Arrozeiros aderem à agenda da Rio+20

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Arrozeiros aderem à agenda da Rio+20


por Amantha Perera, da IPS


[caption id="attachment_52200" align="alignleft" width="300" caption="Os variáveis padrões de chuvas têm impacto negativo sobre a vital colheita de arroz do Sri Lanka. Foro: Amantha Perera/IPS"][/caption] Colombo, Sri Lanka, 21/5/2012 – O ano passado foi repleto de extremos para a pequena aldeia de Verugal, no Sri Lanka. Primeiro foram as inundações, depois a seca; tudo conspirou contra uma boa colheita de arroz. Localizada na costa nordeste da ilha, Verugal iniciou o ano com chuvas incessantes. Entre janeiro e fevereiro de 2011 as chuvas destruíram sete mil hectares de arrozais neste povoado, e 17% da colheita anual de arroz do país. Algumas aldeias ficaram isoladas durante várias semanas. “Trabalhei duas semanas usando colete salva-vidas”, disse Ponnanbalam Thanesvaran, diretor da secretaria da divisão de Verugal e máximo funcionário do governo na região. Em setembro, apenas amainaram as chuvas, a natureza voltou a impactar o povoado, mas desta vez com o outro lado da moeda: uma seca. Thanesvaran disse à IPS que entre setembro e outubro sua principal tarefa foi fornecer água potável às aldeias afastadas, algumas das quais ficaram isoladas pelas inundações ocorridas há apenas nove meses. “Foi incrível como, em menos de um ano, tivemos uma inundação e uma seca”, afirmou. Com a proximidade da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá de 20 a 22 de junho no Brasil, especialistas locais promovem maiores esforços para transmitir a mensagem sobre os variáveis padrões climáticos às populações mais afetadas e menos informadas, como os produtores de arroz do Sri Lanka rural. A colheita de arroz no Sri Lanka caiu de 4,3 milhões de toneladas em 2010 para cerca de 3,9 milhões de toneladas no ano passado, declarou à IPS o diretor do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento sobre o Arroz, Nimal Dissanayake. A maior parte da perda de colheitas é atribuída às inundações, mas Dissanayake explicou que a seca também é responsável pelo baixo rendimento. Desde as fortes perdas de 2011, o país está determinado a conseguir uma colheita historicamente alta este ano, na medida em que os eventos meteorológicos extremos amainarem, prevê para começo deste mês a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Espera-se que a colheita mundial de arroz para este ano supere os registros de 2011, ao se dissiparem as erráticas condições climáticas causadas pelo fenômeno La Niña e com os agricultores aumentando suas plantações, segundo o prognóstico. Thanesvaran afirmou à IPS que muitos dos agricultores de Verugal esperam melhores cultivos para este ano. No vizinho distrito de Polonnaruwa, que também foi muito prejudicado pelas inundações, houve declarações semelhantes. “Desta vez, tudo parece ir bem”, disse Karunaratne Gamage, produtor da área arrozeira de Madirigiriya, em Polonnaruwa, principalmente porque os padrões meteorológicos se mantém estáveis. Porém, especialistas como Dissanayake apontam pesquisas segundo as quais os variáveis padrões do tempo tiveram severo impacto na produção de arroz do Sri Lanka, e que deveriam ser abordados muito seriamente. Qualquer mudança na produção de arroz tem e continuará tendo efeitos no país. Segundo o Departamento de Censos e Estatística, uma típica família do Sri Lanka consome 36 quilos de arroz por mês, o que converte este alimento no mais popular por ampla margem. Para as famílias rurais, é o insumo básico das três refeições diárias. Pesquisas da Fundação do Sri Lanka para o Meio Ambiente, Clima e Tecnologia indicam que a influência dos padrões variáveis de chuvas sobre o rendimento anual do arroz foi “significativa” nas duas últimas décadas. Também indicam que durante os períodos do fenômeno El Niño – Oscilação do Sul (ENOS) – as colheitas de arroz apresentaram flutuações. Na fase do El Niño, em que as temperaturas aumentam, os estudos indicam que a produção cresce. Isto ocorre na temporada de colheita que acontece entre outubro e março. Depois cai durante a colheita secundária, de abril a agosto. Este padrão mudou durante a fase de La Niña, mais fria, causando ciclones e inundações, não apenas no Sri Lanka, mas também em outras partes da Ásia. Dissanayake acredita que isto se deve ao fato de os agricultores deste país usarem água de chuva para irrigar arrozais, e dependerem de um frágil sistema de manejo hídrico. “A colheita secundária do ano passado foi melhor, porque as águas da inundação ajudaram na semeadura”, afirmou. “O problema é que os agricultores não entendem a gravidade da situação. Ainda estão acostumados a esperar as chuvas e que o governo lhes dê água das reservas”, acrescentou. Gamage admitiu que, no terreno, são limitados os conhecimentos sobre as mudanças nos padrões climáticos e as estratégias de adaptação. “A população sabe que aconteceu algo estranho com os últimos padrões meteorológicos, mas, além disso, não há muito conhecimento ou planejamento com vistas a possíveis mudanças”. O Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento sobre o Arroz desenvolveu variedades que podem suportar severas mudanças no tempo, mas Dissanayake declarou que atualmente são usadas apenas em áreas que estão há mais de três meses sem água. Também lamentou que os agricultores tenham pouco ou nenhum interesse em usar novas tecnologias do produto que sejam resistentes às mudanças meteorológicas. Independente das chuvas, os agricultores continuam usando sementes cuja maturação leva até cinco meses durante a principal safra de colheita, ou três meses durante a temporada secundária. Dissanayake ressaltou à IPS que o arroz é considerado um “cultivo de pobres”, que gera baixos ganhos e não atrais as grandes empresas. Assim, “não se investe muito em novas tecnologias” ou em métodos de adaptação.  Envolverde/IPS  

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Parlamento Europeu ausente da Rio+20

