Caribe usa enfoque financeiro para combater mudança climática

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Caribe usa enfoque financeiro para combater mudança climática


por Desmond Brown, da IPS


[caption id="attachment_91086" align="alignleft" width="300" caption="Camponês em sua plantação de banana, destruída por uma tempestade tropical. Foto: Desmond Brown/IPS"][/caption] Castries, Santa Lúcia, 25/6/2013 – O Caribe tem a nada invejável reputação de ser uma das regiões mais propensas a desastres naturais do mundo, o que é exacerbado pela mudança climática e por sua vulnerabilidade, que pode ter consequências econômicas significativas, segundo inúmeros especialistas. Por isso, Warren Smith, presidente do Banco de Desenvolvimento do Caribe (CBD), sugeriu que uma estratégia integral para fortalecer a resistência da região deve incluir a adaptação às consequências da mudança climática. O CBD, com sede em Barbados, é a principal instituição de crédito da região. Os eventos naturais “aumentam em intensidade e impactam de forma negativa o crescimento econômico da região”, acrescentou Smith perante governadores da instituição. Também mencionou um novo informe Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo o qual nos últimos 60 anos os países do Caribe sofreram o impacto de 187 eventos naturais, especialmente ciclones e inundações. O estudo estimou o custo econômico anual dos danos em 1% do produto interno bruto (PIB) da área, um peso para o crescimento econômico e um elemento central do crescimento da dívida. “Diante destas desanimadoras estatísticas, o FMI sugere que os pequenos Estados insulares em desenvolvimento do Caribe deveriam ser considerados Estados na frente de luta para a distribuição de fundos relacionados à mudança climática”, opinou Smith. “As perspectivas de crescimento para nossos muito vulneráveis países melhorarão se os recursos para fortalecer a resiliência à mudança climática puderem ser concentradas em um pacote de ajuste mais integral”, acrescentou. Segundo Smith, “as intervenções de adaptação climática podem ser aceleradas e dirigidas aos setores econômicos mais vulneráveis, em especial turismo e agricultura”. O primeiro-ministro de Santa Lúcia, Kenny Anthony, disse à IPS que o CDB mostrou interesse em apoiar as medidas da região contra a mudança climática. Junto com o Banco de Investimentos Europeu, o organismo afina projetos para financiar, no contexto da Linha de Crédito de Ação Climática. “A linha de crédito oferece uma oportunidade para financiar projetos de baixo orçamento destinados a construir resiliência contra a mudança climática”, explicou Anthony. “A região deve aproveitar a oportunidade e fazer todo o possível para que tais recursos contribuam com a redução das emissões de gases-estufa e da degradação da terra, e para melhorar os minguantes fornecimentos hídricos”, acrescentou. Os pequenos Estados insulares do Caribe são Antiga e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Dominica, Granada, Guiana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Suriname, e Trinidad e Tobago. Seis destes países estão entre os dez mais propensos do mundo a sofrer desastres naturais em função de sua superfície ou população. O restante do Caribe os segue de perto, pois todos estão dentro das 50 áreas de risco. A frequência dos eventos climáticos varia de forma significativa no Caribe. Jamaica e Bahamas têm as maiores probabilidades de sofrerem furacões. Na verdade, são elevadas para a maioria de seus países, acima de 10% ao ano. O presidente do CDB disse que a “amarga experiência” ensinou a região que um grande evento climático pode desbaratar até os programas de ajuste fiscal pensados cuidadosamente. E acrescentou que a cobertura de seguros poderia ser uma forma efetiva de transferir o risco. Smith identificou a seguradora Caribbean Catastrophe Risk Insurance Facility (CCRIF) como um “excelente veículo para esse fim”, mas que é pouco provável que um país que toma empréstimo do CDB, por meio um severo ajuste fiscal, adquira um seguro adequado. “Segundo as coberturas atuais adquiridas por São Cristóvão e Neves, Antiga e Barbuda, e Jamaica, o desembolso da CCRIF pelos furacões Georges e Gilbert teriam representado apenas 2% das perdas totais”, ressaltou. “A posição dominante na comunidade de doadores é que os países com problemas fiscais e de dívida devem antecipar reformas. A ideia deve ser ampliada para incluir a concentração do apoio à resiliência climática”, acrescentou Smith. Segundo ele, o CCRIF é uma boa opção, capaz de oferecer duas formas práticas desse apoio aos países caribenhos, e acrescentou que a assistência oferecida pelos doadores poderia ser destinada a melhorar seus seguros contra catástrofes para situá-los em um nível aceitável. O CCRIF solicitou há pouco nova injeção de fundos para que o seguro por inundações seja mais acessível, explicou Smith, uma medida que “abrirá outra janela para transferir parte do risco associado às inundações, um fenômeno que agora ocorre todos os anos no Caribe”, ressaltou. Os custos vinculados à recorrente frequência de eventos naturais na região são altos. Desde o começo da década de 1960, o Caribe sofre perdas anuais de, em média, 1% do PIB, um custo que cresce. As perdas aumentaram de 0,9% do PIB anual, nos anos 1980 e 1990, para 1,3% a partir de 2000. Os desastres naturais também deixaram mais de 1.300 mortos nos últimos 60 anos. A Guiana, considerada o celeiro do Caribe, lidera um enfoque agressivo para acelerar a diversificação econômica e construir maior resiliência, esforços que lhe deram retornos significativos. “Ficaram para trás os dias em que nossa forte dependência de produtos tradicionais, como açúcar, arroz e bauxita, deixavam fortunas para nossa economia para os caprichos e vicissitudes dessas indústrias”, declarou à IPS o ministro das Finanças da Guiana, Ashni Singh. “Atualmente, a forte atividade na exploração e extração mineral, a diversificação agrícola, as tecnologias de informação e comunicação, os serviços financeiros e de construção e o turismo de aventura, são o cimento de uma economia com uma base mais ampla e mais resiliente”, detalhou Singh. O ministro também mencionou os “esforços agressivos para passar da dependência de combustíveis fósseis para a confiança na energia hidrelétrica para cobrir nossas necessidades”, com maior capacidade de geração e melhorada confiabilidade e acessibilidade. Envolverde/IPS  

n8 Inter Press Service - Reportagens

Estados Unidos deixam de condicionar ajuda antiaids a juramento contra prostituição

