Hidrelétrica etíope arrasa meios de vida indígenas

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Hidrelétrica etíope arrasa meios de vida indígenas


por Ed McKenna, da IPS


[caption id="attachment_103266" align="aligncenter" width="529"] As comunidades indígenas que vivem junto ao rio Omo, na Etiópia, dependem das inundações anuais para seus cultivos. Foto: Ed McKenna/IPS[/caption]   Vale do Omo, Etiópia, 21/11/2013 – A construção de uma grande linha de transmissão que exportará eletricidade gerada por um dos grandes projetos hidrelétricos da Etiópia, Gibe III, é uma ameaça para centenas de milhares de pastores que vivem na área. A represa Gibe III, que gerará 1.800 megawatts (MW), está sendo construída no sudoeste do país, no rio Omo, ao custo de US$ 1,7 bilhão. O Estado estima que entraram mais de US$ 400 milhões anuais com a exportação de sua energia. Quando concluída, a hidrelétrica será a quarta do mundo em tamanho. No entanto, a central também afetará a existência e os meios de vida de centenas de milhares de indígenas no trecho inferior do Vale do Omo, e de habitantes próximos ao Lago Turkana, no Quênia, que também dependem do Omo. As comunidades étnicas bodi, daasanach, kara, mursi, kwegu e nyangatom, que vivem junto ao rio, dependem de suas inundações anuais para plantar os cultivos com que se alimentam. A comunidade seminômade dos mursis está sendo reassentada como parte de um plano do governo etíope para construir novas aldeias e iniciar uma grande plantação de cana-de-açúcar, transformando os pastores nômades em agricultores sedentários. As centenas de quilômetros de canais de irrigação que estão sendo escavados para desviar as águas do rio para regar essas grandes plantações impedirão que as comunidades indígenas continuem vivendo como sempre o fizeram. “Falam que nossa terra é propriedade privada. Estamos muito preocupados com nossa sobrevivência, já que nos obrigam a mudar para onde não há água, grama nem cultivos”, protestou um mursi à IPS. Segundo o plano governamental, o Vale do Omo será um centro nevrálgico da agricultura comercial em grande escala, irrigada por águas da represa Gibe III. Até agora, 445 mil hectares foram destinados a empresas estrangeiras da Malásia, Índia e de outros países para produzir açúcar, agrocombustíveis, cereais e outros cultivos. “Gibe III agravará a pobreza dos mais vulneráveis. O governo já tem problemas para enfrentar a fome de seus cidadãos. Ao se apropriar das terras e da água do Vale do Omo, está criando uma nova classe de refugiados internos, que já não serão autossuficientes”, disse à IPS Lori Pottingher, da organização ecológica International Rivers. Organismos financeiros internacionais, como Banco Mundial e Banco Africano de Desenvolvimento, comprometeram US$ 1,2 bilhão para construir 1.070 quilômetros de linhas de alta tensão desde a região de Wolaita-Sodo, na Etiópia, até Suswa, cem quilômetros a noroeste de Nairóbi, capital do Quênia. A linha que transportará a energia de Gibe III conectará a rede elétrica etíope à do Quênia, com capacidade de dois mil MW. De acordo com o Banco Africano de Desenvolvimento, a represa promoverá a geração de energia renovável e a cooperação regional, além de garantir eletricidade confiável e acessível para cerca de 870 mil famílias em 2018. No último Informe sobre Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas (ONU), a Etiópia ocupa o posto 173 entre 187 países. Contudo, o segundo país mais povoado da África também é uma das economias de mais rápido crescimento no continente. Segundo o primeiro-ministro Hailemariam Desalegn, o produto interno bruto crescerá 11% em 2014. Aproveitar seus enormes recursos hídricos para gerar até 45 mil MW e vender o excedente para seus vizinhos é um componente fundamental do quinquenal Plano de Crescimento e Transformação da Etiópia. Esse país do Chifre da África gera atualmente dois mil MW em seis hidrelétricas e investe nesse tipo de energia um terço de seu PIB total, próximo dos US$ 77 bilhões, mais do que qualquer outro país africano. Entretanto, segundo um informe do Banco Mundial divulgado em 2010, só 17% dos 84,7 milhões de habitantes da Etiópia tinham eletricidade naquele momento. A estatal Ethiopina Electric Power Corporation (EEPCO) prevê cobertura de 100% em 2018. “Estamos ajudando a mitigar o risco climático que implica consumir combustíveis fósseis, e a reduzir a taxa de desmatamento, que é elevada na Etiópia. A energia hidrelétrica beneficiará nosso desenvolvimento”, disse à IPS o diretor executivo da EEPCO, Miheret Debebe. O governo insiste em que o bem-estar das comunidades de pastores que estão sendo reassentados é uma prioridade e que se beneficiarão dos progressos no Vale do Omo. “Estamos trabalhando muito para protegê-los e ajudá-los a se adaptar às condições mutantes”, declarou à IPS o porta-voz do governo, Shimeles Kemal. Mas grupos étnicos como os mursis não são consultados sobre mudanças impostas para seu futuro. “Se resistirmos ao reassentamento, vão nos prender”, disse um ancião mursi à IPS. “Temos medo do futuro. Nossa forma de vida está ameaçada. Nos dizem para deixar de andar com o gado, de usar nossa vestimenta tradicional e para vendermos nosso gado. O gado e o movimento são tudo para os mursis”, destacou. Assegurar que os projetos de desenvolvimento nacional não coloquem em perigo a vida de centenas de milhares de pastores é fundamental, disse Ben Braga, presidente do Conselho Mundial da Água. Ele denunciou os governos que não indenizam comunidades como os mursis, pois o reassentamento é uma consequência inevitável das grandes represas, e exige um consciente planejamento prévio para evitar essas situações de emergência. “Como podemos compensar essas populações para que a maior parte do país se beneficie da eletricidade? Faltam melhores mecanismos de compensação para garantir que os benefícios sejam compartilhados e que todos os interessados sejam incluídos nas consultas prévias à construção”, enfatizou Braga à IPS. Envolverde/IPS

Alunos de uma madrasa. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS Inter Press Service - Reportagens

