Angola, dez anos de paz e um futuro frustrado

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Angola, dez anos de paz e um futuro frustrado


por Kristin Palitza, da IPS


Cidade do Cabo, África do Sul, 12/4/2012 – Angola comemorou no dia 4 uma década de paz. Desde que em 2002 terminou uma guerra civil que durou 27 anos, o país prosperou graças ao petróleo. Mas as próximas eleições parlamentares poderão reviver a violência e a instabilidade. Apenas uma elite se beneficia do boom econômico neste país da África austral, enquanto a maioria continua vivendo na pobreza. “Houve crescimento, mas em matéria de democracia, direitos humanos e desenvolvimento social o país retrocedeu”, afirmou Elias Isaac, encarregado de Angola na não governamental Iniciativa Sociedade Aberta para a África Austral (Osisa) em um encontro com jornalistas na Cidade do Cabo, África do Sul, na véspera do aniversário. Nesta década, Angola se converteu na economia africana de maior crescimento. O Banco Mundial estima que este ano seu produto interno bruto crescerá 12%, sobretudo pela exportação de petróleo, do qual este país é o segundo maior produtor do continente, depois da Nigéria. No entanto, apenas uma pequena parte desse dinheiro chega ao grosso da população. Dos 16,5 milhões de habitantes, dois terços vivem com menos de US$ 2 por dia, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Entre os 187 países medidos pelo Índice de Desenvolvimento Econômico 011, Angola está em 148º lugar. O recente impulso ao desenvolvimento da infraestrutura – estradas, aeroportos, escolas e hospitais – e a promessa de construir milhões de moradias são, para a oposição, “mero artifício” para desviar a atenção da opulenta riqueza que a pequena elite angolana acumula. “A corrupção, o nepotismo e o desprezo pelas leis são os principais problemas”, admitiu o ex-primeiro-ministro Marcolino Moco (1992-1996), uma das poucas vozes críticas dentro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que dirige este país desde 1975. “Não há consulta, mas impunidade e poder absoluto”. Um fato eloquente são os US$ 32 bilhões que não aparecem no tesouro do país e que o governo não pode dizer em que foram gastos. O norte-americano Revenue Watch Institute (RWI), um grupo não governamental que promove a transparência em matéria de renda das indústrias extrativistas, há alguns dias cobrou do Fundo Monetário Internacional (FMI) que retenha um desembolso de US$ 130 milhões até que as autoridades angolanas justifiquem plenamente o destino desses milhares de milhões. “O FMI deve insistir em que o governo se responsabilize por esses fundos antes de desembolsar os US$ 130 milhões”, defendeu a diretora do RWI, Karin Lissakers. O governo deve combater urgentemente a corrupção e a má administração, acrescentou. “A falta de prestação de contas é total” concordou o político Horácio Junjuvili, da principal força de oposição, a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita). “O presidente, José Eduardo dos Santos, usa os fundos do Estado como se fossem de sua propriedade”, denunciou Lissakers. Em sua opinião, boa parte dos US$ 32 bilhões que viraram fumaça devem estar depositados em contas de bancos estrangeiros. É um segredo conhecido que a filha do mandatário, Isabel dos Santos, que cuida da fortuna familiar, realizou nos últimos anos investimentos multimilionários em seu país e em Portugal. Os angolanos se sentem marginalizados da comunidade internacional, a qual, dizem, só se interessa pelos negócios com este país, mas não em pressionar para que melhorem o respeito aos direitos humanos e a governança. “O petróleo tem um papel central na política. Os interesses internacionais se movem pelos negócios, não pela moral”, alertou Isaac. Poucos acreditam que as eleições parlamentares, que devem acontecer em agosto ou setembro, produzirão alguma mudança. “Duvidamos que as eleições sejam livres e limpas”, disse Junjuvili. Com Santos no comando desde 1979, o país que foi colônia portuguesa se converteu em uma autocracia. O governante do MPLA conta com uma maioria parlamentar mais do que folgada e os contrapesos constitucionais são poucos e débeis. Santos ignorou uma lei pela qual um juiz independente deve encabeçar o órgão eleitoral, e colocou novamente nesse posto Susana Inglês, uma advogada próxima a ele. Os partidos de oposição não aceitaram a nomeação e recorreram à Suprema Corte de Justiça, que ainda não se pronunciou. “É uma ditadura. Quase todo o poder se concentra nas mãos de uma pessoa, o presidente”, indicou Isaac. “Se as ilegalidades não acabarem, a oposição se mobilizará e o país poderá cair no caos”. Nem a União Europeia e nem a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral acordaram estabelecer missões de observação para as eleições. É improvável que o presidente ceda seu lugar a novos dirigentes. O veterano lutador da guerra de independência, de 69 anos, manifestou em dezembro sua disposição para conduzir o partido a uma nova eleição, afirmando estar “sempre disponível”. Nos últimos três meses, as pessoas começaram a se manifestar nas ruas, reclamando direitos econômicos e sociais e democracia. “O risco de instabilidade política é elevado”, alertou Moco. As autoridades reagiram reprimindo os protestos. Desde janeiro foram proibidas cinco manifestações contra o governo e 46 militantes foram presos. Embora a liberdade de expressão esteja formalmente garantida, os meios de comunicação independentes quase não existem. Praticamente todos os jornais e emissoras de rádio e televisão são propriedade da família presidencial. O governo deve cessar o uso de força excessiva contra manifestantes pacíficos, ativistas pelos direitos humanos e políticos de oposição, afirmou a organização Human Rights Watch (HRW), com sede em Nova York. “A crescente violência contra manifestantes, observadores e militantes políticos indica a deterioração do ambiente na medida em que as eleições se aproximam”, destacou Leslie Lefkow, da HRW. “Os que protestam estão sendo torturados. A situação é terrível. O futuro de Angola é obscuro”, concluiu Moco. Envolverde/IPS

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Europa oriental vive e luta na ONU