Washington, Estados Unidos, 25/6/2013 – A Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos anulou uma disposição pela qual o governo condicionava sua ajuda à luta contra o HIV/aids a uma oposição à prostituição por parte das organizações beneficiárias. A sentença, emitida no dia 20, com seis magistrados a favor e dois contra, surpreendeu muitos observadores. Para a maioria das organizações defensoras dos direitos das mulheres e da livre expressão é um grande triunfo. “Estamos surpresas, mas muito contentes”, disse Crystal DeBoise, uma das diretoras do projeto trabalhadoras sexuais do Centro de Justiça Urbana, com sede em Nova York, em entrevista à IPS. “É um bom passo para o respeito aos direitos humanos das trabalhadoras sexuais e será positivo para as organizações, pois estarão em melhor situação para atender as necessidades deste setor da população, bem como de outras pessoas que correm riscos sociais e de saúde”, acrescentou. O juramento contra a prostituição fazia parte da política deste país desde 2003, quando foi aprovado no contexto do Plano de Emergência do Presidente para Alívio da Aids (Pepfar). Essa iniciativa, concentrada principalmente na África, representou o maior compromisso contraído por Washington na luta contra o HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da aids). Na década seguinte à sua aprovação, o Pepfar destinou quase US$ 46 bilhões a programas contra a enfermidade, segundo dados oficiais, que oferecem medicamentos antirretrovirais (que reduzem a carga do vírus no organismo) a mais de cinco milhões de pessoas. Para este e o próximo anos, o presidente Barack Obama solicitou mais US$ 13 bilhões. Pela forma como o Congresso redigiu a lei, as organizações beneficiárias do Pepfar deviam explicitar sua posição contra a prostituição. Desde então, numerosos especialistas em saúde alertavam que uma política desse tipo atentava contra o objetivo de erradicar a epidemia de aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida). “A lei não surgiu da comunidade médica, mas de alguns legisladores norte-americanos que viram uma oportunidade, por meio do Pepfar, de inserir e aplicar uma pureza ideológica ao trabalho sexual”, disse Serra Sippel, a presidente do Centro de Igualdade de Gênero e Saúde, em entrevista à IPS. “Foi perturbador, em parte porque não é uma intervenção de saúde pública silenciar as pessoas nem obrigar as organizações a adotarem o ponto de vista específico de alguns legisladores”, pontuou Sippel. O governo sempre explicou o voto contra a prostituição dizendo que acabar com o trabalho sexual era um elemento central da política contra o HIV/aids. A sociedade civil, por seu lado, esteve dividida a respeito. Algumas organizações, especialmente as que lutam contra o tráfico de pessoas, de certa forma estavam a favor. “Considera-se que a melhor prática em matéria de saúde pública é gerar confiança entre trabalhadoras sexuais e o trabalho realizado para acabar com o estigma e a discriminação que avivam a epidemia”, explicou Sippel. Obrigar organizações como a Pathfinder International, que trabalha no campo da saúde sexual e que foi uma das principais demandantes perante a Suprema Corte, a assinar um compromisso desse tipo, basicamente era levá-las a adotar uma política contrária à população que se supõe deveriam atender, destacou. “Acaba sendo muitíssimo mais difícil conseguir e construir confiança com as pessoas que estão no centro da questão”, disse Keven Frost, diretor-geral da amfAR, a Fundação para a Pesquisa Sobre Aids, em entrevista à IPS. Muitas organizações assinaram o juramento, mas depois fizeram o que lhes pareceu melhor para seu objetivo. “Assinamos o juramento sabendo que o ignoraríamos”, reconheceu Frost. A decisão judicial se baseou na interpretação de que o juramento contra a prostituição atentava contra a liberdade de expressão, garantida na Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos. Devido às polarizadas opiniões neste país sobre o trabalho sexual, o caso se concentrou especificamente na liberdade de expressão. Por isso, o tribunal não se manifestou sobre os méritos dos argumentos ou das políticas relacionadas com o trabalho sexual em geral. Além disso, a interpretação do caso afetará somente organizações norte-americanas, mais do que internacionais, que recebem fundos do Pepfar. Porém, Frost disse que a maioria delas está radicada nos Estados Unidos e que a capacidade das organizações internacionais de aplicar o decreto dos programas é limitada. Como a norma ainda é legal, apesar de decisão judicial, resta saber como agirá o governo de Obama daqui em diante. As autoridades se negam a discutir sua posição a respeito do juramento, pois foi objeto de processos legais desde que Obama iniciou seu primeiro mandato em 2009. No entanto, ainda “não terminou tudo. É um êxito importante para derrubar essa política, mas ainda é preciso trabalhar para ter certeza de que não se aplica de forma negativa a organizações que trabalham no terreno”, destacou Sippel. “Esta decisão oferece uma oportunidade para analisar casos específicos em que fundos norte-americanos possam envolver trabalhadoras sexuais em uma agenda mais crítica”, sugeriu. “Estamos conseguindo progressos em matéria de HIV/aids em escala global, especialmente no tocante a atender este assunto a partir de uma perspectiva de saúde pública e direitos humanos. Este caso nos ajuda a continuar dirigindo a conversação nessa direção”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Carey L. Biron, da IPS
Para um número cada vez maior de egípcios, Morsi e Mubarak são praticamente o mesmo. Foto: Cam McGrath Inter Press Service - Reportagens

Egípcios perdem o otimismo sobre seu futuro

[caption id="attachment_91079" align="alignleft" width="300" caption="Para um número cada vez maior de egípcios, Morsi e Mubarak são praticamente o mesmo. Foto: Cam McGrath"][/caption] Cairo, Egito, 25/6/2013 – A maioria dos egípcios está profundamente decepcionada com o desempenho do presidente Mohammad Morsi e tem pouca confiança nas figuras políticas da oposição, segundo o resultado de uma pesquisa. A consultoria Zogby Research Services, com sede em Washington, entrevistou mais de cinco mil adultos egípcios, entre abril e maio, para avaliar o grau de confiança pública nas instituições estatais, a opinião sobre o atual governo e a esperança no futuro. Os pesquisadores procuraram uma representação de todos os setores da sociedade egípcia. “O que nossas conclusões revelam é que se trata de uma sociedade profundamente dividida, não em linhas demográficas, mas com base na ideologia e na religião”, afirmaram os pesquisadores. Também disseram que os dois principais partidos islâmicos, o governante Partido da Liberdade e da Justiça, da Irmandade Muçulmana, e o ultraconservador Partido Nour, receberam o apoio de aproximadamente 30% dos entrevistados. Os principais partidos da oposição, incluindo a Frente de Salvação Nacional e o Movimento Juvenil 6 de Abril, receberam o apoio de cerca de 35% dos entrevistados. Quase 40% disseram não ter confiança nem no governo nem na oposição. A nova pesquisa também mostra um forte contraste entre o otimismo dos islâmicos e a decepção do resto da sociedade sobre a Primavera Árabe e seu resultado. Mais de 90% dos que se identificaram com os partidos islâmicos disseram que estão melhor hoje do que há cinco anos, enquanto 80% dos que se inclinam pela oposição afirmaram que estão pior. Por outro lado, 81% dos cristãos, que são cerca de 10% da população egípcia, disseram que se sentem pior do que antes. Nove em cada dez afirmaram estar convencidos de que a Irmandade Muçulmana procura “islamizar” o Estado. A nova pesquisa revela uma acentuada queda do otimismo em relação a 2011, quando os egípcios derrubaram o regime de Hosni Mubarak (1981-2011) e expressavam uma confiança sem precedentes em seu futuro. Apenas 46% dos entrevistados, sobretudo simpatizantes de partidos islâmicos, disseram acreditar que sua situação melhorará nos próximos cinco anos. Para os pesquisadores, “isto mostra uma acentuada queda do otimismo”, que atingiu seu ápice de 85% em junho de 2011. O Egito enfrenta uma “crise de liderança”, apenas dois anos e meio depois da queda de Mubarak e um ano após Morsi assumir o cargo, apontaram os pesquisadores. Há um ano, 57% dos egípcios entrevistados disseram que a vitória de Morsi era “um acontecimento positivo” e que “o resultado de eleições democráticas devia ser respeitado”. Hoje, esse apoiou caiu para 28% e praticamente toda essa porcentagem provém dos próprios simpatizantes do partido do governo. A pesquisa mostra que a credibilidade de Morsi entre os egípcios é de apenas 4% mais do que a de Mubarak, e que a esmagadora maioria da população está desiludida com seu desempenho. Só um quarto dos entrevistados, na maioria simpatizantes de partidos islâmicos, disseram estar “satisfeitos” com as políticas do governo em economia, segurança, bem-estar social e direitos humanos. O nível de descontentamento é preocupante. Diferentes grupos de oposição estão convocando protestos para o dia 30, quando Morsi completará um ano no cargo. Observadores temem que as manifestações agravem a tensão no já profundamente polarizado cenário político do país, causando mais instabilidade e violência. Quanto à pergunta sobre possíveis alternativas ao governo de Morsi, a maioria dos consultados mostrou pouca confiança também nos principais líderes da oposição, incluindo ex-candidatos presidenciais. A única figura pública considerada crível por mais de um terço dos entrevistados foi Bassem Yousef, humorista político da televisão, que foi acusado de insultar o presidente. É significativo que 94% dos entrevistados tenham expressado confiança nos militares. Cerca de 60% dos que se identificaram como simpatizantes da oposição ou independentes disseram ser a favor da volta de um governo militar, algo a que só os islâmicos se colocaram contra. Envolverde/IPS  


por Cam McGrath, da IPS
Concentração na praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, em um dos muitos protestos pacíficos no Brasil. Foto: Fabíola Ortiz/IPS Inter Press Service - Reportagens

