Etiópia lidera a revolução do bambu

Inter Press Service - Reportagens

Etiópia lidera a revolução do bambu


por Ed McKenna, da IPS


[caption id="attachment_83061" align="alignleft" width="300" caption="Em Gana, o bambu é usado na fabricação de bicicletas que são exportadas para a Áustria. Já a Etiópia tem um milhão de hectares de bambu não aproveitado comercialmente. Foto: Portia Crowe/IPS"][/caption] Adis Abeba, Etiópia, 10/4/2013 – A abundância de bambu e a sede de investimentos estrangeiros estão convertendo a Etiópia em epicentro da revolução industrial dessa planta na África, segundo o governo. “O país tem os recursos, os investimentos e uma indústria manufatureira de rápido desenvolvimento, e há uma forte demanda por nossos produtos em mercados estrangeiros. Temos o que precisamos. A expansão do setor do bambu na África começou”, disse à IPS o ministro de Agricultura e Desenvolvimento Rural etíope, Mitiku Kassa. Este país tem atualmente a maior área (um milhão de hectares) de bambu não aproveitado comercialmente na África oriental, o que o torna atraente para os sócios investidores desta indústria. Kassa disse que sua pasta não está disposta a revelar nenhuma cifra sobre a economia do bambu, mas acrescentou que, formalmente, esta não se desenvolveu no país até 2012. “O potencial de mercado para o bambu na Europa é enorme. Acreditamos que na Etiópia é possível estabelecer uma cadeia de fornecimento confiável e efetiva para criar uma indústria que manufature o bambu”, disse Felix Boeck, engenheiro-adjunto na Africa Bamboo PLC, uma associação público-privada que conta com participação de etíopes e que em 2012 contou com apoio da cooperação alemã para o desenvolvimento. A associação planeja investir dez milhões de euros (US$ 13 milhões) nos próximos cinco anos em suas operações de manufatura com sede na Etiópia. Isto permitirá fornecer produtos competitivos para a elaboração de pisos para mercados da Europa e dos Estados Unidos. Em 2014, a companhia planeja exportar cem mil metros quadrados de bambu para pisos, e até 2016 espera que esta cifra aumente para 500 mil metros quadrados. “O mercado de crescimento mais rápido na Europa para a indústria da madeira é a elaboração de pisos e deques, habitualmente de madeira. Esperamos que nossos produtos desempenhem um grande papel neste mercado”, pontuou Boeck à IPS. Em comparação com as árvores de madeira branda, cuja maturação pode demorar 30 anos, o bambu é um recurso totalmente maduro depois de três anos, o que o torna sustentável do ponto de vista comercial e ambiental. A África subsaariana tem três milhões de hectares de florestas de bambu, cerca de 4% da cobertura florestal total do continente. A Etiópia planeja aumentar sua cobertura de bambu para dois milhões de hectares nos próximos cinco anos. Pequenos agricultores de bambu, como Ghetnet Melaku, participam com entusiasmo do desenvolvimento do setor, se é que os investimentos em sua expansão incluem os produtores de pequena escala. “Simplesmente estou ganhando dinheiro suficiente para viver produzindo bambu para o mercado local de artesanato e, se tivesse a oportunidade, gostaria de aumentar minha capacidade para uma produção mais qualificada e conseguir melhor retorno financeiro”, afirmou Mekalu à IPS. A Rede Internacional de Bambu e Ratã (Inbar) é uma organização intergovernamental que ajuda governos, empresas e comunidades locais a identificarem oportunidades inovadoras para o desenvolvimento humano a partir desse produto. Isto está ajudando a sensibilizar os governos africanos diante do alto potencial do bambu como recurso versátil e renovável que pode gerar desenvolvimento sustentável. Segundo a Inbar, um bilhão de pessoas em todo o mundo usam bambu em suas vidas cotidianas como material para construção de moradias e muros, como alimento e para produção de artesanato, entre outros. “Se manejado adequadamente, este recurso altamente versátil pode estimular o crescimento econômico em um mercado mundial de exportações avaliado em US$ 2 bilhões em 2011, e também reduzir o desmatamento e as emissões de carbono”, apontou à IPS o diretor-geral da Inbar, J. Coosje Hoogendoorn. O desmatamento devastou o meio ambiente africano. A previsão é de que as emissões de carbono derivadas da queima de madeira chegarão 6,7 milhões de toneladas até 2050 somente nesse continente. Como 90% da população da África subsaariana usa lenha ou carvão vegetal para cozinhar, o desenvolvimento de um recurso alternativo como o bambu se tornou essencial. “Obter combustível para cozinhar é crucial para a segurança alimentar”, destacou Hoogendoorn. “O arroz, o milho e os legumes requerem calor para poderem ser consumidos. Alternativas renováveis como o bambu podem ajudar a minimizar o desmatamento causado pelo corte de madeira branda para obter combustível para cozinhar e para construção de moradias”, acrescentou. O governo da Etiópia proibiu a produção de carvão com lenha queimada para venda, e promove ativamente alternativas sustentáveis como o bambu. Embora este seja um dos países com maior desmatamento na África, aumentou sua cobertura florestal para 7% em relação aos 3% de uma década atrás, comparada com uma original de 40%. Segundo Hoogendoorn, os governos têm que tornar disponíveis os recursos financeiros para as empresas que querem desenvolver a indústria do bambu no continente. A alta demanda por produtos agrícolas da Etiópia, como o bambu, podem pautar o crescimento e o desenvolvimento para os pobres do país se gerar oportunidades de emprego e não explorar os agricultores e a terra, advertiu o pesquisador Steve Wiggins, do Instituto para o Desenvolvimento de Ultramar, da Grã-Bretanha. “É bom que haja outra fonte de demanda para os produtos agrícolas, sempre e quando a economia do bambu oferecer retornos decentes para a terra e a mão de obra, possam ser forjados tratamentos equitativos na cadeia de fornecimento e o cultivo ser ambientalmente sustentável”, ressaltou Wiggins à IPS. Envolverde/IPS

caderno Inter Press Service - Reportagens

Deixar jovens na rua cria um “desastre social”