Nações Unidas, 12/4/2012 – Lituânia e Sérvia travam uma intensa batalha em torno de quem presidirá as próximas sessões da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Este enfrentamento destaca a existência de um bloco que se acreditava extinto: Europa oriental. Desde o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991, a Europa oriental deixou gradualmente de existir como entidade geopolítica, exceto na ONU. Os 22 países que a integravam, e que vão de Bulgária e Geórgia a Eslovênia e Ucrânia, praticamente foram absorvidos ou pela União Europeia (UE) ou pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Como um dos cinco grupos regionais presentes nas Nações Unidas, a Europa oriental agora reclama a presidência da Assembleia Geral, de 193 membros, cuja próxima sessão começará em setembro. Como a maioria dos demais cargos eletivos da ONU, a presidência se alterna entre os cinco grupos regionais: asiático, africano, Europa oriental, América Latina e Caribe, e o dos países da Europa ocidental e outros (que incluem Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia). Muitos diplomatas argumentam que não há motivo para que o grupo da Europa oriental exista dentro das Nações Unidas. “Agora são um apêndice da Europa ocidental. Existem na ONU apenas para buscar cargos escolhidos pelo voto”, opinou um diplomata asiático. Por sua vez, James Paul, diretor-executivo do Global Policy Forum, com sede em Nova York, e especialista em assuntos políticos da ONU, afirmou à IPS que as reclamações da Europa oriental sobre um status especial nas Nações Unidas não se encaixam nos padrões regionais emergentes, que implicam integração e criação de instituições no mundo real. “Ao optar por ser parte da União Europeia, estes países se alinharam com os europeus ocidentais por uma Europa unida, o que é um fato positivo”, disse Paul, acrescentando que é difícil ter as duas coisas. “Como podem falar por meio da voz da UE e também com a voz de um grupo regional? Querem tudo”, acrescentou. Antes da eleição do atual secretário-geral, Ban Ki-moon, há cinco anos, os Estados Unidos tentaram prejudicar as reclamações asiáticas em torno do cargo promovendo um candidato da Europa oriental. É muito provável que quando Ban encerrar seu mandato em 2015, a Europa oriental reclame seu posto. Porém, essa decisão será tomada pelo Conselho de Segurança e pela Assembleia Geral. Desde a criação da ONU em 1945 o posto de secretário-geral foi ocupado por três europeus, dois asiáticos, um latino-americano e dois africanos, principalmente com base na alternância geográfica. Foram eles: Trygve Lie da Noruega (1946-1952), Dag Hammarskjöld da Suécia (1953-1961), U. Thant da Birmânia (1961-1971), Kurt Waldheim da Áustria (1972-1981), Javier Pérez de Cuéllar do Peru (1982-1991), Boutros Boutros-Ghali do Egito (1992-1996), Kofi Annan de Gana (1997-2006), e Ban Ki-moon da Coreia do Sul (desde 2007 e até 2016). Paul indicou à IPS que as disputas em torno da representação regional na ONU são um sinal de que algo grande está ocorrendo. “No mundo real houve uma evolução importante para o regionalismo, já que surgem novas instituições e as existentes adquirem força rapidamente”, afirmou. A União Africana, a União Europeia, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) são os principais atores deste jogo, mas há muitos outros. Tudo isso acontece porque, em sua maioria, os Estados são muito pequenos para funcionarem de maneira efetiva no sistema global e ingressam em associações guiadas pela necessidade de uma integração econômica, e também para abordar questões de segurança, políticas sociais, infraestrutura e outros assuntos. Boa parte destas mudanças está pautada por interesses econômicos privados, que preferem operar em maior escala, com padrões regionais, etc. A nação que atua sozinha não tem tanta credibilidade como antes, segundo Paul. Os dois da Europa oriental que lançaram suas vistas para o posto de presidente da Assembleia Geral são o representante permanente da Lituânia na ONU, Dalius Cekuolis, e o ministro das Relações Exteriores da Sérvia, Vuk Jeremic. A Lituânia afirma que sua candidatura já foi anunciada em 2004, em nome do grupo da Europa oriental. Se o grupo não chegar a um acordo para definir um único candidato, a Assembleia Geral será obrigada a realizar uma votação, o que é muito incomum. Tradicionalmente se elege por aclamação, com candidatos únicos aprovados por seus respectivos grupos regionais. Não haverá respostas fáceis, alertou Paul, mas a tendência é clara: um mundo em que as organizações regionais terão um papel cada vez mais importante na política global. E os grupos regionais na ONU não estarão alheios a isto, já que tiveram um papel muito importante quando as organizações eram débeis ou inexistentes. “No futuro, decairão ou desaparecerão. A Europa oriental terá que reconhecer isto e agir em consequência”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Kofi Annan e Ali Akbar Salehi falam com a imprensa após encontro em Teerã Foto: EFE Inter Press Service - Reportagens

Irã pode ser parte da solução, diz Annan

[caption id="attachment_48789" align="alignleft" width="300" caption="Kofi Annan e Ali Akbar Salehi falam com a imprensa após encontro em Teerã Foto: EFE"][/caption] Doha, Catar, 12/4/2012 – Kofi Annan, enviado da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Liga Árabe à Síria, comemorou o apoio do Irã aos seus esforços de paz e disse que esse país poderia “ser parte da solução” para a crise síria. Annan falou ontem aos jornalistas em Teerã, após se reunir com o chanceler iraniano, Ali Akbar Salehi. O Irã apoia o plano de paz do ex-secretário-geral da ONU, que propõe um cessar-fogo a partir de hoje, mas também exige que seja dado tempo ao regime de Bashar Al Assad para que implante reformas democráticas. O Irã é considerado um aliado regional fundamental do presidente sírio, que é pressionado cada vez mais pela comunidade internacional para deter sua repressão contra o movimento opositor. Os enfrentamentos deixaram milhares de mortos. Annan insistiu na urgência de deter as mortes e proporcionar ajuda humanitária, mesmo antes de as partes se sentarem à mesa de negociações. “O processo político deve ser liderado pela Síria, e devem ser respeitadas as aspirações do povo sírio”, destacou Annan. “O importante é que os governos da região e de outros lugares trabalhem com a Síria para resolver a crise. A posição geopolítica da Síria é tal que qualquer erro de cálculo pode ter consequências inimagináveis”, alertou. Annan também disse que o governo de Assad lhe garantiu que cumprirá o acordo de cessar-fogo. “Se todos o respeitarem, creio que às 6 horas da manhã do dia 12 veremos uma situação melhor no terreno”, disse esperançoso. Consultado sobre os chamados de alguns países, como Arábia Saudita e Catar, no sentido de armar a oposição síria, Annan advertiu que uma “maior militarização seria desastrosa”. Salehi ofereceu o apoio de Teerã aos esforços de Annan. “Acreditamos que o povo sírio merece gozar os direitos que têm outras nações do mundo, como liberdade para os partidos políticos, eleições livres e uma Constituição que reflita os desejos da nação”, afirmou o chanceler. “Ao mesmo tempo, anunciamos que nos opomos à interferência nos assuntos internos de todos os países, inclusive da Síria. O governo de Assad prometeu uma mudança para atender as demandas do povo, e é preciso lhe dar a oportunidade” de fazê-lo, acrescentou o ministro. O plano de Annan, apresentado no mês passado, exorta o governo sírio a retirar suas tropas das aldeias e parar com o uso de armas pesadas. Segundo a iniciativa, tanto o exército quanto os combatentes da oposição devem respeitar a trégua. O chanceler sírio, Walide al-Muallem, exigiu de Annan, no dia 10, garantias de que os rebeldes cumpririam o cessar-fogo. “Não pediremos garantias aos grupos terroristas, que estão matando, sequestrando e destruindo infraestrutura. Queremos que Annan nos dê essas garantias”, enfatizou Muallem durante uma visita a Moscou. O regime de Assad não retirou seus soldados das áreas urbanas, como indicava o prazo fixado para o dia 10, e ativistas denunciaram novos incidentes violentos ontem. Os Comitês Locais de Coordenação, grupo que organiza as mobilizações contra Assad, informou que vários bairros na cidade de Homs foram bombardeados. Por sua vez, o Observatório Sírio pelos Direitos Humanos, com sede na Grã-Bretanha, afirmou que “dezenas de veículos do exército” foram enviados para a cidade de Maaraba em meio a intensos tiroteios. Já o porta-voz da coalizão opositora Conselho Nacional Sírio, Basma Kodmani, afirmou que se Assad não desse sinais de respeitar a trégua, o Conselho de Segurança da ONU deveria pressioná-lo. “Gostaríamos de ver uma decisão unânime dos membros do Conselho de Segurança dando um ultimato ao regime”, ressaltou Kodmani à agência de notícias Reuters. Por sua vez, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, prevê se reunir em Washington com o chanceler da Rússia, Sergei Lavrov. “Teremos nova oportunidade para convencer os russos de que a situação está se deteriorando e que a probabilidade de um conflito regional e de uma guerra civil aumenta”, declarou no dia 10. As forças de Assad mataram mais de nove mil pessoas no ano passado, segundo estimativa das Nações Unidas. Damasco, por sua vez, afirmou que os rebeldes assassinaram mais de 2.500 solados e funcionários de segurança. Envolverde/IPS * Publicado sob acordo com a Al Jazeera.


