Milhões carecem de vaso sanitário, outros os têm computadorizados

Ambiente

Milhões carecem de vaso sanitário, outros os têm computadorizados


por Thalif Deen, da IPS


[caption id="attachment_96907" align="aligncenter" width="529"] Canal de água em Ankorondrano-Andranomahery, um dos bairros mais pobres da capital de Madagascar. Foto: Lova Rabary-Rakontondravony/IPS[/caption]   Nações Unidas, 26/8/2913 – Enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) lamenta pelo fato de mais de 2,5 milhões de pessoas no Sul em desenvolvimento ainda carecerem de saneamento adequado, no Japão e na Coreia do Sul são oferecidos vasos sanitários automatizados e com música incorporada. Estes inovadores artefatos também atraem a atenção de especialistas em computação. Em uma conferência de piratas da informática, realizada no mês passado na cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos, concluiu-se que praticamente todos os dispositivos computadorizados, incluindo esse tipo de vaso sanitário, podem ser vítimas dos hackers. Um hacker norte-americano e 27 anos garantiu ao jornal The Wall Street que foi capaz de piratear um vaso automatizado e também fazer tocar sua música, tudo com um comando a milhares de quilômetros de distância. “Já não há nada sagrado no mundo”, comentou em tom de brincadeira um diplomata do Sul em desenvolvimento. “Nem mesmo a privacidade dos vasos sanitários”, acrescentou. A Lixil Corporation explica que seus vasos sanitários automatizados ao controlados por sensores. Assim, o vaso sanitário abre sua tampa, faz tocar música, descarrega a água e fecha a tampa automaticamente, reagindo aos movimentos do usuário. “O controle remoto faz soar sua música favorita, e no escuro o vaso é iluminado por uma luz tênue”, diz a publicidade deste vaso sanitário de luxo. Consultada pela IPS, Clarissa Brocklehurst, especialista em água e saneamento, ironizou: “Digo apenas que é maravilho os gênios dos computadores se voltarem ao tema. Digo que defecam como o restante de nós”. Brocklehurst, ex-chefe de água, saneamento e higiene do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), disse que  o ideal seria os especialistas em informática dedicarem essa energia e imaginação para melhorar a vida dos mais pobres. “As necessidades do setor de saneamento são enormes, e se necessita de inovações em tecnologias da informação”, acrescentou. Enquanto os vasos sanitários automatizados se tornam uma realidade, o vice-secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Jan Eliasson, expressou em julho sua satisfação porque os Estados membros designaram 19 de novembro como Dia Mundial do Vaso Sanitário, destacando que a celebração ajudará a conscientizar sobre a necessidade de todos os seres humanos terem acesso a saneamento adequado. Eliasson afirmou que, apesar de haver progressos quanto aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, uma em cada três pessoas ainda não tem acesso a um vaso sanitário básico. Quase dois mil meninos e meninas morrem diariamente por doenças diarreicas que podem ser prevenidas. O mau saneamento e os fornecimentos de água inadequados são a causa de perdas econômicas acima de US$ 260 bilhões ao ano no Sul em desenvolvimento. Eliasson insistiu que o saneamento adequado é uma questão de dignidade humana. “É inaceitável que mulheres corram o risco de sofrer violações ou abusos” quando tentam ter acesso a algum lugar com latrina. O vice-secretário geral também considera inadmissível que muitas meninas nos países pobres abandonem a escola porque as instalações carecem de saneamento básico. “Estou ansioso por trabalhar com todas as partes para tornar realidade o saneamento para todos”, afirmou. Por sua vez, Margareth Batty, diretora de políticas e campanhas da organização WaterAid, alertou que os países mais pobres continuam sofrendo o peso das doenças e mortes causadas pelo mau saneamento. Batty ressaltou que 700 mil crianças menores de cinco anos morrem anualmente devido à falta de água e higiene adequada. Ela exortou os líderes da comunidade internacional a trabalharem por uma mudança e fazer com que todas as pessoas tenham acesso a serviços essenciais até 2030. Envolverde/IPS

O ecossistema do Parque Yasuní e seus povos indígenas estão em perigo, denunciam ambientalistas. Foto: Iniciativa Yasuní-ITT Inter Press Service - Reportagens