[caption id="attachment_83054" align="alignleft" width="231" caption="Carl Siciliano, fundador e diretor do Centro Ali Forney. Foto: Cortesia do Centro Ali Forney."][/caption] Nova York, Estados Unidos, 10/4/2013 – Os jovens sem lar levam uma vida brutal nas ruas, sofrem problemas psicológicos, abuso de drogas e violência sexual. Apesar de custar apenas US$ 6 mil resgatar um deles dessa situação, é pouco o que se faz para ajudá-los. Como fundador e diretor-executivo do Centro Ali Forney, uma organização que ajuda jovens lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), Carl Siciliano viu com seus próprios olhos como é difícil para eles viver nas ruas. Siciliano criou o centro em 2002 e o batizou com o nome de Ali Forney, um jovem assassinado na rua que ele chegou a conhecer. “Quando jovem eu era muito religioso e trabalhei com pessoas sem lar. Quando saí do armário, quis encontrar a forma de integrar meu trabalho com o fato de ser gay”, contou. A IPS conversou com Siciliano sobre o Centro Ali Forney, sobre os jovens que abriga e sobre o que é preciso para melhorar a situação da comunidade LGBT. IPS: Quais serviços sua organização oferece e o que gostaria de oferecer mas não pode? CARL SICILIANO: Temos gente que entra em contato com os jovens nas ruas e apresenta o nosso programa. Também contamos com um centro no Harlem (bairro do norte da ilha de Manhattan), que oferece alimentação, roupa e banhos, além de atenção psicológica, médica e, em especial, para abuso de drogas. Além disso, podem ficar entre três e seis meses no contexto de nossa iniciativa de moradia de emergência, enquanto buscam um lugar permanente. Também temos um programa para jovens que conseguem um trabalho ou estudam. Estes podem ficar até dois anos. Cerca de 90% dos jovens estão empregados e 75% estudam. Costumam conseguir um trabalho e mudar para sua própria casa. Tenho outras ideias que gostaria de implantar, como um programa de moradia específico para jovens transgênero, que são os mais vulneráveis e sofrem maior grau de violência e assédio nas ruas. Também gostaria de criar um modelo de apartamentos do tipo estúdio com muita supervisão para jovens com problemas psicológicos ou atraso no desenvolvimento, que têm dificuldade para lidar com residências coletivas. Um jovem de Uganda se aproximou de nós e nos disse que seus pais o jogaram na rua e temia por sua vida. Gostaria de criar uma rede internacional que possa ajudar os jovens a abandonarem países onde suas vidas correm perigo para se aproximarem de nós ou de outras iniciativas. IPS: Os jovens LGBT representam 40% dos que vivem nas ruas. Como pequeno abrigo, quais os maiores desafios que o Centro Ali Forney enfrenta? CS: O maior problema é a falta de recursos. Temos apenas 250 camas para os 3.800 jovens sem lar que há em Nova York. Na lista de espera temos entre 150 e 200 jovens. É muito duro ter que dar as costas a muitos deles todas as noites. Nosso trabalho cotidiano é muito difícil. Às vezes temos que lidar com situações de violência. Os jovens LGBT têm um alto risco de suicídio e os vigiamos constantemente. Procuramos protegê-los, mas gostaria que houvesse um compromisso maior da cidade em oferecer-lhes segurança. IPS: O que costuma atrair o jovem para o Centro Ali Forney? Que tipos de ameaças sofrem? CS: O maior denominador comum costuma ser a rejeição familiar. Cerca de 75% denunciam assédio ou abuso em suas casas por serem LGBT. Alguns são colocados na rua. Outros sofrem tanta violência e crueldade que se torna intolerável permanecer em casa. Muitos pais não sabem como lidar com um filho gay. Em comparação com outros jovens sem lar, os LGBT sofrem o dobro de violência nas ruas porque apanham por serem gays. Apanham de jovens em outros abrigos, ou em um centro católico, por exemplo, são taxados de pecadores e lhes dizem que irão para o inferno. Muitos se voltam para a prostituição, o que aumenta o risco de sofrerem violência e contraírem o vírus HIV, causador da aids. Quase 20% dos jovens LGBT sem lar de Nova York são portadores do vírus. O estresse e a pressão de não ter um lar e o trauma da rejeição familiar deixam sequelas psicológicas. IPS: O que deveriam fazer organizações políticas e internacionais como as Nações Unidas para melhorar a situação dos jovens LGBT? CV: Nova York tem um sistema de abrigo para crianças e adultos, mas os que estão na faixa dos 16 aos 24 anos não se ajustam a esses sistemas. Os dirigentes políticos devem compreender e reconhecer que é um desastre deixar estes jovens nas ruas. Se conseguem apoio adequado podem encontrar emprego, ir à escola e se converterem em adultos independentes e saudáveis. Se são deixados nas ruas, se tornam viciados e contraem HIV/aids. Passarão a representar um custo enorme e uma carga para a sociedade. Ainda que os dirigentes considerem essa situação do ponto de vista de uma política pública inteligente e não em termos de decência humana, simplesmente não tem sentido deixá-los nas ruas. Estão criando um desastre social. Quanto às organizações internacionais, o mais importante é compreender que a homofobia cria um ambiente de abuso e rejeição. As organizações que tentam combater a homofobia devem se concentrar mais em como afeta os jovens, como os deixa inseguros em suas casas e coloca em risco o bem-estar infantil. Seria mais difícil para instituições conservadoras que promovem a homofobia, como a Igreja Católica, fazê-lo se essas conexões estivessem mais claras. Envolverde/IPS  


por Mathieu Vaas, da IPS
Agricultoras de Bangladesh preferem variedades de cultivos resistentes à mudança climática. Foto: Naimul Haq/IPS Inter Press Service - Reportagens

Propriedade da terra preocupa o Banco Mundial

[caption id="attachment_83049" align="alignleft" width="300" caption="Agricultoras de Bangladesh preferem variedades de cultivos resistentes à mudança climática. Foto: Naimul Haq/IPS"][/caption] Washington, Estados Unidos, 10/4/2013 – O Banco Mundial anunciou que dará maior ênfase aos problemas relativos à posse da terra e à sustentabilidade social e ambiental dos investimentos agrícolas. A instituição, uma das maiores prestamistas para o desenvolvimento no mundo, também reiterou sua preocupação pela posse corporativa de terras em grande escala, que nos últimos anos afeta vastas extensões da África. “O Grupo do Banco Mundial compartilha as preocupações com os riscos das aquisições de terra em grande escala”, disse o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em um comunicado divulgado no dia 8 pela sua sede, em Washington. “Garantir o acesso à terra é crucial para milhões de pessoas pobres. As políticas modernas, eficientes e transparentes sobre a propriedade agrária são vitais para reduzir a pobreza e promover o crescimento, a produção agrícola, melhor nutrição e desenvolvimento sustentável”, afirmou Kim. Após décadas nas quais a agricultura foi quase ignorada pelos investidores internacionais, doadores bilaterais e instituições multilaterais, como o próprio Banco Mundial, nos últimos anos cresceu o interesse por este setor. Kim observou que o Banco também aumentou seus investimentos em agricultura, mas alertou que “são necessários mais esforços para criar capacidade e salvaguardas para os direitos à terra, e para empoderar a sociedade civil para que exija que os governos prestem contas”. Antes de sua conferência anual de quatro dias sobre terra e pobreza, esta semana em Washington, a instituição afirmou que a população mundial terá aumentado em dois bilhões de pessoas até 2050, o que exigirá ampliar em 70% a produção agrícola do planeta. Apesar de reiterar os apelos por novos investimentos públicos e privados tanto em pequena quanto em grande agricultura, o Banco alerta que “os investimentos sozinhos não serão suficientes” para conseguir o aumento de produção que se precisa. O Banco Mundial pediu urgência na adoção de normas nacionais e internacionais mais firmes em matéria de investimentos e propriedade agrária, para ajudar os agricultores de todo o mundo a melhorarem seus rendimentos. “As terras disponíveis escasseiam, e há todo tipo de especulador e investidor inescrupulosos explorando pequenos agricultores, pastores e outros produtores que carecem de poder para defenderem seus direitos. Isto ocorre sobretudo em países com regimes agrários fracos”, afirma o Banco Mundial. Por isso, a instituição fortalecerá os esforços para melhorar a governança agrária, proteger os direitos dos proprietários e promover políticas “que reconheçam todas as formas de posse da terra e ajudem as mulheres a conseguirem tratamento igual na matéria”. Devido à maior instabilidade dos preços mundiais dos alimentos e à demanda por biocombustíveis nos últimos cinco anos, as terras agrícolas se converteram em uma lucrativa commodity, ou produto básico negociável, para os investidores internacionais, que se centram particularmente na África. Pesquisa do Banco Mundial, realizada em 2011, mostra que somente em 2009 investidores privados compraram ou arrendaram 60 milhões de hectares em países em desenvolvimento. Em muitos casos, organizações locais da sociedade civil alertam que estas transações ocorrem com a cumplicidade do governo e sem atender normas internacionais para consulta às partes afetadas. “Há governos que cedem terras a investidores internacionais, gratuitamente ou a preços preferenciais, com a ideia de que dessa forma conseguirá um desenvolvimento mais rápido”, disse à IPS o especialista Nicholas Minot, do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares, com sede em Washington. “Até certo ponto, isso tem lógica, mas há uma grande questão: se essa terra era propriedade do governo ou se estava ocupada por pequenos agricultores sem títulos de posse. Estabelecer uma posse segura da terra para os camponeses é um assunto enorme, mas crucial”, acrescentou. A conferência desta semana sobre terra e pobreza, a décima-quarta organizada pelo Banco Mundial, é a maior já realizada, e inclui participações de governantes de vários países. “Este não é um assunto novo para o Banco, mas ganhou muito mais destaque, embora alguns países estejam mais interessados do que outros em conseguir maior transparência para melhorar a governança agrária”, afirmou à IPS o assessor sobre posse agrária da instituição, Jorge Muñoz. O Banco Mundial desenvolveu uma nova ferramenta para que os governos obtenham uma análise rápida da situação da propriedade agrária em seus territórios e do contexto legal vigente. O Marco de Avaliação da Governabilidade sobre a Terra já é utilizado por 33 países, segundo Muñoz. Além disso, o Banco ajuda a implantar as Diretrizes Voluntárias para a Governança Responsável da Posse da Terra, da Pesca e das Florestas no Contexto da Segurança Alimentar Nacional, aprovadas em maio de 2012 sob os auspícios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Segundo a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), pelo menos 22 países solicitaram assistência técnica para implantar essas pautas. Embora o projeto ainda esteja em fase-piloto, um “rascunho zero” será divulgado no próximo mês. “As regulações voluntárias nem sempre funcionam, mas neste caso podem ser a única maneira de garantir que os pequenos agricultores não sejam vítimas de abusos e possam possuir terras que talvez tenham ocupado por várias gerações”, disse à IPS Danielle Nierenberg, cofundadora da Food Tank, um centro de estudos com sede em Washington. “Sem estas diretrizes, ficaremos na anarquia. Governos e consumidores devem ter a iniciativa para que as corporações levem isto a sério”, acrescentou. O Banco Mundial também participa de outro processo da FAO para desenvolver uma série de Princípios para o Investimento Agrícola Responsável. Nos últimos anos, algumas organizações da sociedade civil questionaram o papel da instituição na facilitação de compras de terras em grande escala, especialmente seu braço para o setor privado, a Corporação Financeira Internacional. Entretanto, Muñoz disse que boa parte destas críticas exageraram o papel da instituição, que não se dedicou tanto a financiar quanto a oferecer ajuda técnica para as reformas. “Há um importante problema mundial na monopolização de terras. O papel do Banco é, essencialmente, conduzir a ajuda para que os países melhorem a governança agrária e para melhorar a conduta dos investidores privados”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Carey L. Biron, da IPS
Obama em visita a Israel.Foto: Pablo Martinez Monsivais / Associated Press Inter Press Service - Colunistas