por Correspondentes da IPS
A instalação de latrinas na Escola Primária B, na localidade sul-sudanesa de Bor, permitiu que mais estudantes participassem das aulas, principalmente as meninas. Foto: Andrew Green/IPS Inter Press Service - Reportagens

Latrinas são cruciais para a educação

[caption id="attachment_48654" align="alignright" width="300" caption="A instalação de latrinas na Escola Primária B, na localidade sul-sudanesa de Bor, permitiu que mais estudantes participassem das aulas, principalmente as meninas. Foto: Andrew Green/IPS"][/caption] Yuba, Sudão do Sul, 11/4/2012 – Antes de serem construídas latrinas na Escola Primária B, na localidade sul-sudanesa de Bor, há dois anos, os estudantes iam para suas casas no primeiro intervalo de aula. A maioria só voltava na manhã seguinte. Os professores acabavam as aulas mais cedo, porque também não tinham acesso a um banheiro. Seguiam para o povoado próximo, pediam permissão para usar o banheiro de um dos hotéis e depois voltavam para juntar os estudantes que ficavam. Segundo Madin Chier, subdiretor da escola localizada na capital do Estado de Jongei, foi afetada a qualidade da educação nesse centro de estudo. Contudo, agora que foram instaladas 16 latrinas, “não há mais problemas”, observou. Porém, criar um sistema educacional que funcione no Sudão do Sul exige mais do que apenas latrinas. Menos da metade das meninas e dos meninos que deveriam ir à escola realmente comparece. Este país não tem suficientes escolas, professores e nem material básico para educar toda sua população infantil. Alunos menores disputam os lugares disponíveis nas salas do primário com adolescentes, aos quais foram negadas oportunidades de estudo durante a guerra que afetou o país durante décadas. A maioria dessas aulas acontece ao ar livre ou sob árvores. Isto significa que, quando chega a época de chuvas, há uma interrupção de seis meses, até as tempestades passarem. Para os estudantes que se matriculam em uma escola, o acesso a latrinas é crucial para que continuem assistindo as aulas. Isto vale especialmente para as meninas, segundo Emily Lugano, conselheira técnica em matéria educacional para o capítulo sul-sudanês da Save the Children. Esta organização construiu ou reconstruiu instalações sanitárias em 71 escolas de sete Estados do país, incluindo pias para lavar as mãos. Isto é parte da iniciativa da entidade para melhorar a aprendizagem, informou Lugano, e também é uma precaução para as meninas. No Sudão do Sul, as adolescentes de 15 anos têm mais probabilidades de engravidar do que de ir à escola. Quando estudam, frequentemente são vítimas de assédio e intimidação, acrescentou a especialista. Isto é exacerbado em algumas das escolas onde a Save the Children trabalha. Em muitos países se espera que as meninas compartilhem latrinas com os meninos ou façam suas necessidades em um campo perto da escola. “Elas sofrem abusos e assédios quando compartilham latrinas com os meninos. E se sentem muito inseguras de irem para os arbustos. É um assunto de segurança muito, muito crucial para as meninas que vão à escola”, explicou Lugano. Quando não havia latrinas, as meninas se negavam a ir à escola quando menstruavam, porque ali não haveria nenhuma oportunidade para a privacidade. Chier disse que algumas das meninas de sua escola faltavam uma semana ou mais por mês, o que as deixava atrasadas em relação ao resto da classe. “Na maioria dos países em desenvolvimento”, a falta de acesso a latrinas privativas “contribui muito com o mau desempenho escolar das meninas”, porque estas perdem parte do programa de estudos, segundo Lugano. Como se trata de escola, também há um componente educativo que vai unindo as latrinas e os lugares para lavar as mãos, e que vai além das fronteiras de gênero. Chier disse que sua escola usa essas instalações para ensinar os estudantes sobre higiene básica, o que ajuda a reduzir as doenças. A iniciativa é popular em Bor B, onde os estudantes formaram um Clube de Saúde e Higiene. Por trás desta campanha também está a ideia de converter os alunos em instrutores, para que levem sua mensagem de higiene básica às suas comunidades. No entanto, estes esforços só funcionam em áreas onde há um sistema educacional estruturado. O governo do Sudão do Sul destinou menos de 6% do orçamento de 2011 para a educação. Além disso, a maior parte desse dinheiro se destina ao pagamento de salários dos professores, detalhou Lugano. Em termos gerais, o financiamento do governo para a educação parece diminuir, já que o fechamento do oleoduto do país implicou a perda de 98% de sua renda. Fica em mãos de organizações não governamentais como a Save the Children continuar financiado o desenvolvimento de infraestrutura e conseguir material básico, como livros de texto, para os estudantes. Embora os programas para melhorar saneamento e higiene dentro das escolas possam ter um impacto de longo prazo na saúde e na segurança fora das mesmas, esses esforços somente são efetivos se houver escolas para implantá-los, ressaltou Lugano. Envolverde/IPS * Andrew Green informa desde o Sudão do Sul, no contexto de uma bolsa do International Reporting Project, um programa de jornalismo independente com sede em Washington.


por Andrew Green*
A polícia afegã agora cuida da segurança de Cabul. Foto: Giuliana Sgrena/IPS Inter Press Service - Reportagens

