Crescem as oportunidades de investimento

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Crescem as oportunidades de investimento


por Kristin Palitza, da IPS


[caption id="attachment_49666" align="alignright" width="227" caption="Diretora-executiva da Bolsa de Valores de Johannesburgo, Nicky Newton-King. Foto: Kristin Palitza/IPS"][/caption] Cidade do Cabo, África do Sul, 20/4/2012 – Mais de três anos após o início da crise econômica global e seu consequente impacto sobre o comércio na África, os investimentos e o produto interno bruto aumentam neste continente. Segundo Nicola Newton-King, primeira mulher a ocupar o cargo de diretora-executiva da Bolsa de Valores de Johannesburgo (JSE), atualmente são inúmeras as oportunidades de investimento na África. “Há muitas opções interessantes. Não apenas na mineração, mas em telecomunicações, bancos, serviços móveis e tecnologias da informação e da comunicação (TIC). É porque esses investimentos podem alcançar um grande espaço sem necessidade de infraestrutura”, disse Nicola. Quatro meses depois de sua designação como diretora de uma instituição com 123 anos de antiguidade, esta advogada sul-africana, formada na britânica Universidade de Cambridge e especialista em serviços financeiros, conversou com a IPS sobre as últimas oportunidades e os riscos de investimentos na África.   IPS: Os países africanos, especialmente os que possuem muito matéria-prima, podem se beneficiar com a crise financeira? Nicola Newton-King: Os mercados emergentes experimentaram um duplo efeito. Primeiro os investidores se retiraram, mas logo se deram conta de que, em última instância, a renda que recebem nos mercados emergentes são superiores às de seus próprios países. Isso fez com que os reinvestimentos se tornassem atraentes. IPS: Qual o grau de estabilidade política necessário para atrair investimentos estrangeiros? NNK: Estamos em um estado de eleições controversas. Isso significa que as orientações políticas são alvo de debate. Do ponto de vista do investidor, isso cria um enorme grau de incerteza. Os agentes não estão seguros de colocar seus capitais em longo prazo enquanto não souberem o quanto será seguro o ambiente político. É um problema para nós na África do Sul, para toda África e, em particular, para nós na bolsa de valores. Por isso destinamos muito tempo a conversar com o governo e os dirigentes políticos influentes para que marquem os princípios centrais de sua orientação política para tranquilidade de todos. Por outro lado, há investidores que são bastante tolerantes quanto às situações políticas. Investe-se no Zimbábue e no Cazaquistão porque, definitivamente, o que conta é o dinheiro. IPS: Em dezembro de 2010 a África do Sul foi convidada a unir-se ao grupo de economias emergentes integrado por Brasil, China, Índia e Rússia (Brics). Isso ajudou a aumentar o comércio no continente? NKK: Vemos um intercâmbio Sul-Sul e Leste-Sul, afastado do Ocidente. O Brics e oportunidades relacionadas terão maior peso do que antes em nossas vidas. Esperamos maiores quantidades de fluxos de investimento procedentes do Leste e do Brasil. Alguns grandes bancos preveem que 40% da riqueza global estarão nas economias emergentes em 2020. IPS: A Bolsa de Valores de Johannesburgo colabora com as bolsas de valores de outros países africanos? NKK: Há 24 mercados de valores na África, mas alguns fazem apenas dez transações por dia, enquanto a bolsa de Johannesburgo faz, pelo menos, 120 mil. Somos o elefante do continente. Mas gostaria que houvesse uma cooperação bem mais profunda. Há boa comunicação com as direções de outras bolsas de valores africanas, por exemplo, da Nigéria e do Quênia. Estamos trabalhando em algumas coisas para melhorar a cooperação, como associar produtos e compartilhar tecnologia. Mas, ainda nada foi concretizado. IPS: Teria sentido ter uma única bolsa de valores para todo continente? NKK: Não é um objetivo que nos propomos. Vimos muitas outras tentativas, grandes fusões globais que se lançaram em questões normativas transfronteiriças. Cremos que podemos obter os mesmos benefícios se trabalharmos em rotinas cruzadas e em oportunidades de diversidade de produtos mais próximas. Nesse sentido são nossos esforços. IPS: Em 2009, a Bolsa de Valores de Johannesburgo criou uma Junta Africana, para que fossem contadas as grandes companhias do continente e assim promover o crescimento do mercado de capitais na região. Foi uma estratégia de sucesso? NKK: A Junta Africana não consegui o que buscávamos. Queríamos criar um segmento de comercialização mais direto para expor as companhias africanas, mas apenas 14 se registraram. Esperamos ter mais, mas é preciso tempo. IPS: O que sente sendo a primeira mulher a dirigir a Bolsa de Valores de Johannesburgo? NKK: É interessante. Há 16 anos, quando entrei na bolsa, teria ficado aterrorizada se estivesse perto do andar onde são feitas as transações porque é um lugar que dá muito medo para quem usa saia. Agora há 500 empregados e quase a metade é de mulheres, e a direção tem sete mulheres e seis homens. Uma organização diversa atrai maior diversidade. Isso lhe dá uma grande força.  Envolverde/IPS

Apesar do “boom dos meios de comunicação”, não há liberdade de imprensa no Afeganistão. Foto: Giuliana Sgrena/IPS Inter Press Service - Reportagens

Jornalistas mordem a mordaça

[caption id="attachment_49661" align="alignright" width="300" caption="Apesar do “boom dos meios de comunicação”, não há liberdade de imprensa no Afeganistão. Foto: Giuliana Sgrena/IPS"][/caption] Cabul, Afeganistão, 20/4/2012 – O Afeganistão se converte rapidamente em um dos países mais perigosos para o trabalho de jornalistas locais e estrangeiros. Só na última década 15 profissionais da imprensa foram assassinados neste país e ninguém foi levado à justiça por esses casos. O silêncio do presidente afegão, Hamid Karzai, diante de tal impunidade também é causa de preocupação para os defensores da liberdade de imprensa. Depois da queda do movimento islâmico Talibã e da chegada das tropas estrangeiras em 2001, este país experimentou um “boom de meios de comunicação”, com a proliferação de veículos impressos e de radiodifusão. O Afeganistão tem 200 meios de comunicação escritos, 44 emissoras de televisão (25 deles em Cabul), 141 emissoras de rádio e oito agências de notícias. Porém, este aumento em nada contribuiu para melhorar a liberdade de imprensa, já que a maioria desses meios está relacionada com o governo, com senhores da guerra ou com o poder econômico, e nenhum deles permite aos jornalistas desempenharem sua tarefa adequadamente. A isto acrescenta-se a censura imposta pelo Talibã. Este movimento islâmico condena, por exemplo, a divulgação de qualquer imagem de pessoas desnudas. Além disso, os jornalistas trabalham em um constante ambiente de guerra, o que dificulta sua tarefa. Nazir Fayaz, jornalista de 34 anos que trabalha há anos na Ariana TV, foi obrigado a se demitir há três meses por uma disputa com o embaixador do Irã. Durante uma entrevista, o diplomata iraniano acusou o povo afegão de “aceitar a ocupação estrangeira”, uma declaração que Fayaz criticou abertamente. Como sua dura resposta ao embaixador foi transmitida a todo o país, Fayaz foi detido por dois dias, e a embaixada do Irã e o governo afegão o pressionaram para se demitir. Agora, o jornalista recebe ameaças telefônicas não só da sede diplomática iraniana mas também “do governo, de senhores da guerra, de traficantes de drogas e do Talibã. É muito arriscado ser jornalista no Afeganistão”, disse Fayaz à IPS. “Não há liberdade de imprensa porque todos os meios de comunicação estão em mãos de senhores da guerra, da máfia e dos bancos. A censura é ainda mais forte na mídia governamental. A Ariana TV era independente até seu proprietário, o afegão-norte-americano Ehsan Bayat, se converter em senador”, acrescentou Fayaz. Agora, o jornalista considera abandonar completamente a profissão e se converter em ativista da Comissão Afegão Independente de Direitos Humanos, pois diz que “não há possibilidade de fazer um trabalho honesto na mídia” deste país. Ele acredita que o trabalho da imprensa é chave para trazer paz ao país, “mas se não há liberdade de expressão o resultado é contrário”, afirmou. Algumas províncias do sul e do leste do Afeganistão, como Helmand, Uruzgan, Paktika e Farah, são inacessíveis aos repórteres. No dia 22 de fevereiro foi encontrado em Urgun, província de Paktika, o cadáver decapitado de Sadim Khan Bhadrzai, sequestrado na noite anterior. Khan era gerente da popular rádio local Mehman-Melma. Foi o último de uma série de assassinatos contra trabalhadores da imprensa nos últimos anos. A cada ano há centenas de casos de violência contra jornalistas, a maioria deles em Cabul, Herat e Helmand. E as mulheres jornalistas estão ainda mais expostas às ameaças. Em 2007, Zakia Zaki, dona da Rádio Peace, em Kandahar, foi morta quando dormia com seu filho menor. Mas, apesar dos perigos, muitas jornalistas não desistem. Najeeba Feroz é uma decidida profissional de 24 anos que trabalha para o serviço afegão da rede britânica BBC, que transmite em persa e pashtun. Seu escritório no centro de Cabul está bem protegido, cercado por guardas armados. Feroz se formou na Universidade de Cabul e trabalhou em vários veículos “independentes”, tanto escritos, como no rádio e na televisão, entre eles a Tolo TV, mas se frustrou diante da falta de autonomia real para informar e do forte controle político sobre a mídia. “A única opção que tem é escolher entre a censura ou a autocensura. Por isso fui trabalhar na BBC”, contou à IPS. Aqui “checamos todas nossas fontes e nos preocupamos quando temos que informar sobre corrupção no governo ou dos setores da guerra, para que a informação corresponda à realidade”, assegurou Feroz. Mas, como muitos outros jornalistas, agora pensa em deixar o país”. “Depois de trabalhar três anos na BBC temos a chance de passar um ano fora. É uma boa oportunidade, mas depois disso voltarei para ajudar meu povo”, disse a jornalista, que se dedica em especial a cobrir temas relacionados com mulheres, nem sempre atendidos pela mídia. A senadora Belqis Roshan, também uma corajosa jornalista, disse à IPS que viaja pela província de Farah coletando histórias sobre violência contra as mulheres, e levando a foz das vítimas ao Senado. “Em Farah não temos nenhum veículo de comunicação”, afirmou. O Afeganistão possui uma taxa de analfabetismo de 72%, por isso a televisão e o rádio são os meios mais efetivos para divulgar notícias no neste país.  Envolverde/IPS  