Parque Yasuní enfrenta governo e sociedade no Equador

[caption id="attachment_96896" align="aligncenter" width="529"] O ecossistema do Parque Yasuní e seus povos indígenas estão em perigo, denunciam ambientalistas. Foto: Iniciativa Yasuní-ITT[/caption]   Quito, Equador, 26/8/2013 – A decisão do governo do Equador de dar os primeiros passos para explorar parte do petróleo de uma das zonas mais biodiversas do planeta, o Parque Nacional Yasuní, fez soar o alarme geral entre ambientalistas e indígenas, que querem um referendo a respeito. O presidente do país, Rafael Correa, ordenou, no dia 15 de agosto, o arquivamento da Iniciativa Yasuní ITT, destinada a deixar no subsolo a riqueza hidrocarbonífera do parque amazônico em troca de uma compensação econômica internacional, devido à falta de contribuição ao fundo aberto para esse fim. A decisão dá luz verde à estatal Petroamazonas para iniciar operações exploratórias no Parque, segundo o decreto que põe fim à Iniciativa. Os que estão contra a exploração alertam para o impacto que sofreriam a fauna, a flora e os povos em isolamento voluntário (tagaeri e taromenane) se for concretizada a incursão petroleira na maior área protegida do Equador, com 982 mil hectares. Por isso, no dia 22, a Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie), a Confederação Kichwa do Equador (Ecuarunari), a Confederação de Estudantes Universitários e a Ação Ecológica, entre outras organizações, apresentaram ao Tribunal Constitucional sua proposta de referendo, que para ser aceita exige o apoio de 584.116 assinaturas, 5% do padrão eleitoral. A pergunta a ser feita seria: “Você concorda que o governo equatoriano mantenha o petróleo da ITT, conhecido como bloco 43, indefinidamente no subsolo?”. Correa exortou a população a recolher as assinaturas e disse ter a segurança de que sua proposta de extrair petróleo do Yasuní, para incrementar a obra pública com esse dinheiro, seria vencedora. O governo assegura que haverá intervenção somente em uma extensão inferior a um por mil do Parque, situado no norte do país, e que não incidirá na vida dos povos isolados, já que os campos a serem explorados – Ishpingo, Tambococha e Tiputini (ITT) – estão longe da chamada zona intangível, onde habitam essas nacionalidades. José Lema, presidente do Colégio de Engenheiros Geólogos do Equador, disse à IPS que é possível a extração ocorrer como pretende o governo. Como antecedente, citou os trabalhos da Petroamazonas no campo Pañacocha, situado em outra reserva natural, que recebeu reconhecimentos internacionais por suas boas práticas ambientais. “A Petroamazonas desenvolve trabalhos semelhantes nessa área, onde existe um impacto temporário, somente enquanto se constrói o oleoduto”, afirmou Lema. O especialista considera que primeiro se deve realizar uma nova avaliação da área para redesenhar o plano de exploração. “Pode mudar, porque a metodologia usada em um princípio (1993) foi uma sísmica 2D, que determinou um nível de reservas de 920 milhões de barris de petróleo”, afirmou. “Mas, quando se tiver uma informação mais detalhada, com uma valorização volumétrica, se conhecerá um volume mais real e, seguramente, será maior do que o identificado”, ressaltou. Para Lema, o principal será a adequação das plataformas que já existem no Parque e a maneira de introduzir os equipamentos para a instalação. Depois virá a perfuração dos poços e a construção das tubulações. “Deve-se considerar que todo projeto tem uma alteração, o objetivo é reduzi-la ao máximo com o uso da melhor tecnologia”, enfatizou. Wilson Pástor, ex-ministro de Recursos Não Renováveis do governo esquerdista moderado de Correa, no poder desde 2007, acredita que o alarme é infundado, porque já existe exploração de petróleo no Yasuní. “O bloco 31 foi explorado pela Petrobras, hoje é da Petroamazonas e fica dentro do Parque”, explicou. Além disso, em Pañacocha são produzidos 18 mil barris diários, mas o óleo não é processado nem tocado dentro da área, recordou. “O mesmo se fará com o ITT, primeiro porque já há sete plataformas realizadas” e serão perfurados poços em conjunto. “Antes se fazia um poço por plataforma, agora se faz 25 poços em cada lugar, de maneira que não se ocupa mais espaço”, afirmou Pástor. O mais contaminante são as instalações de tratamento e separação da água, do gás e do petróleo, o que implicaria “praticamente fazer uma refinaria e essa refinaria não será feita no ITT”, por isso “o impacto total da intervenção será de 190 hectares”, afirmou. Tampouco será gerada eletricidade no campo e o oleoduto passará “totalmente” à margem do Parque, em um caminho de três metros de largura com material biodegradável para enterrar a tubulação. Com se vê, os planos já existiam. O ex-ministro garante que a exploração terá um benefício adicional para o Parque. “Hoje o Yasuní não tem instituições fortes que controlem o acesso ao local, mas se a Petroamazonas entrar haverá recursos para protegê-lo”, enfatizou. O governo prevê que o campo Tiputini produzirá seus primeiros barris em dois anos, Tambococha 12 meses mais tarde, e Ishpingo outro ano depois. Porém, as organizações sociais não aceitam os argumentos de Correa e seu governo. María Paula Romo, ex-constituinte do partido Ruptura 25, afirmou à IPS que o governo deixou de lado o Artigo 57 da Constituição, que proíbe os processos extrativistas em zonas onde vivem povos isolados. Esse Artigo diz que “os territórios dos povos em isolamento voluntário são de posse ancestral irredutível e intangível, e neles estará vedado todo tipo de atividade extrativista. O Estado adotará medidas para garantir suas vidas, fazer respeitar sua autodeterminação e vontade de permanecer em isolamento e garantir a observância de seus direitos”. E acrescenta que “a violação destes direitos constituirá crime de etnocídio, que será tipificado em lei”. Por isso, pontuou Romo, “antes de falar das especificações dos poços, primeiro se deve perguntar como se justificará diante da Constituição entrar em um território proibido”. O ministro da Justiça, Lenín Lara, garantiu que não há povos isolados nos campos onde se pretende extrair petróleo, mas ambientalistas e antropólogos os desmentiram. “Os taromenanes estão sendo cercados por todas as partes e, embora os trabalhos se façam com a melhor tecnologia, vão gerar pressão nesses povos”, advertiu o jornalista e cineasta Carlos Andrés Vera. Correa decidiu arquivar sua Iniciativa ITT porque, dos US$ 3,6 bilhões previstos desde sua abertura em 2007, foram obtidos apenas US$ 13,3 milhões de empresas, pessoas físicas e países em um fundo administrado pela Organização das Nações Unidas (ONU). “Não surpreende” que países ricos não tenham cumprido sua parte nesta iniciativa, disse à IPS a analista de política internacional da Amigos da Terra, Karen Orenstein. “Basta olhar os cofres quase vazios do Fundo Verde para o Clima para ver que os Estados industrializados não cumprem o que prometem quando se trata de dinheiro para as nações em desenvolvimento enfrentarem a crise climática que eles criaram”, destacou. “Isto é especialmente certo para os Estados Unidos, historicamente o principal contaminador do clima, mas miserável quando se trata de finanças climáticas internacionais”, afirmou Orenstein. As potências industriais aceitaram dotar de US$ 100 bilhões o Fundo Verde para o Clima, criado em 2010 pelas Nações Unidas para ajudar os países pobres a mitigar e se adaptarem à mudança climática. O Fundo já estabeleceu uma secretaria na Coreia do Sul e entraria em operações no final de 2014, mas a arrecadação de recursos segue extremamente lenta e a maioria das contribuições foi gasta na implantação da iniciativa. Mesmo assim alguns mantêm a esperança de que ocorram aportes significativos até o final do ano, durante a conferência das partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Contudo, além dos questionáveis aspectos financeiros, “extrair petróleo do Yasuní será uma bofetada nos movimentos sociais e ecológicos do Equador e do mundo que promoveram a iniciativa”, ressaltou Orenstein. Envolverde/IPS * Com colaboração de Carey L. Biron (Washington).


por Ángela Meléndez, da IPS
Um dos túneis da mina chilena El Teniente, a maior jazida subterrânea do mundo. Foto: Marianela Jarroud/IPS Inter Press Service - Reportagens

A mineração chilena volta aos túneis

[caption id="attachment_96803" align="aligncenter" width="529"] Um dos túneis da mina chilena El Teniente, a maior jazida subterrânea do mundo. Foto: Marianela Jarroud/IPS[/caption]   Santiago, Chile, 23/8/2013 – A queda na concentração do mineral, a preservação do meio ambiente e os avanços da tecnologia levam as grandes mineradoras a voltarem seus olhos, novamente, para a mineração subterrânea, uma tendência em alta no Chile e no mundo, afirmam especialistas. Juan Carlos Guajardo, diretor-executivo do Centro de Estudos do Cobre e da Mineração (Cesco), garantiu à IPS que “não só o Chile está optando pela mineração subterrânea, pois a evolução da indústria tende para este tipo de exploração”. A tendência, explicou, “ocorre porque grandes minas que são exploradas a céu aberto apresentam melhores recursos em profundidade maior e a exploração no Chile tende para recursos mais profundos, já que os superficiais foram largamente explorados”. Este país conta com a maior mina subterrânea de cobre do mundo, em exploração desde 1905 e propriedade da estatal Corporação Nacional do Cobre do Chile (Codelco). A Divisão El Teniente, seu nome oficial, representou, no ano passado, 25% da produção própria da Codelco, que totalizou 1,75 milhão de toneladas de cobre fino. No setor El Teniente 8 da mina, o operacional atualmente, são extraídas 137 mil toneladas por dia. Porém, a mina, que fica sob a Cordilheira dos Andes, cerca de 150 quilômetros ao sul de Santiago e com três mil quilômetros de túneis subterrâneos, conta com reservas apenas até 2025, no ritmo de exploração atual. Para resolver este problema a Codelco avança no projeto Novo Nível Mina, que começará a operar em 2017 e permitirá explorar 2,02 bilhões de toneladas de reservas alojadas em profundidade maior, na cota 1.880 metros de altitude e cem metros abaixo da atual exploração. O projeto permitirá prolongar em mais 50 anos a vida da mina. Para isso deve incorporar tecnologia de ponta e investir US$ 3,278 bilhões, quantia semelhante à empregada em toda a história dessa emblemática mina. “A Codelco tem uma carteira de projetos estruturais cujo objetivo é manter sua liderança como primeiro produtor mundial de cobre e, assim, manter suas contribuições ao Estado do Chile”, disse à IPS uma fonte corporativa da empresa. Se não implantar esses projetos, acrescentou, “a produção de cobre e a geração de excedentes (aportes financeiros) ao Estado cairão dramaticamente, com enormes efeitos para o país e para a empresa”. O Chile depende economicamente do cobre, estatizado em 1971. Em 2012, a Codelco gerou para o Estado US$ 7,518 bilhões, o terceiro maior aporte de sua história, graças à produção de 5,45 milhões de toneladas. O metal representou, no mesmo ano, 12% do produto interno bruto chileno e 53,9% do valor de suas exportações. A principal vantagem da mineração subterrânea em relação à praticada a céu aberto “é que, em geral, só se extrai o minério, deixando no lugar o material estéril”, aquele sem valor econômico, disse à IPS o gerente de Tecnologia e Inovação de Mineração da Codelco, Jorge Baraqui. “Dessa forma evita-se a remoção de material sem valor econômico e também maiores impactos ambientais”, destacou. Além disso, os custos de operação em uma mina subterrânea não necessariamente são maiores do que nas minas na superfície. “Na mineração a céu aberto, na medida em que se avança em sua exploração, a escavação vai se aprofundando cada vez mais e com isso aumentando o custo de transporte. Além disso, aumenta a quantidade de material estéril que se deve remover para extrair a mesma quantidade de minério”, explicou Baraqui. “Há casos em que é preciso migrar para métodos de exploração subterrâneos cujo custo de operação pode ser mais competitivo”, acrescentou. Este é o caso da mina Chuquicamata, a 1.650 quilômetros de Santiago e a maior a céu aberto do mundo, que passará a ser subterrânea em 2019. Trata-se de outro dos projetos estruturais da Codelco e na empresa asseguram que somente a conversão de Chuquicamata fará com que esta mina diminua em 97% a emissão de pó em suspensão, apesar de que contará com 1.200 quilômetros de túneis. Estima-se que Chuquicamata se transformará em uma das minas com menores custos da indústria, principalmente pela economia de energia, estimada em 50%. Guajardo explicou que, na medida em que avança adequadamente a transição de céu aberto para operação subterrânea, “haverá alguma redução de custos a respeito dos altos gastos operacionais atuais”. A mineração subterrânea também contribuiria para reduzir gastos em segurança e tempo, isso porque que as viagens são mais curtas, se usa menos energia e mais tecnologia. Neste cenário a estrela é o sistema de exploração por afundamento de bloco (block caving), que conta com baixos custos associados e é considerado o método do futuro. “O sistema aproveita a força da gravidade, isto é, requer pouca energia para romper a rocha já que só se realiza uma quebra inicial na base e depois, na medida em que se extrai o minério, a força da gravidade faz seu trabalho, provocando o desmoronamento da rocha”, explicou Baraqui. “É um método de exploração bastante econômico e aplicável a grandes minas que têm certas características geotérmicas e morfológicas que permitam o desmoronamento por ação da gravidade”, acrescentou Baraqui. O especialista acrescentou que a principal vantagem deste método é seu custo operacional. “Trata-se do método subterrâneo mais econômico para as minas maciças”, afirmou. Apesar de suas vantagens, há riscos geotécnicos. O principal método é o estalo de rochas (rock burst), que ocorre em explorações maciças submetidas a grandes esforços e em rochas frágeis, explicou Baraqui. Outro é chamado air blast, fenômeno de pistão de ar a alta pressão, provocado pelo desprendimento de um bloco de grandes dimensões que em sua queda mobiliza uma massa de ar que é obrigada a se deslocar a alta velocidade e pressão pelos túneis da mina, deslocando tudo o que encontra pelo caminho. Assim, a passagem para a mineração subterrânea significará que, em um futuro próximo, mais de um milhão de toneladas diárias de minério terão como origem o subsolo profundo. Envolverde/IPS