Retirada dos Estados Unidos, bênção e maldição

[caption id="attachment_48648" align="alignright" width="300" caption="A polícia afegã agora cuida da segurança de Cabul. Foto: Giuliana Sgrena/IPS"][/caption] Cabul, Afeganistão, 11/4/2012 – Apesar de o anúncio feito pelos Estados Unidos, de que retirará suas tropas do Afeganistão até 2014, ter sido comemorado pela maioria dos afegãos como o iminente fim da ocupação, permanecem grandes dúvidas. Especificamente, tanto especialistas como o público em geral se perguntam se isto será benéfico para a democracia ou, pelo contrário, tornará este país ainda mais vulnerável e violento. Outros duvidam que o Afeganistão algum dia se livrará da presença dos Estados Unidos, considerando que seu território tem um importante valor estratégico, perto do Irã e do Paquistão. Mais de dez anos após a chegada das tropas estrangeiras para “lutar contra o terrorismo”, o povo afegão se pergunta abertamente qual é o “verdadeiro objetivo” de Washington. “A meta não era lutar contra o terrorismo, apesar de terem matado Osama bin Laden. A rede radical islâmica Al Qaeda ainda está aqui e se espalha por toda a região (Tajiquistão, Uzbequistão, etc.), o que é útil para os Estados Unidos, porque lhe pedirão ajuda e poderá usar isso como desculpa para continuar na região”, declarou à IPS o jornalista Naseer Fayaz. Embora o presidente Barack Obama tenha anunciado a retirada de uma parte de suas tropas até o final de 2014, poucos esperam que isto provoque uma mudança real no terreno. Os norte-americanos “nunca deixarão o Afeganistão porque é muito importante do ponto de vista geográfico. A estratégia dos Estados Unidos é de longo prazo. Está aqui para controlar a Ásia central. Usam a desculpa da Al Qaeda para permanecerem aqui, enquanto negociam com alguns jihadistas (combatentes islâmicos) para alcançarem suas metas”, destacou Fayaz. Por sua vez, Wadeer Safi, professor de direito na Universidade de Cabul, afirmou que as tropas estrangeiras permanecerão em solo afegão por outra razão relevante para a população. “Os Estados Unidos não deixarão o Afeganistão enquanto não concretizarem seu sonho de instaurar um governo que se baseie na transparência e na justiça social. Este não é o caso no momento. Os criminosos têm o poder e devem ser levados a julgamento”, disse à IPS. “Se as tropas estrangeiras deixarem o país nas mãos dos fundamentalistas, o Afeganistão se converterá em um Estado narco vinculado com o Paquistão”, alertou o professor, uma especulação apoiada pelo fato de a maior quantidade de papoulas (matéria-prima do ópio, da heroína e da morfina) do mundo ser cultivada no Afeganistão. Este país plantou entre 123 mil e 195 mil hectares de papoulas em 2010. Além disso, o Afeganistão é a segunda nação com os mais altos níveis de corrupção, atrás da Somália. Isto enche de pessimismo a população afegã no que diz respeito ao seu futuro. No entanto, a maior parte dos afegãos está a favor da retirada de todas as tropas estrangeiras. Após um massacre na cidade de Kandahar e da polêmica desatada pela queima de cópias do Alcorão na base militar norte-americana de Bagram, as tensões aumentaram em todo o país, chegando inclusive a Cabul, onde as forças internacionais foram substituídas pelo exército e pela polícia locais. Porém, “poucas pessoas confiam na polícia afegã, que está dividida em grupos étnicos”, contou Fayaz, acrescentando que os diplomatas e empresários apelavam para empresas de segurança privada, às vezes estrangeiras, para sua proteção. As embaixadas estão completamente cercadas por muralhas de concreto, e a entrada não é permitida a afegãos sem autorização especial. A presença de senhores da guerra e suas milícias é um perigo que pode se exacerbar com a saída das tropas estrangeiras, embora no momento as hostilidades tenham cessado graças a um acordo para dividir o poder. Alguns especialistas acreditam que uma retirada total levará a uma guerra civil. Outros mantêm a ideia de que considerar as forças norte-americanas como “salvadoras” do país é mera propaganda. “Washington quer vender mais armas aos afegãos, mas a origem do problema está na ocupação e nos senhores da guerra no poder. Apenas os corruptos querem que as tropas fiquem. As ocupações estrangeiras nunca trouxeram democracia. O povo deve lutar por sua liberdade”, disse à IPS a ex-parlamentar Malalai Joya. “Não é fácil lutar contra a ocupação”, afirmou Baseer, chefe da “shura” (conselho tribal) de Khewa in Dar-e-Noor, perto da cidade de Jalalabad. “Mesmo se 99% da população estiver contra a ocupação, será difícil defender sua posição porque será acusado pelo governo de ser um talibã”, com todas as consequências que isso traz, advertiu à IPS. “Precisamos de tempo. Já lutamos contra a ocupação soviética, contra os jihadistas, contra o movimento islâmico Talibã e agora sofremos uma nova ocupação. Estamos com o povo, e tentamos resolver seus problemas. É por isso que ainda estamos aqui”, ressaltou. Baseer também afirmou que, se estourar uma guerra civil, será apenas em reação aos milhões de dólares que continuam chegando ao Afeganistão do exterior “para que uns poucos ricos construam suas mansões”, e não para a retirada das tropas norte-americanas. Luxuosas casas se espalham junto às tradicionais moradias de barro afegãs, realçando a crescente brecha entre um punhado de ricos e a vasta maioria de pobres. “A população quer paz, não deseja mais lutar, e por isso aceitará qualquer governo títere imposto pelos Estados Unidos”, apontou à IPS o líder do secular Partido da Solidariedade do Afeganistão, Hafiz Rashid. Em todo caso, acrescentou, os Estados Unidos não sairão completamente, apenas reduzirão o número de soldados em suas bases. Em uma reunião com um grupo de vítimas da guerra, na antiga cidade de Shari-Kua e com a maioria dos presentes formada por viúvas pedindo justiça, ficou claro que muitas pessoas estão dispostas a aceitar a presença de tropas estrangeiras, “se isto significar a paz”. É o que afirmou no encontro Fatima, que perdeu seu marido durante a guerra civil iniciada no país a partir de 1992. “Me preocupam os últimos acontecimentos na base de Bagram, onde soldados dos Estados Unidos queimaram o Alcorão. Contudo, se respeitarem nossa religião e nos ajudarem, não serei contra eles”, afirmou. Envolverde/IPS


por Giuliana Sgrena, da IPS
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Cogumelos radioativos alimentam onda de reclamações