Obama, Israel e Palestina

[caption id="attachment_83047" align="aligncenter" width="500" caption="Obama em visita a Israel.Foto: Pablo Martinez Monsivais / Associated Press"][/caption]   Bogotá, Colômbia, abril/2013 – O que tanto o mundo esperava da primeira visita de Barack Obama a Israel e Palestina? Não muito. As negociações de paz estão paralisadas e a situação do povo palestino, sob ocupação israelense, piora na medida em que a colonização judia em seus territórios avança inexorável, sem que os Estados Unidos consigam detê-la. Shlomo Ben Ami, ex-chanceler israelense e supostamente especialista na resolução de conflitos, entrevistado pelo jornal El Espectador, da Colômbia, comentou a visita, negando que os assentamentos judeus sejam um obstáculo para a paz. O “centro” da visita do mandatário norte-americano ao seu país foi uma “ofensiva de carinho e empatia” com os israelenses, para tentar “apagar” a “equivocada imagem que existia em Israel sobre sua pessoa”, e sua atitude em relação à “narrativa do povo judeu”, acrescentou. Ben Ami qualificou de “equívoco” a demanda apresentada por Obama ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de “suspender” seu programa de construção de novos assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém oriental, para permitir o reinício dos diálogos de paz. Netanyahu, sionista de ultradireita, ignorou tal demanda, e Obama engoliu a ofensa. A comunidade internacional condena cada vez mais essa política de ocupação e anexação ilegal que viola o direito internacional, das convenções de Genebra e de numerosas resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Tal política de colonização foi empreendida por Israel a partir de seu “triunfo” na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Contudo, poucos mencionam que essa foi uma guerra “preventiva”, que não obedeceu a nenhum enfrentamento com os países árabes Israel ignora, por mais de 60 anos, os mandatos da ONU e, segundo a Carta das Nações Unidas, isto seria motivo para sua expulsão. Mas Washington a vetaria. Obama reiterou os “laços inquebrantáveis” de seu país com Israel, apoiou sua aspiração a um “Estado judeu” (20% de sua população é árabe-israelense), criticou os assentamentos chamando-os de “obstáculo” para a paz, mas vetou as resoluções do Conselho de Segurança que os condenavam. Em Ramalá reiterou seu compromisso com a solução de dois Estados e a criação de um Estado palestino “independente e soberano, vivendo em paz com Israel”. Porém, as condições impostas por Netanyahu ao eventual Estado palestino, que Obama não questiona, o tornam inviável. A Cisjordânia está invadida por assentamentos judeus, com mais de 200 mil colonos, postos militares e estradas que unem as colônias, proibidas ao trânsito de palestinos. Além disso, Israel construiu o muro de separação em território da Cisjordânia e anexou 20% mais de suas terras. O Tribunal Internacional de Justiça o condenou e exigiu sua demolição. Mas nada aconteceu e sua construção continua. Netanyahu impede que a Palestina possa ser um Estado independente e soberano, como quer Obama. Em seu magistral discurso no Cairo, em junho de 2009, Obama deu um giro substancial no tradicional enfoque de Washington sobre o conflito Israel-Palestina. Pronunciou palavras nunca ouvidas da boca de um mandatário norte-americano. Mencionou o “inegável sofrimento” e as “humilhações” que sofre o povo palestino sob a ocupação, as qualificou de “intoleráveis” e se referiu aos “deslocamentos” (foram expulsões) e às “deportações” de sua gente, “como consequência da criação do Estado de Israel”. Mas continuou vetando as resoluções do Conselho de Segurança que os condenam. Também se opôs à aspiração Palestina ao reconhecimento como Estado observador não membro da ONU e puniu a Unesco com o corte de suas contribuições quando sua Conferência Geral, de forma esmagadora, acolheu a Palestina como membro. Em represália a tais decisões da ONU e da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o primeiro-ministro israelense anunciou a construção de novos assentamentos. Obama serviu de mediador no conflito entre Turquia e Israel. O primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, havia cortado relações depois dos ataques israelenses à Flotilha da Liberdade, condenados pela comunidade internacional, que tentou aliviar o brutal bloqueio contra a empobrecida população de Gaza. Morreram nove ativistas e 30 pessoas ficaram feridas. Obama insiste em relançar as negociações de paz em conversações diretas entre as partes, mas não oferece soluções viáveis. A Autoridade Nacional Palestina se nega a reiniciá-las enquanto continuar a expansão dos assentamentos. Centenas de manifestantes palestinos rechaçaram em Ramalá sua visita e o receberam com gritos de protesto: “Pare de apoiar os crimes de guerra israelenses”, “Estados Unidos, Israel e Grã-Bretanha são o triângulo do terror”. As promessas feitas no Cairo ficaram para a história. Obama ofereceu solucionar esse conflito e teria conseguido impor sua vontade, obter a criação do Estado palestino livre de assentamentos, o regresso às fronteiras existentes em 1967 e o restabelecimento dos direitos desse povo. Entretanto, inclinou-se diante da vontade férrea de Netanyahu, recentemente reeleito. A suposta segurança de Israel continua sendo a bússola da política de Washington no Oriente Médio. Com Síria e Irã, considerados países inimigos, está disposto a usar a força. Em uma guerra desigual, perdoou os ataques militares israelenses contra Gaza, que causaram enorme destruição e milhares de mortos civis, como retaliação aos foguetes lançados pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamás) contra Israel. Este país “tem direito de se defender”, afirmaram Obama e seus altos funcionários. Com essa política de Washington de apoio irrestrito a Israel, condenada pelo mundo muçulmano, e com a oposição de Netanyahu a fazer concessões, é difícil uma solução justa, que reconheça os direitos e interesses palestinos, o desmonte dos assentamentos, o regresso de seus refugiados e das fronteiras de 1967, como exigem a ONU e a Liga Árabe. Esse é o desafio que Obama terá que enfrentar daqui em diante. Envolverde/IPS * Clara Nieto é escritora e diplomata, ex-embaixadora da Colômbia na ONU e autora do livro Obama e a nova esquerda latino-americana.