Protestos brasileiros deixam detenções arbitrárias

[caption id="attachment_91074" align="alignleft" width="300" caption="Concentração na praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, em um dos muitos protestos pacíficos no Brasil. Foto: Fabíola Ortiz/IPS"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 25/6/2013 – Matheus Mendes Costa, universitário, 21 anos, passou 13 horas detido em uma cela com não mais que três metros quadrados, em uma delegacia da cidade do Rio de Janeiro. Ele foi preso sob a acusação de agressão a policiais e destruição de instalações públicas. Costa, estudante de economia foi detido na madrugada do dia 18, durante uma das numerosas manifestações que paralisaram centenas de cidades pelo Brasil, dentro dos protestos detonados pelo movimento contra o aumento no preço do transporte público em algumas cidades e que, depois, passaram a exigir direitos sociais e políticos. Costa foi preso quando participava pacificamente, assegurou, ao lado de seu pai na manifestação que naquela noite tomou as ruas da cidade. A dura e nada seletiva repressão policial é vista pelos analistas como um dos elementos que mais contribuíram para avivar a onda de protestos que sacodem o Brasil. A própria presidente Dilma Rousseff pediu contenção às forças da ordem em seu discurso ao país na noite do dia 21, destacando que a população tem o direito de protestar e garantiu que as desordens são provocadas por uma minoria de infiltrados. Além disso, ontem, Dilma se reuniu com o Movimento Passe Livre, e horas depois com os governadores dos 27 Estados e os prefeitos das maiores cidades. Nos dois encontros, a mudança da atuação policial estava na agenda. “Estava com a mochila da faculdade e não imaginei que poderia me acontecer alguma coisa. O policial me agarrou pela mochila e arrancou o cartaz que eu carregava”, contou o jovem à IPS. O rapaz foi levado a um destacamento do Batalhão de Choque da Polícia Militar em um grupo de dez pessoas, na maioria estudantes e, inclusive, um sem-teto. “Nenhum de nós tinha perfil de vândalo. Um policial nos aterrorizou dizendo que lançaria uma bomba de gás lacrimogêneo contra nós. Os policiais que me pegaram não tinham identificação”, acrescentou o jovem. Para serem liberados, Costa e os demais detidos tiveram que pagar fianças altíssimas. O estudante disse que não foi observado nenhum critério nos valores estabelecidos. “Éramos dez em uma cela pequena e nem todos puderam avisar suas famílias. Os policiais nos submeteram a diferentes humilhações. Até o mendigo, para ser libertado, precisou pagar uma fiança, a maior de todas, e tivemos que nos cotizar para ajudá-lo”, ressaltou Costa. Analistas políticos e ativistas de direitos humanos coincidem em indicar que nas manifestações houve repressão policial indiscriminada junto com desordens e vandalismos cometidos majoritariamente por grupos infiltrados, responsáveis por saques de dependências públicas e lojas, que ofuscaram o objetivo pacífico das manifestações. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) informou que, somente no Rio de Janeiro, foram detidos arbitrariamente, até o dia 21, cerca de 60 manifestantes que ficaram presos em meio a batalhas entre forças policias e grupos de vândalos. “Fiquei angustiado porque a polícia não fez seu trabalho de deter os violentos, mas se dedicou a deter inocentes com falsas acusações. Tive que pagar a fiança sem que me deixassem demonstrar que não havia feito nada agressivo”, criticou Costa, que deve enfrentar um julgamento por participação em grupo para delinquir. O que aconteceu com Jorge Luiz de Jesus, de 18 anos, foi pior. Ele passou uma semana preso e esteve parte do tempo na rigorosa prisão de Bangu, onde compartilhou a cela com traficantes, assaltantes e violadores. Depois foi transferido para outra prisão, misturado com outros cem detentos. Sua prisão se agravou porque a polícia o acusou de carregar uma mochila com uma granada. “Expliquei que aquela mochila não era minha, e então o policial lançou um aerossol no meu rosto e disse ‘agora é sua’. A acusação foi forjada”, denunciou Jesus à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Essa comissão está recolhendo dezenas de casos de detenção arbitrária durante as manifestações na cidade. O Ministério Público estadual iniciou uma investigação sobre os denunciados abusos policiais e militares, principalmente por parte do Batalhão de Choque. Para evitar que os manifestantes sejam confundidos com gente violenta e detidos por vandalismo, a OAB do Rio de Janeiro mobilizou 70 advogados que percorrem as ruas, delegacias e hospitais da cidade para prestar assistência legal. O presidente da OAB/RJ, Felipe Santa Cruz, destacou à IPS a presença de grupos fascistas infiltrados nos protestos e criticou a falta de preparo das forças de segurança para proteger os manifestantes de grupos que vão às manifestações para criar violência. “A polícia não tem um histórico repressivo, mas está militarizada e sua conduta é de enfrentamento. Isso facilitou a atuação de grupos neonazistas infiltrados, que atacaram com suas barras de ferro desde o começo das manifestações. A polícia deve garantir o direito ao protesto, mas acabou atacando os manifestantes”, afirmou Santa Cruz. A falta de preparo das forças de segurança é alvo de inúmeras críticas. O pai do jovem Costa, um ativista pelos direitos humanos que preside a organização não governamental  Rio Paz, qualificou a desordenada atuação policial de “atentado à democracia”. Antônio Carlos Costa afirmou que “a polícia não tem preparo para atuar com a população em condições normais, quanto mais em situações de grandes protestos. O movimento foi espontâneo, ganhou o povo e as pessoas foram às ruas pelas razões mais nobres”. As demandas se centram em pedir a reforma do Brasil, disse Antônio Carlos, para quem o movimento popular se caracteriza por seu caráter reformista e não por pretender subverter a ordem, mas gerar “uma limpeza moral” da maior democracia latino-americana. Este ativista considera que, por isso, é um erro o poder público ver e apresentar suas ações como agressivas e de caráter terrorista. O que levou a população às ruas, segundo o presidente da Rio Paz, foi uma revolta contra os multimilionários gastos na construção e remodelação dos estádios de futebol para a Copa do Mundo no ano que vem, com seu preâmbulo da atual Copa das Confederações. A Copa das Confederações começou no dia 15, paralelamente ao início dos protestos, e terminará no dia 30. Entre 23 e 28 de julho, o Rio de Janeiro também receberá a Jornada Mundial da Juventude, da qual participará o papa Francisco, e em 2016 será sede dos Jogos Olímpicos. “As autoridades subestimaram a conscientização da população”, opinou o ativista Costa. “Houve muita vontade política e muito gasto de dinheiro público para fazer as construções pedidas pela Fifa, enquanto há dívidas sem pagar em nossas escolas e nossos hospitais. A rua gritou, e é preciso ouvir esse grito”, enfatizou Antônio Carlos Costa. Envolverde/IPS


por Fabíola Ortiz, da IPS
A diretora do Escritório de Comunicações, Associações e Promoção da FAO, Marcela Villarreal. Foto: ©FAO/Giulio Inter Press Service - Reportagens

“A verdadeira meta é a fome zero”