Tóquio, Japão, 11/4/2012 – A descoberta de contaminação radioativa em cogumelos do tipo shitake cultivados na localidade japonesa de Manazuru, a cerca de 300 quilômetros da paralisada central nuclear de Fukushima Daiichi, contribuiu para uma onda de pedidos de compensação. Pouco depois da descoberta, no dia 5, as autoridades da municipalidade de Kanagawa, onde fica Manazuru, ordenaram aos produtores e às organizações agrícolas locais que não comercializassem os cogumelos shitake. Este tipo de cogumelo é um manjar muito apreciado na região Ásia-Pacífico por suas propriedades nutritivas e medicinais. No entanto, alguns cogumelos de Manazuru continham mais de 141 becquereles de césio radioativo por quilograma, e outras amostras obtidas em Murata, na municipalidade de Miyagi, apresentavam níveis de césio de até 350 becqueres. A descoberta aconteceu em um momento em que cada vez mais moradores das áreas em torno do reator de Fukushima Daiichi, afetado por um forte terremoto seguido de tsunami em 11 de março de 2011, exigem compensações da estatal Companhia de Energia Elétrica de Tóquio (Tepco), operadora da usina. Moradores da antes pitoresca aldeia de Odaka, a dez quilômetros da central, que foram obrigados a abandonar suas terras, escolas e casas, têm suas esperanças depositadas em uma demanda legal apresentada contra a Tepco em fevereiro. “Este processo é a única coisa que deu algum significado às nossas vidas depois que perdemos nossas cassas, nossa forma de sustento, nossa comunidade e a confiança nas autoridades”, afirmou Susumi Yamasawa, que coordena o grupo de moradores. Yamasawa, de 69 anos, produtor de arroz em Odaka durante décadas, disse à IPS que “a vida era pacífica, e até acontecer o acidente não nos preocupávamos muito quanto aos riscos da usina nuclear próxima”. Acrescentou que “o mais difícil é ver nossa comunidade se desintegrar. Os jovens e as crianças partiram para evitar os riscos da radiação. O futuro é sombrio”. A ação legal do grupo de Yamasawa se une a várias outras apresentadas por pessoas afetadas pelos acidentes. “A paciência está acabando”, afirmou Ryuzo Sato, morador de Odaka. As casas temporárias, os reembolsos em dinheiro e os subsídios não podem compensar plenamente as vítimas, disse à IPS. Funcionários informaram que no mês passado a Tepco teria que pagar US$ 56,2 bilhões (quantia que poderia aumentar) em compensações por perdas econômicas e financeiras causadas pelo acidente. Mais de 1,7 milhão de pessoas foram afetadas em diversos graus. Hiroyuki Kawai, que lidera um grupo de 42 acionistas da Tepco que entraram com processo contra os diretores da empresa por negligência, afirmou que estes deveriam ser obrigados a pagar a compensação pessoalmente. Os acionistas da Tepco estão processando 27 executivos da companhia no valor de US$ 68 bilhões, quantia recorde no mundo. Kawai, que representa vários movimentos antinucleares no Japão, disse que com seu caso busca identificar as responsabilidades individuais nos graves erros cometidos pela gestão da companhia. “A Tepco não considerou as advertências de terremoto e tsunami feitas por pesquisadores, os quais alertavam sobre um alto risco para os reatores nucleares de Fukushima. O acidente mostra claramente negligência e irresponsabilidade por parte daqueles que representam a administração”, enfatizou Kawai. A acionista Yui Kimura, afirmou à imprensa, no dia 27 de março, que os demandantes haviam expressado reiteradamente sua preocupação por possíveis riscos de terremotos e tsunamis, mas que a gestão da empresa os ignorou. “O sistema japonês não permite que os promotores investiguem a Tepco. Nossa decisão de ir aos tribunais tem o objetivo de obrigar os indivíduos que cometeram os erros a assumirem sua responsabilidade pessoal e pagarem do próprio bolso”, acrescentou. A Tepco cortou os salários e as bonificações que dava aos seus empregados e criou comissões para coletar fundos para as compensações. A empresa solicitou dinheiro público e informou perda de US$ 7,6 bilhões desde a desativação dos reatores em Fukushima. Kawai explicou que com o processo também se pretende promover uma reforma do sistema japonês, que não reconhece as falhas individuais dos diretores de uma empresa em um caso como o de Fukushima, considerando apenas a responsabilidade coletiva da empresa. “A única forma de remediar um sistema injusto é fazer as pessoas que tomam decisões erradas pagarem por seus erros com seus próprios recursos”, destacou. Informações divulgadas após o acidente revelaram a falta de um manual de emergência na Tepco para este tipo de catástrofe, bem como uma absoluta falta de consideração quanto a medidas de segurança. “Quando protestávamos contra a central, o público nos olhava como se fossemos estranhos. Agora, sabem a verdade e nos apoia. A energia atômica tem a ver com interesses criados. Devemos nos pôr de pé e proteger a vida”, ressaltou. A crise de Fukushima teria sido evitada se a Tepco houvesse adotado simples medidas preventivas, como colocar uma fonte de energia de emergência em um terreno mais alto, sugeriu Kawai. A radiação se espalhou por uma extensa área, obrigando dezenas de milhares de pessoas a abandonar suas casas e suas terras. Mas o raio afetado continua crescendo, como parecem indicar os cogumelos encontrados no distrito de Kanagawa, parte do qual fica dentro da zona metropolitana de Tóquio. No dia 17 de março, um painel governamental recomendou pagar US$ 74 mil a cada pessoa impossibilitada de regressar para casa nos próximos cinco anos devido à radiação. O dinheiro também busca compensar o sofrimento psicológico dos que tiveram que partir, cujas casas “agora estão em uma área para a qual será difícil retornar por um longo tempo”, afirmou o painel, criado sob a órbita do Ministério de Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia. Se as recomendações forem aprovadas, os afetados também receberão em dinheiro o valor completo por suas propriedades. Envolverde/IPS


por Suvendrini Kakuchi, da IPS
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Espanha necessita da América Latina

Madri, Espanha, 11/4/2011 – A cooperação entre Europa e América Latina é essencial para a Espanha em vários aspectos, como economia, relações sociais e política internacional, segundo o ministro da economia espanhol, Luis de Guindos. O ministro destacou o papel do Brasil, “uma potência mundial”, cuja influência nas relações internacionais é cada vez maior, “e que para essas relações hispano-latino-americanas é transcendente”. Nessa linha, Guindos considerou muito importante avançar para uma consolidação da Comunidade Ibero-Americana, integrada pelos países de fala espanhola e portuguesa da América e da Europa, que anualmente realizam uma reunião de cúpula. A próxima será nos dias 16 e 17 de novembro em Cádis, sudoeste da Espanha. Essa Comunidade também deve fortalecer muito mais suas relações econômicas, financeiras, políticas, culturais e científicas, para impulsionar o desenvolvimento e a estabilidade de seus países-membros, disse o ministro. Um exemplo do que se deve fazer foi dado pela Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia (UE), ao enviar ao Parlamento Europeu e ao Conselho da Europa, no dia 30 de maio de 2007, um comunicado intitulado “Para uma associação estratégica UE-Brasil”. Nela propõe que o bloco de 27 países apoie medidas “flexíveis” necessárias para reduzir a pobreza e melhorar a situação econômica, política e ambiental da agora sexta potência do mundo. O documento também destaca que “a primeira prioridade consiste em estimular os intercâmbios, os contatos e a transferência de conhecimentos técnicos entre a UE e o Brasil, para melhorar a inclusão social, reduzir as desigualdades e aumentar os conhecimentos mútuos”. As relações da UE e em especial da Espanha com a América Latina e o Caribe também é muito importante para enfrentar a dramática crise econômica e social que afeta este país e outros do bloco europeu, afirmou o ministro, membro do governo do direitista primeiro-ministro Mariano Rajoy, no poder desde dezembro. Guindos antecipou em uma intervenção ontem, em um ato no Fórum Europa, que o produto interno bruto espanhol se manteve em queda no primeiro trimestre do ano, em um nível “muito semelhante” ao do trimestre anterior, quando a economia se contraiu em três décimos. Também reconheceu que tanto a contração econômica como o desemprego, que afeta mais de cinco milhões dos 47 milhões de habitantes do país, 23% da população ativa, não vai melhorar durante o ano, embora tenha destacado não acreditar que a situação “possa ficar muito pior” do que a atual. O ministro qualificou de “inevitável” o inédito ajuste fiscal estabelecido para este ano, por causa do “inaceitável déficit” herdado pelo novo governo. Também defendeu a redução do gasto em cerca de 20%, como base para impulsionar o crescimento econômico e as reformas necessárias, além de enfrentar “as atribulações dos mercados”. Sobre a América Latina, o ministro destacou que a região, nesta conjuntura tão negativa para a União Europeia, pode ter um papel especial para que o bloco desenvolva suas relações econômicas, comerciais e financeiras com a China, país que avança para se transformar na grande potência mundial. Sobre isto, Alfredo Sáenz, conselheiro-delegado do Banco Santander, um dos maiores da Espanha, com presença destacada na América Latina, afirmou que “os laços comerciais e de investimento” que a China mantém com essa região criarão grandes oportunidades de negócio para seu banco. José Galán Zazo, professor da Universidade de Salamanca, considerou que antes de 2015 a China substituirá a UE como segundo sócio da América Latina, atrás dos Estados Unidos. Diante disso, acredita que “se posicionar na China é ir pisando terreno daquela que será a locomotiva do Século 21 e isto gera tanto riscos quanto oportunidades”. Um exemplo já pode dar a privada companhia Telefonica da Espanha, com forte presença na América Latina e que já estabeleceu uma aliança estratégica com a China Unicom. As duas operadoras contam conjuntamente com 640 milhões de clientes no mundo e oferecem cobertura na Europa, Ásia e América Latina. A Telefonica tem 9,6% do capital da China Unicom, que, por sua vez, possui 1,37% da operadora espanhola. No entanto, o melhor exemplo da forte presença espanhola na América Latina é dada por seus dois grandes bancos, Santander e Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA), que obtêm nessa região cerca de 50% de seu lucro. Os participantes do Fórum Europa consideraram que um país com a Espanha, sem perspectivas de reencontrar o caminho da recuperação econômica e social até quase o final de 2013, pode melhorar sua situação se intensificar suas ligações com as áreas dinâmicas do Sul, em especial os países latino-americanos. Envolverde/IPS