por Marianela Jarroud, da IPS
Jan Eliasson em entrevista coletiva, ontem. Foto: UM Photo/Rick Bajornas Inter Press Service - Reportagens

Potências ocidentais exigem “urgente” investigação na Síria

[caption id="attachment_96798" align="aligncenter" width="529"] Jan Eliasson em entrevista coletiva, ontem. Foto: UM Photo/Rick Bajornas[/caption]   Nações Unidas, 23/8/2013 – Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, três membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e com poder de veto, pedem uma “urgente” investigação sobre o suposto uso de armas químicas contra civis na Síria. O representante permanente adjunto da Grã-Bretanha, Phillip Parham, disse ontem a jornalistas que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, recebeu uma carta assinada por mais de 35 Estados membros, na qual exigem uma “rápida investigação”. Entretanto, negou-se a identificar os países. A carta tampouco foi divulgada. De todo modo, a IPS conseguiu obter uma cópia do texto, embora sem a lista dos signatários. Apenas figuravam Estados Unidos, França e Grã-Bretanha. Os outros dois membros permanentes do Conselho de Segurança são China e Rússia. A carta diz: “Gostaríamos de chamar a atenção para as informações sobre uso de armas químicas, no dia 21 de agosto de 2013, na localidade síria de Rif Damasco. Devido à gravidade destes informes, julgamos essencial que sejam investigados rapidamente todos os fatos pertinentes”. A carta pede a Ban que ordene uma investigação “o mais rápido possível”, seguindo o Mecanismo para a Investigação do Suposto Uso de Armas Químicas e Biológicas, da própria Secretaria Geral. O mecanismo deriva do mandato aprovado pela Assembleia Geral da ONU em sua resolução A/RES/42/37C de 30 de novembro de 1987. A carta também pede ao secretário-geral que “informe os Estados membros o mais rápido possível” sobre os resultados dessa investigação. A oposição síria acusou, no dia 21, o regime de Bashar al Assad de lançar bombas com gás venenoso sobre subúrbios de Damasco, matando mais de mil pessoas. As forças do governo negam categoricamente o uso desse tipo de arma. A Rússia, que apoia Assad, afirma que a denúncia do ataque com armas químicas é, na realidade, uma “provocação planejada” pelos rebeldes. Um porta-voz da chancelaria russa afirmou: “Tudo isto parece uma tentativa de criar a todo custo um pretexto para exigir que o Conselho de Segurança apoie os opositores ao regime e prejudique as possibilidades de realizar a conferência de Genebra”. Esse encontro estava previsto para promover um diálogo de paz entre o regime sírio e os rebeldes, mas até agora não aconteceu. Antes da nova denúncia, já se encontrava na Síria uma equipe de especialistas da ONU, enviada para investigar ataques anteriores com armas químicas, mas seu mandato é limitado e o Conselho de Segurança, reunido em urgência no dia 21, não pediu que estendesse sua tarefa. “Sabemos que a missão da ONU agora está em Damasco”, diz a carta. “Exortamos que se faça todo o possível para garantir que essa missão tenha acesso urgente a todos os locais relevantes e fontes de informação”, ressalta. A carta inclui uma lista com possíveis fontes para a pesquisa. Por outro lado, ontem Ban Ki-moon disse estar impactado pelos informes sobre o suposto uso de armas químicas nos subúrbios de Damasco. O chefe da equipe da ONU enviada à Síria, o sueco Ake Sellstrom, afirmou que os especialistas investigam uma informação do próprio governo sírio sobre suposto uso de armas químicas em Khan al-Assal, bem como outras duas denúncias feitas por Estados membros das Nações Unidas. “O professor Sellstrom conversa com o governo sírio sobre todos os temas que têm a ver com o suposto uso de armas químicas, incluindo o último incidente denunciado”, afirma em uma declaração o grupo de especialistas da ONU. “O secretário-geral reitera que o uso de armas químicas por qualquer das partes e em qualquer circunstância violaria o direito humanitário internacional”, acrescenta. Os 15 membros do Conselho de Segurança também divulgaram ontem uma declaração própria pedindo uma investigação, mas sem adotar nenhuma resolução, que, se fosse proposta, possivelmente seria vetada por China e Rússia. O diretor da Human Rights Watch, Philippe Bolopion, afirmou que essa declaração do Conselho de Segurança não é suficiente e desampara as vítimas. “No lugar de buscar a verdade e exigir a cooperação com os investigadores da ONU, Rússia e China novamente optam por proteger um governo que está massacrando sua própria população”, afirmou Bolopion. “Passarão para a história como os dois principais facilitadores das sangrentas táticas de Assad para reprimir o povo sírio”, enfatizou. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Bradley Manning. Foto: Domínio público Inter Press Service - Reportagens

