Refugiados ruandeses são contra regressar

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Refugiados ruandeses são contra regressar


por Taylor Toeka Kakala, da IPS


[caption id="attachment_86057" align="alignleft" width="300" caption="Restos de alguns dos 800 mil mortos no genocídio de Ruanda. Foto: Edwin Musoni/IPS"][/caption] Goma, República Democrática do Congo, 7/5/2013 – O governo congolense reclama uma estratégia integral que permita conseguir uma solução duradoura para a repatriação dos mais de 127.500 refugiados ruandeses que se estima residem neste país. O ministro de Assuntos Internos da República Democrática do Congo (RDC), Richard Muyej, disse que o governo acredita que é prematuro cessar o status de refugiados para cidadãos ruandeses exilados, fixado para 30 de junho pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Esta entidade concedeu o status às pessoas que fugiram de Ruanda entre 1959 e 1998. A cláusula de cessação, vinculante para os refugiados e para os países de acolhida, indica que os implicados terão que escolher entre a repatriação voluntária e a residência onde vivem atualmente. Está previsto que podem solicitar uma prorrogação de seu status de refugiados, mas individualmente. Porém, a RDC, vizinha de Ruanda é contra a medida. A posição do governo congolense reforça a adotada pela diáspora ruandesa na Conferência Internacional sobre os Refugiados de Ruanda, realizada nos dias 19 e 20 de abril em Bruxelas. A mesma pede ao Acnur e aos países de asilo que considerem a segurança das pessoas implicadas. Gervais Condo, presidente do Congresso Nacional de Ruanda (CNR), com sede nos Estados Unidos, e que presidiu a conferência de Bruxelas, declarou à IPS que “não há circunstâncias sob as quais o status de refugiado seja uma solução de longo prazo”. E acrescentou: “não podemos esperar que os refugiados regressem para suas casas quando as questões que os levaram ao exílio não foram resolvidas”. Condo é aliado do general Kayumba Nyamwasa, ex-chefe do Estado Maior do exército ruandês e presidente fundador do CNR, e vive exilado na África do Sul. O Acnur negociou o repatriamento de aproximadamente 3,5 milhões de refugiados ruandeses entre 1994, quando a Frente Patriótica de Ruanda chegou ao poder após o genocídio, e fevereiro de 2013. Não há dados concludentes, mas as estimativas indicam que, em 1994, morreram quase um milhão de pessoas, em grande parte da minoria tutsi e alguns hutus moderados. O ministro Muyej disse que a RDC só aplicará a cláusula de cessação após ser implantado o Acordo Tripartite assinado por Acnur e pelos governos de Ruanda e RDC para garantir que as pessoas em questão que desejarem ser repatriadas possam regressar ao seu país com dignidade e segurança. Muyej se dirigiu assim aos ministros de Assuntos Internos dos 11 países africanos onde estão isolados os refugiados ruandeses, reunidos em uma conferência no dia 18 de abril. Entretanto, Ruanda e Acnur insistem em que não se justifica a ampliação do status de refugiado depois de 30 de junho. O governo ruandês ofereceu garantias e disse que a situação no país dos Grandes Lagos é segura e que quer a implantação da cláusula de cessação prevista na Convenção sobre o Status dos Refugiados, aprovada em Genebra em 1951. Em outubro de 2009 o presidente ruandês Paul Kagame e o alto comissário para os refugiados, António Guterres, acordaram que o status de refugiados cessaria em junho de 2011. Mas a oposição dos ruandeses exilados e de organizações não governamentais fez o Acnur prolongar as conversações com as partes implicadas até junho. Preocupa os refugiados que a situação quanto à liberdade de expressão e de reunião em Ruanda não tenha mudado. Acreditam que isso está confirmado pela grande quantidade de figuras políticas no exílio, entre eles o ex-procurador geral Gérard Gahima e o ex-embaixador ruandês Théogène Rudasingwa. Também causou preocupação a detenção e o julgamento de Victoire Ingabire, candidata da oposição nas eleições presidenciais de 2010. Ingabire foi condenada a oito anos de prisão por conspiração contra seu país. No dia 25 de março, a Anistia Internacional pediu um julgamento justo para a candidata, que cumprisse os padrões internacionais. A organização de direitos humanos declarou que o tribunal não examinou as provas. “Vários altos funcionários disseram que a Europa não considera Ruanda suficientemente segura para o retorno dos refugiados”, ressaltou Condo. A ministra de Gestão de Desastres e Assuntos de Refugiados de Ruanda, Séraphine Mukantabana, que esteve exilada no Congo-Brazzaville e foi repatriada em maio de 2011, afirmou que os refugiados não podem gozar desse status por tempo indeterminado havendo paz no país. “Incentivamos a repatriação voluntária, pois muitos refugiados terão dificuldades para permanecerem no país de acolhida”, destacou a ministra. “Os que quiserem solicitar o status de refugiado de forma pessoal não terão bases para recorrer ao Acnur”, acrescentou Mukantabana, que presidiu a associação de refugiados ruandeses no Congo-Brazzaville. Para facilitar a situação, Ruanda entregará passaportes aos cidadãos ruandeses que desejarem permanecer em seu país de residência depois de 30 de junho. Envolverde/IPS  

Diplomata iraniano Bagher Asadi: foto: Cortesia de Bagher Asadi/Facebook Inter Press Service - Reportagens