por Tito Drago, da IPS
Kerry Kennedy Coluna

Mutilação genital feminina: uma prática difícil de erradicar

[caption id="attachment_48637" align="alignleft" width="243" caption="Kerry Kennedy"][/caption] Washington, Estados Unidos, abril/2012 – “Está louca, Fauziya?”, perguntou Cecilia. “O que é isso de querer voltar para Togo?”. Cecilia Jeffrey, também natural desse país, não podia acreditar no que ouvia. Sua amiga e companheira de quarto Fauziya Kassinja lhe confessara estar disposta a parar com sua luta para ser a primeira mulher na história dos Estados Unidos a obter asilo político para evitar a mutilação genital feminina em seu país. A fim de convencer a amiga a mudar de ideia, Cecilia lhe mostrou como seu corpo mudou para sempre quando teve suas genitais mutiladas no Togo. Mais tarde Fauziya contou que Cecilia conseguiu confrontá-la com a possibilidade de que o mesmo acontecesse com ela. “Me disse: se dá conta do que é isto e que também poderão provocar em você?”. “Eu nunca vira algo assim. Cecilia teve praticamente extirpadas as características externas dos genitais. Não se via mais do que uma cicatriz, uma sutura, e apenas um pequeno orifício. Foram arrancados os lábios da vulva e o clitóris, e a deixaram mutilada para sempre. Fiquei horrorizada e perguntei como pode viver assim”, descreveu Fauziya. “Cecilia respondeu que sofre cada vez que vê suas genitálias mutiladas e chora, grita por dentro sua dor e se sente fraca e derrotada”, contou a amiga. Mais de 140 milhões de meninas e mulheres sofrem, contra sua vontade, terem sua roupa de baixo tirada, serem obrigadas a abrir as pernas e terem cortadas brutalmente as partes externas das genitais com pedras afiadas, facas, tesouras, aparelho de barba ou outros cruéis instrumentos. Raramente com anestesia. A maior parte das vítimas dessa horrenda prática sofre atrozes dores e hemorragias e em caso de gravidez têm complicações que frequentemente levam à morte. Também é comum contrair HIV/aids ou hepatite devido à utilização de instrumentos sem esterilização. As sobreviventes sofrem de estresse pós-traumático, depressão ou outros problemas psicológicos. A cada dia, oito mil meninas, com idade entre duas semanas de vida e 15 anos, correm o risco de serem vítimas de mutilações ou cortes dos genitais. Graças aos esforços de mulheres apoiadas por organizações não governamentais, governos e as Nações Unidas estão fazendo algum progresso. Milhares de comunidades da África e do Oriente Médio decidiram acabar com a mutilação genital feminina. Legisladores comprometidos aprovaram leis que a tornam ilegal. Graças aos esforços de muitos países africanos e da Itália, que há muito tempo é líder na luta contra essa prática, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Assembleia Geral da ONU, se conseguiu que essa luta seja uma prioridade. Contudo, há muito por fazer. Faltam mais médicos que eduquem os pacientes sobre os prejuízos causados pelo corte genital. Segundo a ONU, as vítimas correm maior risco de recorrer a uma cesariana ou a uma episiotomia em seus partos e de sofrerem hemorragia pós-parto. Tanto a mortalidade materna quanto a infantil é mais frequente nas mães que sofreram mutilação. É necessário que mais líderes e militantes convençam as comunidades a se comprometerem a acabar com essa prática. Líderes religiosos que pregam contra a mutilação em suas igrejas ou mesquitas provocam significativos progressos. Na verdade, há uma crença comum de que a mutilação tem uma origem religiosa, embora seja mentira que esteja citada na Bíblia ou no Alcorão. Os profissionais da saúde devem desautorizar a prática e se recusar a realizá-la nos hospitais. Há uma preocupante tendência nas últimas décadas à “medicalização” da mutilação genital feminina. Uma melhor cobertura dos meios de comunicação poderia ter um papel importante. Televisão, rádio, jornais e revistas, bem como as artes, incluindo música, teatro e outras expressões, têm um impacto positivo na campanha para eliminar a mutilação genital feminina. A ilegalidade implica a desaprovação do Estado, permite que se compense as vítimas e que se responsabilize pelo crime de violência aqueles que o cometeram. É dissuasivo para quem pratica e dá legitimidade a quem busca abandonar essa prática. Envolverde/IPS * Kerry Kennedy é presidente do Robert F. Kennedy Center for Justice and Human Rights.


por Kerry Kennedy*
Shyam Saran. Foto: Divulgação Inter Press Service - Colunistas