[caption id="attachment_90968" align="alignleft" width="300" caption="A diretora do Escritório de Comunicações, Associações e Promoção da FAO, Marcela Villarreal. Foto: ©FAO/Giulio"][/caption] Roma, Itália, 24/6/2013 – Sob a liderança de seu diretor-geral, o brasileiro José Graziano da Silva, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) está imersa em um processo de profundas reformas para conseguir maior efetividade na luta contra a fome. “Um elemento transformador na visão do novo diretor-geral é criar sinergia entre os vários aspectos de nosso trabalho, para que possamos estar mais concentrados e sermos mais eficientes na erradicação da pobreza”, disse em entrevista à IPS a diretora do Escritório de Comunicações, Associações e Promoção da FAO, Marcela Villarreal. “Trabalho nesta organização há 16 anos e posso dizer que estamos melhor depois que adotamos um enfoque multissetorial e multidisciplinar. É este tipo de enfoque que nos permite encontrar formas inovadoras de solucionar velhos problemas”, afirmou. IPS: Quais são os elementos centrais do programa de trabalho proposto por José Graziano para a FAO? MARCELA VILLARREAL: Estamos propondo cinco objetivos estratégicos, sendo o primeiro a eliminação da fome. Já não falamos apenas em reduzi-la. É importante assinalar aqui que, embora antes pensássemos que aumentando a produção de alimentos poderíamos erradicar a fome, hoje sabemos que não se trata apenas disso, mas também de garantir acesso à comida. O segundo objetivo é incrementar a produção de alimentos de uma forma sustentável, e o terceiro é erradicar a pobreza rural. O atual programa de trabalho se baseia em um estratégico processo de elaboração. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e os indicadores em geral se concentram muito nas áreas urbanas, apesar de a pobreza rural ser um dos maiores problemas hoje em dia. Nos concentraremos em três populações rurais em risco de pobreza: pequenos agricultores, aos quais ajudaremos a serem mais produtivos; os diaristas, para cujo benefício iremos apoiar os países com a finalidade de gerarem emprego, aumentando assim a renda e o acesso aos alimentos; e os completamente excluídos. Para ajudar estes últimos, temos que assessorar os países sobre a criação de redes de segurança, mas de uma forma que não seja apenas dar dinheiro, mas apoiando a produção ou o emprego. Por fim, os dois últimos objetivos estratégicos se referem a dar aos agricultores melhor e mais equitativo acesso aos mercados e fortalecer a resistência das populações, reduzindo sua vulnerabilidade diante das ameaças e crise. São nossos Estados membros que terão que alcançar esses objetivos. Nosso papel será contribuir de uma forma estratégica e mensurável para conseguir essas metas. IPS: Quanta influência tem realmente a FAO sobre os Estados membros que, talvez, não estejam plenamente convencidos desta visão? MV: Somos muito otimistas quanto a podermos implantar esta visão. Já estamos vendo grandes progressos: no dia 16, 38 países foram premiados por reduzirem os níveis de fome. O fato de já estarmos na metade do caminho nos dá um bom indício de que podemos trabalhar para alcançar o objetivo real, que é a fome zero. Nesta conferência, é claro que os governos apoiam a visão e o programa de trabalho do diretor-geral. Naturalmente, uma boa mostra de vontade política seria ver o orçamento destinado a outros temas. IPS: Nos últimos anos, a FAO expressou uma crescente disposição para trabalhar com a sociedade civil. Esta participou da redação dos cinco objetivos estratégicos? MV: Não podemos conseguir nenhum desses objetivos sem uma associação com a sociedade civil, o setor privado, organizações de agricultores, cooperativas, institutos de pesquisas e outros. A participação da sociedade civil é crucial nos processos de diálogo para políticas nacionais, onde é necessário ouvir suas vozes e onde estamos facilitando sua participação. No âmbito internacional, a sociedade civil está plenamente envolvida no Comitê Mundial sobre Segurança Alimentar. IPS: Quanto às companhias privadas, há precaução para não tratar com aquelas cujos modelos de negócios prejudicam os pequenos agricultores ou os pobres, por exemplo? MV: Sim, temos mecanismos muito claros para avaliar os riscos e abordá-los. Quando se trata de empresas, primeiro levamos adiante o devido processo de diligências para ver se estas têm problemas com questões trabalhistas, de direitos humanos, ambientais ou outros. Depois temos um subcomitê sobre associações que analisa todos os possíveis riscos, e finalmente temos um comitê sobre associações, presidido pelo diretor-geral pessoalmente. Assim, levamos o assunto muito a sério. Não podemos ignorar as grandes corporações, que são importantes atores no mundo, mas se nós do sistema das Nações Unidas podemos torná-las mais conscientes do impacto sobre o meio ambiente, o trabalho e os temas de gênero, teremos conseguido muito. IPS: Como a FAO pode reagir quando um governo permite práticas prejudiciais em seu território, como, por exemplo, o monopólio de terras? MV: Somos uma organização intergovernamental que pertence ao sistema das Nações Unidas, por isso trabalhamos com os governos, que são nossos membros. Nosso papel é garantir que tenham o melhor conhecimento e a melhor assistência técnica para alcançarem os objetivos estabelecidos. Promovemos a boa governança, que implica transparência, participação e responsabilidade. Aqui, e cito as palavras de Amartya Sen, que disse: “Ao gerar uma discussão pública, temos parte da solução”. Envolverde/IPS  


por Claudia Ciobanu, da IPS
Ativistas da Somália querem erradicar a mutilação genital feminina, mas reconhecem que a prática de uma forma menos prejudicial é uma mudança cultural positiva na direção correta. Foto: Abdurrahman Warsameth/IPS Inter Press Service - Reportagens

Mudança cultural em relação à mutilação genital na Somália

[caption id="attachment_90965" align="alignright" width="300" caption="Ativistas da Somália querem erradicar a mutilação genital feminina, mas reconhecem que a prática de uma forma menos prejudicial é uma mudança cultural positiva na direção correta. Foto: Abdurrahman Warsameth/IPS"][/caption] Mogadíscio, Somália, 24/6/2013 – Istar Mumin, de sete anos, jaz imóvel na cama em um dos quartos de sua casa no distrito de Hamarwyne, em Mogadíscio, capital da Somália. Ela se recupera do “corte”, prática tradicional realizada por uma enfermeira. “Sinto dor, não posso me mexer. Me cortaram”, disse à IPS com lágrimas nos olhos. A menina estava visivelmente fraca devido à intervenção. Na sala da casa, sua mãe, Muhibo Daahir, se mostra com ânimo festivo, pois a família recebe os convidados que vieram comemorar a circuncisão de Mumin. A antiga prática de mutilação genital feminina (MGF) está proibida pela Constituição. Mas é amplamente realizada até em meninas de cinco anos, especialmente nas zonas afetadas pelo conflito. A tradição é destinada a mantê-las puras e prepará-las para o casamento. A maioria das famílias vive o momento com felicidade, pois é motivo de comemoração. Segundo o documento Erradicação da Mutilação Genital Feminina na Somália, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), “a MGF pode deixar graves sequelas no bem-estar físico, mental e psicossocial em quem a sofre”. O estudo acrescenta que “as consequências para a saúde são imediatas e de longo prazo. Apesar das muitas leis reconhecidas em nível internacional contra a MGF, a não aprovação total do Islã e as iniciativas globais para erradicá-la, continua arraigada na cultura somaliana”. O estudo também assinala que “as complicações de longo prazo incluem perda da libido, má-formação genital, primeira menstruação tardia, complicações crônicas na pélvis e infecções e retenção urinária recorrentes”. Também afirma que “as meninas circuncidadas têm pré-disposição de no futuro sofrer complicações obstétricas, porque o feto fica exposto a várias doenças infecciosas e corre o risco de sua cabeça ficar presa no canal de parto lesionado”. A nova lei fundamental da Somália considera essa prática como “tortura”. O Artigo 15 da Constituição Provisória estabelece que “a circuncisão das meninas é uma prática tradicional cruel e degradante, e equivale à tortura. A circuncisão das meninas está proibida”. No entanto, não há nenhuma lei específica e a prática se mantém, tanto em áreas rurais como urbanas, nesta nação do Chifre da África. Daahir se coloca na defensiva ao ser consultada sobre o motivo que a levou a permitir a circuncisão de sua filha. “Nossa religião nos permite purificar nossas filhas para que possam se casar quando estiverem maduras. O governo não pode nos impedir de praticarmos nossa religião”, afirmou. Daahir disse que sua filha, “como outras meninas desta época”, foi circuncidada segundo a forma sunnah, permitida pela religião islâmica. Um método que implica o corte parcial do clitóris. Outra forma de circuncisão praticada na Somália é a faraônica, que implica a remoção completa do clitóris e dos lábios maiores e menores. A abertura vaginal externa é suturada e se deixa um pequeno orifício para sair a urina e o sangue menstrual. Daahir acrescentou que, ao contrário do que se fazia antes, atualmente uma enfermeira diplomada realiza a circuncisão. No entanto, nas zonas da Somália, onde nas duas últimas décadas não houve guerra, a prática diminui. O Unicef publicou em abril uma pesquisa com entrevistas feitas na região de Puntland e no Estado separado de Somalilândia, onde a circuncisão genital feminina diminuiu. Estudo, realizado junto com as autoridades locais, concluiu que 75% das meninas pesquisadas com idades entre um e 14 anos, não estavam mutiladas, bem abaixo dos 99% das que foram circuncidadas em outras partes do país. O Programa Conjunto do Unicef e do Fundo de População das Nações Unidas, conseguiu a participação de aproximadamente 300 mil membros e atores da comunidade em um debate sobre o abandono da MGF em Puntland e na Somalilândia. A razão da redução da MGF no norte pode estar relacionada com a relativa estabilidade que manteve a zona nas duas últimas décadas, enquanto o resto do país sofreu uma guerra civil entre clãs desde 1991. As campanhas de conscientização e educação sobre os perigos da MGF tradicional não puderam ser feitas nas áreas problemáticas, como aconteceu em Somalilândia e Puntland. “Os somalianos não abandonaram a circuncisão, mas a realizam de forma menos cruel do que a faraônica, usam a sunnah, que comparada com a tradicional não é invasiva”, disse à IPS a ativista Halimo Ali, radicada em Mogadíscio. “Conheço o estudo feito em Puntland e Somalilânida, e é animador. Mas duvido que os somalianos deixem de circuncidar suas filhas de uma forma ou de outra”, opinou. Maruan Aalim, com sete filhas, disse à IPS: “Todas estão circuncidadas com a sunnah, salvo a mais velha, em quem foi praticada a forma ancestral (farônica). Escolhi a última porque é a permitida pelo Islã”. O xeque Omar Ali, clérigo de Mogadíscio, é um dos sete líderes religiosos aos quais as pessoas recorrem quando querem justificar a MGF. “Só há uma forma de circuncisão prescrita pelo Islã, e é a sunnah. A faraônica é anterior, não é islâmica”, explicou à IPS. Ativistas locais disseram que querem a erradicação total da prática, mas reconhecem a “mudança cultural” que houve na sociedade somaliana, e afirmam que a evolução da prática pode ser considerada um passo positivo para sua completa eliminação neste país. “Agora as pessoas reconhecem as consequencias negativas da forma extrema de MGF sobre as mulheres e meninas, e adotam a sunnah. Não é o que queremos, mas é um passo na direção correta”, disse à IPS a professora Raho Qalif, de Mogadíscio. A prática terminará desaparecendo da cultura somaliana, acrescentou, ressaltando que observou uma “tendência”: circuncidar as meninas com a sunnah “está na moda”. Para Qalif, “todo mundo sabe que agora na Somália se desaprova a forma extrema de MGF, e os homens buscam mulheres circuncidadas com a sunnah para se casar”. Envolverde/IPS