Berlim, Alemanha, 21/5/2012 – A decisão do Parlamento Europeu de não participar da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) no Brasil, em junho, argumentando que os custos dos hotéis estão exorbitantes, provocou duras críticas por parte da sociedade civil. Em comunicado divulgado no dia 7 de maio, e que passou quase despercebido, o presidente da Comissão de Meio Ambiente do Parlamento Europeu, Matthias Groote, diz que essa entidade legislativa não enviará uma delegação à Rio+20. Afirma que a medida se deve ao “enorme aumento” dos custos hoteleiros no Rio de Janeiro, que chamou de “simplesmente não justificáveis”. Porém, organizações não governamentais não aceitam esses argumentos por considerá-los uma desculpa, e dizem que a decisão implica que o Parlamento Europeu está consciente de que não pode desempenhar seu papel de instituição fundamental de controle dentro da União Europeia (UE), especialmente em relação ao seu braço executivo, a Comissão Europeia. Belén Balanya, especialista em políticas ambientais internacionais no Observatório Corporativo Europeu (CEO), disse à IPS que a decisão dos europarlamentares de cancelar “toda participação no Rio é simplesmente lamentável. Não sei quanto esforço terão feito para buscar opções viáveis para ir, ou se é mais uma decisão que tem outros obscuros motivos”. O CEO, com sede em Bruxelas, é uma organização de investigação e ativismo que trabalha para expor e desafiar o acesso privilegiado e a influência de que gozam as corporações e seus grupos de pressão na elaboração de políticas da UE. Na Rio+20, que acontecerá de 20 a 22 de junho, duas décadas depois da Cúpula da Terra de 1992, líderes mundiais, juntos com milhares de participantes governamentais, setor privado, organizações não governamentais e outros grupos, se reunirão para definir uma agenda global a fim de reduzir a pobreza, promover a igualdade social e garantir a sustentabilidade ambiental. A Rio+20 é “o fim de um processo que vem ocorrendo há meses, e a responsabilidade do Parlamento Europeu deveria ter sido a de controlar e garantir ao longo de todo o processo que a Comissão Europeia desempenhasse um papel adequado nas negociações para promover uma mudança” com o olhar voltado para sociedades mais sustentáveis, afirmou  Balanya. Também recordou que a Comissão Europeia impulsionou principalmente “um papel maior das corporações na cúpula Rio+20 e nos processos relacionados com a Organização das Nações Unidas” (ONU). Esta política europeia “promoverá ainda mais a privatização da natureza, beneficiando apenas uma ínfima minoria, e não tentará uma mudança no atual modelo de consumo e produção. Portanto, não ajudará a resolver a crise ambiental. Estas políticas europeias, sem dúvida, não beneficiarão os pobres”, ressaltou Balanya. Representantes de organizações não governamentais na Alemanha apontaram que a decisão do Parlamento Europeu é “estranha”. Um especialista em desenvolvimento radicado em Berlim, que pediu para não ser identificado, comentou à IPS que “as organizações da sociedade civil estão enviando delegados ao Rio de Janeiro sem incorrer em tremendos custos hoteleiros”. Jo Leinen, integrante do grupo socialdemocrata no Parlamento Europeu e que se acreditava viajaria ao Rio de Janeiro como parte da delegação do bloco, qualificou a decisão como “lamentável”. Em uma entrevista com a IPS, Leinen afirmou que a ausência do Parlamento Europeu na Rio+20 “é um grande déficit. Deveríamos estar ali, mas existe um cartel de hotéis no Rio que abusa da conferência praticando preços irresponsáveis”. Leinen também admitiu que as políticas ambientais estão, no mínimo, paralisadas. “A Europa ainda está na vanguarda das políticas mundiais sobre meio ambiente e sustentabilidade, mas a atual crise financeira e econômica está mudando as prioridades”. Acrescentou que “a UE deve melhorar na redução do consumo de recursos” e potencializar a solidariedade com o mundo em desenvolvimento. “Mas, agora, os governos europeus têm outros problemas urgentes a resolver”, ressaltou. Na prévia da Rio+20, a UE promove ativamente o conceito de uma economia verde, mas sem definir realmente o termo. Organizações ambientalistas europeias e governos de países em desenvolvimento, especialmente os representados no Grupo dos 77, rechaçam o conceito por considerá-lo um mero ardil das nações industrializadas para perseguirem seus próprios interesses. Entre eles, particularmente a expansão dos mercados tecnológicos, sem levar em conta as necessidades do Sul pobre. Em uma análise sobre as perspectivas da Rio+20, Venro, uma federação que reúne 120 organizações não governamentais dedicadas ao desenvolvimento na Alemanha, enfatizou que a economia verde é uma ideia confusa, da qual “não há uma definição geral aceita”. Venro comentou que a economia verde não constitui um novo modelo econômico que garanta simultaneamente a sustentabilidade e a redução da pobreza. Também afirmou que o primeiro rascunho da declaração final da Rio+20 foi rejeitado por organizações da sociedade civil e países em desenvolvimento por não questionar “os princípios fundamentais de uma economia neoliberal, isto é, o livre comércio e o crescimento econômico”. Balanya também pediu urgência à UE para “deixar de promover este conceito defeituoso da economia verde, que envolve a expansão da lógica dos mercados de carbono a outras áreas, como a água ou a biodiversidade”. Em geral, as políticas ambientais europeias são um tremendo fracasso, acrescentou. Referiu-se explicitamente ao navio capitânia da UE em matéria de clima e meio ambiente: o Sistema de Comércio de Emissões. Na teoria, “este proporciona um meio barato e eficiente de limitar as emissões de gases-estufa dentro de um teto cada vez mais estreito. Mas, na prática, recompensa os grandes contaminadores com ganhos imprevistos”, detalhou Balanya. Para ela, em geral, a “UE incorpora o discurso sobre sustentabilidade em muitas de suas políticas e em muitos de seus tratados, mas não vai além da retórica”. Na realidade, as políticas de comércio e investimentos que o bloco promove, bem com suas políticas ambientais e energéticas, “estão alimentando e encerrando um modelo muito insustentável de produção e consumo”, acrescentou Balanaya.  Envolverde/IPS


por Julio Godoy, da IPS
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Mortes maternas diminuem, mas ainda preocupam

Nações Unidas, 18/5/2010 – Embora tenham diminuído, os números continuam sendo impactantes: a cada dois minutos morre uma mulher no mundo por complicações na gravidez ou no parto. Sangramentos graves, infecções, pressão alta ou abortos inseguros são as principais causas dessas mortes. Das mortes maternas, 90% ocorrem nos 132 países do Sul em desenvolvimento, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).  Porém, há sinais promissores no horizonte, segundo um novo informe conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), do Banco Mundial e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os dados divulgados no dia 16 indicam que a quantidade de mulheres que morrem por complicações na gravidez ou no parto caiu quase pela metade nas últimas décadas. O estudo Tendências em mortalidade materna: de 1990 a 2010, diz que a quantidade anual de mortes passou de mais de 543 mil para 287 mil nos últimos 20 anos, uma significativa redução. Apesar de se conseguir um progresso substancial em quase todas as regiões, muitos países, particularmente da África subsaariana, ainda estão longe de alcançar a meta de reduzir a mortalidade materna em 75% até 2015 em relação aos níveis de 1990, incluída nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU. “Me agrada ver que o número de mulheres que morrem na gravidez ou no parto continua caindo”, declarou o diretor-executivo do UNFPA, Babatunde Osotimehin. Isto demonstra que os esforços intensificados dos países, apoiados pela agência e por outros sócios no desenvolvimento, estão dando resultados, acrescentou. “Mas, não podemos parar aqui. Nosso trabalho deve continuar para fazer com que cada gravidez desejada e cada parto seja seguro”, destacou. No entanto, a disparidade continua existindo nos diversos países e nas várias regiões, segundo o informe. Um terço de todas as mortes maternas ocorre em apenas dois países: em 2010, quase 20% (56 mil) foram registradas na Índia e 14% (40 mil) na Nigéria. Dos 40 países com as taxas mais altas do mundo em mortes maternas, 36 são da África subsaariana. Segundo o estudo, em dez países acontecem 60% de todas as mortes maternas: Índia (56 mil), Nigéria (40 mil), República Democrática do Congo (15 mil), Paquistão (12 mil), Sudão (10 mil), Indonésia (9,6 mil), Etiópia (9 mil), Tanzânia (8,5 mil), Bangladesh (7,2 mil) e Afeganistão (6,4 mil). Ao mesmo tempo, dez países alcançaram a meta de reduzir em 75% os óbitos na gravidez e no parto: Bielorússia, Butão, Guiné Equatorial, Estônia, Irã, Lituânia, Maldivas, Nepal, Romênia e Vietnã. De acordo com o informe, em 2010 a taxa mundial foi de 210 mortes maternas para cada cem mil nascidos vivos. A África subsaariana apresentou o índice mais alto, com 500 mortes para cem mil. Nessa região, as probabilidades de uma mulher morrer durante a gravidez ou no parto são de uma em 39. No sudeste da Ásia, o risco é de uma em 290, enquanto no Norte industrializado este índice é de uma em 3,8 mil. “Um importante obstáculo que dificulta os esforços para avaliar os progressos de forma adequada é a falta de informação confiável”, admite o informe. Em muitos países em desenvolvimento, muitas mortes e suas causas não são registradas corretamente, sobretudo no caso de mulheres que falecem em suas casas. Em uma declaração divulgada em Nova York, Osotimehin enfatizou que sua agência sabe exatamente o que fazer para impedir as mortes maternas: melhorar o acesso a métodos de planejamento familiar, investir em pessoal de saúde capacitado, e melhorar a atenção obstétrica de emergência quando surgem as complicações. “Estas intervenções salvaram vidas e aceleraram os progressos rumo à meta cinco dos Objetivos do Milênio”, apontou Osotimehin. Ainda morre mais de um quarto de milhão de mulheres ao ano por complicações na gravidez ou no parto, e mais de 215 milhões ainda carecem de acesso a métodos anticoncepcionais modernos, destacou. Atender a necessidade de planejamento familiar voluntário destas mulheres não é só cumprir um direito humano, também é vital para reduzir em um terço o número de mortes maternas, acrescentou, lembrando que se trata de uma “estratégia de saúde pública altamente rentável”. “É excelente que o tema do melhor acesso ao planejamento familiar volte à agenda do desenvolvimento, após ter passado por alto tantos anos. Nós no UNFPA fazemos o melhor para conseguir apoio neste investimento crucial para garantir a saúde das mulheres e das adolescentes”, ressaltou Osotimehin. “Essas novas estimativas demonstram como está progredindo a saúde materna em nível mundial e como melhora a qualidade da informação. Também revela como a ONU é capaz de trabalhar unida para melhorar a situação das mulheres adolescentes”, concluiu. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
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Quando os biocombustíveis roubam a comida