IV Cúpula Brics: sabores chineses com curry indiano

[caption id="attachment_48537" align="alignleft" width="250" caption="Shyam Saran. Foto: Divulgação"][/caption] Nova Délhi, Índia, abril/2012 – A Declaração e o Plano de Ação adotados em Nova Délhi na Quarta Cúpula Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), no dia 29 de março, deveriam ter dissipado qualquer ansiedade que restasse nas capitais do Ocidente sobre a perspectiva de que um sério foco de poder estivesse se formando na capital indiana. Um simples olhar no Plano de Ação bastaria para acabar com qualquer ilusão de que a Quarta Cúpula fosse uma tentativa concreta nesse sentido. Enquanto a Declaração promete muito, o Plano de Ação é interpretado prevalentemente como uma mera enumeração de metas. Teria sido correto apresentá-lo como uma tentativa de calendários de possíveis reuniões, mas não lhe cabe um status de Plano de Ação. A Declaração leva a clara marca da China e em parte da Rússia, em algumas questões econômicas e políticas. Isto se lê nas apenas veladas mas incomuns duras críticas à Associação Transpacífica (TPP) patrocinada pelos Estados Unidos e dirigida principalmente contra a China. A Declaração diz: “Nós não apoiamos iniciativas unilaterais contrárias aos princípios fundamentais de transparência, inclusão e multilateralismo. Tais iniciativas distraem os membros de sua tarefa de obter resultados coletivos e não servem para compensar o déficit em matéria de desenvolvimento herdado de rodadas anteriores”. A Declaração critica indiretamente os Estados Unidos por sua política de excessiva expansão monetária. A China está preocupada porque isto reduz o valor de suas ingentes reservas em dólares e inunda alguns mercados, como os da China e do Brasil, com capitais especulativos. Mas a Índia prefere que continuem essas medidas de estímulo de Washington, de modo que não diminua a demanda por suas exportações. Apesar dos riscos que representam os fluxos de capitais em busca de rendimentos fáceis, a Índia parece ansiosa por recebê-los quando experimenta a queda do nível de investimentos. As posições políticas articuladas na Declaração do Brics seguem as linhas previstas, mas a linguagem reflete a postura mais firme adotada por Rússia e China sobre a possibilidade de uma intervenção na Síria e a imposição de sanções ao Irã. Nas capitais ocidentais se interpreta que essas formulações implicam um predomínio de China e Rússia, apesar das posturas mais matizadas de Brasil, Índia e África do Sul. Sobre a reforma da Organização das Nações Unidas (ONU), a Declaração adota a conhecida posição chinesa de apoiar as aspirações de Brasil, Índia e África do Sul “de terem um papel maior na ONU”, sem apoiar suas candidaturas a membros permanentes do Conselho de Segurança. A Rússia, que havia apoiado formalmente a candidatura da Índia, agora se alinhou com a China. Na cúpula foram adotados dois relevantes acordos. O primeiro, denominado “extensão de facilidades creditícias”, abre a perspectiva de que as relações comerciais entre os cinco países sejam efetuadas entre suas próprias moedas, deixando de lado o dólar. Contudo, um desafio sério somente poderá surgir quando as moedas dos Brics forem de livre conversão e estiverem apoiadas por uma sólida e variada infraestrutura financeira e bancária semelhante às das economias ocidentais. O segundo acordo também objetiva incentivar o comércio mediante facilitações de crédito entre os países do grupo e, uma vez implementado, é provável que diminuam os custos das transações. O Fórum de Negócios do Brics, reunido na véspera da Cúpula, recomendou que seus membros atinjam a meta de US$ 500 bilhões de intercâmbio comercial até 2015, o que significaria mais do que duplicar os US$ 230 bilhões atuais. A premissa de liberalizar as regulações comerciais foi assinalada, mas sem a adoção de compromissos. Antes da realização da Cúpula se antecipava que seria anunciada a criação de um banco de desenvolvimento do Brics, que seguiria as linhas do Banco Mundial, mas focado fundamentalmente no financiamento de projetos nos países do grupo e em outras nações em desenvolvimento. No entanto, a prudência parece ter ganho a partida. Os ministros de Finanças foram encarregados do exame da viabilidade dessa proposta. Esta iniciativa era vista como importante contribuição das economias emergentes para a promoção do crescimento em seus próprios países e em outras nações em desenvolvimento, junto com um empurrão conjunto a favor da reforma das instituições financeiras internacionais e a elevação do papel do grupo no cenário internacional. Porém, em lugar de ser aprovada, foi entregue à consideração de uma comissão. O Brics já é considerado um fator influente nas relações internacionais. Tem peso econômico e político suficiente para desempenhar um papel, já que é capaz de atuar conjuntamente em assuntos fundamentais. Entretanto, ao contrário do G-7, o grupo carece de um ponto ideológico e cultural comum. As perspectivas em matéria de segurança de seus membros não estão alinhadas. Em termos de objetivos econômicos, estes países têm interesses tanto convergentes quanto divergentes. Em um futuro previsível as perspectivas mais realistas para o Brics parecem ser as de trabalhar como uma coalizão nos assuntos de interesse comum, como a reforma das instituições financeiras internacionais, a resistência ao protecionismo e a promoção do crescimento econômico nos países em vias de desenvolvimento. Não há dúvida de que fazer parte deste grupo dá a cada um de seus membros um pequeno espaço adicional para manobrar cara a cara diante de países avançados. Índia e China, operando conjuntamente com o Brics, podem mitigar os elementos de confrontação entre eles próprios. É claro, no entanto, que a China está emergindo como o sócio proeminente deste grupo. Envolverde/IPS * Shyam Saran, ex-secretário de Relações Exteriores da Índia, preside o Sistema de Pesquisa e Informações para os Países em Desenvolvimento (RIS).


por Shyam Saran*
Refugiados sírios do campo de Oncupinar, atacado pelas forças do regime de Assad. Foto: AFP Inter Press Service - Reportagens

Crise da Síria atinge a Turquia

[caption id="attachment_48534" align="alignleft" width="300" caption="Refugiados sírios do campo de Oncupinar, atacado pelas forças do regime de Assad. Foto: AFP"][/caption] Doha, Catar, 10/4/2012 – Disparos vindos do lado sírio da fronteira atingiram ontem um acampamento de refugiados localizado em território turco, ferindo pelo menos três pessoas, sendo dois refugiados e um tradutor turco. O incidente aconteceu no acampamento de Kilis, na província turca de Gaziantep, informou um funcionário do Ministério das Relações Exteriores da Turquia. Porém, não está claro se o acampamento foi alvo deliberado de um ataque. Outro funcionário da chancelaria turca disse que após o episódio o encarregado de negócios da Síria em Ancara foi convocado pelo Ministério. “Exigimos que esses disparos acabem”, enfatizou o funcionário. Anita McNaught, da rede de televisão árabe Al Jazeera, informou em um comunicado, da localidade turca de Antakya, que o incidente implica “uma destacável escalada das tensões nessa área fronteiriça já tensa”. O incidente aconteceu depois de alguns informes indicarem que forças do governo sírio tentavam impedir que refugiados entrassem na Turquia. Milhares de sírios estão refugiados em oito acampamentos instalados nas províncias turcas de Hatay e Gaziantep, enquanto outros seguiram para Líbano, Jordânia e Iraque. Neste contexto, parece particularmente frágil o acordo de cessar-fogo na Síria, mediado pela Organização das Nações Unidas (ONU), cuja entrada em vigor está prevista para hoje. No último momento, o governo de Bashar Al Assad fez novas reclamações que foram rechaçadas pela oposição armada. Segundo esse acordo, que teve a intermediação de Kofi Annan, enviado especial da ONU, da Liga Árabe e da Síria, o exército deve se retirar hoje das cidades opositoras, pondo fim às lutas 48 horas depois. Desde então, o regime de Assad disse que só cumpriria sua parte no trato se os rebeldes primeiro entregassem garantias por escrito de que deixariam de lutar. O líder do maior grupo armado da oposição, o Exército Síria Livre (FSA), não aceitou o pedido. A China pediu urgência à Síria no sentido de cumprir seu compromisso anterior e deixar de combater e começar a retirar seus soldados, ao mesmo tempo em que chamou a oposição a também cumprir seus compromissos. "Bando criminoso" O coronel Riad al-Asaad, do FSA, destacou que seu grupo está comprometido com a paz, mas que daria garantias somente à comunidade internacional, e não ao governo sírio. “Não é um regime no governo do país. É um bando criminoso. Assim, não lhe daremos garantias”, afirmou à Al Jazeera, apenas horas depois de o governo ter apresentado sua demanda, no dia 8. O coronel afirmou que, se o governo sírio se ater ao plano de seis pontos apresentado por Annan para acabar com a violência, o FSA também não atacará. Além disso, cobrou que o governo retire suas forças e as bases e tire das ruas os postos de controle. Na semana passada, o regime de Assad aceitou o acordo para o cessar-fogo, que também exige que combatentes do governo e da oposição deponham suas armas às 6 horas locais (1 hora de amanhã em Brasília) do dia 12. Por sua vez, Annan pediu urgência ao governo sírio no sentido de implantar plenamente seu compromisso com o cessar-fogo, e condenou “um aumento da violência e das atrocidades”. Idlib bombardeada O objetivo da trégua é preparar o caminho para as negociações entre governo e oposição em torno do futuro político da Síria. Porém, vários ativistas afirmam que soldados sírios continuam atacando regiões estratégicas. Forças leais ao presidente Assad também bombardearam uma área na província Síria de Idlib, perto da fronteira com a Turquia, deixando dezenas de mortos ou feridos, informaram no dia 8 ativistas da oposição. Aproximadamente 90 tanques e blindados, apoiados por helicópteros, bombardearam a planície de Al Rouge, sudoeste da cidade de Idlib, a capital provincial, informou a agência de notícias Reuters citando ativistas de dentro da Síria e na fronteira com a Turquia. Os ativistas também indicaram que combatentes do FSA foram cercados em Al Bashiriya, uma das cerca de 40 aldeias localizadas na planície. O Conselho Nacional Sírio, como se conhece a principal aliança da oposição, pediu no dia 8 uma intervenção da ONU, depois de grupos de monitoramento informarem que 86 dos assassinados no dia 7 eram civis. As localidades que ficam ao norte de Aleppo sofrem há vários dias enfrentamentos e bombardeios, o que levou três mil civis a fugirem pela fronteira turca somente no dia 6. O número é dez vezes maior do que o registrado diariamente antes de Assad aceitar o plano de Annan, há dez dias. “No momento temos 24 mil sírios que entraram na Turquia. Naturalmente, este número aumentará”, informou o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, no dia 7, antes de viajar para a China. “Em particular, Annan tem que se manter firme. Anunciou como data limite 10 de abril. Creio que ele deveria monitorar a situação muito de perto”, acrescentou. A ONU estima que pelo menos nove mil pessoas foram assassinadas na Síria desde que a crise começou, há 13 meses. Envolverde/IPS