O caminho da pobreza leva às madrasas

[caption id="attachment_103263" align="aligncenter" width="529"] Alunos de uma madrasa. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS[/caption]   Peshawar, Paquistão, 21/11/2013 – Mustafa Jan, vendedor de cigarros em beira de estrada em uma aldeia paquistanesa, tem uma simples razão para enviar seus dois filhos a uma madrasa (seminário islâmico) e não à escola do governo. “Não podemos pagar. Não temos dinheiro para comprar os livros nem os uniformes. Na madrasa, onde estudam meus dois filhos mais velhos, dão comida grátis e uma educação muçulmana”, disse Jan à IPS. Esse homem vive na aldeia de Badshah Jel, na província de Jyber Pajtunjwa, vizinha às Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata), no norte do Paquistão, das quais Peshawar é seu centro administrativo. Toda essa região precisa desesperadamente reforçar seu sistema educacional e melhorar as matrículas nas escolas para, assim, reduzir a influência das madrasas. Esses seminários religiosos são considerados um celeiro de terroristas no norte paquistanês, onde o movimento islâmico Talibã está muito ativo e onde a pobreza aguda e a militância radical seguem juntas. “A pobreza está forçando as pessoas a enviarem seus filhos para as madrasas”, reconheceu à IPS o ministro da Educação de Jyber Pajtunjwa, Muhammad Atif. Em setembro, a província lançou uma campanha de matrícula escolar gratuita, para incluir mais 2,6 milhões de meninos e meninas no sistema educacional, e até agora matriculou apenas 80 mil, disse Atif. Curiosamente, foi constatado que muitas crianças matriculadas em escolas do governo também frequentavam seminários religiosos. “Cerca de 12 mil crianças matriculadas em escolas formais, na verdade estudavam em madrasas porque seus pais não podiam arcar com os custos”, afirmou. A renda por habitante na província é de US$ 900 ao ano, bem menos do que a média nacional de US$ 1.380, segundo o Escritório Federal de Estatísticas. A população provincial supera os 21 milhões, em um país com 182 milhões de habitantes. O terrorismo, o fechamento de fábricas e a queda da renda com agricultura são as principais razões por trás da deterioração econômica da província. Trata-se de um círculo vicioso que obriga as crianças a irem para seminários religiosos em busca de alimento, roupa, alojamento, e, naturalmente, educação gratuita. Segundo um informe de 2009 do Departamento de Educação de Jyber Pajtunjwa, há 8.971 seminários religiosos na província, nos quais 150 mil alunos recebem aula sobre o Alcorão, jurisprudência islâmica e hadices (ditos e ações do profeta Maomé). As escolas estatais também dão educação gratuita até o quinto grau. “Temos cinco milhões de crianças que recebem educação gratuita em 29 mil escolas. Também fornecemos livros e uniformes aos estudantes de graça” garantiu Atif. Contudo, claramente, isso não basta. Cerca de 500 mil crianças entre cinco e 15 anos não vão à escola em Jyber Pajtunjwa, e outras 200 mil estão na mesma situação nas Fata, segundo os respectivos departamentos de ensino. “O governo deve matricular mais estudantes nas escolas formais para impedir que caiam nas mãos do Talibã”, opinou Mohammad Salar, professor de ciências políticas na Universidade Abdul Wali Jan. “Milhares de estudantes dos seminários lutam nas fileiras do Talibã”, lamentou em conversa com a IPS. O Escritório Federal de Estatísticas diz que o custo mensal da educação por criança nas escolas do governo é inferior a US$ 5, mas muitos pais não podem pagar nem mesmo isso. Os pais também dizem que não há garantia de que as crianças conseguirão emprego ao completarem os estudos. A situação parece especialmente difícil nas Fata, onde 50% das meninas e meninos não vão à escola “A alfabetização nas Fata é inferior à de qualquer outra parte do país, devido à militância” islâmica, explicou à IPS o diretor-adjunto do Departamento de Educação dessa jurisdição, Manzar Ali Sajid. A taxa de alfabetização nas Fata é de apenas 36,6% entre os homens e 10,5% entre as mulheres, contra a média nacional de 79% e 61%, respectivamente, afirmou. O diretor destacou que o governo aprovou um plano para criar um segundo turno escolar, entre duas e seis horas da tarde, para facilitar as matrículas. No entanto, há uma grande batalha pela frente. As Fata têm 585 madrasas, com cerca de 14.560 estudantes. Aproximadamente 750 escolas na região foram destruídas pelo Talibã desde 2005, segundo o Departamento de Educação. Abdul Qudos, economista da Universidade de Peshawar, insiste que o Paquistão precisa investir mais em educação. “Gastamos 2,1% do produto interno bruto em educação, que nem mesmo é metade dos desejados 5%”, ressaltou. Quando o sistema educacional paquistanês fracassa, as madrasas ganham. Maulana Samiul Haq, diretor da madrasa Darul Uloom Haqqania, em Jyber Pajtunjwa, assegurou que em sua instituição há 4.500 estudantes. “Todos pertencem a famílias pobres e recebem alimentação grátis, alojamento, roupa e outros artigos de uso diário”, explicou à IPS. Alunos de sua madrasa ocuparam altos postos no regime que o Talibã impôs no Afeganistão entre 1996 e 2001, quando foi desalojado do poder pelas forças lideradas pelos Estados Unidos. Junaid Shah, comerciante, envia seus dois filhos a Darul Uloom Haqqania. “Ficam lá e estudam, e conseguem tudo de graça. Só podemos vê-los uma vez por mês”, contou. Ele gostaria de lhes dar uma educação formal, mas, como muitas pessoas de baixos recursos no Paquistão, suas opções são muito limitadas. Envolverde/IPS


por Ashfaq Yusufzai, da IPS
Oradores do Painel sobre Gênero e Mudança Climática, realizado em Varsóvia no dia 12. Foto: Silvia Giannelli/IPS Inter Press Service - Reportagens

COP19: Marcando o vínculo entre gênero e mudança climática

[caption id="attachment_103206" align="aligncenter" width="529"] Oradores do Painel sobre Gênero e Mudança Climática, realizado em Varsóvia no dia 12. Foto: Silvia Giannelli/IPS[/caption]   Varsóvia, Polônia, 20/11/2013 – Ontem foi comemorado o Dia do Gênero na 19ª Conferência das Partes (COP 19) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática e muitas atividades realizadas na capital polonesa se concentraram nesse tema transversal e sua relação com a mudança climática. A jornada começou com a apresentação do Índice de Gênero e Meio Ambiente (EGI), elaborado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Lorena Aguilar, alta assessora para assuntos de gênero para a UICN, explicou à IPS a importância do estudo. “O EGI é o primeiro índice de sua classe, reunindo medições sobre governança em temas de gênero e meio ambiente. Foram avaliados 72 países, segundo seis variáveis diferentes, com cada um de seus indicadores”, afirmou Aguilar na COP 19, que acontece em Varsóvia, entre 11 e 22 deste mês. Os 72 países foram classificados segundo seu desempenho em formas de sustento, direitos de gênero e participação da mulher, governança, educação em temas de gênero, ecossistemas e atividades registradas nos informes nacionais. Cada variável contém uma série de indicadores para definir seu alcance. Por exemplo, a variável de “direitos de gênero e participação” avalia se as mulheres gozam de direitos iguais (como o de propriedade) e de uma representação equitativa nos processos de tomada de decisões. O primeiro resultado que chama a atenção é que muitos países com alta renda (alguns dos 34 membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos – OCDE) tiveram mau desempenho em temas de gênero, meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Isso pode ter ocorrido pela “ideia (errônea) de que a igualdade de gênero já está alcançada em todas as esferas do país, inclusive no setor do meio ambiente”, mas também há falta de vontade política, diz o estudo. Os três países que se destacaram em temas de gênero em seus informes nacionais apresentados nas Convenções do Rio sobre biodiversidade, mudança climática e diversificação, e perante a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (Cedaw), foram Índia, Quênia e Gana, nessa ordem. Enquanto Geórgia, Uzbequistão e Itália não incluíram assuntos de gênero em seus três últimos informes nacionais às Convenções do Rio, diz o estudo da UICN. Assim como a pobreza segue junto com a desigualdade de gênero, o mesmo ocorre com os temas ambientais. Isso se traduz em um índice que tem seus três primeiros postos ocupados por Islândia, Holanda e Noruega, países da OCDE. As nações da América Latina e do Caribe aparecem na metade do ranking, com exceção do Panamá, que esteve entre os países de melhor desempenho, logo após a Itália (no 16º lugar) e seguido da África do Sul. Os países da Eurásia também tiveram um desempenho moderado. O melhor colocado foi a Romênia, no 22º lugar, e o pior foi o Uzbequistão, em 39º. As nações da África, Ásia e do Oriente Médio tiveram, em geral, mau desempenho: Iêmen ficou no penúltimo lugar da lista de 72 países, Índia em 46º e Paquistão em 67º. Enquanto a República Democrática do Congo ficou em último lugar. Ativistas de gênero na COP 19 parecem confirmar o que mostra o ranking: é nos países mais pobres onde a mudança climática tem impacto mais desigual entre homens e mulheres. Por exemplo, “devido aos papéis socialmente construídos, exige-se das mulheres de Uganda que cultivem a comida, preparem e sirvam às suas famílias”, disse Gertrude Kenyangi, da organização ugandense Apoio às Mulheres em Agricultura e Meio Ambiente (Swagen). “Os alimentos, a energia e a água estão interligados, e se você não tem essas três coisas, que ficam mais escassas pela mudança climática, então não poderá cumprir seu papel e, provavelmente, seu marido tirará seus filhos, e isso afetará toda sua forma de vida”, destacou Kenyangi. Ela própria escapou desse destino graças a um programa educativo. “Venho de uma comunidade dependente das florestas, mas rompi com esse ciclo. Me liguei a algumas organizações religiosas que pagaram minha educação”, contou Kenyangi. E assim, depois de seus estudos, fundou a Swagen, uma rede de organizações de mulheres. Os movimentos de base são fundamentais para conectar os governos com as populações vulneráveis, mas, além disso, “é preciso um esforço deliberado para alcançá-las”, explicou à IPS. “Por exemplo, a Mulheres na Europa Para Um Futuro Comum (WECF) é uma plataforma que me trouxe a esse debate, e por isso posso apresentar a postura dos grupos de base. Sem seu apoio não teria o dinheiro para viajar, não poderia pagar passagem, estadia, nem mesmo a inscrição” na COP 19, acrescentou Kenyangi. “É isso que muda o círculo vicioso, se alguém intervém de fora”, ressaltou. Apesar do nome, a WECF não se limita à Europa e conecta a mais de 150 organizações e comunidades em todo o mundo, para impulsionar políticas ambientais com sensibilidade de gênero em nível internacional. O que a organização quer recordar aos políticos, e às políticas, é que o aquecimento global é causado por decisões diárias e tem um impacto na vida de todas as pessoas. Contudo, como em muitos casos as mulheres e os homens realizam atividades diferentes, o impacto do fenômeno é diferente. Embora no Ocidente isto seja difícil de compreender, em muitas partes do Sul em desenvolvimento, onde a agricultura de subsistência é realizada principalmente por mulheres, essa relação fica mais clara. A paquistanesa Maira Zahur participa da COP 19 como parte da delegação da rede de organizações de mulheres GenderCC, mas em seu país trabalha com o governo como especialista em redução de riscos de desastres. “Falando de modo simples, aconselho como aplicar certas políticas no terreno, como podem beneficiar as mulheres, como devem revisar essas políticas, modificá-las ou ampliá-las, e como podem ser levadas ao nível de base, explicando às pessoas quais coisas são para seu bem”, detalhou à IPS. A ONU Mulheres acaba de realizar um estudo sobre sistemas de alerta de inundações no Paquistão, considerando inúmeras variáveis. A pesquisa leva em conta se os homens trabalham em áreas de risco ou devem ir para outras regiões para poderem manter suas famílias, e se as mulheres que ficam sozinhas são capazes de tomar decisões diante de um alerta de inundação ou se dependem de outros homens. O estudo conclui que “o vacilo na hora de tirar mulheres e meninas do ambiente protegido de suas casas” era uma das razões pelas quais muitas não eram retiradas, mesmo depois de dado o alerta de desastre iminente. O informe analisou também outros temas relacionados com gênero nos acampamentos para vítimas de inundações, como o acesso igualitário aos serviços de higiene e os problemas de segurança que as mulheres enfrentam. “Quando se faz políticas referentes a alertas, deve-se considerar assuntos de gênero”, destacou Zahur. A participação das mulheres em todos os níveis da tomada de decisões parece ser, se não uma solução, ao menos um primeiro passo essencial para cobrir essas brechas. A atenção para esses temas no debate sobre o clima parece ir crescendo, como mostra a decisão tomada na Conferência do ano passado em Doha, de promover o equilíbrio de gênero e a participação da mulher nas negociações, bem como a realização do Painel sobre Gênero e Mudança Climática em Varsóvia, no dia 12. Entretanto, Zahur é cética sobre possíveis avanços nesta Conferência. “Estamos todos tão envolvidos nos plenários, nos grupos de contato e nas atividades paralelas que o propósito básico de nossa presença aqui se perdeu um pouco. Temos que encontrar soluções para ajudar as pessoas no terreno. Essa deve ser a grande motivação. Mas aqui se fala muito, e é muito entediante”, opinou. Envolverde/IPS


