hillary Beckles, vice-reitora da Universidade das Índias Ocidentais. Beckles é autora do livro Britain’s Black Debt: Reparations Owed the Caribbean for Slavery and Indigenous Genocided (A Dívida Negra da Grã-Bretanha: as Reparações Devidas ao Caribe pela Escravidão e pelo Genocídio Indígena). Gonsalves comemorou a decisão da Caricom de criar um novo comitê dedicado ao tema, que será presidido pelo primeiro-ministro de Barbados, Freundel Stuart. Este órgão, que supervisionará o trabalho da Comissão de Reparações da Caricom, estará formado por representantes de Guiana, Haiti, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, pelos presidentes dos respectivos comitês nacionais de reparação e um delegado da Universidade das Índias Ocidentais. Kafra Kambon, presidente do Comitê de Apoio à Emancipação em Trinidad e Tobago, disse à IPS que é importante que as organizações não governamentais e a população do Caribe em geral apoiem as iniciativas dos governos da região. Kambon, cujo grupo organiza as atividades anuais do Dia da Emancipação, observou que esse apoio é necessário já que “os governos europeus tentarão pressionar os líderes caribenhos para que abandonem a ideia” de pedir uma compensação. “Temos que dar força a essa reclamação de reparações”, ressaltou Kambon à IPS, e qualificou o tráfico de escravos como “crime em massa que vai além da imaginação humana. As pessoas sofreram danos psicológicos. Saímos da escravidão sofrendo extremo trauma”, afirmou. No Suriname, o Comitê Nacional de Reparações procura conseguir um consenso nacional a respeito, divulgando informação detalhada dos acontecimentos históricos. “Vamos trazer à luz a informação sobre a escravidão e o genocídio de nossos primeiros habitantes”, disse o presidente do órgão, Armand Zunder. “Pensávamos que lutaríamos sozinhos, mas agora sabemos que temos pleno apoio. Fizemos grandes avanços”, destacou Zunder, que no começo deste mês apresentou na Holanda o primeiro pedido de reparações aos descendentes de escravos no Suriname, citou investigações apontando que a riqueza obtida pela Holanda do Suriname durante a escravidão chegou a US$ 165,7 bilhões. Por outro lado, a Coalizão para Reparações Pan-Africanas na Europa (Parcoe) enviou uma longa carta aos líderes do Caribe apontando que seu “enfoque verticalista”, sem contemplar a sociedade civil, poderia “acabar frustrando as aspirações de compensação das massas de descendentes africanos e cidadãos indígenas” da região. Os vice-presidentes da Parcoe, Esther Stanford-Xosei e Kofi Mawuli Klu, escreveram que o Caribe deve evitar “os mesmos erros cometidos pelo Grupo de Pessoas Eminentes da antiga Organização Pan-Africana, de não realizar uma efetiva consulta sobre estratégias de reparação, informar-se e atuar pelos melhores interesses dos diversos países africanos”. Na carta citaram o trabalho da ativista e professora de leis norte-americana Mari Matsuda, para quem as reclamações de reparações devem incluir a sociedade civil, em um enfoque “de baixo para cima”. Com “de baixo para cima” Matsuda se refere à experiência viva daqueles indivíduos e grupos que denunciam a violação de direitos, em lugar daqueles que tradicionalmente definem o alcance das reparações legais, como juízes, associações de advogados e outros grupos que são parte do status quo social, legal e econômico”, ressaltaram. Envolverde/IPS


por Peter Richards, da IPS

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XII Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste

data 04/11/2014 até 07/11/2014
XII Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste

data 04/11/2014 até 07/11/2014

dica de
sustentabilidade

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Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

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Observações

 
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