Campanha para Manning não cumprir pena de 35 anos

[caption id="attachment_96795" align="aligncenter" width="500"] Bradley Manning. Foto: Domínio público[/caption]   Washington, Estados Unidos, 23/8/2013 – O ex-soldado norte-americano Bradley Manning, cujas informações classificadas que vazou e consequente julgamento despertaram intensas polêmicas, foi sentenciado a 35 anos de reclusão em uma prisão militar. Mas sua defesa e seus seguidores dizem que batalharão para que receba indulto ou tenha a pena reduzida. “É trágico. É uma terrível resposta à tentativa de que o governo preste contas”, disse à IPS o ativista Nathan Fuller, da Rede de Apoio a Bradley Manning, que já iniciou a coleta de assinaturas para solicitar ao presidente Barack Obama que indulte o jovem de 25 anos. A coronel Denise Lind, única juíza do processo, leu a sentença contra Manning no dia 21, na sede judicial de Fort Meade, no Estado de Maryland, perto do lugar onde o ex-soldado esteve detido durante o processo. A magistrada encerrou no dia 20 três semanas de audiências e tomou um dia para chegar a uma decisão. No começo de 2010 Manning entregou valiosa informação classificada dos Estados Unidos à Wikileaks, que a tornou pública, causando uma onda de escândalos nesse país e em vários de seus aliados. O pacote incluiu um vídeo sobre o ataque lançado de um helicóptero Apache em Bagdá que matou vários civis, entre eles dois jornalistas da agência Reuters, 250 mil telegramas diplomáticos do Departamento de Estado, e 500 mil relatórios de combates no Iraque e no Afeganistão. Os que apoiam Manning argumentam que ele divulgou essa informação convencido de que fazia um bem à sociedade e protestam porque ficou preso por um longo período e mantido em confinamento solitário antes de ser julgado. Sua prisão aconteceu em maio de 2010 e desde então não passou um só dia em liberdade. A juíza Lind disse que esse período será descontado da pena que deve cumprir e a reduzirá em quase 1.300 dias. No dia 30 de julho, a juíza declarou Manning culpado de seis infrações à lei federal sobre espionagem, bem como de outras 14 acusações de roubo e fraude. A pena máxima que poderia receber era de 90 anos. O blogueiro do firedoglake.com, Kevin Gosztola, que cobriu o processo e apoia o condenado, disse à IPS que existe a possibilidade de Manning ficar livre antes de completar 40 anos. As normas indicam que pode solicitar a liberdade condicional após dez anos de detenção, da qual deve ser descontado o tempo que passou confinado antes do julgamento. “A pena mostra que a juíza levou em conta o pedido da defesa para permitir a Manning uma vida depois da prisão”, pontuou. De todo modo, o advogado defensor, David Coombs, questionou a severidade da sentença e disse que militares que defendera no passado receberam castigos menos duros por assassinar ou abusar de menores. Por sua vez, Fuller indicou que o próximo passo será o lobby junto ao major-general Jeffrey Buchanan, comandante militar do distrito que tem “plenas faculdades” para reduzir a pena, se assim desejar. Se essa tentativa fracassar, a defesa de Manning lançará mão do processo militar de apelações e da revisão anual de sentenças, a cargo de um órgão militar que decide sobre liberdade condicional e indultos. A rede coordenada por Fuller também tenta convencer o presidente Barack Obama a indultar Manning ou comutar sua pena. “Ainda nos restam várias batalhas. As pessoas estão furiosas”, observou. O mais notório dos documentos entregues por Manning é o vídeo Collateral Murder (Assassinato Colateral), no qual se ouve as risadas dos soldados que dispararam em um grupo de iraquianos e nos transeuntes que tentaram auxiliá-los. As opiniões ficaram divididas nos Estados Unidos, onde para alguns Manning é um herói e, para outros, um traidor. “Ele esperava mudar o mundo para o bem”, disse à IPS a artista Deborah Van Poolen, que assistiu as audiências e assegura se sentir “inspirada” por suas ações. Naturalmente, outros discordam. “Não é um informante, nem um herói. O que fez prejudicou a imagem dos Estados Unidos em um momento muito delicado”, disse à IPS o diretor do Centro de Política Externa da Fundação Heritage, Steven Bucci, um instituto de pensamento direitista. Manning pode ser considerado “o maior espião que este país já teve”, afirmou. As simpatias pelo ex-soldado são mais generalizadas fora dos Estados Unidos, especialmente entre os setores que criticam a política externa de Washington. Inclusive, já existe uma campanha para apresentá-lo como candidato ao prêmio Nobel da Paz. A equipe de advogados que o defendeu, porém, não tentou argumentar que seu cliente agiu como herói. O mostraram como uma pessoa iludida e “um jovem capaz de se redimir”. “Talvez seu maior crime tenha sido se comover diante da perda de vidas que observava e que não podia ignorar”, disse nas audiências o advogado Coombs, que continuará com sua defesa. Em seu depoimento, Manning disse estar arrependido. “Peço perdão por minhas ações que causaram danos a outros. Lamento ter ferido os Estados Unidos. Vendo as coisas por outra perspectiva, deveria ter trabalhado mais agressivamente dentro do sistema. Eu tinha opções e deveria tê-las empregado”, declarou à juíza. A promotoria argumentou que os vazamentos fortaleceram os inimigos dos Estados Unidos e puseram em perigo as vidas de soldados e diplomatas deste país no exterior. “Não deve haver outro soldado na história do exército que tenha mostrado tamanho desprezo por seu dever”, disse o promotor militar Joe Morrow. A promotoria havia acusado Manning de “ajudar o inimigo”, um crime punido com prisão perpétua e que poderia criar um precedente extremo quanto a castigos para vazamentos de informações. A juíza não o considerou culpado de ajudar o inimigo, mas há quem acredite que seu caso está destinado a servir de advertência a futuros informantes. “O tratamento que lhe foi dado esteve concebido como um sinal para aqueles que, dentro do governo dos Estados Unidos, se guiarem por sua consciência e tentarem denunciar qualquer crime”, disse o fundador do Wikileaks, Julian Assange. “O governo de Obama está demonstrando que não há lugar no sistema para pessoas com consciência e princípios”, destacou. Envolverde/IPS


por Jared Metzker, da IPS
As ruínas de uma igreja evangélica na localidade de Menia incendiada por partidários do presidente deposto Mohammad Morsi, no Egito. Foto: Hisham Allam/IPS Inter Press Service - Reportagens