por Silvia Giannelli, da IPS
Sarah Abunar (esquerda) e Rana Said, cofundadoras da EduKitten, empresa que vende aplicações de entretenimento educativo em árabe. Foto: Rachel Williamson/IPS Inter Press Service - Reportagens

Oriente Médio, terra fértil para empreendedoras

[caption id="attachment_103203" align="aligncenter" width="529"] Sarah Abunar (esquerda) e Rana Said, cofundadoras da EduKitten, empresa que vende aplicações de entretenimento educativo em árabe. Foto: Rachel Williamson/IPS[/caption]   Cairo, Egito, 20/11/2013 – O Oriente Médio se converteu em um lugar mais propício para as mulheres empreendedoras do que a região norte-americana do Vale do Silício, epicentro da inovação e dos negócios, conforme sugere uma evidência que surpreende. A egípcia-norte-americana Yasmin Elayat, de 31 anos, nascida e criada no próprio Vale do Silício, disse à IPS que o ambiente de negócios no Oriente Médio era mais favorável do que o dos Estados Unidos e da Europa, quando, em 2011, começou a trabalhar em sua agora inativa empresa de mídia GroupStream. “É um ambiente mais estimulante para as mulheres empresárias. Há algo mais aqui, seja a cultura ou o ambiente”, afirmou. De fato, a única vez que se sentiu menosprezada nos negócios por ser mulher foi na Europa, quando participou de um acampamento de capacitação de três meses em Copenhague para líderes de empresas startup (incipientes e de inovação). Ali, um empresário da Europa oriental ficou surpreso quando soube que Elayat não era uma simples funcionária da GroupStream, mas, nada mais nada menos, sua diretora geral. Em outra ocasião, após falar para uma audiência, um dos presentes dirigiu as perguntas ao cofundador de sua companhia, e não a ela. Elayat integra o crescente grupo de mulheres no Oriente Médio e no norte da África que se aventuram nos negócios, embora seja difícil saber o número exato dessas novas empresárias. A última edição do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), estudo feito por um consórcio de universidades, sugere que as mulheres desta região são as que contam com menos probabilidades de poderem iniciar seu próprio negócio. A pesquisa mostra que apenas 4% das mulheres adultas do Oriente Médio e norte da África se consideram empresárias. Entretanto, o estudo não incluiu a informação de importantes centros de startups na região, como Jordânia, Líbano, Emirados Árabes Unidos e Catar, enquanto Israel foi estudado de forma separada. Na Jordânia as startups lideradas por mulheres representam um terço do total, próximo à média mundial de 37%. No Egito aproximadamente metade dos novos empreendimentos é encabeçada por equipes mistas, informou à IPS o empresário Hossam Allam, fundador do grupo de investimento Cairo Angels. Além disso, nas competições regionais de empreendedores, a presença de mulheres e homens é bastante equitativa. Na Competição de Startups Árabes, organizada pelo MIT Enterprise Forum em 2012, quase metade dos participantes era de mulheres, incluindo a ganhadora, Hind Hobeika. A proporção de mulheres empreendedoras na região provavelmente oscila entre 15% e 20%. Isto é notável se considerarmos que, segundo o estudo GEM, 10% das mulheres adultas nos Estados Unidos estiveram envolvidas em alguma atividade empresarial em 2012, e apenas 5% na Europa. Há várias razões para o aumento do empreendedorismo feminino no Oriente Médio, e uma delas é o favorável ambiente para as startups. Nos últimos três anos a região presenciou o surgimento de numerosas encubadoras de empresas (entidades que apoiam os projetos de novos empreendedores) e também de competições e organizações especificamente dirigidas às mulheres. Entre essas iniciativas estão o site de notícias sobre investimentos Wamda for Women, da plataforma empresarial Wamda, a Competição para Mulheres Empreendedoras, da incubadora de negócios libanesa Berytech, a Fundação Roudha na Jordânia, e o Programa de Empreendedorismo de Mulheres Árabes, da organização norte-americana Amideast. Outras razões são o crescente acesso à educação e às oportunidades proporcionadas pela internet. O Banco Mundial afirma que agora há mais mulheres do que homens nas universidades do Oriente Médio. Elayat contou que ela era a única mulher da sala quando fez seu primeiro curso de engenharia informática nos Estados Unidos, mas quando passou para a Universidade Norte-Americana do Cairo constatou uma presença igual de homens e mulheres. Yasmine el-Mehairy, a jovem cofundadora do site digital árabe Supermama, explicou que, em contraste com os baixos números de mulheres que estudam computação e engenharia no Ocidente, muitas árabes entram nesse tipo de carreira depois de apresentar boas qualificações na educação secundária. “As mulheres mostram maior esforço no secundário, e por isso conseguem boas qualificações, enquanto os homens estão mais interessados em brincar com PlayStation ou futebol”, afirmou. “É parte de uma seleção natural ir para as melhores universidades se você tem boa qualificação, e seguir as carreiras de maior prestígio”, como ciências e engenharia, destacou. Ludwig Siegele, do semanário britânico The Economist, escreveu em julho que, provavelmente, o número de empreendedoras aumentará graças à internet, pois esta permite que as mulheres dirijam suas empresas em suas casas, e isso é extremamente vantajoso em países como a Arábia Saudita, onde é mal visto saírem para trabalhar. Porém, os desafios que enfrentam as empreendedoras no Oriente Médio são muito grandes, desde o cansaço diário até as frustrações pelos preconceitos arraigados em suas sociedades patriarcais. Os painéis organizados este ano pela Wamda for Women no Cairo, Doha, Amã e Riad, ilustraram as dificuldades que as mulheres têm para levarem adiante seus negócios. Geralmente, os principais desafios têm a ver com enfrentar seus pares homens, superar os papéis estabelecidos e equilibrar a família com a responsabilidade do trabalho. Foi o que afirmou a também empresária jordaniana Fida Taher, fundadora do site sobre cozinha Zaytouneh. “Primeiro, alguns homens se sentem intimidados diante de uma mulher forte”, disse a Chris Schroeder, autor do livro Startup Rising: The Entrepreneurial Revolution Remaking the Middle East (Surgimento das Startups: a Revolução Empreendedora Reconstrói o Oriente Médio). “Em segundo lugar – e tentarei soar o mais correto possível – acreditam que uma relação de negócios com uma mulher deve ser mais pessoal. Por fim, alguns homens subestimam as mulheres em geral e acreditam que não somos capazes de obter bons resultados”, acrescentou. Sarah Abu Nar, de 28 anos, cofundadora da companhia egípcia EduKitten, que vende aplicativos de entretenimento educacional em árabe, contou suas experiências. A empresária disse que deve se esforçar para convencer investidores árabes de que pode dedicar aos negócios o mesmo tempo que dedicam seus pares homens. Mas, finalmente, decidiu adotar uma postura que seguem todas as empresárias com as quais a IPS conversou. “Não se deve perder tempo falando com as pessoas para convencê-las de que se é boa. Não gaste seu tempo fazendo isto, pois suas ações falarão melhor do que suas palavras”, enfatizou. Envolverde/IPS


por Rachel Williamson, da IPS
Mulheres se concentram em Reykjavik para comemorar uma vitória de seus direitos. Foto: Lowana Veal/IPS Inter Press Service - Reportagens