Diplomatas iranianos pagam caro por suas opiniões

[caption id="attachment_86049" align="alignleft" width="215" caption="Diplomata iraniano Bagher Asadi: foto: Cortesia de Bagher Asadi/Facebook"][/caption] Nova York, Estados Unidos, 7/5/2013 – Finalmente, passadas sete semanas da detenção do conhecido diplomata iraniano Bagher Asadi, o fato foi confirmado por um funcionário do governo de Teerã, mas sem dar maiores detalhes. “Até onde sei, a pessoa detida é um diplomata de carreira na chancelaria e seu último cargo foi o de diretor do grupo D8”, disse no dia 2 o ex-chanceler Manouchehr Mottaki à agência de notícias semioficial iraniana Isna. “Porém, não estou informado dos detalhes do fato”, acrescentou. O D8, do qual Asadi era diretor de uma das secretarias, denomina um grupo de nações em desenvolvimento com população de maioria muçulmana aliadas para promover o desenvolvimento econômico. É integrado por Bangladesh, Egito, Indonésia, Irã, Malásia, Nigéria, Paquistão e Turquia. Uma fonte próxima à família de Asadi disse à IPS que, desde sua detenção, seus integrantes estão sob pressão das forças de segurança para não comentarem o assunto em público. “Estão preocupados com o fato de falar com a imprensa não ajudar sua situação”, explicou a fonte, que pediu para não ser identificada. Outra fonte também vinculada à família afirmou à IPS: “Estamos surpresos com o modo como as autoridades iranianas podem deter uma pessoa sem nem mesmo avisar e enquanto estava em sua casa”. A fonte disse que durante a prisão, no dia 12 de março, a casa da Asadi foi invadida e seu computador pessoal e outros artigos pessoais confiscados. “As autoridades prometeram à família libertá-lo dias depois, mas continua na prisão. Passados alguns dias de sua detenção, Bagher telefonou para sua casa e disse que estava bem. Contudo, desde então não há notícias suas, nem sobre as razões da prisão. É preocupante que esteja pressionado e que pretendam dobrá-lo”, pontuou a fonte. Parece haver confusão oficial sobre o status de Asadi. Ahmad Bakhshayesh, membro da Comissão de Segurança Nacional do parlamento iraniano, informou ao jornal Bahar no dia da prisão: “Em geral, a detenção de um diplomata tem a ver com uma falta que possa ter cometido em seu país de destino ou um assunto político, por exemplo, sobre a questão dos reformistas” (no regime de Teerã). Especulando sobre o caso e dizendo não ter conhecimento pessoal do assunto, Bakhshayesh acrescentou: “Creio que esta notícia deve estar errada, e a Reuters se equivocou ao publicá-la”. A agência de notícias Reuters publicou, no dia 30 de abril, uma informação sobre a detenção de Asadi, embora o jornalista não tenha confirmado com fontes independentes as denúncias anônimas. Mohammad Reza Heydari, ex-diplomata iraniano, que passou para a oposição depois da violenta repressão dos protestos pós-eleições de 2009, disse à IPS que fontes da chancelaria lhe confiaram que Asadi teria criticado o presidente Mahmoud Ahmadinejad em reuniões privadas. O vazamento desses comentários pode estar por trás de sua prisão. “Considerando sua forma de pensar e suas críticas, creio que estão fabricando um caso contra ele. É uma prática comum no regime da República Islâmica”, afirmou Heydari. “O regime iraniano fez o povo de refém. Ele falou sobre os direitos da população e sobre temas da atualidade, o que foi informado a Teerã por pessoas relacionadas com ele. Isso levou ao confisco de seu passaporte e à sua detenção ao chegar” do exterior, acrescentou. Entre seus companheiros de chancelaria Asadi é conhecido como um dos diplomatas iranianos de mais alto nível profissional e foi embaixador junto à Organização das Nações Unidas (ONU). Em uma profética coluna publicada pelo jornal The New York Times, em janeiro de 2004, Asadi alerta para o grupo conservador que poderia vir após o governo reformista do presidente Mohammad Khatami (1997-2005). “O evidente desprezo pelos direitos humanos dos conservadores e os aspectos republicanos da governança, entre outras coisas, serão um convite, inevitavelmente, à censura externa e complicará mais essa relação já delicada”, escreveu na época. A missão iraniana junto às Nações Unidas não retornou os reiterados telefonemas da IPS para confirmar a informação sobre a prisão e obter mais detalhes a respeito. Há especulações vinculando a detenção com as próximas eleições gerais de junho, mas Heydari afirmou que a prisão de Asadi é uma prática habitual. “Esta detenção faz parte do tratamento que a República Islâmica dispensa aos seus diplomatas quando externam seus pontos de vista nos países onde estão em missão. Serve de lição para que outros colegas saibam que, caso expressem uma opinião contrária ao sistema governante, deverão assumir sua gravidade”, acrescentou. A detenção de Asadi se junta à prisão de reformistas e críticos ao longo das últimas semanas, na medida em que se aproximam as eleições de 14 de junho. Funcionários de alto escalão alertaram contra as candidaturas dos ex-presidentes Khatami e Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, acusados de participar da violência que se seguiu às controvertidas eleições de 2009. Segundo Heydari, o Escritório de Inspeção do Ministério das Relações Exteriores costuma dizer aos seus diplomatas, antes de enviá-los a missões no exterior, que devem se abster de expressar suas opiniões na presença de potenciais inimigos do Estado, já que elas poderiam ser usadas contra o mesmo. “Deveria haver liberdade para falar. Afinal, nas diferentes reuniões as pessoas costumam expressar suas opiniões. Controlar as pessoas em todas as partes e depois questioná-las não é um método sustentável”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Omid Memarian, da IPS
Meninas e meninos acima de nove anos deverão estar em salas de aula separadas. Foto: Mohammed Omer/IPS Inter Press Service - Reportagens

O Hamás islamiza Gaza aos poucos

[caption id="attachment_86043" align="alignleft" width="300" caption="Meninas e meninos acima de nove anos deverão estar em salas de aula separadas. Foto: Mohammed Omer/IPS"][/caption] Ramalá, Palestina, 7/5/2013 – A Autoridade Nacional Palestina (ANP), com sede nesta cidade da Cisjordânia, acusa o Movimento de Resistência Islâmica (Hamás) de islamizar o território palestino de Gaza e convertê-lo em um bairro da Irmandade Muçulmana. No começo deste ano, o Hamás lançou uma “campanha de virtude” para difundir a shariá (lei islâmica) e lutar contra “o comportamento e vestimenta ocidental”. Em razão de uma lei aprovada há pouco em Gaza, quando começar o novo ano letivo, em setembro, será ilegal professores homens ensinarem em escolas femininas. Além disso, meninas e meninos acima de nove anos deverão estudar em salas separadas, inclusive nas instituições privadas e cristãs que têm ensino misto. A lei afetará 7% das escolas que são privadas em Gaza, entre elas as cristãs. Estas serão obrigadas a buscar dinheiro para ampliar suas instalações e separar os alunos por gênero. O território costeiro tem 690 escolas com 466 mil estudantes, em uma população de 1,7 milhão de habitantes. Outro artigo da lei regula as relações entre as instituições educacionais palestinas e Israel, proibindo as escolas de receberem ajuda destinada a incentivar ou promover a normalização das relações com o Estado judeu. Esta última determinação, que limita as liberdades civis, faz parte de uma campanha que proibiu as mulheres de andarem na parte de trás das motocicletas, uma forma de transporte comum devido à escassez de combustível. Elas também estão proibidas de fumar narguilé, em público, e casais que circulam nas vias públicas são interrogados por membros da segurança do Hamás. Além disso, os cabeleireiros foram proibidos de pentear e cortar o cabelo das mulheres. Também está proibido que as corredoras participem da maratona organizada pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (Unrwa) em Gaza. Por isso a prova foi suspensa nesse território e, por fim, aconteceu na Cisjordânia, com a participação de competidores de vários países e mulheres palestinas. Na Cisjordânia não há lei separando meninos e meninas nas escolas. Mas, salvo pelas instituições privadas e cristãs, o ensino secundário está dividido por gênero. Entretanto, a possibilidade de escolher é um assunto importante para muitos palestinos, e a lei aprovada pelo Hamás sobre “como ser um bom muçulmano” é entendida como a aplicação de sua agenda política. “É ridículo. O que tem de errado meninos e meninas aprenderem juntos?”, perguntou Rana Atta, do Comitê Técnico de Assuntos de Mulheres (WATC), com sede em Ramalá. “Como muçulmana e mãe quero poder escolher se mando meus filhos para uma escola mista ou uma que separe os alunos por sexo”, argumentou. Atta, que usa véu, disse que a lei viola os direitos humanos e atenta contra o espírito da educação, que é promover a igualdade de gênero e uma sociedade inclusiva que represente a todos. “É ilógico professores não poderem ensinar as meninas. Assim como os homens devem estar expostos às professoras como parte integral de nossa sociedade, elas devem estar expostas aos professores. Duvido seriamente dos antecedentes educacionais de quem aprova estas leis em Gaza”, afirmou. O Centro de Consultoria e Investigação Legal de Mulheres condenou publicamente a lei como “discriminação de gênero”, em um comunicado divulgado em Gaza. Quando o Hamás assumiu o controle de Gaza pela força, em junho de 2007, após vencer as eleições legislativas de janeiro de 2006, prometeu respeitar as liberdades civis dos moradores de Gaza. Contudo, é uma promessa que não cumpre. “O Hamás realiza um processo lento de islamização de Gaza, que, por um lado, não é constitucional e, por outro, não é popular entre as os habitantes de Gaza”, destacou Samir Awad, especialista político da Universidade Birzeit, perto desta cidade jordaniana. “Inclusive ameaçou um participante palestino do Arab Idol (popular programa de televisão com cantores dos países árabes) com ações legais, sob acusação de comportamento ilegal e imoral”, contou Awad à IPS. “A draconiana lei do Hamás não se justifica nem pela Constituição nem pela população palestina. Os últimos acontecimentos aumentaram a divisão política entre Cisjordânia e Gaza”, lamentou Awad. “As escolas de Gaza existem desde muito antes do Hamás e continuarão existindo depois dele. Os palestinos reiteram que pretendem sua autodeterminação, e isso também se aplica aos moradores de Gaza”, destacou o especialista. Envolverde/IPS


por Mel Frykberg, da IPS
Dois filhos de Peter Mcharo trabalham no campo de seu pai na aldeia de Kibaigwa, na região de Morogoro. Foto:Orton Kiishweko/IPS Inter Press Service - Reportagens