por Giuliana Sgrena, da IPS
Os muros contam a história e a vida da favela do Morro do Cantagalo. Foto: Fabiana Frayssinet Inter Press Service - Reportagens

Museu a céu aberto vive e cresce na favela

[caption id="attachment_49532" align="alignleft" width="300" caption="Os muros contam a história e a vida da favela do Morro do Cantagalo. Foto: Fabiana Frayssinet"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 19/4/2012 – Desde a história, a vida cotidiana e a arte popular até as paisagens mais belas desta cidade. Tudo é parte do museu “vivo” criado por líderes comunitários de uma favela para mostrar sua memória, seu patrimônio cultural e também suas chagas. “Certa época, a única luz que havia na favela era a natural. Por isto, os moradores se reuniam para conversar na rua sob o luar”, contou Rita de Cássia Santos Pinto, ao responder às perguntas da IPS, sentada diante do mural que integra o circuito das “casas-tela”. Rita de Cássia é jornalista e diz que, como tal, não gosta de ser entrevistada. Contudo, quando se trata da história de sua comunidade não lhe faltam entusiasmo nem palavras. Percorrendo cada canto do Morro do Cantagalo, que entre vales e ladeiras de morros integra um complexo territorial junto às favelas Pavão e Pavãozinho, as paredes e as casas também começam a falar. Enquanto um mural conta a história do samba, que nasceu precisamente nas favelas, outro relata a época da repressão da ditadura militar (1964-1985), com o fundo das típicas moradias sem reboque desses locais. São mais de 20 grafites feitos por artistas do Cantagalo ou de outros lugares do Rio de Janeiro, que escrevem com formas e cores a história comunitária. As casas-tela são parte de um circuito turístico pago que inclui, a pedido dos interessados, desde oficina de confecção e voo de asa-delta, aulas de cavaquinho, até visita a lojas de arte popular e restaurantes vizinhos. “Queremos acabar com a barreira dos museus federais que só têm exposições de artistas famosos”, disse Rita de Cássia, que além de jornalista é guia turística, diretora social, “curadora de memória” e uma das líderes comunitárias fundadoras do Museu da Favela (MUF). Este primeiro museu territorial vivo busca recuperar e valorizar a identidade de seus 20 mil habitantes a partir de seus próprios relatos e integrá-los a essa realidade até agora distante. Do Nordeste para a favela Um dos painéis expostos na sede do MUF, que também integram uma exposição itinerante por outros museus tradicionais do Brasil, conta a história dos pais de Rita de Cássia, hoje octogenários, por sua própria boca. Feliciano da Silva Pinto, imigrante nordestino da Bahia, que trabalhava como eletricista na cidade, se apaixonou por Eunice Santos quando todos os dias a via descer o morro carregando água em uma lata que equilibrava sobre a cabeça. “Para conquistá-la, começou a lhe presentear com água”, conta a jornalista, em meio a risadas. Uma das muitas narrativas sobre os imigrantes pobres que povoaram este conjunto de modestíssimas casas, que hoje chegam a 5.300, conectadas por um insondável labirinto de becos e escadarias, que parecem infinitas para o visitante não acostumado a chegar ao topo do morro. Hoje, um elevador, construído dentro do Programa de Aceleração do Crescimento, do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), facilita a subida. São mais de 60 metros, equivalentes a um edifício de 23 andares, que antes os moradores da favela faziam a pé. “Toda memória é interessante para que fique registrada”, destacou Rita de Cássia que em seu trabalho, por meio de relatos orais, tenta reconstruir a origem da favela “para dar voz a quem nunca a teve”, enfatizou. A história deste trio de bairros cruza com a da origem das grandes cidades do Brasil. Desde os escravos fugitivos que se escondiam no maciço do Cantagalo, até as primeiras construções de ranchos na primeira década do Século 20, onde viviam os migrantes internos em busca de trabalho. As favelas cresceram encravadas em meio a bairros residenciais que são parte dos destinos culturais do Rio de Janeiro, como Ipanema e Copacabana, formados por grandes casas ou prédios construídos, muitas vezes, por esses migrantes pobres e analfabetos, como os pais de Márcia de Souza, a diretora cultural do MUF. Márcia descreve outra iniciativa do museu vivo, que é a escolha anual de 12 “mulheres guerreiras” da favela. São as mulheres que “venceram na vida, enfrentaram dificuldades, como violência, educar os filhos, e que, mesmo com algum filho preso por tráfico de drogas conseguiram salvar o resto da família e mantê-la longe da violência e das drogas”, explicou à IPS. As mulheres recebem um prêmio de valor simbólico, o da “valorização da memória”. Sua vida é reconstruída por meio de fotografias, objetos pessoais e relatos. É tempo de paz Esse conjunto de favelas era uma das zonas mais violentas do sul do Rio de Janeiro, com tiroteios diários entre grupos de traficantes, até que, há três anos, chegaram as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), como parte do plano de presença da força pública nestes assentamentos, acompanhadas por melhorias na infraestrutura e iniciativas sociais. O MUF é uma organização não governamental de caráter comunitário criada em 2008, antes da instalação das UPP, que enfrenta muitos desafios, segundo seus fundadores. Agora, as queixas são de falta de financiamento público para a iniciativa, o que levou à busca por interessados em investir no que é chamado de “um imaginário de futuro”. Seus integrantes imaginam esse futuro como um conjunto de galerias a céu aberto, “cujos acionistas sejam os próprios moradores, fornecendo seus imóveis, saberes e o que sabem fazer”. A ideia é transformar Pavão, Pavãozinho e Cantagalo em um “monumento turístico carioca” sobre a história da formação das favelas, das origens culturais do samba, da cultura do migrante nordestino, do negro, das artes visuais e da dança. Com este espírito, e como parte das atividades atuais desse museu vivo, arquitetos e estudantes de arquitetura de outros Estados brasileiros e da Argentina e França participam da iniciativa. Esse coletivo fará uma intervenção urbana para melhorar alguns lugares. Trata-se de soluções que devem ser criativas e com investimento de poucos recursos, como a instalação de uma tela gigante de cinema comunitário, acima do terraço do MUF que, na realidade, é um grande depósito de água. Envolverde/IPS  


por Fabiana Frayssinet, da IPS
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Ataques do Talibã enfraquecem ainda mais a Otan