Enquanto o Egito arde, queimam igrejas cristãs

[caption id="attachment_96791" align="aligncenter" width="529"] As ruínas de uma igreja evangélica na localidade de Menia incendiada por partidários do presidente deposto Mohammad Morsi, no Egito. Foto: Hisham Allam/IPS[/caption]   Cairo, Egito, 23/8/2013 – Numerosas igrejas sofreram atentados no Egito após a mortal repressão contra partidários do deposto presidente Mohammad Morsi. A União Juvenil Maspero, uma organização de cristãos coptos, estima que, desde os enfrentamentos do dia 14, 38 igrejas foram totalmente destruídas pelo fogo em nove localidades, e muitas outras foram saqueadas. Os atacantes foram partidários furiosos da Irmandade Muçulmana, afirmou à IPS Ishaq Ibrahim, pesquisador da Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais. “Tentam criar um cisma entre cristãos e muçulmanos para mostrar ao mundo que o Egito está à beira do colapso”, explicou Ibrahim. Os agressores também se voltaram contra residências e lojas de cristãos e tiraram muitas pessoas de suas casas, acrescentou. “Incendiaram e saquearam 58 casas e 85 lojas em todo o país desde a quarta-feira negra”, ressaltou. Cerca de 525 partidários da Irmandade Muçulmana morreram e mais de dois mil ficaram feridos após a brutal repressão por parte das forças de segurança na semana passada. “A Irmandade Muçulmana assume que os cristãos instigaram a derrubada de Morsi por serem contra a shariá” (lei islâmica), contou Ibrahim, ressaltando que morreram seis cristãos coptos e outros sete foram sequestrados enquanto as igrejas eram incendiadas. “A localidade de Menia, no Alto Egito, foi palco dos piores ataques contra os coptos, 12 igrejas ficaram totalmente destruídas”, afirmou. O porta-voz da Irmandade Muçulmana, Ahmad Ared, condenou a violência contra os cristãos e a destruição de igrejas e acusou o exército de forjar os incidentes para manchar a imagem da organização. A Igreja Copta, que representa a principal comunidade cristã do país, divulgou um comunicado no qual afirma que apoia a polícia e as forças armadas frente “aos violentos grupos armados” e ao “terrorismo”. “Nunca vimos tanta crueldade”, disse à IPS Anba Makarios, bispo da Igreja Ortodoxa de Menia. Os cristãos coptos sofrem há décadas e têm dificuldades na hora de obter autorização para construir seus templos. “Em menos de três dias foram queimadas e saqueadas mais de 55 igrejas”, ressaltou. “Gritavam Allahu Akbar (Deus é grande) enquanto queimavam nossas igrejas, orfanatos e hospitais. Agiam com se fosse uma guerra santa contra a cruz. Como as pessoas vão confiar em uma religião depois de ver tanto sangue derramado em nome de Deus?”, questionou Makarios. O bispo acrescentou que os agressores pareciam pertencer a movimentos islâmicos radicais. “Creem que a Igreja apoiou econômica e espiritualmente a derrubada de Morsi e vieram se vingar”, ressaltou. O bispo rechaçou o pedido de alguns cristãos para recorrer a uma força estrangeira para garantir sua segurança. “O Estado deve proteger as igrejas e as propriedades dos coptos. Rechaçamos esse tipo de interferência apesar de sofrermos há anos discriminação religiosa”, enfatizou Makarios. Numerosos atores locais concordam que os ataques contra os cristãos coptos fazem parte de um jogo político. A Irmandade Muçulmana tentou chamar a atenção do Ocidente de todas as formas possível, disse à IPS Fuad Badrawi, vice-presidente do Novo Partido Wafd, de tendência liberal. A organização “acredita que agredindo os coptos conseguirá a intervenção dos Estados Unidos e da União Europeia”, afirmou. Os “terroristas” planejaram os ataques no Alto Egito, para onde é difícil enviar forças de segurança, pontuou Badrawi. A estratégia enfraqueceu os esforços da polícia e do exército, afirmou. Por outro lado, prosseguiu, os grupos islâmicos conseguiram uma reação do papa Francisco e de líderes cristãos. Badrawi é neto do falecido líder histórico Fuad Serag al Din. O Novo Partido Wafd nacionalista e liberal está ligado ao Partido Wafd, que foi fundado em 1920. Era o mais popular do Egito até sua dissolução após a revolução de 1952, mas reapareceu em 1983. Os arqueólogos também condenaram os ataques contra os templos cristãos, pois alguns deles tinham centenas de anos. “Entre as igrejas incendiadas há algumas de particular valor histórico e patrimonial”, lamentou a arqueóloga egípcia Monica Hanna. Um antigo monastério da Virgem Maria, do século 4, ficou em ruínas, acrescentou. “Os saqueadores aproveitaram a falta de segurança e fizeram escavações ilegais em busca de antiguidades no monastério de Deir Mawas, em Menia, que foi queimado pelos partidários de Morsi”, destacou. Envolverde/IPS


por Hisham Allam, da IPS
agua Inter Press Service - Reportagens

África austral, modelo de cooperação hídrica

[caption id="attachment_96648" align="alignleft" width="225"] Anthony Turton afirma que a água será crucial para o crescimento da África austral. Foto: John Fraser/IPS[/caption] Johannesburgo, África do Sul, 22/8/2013 – Enquanto a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) discute qual é a melhor maneira de fazer a região avançar, um manejo eficiente da água é fundamental para alcançar esse objetivo, segundo o professor Anthony Turton, um dos principais especialistas em políticas hídricas da região. A SADC tem um ambicioso plano de desenvolvimento regional de US$ 500 bilhões, que aspira para desenvolver as rodovias, ferrovias e portos desta área africana. A geração de eletricidade e a criação de linhas de comunicação e sistemas meteorológicos também são considerados pontos importantes para o crescimento destes países. Em conversa com à IPS, Turton enfatizou a importância da cooperação regional em matéria hídrica. IPS: Quais antecedentes de cooperação existem que, por um lado, sejam expressão de êxito e, por outro, de ineficiência e corrupção? ATNHONY TUTON: Frequentemente, a África austral é citada no setor da água como o melhor exemplo de cooperação hídrica em manejo de recursos transfronteiriços no mundo. O Protocolo da Água da SADC é o documento principal para a integração regional do bloco, e tem o mesmo papel que os acordos originais sobre carvão, ferro e aço tiveram na criação da Comunidade Econômica Europeia e, depois, da União Europeia. Daí que a cooperação em matéria de água compartilhada na SADC seja alta. Quanto à corrupção, o melhor caso foi o de Masupha Sole, alto executivo do programa hídrico das Terras Altas do Lesoto, que foi condenado e preso por fraudes envolvendo importantes empresas construtoras nas décadas de 1980 e 1990, algumas delas sul-africanas. Esse caso se converteu em um dos primeiros no mundo a receber uma condenação, por isso suponho que, na realidade, é uma boa notícia. IPS: Em termos práticos, lhe vem à mente algum projeto futuro ou potencial sobre água na região? AT: Em grande escala há importantes projetos de transferência entre bacias, com o das Terras Altas do Lesoto, entre Lesoto e África do Sul, o Norte-Sul em Botsuana, o Oriental na Namíbia, e o Cunene-Cuvelai entre Angola e Namíbia. Outro projeto interessante é a primeira grande usina dessalinizadora em Trekopje, na Namíbia. Creio que esta será a primeira de muitas na região da SADC. IPS: Acredita que a mudança climática seja uma ameaça real para a região? Se for, como pode ser o seu impacto? AT: Em poucas palavras, sim. É provável que a concentração de gases-estufa eleve as temperaturas do ar até quatro, e talvez seis graus em algumas partes da África austral, assumindo que um aumento mundial de dois graus é o “aceitável”. Isto alterará de modo fundamental a conversão de chuvas em resíduos líquidos, mas também aumentará as perdas por evaporação das represas. Uma estratégia adequada de mitigação é o Armazenamento e Recuperação de Aquíferos (também conhecido como Recarga Administrada de Aquíferos), que agora é uma tecnologia predominante em lugares como os estados norte-americanos da Califórnia e do Texas e a Austrália, mas que ainda não tem um uso generalizado na região da SADC. Atualmente, trabalho com um fornecedor australiano de tecnologia para introduzir isto em Botsuana: armazena-se água sob o solo em lugar de represas, o que impede a perda por evaporação, melhorando muito o rendimento sustentável de um determinado sistema. IPS: Por que é necessário que os países da SADC cooperem em matéria hídrica? AT: Os quatro países mais diversos economicamente na África austral estão muito limitados hidricamente (África do Sul, Botsuana, Namíbia e Zimbábue), enquanto em alguns dos Estados vizinhos há água em abundância (Angola, República Democrática do Congo e Zâmbia). A água é para a SADC o que o carvão, o minério de ferro e a energia foram para a criação da Comunidade Econômica Europeia (que se converteu na União Europeia). A cooperação hídrica na África austral habilitará que a integração regional mitigue estes riscos, permitindo que a segurança hídrica, alimentar e energética estejam garantidas no âmbito regional mais do que no nacional. Envolverde/IPS


por John Fraser, da IPS
Embarcação que a corrente arrastou ao longo de Croton-on-Hudson, cerca de 50 quilômetros ao norte de Manhattan, após o furacão Sandy. Foto: Katherine Stapp/IPS Inter Press Service - Reportagens