Respeitar o solo dá mais frutos na Tanzânia

[caption id="attachment_86024" align="aligncenter" width="500" caption="Dois filhos de Peter Mcharo trabalham no campo de seu pai na aldeia de Kibaigwa, na região de Morogoro. Foto:Orton Kiishweko/IPS"][/caption]   Morogoro, Tanzânia, 7/5/2013 – O pequeno agricultor Peter Mcharo, da região tanzaniana de Morogoro, tem motivos para estar alegre. Suas terras estão sãs e cheias de milho, embora passe menos tempo trabalhando nelas. Considerada uma possível solução para a insegurança alimentar e um mecanismo de adaptação à mudança climática na África, a lavoura de conservação permite a produtores da Tanzânia, como Mcharo, obter melhores colheitas. No dia 22 de abril, o ministro de Agricultura, Segurança Alimentar e Cooperativas, Christopher Chiza, exortou os pequenos produtores do país a praticarem a lavoura de conservação, sistema também conhecido como “semeadura direta”, que procura causar a mínima perturbação no solo onde se planta. Essa prática se apresenta como uma possível resposta à grave escassez de alimentos que sofrem 47 distritos desta nação da África ofiental. As regiões tanzanianas mais afetadas são Kilimanjaro, Lindi, Tanga, Mtwara, Iringa, Kagera, Mwanza e Singida. Mcharo, da aldeia de Kibaigwa, disse à IPS: “Nas cinco temporadas em que usei este sistema confirmei que é melhor aplicar a lavoura de conservação. Meus colegas na cooperativa da aldeia e eu conseguimos maiores lucros para cada meio hectare do que quando cultivávamos uma porção maior de terra. Mcharo integra, junto com outros 30 produtores de sua aldeia, a cooperativa Umoja (“unidade”, em swahili), todos envolvidos na agricultura de conservação. Estes são alguns dos vários produtos do país beneficiados por um projeto de agricultura de conservação apoiado desde 1998 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O projeto, administrado pelo Ministério de Agricultura, Segurança Alimentar e Cooperativas, beneficia cerca de quatro mil pequenos agricultores nas regiões centrais e do norte de Morogoro, Kilosa, Mbeya, Arusha, Babati e Manyara. Segundo um relatório de 2007, redigido por Richard Shetto e Marietha Owenya em conjunto com a FAO e outros sócios, intitulado A Agricultura de Conservação como Praticada na Tanzânia: Três Casos de Estudo, a produção agrícola é a base econômica do país. Responde por “cerca da metade tanto do produto interno bruto quanto das exportações. Aproximadamente 80% dos 34,5 milhões de habitantes do país, especialmente os que vivem nas áreas rurais e periurbanas, dependem da agricultura para sua subsistência”, acrescenta o documento. A agricultura de conservação é uma prática de produção eficiente que implica uma mínima, ou nenhuma, perturbação do solo, que é mantido coberto o tempo todo, seja com a própria plantação ou com uma camada de resíduos de colheitas anteriores. Além disso, aplica-se um sistema de rotação de cultivos e se reduz, ou evita-se completamente, o uso de pesticidas, enquanto opta-se por outros métodos de proteção orgânicos. Além disso, é dada ênfase a ferramentas simples e de baixo custo, como semeadoras e arados movidos por bois. O modelo Fitarelli de plantio direto a tração animal, uma invenção brasileira, se torna cada vez mais popular na agricultura de conservação. Na última temporada de cultivos, Mcharo utilizou em sua terra, de 1,2 hectare, um arado que provoca mínima alteração no solo. Sem empregar fertilizantes, suas colheitas aumentaram de 20 quilos de milho em cada meio hectare, há dois anos, para 50 quilos em cada meio hectare, em novembro de 2012. Ele também intercalou cultivos de amendoim com o de milho. “Antes podia chegar a gastar mais de US$ 125 na preparação do meu pequeno terreno e com a compra de fertilizantes e sementes, mas colhia apenas 15 quilos de milho em cada meio hectare e ganhava US$ 106 com eles”, contou Mcharo. “Além de reduzir os custos de produção, vi que esta tecnologia me poupa tempo e é menos exigente”, destacou. A prática também melhorou sua qualidade de vida. Mcharo ganhou US$ 250 em sua última colheita, quase três vezes o obtido no ano anterior. Com uma família de nove pessoas, contou que pôde colocar um novo telhado em sua casa, comprou uma fresadora e acrescentou mais 1,2 hectare à sua propriedade, onde começará a cultivar arroz na próxima temporada. O engenheiro agrícola Mark Lyimo, do Ministério de Agricultura, dirigiu a fase inicial do projeto de plantio de conservação. Ele disse à IPS que essa prática demonstrou ser útil para combater a degradação do solo. “Foi necessária devido à erosão do solo e à perda de fertilidade, que ameaçavam vastas superfícies das terras agrícolas na África e, como consequência, a existência das fazendas e das famílias rurais”, acrescentou. “A tecnologia se concentra principalmente na produção sustentável por meio de um sistema intenso de plantação, pelo qual se intercalam duas vezes ao ano dois tipos de cultivos, um legume e um cereal”, detalhou Lyimo. O Ministério informou que, em geral, legumes, feijões e amendoim são intercalados em muitas plantações do norte e do centro do país. O engenheiro afirmou que deveriam ser redobrados os esforços para demonstrar que o plantio de conservação efetivamente funciona, e dessa forma mudar a mentalidade dos produtores, que por anos araram suas terras. Joseph Ndunguru, do Instituto Mikocheni de Pesquisa Agrícola, da Tanzânia, destacou que os solos úmidos que são conservados com essa prática geram melhores colheitas ao longo de todo ano. “O agricultor descobrirá que esta tecnologia, além de reduzir seus custos de produção, lhe poupará tempo e exigirá menos”, acrescentou. Damian Gabagambi, da Universidade da Agricultura de Sokoine, disse à IPS que a prática também é boa para os pequenos agricultores porque reduz a vulnerabilidade dos solos diante da secas. Envolverde/IPS