por Clara Nieto*
dolar Economia

Um dólar ao ano não é nada… menos ainda na ONU

Nações Unidas, 9/4/2013 – O Grupo dos 77 (G-77), a maior coalizão de nações em desenvolvimento dentro da Organização das Nações Unidas (ONU), desafia a habitual prerrogativa de sucessivos secretários-gerais do fórum mundial para designar “enviados especiais”, cujos serviços são objeto de contratos nominais de “um dólar ao ano”. A nomeação destes enviados está fora das pautas tradicionalmente propostas ou supervisionadas pelo Comitê Assessor das Nações Unidas sobre Questões Administrativas e Orçamentárias, a chamada Quinta Comissão (de Assuntos Administrativos e Orçamentários), e pela Assembleia Geral. Ao longo dos anos houve dezenas de enviados especiais, entre eles o ex-presidente Bill Clinton (1993-2001), designado para o Haiti; o diplomata norueguês Terje Rød-Larsen, primeiro coordenador especial para o processo de paz no Oriente Médio que agora vigia o Líbano, e Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Colúmbia e atual assessor especial do secretário-geral para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Embora estejam contratados pelo salário nominal de um dólar ao ano, têm direito a numerosos benefícios pagos pela ONU, que incluem viagens e hospedagens em hotéis quando em suas funções. Ao Comitê Assessor foi dito que as designações “não representam a criação de postos e que os fundos extraorçamentários foram usados para cobrir os custos associados” às suas nomeações. Mas há pouca ou nenhuma transparência, seja sobre as pautas que regem as designações, seja para os gastos dos enviados especiais. Em declarações feitas com a condição de não ter seu nome revelado, uma fonte do G-77 disse à IPS que todas as nomeações feitas pela ONU estão sujeitas a normas e regulações. Estas incluem pautas relativas a uma distribuição geográfica equitativa, a um equilíbrio de gênero e aos mais altos padrões de eficiência, competência e integridade. Porém, em vista disso, afirmou que nenhum destes critérios é aplicado aos enviados especiais, que estão, majoritariamente, em altos postos da escala hierárquica da ONU, situando-se como diretores (D-1 e D-2), secretários-gerais adjuntos ou subsecretários-gerais. Na última semana de março, a Quinta Comissão, por iniciativa do G-77 e da China, finalizou o rascunho de uma resolução que “expressa preocupação diante da falta de controle no recrutamento de indivíduos D-1 e em contratos acima de um dólar por ano”. Nela é enfatizado que “os contratos de um dólar ao ano deveriam ser concedidos em circunstâncias excepcionais, e também deveriam estar limitados a designações de alto nível”. E, o que é mais importante, requer que o secretário-geral, Ban Ki-moon, prepare, pela primeira vez, “pautas relativas ao uso destes contratos”, que deverão ser apresentados na 69º sessão da Assembleia Geral, que começará em setembro de 2014. A resolução, que se espera seja adotada pela Assembleia Geral, alerta que “não será concedido nenhum contrato de um dólar por ano” enquanto o órgão da ONU estiver analisando essas pautas. “A Assembleia Geral, em seu rascunho de resolução sobre recursos humanos, enfatizou que os contratos de um dólar ao ano deveriam ser concedidos somente em circunstâncias especiais e limitados a designações de alto nível, que é a prática atual”, disse à IPS o porta-voz da ONU, Farhan Haq. Também requereu que o secretário-geral redija as pautas relativas ao uso destes contratos, de modo semelhante ao estabelecido para as designações dos “realmente empregados”, acrescentou. “A emissão de pautas para contratos de um dólar por ano garantirá um manejo mais constante dessas designações”, acrescentou Haq. Por último, destacou que a Assembleia Geral pediu a Ban Ki-moon que informe ao Comitê Assessor sobre a emissão desses contratos, bem como sobre a criação de certas categorias de postos, como os que são considerados “realmente empregados”. “Esta solicitação não tem nenhum impacto sobre a autoridade do secretário-geral para estender esses contratos ou criar esses postos”, disse Haq. E ao secretário-geral não se requer buscar a aprovação do Comitê Assessor, mas apenas mantê-lo a par das ações que tomar a este respeito, acrescentou. A resolução também “reitera sua preocupação quanto ao aumento do uso de consultores, especialmente nas atividades centrais da Organização”. Ao secretário-geral foi indicado que o uso de consultores “deveria ser regido pelas resoluções relevantes da Assembleia Geral”, incluída a necessidade de os potenciais candidatos serem escolhidos a partir da base geográfica mais ampla possível, e também lhe foi requerido “fazer o maior uso possível da capacidade interna”. Durante o biênio 2010-2012, foi concedido um total de 267 contratos de consultores e ex-membros do pessoal cujo último posto esteve no nível de subsecretário-geral, secretários-gerais adjuntos ou diretores, segundo informou no final de março a Quinta Comissão. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Peritos do Serviço Médico Legal exumam os restos de Pablo Neruda em Isla Negra. Foto: Marianela Jarroud/IPS Inter Press Service - Reportagens

Morte de Neruda ajuda a descerrar o véu da ditadura chilena

[caption id="attachment_82902" align="aligncenter" width="500" caption="Peritos do Serviço Médico Legal exumam os restos de Pablo Neruda em Isla Negra. Foto: Marianela Jarroud/IPS"][/caption]   Santiago, Chile, 9/4/2013 – O avanço da investigação no Chile sobre o possível assassinato de Pablo Neruda pela ditadura é visto como um grande passo na busca de verdade e justiça para as violações dos direitos humanos que continuam sem punição 40 anos depois de cometido o golpe de Estado. Os restos de Neruda foram exumados ontem do túmulo onde também está o corpo de sua última mulher, a cantora e escritora Matilde Urrutia (1912-1985), na que foi sua residência em Isla Negra, 110 quilômetros a oeste de Santiago. Os peritos buscarão dois elementos biológicos, um relacionado com sua doença, e outro com supostas substâncias tóxicas que possam ter sido aplicadas ao poeta. As mostras serão analisadas em laboratórios chilenos e possivelmente no exterior, já que chegaram oferecimentos de Canadá, Espanha, Estados Unidos, Suécia e Suíça. O processo poderá durar três meses. A diligência foi ordenada pelo juiz Mario Carroza, que investiga se houve participação de terceiros na morte do ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1971, ocorrida em 23 de setembro de 1973, apenas 12 dias após a sangrenta derrubada de seu grande amigo, o presidente socialista Salvador Allende, que havia cumprido apenas três anos de mandato. “É extremamente importante um juiz dizer que é preciso esclarecer todos os casos de violações dos direitos humanos, bem como a morte de Allende, do ex-presidente Eduardo Frei Montaval (1964-1970) ou de Neruda, porque é reconhecer que a justiça está em dívida com os crimes cometidos durante a ditadura”, disse à IPS o sociólogo Manuel Antonio Garretón, prêmio Nacional de Humanidades 2007. Neruda morreu na clínica particular Santa María, de Santiago, quatro dias depois de internado para tratar do câncer de próstata que sofria, mas que não o impedia de ter uma vida normal. Pessoas próximas ao poeta suspeitam que a causa de sua morte foi a aplicação de uma injeção com uma substância tóxica, provavelmente semelhante à que se presume matou, em 1982, o líder democrata-cristão Frei Montalva, então um dos principais opositores à ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). Nascido com o nome de Neftalí Reyes, Neruda tinha no momento de sua morte 69 anos, há 28 estava filiado ao Partido Comunista do Chile e se preparava para partir em exílio para o México, onde pretendia ser a voz da oposição à ditadura. O advogado querelante, Eduardo Contreras, explicou à IPS que existe “uma forte suspeita” de que Neruda foi assassinado por agentes da Direção de Inteligência Nacional (Dina), a polícia secreta de Pinochet. Contreras disse que, naquela época, já operava no Chile o norte-americano Michael Townley, duplo agente da Agência Central de Inteligência (CIA) e da Dina, autor material de numerosas mortes por envenenamento com substâncias químicas Townley trabalhava com Eugenio Berríos, o químico que se dedicou à fabricação do gás sarin e de outras armas químicas letais sob as ordens da hoje desaparecida Dina e que foi sequestrado e assassinado no começo da década de 1990 no Uruguai por militares a serviço dos dois países. Nos dias anteriores à sua morte, a profunda sensibilidade de Neruda foi afetada quando suas três casas foram invadidas por agentes da ditadura, que quebraram tudo que viam pela frente. Em sua casa mais apreciada, a de Isla Negra, sofreu a brutalidade militar: a tropa revirou suas coleções de caracóis, conchas e borboletas, suas garrafas e carrancas de proa, livros, quadros e até seus versos não terminados. Os militares fizeram com que demitisse todos os seus empregados e ficaram apenas Urrutia e seu motorista e secretário pessoal, Manuel Araya, que quase 40 anos depois é o protagonista do processo que o Partido Comunista levou à justiça. “Quero que os forenses coloquem a mão no coração e contém a verdade sobre Neruda. Não chegou a fazer testamento porque não estava para morrer”, afirmou Araya à IPS. Para Garretón, mesmo que Neruda não tenha assassinado, é importante investigar todos os vexames aos quais foi submetido anteriormente à sua morte. “Suponhamos que se descubra que não há indícios da intervenção de terceiros, de todo modo foram cometidos crimes que têm a ver com a invasão de sua casa e ações que aceleraram sua morte”, afirmou. Garretón acrescentou que, se for comprovado um assassinato, “a repercussão poderá ser muito grande e muitos dos que ainda não acreditam que foram cometidas violações dos direitos humanos poderão se dar conta que inclusive a máxima figura da poesia nacional foi assassinada, de forma direta ou indireta”. Além disso, volta-se a colocar sobre a mesa, a partir de grandes personalidades, as violações dos direitos humanos que não foram punidas, acrescentou. O atestado de óbito de Neruda indica que morreu de caquexia, uma desnutrição extrema causa por uma rápida perda de peso que origina tanta fraqueza, que impede o desenvolvimento de atividades, por menores que sejam. Porém, o poeta pesava mais de cem quilos, segundo disse Araya referendado pelo embaixador mexicano no Chile em 1973, Gonzalo Martínez, que o visitou na clínica. Um dia após sua morte, o jornal conservador El Mercurio publicou que Neruda morrera “por causa de um ataque do coração, em consequência de um choque sofrido depois de ter recebido uma injeção de calmante”. O ex-juiz Juan Guzmán, que foi o primeiro a processar Pinochet, disse que a exumação dos restos de Neruda aproxima o caso à tese do homicídio. “Imagino que, para ter tomado essa decisão, Carroza já deve ter presunções fortes de que morreu por causas alheias à enfermidade”, disse à IPS. “Antes, estava cético, mas depois de todas as investigações que realizei, muitas delas de índole médica, hoje em dia já não sou muito e penso que se deve investigar quando há indícios de que possa ter ocorrido um crime”, acrescentou. No caso de confirmação da tese de assassinato, “seria espantoso”, afirmou Guzmán. “Pablo Neruda era um homem de paz, que percebia a paz por meio da poesia e de suas atuações pessoais. Por isso, para mim, mais do que o assassinato da pessoa, seria o assassinato do que ele representa”, concluiu. Envolverde/IPS