Cidade do México, México, 18/5/2012 – A crise alimentar, agravada pelo uso do milho e de outros grãos na produção de etanol, é um dos assuntos centrais abordados ontem e hoje na capital mexicana pelos vice-ministros de Agricultura do Grupo dos 20 países industriais e emergentes. Este bloco reúne os países industrializados do Grupo dos Oito (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Japão, Itália e Rússia), a União Europeia e economias emergentes como Brasil, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia, México, África do Sul e Turquia. O impacto dessa questão na humanidade é analisado pela pesquisa Agrocombustíveis: alimentadores da fome. Com as políticas dos Estados Unidos para o etanol de milho aumentam o preço dos alimentos no México, apresentada no dia 16, patrocinada pelo escritório norte-americano da organização não governamental ActionAid International. “Vemos altas de preços muito fortes nos alimentos desde o final de 2000, depois se repetiram em 2007 e voltaram em 2010 e 2011”, disse à IPS o norte-americano Timothy Wise, diretor do Programa de Pesquisa e Política do Instituto de Desenvolvimento Global e Meio Ambiente da Universidade de Tufts. “Isto coincide com a expansão do etanol nos Estados Unidos”, indicou o diretor, coautor do informe. “O que se vê no México é o aumento do preço da tortilha de milho”, o alimento tradicional deste país e cujo preço aumentou 60% desde 2005, afirmou. Wise e a também coautora do estudo Marie Brill, diretora de políticas da Actionaid, asseguraram que o México perdeu, desde 2005, entre US$ 250 milhões e US$ 500 milhões por ano por precisar importar o grão, devido às altas cotações internacionais. “A expansão dos agrocombustíveis contribui para a insegurança alimentar no México. As altas de preços associadas ao etanol afetam negativamente os consumidores, especialmente os que carecem de segurança alimentar e não são produtores”, afirma o estudo de 24 páginas. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, no ano passado foram consumidos nesse país 53,302 bilhões de litros de etanol feito do milho, para cuja produção foi destinada 40% da colheita do grão. Nesse país, maior produtor e exportador de milho do mundo, aplica-se uma política de proteção alfandegária a favor do biocombustível local, pagamento de subsídios aos produtores e um mandato de mescla de gasolina com até 10% de etanol. “O G-20 tem que resolver a crise alimentar. A cúpula de 2011 abordou a situação, mas é preciso assegurar os motores primários. O México é um exemplo do que ocorre em outros países”, observou Brill. Os mandatários do G-20, cuja presidência temporária está com o México, se reunirão nos dias 18 e 19 de junho na cidade de Los Cabos, para tratar de políticas contra a crise econômico-financeira que afeta o Norte, a segurança alimentar, o crescimento verde e o combate à mudança climática, entre outros assuntos. “O governo mexicano tem que determinar que está ao lado do produtor e não em benefício das empresas. Temos que trabalhar por uma reserva de alimentos, para não depender do estrangeiro”, afirmou à IPS a ativista Olga Alcaraz, dirigente da Rede de Empresas Comerciantes Camponesas do Estado de Michoacán. As plantações destinadas aos agrocombustíveis começaram na região na metade do século passado e atingiram seu auge na década de 70, quando os países latino-americanos despontaram como provedores de matérias-primas para os mercados das nações industrializadas e diante da primeira grande crise do petróleo. Nos últimos anos, o desenvolvimento de algumas monoculturas mudaram para o fornecimento de matéria-prima para a elaboração de combustíveis, como o etanol procedente da cana-de-açúcar e o biodiesel obtido a partir do óleo de palma africana. A expansão de produtos agrícolas para fabricar combustível também se deve ao esgotamento do petróleo como fonte de energia e ao fato de a produção e uso de hidrocarbonos representar a emissão de gases contaminantes, como o dióxido de carbono, responsável pela elevação da temperatura do planeta. O milho carrega uma força simbólica do México até a Nicarágua. “O aumento da destinação desse grão para etanol é fortíssimo, empurrado pelos altos preços do petróleo”, destacou Wise. “Esta situação cria problemas para países importadores como o México”, explicou este especialista que estudou os efeitos do aumento dos preços dos alimentos em nações em desenvolvimento. No México, são produzidos 22 milhões de toneladas de milho por ano em uma área de 7,5 milhões de hectares, dos quais vivem cerca de 2,5 milhões de produtores de pequena e média escalas, e são importados dez milhões de toneladas. O déficit da balança comercial agrícola mexicana ficou no ano passado em US$ 2,5 bilhões, enquanto as compras agrícolas dos Estados Unidos subiram até US$ 18,4 bilhões. A Lei de Promoção e Desenvolvimento dos Bioenergéticos de 2008 proíbe que terras aptas para cultivos de alimentos sejam usadas para plantar vegetais destinados a produzir agrocombustível. As organizações da sociedade civil recomendam ao G-20 anular subsídios e mandatos para consumo de agrocombustíveis, a regulamentação e transparência dos mercados, e o financiamento da agricultura familiar. Os autores do estudo estimam que o custo financeiro anual das importações mexicanas dariam para produzir 70 mil toneladas de milho. “É necessário investir em programas de produtores que não receberam apoio em 30 anos. Este é o setor que pode ser beneficiado com um investimento moderado. Ficou demonstrada a viabilidade dessa expansão”, apontou Wise. O assunto também constará dos debates da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá de 20 a 22 de junho no Brasil. “Esperamos ver um enfoque que integre energia, sustentabilidade e segurança alimentar”, ressaltou Brill. Por sua vez, Alcaraz enfatizou que é preciso “inovação tecnológica para economizar na produção, e termos nossa própria semente, porque dependemos das multinacionais”. Envolverde/IPS


por Emilio Godoy, da IPS
Michael Sudarkasa. Foto: Miriam Gathigah/IPS Inter Press Service - Reportagens