por Orton Kiishweko, da IPS
EuropaSavio Economia

Europa, o fundamentalismo está na moda

Roma, Itália, maio/2013 – Por longo tempo se deu como certo que, enquanto a Europa se caracterizava pela defesa de uma sociedade mais justa e solidária, os Estados Unidos se identificavam com a exaltação do individualismo e da competência e desprezava toda forma de intervenção estatal por considerá-la “socialismo”. Durante a última campanha eleitoral nos Estados Unidos, uma das acusações que Barack Obama teve que enfrentar foi que propunha transformar a superpotência em “outra Europa”, começando por uma reforma sanitária socializante. As coisas mudaram: os fundamentalistas do livre comércio agora estão instalados na Europa. No dia 9 de abril, em uma reunião de ministros de finanças, o secretário do Tesouro norte-americano, Jacob J. Lew, tentou convencer os europeus a abandonarem a rígida política de austeridade que erroneamente adotaram para superar a crise econômica. O Departamento do Tesouro e a Reserva Federal dos Estados Unidos estão empenhados em uma política de estímulo econômico que conseguiu resultados concretos. A cada mês a Reserva Federal injeta liquidez no valor de US$ 80 bilhões. O Japão está fazendo o mesmo, mas em maior escala. A resposta a Lew foi uma firme rejeição: a melhor maneira de conseguir um crescimento de longo prazo – sustentaram seus colegas europeus, na contramão de toda evidência – é reduzir o déficit orçamentário, mesmo que implique mais desemprego e miséria social a curto prazo. O ministro mais poderoso da Europa, o alemão Wolfgang Schäuble, afirmou: “Ninguém na Europa acredita que exista uma contradição entre a consolidação fiscal e o enriquecimento”. O presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy, concordou: “Não há lugar para a complacência. Temos que enfrentar um grave endividamento, profundos desafios estruturais de médio prazo e ventos econômicos adversos a curto prazo”. Os ventos adversos constituem a vida diária nos países da Europa meridional. Basta assinalar que o desemprego entre os jovens aumentou 22% na Europa (na Espanha chegou a 57,2%) para compreender que muitos deles não poderão ter acesso a uma pensão digna e a uma casa própria. Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê que a geração que está entrando no mercado de trabalho se aposentará com pensão de apenas 640 euros mensais. Esta é uma sociedade sustentável? Acredite-se ou não, quando os bônus britânicos perderam a qualificação de Triplo A, o primeiro-ministro David Cameron reforçou a política de austeridade, inclusive com reduções nos orçamentos para educação e saúde. Porém, estamos vendo os resultados do resgate de Chipre. A previsão é de que perderá não menos do que 2% de seu produto interno bruto nos próximos meses, que o impacto social será dramático e logo será obrigado a pedir novo resgate. A fórmula imposta pela Alemanha consistiu em passar a conta do resgate aos investidores e depositantes dos dois maiores bancos, que já perderam 60% de seu dinheiro. O que a Alemanha exigirá para o próximo resgate? Que os cipriotas vendam suas casas? Enquanto isso, o superávit comercial da Alemanha com os países da Europa meridional chega a um trilhão de euros, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. E, não casualmente, os resgates de Grécia, Portugal e Irlanda ajudarão a recuperar os maus investimentos dos bancos alemães nesses mesmos países. Entretanto, não está clara a situação dos bancos e dos títulos tóxicos que ainda possuem. Sabe-se apenas que para se estabilizaram precisarão de mais dinheiro. O caso do Bankia, na Espanha, é emblemático; para salvar esse banco o governo dilapidou US$ 72 bilhões. As últimas notícias de Wall Street são reveladoras. Os bancos que inventaram, com base na hipoteca e em créditos imobiliários, os chamados derivados, produtos financeiros de altíssimo risco, tanto que ao explodir ocasionaram o desastre que levou à crise atual (com a adicional contribuição da especulação bancária europeia sobre os títulos da dívida soberana), agora estão recriando exatamente os mesmos instrumentos. Somente no último trimestre foram emitidos novos derivados no valor de US$ 33,5 bilhões. A razão é simples. A menos que se volte a separar rigidamente os bancos de depósitos dos bancos de investimentos, sistema que vigorou até o governo de Bill Clinton, todo dinheiro que entrar nos bancos será dirigido com preferência à especulação, que dá maior rendimento. E, se as operações correrem mal, já se sabe que o Estado voltará a resgatá-los. Não se deve estranhar que o perverso mecanismo do instinto especulativo tenha chamado a atenção de dois especialistas forenses que, por encomenda de uma universidade suíça, realizaram testes de inteligência e simulação computadorizada para medir o grau de egoísmo de 28 agentes de bolsa de valores e avaliar sua disposição de cooperar com o próximo. Resultado: os operadores de bolsa são mais irresponsáveis e manipuladores do que os psicopatas. Um dos especialistas, o psiquiatra Thomas Noll, afirmou ao semanário alemão Der Spiegel que os agentes “mais egoístas se sentiam mais dispostos a correr riscos do que um grupo de psicopatas submetidos aos mesmos testes”. Noll destacou o aspecto destrutivo implícito na competitividade dos operadores de bolsa de valores, já que para eles “o mais importante é ganhar mais do que seus rivais e, em consequência, concentram suas energias em tentar superá-los”. Quantas crises teremos que suportar antes que sejam estabelecidos controles para eliminar os riscos do sistema bancário atual e isolar a especulação financeira? Envolverde/IPS * Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor de Other News.


por Roberto Savio*
Mulheres na porta da mesquita de Sayeda Zeinab, no Cairo, à qual comparecem tanto sunitas quanto xiitas. Foto: Cam McGrath/IPS Inter Press Service - Reportagens

Situação de xiitas piorou no Egito de Morsi

[caption id="attachment_85953" align="alignleft" width="300" caption="Mulheres na porta da mesquita de Sayeda Zeinab, no Cairo, à qual comparecem tanto sunitas quanto xiitas. Foto: Cam McGrath/IPS"][/caption] Cairo, Egito, 6/5/2013 – A multidão que cercou a casa de Mohammad Nour, um xiita egípcio radicado no distrito de Bab El-Shaariya, no Cairo, gritava que tinha a missão de vacinar o Egito contra as crenças religiosas dessa seita islâmica. Sem intervenção, a doutrina se propagará pelo Egito “como um câncer”, alertaram. Nour era um muçulmano sunita de nascimento, que se converteu ao xiismo há quase duas décadas. Desde que seus vizinhos ficaram sabendo, no começo do ano passado, enfrentou constantes ameaças e hostilidades. “Meus vizinhos já não conversam comigo e tentam fazer com que me mude daqui. As pessoas atiram pedras contra minha casa, me ameaçam por telefone e incendeiam meu carro. Preocupa a segurança da minha família”, contou. A divisão entre sunitas e xiitas remonta à morte do profeta Maomé, em 632, mas a hostilidade contra a minoria xiita no Egito está firmemente arraigada na política moderna. Durante seus 29 anos no poder, o ex-presidente Hosni Mubarak expressou ódio visceral contra o Irã, orquestrando sua política externa para conter a “maré xiita”, na crença de que o Irã exportava este ramo do Islã para expandir sua influência política no mundo árabe. A animosidade entre Egito, predominantemente sunita, e Irã, dominado pelos xiitas, data dos primeiros dias da Revolução Islâmica de 1979 neste último. Os dois países cortaram relações diplomáticas depois que o ex-presidente egípcio Anwar Sadat assinou um acordo de paz com Israel e concedeu asilo ao xá do Irã, Reza Pahlevi. “O regime de Mubarak olhava com profundas suspeitas para sua minoria xiita”, disse Ishaak Ibrahim, pesquisador de direitos religiosos na Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais. “Presumia que todos os xiitas eram leais ao Irã, controlava de perto suas atividades e os impedia de se reunirem. Muitos xiitas foram presos sob acusação de falsidades”, contou Ibrahim, acrescentando que a queda de Mubarak, em 2011, abriu uma pequena janela para os xiitas do Egito, cujos membros, estima-se, oscilem entre 800 mil e dois milhões. Mas a janela se fechou repentinamente, e a situação piorou desde que, no ano passado, chegou ao poder o governo islâmico do presidente Mohammad Morsi. O Estado continua aplicando medidas discriminatórias contra os xiitas, enquanto deixa a comunidade exposta ao crescente perigo do extremismo salafista, disse Ahmad Rasem El-Nafis, destacado erudita xiita. “É muito pior agora, no governo Morsi, porque não há segurança”, pontuou à IPS. “Os salafistas estão espalhando mentiras sobre nós e cometendo crimes contra nós com impunidade. Em julho de 2011, fui vítima de um atentado, e recebo ameaças quase diariamente”, enfatizou. O salafismo, uma seita sunita radical influenciada pelo wahhabismo (movimento religioso ultraconservador muçulmano) saudita, foi empurrado para a clandestinidade pelo regime autoritário de Mubarak. Desde a revolução de 2011, seus integrantes se organizaram politicamente, e procuraram e receberam mais de um quarto dos votos nas eleições parlamentares do ano passado, sendo superados apenas pela Irmandade Muçulmana. O Islã xiita tem um longo histórico no Egito. Cairo foi fundada em 969 pela dinastia xiita Fatimí, que governou o Egito durante 200 anos e modelou sua identidade. Inclusive atualmente, os sunitas egípcios visitam reverenciados santuários xiitas, como El-Hussein e Sayeda Zeinab, e incorporam naturalmente práticas xiitas às suas tradições e aos seus ritos funerários. “Não se pode distinguir rapidamente os sunitas dos xiitas por seu comportamento”, afirmou El-Nafis. “As diferenças entre as duas seitas islâmicas são fabricadas e exageradas por motivos puramente políticos”, ressaltou. Para evitar as perseguições, muitos xiitas praticam sua fé sob o guarda-chuva do sufismo, uma variedade mística do Islã que compartilha a veneração xiita pelos Ahl Al-Beyt, a família do profeta Maomé. “Nós, xiitas, ainda não podemos nos reunir abertamente como grupo”, contou El-Nafis. “Se eu visito um xiita em sua casa, os salafistas dirão que estamos fazendo uma ‘hussineya’ (casa de rezas xiitas), e se vou a uma mesquita com outro xiita, seguramente seremos hostilizados”, explicou. Em dezembro de 2011, as forças de segurança impediram que centenas de xiitas assistissem as celebrações religiosas de Ashura, na mesquita de El-Hussein, local sagrado para estes fiéis no Cairo. A polícia retirou à força da mesquita só fiéis xiitas, depois que grupos salafistas os acusaram de praticar ritos “brutais”. E, mesmo quando estão sozinhos, os xiitas enfrentam a intolerância e um sistema legal que, segundo organizações de direitos humanos, viola os princípios da liberdade religiosa. Em julho de 2012, um tribunal condenou Mohammad Asfour, um egípcio xiita convertido, a um ano de prisão por “profanar um lugar de culto” e “insultar os discípulos do profeta”. Os promotores disseram que Asfour foi pego colocando uma pedra debaixo de sua cabeça enquanto rezava na mesquita de uma aldeia, prática malv ista pelos muçulmanos xiitas. A prisão ocorreu após três semanas de abusos, depois que os aldeões souberam que Asfour havia se convertido ao Islã xiita. Sua conversão provocou a hostilidade de vizinhos e familiares de sua esposa sunita, que o pressionaram para se divorciar. “O Egito é um país sunita e devemos proteger a sociedade da influência xiita”, afirmou Khaled Fahmi, comerciante têxtil de Cairo que acusa o Irã de “usar agentes pagos” para realizarem proselitismo. “Os egípcios pobres e analfabetos são facilmente enganados por suas mentiras”, argumentou. Como muitos egípcios sunitas, Fahmi está indignado com a vacilante abertura do governo quanto a aproximar-se do Irã. Morsi enfrentou duras críticas dentro de seu país por ter participado, em agosto do ano passado, de uma cúpula regional em Teerã. Seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, quando visitou Cairo em fevereiro, foi humilhado, quando sapatos foram atirados em sua direção. No começo deste mês um grupo de manifestantes, principalmente salafistas, cercou a casa do encarregado de negócios no Cairo para protestar contra um novo protocolo de intercâmbio turístico, pelo qual viajantes iranianos chegaram ao Egito pela primeira vez em 30 anos. A violenta reação levou o governo a suspender qualquer outra visita turística. Envolverde/IPS