por Correspondentes da IPS
Historia Ira - BRASIL ESCOLA Inter Press Service - Reportagens

Uma luz de esperança para a juventude iraniana

Raleigh, Estados Unidos, 10/4/2012 – A maior parte do poder político no Irã está nas mãos de homens idosos com barba, que vestem togas e turbantes, com exceção de um homem pequeno, de aspecto caricaturesco e com tendência à provocação. Contudo, é provável que essa realidade mude nos próximos anos, na medida em que os jovens começarem a entrar na esfera política. Como força motora por trás dos protestos maciços registrados após a disputada reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad no verão boreal de 2009, os jovens iranianos demonstram que estão comprometidos com a democracia, bem como com as reformas sociais e políticas. Cerca de 70% dos iranianos têm menos de 35 anos. A corrupção política aumenta, como o desemprego e a inflação (sem mencionar a constante censura, as absurdas leis “de moralidade” e os arcaicos códigos de vestimenta). Neste contexto, os jovens estão cada vez mais desencantados com o atual regime. O pró-democrático Movimento Verde, que nasceu em 2009, esteve em gestação pelo menos por uma década. Os maiores protestos de massa antes desse verão haviam acontecido dez anos antes. De novo, os jovens foram os protagonistas. Daí que a série de manifestações, que em 2009 reuniram um milhão de pessoas nas ruas de Teerã e de outras importantes cidades do país, representaram uma espécie de sequela dos protestos estudantis de 1999, que tiveram participação de milhares deles. O fato de que em 2009 a quantidade de manifestantes tenha se multiplicado por várias centenas no prazo de uma década demonstra o crescente descontentamento entre os jovens iranianos, e sua determinação em buscar reformas sociais e econômicas. E também sugere que há um grande potencial para uma trilogia. Embora as manifestações desse ano não tenham desembocado em uma revolução ao estilo da registrada no Egito, alteraram de modo significativo o cenário político iraniano. Em primeiro lugar, graças às disputadas eleições presidenciais das quais os resultados foram anunciados antes de terminar a apuração dos votos, a confiança dos cidadãos na legitimidade do regime apresenta seus mais baixos índices desde a Revolução Islâmica (1979). Além disso, como o regime não conseguiu aumentar as oportunidades de emprego para um número cada vez maior de formandos universitários, muitos jovens com instrução e desempregados são vítimas das armadilhas de tempos econômicos desesperados. Por exemplo, apesar das habituais execuções às quais o regime iraniano submete os que vendem drogas e inclusive os usuários, o abuso dessas substâncias se tornou um problema sério, que afeta de forma desproporcional os jovens. A droga mais em moda é o crack, muito mais forte e viciante, e já devastou famílias inteiras. O Irã também se converteu em um centro para o tráfico humano, mas o governo se comprometeu muito mais com a perseguição aos narcotraficantes. Finalmente, embora seja difícil ter acesso a estatísticas oficiais, o suicídio também parece estar crescendo e, majoritariamente, entre os jovens. Em resumo, o atual clima social, político e econômico deixa poucas opções para muitos jovens. Com a esperança de evitar um futuro de pobreza, drogas, crimes e violência, muitos tentam emigrar. Poucos conseguem, e mesmo para os que partem o êxito está marcado por um constante estado de saudades e distanciamento. Com tudo isto em mente, se poderia esperar que a maioria dos jovens iranianos estivesse desesperançada. Mas não. Apesar de todas estas realidades devastadoras, persiste um sentimento de otimismo. Talvez isto pareça irracional, mas, para os descendentes de aproximadamente 2.500 anos de civilização persa, a derrota não é algo que se aceite com facilidade. Por outro lado, o aumento dos choques internos entre o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad, infundiu ainda mais esperanças nos muitos jovens que integram o movimento pró-democracia. Os enfrentamentos entre estes dirigentes são muito mais do que um sinal de sua falta de apoio popular. Pelo contrário, são um sinal de sua debilidade e miopia, além de uma oportunidade de ouro para que os reformistas jovens se voltem contra o sistema. Isto pode ocorrer nas próximas eleições presidenciais, em meados de 2013, ou mesmo antes. Seja qual for o caso, em pouco tempo o poder político cairá no colo dos jovens iranianos. E, quando isto acontecer, haverá uma mudança. Enquanto isso, os filhos da Revolução Islâmica ainda exercem o ativismo, e, enquanto os velhos lutam entre si, as jovens e os jovens criam o cenário para um novo capítulo na política iraniana. Envolverde/IPS * Melody Moezzi é jornalista, analista, conferencista, ativista, escritora e advogada, e diretora-executiva da organização não governamental 100 People of Faith. © 2012 Global Experts, um projeto da Aliança de Civilizações das Nações Unidas.


por Melody Moezzi*

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