Washington, Estados Unidos, 19/4/2012 – Os últimos ataques do movimento islâmico Talibã no Afeganistão aumentaram a desconfiança no público norte-americano e inclusive no plano internacional sobre a estratégia militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). As ofensivas do dia 15, em Cabul e outras partes do país, também despertaram novas dúvidas sobre o prazo e o ritmo da prevista retirada das forças norte-americanas, bem como quanto ao destino do acordo estratégico de longo prazo que os Estados Unidos negociam com o Afeganistão. Na semana anterior aos ataques, uma pesquisa da rede de televisão ABC News e do jornal The Washington Post mostrava que o apoio público nos Estados Unidos à guerra no Afeganistão caiu a um nível sem precedentes. Apenas 30% dos entrevistados disseram acreditar que o conflito nesse país vale a pena. Esta também foi a primeira pesquisa em que a maioria dos que se identificaram como simpatizantes do opositor Partido Republicano coincidiram com essa opinião. Destes, 62% disseram acreditar que a maioria dos afegãos se opõe às intenções dos Estados Unidos em seu país. O anúncio feito no dia 17 pela primeira-ministra da Austrália, Julia Gillard, de que aceleraria a retirada de seus soldados representou um novo golpe para as esperanças de Washington de manter unidos seus aliados até o final de 2014. Este é o prazo acordado pela Otan para a retirada de todas as tropas. Argumentando melhorias na segurança, apesar dos ataques do dia 15, Gillard prometeu retirar a maioria de seus 1.550 soldados até o final do ano que vem. Este prazo é igual ao anunciado em janeiro pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, para a retirada de quase quatro mil soldados. O mandatário tomou esta decisão depois que quatro soldados franceses foram assassinados por um recruta afegão. Até então, Paris, assim como os demais governos da Otan, havia prometido permanecer no Afeganistão até o final de 2014. A possibilidade de outros países também acelerarem sua retirada será assunto nos corredores da próxima reunião de ministros de defesa da Otan, que acontecerá no final desta semana em Bruxelas, e depois em Chicago, na cúpula da aliança. Espera-se que nesta segunda instância Obama pressione seus colegas para que se comprometam a manter as tropas no Afeganistão até 2014 e a apoiar com dinheiro depois dessa data. O próprio Obama prometeu retirar até o final de setembro deste ano cerca de 22 mil soldados dos 99 mil que ainda permanecem em solo afegão. Contudo, continua sendo motivo de intenso debate no Congresso o ritmo da retirada das tropas remanescentes até o final de 2014. Apoiado pela maioria de congressistas do governante Partido Democrata, o vice-presidente, Joe Biden, e o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Tom Donilon, estariam a favor de uma retirada relativamente rápida, reduzindo o contingente total para 40 mil soldados até meados do próximo ano. No entanto, os altos chefes militares insistem em frear a retirada até que passe a “temporada de combates” do outono boreal de 2013. “Será necessária uma significativa força de combate até o final do ano que vem”, afirmou o general John Allen, comandante dos Estados Unidos e da Otan no Afeganistão. Os atentados do dia 15 seguramente alimentarão este debate, como o fizeram outros incidentes nos últimos meses. Entre eles, a queima de cópias do Alcorão na base aérea de Bagram por soldados norte-americanos e o massacre de 16 civis, entre eles uma criança, cometido por um soldado dos Estados Unidos perto da cidade de Kandahar. Entre os últimos ataques dos islâmicos, que a maioria dos especialistas concorda que levam a marca da facção talibã paquistanesa Haqqani, estão três ataques em Cabul, dois em Jalalabad, um em Gardez e outro em Pul-e-Alam, todos no leste do país, onde nos últimos meses os Estados Unidos procuram fortalecer sua presença. No total, participaram apenas 39 combatentes talibãs, a maioria dos quais morreu. No entanto, cada uma das ofensivas exigiu a ajuda de dezenas de outros que forneceram informação de inteligência, armas e munições, logística e diversas formas de apoio. Cabul, considerada a cidade mais segura do país, ficou paralisada por 18 horas em consequência dos ataques. Estas ofensivas causaram maiores baixas dentro do exército e da polícia do Afeganistão: morreram 11 efetivos. O ataque em Cabul só acabou depois que vários helicópteros norte-americanos dispararam repetidamente contra os locais ocupados pelos talibãs. Foi o combate mais forte na capital desde a invasão dos Estados Unidos para tirar do poder o Talibã, em 2001. A embaixada dos Estados Unidos e a base da Otan haviam sido atacadas em setembro, mas naquela ocasião os combates foram bem menos intensos. Não há dúvidas de que os ataques do dia 15 pegaram completamente de surpresa o governo do Afeganistão, os Estados Unidos e a Otan. Foi “um erro de inteligência nosso, especialmente da Otan”, afirmou o escritório do presidente afegão, Hamid Karzai. E os analistas estão divididos sobre as consequências que esses atos poderão ter no debate dentro dos Estados Unidos. Allen e os que se opõem a uma rápida retirada expressaram satisfação pela resposta e pelo desempenho das forças do governo afegão. “Ninguém está subestimando a seriedade dos ataques de hoje. Cada um teve o objetivo de enviar uma mensagem: que o governo legítimo e a soberania afegã estão em perigo. Porém, a própria resposta (das forças afegãs) foram uma prova de que isso é uma bobagem”, destacou. Max Boot, destacado analista militar neoconservador, afirmou em seu blog que os ataques foram, de fato, um sinal de fraqueza da parte do Talibã. “Os insurgentes tiveram que realizar seus ataques a partir de edifícios abandonados, o que sugere que não contam com apoio na capital”, escreveu. Outros, pelo contrário, consideram que os atentados revelaram força por parte da insurgência e disseram que, na realidade, as forças afegãs demonstraram que ainda são dependentes das tropas ocidentais. Envolverde/IPS * O blog de Jim Lobe sobre política externa pode ser lido em www.lobelog.com. Jim Lobe*   Washington, Estados Unidos, 19/4/2012 – Os últimos ataques do movimento islâmico Talibã no Afeganistão aumentaram a desconfiança no público norte-americano e inclusive no plano internacional sobre a estratégia militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). As ofensivas do dia 15, em Cabul e outras partes do país, também despertaram novas dúvidas sobre o prazo e o ritmo da prevista retirada das forças norte-americanas, bem como quanto ao destino do acordo estratégico de longo prazo que os Estados Unidos negociam com o Afeganistão. Na semana anterior aos ataques, uma pesquisa da rede de televisão ABC News e do jornal The Washington Post mostrava que o apoio público nos Estados Unidos à guerra no Afeganistão caiu a um nível sem precedentes. Apenas 30% dos entrevistados disseram acreditar que o conflito nesse país vale a pena. Esta também foi a primeira pesquisa em que a maioria dos que se identificaram como simpatizantes do opositor Partido Republicano coincidiram com essa opinião. Destes, 62% disseram acreditar que a maioria dos afegãos se opõe às intenções dos Estados Unidos em seu país. O anúncio feito no dia 17 pela primeira-ministra da Austrália, Julia Gillard, de que aceleraria a retirada de seus soldados representou um novo golpe para as esperanças de Washington de manter unidos seus aliados até o final de 2014. Este é o prazo acordado pela Otan para a retirada de todas as tropas. Argumentando melhorias na segurança, apesar dos ataques do dia 15, Gillard prometeu retirar a maioria de seus 1.550 soldados até o final do ano que vem. Este prazo é igual ao anunciado em janeiro pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, para a retirada de quase quatro mil soldados. O mandatário tomou esta decisão depois que quatro soldados franceses foram assassinados por um recruta afegão. Até então, Paris, assim como os demais governos da Otan, havia prometido permanecer no Afeganistão até o final de 2014. A possibilidade de outros países também acelerarem sua retirada será assunto nos corredores da próxima reunião de ministros de defesa da Otan, que acontecerá no final desta semana em Bruxelas, e depois em Chicago, na cúpula da aliança. Espera-se que nesta segunda instância Obama pressione seus colegas para que se comprometam a manter as tropas no Afeganistão até 2014 e a apoiar com dinheiro depois dessa data. O próprio Obama prometeu retirar até o final de setembro deste ano cerca de 22 mil soldados dos 99 mil que ainda permanecem em solo afegão. Contudo, continua sendo motivo de intenso debate no Congresso o ritmo da retirada das tropas remanescentes até o final de 2014. Apoiado pela maioria de congressistas do governante Partido Democrata, o vice-presidente, Joe Biden, e o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Tom Donilon, estariam a favor de uma retirada relativamente rápida, reduzindo o contingente total para 40 mil soldados até meados do próximo ano. No entanto, os altos chefes militares insistem em frear a retirada até que passe a “temporada de combates” do outono boreal de 2013. “Será necessária uma significativa força de combate até o final do ano que vem”, afirmou o general John Allen, comandante dos Estados Unidos e da Otan no Afeganistão. Os atentados do dia 15 seguramente alimentarão este debate, como o fizeram outros incidentes nos últimos meses. Entre eles, a queima de cópias do Alcorão na base aérea de Bagram por soldados norte-americanos e o massacre de 16 civis, entre eles uma criança, cometido por um soldado dos Estados Unidos perto da cidade de Kandahar. Entre os últimos ataques dos islâmicos, que a maioria dos especialistas concorda que levam a marca da facção talibã paquistanesa Haqqani, estão três ataques em Cabul, dois em Jalalabad, um em Gardez e outro em Pul-e-Alam, todos no leste do país, onde nos últimos meses os Estados Unidos procuram fortalecer sua presença. No total, participaram apenas 39 combatentes talibãs, a maioria dos quais morreu. No entanto, cada uma das ofensivas exigiu a ajuda de dezenas de outros que forneceram informação de inteligência, armas e munições, logística e diversas formas de apoio. Cabul, considerada a cidade mais segura do país, ficou paralisada por 18 horas em consequência dos ataques. Estas ofensivas causaram maiores baixas dentro do exército e da polícia do Afeganistão: morreram 11 efetivos. O ataque em Cabul só acabou depois que vários helicópteros norte-americanos dispararam repetidamente contra os locais ocupados pelos talibãs. Foi o combate mais forte na capital desde a invasão dos Estados Unidos para tirar do poder o Talibã, em 2001. A embaixada dos Estados Unidos e a base da Otan haviam sido atacadas em setembro, mas naquela ocasião os combates foram bem menos intensos. Não há dúvidas de que os ataques do dia 15 pegaram completamente de surpresa o governo do Afeganistão, os Estados Unidos e a Otan. Foi “um erro de inteligência nosso, especialmente da Otan”, afirmou o escritório do presidente afegão, Hamid Karzai. E os analistas estão divididos sobre as consequências que esses atos poderão ter no debate dentro dos Estados Unidos. Allen e os que se opõem a uma rápida retirada expressaram satisfação pela resposta e pelo desempenho das forças do governo afegão. “Ninguém está subestimando a seriedade dos ataques de hoje. Cada um teve o objetivo de enviar uma mensagem: que o governo legítimo e a soberania afegã estão em perigo. Porém, a própria resposta (das forças afegãs) foram uma prova de que isso é uma bobagem”, destacou. Max Boot, destacado analista militar neoconservador, afirmou em seu blog que os ataques foram, de fato, um sinal de fraqueza da parte do Talibã. “Os insurgentes tiveram que realizar seus ataques a partir de edifícios abandonados, o que sugere que não contam com apoio na capital”, escreveu. Outros, pelo contrário, consideram que os atentados revelaram força por parte da insurgência e disseram que, na realidade, as forças afegãs demonstraram que ainda são dependentes das tropas ocidentais. Envolverde/IPS * O blog de Jim Lobe sobre política externa pode ser lido em www.lobelog.com.