Bancarrota bancária da Islândia caiu sobre as mulheres

[caption id="attachment_103200" align="aligncenter" width="529"] Mulheres se concentram em Reykjavik para comemorar uma vitória de seus direitos. Foto: Lowana Veal/IPS[/caption]   Reykjavik, Islândia, 20/11/2013 – O colapso econômico vivido pela Islândia em 2008 difere de outros países porque afetou mais a saúde física e mental das mulheres do que dos homens, de acordo com novos estudos. As desempregadas, as estudantes e as que participam do mercado de trabalho apresentaram níveis particularmente elevados de estresse no ano posterior à crise, junto às mulheres próximas da idade de se aposentarem, segundo pesquisa concluída este ano entre pessoas que foram ouvidas antes e depois da bancarrota financeira. “A maior parte das investigações sobre pessoas que experimentaram reveses econômicos se orientaram aos homens, e os que estudaram ambos os sexos descobriram que os homens são mais afetados do que as mulheres. Nossos resultados sobre os efeitos do colapso econômico são pouco comuns, por exemplo, o de que o efeito sobre a saúde mental parece ocorrer principalmente entre as mulheres”, disse à IPS Unnur Anna Valdimarsdottir, do Centro de Ciências da Saúde Pública (CPHS) da Universidade da Islândia. “As mulheres foram mais afetadas pelo colapso econômico e a posterior recessão na Islândia do que se informou ou se viu em outros países”, afirmou Chris McClure, estudante de doutorado no CPHS. “A maior parte das pesquisas até agora indica que os homens são mais prejudicados. O ocorrido na Islândia é singular e pode ser um indício de vários fatores, como a pesada carga psicológica das irlandesas, por terem que manter a casa, o emprego, suas relações e famílias”, acrescentou. McClure pontuou que escassos informes de imprensa destacaram as consequências negativas da crise na Islândia. A maior parte se concentrou na resiliência e no poder de recuperação de sua população. “Declarações como essas, em épocas de austeridade, podem provocar efeitos negativos na população”, ressaltou. Os grupos vulneráveis são mais propensos ao estresse, segundo os autores do estudo. Por exemplo, é possível que as mulheres maiores de 60 anos tenham experimentado maior insegurança no trabalho ou quanto à perspectiva do desaparecimento de suas pensões ou economias de toda a vida, bem como a incerteza de encontrar trabalho se fossem demitidas. No caso das trabalhadoras sem especialização, a causa maior do estresse pode estar no fato de ter uma ocupação facilmente descartável ou sem a capacitação necessária para conseguir outro emprego. Antes, as pesquisas sobre a relação entre desemprego e consequências psicológicas se concentravam nos homens, mas, em geral, nessas sociedades estudadas era comum que os homens fossem o sustento de suas famílias. Este não é o caso da Islândia. Com uma das taxas de emprego mais altas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem entre seus 34 membros todos os países ricos, as mulheres islandesas representam aproximadamente 80% da força de trabalho, quase igual aos homens, que chegam a 85%. As perdas econômicas e trabalhistas nas semanas do colapso financeiro foram uma grande ameaça para a segurança das famílias, o que pode ter afetado de maneira diferente as mulheres e os homens. Os autores consideram que essa é uma das razões dessa diferença. Contudo, não só as enfermidades derivadas do estresse afetam mais as mulheres do que os homens nesse país. Na semana em que os bancos afundaram, a quantidade de mulheres que visitou o departamento de emergência cardíaca do hospital da universidade nacional, o Landspitali, aumentou 40%, enquanto o número de mulheres diagnosticadas com doenças cardíacas cresceu 80%. Valdimarsdottir é uma das pessoas que estudou essa situação. “Os acontecimentos estressantes afetam mais as doenças cardíacas das mulheres do que as dos homens, e é possível que diferentes fatores estressantes sejam específicos de um gênero”, pontuou. “Por exemplo, existe uma enfermidade derivada do estresse chamada cardiomiopatia neurogênica (síndrome do coração partido) que praticamente só se encontra nas mulheres, mas não é fatal e, em geral, dura apenas alguns dias”, explicou. A cientista e suas colegas no CPHS também se interessam em estudar tendências nos nascimentos, as tentativas de suicídio e os resultados sanitários de longo prazo nos dois gêneros, que poderiam estar relacionados com a crise financeira. Os únicos homens nos quais se encontrou maior grau de estresse estavam casados ou pertenciam ao grupo de renda média. As mulheres deste grupo também experimentaram um aumento do estresse, embora não tanto quanto as jovens. Nos dois casos, isto pode ser causado em grande parte pela forte alta das cotas das hipotecas que ocorreu imediatamente depois do fechamento dos bancos. McClure acrescentou que as mulheres fumam mais que os homens na Islândia. “Nossas conclusões indicam um forte vínculo entre parar de fumar e os níveis de estresse. E mais: achamos que era muito menos provável que as mulheres deixassem de fumar depois do colapso, em comparação com os homens, o que está vinculado aos graus de estresse”, afirmou. Os dados do Diretório de Saúde revelam que a quantidade de abortos aumentou desde a crise bancária. Hildur Bjork Sigbjornsdottir, que compilou esses números, disse à IPS que é impossível determinar as razões, já que a decisão de interromper uma gravidez costuma obedecer a mais de um motivo. “Em geral, é uma combinação de vários fatores sociais”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Lowana Veal, da IPS
Enfermeiras tratam um menino ferido no hospital Lady Reading, em Peshawar. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS Inter Press Service - Reportagens