por Marianela Jarroud, da IPS
palestino Inter Press Service - Reportagens

Palestinos com passagem para o apartheid

Azzun Atme, Palestina, 9/4/2013 – “Pelo menos não nos tratam como cães”, disse à IPS o diarista Amjad Samara, de 30 anos, da cidade de Naplusa, na Cisjordânia, em referência a como se sente utilizando um novo serviço de ônibus exclusivo para palestinos. Ele e um grupo de palestinos estavam em um posto de controle próximo da localidade de Qalqilia, esperando seu transporte para Israel para um dia de trabalho. Israel lançou na Cisjordânia uma nova linha de ônibus exclusivos para palestinos, para que os colonos judeus possam “evitar” o “incômodo” de compartilhar o transporte com árabes. O serviço foi criado depois da queixa apresentada pelos colonos no ano passado às autoridades militares israelenses segundo a qual os palestinos que viajavam em “seus ônibus” representavam uma ameaça para sua segurança. O governo israelense rechaçou as acusações de organizações de direitos humanos, de que o novo serviço é racista e representa uma forma de apartheid (sistema de segregação), e argumentou que a linha foi “planejada para melhorar o transporte de palestinos que entram em Israel”. Mas alguns membros liberais do parlamento israelense não estão convencidos. “Isto se parece com o apartheid”, escreveu a presidente do partido Meretz, Zahava Gal, em seu mural no Facebook. Yariv Oppenheimer, do movimento Peace Now, contrário às colônias judias, afirmou que a criação do novo serviço envia uma mensagem inadequada. “Em vez de lutar contra o racismo, este governo de fato colabora com o sistema racista e cria ônibus diferentes para palestinos e para colonos israelenses. Na Cisjordânia não há democracia. Se parece mais com o apartheid do que com a democracia”, afirmou. Funcionários do Ministério do Transporte israelense asseguram que os palestinos não estão oficialmente excluídos dos ônibus para colonos, mas os diaristas contam experiências que contradizem essa afirmação. “Antes eu procurava pegar ônibus de colonos, mas, em geral, o veículo não parava e seguia viagem. Ou, se parava, para a entrada de colonos, o motorista me dizia que não podia entrar”, contou à IPS o palestino Adnan Omar, de 28 anos, da localidade de Azzun Atme. “E, quando nos deixavam subir, era uma experiência muito desagradável ter de viajar com os colonos, que nos deixavam bem claro que não éramos bem-vindos. Nos olhavam feio e às vezes nos insultavam”, disse Samara à IPS Motoristas da empresa de ônibus Afikim asseguraram que não são eles que impedem a entrada de palestinos nos veículos, mas os soldados israelenses nos postos de controle. Vários jornalistas que acompanharam de perto a situação informaram que viram palestinos impedidos de subir nos ônibus, ou obrigados a descer deles. Yirsael Maidad, porta-voz do Conselho de Colonos Judeus, disse que a resistência dos israelenses em compartilhar ônibus com os palestinos se explica pela constante ameaça dos atacantes suicidas. Apesar das críticas de ativistas, alguns dos 29 mil diaristas palestinos que viajam todos os dias a Israel consideram que o novo serviço tem vantagens. “Esses veículos são mais baratos do que os micro-ônibus palestinos que muitos colegas meus usam para atravessar a Linha Verde para Israel. Também nos sentimos mais seguros nos ônibus com colonos, porque não sofremos hostilidades que, às vezes incluíam ataques físicos”, disse Omar à IPS. O novo serviço de transporte para palestinos, que funcionários israelenses admitiram de forma particular não foi criado por razões altruístas, alimenta os argumentos dos que acusam Israel de adotar um sistema segregacionista. A Cisjordânia está dividida nas áreas A, sob teórico controle palestino; B, sob controle misto, e C (que representa mais de 60% do território) sob pleno domínio israelense. Os mais de 300 mil colonos judeus na área C gozam de todos os privilégios que foram tirados da população local. “Os palestinos sofrem uma discriminação sistemática simplesmente por sua raça, etnia e origem nacional. São privados de eletricidade, água, educação e acesso a estradas, enquanto os colonos judeus gozam de todos estes benefícios”, disse Carroll Bogert, subdiretora-executiva para relações exteriores da organização Human Rights Watch (HRW). “Enquanto se multiplicam os assentamentos, os palestinos sob controle israelense vivem em um túnel do tempo, não apenas separados e em condição desigual, mas também, às vezes, expulsos de suas próprias terras e casas”, lamentou Bogert. “Ao tornarem suas comunidades praticamente inabitáveis, as políticas discriminatórias de Israel frequentemente têm o efeito de obrigar os residentes a abandoná-las”, acrescentou. A HRW investigou a área C e Jerusalém oriental, e concluiu que a administração israelense fornece generosos benefícios financeiros e infraestrutura aos colonos judeus, enquanto deliberadamente priva de serviços básicos e impõe duras condições às comunidades palestinas. Essa discriminação é feita com base em critérios raciais, de etnia e de nação, o que viola o direito internacional, afirmou a organização. Envolverde/IPS