por Cam McGrath, da IPS
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México, arena global de disputa por grãos

Cidade do México, México, 6/5/2013 – No filme norte-americano Unknown (Desconhecido), de 2011, um médico é perseguido pela indústria biotecnológica por ter descoberto um milho resistente a pragas e secas, livre de patentes e que pode ajudar a combater a fome. Essas cenas poderiam muito bem estar baseadas na realidade do México. Este país é cenário atualmente da luta global para proteger o centro de origem e diversidade do milho da investida das variedades geneticamente modificadas. “É a primeira vez que um dos cultivos mais importantes do mundo está ameaçado em seu centro de origem. Se deixarmos que as corporações ganhem, não haverá maneira de defendê-los em outros lugares. O que está acontecendo no México é de vital importância para o mundo”, disse à IPS o canadense Pat Mooney, diretor do não governamental Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração. Organizações da sociedade civil estão com a guarda levantada diante da possibilidade de que o governo de Enrique Peña Nieto, do tradicional Partido Revolucionário Institucional (PRI), aprove o cultivo comercial de milho transgênico, política rechaçada amplamente por ambientalistas e outros ativistas, acadêmicos e produtores pequenos e médios, em razão dos riscos que pode representar. As multinacionais norte-americanas Monsanto, Pioneer e Dow Agrosciences apresentaram em setembro seis solicitações para cultivos comerciais de milho transgênico em mais de dois milhões de hectares nos Estados de Sinaloa e Tamaulipas. Além disso, essas empresas, mais a Syngenta, apresentaram, desde janeiro, 11 pedidos para plantio-piloto e experimental deste tipo de grão em 622 hectares dos Estados de Chihuahua, Coahuila, Durango, Sinaloa e Baixa Califórnia. Além disso, a Monsanto fez o mesmo para uma área não especificada no norte do país. Desde 2009, o governo mexicano autorizou 177 cultivos experimentais de milho transgênico em uma área de 2.664 hectares, segundo os últimos dados oficiais. “Vão encher as mesas de milho transgênico apesar de a soberania alimentar depender do plantio desse grão próprio deste país”, afirmou Evangelina Robles, integrante da Rede em Defesa do Milho, que mantém uma campanha de rejeição a essa variedade. “Por isso, temos que exigir que o Estado a proíba”, destacou à IPS. O México produz cerca de 22 milhões de toneladas anuais de milho e precisa importar aproximadamente dez milhões, segundo o Ministério da Agricultura. Na verdade, adquiriu da África do Sul cerca de dois milhões de toneladas deste grão geneticamente modificado nos últimos anos e está para comprar mais 150 mil toneladas. Os três milhões de produtores de milho que plantam cerca de oito milhões de hectares no México destinam dois milhões ao consumo familiar. Esses cultivos se centram em espécies de grãos brancos, enquanto o amarelo, usado na alimentação animal, na sua maioria é importado. O Conselho Nacional de Avaliação da Política Social indica o consumo anual médio por pessoa neste país em 123 quilos de milho, enquanto a média mundial é de apenas 16,8 quilos. A vinculação direta com as culturas aborígenes pré-hispânicas faz com que este grão tenha forte simbolismo em toda Mesoamérica, que inclui quase todo o território da América Central e metade da América do Sul, de onde se considera que seja originário, e oferece 59 espécies nativas e 209 variedades. No Estado do México, vizinho ao Distrito Federal, pequenos produtores encontraram grãos contaminados mediante exames feitos por alunos da estatal Universidade Autônoma Metropolitana. “Trocamos sementes e decidimos fazer alguns testes. Por isso, agora somos mais precavidos no intercâmbio e sobre os que participam da feira, embora ainda tenhamos que fazer testes de confirmação”, contou à IPS a ativista Sara López, da Rede Origem Vulcões, que reúne pequenos produtores e organiza encontros de cultivadores desde 2010. Organizações ambientalistas, científicas e de camponeses descobriram contaminação do cultivo nativo em Chihuahua, Hidalgo, Puebla e Oaxaca. Para Camila Montecinos, do escritório no Chile da organização não governamental internacional Grain, a contaminação é “uma estratégia planejada cuidadosa e perversamente”. As empresas transnacionais de alimentos “elegeram o milho, a soja e a canola porque têm um potencial enorme de contaminação”, disse a especialista, participante da pré-audiência sobre esse fenômeno dentro do capítulo mexicano do Tribunal Permanente dos Povos, que começou em 2012 e concluirá com uma sentença em 2014. “Quando se estende a contaminação, as empresas dizem que é preciso reconhecê-la e legalizá-la”, para dessa forma abrir caminho à comercialização, detalhou Montecinos. O ministro do Meio Ambiente do México, Juan Guerra, afirmou que será avaliada toda informação científica disponível antes de uma decisão. Contudo, isso não será fácil. A Confederação Nacional Camponesa, uma das correntes internas mais fortes do governante PRI, mantém desde 2007 um acordo com a Monsanto sobre milhos nativos. Além disso, o governo ainda não aprovou uma regulamentação sobre as características e o conteúdo do informe de resultados de liberações de organismos geneticamente modificados sobre os possíveis riscos para o meio ambiente, a diversidade biológica, a saúde animal, vegetal e da água. “Durante 18 anos, as empresas não foram capazes de convencer que seus produtos são bons. O milho está sendo usado como meio de controle político e econômico. As pessoas necessitam que o milho continue vivo”, ressaltou Pat Mooney. No mercado circulam somente os transgênicos Round Up e BT (pela bactéria Bacillus thuringiensis) para algodão, milho, soja e canola, aceitos apenas no Canadá, Estados Unidos, Argentina, Brasil e Espanha, e proibidos, por exemplo, na China, Rússia e maioria dos países da União Europeia. Estudos recentes divulgados nos Estados Unidos demonstram que essas variantes não aumentam o rendimento por hectare nem criam resistência a erva daninha ou pragas, contrariamente à propaganda da indústria. “Analisamos as medidas legais para tomar contra as novas solicitações”, afirmou Evangelina Robles. Envolverde/IPS  


por Emilio Godoy, da IPS
Transmitir mensagens às populações locais, especialmente nos países em desenvolvimento, é fundamental para mobilizar apoio para o trabalho da ONU. Foto: Isaiah Esipisu/IPS Inter Press Service - Reportagens