Carnificina dos ataques terroristas traumatiza pessoal médico

[caption id="attachment_103197" align="aligncenter" width="509"] Enfermeiras tratam um menino ferido no hospital Lady Reading, em Peshawar. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS[/caption]   Peshawar, Paquistão, 20/11/2013 – A lembrança do sangue não abandona Ajab Gul. “Não consigo dormir”, disse o jovem de 25 anos, que trabalha em um hospital onde são atendidas as vítimas do terrorismo nessa cidade paquistanesa fronteiriça com o Afeganistão. O Hospital Lady Reading (LRH) de Peshawar recebe 98% das vítimas dos atentados terroristas na conflituosa província de Jiber Pajtunjwa. O trabalho de Gul é especialmente difícil. Deve costurar e fechar os ferimentos dos pacientes que entram na unidade de acidentes e emergências do hospital, um dos maiores desse país do sul da Ásia. “Vejo imagens de rostos e corpos ensanguentados. À noite, ouço os gritos de mulheres, meninos e meninas que chegam para serem tratados”, contou à IPS. A ferocidade e a frequência dos ataques suicidas ou com bombas em Jiber Pajtunjwa e nas Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata) estão deixando um impacto impossível de apagar na vida do pessoal médico, paramédico e de enfermagem da região. Seus ferimentos não são visíveis, mas são profundos. “A maioria de nós desenvolve problemas psicológicos”, afirmou Gul. Peshawar, capital de Jiber Pajtunjwa, costumava ser uma cidade de paz. Mas depois que o movimento islâmico Talibã foi derrubado, em 2001, no Afeganistão, muitos de seus guerrilheiros cruzaram para o vizinho Paquistão em busca de abrigo nas zonas fronteiriças das Fata. O proscrito movimento talibã paquistanês Tehreek Taliban Pakistan (TTP) atacou por anos objetivos militares e o governo, e também lugares públicos como mercados e escolas. A polícia garante que ao menos 210 atentados cometidos em Peshawar desde 2005 foram obra do Talibã. “O pessoal de saúde trata as vítimas e vê de perto as consequências traumáticas do terrorismo. Muitos tomam antidepressivos, tranquilizantes e pílulas para dormir e evitar os pesadelos”, disse o professor Arshad Javaid, diretor do LRH. Há 12 grandes hospitais em Jiber Pajtunjwa, onde vivem 22 milhões dos mais de 182 milhões de habitantes do Paquistão. Mas a maioria das vítimas do terrorismo é atendida nos 1.650 leitos do estatal LRH, que recebeu mais de seis mil vítimas desde 2005, afirmou à IPS. “Nossa missão é reduzir a mortalidade dos atentados terroristas”, acrescentou. No entanto, estar próximo de membros amputados, rostos ensanguentados, lágrimas e gritos deixam suas cicatrizes. “Em meus sonhos continuo vendo os corpos carbonizados das crianças”, contou Rifat Bibi, enfermeira de 28 anos. “Muitas vezes acordo. Parte o coração ver as crianças sofrerem ou morrerem sem terem culpa de nada. Lembro de meus filhos, minhas irmãs, minha mãe”, detalhou. Segundo Bibi, alguns não suportam o estresse pós-traumático e “uma dezena de meus colegas de emergências pediram transferência para outros setores porque não podiam tolerar o estresse”. Os dois ataques suicidas contra a igreja de Todos os Santos no dia 22 de setembro, que tiraram a vida de 80 pessoas, continuam vivos nas lembranças de Bibi. “Uma mulher, com o rosto coberto de sangue, chorou tanto sobre os corpos de seus dois irmãos mais novos mortos nesse dia que essa lembrança não me deixa em paz”, disse à IPS. Jauhar Ali é presidente da KP Paramedics, empresa que opera em vários hospitais da cidade. Seus 560 paramédicos prestam serviços de diagnóstico e tratamento para todo tipo de paciente. “Mas nossa prioridade são os que são feridos em atentados com bomba. Devemos deter a hemorragia e vendar”, contou. “Mesmo quando não estamos trabalhando, as cenas continuam vindo em nossa mente”, disse Ali, que também cuida das radiografias. Em 2011, teve que atender três crianças de uma escola de primeiro grau gravemente feridas. “Elas me perguntaram quem as atacara e por quê. Não tinha resposta”. Agora, Ali se preocupa sem cessar com seus próprios filhos. Amjad Ali, psiquiatra do LRH, diz que o pessoal da saúde também fica exposto a maus-tratos de familiares das vítimas. No dia 22 de setembro, “recebemos 233 vítimas em uma hora. A todas foi dado tratamento. Mas alguns parentes furiosos atacaram o pessoal”, pontuou. É comum enfermeiras e paramédicos desenvolverem problemas de saúde mental, ressaltou. Segundo ele, “esses profissionais caem em prantos quando veem pacientes com dor. Um em cada dez tem sintomas de doença psicológica. Examinei dezenas de trabalhadores da saúde aos quais receitei antidepressivos e terapia. Como é possível não ser afetado vendo tantos corpos ensanguentados?”, perguntou. Envolverde/IPS


por Ashfaq Yusufzai, da IPS
A Guiana tem 12,2 milhões de hectares de florestas estatais. Foto: Desmond Brown/IPS Inter Press Service - Reportagens

Mineração mordisca a Amazônia da Guiana

[caption id="attachment_103129" align="aligncenter" width="529"] A Guiana tem 12,2 milhões de hectares de florestas estatais. Foto: Desmond Brown/IPS[/caption]   Georgetown, Guiana, 19/11/2013 – Mediante ações de compensação, a Guiana se comprometeu a salvar sua floresta tropical, considerada um tesouro vivo, das atividades destrutivas de mineiros que buscam outro tipo de fortuna, enterrada sob esse frágil ecossistema. Contudo, o ministro de Recursos Naturais, Roberto Persaud, alertou que o país perderá cerca de US$ 20 milhões do fundo de conservação florestal, porque destruiu mais porção da Amazônia do que a acordada, principalmente pelo avanço da mineração de ouro e diamante. Em novembro de 2010, Guiana e Noruega se associaram para criar o maior dos projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação de Florestas (REDD) no mundo. A Noruega se comprometeu a entregar à Guiana até US$ 250 milhões até 2015 para evitar desmatamento e degradação. A Guiana cumpriu os requisitos de desempenho por dois anos seguidos, por isso a Noruega transferiu US$ 70 milhões ao Fundo de Investimentos REDD+ da Guiana. Mas o terceiro informe nacional preliminar sobre desmatamento não traz boas notícias. “Tivemos uma mudança em termos da proporção desmatada, com um nível de 0,079%, superior ao do ano passado, que foi de 0,054%”, informou Persaud à IPS. “Porém, se nos fixarmos na área total, trata-se de apenas 3.600 hectares em 12,2 milhões de hectares da área florestal estatal”, acrescentou. Em termos percentuais, a Guiana violou o acordo com a Noruega, porque no terceiro ano em vigor a avaliação mostrou crescimento do desmatamento e porque, ao situar-se no patamar de 0,079, superou o limite comprometido de 0,070. Auditores independentes da Universidade de Durham (local) e da Noruega finalizarão o relatório até o dia 30 deste mês. Os fundos obtidos pela Guiana por meio do acordo se dirigem aos projetos de uma estratégia de desenvolvimento baixo em carbono (LCDS), que possuem um efeito transformador sobre a economia nacional e local. Também se destinam a apoiar os esforços do país caribenho para se adaptar à mudança climática e para aumentar a resiliência diante de futuros eventos vinculados à mesma. Porém, alguns guianenses originários se sentem marginalizados pelo acordo. “A terra, nossos recursos e manter o ambiente saudável para nosso povo e nossos filhos são assuntos fundamentais para nós”, afirmou à IPS Laura George, representante da Associação de Povos Ameríndios. “Uma das coisas que dizemos é que se deve consultar as comunidades. O governo não deveria pressionar nossos toshaos (líderes de aldeias ameríndias) para que aprovem projetos que não entendemos plenamente”, argumentou a propósito do acordo com a Noruega. John Alfred, ex-toshao da Região 9, disse à IPS que por muitos anos foram violados seus direitos com a destruição da floresta. “Em nossas aldeias e regiões há muitos problemas. Estamos lutando por nosso direito à terra, por nossos direitos indígenas, por respeito”, afirmou. Apesar do último relatório, Persaud disse à IPS que a Guiana “continua sendo o país com uma das menores proporções em matéria de desmatamento dentro da América do Sul”. Também admitiu que 94% dos problemas têm origem na atividade mineradora. Mas, ressaltou, esta acontece “com o conhecimento da Comissão de Geologia e Minas da Guiana, trabalhando com mineiros legítimos, que cumprem sua atividade econômica enquanto seguem as diretrizes ou leis nacionais, bem como nossas regulamentações a respeito”. Patrick Harding, presidente da Associação de Mineiros de Ouro e Diamante da Guiana (GGDMA), disse à IPS: “Podemos perder cerca de 40% dos fundos da Noruega. Isso representa aproximadamente US$ 25 milhões. A indústria mineradora, incluída a de bauxita, dará ao governo divisas em torno de US$ 1 bilhão. Temos uma indústria que gera emprego para dezenas de milhares de guianenses”. Harding também insistiu que a GGDMA está preocupada com o desmatamento. “Nosso lema é praticar a mineração considerando o meio ambiente, e somos muito cuidadosos nesse sentido. Incentivamos nossos membros a seguirem a Lei Ambiental e as Regulamentações Mineiras”, ressaltou Harding. Em 2012, a indústria mineradora declarou produção de 413,6 mil onças (quase 12 toneladas) de ouro, e este ano se comprometeu a aumentar para 461 onças (13 toneladas). “Naturalmente, nos preocupa o meio ambiente, mas não se pode ter desenvolvimento sem alguma alteração adicional”, enfatizou. O ex-presidente da Guiana, Bharrat Jagdeo (1999-2011), defende a causa dos países em desenvolvimento na luta contra a mudança climática, destacando o papel que têm as florestas do país na absorção das emissões de carbono. Em 2009, sob sua liderança, o país desenvolveu seu programa de LCDS. Por este programa o país cobra por serviços do ecossistema florestal. Esses fundos são usados para atividades econômicas para que o crescimento e o desenvolvimento sejam amigáveis com o meio ambiente e, por fim, baixo em carbono. A LCDS recebeu apoio internacional generalizado e elogios internacionais. Envolverde/IPS


por Desmond Brown, da IPS
Antônio de Oliveira na área de secagem de sua propriedade de urucum, um de seus cultivos tradicionais que agora convivem com a palma. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS Inter Press Service - Reportagens