por Abdurrahman Warsameh, da IPS
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“Francisco deve incentivar os jovens a assumirem compromissos”

[caption id="attachment_90962" align="alignleft" width="296" caption="Frei Beto, expoente da Teologia da Libertação, durante a entrevista. Foto: Fabíola Ortiz /IPS"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 24/6/2013 – A Igreja Católica se tornou esclerosada e teme enfrentar os assuntos da pós-modernidade, afirmou o teólogo Frei Beto, embora tenha a esperança de que o primeiro papa latino-americano, Francisco, a reimpulsione ao centrar-se em temas sociais e na defesa dos pobres. Em entrevista à IPS, este dominicano, assessor especial do esquedista Luiz Inácio Lula da Silva nos dois primeiros anos de seu mandado presidencial, também exortou as autoridades brasileiras a dialogarem “frente a frente” com os movimentos sociais para ouvir suas reivindicações, sem palavras vazias e promessas ocas. Carlos Alberto Libânio Christo, conhecido universalmente como Frei Beto, espera que o argentino Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires até assumir o papado em 13 de março, incentive os jovens a voltarem a sonhar, a se comprometerem com temas sociais e crer nas utopias, quando visitar o Brasil entre 22 e 29 de julho. Francisco fará sua primeira viagem como papa para participar da 28ª edição da Jornada Mundial da Juventude, que acontecerá de 23 a 28 de julho no Rio de Janeiro. Autor de mais de 56 livros e ganhador de importantes prêmios literários e por sua defesa dos direitos humanos, Frei Beto acaba de lançar uma nova obra: O Que a Vida me Ensinou. IPS: O que a vida lhe ensinou? FREI BETO: O que este livro tem de especial são os relatos autobiográficos que nunca havia trazido a público antes, como minha participação nos últimos dias de Tancredo Neves (primeiro presidente eleito indiretamente após a ditadura militar de 1964 a 1985, que morreu antes de assumir o cargo), como cuidei de meu pai, um dependente químico. Também conto como enfrentei uma tentativa de corrupção, quando me ofereceram ganhar US$ 2 milhões, e dedico três capítulos à minha visão atual sobre a espiritualidade. IPS: Como expoente da Teologia da Libertação, que papel atribui a esta corrente dentro do catolicismo latino-americano? FB: Não se deve falar dela no passado. A Teologia da Libertação ainda exerce um papel importante dentro da Igreja Católica da América Latina, especialmente das comunidades eclesiásticas de base, de círculos bíblicos, de encontros de fé e de política, como o próximo que acontecerá em Brasília, no mês de novembro. Creio que esta corrente também forçou uma mudança no discurso dos papas sobre assuntos sociais. Nos últimos tempos, eles foram mais contundentes a esse respeito, como mostram as críticas feitas por João Paulo II e Bento 16 ao neoliberalismo, ou desta vez de modo positivo, a visita que ambos fizeram à China. IPS: Como interpreta a renúncia de Bento 16 e o fato de a escolha de seu sucessor ter recaído pela primeira vez sobre um latino-americano, Francisco, e não um europeu? FB: Renunciar foi um ato de humildade evangélica de Bento16, quando há séculos nenhum papa o fizera. Tenho muita esperança no pontificado do papa “Chico Bento” (como ele chama Francisco, em referência ao personagem de Maurício de Souza, de vestimenta, comportamento e maneiras acaipiradas), por ser latino-americano. Está aberto às questões sociais e, sobretudo, comprometido com a defesa dos direitos dos mais pobres. O fato de adotar o nome do santo mais emblemático da história Cristã, Francisco, já diz muito. Vamos esperar os 12 discursos que pronunciará na Jornada Mundial da Juventude. IPS: Considera possível uma reforma da Igreja Católica? Quais são, a seu ver, os assuntos mais sensíveis que esta Igreja enfrenta? FB: O papa Chico Bento terá que abrir o debate dentro da Igreja Católica sobre assuntos urgentes e candentes, que permanecem congelados: o fim do celibato obrigatório, a ordenação de mulheres no sacerdócio, o uso de preservativos, a biogenética e a reforma a cúria romana. IPS: A Jornada Mundial significará a estreia internacional de Francisco. Quais expectativas tem sobre este acontecimento? FB: Espero que a Jornada, por meio dos gestos e das palavras do papa, traga esperança aos jovens e os incentive a assumirem um compromisso por um mundo de justiça, liberdade e paz. Estou convencido de que, quanto mais utopia houver, menos drogas haverá, como sucedeu com minha geração, que tinha 20 anos na década de 1960. E quanto menos utopia, como ocorre neste mundo “globocolonizado” atual, mais drogas. É que agora se vive sem sonhar. IPS: Acredita que a Jornada representará um chamado à Igreja para se renovar, a fim de enfrentar a perda ou a apatia de fiéis? FB: Sim, a Igreja Católica se esclerosou por medo de enfrentar os temas da pós-modernidade, como os relacionados com a fé e a ciência, a desigualdade social, os novos perfis sexuais e as relações de gênero. IPS: O senhor foi muito próximo de Lula. Dessa posição, como analisa sua sucessora, Dilma Rousseff? Ao senhor parece que o PT mudou seu rumo? FB: Lamento que o PT tenha mudado seu projeto sobre o Brasil por um projeto de poder. Ainda assim, considero que os governos de Lula e Dilma são os melhores de nossa história republicana. Falta realizar reformas estruturais – agrária, política e outras – e manter maior diálogo com suas origens, os movimentos sociais. IPS: Como, a seu ver, a presidente Dilma administra os numerosos conflitos e mobilizações sociais que tomaram as ruas das principais cidades? FB: Sem empenho suficiente, de modo tímido e com receio de desagradar os retrógrados de sua aliança e os barões do grande negócio agropecuário. O PT se afastou de suas bases sociais, dos movimentos que mobilizam a esperança, e agora corre o risco de cair vítima deles. As únicas saídas para o governo são dialogar frente a frente com esses movimentos sociais, sem palavras vazias e promessas ocas, e, para o PT, retornar ao trabalho de base, junto aos setores oprimidos e excluídos da população. O governo vai bem na distribuição da renda econômica e mal na distribuição da “renda política”. Não há diálogo com as lideranças populares, nem avanços na demarcação de terras indígenas e na reforma agrária, da mesma forma que não há consulta, tal como exige a Constituição, aos povos indígenas sobre a construção de grandes obras em seus territórios. IPS: O que diz em particular sobre os atuais protestos sociais, que começaram pelo aumento da passagem no transporte público e foram alimentadas pela dura repressão policial no Rio de Janeiro, em São Paulo e outras cidades? FB: Há um fenômeno novo. Os analistas ainda não se deram conta: basta estar ligado às redes sociais para sentir a mobilização, seja por meio de informação ou mobilização nas ruas. Esses protestos confirmam que nossos governos, especialmente os paulista e federal, estão muito distantes dos movimentos sociais, e a juventude está organizada. Envolverde/IPS


por Fabíola Ortiz, da IPS
nn Ambiente

Biofortificação para combater a “fome oculta”