Estados Unidos abre o guarda-chuva

[caption id="attachment_96645" align="aligncenter" width="529"] Embarcação que a corrente arrastou ao longo de Croton-on-Hudson, cerca de 50 quilômetros ao norte de Manhattan, após o furacão Sandy. Foto: Katherine Stapp/IPS[/caption]   Washington, Estados Unidos, 22/8/2013 – O governo dos Estados Unidos se dispõe a proteger suas comunidades vulneráveis a desastres relacionados com a mudança climática, um ano depois que o furacão Sandy devastou a costa leste do país. Uma força-tarefa da Presidência divulgou, no dia 19, um informe detalhando uma estratégia para reconstruir a região devastada em outubro de 2012 pelo Sandy e proteger a nação de futuros eventos extremos vinculados à mudança climática. A Estratégia de Reconstrução Após o Furacão Sandy inclui 69 recomendações políticas, algumas delas já colocadas em prática. Seus autores afirmam que estão desenhadas para “ajudar os proprietários de residências a permanecerem nelas e repará-las, a fortalecer as pequenas empresas e revitalizar as economias, além de garantir que comunidades inteiras estejam melhor capacitadas para suportar e se recuperar de futuras tempestades”. A disposição do governo de enfrentar diretamente os desafios relacionados com a mudança climática é vista com bons olhos por alguns especialistas ambientais. “É absolutamente crucial que os Estados Unidos tenham em consideração a mudança climática quando decidir como investir dinheiro em reparação e reconstrução de infraestrutura”, disse à IPS Janet Larsen, diretora de pesquisas no Earth Policy Institute, um grupo de especialistas com sede em Washington. Larsen acredita que os Estados Unidos aprenderam a duros golpes que suas comunidades são vulneráveis ao aquecimento global. “Há dez ou 15 anos, se alguém perguntasse onde era provável haver refugiados climáticos, comumente se pensava que seria somente nas pequenas nações insulares. Mas, depois do furacão Katrina”, que açoitou os Estados Unidos em 2005, 25 mil pessoas “tiveram que abandonar suas casas, e muitas ainda não regressaram”, destacou Larsen. Vinte e três agências federais participaram da redação da estratégia, lideradas pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos. As recomendações buscam “reduzir a burocracia”, mas os que promovem soluções mais localizadas afirmam que, na realidade, a aumentam, já que são muitas as agências envolvidas. “Falam em melhor coordenação, mas, na realidade, é que há muitos federais na cozinha”, disse à IPS Tad DeHaven, analista orçamentário no Cato Institute. O estudo apresenta pautas para usar os US$ 50 bilhões autorizados pelo Congresso e aprovados em janeiro pelo presidente Barack Obama para reconstruir a região nordeste. Segundo o Departamento de Habitação, a estratégia também busca “servir como modelo para comunidades de toda a nação que enfrentam maiores riscos de eventos meteorológicos extremos e continuar ajudando a reconstruir a região afetada pelo Sandy”. A agência enfatiza duas de suas recomendações que giram em torno do potencial de condições climáticas mais extremas no futuro. A primeira é iniciar “um processo para priorizar todos os projetos de infraestrutura em grande escala e mapear as conexões e interdependências entre elas, bem como pautas para garantir que todos esses projetos sejam construídos para suportar os impactos da mudança climática”. Outra é “consolidar a infraestrutura energética para minimizar os cortes de eletricidade e a escassez de combustível – e garantir a continuação do serviço de telefonia celular – em casos de futuras tempestades”. O informe também pede urgência na criação de uma “ferramenta de projeção de aumento do nível do mar” que esteja publicamente disponível, para manter informadas as comunidades vulneráveis sobre como podem mudar os níveis da água. Tais medidas “melhorarão nossa capacidade de suportar e nos recuperarmos efetivamente de futuros desastres relacionados com inundações em todo o país”, afirmam os autores. Em linha com uma tendência que se propaga por todo o planeta, o objetivo  declarado destas novas recomendações oficiais é conseguir comunidades “resilientes”, que tenham capacidade “para responder efetivamente a uma tempestade importante, se recuperar rapidamente dela e adaptar-se às condições mutantes, ao mesmo tempo em que adotam medidas para reduzir o risco de danos significativos em uma futura tempestade. Larsen sugeriu que parte desta ênfase possa estar mal colocada. Embora o conceito de resiliência seja mencionado cerca de 300 vezes no estudo, as causas da mudança climática, como as emissões derivadas da queima de combustíveis fósseis, praticamente não são abordadas, afirmou. Apesar de elogiar o informe por reconhecer o desafio da mudança climática, lamentou a falta de atenção que é dada a estas causas. Larsen afirmou que conceitos positivos como a reconstrução são populares do ponto de vista político e, portanto, mais fáceis de apresentar ao público, enquanto as “verdades cruas” que colocam o país na defensiva não têm um bom impacto na imagem “dominante” que os Estados Unidos têm de si mesmo. DeHaven concordou que a política está em jogo na estratégia que se centra no plano federal, e que o Estado e os políticos, sem considerarem os custos de longo prazo, frequentemente aceitam com muita rapidez os dólares federais. Mas os custos de longo prazo, acrescentou, são governos estaduais e locais dependendo de cheques federais e, portanto, com menos controle sobre seus próprios destinos. “Uma vez que o governo federal intervenha e acumule poder, mesmo depois de terminado o problema original, tende a não renunciar a esse poder”, pontuou DeHaven. E acrescentou que as políticas federais agravam a vulnerabilidade ao subsidiarem seguros com prêmios abaixo do valor de mercado, o que incentiva a construção em áreas de risco. Para Larsen, um melhor plano nacional incluiria um calendário mais rápido para reduzir as emissões e aceitar o fato de que “pode haver algumas áreas nas quais não se deve construir em absoluto”. Enfatizou que “a ideia principal deveria ser que quando olhamos os custos dos desastres e entendemos que a mudança climática contribui para sua ocorrência, começa a ficar claro que esses custos superam os de reduzir o uso de combustíveis fósseis”. Envolverde/IPS


por Jared Metzker, da IPS
Imagens do suposto ataque com armas químicas circularam ontem na Síria. Foto: Al Jazeera Inter Press Service - Reportagens

Ativistas sírios denunciam “massacre” com gás venenoso

[caption id="attachment_96642" align="aligncenter" width="529"] Imagens do suposto ataque com armas químicas circularam ontem na Síria. Foto: Al Jazeera[/caption]   Doha, Catar, 22/8/2013 – Ativistas sírios acusam o regime de Bashar al Assad de ter lançado um ataque com armas químicas contra subúrbios de Damasco, matando centenas de pessoas. As forças do governo teriam disparado, ontem, “foguetes com ogivas de gás venenoso”. O Observatório Sírio pelos Direitos Humanos, com sede na Grã-Bretanha, assegurou que o bombardeio foi intenso nos subúrbios de Zamalka, Arbeen e Ein Tarma, no leste da capital. A organização disse que pelo menos cem pessoas morreram, enquanto os Comitês de Coordenação Local da Síria informaram que centenas de pessoas morreram ou ficaram feridas no suposto ataque. A ofensiva coincidiu com a visita de uma equipe de 20 especialistas em armas químicas da Organização das Nações Unidas (ONU) para investigar três lugares onde teriam ocorridos ataques desse tipo no último ano. Ontem, o regime de Assad rechaçou as denúncias, qualificando-as de “infundadas”, e afirmou que, na realidade, essas notícias pretendiam entorpecer o trabalho dos inspetores da ONU. A Coalizão Nacional Síria, maior grupo opositor, acusou o regime de matar, ontem, mais de 650 pessoas. “Mais de 650 mortos confirmados é o resultado do ataque com armas químicas na Síria”, afirmou a Coalizão em sua conta no Twitter. Estas denúncias não puderam ser confirmadas de forma independente. Nisreen El-Shamayleh, a correspondente da rede de televisão árabe Al Jazeera na vizinha Jordânia, informou que ontem circulavam vídeos nos quais se via adultos e crianças em hospitais de campo, muitos deles demonstrando sinais de asfixia e tossindo intensamente. “Recebemos informações de que médicos nos hospitais de campo não têm a medicação adequada para tratar esses casos e estão atendendo os pacientes com vinagre e água”, disse a jornalista. O chefe da equipe de inspetores da ONU, o sueco Ake Sellstrom, afirmou que as denúncias devem ser investigadas. O cientista disse à agência de notícias TT que, apesar de só ter visto imagens de televisão, com as quais não podia determinar nada, o alto número de mortes denunciado é “suspeito”. O líder da Coalizão Nacional Síria, Ahmed al-Jarba, disse ao canal de notícias Al Arabiya que se tratou de um “massacre” e pediu à equipe da ONU que visite o lugar onde o bombardeio teria sido lançado. Por sua vez, a Liga Árabe pediu à equipe de especialistas das Nações Unidas que inspecione o local do ataque o quanto antes. Também a Arábia Saudita pediu à ONU e à União Europeia para investigarem o “massacre”. A Grã-Bretanha anunciou que levaria o tema ao Conselho de Segurança da ONU, que se reuniria ontem em sessão de emergência, e pediu a Damasco que desse pleno acesso aos inspetores das Nações Unidas. “Estou muito preocupado com as informações de que centenas de pessoas, incluindo crianças, foram assassinadas em ataques aéreos e em um ataque com armas químicas sobre áreas dos rebeldes perto de Damasco”, afirmou em uma declaração o ministro britânico de Assuntos Exteriores, William Hague. Um porta-voz do governo da França afirmou que seu país também pediria à equipe de especialistas da ONU para visitar o lugar onde o ataque teria acontecido. Envolverde/IPS * Publicado sob acordo com a Al Jazeera.