por Jim Lobe*
Mulheres paquistanesas sofrem também pela “guerra contra o terrorismo”. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS Inter Press Service - Reportagens

Mulheres traumatizadas pela “guerra contra o terrorismo”

[caption id="attachment_49513" align="alignleft" width="300" caption="Mulheres paquistanesas sofrem também pela “guerra contra o terrorismo”. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS"][/caption] Peshawar, Paquistão, 19/4/2012 – As consequências da “guerra contra o terrorismo”, lançada pelos Estados Unidos e por seus aliados em 2001, causaram estragos em milhares de mulheres do noroeste do Paquistão, que sofrem graves problemas psicológicos. “A prolongada guerra deixou sequelas na maioria dos moradores das Áreas Federais Administradas Federalmente (Fata), especialmente nas mulheres”, afirmou o professor Syed Mohammad Sultan, do departamento de psiquiatria do Hospital de Clínicas de Khyber (KTH). Localizada entre as províncias paquistanesas de Khyber Pakhtunkhwa e Balochistão na fronteira com o Afeganistão, as Fata são integradas por sete agências (distritos tribais) e seis regiões fronteiriças, com população de 3,3 milhões de pessoas, a maioria de distintas tribos pastun. Das 15 mil pessoas originárias das Fata tratadas por profissionais o KTH no ano passado, 9.833 eram mulheres, informou Sultan à IPS. “Muitas perderam familiares ou amigos para o exército ou para os combatentes do Talibã”, o movimento islâmico afegão, acrescentou. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que, no ano passado, foram identificadas 451.377 pessoas, entre elas 345.899 mulheres, com problemas psicológicos nas Fata. O médico Jamal Shah, que trabalha com a OMS, declarou à IPS que os profissionais examinam os pacientes das Fata para identificar problemas psicológicos, pois muitas pessoas desse território têm tendência a sofrer depressão devido à perda de seres queridos e de propriedade. A maioria das mulheres tratadas no KTH recebe antidepressivos e tranquilizantes, além de terapia psicológica, explicou Sultan. Mushtari Bibi, de 45 anos e moradora da agência do Waziristão do Norte, chegou ao KTH com profundo trauma devido a um disparo de morteiro que atingiu sua casa e matou seu filho de dez anos. “Chora todas as noites e não consegue dormir se não tomar um tranquilizante”, detalhou o médico. Rekhana Bibi, da agência Khyber, disse à IPS que seu filho Abdul Salam, que estava na nona série, saiu de casa uma tarde de janeiro e ninguém mais o viu. “No dia seguinte, encontramos seu corpo crivado de balas jogado perto de nossa casa por desconhecidos”. Esta mulher de 49 anos, que recebe tratamento no KTH, contou à IPS que seu marido também morreu, há dois anos, quando ficou em fogo cruzado entre o exército e combatentes do Talibã. O primeiro-ministro, Yousaf Raza Gillani, afirmou em entrevista coletiva em Islamabad que, desde 2005, cerca de 35 mil pessoas, incluindo cinco mil soldados, morreram devido ao apoio logístico e militar dado pelo Paquistão à guerra. E, após a morte de 24 soldados em ataques aéreos por parte dos Estados Unidos, no dia 26 de novembro de 2011, Islamabad fechou a fronteira com o Afeganistão e exigiu um pedido de desculpas que, de forma deliberada, Washington se nega a dar. O legislativo Comitê sobre Segurança Nacional voltou a cobrar, no dia 12, um pedido de desculpas, o que colocou como condição para reabrir a fronteira. O órgão também pediu o fim dos ataques com aviões não tripulados nas Fata, onde, acredita-se, estejam escondidos os dirigentes do Talibã. Segundo o Escritório de Investigação Jornalística, com sede em Londres, morreram mais de 2.500 pessoas nas Fata e em áreas vizinhas desde que começaram os ataques com esse tipo de avião, em 2004. Os ataques só pioraram os traumas da população local, um destino turístico idílico até o final de 2001, quando o Talibã começou a cruzar a fronteira após ser expulso de Cabul pelas forças da coalizão liderada pelos Estados Unidos. Uma vez escondido nas Fata, o Talibã lançou uma campanha terrorista contra a população local, atentando contra comércios de música, escolas femininas e prédios estatais, o que levou o exército paquistanês a realizar ações militares em 2007. “Nossa gente está presa entre o exército e o Talibã, e isto tornou miserável a vida do cidadão comum”, afirmou Salima Bibi, que perdeu o marido e os dois filhos por esse motivo. O escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informou em um comunicado à imprensa, divulgado no dia 30 de março, que mais de cem mil pessoas tiveram que abandonar suas casas desde janeiro, principalmente na agência Khyber, devido ao “aumento na intensidade dos combates”. O acampamento de refugiados de Jalozai, fora de Peshawar, abriga 62.818 pessoas, segundo o Acnur. “A maioria abandona a agência de Khyber e opta por viver com amigos e familiares”, esclareceu o comunicado. A instabilidade faz com que as mulheres das Fata não possam participar de acontecimentos sociais como casamentos ou cerimônias religiosas, que fomentam a coesão nas comunidades tribais, segundo vários psiquiatras consultados. Médicos do estatal Hospital Sarhad para Doenças Psiquiátricas (SHCD), com sede em Peshawar, confirmaram que muitas mulheres das Fata sofrem depressão e ansiedade devido à deterioração da segurança e à violência. “No ano passado, recebemos 49 mil pacientes, sendo 9.432 mulheres das Fata”, disse a psiquiatra Naureen Wakeel. “Os problemas que sofrem exigem um forte apoio familiar e social, além de assistência médica”, esclareceu. Lubna Hassan, presidente da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia do Paquistão, estima que 50% das mulheres grávidas nas Fata sofrem estresse, depressão e traumas. “No mês passado, atendemos 3.455 grávidas de diferentes áreas das Fata e descobrimos que quase todas precisam de assistência psicológica”, declarou Lubna. “As grávidas não devem sofrer estresse para poderem dar à luz bebês sãos”, enfatizou. “Estas mulheres, acostumadas a viver em verdadeiros lares, agora vivem em barracas de campanha ou abrigos provisórios em escolas devido às operações militares”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Ashfaq Yusufzai, da IPS
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Primavera Árabe, jovens, liberdade e tecnologia