ONU aproveita redes sociais

[caption id="attachment_85926" align="alignleft" width="300" caption="Transmitir mensagens às populações locais, especialmente nos países em desenvolvimento, é fundamental para mobilizar apoio para o trabalho da ONU. Foto: Isaiah Esipisu/IPS"][/caption] Nações Unidas, 6/5/2013 – O mundo continua se tornando digital e, sem pressa mas sem pausa, a Organização das Nações Unidas também. A ONU aproveita cada vez mais as ferramentas que as redes sociais proporcionam, como Facebook, YouTube, Twitter e Flickr, bem como outras inovadoras tecnologias da comunicação, para chegar a mais pessoas em todo o mundo, declarou seu secretário-geral, Ban Ki-moon. Em um informe ao Comitê da ONU sobre Informação, que encerrou suas sessões no dia 3, Ban afirmou que os esforços para fazer uso dos meios sociais “deram resultados impactantes em termos de chegar a novas audiências em todo o mundo”. O site dedicado a visitantes da ONU, lançado em 2010, recebeu quase 350 mil páginas vistas até o dia 3, enquanto sua conta no Facebook aumentou para cerca de 5.800 seguidores, sendo que no Google Plus alcançou aproximadamente 700 mil. E, na medida em que a ONU reduz drasticamente seus informes e documentos impressos, preferindo versões eletrônicas, também aumenta o volume de documentos digitalizados. Atualmente, o arquivo das Nações Unidas tem 3,7 milhões de documentos, a maioria esperando para ser passado para o formato digital. A agenda principal da ONU se centra em três temas principais: paz e segurança, desenvolvimento e direitos humanos, interligados com o empoderamento de gênero, antiterrorismo e desenvolvimento sustentável, entre outros. Peter Launsky-Tieffenthal, secretário-geral adjunto de Comunicações e Informação Pública, disse que as bibliotecas da ONU em Nova York e Genebra processaram cerca de 340 mil documentos, que representam 3,5 milhões de páginas. “O calendário para completar a tarefa, utilizando os recursos e métodos atuais, seria de aproximadamente 20 anos”, afirmou. Ao mesmo tempo, a ONU tem 13 milhões adicionais de documentos oficiais, principalmente informes de antecedentes e documentos de trabalho, que também aguardam digitalização. “Isso poderia consumir outros 60 anos”, segundo o Comitê. De todo modo, os tradicionais ainda são os principais meios de comunicação, especialmente nos países em desenvolvimento, onde a cobertura da internet é escassa. Diante da pergunta sobre se a ONU está no caminho correto em matéria de aproveitamento das redes sociais contra os meios tradicionais, a nova presidente do Comitê sobre Informação, embaixadora Lyutha Sultan Al-Mughairy, de Omã, respondeu à IPS: “Creio que sim, mas não quero sugerir que os meios sociais estejam contra os meios tradicionais”. E acrescentou que “precisamos de todas as formas de meios para comunicar, no contexto de quem é nossa audiência e com qual forma de comunicação cada audiência se sente cômoda”. Segundo Al-Mughairy, na sessão que acaba de concluir, o Comitê sobre Informação propôs que a Assembleia Geral, de 193 membros, peça ao secretário-geral que se reporte a ela em sua próxima sessão, “a respeito da estrutura da presença da Organização nas redes sociais e sua estratégia e pautas para seu uso”. “Acreditamos que esta informação será importante para avaliar qual caminho trilhar e qual é a melhor maneira de aproveitar o poder dos meios sociais”, explicou, ressaltando que deve ser abordada uma série de desafios e cobertas novas audiências, “em um clima orçamentário que piora”, fazendo com que mais recursos diminuam cada vez mais rapidamente. Atualmente, há 63 Centros de Informação da ONU (Unic) que chegam ao público em geral. Sobre a importância dos Unic no contexto da atual campanha de austeridade para eliminar alguns ou a maioria desses custos, Al-Mughairy explicou à IPS que o Comitê enfatiza a importância dos mesmos para potencializar a imagem pública das Nações Unidas. E também para divulgar mensagens às populações locais, especialmente em países em desenvolvimento, pois a informação em idiomas locais tem maior impacto sobre essas populações, e para mobilizar apoio para o trabalho da ONU no âmbito local. De acordo com Al-Mughairy, seu Comitê também enfatiza a importância de racionalizar a rede dos Unic e, neste sentido, pediu ao secretário-geral que continue apresentando propostas, o que inclui voltar a liberar recursos onde for necessário. O Departamento garantiu ao comitê que as necessidades de comunicação e informação pública não serão afetadas por nenhuma reforma dos Unic ou de suas funções. Al-Mughairy propôs que o Comitê também veja com bons olhos o apoio de alguns Estados-membros, incluídos países em desenvolvimento, na oferta, entre outras coisas, de locais isentos do pagamento de aluguel para os Unic, considerando que esse apoio não deveria substituir a destinação total de recursos financeiros para os centros de informação no contexto do orçamento de programas da ONU. O informe do secretário-geral também diz que, até o final de 2012, mais de 850 instituições de educação superior e centros de pesquisa em todo o mundo se integraram ao Impacto Acadêmico, descrito como uma iniciativa universitária mundial lançada em 2010 para alinhar essas instituições com a ONU. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
n1 Inter Press Service - Reportagens