por Correspondentes da AJ
termometro Inter Press Service - Reportagens

Maiores temperaturas, mais dengue

[caption id="attachment_96636" align="aligncenter" width="529"] Participantes do Curso Internacional de Controle da Dengue em Havana. Foto: Jorge Luis Baños/IPS[/caption]   Havana, Cuba, 22/8/2013 – A expansão do vírus da dengue no continente americano mantém em estado de emergência instituições, governos e cientistas, que buscam soluções sustentáveis para um problema de saúde associado a condições socioeconômicas e que pode se agravar com a mudança climática. Estatísticas da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) indicam que nos sete primeiros meses deste ano a região registrou quase 1,4 milhão de casos, o que coloca 2013 como um ano epidêmico. “O ano de 2012 terminou com 1,7 milhão e não sabemos se 2013 fechará com uma quantia maior”, disse o guatemalteco Luis Castellanos, durante o XIII Curso Internacional de Controle da Dengue, que começou no dia 12 e terminará amanhã na capital cubana. Castellanos, responsável por controle e prevenção de enfermidades transmissíveis da OPAS, alertou que os casos dessa doença infecciosa tropical aumentam onde a infraestrutura sanitária é mais pobre e frágil e os níveis educacionais são menores. O entomologista cubano Juan Bisset considera que a mudança climática tem sua cota de responsabilidade no aumento da dengue, segundo seus estudos sobre o mosquito Aedes aegypti, principal transmissor da doença. Em sua opinião, a elevação das temperaturas como consequência das transformações climáticas abrevia os ciclos de reprodução do mosquito, e o risco de propagação do vírus se multiplica. Outros especialistas alertam que este vetor está surgindo em áreas inesperadas da Europa, como ocorreu em 2009 no sul da França e mais recentemente em Portugal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda, entre outras ações, incentivar a conscientização sobre a ameaça que representa a mudança climática para a saúde, procurar que esta ocupe o lugar que merece na agenda climática e ajudar os países a criarem capacidades para reduzir a vulnerabilidade sanitária diante das transformações do clima. “A enfermidade é o fracasso das medidas de controle do mosquito”, disse à IPS o pesquisador Bisset, chefe do departamento de controle de vetores do estatal Instituto de Medicina Tropical Pedro Kouri, sede do curso assistido por cerca de 300 especialistas de Argentina, Brasil, Estados Unidos e países da Europa. A chave não está em se concentrar na patologia, como faz a maioria dos países, mas em combater o Aedes aegypti, garantiu Bisset, que propôs uma estratégia integrada de controle estendido (em grandes áreas). Este esquema não é novo e inclui o uso de inseticida, métodos biológicos e saneamento ambiental, entre outros. “Contudo, sempre se trabalha em áreas pequenas”, ressaltou. Em uma reunião que acontecerá no Panamá, em novembro, se deverá facilitar o intercâmbio sobre como agir para controlar este vetor, destacou Bisset. O Aedes aegypti, segundo estudos citados pelo cientista, é oriundo da África, de onde se propagou para todas as áreas tropicais. No Caribe está presente há mais de 350 anos e é quase exclusivamente uma espécie doméstica. Seu habitat preferido são os depósitos com água relativamente limpa, com pouca contaminação e pobre em material orgânico e sais. “Cuba se caracteriza por ser uma ilha dentro de um oceano de dengue”, afirmou Bisset, ressaltando não ter dados sobre a situação atual do país quanto a focos da doença. “Quanto ao índice vetorial, em 1987 era de 0,01, agora nos mantemos em 0,3”, informou Bisset, lembrando que se trabalha para evitar índices acima de 0,5, que facilitam a transmissão da doença. Este índice de infestação mede o número de vetores detectados a cada cem moradias. Os meses de maior proliferação do Aedes em Cuba são agosto, setembro e outubro, favorecida pelas chuvas, pelo calor e por mais traslados de pessoas, por coincidir com as férias do verão boreal. Entretanto, as fumigações casa por casa se mantêm praticamente o ano todo, o que nem sempre é bem aceito pela população. As autoridades cubanas insistem em que a comunidade tem um papel muito importante porque o mosquito convive com a família, dentro da casa ou ao seu redor. “As pessoas sabem muito sobre dengue e Aedes, mas, mesmo assim, nem sempre facilitam nosso trabalho”, queixou-se à IPS um fumigador que acabara de encontrar vários apartamentos fechados em um prédio sob sua responsabilidade. Cuba estabeleceu seu programa de controle para a erradicação do mosquito transmissor após a epidemia de 1981, quando houve mais de 400 mil casos, dez mil de dengue hemorrágica, a variante mais grave, com saldo de 158 mortes, 101 delas de crianças. Segundo dados oficiais, essa epidemia teve o custo econômico de US$ 103 milhões. O combate atual do vetor está baseado principalmente na redução dos criadouros, mediante controle físico, fumigação, legislação que permite multar pessoas responsáveis pelos criadouros e participação da comunidade na limpeza ambiental. Por ora, a única e melhor opção é manter sob controle o pertinaz mosquito transmissor, enquanto o setor científico trabalha na busca de uma vacina. Durante o curso ambiental, Cuba informou que seu projeto de conseguir imunização para a dengue está na fase de estudos pré-clínicos em ratos e macacos, última etapa antes de passar à clínica, em humanos. Por sua vez, as autoridades sanitárias do Brasil, país americano com mais casos de dengue, autorizaram, no dia 17, o teste em humanos de uma vacina desenvolvida durante oito anos pelo Instituto Butantan e uma entidade norte-americana de saúde. Os primeiros resultados destes testes clínicos serão conhecidos em 2015. Dados da OMS mostram que entre 50 milhões e cem milhões de casos de dengue são registrados a cada ano em mais de cem países e esta doença substituiu a malária como a mais prevalente transmitida por vetores nas regiões do Sul em desenvolvimento.  Envolverde/IPS


por Patrica Grogg, da IPS
O grupo armado Séléka reforçou sua posição nas províncias do norte da República Centro-Africana, na segunda metade deste mês. Foto: Simon Davis/UK DFID/CC by 2.0 Inter Press Service - Reportagens