Califórnia, Estados Unidos, 19/4/2012 – Com telefones celulares e computadores, os jovens protagonistas da Primavera Árabe mudaram a forma como o mundo vê as mobilizações populares no Oriente Médio, a liberdade na internet e as redes sociais. A internet pode ser uma força transformadora de sociedades e pessoas, pois permite uma organização em massa e a livre circulação de informação. Contudo, devemos lembrar que, como as redes sociais, não são as ferramentas que produzem a mudança, embora facilitem a propagação de ideias. O influente uso dos meios sociais como veículos de mudança nas revoltas populares do Oriente Médio é um exemplo do poder das comunicações por meio da internet e um grande argumento a favor da liberdade. As comunicações por esta via foram utilizadas por jovens ativistas mergulhados no uso de tecnologias no Oriente Médio com três finalidades: organização, exposição e influência. Os jovens se esforçaram para organizar movimentos políticos e sociais, expor as injustiças de seus governos e a influência sobre atores internos e externos agiu como catalisadora das revoltas populares no Oriente Médio, que, de outro modo, teriam permanecido latentes. As redes sociais permitem uma comunicação transversal acima das barreiras geopolíticas, culturais e linguísticas. Estas ferramentas permitiram que jovens líderes do Egito, do território palestino da Cisjordânia, da Jordânia e de outros lugares se organizassem criando comunidades de seguidores na internet, fazendo com que as pessoas saíssem às ruas e conseguissem apoio internacional para sua causa. Como são cada vez mais comuns os dispositivos móveis e os telefones inteligentes, é possível reunir pessoas com um mínimo de antecipação. Este nível de organização é possível pela quase instantânea comunicação e por uma rede de devotos e atentos conhecedores da matéria. Além disso, as organizações podem criar, colaborar e distribuir conteúdo a um – ao que parece – ilimitado público. A capacidade de jovens ativistas de se organizarem por meio da tecnologia levou a um novo nível a natureza da ação da cidadania e deu voz a narrativas desconhecidas até então. Está na natureza da internet a possibilidade de compartilhar múltiplos discursos em várias plataformas. As comunicações online, incluídos blogs, YouTube e RSS, habilitam a exposição de narrativas não oficiais e não governamentais e seu consumo maciço. Ao diminuírem dia a dia as barreiras de acesso à internet, cada vez mais pessoas podem participar e se expressar por esse meio. Porém, a ideia de que todos possam compartilhar sua opinião rapidamente se tornou polêmica. O jornalismo cidadão e os blogs denunciaram atrocidades cometidas por regimes que, de outro modo, não viriam a público. Nestes casos, a internet supõe uma ameaça existencial ao poder do governo de controlar o discurso oficial, mas habilita a livre expressão. Como era de se esperar, os civis são perseguidos pelos regimes por participarem de manifestações, publicar conteúdo de oposição ou divulgar imagens que mostram a violência estatal. Os sites da internet são censurados e atacados e o acesso é limitado. Claro que os meios sociais e as comunicações baseadas na internet são ferramentas que podem ajudar ou prejudicar. A influência dos jovens é local e internacional. Muito parecido ao modo como a Revolução de Veludo mobilizou jovens de diferentes setores sociais da República Checa contra o governo soviético, os ativistas da Primavera Árabe reuniram gente de todas as idades, religiões e classes sociais sob o mesmo lema. A denúncia de mau manejo por parte do governo por intermédio do jornalismo cidadão pode ser uma pressão para que a imprensa local e a internacional se concentrem em fatos especialmente importantes. E a influência pode ser maior. Os protestos de 2011 na Praça Tahrir, no Egito, foram uma pressão para que os Estados Unidos revisassem o apoio ao então presidente Hosni Mubarak, que governou esse país de 1981 até renunciar no ano passado. O Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que as proteções garantidas pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos se aplicam às comunicações por meio da internet. O anúncio confirma que os blogueiros têm as mesmas proteções que os jornalistas. Além disso, o relator da ONU, o guatemalteco Frank La Rue, divulgou um informe afirmando que a internet se tornou uma forma importante pela qual as pessoas podem exercer seu direito à liberdade de opinião e de expressão. Negar este direito é uma violação do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. A ideia de livre acesso à internet como direito humano está muito longe da realidade, mas seu uso por uma geração de ativistas do Oriente Médio que domina a tecnologia colocou as comunicações por meio das redes sociais no centro do debate sobre liberdade, democracia e mudança. Envolverde/IPS * Megan Martin é especialista em identidade étnica e em política externa dos Estados Unidos na Europa oriental, no Oriente Médio e no Norte da África. Tem mestrado em política pela Universidade de Nova York. © 2010 Global Experts (www.theglobalexperts.otg), um projeto da Aliança das Civilizações das Nações Unidas.


por Megan Martin*
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Quando as contas reais não são transparentes