por Mel Frykberg, da IPS
caminhoes Inter Press Service - Reportagens

Agroexportadores brasileiros alertam que o “apagão logístico” é agora

Rio de Janeiro, Brasil, 9/4/2013 – Edson Godinho, caminhoneiro há 35 anos, teve sorte desta vez. Nos primeiros dias do mês, quando chegou ao porto de Santos, já havia diminuído muito a fila de espera de caminhões. Precisou aguardar 12 horas para descarregar a soja. Nas semanas anteriores, muitos outros caminhoneiros tiveram que esperar mais de 24 horas para ter acesso às instalações portuárias por onde sai a maior parte das exportações agrícolas brasileiras. Durante vários dias o acúmulo de veículos de carga superou os 20 quilômetros. Os portos são o funil que mais contribui para o “apagão logístico anunciado” para este ano de produção e exportação agrícolas recordes, segundo Marcos Jank, especialista do setor e professor da Universidade de São Paulo (USP). O Brasil duplicou sua produção de grãos no começo deste século, sem melhorar sua logística. As projeções indicam que as exportações de soja e milho crescerão 30% este ano em relação a 2012, alcançando 41 milhões e 25 milhões de toneladas, respectivamente, e dessa forma superando os Estados Unidos. Essa liderança se estende à própria produção de soja, que chegará a 84 milhões de toneladas este ano, segundo a consultoria Agroconsult. Estes são resultados conjunturais, ajudados pela seca nos Estados Unidos, mas que adiantam uma tendência marcada pela expansão dos cultivos de soja, inclusive em zonas da semiárida região nordeste. O crescimento das vendas externas e as chuvas em excesso que caíram em janeiro retardaram os embarques de milho que, acumulados com os da soja, superlotaram em março os portos de Santos e Paranaguá, os principais do país. Esse gargalo será novamente sentido com as vendas de açúcar a partir deste mês e da nova colheita do milho, em julho, segundo Jank. Embora este caos não seja novo, agora se agravou. Diante disso, espera-se que sejam aceleradas as mudanças nas normas da atividade portuária, já definidas pelo governo da presidente Dilma Rousseff mas de aprovação incerta no parlamento, onde o projeto já recebeu mais de 600 propostas de emendas. Também são necessários elevados investimentos. Uma “solução definitiva exigirá dez anos”, afirmou Jank à IPS. “Temos uma agricultura do século 21 e uma logística do século 19”, acrescentou. Segundo Jank, um alívio rápido dos entraves virá com a implantação de hidrovias, o aumento das ferrovias, a pavimentação de estradas para o norte, a ampliação de portos fluviais e marítimos dessa mesma região e dos locais de armazenamento em terminais marítimos do sul. Santos, no Estado de São Paulo, fica a dois mil quilômetros da principal zona produtora de soja, no norte do Mato Grosso. Por seu porto é exportada quase 60% dessa produção, a maior parte levada até ali por caminhões. O transporte de cada tonelada de soja custa cerca de US$ 70 a mais do que nos Estados Unidos, ressaltam analistas, alertando que é possível aliviar essa drenagem de ganhos retirando a produção pelos portos do norte, mais próximos dos cultivos e dos mercados de destino. O predomínio dos caminhões, que respondem por 60% do transporte de cargas no Brasil, também encarece a logística. Godinho é um dos cerca de 600 mil caminhoneiros autônomos que percorrem as estradas do Brasil, às vezes em estado precário, sem pavimentação. Em geral, transporta soja e milho das proximidades de onde vive, a cidade paulista de Ituverava, até Santos, 480 quilômetros para o sul, de onde regressa carregando fertilizantes. Se não houver carga na volta “não compensam” os custos, porque os pedágios somam R$ 580, quase o mesmo que se deve desembolsar para o combustível do caminhão, que pode carregar até 32 toneladas, explicou à IPS, após deixar a soja no porto. A vantagem é que as estradas que percorre, no Estado de São Paulo, são mantidas em boas condições. “O pedágio e os ladrões” são os piores inimigos dos caminhoneiros, contou Godinho, que não sofreu nenhum assalto nas estradas, “mas muitos amigos foram assaltados”, disse. Aos 57 anos de idade, considera que teve “uma boa vida” em seu trabalho, mas comemora o fato de seus três filhos terem optado por outras profissões. Os portos congestionados são a ponta mais visível, mas a longa cadeia logística compreende muitos outros gargalos. Volmar Michelon, cofundador da empresa Pedromar Transportes, que conta com 85 veículos e uma centena de empregados, contou à IPS que seu pessoal “espera até 48 horas para descarregar a soja” em Alto Araguaia, na fronteira sudeste do Mato Grosso, onde chegam trens que percorrem 1.420 quilômetros até Santos. Esse tempo perdido “por falta de infraestrutura de descarga e mais vagões” priva a empresa de outras três viagens do mesmo caminhão no trajeto usual, lamentou Volmar. Nessas ocasiões há milhares de veículos estacionados nas estradas, que acabam servindo como “armazéns”, ressaltou. Não há déficit de caminhões, como avaliam muitos analistas e a imprensa, “mas excesso”, porque são necessários dois ou três veículos para fazer o trabalho de um, devido às demoras nos transbordos e outros obstáculos, pontuou o empresário. Aumentar sua quantidade sem corrigir esses entraves seria obstruir definitivamente as estradas, concluiu. A Pedromar Transportes nasceu em 1981 no sul do Brasil e acompanhou o desenvolvimento agrícola no centro-oeste. Em 2001, instalou-se em Rondonópolis, centro comercial e industrial no sudeste do Mato Grosso. Seus caminhões operam apenas dentro desse Estado, que se consolidou como o maior produtor de grãos do país. Entre 1950 e 1980, os governos brasileiros construíram longas estradas, sonhando levar o desenvolvimento agrícola para o oeste e norte do país. Assim, produziram ondas de migrações, desmatamento, malária e conflitos pela posse da terra. Mas o agronegócio, especialmente o da soja, não seguiu exatamente esses grandes eixos viários e agora reclama uma infraestrutura logística que lhe dê acesso menos caro aos seus mercados, sobretudo os externos. Envolverde/IPS


por Mario Osava, da IPS
A luta dos palestinos ocupou lugar central no Fórum Social Mundial de 2013, na Tunísia. Foto: Monika Prokopczuk/IPS Inter Press Service - Reportagens

Fórum Social Mundial se volta para nova forma de solidariedade

[caption id="attachment_82774" align="alignleft" width="300" caption="A luta dos palestinos ocupou lugar central no Fórum Social Mundial de 2013, na Tunísia. Foto: Monika Prokopczuk/IPS"][/caption] Túnis, Tunísia, 8/4/2013 – Para os milhares de participantes do Fórum Social Mundial (FSM) ficou claro que a função fundamental da última reunião anual foi construir solidariedade entre os movimentos que defendem a paz, a justiça e a liberdade no mundo. Na reunião do FSM, entre 26 e 30 de março em Túnis, capital da Tunísia, onde uma revolta popular pôs fim, em janeiro de 2011, ao regime de Zine el Abidine Ben Ali, participaram, entre outros, partidários e opositores do presidente da Síria, Bashar al-Assad, e ativistas palestinos e da Rede de Judeus Antissionistas. Em suma, foi um cadinho de lutas e buscas por bases comuns. A Tunísia, reconhecida como berço da Primavera Árabe, foi escolhida para sede da edição 2013 do Fórum, nascido há mais de uma década no Brasil, como forma de homenagear o falecido vendedor de frutas Mohamed Buazizi, cuja imolação foi a faísca que acendeu a revolta. Reunidos nesta cidade transformada em ícone da luta social, os ativistas reafirmaram seu compromisso com a unidade internacional. “Nossa missão é criar uma nova forma de solidariedade, contraposta à competição e que existe para engendrar igualdades”, disse Mamduh Habashi, membro do Partido Socialista do Egito e da Rede de Solidariedade Popular Sul-Sul, em entrevista à IPS. Este é o “espírito” da cooperação Sul-Sul, insistiu. A rede é integrada por diferentes movimentos de todo o mundo e se considera defensora da democracia, entendida como poder do povo e contexto para o progresso social. Para Rita Silva, da rede No-Vox, a solidariedade internacional pode ser o fator decisivo para se conseguir um movimento de sucesso. Quando a No-Vox, criada durante o primeiro Fórum Social Europeu, em 2002, realiza atividades formidáveis como evitar o despejo ou demolições em países em desenvolvimento, o apoio internacional é crucial, afirmou Rita. Os ativistas de Angola ou do Zimbábue, por exemplo, estão muito isolados do resto do mundo. “Podem ser facilmente assassinados e ninguém diz nada, mas se estão conectados (com redes internacionais) têm proteção”, destacou. Representando a Assembleia Internacional dos Habitantes, Mike Davies insistiu na necessidade de se ter uma plataforma que apoie as comunidades locais para que possam falar ao mundo. Costumam surgir problemas com a mediação de organizações não governamentais do Norte porque as bases devem aprender o jargão do mundo das organizações não governamentais ou se perdem no processo. “Nosso único objetivo é fortalecer as comunidades para que possam se ajudar, em lugar de continuarem sendo vítimas da caridade”, acrescentou Davies. A Primavera Árabe serviu de inspiração para muitos movimentos de protesto que defendem uma mudança democrática, mas nem todos os seus resultados são motivo de comemoração. A guerra civil da Síria, na qual já morreram pelo menos 60 mil pessoas, segundo as estimativas mais conservadoras, foi uma triste recordação para os participantes do FSM de que as consequências de não encontrar uma base comum podem ser catastróficas. Sara Ajlyakin, participante da revolta síria, apontou que o resultado do conflito não está claro, mas abriu espaços vitais para a organização e a construção de unidade. “É um avanço histórico que não poderá ser revertido. Sentimos o poder das ruas, do coletivo, e ninguém pode nos tirar isso”, afirmou à IPS. Até a Primavera Árabe, a população da Síria não tinha uma saída para suas frustrações e o peso que carregava. “Mas isso já passou. Seja quem for, mulher, trabalhador, estudante, integrante da comunidade LGBT, qualquer que seja sua procedência, encontra uma forma de expressar sua opinião de forma coletiva”, acrescentou. Mesmo reconhecendo que as visões e as ideologias encontradas têm um impacto sobre a natureza de um movimento em conflito, Ajlyakin negou a noção de “islâmicos versus seculares”, indicando que é uma falsa dicotomia. A única dualidade que reconhece é a que existe entre a atividade “revolucionária e contrarrevolucionária”, afirmou. “Os islâmicos não são o diabo. Ao isolá-los incentiva-se o erro histórico da esquerda árabe, que assemelha seculares com ateísmo”, ressaltou. “É meu trabalho enviar uma mensagem aos islâmicos políticos: não planejo sua eliminação, sou parte de vocês e vocês são parte de mim, mas vocês tampouco podem me isolar”, pontuou Ajlyakin, repercutindo o lema de uma conferência: semear a unidade em lugar da divisão. No verdadeiro espírito da solidariedade internacional, a causa palestina ocupou um lugar central. A atividade de encerramento do FSM consistiu em uma marcha pela capital que terminou na embaixada da Palestina para comemorar o Dia da Terra na Palestina. Segundo Amjad Shawa, diretor da rede da sociedade civil palestina, é “totalmente evidente” que os palestinos estavam na mente e nos corações dos participantes do FSM. “A solidariedade chega de todas as partes”, afirmou Shawa à IPS, referindo-se à presença de organizações como a Rede Internacional de Judeus Antissionistas, que chegou ao FSM e marchou junto à numerosa delegação palestina. Envolverde/IPS