Violência máxima contra civis na República Centro-Africana

[caption id="attachment_96564" align="aligncenter" width="500"] O grupo armado Séléka reforçou sua posição nas províncias do norte da República Centro-Africana, na segunda metade deste mês. Foto: Simon Davis/UK DFID/CC by 2.0[/caption]   Nações Unidas, 21/8/2013 – Michel Yotodia assumiu a Presidência da República Centro-Africana no dia 18, mas a Séléka, a aliança de grupos rebeldes que encabeçou e o ajudou a derrubar o governo em 23 de março, continua saqueando e matando civis. Esse país, um dos mais pobres do mundo, sofre uma crise humanitária que se aprofunda desde o mês passado pelos ataques da Séléka, que se multiplicaram nos arredores de Bangui, a capital. A comunidade internacional conseguiu restabelecer parcialmente a ordem nessa cidade, após convencer Yotodia a se chamar presidente interino e criar um conselho de transição para realizar eleições nos próximos 18 meses. Contudo, alguns elementos descontrolados da coalizão rebelde se retiraram para as províncias, onde continuaram com suas atividades de vandalismo. O resultado foi um aumento sem precedentes da violência contra a população civil, especialmente no norte do país. As comunidades pegaram em armas contra os grupos armados rebeldes, o que piorou as represálias e a vingança. As próprias divisões internas dentro da Séléka também exacerbaram a crise e houve vários enfrentamentos. O conflito chegou até o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), e no dia 14 Valerie Amos, secretária-geral adjunta para assuntos humanitários, alertou: “A República Centro-Africana ainda não fracassou como Estado, mas isso pode chegar a ocorrer se não forem tomadas medidas rapidamente”. Organizações não governamentais e agências da ONU foram obrigadas a reduzir seu pessoal no país quando começaram os confrontos. Seu pessoal e a população civil se converteram no alvo dos ataques da Séléka. “Saquearam e roubaram a tal ponto que temos de começar do zero, e levamos muito tempo para mobilizar recursos para isso”, lamentou à IPS Amy Martin, diretora do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCAH). Fora de Bangui, os rebeldes atuam impunemente, pois o Estado de direito desapareceu junto com as autoridades. As sedes judiciais e do governo não estão a salvo dos ataques, e os policiais se passam por civis por medo de agressões por parte da Séléka. Várias aldeias se tornaram povoados fantasmas depois da passagem dos rebeldes. Escolas, hospitais e casas estão desertos. As poucas pessoas que ficaram se escondem no morro, vivem em más condições de higiene e são vulneráveis a doenças como a malária. As crescentes tensões no norte obrigaram cerca de quatro mil pessoas a abandonarem suas casas na fronteira com o Chade. No total, o conflito já fez com que cerca de 206 mil civis abandonassem seus lares. O último informe da OCAH considera que 1,6 milhão de pessoas, dos 5,1 milhões que vivem no país, são “vulneráveis”. Na sessão do Conselho de Segurança dedicada à República Centro-Africana, o secretário-geral adjunto para direitos humanos, Ivan Šimonović, denunciou várias violações, entre elas execuções sumárias, detenções arbitrárias, torturas, desaparecimentos, diversas formas de violência de gênero e recrutamento de crianças-soldados. Muitas organizações não governamentais se refugiaram em Bangui, embora algumas, como a Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Cruz Vermelha, nunca tenham partido totalmente, apesar de reduzirem seu pessoal quando a violência aumentou. Agora recuperam seus locais e mandam novos trabalhadores ao campo. Os trabalhadores da ONU também voltaram às suas tarefas desde o dia 10, embora sua capacidade total possa ser recuperada somente quando houver fundo suficiente e todo o país estiver seguro. Sempre foi difícil arrecadar fundos para a República Centro-Africana, inclusive antes do golpe de estado de 23 de março. Por ter sido colônia da França, esse país é considerado um “problema francês”, disse à IPS Lewis Mudge, pesquisador da Human Rights Watch. Além de seu baixo perfil internacional, vários doadores estrangeiros retiraram a ajuda a este país por medo de que o dinheiro acabasse em mãos erradas. As perdas se concentraram em questões de desenvolvimento, um setor considerado menos “urgente” do que a ajuda humanitária. “Neste momento alcançamos uma intensidade muito alta em matéria de violações de direitos humanos, mas não temos como nos sustentar”, disse Joseph Bindoumi, presidente da Liga para a Defesa dos Direitos Humanos, prejudicada pelos cortes. Os doadores tradicionais da República Centro-Africana não se retiraram, nem reduziram sua ajuda, ressaltou Martin à IPS. O que ocorreu é que suas doações estancaram quando a demanda aumentou. Conseguiu-se 32% dos US$ 195 milhões necessários para paliar a crise, embora mal distribuídos. Os itens abrigos de emergência e pronta recuperação não receberam nem um centavo, e água, saneamento e higiene concentraram 8% da quantia necessária. “O assunto mais grave continua sendo a segurança”, destacou Bindoumi, lamentando que a insegurança dificulte o trabalho de sua organização para oferecer assistência humanitária fora de Bangui. A segurança do país foi encomendada à União Africana até 19 de julho, quando a comunidade internacional decidiu reforçar a força de paz da Missão Internacional de Apoio à República Centro-Africana, encabeçada pela África. Foram enviados 3.600 soldados, um terço dos quais funcionarão como polícia civil e o restante, militar. Mas “a cifra de 3.600 não é nem de perto suficiente”, advertiu Mudge. Com cerca de 20 mil combatentes da Séléka espalhados por todo o país, os efetivos da ONU deverão se organizar de forma estratégica e ter um mandato sólido para conseguir algo. Do contrário será uma “perseguição de gato e rato” que nunca acabará. Mas este país não pode esperar muito mais, opinou Mudge, reconhecendo que “uma reduzida força de paz também pode fazer uma diferença”. Apenas 60 soldados da missão da República Democrática do Congo, por exemplo, melhoraram a segurança no povoado de Kaga-Bondoro, no norte, em comparação com seus vizinhos. Envolverde/IPS


por Edith Drouin-Rousseau, da IPS

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Homem observa derretimento acelerado de geleiras no Ártico
Fotos: Érico Hiller

Fotógrafo da National Geographic expõe obras sobre mudanças climáticas em São Paulo. Veja mais aqui.

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Recife ganha seu primeiro parklet permanente. A estrutura funciona como espaço de convivência para promover o uso do espaço público de forma democrática.

São Paulo adere ao movimento ‘Outubro Rosa’ e ilumina monumentos. Foto: Fernando Pereira / SECOM - Fotos Públicas - 09/10/2014

São Paulo adere ao movimento ‘Outubro Rosa’ e ilumina monumentos. Foto: Fernando Pereira / SECOM – Fotos Públicas – 09/10/2014

Acre

Banco Mundial aprova empréstimo para beneficiar serviços básicos em comunidades vulneráveis do Acre. Saiba mais aqui.

Intervenção do Artista Plástico, Eduardo Srur, no rio Pinheiros. Foto: Eduardo Srur - 29/09/2014 – São Paulo, Brasil - Fotos Públicas

Intervenção do Artista Plástico, Eduardo Srur, no rio Pinheiros. Foto: Eduardo Srur – 29/09/2014 – São Paulo, Brasil – Fotos Públicas

Terceira Idade Marcos Santos/USP Imagens

Hoje , 1º de outuburo, é o Dia Nacional do Idoso. A data serve para refletir a respeito da situação do idoso no país, seus direitos e dificuldades. Foto: Marcos Santos/USP Imagens/ Fotos Públicas

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Gisele Bündchen protesta pelo meio ambiente em desfile da Chanel.

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Casas “Earthships” são construídas com pneus e outros materiais recicláveis. Saiba mais aqui.

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Canoada Bye Bye Xingu abre faixa de protesto em frente à barragem de Belo Monte: Desenvolvimento sim, de qualquer jeito não!

canoada

Foi dada a largada para a canoada Bye Bye Xingu. Serão 100 km percorridos em uma paisagem do Rio Xingu que será definitivamente transformada quando Belo Monte entrar em operação. Saiba mais aqui.