Madri, Espanha, 18/4/2012 – O orçamento destinado à Casa Real da Espanha e o uso que Juan Carlos I faz desses fundos públicos esquentam o debate cotidiano em meio a uma severa crise econômica, que força fortes cortes sociais e colocou na rua milhões de trabalhadores. Um acidente sofrido pelo rei durante uma caçada na África parece ter liberado a crítica aberta dos espanhóis à sua responsabilidade no manejo dos gastos, enquanto os cofres do Estado enfraquecem, bem como suas atuações pessoais, nas quais, entre outras coisas, entra em rota de colisão com normas ambientais. A campanha de caça implica um grande gasto pelo deslocamento em avião até Botswana, mais pessoal, armas, munições, a segurança real e o custo propriamente dito da expedição. Uma permanência de 12 dias em um dos acampamentos com licença para abater um elefante, o exemplar mais caro e ao lado de um dos quais o rei Juan Carlos se deixou fotografar, custa cerca de 37 mil euros (US$ 48,6 mil), segundo as agências de viagem e turismo. Esse alto custo, que se choca com a crise espanhola que reduz o salário dos funcionários públicos entre 25% e 30% e deixou cinco milhões de desempregados, não teria vindo à luz sem o acidente. Isto coloca sobre a mesa um fato conhecido, mas não criticado até agora pelos partidos políticos, de que a Casa Real não está obrigada a informar sobre o uso de seu orçamento, e nunca o fez. Entre os mais duros críticos está Julio Anguita, ex-coordenador da coalizão Esquerda Unida (IU), que disse ser preciso lembrar que o rei “sempre teve uma corte de escândalos” e que a monarquia “deveria desaparecer. Não pode haver um senhor fora do alcance da lei”, protestou. A IU apresentará hoje uma proposta no Parlamento para que se esclareça se a viagem de Juan Carlos I foi custeada com o dinheiro que a Casa Real recebe dos Orçamentos Gerais a cada ano, e que em 2011 foi equivalente a US$ 11,2 milhões, e se algum ministério cedeu fundos ou meios. No contexto dos ajustes fiscais previstos, este ano haverá redução no dinheiro destinado à Casa Real em apenas 2% e não afetará o que recebem os membros da família real, mas incidirá apenas nos gastos de manutenção ou viagens. Por sua vez, a porta-voz do partido centro-esquerdista União, Progresso e Democracia, Rosa Díez, afirmou à IPS que é muito doloroso que o rei não se inteire da situação que “enfrentamos e vá caçar na África enquanto seu país sofre uma crise tripla, econômica, política e social”. No mesmo sentido se pronunciaram dirigentes do opositor Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Sua porta-voz parlamentar, Soraya Rodríguez, disse entender “a incompreensão, o mal-estar e a indignação” gerada por esse episódio do rei. Segundo ela, “Juan Carlos é conhecedor da situação, e acreditamos que a Casa Real se dirigirá à sociedade espanhola para falar algo a respeito”. O governante Partido Popular (PP) negou-se a se pronunciar sobre o caso. Sua secretária-geral, María Dolores de Cospedal, declarou que o partido não entraria “na polêmica que alguns estão tentando alimentar”. Da sociedade também surgiram críticas contra a Casa Real. Ativistas defensores da vida animal se concentraram perto do hospital onde o rei se recupera da lesão no quadril, pedindo que ele reflita sobre seu costume de caçar. Um dos críticos, o porta-voz da organização não governamental Igualdade Animal, Javier Moreno, disse que a dor sofrida pelo rei deveria levá-lo a refletir sobre a dor que ele causou aos animais “durante tantos anos”. Já a organização Actuable pediu que o rei “deixe de ser o presidente de honra” do capítulo espanhol do não governamental Fundo Mundial para a Natureza (WWF)”, cargo que ocupa desde 1968, por não ser compatível com sua prática da caça. O WWF se limitou a indicar que informarão ao rei sobre o grande número de pedidos recebidos de seus sócios solicitando que dê um passo atrás. Não foi somente a caçada na África que nos últimos dias afetou a imagem do rei. Um desses problemas surgiu quando seu neto Froilán Marichalar, de 13 anos, se feriu no pé enquanto, junto com seus pais, manipulava uma escopeta em uma fazenda da família. Na Espanha é proibido o uso de armas por menores de 14 anos. Contudo, o que mais atinge a Casa Real é a investigação que pesa sobre o genro do rei, Iñaki Urdangarin, marido da infanta Cristina, acusado de negócios nebulosos e de suposto desvio de fundos públicos. Manuel González Peeters, advogado defensor de Diego Torre, que foi sócio de Urdangarin no Instituto Nós, entregou documentação à rede de rádio SER, que, caso as acusações sejam confirmadas, também comprometeria Juan Carlos I. O secretário-geral do PSOE em Madri, Tomás Gómez, pediu ao rei que escolha entre suas responsabilidades e enfrente os vários casos que se apresentam a ele ou que abdique, esta uma ação que, segundo se diz em voz baixa, poderia abrir caminho para a república, embora se coincida que esta é uma possibilidade muito remota. Envolverde/IPS  


por Tito Drago, da IPS
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Menos dinheiro para a pólvora

Nova York, Estados Unidos, 18/4/2012 – A crise econômica global, surgida em 2008, também afetou o gasto militar mundial nos últimos anos, afirma um estudo do Stockholm International Peace Research Institute (Sipri). Estados Unidos, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Brasil e Índia, alguns dos países com maior gasto militar, reduziram seus orçamentos nesse setor ou os aumentaram muito pouco nos últimos anos. Os governos de Grécia, Espanha, Itália e Irlanda, por sua vez, também fizeram “grandes reduções devido às suas crises de dívida soberana”, e a maioria das nações da Europa central realizaram “severos cortes” no gasto militar segundo a pesquisa do Sipri divulgada ontem. “As consequências da crise econômica global, especialmente as medidas de redução de déficit nos Estados Unidos e na Europa, puseram fim a uma década de aumentos nos gastos com defesa, pelo menos no momento”, apontou o chefe do Projeto sobre Gasto Militar do Sipri, Sam Perlo-Freeman. Segundo o estudo, o orçamento militar dos Estados Unidos, país que mais gasta nesse setor, caiu 1,2% em termos reais, ou US$ 8,7 bilhões, segundo os preços de 2010. Em parte, isto é atribuído ao fato de o Congresso norte-americano ter demorado em acordar um orçamento para 2011, em meio aos enfrentamentos entre o presidente Barack Obama e o opositor Partido Republicano para reduzir o déficit. “Esta tendência provavelmente continuará, enquanto as medidas de redução de déficit aprovadas pelos congressistas no ano passado restringirão o crescimento do orçamento militar”, prevê o estudo. Além disso, espera-se que a retirada das forças militares norte-americanas do Iraque e a redução de sua presença no Afeganistão derivem também em uma queda ainda maior do gasto bélico de Washington. Por outro lado, os três maiores investidores em defesa da Europa ocidental – França, Alemanha e Grã-Bretanha – começaram a diminuir seus gastos como parte de uma série de medidas de austeridade. No mesmo período, o gasto militar da França caiu 4% desde 2008, enquanto o da Alemanha diminuiu 1,4% e o britânico 0,6%. Estes dois últimos preveem também realizar novos cortes nos próximos anos, de acordo com o Sipri. As notáveis exceções fora da Europa foram China e Rússia, que aumentaram acentuadamente seu orçamento militar. Moscou elevou seu gasto em 9,3% no ano passado, chegando a US$ 71,9 bilhões, convertendo-se no terceiro maior investidor em defesa, superando Grã-Bretanha e França. De todo modo, o gasto mundial em armas no ano passado chegou a US$ 1,74 trilhão, quase a mesma quantia de 2010 em termos reais. O marginal aumento de 0,3% no ano passado freou uma longa tendência de alta nos orçamentos militares iniciada em 1998. O aumento médio anual entre 2001 e 2009 foi de 4,5%, segundo o Sipri. Perlo-Freeman disse que é muito cedo para afirmar se a redução do gasto representa uma mudança da tendência no longo prazo em nível mundial. “Embora, provavelmente, vejamos maiores quedas nos Estados Unidos e na Europa nas próximas semanas, as tendências na Ásia, África e no Oriente Médio continuarão em alta no momento, e qualquer grande guerra pode mudar o cenário drasticamente”, alertou. Por sua vez, Natalie J. Goldring, pesquisadora do Centro para Estudos de Segurança na Escola Edmund A. Walsh de Relações Internacionais, da Universidade de Georgetown, afirmou à IPS que o estudo do Sipri somente indica uma relativa estabilidade nos gastos militares entre 2010 e 2011. “Os dados que acompanham o relatório, porém, mostram outra história”, ressaltou. Segundo Goldring, o estudo do Sipri não se aprofunda em seus próprios dados, que revelam enorme aumento no gasto militar mundial desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. A informação recompilada pelo Sipri mostra que, entre 2002 e 2011, o gasto militar mundial cresceu de US$ 1,15 trilhão para US$ 1,63 trilhão, mesmo considerando a inflação do período. “É um gigantesco aumento de mais de 40% em nível global”, enfatizou Goldring. Os dados do Sipri indicam que o aumento no gasto mundial em defesa, entre 2002 e 2011, girou em torno dos US$ 500 bilhões. “Isto é alarmante. Porém, mais perturbador ainda é que o aumento dos Estados Unidos representou mais da metade do crescimento mundial”, alertou Goldring. O orçamento militar de Washington cresceu mais de 50% nesse período, observou. No ano passado, os Estados Unidos responderam por mais de 40% do gasto militar global, seguidos por Rússia e China. O informe enfatiza o aumento do gasto militar russo. Mesmo assim, o orçamento de Moscou é apenas um décimo do de Washington, segundo Goldring. E a atenção dada ultimamente ao desenvolvimento militar da China não leva em conta que o gasto em defesa desse país equivale a apenas 20% do praticado pelos norte-americanos. Os especialistas do Sipri concordam que a redução no gasto mundial se deve principalmente à crise financeira global, o que sugere que os orçamentos poderão se recuperar uma vez superadas as dificuldades econômicas. “Em lugar de aumentar seus gastos quando a economia melhorar, os países deveriam aproveitar para considerar mais seriamente suas prioridades”, destacou Goldring. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
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Como devolver a infância às crianças-soldado