[caption id="attachment_90957" align="alignright" width="199" caption="A mandioca é um cultivo básico na África. A nova variedade promovida pelo CGIAR é nutritiva, por conter maior quantidade de vitamina A, zinco ou ferro. Foto: Busani Bafana/IPS"][/caption] Nações Unidas, 24/6/2013 – A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que trabalha para acabar com a desnutrição de mais de dois bilhões de pessoas no mundo, se mostra bastante favorável a enriquecer o conteúdo de micronutrientes das plantas. Em termos técnicos esse processo se chama biofortificação. É uma intervenção específica em matéria de nutrientes projetada para potencializar o conteúdo de micronutrientes dos alimentos por meio de práticas agronômicas e do cultivo de plantas. O cultivo acontece na HarvestPlus, um programa internacional apoiado pelo Grupo Consultor Internacional para a Pesquisa Agrícola (CGIAR), e em centros nacionais de pesquisa agrícola, principalmente em países do Sul em desenvolvimento. O primeiro cultivo nutritivo, que foi desenvolvido por cientistas africanos e divulgado em associação com o Centro Internacional da Batata (CIB), a batata alaranjada, demonstrou ser efetiva em fornecer até 100% das necessidades diárias de vitamina A para crianças menores, de acordo com o CGIAR. Atualmente, estão sendo desenvolvidos seis cultivos adicionais mediante a utilização de métodos convencionais: mandioca e milho, ricos em vitamina A; feijões e milho pérola, ricos em ferro; e trigo e arroz, que são ricos em zinco. Os três primeiros têm por objetivo a África e os demais a Ásia meridional. Em 2012 foram lançadas novas variedades dos quatro primeiros cultivos, e se espera que o trigo e o arroz sejam os próximos, ainda este ano. Embora demore produzir a quantidade de sementes necessárias para atender a demanda, até meio milhão de agricultores estarão cultivando estes produtos nutritivos até o final do ano, segundo o CGIAR. Perguntado até que ponto pode chegar o cultivo de plantas na resolução dos problemas da fome e da nutrição no mundo, Erick Boy, diretor de nutrição da HarvestPlus, respondeu à IPS que “nos centramos na fome oculta, causada pela não obtenção de suficientes minerais e vitaminas na dieta. Este é o principal problema da fome que o mundo enfrenta atualmente”. “As seis novas variedades de cultivos básicos que desenvolvemos são mais nutritivas: contêm maiores quantidades de vitamina A, zinco ou ferro”, afirmou Boy. A falta destes nutrientes é o que causa problemas de saúde generalizados, especialmente em mulheres e crianças. Boy acrescentou que tais cultivos serão distribuídos para mais de três milhões de famílias de agricultores em sete países da África e da Ásia até 2015. “Nada mal para um programa que começou do zero para desenvolver estes cultivos, em 2003”, ressaltou. Consumidos regularmente, estes cultivos biofortificados podem fornecer, em média, 50% da quantidade necessária de vitamina A, zinco ou ferro. Segundo o CGIAR, mais de dois bilhões de pessoas no mundo não recebem porções diárias suficientes desses nutrientes cruciais em suas dietas. Isto pode causar menor coeficiente intelectual, atrofia e cegueira em crianças; maior suscetibilidade a doenças em crianças e adultos; maiores riscos para a saúde das mães, e de seus bebês, durante o parto. Segundo o Banco Mundial, as crianças desnutridas têm maiores probabilidades de deixar a escola e de ter menor renda na vida adulta, reduzindo o crescimento econômico geral. Em sua publicação O Estado Mundial da Agricultura e da Alimentação 2013, divulgada em Roma, na Itália, a FAO explica que, ao contrário da fortificação, que ocorre durante o processamento dos alimentos, biofortificação implica enriquecer o conteúdo de micronutrientes das plantas. Persistem as perguntas sobre se consumidor está pronto para comprar alimentos biofortificados, especialmente quando estes são diferentes das variedades tradicionais. Segundo a FAO, as primeiras evidências sugerem que os consumidores estão dispostos a adquiri-los, e inclusive pagariam um pouco mais por eles. Em Uganda, a FAO descobriu que os consumidores estavam dispostos a pagar pelas variedades alaranjadas da batata, da mesma forma que pagavam pelas brancas, inclusive sem uma campanha promocional. Resultados semelhantes foram registrados em Zâmbia, no caso do milho alaranjado, potencializado nutricionalmente, para que os consumidores não o confundissem com o milho amarelo (comum) ou o branco. Quando sua introdução foi acompanhada de informação nutricional, também foi aceito um preço um pouco maior. “Nos focamos na África subsaariana e Ásia meridional porque, se alguém olhar qualquer mapa da fome oculta, estas são as regiões marcadas em vermelho”, destacou Boy. A América Latina fez um trabalho melhor ao aprimorar a nutrição nas últimas décadas. Contudo, ainda há bolsões onde a fome oculta é um problema, pontuou Boy. “Por isso, também trabalhamos na América Latina. Na verdade, agora estou na Guatemala”, contou. Nesse país ele trabalha com diferentes envolvidos com relação aos feijões com alto conteúdo de ferro e milho rico em zinco. “Antecipamos que poderemos ter variedades de dois ou três cultivos que são ricos em ferro e zinco para os agricultores da América Latina e do Caribe até 2015”, ressaltou. No começo deste mês, o governo da Grã-Bretanha concedeu o equivalente a US$ 46,4 milhões à HarvestPlus para que desenvolva e distribua seis cultivos nutritivos a vários milhões de famílias de agricultores na África e Ásia. Esse dinheiro foi anunciado em uma reunião internacional de alto nível, em Londres, com vários sócios para assumir firmes compromissos políticos e financeiros a fim de melhorar a nutrição no mundo. Em suas declarações na abertura do encontro, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que tudo passa por fazer as coisas de outra maneira. “Para a ciência, trata-se de aproveitar o poder da inovação para desenvolver melhores sementes e cultivos mais produtivos e nutritivos”, apontou. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Reserva Particular de Desenvolvimento Sustentável (RPDS) em Manicoré. Foto: Priscila Barros. Inter Press Service - Reportagens

“Engajamento do setor privado é vital para a conservação da Amazônia”