A palma quebra tradições camponesas na Amazônia brasileira

[caption id="attachment_103126" align="aligncenter" width="529"] Antônio de Oliveira na área de secagem de sua propriedade de urucum, um de seus cultivos tradicionais que agora convivem com a palma. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS[/caption]   Concórdia do Pará, Moju e Acará, Brasil, 19/11/2013 – Milhares de famílias camponesas do Pará, no nordeste da Amazônia, apostam na palma africana e se associam com empresas do setor de biocombustíveis. “Um bicho raro”, com desafios econômicos e culturais. A propriedade de Antônio de Oliveira tem cheiro de uma mistura de laranjas, pimenta negra e urucum (Bixa orellana), um colorante natural do trópico americano, que tinge de vermelho toda a pequena fazenda. “Não sabia nada sobre palma... É muito diferente trabalhar com isso, é um bicho raro e complicado”, comentou Oliveira, associado à empresa Biopalma há três anos para plantar a palma Ealeis guineensis, no Brasil chamada de dendezeiro. A Biopalma pertence ao grupo de mineração Vale e tem 60 mil hectares próprios de dendê, uma espécie alheia ao bioma amazônico. Mediante seu Programa de Agricultura Familiar também se associa a pequenos produtores para comprar sua produção. A empresa utilizará o óleo de palma como matéria-prima de biodiesel para mover os veículos e as máquinas de sua atividade mineradora. “Não estava preparado para o dendê. Não gosto de ficar contando quantas plantas tenho ou fazer um quadrado para semeá-las. Fiz aqui e ali”, disse à IPS o camponês de 65 anos, que antes sobrevivia vendendo pimenta, laranja e urucum. Ele começou a trabalhar aos dez anos, “de sol a sol” como diarista, e sua falta de estudo o persegue. “Quando escrevo alguma coisa, minha mulher diz que faltam muitas letras”, contou Oliveira, entre sorrisos. Fazer contas aprendeu por necessidade, como, por exemplo, a de calcular o rendimento que terá o dendezeiro, cujas plantas demoram cinco anos para produzir plenamente. Atualmente, colhe cerca de oito toneladas por quinzena e ganha em torno de US$ 120 por tonelada. Isso dá apenas para “cobrir gastos”, porque precisa pagar quatro ajudantes. Contudo, diferente da pimenta que dá uma colheita ao ano, o dendezeiro produz uma a cada 15 dias. Por isso espera poder comprar logo uma caminhonete “de luxo” para transportar seus produtos e levar a família para passear. “Meu sonho é conhecer o Rio Grande do Sul. Mas no calor, com frio não vou”, brincou Oliveira, homem acostumado ao clima quente amazônico. “Os agricultores associados têm problemas com a gestão de seus empreendimentos. Oliveira já trabalha com vários produtos e na prática é um pequeno empresário. Precisa saber quanto entra e sai, quanto gasta em cada cultivo”, explicou à IPS o técnico da Biopalma, Charles Vilarino. A empresa é sócia de 350 famílias e, até 2015, pretende incorporar mais 1.650, que no total vão explorar 20 mil hectares. Os agricultores recebem créditos do governo federal para entrar no programa e, em troca de dedicar um máximo de dez hectares à palmeira, têm assistência técnica e garantia de compra de seu produto por 30 anos. Porém, as dificuldades são grandes. No norte do Pará muitos produtores carecem de transporte e não se acostumam a criar cooperativas para resolver coletivamente seus problemas. “Me disseram que logo teremos que levar o fruto da palmeira até a empresa (no município de Moju) e não tenho caminhão. Como farei?”, se preocupa Oliveira. A Biopalma serve de intermediária para que instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) deem cursos de gestão e cooperativismo para os agricultores. “Não podemos obrigá-los a se organizarem em cooperativas. Isso deve surgir de nossos sócios. Trouxemos o Sebrae porque eles se interessaram”, explicou à IPS o analista de comunicação e projetos sociais da empresa, Sauer Teles. Um informe de junho do Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis, da organização jornalística e de investigação Repórter Brasil, indaga sobre as incompatibilidades da cultura do dendezeiro na agricultura familiar do Pará. A pesquisa alerta que o programa governamental Eco Dendê, que apoia a dedicação camponesa ao cultivo com linhas de crédito, “pode não representar o futuro promissor tão sonhado pelos agricultores familiares”, e suas “promessas de ganhos” podem acabar sendo falsas. “Muito se prometeu e pouco se discutiu sobre seus impactos no modo de vida tradicional” dessas comunidades, diz o juiz Marcus Barberino, especialista em relações no campo, citado no documento. A Belém Bioenergia, uma empresa de risco compartilhado entre a Petrobras e a portuguesa Galp, também incentiva o dendê para biodiesel. A companhia tem acordos com 280 famílias e projeta 600 no total. No caminho para entrevistar um desses agricultores, a IPS encontrou a propriedade de uma família camponesa alheia à nova cultura do dendê. De seus oito integrantes, apenas o bebê de um ano não trabalhava naquele momento. O pai, Reginaldo Dias, cozinhava a farinha de mandioca em um forno à lenha. Os idosos e as crianças descascavam a raiz e a esposa a ralava. É uma forma de sobrevivência, mas também um ritual cultural. O excedente de farinha para consumo familiar, eles vendem no mercado para comprar “o que falta: açúcar, feijão e arroz”, contou Dias à IPS. A poucos quilômetros vive José Ribamar Silva, um dos sócios da Belém Bioenergia. Há um ano e meio, plantou dendê em dez hectares de sua propriedade, e nos 15 restantes continua colhendo abacaxi, urucum, pimenta, mandioca e feijão, junto com cultivos próprios amazônicos. “A agricultura em nossa região é mais de mandioca e pimenta. Houve uma época em que a pimenta dava muito lucro, mas agora não, é muito trabalho para pouco dinheiro, por isso quando chegou o dendezeiro decidi por ele”, contou Silva à IPS. Ele espera que a palmeira lhe permita “colocar os filhos na escola” e explica que o futuro deles “é o mais importante para mim”. “Não se chega a um modelo verde sem abordar a questão social”, pontuou João Meireles, diretor do Instituto Peabiru, que assessora empresas vinculadas com a palmeira em temas socioambientais. Quando as grandes companhias chegam com suas exigências de regulações ou de legalidade, “pode ocorrer um choque em uma região com outro contexto social e de propriedade da terra, com questões básicas sem resolver”, explicou à IPS. No Pará a renda mensal não chega a US$ 50 por pessoa. Apenas 4% dos camponeses têm títulos de propriedade e entre 40% e 50% da população é analfabeta. Além disso, se mantém o hábito de queimar a floresta para semear. Os ritos agrícolas não mudam “da noite para o dia”, apontou Meirelles. A seu ver, o desenvolvimento da palmeira na Amazônia, “baseado em megaempresas com excelência, é de certa fora incompatível com a agricultura tradicional familiar”. Entretanto, essas empresas podem ter “um papel de transformação”, fortalecendo a sociedade das comunidades camponesas do Pará, ressaltou. Envolverde/IPS


por Fabiana Frayssinet, da IPS
A falta de saneamento afeta a higiene de meninos e meninas, como ocorre com esse esgoto a céu aberto em Madagascar. Nas cidades brasileiras a ára da Educação também sofre impactos negativos. Foto: Lova Rabary-Rakontondravony/IPS Inter Press Service - Reportagens