Yuba, Sudão do Sul, 18/4/2012 – Se o processo de reintegrá-los às suas vidas normais for feito em tempo e forma, as crianças-soldado do Sudão do Sul terão deixado de pertencer às milícias deste país em dois anos. O Exército de Libertação Popular do Sudão (SPLA) havia se comprometido a liberar em março todas as crianças que combatiam em suas fileiras. Essa força, que é a ala militar do partido político sul-sudanês Movimento de Libertação Popular do Sudão, é uma das poucas no mundo que constam da lista da Organização das Nações Unidas (ONU) como parte de um conflito que recruta e usa crianças. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estima que no Sudão do Sul há duas mil crianças-soldado. Embora nenhuma esteja dentro do SPLA oficial, estão nas milícias que o governo anistiou, e integradas às Forças Armadas nacionais. O país pode ficar fora da lista em dois anos, se o SPLA seguir o plano de ação que traçou e assinou, que inclui retirar todas as crianças das milícias e trabalhar para lhes dar oportunidades educativas. Entretanto, o processo de reintegração pode demorar muito mais no caso dos meninos, na medida em que entrarem em escolas ou aprenderem habilidades para poderem ganhar a vida fora dos barracões militares. O processo começará com a identificação e a garantia de liberação formal de todas as crianças-soldado, informou Fatuma H. Ibrahim, chefe da unidade de proteção à infância do Unicef no Sudão do Sul. Quando forem liberados, receberão roupas civis, porque “o que é militar fica com os militares”, afirmou. Os garotos, com idades entre 12 e 18 anos, serão submetidos a sessões de terapia de grupo com trabalhadores sociais para tentar entender como chegaram a se integrar às milícias e para falar de qualquer tipo de violência que possam ter enfrentado. Segundo Ibrahim, será cerca de 1% que “realmente necessitará de acompanhamento clínico”, embora suas opções sejam limitadas em um país com poucos recursos psiquiátricos. “É um problema muito grande. A maioria recebe pílulas, e isso é tudo”, ressaltou. Os familiares também se reunirão com trabalhadores sociais para falar sobre a reintegração e garantir que as crianças serão bem-vindas em seu regresso, desestimulando-as a voltarem às milícias. “Os país têm que estar prontos para recebê-los”, destacou Ibrahim. Em algumas comunidades do país, isso inclui uma simbólica cerimônia de transição. Em um país que viveu em guerra durante mais de duas décadas, frequentemente a força militar é uma das poucas oportunidades econômicas viáveis para os homens jovens. Muitas das crianças que o Unicef e seus aliados tiram das fileiras militares seguiram esse padrão, buscando um lugar em uma milícia para dar segurança financeira às suas famílias. Um dos grandes desafios dessa agência da ONU é dar oportunidades que estimulem as crianças que abandonam essas forças. Após a realização das novas rodadas de liberação, será dada aos jovens a oportunidade de escolher entre ir à escola ou aprender um ofício. O limitado mercado de trabalho do país propicia que os jovens de mais idade se sintam incentivados a aprender habilidades como carpintaria, que tem cada vez maior demanda em localidades de rápido crescimento. No futuro lhes serão ensinadas duas habilidades, caso a primeira não seja rentável. O Unicef e outras organizações também trabalham para dar incentivos a fim de impedir que as crianças-soldado voltem a se alistar. Ibrahim mencionou um projeto de criação de gado em que os rapazes recebem uma cabra para criar. Se o programa funcionar, os incentivos serão “significativos”, afirmou. O novo plano de ação para o Sudão do Sul foi assinado oficialmente em 16 de março pelo Ministério da Defesa, pela força de paz da ONU no país e pela representante especial do secretário-geral para a Questão das Crianças e dos Conflitos Armados, Radhika Coomaraswamy. Desde que ficou independente no ano passado, o Sudão do Sul experimentou episódios esporádicos de violência em todo seu território. No norte, se mantêm as hostilidades com o Sudão. E em outras partes, especialmente no Estado de Jonglei, há conflitos intertribais pelos direitos à terra e ao gado. Coomaraswamy informou que a maior parte das crianças-soldado do país estão no norte, onde a violência foi mais consistente. O Sudão do Sul está na lista da ONU muito antes de sua independência, em julho de 2011. Em 2006, um Acordo Exaustivo de Paz foi assinado entre o norte e o sul do Sudão, pondo fim a décadas de enfrentamentos e cimentando o caminho para a independência sul-sudanesa. Nesse momento, o SPLA se comprometeu com um plano de ação para liberar suas crianças-soldado, embora não o tenha cumprido totalmente. Em 2009, as organizações de vigilância não haviam encontrado crianças-soldado em fileiras centrais do SPLA, embora ainda existissem nas milícias. Segundo Coomaraswamy, o renovado compromisso do país procede do “poder da lista” e da pressão dos sócios internacionais. E, embora a ONU nunca tenha punido o Sudão do Sul pela inclusão nesta lista, a representante declarou que sempre havia a possibilidade de que isto ocorresse. A República Democrática do Congo, por exemplo, sofreu sanções por figurar na lista. Seu escritório negocia atualmente com a República Democrática do Congo, com a Birmânia e com a Somália, os únicos governos militares que ainda não assinaram um plano de ação. (Envolverde/IPS) * Andrew Green informa do Sudão do Sul no contexto de uma bolsa do International Reporting Project, um programa de jornalismo independente com sede em Washington, Estados Unidos.  


por Andrew Green*
Joaquín Roy Coluna

França na encruzilhada

[caption id="attachment_49338" align="alignleft" width="292" caption="Joaquín Roy"][/caption] Miami, abril/2012 – Os recentes assassinatos (três estudantes judeus, seu professor e três paraquedistas) não só têm um impacto nas eleições na França, no dia 22, como removerão o tecido social neste país, sempre em delicada situação. Porém, outros fatores podem fazer uma nova vítima no contexto europeu mais amplo. Estas eleições presidenciais extrapolam o cenário gaulês. Muito dependerá de como se comportar a dupla de candidatos principais (Nicolas Sarkozy e François Hollande), sobretudo quando Marine Le Pen e outros desaparecerem, no inevitável segundo turno do dia 6 de maio. O reaparecimento do fantasma do racismo pode piorar com a divisão da França diante da empresa europeia e com uma repetição do “não” diante do projeto constitucional. Os incidentes racistas que ressuscitaram em diversos países da União Europeia (UE) são uma ameaça contra a essência da reabilitação do continente após a debacle da Segunda Guerra Mundial. Parece que não houve cautela. O holocausto começou culpando convenientemente umas minorias pelas sérias crises da década de 20 no século passado. Além dos casos concretos de discriminação e violência exercidas contra imigrantes, não por casualidade de raízes africanas e ciganas, também o racismo se reflete nos estádios de futebol, sem que os clubes nem as federações demonstrem saber como atacar o câncer. O fenômeno é complexo. Mas as leis são cristalinas e é imperativo cumpri-las e punir as violações de maneira contundente. A debilidade das instituições europeias para enfrentar os casos explícitos do governo francês foi um aviso do que pode vir. O fato de não ter respondido com firmeza às deportações coletivas de Sarkozy, decretadas há meses contra cidadãos romenos, foi um sinal de que o crime não compensa. Curiosamente, as vítimas de ataques em outros países são precisamente os imigrantes que deveriam constituir a força de trabalho necessária para equilibrar a envelhecida demografia europeia com salvaguarda fiscal do Estado de bem-estar. A pergunta principal para o contexto amplo da democracia europeia (que cremos incólume) é a avaliação do possível impacto deste crime racista nas eleições francesas. A resposta preliminar é que o mais prudente será esperar seu desenvolvimento, a contagem final e a pesquisa científica da atitude dos eleitores. No momento, podemos apenas especular sobre duas dimensões. Uma é o manejo que Sarkozy faz das circunstâncias. É evidente que saiu fortalecido ao enfrentar de frente o desafio. Outra é a atitude, prudente e corretíssima, que seu adversário Hollande apresentou até agora. A nenhum convém usar o grave crime com arma no que resta antes das eleições. Agora, se o desenrolar da campanha revelar para Sarkozy um efeito negativo do manejo posterior dos atentados, então se poderá meditar sobre o uso que os socialistas poderão fazer, lembrando ao presidente que certos comentários e certas ações do passado foram graves para as minorias e os imigrantes. Seria interessante, então, estudar a fundo se fatos aterradores como estes servem de catapulta para a volta dos social-democratas não somente na França, mas no restante da UE. No momento, o setor perdedor é a família Le Pen e organizações afins, já que seu perfil nacional fundamentalista afasta os eleitores moderados. A facilidade com que se recorre ao bode expiatório da suposta insegurança provocada pela imigração, sobretudo a procedente da África, já representa um desafio para a governança europeia em plena crise econômica, que tem um impacto considerável na trama institucional da UE, que se percebe como ineficaz. As decisões agora são tomadas diretamente pela colaboração franco-alemã ou, pior, seguindo o roteiro dos chamados eufemisticamente “mercados”, que são precisamente os mesmos interesses que fracassaram em prever a crise, e que agora não conseguem proporcionar melhores remédios além de reclamar mais empréstimos e insistir nas medidas de austeridade, desprezando o crescimento. Hollande já explorou o divórcio entre a direção europeia e a sociedade quanto à ratificação (parlamentar, não esqueçamos) do minitratado para solucionar os problemas derivados do sistema presidido pelo euro. Sua promessa de reclamar uma revisão dessa decisão o deixa, paradoxalmente, lado a lado com a atitude britânica de David Cameron diante do acordo de 25 dos 27 membros da UE. Se for eleito, segundo as estimativas em um segundo turno, o candidato socialista abriria uma brecha na UE difícil de fechar. Animaria outros partidos destituídos a acrescentarem sua oposição ao tratado. E também se colocaria em evidência diante de seus colegas social-democratas que defendem uma dose maior de Europa. No momento, as perspectivas da mudança já começam a preocupar Berlim. Angela Merkel conseguiu impor suas teses financeiras pelos argumentos de seu poder geopolítico e econômico. No entanto, esteve abrigada na aliança com seu colega no Eliseu. O desaparecimento de “Merkozy” faria variar o cenário europeu consideravelmente. A resposta, nos dias 22 e 6 de maio. Envolverde/IPS * Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).