Menos política e mais economia no Ibas

[caption id="attachment_52105" align="alignleft" width="225" caption="Michael Sudarkasa. Foto: Miriam Gathigah/IPS"][/caption] Nairóbi, Quênia, 18/5/2012 – O crescimento econômico e social se converteu no coração da agenda do bloco de economias emergentes conhecido como Ibas (Índia, Brasil e África do Sul), enquanto a política vai sendo deixada de lado. Esta é a opinião de Michael Sudarkasa, diretor-executivo do African Business Group, instituição de consultoria sobre negócios, economia e desenvolvimento, com sede na África do Sul. Já se passaram nove anos desde a criação do fórum do Ibas, e isto teve impacto favorável na efetividade da ajuda na África, destacou Sudarkasa, com 20 anos de experiência em comércio regional e internacional e em análise de negócios, com atenção especial no desenvolvimento do setor privado. “O fórum de diálogo do Ibas serviu de catalisador de maiores esforços dentro do Sul para explorar vias pelas quais mobilizar ajuda ao desenvolvimento com recursos internos”, declarou em entrevista à IPS. O Ibas também estimulou iniciativas bilaterais dentro do Sul, como a Associação Estratégica África-América do Sul e a Nova Associação Estratégica Asiática-Africana, acrescentou. IPS: Há exemplos específicos do êxito do Ibas? Michael Sudarkasa: O êxito é os países do Ibas trabalharem juntos indiretamente, estimulando maior atividade independente dos três países, como investidores e como sócios em outras partes da África. E a África do Sul redobrou seus esforços para envolver-se com outros sócios na América do Sul e na Ásia. IPS: Houve mudanças substanciais no relacionamento bilateral e trilateral dentro do Ibas? MS: Não há nenhum que seja muito chamativo. No começo do Brics (Brasil, Índia, China e África do Sul), quando a África do Sul aderiu, houve certa especulação de que a nova iniciativa, com a China sendo o principal motor, pudesse ofuscar o Ibas. Porém, as instituições deste grupo são bastante fortes, bem definidas e todos os seus membros reiteraram seu apoio à iniciativa e destacam seu valor como uma estrutura autônoma. Contudo, a rivalidade existe entre as estruturas, e é provável que se continue fazendo esforços para distinguir o Ibas do Brics, o que em última instância poderia derivar em mudanças mais pronunciadas e visíveis dentro do Ibas. IPS: Quais as melhores práticas do Ibas até agora? MS: Entre elas destacam-se o desenvolvimento de comitês técnicos conjuntos envolvendo os ministérios dos três governos, para explorar o intercâmbio de tecnologia e projetos comuns, e a criação de um fundo para apoiar os países menos adiantados dentro das três regiões. IPS: Que impacto teve o fórum Ibas no sustento dos habitantes de seus países-membros? MS: Economicamente, o Ibas diversificou as oportunidades para as três nações, e o comércio bilateral cresceu. Isto as livrou de uma segura contração econômica que sofreriam se tivessem permanecido concentradas apenas em suas históricas associações comerciais com o Norte. IPS: A crise mundial comprometeu a capacidade do Ibas para conseguir objetivos de desenvolvimento? MS: Sim, provocou algo, a crise mundial fortaleceu a resolução dos três países de se envolverem entre si economicamente, e creio que é uma oportunidade para voltar os olhos a outras associações econômicas Sul-Sul. IPS: O Ibas é um importante exemplo de cooperação Sul-Sul que pode servir de modelo para futuras associações de países em desenvolvimento? MS: Sem dúvida, o Ibas se converteu em modelo dos benefícios da cooperação Sul-Sul, e em importante precursor da voz do Sul nas estruturas multilaterais. Porém, o fato de o Ibas ser uma iniciativa tripartite, destinada, em parte, também a servir como ponte entre regiões e seus países-membros, dificulta que seja replicado em nações de outras zonas geográficas. IPS: Qual a lição fundamental da experiência do Ibas? MS: O Ibas impulsionará e continuará impulsionando as nações do Sul a se considerarem entre si como potenciais sócios fortes, e, definitivamente, fixou uma tendência para a associação Sul-Sul em apoio ao desenvolvimento. Envolverde/IPS  


por Miriam Gathigah, da IPS
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A União Europeia confirma sua ajuda ao desenvolvimento

Bruxelas, Bélgica, 18/5/2012 – Além de ratificar a assistência ao Sul pobre apesar da crise financeira que enfrenta, o Conselho de Ministros de Desenvolvimento da União Europeia (UE) deu luz verde para uma iniciativa inovadora para evitar futuras crises humanitárias no Chifre da África. No contexto da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá no Brasil de 20 a 22 de junho, a modalidade de ajuda acordada pelos 27 ministros de Desenvolvimento da UE permite conceder aos governos beneficiários dinheiro de forma direta. Todos os membros do bloco se comprometeram a “usar a ajuda orçamentária de forma efetiva para contribuir com a redução da pobreza, fazer essa ajuda mais previsível e incentivar os beneficiários a criar políticas de desenvolvimento e reformas”. A Oxfam, entre várias organizações não governamentais que defendem a ajuda orçamentária, aplaudiu a decisão do Conselho. “É a primeira vez que os Estados-membros reconhecem os benefícios da ajuda orçamentária”, disse à IPS a especialista da Oxfam, Catherine Olier. A decisão do Conselho concorda com estudos que mostram a efetividade dessa modalidade de assistência para reduzir a pobreza. Em dezembro, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE) divulgou um informe mostrando os efeitos positivos da ajuda orçamentária para Zâmbia, Tunísia e Mali. Nos três países foram alcançados importantes êxitos na universalização da educação, no aumento da participação das meninas e o acesso de estudantes de zonas pobres. Em Zâmbia, o melhor serviço de saúde fez diminuir a incidência de tuberculose, malária e diarreia. Também reduziu a mortalidade materna e a infantil. “Com a ajuda orçamentária se delega ao país beneficiário a responsabilidade de gerir os fundos de acordo com suas necessidades. Assim, pode financiar custos vitais e recorrentes”, explicou Catherine. “Permite pagar médicos e professores ao longo de vários anos. Pode cobrir os custos de remédios e tratar doenças. A ajuda com base no financiamento de projetos é menor no tempo e, portanto, menos previsível. Não pode cobrir o custo de médicos e professores no longo prazo, que é exatamente o que precisa um país em desenvolvimento”, destacou. A decisão da UE foi uma surpresa, pois era uma modalidade de ajuda muito questionada porque, segundo numerosos críticos, favorecia o aumento da corrupção no país beneficiário. “Não há método de assistência sem risco”, reconheceu Olier. “Contudo, neste caso há muito medo sem justificativa. De fato, ocorre o contrário. Vários estudos demonstram que a ajuda orçamentária é uma boa forma de combater a corrupção de maneira efetiva. Não é um cheque em branco. Implica um diálogo sobre políticas. Os doadores se relacionam com os governos beneficiados. Estes se tornam responsáveis perante seus cidadãos, o parlamento e a sociedade civil”, acrescentou. Segundo as conclusões do estudo de 2011 da OCDE na Tunísia, Zâmbia e Mali, “a ajuda orçamentária contribui para melhorar a responsabilidade e a transparência dos processos orçamentários e é uma assistência válida para a implantação de reformas, quando governos e cidadãos estão ativamente comprometidos com isso”. Os ministros de Desenvolvimento da UE aprovaram, na mesma reunião, realizada no dia 14, um novo plano para estimular a prevenção da fome no Chifre da África. Desde julho de 2011, mais de 13 milhões de pessoas sofrem as consequências de uma grave seca. Para evitar uma nova crise, a UE lançou o projeto conhecido como Share (Apoio à Resistência no Chifre da África). Com esta iniciativa, o bloco espera melhorar a transição de uma ajuda de emergência para uma assistência ao desenvolvimento de longo prazo. “Mais de 400 mil membros assinaram nossa petição que pede urgência aos líderes no sentido de romperem o círculo de fome e a agir no Chifre da África. Esperamos que a UE possa oferecer mais fundos para esta importante iniciativa. Os Estados-membros também devem dar um passo à frente”, afirma um comunicado de Eloise Todd, diretora da organização internacional ONE. “Este projeto é inovador”, afirmou à IPS a diretora do escritório da Oxfam Internacional para a UE, em Bruxelas, Natalia Alonso. “Até agora, a resposta de emergência às crises humanitárias só serviu para cobrir as necessidades mais urgentes. Com o novo plano, os esforços não serão gastos apenas em alimentação complementar para crianças desnutridas, mas também para animais de criação comunitária. Assim, quando acabar a crise a comunidade continuará tendo os meios para ganhar a vida. Isto significa construir resiliência: adaptar-se à situação, mas com perspectiva de futuro”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Daan Bauwens, da IPS
O Conselho de Segurança reunido para abordar a manutenção da paz internacional, mas as rixas políticas impedem que tenha uma ação eficaz. Foto: UN Photo/Paulo Filgueiras Inter Press Service - Reportagens