por Justin Hyatt, da IPS
crianca trabalhando 3 Inter Press Service - Reportagens

Crise aumenta número de crianças vendedoras nas ruas

[caption id="attachment_82770" align="alignleft" width="300" caption="A crise do Zimbábue empurra crianças e adolescentes para ganharem a vida nas ruas. Foto: Jeffrey Moyo/ IPS"][/caption] Harare, Zimbábue, 8/4/2013 – Susan Sithole tem 15 anos e deveria estar na escola aprendendo matemática, inglês e outras matérias. Porém, está nas ruas vendendo cigarros, doces e cartões para telefone celular: uma dura forma de aprender sobre comércio e de sobreviver. Sithole trabalha no centro de Harare, na esquina da avenida Leopold Takawira e a rua Robert Mugabe, e vive no bairro pobre de Machipisa. Segundo contou à IPS, os US$ 25 que ganha por semana não bastam para viver nem lhe sobra nada para enviar aos seus pais que estão em Chipinge, um distrito a 500 quilômetros da capital. “Meus pais de mandaram com alguns parentes para a capital para fazer algo quando não puderam mais pagar a escola”, contou Sithole. Assim, em lugar de passar para a nona série, teve que abandonar os estudos e se mudar para Harare. Mas, mesmo que pudesse voltar à escolha, ela ficaria com vergonha de se reintegrar a uma classe na qual seus companheiros teriam, no mínimo, cinco anos a menos. Segundo estatísticas divulgadas em janeiro pela Coalizão Contra a Corrupção, Sithole está entre os 63 mil menores de 15 anos que trabalham como vendedores, a maioria nas cidades fronteiriças. A quantidade representa um significativo aumento em relação aos 42 mil registrados em 2010 neste país de 13 milhões de habitantes. A situação está longe de ser resolvida, pois em fevereiro o governo proibiu as operações das organizações não governamentais, o que, segundo várias fontes ouvidas pela IPS, só fará aumentar o número de meninas e meninos nas ruas, pois muitas ONGs pagavam a escola para famílias necessitadas, especialmente nas zonas rurais. “O governo proibiu as ONGs que pagavam os estudos de menores de baixa renda por suspeitar que tinham fins políticos”, explicou à IPS um funcionário dos Escritórios de Bem-Estar Social da província de Manicaland, que não quis ser identificado. “Muitas crianças não tiveram outra alternativa a não ser vender nas ruas”, disse o funcionário morador em Mutare, capital provincial e terceira maior cidade do país. O governo da União Nacional Africana do Zimbábue Frente Patriótica (ZANU-PF) proibiu 29 organizações em abril de 2012 com o argumento de que trabalhavam para uma mudança de regime. Funcionários da Associação Nacional de Organizações Não Governamentais (Nango), que pediram para não serem identificados, disseram à IPS que após a proibição muitos pais não puderam mais pagar a matrícula dos filhos, que varia de US$ 30 a US$ 35 por trimestre. Cerca de 850 mil crianças desfavorecidas recebiam apoio de ONGs no ano passado, segundo estas fontes. Os US$ 30 são uma quantia enorme neste país onde quase metade da população vive com menos de US$ 1,25 por dia, segundo o informe Proteção Social Sensível à Infância, elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 2010. O desemprego afetou 94% da população economicamente ativa em 2009, segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas. A maioria trabalha no setor informal. “A situação é patética para as crianças que ajudávamos”, disse um membro do capítulo zimbabuense da Action Aid International, que também não quis ter o nome revelado. “Enquanto falava com você, nossa organização recebeu a informação de que mais de dez mil menores abandonaram a escola por não poderem pagar. Esta situação jogará mais crianças na pobreza e na miséria”, acrescentou. O trabalhador social Givemore Zinyoro disse à IPS que a atividade de meninas e meninos vendendo diferentes produtos nas ruas é considerada trabalho infantil, e acusou o governo de negligência para atender o número crescente de casos registrados no país. “É um reflexo da situação atual da sociedade. A crise econômica e social continua se aprofundando em nosso país”, disse Philip Bohwasi, presidente do Conselho de Trabalhadores Sociais. “Mais de 84% da população não tem emprego, não se trata apenas dos menores vendedores”, ressaltou. “Muitas famílias têm dificuldades para colocar comida na mesa, e todos, inclusive os menores, acordam cedo para fazer algo para ganhar a vida”, acrescentou. O Zimbábue ainda não se recuperou da profunda crise econômica. Entre 2003 e 2009 sofreu uma das piores hiperinflações do mundo; a inflação anual foi de 231%. Os preços duplicavam diariamente e o Banco da Reserva do Zimbábue foi obrigado a emitir US$ 100 trilhões. Um alto funcionário do Ministério de Trabalho e Serviços Sociais disse à IPS que o governo não é capaz de combater a crise que afeta os menores pobres do país. O economista John Robertson, da Economic Information Services, disse que a crise econômica do Zimbábue havia diminuído a capacidade do governo para combater o trabalho infantil. “Sem dinheiro para financiar programas vitais em matéria trabalhista, o governo se encontra em um contexto de esgotamento dos doadores. É necessário recuperar a economia antes de atender o problema do trabalho infantil”, explicou Robertson à IPS. Envolverde/IPS