Dia mundial do vaso sanitário não é uma piada

  [caption id="attachment_103122" align="aligncenter" width="629"] A falta de saneamento afeta a higiene de meninos e meninas, como ocorre com esse esgoto a céu aberto em Madagascar. Foto: Lova Rabary-Rakontondravony/IPS[/caption]   Nações Unidas, 19/11/2013 – A Organização das Nações Unidas (ONU) tem uma longa tradição de comemorar marcos políticos, como a abolição da escravatura, e de organizar intermináveis sessões sobre temas polêmicos, como os testes nucleares. A agenda da ONU cobre uma ampla gama de tópicos políticos, sociais e econômicos, com jornadas como Dia Mundial Contra o Câncer, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Dia Mundial dos Refugiados, Dia Mundial da Luta Contra a Aids, Dia Mundial da População e Dia Mundial da Água. No entanto, por alguma razão inexplicável, as Nações Unidas vinham deixando de lado um problema que atinge mais de 2,5 milhões de pessoas: a falta de saneamento adequado. Por isso, sua Assembleia Geral, de 193 membros, adotou em julho uma resolução apresentada por Cingapura para declarar 19 de novembro Dia Mundial do Vaso Sanitário. “O nome é contagioso e engraçado”, reconhece a declaração de Cingapura, “mas serve para chamar a atenção do público e se concentrar nos desafios do saneamento e dos vasos sanitários”. A resolução, copatrocinada por 121 países-membros da ONU, exorta no sentido de gerar maior atenção para a crise mundial de saneamento, com a comemoração deste dia. O representante permanente-adjunto de Cingapura na ONU, Mark Neo, disse à IPS que o saneamento não estava entre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e que sua inclusão foi acordada mais tarde, na conferência Rio+10, realizada em Johannesburgo, na África do Sul, em 2002. “O mais importante é que o saneamento não se refere apenas a vasos sanitários e infraestrutura, mas a mudanças sociais e aos comportamentos, que não se pode conseguir de um dia para outro”, destacou. Apesar desses obstáculos, houve um importante avanço. Desde 1990, 1,8 bilhão de pessoas no planeta obtiveram melhor saneamento, e o número de pessoas que defecam ao ar livre diminuiu em 272 milhões, ressaltou Neo. “Contudo, a triste realidade é que um bilhão de pessoas ainda defecam ao ar livre, e 2,5 bilhões não têm instalações sanitárias adequadas”, afirmou. De todo modo, o último Chamado à Ação Sobre Saneamento, do vice-secretário-geral da ONU, Jan Eliasson, e a resolução do Dia Mundial do Vaso Sanitário são ferramentas úteis e oportunas para “destacar a necessidade de avançar”, acrescentou. Chris Williams, diretor-executivo do Conselho Coletivo de Fornecimento de Água e Saneamento (WSSCC), com sede em Genebra, disse à IPS que esse assunto é fundamental para o desenvolvimento econômico, social e de saúde em todo o mundo. “Em um ambiente sem saneamento nem água potável, alcançar outras metas de desenvolvimento é um sonho impossível. Agora é hora de agir”, pontuou. Nessa campanha, o governo de Cingapura se associou à Organização Mundial do Vaso Sanitário (WTO), fundada em 2001, com sede nesse país asiático. A WTO é uma plataforma de 534 grupos e entidades da sociedade civil e governamentais que trabalham em temas de saneamento. O fundador da entidade, Jack Sim (conhecido afetuosamente como “senhor sanitário”) estará presente hoje na sede da ONU para as comemorações. “Quando éramos crianças, nossos pais nos diziam para não falarmos” em defecar, contou Sim à IPS. “Isso é um sério problema. Não se pode melhorar aquilo de que não se fala”, explicou. Fleur Anderson, chefe de campanhas da organização WaterAid, de Londres, disse à IPS que a comemoração de hoje não é mais uma, pois representa um forte sinal de que os governos reconhecem a importância do acesso ao saneamento para salvar vidas de meninos e meninas. “Trabalharemos com outros para aproveitar o Dia Mundial do Vaso Sanitário e chamar a atenção dos governos para a grandiosidade do problema”, detalhou. A WaterAid também prevê lançar um informe com a WSSCC e a empresa de sabonetes Unilever para destacar o enorme impacto do saneamento na vida das mulheres, e pedir a colaboração entre governos, sociedade civil e setor privado para alcançar a meta de reduzir pela metade o número de pessoas sem saneamento adequado, incluída nos ODM. Para Emma Pfister, gerente de meios sociais e associação na organização Water for People, não basta investir dinheiro para instalar mais vasos sanitários. “Vimos que esse enfoque não funciona e, portanto, é perda de dinheiro e cria mais desafios para os pobres do planeta”, explicou à IPS. “Nosso objetivo na Water for People é garantir que cada família, escola e clínica tenha acesso a um banheiro adequado, isto é, que possa continuar funcionando”, detalhou. Comemorar o Dia Mundial do Vaso Sanitário é um grande passo à frente, pois faz do saneamento uma prioridade na agenda mundial, ressaltou Pfister. “E também ajuda a conscientizar e mobilizar fundos. Devemos exigir soluções mais efetivas com um impacto mais duradouro”, apontou. “Devemos mudar a forma como se investe a ajuda e fazer com que as agências da ONU, as organizações não governamentais e os governos prestem contas do que fazem ao intervirem na vida das pessoas”, acrescentou. Neo enfatizou à IPS que não há tempo suficiente para alcançar a meta dos ODM sobre saneamento até 2015. No ritmo atual, estima que em 2015 ainda haverá 936 milhões de pessoas que deverão fazer suas necessidades ao ar livre. “Portanto, é importante que o saneamento ocupe um lugar destacado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, que sucederão os ODM na agenda pós-2015, afirmou. Segundo Neo, o saneamento deficiente custa aos países entre 0,5% e 0,7% de seu produto interno bruto, enquanto os ganhos mundiais com investimentos nesse setor seriam de US$ 260 bilhões ao ano. A chefe executiva da WaterAid, Barbara Frost, recordou que com a mudança de milênio os governantes mundiais se comprometeram a reduzir pela metade a proporção de pessoas sem acesso a saneamento até 2015. Mas, no ritmo atual, cerca de 500 milhões de pessoas terão que esperar outra década para ver cumprida a promessa desse serviço básico. “Podemos e devemos fazer melhor, porque estamos falando de serviços básicos que podem transformar vidas”, ressaltou à IPS. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Chilecapa Inter Press Service - Reportagens

O basta e a esperança vão para segundo turno no Chile

[caption id="attachment_103115" align="aligncenter" width="441"] Hugo e Daniel Hurtado vão contra a corrente no Chile: um assalariado não pode se dar o luxo de enviar o filho à universidade. Foto: Marianela Jarroud/IPS[/caption]   Santiago, Chile, 19/11/2013 – O chileno Hugo Hurtado, de 47 anos, é chefe de cozinha. Qualquer um diria que em seu país, o tigre da América Latina, essa profissão é um seguro de sucesso e até de fama. Mas não para todos. Hurtado trabalha como garçom. “Estudei uma profissão muito elitista porque, sem contatos nem restaurante próprio, só poderia por ser cozinheiro, o que significava ganhar US$ 500 ao mês e trabalhar de oito a dez horas por dia, seis dias na semana”, contou à IPS. “Como garçom o horário é o mesmo, mas entre salário e gorjeta ganho US$ 700 mensais”, explicou Hurtado. Ele e sua família são um exemplo desse segmento de chilenos que aguardam, entre fartos e esperançosos, o resultado das eleições presidenciais – que terá seu segundo turno no dia 15 de dezembro –, para ver se também eles ganham o direito de sentir os benefícios de serem cidadãos do “tigre” latino-americano. Há o perigo de os fartos estarem aumentando. Nas eleições gerais do dia 17, metade dos habilitados a votar se abstiveram. A ex-presidente socialista Michelle Bachelet (2006-2010) obteve 47% dos votos e a candidata da direita governante, Evelyn Matthei, 25%. Ambas disputarão em dezembro a Presidência. Metade dos trabalhadoras recebe menos de US$ 500 neste país de 17 milhões de habitantes e com crescimento econômico superior a 6% anuais nos últimos 20 anos. Hurtado, separado e pai de três filhos, vive com dois deles na casa em que vive com sua nova companheira em Puente Alto, bairro popular ao sul de Santiago. Daniel, o mais velho e aluno de excelente rendimento acadêmico, pretende estudar medicina. Contudo, seus conhecimentos não bastaram para superar a Prova de Seleção Universitária (PSU) e os recursos da família não são suficientes para pagar um curso particular pré-universitário, indispensável nesse país onde a formação acadêmica gratuita não existe. Com 18 anos, Daniel ganhou uma bolsa por bom rendimento e situação econômica vulnerável, que lhe permite cursar o primeiro ano de um curso pré-universitário em ciências na Universidade do Chile. Em dois anos, este caminho o habilitará a se candidatar à carreira de medicina sem necessidade de prestar novo PSU. “Se não fosse a bolsa, não poderia estudar na Universidade”, observou seu pai. E as coisas podem mudar se cursar a carreira de seus sonhos. “Medicina custa entre US$ 900 e US$ 1.400 mensais, mais material, alimentação, locomoção e outros gastos. Então, estamos pensando que o melhor é que vá para a Argentina (onde o ensino é gratuito) e estude lá”, explicou Hurtado. Pai e filho se destacam do comum. “Estamos nadando contra a corrente. O normal seria Daniel trabalhar em um cal center, como empacotador em algum supermercado, na construção ou também de garçom”, pontuou. “Não há bolso de uma família normal que aguente isso”, completou Daniel. Bachelet e Matthei são hoje as faces da centro-esquerda e da direita que, desde o fim da ditadura, em 1990, mantêm um statu quo social fragmentado e crescentemente desigual. A renda de 5% das famílias mais ricas do país é 270 vezes maior do que a dos 5% mais pobres, segundo dados entregues à IPS pela Fundação Sol, especializada em temas trabalhistas e sociais. “Existe a memória de um Estado que foi mais inclusivo, que fez parte de um processo de participação social, que aceitou a presença popular em sua gestão e que foi arrebatado pelos militares” no golpe de Estado de 1973, disse à IPS o antropólogo Juan Carlos Skewes, da Universidade Alberto Hurtado. Para o jovem Daniel Hurtado, “o Estado deveria cumprir o papel de garantir a educação para a sociedade em seu conjunto, e não dar migalhas”. Considera que esse desenvolvimento econômico “se reflete em uns poucos que têm os meios e são os donos. Esse é outro mundo, eles governam, eles progridem. Para a maioria do país resta nadar contra a corrente, recolher as bolsas que nos atiram para podermos estudar”, ressaltou. O ensino gratuito é uma demanda central dos últimos anos, em particular desde as manifestações estudantis de 2011. Nas eleições do dia 17, quatro ex-dirigentes desse movimento estudantil conseguiram cadeiras no parlamento, alguns com ampla maioria, como a comunista Camila Vallejo. Eles terão que negociar com o próximo governo, que seguramente será liderado por Bachelet, os meios para alcançar uma educação gratuita. Bachelet, que em seu primeiro mandato impulsionou uma reforma educacional insuficiente, prometeu alcançar o ensino universitário gratuito em seis anos, algo que ilude Edilia Rojas. “Se ela diz, acredito. Tomara que cumpra. Gostaria que meu neto estudasse, tivesse oportunidades”, acrescentou com humildade. Aos 69 anos, essa aposentada, mãe de um filho e avó, trabalha todos os dias como empregada doméstica para pagar seus gastos básicos. “Trabalho desde os 16 anos. Pensava que ia parar ao me aposentar, mas, como recebo pouco de aposentadoria (US$ 300), tive que continuar”, afirmou. De segunda a sexta-feiras, Rojas faz limpeza em uma casa de família por um salário que não chega a US$ 500. “Isso significa que sou escrava do trabalho”, ressaltou. Graças ao seu esforço, seu filho foi à universidade e não precisou se endividar para isso. “Todo o salário que recebia era para pagar seu estudo. Comíamos porque alugava uns cômodos da minha casa e, além disso, eu almoço no trabalho. Minha vida foi um pouco dura, mas tenho saúde”, afirmou. Se a vida tivesse sido diferente, Rojas ficaria contente em viver no campo, junto dos dois irmãos que nem mesmo têm casa própria ou alugada. Por isso, diante da pergunta sobre as maiores urgências do Chile, não vacila em responder: acesso à moradia e uma aposentadoria digna. Envolverde/IPS