Cinco pequenos questionam poder de veto de cinco grandes

[caption id="attachment_51985" align="alignleft" width="300" caption="O Conselho de Segurança reunido para abordar a manutenção da paz internacional, mas as rixas políticas impedem que tenha uma ação eficaz. Foto: UN Photo/Paulo Filgueiras"][/caption] Nova York, Estados Unidos, 17/5/2012 – A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) analisa pedir, aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, que “se abstenham de usar seu poder de veto diante de medidas para prevenir ou acabar com genocídios, crimes de guerra e contra a humanidade”. Porém, as potências já disseram que desconhecerão a iniciativa. A resolução promovida por Costa Rica, Jordânia, Liechtenstein, Cingapura e Suíça, que estão entre os menores Estados da ONU, tem o objetivo de “melhorar a responsabilidade, a transparência e a efetividade do Conselho de Segurança” com uma série de recomendações. A votação na Assembleia Geral, de 193 membros, está prevista para o final desta semana. Porém, os representantes de China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, e Rússia, os cinco membros permanentes do Conselho, já disseram que não cabe à Assembleia, principal órgão deliberativo e de formulação de políticas, fazer tais recomendações ao Conselho de Segurança. “É uma luta desigual, mas vamos ver como será a votação”, disse à IPS um diplomata asiático que pediu para não ser identificado. A iniciativa conta com forte apoio de organizações não governamentais, como a Coalizão Internacional para a Responsabilidade de Proteger e a Coalizão pelo Tribunal Penal Internacional (CICC). Consultado sobre como atuará o Conselho de Segurança caso a resolução seja adotada, o coordenador do CICC, William Pace, declarou à IPS que o texto da mesma pede devidamente à Assembleia Geral que se faça recomendações de um órgão principal a outro. Não será uma resolução vinculante, esclareceu, mas o impacto político e moral que terá com o tempo será tremendo. “Se a Assembleia Geral adotar a resolução e o Conselho de Segurança implementar as 20 recomendações, será um dos avanços mais importantes para este último”, observou Pace. “Poderiam ser salvas milhões de vidas e se evitar um monte de guerras e revoltas nos próximos 30 anos”, acrescentou. Em um comunicado, James Christie, presidente do Conselho do Movimento Federalista Mundial-Instituto de Política Global, afirmou que sua organização está totalmente em desacordo com o argumento dos cinco membros permanentes de que a Assembleia Geral deve manter-se à margem dos assuntos do Conselho de Segurança. O fato de ela “eleger dez membros (não permanentes) do Conselho a cada dois anos e autorizar os orçamentos enviados por esse organismo são apenas duas razões de peso pelas quais sua posição não é racional”, ressaltou. Pace elogiou os cinco países pequenos pela coragem de sua convicção para promover uma resolução de cinco páginas que recomenda várias medidas “para a consideração dos cinco membros permanentes”. Entre elas, “explicar as razões para recorrer ao veto ou declarar sua intenção de fazê-lo, especialmente sua consistência com os Propósitos e Princípios da Carta da ONU e o direito internacional aplicável”. “Uma cópia da explicação deve circular entre todos os membros da organização como documento separado do Conselho de Segurança”, indicou. Esta iniciativa ganhou maior relevância porque, no ano passado, Rússia e China vetaram uma resolução do Ocidente para ameaçar a Síria com sanções pela matança de civis. Segundo a ONU, mais de 7.500 civis morreram desde o início da revolta, em março de 2011. O Conselho também demorou para reagir por ocasião do genocídio em Ruanda, em 1994, que deixou 500 mil mortos. Em abril desse ano, o órgão condenou o massacre, mas negou-se a qualificá-lo de “genocídio”. Pace disse à imprensa que a resolução dos cinco pequenos não tem relação com as negociações para reforma e ampliação do Conselho de Segurança, que descreveu como um assunto “divisor”, pois implica uma emenda à Carta da ONU. Um comunicado de Andres Serbin, presidente da Coalizão Internacional para a Responsabilidade de Proteger, diz que o Artigo 24 da Carta da ONU estabelece claramente que todas as decisões do Conselho de Segurança, incluído o uso do veto, “devem ser tomadas de forma a estarem consistentes com os propósitos e princípios da ONU”. No entanto, quase todos os anos, a comunidade internacional observa deliberações do Conselho de Segurança em que o uso (ou o abuso) do veto é inconsistente com essas disposições, uma situação que a resolução dos cinco pequenos pretende corrigir. Em carta aberta aos Estados-membros, os cinco pequenos informam que há um ano apresentaram um rascunho, “com a esperança de envolver o Conselho de Segurança em um diálogo construtivo sobre nossas propostas”. “Após um ano de consultas, acreditamos que chegou o momento de a Assembleia Geral ter a oportunidade de se pronunciar sobre o assunto”, acrescenta a carta. “A maioria de nós já integrou uma vez o Conselho de Segurança como membros não permanentes. Alguns nunca pertencerão a ele nem o farão. Prefere manter as coisas como estão ou ser tratado com mais transparência e abertura? A escolha é sua”, enfatiza a carta, buscando o apoio dos membros da ONU. Envolverde/IPS  


por Thalif Deen, da IPS
A Jamaica é uma das ilhas de maior biodiversidade do Caribe. Foto: Zadie Neufville/IPS Inter Press Service - Reportagens