por Jeffrey Moyo, da IPS
CADERNO Ambiente

Dilúvio revela trágicas falhas de prevenção

Buenos Aires, Argentina, 8/4/2013 – As intensas chuvas dos últimos dias na Argentina, que deixaram pelo menos 57 mortos, trouxeram à luz as debilidades do Estado para prevenir os impactos de eventos meteorológicos que se repetem cada vez com maior frequência e virulência. Uma sucessão de temporais se abateu no dia 1º sobre a cidade de Buenos Aires, provocando o transbordamento de vários rios que custaram a vida de seis pessoas, e também no dia seguinte sobre La Plata, capital da vizinha província de mesmo nome, onde já foram confirmadas 51 mortes. Nos dois locais os danos e perdas materiais são elevados. Em La Plata, a 50 quilômetros da capital do país, quase todo o centro urbano ficou alagado, e numerosas ruas se transformaram em verdadeiros rios. Em alguns bairros o nível da água chegou a dois metros, cobrindo automóveis e as áreas baixas de casas e edifícios. Diante do desastre nos dois distritos, os olhares se voltaram para os mecanismos de emergência e atenção social. Em 1999, quando já começavam a ser mais frequentes as inundações, foi criado o Sistema Federal de Emergências (Sifem), que não é um órgão ad hoc, mas um esquema de organização das entidades públicas diante de desastres, segundo consultas feitas pela IPS. Cinco anos depois, os especialistas advertiam falências. Ruth Zagalsky, a licenciada em ciências geológicas da estatal Universidade de Buenos Aires que fez aquela advertência, disse à IPS que “essa continua sendo, hoje em dia, a triste realidade”, acrescentando que “as áreas que deveriam ser manejadas pelo Sifem foram ficando submersas na administração pública, onde não se pode resolver. É necessário um interesse político muito forte para que isto seja efetivo”. Zagalsky acrescentou que para criar o Sifem trabalhou-se junto a funcionários da Agência Federal para o Manejo de Emergências, dos Estados Unidos, mas depois não foram feitos planos de ação, salvo contra incêndios florestais onde o programa funciona “muito bem”. “O mais importante de um plano, a prevenção, é o que não se faz. Observa-se uma grande falta de coordenação geral” entre as jurisdições nacional, provincial e municipal para mitigar impactos, destacou. Como resultado, os desastres ganham magnitude e forçam o Estado, em suas diferentes jurisdições, a investir grandes quantias em resgates, assistência humanitária, subsídios, isenção de impostos e créditos brandos, entre outras ações. Desta vez, as chuvas caíram em dias festivos, quando funcionários do primeiro escalão estavam de folga. As equipes de crise se organizaram tardiamente, e três dias depois da tragédia a ajuda ainda demorava a chegar a alguns pontos, tanto em Buenos Aires quanto em La Plata. Silvia Gómez, do Serviço Meteorológico Nacional (SMN), disse à IPS que esse órgão preparou um informe, no dia 27 de março, com o prognóstico para os dias de feriado, que se estenderam de 28 de março a 2 deste mês, inclusive. Nesse boletim, que seria atualizado dia a dia, foi antecipado que entre segunda-feira e terça-feira poderiam ocorrer “chuvas fortes, com abundante queda de água” na cidade de Buenos Aires e no centro e norte da província vizinha. “Nossos informes chegam a muitos órgãos e dissemos que era preciso se preparar porque a chuva teria uma intensidade considerável”, ressaltou. Outra ferramenta valiosa para o alerta, e que não é utilizada, segundo as consultas, é a Comissão Nacional de Atividades Espaciais, integrada ao Sifem para fornecer informação “adequada e oportuna” a partir de satélites. Em seu Plano Nacional Argentina no Espaço 2004-2015, técnicos do órgão asseguraram que este é “o país da América Latina mais exposto a emergências e catástrofes naturais”. Inundações, incêndios florestais, erupções vulcânicas, terremotos, tornados, deslizamentos de terra, vazamento de hidrocarbonos são alguns dos 11 tipos de desastre mencionados para o país. Entretanto, os impactos cada vez mais severos resultantes das inundações revelam severas falhas nos planos de contingência e obrigam os moradores a se ajudarem entre si, durante e depois do impacto, sem poucas possibilidades de que algum órgão os guie. As vítimas revelam que não sabiam o que fazer enquanto a água subia dentro das casas em La Plata. Três dias depois, muitos continuavam desorientados em centros de evacuação sem os seus responsáveis. O chefe de governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires, o direitista Mauricio Macri, o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, e o intendente de La Plata, Pablo Bruera, apenas responsabilizaram pelo desastre a “inédita” intensidade das chuvas provocadas pelos efeitos da mudança climática. Scioli disse que choveu mais de 300 milímetros em poucas horas e isso impediu que as águas fluíssem. No entanto, “o pluviômetro instalado pelo SMN no aeroporto de La Plata marcou 181 milímetros das 9 horas da manhã de segunda-feira até 9 horas da manhã do dia 2”, informou a meteorologista Silvia Gómez. De todo modo, descartou que a tempestade tenha sido mais intensa em alguns bairros, como disse o governador com base em dados da estatal Universidade de La Plata. “O Estado estará mais presente que nunca para a reconstrução com subsídios, créditos e tudo o que tivermos que fazer”, afirmou Scioli, do setor centro-esquerda liderado pela presidente Cristina Fernández, embora um pouco distanciados ultimamente. A província e a cidade de Buenos Aires criaram comitês de emergência. A IPS tentou localizar algum de seus responsáveis, mas não responderam. Tampouco o fez o governo local, consultado a respeito do Sifem. O impacto das chuvas foi como o de um tsunami ou um rio caudaloso que transborda, disseram muitas das vítimas. A água entrou nas casas por vasos sanitários e banheiras, de modo tão brusco que vários idosos morreram afogados em suas casas. Outros foram levados pela corrente de água ao saírem de casa. Quando a tempestade amainou e se começou a tomar conhecimento da tragédia, vários governantes e funcionários percorreram a zona alagada, a presidente Cristina Fernández, Scioli, Bruera, Macri e outros ouviram reclamações e prometeram toda a assistência necessária. Contudo, os problemas são gigantescos. Os moradores mais prejudicados das duas cidades concordam em que, além das vidas de familiares ou amigos, perderam tudo o que tinham para seu viver cotidiano: documentos, dinheiro, móveis, eletrodomésticos, roupa, alimentos, água. Envolverde/IPS


por Marcela Valente, da IPS

Página 20 de 215« Primeira...10...1819202122...304050...Última »
Para enviar sua dica ou opinião, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Dica/Opinião

agenda

dica de
sustentabilidade

anterior | próxima
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

imagem do dia

|
Para enviar sua imagem, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Arquivo

Observações

 
Imagem do dia

Aquecimento global pode afetar colheitas, diz Banco Mundial. Inundações também podem ser provocadas por temperaturas maiores. Países em desenvolvimentos serão as primeiras vítimas, diz órgão.

Imagem do dia

Viver em uma área com altos índices de poluição atmosférica pode aumentar as chances de mães gerarem filhos autistas. Este é o resultado de um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Harvard

Imagem do dia

Fundação Abrinq lança cartilha para alertar sobre trabalho infantil durante Copa e Olimpíadas. Leia aqui.

Imagem do Dia

Um estudante de design da Universidade de Brunel, em Londres, criou uma cesta de frutas que possui um sistema para alertar o vencimento dos produtos no interior do recipiente. Saiba mais.

Imagem do dia

Lei obriga instalação de semáforos movidos a energia solar e eólica em Maceió. As vias púbicas receberão células fotovoltaicas para conversão de raios solares ou um sistema que aproveite a energia do vento. Foto: Daniel Lobo

Imagem do dia

Pesquisa diz que região central da China gera 80% da poluição do país, que é o maior emissor de CO2 do mundo, dizem cientistas. Estudo sugere que metas para reduzir emissões devem ser repensadas.

Imagem do dia

Polícia tailandesa descobre mais de mil animais em risco mantidos presos. Bichos, incluindo 14 leões africanos, viviam em casa que parecia zoológico. Cativeiro ficava nos arredores da capital Bangcoc.

Imagem do dia

Estudantes criam cadeira de roda movida a energia solar. Os painéis solares foram projetados para carregar as baterias, mesmo em ambiente nublado. Foto: Divulgação. Saiba mais.

Imagem do dia

Concurso nos EUA premia fotos de animais feitas debaixo d’água. Foca nada em meio a uma floresta de grandes algas nos arredores do litoral de San Diego. A imagem foi a grande vencedora do Concurso de Fotos Submersas 2013.

Imagem do dia

Puxado pela queda significativa no desmatamento na região amazônica, o Brasil conseguiu reduzir em 38,4% a emissão de gases do efeito estufa entre 2005 e 2010, segundo estimativa do governo federal.