  [caption id="attachment_90884" align="alignleft" width="300" caption="Reserva Particular de Desenvolvimento Sustentável (RPDS) em Manicoré. Foto: Priscila Barros."][/caption] Em entrevista para o Instituto CarbonoBrasil, Leonardo Barrionuevo, responsável pela primeira reserva particular de desenvolvimento sustentável da Amazônia, destaca o papel das empresas na preservação. No começo deste mês, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SDS) do Estado do Amazonas oficializou a criação da primeira Reserva Particular de Desenvolvimento Sustentável (RPDS). Localizada no município de Manicoré, a RPDS possui 200 milhões de metros quadrados e será administrada pela Empresa Brasileira de Conservação de Florestas (EBCF). O presidente da EBCF, Leonardo Barrionuevo, concedeu ao Instituto CarbonoBrasil uma entrevista explicando qual o modelo de negócio desse tipo de iniciativa, a importância de respeitar os povos locais e comentou o papel da iniciativa privada na conservação ambiental. Confira: Instituto CarbonoBrasil - Como nasceu a ideia de investir em em Reservas Particulares de Desenvolvimento Sustentável (RPDS)? Leonardo Barrionuevo - A família Barrionuevo tem uma relação muito próxima com a sustentabilidade, temos um histórico de atuação em projetos de energia renovável. Uma de nossas empresas, a J.Malucelli Ambiental em conjunto com a Tertium Participações, investe na geração de energia em aterros sanitários. Além disso, prestamos consultorias para projetos elegíveis a obtenção de créditos de carbono de acordo com as regras do MDL e o Protocolo de Quioto. Com o passar dos anos, a nossa preocupação em relação ao aquecimento global foi se somando a preocupação com a proteção da biodiversidade. Surgiu então a ideia de criarmos um modelo de conservação de floresta que pudesse conciliar a proteção da biodiversidade com a utilização do potencial econômico dos recursos naturais. Nesse mesmo período, o Estado do Amazonas estava aprovando o decreto que regulamenta as Reservas Particulares de Desenvolvimento Sustentável. Foi uma daquelas felizes coincidências que a vida nos proporciona... ICBr - A Empresa Brasileira de Conservação de Florestas (EBCF) adquiriu 200 milhões de metros quadrados na Floresta Amazônica e pretende transformar essa área em RPDS. Como a empresa pretende recuperar o investimento? Como é o plano de negócios? LB - O plano de negócios da empresa no tocante a captação de recursos para recuperar o investimento está baseado nas seguintes atividades: 1 - Patrocínio ambiental (empresas que queiram associar as suas marcas com a marca EBCF e o selo do programa criado pela EBCF "Nós pela Amazônia"). Estas empresas terão o direito de imagem e publicidade dos programas e projetos implementados e geridos pela EBCF em suas RPDS; 2 - Pagamento por serviços ambientais como por exemplo créditos de carbono; 3 - Desenvolvimento de negócios relacionados ao manejo sustentável dos produtos naturais e florestais não madeireiros; 4 – Eco-turismo; Note que o número 3 está destacado porque a EBCF entende que as outras alternativas de receita se constituem em um meio para se chegar a finalidade precípua das Reservas Privadas, que é a atividade fim através do manejo sustentável dos recursos florestais não madeireiros. ICBr - Mecanismos como o REDD+,com o qual a EBCF também trabalha, ainda são vistos com desconfiança, tanto pelos povos nativos quanto por investidores. Como evitar que as RPDS enfrentem esse mesmo obstáculo? LB - A EBCF tem uma grande preocupação em relação a esse tema. Tanto para os investidores quanto para as populações locais, são realizadas diversas ações com o intuito de minimizar essas desconfianças. Como exemplo das ações podemos citar as diversas oficinas explicativas acerca de todo o modelo de negócio da EBCF, oficinas específicas relacionadas ao tema e o projeto de REDD+ sendo implementado na área, já obtivemos o “consentimento livre, prévio e informado” de todas as comunidades que atenderam as oficinas. A transparência e a excelência dos serviços são uma marca muito forte na EBCF. Em relação a transparência publicamos os nossos balanços e somos auditados. Em relação a excelência, ainda que os custos sejam mais elevados, o nosso projeto de REDD+ está sendo elaborado de acordo com os padrões VCS e CCB, os dois padrões mais respeitados e reconhecidos no mercado voluntário (uma vez que créditos REDD não fazem parte do mercado regulado). O VCS garante a credibilidade dos créditos enquanto o CCB foca nos benefícios além do carbono, como a a melhoria da qualidade de vidas das populações locais e a preservação da biodiversidade. ICBr - Comunidades próximas às RPDS são engajadas de alguma forma? Existem medidas de educação ambiental ou outras iniciativas para aproximar as pessoas da iniciativa? LB - A EBCF prima pela gestão participativa com as comunidades. O Plano de Gestão conta com diversas oficinas realizadas na Comunidade Democracia onde todas as 15 comunidades que se encontram no entorno das reservas foram devidamente convidadas a participar, e um diagnóstico completo das necessidades de cada uma delas foi respondido pelas suas associações e lideranças e discutido durante as oficinas. Com o levantamento e o debate acerca dessas necessidades, os programas, sub-programas, projetos e atividades contemplados no Plano de Gestão estão direcionados para atender e melhorar a qualidade de vida destas populações. ICBr - As RPDS podem ser uma forma reduzir os conflitos entre os proprietários oficiais de grandes áreas na Amazônia e populações tradicionais que vivem nelas? LB - Certamente, uma vez que haja uma gestão participativa incluindo as populações no uso sustentável dos recursos advindos das reservas tanto o proprietário sai fortificado quanto as comunidades. Por óbvio, os mapas de zoneamento e os acordos para o uso dos recursos naturais e florestais devem ser elaborados em conjunto, nesse caso as populações podem fazer uso destes recursos e em contra-partida se tornam os verdadeiros guardiões da floresta. ICBr - Vocês acreditam que o engajamento do setor privado na conservação é fundamental para preservar nossos ecossistemas? LB - Os governos, estados, municípios, ONG's e fundações fazem a sua parte, mas a EBCF não tem a menor dúvida que o engajamento da iniciativa privada é VITAL para a conservação das florestas, proteção da biodiversidade (fauna, flora, recursos hídricos, etc) e para o desenvolvimento sustentável das populações tradicionais, assim como em qualquer outra atividade exercida no planeta os governos precisam do apoio da iniciativa privada, e no caso da preservação dos ecossistemas não é diferente. * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fabiano Ávila, do CarbonoBrasil
Desde 2008, insurgentes armados incendiaram cerca de cinco mil veículos que transportavam suprimentos para a Otan no Afeganistão. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS Inter Press Service - Reportagens

O Talibã queima uma porta de saída do Paquistão

[caption id="attachment_90863" align="alignleft" width="300" caption="Desde 2008, insurgentes armados incendiaram cerca de cinco mil veículos que transportavam suprimentos para a Otan no Afeganistão. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS"][/caption] Peshawar, Paquistão, 21/6/2013 – Os Estados Unidos preparam meticulosamente sua retirada do Afeganistão para 2014, mas claramente omitiram o impacto que seus ataques com aviões não tripulados causarão nas áreas tribais do vizinho Paquistão em sua tão pensada proposta. Rebeldes armados pertencentes à Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) incendiaram na semana passada três contêineres repletos de insumos para os soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão, que se dirigiam para a passagem fronteiriça de Torkham, nas montanhas da província de Jyber Pajtunjwa. Os insurgentes alegaram que o atentado contra o comboio de 12 contêineres foi em represália pelo ataque com drones (aviões não tripulados) no dia 29 de maio, quando morreu o dirigente do TTP, Waliur Rehman, no Vaziristão do Norte, uma das sete Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata), no Paquistão. O incidente do mês passado elevou os ataques com drones na região para cerca de 355 desde 2005. O governo dos Estados Unidos fez vista grossa às várias formas de protestos contra sua guerra remota, desde marchas civis até declarações governamentais, mas o incêndio de veículos da Otan pode marcar um ponto de inflexão em sua controvertida política externa. Mohammad Mushtaq, da Associação de Provedores da Otan (um coletivo de motoristas e proprietários, entre outros, que participam do transporte de suprimentos para o outro lado da fronteira), disse à IPS: “Desde 2008, mais de cinco mil veículos da Otan foram incendiados em Peshawar e na agência Jyber, tudo na rota para o Afeganistão, para repor as forças da guerra contra o terrorismo desde 2002”. No processo, prosseguiu, não só reduziram a cinzas cerca de US$ 10 milhões em equipamentos e suprimentos, como mais de 500 pessoas, entre elas motoristas, perderam a vida. Em dezembro de 2008, 160 caminhões da Otan com veículos militares Humvees, rumo ao Afeganistão, foram incendiados em um único ataque perto de Peshawar, capital de Jyber Pajtunjwa, contou Mushtaq. Em seguida, os combatentes desfilaram triunfalmente entre a nuvem de chamas que escurecia o céu. A maioria dos veículos enviados ao Afeganistão leva equipamento militar, alimentos e outros suprimentos de logística para cerca de cem mil soldados, explicou à IPS o major da reserva Anwar Jan, analista de assuntos de segurança. “Essa mesma rota provavelmente será usada para retirar os equipamentos pesados, bem como os soldados”, acrescentou. Por isso, se continuarem os ataques com drones, os Estados Unidos correm o risco de deixarem vulnerável sua principal rota de entrada e saída. Jan disse que Washington e seus sócios da coalizão na “guerra contra o terrorismo” devem rever sua estratégia militar se estão decididos a respeitar a data de retirada de 2014. “Do contrário, as possibilidades de sua retirada e de paz no Paquistão e Afeganistão continuarão sendo um sonho”, ressaltou. Quando as forças lideradas pelos Estados Unidos expulsaram o movimento islâmico Talibã de Cabul, em 2001, marcaram o início de uma guerra que se prolongou por uma década. Membros do regime deposto, junto com seus partidários, fugiram para as montanhas, que formam a fronteira de 1.200 quilômetros de comprimento entre Afeganistão e Paquistão. Isso levou Istambul a jogar com toda sua força, junto com os Estados Unidos, na esperança de impedir que os rebeldes se assentassem em suas próprias e instáveis zonas tribais. Contudo, a promessa de destruir a rede extremista Al Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, não deu resultado positivo. Na verdade, numerosos analistas observaram que os insurgentes estão mais fortes do que antes. No contexto da alta de custos, de uma crescente quantidade de mortos e da forte oposição pública à guerra, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assinou em maio um Acordo de Associação Estratégica com seu colega do Afeganistão, Hamid Karzai, acertando a retirada das tropas para o próximo ano. Entretanto, especialistas como Pervez Jamal, professor de ciências políticas da Universidade de Peshawar, acreditam que esse plano possa fracassar, a não ser que sejam tomadas medidas imediatas para aplacar o TTP. Como disse Jan, “os veículos incendiados já encareceram a guerra contra o terrorismo para os Estados Unidos e seus aliados”. Atualmente, 70% dos envios para as forças ocidentais postadas no Afeganistão passam pelo Paquistão. Chegam por navio ao porto de Carachi, no Mar Arábico, e depois atravessam três mil quilômetros até a base aérea de Bagram, em Cabul. O governo paquistanês ordenou o fechamento dessa rota direta em novembro de 2011, quando forças norte-americanas atacaram um posto de segurança na agência de Mohmand, nas Fata, e mataram 24 soldados. Sem rota terrestre, os Estados Unidos tiveram que buscar uma alternativa, vias aéreas através da Rússia e das ex-repúblicas soviéticas, fronteiriças com o Afeganistão. Durante esse tempo, o custo do transporte de suprimentos passou de US$ 17 milhões para US$ 104 milhões. Incapaz de manter o gasto, Washington pediu desculpas pelo ataque e conseguiu reabrir a rota em 2012, no entendimento de que permaneceria aberta até 2015, para facilitar a retirada paulatina do Afeganistão. Mas agora o acordo corre perigo. A queima de suprimentos também supõe um perigo para os dez mil soldados que deverão ficar no terreno para dar assistência aos 350 mil integrantes das Forças de Segurança Nacional do Afeganistão. Atualmente a força de segurança local carece de equipamento militar e formação. Sem a promessa de reforços, alguns especialistas afirmam que não poderão resistir a uma usurpação de poder dos insurgentes. O analista de guerra Javed Hasham, radicado em Peshawar, disse à IPS que o Talibã é capaz de destruir comboios facilmente. A passagem de Torkham é um cruzamento de montanha muito exposto, sem postos avançados ao longo do caminho. Os talibãs, familiarizados com o terreno, têm esconderijos nas montanhas, bem como casas de onde vigiam o caminho sinuoso. Os atentados contra comboios registraram uma acentuada queda nos últimos quatro meses, mas voltaram nos últimos tempos, em ração do aumento de ataques com drones. “A única forma de continuar avançando é os Estados Unidos suspenderem os ataques com drones”, ressaltou Hasham. Envolverde/IPS