Biodiversidade enfrenta múltiplas ameaças

[caption id="attachment_51982" align="alignleft" width="300" caption="A Jamaica é uma das ilhas de maior biodiversidade do Caribe. Foto: Zadie Neufville/IPS"][/caption] Kingston, Jamaica, 17/5/2012 – As autoridades da Jamaica, um dos países do Caribe mais vulneráveis aos efeitos da mudança climática, pretende incentivar o desenvolvimento sustentável para evitar a degradação ambiental, reverter a perda de recursos e deter a perda de sua rica biodiversidade. A responsável da área de ecossistemas da Agência Nacional de Meio Ambiente e Planejamento (Nepa), Andrea Donaldson, disse à IPS que o trabalho em matéria de biodiversidade não está centrado na mudança climática, mas que o organismo sabe de seus possíveis impactos e tenta implantar medidas de proteção. O informe nacional sobre os Objetivos de Desenvolvimento das Nações Unidas para o Milênio aponta os problemas que este país tem para controlar a contaminação e proteger os ecossistemas importantes. Isto é o que mais preocupa os cientistas, que apontam a falta de atenção com o meio ambiente que pode exacerbar as consequências de eventos climáticos graves. O informe sobre o estado do meio ambiente (SOE) de 2010 e o que foi enviado à Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (CMNUCC) coincidem em afirmar que as atividades humanas constituem uma ameaça significativa. “A mudança climática provavelmente aumenta o impacto negativo” sobre a perda de habitat, a superexploração, o mau uso da terra e a ignorância do valor dos recursos naturais, diz o SOE. Também são denunciadas alterações nos arrecifes de coral, nas selvas e nos mangues costeiros, áreas identificadas como as mais vulneráveis ao aquecimento global. A Jamaica teve 12 eventos climáticos extremos nos últimos cinco anos. Esta é a ilha mais bioendêmica da região e ocupa o quinto lugar em uma lista mundial sobre quantidade de espécies únicas por país. A perda de biodiversidade da Jamaica pode ter consequências imensas. Há mais de oito mil espécies de plantas e animais terrestres registrados, bem como 3.500 no ambiente marinho. Entre os tesouros únicos deste país, há dez espécies de cactos, sete de palmeiras e 60 das 240 de orquídeas existentes no mundo. Há, também, 31 tipos de aves, nove de caranguejos, 505 das 514 variedades de caracóis registradas, e 33 das 43 de répteis. Além disso, pelo menos quatro das 24 espécies de morcegos são endêmicas, como também 17 das 19 de rãs e 15 das 115 variedades de borboletas. Entre os pássaros, o jamaicano Tody está entre as espécies únicas mais conhecidas, bem como a jiboia jamaicana, a jutía da Jamaica (um roedor parecido com o coelho da Índia) e a borboleta gigante cauda de andorinha. Esta ilha está na lista de lugares com maior quantidade de mamíferos em risco feita pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) devido, principalmente, aos morcegos endêmicos e à jutía. Outra espécie endêmica, a iguana jamaicana, está na Lista Vermelha de espécies em perigo e ameaçadas dessa organização. Cerca de 200 animais sobrevivem na selva cada vez menor das montanhas de Hellshire, ao sul, perto de Kingston. A Nepa disse que realiza vários programas, políticas e leis para gerir e evitar a exploração dos recursos sem a devida autorização. As autoridades reconheceram que é difícil colocar em prática as medidas de proteção e, da mesma forma que o Departamento de Silvicultura, a Agência implanta um mecanismo de colaboração com as comunidades prejudicadas. Os fundos destinados à adaptação à mudança climática permitem que os dois órgãos reflorestem as selvas e os mangues. Também trabalham com pescadores, agricultores e outras pessoas que dependem dos ecossistemas naturais para buscar outras formas de sustento. O projeto de mitigação de desastres e de adaptação à mudança climática financiado pela União Europeia complementa os esforços da Nepa para dar um valor econômico aos ecossistemas e melhorar a coleta de dados para contribuir com o planejamento relacionado à mudança climática. “Instalamos registradores de dados para ter informação sobre a temperatura da superfície do mar, entre outras coisas”, detalhou Donaldson. “Revisamos os arrecifes de coral de forma regular, mas não posso afirmar que as mudanças que vemos sejam produto da mudança climática”, alertou. Os dispositivos de coleta de dados da Nepa ajudarão o centro de informação vinculado ao Convênio sobre a Diversidade Biológica Clearing House Mechanism (CHM) da Jamaica, fornecendo informações úteis para o estudo do impacto do aquecimento global sobre seus amplos registros de plantas e animais, que não estão atualizados, explicou o biólogo Keron Campbell. O Museu de História Natural, do Instituto da Jamaica, dentro do qual está o CHM, tem registradas 110 mil espécies zoológicas e 130 mil no herbário desde a década de 1870. “Estamos atualizando os inventários de espécies de flora e fauna, o que é necessário para registrar todas as mudanças”, afirmou Campbell à IPS, acrescentando que os coletores de dados, além dos estudos de campo e da informação sobre as mudanças de temperatura detectados pelo serviço meteorológico, darão detalhes valiosos para planejar a adaptação. O informe do SOE indica mudanças na área protegida de Portland Bight, a maior da ilha e único habitat conhecido da iguana jamaicana. Byron Wilson, diretor do programa iguana da Universidade das Índias Ocidentais disse que a sobrevivência do réptil se deve principalmente ao afastamento de seu habitat. Ao fracassar a tentativa de construir uma colônia em uma ilhota, as montanhas de Hellshire permanecem como o entorno natural mais importante. Entretanto, o desenvolvimento deixou essa área mais acessível. De fato, foi um caçador que redescobriu a iguana, que era considerada extinta há mais de 30 anos. A preparação da Jamaica para enfrentar a mudança climática começou em 1997 com o Planejamento Caribenho para a Adaptação à Mudança Climática Global, no contexto da Comunidade do Caribe (Caricom). Envolverde/IPS


por Zadie Neufville, da IPS
e2 Inter Press Service - Reportagens

Insegurança alimentar afeta Angola

Johannesburgo, África do Sul, 17/5/2012 – Milhões de famílias pobres de Angola não têm certeza de levar algo à boca três vezes ao dia, devido a uma prolongada seca que destruiu colheitas e matou gado em vastas áreas do país. Estima-se que cerca de 500 mil crianças sofrem desnutrição severa por culpa do colapso da produção alimentar em razão da seca registrada no primeiro trimestre do ano. Nas comunidades mais afetadas estão sendo instalados centros de alimentação de emergência. As centrais provinciais de Huambo, Bie e Benguela, e de Zaire, ao norte, são as mais prejudicadas, mas em todo o território nacional sofrem tanto os pequenos como os grandes agricultores. Os rendimentos agrícolas cairam até 70% em vários lugares. Algumas reportagens informam que há agricultores de subsistência que abandonam suas terras em busca de emprego em povoados e cidades para alimentar suas famílias. Além disso, os grandes estabelecimentos rurais comerciais demitem funcionários porque já não há o que colher. Apesar da enorme riqueza petrolífera de Angola e do prognóstico do Fundo Monetário Internacional (FMI), que prevê expansão de 9,7% do produto interno bruto este ano, quase dois terços das famílias rurais vivem com menos de US$ 1,75 por dia. Mais de quatro décadas de guerra (1961-2002) deixaram o país com um dos índices de mortalidade infantil mais altos do mundo: 20% das crianças morrem antes de completar cinco anos. A dieta de má qualidade é um fator crucial dessa mortalidade, e, segundo a última Pesquisa Nacional de Nutrição, realizada em 2007, quase 30% dos menores de cinco anos sofrem alguma atrofia, mais de 8% de emagrecimento extremo, e cerca de 16% têm baixo peso. Koen Vanormelingen, representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em Angola, explicou que a má colheita deste ano já fez vítimas entre as crianças mais vulneráveis. “Esta população já vivia no limite e fazia um grande esforço para sobreviver, mas, enquanto antes tinha uma dieta variada de três refeições por dia, agora tem apenas uma, talvez duas, e restrita a uma seleção muito pobre de mandioca e bananas”, detalhou Vanormelingen. “É uma situação muito séria e estamos muito preocupados porque vemos um aumento significativo da desnutrição e da mortalidade em razão da desnutrição”, acrescentou. O governo destinou US$ 43 milhões a uma campanha de emergência, que incluirá distribuição de alimentos, água, sementes e outros insumos agrícolas para ajudar os agricultores. Além disso, foram importadas 40 toneladas de um alimento reforçado à base de amendoim, com apoio da Fundação Clinton. O carregamento está pronto para ser enviado aos centros de alimentação de emergência que estão sendo instalados em todo o país. “Isto não é fome, mas insegurança alimentar”, esclareceu Vanormelingen. “Há comida disponível. O problema é que, como não se produz tantos alimentos, é preciso comprar mais”, afirmou. “Como sua produção diminuiu, sua renda também caiu, e então não têm dinheiro para comprar alimento. Como a oferta cai e a demanda aumenta, os preços estão subindo, em alguns casos em até 100%”, apontou. Este colapso da agricultura é um importante revés para Angola, que tenta desesperadamente insuflar brios a esse outrora pujante setor, destruído por décadas de guerra. Para estimular a produção, no ano passado o governo lançou um programa de microcréditos no valor de US$ 150 milhões, destinado aos pequenos agricultores para que pudessem comprar sementes e fertilizantes. Porém, agora que os rendimentos são tão baixos, muitas famílias lutam para pagar as dívidas. A União Nacional de Associação de Camponeses Angolanos, que reúne as cooperativas agrícolas, informou que o governo ajudará quanto aos pagamentos com os bancos comerciais que concederam os empréstimos. No entanto, Belarmino Jelembi, diretor da Ação para o Desenvolvimento Rural e o Meio Ambiente, alertou que “o governo tem de ser extremamente cuidadoso nesse manejo, porque, se não o fizer bem, todo o programa poderá fracassar. Temos que fazer mais para apoiar os pequenos agricultores com ferramentas básicas de irrigação, assim não dependerão tanto das chuvas”, opinou. Abrantes Carlos, diretor provincial do Ministério da Agricultura em Benguela, onde cerca de cem mil famílias estão em insegurança alimentar, concorda que são necessários mais sistemas de irrigação sustentável. “Na província temos grandes rios, mas não estamos administrando nossos fornecimentos e não temos dados precisos sobre quanta água há disponível”, declarou à IPS. Segundo o diretor provincial, a falta de água na província, onde muitos rios secaram, foi a pior da área em 30 anos, e pela primeira vez desde o fim da guerra, em 2002, se planejou a ajuda alimentar às famílias. “Neste momento a população ainda tem alimentos, mas é provável que nos próximos três meses a situação piore”, alertou Carlos. O governo ajuda a perfurar novos poços para encontrar água, e também distribui sementes para cultivos que podem crescer nos meses mais frios, como forma de melhorar a perspectiva da próxima colheita, acrescentou. Jelembi saudou o compromisso das autoridades em matéria de ajuda, mas advertiu que “vemos muitos anúncios sobre o que o governo fará para ajudar a população afetada, e na prática não se vê grande coisa”. Envolverde/IPS  