Enredos institucionais e desindustrialização afetam o Mercosul

Rio de Janeiro, Brasil, 6/5/2013 – O Mercado Comum do Sul (Mercosul) inaugurará em julho sua nova fase, com cinco membros plenos, caso supere a bagunça gerada com a incorporação da Venezuela, mas seus problemas de fundo continuarão travando a integração. Há um “vazio jurídico” diante da possibilidade do retorno do Paraguai como sócio de pleno direito do Mercosul, junto aos outros sócios fundadores, Brasil, Argentina e Uruguai, afirmou Tullo Vigévani, professor de ciências políticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), especializado em relações internacionais. A adesão plena da Venezuela ao bloco foi aprovada na cúpula de 29 de junho de 2012, aproveitando a ausência do Paraguai, suspenso nessa mesma reunião em razão do golpe parlamentar daquele mês contra o então presidente Fernando Lugo. Esse julgamento político sumário, sem tempo para o direito à defesa, foi considerado como violação à cláusula democrática. O Senado paraguaio, único corpo legislativo do bloco que havia congelado a ratificação de adesão assinada em 2006 pela Venezuela, acabou por rejeitá-la em agosto, uma votação mais simbólica do que efetiva. A solução para este enredo institucional provavelmente será “um acordo político” até agosto, quando tomar posse o presidente eleito do Paraguai, o empresário Horacio Cartes, já que os interesses econômicos dão um forte poder de pressão a Buenos Aires e Brasília sobre Assunção, ponderou Vigévani à IPS. O novo governo, que representa o retorno da direitista Associação Nacional Republicana, conhecida como Partido Colorado, conseguiria que o parlamento ratificasse finalmente a entrada da Venezuela, fato que agrega ao bloco novas incertezas devido às dificuldades econômicas deste último país, agora sem a liderança de Hugo Chávez, falecido em 5 de março e sucedido por Nicolás Maduro. No entanto, o Mercosul claudica principalmente pelas “conflitivas relações” entre Argentina e Brasil, os sócios fundamentais enfrentados em diferentes processos de industrialização, segundo análise do professor da Unesp. A Argentina perdeu boa parte de suas indústrias em um longo processo iniciado nos anos 1970, recordou. Políticas privatizadoras e de abertura de fronteiras adotadas em diferentes períodos, como na última ditadura (1976-1983) e no governo de Carlos Menen (1989-1999), levaram ao desastre. O problema é que esse país agora tenta uma “reindustrialização à antiga”, protegendo setores pouco competitivos, sem as inovações tecnológicas que apontem para um futuro sustentável, embora se compreenda a pressão pela geração de empregos, criticou Vigévani. Nesse quadro, as disputas com o Brasil se repetem desde a criação do Mercosul, em 1991, como no caso da tentativa de criar um espaço comum de livre circulação de bens e pessoas, que em alguns momentos foi discutido, com metas ambiciosas como a harmonização macroeconômica, cadeias produtivas e moeda comum, que se revelaram irreais. O dinamismo comercial entre os dois países parece ter alcançado seu limite em 2011, quando o Brasil exportou US$ 22,709 bilhões para a Argentina e dela importou US$ 16,906 bilhões, segundo dados oficiais brasileiros. Este balanço culmina um desequilíbrio iniciado em 2004. O intercâmbio bilateral aumentou 13 vezes desde a assinatura do Tratado de Assunção, que criou o Mercosul. No ano passado, as vendas brasileiras caíram 20,75%, enquanto as argentinas baixaram apenas 2,73%. Desde outubro, a balança comercial se inclinou ligeiramente a favor de Buenos Aires. Também as relações bilaterais sofreram pela fuga de grandes investimentos brasileiros do país vizinho. A Petrobras deixou o mercado argentino onde havia adquirido uma importante rede de distribuição de combustíveis, enquanto a gigante da mineração Vale, privatizada em 1997, suspendeu seu projeto de extração de potássio no Rio Colorado, despertando iradas reações em Buenos Aires. O Brasil também entrou em um processo de desindustrialização, embora mais recente e menos dramático do que o sofrido pela Argentina no passado. Por isso tenta defender alguns segmentos industriais com medidas como altas tarifas alfandegárias, exigência de conteúdo nacional mínimo nas compras governamentais, redução de impostos e do custo da energia, como um importante elemento para sustentar a conjuntura de quase pleno emprego, graças à rápida expansão dos setores de serviços, agricultura e construção. No entanto, essa indústria que Brasília procura preservar está “atrasada”, com predomínio da área metalmecânica e escassa participação dos setores de maior inovação tecnológica, como o eletrônico e o químico, explicou Júlio de Almeida, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. Com o auge do fenômeno chinês na economia mundial, no Brasil acentuou-se a perda de participação da indústria no produto interno bruto e nas exportações. Este problema, porém, é enfrentado em todo o Mercosul, que se consolida como exportador de produtos primários e importador de manufaturados. O desafio do bloco é desenvolver “políticas que fortaleçam seus processos de inovação e capacitação competitiva, em uma produção que incorpore tecnologias”, pontuou Vigévani, em um diagnóstico que a cada dia obtém mais consenso, mas sem soluções viáveis e visíveis no curto prazo. Assim, a plena incorporação da Venezuela ao Mercosul não melhora tais perspectivas. Com um comércio exterior muito mais desbalanceado, exportando petróleo e necessitando todo o restante do exterior, o mercado desse país já é um grande comprador de alimentos e bens industriais da Argentina e do Brasil. Por exemplo, o Brasil exportou para a Venezuela, em 2012, US$ 5,056 bilhões e só importou US$ 997 milhões, segundo estatísticas brasileiras. Os investimentos do país na Venezuela, além disso, estão em retrocesso, com suspensão das atividades por várias empresas. As empresas brasileiras só realizaram quatro operações de investimento nesse país nos últimos cinco anos, contra 20 na Colômbia, 19 no Chile e oito no Peru, segundo o banco de dados do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), do Rio de Janeiro. Com a deterioração econômica a ser enfrentada por Maduro, aumentam as incertezas sobre os efeitos da presença do quinto sócio pleno no Mercosul. A negociação de um acordo comercial com a União Europeia (UE), que voltou à mesa, tampouco aponta muitos benefícios, já que se trata basicamente de abrir esse mercado aos produtos agropecuários do Mercosul, como contrapartida para melhor acesso da indústria e dos serviços do bloco europeu às duas maiores economias sul-americanas, o que agravaria os problemas. Além disso, a severa crise econômico-financeira que a UE enfrenta limita as possíveis ambições de tal negociação. Envolverde/IPS  


por Mario Osava, da IPS
Suíça leva solicitantes de asilo a casamatas na montanha, longe de centros povoados. Foto: Ray Smith/IPS Inter Press Service - Reportagens

Suíça aloja imigrantes em zonas montanhosas remotas

[caption id="attachment_85679" align="aligncenter" width="500" caption="Suíça leva solicitantes de asilo a casamatas na montanha, longe de centros povoados. Foto: Ray Smith/IPS"][/caption]   Lucerna, Suíça, 3/5/2013 – Por não ter onde colocar as pessoas que solicitam refúgio, as autoridades suíças recorreram a casernas sem uso do exército. Algumas ficam em passagens de montanha e longe de áreas habitadas. No ano passado, 28.631 pessoas pediram asilo na Suíça, quase o dobro de 2010. A maioria procedente de Eritreia, Nigéria e Tunísia. O Escritório Federal de Migrações (OFM), responsável pelo processo, registrou 44.478 no final de março deste ano. As autoridades suíças têm dificuldades para alojar todos os estrangeiros. Entretanto, este é um problema criado por elas mesmas, pois em 2006 o então ministro da justiça, Christoph Blocher, iniciou uma drástica redução da infraestrutura destinada a esse fim. Diante da falta de lugares de residência, em março de 2012, o governo ordenou ao Departamento Federal de Defesa, Proteção da População e Esporte (DDPS) que acomodasse cerca de quatro mil solicitantes de asilo. O DDPS controla as Forças Armadas, que têm muitas dependências sem uso. Mas os esforços do DDPS são morosos por problemas políticos, restrições de construção e a não conformidade com os planos espaciais de comunidades, o que levou o parlamento a aprovar uma resolução que permitiu saltar os procedimentos de autorização de cantões e comunidades. Os locais do exército costumam ficar em zonas distantes, o que agrada muitos cidadãos suíços. Este sentimento é o resultado de mais de uma década de campanhas populistas de direita contra os estrangeiros e, em especial, os solicitantes de asilo. Antes de serem distribuídos nos cantões, os solicitantes foram alojados pela OFM em abrigos de suas próprias dependências coletivas. Mas a urgência faz com que este órgão considere adequados os lugares afastados, mesmo que apresentem problemas logísticos. Um dos centros provisórios foi aberto em outubro passado, perto do povoado de Sufers, nos Alpes dos Grisones, a 1.400 metros de altitude. “Os solicitantes de asilo vivem em uma casamata velha e desolada em um estreito vale”, descreveu Denise Graf, da Anistia Internacional, com sede em Londres, que visitou o lugar. “Não há casas perto, apenas árvores e um montão de neve”, afirmou. Como em todos os centros da OFM, os refugiados só podem permanecer fora entre nove horas da manhã e cinco da tarde. Um barracão do exército serve de lugar recreativo e é possível sair nos finais de semana. “Para compensar o isolamento espacial, recebem passagens gratuitas para transporte no final de semana. Mas o ponto de ônibus mais perto fica a vários quilômetros do local”, observou Graf. “O contato entre os 130 residentes de Sufers e os 80 solicitantes de asilo é escasso”, informou o prefeito Thomas Lechner. “O lugar fica a dois quilômetros e meio do povoado”, destacou Graf. Consultado se uma casamata é um lugar apropriado para alojar pessoas, o prefeito disse que “as pessoas permanecem ali 35 dias. Para os militares foi bom, por isso penso que também é razoável para os solicitantes de asilo”. Como o centro de Sufers foi fechado no final de abril, a IPS não pôde entrevistar nenhum de seus habitantes, embora outras pessoas que moraram em outros centros afastados mencionaram o enorme aborrecimento, o que às vezes pode ser motivo de conflitos. “É muito difícil viver em casamatas, especialmente com limitada liberdade de movimento”, contou Moreno Casasola, secretário-geral da Solidarité Sans Frontières, que defende os direitos de refugiados e solicitantes de asilo. “Como se pode ver pela experiência dos soldados, o lado psicológico é rapidamente prejudicado”, afirmou. A OFM tem consciência disso e pediu que os residentes de Sufers oferecessem trabalho. “Foi uma situação boa para os solicitantes de asilo, bem como para nossa comunidade”, reconheceu Lechner. “Cortaram lenha, arrumaram as calçadas, e limparam pastos. Na verdade, muitos solicitantes de asilo aplaudiram a oportunidade de trabalhar. Melhorou sua aceitação e reputação local. Mas não é justo alojar essas pessoas em lugares montanhosos distantes”, afirmou Graf. Devido ao fechamento do centro de Sufers, será aberto um temporário na Passagem de Lukmanier, que liga o cantão de Grisones com o de Tesino, onde serão acomodados cem solicitantes de asilo quando a neve derreter. “Decidimos ajudar a OFM”, disse Peter Binz, prefeito da municipalidade de Medel, à qual pertence a passagem montanhosa. O município tem 400 habitantes e seu principal povoado, Curaglia, fica a 15 quilômetros da Passagem de Lukmanier. Dentro de pouco tempo, a OFM anunciará a abertura de outro centro de alojamento para solicitantes de asilo no Lago della Sella, a 2.256 metros de altitude. O lago artificial fica perto da Passagem de San Gotardo, que liga o norte da Suíça, de língua alemã, com o sul, de língua italiana. Este lago pertence à municipalidade de Airolo, cujo prefeito, Franco Pedrini, se mostrou preocupado: “Ninguém vive ali. É um lugar bonito para passar uma semana acampando de férias, mas o clima é duro. Não é adequado para solicitantes de asilo”. Ainda que o centro de Lago della Sella só venha a ser usado no verão, não é raro que ali caia neve, mesmo em julho e agosto. “Um lugar afastado estaria bem e alegraria os cidadãos que temem a presença de solicitantes de asilo, mas isso fica muito longe de uma área civilizada”, enfatizou Pedrini. A organização Solidarité Sans Frontières se opõe radicalmente aos centros afastados para alojar os imigrantes. “São seres humanos, não vacas que no verão se leva para a montanha”, disse seu secretário-geral. “A OFM só se apoia no DDPS para o alojamento. Deveria ampliar suas relações e incluir, por exemplo, instituições clericais, que possuem muitos imóveis adequados”, acrescentou Cassasola. André Durrer, que trabalha para a organização Caritas, tampouco está de acordo quanto a colocar os imigrantes nas montanhas. “Durante 20 anos tivemos lugares em áreas povoadas sem barreiras nem guarda particular, e funcionou”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Ray Smith, da IPS
Quase 18% da população cubana tem mais de 60 anos e a maioria é de mulheres. Foto: Jorge Luis Baños/IPS Inter Press Service - Reportagens