por Ashfaq Yusufzai, da IPS
A polícia turca vem usando uma força excessiva contra manifestantes desarmados. Foto: Arzu Geybulla/IPS Inter Press Service - Reportagens

ONU pede moderação à polícia turca

[caption id="attachment_90859" align="alignleft" width="300" caption="A polícia turca vem usando uma força excessiva contra manifestantes desarmados. Foto: Arzu Geybulla/IPS"][/caption] Nações Unidas, 21/6/2013 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, e a alta comissária para os Direitos Humanos, Navi Pillay, aconselharam “máxima moderação” após a divulgação pela imprensa de uma violenta ofensiva policial contra manifestantes pacíficos no Parque Gezi de Istambul. “O clima ainda é altamente combustível, é importante que as autoridades reconheçam que a resposta inicial aos protestos, extremamente severa e que causou muitos feridos, ainda é uma parte importante do problema”, afirmou Pillay em um comunicado divulgado no dia 18. A Associação Médica turca registrou na semana passada quase 7.500 feridos relacionados com os protestos desde que começou a ocupação do Parque, no final de maio, e até agora seis pessoas morreram. Pillay pediu urgência ao governo turco para adotar “todas as medidas necessárias para garantir que as forças policiais não recorram ao uso excessivo da força. O objetivo deveria ser minimizar os danos e prejuízos, e respeitar e preservar a vida humana”. Os protestos começaram como uma queixa pacífica pelo uso da terra no Parque Gezi – uma ilha de verde em meio ao concreto da Praça Taskim –, mas rapidamente se espalhou até se converter em um levante contra o governo em muitas cidades da Turquia. Uma das 50 manifestantes originais do Parque Gezi, que pediu para ser chamada apenas de Bengi, disse à IPS: “Fui parte do protesto desde seu início. Não me surpreende a violência policial, já que a Turquia tem uma tradição de violência, repressão e brutalidade policial”. Ela reconheceu que as tentativas da última década para aproximar-se da União Europeia levaram a uma redução da aberta hostilidade estatal, “assim, em certo sentido, esta reação poderia ser vista como algo estranho”. Esperada ou não, a violência é extrema e atraiu a atenção dos meios de comunicação e os olhos das principais organizações de direitos humanos do mundo: Anistia Internacional e Human Rights Watch condenaram severamente as ações das forças de segurança contra manifestantes pacíficos. Bengi vê esta resposta violenta como resultado direto da “caprichosa” maneira de tomar decisões do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. “O primeiro-ministro mostrou uma efetiva falta de manejo da situação, e simplesmente quer demonstrar ao povo que o que ele diz é feito”, afirmou. Muitos questionam a administração de Erdogan em relação à força policial desde que começaram os protestos, incluído o uso generalizado de gás contra a população. Dois manifestantes morreram devido às embalagens de gás. Abdullah Comert, de 22 anos, integrante ds juventude do opositor Partido Republicano Popular, morreu após ser atingido na cabeça por uma lata de gás em Hatay, perto da fronteira síria, no sul da Turquia, enquanto o trabalhador de limpeza Irfan Tuna perdeu a vida após ser submetido a um poderoso gás lacrimogêneo na Praça Kızılai, em Ancara. Em seu comunicado do dia 18, a alta comissária das Nações Unidas chamou especificamente a atenção para o uso dessas substâncias pelas forças policiais. É preciso investigar de modo efetivo, crível e transparente as informações de que foram lançadas latas de gás lacrimogêneo e de gás pimenta contra pessoas a uma distância próxima ou em espaços fechados, bem como o suposto mau uso das balas de borracha, ressaltou Pillay. A Associação Médica Turca indicou que muitos dos feridos apresentaram desordens respiratórias causadas pelo gás lacrimogêneo, e danos no sistema musculoesquelético (ferimentos em tecidos moles, cortes, queimaduras e fraturas), que estão relacionados com a pouca distância da qual foram lançados os gases e disparadas as balas de borracha. Também informou que foi lançado gás lacrimogêneo dentro de uma clínica em Ancara. Kimber Heinz, coordenadora da campanha Enfrentando o Gás Lacrimogêneo, liderada pela Liga de Resistência à Guerra, com sede nos Estados Unidos, disse à IPS que o gás convencional, o pimenta e outras armas químicas se tornaram ferramenta comum entre os governos opressores para sufocar levantes democráticos. “Em 2011, começamos a ouvir muitos chamados de lugares como o Egito a respeito de como a polícia estava usando gás para molestar pessoas e eliminar os movimentos de resistência popular”, acrescentou. Muitas das embalagens de gás tinham gravado “Fabricado nos Estados Unidos”. Agora, “de Istambul, informa-se que as latas de gás produzidas por NonLethal Technologies, com sede em Homer, no Estado da Penssylvania, e Defense Technologies, localizada em Casper, no Wyoming, foram encontradas no Parque Gezi”, afirmou Heinz. A campanha ajudou a promover uma petição, redigida pelo advogado turco-norte-americano Kerem Gulay, que chama três congressistas norte-americanos a proporem uma legislação que impeça a exportação desse produtos para países que reprimem violentamente protestos pacíficos. A petição cita o fato de que aproximadamente 150 mil latas de gás foram usadas em toda a Turquia entre 28 de maio e 16 de junho, e que, no mesmo período, 12 mil pessoas receberam cuidados médicos por sua exposição a múltiplas formas de gás lacrimogêneo. O senador Patrick Leahy, um dos congressistas que recebeu a petição, não estava disponível para dar declarações. Mas Bengi não acredita que a população turca se importe muito com essa iniciativa neste momento. “Neste exato momento, as pessoas tentam superar a comoção que o uso constante de gás lacrimogêneo causa. Sua raiva se centra totalmente no governo turco”, enfatizou. Envolverde/IPS


por Roger Hamilton-Martin, da IPS

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