por Louise Redvers, da IPS
Sam Smith, Jim Leape e Stuart Orr na apresentação do Livint Planet Report 2012, em Genebra. Foto: Isolda Agazzi/IPS Inter Press Service - Reportagens

Viver em um planeta e meio

[caption id="attachment_51938" align="alignleft" width="300" caption="Sam Smith, Jim Leape e Stuart Orr na apresentação do Livint Planet Report 2012, em Genebra. Foto: Isolda Agazzi/IPS"][/caption] Genebra, Suíça, 17/5/2012 – Um informe do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) alerta para uma significativa redução da biodiversidade, em particular nos países pobres, e sobre um enorme aumento na pegada ecológica das nações ricas. O Living Planet Report (Relatório Planeta Vivo) foi apresentado em Genebra com vistas à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá de 20 a 22 de junho, no Brasil. O estudo exorta o mundo a modificar seus padrões de produção e consumo, bem como a desenvolver as energias renováveis. “Em termos gerais, a biodiversidade caiu 28% no mundo desde 1970. Mas nos países de baixa renda a perda é particularmente importante, pois chega a 60%”, afirmou Jim Leape, diretor-geral do WWF, ao apresentar o informe. “O esgotamento dos sistemas naturais está prejudicando mais os países que menos têm condições de enfrentá-lo”, ressaltou. A publicação mais importante dessa prestigiosa organização ambientalista, divulgada a cada dois anos, foca na biodiversidade de todo o mundo e na pegada ecológica da humanidade, ou seja, na pressão que esta exerce sobre a terra e a água. O aumento deste último foi enorme desde 1961. “Usamos 50% mais recursos do que a Terra pode suportar. Hoje vivemos como se tivéssemos um planeta e meio. Se continuarmos assim, até 2050 precisaremos de três planetas. Nosso padrão de consumo é insustentável”, alertou Leap. Em média, os países de alta renda têm uma pegada ecológica que quintuplica a das nações de baixa renda. Os dez Estados com maior pegada ecológica por pessoa são Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Dinamarca, Estados Unidos, Bélgica, Austrália, Canadá, Holanda e Irlanda. O informe foi divulgado faltando cinco semanas para começar a Rio+20, que avaliará os avanços no cumprimento dos compromissos assumidos há duas décadas na primeira Cúpula da Terra. “É um momento importante para olhar o que ocorre sobre a Terra”, observou Leape. “Existem propostas para estabelecer Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, e de agregar indicadores sociais e ecológicos ao produto interno bruto”, acrescentou. “O mercado continua enviando sinais equivocados, porque muitos custos não são incluídos no sistema de preços. Os preços deveriam dizer a verdade. Os governos devem eliminar os subsídios aos combustíveis fósseis e se comprometer em proporcionar acesso a energia limpa para todos”, apontou Leape. Diante da pergunta sobre se a economia verde, principal tema da Rio+20, é a solução correta, Leape disse à IPS que “o desafio central é resolver como passar para ela”. “Há muito debate sobre o termo. Alguns gostam, outros não. Contudo, de algum modo devemos seguir um caminho que a Terra possa sustentar, e definir uma nova prosperidade com os recursos do planeta. Precisamos de um modelo diferente para o desenvolvimento futuro”, indicou Leape. Segundo consta no informe, o WWF acredita ser possível seguir outro caminho. A organização propõe possíveis soluções. A primeira é preservar o capital natural protegendo os ecossistemas, a terra e a água. Conseguiu-se avanços significativos na área fundamental do desmatamento, mas sempre existe a ameaça de um retrocesso. Por exemplo, embora nos últimos anos o Brasil tenha sido líder na tendência contra o desmatamento, uma nova lei aprovada no país (o novo Código Florestal) pode prejudicar severamente a proteção das florestas. Outra proposta é fixar-se na “pegada hídrica”, isto é, a maneira como se administra a água do lado da produção. “Trabalhamos muito próximos às empresas para ajudá-las a entender sua pegada hídrica. E alguns dos trabalhos mais progressistas em matéria de água são feitos na África”, explicou Stuart Orr, gerente de água doce do WWF. No Quênia, esta organização descobriu que 10% das divisas estavam vinculadas à exploração de uma única bacia fluvial. O WWF propôs incentivos para melhorar o manejo das bacias, que atraem o interesse de diferentes países. “Desenvolvemos padrões sobre o uso da água para as empresas e assessoramos os governos sobre como alcançar a sustentabilidade hidrelétrica, por exemplo, criando padrões para o desenvolvimento” desse setor, explicou Orr. “Na China trabalhamos com o governo sobre o uso de uma bacia que inclui 270 rios do país”, acrescentou. A produção sustentável é outra solução, e começa com as energias renováveis. “Não precisamos de tecnologia nova para fazê-lo”, disse Sam Smith, líder da iniciativa do WWF sobre clima e energia. “No ano passado, os investimentos em energias renováveis foram maiores do que em combustíveis fósseis. Na Espanha, 61% da eletricidade foi gerada por energia eólica” em um dia de ventania em abril, comentou. A eficiência energética é outro caminho promissor. No Paquistão, graças a uma iniciativa lançada pelo WWF em conjunto com a firma Ikea, de venda de móveis, 40 mil agricultores cultivam algodão de um modo que reduz os severos impactos ambientais da produção convencional. Segundo o informe, em 2010, 170 mil hectares de produção algodoeira usaram 40% menos fertilizantes químicos, 47% menos pesticidas e 37% menos água. Do lado do consumo, “cada um de nós pode desempenhar um papel. As empresas e os consumidores querem melhores opções”, revelou Leape. Os rótulos podem ser uma solução. No Chile, que fornece 8% do mercado mundial de celulose e papel, o WWF trabalha com o governo e com o setor florestal para fortalecer e ampliar o alcance da certificação do Conselho de Administração Florestal (FSC). O mesmo ocorre com os peixes. A quase quintuplicação das capturas mundiais entre 1950 e 2005 causou a exploração excessiva de muitas espécies. O Chile contribui com 30% do mercado mundial de salmão e 13% de pescado para iscas. O WWF promove a certificação do Conselho de Administração Marinha (MSC) nesse país, para garantir que a exploração pesqueira ocorra de modo sustentável e economicamente viável. “Os desafios destacados no Living Planet Report são claros”, enfatizou Leape. “A Rio+20 pode e deve ser o momento para que os governos determinem um novo curso de ação para a sustentabilidade. A reunião é uma oportunidade única para que as coalizões dos comprometidos (governos, cidades e empresas) unam forças e desempenhem um papel crucial na conservação de um planeta vivo”, concluiu. Envolverde/IPS


por Isolda Agazzi, da IPS
Everlyne Wanjiku, mãe solteira com cinco filhos, ganhou a vida vendendo verduras por mais de 30 anos. Foto: Brian Ngugi/IPS Inter Press Service - Reportagens