Cubanas assumem o desafio de envelhecer com mais qualidade

[caption id="attachment_85673" align="aligncenter" width="500" caption="Quase 18% da população cubana tem mais de 60 anos e a maioria é de mulheres. Foto: Jorge Luis Baños/IPS"][/caption]   Havana, Cuba, 3/5/2013 – A pediatra Grisel Navarro diz ser uma “aposentada diferente”, porque continuou vinculada à sua profissão, sai para passear e se nega a “ficar à mercê das necessidades familiares e de todos”, uma realidade que reduz a qualidade de vida de muitas cubanas quando se aposentam. Grisel, de 62 anos, se aposentou há cinco meses e agora tem contrato de meio período no hospital Ángel Arturo Aballí, da capital. “Continuo trabalhando no que gosto, de maneira mais calma”, contou à IPS esta integrante de uma geração feminina que superou com juros os níveis de instrução e emprego de suas mães. Hoje, as cubanas que chegam à idade de se aposentar (elevada em 2008 de 55 para 60 anos para mulheres e de 60 para 65 anos para os homens) tiveram acesso maciço à educação desde a infância e apostaram no emprego. O fizeram imbuídas pela chamada “revolução dentro da Revolução”, como foi conhecida a emancipação feminina dentro do processo iniciado em 1959 em Cuba, que elevou os níveis de participação das mulheres e alcançou progressos como igualdade de salários com os homens, entre outros. No entanto, ativistas defendem, atualmente, mais mudanças em favor da igualdade de gênero e que haja mais políticas públicas voltadas para as necessidades particulares das mulheres e meninas deste país de 11,2 milhões de habitantes, onde persiste o machismo. As idosas como Grisel têm entre suas aspirações “viver a plenitude da terceira idade”, mas esse sonho pode ser truncado por diversos fatores como as desvantagens de gênero e outros próprios da velhice, como ser este um setor de poucos recursos econômicos. Sobre elas continuam recaindo as maiores responsabilidades do lar e o cuidado das crianças e dos doentes, tendem mais a ficar viúvas e seguirem sozinhas, ficam encarregadas de netos devido à emigração de jovens, e muitas carecem de segurança econômica por sempre terem sido trabalhadoras do lar ou receberem pensões mínimas do Estado. “Embora as mulheres vivam mais, o fazem com menos saúde ou mais afetadas por eventos mórbidos ou de enfermidades, uma manifestação de menor de vida”, explicou à IPS a demógrafa Sonia Catasus. “Neste fenômeno incidem de alguma forma os elementos vinculados à subordinação de gênero”, ressaltou. A expectativa de vida das cubanas é de 80,7 anos, enquanto a média dos homens fica em 76,6 anos, um indicador que tende a crescer para ambos os sexos, segundo o Escritório de Estatísticas e Informação (Onei, estatal). Cada vez mais aumenta mais o período entre a aposentadoria e a morte da população. Este fato demonstra os avanços sociais e em saúde do país, mas, ao mesmo tempo, representa um desafio para sua economia, típica de nações em desenvolvimento, que tenta sair da profunda crise que sofre há mais de 20 anos. Por razões biológicas, a população feminina vive mais anos do que a masculina em todas as latitudes, explicou Catasus, por isso, fala-se de um processo de “feminização do envelhecimento” em nível global, assunto que requer tratamento particular por parte dos governos. Uma pesquisa a respeito, apresentada pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, que usa dados de 2010, mostra que as mulheres com mais de 60 anos representavam 10,7% da população feminina da região, enquanto os idosos eram 9% do total de homens. Além disso, três em cada dez mulheres idosas latino-americanas tinham, então, 75 anos ou mais. Também nesse mesmo ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estudou 31 latino-americanos e caribenhos e alertou que as mulheres tinham, dentro de sua expectativa de vida, dez anos carentes de boa saúde, enquanto os homens apenas oito. Esse panorama será mais crítico no futuro próximo, uma previsão que coloca em xeque famílias, sistemas de cuidado, de apoio a cuidadores, de assistência social e de saúde, e a maneira como se planeja a força de trabalho em países como Argentina, Brasil, Cuba, Chile, Costa Rica, Porto Rico, República Dominicana e Uruguai. O informe Envelhecer no Século XXI: uma Celebração e um Desafio, divulgado em 2012 pelo Fundo de População das Nações Unidas, estima que 25% da população latino-americana terá mais de 60 anos em 2050. Nessa época, Cuba estará entre as 11 nações com população mais velha do mundo, com 38% acima dos 60 anos. Embora a cobertura econômica e os serviços de saúde sejam fundamentais para melhorar as condições da terceira idade, aposentadas como a cubana Caridad Pegudo, de 67 anos, asseguram que é imprescindível “se preparar para mudar de atitude” a fim de ter uma boa qualidade de vida na velhice. “Para nós, idosas, é importante alternar a rua com a casa, que nos absorve. Quando saímos não temos que nos preocupar e sempre se conversa com outras pessoas”, contou à IPS esta professora aposentada que integra o grupo Tula, de artesanato em tecido. “Manter-se ativa socialmente contribui para ficar menos doente e nos aproxima de novos conhecimentos”, observou Caridad, que no final de março participou do Terceiro Encontro de Meditação. Esta iniciativa comunitária, realizada em Havana, mobilizou mais de mil pessoas, sobretudo mulheres da terceira idade. “As mulheres são educadas para sustentar a família e os outros. Com as mudanças atuais, muitas idosas se preocupam mais consigo mesmas. Penso que a meditação ajuda a se reencontrarem com elas mesmas, além de esta prática melhorar sua saúde”, opinou Juan Dávila, organizador do encontro. Esse projeto se une a outras iniciativas civis e estatais que tentam apoiar a crescente população idosa em Cuba. Entre elas, destacam-se as mais de 500 Aulas do Adulto Idoso, que atualizam avanços científicos do momento, e os chamados Círculos de Avós, para fazer exercícios físicos em grupo. Envolverde/IPS


por Ivet González, da IPS

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sustentabilidade

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Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

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