por Marianela Jarroud, da IPS
Acredita-se que geleiras altas como esta, nas montanhas Tian Shan do Cazaquistão, estejam a salvo do aquecimento global. Mas o debate sobre a redução de emissões contaminantes parece esquecido na COP 19, diante das propostas de recorrer ao setor privado para obter empréstimos para a adaptação à mudança climática. Foto: Christopher Pala/IPS Inter Press Service - Reportagens

Preocupa o papel das corporações na COP 19

[caption id="attachment_102991" align="aligncenter" width="529"] Acredita-se que geleiras altas como esta, nas montanhas Tian Shan do Cazaquistão, estejam a salvo do aquecimento global. Mas o debate sobre a redução de emissões contaminantes parece esquecido na COP 19, diante das propostas de recorrer ao setor privado para obter empréstimos para a adaptação à mudança climática. Foto: Christopher Pala/IPS[/caption]   Varsóvia, Polônia, 18/11/2013 – Negociadores do Sul em desenvolvimento na conferência internacional sobre mudança climática, que acontece na capital polonesa, veem com bons olhos a ênfase em financiar os esforços de adaptação, mas rechaçam o novo papel que está sendo dado ao setor privado. Na 19ª Conferência das Partes (COP 19) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece até o dia 22 em Varsóvia, parece estar perdendo força o discurso a favor de acordos “justos, ambiciosos e vinculantes” para reduzir as emissões de gases-estufa que causam o aquecimento global. Por outro lado, proliferam as propostas de recorrer ao setor privado em busca de empréstimo e investimento para apoiar a adaptação à mudança climática no que se chama de “COP Corporativa”. Tosi Mpamu-Mpamu, negociador da República Democrática do Congo e ex-presidente do grupo de negociadores africanos, vê uma mudança alarmante na maneira de financiar a resposta ao aquecimento global. Na Conferência de 2009, em Copenhague, os Estados industrializados se comprometeram a entregar US$ 30 bilhões de nova ajuda para as finanças climáticas para o mundo em desenvolvimento entre 2010 e 2012, e mais US$ 100 bilhões até 2020. “Agora, os países ricos estão cedendo ao setor privado sua responsabilidade de conceder financiamento, tendência perigosa para essas negociações”, advertiu Mpamu-Mpamu. Outros delegados compartilham as preocupações de Mpamu-Mpamu sobre o papel transnacional que estão assumindo as corporações na Conferência. “Em uma reunião de três dias anteriores a esta COP, as empresas passaram dois dias explicando como poderiam ganhar dinheiro a partir da mudança climática”, contou René Orellana, presidente da delegação da Bolívia. Pascoe Sabido, do Observatório Corporativo Europeu, observou que as empresas que ganham destaque na COP também são as maiores emissoras de carbono. Criticou a Organização das Nações Unidas (ONU) por aceitar que a Conferência seja patrocinada por importantes contaminadores, como o gigante siderúrgico ArcelorMittal e o Grupo Polonês de Energia, argumentando que essas empresas estão influenciando as negociações. “Você não pediria à Marlboro para patrocinar uma cúpula sobre câncer de pulmão, então, por que isso é aceitável para a Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática?”, questionou Sabido. Rachel Tansey, pesquisadora da organização não governamental Environment and Economic Justice, com sede na Malásia, afirmou que as grandes empresas querem que os fundos públicos contra a mudança climática sejam destinados a projetos dos quais elas possam tirar proveito econômico. E os governos dos países industrializados estão ouvindo essas firmas. O gigante do transporte e da energia “Alston exerce pressão para que seja usado o chamado carvão ‘limpo’, controvertida tecnologia que lhe permite continuar lucrando com a queima de combustíveis fósseis, como a captura e o armazenamento de carbono, e também pressiona a favor de mais energia nuclear”, apontou Tansey. Entranto, o presidente da COP 19, Marcin Kolorec, afirmou que não há nada de errado em convidar o setor privado para participar de reuniões paralelas na Conferência. E acrescentou que às indústrias foi dada a possibilidade de participarem do encontro do mesmo modo que as organizações não governamentais, e que esses diálogos são uma característica das conversações desde que começaram as COP. Kolorec disse aos jornalistas que “temos que ser transparentes e inclusivos”, acrescentando que as conversações eram a prévia para conseguir um possível acordo mundial em 2015, em Paris. E ressaltou não há possibilidades de a indústria influir sobre as decisões da COP porque não é parte das negociações formais. Emmanuel Dlamini, da Suazilândia e presidente do grupo de negociadores africanos, disse que, apesar de alguns riscos, somar o empresariado não é uma ideia tão má. “Para que os Estados industrializados entrem com dinheiro, precisam mobilizar o setor empresarial”, explicou à IPS. Dlamini concorda com o presidente da COP 19 destacando que o empresariado não participa das negociações reais. “Mas existe o perigo de o setor privado influenciar nas decisões mediante propostas que vendam aos seus governos e que possam ser apresentadas nas negociações da Conferência”, ressaltou. Para Dlamini, o principal desafio é definir claramente as finanças climáticas. Desde a conferência de Copenhague, muita ajuda aos países em desenvolvimento é classificada como assistência climática. “Há dinheiro fluindo, mas até que ponto se trata de finanças climáticas?”, perguntou. Meena Raman, da Rede do Terceiro Mundo, disse que completar a criação do Fundo Verde será útil porque beneficiará diretamente os países pobres. Atualmente, tem sua sede na Coreia do Sul e conta com financiamento operacional de apenas US$ 7 milhões, mas no momento não tem um centavo para projetos. “É para esse fundo que os países em desenvolvimento dizem que deveriam ir os US$ 100 bilhões, assunto ainda em discussão”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Mantoe Phakathi, da IPS

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