Crescimento econômico não dá de comer à África

[caption id="attachment_51849" align="alignright" width="300" caption="Everlyne Wanjiku, mãe solteira com cinco filhos, ganhou a vida vendendo verduras por mais de 30 anos. Foto: Brian Ngugi/IPS"][/caption] Nairóbi, Quênia, 16/5/2012 – Everlyne Wanjiku por mais de três décadas ganhou a vida vendendo verduras em Kibera, bairro pobre da capital do Quênia. Embora sua renda fosse pouca, esta mãe solteira conseguiu assegurar aos seus cinco filhos educação universitária. No entanto, agora, como muitos outros habitantes de Nairóbi, sente o impacto do aumento mundial dos preços dos alimentos e de outros produtos básicos. Wanjiku sabe que já não pode manter sua família. “A maioria de meus clientes diários já não vem comprar por causa dos preços proibitivos dos alimentos. Como pode ver, não fiz reposição de produtos porque acabaram as pequenas economias que tinha”, explicou, apontando para as poucas verduras sobre a mesa colocada à porta de sua choça. “Em um bom mês, ganhava mais de seis mil chelines (US$ 67). Agora as coisas vão mal, e não posso alimentar minha família”, contou. Uma de suas clientes, Janet Adhiambo, afirmou que a vida também está mais difícil para ela. “É uma pena que já não possa comprar ingredientes básicos, como cebolas. Simplesmente decidi esquecê-los porque são muito caros. Isto é muito duro”, afirmou. As penúrias destas duas mulheres se repetem na maioria das famílias do Quênia, afetadas pelos altos preços dos alimentos. E esta insegurança não está limitada aos quenianos, afetando toda a África, segundo um informe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O estudo, divulgado ontem em Nairóbi, aponta o paradoxo de a África sofrer insegurança alimentar sendo um continente com enormes recursos agrícolas. O “Informe de Desenvolvimento Humano da África 2012: Para um futuro de segurança alimentar” indica que, apesar do grande crescimento experimentado pelas economias do continente na última década, as nações subsaarianas ainda sofrem insegurança alimentar. “Um em cada quatro africanos está desnutrido, e a insegurança alimentar – a incapacidade de adquirir regularmente calorias e nutrientes suficientes para uma vida saudável e produtiva – é onipresente. O fantasma da fome, que praticamente desapareceu do resto do mundo, continua rondando a África subsaariana”, diz o estudo. Isto ocorre apesar de a região contar com “extensas terras agrícolas, abundância de água e um clima geralmente favorável para cultivo de alimentos. E nos últimos dez anos, muitos países africanos conseguiram taxas de crescimento econômico exemplares para o mundo, e foram os que mais avançaram no Índice de Desenvolvimento Humano”, destaca o trabalho. O informe faz dura crítica aos governos do continente, dizendo que não adotaram políticas adequadas. “A África subsaariana tem abundantes recursos agrícolas. Contudo, vergonhosamente, em todos os rincões da região milhões de pessoas seguem famintas e desnutridas. Isto é resultado do evidente desequilíbrio entre produção local, distribuição e forma de alimentação com deficiências crônicas, especialmente entre os mais pobres”, acrescenta. O Pnud diz que, apesar da redução da pobreza entre 2000 e 2010, quase metade dos subsaarianos ainda vive nela. No ano passado, o Chifre da África foi açoitado por uma fome e uma acentuada insegurança alimentar que afetaram 9,5 milhões de pessoas. Segundo Tegegnework Gettu, subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e chefe do escritório do Pnud na África, a insegurança alimentar crônica nos países subsaarianos tem suas raízes em décadas de má governança. O secretário permanente do Ministério de Agricultura do Quênia, Romano Kiome, admitiu que os governos da região não estavam fazendo o suficiente para combater o problema. Kiome citou o caso de seu país, cujo Ministério das Finanças destinou US$ 539 milhões para apoiar a agricultura (menos de 5% do orçamento 2010-2011), enquanto destinou US$ 685 milhões a gastos de defesa. Gettu afirmou que alguns países africanos deveriam reorientar urgentemente suas prioridades de gasto para superar a insegurança alimentar. “Se alguns países africanos podem adquirir e manter jatos de combate, tanques, artilharia e outros meios avançados de destruição, por que não podem dominar o conhecimento agrícola? Por que os africanos não podem adquirir tecnologia, tratores, sistemas de irrigação, variedades de sementes e treinamento necessário para alcançar a segurança alimentar?”, questionou. Gettu observou que, com políticas e instituições adequadas, a África poderia gerar um círculo virtuoso de maior desenvolvimento humano e melhor segurança alimentar. “A África pode extirpar por si só a insegurança alimentar atuando em quatro motores de mudança fundamentais”, acrescentou. Isto é, aumentando a produtividade dos pequenos agricultores, adotando políticas de nutrição mais efetivas, especialmente para crianças, fortalecendo as comunidades para enfrentar os impactos econômicos, e gerando uma participação popular mais ampla, com empoderamento especial das mulheres no âmbito rural. Gettu concluiu que a “África tem o conhecimento, a tecnologia e os meios para acabar com a fome e a insegurança alimentar, mas ainda falta vontade política e dedicação”. Por sua vez, Kiome afirmou que, embora não haja soluções mágicas, os governos devem fazer maiores investimentos em agricultura. “Temos a capacidade e as pessoas adequadas. No entanto, não temos suficiente vontade política para implantar as políticas corretas”, lamentou. Inclusive na nação insular africana de Maurício, mais de 50% da terra cultivável é irrigada, contra uma média de apenas 10% no resto da África. “Quando os países conseguem maturidade alimentar é porque aplicam as políticas adequadas”, destacou Kiome. Para o queniano Calestous Juma, especialista em ciência e tecnologia aplicadas ao desenvolvimento sustentável e professor da Escola de Governo John F. Kennedy, da Universidade de Harvard, “não existe uma receita única ou uma panaceia para derrotar a insegurança alimentar na África subsaariana”. O informe do Pnud propõe a adoção de “subsídios inteligentes” que estimulem os pequenos agricultores a apostarem em variedades de cultivo de alto rendimento e que não impliquem custos de longo prazo para o Estado. Isso poderia revigorar a produção de alimentos e os mercados. “Para impulsionar a produtividade são necessários mais fertilizantes e sementes, maior pesquisa e um sistema de extensão mais coordenado e receptivo, com especialistas no comportamento e nos hábitos das comunidades agrícolas locais”, indica o informe. E acrescenta que se deve atrair a participação dos jovens, para infundirem energia e ideias inovadoras às políticas de desenvolvimento da África. Envolverde/IPS


por Brian Ngugi, da IPS

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