por Joaquín Roy*
Manifestações populares, em julho de 2011 contra o governo pela deterioração da economia e a má governança. Foto: Katie Lin/IPS Inter Press Service - Reportagens

Ativistas ganham terreno no mundo virtual

[caption id="attachment_49335" align="alignleft" width="300" caption="Manifestações populares, em julho de 2011 contra o governo pela deterioração da economia e a má governança. Foto: Katie Lin/IPS"][/caption] Blantyre, Malawi, 18/4/2012 – A comunidade da internet em Malawi, em expansão desde os protestos contra o governo, no ano passado, agora comemora a repentina chegada à Presidência de Joyce Banda, primeira mulher a ocupar esse cargo na África austral. Dois dias antes da confirmação oficial da morte do presidente Bingu wa Mutharika, no dia 5, o boato já circulava na rede social Facebook. A consequente designação da vice-presidente Banda como nova chefe de Estado contribuiu para amplificar a atividade nas redes sociais da internet, como Facebook e Twitter, com mensagens de apoio e otimismo. Agora que a mandatária começou a purgar o governo de funcionários corruptos e a atrair doadores internacionais em uma tentativa de aliviar as dificuldades econômicas que o país sofre, a atividade nas redes sociais continua aumentando. A comunidade da internet começou a se mobilizar com os protestos contra o governo que começaram em 20 de julho de 2011, em todo o país, devido à deterioração da economia e à má gestão política. Os distúrbios duraram dois dias e deixaram 20 pessoas mortas. A permanente falta de combustível e a escassez de divisas pioraram o descontentamento da população. Quando a Autoridade de Regulação das Comunicações de Malawi (Macra) fechou temporariamente canais privados e bloqueou populares sites de notícias, as pessoas se voltaram às redes sociais em busca de informação. “Há uma tendência das autoridades para controlar o fluxo da informação”, afirmou Arnold Munthali, editor da empresa de comunicação Blantyre Newspapers Limited (BNL). “Porém, os meios sociais criaram uma população socialmente livre e politicamente mais consciente, que foge ao controle do governo”, acrescentou. Segundo o portal de estatísticas da mídia, Socialbakers, há 132.580 usuários de Facebook no Malawi. Embora representem menos de 1% dos 15 milhões de habitantes, a quantidade mais do que dobrou entre março de 2011 e o mesmo mês deste ano. Tal crescimento em um período de agitação social mostra que as redes sociais têm lugar de destaque em Malawi, apesar da baixa penetração da internet. Em 2010, a União Internacional de Telecomunicações estimou que 4,5% da população de Malawi usava internet. O acesso está limitado principalmente pela má infraestrutura das comunicações. Em plena crise social e política, a população compartilhou no Facebook fotografias de manifestantes feridos e propriedades danificadas. Pelo Twitter, se alertava sobre as áreas mais problemáticas e denunciava a localização de policiais. Também foram publicados no YouTube vídeos gravados com telefone celular mostrando o caos que reinava nas ruas. Rogers Siula, planejador de mídia de 28 anos que participou dos protestos de julho passado nesta cidade do Malawi, optou por se expressar por meio de um blog: “Vivemos em um contexto no qual, os jovens, que têm um incrível potencial de florescer e converter o Malawi em um país dinâmico, fresco e forte, são oprimidos pela esquerda, pela direita e pelo centro. Na atual conjuntura política de tensão, plataformas como Facebook, Twitter e blogs são seguras”, afirmou. Pode ter mudado o ano-calendário, mas a tensão permanece gerando novas controvérsias. A detenção arbitrária do conhecido advogado defensor dos direitos humanos, Ralph Kasambara, em fevereiro atraiu a atenção internacional graças ao surgimento de grupos de apoio no Facebook. Oito dias depois de sua detenção, foi solto sob fiança. Kasambara reconheceu o papel desempenhado pelas redes sociais. Em pequena escala, as redes sociais também ajudam os cidadãos a enfrentar batalhas cotidianas, como a busca do escasso combustível. Frederick Bvalani é um dos fundadores do Malawi Fuel Watch (MFW), um grupo no Facabook com cerca de 7.400 membros que compartilham informação sobre onde encontrar combustível e seu preço. “O relativo baixo custo das comunicações via internet e a disponibilidade de pessoas em um fórum como o Facebook é ideal para promover a mudança e conectar as pessoas que querem ver um Malawi diferente e melhor”, destacou Bvalani. Para Billy Ngoma, de 27 anos, os benefícios do MFW são óbvios. “Podemos passar entre seis e oito horas fazendo uma longa fila para conseguir 25 litros de combustível. O grupo ajuda os usuários das redes sociais a saberem qual posto tem para vender”, ressaltou. Da organização dos protestos de julho passado até os boatos sobre a morte de Mutharika, parece que as redes sociais ganham maior relevância. No entanto, o crescente uso dessas plataformas para compartilhar informação de forma rápida deixa a descoberto seus usos incorretos, pois também servem para propagar boatos e conteúdo errôneo. Por meio dos meios tradicionais de comunicação, Munthali explicou que a BNL simplesmente não estava preparada para responder à comunidade da internet quando surgiu a necessidade durante os distúrbios de julho do ano passado. Mas esses problemas não bastam para que a mídia se afaste das redes, assim como a perseguição da censura. “Como os meios tradicionais se veem acossados por leis antipáticas promulgadas pelo governo, tentamos melhorar nossa presença na internet interagindo mais com nosso público”, acrescentou. Desde 2009, a Macra lança centros de tecnologia de informação e comunicação em todo o país. Essa iniciativa, juntamente com a instalação de cabos de fibra ótica nas cidades pela Malawi Telecommunications Limited e o aumento do uso de celulares, sem dúvida tem impacto no uso da internet e, portanto, na circulação de conteúdo tanto em áreas urbanas quanto nas rurais. Seja qual for o curso dos acontecimentos durante a presidência de Banda, é muito cedo para saber as consequências dessas mudanças, e, sem dúvida, a sociedade estará falando delas pelas redes sociais. Envolverde/IPS  


por Katie Lin, da IPS

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